Marco Zero 64

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Comissão da Verdade

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ANO X- NÚMERO 64 – CURITIBA, OUT/NOV DE 2019

LEIA NESTA EDIÇÃO Mundo conectado e imersivo: um museu de lembranças no Instagram - Página 3 Transtorno de ansiedade atinge uma em cada dez pessoas no país - Página 4 Cadeirantes e deficientes físicos sofrem com falta de acessibilidade em Itiúba - Página 10

A ditadura marchou no Paraná

Conteúdo exclusivo

Engana-se quem acha que a ditadura ficou restrita ao eixo Rio-São Paulo. O Paraná também foi palco de ações militares e de operações que vitimaram e torturaram dezenas, e que e prenderam mais de quatro mil pessoas durante o período de violência nos anos de chumbo. Jornal Laboratório - Curso de jornalismo do Centro Uninter


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Opinião

MARCO

ZERO

N.º 64 – Out/Nov de 2019

Cláudia Freire

Ao Leitor

Cláudia

FREIRE

A figura do papa Francisco abranda a imagem negativa da igreja nos últimos anos

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catolicismo é forte e influente em nosso país desde a cena retratada no quadro Primeira Missa do Brasil, obra de Victor Meirelles, até os dias atuais. A Igreja Católica sempre se fez presente na nossa história como país, participando de momentos e decisões importantes, influenciando na cultura e na política brasileira. No país, 172,2 milhões de pessoas se consideram católicas. É o que apontam os dados do Anuário Pontifício 2017 e Anuário Estatístico Eclesial 2015. Atualmente a instituição não tem a mesma soberania que tinha, por exemplo, na Idade Média. Muitas coisas mudaram no meio católico. Em destaque, a figura de uma instituição intocável ou com imagem incólume, já que nos últimos tempos escândalos de abusos sexuais contra crianças e freiras, praticados por membros da igre-

ja, passaram a ecoar dentro dos templos cristãos. A figura do Papa Francisco se tornou extremamente importante, ao dar à igreja uma voz lúcida, que nem sempre ela teve. O

Use o QR-Code ao lado para ser encaminhado à área do aplicativo no Google Play

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Passo 2 da Realidade Aumentada, uma tecnologia que permite a interação entre elementos reais e virtuais. Para entrar nesta viagem, é fácil e rápido. Siga as instruções e participe da experiência da notícia interativa. Nesta primeira versão, o recurso pelo aplicativo do Marco Zero está disponível apenas para aparelhos com sistema operacional Android.

de combater a violência praticada contra menores e pessoas vulneráveis. Isso inclui o abuso sexual. Será a primeira vez que uma lei unifica e detalha políticas da igreja para combater abusos.

O Papa tem feito um trabalho árduo de pôr à luz os erros cometidos pela Igreja Católica

Passo 1

á pensou em assistir a uma entrevista nas páginas de um jornal impresso, em vídeo? Ou quem sabe conferir um mapa em terceira dimensão, ou ainda interagir com elementos gráficos que saem das páginas? O que há poucos anos seria um sonho, agora é possível e está nas suas mãos. Isso mesmo! Venha com o Marco Zero na onda

Papa tem feito um trabalho árduo de trazer à luz os erros cometidos pela Igreja Católica, que por diversas vezes ocultou casos de abuso. Em março de 2019, ele publicou uma lei que tem o intuito

Confira se o seu celular e a versão do seu Android são compatíveis. Depois, clique em instalar.

Passo 3 Com o APP aberto, aponte a câmera do seu celular para a página do MZ quando tiver a imagem ao lado

EXPEDIENTE

Boa leitura!

A outra face da Igreja Católica

Cláudia Freire

A memória é a união de um povo, é a identificação, é um exercício de cidadania e uma forma de mobilizar socialmente as pessoas para que elas revisitem suas dores, conquistas e valores. Lembrar é um ato de resistência. E resistir é preciso. O tema da matéria de capa desta edição do jornal Marco Zero desempenha este papel, o de não deixar esquecer um momento de truculência, de cerceamento dos direitos e da liberdade, de desespero e repressão no Brasil. Trata-se da Ditadura Civil Militar, um período de medo e opressão que durou de 1964 a 1985 no país. Engana-se quem acha que a repressão da ditadura, que prendeu milhares de pessoas e matou outras centenas, não chegou ao Paraná. A marcha de violência ultrapassou os limites de Rio de Janeiro e São Paulo, e desembarcou na terra das araucárias para produzir memórias e números assustadores. Mais de 44 mil pessoas investigadas, cerca de quatro mil pessoas presas sem qualquer motivos e muitas delas sem direito ao habeas corpus, cujo direito foi derrubado temporariamente no país pelo AI-5, milhares de torturados e dezenas de mortos. A matéria abre uma série de reportagens que vai nos ajudar a revisitar o Paraná, ora como cena da ditadura, ora como protagonista de atos de transgressão e de combate à repressão, como no caso do movimento pela redemocratização no país, conhecido como Diretas Já! Também nesta edição do Marco Zero você vai encontrar números alarmantes sobre saúde pública e saneamento básico. Uma reportagem produzida em base de dados destaca a relação entre altas taxas de mortalidade, e a baixa abrangência de saneamento, água e esgoto tratados.

O jornal Marco Zero é uma publicação feita pelos alunos do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Internacional Uninter

Coordenador do Curso: Guilherme Carvalho Professor responsável: Alexsandro Ribeiro Diagramação: Equipe Marco Zero Projeto Gráfico: Equipe Marco Zero Uninter - Campus Tiradentes Rua Saldanha Marinho 131, CEP 80410-150 |Centro- Curitiba PR E-mail - alexsandro.r@uninter.com Telefones 2102-3336 e 98826-9033.


N.º 64 – Out/Nov de 2019

MARCO

Tendência

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Renan Alex

Um museu de lembranças do Instagram Renan

ALEX

Atividade de imersão através o Instagram explorou o lado emocional dos usuários com suas fotos na rede social

Projeto cria um mural com lembranças e uma série de fotos com base no histórico do usuário no Instagram

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odos os dias, conectados ou não, produzidos uma infinidade de informações que alimenta milhares de bases de dados. Uma fruta que compramos e indicamos o CPF na nota. Um café que passamos no débito. Um cadastro que fazemos em uma loja. Quando essa interação é em rede, então, aí o volume de dados produzidos é imenso. Só para se ter uma ideia, em

um minuto, são enviados no mundo 481 mil tweets, 38 milhões de mensagens pela plataforma Whatsapp, 187 milhões de e-mail, 3,7 milhões de pesquisas no Google, 973 mil logins no Facebook, e por aí vai. É tanto bites que não cabe em qualquer dispositivo criado antes do começo deste século. Agora, imagine a sua participação nesta produção. Melhor ainda, imagine você vendo isso em uma Renan Alex

Entrada da mostra cria um ar de desafio e de desconfiança

apresentação multimídia. “A vida passando diante dos meus olhos”. Talvez seria a melhor frase para sintetizar essa experiência que muitas pessoas têm ao participar do Museum of Me, projeto de imersão desenvolvido pela empresa nova-iorquina Cactus com base em fotos do Instagram dos usuários. Dois terços da população do Brasil têm acesso à Internet. São cerca de cento e quarenta milhões de pessoas que, individualmente, em média, dedicam mais de nove horas diárias à rede. Metade desse tempo é destinado ao uso de redes sociais, compostas usualmente de conteúdos criados pelos próprios usuários, destaca a Cactus no site do projeto. Segundo eles, a alma da internet é criada colaborativamente pelos usuários, com o compartilhamento de “ momentos, emoções, pensamentos, opiniões, que são oferecidos para serem amados, odiados, comentados e compartilhados”. O objetivo da empresa com o projeto é levar essa tecnologia para proporcionar diversas sensações aos seus participantes, usando as redes sociais como gatilho, gerando assim uma imersão através de fotos, sons, cores e textos. Uma das instalações foi em Curitiba, e a reportagem do jornal Marco Zero foi lá para vivenciar esse resgate dos momentos digitais, e para contar aqui como foi a experiência. A primeira impressão que se tem ao entrar no Museum of Me é de que não se trata de um ambiente tão convidativo. É uma entrada escura e fechada. Não tem como saber muito como é lá dentro sem entrar. E aí o próximo passo da experiência não colabora para que a confiança aumente. Ou seja, você

precisa confiar ao projeto o seu usuário público do Instagram. Por outro lado, é um alerta de que temos que ter responsabilidade nos dados. Quando estamos no mundo virtual, tudo parece simples e irreal, quando na verdade, temos que ter responsabilidades com o que passamos para frente. Enfim, digitado o usuário, permite-se a entrada na cabine. E é aí que a magia começa. Entramos em um ambiente repleto de espelhos para todos os lados, do chão ao teto, e vários telões à frente, onde começam aparecer várias imagens, entre elas alguns memes de personalidades conhecidas, algo como introdução. Depois disso, os telões começam a mostrar uma pesquisa pelo seu nome de usuário. Quando conecta com sua conta, uma explosão de fotos inunda as telas com uma série de imagens suas. De forma mágica, os espelhos, em conjunto com as telas, criam a sensação de estarmos em um ambiente de imersão, de que estamos em um túnel infinito de fotos e imagens em um museu em que somos, de fato, o principal personagem de todas as pinturas da realidade. Além das fotos, as legendas e hashtags mais usadas também aparecem nas

Site do projeto Veja quais são as propostas dos organizadores do projeto e assista um vídeo sobre como funciona o Museum Of Me

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telas, criando um tom de nostalgia. Animadora e assustadora ao mesmo tempo, a experiência revela a quantidade de momentos que registramos, a vida marcada pelo clique que reúne bons momentos e que cria uma memória digital que devemos revisitar a todo momento. Por outro lado, nos coloca em questionamento sobre a exposição, sobre a quantidade de informação que depositamos na internet sobre nós, nossas rotinas, sobre as nossas conexões. Enfim, a vida conectada. Para Marine Lima, 35 anos, a experiência foi deslumbrante, sobretudo no jogo entre as telas e espelhos. “Visualizar todas as suas fotos do Instagram, as hashtags que você mais usa, foi um momento incrível, que completa a alma, algo muito lindo. A profundidade também, você se olhando em todos os ângulos com os espelhos, foi muito legal”.


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Saúde

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N.º 64 – Out/Nov de 2019 Sabrina Fernandes

Ansiedade atinge 10% da população Ivone

SOUZA

Preocupações, impaciência, tensão muscular, insônia, cansaço, falta de concentração, são sintomas típicos do transtorno Conteúdo exclusivo

“Eu tinha a sensação de não conseguir controlar meus pensamentos”, afirma Mônica

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Brasil tem uma das maiores taxas de diagnósticos de ansiedade do mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), apontam que 19 milhões de brasileiros sofrem de transtorno de ansiedade. As mulheres são as principais vítimas, e respondem por cerca de 80% dos diagnósticos. O efeito da doença engloba fobias, transtorno do pânico, obsessivo-compulsivo, de estresse pós-traumáticos e ainda fatores ambientais, como o estilo de vida corrido das grandes cidades. A ansiedade é uma emoção forte que se experimenta com situações intensas ou ameaçadoras. Essa reação tem um valor adaptativo, enquanto existe um perigo que realmente constitui uma ameaça real. Perfeccionista e com uma forte cobrança para conseguir excelentes resultados, Mônica dos Santos Seolim teve suas primeiras crises quando estava no ensino médio. Segundo ela, as piores situações eram em época de provas, quando tinha ataques de pânico e chorava muito.

TED Talks: ansiedade Use o Qr-code para assistir à palestra da psiquiatra Ana Beatriz sobre medo e ansiedade.

No segundo ano do ensino médio, a administração da escola percebeu as crises e encaminhou Mônica para a terapia. No entanto, à época, não deram o diagnóstico de ansiedade. “Só me mandaram por causa das crises de pânico. Tive crise de choro no meio da prova”, lembra. É difícil diferenciar ansiedade de medo, já que as reações fisiológicas são praticamente as mesmas e, em muitas ocasiões, as duas sensações se sobrepõem. Diferente do medo, na ansiedade a manifestação é mais intensa e as causas do ataque nem sempre são conhecidas antecipadamente. Anos depois dos primeiros episódios de crise no ensino médio, Maria ainda estava sem saber exatamente o que a acometia. O diagnóstico veio apenas depois da morte da mãe e do agravamento do seu quadro psicológico. “O baque foi muito forte, pois éramos muito ligadas, mas eu fiquei anestesiada”, diz. Depois disso, começou a ter crises novamente e ainda maiores. “Eu tinha a sensação de não conseguir controlar meus pensamentos, pensava em doenças, em morte, ficava imaginando a morte das pessoas próximas a mim”, comenta. Nos momentos de crise, Maria começou a perceber um desânimo enorme, que se contrastava com a hiperatividade que sentia mentalmente, e sentia um forte abatimento. “Na minha visão de leiga, não sabia que podia ter ansiedade e depressão ao mesmo tempo, porque na minha visão pareciam coisas excludentes”, revela. Ela lembra que na época trabalhava em uma agência, na qual tinha grande demanda de trabalho, no entanto, ficava o dia todo na frente do computador sem fazer nada porque não sentia capaz. Foi então que decidiu procurar ajuda e o psiquiatra a diagnosticou com depressão e ansiedade. Com

o diagnóstico correto, ela começou o tratamento para os dois quadros patológicos com medicamentos distintos com acompanhamen-

to de um ano. Hoje, Maria segue o acompanhamento psiquiátrico com medicamento naturais.

rência de pensamentos compulsivos e negativos, pode-se desenvolver a depressão”, diz Priscila. Para a psicóloga, a dinâmica dos dias atuais e as exigências do mundo moderno contribuem para o desenvolvimento de tais doenças. Tais situações como crises financeiras e problemas de relacionamentos são as que mais aparecem nos consultórios. Os efeitos da ansiedade generalizada são difíceis de controlar e interferem na atividade geral do indivíduo. Priscila explica que todos temos ansiedade, mas em sua maioria em menor grau. Porém ela começa a ficar patológica quando se torna frequente e começa a atrapalhar a vida do indivíduo. A resposta da patologia pode variar muito de uma pessoa para outra e pode se manifestar de formas diferentes.

Causas da ansiedade variam de questões genéticas a comportamentais

Medicamento e técnicas de controle ajudam quem sofre de ansiedade

De acordo com a psicóloga Priscila Biral, várias questões podem levar à ansiedade, como tendência genética, eventos traumáticos e problemas hormonais. A ansiedade pode desencadear a depressão, um grande vilão do mundo moderno e uma das principais causas do suicídio. “Em alguns casos de ansiedade, com a ocor-

O tratamento psicológico é recomendado para a redução e gerenciamento da preocupação e a recuperação da funcionalidade da pessoa. Tratamentos psicofarmacêuticos, especialmente antidepressivos reguladores da serotonina, podem ser utilizados dependendo da gravidade dos sintomas ou da presença de outros

Na minha visão de leiga, não sabia que podia ter ansiedade e depressão ao mesmo tempo, porque na minha visão pareciam coisas excludentes

Tipos de transtornos e distúrbios associados à ansiedade

Transtorno de Estresse Pós-traumático – definido como distúrbio de ansiedade qualificado por um conjunto de indícios e sintomas emocionais, físicos e psíquicos. Geralmente, esse problema acontece quando a pessoa é ou foi vítima ou testemunha de práticas violentas ou de situações traumáticas que simbolizaram ameaça à sua própria vida

distúrbios associados à depressão em combinação com o tratamento cognitivo-comportamental. A psicóloga Priscila Biral comenta que a Terapia Cognitivo Comportamental tem sido a abordagem mais assertiva para o tratamento da ansiedade, através dela trabalha-se a mudança de pensamento que altera a forma de comportamento e sentimento, ajudando o paciente a saber lidar com os conflitos. “Na terapia temos a psicoeducação, onde o paciente aprende e entra em contato com as técnicas de respiração diafragmática, meditação entre outros. A atividade física, os medicamento e tratamentos naturais também auxiliam o paciente na melhora dos sintomas”, aponta. A resposta da ansiedade pode variar muito de pessoa para pessoa. O que as pessoas que têm transtorno de ansiedade têm em comum é que elas apresentam uma série de pensamentos, emoções, sintomas e comportamentos físicos que interferem significativamente na vida do sofredor.

ou à vida de outras pessoas. Fobia Social – Conhecido também como transtorno da ansiedade social. É qualificada por um intenso desconforto e pavor com circunstâncias normais e sociais como ambientes novos, encontros sociais, falar em público e contato com pessoas estranhas. O portador fica intimidado

com qualquer tipo de contato social novo. Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) – acontece quando a ansiedade permanece por tempo indeterminado e acaba prejudicando as atividades diárias do indivíduo. Excesso de preocupação ou expectativa apreensiva é o principal sintoma desse distúrbio.


Cidades

N.º 64 – Out/Nov de 2019

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Cultura

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5 Clarence Davis - Daily News / Divulgação gratuita - por Gettyimages

JUSTIÇA SELETIVA: com quais olhos nos condenam? Amanda

ZANLUCA

Crítica da minissérie que conta a história de jovens vítimas do racismo e do preconceito

A pressão psicológica, as agressões e a fome fizeram com que os jovens fossem acusando uns aos outros, sem nem mesmo se conhecerem

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rapina e uma sociedade encapuzada de preconceito resolveram seguir a dança conforme a música do sistema judiciário. É sob um circo midiático e pressão da classe dominante que os jovens, indefesos e sem direito a uma verdadeira justiça, são condenados. Com penas que duraram de sete a

A minissérie retrata uma história cruel e real. Talvez seja por isso que incomode e seja um grande choque para quem assiste. treze anos, quatro dos jovens cumpriram a sentença em um reformatório. Korey Wise, que à época tinha 16 anos, recebeu pena de adulto, e foi preso em um presídio. Mais de uma década depois, o verdadeiro culpado confessou o crime. Um presidiário que havia cometido uma série de agressões, estupros e assassinatos no final dos anos 1980, mas que em

nenhum momento foi associado pela polícia ao crime que aconteceu com a corredora. O motivo para o culpado confessar foi um encontro casual que teve com Wise na prisão. Além da confissão do verdadeiro criminoso, um exame de DNA ajudou elucidar o caso. No entanto, mesmo com todas as evidências, o estado americano sequer deu um pedido público de desculpas. O rótulo de ex-presidiários jogou por terra toda a juventude dos cinco. A trama poderia ser parte de mais uma daquelas histórias inacreditáveis que escutamos e desconfiamos, ou de um drama que nos faz refletir sobre como a vida é cruel em algum lugar longe daqui. Não. É o reflexo do que presenciamos todos os dias. A história é uma síntese de uma tortura social, um dos casos mais emblemáticos dos Estados Unidos, e foi enredo da série “Olhos que condenam”, sob a tutela da diretora Ava Duvernay. Quatro episódios densos e chocantes retratam uma história cruel, mas real. Talvez seja por isso que a série seja um grande choque para quem assiste. A atuação do elenco, os cortes de cenas e o jogo de câmeras são recursos primorosamente usados por Ava para nos transportar a um dos proble-

mas estruturais estadunidense. Brasileiro também! Nos primeiros minutos, somos apresentados à realidade que aqueles garotos pertenciam. Promessas e futuros. Sonhos de quem se vê fora de um bairro pobre, e que jamais imaginaria ter sua vida tolhida por um crime que não cometeu.

Ela cutuca a ferida ao nos indagar sobre qual seria o nosso posicionamento se tivéssemos acompanhado de perto o caso O retrato da série é de 1980, mas consegue ser tão atual e realista quase quatro décadas depois. Em um dos episódios a diretora da série evidencia isso de forma muito clara, mostrando uma declaração do então apenas empresário de sucesso, Donald Trump. Na época ele fez duras críticas aos jovens, e chegou a gastar U$ 80 milhões em anúncios de jor-

nais pedindo a pena de morte. A atuação é primorosa e todos os atores estão surpreendentes em seus papéis. Destaque para o ator Jharrel Jerome, que interpreta Korey Wise. Sua expressividade desloca qualquer espectador do eixo ao denunciar o grande problema que reverbera na sociedade. Com cenas de violência psicológica e física, discriminações e muita supremacia policial, Ava consegue desmascarar a hipocrisia de uma sociedade que diz não ser racista. É uma série necessária que nos abre os olhos para o funcionamento do sistema judicial, mas que também nos deixa desconcertados ao evidenciar um problema que acontece todos os dias, e que muitas vezes viramos o rosto para não perceber. Qual seria nossa reação naquela situação? O último levantamento do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2016, apontou que a maior parte da população presidiaria é composta por negros e pardos (65%). Quantos estão presos injustamente? E se são inocentes, ao nos depararmos com a história deles qual será o nosso posicionamento? Em que versão acreditaremos? Com quais olhos condenaremos? Michael Norcia / Divulgação gratuita - por Gettyimages

madrugada de 19 de abril de 1989 marcou de forma violenta a vida de cinco adolescentes negros moradores do East Harlem, bairro pobre às margens de um dos principais pontos turísticos da cidade de Nova York, o Central Park. Com idades entre 13 e 16 anos, os jovens Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana, Antron McCray e Korey Wise ficaram conhecidos por anos como “os cinco do Central Park”. Quando, junto com outros negros e latinos da região, foram detidos pela polícia por promoverem “arruaça” no local, não imaginavam que aquela noite deixaria feridas profundas causadas pelo preconceito e por uma justiça influenciável pelo colonialismo e racismo. No mesmo parque em que foram presos, uma mulher branca, de 28 anos, foi espancada e violentada. Não demorou muito para que a mesma polícia ventilasse uma conexão entre os casos, mesmo não havendo outras acusações aos jovens do que a importunação no parque. Os dois casos, da mesma noite e no mesmo parque, ganharam uma nova narrativa baseada em mentiras. Sem provas, os cinco foram submetidos a uma maratona de cerca de 30 horas de interrogatório, separadamente, sem direito a comer, dormir, beber ou serem acompanhados por advogados ou familiares. Roteiro ou vida real? A pressão psicológica, as agressões e a fome fizeram com que os jovens fossem acusando uns aos outros, sem nem mesmo se conhecerem. A confissão pelo crime que não cometeram foi arrancada violentamente. É com um enredo forjado que uma justiça fraca e racista decidiu se basear em depoimentos manipulados para dar o seu veredito. Uma imprensa de

Com idades entre 13 e 16 anos, os Cinco do Central Park foram julgados sem provas concretas


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Especial

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N.º 64 – Out/Nov de 2019 Comissão da Verdade / Divulgação gratuita

SÉRIE: Da repressão à democracia

Marcas da ditadura militar no Paraná Patrícia

LOURENÇO

Estado foi um dos palcos de operações militares nos anos de chumbo no país. Um deles foi o Massacre de Medianeira, em 1974, que vitimou seis pessoas.

“Subversão do meio universitário” marca a ficha do jovem Vitório Sorotiuk, uma das vítimas da ditadura no Brasil.

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izem que a verdadeira história de um país é escrita pelo seu povo. Para pensarmos em nosso futuro, no entanto, é preciso entender nosso passado. Há 35 anos, quando o grito por “Diretas já!” ecoou em todas as principais cidades do Brasil, milhões de brasileiros deixavam claro e em bom som que a democracia deveria prevalecer acima de tudo, e que não existia mais espaço no país para brutalidade em nome de uma batalha fictícia. Lutava-se pelo fim de um pesadelo que durou mais de duas décadas, e que vitimou centenas de pessoas e torturou outras milhares. Afirmando ameaças comunistas, o Marechal Castello Branco assumiu o poder no país em 15 de abril de 1964 após um golpe civil militar perpetrado pelo poderio econômico e

pelas forças armadas brasileiras contra o então presidente João Goulart. Com concentração de poder nas mão dos militares e com a instituição da política de fechamento do congresso e cerceamento das instituições democráticas, cinco generais assumiram com mãos de ferro a liderança do país. O que se prosseguiu foram 21 anos de governo por atos institucionais de repressão aos opositores do regime e limitação da liberdades.

Um rastro de mortes, prisões e torturas As marcas da ditadura foram profundas e são sentidas ainda hoje nas memórias e nos rumos políticos do país. Mais de meio século após a data que marcou o início da repressão, os números da brutalidade ainda

são pouco conhecidos. Mas existe um quadro quantitativo da violência. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, colegiado instituído pelo governo brasileiro em 2011 para investigar as violações de direitos humanos ocorridos entre 1964 e 1985, a ditadura deixou 434 mortos e desaparecidos e torturou 1,8 mil pessoas no Brasil. No entanto, apenas 33 corpos foram localizados. Um deles é do jornalista Vladimir Herzog, que em 1975 foi chamado para prestar depoimentos na sede do Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), órgão de inteligência do movimento de repressão militar. Não saiu de lá vivo. Na foto, que se tornou um marco da luta contra a repressão, Vlado, como era conhecido no meio jornalístico, jazia Comissão da Verdade

com uma tira de pano envolta ao pescoço, a uma altura não maior do que 1,70 metros do chão. Suicídio, era o que apontava a laudo emitido pela polícia técnica à época. Um novo lauda seria emitido pelo governo quatro décadas depois, em 2013. O termo “asfixia mecânica por enforcamento” foi substituído por “lesões e maus tratos”. Herzog foi torturado e assassinado no mesmo dia, em 25 de outubro. De acordo com o professor do departamento de história da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Antonio Cesar de Almeida Santos, o jornalista foi morto por se contrapor à ditadura. “Herzog foi morto por expressar opiniões contrárias ao regime militar, não era um militante filiado a alguma organização armada. Ele foi morto por ter ideias diferentes daqueles que haviam tomado o poder. Isto não pode ser esquecido, pois mostra o que foi a ditadura militar no Brasil. Igual ao Herzog, muitos outros perderam a vida, ou foram presos e torturados, pelos mesmos motivos: por pensar de maneira contrária aos que detinham o poder”, afirma.

Muito além do eixo Rio-São Paulo

O Pau de Arara era uma das torturas usadas pela repressão contra os presos políticos

A repressão não ficou restrita aos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No Paraná aconteceram diversas operações militares, entre elas o conhecido Massacre de Medianeira, em julho de 1974, onde seis militantes contrários ao governo foram

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assassinados. Ao menos 44 mil pessoas foram investigadas pela ditadura no estado, segundo dados do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), um dos principais braços de investigação e repressão do movimento militar. No Paraná, o escritório funcionava no Centro da cidade, na Rua João Negrão, e servia como base de operações para coibir as manifestações contrárias à ditadura.

SÉRIE: Da repressão à democracia Esta é a primeira reportagem de uma série que busca evidenciar a brutalidade da repressão nos anos de ditadura no país, bem como, por outro lado, narrar e debater os atos e movimentos de resistência que lutaram pela liberdade dos brasileiros, resultando na redemocratização a partir do Diretas Já!.


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Comissão da Verdade / Divulgação gratuita

Sorotiuk: preso por “subversão no meio universitário” A violência do movimento militar se acentuou no Paraná e no resto do país após a instituição do Ato Institucional número 5 (AI-5), em 1968. O instrumento deu carta branca para que o presidente e os governo biônicos, que eram os governadores nomeados pelo regime, atuassem como legisladores e executivos. Ou seja, faziam as leis e as operavam ao mesmo tempo. Além disso, o AI-5 foi a principal ferramenta da ditadura para caçar jornais e jornalistas, censurar músicas, calar e brutalmente torturar quem se opunha ao regime ou ainda quem se enquadrava em algum tipo de estereótipo combatido pelos militares, como estudantes de história, filosofia e sociologia.

Uma destas estudantes que foram perseguidas foi Ana Beatriz Fortes, presa com 18 anos de idade em Curitiba. “Estava indo trabalhar quando fui surpreendida. Tinha recentemente entrado no trabalho, os homens do Dops vieram e me levaram. Eles foram em casa e eu não estava. Então, quando eu cheguei no meu trabalho eles já estavam lá. Levaram-me direto, sem explicação. Me seguiam sempre quando ia estudar sociologia com o grupo de estudos, achavam que estávamos tramando algo contra o governo. Estávamos estudando”. Mais de quatro mil pessoas foram presas pelo regime no Paraná. Mesmo com grande visibilidade na capital, o Dops e os demais aparelhos Patrícia Lourenço

Santos: Hezog foi morto por se opor ao regime

Especial

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de repressão realizavam prisões em plena luz do dia. As torturas eram diversas e aconteciam por vários dias, muitas vezes, em trânsito, de um local a outro, como estratégia para desnortear as pessoas. “Fizeram interrogatório, mostraram fotografias e queriam saber até onde eu participava, para identificar as pessoas. Mas não sabia os nomes. Fiquei um dia todo no Dops, depois me levaram para o quartel na Rui Barbosa. Três dias depois fomos para Foz do Iguaçu. Era sempre igual a tortura, levava choque, arma na cabeça com xingamentos, me amarravam, e o pior era o pau de arara com os cabelos no balde de água e choque ao mesmo tempo”, relembra. O período da ditadura representou um período de duas décadas sem eleição direta e sem participação popular. Mesmo em plena democracia, Ana Beatriz afirma que se preocupa com as novas gerações, sobretudo diante de um cenário de revisitação e negação da história ou dos fatos. “É importante resgatarmos essa história pois há muitas pessoas que não tem muita noção. É preciso dar visibilidade. Estamos vivendo um momento de polarização política, com discursos de ódio. É preciso relembrar histórias difíceis como a minha”. Então estudante universitário, Vitório Sorotiuk também foi um dos presos políticos durante a ditadura militar no Paraná. Segundo ele, Curitiba era um dos poucos espaços com estrutura para estudo no período. “A cidade era uma das poucas que tinha qualidade no ensino superior. Curitiba tinha o centro cercado de pensões, repúblicas e restaurantes universitários por todos os lados”, comenta. Sorotiuk era estudante de direito da UFPR, filho de político, cresceu com olhar voltado para a democracia. Relata que a proibição da União Nacional dos Estudantes (UNE), partidos políticos, proibição de manifestações públicas e a censura contrariavam a busca pela liberdade. A resistência buscava justamente retomar estes espaços de participação e contra retrocessos de liberdade. “Acredito que um dos confrontos marcantes que tivemos foi a ocupação da Reitoria da UFPR em 1968. O governo queria introduzir o ensino pago nas universidades federais. Conseguimos mais de 90% dos estudantes nas ruas, saímos vitoriosos, até hoje o ensino nas universidades federais é gratuito, por enquanto”, afirma. O então universitário relembra também de outro episódio que marcou com violência a memória da resistência e organização estudantil no estado, que foi a prisão de 42 estudantes durante o Congresso Regional da UNE, na Chácara do Alemão, no Boqueirão, em 1968. Presidente da união dos estudantes, Sorotiuk foi um dos detidos. “Cumpri 2 anos e 10 de meses de prisão. A maior parte da reclusão foi no Presídio do Ahú, e depois no Presídio Tiradentes, em São Paulo”, relembra.

O julgamento de estudantes em Curitiba Quatro dias depois da ditadura decretar o AI-5, carta branca à violência e repressão, integrantes da União Nacional dos Estudantes (UNE) realizaram no bairro do Boqueirão, em Curitiba, um congresso regional na “Chácara do Alemão”. O esquema de segurança, no entanto, não funcionou, e a polícia militar prendeu 42 pessoas. Destas, 15 foram condenados à prisão, 13 rapazes e 2 moças.

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Os demais foram interrogados e liberados naquele momento. Foram apreendidos junto aos congressistas uma caixa de fogos de artifício, faca de cozinha e textos que os órgãos de segurança e a imprensa chamaram de “subversivos”.

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Na conta do Geisel

Em 1974, o ditador general Ernesto Geisel visitou Curitiba. A vinda do presidente de um dos momentos mais brutais da repressão

no país gerou um grande alvoroço junto às autoridades da capital do Paraná. O medo de que o estado fosse palco de um atentado ao então presidente incomodou a liderança militar local. O resultado foi uma ação de exposição de nomes, inclusive de servidores público.

As memórias das lutas

Livro produzido pela Comissão de Anistia reúne 326 depoimentos que marcam a resistência à ditadura militar no Paraná.


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Especial

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N.º 64 – Out/Nov de 2019

Hemeroteca BNB

SÉRIE: Da repressão à democracia

Curitiba foi sede da ditadura por três dias Nicole

BEK

A cidade paranaense foi capital do país em 1969, durante uma das fases mais repressoras do movimento militar

Visita à Curitiba teve dupla finalidade: levar o governo para dentro do país e reforçar a legitimidade do regime militar

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tários de cada uma das regiões do território nacional”, destaca o ministro Beltrão no documento sobre as visitas. Curitiba era a sétima cidade que foi transformada capital momentaneamente durante o go-

Mais que “mostrar serviço”, a visita do governo às capitais, como em Curitiba, integrava a estratégia para que a ditadura ganhasse força e legitimidade para além de São Paulo e Rio de Janeiro verno de Costa e Silva na ditadura. Despachando na sede do governo paranaense, no Palácio do Hemeroteca BNB

Jornais locais exaltaram a visita do governo à capital paranaense

Iguaçu, Costa e Silva declarara à época à imprensa que tinha vindo para trabalhar, e não para fazer política. A capa do jornal Diário do Paraná exibia a seguinte frase: “Não viemos por diletantismo próprio daqueles que gostam de fazer demagogia, nem para exibições baratas, mas sim para trabalhar”. A função de aproximação do governo com algumas cidades consideradas estratégicas é ressaltado no documento do ministro do planejamento, mostrando a efetividade das visitas. Um balanço feito em parceria entre o Ministério do planejamento e o governo de Minas Gerais, apontava que 90% dos problemas identificados pelo governo na visita a Belo Horizonte já estava com medidas de resolução em prática. Para a socióloga Regina Reinert, mais que “mostrar serviço”, a visita do governo às capitais, como em Curitiba, integrava a estratégia para que a ditadura ganhasse força e legitimidade. “Trabalhava a imagem da ditadura, tentando criar nas capitais em que se estabelecia, a sensação de segurança e cuidado para com o povo”, afirma. Segundo a socióloga, o governo Costa e Silva foi um dos mais violentos da Ditadura Militar. O decreto do ato institucional AI5, em dezembro de 1968, meses antes de desembarcar na capital paranaense, resumia-se em ações arbitrárias. “Entre outras medidas, autorizava o fechamento do Congresso, a suspensão do habeas corpus, das garantias individuais, e a censura prévia nas áreas culturais e de imprensa”. A verdadeira intenção do governo, destaca a socióloga, era

implementar um ato simbólico de presença do governo federal e conseguir o apoio da sociedade curitibana ao governo militar. Uma ação que não necessitou de muitos esforços, já que tanto o governador do Paraná da época, Paulo Pimentel, quanto o prefeito Omar Sabbag simpatizavam com a política militar, afirma Regina. Soma-se a este acesso político o reforço da imprensa, que estam-

pou de forma positiva a vinda do governo à Curitiba, ressaltando os benefícios da passagem do executivo em outras cidades. Jornais como o extinto Diário do Paraná, que pertencia à rede de jornais Diários Associados, de propriedade de Assis Chateaubriand em parcerias com a família Stresser, e do jornal Gazeta do Povo, anunciavam de forma estrondosa o desembarque do governo. Hemeroteca BNB

á cinco décadas, Curitiba foi o centro das atenções do país. Não pelos títulos de cidade modelo em planejamento urbano. Mas ao abrigar o governo ditatorial por três dias. A cidade figurou como capital do Brasil entre os dias 24 e 27 de março de 1969, durante o governo do então presidente Artur da Costa e Silva, o segundo após a instauração do regime militar em 1964. Tratava-se de uma tática do governo para mostrar seu poderio e dar a sensação de que estava em todos os lugares. Conforme destaca o documento sobre o projeto de governo, assinado pelo então ministro do planejamento, Hélio Beltrão, além de da perfomance do poder do movimento ditatorial, a passagem pelas capitais dos estados também servia para que o governo conhecesse a realidade daquela região, para identificar os problemas e adotar resultados. “No exame das soluções mais adequadas dos problemas priori-

Diário do Paraná foi um dos principais apoiadores do governo


N.º 64 – Out/Nov de 2019

MARCO

Mônica Oliveira

Falta acesso à cidade Calçadas irregulares e falta de rampas travam a vida de quem tem dificuldade de locomoção em Itiúba, na Bahia Mônica

OLIVEIRA

Reportagem de Itiúba (BA) A falta de acessibilidade restringe a locomoção também de quem é da terceira idade

A

s belas ruas de paralelepídeos e as altas calçadas da cidade baiana de Itiúba tem se tornado um pesadelo para quem precisa de acessibilidade para se locomover. Ausência de rampas e inúmeros degraus espalhados pelas regiões centrais do município, localizado a 318 km de Salvador, agravam a situação e ferem das mais variadas formas as cartilhas e normas

técnicas que buscam ampliar o acesso das pessoas com deficiência física e pessoas idosas à cidade. Este é o caso de Edilson Oliveira, 45 anos. Paraplégico desde os dois anos de idade, Oliveira encontra diariamente a dificuldade de circular pela cidade por conta da irregularidade das calçadas. “A gente tem que ficar procurando uma rampa e quando encontra, é muito alta. Não dá para

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EaD: um Marco Zero em cada canto

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subir sozinho, aí as vezes as pessoas ajudam”. A falta de acessibilidade restringe a locomoção também de quem é da terceira idade, como Juarez de Souza, de 78 anos, que se sente inseguro de sair de casa sozinho. “Eu tropeço nas pedras e não consigo subir as calçadas. Às vezes tem rampa, mas chega um carro ou uma moto e estaciona bem em frente, atrapalhando o

acesso. A verdade é que a população também não colabora”. Companheira de caminhadas, sua filha, Marcia Souza, critica a falta de sensibilidade das pessoas. “Quem pode andar sem dificuldades tem que lembrar dos outros que não têm esse privilégio, pensar no próximo. A falta de acessibilidade prejudica qualquer pessoa com necessidades especiais, sejam permanentes ou temporárias. É um problema de todos. Pena que não é pensado dessa forma”. O direito ao acesso à cidade passa não apenas pela adequação de espaços públicos, mas também da conscientização da iniciativa privada em planejar seus espaços de convívio. Em grandes centro urbanos, a fiscalização de autarquias como Conselho de Engenharia ou de Arquitetura cobrando a aplicação de normas técnicas de acessibilidade pode ajudar quem precisa de uma cidade planejada, mas quando se trata de pequenas cidades no interior do Brasil, aí falta o rigor da lei e o compromisso. Tetraplégica há dez anos, Franciane Corrêia, 35 anos, relata uma cena de descaso que marca sua memória. Ela foi a uma clínica para uma consulta e não pôde entrar no consultório, pois a porta era muito estreita para

A falta de acessibilidade prejudica qualquer pessoa com necessidades especiais, sejam permanentes ou temporárias. É um problema de todos Márcia Souza

a sua cadeira de rodas. Sem acesso, foi atendida no corredor “Fiquei indignada. Tive que comprar uma cadeira mais estreita, não dá para passar na maioria das portas com uma cadeira comum”. O outro lado – Segundo a Secretaria de Infraestrutura de Itiúba, novos projetos urbanos já são pensados de forma a atender as demandas e normas referentes à acessibilidade, como calçadas estruturadas, corrimão e rampas. Exemplo disso são os novos prédios públicos e as pavimentações recentes em várias ruas da cidade, já com toda estrutura física para atender às demandas dessas pessoas.

Marcelo Carlos

Á

rea de convívio da juventude de Valparaíso de Goiás, a praça Central da Etapa A tem se tornado o principal motivo de preocupação da população do município da região metropolitana do Distrito Federal. Isso porque o espaço público tem sido palco do crescente aumento da criminalidade e violência na cidade, motivado principalmente pelo tráfico de drogas. A praça, que já foi o reduto de jovens, virou um dos pontos preferidos dos traficantes para a comercialização de narcóticos. O aumento do policiamento no local e a retomada da segurança e tranquilidade são algumas das reivindicações dos moradores do bairro Valparaíso I, um dos mais conhecidos da cidade goiana de 200 mil habitantes. A praça, que há poucos anos era tomada pela população que frequentava as

Moro há 30 anos nesta cidade, e neste momento precisamos da ajuda de todos para vencer essa guerra contra as drogas. A nossa Praça Central merece ser revitalizada

Uma praça tomada pelas drogas Moradores convivem com o problema social e pedem o reforço da segurança no local

Marcelo

CARLOS

Reportagem de Valparaíso de Goiás (GO) População pede aumento de policiamento na praça agências bancárias, o comércio, a pista de skate e a escola, é paulatinamente tomada pelo tráfico, em plena luz do dia. Uma professora, que pediu para não ser identificada, reclama que o espaço deveria voltar a ser utilizado como um ponto de diversão e entretenimento para os cidadãos. A escola onde ela leciona fica localizada em frente

ao local. “Muitos jovens deixam de assistir uma aula para ficar ali usando drogas. Este é um problema social que precisa da atenção das autoridades. Nós temos que salvar os nossos jovens e assegurar que eles tenham um futuro próspero longe do uso dessas substâncias”, ressaltou a educadora. Ações da Guarda Municipal, Polícia Civil e da Polícia Militar

são constantes no ponto. Mas tão logo finalizam as operações ou as rondas, os traficantes voltam a circular e a tomar a praça novamente. Para Antônio Braga, 66 anos, seriam necessárias leis mais rígidas para punir o tráfico, e ações permanentes. Segundo o morador da Etapa A, próxima à praça, falta compromisso dos órgãos públicos no combate à

criminalidade. “Moro há mais de 30 anos nesta cidade, e neste momento precisamos da ajuda de todos para vencer essa guerra contra as drogas. A nossa Praça Central merece ser revitalizada pelo governo municipal, para atrair gente de bem com eventos, práticas culturais e esportivas”, critica Braga.


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EaD: um Marco Zero em cada canto

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ZERO

N.º 64 – Out/Nov de 2019 Marcelo Assis

Horto de Ibatiba perde 30% da reserva florestal Área considerada a segunda maior floresta urbana heterogênica do país luta para sobreviver no estado do Espirito Santo

Marcelo

ASSIS

Reportagem de Ibatiba (ES) Municipalização e parcerias com iniciativa privada podem ser as soluções para a área

C

riado há trinta anos para conter a erosão do solo nas encostas dos morros na cidade de Ibatiba, no Espirito Santo, o horto florestal perdeu cerca de um terço da sua área devido a queimadas e moradias irregulares na região. O espaço, montado com doação de mais de 110 mil mudas de árvores nativas e exóticas, e que chegou

a ocupar o equivalente a 29 campos de futebol, hoje está reduzido a 19 hectares. O prejuízo ambiental afeta também as mais de 108 espécies de aves e mamíferos da região. A municipalização do horto é vista como uma das soluções para a situação, conforme destaca o biólogo Leandro Dias. Integrante do grupo responsável pela revitalização

árvores. Para a engenheira florestal Daiane Andrade, o tombamento do Horto Florestal em Parque ajudará na captação de verbas e na promoção do turismo ecológico com uma política a longo prazo. A ação é contiuidade de uma série de atividades que buscam garantir a revitalização e melhorias no horto, como acessibilidade ao parque através de trilhas ecológicas. A medida ajuda a consolidar o projeto de criação de uma estrada que dará acesso a um núcleo cultural, dentro da reserva, onde serão realizados trabalhos de conscientização sobre a importância ambiental do parque. Nesse núcleo, o visitante poderá conhecer a biodiversidade de vida animal existente. Segundo a engenheira, pelo estado que hoje o parque se encontra, muitas pessoas desacreditam que ali possa existir vida. Daí

O espaço, que chegou a ocupar o equivalente a 29 campos de futebol, hoje está reduzido a 19 hectares a importância de aproximá-las, de forma consciente, do parque. O primeiro passo para isso já foi dado, com a criação de um conselho formado por técnicos da área, que em parceria com a prefeitura realizará estudo para sustentar o projeto de revitalização do parque. Depois desta etapa, o projeto é apresentado às empresas que precisam fazer compensação ambiental, conseguindo assim uma parceria para a recuperação.

Horto turístico

da área, Dias afirma que a medida permite parcerias para ampliação do espaço de árvores nativas e frutíferas, como as presentes em formações de mata atlântica, e retomar inclusive a fauna no local. Para Dias, uma maior interação da fauna com a flora promove uma reconstituição natural do horto, pois ao se alimentarem, os animais espalham as sementes das

Use o Qr-code para ler um pouco mais sobre a história do horto e como ele foi planejado para combater as áreas ambientais degradadas na região

O mundo todo se encantou pelo estilo Art Déco nos anos 30, mesma década em que foi fundada a capital do estado de Goiás.

Rogério Lemos

O

tombamento de 22 prédios e monumentos públicos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) coloca Goiânia como a segunda cidade com maior acervo de arquitetura Art Déco do mundo. O estilo nasceu na França e ganhou força em 1925 após a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas. O Art Déco, ou Arts Décoratifs, foi um movimento artístico que influenciou a arquitetura, design, mobiliário, moda e decoração. Representava os ideais de modernidade e progresso, com predominância de linhas verticais, e influências do construtivismo, futurismo e cubismo. O mundo todo se encantou pelo estilo Art Déco nos anos 30, mesma década em que foi fundada a capital do estado de Goiás. Isso explica porque os Art Déco foi o estilo escolhido para compor as construções da nova cidade planejada brasileira. O responsável pela opção foi o primeiro urbanista brasileiro a se for-

Goiânia tem o maior acervo Art Déco nas Américas Rogério

LEMOS

Número de obras arquitetônicas do estilo coloca a cidade brasileira atrás apenas de Miami

Reportagem de Goiânia (GO) Ao menos 22 obras e instalações públicas foram tombadas como pertencentes ao estilo mar em Paris, Atílio Corrêa Lima. O acervo Art Déco, da capital goiana, é pouco conhecido pela maioria dos brasileiros, inclusive pelos próprios goianienses. O trabalho para reverter este desconhecimento é paulatino. O artista plástico e guia turístico Gutto Lemes é um dos atores neste processo. Ele criou um roteiro turístico que contempla os principais prédios e monumentos da época da inauguração da cidade. Os grupos, acom-

panhados por ele, podem contemplar as belas construções no estilo e desfrutar de uma aula de história e arquitetura dos anos 30. Lemes dedica-se à divulgação desse patrimônio desde 2004, quando montou a sua primeira exposição de desenhos dos prédios ícones do Art Déco na cidade. Não é apenas o desconhecimento que prejudica o acervo arquitetônico. Algumas das construções se encontram em estado

de abandono ou vitimadas pelo vandalismo. Um alívio vem com ações como a restauração da antiga Estação Ferroviária de Goiânia, marco simbólico da cidade e de seu acervo Art Déco.

Você Sabia?

Você sabia que o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, também é um monumento Art Déco? Temos outros exemplos de construções Art Déco espalhadas pelo Brasil, tais como: o Elevador Lacerda em Salvador, o Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro, a Biblioteca Municipal Félix Araújo em Campina Grande e o Estádio do Pacaembu em São Paulo.


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Tecnologia

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@TÁ NA WEB

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Amanda

ZANLUCA

Especial

Vídeo-aulas

Foi-se o tempo em que alguém poderia dizer que estudar na internet não é possível frente ao excesso de entretenimento e de informação. Isso mesmo, para os estudantes “reclamões” de plantão, o Youtube tem a solução! Um deles é o canal Descomplica. Nele você encontra gratuitamente vídeo-aulas de filosofia, sociologia, matemática, dicas de estudo, revisão de Enem, gramática e muito mais. Abordados de uma

Aprendendo no Youtube

Confira os vídeos usando o Qr-Code

forma leve e divertida, os assuntos são agrupados por área de interesse em vídeos que variam de poucos minutos a horas de aulas. Um dos quadros mais interativos do canal é o “Quer que desenhe”, em que os assuntos são literalmente desenhados, facilitando, e muito, o aprendizado.

Acesse pelo Qr-Code o canal Nostalgia

Entender o passado Que tal aprender história em pequenos vídeos? Este é o propósito de algumas aulas do canal Nostalgia, um dos maiores do país, com mais 12 milhões de inscritos. O pessoal do canal tem empenhado parte do conteúdo

Para aqueles que querem ultrapassar a barreira da língua e encontrar o mundo a partir da cultura e da imensidão da informação em língua estrangeira na internet, a rede tem oferecido uma série de soluções. A internet tem sido realmente uma mãe para quem não tem tempo para ir em escolas de línguas. E tem oportunidade para todos os gostos e bolsos. Aplicativos, newsletter, podcast e vários outros canais e meios vem dando conta de tornar a galera bilíngue.

Poliglota na rede O canal “Inglês Winner”, do professor Paulo Barros, é um destes espaços gratuitos de aprendizado de língua estrangeira. No canal você encontra vários vídeos para aprender gramática, pronúncia e outras curiosidades sobre a língua inglesa. Os vídeos dão conta de necessidade dos alunos do iniciante até o avançado.

Use o QR-Code para conferir o canal

para explicar a história mundial e brasileira. Mesclando pequenos episódios com produções especiais com vários minutos, como nas séries sobre Ditadura Militar no Brasil e a Primeira e Segunda guerra mundial, o youtuber e fundador do canal, Felipe Castanhari, tem conseguido atrair a atenção do público jovem, que busca por entender de maneira mais fácil os contextos históricos da humanidade.


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Ensaio fotográfico

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Traduzir-se Poesia de Ferreira Gullar Ensaio de

Sabrina

FERNANDES

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.

Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte será arte?

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