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O conceito de inversão desencadeou uma revolução no tratamento da festa. Assim, convém distinguir entre a inversão e a mudança social. Quando Bakhtin se refere à inversão carnavalesca, não pretende que as práticas que têm lugar aí correspondam a algo semelhante a uma revolução. É a segunda vida do povo, como gosta de dizer, que emerge e toma as ruas, numa explosão coletiva de sensibilidade, humor e prazer. O sujeito da festa não é o indivíduo ou a soma de indivíduos; é o povo que comemora, estando o indivíduo ao mesmo tempo perdido e encontrado nesse turbilhão de música, dança e drama. Indissociável dessa perspectiva é a experiência do êxtase, do sair de si e encontrar o sentido de viver na diluição da individualidade estrita e na vibração comunitária, que a literatura antropológica trata na maior parte das vezes em termos de êxtase religioso. Na busca por desvendar os mistérios dessas experiências, os pesquisadores relacionados às ciências sociais e às artes cênicas têm podido reconstituir experiências fabulosas na Europa, na África e na América. O traço comum dessas experiências reside em que as regulações que vigem severamente durante quase todo o ano são até certo ponto suspensas, desencadeando-se, então, a festa da rua. Mais ainda que Bakhtin, Baroja (2006) acentua a importância da organização medieval do calendário como fator principal que delineia a festividade. Os rigores da Quaresma estão à porta; as próprias instituições eclesiásticas estimulam a realização dos folguedos, ao mesmo tempo que acenam com a sua interdição logo em seguida. Ora, uma qualidade ineludível do Carnaval de Baroja é então o que se poderia chamar de dimensão agonística. Como o prazer lancinante de um orgasmo, o Carnaval começa a morrer na plenitude da Terça-Feira Gorda, permanecendo tão inseparável quanto antinômico com relação à gravidade das Cinzas. É a sua dimensão agonística. Poderia mesmo ser Carnaval sem esse susto anunciado, que tudo parece permitir justamente porque se sabe finita a concessão? A partir de sua extensa obra, entre a etnografia e a história, pode-se colocar um elemento fundamental para a compreensão de como se vive o Carnaval na Espanha: uma ocasião para a qual convergem folguedos de todo tipo. O Carnaval não seria, então, propriamente uma festa, e sim uma oportunidade especial de praticar todo tipo de brincadeira, relativizando os ordenamentos que alcançavam sua legitimação durante os outros dias do ano. Autores mais recentes, como Burke e Ladurie, evidenciam outros matizes da festa carnavalesca. Um deles é a diversidade das formas como esta vem a acontecer, até mesmo na modernidade. Burke (2006) encontra na Milão do século XVI desfiles comemorativos que não correspondem tanto assim às brincadeiras tão caras a Bakhtin; são carros portando alegorias, cavalos ricamente ajaezados, nobres em cortejo triunfante. Por sua vez, Ladurie (2002), em seu estudo sobre o Carnaval de 1580 em Romans, pequena cidade dos Alpes franceses, evidencia como os brincantes se apropriam de formas lúdicas tradicionais – não necessariamente carnavalescas – para eleger reis emblemáticos dos .32

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Observatório 14 - A festa em múltiplas dimensões  

Revista analisa os aspectos socioeconômicos das festas.

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