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dez 2012 / jan 2013

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G DE GIL O curador da mostra Gil70 revê, no Depoimento, sua ligação profissional e afetiva com o compositor baiano. A FORÇA PROPULSORA DE HÉLIO OITICICA O cineasta César Oiticica Filho conta como foi mergulhar no universo criativo e pessoal do tio para criar o premiado documentário-experiência Hélio Oiticica TININDO TRINCANDO Considerado o melhor disco da música brasileira, Acabou Chorare, dos Novos Baianos, completa 40 anos de lançamento

encontro marcado NO PALCO E NA VIDA, AS TRAMAS QUE ENVOLVEM A VIDA DAS ATRIZES DRICA MORAES E MARIANA LIMA.


ERICA MIZUTANI


COORDENAÇÃO EDITORIAL

Ana de Fátima Sousa EDIÇÃO EXECUTIVA

Marco Aurélio Fiochi PROJETO GRÁFICO

Marina Chevrand EDIÇÃO DE ARTE

Jader Rosa Liane Tiemi Iwahashi EDIÇÃO

Roberta Dezan EDIÇÃO DE FOTOGRAFIA

André Seiti

CARTA DO EDITOR Com esta edição, a CONTINUUM encerra sua história: a partir do ano que vem a revista deixa de circular. Foram quase seis anos de grande dedicação da equipe responsável e também de uma infinidade de colaboradores externos que, com profissionalismo, criatividade e talento, deram corpo a uma publicação que ampliou e qualificou a informação sobre cultura no país. Mas vimos que era tempo de repensar nosso projeto, e dessa reflexão veio a vontade de abrir espaço para o novo. As experiências que vivemos, as histórias que revelamos em forma de texto e imagem, os vários amigos que fizemos nesse tempo todo, em especial os leitores que sempre se referiram à revista com elogios, nos fizeram ver que tínhamos cumprido uma missão e era hora de fechar o ciclo.

DESIGN

Lu Orvat Design COORDENAÇÃO DE REVISÃO

Polyana Lima REVISÃO

Ciça Corrêa Karina Hambra Nelson Visconti PRODUÇÃO EDITORIAL

Cybele Fernandes

COLABORARAM NESTA EDIÇÃO

André Chiarati André Vallias Caio Palazzo Daryan Dornelles Débora Almeida Duda Porto de Souza Eduardo Burger Erica Mizutani Fernanda de Almeida Gabriela Rassy Gustavo Angimahtz Indio San Leonardo Foletto Mariana de Andrade Mariana Lacerda Mayara Monteiro Patrícia Colombo Patrícia Stavis Paulo Papaleo Pedro Henrique França Pupillas Ricardo Daros Ricardo Labastier

ISSN 1981-8084 Matrícula 55.082 (dezembro de 2007) Tiragem 10 mil – distribuição gratuita. Sugestões e críticas devem ser encaminhadas ao Núcleo de Comunicação e Relacionamento continuum@itaucultural.org.br Jornalista responsável Ana de Fátima Sousa MTb 13.554

É raro ver uma revista que tenha desfrutado de tanta liberdade em sua produção. Esse sentimento esteve presente em todas as decisões tomadas e se refletia no produto final. Bancada integralmente pelo Itaú Cultural, a CONTINUUM herdou o DNA de seu mantenedor, sendo um ambiente privilegiado para a reverberação de ideias, a reflexão, a troca, a formação do olhar e a ampliação do repertório de seus leitores. Mas se engana quem pensa que a vida acaba aos 40! Esse espírito inovador permeará as ações futuras da comunicação institucional, em especial em seu site, plataforma com inúmeras possibilidades de difusão, informação, fruição e aprofundamento. É lá que passaremos a publicar conteúdos similares aos que fazíamos na revista. Agradecemos a todas as fontes do mundo da cultura que passaram por nossas páginas e são sem dúvida os maiores responsáveis pela credibilidade que a revista desfrutou desde o começo. Seu carinho em atender nossas demandas certamente atingiu os leitores, que tiveram a oportunidade de conhecer de maneira clara as ideias e ações de quem faz cultura. Enfim, fizemos bonito e assinamos embaixo: Eduardo Saron, Ana de Fátima Sousa, Marco Aurélio Fiochi, Roberta Dezan, Polyana Lima, Marina Chevrand, André Seiti, Jader Rosa, Liane Iwahashi, Luciana Orvat, Ricardo Daros, Ciça Corrêa, Karina Hambra, Nelson Visconti, Maria Clara Matos, Fernanda Castello Branco, Claudiney Ferreira, Guilherme Kujawski, Isabella Protta, Cybele Fernandes, Jaqueline Santiago, André Queiroz, Sulamita Carvalho, Renato Corch, Dino Siwek, Silvio Santis, Hugo Henrique Alves, Juliana Bezerra, Nathalie Bonome, João Paulo Filomeno, Mariane Ribeiro, Natane Abreu, Thiago Rosenberg, Carlos Costa, Micheliny Verunschk, Mariana Lacerda, Carolina Miranda, Gabriela Rassy, Paula Fazzio e todos que estiveram conosco nessa caminhada.

CARTA DO LEITOR “Gostei muito da revista com Tulipa Ruiz na capa (edição 38, ago-set. 2012). Não só por causa disto: as matérias estavam interessantes e atraentes. Li com prazer!” Neuza Pommer, por e-mail

Envie seu comentário sobre a CONTINUUM para o e-mail continuum@itaucultural.org.br ou utilize os canais do Itaú Cultural no Twitter e no Facebook. dez 2012 / jan 2013

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G DE GIL O curador da mostra Gil70 revê, no Depoimento, sua ligação profissional e afetiva com o compositor baiano. A FORÇA PROPULSORA DE HÉLIO OITICICA O cineasta César Oiticica Filho conta como foi mergulhar no universo criativo e pessoal do tio para criar o premiado documentário-experiência Hélio Oiticica TININDO TRINCANDO Considerado o melhor disco da música brasileira, Acabou Chorare, dos Novos Baianos, completa 40 anos de lançamento

encontro marcado NO PALCO E NA VIDA, AS TRAMAS QUE ENVOLVEM A VIDA DAS ATRIZES DRICA MORAES E MARIANA LIMA.

capa: drica moraes e mariana lima foto: caio palazzo

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| o norte é aqui O Festival Terruá Pará trouxe para o Auditório Ibirapuera mais de 50 artistas daquele estado. Confira os bastidores das apresentações: não faltou animação.

ACESSO RESTRITO

C A P A | encontro marcado Atrizes e amigas, Mariana Lima e Drica Moraes estrelam uma das mais bem-sucedidas montagens da atualidade, A Primeira Vista, que está de malas prontas para uma temporada na Europa. E N T R E V I S T A | a força propulsora de hélio oiticica O cineasta César Oiticica Filho conta como foi o processo de criação do documentário experimental baseado na obra de seu tio, um dos maiores nomes das artes visuais brasileiras.

M U S E U S D O M U N D O | um olhar atento para a arte Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, completa 10 anos em constante movimento.

a gente não quer só comida Universidades não formais de cultura despontam no Brasil como alternativa ao ensino acadêmico. O traço principal dos projetos é a formação de redes colaborativas. P O L Í T I C A S C U LT U R A I S |

de pai para filho Programa Leia para uma Criança já distribuiu 22 milhões de livros para que pais incentivem seus filhos desde cedo ao hábito da leitura. REPORTAGEM |

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R E P O R T A G E M | entre rinhas e saraus Uma programação intensa garante a permanência e o fortalecimento do movimento hip-hop em São Paulo. R E P O R T A G E M | você também pode ter uma... Múltiplos e livros de artista tornam a arte mais acessível por causa de seu valor, bem menor do que o de obras convencionais. Além disso, são uma linguagem vigorosa das artes visuais.

P E R F I L | ganhar o mundo para voltar ao mesmo lugar O pernambucano Irandhir Santos vem dando vida a personagens de peso na atual safra do cinema brasileiro. Sua imagem tem percorrido o mundo, mas isso não o faz se desligar de seu recanto, a pacata Limoeiro.

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R E P O R T A G E M | a mudança está nas ruas A arte pública assume importância significativa na economia das cidades ao ser um atrativo do turismo cultural.

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C E R T I D Ã O D E N A S C I M E N T O | tinindo e trincando Há 40 anos, um grupo de hippies deu à luz um clássico: o álbum Acabou Chorare. Conheça a história e as histórias dos Novos Baianos.

D E P O I M E N T O | g de gil O artista e pesquisador André Vallias cria poema inédito para homenagear Gilberto Gil, com quem tem uma longa relação profissional. Autor do primeiro site do artista em 1995, hoje ele é o curador da exposição que comemora os 70 anos do compositor.

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R E S E N H A | unidos pelos extremos O capixaba Silva e o carioca João Cavalcanti lançam seus álbuns de estreia e marcam espaços distintos na MPB. D E P O I M E N T O | deixando macondo para trás Escritores latinos falam de temas contemporâneos e criam obras que passam longe do realismo fantástico, sinônimo da literatura dessa região.

férias em boa companhia Seção de dicas traz opções de lazer e reflexão.

BALAIO |

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terruá pará ACESSO RESTRITO |

O NORTE É AQUI Festival traz cena musical efervescente a São Paulo e colore o Auditório Ibirapuera em três noites de festa

TEXTO patrícia colombo

FOTOS patrícia stavis

Com o intuito de difundir a música paraense pelo país, o festival Terruá Pará deu seus primeiros passos lá em 2006. O evento, que neste ano chegou à sua terceira edição (a segunda foi realizada em 2011), reúne artistas tanto da velha guarda local quanto novos nomes que já ultrapassaram as fronteiras da Região Norte. Conscientes do clima alegre inerente às suas canções, os orgulhosos paraenses há anos, portanto, fazem questão de pegar o avião rumo a diversos pontos do Brasil, carregando consigo uma espécie de recorte sonoro de seu estado. “Não queríamos esperar que os jornalistas ou grande parte do público fossem até o Pará conhecer alguns talentos. Decidimos criar o show, embalar muito bem e chamar as pessoas, visitando algumas capitais”, conta Adelaide Oliveira, que divide a direção executiva com Ney Messias Jr. Mas organizar as apresentações é dureza: imagine a logística de percorrer o país com equipe técnica somada a 50 artistas de faixa etária e agendas diferentes – como foi em 2012, quando o evento passou por São Paulo, no Auditório Ibirapuera, entre 5 e 7 de outubro. Marcando o lançamento dos CDs e DVDs das edições anteriores, o espetáculo trouxe em seu line-up nomes que integraram os outros dois anos, acompanhados de uma banda base. Artistas como Nilson Chaves, Sebastião Tapajós, Paulo André Barata e Mestre Curica apresentaram suas produções musicais consagradas ao lado de Gaby Amarantos, Gang do Eletro, Felipe Cordeiro e Lia Sophia. Pluralidade de gerações, de ritmos, de vozes, de cultura. Carimbó, siriá, tecnobrega, guitarrada, entre tantos outros tipos sonoros. Uma festa celebrada de braços abertos por quem sente no peito a beleza musical encontrada aos montes pelo Brasil.

FESTA PARTICULAR Dona Onete

Engana-se quem pensa que a festa e o show só rolam no palco. Ao circular pelo backstage do Terruá Pará, é comum ver miniagitações nos camarins enquanto os artistas se arrumam. E não se trata de algum aquecimento: apenas festejos dos bem genuínos mesmo, entre amigos. De um lado, Dona Onete, Lia Sophia e Luê Soares, entre um batom e outro, contam histórias, cantarolam e caem na gargalhada. No Clube do Bolinha paraense, situado na outra ponta do corredor, o time de mestres Laurentino, Curica, Vieira e Solano mistura percussão inusitada (sobrou até para o recipiente de lixo!) e instrumentos de sopro com os Metaleiros da Amazônia (formado por Manezinho do Sax, Pantoja do Pará e Pipira do Trombone). Troca de camisa aqui, batucada acolá. Tinha até gente parada no corredor – músicos e alguns integrantes da produção – para ver, ouvir, fotografar e filmar a empolgação generalizada. “Por aqui, temos esses encontros que são simplesmente incríveis”, conta Lia Sophia. “E eu divido o palco com o Mestre Solano, que tem uma história linda de carreira na guitarrada.”

Felipe Cordeiro


DIRETO PARA O PALCO

Só Gaby Amarantos, atual sensação da música nacional, ficou de fora da festa dos bastidores. Como era a última a integrar o show, chegou ao Auditório no fim da noite, atrasada, arrumou-se às pressas no camarim, apenas acompanhada de sua equipe pessoal, e logo se encaminhou ao palco, trajando um longo vestido metalizado. Naquele momento, a maior parte dos artistas já se encontrava na coxia para a reunião de encerramento – que foi realizada após duas canções de Gaby, “Gemendo” e “Merengue Latino”, ambas do álbum Treme, lançado neste ano. Mestre Laurentino

AO VIVO E EM CORES

Correria como em qualquer apresentação, mas uma espécie de harmonia contagiante. Quem esteve presente em um dos três dias de Terruá Pará em São Paulo teve noção de quão colorido e alto astral era o palco. Mas, além do cenário, outro fator contribui em peso para o efeito arco-íris: os figurinos – cuja consultoria fica a cargo de Sandra Machado. Cuidadosamente pensado para cada um dos músicos, nada ali é blasé ou básico. Os paraenses mostram como é viva sua cultura expressando-se também por meio de suas vestimentas. Saias rodadas das mulheres contribuem para o movimento hipnótico e sensual das danças, e as cores se misturam divertidamente. O prateado de Gaby Amarantos encontra o vermelho de Lia Sophia, que cruza com o amarelo e a delicada flor no cabelo de Dona Onete. A Gang do Eletro chega com sua característica maquiagem neon e roupas cuja elaboração conta até com sucata – criando um efeito único. Mestre Laurentino ostenta chamativos e numerosos anéis e até a Orquestra de Violoncelistas da Amazônia, mais contida no preto, traz detalhes verdes e amarelos em seus trajes.

Gaby Amarantos

OLHOS ATENTOS, CORPO EM MOVIMENTO

O roteiro do show previa que a maior parte dos artistas subiria ao palco para duas canções com a banda base e retornaria ao final da apresentação para a execução conjunta do “Pot-Pourri de Carimbó”. Contudo, era interessante reparar que, com raras exceções, nenhum deles voltava ao camarim. No máximo, descia para pegar algum lanche. Era comum presenciar uma concentração dos músicos na coxia, curtindo o que estava rolando no palco e prestigiando uns aos outros com aplausos e danças.

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Lia Sophia


mariana lima e drica moraes CAPA |

Mariana e Drica em ensaio fotogrĂĄfico durante a temporada de A Primeira Vista, no ItaĂş Cultural, em novembro


encontro marcado TEXTO gabriela rassy

O jogo cênico de Mariana Lima e Drica Moraes traz ao palco a renovação da amizade

FOTOS caio palazzo

das atrizes em sua fase mais madura

Drica Moraes conhece Kike desde os 14 anos. Já namoraram, atuaram, fundaram juntos a Cia. dos Atores, no Rio de Janeiro, e hoje acumulam 30 anos de amizade. Mariana Lima é casada com Kike há 15 anos. Paulistana, mora com o marido e as duas filhas, Elena e Antonia, no Rio. Conheceu Drica em meados dos anos 2000 durante as apresentações do espetáculo O Rei da Vela, com a Cia. dos Atores, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo. A partir desse ponto, as duas foram se aproximando até se tornarem amigas e, hoje, parceiras de palco. “Mariana é irresistível, é dessas pessoas que você fica amiga muito rápido.”

na. “A peça tem muito a ver com ela, com a atriz que ela é.” Para as atrizes, a combinação entre as duas foi muito bem-vinda, pois a dramaturgia abraça personagens opostas em temperamento e personalidade, tal como elas.

“Você tem filhos? Só sei que muda muito a vida, o tempo fica muito curto. Não tem essa de chopinho”, diz Drica. Mariana concorda: “O complicado é a jornada dupla, no trabalho e em casa. Ficamos com pouco tempo de descanso. A vida é outra, não dá para sair toda hora”. Realmente, com tantas atividades entre palco, ensaios e gravações para a televisão, as atrizes vivem em um esquema bastante corrido. Logo após se conhecerem, Mariana engravidou de Elena e Drica tentava fazer inseminação artificial. Depois se encheu e entrou na fila da adoção. “Tivemos sempre esse viés de falar de crianças e de começo da vida de adulta.” Quando Drica adotou Matheus, hoje com 3 anos, Mariana já tinha duas filhas. Elas passaram então a fazer mais coisas juntas e a viver um mesmo assunto. São tantos encontros, além das viagens com a peça, que Matheus já chama Antonia de irmã. “A gente acaba pegando um pouco desse afeto para a gente”, diz Drica. Nesse embalo da maternidade, as duas trocam experiências, falam sobre criação, sobre como deixar que os filhos se virem e também como é importante um pouco de frustração diária na vida das crianças para que cresçam bem.

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Liga inicial entre as duas, o ator e diretor Enrique Diaz, chamado pelos amigos de Kike, as uniu na vida e as reuniu no tablado. Em cartaz desde março de 2012, A Primeira Vista, dirigida por Diaz, foi o primeiro trabalho no qual as atrizes se viram juntas em cena. E o texto fala exatamente disto: reencontros, amizade, amor, lembranças. Quando o diretor decidiu fazer a montagem, a segunda em que se vale de um texto do canadense Daniel MacIvor, Mariana se candidatou logo de cara. O convite deles à Drica veio justo no período em que ela se recuperava de uma leucemia. “A gente achou que era um momento para estarmos juntas e fazer a nossa estreia em cena”, conta Maria-

Drica transitou mais vezes entre comédia e drama, entre televisão, cinema e teatro. Sabe como fazer humor de um jeito mais ligeiro, mais rápido, tem um timing maior. Ainda neste ano, ganhou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro por seu papel coadjuvante em Bruna Surfistinha – o Filme, dirigido por Marcos Baldini. O registro de Mariana está no drama, na tragédia, nas construções mais bizarras. Na comédia, ela tende para um lado mais negro, louco, absurdo, como é o caso dos seus trabalhos com o Teatro da Vertigem e, mais recentemente, com Pterodátilos, peça do norte-americano Nick Silver e dirigida por Felipe Hirsch, que lhe rendeu o Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2010. “Por mais que a gente componha e faça tipos, tenha códigos e estilos bem particulares, trabalhamos com verdade absoluta e isso também nos une”, diz Drica. Para a atriz, as duas articulam bem esses opostos, tirando proveito disso. “É uma situação em que o jogo cênico se estabelece muito bem, porque ela não rouba em cena. Está sempre contribuindo, jogando dentro da ação.”

JORNADA DUPLA


mariana lima e drica moraes CAPA |

O palco sempre tem um pouco de loucura. Uma loucura boa.” Drica Moraes Nas viagens, quando possível, elas tentam conciliar as famílias. Cada vez é uma história diferente: com as crianças, com os pais, com o namorado da Drica. “Tem essas oportunidades em que eles se juntam enquanto a gente trabalha, então dá um clima Novos Baianos – ou ‘velhos baianos’, no caso”, ri Drica. DUAS PALHAÇAS

Em A Primeira Vista, a personagem de Mariana é mais etérea, desligadona, lenta e até um pouco bicho-grilo. A de Drica é pragmática, prática, racional, rápida. Esse contraponto é nítido. São dois papéis que carregam emoção, complexidade, mas que têm o timing da piada. A definição das figuras dramáticas veio num bilhete enviado pelo ator Guel Arraes, após assistir a uma apresentação: duas palhaças. Drica, a palhaça solar, e Mariana, a lunar. “Tem mesmo uma coisa do circo, de fazer ali na hora e de apresentar os truques ao público, porque não tem cenários, figurinos ou grandes mistérios”, explica Drica. A Primeira Vista trata de um recorte de tempo entre o passado e o presente, em que as personagens reveem e revivem o período entre a juventude e a vida madura. Fala do desafio de começar algo novo, de se arriscar profissionalmente, e também sexualmente, e de tomar decisões afetivas. “Levamos para o ensaio muito da nossa memória pessoal e nos reconhecemos um pouco na estupidez que há no começar alguma coisa. Como a gente erra, se atropela, faz escolhas erradas no começo da carreira, da vida, ou como deixa de fazer o que queria ter feito”, conta Drica. A atriz acredita que o público, de um modo geral, se identifica, assim como elas, com a beleza desse momento de fragilidade que é sair da adolescência e ingressar na vida adulta. Nessa fase de buscas e mudanças, as personagens decidem formar a banda Ukuleladies, referência ao ukulele, instrumento que tocam em cena. Uma queria, a outra acabou indo junto, e elas começaram esse projeto musical meio falido, já que não eram exatamente musicistas sensacionais. Para o diretor, isso faz parte desse limite da amizade e do amor, de fazer o que a outra quer, mesmo sem querer muito. Para Diaz, elas acabaram naturalmente levando muito da peça para a vida pessoal. A Mariana voltou a tocar baixo, as filhas se interessaram e começaram a tocar. Até mesmo o ukulele passou a fazer parte da vida de Mariana, que vez ou outra toca o instrumento em casa. “Acho que tem um limite muito tênue entre a arte e a vida. Como nunca estamos de férias, acabamos vivendo muito aquilo que fazemos”, aponta Mariana. Já Drica namorou a música desde sempre. Fez alguns musicais, estudou piano na adolescência e o ukulele veio fazer parte desse universo musical.


A facilidade de incorporar os personagens à vida também vem do estilo de dramaturgia de Daniel MacIvor. Para Drica, ele escreve de um jeito inacabado, no qual as personagens falam pérolas de profunda sabedoria, travam um embate de ideias complexas, mas de forma fluida, quase displicente, coloquial. “A peça é muito leve. Parece que nem foi escrita para o teatro, e sim que foi improvisada”, analisa. Visualmente, é um espetáculo bastante minimalista: pouquíssimos objetos em cena, figurino composto de calça jeans e camiseta, um fundo infinito. Nada interfere no texto e no contato com o público. A direção de Enrique Diaz inclui cenas em que as duas olham nos olhos do público. “Isso gera uma atividade profunda com a plateia, que é incluída no jogo cênico. É como se eles tivessem um personagem e contracenassem com você.” A peça foi o primeiro trabalho de Drica Moraes depois do câncer e, segundo Mariana, ela impressionantemente teve muita energia para trabalhar. O casal amigo criou as melhores condições possíveis para desenvolver os ensaios: uma boa comida e um bom ambiente, prazeroso, saudável. “Às vezes, nós nos enfiávamos num porão, não comíamos direito. Nesse caso, forçávamos a barra para ter uma pausa para um lanche, para não ser puxado demais, mas acabava que os workaholics aqui ensaiavam seis horas por dia. E ela também não arregava”, conta Mariana. “Eu falava: ‘vamos parar, tem a Drica’. Mas por ela ia embora.” Com o trabalho acontecendo, a atriz foi ganhando tônus, agilidade, memória. Enrique Diaz conta que era um momento em que eles queriam estar próximos dela. “Foi leve, sensível. A peça teve também essa ‘função’, de nos unir mais.” Para Drica, o processo foi fundamental na sua recuperação. Com todo esse aparato afetivo de trabalhar entre amigos, ela se encontrou num lugar muito seguro, pronta para poder enlouquecer de novo. “O palco sempre tem um pouco de loucura. Uma loucura boa”, diz.

Acho que tem um limite muito tênue entre a arte e a vida. Como nunca estamos de férias, acabamos vivendo muito aquilo que fazemos.”

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Mariana Lima


césar oiticica filho ENTREVISTA |

”SE A GENTE PENSAR NAS CORES QUE PERMEIAM O TRABALHO DO HÉLIO, QUE SÃO O VERMELHO E O LARANJA, LOGO VÊ QUE O TEMPERAMENTO EXPLOSIVO DELE PASSOU PARA A OBRA.”


A força propulsora de

hélio oiticica Um dos pais do tropicalismo e referência do neoconcretismo no Brasil,

Hélio Oiticica viveu pouco, mas fez muito. Agora, ganha forma de documentário experimental, dirigido por seu sobrinho, César Oiticica Filho

TEXTO mayara monteiro

FOTOS daryan dornelles

Hélio Oiticica é o filme que ganhou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Documentário no Festival do Rio em 2012. Dirigido por César Oiticica Filho, sobrinho do artista visual, ele refaz a trajetória de 30 anos de atuação de Hélio e apresenta a intimidade do homem que viveu pouco, mas intensamente, o grande mundo da criação artística. Dividida em blocos, a obra mostra a infância do artista; sua participação no movimento neoconcreto; a importância do samba em sua obra; os períodos que viveu em Londres e em Nova York; a volta ao Rio de Janeiro, sua cidade de origem; e o processo de mistificação e desmistificação das ruas, presente em sua obra. “O som é a alma do filme”, enfatiza César, satisfeito com o resultado da montagem experimental que reúne imagens, vídeos, texturas e a participação de artistas que conviveram com Hélio e o homenagearam. As referências usadas pelo cineasta na concepção do documentário vão de Serguei Eisenstein, Ricardo Miranda, Humberto Mauro e Ivan Cardoso (autor do documentário H.O., de 1979) a Jards Macalé, Caetano Veloso, Johann Bach e Jimi Hendrix. A intenção, segundo César, é apresentar o artista ao Brasil. “A essência do filme está em todas essas linguagens, cria-

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das juntas. O que é o filme? Não sei, não sei nem se é um filme. É um estado de invenção”, avalia.


césar oiticica filho ENTREVISTA |

O documentário conta a história de vida do seu tio, Hélio Oiticica. O que você desejou mostrar às pessoas? CÉSAR OITICICA FILHO: É um projeto de muito tempo e foi feito em camadas. Gosto de falar isso porque, embora seja um filme que acabou sendo classificado como documentário, tem muito de experimental em vários sentidos. Pode-se perceber isso tanto em relação ao som, com uma trilha sonora que envolve a história de vida do Hélio, quanto em relação às imagens que, ao mesmo tempo que procuram dialogar com seu discurso, fazem várias homenagens e referências. Além disso, a montagem cinematográfica teve como objetivo apresentar o artista ao Brasil.

“O HÉLIO NÃO SE INTERESSAVA APENAS PELA FILOSOFIA DA ARTE. É CLARO QUE SEU TRABALHO E DISCURSO DE ALTO NÍVEL CONTRIBUÍAM [...], MAS SUA ARTE VEM DAS MANIFESTAÇÕES POPULARES, DO CARNAVAL.”

Como essas linguagens contribuíram para o resultado do filme? CÉSAR: O que dá o clima do filme é o som. Além das músicas históricas, ele conta com a participação fundamental do músico e compositor Jards Macalé. Quando nos encontramos para gravar, Macalé me disse: “Você não sabe o que eu encontrei”. Era uma música totalmente concretista que o Hélio escreveu para ele, chamada “Puto Nem Gil”. Quando gravamos, rolou um casamento incrível. Ele também criou uma versão para “You Don’t Know Me”, que foi gravada inicialmente pelo Caetano Veloso no álbum Transa, também com arranjo de Macalé. Como você definiria Hélio Oiticica? CÉSAR: O Hélio não se interessava apenas pela filosofia da arte. É claro que seu trabalho e discurso de alto nível contribuíam, mas isso não quer dizer que ele falava só com a classe média alta que entendia do assunto. Pelo contrário, sua arte vem das manifestações populares, do Carnaval. O mais interessante é o fato de ele conseguir nivelar as classes sociais e transformar o objeto pictórico, relativo ao quadro e à escultura, em algo fenomenológico, inspirado nas relações humanas. O que de sua personalidade refletiu mais intensamente em sua obra e vice-versa? CÉSAR: Se a gente pensar nas cores que permeiam o trabalho do Hélio, que são o vermelho e o laranja, logo vê que o temperamento explosivo dele passou para a obra. Isso é bem interessante e me faz pensar no incêndio que dizimou algumas obras do artista [ocorrido em outubro de 2009]. As pessoas me perguntam por que não falei dele no filme. Mas o fogo está presente no filme. A bólide que é mostrada quer inflamar a obra com a cor. De tão forte e pura que ela é, toma conta. As atitudes dele eram assim. O filme pega fogo sozinho, com suas imagens. Não abordei o incêndio porque a ideia do projeto é muito anterior a ele – ficou mais de cinco anos na Ancine – e retrata, acima de tudo, a vida do Hélio. O que vocês conseguiram recuperar do incêndio? CÉSAR: Ainda estamos recuperando. O restauro é difícil, mas muita coisa já faz parte da exposição em Portugal [Museu É o Mundo, em cartaz até o início de janeiro de 2013 em Lisboa; apresentada em 2010 no Itaú Cultural, em São Paulo]. Muitos me perguntam sobre números, mas não tenho como dizer porque até hoje estou recuperando fotos. Eu abro um álbum carbonizado, mas quando se conta há mais de 300 imagens que estão boas, que podem ser digitalizadas e recuperadas. Algumas estão perfeitas! Não posso ser leviano ao dar números se sou eu o curador e minha função – claro que não sozinho – é ter distanciamento e olhar crítico antes de dizer se determinado material está bom mesmo.

Você falou que o filme funciona em camadas. Isso significa que ele não é linear? CÉSAR: Ele me parece bem linear, mas foi criado em blocos. Glauber Rocha já falava muito sobre a montagem nuclear. Eu não cheguei a usar por causa da própria obra do Hélio – a saída do quadro para o espaço é um núcleo, uma vez que a pintura está fragmentada em vários pedaços que se agrupam e formam uma obra tridimensional. Mas, quando montamos o filme, esse pensamento me impulsionou a fazê-lo em blocos. Procurei agrupar a obra e criar uma lógica que trouxesse sentido. Ainda assim, ele não é totalmente linear. E aonde você quis chegar com essa lógica? CÉSAR: A ideia do filme é – inicialmente – apresentar o Hélio ao Brasil, porque as pessoas não o conhecem. É a mesma coisa que na Holanda ninguém conhecer Van Gogh. Claro que é outra cultura, mas acho que aí está a importância do documentário: precisamos reconstruir a imagem do país. Nesse sentido, o filme é um documentário, mas sua forma não é. Eu diria que ele é um documentário experimental. Como você amarrou as questões ideológicas que seu tio defendia à mensagem que, como diretor e produtor, quis transmitir às pessoas? CÉSAR: Geralmente, a imprensa questiona, de forma pejorativa, como consegui colocar cenas polêmicas, de drogas e sexo, sendo parte da família. Na verdade, foi bem fácil, porque minha família não é católica nem protestante; então lidamos com isso numa boa. A obra mostra a intimidade que um texto ou uma exposição não conseguiriam retratar. Ele, como narrador, torna o filme quase performático. Isso surpreendeu as pessoas. Eu nunca quis fazer uma coisa careta, mas tudo é um experimento. Fiz testes para ver o que funcionava.


O cineasta César Oiticica Filho mostra as várias faces do criador dos Parangolés

ampla, do grande mundo da invenção. Talvez seja esse o grande legado da obra e das ideias dele. Falar isso hoje é muito importante. Muita gente acredita que tudo já foi feito, que é só copiar. Mas não é assim.

No filme, Hélio Oiticica declara: “O branco no branco é o maior estado de invenção”. O que isso quer dizer? CÉSAR: Ele estava dizendo que a invenção era a força propulsora de seu trabalho. Não existe ideia separada do objeto, o que existe é a invenção.

Você pretende dar continuidade ao projeto? Quais são os próximos planos? CÉSAR: Como diretor e produtor do filme, o projeto está encerrado, mas o trabalho do Hélio é um universo quase inexplorado. A gente fez muito pouco ainda. Essa é uma missão futura do Projeto Hélio Oiticica [associação que cuida da obra do artista]. O filme termina com Hélio Oiticica falando de sua relação com as ruas, sintetizada na ideia de delírio ambulatório. Aonde você quis chegar com esse desfecho? CÉSAR: O Hélio dizia que “o delírio ambulatório, quando ele não é patológico, ele é extremamente gratificante”. Delírio ambulatório quase virou o subtítulo do filme, mas era algo tão forte que acabaria apagando a força do título, já que ele nada mais é que a alma desse trabalho. O caminhar pelas ruas está relacionado ao sentido de caminhar com o Hélio pela história, pelas cidades, pela obra, pelo cinema, pela música. A essência está em todas essas linguagens, criadas juntas. O que é o filme? Não sei, não sei nem se é um filme. É um estado de invenção.

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Qual foi o momento mais “branco no branco” pelo qual você passou no processo de criação do filme? CÉSAR: Recuperei mais de 2 mil imagens do incêndio que entraram no filme apenas em alguns pedaços. É que o Hélio fotografava tudo em sequência, sem editar, como se estivesse filmando, só que em outra velocidade. O que eu fiz foi tentar dialogar com o cinema e a parte sensorial, de fato o que me interessava. No filme, o Hélio fala: “Eu não quero montar nada”. No nosso caso é o contrário. Nosso filme é totalmente montado. Então, peguei esse diamante, que são suas fotografias, e transformei em branco no branco, em cinema. Enquanto estava filmando, fiquei aberto para o que acontecesse na hora. Não sabia se ia ficar bonito, não tinha nada estabelecido. O filme é como uma aula sobre o que é a arte. Quando se ouve o Hélio falar sobre a arte, ele não está falando apenas do trabalho dele, mas, sim, numa perspectiva mais

Você conviveu muito com seu tio? CÉSAR: Não, eu era muito novo e ele viveu pouco [morreu aos 43 anos]. Mas, nesses 30 anos de trajetória, ele fez muito. Todo mundo com quem conviveu conta que ele convencia as pessoas de que elas eram artistas e as colocava para trabalhar. Muita gente virou artista por causa desse impulso. Ele inflamava as pessoas com essa coisa de inventar algo.


mon MUSEUS DO MUNDO |

TEXTO andré chiarati

Um museu vivo e em constante movimento. Assim é o Museu Oscar Niemeyer (MON), dedicado a exposições de artes visuais, arquitetura e design. Com mais de 17 mil metros quadrados de área expositiva, ostenta o título de maior espaço cultural desse tipo na América Latina, além de ter sido eleito recentemente um dos 20 mais belos do mundo pelo site norte-americano Flavorwire, especializado em cultura e crítica de arte. O museu é a única instituição latino-americana a integrar a seleta lista. “É um reconhecimento valioso para todos, principalmente para aqueles que idealizaram esse projeto e defenderam sua importância; e para Oscar Niemeyer, que o desenhou com seu traço singular e poético”, comenta Estela Sandrini, diretora do MON. Ao longo de dez anos de história, o museu já realizou mais de 230 mostras e recebeu eventos e exposições importantes, como o TEDx Curitiba (2011), a Bienal Internacional de Curitiba (2011) e exposições sobre dadaísmo e surrealismo, Rembrandt e Tomie Ohtake. “A vinda de mostras internacionais para cá e o dinamismo da agenda fazem com que as pessoas se sintam

sempre estimuladas a voltar, porque sabem que encontrarão, a cada visita, uma proposta diferenciada”, avalia Estela. As 20 mostras temporárias que passam pelo MON recebem por ano mais de 200 mil visitantes, uma média de 25 mil pessoas por mês. Vários movimentos da cultura curitibana já pediam, desde os anos 1990, um grande museu, um lugar que pudesse receber as obras de arte do estado. “Era a reivindicação por um espaço que fosse completo e não fragmentado em relação à cronologia, às linguagens e aos movimentos artísticos, como eram os museus de arte de Curitiba até então”, relembra Ricardo Freire, historiador do MON. O espaço é administrado pela Associação dos Amigos do Museu Oscar Niemeyer (Aamon) em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura e possui um acervo de mais de 3 mil peças, com obras dos paranaenses Alfredo Andersen, João Turin, Theodoro De Bona, Miguel Bakun, Guido Viaro e Helena Wong, além de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Candido Portinari e do próprio Oscar Niemeyer, entre outros.

MUITO PARA SER VISTO

Para celebrar uma década, o MON preparou uma programação especial com três grandes mostras: Degas: Poesia Geral da Ação, com 73 esculturas do artista impressionista francês, do acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp); Di Cavalcanti, Brasil e Modernismo, retrospectiva com 80 obras de um dos mais expressivos artistas do período modernista da arte brasileira; e PR-BR – Produção de uma Imagem Simbólica do Paraná na Cultura Visual Brasileira, com obras do acervo do museu. Ocupa o “olho” um filho ilustre da terra dos pinheiros, o poeta Paulo Leminski. Curitibano do “leite quente”, Leminski saiu pouco de sua cidade natal, mas sua obra ganhou dimensão dentro e fora do Brasil. Em Múltiplo Leminski é possível conhecer não só o poeta, mas o jornalista, o grafiteiro, o polemista. A exposição é um recorte da Ocupação Leminski: 20 Anos em Outras Esferas, organizada pelo Itaú Cultural em 2009. Como forma de estimular e democratizar o acesso à cultura, o MON possui atividades

UM OLHAR ATENTO PARA A ARTE

O gigante Museu Oscar Niemeyer prepara três grandes mostras para celebrar uma

foto: Nelson Kon

década de estímulo à arte na capital paranaense

O grande olho criado por Oscar Niemeyer pode ser visto de vários pontos de Curitiba


fotos: Marcelo Kawase

Vista do interior do museu

educativas, como oficinas, debates e fóruns para os diferentes públicos que frequentam o local. Desde setembro de 2012, na primeira quinta-feira do mês, o horário de funcionamento é estendido, das 10h às 20h, e entre 18h e 20h a entrada é franca. Há, ainda, a ação chamada Domingo Social, também com entrada franca no primeiro domingo do mês, que traz outras atrações para o museu, como apresentações musicais e de dança e oficinas do projeto Artista do Acervo – uma interação dos diferentes artistas que têm obras na coleção do espaço e que estão em atividade.

O principal desafio do MON foi readequar o prédio e construir um anexo apenas alguns meses antes de sua inauguração. “Será tão bem-sucedida que o museu imaginado constituirá, sem dúvida, uma obra espetacular”, sentenciou o próprio Niemeyer ao descrever o projeto, que teve suas obras iniciadas em junho de 2002. Quatorze milhões de dólares e cinco meses depois, em 22 de novembro, surgia o novo museu, que, inicialmente, abrigava o acervo do Museu de Arte do Paraná (MAP) e do extinto banco paranaense Banestado. Só em 2003 é que o espaço passou a se chamar Museu Oscar Niemeyer.

UMA OBRA ESPETACULAR

O edifício integra o Centro Cívico de Curitiba, primeiro a ser construído no Brasil, em 1953, encomendado pelo governador Bento Munhoz da Rocha como parte das homenagens ao centenário de emancipação política do Paraná. O conjunto de prédios, do arquiteto francês Alfred Agache, é parte do projeto de urbanização desenvolvido para Curitiba na década de 1950. Já a praça ao lado do museu é uma das únicas peças executadas do plano paisagístico de Burle Marx, de 1977. Hoje, a capital paranaense acumula boas referências quando o assunto é soluções urbanas bem planejadas, aliadas às suas belas paisagens.

O prédio de concreto branco e iluminação zenital, inaugurado em 1967 como Instituto de Educação do Paraná, infelizmente nunca exerceu tal função. Niemeyer, desgostoso por seu projeto não ter sido executado em sua totalidade e ainda ter sido usado para fins diferentes daqueles para os quais fora idealizado, não fazia muita questão de dizer que o filho era seu.

Atrás do museu há outro ponto turístico de destaque: o Bosque João Paulo II – homenagem ao papa que visitou a cidade em 1980 –, com uma mata nativa de 300 araucárias. Fronteiriço ao bosque, há um grande gramado também conhecido como Parcão, que, aos finais de semana, recebe os mais diferentes públicos: jogadores de futebol americano, músicos, praticantes de corda bamba, tribos das mais variadas e uma infinidade de cachorros correndo de um lado para o outro. “Eu costumo vir muito a esta parte do museu e nunca havia entrado nele”, confessa Adriane Ribas, advogada, que pela primeira vez, durante o mês de aniversário do lugar, conheceu o interior do MON.

Não é raro ver diferentes manifestações artísticas acontecendo dentro, fora e ao redor do museu. Sejam grupos de adolescentes que ensaiam passos de hip-hop, sejam fotógrafos clicando ensaios artísticos ou músicos tocando seus instrumentos. Todos se conjugam no mesmo espaço. Depois de tantas idas e vindas, hoje ele cumpre a função projetada por seu criador: formar e educar, tornando o saber e a arte mais democráticos.

Saiba mais sobre o museu em <museuoscarniemeyer.org.br>.

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Mágoas à parte, em 2002, Jaime Lerner, arquiteto e urbanista, ao final do seu segundo mandato como governador (daí a pressa em terminar a obra), propôs que o lugar abrigasse um museu de arte contemporânea. Para tanto, Niemeyer redesenhou um museu metamorfose, que ocupava todo o edifício – com salas expositivas, biblioteca, auditório e café. Ao pavilhão branco, com 65 metros de vão-livre, foi anexado um grande salão expositivo em formato de olho (por isso o apelido de Museu do Olho), para abrigar exposições fixas e itinerantes. Suspensa em uma grande coluna – adornada por azulejos assinados pelo arquiteto e com rampas imponentes de concreto –, a torre chama a atenção e pode ser vista de vários lugares da cidade, fazendo dele um dos pontos turísticos mais visitados da capital paranaense.

Jardim de esculturas


universidades de cultura P O L Í T I C A S C U LT U R A I S |

A gente não quer só comida Articulados em rede – e na velocidade da era digital –, multiplicam-se cursos voltados à cultura que ultrapassam o universo acadêmico. E seus alunos estão famintos

TEXTO pedro henrique frança

ILUSTRAÇÃO eduardo burger


Orientanda de doutorado de Heloisa, Numa estudava o rap quando constatou que as entrevistas com as mães dos rappers davam a ela um conhecimento tão empírico e profundo quanto o que obtinha com especialistas. “Aí ela pensou em promover encontros para a troca de saberes. Heloisa, que já desejava montar um curso para reunir lideranças sociais, abraçou a ideia e a viabilizou como um curso de extensão da UFRJ”, conta Beá. A extensão, concebida para tratar da história da cultura, teve como foco inicial a literatura, as artes visuais e a filosofia, mas já no primeiro semestre do ano seguinte o teatro, o cinema, a dança e a música foram incluídos. Outras universidades, como as federais da Bahia e de São Carlos e a privada Fundação Getulio Vargas do Rio, também estão entre as instituições com iniciativas semelhantes. Para Heloisa, o movimento denota a necessidade de uma reformatação no ensino e pode funcionar como uma opção de formação.

Existe por aí um papo sobre universidades de cultura, mas não é apenas papo nem bandeira eleitoral, é realidade e – no linguajar 2.0 – é viral. As aulas, gratuitas, podem acontecer durante a produção de um espetáculo, numa vivência na Bolívia ou em Buenos Aires ou mesmo entre os muros de uma universidade brasileira conceituada, cuja concorrência em cursos tradicionais ultrapassa 20 candidatos por vaga. O compromisso, neste caso, depende da fidelidade consigo mesmo e da vontade de escutar e interagir. Faltou? Perdeu, playboy. E foi conteúdo. Numa terça-feira, na UFRJ, pouco mais de 60 alunos da Universidade das Quebradas está em aula. Em sua maioria, são “quebradeiros”, artistas, pessoas que já trabalham com produção cultural ou “ativistas, gente muito articulada”, como resume a coordenadora Beá Meira – um público de mestrado e doutorado acima dos 26 anos. Eles vêm da periferia, aprovados por edital, e se misturam a alguns poucos selecionados da zona sul carioca. “Mas isso aqui não é um passatempo”, alerta Beá.

DE DENTRO PARA FORA

O Circuito Fora do Eixo implantou uma universidade que não tem um campus, e sim vários – cerca de 400, nenhum fixo. Não tem apenas um curso, mas dezenas. Não há grade curricular, mas o aluno acumula créditos, somados e colocados em sua certificação. Por meio de editais, o estudante se inscreve nos cursos relacionados ao seu perfil, que vão desde experiências de intercâmbio cultural – da Colômbia ao México – a processos de produção cultural de eventos e atividades em salas de aula, ocasionalmente. “Nós não temos ano letivo, pois o percurso é montado conforme a oferta”, explica a gestora, Carol Tokuyo. Todas as atividades são gratuitas e têm vagas limitadas. Trabalho de conclusão de curso? Cortesia da casa. E os estudos são interrompidos de acordo com a vontade de cada um. “A ideia de se formar é péssima, o objetivo é estar sempre em processo de formação”, acredita Carol. E emenda: “Se você quiser viver de cultura no país, uma faculdade não tem tanta serventia; diploma acadêmico para a cultura é algo desnecessário”. Segundo a gestora, a demanda – “gigante”, ressalta – vem de profissionais ligados à cultura. “Mas também temos alguns jovens que querem trabalhar na área e nos procuram como uma op-

REDE SOCIAL: MORADA DO SABER

Tanto os cursos de extensão vinculados às universidades quanto entidades e outros pontos de cultura não se isolam, somam-se. Todos eles (mais de 30) estão reunidos na Universidade da Cultura Livre (Unicult), espécie de consórcio de instituições multilaterais integradas a um processo de formação continuada na área cultural. A internet é a plataforma base desse modelo alternativo de educação, no qual a produção não se restringe à academia e o conhecimento se espalha rapidamente. “O paradigma de hierarquização dos saberes e de formação de especialistas está dando sinais de falência. A produção de conhecimento novo hoje só me parece possível através de processos colaborativos, compartilhados e negociados. Portanto, essas iniciativas são sintomas de que a mudança já está em curso”, pondera Heloisa. Na visão da pesquisadora Ivana Bentes, as experiências proporcionadas pelo ensino livre “borram as fronteiras entre formador/formando, professor/ estudante, potencializando as trocas. Assim, saímos do ‘campus de concentração’ da escola e da universidade fordista multidisciplinar para surfar em outras experiências de formação”, acredita. Para o escritor Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas (Cufa), “o saber fora dos muros da academia revela cada vez mais a sua força e coloca-se como objeto democrático”. Mas contrapõe: “O movimento não deve ter a pretensão de substituir a educação formal sistematizada, mas, sim, valorizar a cadeia produtiva da cultura e da inovação, estimulando assim uma nova identidade que transcenda a educação”. O rumo da transgressão, porém, ainda encontra desafios. Abranger toda a gama cultural de um país tão rico como o Brasil é um deles. “Mudamos o programa e os professores frequentemente porque sempre achamos que não conseguimos atingir o pluriverso”, diz Beá. No caso da Universidade das Quebradas, em que o espaço é aberto para o diálogo com a periferia, a falta de estrutura e de oportunidade de bolsas também surge como preocupação. “Lidamos com pessoas que acreditam que pensar é importante, mas que sobreviver é urgente”, diz Beá. De olho no futuro, Ivana Bentes diz que as experiências de formação livre “já estão se multiplicando em todo o Brasil”. E dá o recado: “Muitas têm metodologias que poderiam servir como projetos pilotos de políticas públicas. O Brasil pode passar diretamente da cultura oral para a cultura digital, criar metodologias e dinâmicas de apropriação tecnológica que potencializem o pensamento. Essa pode ser a nossa contribuição no campo da informação”, conclui.

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Em classe, os estudantes discutem prosa modernista com o professor Fred Coelho, tema que se estenderia nas aulas seguintes. Uma vez por semana, um novo mestre. As trocas de ideias são alimentadas na internet por artigos publicados por Beá Meira, também editora do portal [universidadedasquebradas. pacc.ufrj.br], até a nova aula presencial. É assim desde 2010, quando a Universidade das Quebradas foi criada, fruto de um insight das pesquisadoras Numa Ciro e Heloisa Buarque de Hollanda.

“Dentro da universidade são várias as experiências que começam a ser desenvolvidas no âmbito das sub-reitorias de extensão, cuja missão é articular a sociedade e as instituições de ensino superior. Nesse escopo está o nosso projeto. Na direção inversa, temos o trabalho do Observatório de Favelas e a Universidade Fora do Eixo, que pretendem a criação de redes colaborativas de conhecimento fora das universidades. Sem falar em outras frentes, como as Batalhas de Conhecimento, ligadas aos grupos de rap”, enumera Heloisa.

ção de faculdade.” No primeiro dia de inscrição, em agosto, foram mais de 500 interessados; três meses depois já passavam de 3 mil inscritos.


leia para uma criança REPORTAGEM |

DE PAI

para filho Programa distribui livros em todo o país para incentivar o hábito da leitura em crianças

TEXTO débora almeida

“Era uma vez um reino muito, muito distante...” Quem nunca ouviu, quando criança, essa frase dita por um adulto? Ela era a porta de entrada para um mundo de fantasias, que a cada noite alimentava nossa imaginação antes de cairmos no sono. Pensando no incentivo ao hábito da leitura, a Fundação Itaú Social criou, em 2010, o programa Leia para uma Criança, que distribui livros infantis para que os pais leiam para os filhos. A iniciativa parte do princípio de que ouvir histórias nos primeiros anos de vida tem efeitos surpreendentes na educação e na comunicação. O programa entrega na casa de pais, voluntários de organizações sociais e professores um conjunto de títulos recomendados por educadores e especialistas em educação infantil, além de dar dicas de leitura e de atividades para fazer com a criança [ver box]. Mais de 22 milhões de exemplares já foram distribuídos. Neste ano, foram disponibilizados os títulos Lino, de André Neves (Callis); Poesia na Varanda, de Sonia Junqueira (Autêntica); e O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro, e o Grande Urso Esfomeado, de Don e Audrey Wood (Brinque-Book). Valéria Riccomini, diretora da Fundação, afirma que a ação é direito básico das crianças. “Ler para elas faz parte não só de sua preparação para a aprendizagem, mas ajuda no desenvolvimento socioafetivo, quando se vê a relação que criam com um adulto. Além disso, incentiva a inventividade, trabalha os medos, entre outros benefícios”. Em recente pesquisa encomendada pela instituição para o Datafolha, apesar de 96% dos respondentes acharem que é importante ler para uma criança, apenas 37% têm o hábito. A educadora Daniela Mott, que trabalha com leitura em sala de aula para crianças de 4 anos, avalia que é possível ver o desenvolvimento dos alunos com o passar do tempo. “No início eles ficavam um pouco tímidos e apenas ouviam, mas ao se familiarizarem adquiriam confiança e admiração em relação ao adulto.” Ela sempre propõe aos alunos, após a leitura, que inventem um final diferente para a história. “Peço que acrescentem um personagem e eles adoram, conversam entre si, dramatizam. Isso cria um vínculo de amizade e carinho entre o adulto e a criança.” De sua experiência, conclui que as crianças não alfabetizadas conseguem, de maneira surpre-

endente, observar, imaginar e criar algo diferente, aprendendo facilmente a converter palavras em ideias. Segundo a Fundação Nacional de Leitura Infantil dos Estados Unidos (National Children’s Reading Foundation), ler durante 20 minutos por dia para os filhos nos primeiros cinco anos de vida é o equivalente a 600 horas de pré-alfabetização. De acordo com estudos dessa entidade, ler “conecta” as células do cérebro em redes que depois facilitarão a leitura quando a criança estiver sozinha. Ela vai poder distinguir sons (percepção de fonética), reconhecer letras e elaborar estratégias para descobrir novas palavras (decodificação), desenvolver habilidade para entender o que os termos significam em referência ao mundo real (criar contextos), além de desenvolver um bom vocabulário oral (aproximadamente 5 mil palavras, ainda no jardim de infância).

Saiba mais em <itau.com.br/itaucrianca>.

COMO FORMAR O PEQUENO LEITOR Veja dicas do Leia para uma Criança > Tenha conversas frequentes com seu filho. Ouça-o e faça perguntas cujas respostas precisem ser mais que uma ou duas palavras. > Leia ao menos 20 minutos por dia. Reserve um horário e tente mantê-lo. Torne o hábito prazeroso para ele e para você. > Deixe os livros ao alcance das mãos, em todos os cômodos da casa. Livros devem ser usados e não guardados. > Dê o exemplo e leia você também. É com o exemplo que aprendemos. > Frequente livrarias e bibliotecas. Presenteie com livros, gibis ou revistas. > Incentive seu filho a contar as histórias que ouviu a outras pessoas. > Pais que não são leitores fluentes ou não gostam de ler podem contar histórias de sua própria vida, de sua imaginação, ou criar narrativas com imagens de livros ilustrados.


ritmo & poesia REPORTAGEM |

ENTRE RINHAS E SARAUS Encontros de poesia e batalhas de MC fortalecem a cena paulistana do rap FOTOS paulo papaleo

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TEXTO mariana de andrade


ritmo & poesia REPORTAGEM |

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” Quando Felipe Rima ouviu esses versos pela primeira vez, identificou-se na hora. Para ele, a tal pedra era o crack, droga que, desde pequeno, via desestruturar sua família. Antes de conhecer a poesia de Drummond, Felipe já escrevia versos – mas em forma de ritmo & poesia, ou rap. O poeta e rapper compartilhou sua história de aproximação com o gênero literário no Sarau Suburbano, evento realizado todas as terças no bairro paulistano Bixiga. Como diversos saraus em São Paulo, o Suburbano vem se tornando um ponto de encontro importante para a cena do rap da capital. Os MCs se apossam do espaço para, além de ouvir e recitar trabalhos, divulgar eventos e fazer contatos. Outro fiel frequentador do Bixiga é Fabio Duarte Gomes, o Fabio Boca. O rapper, que faz parte do DiQuintal – mesmo grupo do MC Amiri, uma das novas apostas da cena –, foi selecionado neste ano para representar o Brasil na 9ª Copa do Mundo de Slam. A competição, realizada na França, reúne poetas de diversos países que declamam versos de autoria própria a um júri e a uma plateia. Para Boca, os encontros de poesia foram um divisor de águas, porque despertaram o hábito da leitura e uma cobrança maior com o próprio trabalho. Mas isso não significa que o rap tenha tomado um discurso menos carregado de crítica social – o rapper cresceu ouvindo Racionais MC’s por influência do tio, que foi assassinado. “O prazer da leitura abre um portal para novas linguagens, para um novo dialeto misturado ao que a gente traz da rua. Na verdade, a linguagem não se tornou mais sutil; é que hoje a gente está com mais bala no pente, porque existem argumentos que a gente sabe usar e ouvir – então ela ficou mais rica”, acredita. Boca também não perde o Sarau Rap, evento realizado no Centro Cultural

São Paulo, no qual rimadores e rimadoras declamam suas letras sem o apoio musical. Apresentado por Sérgio Vaz, da Cooperifa, o sarau conta ainda com pocket shows de grupos da cena do rap, novos e veteranos. Se os anos 1990 foram marcados pela ascensão do rap no Brasil na voz dos Racionais MC’s, com a tônica direta da crítica social, os anos 2000 revelaram nomes como Emicida, Projota e Rashid – uma geração conhecida por explorar novas linguagens e temáticas. No entanto, para quem vive o movimento hip-hop, a pluralidade no rap nacional sempre existiu. “Naquela época o SNJ era muito diferente dos Racionais, que eram muito diferentes de RZO, DMN e Consciência Humana. Cada um tinha uma cara, só que por baixo muita gente fazia igual, inclusive eu”, brinca Projota. O rapper dá uma pista do que pode ter mudado de lá para cá. A internet facilitou a busca por mais influências e pelo conhecimento. Hoje você vê influências do funk e o soul, totalmente presentes nas novas músicas do Mano Brown, na levada e também nos temas que ele tem abordado. Ele é uma máquina de evolução e realmente não fica parado”.

O FREESTYLE

Em meados dos anos 2000, a Galeria Olido, no centro, era um dos únicos pontos de encontro dos apreciadores de rap em São Paulo. Os eventos do gênero na cidade se tornaram escassos após o boom da cena nos anos 1990 e muitos jovens sentiam falta de um local onde pudessem trocar informações. Para suprir essa demanda um grupo de amigos resolveu montar, próximo ao metrô Santa Cruz, uma competição de rap de improviso. Inspirada na Batalha do 1 Real, organizada no Rio de Janeiro, a Batalha do Santa Cruz se tornaria o primeiro encontro regular de freestyle da cena paulistana. Com o apoio do beatbox [arte de reproduzir sons de instrumentos de percussão com a voz], cada MC tem 30 segundos para rimar e a plateia é quem julga. A disputa pode chegar até o terceiro round, caso um dos MCs não ganhe duas sessões consecutivas. Na primeira edição da Batalha, em fevereiro de 2006, o vencedor foi Leandro Roque de Oliveira, que mais tarde ganharia a alcunha de homicida de MCs, ou – como preferiu ser chamado – Emicida. Além dele, os principais nomes da nova geração passaram pelo local.

Batalha do Santa Cruz, primeiro encontro regular de freestyle em São Paulo


“O QUE MAIS ME ENRIQUECEU NA ÉPOCA NÃO FORAM AS BATALHAS QUE GANHEI, MAS AS PESSOAS QUE CONHECI E OS MOMENTOS QUE VIVI.” PROJOTA

Encontro informal dos repentistas contemporâneos garante a renovação do rap

“Fazer contato, conhecer gente, era o mais importante. O que mais me enriqueceu na época não foram as batalhas que ganhei, mas as pessoas que conheci e os momentos que vivi”, diz Projota. E um dos amigos que fez foi Emicida. Ao final das batalhas, voltavam juntos, de metrô, para a zona norte de São Paulo. O freestyle também ajudava na presença de palco. “Naquela época, a gente não tinha onde cantar, não tinha show para fazer e nunca subia num palco. Quando eu fazia improviso, tinha lá umas 200 pessoas, paradas, olhando para mim.” Parecido com o repente, as batalhas de freestyle exigem que o MC saiba agradar ao público. A preocupação é desestabilizar o oponente – criticando sua roupa ou a falta de habilidade com as palavras, por exemplo. As referências ao hip-hop no discurso dos MCs também chamam a atenção da plateia julgadora, mas, sem dúvida, apropriar-se da fala do adversário e soltar uma resposta superior conta mais pontos, porque demonstra que o rapper realmente domina a arte do improviso. Hoje há diversas batalhas por São Paulo. Apesar da importância delas para o rap paulistano, Marcello Gugu, membro do coletivo que organiza a Batalha do Santa Cruz, acredita que existam outros elementos consolidadores da cena, até porque muitos rappers não se propõem a batalhar. “O freestyle nasce e morre no momento, o que vai perpetuar e fazer seu nome é a música. Batalha dá uma visibilidade muito boa, mas tem o lance da transição, de mostrar liricamente que você escreve melhor do que faz freestyle. Quando você escreve, tem tempo de lapidar cada ideia, de se aprofundar mais e ser genial”, explica.

O MERCADO DO RAP

De forma geral, shows, batalhas e saraus são os locais onde os MCs desconhecidos de São Paulo conseguem divulgar e vender suas mixtapes – CD produzido de forma mais artesanal e independente. Nesses eventos, muitos acabam conhecendo produtores, beatmakers e rappers e criando parcerias para o futuro. Emicida, por exemplo, trabalha atualmente em seu primeiro disco, após ter lança-

do quatro mixtapes e alguns singles. Evandro Fióti, irmão e sócio do rapper no selo, produtora e loja virtual Laboratório Fantasma, acredita que esse era o único caminho disponível para os rappers. “Isso foi mais necessário no rap porque a gente sempre teve as portas fechadas. Se você não fizesse o próprio negócio, não divulgasse sua música e não visse uma forma de distribuir, ficava engessado, porque as gravadoras não aceitavam. Hoje, com esse boom, você até recebe propostas e rola uma maior aceitação. Mas anos atrás era impossível.” O selo, que também tem acordos com os rappers Ogí e Rael e com a banda Mão de Oito, já vendeu mais de 50 mil discos. Além do trabalho na rua, Fióti aponta, como Projota, a tecnologia como grande aliada do rap atual. “A internet ajudou muito a entregar a nossa música. O que a gente faz é isto aqui; se quer ou não é você quem vai determinar. A abertura da grande mídia – fazendo a gente chegar a milhões de pessoas – é o que mais ajuda, mas são todas essas pequenas iniciativas juntas que fazem o caldeirão pegar fogo”.

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Poucos meses depois de iniciada a Batalha do Santa Cruz, em 2006, o rapper Criolo e o MC e DJ Dan Dan resolveram criar um evento que agregasse, além da batalha de improviso, shows, grafite e outras manifestações artísticas. Estava criada a Rinha dos MCs. Nela, os rappers usam microfone e de-

vem acompanhar a batida dos DJs. Hoje é um dos eventos mais tradicionais da cena do hip-hop. Para Dan Dan, “se você prestar atenção, o hip-hop, o rap, está mudando a cena musical brasileira. E não é só por causa do Criolo. Tem o Rael da Rima, o próprio Emicida e uma galera chegando com outra musicalidade, porque o rap sempre teve essas misturas”. No entanto, o DJ deixa claro que a variedade de vertentes não altera o caráter ideológico do rap. “Em qualquer grupo sempre vai ter o discurso ideológico, por mais que tenha dez músicas falando de amor e só uma frase falando de mudança, porque isso está enraizado no rap, é natural.”


múltiplos e livros de artista REPORTAGEM |

Você também pode ter uma... Obras reproduzíveis ganham espaço em museus portáteis e lojas à margem do circuito tradicional das artes visuais

TEXTO leonardo foletto

Em pleno século XXI, quando se fala em artes visuais, a primeira lembrança ainda é a de museus e galerias, espaços que costumamos ir para contemplar uma obra de arte. Dentro deles é que, na maioria das vezes, apreciamos, viajamos, nos surpreendemos com um trabalho, ou refletimos sobre ele, não importa de qual técnica ou de que meio ele seja. Costumamos imaginar que será uma rara oportunidade ver tal obra em determinado lugar, e para isso nos preparamos. A menos que sejamos colecionadores ou galeristas, podemos sonhar em levar uma obra para casa, certo? Bem, não necessariamente. Desde o início do século XX, com as vanguardas históricas (futurismo, dadaísmo e surrealismo) e com a evolução tecnológica da reprodução, sabemos que uma obra de arte pode ser, sim, manipulada, remexida e, até mesmo, “levada para casa”. A partir do pós-modernismo das décadas de 1960 e 1970, tornaram-se populares obras com tiragem (pequena ou grande) maleáveis e reproduzíveis, que se costumou chamar de múltiplos – termo utilizado para identificar “um tipo de produção que tem como um dos princípios norteadores a disseminação da obra de arte, tornando-a, pelo procedimento da multiplicação, um bem de consumo acessível a um público mais vasto”, como explica Regina Melim, artista e professora do Departamento de Artes Visuais da Udesc (SC).

De Lygia Clark a Paulo Bruscky, passando por Hélio Oiticica e Antonio Dias, boa parte dos artistas brasileiros dos anos 1950 para cá realiza, ou já realizou, trabalhos cuja tiragem é ampla e reproduzível. A ideia de reprodução e tiragem desperta outro interesse no público, que vai desde a possibilidade concreta de colecionar – especialmente quando se fala de publicações de artistas, livros ou pequenas brochuras com tiragem limitada – até a de “brincar” com a obra. Sendo reproduzível, a criação artística perde a aura do não-me-toques tradicionalmente comum a quadros e esculturas e passa a poder ser manipulada livremente. EXPOSIÇÕES PORTÁTEIS

Para apresentar esses múltiplos, não raro profissionais da arte têm procurado fugir do formato tradicional dos museus e optado por exposições portáteis, que podem ser levadas a vários lugares. Regina é uma das artistas que recentemente passaram a investir nesse nicho: criou, em 2006, a plataforma par(ent)esis, com o objetivo de produzir e editar projetos artísticos e curatoriais em formato de publicações. Alguns dos trabalhos que já realizou nesse formato são PF (2006); amor: leve com você (2007); Coleção (2008); Conversas (2009); e Projeto A2 – Diego Rayck. “São mostras para ser feitas no espaço de uma publicação e que denomino exposições

portáteis”, diz a professora, em texto publicado no XXX Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. LOJA foi, talvez, o principal projeto curatorial da par(ent)esis. Criado em 2009, ele contemplava um conjunto de publicações de artista e objetos múltiplos, vindos de todas as regiões do país e, agrupados em uma exposição itinerante (“loja”), que circulou pelo Brasil e pela qual passaram artistas como Paulo Bruscky, Hélio Fiorenza, Fábio Morais, Michel Zózimo e Grupo Poro. A mostra ocupava um espaço físico (que podia ser um ateliê, uma sala na universidade ou uma galeria de arte) e os objetos reunidos (como livros, revistas, jornais, CDs, DVDs, cassetes, vinis, xerox, cartazes, postais, objetos múltiplos e adesivos) ficavam à disposição do público. As exigências para os artistas que tinham seus trabalhos vinculados ao projeto eram doar um exemplar para acervo (a que o público teria acesso) e o valor da obra não ultrapassar 300 reais. Regina explica melhor seu trabalho no livro Estratégias Expansivas: Publicações de Artistas e Seus Espaços Moventes, de Michel Zózimo, produzido com Bolsa Funarte de Estímulo à Produção Crítica em Artes Visuais: “O nome LOJA e a ideia de fazer uma exposição que fosse como uma loja surgiu a partir dessa busca de atender às


também muitos escritos típicos de banheiros públicos. Tudo valia.

fotos: Paulo Fernando Machado

Detalhe da instalação do projeto curatorial LOJA, do coletivo par(ent)esis

SENDO REPRODUZÍVEL, A CRIAÇÃO ARTÍSTICA PERDE A AURA DO NÃOME-TOQUES TRADICIONALMENTE COMUM A QUADROS E ESCULTURAS E PASSA A PODER SER MANIPULADA LIVREMENTE.

exigências que eu mesma colocava: possibilitar um acesso mais direto, mais próximo, do espectador e de este poder levar para casa cada uma das exposições-publicações. […] Porque o que sempre me interessou nos procedimentos artísticos, cujos formatos são o de publicações, é a possibilidade de poder multiplicar, de ser uma série que se estende e passa a lidar com outros valores, menos extorsivos, muitos deles tão ínfimos que qualquer um pode possuir. Nunca me interessei por publicações que se apoiam em tiragens mínimas como uma qualidade que as singularizam. A força está na circulação e na expansão do circuito”. No Brasil, o “mercado” de múltiplos vendidos em galerias ainda é incipiente. Algumas das que trabalham com os objetos são a Tijuana, inaugurada em 2007 junto da Galeria Vermelho, em São Paulo, e a Banca, ligada à galeria Mariana Moura, no Recife. Exemplos de trabalhos de destaque em exposições portáteis são Espaço de Bolso (2003), múltiplo dobrável impresso em offset, de Maria Lucia Cattani; Biblioteca de Bolso (2008), maleta biblioteca de Luciana Paiva; Projeto Malote (2005), maleta de Luana Veiga, que viaja pelas cidades carregando, coletando e expondo trabalhos portáteis de diferentes artistas; Sofá, publicações coletivas coordenadas por Raquel Stolf desde 2004; e Arquivo de Emergência, projeto pesquisa da arquivista Cristina Ribas.

poderiam ser levadas para casa, em troca de uma ação proposta pelo artista. As ações “pedidas” em troca das obras tinham a ver com o trabalho exposto. Por exemplo: para levar o Álbum Volume II Fotografia Velada, uma pequena caderneta impressa com 16 descrições de fotos que não aparecem, de Michel Zózimo e Fernanda Gassen, o visitante precisava deixar, por escrito, a descrição de uma foto – fosse ela real, fosse fruto de sua imaginação imediata. Entre as dezenas de descrições deixadas ao lado da obra, algumas eram poéticas e engraçadas, outras pitorescas, pornográficas ou oníricas e

A exposição foi realizada no Múltiplo SD, projeto portátil destinado a exposições alternativas de obras reprodutíveis criado em Santa Maria pelos artistas do grupo Sala Dobradiça (saladobradica. art.br), que trabalham com espaços recombinantes e obras múltiplas e colaborativas desde 2008. Como explica Alessandra Giovanella, integrante do grupo, “as exposições do Sala Dobradiça mantêm as noções espaciais, conceituais e constitutivas do grupo e moldam-se também pela ideia de recombinação e espaço expositivo móvel, suscetível a interferências, montável e itinerante”. Nesse contexto do Dobradiça, as obras de Zózimo caíram como uma luva. Diferentemente do que alguns imaginam, os múltiplos não estão, necessariamente, ligados à popularização da arte. Paula Braga, curadora e doutora em filosofia pela FFLCH/USP, diz que a ideia de popularização é, até mesmo, perigosa: “Para que popularizar a arte? Para as pessoas terem uma obra de arte do mesmo jeito que elas têm uma televisão ou um carro popular? Arte não é produto. Eu não preciso comprar para ter uma bela obra de arte”, explica. Para Paula, as galerias que trabalham com múltiplos não optaram por eles devido ao baixo valor: “Se você começa a pensar em múltiplo para ser barato, acaba instrumentalizando a arte como produto. É múltiplo porque nasceu múltiplo”. Zózimo tem uma fala parecida sobre o assunto: “Os múltiplos se inserem numa camada que, como obras tradicionais, não entrariam. Mas não penso na democratização como uma ideia política. Faço as publicações que gostaria de comprar e não as encontro”, observa.

Saiba mais sobre múltiplos consultando o verbete relativo ao tema na Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais (itaucultural.org.br/enciclopedias).

Vista da Sala Dobradiça, projeto portátil do grupo homônimo

MÚLTIPLOS DOBRADIÇOS

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No I Seminário de Copesquisa em Arte, realizado durante três dias de outubro de 2012 no Centro de Artes e Letras da UFSM (RS), um grande bloco de metal instalado no hall do prédio que abrigava o evento chamava a atenção: era uma exposição itinerante, com algumas pequenas obras de arte que


acabou chorare CERTIDÃO DE NASCIMENTO |

TININDO e TRINCANDO O disco Acabou Chorare, dos Novos Baianos, completa quatro décadas e continua a ostentar o título de um dos maiores álbuns brasileiros de todos os tempos

TEXTO gustavo angimahtz

Copos de diversas cores e tamanhos, bule, panela, talheres jogados a esmo em uma superfície suja. Assim os músicos dos Novos Baianos apresentaram, há quarenta anos, a capa do álbum que viria a ser sua obra-prima: Acabou Chorare, produzido por João de Araújo e Eustáquio Sena e gravado pela Som Livre. O LP de 1972 recebeu da revista Rolling Stone, em 2007, o título de Maior Álbum da Música Brasileira de Todos os Tempos. É uma ode à alegria, percebida antes mesmo de escutar seu conteúdo, na leitura das palavras do título. Entre as curiosidades e histórias que o cercam

ILUSTRAÇÃO indio san

está o fato de que seus músicos viviam em uma comunidade alternativa. À época do lançamento, dois anos após o do primeiro álbum (Ferro na Boneca), os baianos arretados – Baby Consuelo (voz), Moraes Moreira (letras e violão), Pepeu Gomes (craviola, guitarra e voz), Luiz Galvão (letras) e Paulinho Boca de Cantor (voz) – coabitavam parte do tempo um sítio em Jacarepaguá (batizado de Recanto do Vovô) e outra parte um apartamento em Botafogo, ambos no Rio de Janeiro. Eram vistos pela sociedade como hippies estranhões. Pediam esmola nas ruas para pagar as

contas e, quando o valor arrecadado ultrapassava o que precisavam, doavam a qualquer cego ou bêbado que passasse por eles. O restante da banda, que também vivia no sítio, era formado pelo baixista Didi, pelo baterista e cavaquinista Jorginho Gomes e pelos percussionistas Baixinho e Bolacha. Quando lançou o segundo álbum, o grupo já contava com a presença de nomes como Tom Zé, que ensinou Moraes Moreira a tocar violão e o apresentou a Galvão; o pai da bossa nova João Gilberto, que os guiou na confecção da obra; e Caetano Veloso, que os recomendou à Som Livre. Posteriormente, os Novos Baianos


deu depois de quase uma década sem contato, ao receber uma carta endereçada ao “Luizinho” pelo próprio compositor, como conta a passagem do livro: “João disse-me: ‘Luizinho, nunca o esqueci. Aquela carta que me escreveu [...] eu guardo até hoje. Venha às duas da madrugada que tenho um presente pra você. Preste atenção, Luizinho, ligue pra mim às cinco da tarde. Não esqueça’. Às 4 horas e 30 minutos, eu já estava na fila do orelhão, deixando que as pessoas fossem passando [...]. Aturei muito papo de empregada doméstica e operário de obra namorando [...]. Disse-me: ‘Vá descansar, temos que estar preparados. Um encontro é coisa séria. É o melhor que se pode dar a alguém”.

Só Somente Só [...] Entre o primeiro LP e este Entra João Gilberto (pausa) O dom eles já tinham Agora o som mais perto, Mais experto mais Certo [...] (Augusto dos Anjos, em poema que consta no encarte do álbum Acabou Chorare, anuncia o novo som que traria mudanças na concepção da música popular brasileira para sempre.)

Depois de lançado, o disco rendeu aparições em programas de televisão – que variaram de Cassino do Chacrinha e Fantástico a Ensaio –, um convite para o longa Novos Baianos F. C., encomendado por uma rede de televisão alemã, e o Prêmio de Melhor Capa do Ano, para fechar com chave de ouro a consolidação do título no hall da fama da música popular brasileira e mundial. O livro A História dos Novos Baianos e Outros Versos (Língua Geral, 2007), de autoria de Moraes Moreira e escrito em poesia, revela detalhes curiosos: viriam a arrancar elogios de celebridades musicais, como Astor Piazzolla, Gilberto Gil, Cazuza e Jorge Mautner. Mal sabiam eles que a mistura de samba, bossa, psicodelia e rock iria enlouquecer gerações, não apenas naquele tempo, mas durante décadas. O disco traz sucessos como “Brasil Pandeiro”, de Assis Valente, sugestão de João Gilberto; “Preta Pretinha”, de lírica repetitiva e instrumentação forte e crescente; “A Menina Dança”, que mascara críticas à ditadura na doce e ao mesmo tempo ácida voz de Baby Consuelo; “Besta É Tu”, hit atemporal usado na trilha sonora do premiado longa brasileiro Durval Discos; e a faixa homônima “Acabou Chorare”, mais íntima à bossa nova de João Gilberto, pelo seu arranjo minimalista e introvertido. Esta última ficou por mais de 30 semanas nas paradas de sucesso das rádios de todo o país. As outras faixas comportam-se de forma tão ou mais envenenada, em razão da mistura de timbres e da complexidade dos arranjos, como em “Tinindo, Trincando”, “Mistério do Planeta”, “Um Bilhete pra Didi” e “Swing de Campo Grande”. Um ingrediente especial da sonoridade do disco – além das leves pitadas de bossa cuidadosamente espalhadas por todo o trabalho – é o uso da craviola. Trata-se de um instrumento de 12 cordas projetado por Paulinho Nogueira, de som forte e limpo. Há também a inserção de solos virtuosos de guitarra em diversas músicas, que agregaram mais peso ao som do pandeiro, do violão e da percussão, aproximando o timbre instrumental da voz aguda e alegre de Baby Consuelo. A combinação conferiu ao disco uma originalidade sonora que resiste até hoje. Em “Mistério do Planeta”, por exemplo, ritmos diversos e sincopados deságuam num solo inconfundível de guitarra.

O título Acabou Chorare é um invento inocente e literalmente acidental de Izabel Gilberto de Oliveira, ou Bebel Gilberto, cantora e filha do compositor João Gilberto. Quando criança, ela caiu no chão e seu pai foi acudi-la. Para não preocupá-lo, já que João estava em meio a um ensaio com os Novos Baianos, Bebel proferiu: “Não machucou, papai, acabou chorare”, misturando português, espanhol e inglês, miscelânea de idiomas possibilitada por suas viagens com o pai. Para Baby, o nome representava o fim da tristeza no cinzento regime militar. O contato com João veio por meio de Galvão, já que os dois eram conterrâneos de Juazeiro (BA) e amigos de infância. João Gilberto se tornou o padrinho do álbum – ou “produtor espiritual”, como os baianos gostavam de chamá-lo – e botou seus dedos nas composições, criou arranjos e acompanhou desde o início o projeto, a canção homônima do disco e a turnê que viria a seguir. Quando em determinado momento a polícia ameaçou prender os baianos por vadiagem, João funcionou novamente como guru e tratou de acalmar a trupe: “Não esquentem, não. Vamos continuar o som. Vamos continuar o sonho”, disse o compositor. E no que dá misturar a calma e o silêncio de João com o frenesi de Baby Consuelo? A resposta é Acabou Chorare. Luiz Galvão conta no livro Novos e Baianos (Editora 34, 1997), de sua autoria, episódios vividos com João Gilberto, como o dia em que o reviu pela primeira vez após 1961. O encontro se

“Das terras do Tio Sam Chegou de volta ao Brasil O grande João Gilberto, Era uma linda manhã E a notícia saiu Galvão ficou logo esperto” Moraes anuncia no trecho transcrito que o retorno do pai da bossa nova aguçou Galvão, que logo correu ao seu encontro. Em outro verso, narra o primeiro encontro: “Aconteceu o contato Num longo telefonema O papo foi animado João estava de fato Já morando em Ipanema Pois o endereço foi dado” Um terceiro trecho da obra expressa claramente a mistura de sons presente no álbum, sugestão de João Gilberto acatada por todos em diversos e animados encontros no apartamento de Botafogo: “Uma atitude roqueira Completamente a serviço Assim como quem descamba Agora já estava inteira Centrada num compromisso Caindo de vez no samba” Os Novos Baianos são reverenciados por jovens e adultos de todo o globo terrestre, e ao apertar o play é fácil perceber o motivo de tamanha adoração. A energia que o som emana parece se transformar positivamente com o tempo e é fácil prever mais quarenta anos de vida aos já não tão novos baianos.

Veja no iPad uma galeria de imagens de show em homenagem aos Novos Baianos, no Festival Continuum, em dezembro.

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Uma das histórias mais esotéricas entre as milhares que Acabou Chorare esconde é a da música

“Swing de Campo Grande”, que fala sobre invisibilidade, segundo Paulinho Boca de Cantor. A pauta da canção surgiu do encontro entre o músico e um rezador, que os orientou a “olharem para si próprios, virarem moita e virarem touca”. Acatando ao pé da letra a profilaxia do rezador, a banda passou cinco anos sem pagar IPVA e nunca foi pega pela ditadura, além de usar sem economia as expressões “virar moita” e “virar touca” na letra da canção.


gilberto gil por andré vallias DEPOIMENTO |

foto: gerardo lazzari

G

DE GIL

O percurso criativo-afetivo trilhado por dois artistas da contemporaneidade

TEXTO andré vallias

Em um dos muitos depoimentos que concedeu às vésperas de seu septuagésimo aniversário – comemorado no dia 26 de junho de 2012 –, Gilberto Gil declarou que era metade GENTE e metade ENTE. Subtraindo-se o segundo termo do primeiro, sobra a letra G: que eu tomei a liberdade de ler como representação gráfica de um “radar” (ou de um loop cibernético) para criar a identidade visual da exposição GIL70. Um símbolo perfeito para essa que eu julgo ser uma das mais dinâmicas e abrangentes personalidades criativas nascidas no Brasil, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. “Gilberto misterioso”, como foi homenageado naquele mantra readymade de Caetano Veloso, que repete à exaustão o verso do poeta romântico Sousândrade: “Gil engendra em Gil rouxinol”.

e empresária, Flora. Ficou encantado com o abacateiro tridimensional e colorido no qual havia estruturado a navegação das páginas, valendo-me de metáforas que colhi de sua obra.

Tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente em 1995, em São Paulo, para aprovar a primeira “floração” de seu website, encomendado por sua mulher

O site foi inaugurado em abril daquele ano com grande repercussão na mídia. Afinal, Gil era o primeiro artista de peso a fincar o pé na “infoesfera” e o

Eram tempos austeros na world wide web e os designers eram impiedosamente patrulhados pelos engenheiros da informática, a ordenar que links fossem azuis e sublinhados e mais tantas outras regras da chamada “usabilidade”. Eu retornava de uma estada de oito anos na Alemanha, onde havia começado a criar poemas visuais com os recursos do computador, para dar, em seguida, e já no Brasil, meus primeiros passos na feitura de aplicativos multimídia para CD-ROM.


resultado foi saudado como “primeiro marco criativo” da nascente web brasileira. Na página de abertura, uma única explicação: “Web vem de weave = tecer; Site, do latim situs = situação, posição; daí o nosso sítio, que é local, terreno e povoação; campo, roça e fazendola. Web Site (diria então Gilberto Gil) é renda(re)fazenda...” Em breve, eu estaria me mudando para o Rio de Janeiro, a fim de tocar a recém-fundada produtora de web Refazenda, que seria responsável pela entrada na internet de um grande rol de artistas da MPB: Caetano Veloso, Cazuza, Gal Costa, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Jorge Mautner, Vinicius de Moraes, Paulo Moura, Ary Barroso, Arnaldo Antunes, Jorge Ben Jor, Titãs e Dona Ivone Lara, entre outros. O segundo desafio que Gil me lançou veio logo após a inauguração do site: a criação da capa de Quanta, disco no qual ele já trabalhava na época do nosso primeiro encontro. Ele me mostrou um desenho que havia feito a lápis num pequeno pedaço de papel-manteiga e me explicou o conceito do disco, todo centrado na relação arte e ciência. Daí surgiu a imagem final, construída num programa de desenho 3D e pacientemente modelada até ficar com a ondulação de seu gosto. Essa é, de todas as capas que vim a fazer para Gil, a única que considero um autêntico poema digital. Foram muitas as conversas que tive com ele nesses anos de convívio intermitente – porém não tantas como a extensão do tempo possa dar a entender: a agenda de Gil é inclemente. Aquela que eu talvez mais tenha conservado viva em minha memória relapsa ocorreu alguns dias depois de um grave acidente aéreo em São Paulo. Falamos sobre a efemeridade da vida, e ele me disse, para grande surpresa minha, ser um devoto de Nossa Senhora da Boa Morte... Desde então, passei a prestar atenção especial em todas as vezes que Gil aborda, em depoimentos ou canções – “Não Tenho Medo da Morte” é sem dúvida o ápice até o momento –, esse tema tão pouco usual para os nossos tempos obcecados pela busca da eterna juventude. Suas palavras de então me inspiraram um poema que só agora dou a público [ao lado]. André Vallias, curador da exposição GIL70, é designer gráfico, poeta e produtor de mídia interativa.

ORÁCULO para gilberto gil

circunspecto serelepe grilo-falante mestre/moleque seus olhos calam(ex)clamam a alegria salobra dos q sabem q a arte está para a vida como as ondas para o oceano q os gritos do santoguerreiro soam sim nos ouvidos do destino mas não acalmam o seu tear o cantochão daqueles q oram [memento mori (a)moroso] pela boa hora quiçá

Visite a exposição GIL70, com obras de Carlos Adriano, Ricardo Aleixo, Arnaldo Antunes, Lenora de Barros, Vivian Caccuri, Adriana Calcanhotto, Augusto de Campos, Ivan Cardoso, Antonio Dias, Eduardo Denne, Bené Fonteles, Lula Buarque de Hollanda, Jarbas Jácome, Gabriel Kerhart, Raul Mourão, Carlos Nader, Antonio Peticov, Gualter Pupo, Omar Salomão, Daniel Scandurra, Ariane Stolfi, André Vallias, Caetano Veloso, Andrucha Waddington e Luiz Zerbini, no Itaú Cultural. Saiba mais em <itaucultural.org.br>.

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Esboço criado por Gilberto Gil que inspirou André Vallias na concepção do álbum Quanta, considerado por este um poema visual


irandhir santos PERFIL |

GANHAR O MUNDO

para voltar ao mesmo lugar Conheça, em dez cenas, os caminhos que levaram o ator Irandhir Santos a participar de alguns dos filmes mais importantes da atual safra do cinema brasileiro

TEXTO mariana lacerda

FOTOS ricardo labastier

1ª CENA – CLODOALDO

Clodoaldo é segurança de rua em um bairro de classe média do Recife. Seu trabalho é comum em metrópoles brasileiras. Esses profissionais cobram da vizinhança algum valor, qualquer valor, para ficar atentos à movimentação nas redondezas de casas e edifícios. Sabem o horário de chegada e de saída de cada morador, observam os conflitos e as formas de viver de todos nós. Clodoaldo é o protagonista do filme O Som ao Redor, interpretado pelo ator pernambucano Irandhir Santos. Atualmente, seu rosto e gestos estão nas telas do mundo. Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho em 2010, o longa ganhou prêmios de Melhor Filme em festivais importantes no Brasil, como os do Rio de Janeiro e de Gramado, além da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em novembro. Foi ainda premiado em festivais da Holanda, da Sérvia e da Polônia.

“Foi um personagem difícil de fazer por ser muito contido. Ele tinha de esconder algo, uma força. E naturalmente eu gosto do trabalho expansivo. Havia momentos silenciosos, de ações simples como caminhar. Para isso, tinha textos mentais que só eu e meu caderninho de anotações conhecemos. São os pensamentos que o personagem tem enquanto executa gestos triviais”, conta Irandhir. 2ª CENA – LUGARES

O ator está construindo o personagem que fará no filme Obra, de Gregório Graziosi. Será o seu 17o longa-metragem desde 2005, quando estreou em Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. As filmagens estão previstas para janeiro de 2013. “É sobre um arquiteto e sua relação com diferentes camadas da memória da cidade de São Paulo, que subitamente emergem e afetam o presente”, diz o

diretor. O personagem de Irandhir é O Arquiteto. Para ir ao seu encontro, ele está lendo Não-Lugares (Papirus, 1994), do antropólogo francês Marc Augé. 3ª CENA – CADERNOS

Pensamentos, desenhos, passagens de textos literários e filosóficos (como os de Marc Augé), fotografias, conversas. Sempre que está construindo um personagem, Irandhir leva consigo um pequeno caderno, estreito e com espiral – em um formato elaborado por ele, encadernado em papelaria. Ali, anota pensamentos ora seus, ora do personagem. Sequências recortadas do roteiro são coladas, postas lado a lado. “Trata-se de um elo entre mim, o personagem e o roteiro”, diz. Depois das filmagens, “os caderninhos”, como ele diz, vão parar na estante. As memórias ali contidas podem ser vasculhadas a qualquer momento.


4ª CENA – CLÉCIO

8ª CENA – ESCOLA

9ª CENA – ESTREIA

Corta para Tatuagem. A narrativa ocorre em 1978, mas não se trata de um filme de época. O argumento remete ao teatro/evento chamado Vivencial Diversiones, plantado em uma área de mangue entre o Recife e Olinda. Ali, experiências teatrais e musicais abriam uma fenda lúdica no regime militar. O Diversiones foi a referência do roteirista Hilton Lacerda para construir, em Tatuagem – seu primeiro trabalho como diretor –, o Chão de Estrelas – liderado por Clécio. “Não escrevi o personagem para Irandhir. Mas pensava, enquanto escrevia, em seu arco físico e dramático”, diz. As discussões sobre gênero, autoridade, resistência, sexualidade e as diversas formas de amar estão na obra. “O trabalho mostrou sua coragem como ator mas, antes, como ser político. Quando ele abraça Clécio, entende politicamente o que o personagem representa”, conclui.

Quando adolescente, Irandhir estudava em uma escola pública em Limoeiro, distante 80 quilômetros do Recife, no agreste de Pernambuco. Nas aulas de português e literatura, precisava recitar e encenar textos. Foi quando percebeu que gostava em especial dessas atividades. As apresentações tornaram-se cada vez mais elaboradas. Nascia o teatro em sua vida.

A metrópole era o destino natural para quem queria ingressar na universidade. Em uma escola grande do Recife, Irandhir começou a se preparar para o vestibular. Na época, sua professora de literatura, Goretti, o apresentou ao estudante de arquitetura que trabalhava no Grupo Serafin de Teatro. Ele juntou-se à trupe e estreou nos palcos em 1996, na peça Liberdade, Liberdade, de André Cavendish. Formou-se em artes cênicas na UFPE.

5ª CENA – DESCOBERTA

Por muito tempo Irandhir pensou que cinema seria para ele algo intangível. Seu primeiro contato com essa arte foi no Cinema da Fundação, sala que frequenta assiduamente na capital pernambucana, que assistiu ao curta-metragem Soneto de um Desmantelo Blue (1993), de Cláudio Assis. Na tela, viu uma projeção que falava uma língua com seu mesmo sotaque e se situava na cidade onde ele vivia. Tudo mudou para o ator. O encontro com Cláudio Assis se deu nos testes de elenco para Baixio das Bestas (2006). Irandhir foi escalado para fazer Maninho. Com o papel, ganhou o Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Brasília.

Seu pai, hoje aposentado, era funcionário do Banco do Brasil, por isso, a cada dois anos, a família tinha de se deslocar de cidade. A preferência era sempre estar próximo de Limoeiro, onde Irandhir nasceu, numa casa com irmã e irmão, além de um tio de idade similar. Em busca de uma formação melhor para os filhos, o pai os matriculou em uma escola particular de Limoeiro. As aulas de literatura que despertaram o talento do menino foram deixadas para trás. No novo colégio, ele articulou grupos que ensaiavam e se apresentavam em datas comemorativas.

10ª CENA – INÍCIO

O trabalho se encerra quando projetado na tela de cinema? “O filme continua nos comentários que recebo de amigos, colegas e desconhecidos. Para cada pessoa, o resultado ressoa de forma diferente e isso me interessa muito.” O elo enfim se fecha, conta Irandhir, quando ele volta à casa de seus pais, em Limoeiro. E, então, sentado em uma cadeira na calçada em frente da casa, com os irmãos, o pai e a mãe, e vendo o movimento da rua e das suas dez sobrinhas (sim, todas meninas!), o mundo volta ao ponto exato onde tudo começou.

Por muito tempo, Irandhir pensou que o cinema seria intangível para ele. Hoje, seu rosto está nas telas do mundo

6ª CENA – GENEROSIDADE

O cineasta Leonardo Lacca, que em junho de 2012 dirigiu o ator no filme Permanência (em montagem), diz que a generosidade de Irandhir transcende os limites da atuação. “Em cinema, cada um trabalha em seu quadrado. Quem faz foto está vendo a luz, por exemplo. Irandhir transpõe seus limites e consegue, com pequenos gestos, no meio da cena, ajudar na captação de som e da fotografia e no trabalho de todos.” 7ª CENA – POETA

“Aprendi fazendo”, diz Irandhir sobre como o cinema entrou na sua vida profissional. “Esse sentimento encontrou sua expressão máxima nos trabalhos que desenvolvi ao lado de Hilton Lacerda.” Em Febre do Rato (2012), de Cláudio Assis, seu personagem recita poemas, todos escritos pelo roteirista.

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Irandhir conta que não estava conseguindo fazer com que cada poesia fosse sua, a ponto de recitá-las com a carga emotiva que as cenas e os personagem tinham. Em uma tarde no “quintal”, cenário principal da narrativa, Hilton explicou ao ator o contexto de criação de cada um de seus poemas. “Entendi para quem eram aquelas palavras, em que momentos foram escritas e o real significado de cada uma delas.” Nasceu assim o Poeta – ou Zizo. Com ele, Irandhir ganhou o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Paulínia, em 2011.


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REPORTAGEM |

TEXTO duda porto de souza

FOTOS divulgação

Nos últimos 15 anos, a arte pública firmou-se como uma das mais vigorosas linguagens artísticas por meio de trabalhos em grande escala de nomes como o do americano Jeff Koons e do indiano Anish Kapoor. Mas só mais recentemente é que o mercado da arte passou a se dar conta da relação entre as obras instaladas em espaços urbanos e a economia das cidades. O projeto da escultura Train, de Koons, estimado em 25 milhões de dólares (cerca de 50 milhões de reais), é um exemplo disso. Trata-se de uma réplica em tamanho real de uma locomotiva a vapor suspensa verticalmente por um guindaste. Concebida em 2003, a obra não tem data prevista para a instalação, de acordo com a equipe do artista, em razão da falta de financiamento. A expectativa para que ela saia do papel, no entanto, permanece alta. Atualmente, o Los Angeles County Museum of Art (Lacma) e a organização Friends of the High Line (parque

suspenso nova-iorquino) disputam para seus espaços a instalação do projeto, e também conversam sobre a possibilidade de ambos abrigarem a mesma versão da obra. O fato é que apenas a perspectiva de exibir a instalação de Koons a céu aberto e aumentar ainda mais o potencial de atração turística dos locais já mexe na economia dessas cidades e dos Estados Unidos como um todo. “Amigos de diferentes cantos do mundo me dizem que, assim que o projeto for instalado, vão comprar passagem para vir para cá só para vê-lo de perto, e não por fotos”, diz Alexandre Tutundjian, publicitário brasileiro radicado em Nova York. Para Marcello Dantas, “a arte pública é um investimento na economia local e na capacitação técnica e de criatividade inovadora da sociedade”. O curador é responsável por alguns dos projetos mais bem-sucedidos desse segmento, como a exposição das

esculturas do britânico Antony Gormley em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, em 2012, e o evento OiR – Outras Ideias para o Rio, que vai promover intervenções artísticas inéditas em cartões-postais da capital fluminense até a Olimpíada de 2016. Entre os artistas que já participaram dessa ação estão os ingleses Andy Goldsworthy e Brian Eno, o espanhol Jaume Plensa, o norte-americano Robert Morris, o japonês Ryoji Ikeda e o brasileiro Henrique Oliveira. “Todas as obras dos projetos que temos feito são construídas, desenvolvidas e implementadas no Brasil com soluções locais ou com soluções integradas entre experts estrangeiros e técnicos brasileiros”, explica Dantas. O curador afirma que quase a totalidade dos recursos é empregada de volta no setor de serviços e provoca um aprimoramento técnico de fornecedores, artesãos e equipes. “OiR trouxe um retorno de mídia para o Rio 30 vezes superior ao investimento do projeto. As imagens das obras de Gormley, por sua vez, colaboraram


“ARTE PÚBLICA É UM INVESTIMENTO NA ECONOMIA LOCAL E NA CAPACITAÇÃO TÉCNICA E DE CRIATIVIDADE INOVADORA DA SOCIEDADE.” Marcello Dantas

Detalhe da instalação Clara Clara, da artista Laura Vinci

nos tempos do Império. Ambos movimentam-se lentos a 20 quilômetros por hora. “A carruagem é um símbolo mais adequado para representar a mobilidade nas ruas da cidade”, declarou o artista em sua página. Ao se apropriar da arquitetura de um cartão-postal contemporâneo da metrópole Srur deu ainda mais voz à sua obra. O curador Felipe Brait, responsável por outro projeto de sucesso nesse segmento, o URBE – Mostra de Arte Pública, ao lado dos colegas Alessandra Marder e Júlia Clemente, avalia que é importante entender que a relação da arte com o espaço público muitas vezes serve como porta-voz ou deflagradora de determinado contexto dentro de uma cidade, como a especulação imobiliária ou processos de gentrificação, quando populações de baixa renda acabam deixando certas áreas que passam a ser muito valorizadas. Detalhe da obra Carruagem, de Eduardo Srur, na Marginal Pinheiros, São Paulo

para a percepção de que o Brasil é um forte mercado para as artes, o que pode ser comprovado com as futuras instalações de galerias como a White Cube e a Gagosian no país”, complementa. ESPECULAÇÃO E GENTRIFICAÇÃO

O exemplo carioca tem ressonância também em São Paulo. Um dos artistas mais atuantes no cenário brasileiro da arte pública, o paulistano Eduardo Srur expôs, entre setembro e outubro passados, a obra Carruagem, que questionava os problemas de mobilidade urbana na capital paulista. Segundo informações obtidas no site do artista, a intervenção consistia em uma réplica de carruagem e quatro cavalos esculpidos em escala real, instalada no mastro da ponte estaiada da Marginal Pinheiros, a 30 metros de altura.

Já a artista paulistana Laura Vinci avalia que a cidade falha justamente por não ter uma política mais arrojada que envolva projetos urbanísticos e artísticos agregadores e permanentes. “O incentivo à arte pública é uma maneira de incrementar essa política. Mas seria muito bom se ele fosse articulado com uma ação maior”, acredita Laura, que realizou a instalação Clara Clara (2006-2007) no centro da capital, como parte do edital Arte na Cidade, apropriando-se da iluminação pública para dar vida à obra. “Houve uma integração muito grande com os pequenos comerciantes”, conta. “Os frequentadores da região se sentiram valorizados por aquela ação”, resume.

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A obra comparava a velocidade média de deslocamento de um carro no trânsito paulistano no horário de pico e a velocidade de uma carruagem

Para Alessandra, “a implantação de projetos de arte pública nas grandes cidades passa a ter extrema relevância nos dias de hoje, pois, a partir do momento em que uma obra intervém na paisagem e no cotidiano, ela suscita um novo olhar e, consequentemente, um novo pensamento sobre o espaço que ocupa”. Ela acredita que “a partir disso muita coisa pode ser mudada, inclusive o contexto econômico da região, que tanto pode passar por uma revitalização impulsionada pela presença permanente da obra como pode atrair público temporariamente para o entorno, fomentando o comércio local”, completa.


lançamentos musicais RESENHA |

UNIDOS PELOS E X Um foi “obrigado” a aprender e a viver de música desde cedo; o outro, filho de pai artista, foi incentivado a buscar uma vida melhor. Não teve jeito e, com o tempo, ambos afloraram e afirmaram seus talentos musicais. Conheça um pouco sobre dois lançamentos do segundo semestre, um capixaba e outro carioca, que merecem a sua atenção

TEXTO pedro henrique frança

FOTOS divulgação

O capixaba Silva aposta na simplicidade até em sua assinatura artística

A CLARIDÃO DE SILVA Lúcio Silva deve à dona Letir, sua mãe e professora de mú-

As composições, que haviam começado antes do inter-

ria musical entre irmãos, que se repete, aliás, no palco,

sica, o fato de hoje, aos 24 anos, ir atrás do seu ganha-pão

câmbio cultural, ganharam, em suas palavras, maturidade,

em duo. Merecem atenção “Cansei” (“Cansei de ser eu

por meio da arte. Nascido em Vitória, foi conduzido por ela,

malícia e a “veia literária” do irmão, que passou a ajudá-lo

mesmo, me deixa ser você”) e “2012” (“O fim do mundo

desde garoto, às aulas de musicalização. Também teve o

com as letras. “As canções ficaram menos piegas, pois

eu vi dessa sacada, mas em hora alguma eu quis pular”).

empurrão do tio – com o qual dividia o mesmo teto –, um

acho que comecei a enxergar a música de maneira menos

pianista que passava o dia estudando Chopin. “Não foi

romântica”, afirma. Seis anos depois, o período de pouco

O repertório apurado instiga o questionamento da es-

uma escolha [ser músico], foi meio que uma obrigação”,

mais de um ano em terreno irlandês ainda está impreg-

colha de “Silva”, um dos sobrenomes mais populares do

brinca ele, que a princípio se dedicou ao violino.

nado em Silva, como revela seu álbum de estreia, Claridão.

país, para representá-lo. Ele ri. Lamenta como é “difícil de achar no Google, né?”. E é mesmo. Ele, então, explica: “Eu

Os ensinamentos musicais, que transitavam entre o

A singela canção que fecha o disco, “A Visita”, por exem-

não queria usar o nome todo. Pensei em títulos de pro-

erudito, a MPB e a bossa nova, ganharam ainda doses do

plo, passaria facilmente por ouvidos mais desatentos

jeto, mas ou ficava muito pretensioso ou muito diferente

universo pop rock dos anos 1990, de outros ícones de

como um recente single de uma dessas bandas novas

da minha personalidade. Vi que não tinha nenhum “Silva”

sua adolescência e do rock’n’roll que ecoava no quarto

inglesas com ares de Leste Europeu. E também tem

usado como nome artístico e deixei. Foi uma surpresa a

do irmão, Lucas, seis anos mais velho. Coisas, Silva diz,

muito de suas influências de música eletrônica, outro

gravadora [Slap] ter gostado”.

dos tempos rebeldes e de afirmação. “Eu não falava que

gênero bastante forte por lá. “Estava ouvindo muito hou-

tocava violino, porque ninguém entenderia.”

se na época”, diz. Mas há quem veja, no entanto, um quê

Em fase de aprovação nos palcos – já lançou o trabalho

de Guilherme Arantes – o que não é um equívoco. “Curio-

em sua cidade natal, no Rio de Janeiro e em São Paulo

Encerrado o colegial, pôde se afirmar. O violino seguiu

so é que eu nem tive contato com a música dele. Mas

–, Silva traz expectativas modestas, apesar das críti-

com ele rumo ao ensino superior e, entreatos, o músico

baixei alguns CDs para conhecer e vi que realmente tem

cas positivas. “Essa questão ainda é nublada, não faço

passou a produzir trabalhos de amigos. Eis que veio a

alguma coisa parecida.”

ideia do que esse projeto vai virar. Eu já estou bem feliz, porque não esperava nada. Agora estou me formando

vontade de ir para o exterior. E Silva foi parar na Irlanda. Andou com “uma turma bem doida, uns ripongas, mú-

Nesse balaio de indefinições, Claridão originou um traba-

como violinista e, se não for com esse projeto, de qual-

sicos de rua”, que, assim como ele, viviam das moedas

lho refinadíssimo e ganha lugar entre os destaques de

quer forma a música será o meu sustento.” Disso dona

que ganhavam.

2012. Outras músicas do CD endossam a afinada parce-

Letir já tinha certeza.


T R E M O

S

O PLACEBO DE JOÃO Ser filho de Lenine, um dos mais respeitados músicos

de e a sombra é sempre um pouco assustadora. Ao mes-

Produzido pelo experiente Plínio Profeta, João coloca

do país, nem sempre foi sinônimo de vida estável. João

mo tempo que é um facilitador – na questão do acesso

todas essas influências – somadas ao tango, ao fado

Cavalcanti, 32 anos, primogênito da prole de três (sen-

aos músicos, por exemplo – , ser filho do Lenine também

e à música eletrônica – no liquidificador. A faixa que dá

do ele do primeiro casamento), viveu tempos de vacas

é um complicador íntimo”, conta.

nome ao trabalho é justamente o único samba de, como ele diz, “um disco de não sambas”. Há ainda uma “mar-

magras. E, ao contrário dos irmãos Bruno e Bernardo, despertou tarde para a música, já na época em que fa-

Os tempos passaram e João até se dedicou ao jorna-

chinha” que encerra o álbum: a deliciosa “Frevo do Con-

zia faculdade de jornalismo. “Vi muito de perto o meu pai

lismo, mas não teve jeito: a veia musical falou mais alto.

tra Êxodo”. “Não foi uma necessidade [fazer um trabalho

dando murro em ponta de faca, fazendo show para pou-

De rodas e batuques ali e acolá, juntou amigos, montou

solo], foi uma urgência. Eu sempre fui muito de escrever,

ca gente. Então, naturalmente, ele não foi um entusiasta

o grupo Casuarina, pôde se “debruçar sobre o samba”

sou jornalista formado, e o Casuarina tem um escopo

de primeira hora para a minha carreira de músico.”

e reocupou a Lapa com outros artistas – como Teresa

restrito, uma vocação para o samba, e eu queria tentar

Cristina –, que protagonizaram o renascimento do bairro

outros jeitos, outros parceiros.”

Não foi apenas a projeção da estabilidade financeira que

boêmio carioca, por anos esquecido. Chamado por Pedro Luís de “o cinema de João”, o disco

afastou João da música por um tempo. Afinal, conforme ele crescia, o jogo virava. Em 1992, Lenine lançou Olho

Sua formação musical, entretanto, navega por outros

apresenta um recorte de imagens de seu pluriverso au-

de Peixe e, desde então, estabeleceu de vez um lugar de

mares, como ele faz questão de lembrar: Beastie Boys,

xiliado por Plínio Profeta, que assina, aliás, a trilha de fil-

destaque no mercado fonográfico.

The Police, Tom Zé, Jackson do Pandeiro, Radiohead e

mes como O Palhaço. Roteiro? Só se fosse um dos mais

Björk. Por isso, não é de total estranhamento o fato de ele

doidos de Michel Gondry, no qual caberiam bem canções

Se a maré não estava a favor, quando deu peixe também

– após dez anos de Casuarina – passar a surfar em ou-

como “Binário”. Se há algo que não existe nesse placebo

não ajudou. “O tamanho que ele tem diante do sol é gran-

tras ondas. Placebo, seu primeiro álbum solo, é a da vez.

é narrativa. “O disco é voluntariamente heterogêneo; não teve nenhuma preocupação com coesão. Quando eu e

Do Casuarina para a carreira solo, João Cavalcanti ganha espaço descolando-se da paternidade famosa

o Plínio percebíamos que ele estava caminhando mais para um lado, radicalizávamos na ordem para excluir qualquer encadeamento lógico”, explica. Veterano dos palcos, João se lançou solo em show recente no Studio RJ. Em sua primeira apresentação, mesmo cercado de amigos e da família, sentiu-se nu. “Estava desarmado, sem nenhum instrumento, muito ansioso e com medo. A gente tem pudor de usar essa palavra, mas eu estava com medo”, assume. Anseios de marinheiro de “primeira viagem”. Ao apagar das luzes, saiu querendo mais e assim será. Em dezembro de 2012, ainda se apresenta em São Paulo e em Belo Horizonte, se tudo der certo. Em 2013, reveza-se entre a estrada solitária e a coletiva, com os amigos do Casuarina, que lançam CD e DVD comemorativo de uma década de trajetória. “As pessoas têm um pouco de dificuldade em entender, mas uma coisa não se opõe à outra. Meu trabalho com o Ca-

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suarina é complementar.”


literatura latino-americana REPORTAGEM |

DEIXA MACONDO TEXTO fernanda de almeida

ILUSTRAÇÃO pupillas

Autores latinos surgem mais diversificados e sem o estigma de exotismo do movimento iniciado na década de 1960

Quando Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel de Literatura, em 2010, ficou evidente que a literatura latino-americana estava voltando a ter espaço no mercado mundial. Antes disso, o momento mais importante foi o boom, na década de 1960, quando se apostou no estilo que ficou consagrado como realismo mágico ou realismo fantástico. De lá para cá, a principal semelhança é a retomada do crescimento das traduções e vendas no exterior. Já a grande diferença, entre outras muitas, é que no contexto atual a literatura que tem ganhado espaço consegue mostrar os países latino-americanos sem mistificação ou exotismo. Há uma gama de estilos e autores como o já citado Vargas Llosa, além do chileno Roberto Bolaño, do mexicano Mario Bellatin, do argentino César Aira e do cubano Carlos Alberto Aguilera, entre outros. Se durante o boom o olhar do mundo se voltou para a América Latina em busca de uma produção diferenciada – e por isso o interesse enorme no exótico e no que se distinguia da vida europeia –, o que se vê hoje na literatura da região exportada é um universo mais próximo do leitor comum, que questiona a vida urbana, os problemas gerados pela convivência em sociedade e as disparidades políticas e econômicas. O espaço que se abre para essa literatura contempla uma diversidade maior que

inclui autoficção, metalinguagem, romance histórico, novela filosófica, microconto. “Acredito que o momento atual e o boom são extremamente diferentes. Talvez o paralelo possível seja o aumento das vendas e do interesse do mercado editorial, mas não quanto ao estilo e à qualidade das obras produzidas”, defende Samuel Leon, criador e editor da Iluminuras. O intercâmbio entre produções da América Latina e, principalmente, dos Estados Unidos e da Europa está diretamente relacionado com o crescimento do mercado editorial latino-americano. “Tenho a impressão de que a aproximação cultural segue um movimento mais amplo, para além das editoras. Há mais convênios universitários entre países latinos, festivais, congressos, eventos que promovem uma circulação inédita pelo continente. A adoção do ensino do espanhol se tornou mais frequente no ensino médio, o que criou uma demanda imediata por profissionais familiarizados com a literatura de língua hispânica”, diz Florencia Ferrari, diretora editorial da Cosac Naify. Para ela, de modo geral, a literatura – como o cinema, o teatro, a música e o ambiente acadêmico – se beneficia dessas trocas cada vez mais intensas entre países com histórias e processos culturais e políticos muito semelhantes, além da evidente proximidade linguística.

SEM REDUCIONISMOS

Apesar das alusões otimistas com relação ao novo crescimento, é preciso cautela. “Falar em literatura latino-americana contemporânea é complicado porque parece representar um reducionismo bastante radical. Compará-la com um movimento restrito, como foi o do conjunto de escritores da década de 1960 e 1970, acaba sendo comparar o incomparável”, afirma Graciela Ravetti, coordenadora do Núcleo de Estudos de Literatura de América Latina e professora de espanhol na Faculdade de Letras da UFMG. Mesmo concordando com Graciela, Florencia rebate: “Creio que podemos falar de certa ironia como marca, um ceticismo bem-humorado ou não em relação às conquistas e experiências da geração dos pais que eram jovens nos anos 1960. Por outro lado, aparece nos novos autores um posicionamento explícito quanto aos horrores das diversas ditaduras, mais como material ficcional do que como discurso propriamente ideológico. Outra característica é a brevidade, a concisão, a elipse, o repúdio aos processos tradicionais da narrativa e aos clichês”, define. Diferentes editoras brasileiras afirmam o interesse em aumentar as traduções de autores latino-americanos. A Cosac Naify já publica autores de grande relevância, como Borges, Macedonio Fernández, Neruda e Adolfo Bioy Casares. “Vamos reforçar com a publicação dos chilenos José Donoso e Maria Luisa Bombal e de contemporâneos já estabelecidos, como Alan Pauls e Mario Bellatin, e estamos investindo em boas promessas, como o chileno Alejandro Zambra (do recém-lançado Bonsai) e a uruguaia Inés Bortagaray. Outros virão”, enumera a diretora editorial.


ANDO PARA TRÁS EFEITO BOLAÑO Autor chileno mostrou que o clássico e o moderno sempre se dão as mãos na construção do novo Para Laura Janina Hosiasson, professora de litera-

Roberto Bolaño (1953-2003). Com o selo hispano-ameri-

tura hispano-americana no Departamento de Letras

cano Vintage Español, divisão da editora norte-americana

Modernas da USP, “além de uma veia de grande con-

Random House, todos os títulos do escritor foram publi-

tador de histórias, Bolaño possui a curiosa habilidade

cados na língua original – e também em inglês. Apesar da

de combinar novidade e tradição. De maneira única e

Vintage Español ter sido criada em 1994, foi em 2010 que

pessoal, retoma os grandes temas, as formas mais tra-

ganhou força e, além de Bolaño, publicou nomes como

dicionais da literatura universal e recupera todo esse

Isabel Allende, Manuel Puig e Sandra Cisneros.

material em uma chave contemporânea”.

“Bolaño é um grande escritor; a meu ver, o maior surgido

Em 2001, ao ser questionado por um jornal sobre a

depois de Borges”, afirma Graciela. Para a professora da

possibilidade de haver um novo boom da literatura la-

UFMG, sua escrita se afasta de qualquer traço alegórico,

tino-americana, Roberto Bolaño respondeu: “Existem

de religiosidades de qualquer signo, para privilegiar uma

muito poucos romancistas atuais que possuam a am-

prática que se pauta por passar para a escrita a experiên-

bição de Fernando del Paso, por exemplo, ou o humor e

cia de vida própria e das pessoas na contemporaneidade:

a exatidão de Julio Cortázar. No fim, veremos. Por outro

dor, marginalidade, exclusão, fome, crimes, desigualdade,

lado, em uma geração cabem escritores de 25 anos e

ignorância – temas universais. “Ele escreve textos que não

também de 50. Suponho que mais adiante no século

se ajustam ao previsível, que propõem mundos nos quais o

21, quando a maioria de nós já estiver morta, poderá se

leitor chega a questionar o status no sistema no qual vive:

fazer um balanço e veremos se a nossa literatura valeu

ou é colaborador ou é resistente a uma organização econô-

ou não valeu a pena”. Não restam dúvidas de que valeu

mica e social cujo melhor predicativo é o de cruel”, afirma.

e tem valido cada vez mais.

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Um dos nomes mais aclamados atualmente é o do chileno


SELEÇÃO ESPECIAL PARA QUEM VAI INICIAR O ANO COM UM MERECIDO DESCANSO

DESTAQUE EXPOSIÇÃO Mário de Andrade – Cartas do Modernismo Encerrando as comemorações dos 90 anos da Semana de Arte Moderna de 22, a mostra Mário de Andrade – Cartas do Modernismo traz correspondências assinadas pelo poeta para destinatários como Tarsila do Amaral, Candido Portinari, Di Cavalcanti, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Por meio das cartas trocadas, o visitante poderá conhecer um pouco mais a vida do escritor no Rio de Janeiro e sua amizade com esses e outros nomes ilustres da época. A exposição, com curadoria de Denise Mattar, traz ainda uma sessão dedicada às artes visuais, com obras que pertenciam a Mário de Andrade, como As Margaridas de Mário, de Anita Malfatti, e Mulher, de Di Cavalacanti. Centro Cultural Correios – Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro – Rio de Janeiro – até 6 de janeiro de 2013 – de terça a domingo, das 12h às 19h.

FOTOGRAFIA Sonho Verde Azulado Com curadoria de Eduardo Brandão, a instalação Sonho Verde Azulado, da artista Claudia Andujar, conta com quatro imagens inéditas e gigantescas que somam cerca de 1.200 metros quadrados, expostas no mezanino do Prédio Histórico dos Correios, na região central de São Paulo. Além desse conjunto, outra imagem com aproximadamente 270 metros quadrados está disposta na empena de um prédio vizinho, que dá para o Vale do Anhangabaú. Na instalação fotográfica, a artista dá sequência a seu trabalho com o povo ianomâmi – a grande marca de sua trajetória – e apresenta imagens resultantes de uma espécie de refotografia, técnica à qual se dedica há pelo menos duas décadas. Prédio Histórico dos Correios – Avenida São João, s/nº – até 1 de novembro de 2013 – grátis. Funcionamento: 4 de novembro a 27 de janeiro: de segunda a sexta, das 9h às 17h, sábados, das 9h às 18h, e domingos, das 10h às 18h. A partir de 28 de janeiro: de segunda a sexta, das 9h às 17h e aos sábados, das 9h às 13h.

LITERATURA Laranja Mecânica – Edição Especial 50 Anos (Editora Aleph, R$ 79) Há 50 anos chegava às prateleiras o livro Laranja Mecânica, do britânico Anthony Burgess – um dos maiores clássicos do século XX. Para celebrar a data, a Editora Aleph lança uma edição luxuosa da obra-prima, com nove ilustrações especialmente encomendadas aos brasileiros Angeli e Oscar Grillo e ao britânico Dave McKean. Em capa dura e impresso em duas cores (laranja e preto), o livro inclui textos inéditos sobre a obra – do próprio Burgess e de outros autores.

Desnorteio (Paula Fábrio, Editora Patuá, R$ 35) Primeira obra da publicitária paulistana Paula Fábrio, o livro refaz o labirinto no qual se perderam Rodolfo, Miguel e Benévolo, três irmãos que passam a viver como mendigos, numa história que percorre o fim dos anos 1800 e chega à atualidade. O prefácio, assinado pela poeta Mariana Ianelli, pontua que o livro “nos enreda em uma visão mais profunda do humano, que vem enriquecer nossa literatura na melhor tradição dos escritores do desassossego e da miséria redentora”.

fotos: divulgação

BALAIO

FÉRIAS em boa companhia


BALAIO.COM

projetorizoma.com.br O site, que traz informações sobre a produção artística da cidade de São Paulo, tem como diferencial o cruzamento de dados, criando redes de conexão, ou rizomas, a partir de três chaves: artistas, eventos e locais. Dessa forma, a pesquisa do usuário se torna expansível e os resultados múltiplos. Além do mapeamento, há ferramentas para divulgação e compartilhamento de informações. O objetivo é ampliar a experiência do público e incentivá-lo a descobrir o potencial artístico da cidade. O usuário também pode contribuir com o projeto enviando informações relacionadas aos temas de pesquisa.

180cartazesprasairdafossa.tumblr.com Há quem acredite que são necessários seis meses para curar uma dor de amor e fazer de vez a fila andar. Crendice, filosofia de boteco, enganação barata ou não, essa história foi a motivação para a criação do tumblr 180 Cartazes pra Sair da Fossa. Até o fechamento desta edição, metade dos dias já havia passado (será que a autora já tirou ao menos um dos pés da fossa?). Portanto você encontra mais de 90 cartazes com design apurado e versos divertidos, inspiradores e muito adequados para determinadas situações, como “quando não queres nada, nada falta”, da canção “O Quereres”, de Caetano Veloso, ou “e precisamos todos rejuvenescer”, de “Velha Roupa Colorida”, de Belchior, imortalizada na voz de Elis Regina.

conexoesitaucultural.org.br Base de dados do programa criado em 2007 pelo Itaú Cultural, o Conexões contempla um mapeamento inédito da presença da literatura brasileira no mundo, seja na mídia, seja na pesquisa universitária ou no mercado editorial. As informações estão disponíveis no site, que traz informações relacionadas a encontros de pesquisadores que trabalham com literatura brasileira no Brasil e em outros países e textos sobre as condições da literatura nacional no exterior. Uma das metas do programa é analisar a visão que o pesquisador estrangeiro tem da nossa literatura, das tendências de pesquisa e dos novos nomes brasileiros que começam a se firmar internacionalmente.

www.recife.pe.gov.br/mlg/gui/Index.php Esse é o endereço do site do Memorial Luiz Gonzaga, centro de documentação e pesquisa mantido pela Prefeitura do Recife cuja missão é preservar e divulgar a obra musical do Rei do Baião. Na página é possível ouvir gravações originais, acompanhadas de informações sobre os fonogramas, acessar partituras e assistir a reportagens e entrevistas, além de pesquisar imagens da carreira e do arquivo pessoal do compositor e materiais diversos inspirados na história de Gonzaga. Outro destaque do site é a aba Universo Gonzagueano, com tex-

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tos sobre o sertão, os vaqueiros, as sanfonas e os sanfoneiros.


NADA MAIS JUSTO DO QUE PRESTAR UMA HOMENAGEM ÀQUELE QUE SEMPRE NOS INSPIRA. Venha conhecer o que Caetano Veloso, Augusto de Campos e outros amigos e artistas prepararam para os 70 anos de Gilberto Gil. Exposição concebida por André Vallias com colaboração de Frederico Coelho.

quarta 12 dezembro 2012 a domingo 17 fevereiro 2013 terça a sexta 9h às 20h sábado domingo feriado 11h às 20h

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Continuum 40 - Dezembro-Janeiro/2013