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TEXTO micheliny verunschk FOTOS andré seiti

Se São Paulo fosse uma cidade de história em quadrinhos, como Gotham City ou Metrópolis, certamente ele sairia do metrô com ares de Bruce Wayne, atravessaria a Consolação com o jeito inconfundível de Clark Kent e logo estaria na Paulista, exibindo a todos os seus superpoderes. Por trás da identidade secreta estaria Marcos D’Ávila, ou melhor, Peri Pane, que, desde 2003, encarna o HoMeM ReFluXo, cuja missão é colocar as pessoas para pensar sobre a sociedade de consumo e o descarte. Tudo começou com a preocupação de Pane com a seleção do lixo doméstico para a reciclagem. “Eu separava o lixo que produzia em casa, mas sempre pensava no que fazer com o dejeto que produzia na rua. Então imaginei que havia pessoas que guardavam todo esse material e que elas poderiam usar um casaco com bolsos para acondicioná-lo”, conta. A partir dessa ideia, ele e a artista plástica Marina Reis criaram o Parangolixo-luxo, uma capa plástica transparente onde se pode guardar resíduo sólido e que, na certidão de nascimento, traz inequívoca a influência dos Parangolés, de Hélio Oiticica, do trabalho de Artur Barrio com materiais perecíveis e detritos, bem como a referência à carnavalização do lixo, de Joãosinho Trinta, e ao poema “Luxo”, de Augusto de Campos (no qual as palavras lixo e luxo se contêm simbioticamente). Nascia assim o HoMeM ReFluXo, que, vestido com sua supercapa, passou sete dias, entre agosto e setembro daquele ano, acumulando os restos descartáveis do que consumia. A performance, com um quê de voyeurismo, atraía olhares curiosos dos passantes. Uns achavam que era mais um camelô nas ruas da metrópole; outros, que era um catador do lixo alheio; e alguns, como um pastor evangélico, se preocupavam para onde ia o “lixomental”. Catadoras de lixo de uma rua do centro de São Paulo se interessaram comercialmente pelo adereço: facilitaria o seu trabalho. Munido de um diário, o HoMeM ReFluXo anotava a natureza de seus dejetos apostando que

o indivíduo é aquilo que ele consome: embalagens de yakisoba, bitucas de cigarro, latas de cerveja, flyers, guardanapos, caixas de sapatos, sachês de catchup, entre outros. Em 2006, Pane, que foi apresentador do programa EcoPrático, da TV Cultura, mudou-se para a Espanha e lá exibiu o projeto no festival DrapArt, no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona. Dessa vez, o personagem ganhou uma companheira cujo Parangolixo-luxo se conectava ao seu. “A ideia inicial era mesmo de que existissem outros HoMeM ReFluXo na performance e que ao final se pudesse comparar o lixo que cada um produziu”, diz o artista. A obra foi apresentada ainda em 2009, no Nápoles Teatro Festival, na Itália. Nesse percurso a proposta foi se radicalizando, pois na Espanha agregou restos dos alimentos ingeridos e na Itália, em homenagem ao trabalho Merda d’Artista, do italiano Piero Manzoni, passou a incorporar, numa embalagem hermética, os papéis higiênicos utilizados durante os dias do trabalho. HERÓI DAS NOVAS GERAÇÕES

“É impressionante como o HoMeM ReFluXo atrai a atenção das crianças. Elas querem ver mais de perto, tocar”, conta Pane, com os olhos brilhando. Pensando nisso, o projeto vem se aprofundando nas novas culturas que têm a sustentabilidade como esfera de atuação, inclusive na área de educação ambiental. Parcerias com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e com o Instituto Vitae Civilis têm se traduzido em bate-papos, visitas a escolas e exposições. Tudo buscando atingir os futuros adultos, acreditando que é de pequenino que se aprende a preservar o meio ambiente. Por falar em futuro, Pane avisa que aposta também em um jornalismo lúdico como forma de levar mais adiante a missão do seu alter ego. Vêm por aí experiências diversas, inclusive uma TV Reflux, para mostrar que todo consumo tem seu preço e seu peso, tanto pessoal quanto coletivo.

Saiba mais sobre o artista em homemrefluxo.com.

DIÁRIO REFLUXO Os passos do projeto do HoMeM ReFluXo foram meticulosamente anotados por Peri

Peri Pane encarna o HoMeM ReFluXo num dos pontos mais conhecidos de São Paulo, o Masp

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Pane em um diário

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Continuum 31 - Junho-Julho/2011  

A edição 31 da Revista Continuum do Itaú Cultural traz fichário especial sobre “Bastidores da Arte”, com ensaio fotográfico clicado por Dary...

Continuum 31 - Junho-Julho/2011  

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