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ISSN 1984-3577

S達o Paulo, v. 5, n. 2, Jun. 2012


 2012 Intertox Periódico científico de acesso aberto, quadrimestral e arbitrado meses: (2) fevereiro, (6) junho e (10) outubro. Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida desde que citada a fonte. As opiniões e informações veiculadas nos artigos são de inteira e exclusiva responsabilidade dos respectivos autores, não representando posturas oficiais da empresa Intertox Ltda. Seções Artigo Original; Artigo de Atualização; Comunicação Breve; Ensaio; Nota de Atualização e Revisão Idiomas de Publicação Português e Inglês Contribuições devem ser enviadas para <m.flynn@intertox.com.br>. Disponível em: <http:// revinter.intertox.com.br>. Normalização e Produção Website Henry Douglas Capa Henry Douglas Projeto Gráfico Henry Douglas RevInter – Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade. / InterTox uma empresa do conhecimento. – v. 5, n. 2, (jun. 2012).- São Paulo: Intertox. 2012. Quadrimestral ISSN: 1984-3577 1. Ciências Toxicológicas. 2. Risco Químico. 3. Sustentabilidade Socioambiental. I. InterTox uma empresa do conhecimento. Biblioteca InterTox II. Título.

1. Ciências Toxicológicas. 2. Risco Químico. 3. Sustentabilidade Socioambiental. I. InterTox uma empresa do conhecimento. Biblioteca InterTox II. Título. Rua Turiassú, 390 - cj. 95 - Perdizes - 05005-000 - São Paulo - SP – Brasil Tel.: 55 11 3872-8970

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Expediente Editor(a) Maurea Nicoletti Flynn Doutora em Oceanografia (USP) Com Especialização Ecologia Comitê Científico (2011-2013) Irene Videira Lima Doutora em Toxicologia (USP), Perita Criminal Toxicologista do IML-SP por 22 anos. Marcus E. M. da Matta Doutor em Ciência pela Faculdade de Medicina USP. Especialista em Gestão Ambiental (USP). Engenheiro Ambiental e Turismólogo. Moysés Chasin Farmacêutico-bioquímico pela UNESP-SP especializado em Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas e de Saúde Pública. Ex-Perito Criminal Toxicologista de classe especial e Diretor no Serviço Técnico de Toxicologia Forense do Instituto Médico Legal da SSP/São Paulo. Diretor executivo da InterTox desde 1999. Ricardo Baroud Farmacêutico-Bioquímico Toxicólogo, Editor Científico da PLURAIS Revista Multidisciplinar da UNEB e da TECBAHIA Revista Baiana de Tecnologia.

Conselho Editorial Científico (2011-2013) Alice A. da Matta Chasin Doutora em Toxicologia (USP) Eduardo Athayde Coordenador no Brasil do WWI - World Watch Institute Eustáquio Linhares Borges Mestre em Toxicologia (USP), ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia, exProfessor Adjunto de Toxicologia da UFBA. Fausto Antonio de Azevedo Mestre em Toxicologia USP, ex-Diretor Geral do Centro de Recursos Ambientais do CRA-BA, ex-Presidente do CEPED-BA, ex-Subsecretário do Planejamento, Ciência e Tecnologia do Estado da Bahia. Isarita Martins Doutora e Mestre em Toxicologia e Análises Toxicológicas (USP), Pós-doutorado em Química Analítica (UNICAMP), FarmacêuticaBioquímica Universidade Federal de Alfenas MG. João S. Furtado Doutor em Ciências (USP), Pós-doutorado (Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, NC, EUA). José Armando-Jr Doutor em Ciências (Biologia Vegetal) (USP), Mestre (UNICAMP), Biólogo (USF). Sylvio de Queiroz Mattoso Doutor em Engenharia (USP), ex-Presidente do CEPED-BA.

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Sumário TOXICOLOGIA Riscos Toxicológicos das Tatuagens

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ECOLOGIA DO ESTRESSE / ECOTOXICOLOGIA Inventario rápido de mamíferos de médio e grande porte da Área de Proteção Ambiental da Ilha Comprida, SP. 19 Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia

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Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. 65 Levantamento Secundário do Estado Atual da Avifauna na Região de Sorocaba, SP. 87 Levantamento Secundário do Estado Atual da Mastofauna na Região de Sorocaba, SP.

105

Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP.

122

SUSTENTABILIDADE Impactos e Benefícios da Produtividade de Biogás em Aterro Sanitário

135

Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos

159

Metodologia e Diretriz da Global Reporting Initiative (GRI): Contexto, relevância, oportunidades e riscos. 211

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ENSAIO RISCOS TOXICOLÓGICOS DAS TATUAGENS Tatiane Moretti Biomédica, analista de Risco Toxicológico da Intertox.

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ENSAIO Resumo A tatuagem é uma técnica que consiste na perfuração da pele com agulhas apropriadas, acopladas a uma máquina elétrica, por meio das quais pigmentações exógenas são introduzidas fisicamente na pele, com resultado permanente, objetivando embelezamento ou correção estética. Ainda sabe-se pouco a respeito do risco toxicológico do uso de tatuagem e boa parte do que se sabe faz parte de pesquisas em andamento. Hoje temos de concreto que alguns pigmentos utilizados para a realização das tatuagens podem ser tóxicos e possuem capacidade mutagênica. Também temos o fato que alguns desses compostos reagem à exposição à luz, causando reações fotoinduzidas pelo seu comportamento fototóxico, o que dificulta e coloca em risco a remoção das tatuagens. Para garantir cuidados, minimizar ou erradicar tais riscos, hoje, alguns órgãos regulatórios como ANVISA, EMEA e FDA criaram algumas exigências para os produtos e procedimentos utilizados na realização das tatuagens. Palavras chave: Tatuagem, Risco Toxicológico, Pigmentos, Fototóxico

Abstract The tattoo is a technique that consists in piercing the skin with needles appropriate, coupled to an electric machine, by wich exogenous pigmentations are physically introduced into the skin with permanent result, aiming at beautifying or cosmetic reasons. Still little is known about the toxicological risk of the use of tattoos and much of what we know is part of ongoing research. Today we have some concrete pigments used to make tattoos can be toxic and have mutagenic capacity. We also have the fact that some of these compounds react to exposure to light, causing the photo induced reactions phototoxic behavior, which makes it difficult and endangers the removal of tattoos. To ensure care, minimize or eliminate such risks, today, some regulatory bodies including ANVISA, EMEA and FDA have established some requirements for products and procedures used in the performance of the tattoos. Keywords: Tattoos, Toxicological Risks, Tattoos, Pigments, Photo toxicity MORETTI, Tatiane. Riscos Toxicológicos da Tatuagens. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 6-18, jun. 2012.

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ENSAIO Introdução As tatuagens estão entre nós desde muitos anos antes de Cristo; são encontradas em diversas civilizações e trazem consigo os mais variados significados. (1) O termo tatuagem origina-se do inglês “tattoo”, derivada do taitiano “tatau”, que significa “ferida, desenho batido”, e foi criado pelo capitão James Cook ao fazer uma onomatopéia ao som produzido pelo instrumento durante a execução da tatuagem, quando a mesma ainda era realizada com martelinho de madeira. (1) Em 1959, o imigrante dinamarquês “Tatto Lucky” chegou ao Brasil e ao estabelecer-se no país marcou a história da tatuagem entre nós com a introdução de técnicas modernas e, principalmente, com a inserção da máquina elétrica de tatuar, quando a tatuagem ainda era realizada à mão com o uso de materiais cortantes como vidro, faca, bambu. (2,3) Na antiguidade não se sabia dos cuidados terá serem adotados para a realização das tatuagens, porém hoje é fato que além dos cuidados de higienização, esterilização e cicatrização requeridos nas tatuagens, não podemos esquecer os cuidados com a escolha da coloração das mesmas, já que em sua grande maioria, os pigmentos são compostos de minerais e,juntamente com outros materiais de sua composição, podem trazer riscos toxicológicos aos usuários. (4) Foi no final da década de 1970 e no começo da década de 1980 que as tatuagens passaram a ser realizadas em estúdios e foi assim que se passou a ter maior presença da vigilância sanitária. (3) A tatuagem, como praticada hoje nos estúdios, é uma técnica que consiste na perfuração da pele com agulhas apropriadas, acopladas a uma máquina elétrica, por meio das quais pigmentações exógenas são introduzidas fisicamente na camada dérmica ou subepidérmica da pele, com resultado permanente, objetivando embelezamento ou correção estética. (4,5) Este trabalho objetiva fazer uma relação dos possíveis riscos toxicológicos decorrentes do uso de tatuagens..

Técnicas de Tatuagem As técnicas para execução de procedimentos envolvendo pigmentação artificial devem ser padronizadas e estar disponibilizadas e implementadas, contendo as instruções necessárias, datadas e assinadas pelo responsável legal. (5) MORETTI, Tatiane. Riscos Toxicológicos da Tatuagens. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 6-18, jun. 2012.

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As máquinas devem, preferencialmente, ter a ponteira de aço inox cirúrgico e/ou descartável e precisam ser limpas e esterilizadas em estufa. (1) As cores utilizadas hoje são diversas e as tintas para tatuagem, adquiridas prontas de fornecedores especializados, podem ser misturadas entre si para se criar novas cores. As agulhas são soldadas pelo próprio tatuador, na forma de um pente, contendo no mínimo três delas. (4) O profissional que realizará deverá elaborar rotinas técnicas padronizadas com instruções sequenciais do procedimento, datadas e assinadas pelo responsável legal. (17) Antes de se iniciar o procedimento, alguns cuidados devem ser tomados no sentido de minimizar riscos de contaminação. A bancada onde ficarão os materiais é higienizada com álcool hospitalar e coberta com filme plástico e papel toalha, bem como o banco ou cadeira utilizado para a realização da tatuagem. (4) Os recipientes de álcool, os tubos de tinta e os recipientes de água com sabão, usados para limpar a pele do excesso de tinta, são cobertos com sacos plásticos, descartados a cada cliente. (4) Sobre o filme plástico são colocados os recipientes descartáveis de plástico, conhecidos como botoques, contendo a quantidade necessária de tinta que será utilizada na tatuagem. As agulhas são esterilizadas e embaladas separadamente, sendo descartadas em lixo para material infectante após seu uso. Os tatuadores devem utilizar luvas descartáveis, máscaras e aventais e somente após todas essas etapas a pele começa a ser preparada para a tatuagem. Inicialmente a pele deve ser limpa, utilizando-se álcool hospitalar, e os pêlos, da região a ser tatuada, retirados com a ajuda de aparelho descartável de barbear. Uma fina camada de desodorante em barra é utilizada para que o decalque fixe o desenho na pele. (4) Sobre o decalque, o tatuador passa pigmento preto, já com a máquina de tatuar, contornando as margens do desenho. Por último, a tatuagem recebe outras cores, se for o caso. (4) Após cinco ou dez minutos do termino da sessão de tatuagem, a pele é coberta por um curativo com filme plástico de cozinha, que apesar de não ser considerado o ideal, não cola na pele. (4) Logo em seguida o cliente deve ser orientado sobre as precauções que deve tomar no período de cicatrização, cujo período esperado é de 5 a 10 dias, como: não manter a região seca, evitar sol, água do mar e piscina, lavar a região somente uma vez ao dia e utilizar uma pomada cicatrizante durante a troca dos curativos. Nesse momento, adicionalmente o usuário deve ser orientado a não retirar a “crosta”

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sobre a área tatuada, a fim de que não haja comprometimento do desenho decorrente da retirada de pigmento junto com a crosta de cicatrização. (4) O mercado de produtos voltados para o universo da tatuagem tem crescido. Além da expansão dos próprios estúdios, que cada vez mais se parecem com clinicas médicas, há fornecedores de máquinas de tatuar e tintas, desenhos, e todos os tipos de material necessário para a realização da tatuagem. (4) Além disso, é crescente o número de eventos relacionados, tais como feiras e eventos. Hoje os tatuadores não encontram dificuldade alguma em comprar tintas, maquinas e agulhas, porém não contam com um mercado de produtos médicos específicos para tatuagem, tendo que utilizar materiais de uso comum como a vaselina sólida, o desodorante em barra e o filme plástico de cozinha. (4)

Marcos Regulatórios É crescente a atenção e preocupação de parte de órgãos regulatórios quanto à presença de elementos tóxicos em tintas, utilizadas para diversas finalidades, entre elas a realização de tatuagens. (6) O Food and Drug Administration (FDA-USA) considera tintas utilizadas para a realização de tatuagens intradérmicas como cosméticos e os pigmentos das tintas como aditivos de cor que necessitam, antes de ir ao mercado, de rigorosa aprovação segundo a Federal Food, Drug, and Cosmetic Act (FD&C Act), porém o FDA não exerce sua autoridade reguladora sobre os mesmos, sendo essa pratica somente regulamentada por jurisdições locais. (7) Somente após 2004, período em que foram notificados inúmeros relatos de reações adversas a certas cores de tintas, o FDA passou a investigar seu uso seguro para esta finalidade. A gravidade dos eventos notificados ainda está sob discussão, para que sejam delineadas medidas adequadas de proteção à saúde pública. (7) Os aditivos de cor devem ser aprovados pelo FDA para uso em medicamentos, alimentos e cosméticos, porém, de fato, nenhum pigmento é aprovado para o uso injetável na pele e nenhuma tinta é devidamente regulada pelo FDA. (8) No Brasil, em 2008 foi publicada uma norma determinando que todos os produtos utilizados no processo de pigmentação artificial permanente da pele terão de obter registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). A medida está prevista na RDC 55/08 e entrou em vigor em fevereiro de 2010. As novas normas MORETTI, Tatiane. Riscos Toxicológicos da Tatuagens. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 6-18, jun. 2012.

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são válidas para as tintas nacionais e importadas, bem como para os aparelhos, agulhas e acessórios usados nos procedimentos. Com tal vigência é possível conhecer a forma de apresentação, quantidade e composição destas tintas e disciplinar a forma de utilização, distribuição e armazenamento dos produtos, proporcionando um controle maior sobre a matéria prima de agulhas e pigmentos. (9) Os produtos destinados a embelezamento ou correção estética são classificados como produtos para a saúde, por causa do risco que podem trazer ao serem manuseados por todos os envolvidos no processo. (5) Os pigmentos e veículos/ solventes são considerados produtos implantáveis ou invasivos cirurgicamente de longo prazo e classificados na Regra 8 e Classe III. (5) Os produtos classificados na classe de risco III somente poderão ser registrados na forma de apresentação estéril e não poderão fazer parte de um conjunto de produtos. (5) Para que tais produtos obtenham o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), eles devem apresentar os seguintes requisitos propostos na norma: -Os produtos usados nos procedimentos de pigmentação artificial permanente da pele devem cumprir o estabelecido na Resolução ANVISA RDC nº. 185/01. (5) -Os produtos implantáveis ou invasivos devem, através de estudos de citotoxicidade, genotoxicidade,toxicidade crônica e carcinogenicidade, demonstrar sua segurança e eficácia, bem como atender aos requisitos presentes na Resolução ANVISA RDC n°. 56/01. (5) De acordo com o parágrafo 5.3 da Resolução ANVISA RDC n° 55/2008(5): “O registro desses produtos poderá ocorrer por agrupamento, obedecendo a seguinte classificação: a) Conjunto de produtos para pigmentação artificial permanente da pele: poderão ser agrupados em conjunto todos os produtos enquadrados nas classes de risco I e II, desde que não existam variações dos componentes do conjunto quanto à sua composição, tecnologia de produção e indicação de uso. b) Família de acessórios para aparelhos: serão agrupados em uma mesma família todos os acessórios de uso geral para os aparelhos, como as biqueiras e pontas, ou quaisquer outros que estejam correlacionados com a região de engate da agulha, desde que não parte integrante dos aparelhos.

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c) Família de aparelhos: deverá ser observada a Resolução ANVISA RDC nº 97, de 9 de novembro de 2000, ou norma que venha substituí-la. d) Família de agulhas: serão agrupadas em uma mesma família todas as agulhas para inserção do pigmento na derme e subepiderme. e) Família de pigmentos puros sem veículo ou solvente: serão agrupados em uma mesma família todos os pigmentos de quaisquer colorações, sem adição de veículo ou solvente de qualquer natureza. f) Família de veículos ou solventes: as formulações deverão ser registradas individualmente, seguindo a última edição da Farmacopéia Brasileira quanto às especificações técnicas. g) Família de tintas com veículo aquoso: serão agrupados em uma mesma família todos os pigmentos de quaisquer colorações, com adição de veículo/solvente de natureza aquosa ou hidrossolúvel. h) Família de tintas com veículo oleoso ou volátil: serão agrupados em uma mesma família todos os pigmentos de quaisquer colorações, com adição de veículo ou solvente de natureza hidrofóbica, oleosa ou aqueles de natureza volátil.” O material utilizado para soldar as agulhas à máquina de tatuar não poderá conter metais pesados ou qualquer outro produto que possa ser prejudicial ao organismo humano. Esse material pode ser comercializado junto com as agulhas, desde que esteja constante no registro destas agulhas. (5) Não existem leis nacionais sobre os serviços de aplicação de tatuagem, no entanto a ANVISA com a colaboração de algumas vigilâncias estaduais e federais elaborou um documento para auxiliar a todos que desejam instituir regras para esses serviços. (17) Tais regras dispõem que esses estabelecimentos devem possuir alvará/licença sanitária, devem possuir cadastro dos clientes, estrutura física adequada, matérias e equipamentos registrados. (17)

Toxicologia de Tintas e Corantes para Tatuagem Pouco ainda se sabe como as tintas e corantes para tatuagem interagem com nosso organismo, como são biotransformados e qual o risco toxicológico que suscitam. (10)

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A estrutura química e a toxicidade de muitos corantes usados nas tatuagens ainda são pouco conhecidas e sabe-se que muitos desses corantes são de uso industrial, como as tintas utilizadas para automóveis ou na escrita. (11) No início, as tintas continham pigmentos que eram compostos de misturas de carvão, caracterizando a tinta preta, ou de sais inorgânicos de metais pesados como mercúrio, prata e chumbo, caracterizando as tintas coloridas. (10) Somente após a descoberta da toxicidade desses produtos é que a indústria começou a buscar compostos orgânicos que tivessem o mesmo resultado. (10) Ainda não existem estudos completos sobre a toxicidade desses pigmentos, porém o FDA não aprova o uso de nenhum deles. (10) As tintas utilizadas são de variadas origens. No mercado foram identificados 52 colorantes e acredita-se que, desses, 17 % são carcinogênicos. (12) A tinta atualmente utilizada é formada basicamente por resinas, aditivos, solventes e pigmentos insolúveis veiculados com dióxido de titânio. Tais pigmentos são partículas sólidas em forma de pó e podem apresentar em sua constituição compostos orgânicos ou inorgânicos de diferentes cores, responsáveis por aumentar a proteção e durabilidade da pintura. Após serem injetados na pele permanecem em estado sólido na derme por serem insolúveis, não sendo removidos pelo sistema de defesa. (6,10) Os pigmentos mais utilizados nas tintas de tatuagens são os inorgânicos como o carbono, o sulfeto de mercúrio (vermelho), cobalto (azul), sulfeto de cádmio (amarelo), óxido de cromo (verde), hidrato de ferro (ocre) e óxido ferro, e orgânicos como o sândalo (vermelho) e o pau-brasil (vermelho). (12,13)

Remoção das Tatuagens Poucos estudos têm sido feitos em relação aos pigmentos e sua toxicidade, porém muito se tem pesquisado em relação à remoção cirúrgica ou a laser desses pigmentos. (10) Os métodos tradicionais de remoção de tatuagem são exérese cirúrgica, dermoabrasão, salabrasão, criocirurgia e a laserterapia. (11) Com exceção dos lasers todos esses métodos causam a necrose da epiderme e derme, eliminando assim o pigmento que se localiza nessa região. (11)

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A remoção de tatuagens com lasers de CO2, Nd: YAG e Q-switched têm apresentado os melhores resultados, sendo mais seguros e oferecendo resultados cosméticos mais aceitáveis, porém existem casos em que o pigmento se espalha piorando o quadro. (13,14) As tatuagens profissionais são mais difíceis de serem removidas em relação às amadoras, por seu pigmento encontrar-se mais concentrado e mais profundo. O tipo de laser a ser utilizado é escolhido de acordo com a cor do pigmento. (14) O efeito colateral mais comum com o uso de lasers é a hipo ou hipercromia, bem como alergia sistêmica aos corantes, granulomas de corpo estranho e cicatrizes atróficas ou hipertróficas, porém os mais preocupantes são os eventos toxicológicos que podem ocorrer com a remoção das tatuagens, devido à capacidade mutagênica de muitos compostos de pigmentos, ao serem expostos á luz natural ou laser. (14,15)

Avaliação do Risco Toxicológico Existem relatos de reações adversas aos pigmentos empregados nas tatuagens, caracterizando quadros clínicos de intoxicação, bem como registro de algumas reações causadas pela remoção das tatuagens devido à quebra de partículas desses pigmentos. A quebra destas partículas pode resultar na geração de produtos de decomposição que são caracterizados como tóxicos ou carcinogênicos. (1) Estudos e relatos de casos também mostram que indivíduos tatuados podem apresentar reações de sensibilização ao pigmento vermelho utilizado na tatuagem, intoxicação mercurial e infecções não piógenas como sífilis, hepatite B e C e AIDS. (16) As reações disparadas pelas tintas vermelhas podem ser causadas principalmente pela presença de pigmentos inorgânicos como o sulfeto de mercúrio e podem ocorrer logo após ou alguns meses da realização da tatuagem. Os mecanismos ainda não são bem claros, mas presume-se que algumas das reações que ocorrem com as tintas vermelhas e amarelas são fotoinduzidas pela presença do pigmento sulfeto de cádmio, que tem comportamento fototóxico, por serem fotossensíveis em células fotoelétricas. (18,19) O prurido foi o sintoma mais comum encontrado e em muitos dos casos esse sintoma se manifestou após exposição ao sol. (18)

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Não se pode desprezar o fato de que são empregados produtos que não apresentam indicação específica para este fim, ou seja, para uso humano, bem como outros não regulamentados pela ANVISA. (17)

Considerações Finais Nessa pesquisa verificou-se a existência de uma necessidade imediata de novos estudos ou estudos conclusivos a cerca da toxicidade e genotoxicidade das tintas e pigmentos utilizados na tatuagem, bem como estudos que mostrem quais os riscos da remoção dos pigmentos. Pode-se considerar a existência de risco toxicológico ao se fazer uma tatuagem, devido aos pigmentos e tintas utilizados, os quais podem conter metais pesados altamente tóxicos, bem como há grande incidência de eventos toxicológicos na retirada das tatuagens pelo fato de muitas tintas serem fototóxicas e gerarem matérias tóxicas quando degradadas.

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3. Jeolás LS. O diálogo interdisciplinar na abordagem dos riscos: limites e possibilidades. São Paulo. Saúde soc. [periódico on line] 2010 [acessado em 29 set. 2011]; 19(1) Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-12902010000100002&script=sci_arttext 4. Osório AB. O gênero da tatuagem: Continuidades e novos usos relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro. [tese]. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/PPGSA; 2006. 253p. Doutorado em Antropologia. [acessado em: 02 out. 2011] Disponível em: http://teses.ufrj.br/IFCS_D/AndreaBarbosaOsorio.pdf 5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Brasil). Resolução RDC n° 55, de 6 de agosto de 2008: Regulamento técnico para registro de produtos utilizados nos procedimentos de pigmentação artificial permanente da pele. [resolução na internet] Diário Oficial da União 21 ago. DOU de 8 de agosto de 2008; Seção 1. Disponível em: http://www.brasilsus.com.br/legislacoes/rdc/14313-55.html 6. Bentlin FR, Pozebon D, Depoi FS. Estudo comparativo de métodos de preparo de amostras de tinta para a determinação de metais e metalóides por técnicas de espectrometria atômica. São Paulo. Quím. Nova. [periódico on line] 2009 [acessado em 29 set. 2011]; 32(4) Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-40422009000400011&script=sci_arttext 7. FDA U.S Food and Drug Administration [site]. U.S.A [atualizado em 2010; acessado em 29 set. 2011].[1 tela]. Disponível em: http://www.fda.gov/Cosmetics/ProductandIngredientSafety/ProductInformation/uc m108530.htm 8. FDA Office of Women’s Health. Tattoos and Permanent Make-up [internet] USA: Silver Spring, MD [atualizada em 2011 nov. 07; acessada em 8 nov. 2011].Disponível em: http://www.fda.gov/downloads/ForConsumers/ByAudience/ForWomen/FreePublicat ions/UCM132814.pdf 9. Assessoria de Imprensa da ANVISA. Tatuagem: tintas e acessórios terão registro. [internet]. 2008 ago [acessado em 30 set 2011] Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/portal/anvisa/anvisa/imprensa/%21ut/p/c5/rZPJcqM wEIafxQ_gIITYjmB2zA6y4eKyTUzYMSZgePohc5tMJXOYqI-

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qru_X1y0iIdZqzmOenYe8bc4VcSQS5rRTBQ2xewAAI6ArtI2Q3sOUHlEHIgjQKegmDt9KRe_ABMYCm8OF2uyJHkayowcCt8d5KcZ9B6w Je9phzppF9EMOJ7EiicLUrukWrZZWfGXLODAjySmpkqAJB3Qk4COgp9jTd3jkKSa5Lkm6y_-z_uwRdHAP_oJwlbatXIiYS9oRVyGmmSgLHhGsO2fYMwdKAjRERfjbytK3CMMMiXo0odrBYwC6ZxZL RMkTTInhdbFSPs5o0Hb20dzPTBVe3ITNtNp9YqsGKKyvUFAcoVICpH2UZRJJf6 pfpWr-AF44mOY5nKJ5naJ5hKOJgX9un9LAySZb8Oy2J51MH7j0oYUtoLw38Skamaic3wbIRfd0OIHHFa96SErfCa_v3HKBFSxbUc37UqyClg Uqi5kRfouTW444Y6LHB2BRJ0cpV4i5w7HrAHGPnkkk4OxpzqwUettiiPPvO24eArD7Uh dPxbR4bL_u3oPzb0WxaNfpT1xzwAoiBFU4jkScRyJIfWn2fHcJ2IPkmyf3r6cLa7JnF 6PTPErK1BPch5bbR8XtGvvGGyWtqkbApT1bnweLYeDEoxxXLynadheK1q_YBAX 82XzFBuDJLhXsI6v7m03l0GuMauFtRVtG1Olg3OF6lwN35muh0eP9aAqWcr50G3Tv27b59 C48oc6j3ou-zUChBIkeiMAY28ru4dTU9Ukun7fDQ7Md3EQViZQ3RFePe8bXJnJ9HFWPawmbX0sFo_o%21/dl3/d3/L2dBISEvZ0FBIS9nQSEh/?pci d=a3927f004038e397a9bba91145253526 10. Moreau VH. Biotecnografia blog [internet] Brasil.2010 jan [acessado em 31 out 2011]. Disponível em: http://biotecnografia.blogspot.com/2010/01/biotecnologia-datatuagem.html 11. Autor desconhecido. Tatuagem pode causar doenças e alergias, alerta União Européia. Jornal O Estado de São Paulo. 19 set. 2003. Disponível em: http://ias2.epharmatecnologia.com.br/sa/sec/newsdtl_dtl?p_informa=1296 12. Sacks T, Barcaui C. Laser e luz pulsada de alta energia - Indução e tratamento de reações alérgicas relacionadas a tatuagem. Rio de Janeiro. An bras Dermatol. [periódico on line] 2004 [capturado em 30 de abr. de 2011]. 79(6): 709-714. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/abd/v79n6/a07v79n6.pdf 13. Cruz FA, Lage D, Frigério RM, Zaniboni MC, Arruda LH. Reações aos diferentes pigmentos de tatuagens: relato de dois casos. An. Bras. Dermatol. [periódico on line]. 2010 [acessado em 01 mai. de 2011] 82: (5). Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/abd/v85n5/v85n05a19.pdf 14. Patriota RC. Laser um aliado na dermatologia. São Paulo. Rev Med.[periódico on line] 2007 [acessado em 30 set. de 2011] 86(2): 64-70. Disponível em: http://medicina.fm.usp.br/gdc/docs/revistadc_96_p. 64-70%20862. pdf

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ENSAIO

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MORETTI, Tatiane. Riscos Toxicológicos da Tatuagens. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 6-18, jun. 2012.

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Artigo Original Inventario rápido de mamíferos de médio e grande porte da Área de Proteção Ambiental da Ilha Comprida, SP. Tatiana Pineda Portella Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestrado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Paraná. Possui experiência na área de ecologia e zoologia, com ênfase em mastozoologia. E-mail: portellatp@yahoo.com.br

Maurea Nicoletti Flynn Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e pósdoutorado em ecologia aplicada e experimental pelo programa recém doutor do CNPq, Universidade de São Paulo. Foi coordenador do Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz e Coordenadora de Pesquisas na Escola Superior de Química das Faculdades Oswaldo Cruz. Professor adjunto do curso de graduação em Ciências Biológicas e de pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é consultor da Intertox. Tem experiência nas áreas de Ecologia Bêntica, Ecologia Experimental, Dinâmica Populacional e Biodiversidade de Ambientes Aquáticos. E-mail: maureaflynn@gmail.com

PORTELLA, Tatiana Pineda; FLYNN, Maurea Nicoletti. Inventario rápido de mamíferos de médio e grande porte da Área de Proteção Ambiental da Ilha Comprida, SP..RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 19-37, jun. 2012.

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Artigo Original Resumo De todos os biomas tropicais, a Mata Atlântica é o segundo mais ameaçado do planeta. Nela, estão registradas cerca de metade das espécies de mamíferos do Brasil, sendo muitas endêmicas e ameaçadas de extinção. Os mamíferos possuem um papel ecológico muito importante na manutenção e regeneração das florestas tropicais. Eles são peças chave na arquitetura das comunidades biológicas através de funções no consumo e dispersão de sementes, polinização, herbivoria, frugivoria, e na atuação como predadores de topo. O grau de ameaça e a importância ecológica dos mamíferos tornam evidente a necessidade de incluir informações a seu respeito em inventários e diagnósticos ambientais. Este estudo visa estimar a riqueza e composição das espécies de mamíferos de médio e grande porte presentes na Área de Proteção Ambiental (APA) da Ilha Comprida, localizada no litoral Sul do Estado de São Paulo. Para o levantamento da mastofauna de médio e grande porte foram utilizados quatro métodos: censos visuais, transectos de pegadas, registro de pegadas por parcelas de areia e análises tricológicas das fezes encontradas. Foram obtidos registros de sete espécies de mamíferos silvestres abrangendo as seguintes famílias: Canidae (Cerdocyon thous), Dasypodidae (Dasypus novemcinctus), Cervidae (Mazama sp.), Mustelidae (Lontra longicaudis), Procyonidae (Procyon cancrivorus), Didelphidae (Didelphis sp.), e Felidae (Puma concolor). Os resultados desse estudo contribuem para o conhecimento da fauna local, podendo servir de subsídio para futuras pesquisas e propostas de manejo e conservação. Palavras-chaves: Inventário, Mastofauna, Conservação, Mata Atlântica. Abstract Among all tropical biomes the Atlantic forest is the second most endangered on the planet. It presents about half of the Brazilian mammal species, most of which are endemic and endangered. The mammals hold a very important ecological role in the maintenance and regeneration of tropical forest. They are key pieces in the architecture of biological communities’ trough consumption and seed dispersal, pollination, frugivory, and as top predators. Their degree of threat and ecological importance reveal us the need to include information about them in inventories and environmental diagnostics. Therefore, this study aims to estimate the richness and

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Artigo Original composition of medium and large mammals’ species in the Area of the Environmental Protection (APA) of Ilha Comprida, southern coast of São Paulo state. To register the occurrence of medium and large mammals, four methods were used: visual census, track transects track records in sandplots and hair analysis from excrements collected in the field. Records of seven species of wild mammals and one domestic species were obtained covering the families: Canidae (Cerdocyon thous), Dasypodidae (Dasypus novemcinctus), Cervidae (Mazama sp.), Mustelidae (Lontra longicaudis), Procyonidae (Procyon cancrivorus), Didelphidae (Didelphis sp.), and Felidae (Puma concolor). The results of this study contribute to the knowledge of the local fauna and are base for future proposals in management and conservation. Key words: Inventory, Mammal, Conservation, Atlantic Forest Introdução A conservação da Mata Atlântica enfrenta grandes desafios. Seus domínios abrigam 70% da população humana brasileira e concentram as maiores cidades e polos industriais do país (MMA, 2002). Sua área geográfica inicial cobria 12% do território brasileiro, porém hoje restam apenas 11,4% de sua extensão original que, mesmo encontrando-se em situação crítica, ainda abriga altos índices de diversidade e endemismo (RIBEIRO et al. 2009). De acordo com Mittermeier et al. (2005) o Bioma abriga de espécies endêmicas, 8000 árvores (que corresponde a 40% do total), 200 aves (16%), 71 mamíferos (27%), 94 répteis (31%) e 286 anfíbios (60%), isso mencionando apenas os grupos taxonômicos mais bem conhecidos. Os mamíferos de médio e grande porte são um dos grupos que mais sofrem com a perda e a fragmentação de habitat resultantes da interferência humana. Isso ocorre devido ao grande espaço que este grupo requer para garantir a manutenção de suas populações. Espaço com cobertura vegetal contínua é cada vez mais escasso na Mata Atlântica, onde existem poucos PORTELLA, Tatiana Pineda; FLYNN, Maurea Nicoletti. Inventario rápido de mamíferos de médio e grande porte da Área de Proteção Ambiental da Ilha Comprida, SP..RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 19-37, jun. 2012.

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Artigo Original fragmentos florestais maiores que 250 ha (RIBEIRO et al., 2009). Estudos no Bioma mostram que apenas um quarto das áreas protegidas é capaz de garantir a sobrevivência de populações viáveis de grandes roedores, primatas e felinos (CHIARELLO, 2000). De acordo com Kasper et al. (2007) os pré-requisitos básicos para o desenvolvimento de ações conservacionistas dependem do conhecimento básico das espécies e de suas distribuições no espaço, onde se inclui os inventários mastofaunísticos. Cerqueira (2001) ressalta que a grande maioria das áreas de preservação não conta sequer com inventários que determinem parâmetros de biodiversidade, e destaca a importância dos trabalhos de levantamento de dados. O objetivo deste foi inventariar a mastofauna de médio e grande porte presente em um dos poucos remanescentes florestais de Mata Atlântica localizado na Ilha Comprida, SP.

Material e métodos A Ilha Comprida ocupa uma superfície de 18.923 ha estendendo-se por cerca de 70 km entre as cidades de Cananéia, ao sul, e Iguape, ao norte. A região é formada basicamente por acúmulo de sedimentos marinhos e apresenta três sistemas de vegetação natural predominantes: manguezais, floresta de planície e vegetação de dunas (Gandolfo et al., 2001).O clima predominante é do tipo Subtropical úmido com verão quente. A umidade relativa média do ar é sempre superior a 80 % e praticamente inexiste estação seca bem definida (BECEGATO 2007). Segundo Hulle (2006) o uso de diversos métodos é essencial para um levantamento de espécies de mamíferos de médio e grande porte mais

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Artigo Original completo, uma vez que estas possuem hábitos bastante distintos e, portanto os métodos diferem quanto ao grau de detectabilidade. Deste modo, para estimar a riqueza do local foram utilizados diferentes métodos de amostragem. O Primeiro consistiu em percorrer trilhas pré-definidas em busca de visualização dos animais. Essa metodologia tem sido utilizada com sucesso por muitos pesquisadores para estimar a abundância de diversos grupos de mamíferos (CHIARELLO 1999, 2000, CULLEN et al. 2000). Os transectos de pegada partem do mesmo princípio, porém seu objetivo é detectar pegadas deixadas pelos animais ao longo das trilhas. Essa metodologia tem sido recomendada para detectar animais difíceis de serem observados, como é o caso de muitos carnívoros (Wilson & Delahey, 2001) e em especial os felinos (Oliveira & Cassaro, 2005). As pegadas encontradas foram identificadas através do livro guia de Becker & Dalponte (1991) “Mamíferos Silvestres Brasileiros”. A terceira metodologia consistiu na distribuição de parcelas (50 x 50 cm) de areia fina e úmida, iscadas com banana, bacon e sal, ao longo das trilhas. Segundo Pardini, et al. (2006) esta técnica tem se mostrado bastante eficiente para a realização de um levantamento rápido de mamíferos de médio a grande porte, principalmente com animais de hábitos noturnos e de difícil visualização. O último método consistiu na análise da microestrutura de pêlosguarda contidos nas fezes encontradas em campo segundo o método de Quadros e Monteiro-Filho (2006). As amostragens foram realizadas durante os meses de abril e julho de 2008.

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Artigo Original A riqueza total observada foi calculada utilizando as espécies encontradas em todos os métodos de amostragem. Já a riqueza estimada foi obtida utilizando-se apenas os registros das parcelas de areia, considerando cada uma como uma unidade amostral. A projeção da riqueza foi calculada por meio do estimador Jackknife de primeira ordem através do programa EstimateS, versão 7.5.2. (COLWELL 1997).

Resultados A riqueza observada de mamíferos de médio e grande porte foi de oito espécies, das quais sete são silvestres e uma é doméstica (Tabela 1). As espécies encontradas estão distribuídas em quatro Ordens sendo elas Didelphimorphia (1), Cingulata (1), Artyodacytila (1) e Carnivora (5). Além desses animais, foram encontradas também pegadas de um felino de pequeno porte não identificado. A riqueza estimada através dos dados obtidos nas parcelas de areia foi de 6 espécies com desvio padrão de ± 1,00. A curva do coletor demonstra uma tendência de estabilização indicando que o esforço amostral foi suficiente para detectar as espécies de mamíferos de médio e grande porte presente na região (Figura 1).

Tabela 1. Listagem, categorias tróficas e número absoluto de registros das espécies amostradas na Ilha Comprida, SP. (Av.) avistamento, (Pg.) Transeco de pegadas, (Fz) Fezes, (Pp) Parcelas de areia.

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Artigo Original

Ordem/ Família

Didelphimorphi a Didelphidae

Nome Científico

Nome popular

Guilda trófica

Registros Av.

Pg.

Fz.

Pp.

Didelphis aurita (Wied-Neuwied, 1826)

Gambá-deorelha-preta

Frugívoro/Onívoro

1

5

-

62

Dasypus novencinctus (Linnaeus, 1758)

Tatu-galinha

Insetívoro/Onívoro

-

4

-

-

Mazama sp.

Veado

Frugívoro/Herbívo ro

-

4

-

-

Procyon cancrivorus (Cuvier, 1798) Cerdocyon thous (Linnaeus, 1766) Canis familiaris

Mão-pelada

Frugívoro/Onívoro

1

-

-

-

Cachorro-domato Cachorrodoméstico Onça-parda

Frugivoro/Onívoro

-

17

-

6

-

Carnívoro

14 -

12

2

2

-

Carnívoro

11 -

1

-

Cingulata Dasypodidae Artyodactyla Cervidae Carnívora Procyonidae

Canidae Felidae

Mustelidae

Puma concolor (Linnaeus, 1771) N I* Lontra longicaudis (Cuvier, 1798)

Lontra

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3

32

1


Artigo Original 1900ral Riqueza estimada

1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1

51

101

151

201

251

301

Esforço amostral (nº de parcelas de areia) Figura 1. Curva do coletor para a estimativa de riqueza de espécie através do estimador Jacknife de primeira ordem.

As espécies registradas apresentaram diferentes graus de detectabilidade para diferentes métodos, portanto apresentaram frequências relativas distintas quando analisadas por cada metodologia (Figura 2). Pelos transectos de pegadas o Cerdocyon thous (cachorro-do-mato) foi a espécie que apresentou maior número de registros com 33,33%, enquanto que pelas parcelas de areia foi a quinta espécie mais detectada com 2,44 % do total. Nas parcelas, o animal com maior número de registros foi Didelphis aurita. (gambá-de-orelha-preta) com 50,4%, ficando em quarto (9,80%) nos registros dos transectos. A onça-parda foi a segunda mais registrada em ambos os métodos, com 26,02 % e 23,52 % respectivamente.

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Artigo Original Lontra longicaudis Dasypus novencinctus Mazama sp.

Parcelas de areia

ND

Transectos visual e de pegadas

Canis familiaris Puma concolor Cerdocyon thous Didelphis aurita 1900ral

1900ral

1900ral

1900ral

Frequência relativa (%)

Figura 2. Frequência relativa das espécies detectadas pelos métodos de parcelas de areia e transectos visual e de pegadas.

As espécies encontradas estão distribuídas em quatro guildas tróficas: frugivoros/onívoros, frugivoros/herbívoros, insetívoros/onívoros e carnívoros. A categoria frugívoro/onívoro foi a que apresentou maior número de espécies, com 43% do total (Figura 3).

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Artigo Original 14%

43%

Frugivoro - Onivoro Frugivoro - Herbíoro Carnivoro

29%

Insentivoro-Onivoro

14%

Figura 3. Representatividade das guildas tróficas das espécies encontradas na APA de Ilha Comprida.

Discussão Dos animais encontrados, apenas a onça-parda está sob algum grau de ameaça de extinção (MACHADO et al. 2008; BRESSAN et al. 2009). A presença dessa espécie na região torna clara a importância da Ilha Comprida nas estratégias de conservação da mata atlântica no país. Em relação às categorias tróficas, foi observado um grande predomínio de espécies generalistas. Essas espécies são beneficiadas em ambientes perturbados, pois são capazes de utilizar diversos tipos de habitats e itens alimentares permitindo assim, que esses animais sobrevivam em ambientes onde espécies com hábitos mais restritos não sobreviveriam (SILVEIRA 2005). O grupo com maior número de espécies encontradas foi o dos frugivoros/onívoros, englobando o gambá-de-orelhapreta, o cachorro-do-mato e o mão-pelada. Dentre eles, o gambá foi o que obteve maior número de registros. Segundo Pires et al. (2002) esta é uma espécie bastante comum em toda área de distribuição, mostrando grande

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Artigo Original eficiência adaptativa aos mais variados habitats, vivendo até mesmo em grandes centros urbanos. O cachorro-do-mato também obteve um grande número de detecções, principalmente na área de restinga, onde a maioria dos registros por transectos de pegadas foi obtido. É conhecido por ser um animal oportunista e generalista, tendo invertebrados, frutos e pequenos vertebrados como os principais componentes de sua dieta (EMMONS e FEER, 1997). O mão-pelada apresentou apenas um registro sendo o único obtido por censo visual. Fato curioso, já que segundo Cheida et al. (2006) este é um animal difícil de ser avistado e fácil de ser constatado por meio de pegadas. Eles apresentam uma pegada característica e utilizam frequentemente áreas próximas a corpos d’água, que possuem substrato bastante favorável para a impressão de rastros. Da ordem carnívora, essa é uma das espécies menos estudadas (MORATO et al. 2004). Na Ilha Comprida sua dieta é constituída basicamente por crustáceos, aves e frutos, contudo em outras localidades sua dieta também pode abranger pequenos mamíferos, peixes e insetos (NAKANO-OLIVEIRA 2006). Por serem frugívoras, essas três espécies atuam como potenciais dispersores de sementes (CÁCERES, 2002). Essas características os tornam, portanto, animais de suma importância para os processos de regeneração e reestruturação florestal da APA da Ilha Comprida. Outras guildas tróficas encontradas, e também representadas por

espécies

generalistas,

foram

os

de

frugívoros/

herbívoros

e

insetívoros/onívoros. As duas foram representadas apenas por uma espécie, o veado e o tatu-galinha respectivamente. Acredita-se que ambas sejam pouco abundantes na ilha, pois além do baixo número de registros elas estão

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Artigo Original entre as espécies mais procuradas por caçadores na região (CHEIDA et al. 2008). Os representantes da categoria Carnívoros foram a onça-parda e a lontra, que ao contrário das espécies anteriormente citadas, possuem uma exigência ambiental maior. A onça-parda embora tenha sido o animal com o segundo maior número de registros, acredita-se que não existam muitos indivíduos dessa espécie na Ilha Comprida (NAKANO-OLIVEIRA 2006), já que são animais que necessitam de grandes áreas de habitat, geralmente maiores que 100 km2 (SWEANOR et al. 2000). Por ser um grande predador que necessita de uma extensa área de vida, e pela maior perseguição humana, a presença dessa espécie em áreas muito fragmentadas e urbanizadas é cada vez mais rara (MAZOLLI et al. 2002). A espécie é classificada como vulnerável no Estado de São Paulo (BRESSAN et al. 2009) e na Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (MACHADO et al. 2008). Um fator preocupante, já que são consideradas “espécie-chave”, ou seja, animais que afetam a organização da comunidade com base apenas na quantidade de indivíduos ou biomassa (JANZEN 1986) e são importantes no controle de populações de herbívoros (REDFORD 1992). Sua dieta é composta basicamente por mamíferos de pequeno e médio porte (MARTINS et al. 2008). Os registros de lontra foram sempre encontrados ao lado de cursos d’água. A lontra é uma espécie semi-aquática que se locomove bem dentro de rios, lagos, manguezais, baías e lagunas (MARGARIDO e BRAGA, 2004). Ela se alimenta basicamente de peixes e crustáceos (KASPER et al. 2004), costumando capturá-los dentro d’água e indo comê-los em terra (PARDINI, 1998). Em um estudo realizado por Kasper et al. (2004) na região sul do país, foi constatado o consumo de restos de uma carcaça de boi por estes animais, sugerindo um hábito oportunista para a espécie pouco descrito antes. Este comportamento pode justificar a possível atração desse animal

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Artigo Original pela isca de bacon disposta na parcela de areia ao lado do rio, a qual foi responsável pelo único registro do animal por este método. O grande número de registros de cachorro doméstico dentro da região é um fator preocupante. A presença de animais domésticos e espécies invasoras tem sido a terceira maior ameaça a animais nativos em risco de extinção, ficando atrás apenas para a destruição e sobre-exploração de habitat (GROOM et al. 2006). Em um estudo realizado por Nakano-Oliveira (2006)

foi

constatado

que

esses

animais

estão

se

alimentando

constantemente de presas silvestres, sendo, portanto, predadores diretos de espécies nativas, além de competirem por alimento e espaço com outros predadores. Além disso, podem ser potenciais transmissores de doenças à fauna silvestre como a cinomose, parvovirose e raiva (RODDEN et al. 2004). Desta forma, é de extrema urgência um plano de manejo que controle animais domésticos que vivem soltos na região. Agradecimentos Á Doutoranda Fabiana Rocha-Mendes da Unesp Rio Claro

pela

identificação das espécies através da miscroestrutura dos pêlos-guarda e ao PIBIC-Mackenzie pela bolsa concedida a TPP.

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Artigo Original MAZZOLLI,

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Artigo Original Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia

Danielle Durães Fontana Gestora e Engenheira Ambiental, Faculdades Oswaldo Cruz. Email:dani_ambiente@yahoo.com.br

Maria Gabriela Silva Gestora e Engenheira Ambiental, Faculdades Oswaldo Cruz. Email: mariagabrielasilva@gmail.com

Ricardo Saleimen Coorientadores da TCC Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz

Kleber Cavazza Campos Coorientadores da TCC Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz

Júlio César Zanzini Orientador da TCC Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original Resumo A bacia do Rio Cotia está inserida na Bacia Hidrográfica do Alto do Tietê e leva esse nome, em razão de seu principal curso d’água pertencer ao município de Cotia na Região Metropolitana de São Paulo. Esta bacia está localizada nos Planaltos de Ibiúna e Paulista, apresentando elevações que variam de 750 à 1025m e é dividida em Alto Cotia e Baixo Cotia. Apresenta um risco intrínseco de inundações nas áreas mais baixas e de vale. O objetivo deste estudo é de buscar o entendimento da dinâmica físico-química desta bacia hidrográfica, bem como a análise crítica dos riscos existentes e eminentes de inundações nas áreas mais baixas, considerando principalmente o grau de ocupação e a importância ecológica desta região. Com base em cartas topográficas e utilizando como ferramenta o geoprocessamento foi possível identificar que a região da Baixo Cotia apresenta alto risco de inundações. Palavras chave: Geoprocessamento.

Rio

Cotia.

Bacia

Hidrográfica.

Inundações.

Abstract The basin of Rio Cotia is inserted in the Hidrográfica Basin of Alto Tietê and its name is derived from the city of Cotia in the Region Metropolitan of São Paulo. This basin is located in Plateaus of Ibiúna and Paulista, with rises that vary from 750 to 1025 m. It is divided in Alto Cotia and Baixo Cotia. It presents an intrinsic risk of flooding in valleys and lower areas. The objective of this study is to understand the physic-chemistry dynamics of the basin, as well as the critical analysis of the existing and eminent risks of flooding in low areas, mainly considering the degree of occupation and the ecological importance of this region. Using topographic maps and geoprocessing techniques flooding risk areas were identified. Key-words: Cotia River. Hydrographic Basin. Flooding. Geoprocessing Techniques.

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original Introdução No início do século XX, foram realizadas as obras das represas que abasteceriam a cidade de Cotia e posteriormente destinadas também ao abastecimento das cidades circunvizinhas, em destaque São Paulo. O município de Cotia localiza-se na porção Oeste da Região Metropolitana de São Paulo – RMSP. Esta é considerada a primeira intervenção mais intensa registrada na Bacia Hidrográfica do Rio Cotia. Em 1927 foi instalada a Cooperativa Agrícola de Cotia, dando o apelido à cidade de Cinturão Caipira, este avanço populacional foi responsável pela grande intervenção extrativista na Mata Atlântica, afetando diretamente a qualidade da bacia hidrográfica de toda a região. Na década de 1930 houve uma expansão do setor industrial e especulação imobiliária incentivada pelo poder público local. Com a inauguração da Rodovia Raposo Tavares, Cotia passou a ter uma via direta com a Metrópole São Paulo, o que fez com que o município perdesse seus limites bem definidos, comprometendo o espaço urbano devido aos diversos loteamentos de classe média a alta que se instalaram no entorno da rodovia. Decorrente desse crescimento desordenado houve ocupação de áreas de risco, como encostas e vales acentuados. A ocupação pela população de baixa renda se distribuiu pela cidade, ocupando o vale do Rio Cotia e sua montante, em direção a Reserva Florestal do Morro Grande. Já as ocupações da população de classe média a alta instalaram-se ao longo da rodovia Raposo Tavares e a jusante do Rio Cotia. O setor industrial instalou-se nas áreas da bacia do Rio Cotia devido a facilidade de acesso as rodovias.

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original Devido ao alto grau de industrialização e urbanização desta região, bem como pontos de erosão, desmatamento e diminuição do nível d’água superficial, a qualidade das águas superficiais é diretamente afetada pelo lançamento in natura de esgotos industriais e domésticos, além dos sedimentos carreados da montante para a jusante pelo próprio curso do rio. Entre as formas de impacto nesta bacia, cita-se também o êxodo urbano que resulta em usos e ocupações inadequados, alterando de forma quantitativa e qualitativa os corpos d’água, trazendo como consequência danos econômicos, sociais e ambientais. O entendimento da dinâmica físico-química da Bacia do Rio Cotia se faz necessário devido à sua importância no abastecimento tanto para o município onde está a nascente, quanto para as cidades adjacentes, entre elas o município de São Paulo. O objetivo deste trabalho é analisar a atual situação da Bacia Hidrográfica do Rio Cotia quanto à suscetibilidade à inundação e disponibilidade hídrica, bem como apontar a situação de preservação

dos

geoprocessamento,

seus

mananciais

informações

com

topográficas

auxílio e

do

método

bibliográficas.

de

Serão

identificados os pontos de maior risco para a população local e para o meio físico e biológico. O mapeamento dessas áreas auxiliará na elaboração de estudos de planejamento ambiental e na execução de projetos de prevenção a ocupações irregulares, inundações futuras e correção do cenário atual nesta bacia.

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Artigo Original Descrição Física da Área Segundo Silva e Oliveira (2009) a bacia do Rio Cotia está inserida em dois contextos geomorfológicos: Planaltos de Ibiúna e Paulistano. O alto curso do Rio Cotia está localizado no planalto de Ibiúna, embasado no intervalo altimétrico de 930 a 980 metros. Após a Cachoeira da Graça, o Rio Cotia deixa seu compartimento de origem e penetra o Planalto Paulistano. As figuras 1, 2 e 3 apresentam o Rio Cotia em toda a sua extensão, da nascente até o deságue no rio Tietê, mostrando respectivamente, um modelo tridimensional da bacia com o bloco soerguido, em vermelho e laranja, correspondendo ao planalto de Ibiúna, enquanto a área mais rebaixada, predominantemente em amarelo e verde, representando o planalto Paulistano; o perfil longitudinal; e o perfil topográfico geológico da Serra de Paranapiacaba até o rio Tietê.

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

42


Artigo Original

Figura 1: Modelo tridimensional da bacia do Rio Cotia. Fonte: SILVA e OLIVEIRA, 2009.

Figura 2 Perfil longitudinal do Rio Cotia da nascente até a foz no rio Tietê. Fonte: SILVA e OLIVEIRA, 2009

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original

Figura 3: Perfil topográfico geológico da Serra de Paranapiacaba até o rio Tietê. Fonte: SILVA e OLIVEIRA, 2009. A região do município de Cotia encontra-se em um clima denominado Cwa (Conforme classificação Koeppen), sigla que caracteriza um clima tropical de altitude, com a predominância de chuvas no verão e secas durante o inverno. A temperatura média durante o verão é de 22º, e a temperatura média durante o inverno é de 16º. A figura 4 apresenta o climograma anual de temperatura e pluviometria (CEPAGRI, S/D).

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original 30 28 26 24 22 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0

250

200

150

mm

°C

Temperatura e Pluviometria - Cotia / SP

100

50

0 JAN

FEV

M AR

ABR

Temp. Mínima

M AI

JUN

JUL

Temp. Máxima

AGO

SET

Temp. Média

OUT

NOV

DEZ

Chuva (mm)

Figura 4: Temperatura e pluviometria do município de Cotia/SP. Fonte: CEPAGRI, S/D. Segundo Beu (2008), a bacia hidrográfica do Rio Cotia, é formada pelos Rios Capivari e dos Peixes, dando origem ao Rio Cotia no Alto Cotia, córrego Manoel Góes Serrano, Córrego Potium, Ribeirão das Pedras e Ribeirão do Aterrado, no Baixo Cotia. O Alto Cotia é uma região com menor interferência antrópica por se localizar na reserva florestal do Morro Grande, área protegida pela SABESP (Companhia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo), local onde há dois represamentos, a represa Pedro Beicht e a represa da Graça, pertencentes ao sistema produtor de água do Alto Cotia. Já o Baixo Cotia encontra-se em uma situação oposta. A falta de manejo e proteção dos mananciais, a ocupação irregular e a ausência de infraestrutura geram contaminação

hídrica,

assoreamento

dos

corpos

d’águas

e

o

comprometimento no tratamento das águas para abastecimento público.

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original Possui apenas um represamento localizado próximo à confluência com o Rio Tietê nomeado Reservatório Isolina, pertencente ao sistema produtor de água do Baixo Cotia (ZUFFO, 2002). A região do Rio Cotia, da nascente ao exutório, encontra-se sobre as litopedologias:

Granitóides

sincolisionais,

do

Terreno

foliados Embu

peraluminosos, (NP3eγ1S);

tipo

S,

Granitóides

pré

a

foliados

calcialcalinos, tipo I, pré a sincolisionais, do Orógeno Paranapiacaba (NP3pγ1I); Complexo Embu, unidade de xistos, localmente migmatíticos (NPexm); Grupo Votuverava, unidade terrígena – Supergrupo Açungui (MP1vot), conforme apresentado na figura 5 descrito no mapa Geológico do Estado de São Paulo, 1:750.000 (CPRM, S/D).

MP1vot

NP3pγ1I MP1vot

Cotia/SP

Represa da Graça

NPexm Represa Pedro Beicht

NP3eγ1S

Figura 5: Mapa da geologia regional do Rio Cotia. Fonte: CPRM, S/D.

A qualidade da água pertencente à bacia do Rio Cotia é monitorada pela CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) em cinco

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Artigo Original pontos. De acordo com os pontos monitorados pode-se dizer que o ponto mais crítico de matéria orgânica devido lançamento de esgoto doméstico é o baixo cotia onde também se concentra a maior ocupação populacional. Com auxílio do software MAPINFO® versão 10.5, as cartas topográficas dos bairros do município de Cotia em escala de 1:10000, cedidas gentilmente pela CESAD – Seção de Produção de Bases Digitais para Arquitetura e Urbanismo – USP em Junho de 2010, foram georreferenciadas e geoprocessadas, através da vetorização manual das linhas topográficas, uma vez que o material foi cedido em formato raster (imagem – jpeg) e a partir desse vetor (curvas de nível) foi possível obter o modelamento do terreno e a formatação de um mapa temático (hipsométrico) que mostra a representatividade da geomorfologia da Bacia Hidrográfica do Rio Cotia, indicando os pontos altos (divisores de águas) e, principalmente, os pontos mais baixos do terreno, fornecendo então, informações sobre a possibilidade de inundações em períodos de maior intensidade pluviométrica A bacia do Rio Cotia é formada por doze cartas: Água Espalhada: Articulação 1341 (1994); Bairro dos Brotas: Articulação 1346 (1992); Caraguatá: Articulação 2333 (1987); Caucaia do Alto: Articulação 1344 (1994); Cotia: Articulação 2316 (1994); Grilos: Articulação 1222 (1986); Raposo Tavares: Articulação 1326 (1996); Rio Sorocamirim: Articulação 1343 (1994); Vargem grande: Articulação 1342 (1994); Vila Santa Rita: Articulação 2315 (1996); Vila Santo Antônio: Articulação 2325 (1995); Tijuco Preto: Articulação 2331 (1994); onde todas foram analisadas de acordo com seu grau de declividade através do software supracitado.

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original Com base nos estudos realizados, foi possível identificar as áreas com maior risco de inundação devido aos pontos mais baixos associados as declividades mais altas conforme pode-se verificar nos mapeamentos a seguir. a) Articulação 2316 – Cotia: Região central de Cotia, tendo a Rodovia Raposo Tavares a maior e principal via de acesso a todo o município (Figuras 6, 7 e 8).

Figura 6: Mapa 3D – Cotia. Fonte: EMPLASA (1994).

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Artigo Original Figura 7: Mapa Hipsométrico – Cotia. Fonte: EMPLASA (1994).

Figura 8: Imagem de Satélite – Cotia. Fonte: GOOGLE EARTH, 2011.

Região localizada nas proximidades do centro do município de Cotia, com um adensamento populacional alto e a presença da Rodovia Raposo Tavares em toda sua extensão como pode ser observado na figura 38. O corpo d’água presente nesta região é o Rio Cotia, com a importância quanto ao seu volume e vazão. As cotas dessa região variam de 750 m a 950 m. b) Articulação 2315 – Vila Santa Rita: Região de divisa entre Cotia, Itapevi e Vargem Grande, contendo os bairros Granja Carolina, Mirante da Mata e o bairro das Graças (Figuras 9, 10 e 11).

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Artigo Original

Figura 9: Mapa 3D – Vila Santa Rita. Fonte: EMPLASA (1996).

Figura 10: Mapa Hipsométrico – Vila Santa Rita. Fonte: EMPLASA (1996).

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Artigo Original

Figura 11: Imagem de Satélite – Vila Santa Rita. Fonte: GOOGLE EARTH, 2011. Esta folha apresenta uma área baixa onde pode ocorrer inundação próxima à Estrada Velha da Olaria e Estrada do Sítio Grande, suas feições topográficas variam de 775 m a 1000 m. A classificação de adensamento populacional é considerada alta e isso é um agravante em épocas de precipitações contínuas que saturam o solo. c) Articulação 2325 – Vila Santo Antonio: Região de divisa entre Cotia e Embu, contendo os bairros Jardim do Engenho, Jardim Horizontal e Jardim Fontana (Figuras 12, 13 e 14).

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Artigo Original

Figura 12: Mapa 3D – Vila Santo Antonio. Fonte: EMPLASA (1995).

Figura 13: Mapa Hipsométrico – Vila Santo Antonio. Fonte: EMPLASA (1995).

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Artigo Original

Figura 14: Imagem de Satélite – Vila Santo Antônio. Fonte: GOOGLE EARTH, 2011. Contempla o Ribeirão Moinho Velho, Córrego Munck, Córrego Retiro das Pedras e suas cotas topográficas vão de 775 m a 875 m. Apresenta um grau de adensamento populacional alto. As áreas demarcadas na figura 44 são áreas de alto risco devido à presença de muitos corpos hídricos e a ocupação das áreas de várzea e a impermeabilização do solo. d) Articulação 2331 – Tijuco Preto: Região integrante do Distrito de Caucaia do Alto, contendo o limite da RFMG (Figuras 15, 16 e 17).

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Artigo Original

Figura 15: Mapa 3D – Tijuco Preto. Fonte: EMPLASA (1994).

Figura 16: Mapa Hipsométrico – Tijuco Preto. Fonte: EMPLASA (1994).

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original

Figura 17: Imagem de Satélite – Tijuco Preto. Fonte: GOOGLE EARTH, 2011.

Esta região apresenta feições topográficas de 775 m a 950 m e o Rio Cotia é responsável pela drenagem. Nesta área também contempla a Estação de Tratamento de Água, a Barragem da Graça, que é alimentado pelo Ribeirão da Graça. A área de risco delimitada na figura 45 é a mais baixa da região, com alto grau de adensamento e a ocupação já margeia o Rio Cotia o que torna a área de grande risco de inundação. Discussão Na região já existem conflitos de ocupação como, por exemplo, área industrial muito próxima às áreas residenciais, além do conflito natural do desenvolvimento econômico versus preservação ambiental da fauna e flora que coloca em risco muitas reservas e corpos hídricos. Em algumas áreas de estudo deste projeto, é possível identificar que a ocupação coloca em risco a drenagem e o escoamento natural dos corpos hídricos. Segundo Canholi (2005), o problema real se dá em épocas de chuvas consecutivas, quando há saturamento dos solos e das galerias. O que juntamente com a ocupação

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original irregular em áreas de várzea, pode produzir inundações crônicas, pois quando o volume do rio atinge níveis mais altos, devido às chuvas, ele alaga as várzeas naturalmente e se essa área estiver ocupada, as residências, por consequência, serão atingidas. Outro fator importante é o assoreamento dos rios e córregos tanto por resíduos sólidos quanto por sedimentos. Segundo Frankenberg (2003), devem ser realizadas limpezas periódicas e manutenção preventiva constantes nas bocas de lobos e galerias, principalmente antes das épocas chuvosas para evitar entupimento devido descarte de resíduos nas vias e calçadas. Esses resíduos podem também atingir os rios e córregos. Para reduzir os casos de enchentes e danos à população segundo Canholi (2005), deve ser realizado um planejamento consistente de drenagem urbana, prevendo a combinação adequada de recursos humanos e materiais e o balanceamento entre as medidas estruturais e não estruturais. Nos casos em que as medidas estruturais - obra de canalização, o desvio de corpos hídricos, recomposição vegetal, controle de erosão - são inviáveis tecnicamente ou economicamente, as medidas não estruturais, como por exemplo, educação ambiental e sistemas de alerta, podem reduzir os danos esperados em curto prazo, com investimentos reduzidos. Com

base

no

estudo

exposto,

é

nítida

a

necessidade

da

regulamentação, fiscalização e principalmente planejamento quanto à especulação imobiliária desenfreada que ocorre em todo o município de Cotia e nos demais municípios pertencentes à Bacia Hidrográfica em estudo. Porém a principal preocupação perante a preservação da dinâmica desta bacia hidrográfica é quanto à ocupação irregular existente na região, uma vez que esta intervenção causa danos diretos à bacia como: desmatamento

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Artigo Original da mata ciliar, assoreamento dos corpos d’água, contaminação das águas superficiais e subterrâneas, etc. A

ação

emergente

em

toda

essa

região

é,

para

áreas

impermeabilizadas, a efetivação das redes de drenagem pluvial com a atuação de galerias que comportem o pico máximo de chuvas constantes, e para áreas ainda não impermeabilizadas, a atuação na preservação das matas ciliares e do ecossistema como um todo no entorno dos corpos d’água. Reforça-se que as ações em andamento no município, alargamento de pontos e canais de escoamento, terão o efeito de acelerar a velocidade do rio e transferir o problema para a jusante. Ações de retardamento devem ser tomadas para restaurar as condições naturais originais dos rios e córregos: manter ou restaurar as várzeas dos córregos; preservar os meandros; dotar as canalizações de revestimento rugoso para redução da velocidade do escoamento; restaurar a vegetação ciliar tendo como finalidade deter o escoamento; e reduzir o pico das enchentes por meio do amortecimento das ondas de cheia (CANHOLI, 2005),

Essas ações podem ser associadas a

atividades de lazer e recreação mediante monitoramento da qualidade d’água. Conclusão A bacia do Rio Cotia é uma região de extrema importância devido ao seu impacto na bacia do Alto Tietê, pois é um contribuinte de descarga no Rio Tietê além de ser uma área de extrema ocupação populacional. Esta bacia é dividida em dois setores de estudo: Alto e Baixo Cotia. Ao se analisar os mapas hipsométricos elaborados, é possível identificar que as principais áreas com risco de enchente estão localizadas no Baixo Cotia, pois é a área que tem maior interferência antrópica. A maior parte do Alto Cotia está

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Artigo Original localizado na Reserva Florestal do Morro Grande, onde se concentra a maior parte das nascentes dos afluentes do Rio Cotia. As folhas cartográficas: Cotia, Vila Santa Rita, Vila Santo Antônio e Tijuco Preto são as que apresentam as menores altitudes levantadas nesse estudo e segundo Canholi (2005) essa seria uma área de inundação ribeirinha, onde ocorrem inundações naturais resultado da flutuação dos rios durante os períodos secos e chuvosos. Os problemas ocorrem devido à ocupação dessas áreas de risco pela população e que nesta combinação com impermeabilização do solo e canalização dos corpos hídricos, se torna uma área de risco alto e iminente em épocas de chuvas torrenciais e consecutivas. Com o crescimento econômico, Cotia teve um aumento populacional de 53% desde 1991, tendo como último censo, população de 201.150 habitantes

(IBGE,

2010),

resultando

na

implantação

de

inúmeros

condomínios além de ocupações irregulares. O índice de chuvas é mais intenso nos meses de janeiro e fevereiro (respectivamente 172 e 211 mm de chuva acumulado). Esses são os meses de maior

risco

para

a

população

local,

pois

o

aumento

da

área

impermeabilizada, assoreamento dos rios e ocupação irregular faz com que a drenagem pluvial permeie mais lentamente pelo solo e, esse volume de água, passa a atingir residências e outras áreas de interesse ecológico e social. Além da quantidade, a qualidade desses corpos d’água deve ser ressaltada, apesar de não causar interferência no processo de inundações pode causar contaminação na população circunvizinha por doenças de veiculação hídrica. De acordo com os dados obtidos, o rio se encontra extremamente degradado em toda a sua extensão do Baixo Cotia, o que é um

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Artigo Original dado alarmante já que alguns municípios se utilizam desse corpo hídrico para abastecimento público, como é o caso da Represa Isolina. O Alto Cotia apresenta índices de qualidade melhores, pois a sua localização é mais protegida – Reserva Florestal do Morro Grande. Os corpos hídricos localizados no Alto Cotia são responsáveis pelo abastecimento do próprio município de Cotia, além do município de São Paulo. Alguns projetos já em andamento em parceria com o Estado de São Paulo preveem o tratamento de 85% do esgoto sanitário para 2013. Melhorando a situação atual de 43% de esgoto tratado na região para os 39% de esgoto coletado. Um projeto desafiador, pois isso impactará diretamente na qualidade dos corpos d’água, uma vez que o descarte inadequado de esgoto doméstico é o maior responsável pela poluição hídrica local. As regiões de Cotia, Vila Santa Rita, Vila Santo Antônio e Tijuco Preto, além de apresentarem as menores altitudes também são as regiões de maior

adensamento

populacional,

aumentando

consideravelmente

a

possibilidade de enchentes e inundações. O melhor meio de se evitar grandes transtornos por inundação é regulamentar o uso do solo, limitando a ocupação de áreas inundáveis a usos que não impeçam o armazenamento natural da água pelo solo e que sofram poucos danos em caso de inundação. Esse zoneamento pode ser utilizado para promover usos produtivos e pouco sujeitos a danos, permitindo a manutenção de áreas de uso social, como áreas livres no centro das cidades, reflorestamento, e certos tipos de uso recreacional. O estudo detalhado das áreas de risco se faz necessário, uma vez que é intrínseca a aplicação de ações que evitem ou minimizem o desequilíbrio da Bacia Hidrográfica do Rio Cotia e de todos que dependem e interagem com esta.

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Artigo Original Referências BARROS, Raphael Tobias de Vasconcelos; et al. Manual de saneamento e proteção ambiental para os municípios. Belo Horizonte: Escola de Engenharia da UFMG, 1995. 18-22, 35-36, 42-45, 76-77, 162-171, 211-213p. Volume II. BERTONI, José; NETO, Francisco Lombardi. Conservação do Solo. 7.ed. São Paulo: Ícone, 2010. 24-28, 34 e 43p. BEU, Sandra Eliza. Caminhos do Rio Cotia. São Paulo: Selva, 2008. 64p. CANHOLI, Aluídio Pardo. Drenagem Urbana e Controle de Enchentes. São Paulo: Oficina de Textos, 2005. 15-71p. CARVALHO, Celso Santos; GALVÃO, Thiago. Prevenção de Riscos de Deslizamentos em Encostas: Guia para Elaboração de Políticas. Brasília: Ministério das Cidades; Cities Alliance, 2006. 50p. CATHARINO, Eduardo Luis Martins. et al. Plano de Gestão Emergencial da Reserva Florestal do Morro Grande: Diagnóstico dos Meios físicos e Biótico. São Paulo: Stemag Engenharia, Universidade de São Paulo, Instituto Botânica e SELVA – Sociedade Ecólogica Verde e Amarelo, 2004. 29p. CEPAGRI UNICAMP, Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas a Agricultura. Clima dos municípios paulistas, S/D. Disponível em: http://www.cpa.unicamp.br/outras-informacoes/clima-dosmunicipios-paulistas.html Acessado em: 14/05/2011 CETESB: Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. Publicações e relatórios das águas superficiais, 2009. Disponível em: http://www.cetesb.sp.gov.br/agua/aguas-superficiais/35publicacoes-/-relatorios Acessado em: 21/05/2011 CETESB: Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. Resolução CONAMA Nº 357 de 17 de Março de 2005.

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Artigo Original Disponível em: www.cetesb.sp.gov.br/Agua/praias/res_conama_357_05.pdf Acessado em: 21/05/2011 CPRM: Companhia Pesquisa de Recursos Minerais: Download notas explicativas e arquivo kml (Google Earth) Disponível em: http://geobank.sa.cprm.gov.br/ Acessado em: 21/05/2011 EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Grilos. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-V-4-NE-B. 1986. Escala 1:10000, articulação 1222. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Raposo Tavares. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-V-2-NE-F. 1996. Escala 1:10000, articulação 1326. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Água Espalhada. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-V-2-SE-A. 1994. Escala 1:10000, articulação 1341. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Vargem Grande. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-V-2-SE-B. 1994. Escala 1:10000, articulação 1342. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Rio Sorocamirim. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-V-2-SE-C. 1994. Escala 1:10000, articulação 1343. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC).

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Caucaia do Alto. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-V-2-SE-D. 1994. Escala 1:10000, articulação 1344. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Bairro dos Brotas. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-V-2-SE-F. 1992. Escala 1:10000, articulação 1346. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Vila Santa Rita. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-VI-I-NO-E. 1996. Escala 1:10000, articulação 2315. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM – Folha Cotia. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-VI-I-NO-F. 1994. Escala 1:10000, articulação 2316. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Vila Santo Antônio. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-VI-I-NE-E. 1995. Escala 1:10000, articulação 2325. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Tijuco Preto. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-VI-I-SO-A. 1994. Escala 1:10000, articulação 2331. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). EMPLASA, Empresa Metropolitana de planejamento da Grande São Paulo – S.A. Levantamento aerofotogramétrico projeção UTM - Folha Caraguatá. Índice de nomenclatura: SF-23-Y-C-VI-I-SO-C. 1987. Escala 1:10000,

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original articulação 2333. Município de Cotia. Datum horizontal: Córrego Alegre (MG). Datum vertical: Marégrafo de Imbituba (SC). FRANKENBERG, Claúdio Luís Crescente; et al. Gestão Ambiental Urbana e Industrial. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. 26-67 p. FUSP – Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo. Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê – Diagnóstico Analítico da Bacia. São Paulo: 2008. Conselho Estadual de Recursos Hídricos. 212-218p. GOOGLE EARTH, 2011. Programa de imagens de satélite. Disponível em: http://www.google.com.br/intl/ptBR/earth/download/ge/agree.html Acessado em: 05/03/2011 IBGE: Canal Cidades, 2010. Informações demográficas e econômicas. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 Acessado em: 05/03/2011 LUZ, Rodolfo Alves; UMMUS, Marta Eichemberger. Relevo, hidrografia e solos da Reserva Florestal do Morro Grande (Sistema Alto Cotia) e evolução geomorfológica do Planalto de Ibiúna. Revista Departamento de Águas e Esgotos (DAE), São Paulo, N.º181, 12-20p, Setembro de 2009. MAPINFO, Professional 10.5. Software de geoprocessamento. Versão 10.5. Pitney Bowes Business Insight. SAVIOLI, Mario Luiz. A cidade e a estrada: As transformações urbanas do município de Cotia ao longo da Rodovia Raposo Tavares. São Paulo: Edicon, 2007. 169p. SECRETARIA DE ESPORTE, LAZER E CULTURA JUVENTUDE:S/D. Mapa da Região Metropolitana de São Paulo. Disponível em: http://www.juventude.sp.gov.br/portal.php/minhacidade/reg_saopaulo Acessado em: 05/03/2011 SILVA, Katiúcia de Sousa; OLIVEIRA, Débora de. Mapeamento de anomalias de drenagem: indícios de controle litológico e estrutural na bacia

FONTANA, Danielle Durães; SILVA, Maria Gabriela. Mapeamento da Suscetibilidade a Inundações da Bacia do Rio Cotia.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 38-64, jun. 2012.

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Artigo Original hidrográfica do Cotia, em Cotia – SP, Brasil. 2009. 65p. Monografia (Graduação Geografia) – Universidade de São Paulo – USP. ZUFFO, Antônio Carlos; SANTOS, Rozely Ferreira; DIAS, Elvira Gabriela. Proposta metodológica para gestão integrada da qualidade das águas. 2002. 8p. Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental de Cancun, México. UNICAMP.

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Artigo Original Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos.

Rodrigo Malanconi Engenheiro Ambiental pelas Faculdades Oswaldo Cruz, São Paulo. Email: rodrigo.malanconi@hotmail.com

Rodrigo Chimenti Cabral Engenheiro Civil e Gerente da Lara Energia

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original Resumo Com o crescimento do numero de projetos de captação de biogás em aterros sanitários visando redução de gases de efeito estufa emitidos para a atmosfera, esse trabalho foi elaborado para a melhoria qualitativa e quantitativa do sistema de captação a partir de um estudo sobre a pluma de gás e pressão de extração exercida nos poços de gás. Um aterro sanitário com sistema de captação de biogás, Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, pode gerar créditos de carbono. Os créditos de carbono constituem uma espécie de moeda para a comercialização da mitigação de Gás de Efeito estufa em países que ratificam o protocolo de Kyoto. Com o estudo de plumas de gases e controle de pressões durante a captura de biogás é possível estabelecer pressões ideais direcionadas nas áreas de maiores concentrações de gás metano. Consegue-se assim uma maior eficiência de extração do biogás sem ocasionar a injeção de ar atmosférico no maciço do aterro, o que ocasionaria o aumento da presença de bactérias aeróbias no maciço de resíduos sólidos acabando com as colônias de bactérias metanogênicas responsáveis pela degradação que gera gás metano. Palavras-chave: Metano. Pluma de gás. Aterro Sanitário. Abstract With the increase in number of gas capture projects on landfills aiming to reduce greenhouse gases emissions, this work was elaborated to qualitative and quantitative improvement of the collection system based on the study of the gas plume and pressure exerted on gas wells extraction. A landfill with a gas capture system, the Clean Development Mechanism, can generate carbon credits, a currency for greenhouse gas emission mitigation marketing in countries that ratify the Kyoto Protocol. By studying the gas plume and the pressure control during the biogas capture it is possible to establish an ideal pressure directed to the areas of highest methane gas concentration, thus making a better biogas extraction without entailing the atmospheric air injection into the landfill, which would cause the increased presence of aerobic bacteria in the massive solid waste, wiping out bacteria colonies responsible for degradation in methanogenic anaerobic conditions which generates methane gas. Key words: Methane. Landfills. Plume of gas.

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original Introdução: Descrição do Aterro Sanitário Lara O aterro Sanitário Lara localizado no bairro de Sertãozinho (Mauá – SP) possui um total de 300 poços de extração de biogás distribuídos em uma área aproximada de 30 hectares. O aterro recebe em média 2.800 toneladas de lixo residencial por dia, somando um total aproximado de 10.500.000 toneladas de resíduos sólidos aterrados, o aterro está em operação pela empresa Lara desde 1991, e o sistema de extração e queima de biogás esta em operação desde 2006 (Figura 1). Os efluentes líquidos, o chorume, e gasosos, o biogás gerados durante a decomposição da matéria orgânica presente nos resíduos depositados são drenados por gravidade através de sistemas de drenagens horizontais e verticais interligados desde a base até a última camada de descarregamento de resíduo sólido no aterro Lara (Figura 2).

Figura 1: Ilustração do Aterro Sanitário Lara.

Figura 2. Drenagens de base.

Fonte: Lara Energia

Em todas as drenagens verticais do aterro sanitário foram instalados cabeçotes conectados a tubulações que capturam o biogás no maciço de resíduo e encaminham até a usina de aspiração (Figura 3). Para facilitar a localização dos poços, no aterro estes são divididos em dez estações de regulagem (manifolds) e a cada mês é realizado um levantamento planialtimétrico com a localização, numeração e a tubulação de extração de cada poço.

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original

Figura 3: Linhas de captação Figura 4: Planta do aterro com a localização dos poços e da disposição de resíduos. Fonte: Lara Energia

Cada estação de regulagem ramifica-se em doze linhas de tubulação secundárias de 110 mm que são distribuídas pelo aterro para a captação do biogás, em cada linha são conectados em média três poços de acordo com sua vazão de biogás, em regiões que há pouca vazão podem-se conectar mais poços na mesma linha para que a pressão seja dividida de forma que não oxigene os poços. Já as regiões que apresentam maiores vazões são conectadas, menos poços por linha para que haja maior eficiência de extração de biogás através de um balanceamento de perdas de carga Mbar/metro de linha secundária (Figura 5). A usina de captação conta em seu projeto com quatro conjuntos de motores e sopradores com capacidade nominal de 4000 Nm3/h por conjunto, dois flares com capacidade de 8000 Nm3/h por unidade (Figura 6).

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Artigo Original Figura 5: Coletor I com as doze ramificações (linhas) Figura 6: Conjuntos motores e sopradores Fonte: Usina de captação de biogás Lara

Os motores acoplados aos sopradores exercem a pressão de sucção que é distribuída em todo aterro para a extração de biogás e pressão positiva para envio do gás extraído do aterro para queimador enclausurado (Flare). Essa pressão de sucção é controlada por sistema CLP (Controle Lógico Programável) presente na Usina. A usina de aspiração e queima de biogás conta com sistema supervisório que monitora todos os dados da usina, e apresentam dados atuais de pressões, vazão de biogás em Nm3/h, temperatura de queima entre outros dados da planta e um sistema registrador que registra minuto a minuto os mesmos dados apresentados pelo sistema supervisório (Figura 7).

Figura 7: Supervisório da Lara Energia. Fonte: Lara Energia.

A partir dos dados registrados são executados relatórios de monitoramento das reduções de emissões de gases de efeito estufa para avaliações realizadas por Entidades Operacionais Designadas (DOE) com a finalidade de obtenções de certificados de emissões reduzidas (CER´s). As emissões reduzidas (ERy) no aterro sanitário Lara são conquistadas através da

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Artigo Original conversão de gás metano em gás carbônico reduzindo 21 vezes o potencial de aquecimento global através da queima de biogás em temperaturas acima de 500ºC em flare conforme a metodologia adotada pela UNFCCC - United Nations Framework Convention on Climate Change (Iclei, Manual para Aproveitamentode Biogás - Volume 1 - Aterros Sanitários) (Figura 8). CH4 + 2Ol2

CO2 + 2H2O + ENERGIA TÉRMICA

Figura 7: Queimador de Biogás Enclausurado (Flare). Fonte: Lara Energia

Atualmente são destruídos aproximadamente cerca de 4000 Nm3/h (Normal metro cúbico por hora) de metano, equivalente a 8,000 Nm3/h de Biogás à 50% de metano, resultando cerca de 1200 a 1500 de Toneladas de Carbono Equivalente (CO2eq) (O Estado de São Paulo, Vida, 27 de outubro de 2010).

Metodologia de Análise de Extração de Biogás por Plumas É efetuado um levantamento de qualidade e pressão do Biogás em cada ponto de extração (poço) no aterro sanitário Lara, este levantamento atualmente é efetuado duas vezes ao mês, cada levantamento dura em média 13 dias, após a coleta dos dados é tirada a média dos valores de cada ponto de extração. Além da média é analisada a pressão de sucção que esta sendo aplicada no ponto de extração, no aterro Lara a pressão de extração

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Artigo Original em cada ponto não deve ser maior que 1 milibar de pressão, para que não cause a oxigenação do maciço do aterro. Após as médias calculadas, os valores são atribuídos respectivamente em seus pontos georeferenciado na planta do aterro e assim é possível realizar a pluma de biogás do aterro sanitário Lara.

Levantamento de dados em campo O levantamento de dados de campo é realizado duas vezes por mês, em cada poço de extração de biogás através de dois instrumentos de leituras; um analisador de gás portátil e um mano vacuômetro digital. O analisador portátil colhe uma amostra do biogás que esta sendo gerado no poço em que se está fazendo a leitura e fornece os dados de CH4%v/v, CO2%v/v e O2%v/v, cada leitura dura em média 60 segundos (1 minuto). O mano vacuômetro analisa pressões negativas e positivas com que o biogás está sendo extraído do poço durando aproximadamente 15 segundos. Os dados são anotados em uma planilha de monitoramento e ao final de cada mês é tirada a média das leituras de todos os poços. Com a tabela de médias finalizada, os valores são atribuídos em seus pontos referenciado geometricamente correspondentes aos poços de extração na planta do aterro em forma de cores estipuladas para cada faixa de qualidade do biogás avaliado (Tabela 1).

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original Tabela 1: Faixa volumétrica de concentração de gás metano (CH4). Fonte: Lara Energia Faixa volumétrica de concentração de gás metano (CH4)

Legenda

> que 60% Entre 55 e 59,9% Entre 50 e 54,9% Entre 45 e 49,9% Entre 40 e 44,9% < que 39,9%

A pintura de cada poço não deve ultrapassar 3 centímetros de diâmetro em levantamento planialtimétrico, pois de acordo com o Gerente Técnico da Lara Energia, Rodrigo Chimenti Cabral, o diâmetro de influencia calculado estimado apresenta 30 metros e o levantamento é impresso em uma escala de 1:1000. Com todos os poços marcados com suas respectivas cores é efetuada a pintura ligando ponto a ponto e fazendo a interpolação de acordo com as cores (qualidades) de cada poço e de cada área do aterro. O que pode ser observado durante a interpolação dos pontos é que as concentrações de um ponto vizinho ao outro são na grande maioria homogênea revelando que o percentual de gás metano produzido pelo aterro sanitário se “interliga” através das drenagens horizontais. Esta observação também é revelada em poços que são conectados por diferentes estações de regulagens (manyfolds) quando a regulagem de extração de biogás é bem controlada.

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Artigo Original RESULTADOS E DISCUSSÃO Plumas de concentrações mensais do gás metano contida no biogás extraído Dados do mês de junho 2009 até setembro de 2010 foram considerados. Um total de 16 plumas mensais, com as imagens em sequencia, revela a movimentação da pluma de gás junto ao sentido de disposição dos resíduos no aterro (Figuras 8 a 24). As regiões brancas em forma de mancha da planta representam as regiões onde não esta sendo realizada a extração de biogás no respectivo mês de avaliação, seja ela por conta de descarga de resíduos sólidos, por cobertura dos resíduos compactados ou mesmo por construção de linhas secundárias para captura de gases.

Figura 9. Junho 2009

Figura 10. Julho de 2009

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original

Figura 11. Agosto de 2009

Figura 13. Outubro 2009

Figura 12. Setembro de 2009.

Figura 14. Novembro de 2009

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original

Figura 15. Dezembro de 2009

Figura 17. Fevereiro de 2010

Figura 16. Janeiro de 2010

Figura 18. Março de 2010

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Artigo Original

Figura 19. Abril de 2010

Figura 21. Junho 2010.

Figura 23. Agosto 2010

Figura 20. Maio de 2010

Figura 22. Julho de 2010

Figura 24. Setembro 2010

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original Pela sequencia de plumas, alem de se verificar problemas no sistema de captação pode-se relacionar a pluviosidade com a qualidade do biogás gerado e monitorar o período desde a descarga de resíduo até a produção de gás metano ao longo dos meses. Verificação de falhas no sistema de extração

Abaixo se pode ver uma planta com a pluma finalizada e uma inconformidade circulada para que possamos compreender um dos possíveis problemas que a pluma nos indica no sistema (Figura 25).

Figura 25. Pluma de Gás Metano do aterro Lara. Fonte: Lara Energia

Com a pluma de gás é mais fácil encontrar falhas. Como exemplo a imagem acima há um ponto evidenciando qualidade aproximada de 30%v/v de gás metano contido no biogás em uma região totalmente circunscrita de qualidade de 60%v/v de gás metano contido no biogás. Uma provável hipótese para ocorrência da falha seria uma grande atuação de pressão negativa de extração de gases do poço maior que o poço poderia atuar para manter qualidade próxima a região circunscrita de 60%v/v.

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Artigo Original Para resolver este possível problema foi diminuída a pressão negativa de extração, caso a pressão de extração negativa fosse mantida, poderia ocasionar a oxigenação da área em volta do poço comprometendo a qualidade de gás metano presente no biogás da região circunscrita. A mesma falha pode aparecer de forma inversa, quando uma região de baixa qualidade de gás metano apresenta um ponto com qualidade alta. Quando isso acontece ou o poço esta sendo submetido a uma baixa pressão negativa de extração ou pode estar com algum problema na tubulação, sifão de líquido ou mesmo entupimento por particulado sólido, fazendo com que a pressão negativa não chegue corretamente ao poço. A maioria desses problemas quando isolados e localizados em plantas são fáceis e rápidos para resolver, geralmente uma manutenção na linha de extração e ou uma regulagem na pressão é suficiente. Relação entre a pluviosidade e a geração de gás metano Uma das características fundamentais para geração de biogás a partir de resíduo orgânico é a umidade. Para relacionar a umidade com a geração de gás metano no aterro sanitário Lara foi necessário realizar levantamentos de dados de pluviometria mensal para comparar com as plumas de concentrações mensais do gás metano extraído. Os dados de precipitação acumulada mensal foram coletados a partir de gráficos anuais da estação metrológica do Mirante de Santana em São Paulo (Figuras 26 e 27).

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original

Figura 26. Chuva acumulada Mensal (2009). mensal (2010).

Figura 27. Chuva acumulada

Fonte: http://www.inmet.gov.br/sim/abre_graficos.

Para uma melhor comparação com as plumas mensais foram avaliados 2 meses: dezembro de 2009 o qual apresentou precipitação acumulada de aproximadamente 370 mm e o mês de Agosto de 2010 que não apresentou precipitação acumulada conforme ilustrado abaixo (Figura 28).

Figura 28. Comparação entre Pluma dezembro de 2009 com agosto de 2010. Fonte: Lara Energia.

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Artigo Original O que pode ser observado é que provavelmente existe uma relação direta com a produção de biogás a qual é mais expressiva diante a maior pluviosidade no aterro sanitário Lara. Avaliação do tempo de geração de gás metano após deposição de resíduos sólidos

Em uma das regiões do aterro sanitário Lara depositou-se resíduos sólidos urbanos no ano de 2003 e em 2008 apresentava baixo percentual de gás metano e baixíssima produção de biogás inviabilizando a extração de biogás. Conforme os avanços de deposição de resíduos depositaram-se resíduos nos meses de Maio e Junho de 2009 acima dos resíduos depositados em 2003. Depois de depositados os resíduos, realizadas as drenagens verticais e horizontais dos efluentes líquidos e gasosos junto à cobertura da região, foram inseridos os sistemas de extração de biogás com devidos cabeçotes aos drenos (poços) conectados às tubulações para condução de biogás a estação de regulagem (manyfold) nomeada como MF-F. A região mencionada acima mereceu um estudo da evolução percentual volumétrica de gás metano gerado ao longo dos meses por conta de não haver grande mistura do gás metano gerado pelos resíduos sólidos depositados em 2003 com o gás metano que seria gerado pelos resíduos depositados após Maio e Junho de 2009. Abaixo segue uma tabela com os percentuais médios mensais de gás metano medidos nos poços implantados da região após a descarga de resíduos para realização das plumas (Tabela 2)

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original Tabela 2. Média dos percentuais de gás metano nos poços. Fonte: Lara Energia Mês

jul/09

ago/09

set/09

out/09

Poços

%Ch4 v/v

%Ch4 v/v

%Ch4 v/v

%Ch4 v/v

4.1

46,00

57,90

56,00

63,45

4.2

39,40

39,45

44,95

47,45

4.3

28,20

41,35

62,75

59,25

4.4

38,90

52,40

61,15

58,55

5.1

30,80

35,50

41,00

45,00

5.2

33,75

35,35

49,40

56,55

5.3

45,55

53,70

51,40

54,90

5.4

14,75

38,15

57,45

42,00

6.1

36,15

48,25

54,55

62,65

6.2

33,95

38,15

43,40

46,20

6.3

50,45

47,40

53,00

55,05

6.4

46,25

47,05

50,45

55,35

7.1

59,00

58,55

61,35

61,20

7.2

30,25

38,15

65,30

44,45

7.3

32,80

36,60

49,30

45,30

8.1

25,70

43,40

58,90

54,65

8.2

28,45

43,20

55,35

56,60

8.3

31,85

39,10

47,95

63,85

8.4

38,45

46,40

53,35

58,90

Média

36,35

44,21

53,53

54,28

Com os dados da planilha acima foram geradas as plumas mensais (figura 29 e 30).

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original

Figura 29. Pluma de região nos meses de junho a outubro de 2009. Fonte: Lara Energia

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original A figura acima revela que os resíduos foram aterrados e cobertos em junho de 2009 e extração de biogás na região estudada se iniciou em setembro de 2009 e o percentual de gás metano se manteve até o mês de outubro de 2009. MÉDIA DO PERCENTUAL VOLUMÉTRICO DE GÁS METANO CONTIDO NO BIOGÁS PRODUZIDO NO ATERRO SANITÁRIO LARA 60

50

% CH4 v/v

40

30

20

10

% CH4 Média 0 jun/09

jul/09

jul/09

ago/09

set/09

set/09

out/09

Mêses

Figura 30. Média do percentual volumétrico de gás metano contido no biogás produzido no aterro sanitário Lara. Fonte: Lara Energia. Observa-se que aproximadamente 3 meses após o aterramento e cobertura dos resíduos sólidos da região estudada, o percentual de gás metano contido no biogás produzido pela decomposição dos resíduos orgânicos foi suficiente para iniciar as atividades de extração.

Conclusões O biogás produzido em aterros sanitários apresenta em sua composição dióxido de carbono e gás metano, um gás inflamável que apresenta poder calorífico de aproximadamente 11 Kw/m3 e é o 2º gás de Efeito Estufa em ordem de importância, sendo que o produzido por resíduos sólidos representa 3º maior fonte mundial de emissões de metano. Com tamanho poder energético o biogás, que apresenta aproximadamente 6,0 Kw/m3 é utilizado para geração de energia elétrica como verificado no aterro sanitário Bandeirantes, o primeiro aterro sanitário brasileiro que utiliza biogás para acionar 24 conjuntos moto-geradores de 925 KW/conjunto, correspondendo a uma potência líquida de 20.000 KW beneficiando aproximadamente 400 mil habitantes.

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original Apenas a queima do metano, gás que apresenta potencial de aquecimento global 21 vezes maior que o dióxido de carbono, acarreta ganhos ambientais na transformação do gás metano em água e gás carbônico, reduzindo o potencial de aquecimento global, gerando certificados de emissões reduzidas ou créditos de carbono em países em desenvolvimento como o Brasil. O aterro sanitário Lara localizado em Mauá é um exemplo de sucesso em redução de emissão de gás metano pela queima e vem conquistando em torno de 1200 a 1500 certificados de emissões reduzidas por dia com o auxílio de plumas de geração de gás metano contido no biogás que é capturado. Através da analise de plumas de gás metano é possível identificar possíveis manutenções no sistema, checar a interferência da estiagem na produção de biogás e prever qual melhor momento para extrair biogás após a deposição de resíduos sólidos. O presente trabalho descreve detalhadamente o monitoramento através de plumas de metano produzido mensalmente no aterro sanitário Lara a fim de compartilhar a técnica de monitoramento com outros projetos visando melhorias no âmbito qualitativo e quantitativo durante as extrações de biogás de aterros sanitários.

Referências

ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 8.419 Apresentação de projetos de aterros sanitários de resíduos urbanos Procedimento. 1984.

ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 10.004/2004 Resíduos Sólidos - Classificação. 2004.

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original AMBIENTEBRASIL. Portal. Disponível em: http://www.ambientebrasil.com.br. Acesso em 10 jun de 2011. ARCADIS LOGOS ENERGIA. Disponível em: http://www.logoseng.com.br/logosenergia/. Acesso em 07 dez., 2010. BIOGÁS CONGRESS 2011, trabalho apresentado pela ABRELPE. BIOGÁS CONGRESS 2011, trabalho apresentado pela PLANCK-E. BORBA, S. M. Análises de modelos de geração de gases em aterros sanitários: estudos de caso Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado . Rio de Janeiro: COOPE/UFRJ, 2006. BRASIL ESCOLA, Protocolo de Kyoto, disponivel em: <http://www.brasilescola.com/geografia/protocolo-kyoto.htm>.Acesso em 02/07/2011. CABRAL, R. C. Aproveitamento do biogás em aterros sanitários: especificações construtivas beneficiando aspectos ambientais e energéticos. 2009. 129 p. COMUNICAÇÃO INICIAL DO BRASIL 2004. D’ ALMEIDA, M. O., & VILHENA, A. Manual de gerencimento integrado. São Paulo: IPT / CEMPRE, 2000. EDUCAR.SC.USP. Aquecimento Global, disponível em: <http://educar.sc.usp.br/licenciatura/2003/ee/Aquecimentol1.html>. Acesso em 02/07/2011. GLOTEC. Disponível em: <http://www.glotec.com.br.> Acesso em 12 de jul de 2008. IBAM. Instituto Brasileiro de Administração Municipal. Disponível em: < http://www.iban.org.br/publique/media/boletim2a.pdf.> Acesso em 01 de jan de 2009.

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original ICLEI, Manual para Aproveitamentode Biogás - Volume 1 - Aterros Sanitários. INMET. Disponível em: <http://www.inmet.gov.br/sim/abre_Graficos.php?data=06/2009>. Acessado em 05/08/2011. LARA. Central de Tratamento de Resíduos LTDA. Disponível em http://www.lara.com.br. Acesso em 02 de jan de 2008. MANUAL DE GERENCIAMENTO INTEGRADO DE RESIDUOS SOLIDOS, 2001. NUNESMAIA, M. Lixo: soluções alternativas. Feira de Santana: UEFS, 1997. Jornal O Estado de São Paulo, Vida, 27 de outubro de 2010. Pecora, V et al. Biogás : estudo de caso em São Paulo. Encontro brasileirobritânico: energias renováveis para uma vida sustentável. São Paulo: IEE USP. 2008 PROSAB, Gerenciamento de resíduos sólidos urbanos, 2003, pg 23. REVISTA DA FOLHA, 28 de fevereiro, 2010. REVISTA ÈPOCA SCHIEL, 2008 TSCHOBANOGLOUS, G.; THEISEN, H. & VINIL, S. Integrated solid waste management. Engineering principles and management issues. Irwin MacGraw - Hill. 1993. 978p. UNFCCC United Nations Framework Convention on Climate Change

MALANCONI, Rodrigo; CABRAL, Rodrigo Chimenti. Análise de Produção e Extração de Biogás no Aterro Sanitário Lara, Visando Aspectos Ambientais e Possíveis Benefícios Energéticos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 65-86, jun. 2012.

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Artigo Original Levantamento Secundário do Estado Atual da Avifauna na Região de Sorocaba, SP. Guilherme Lessa Ferreira Possui Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é assessor técnico

do

Instituto

Inteligência

para

Sustentabilidade-I2S,

atuando principalmente nos temas: Biocritérios na Avaliação da Integridade Ambiental, Fauna Silvestre. E-mail: lessamack@yahoo.com.br

Maurea Nicoletti Flynn Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em ecologia aplicada e experimental pelo programa recém doutor do CNPq, Universidade de São Paulo. Foi coordenador do Curso de Engenharia

Ambiental

das

Faculdades

Oswaldo

Cruz

e

Coordenadora de Pesquisas na Escola Superior de Química das Faculdades Oswaldo

Cruz. Professor

adjunto

do

curso

de

graduação em Ciências Biológicas e de pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem experiência nas áreas de Ecologia Bêntica, Ecologia Experimental, Dinâmica Populacional e Biodiversidade. E-mail: m.flynn@intertox.com.br

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Resumo As aves constituem um dos grupos de vertebrados com maior riqueza específica do mundo. No Brasil, habitam cerca de 1.690 espécies de aves e o estado de São Paulo abriga grande parte desta diversidade. A realização de levantamento das espécies sempre se faz necessário, para que se tenha um conhecimento atualizado do estado de conservação da região em questão. O objetivo do presente trabalho foi o levantamento secundário da avifauna de Sorocaba e municípios vizinhos. Para a avaliação do estado de conservação da avifauna atual, fez-se uma comparação com o levantamento feito por Natterer, no século XIX, no Morro de Araçoiaba (Flona de Ipanema). A listagem atual resultou em 236 espécies, 114 destas foram registradas também por Natterer. Da listagem do naturalista, 221 espécies não foram registradas nos trabalhos selecionados para a produção da listagem atual, dentre estas, 34 estão listadas como ameaçada de extinção para o estado de São Paulo, sendo 14 classificadas como Criticamente em Perigo (CR), 4 Em Perigo (EN), 6 Vulneráveis (VU), 8 Quase Ameaçadas (NT) e 2 com Dados Insuficientes (DD) para serem enquadradas em alguma categoria de ameaça. Conclui-se que as espécies não mais registradas para a região provavelmente estão extintas localmente e que trabalhos desta magnitude sempre contribuem para o conhecimento do estado de conservação da avifauna de uma determinada área. Palavras-chave: Avifauna, Sorocaba, São Paulo Abstract The birds are one of the groups with higher richness among vertebrates in the world. In Brazil, there are about 1690 species of birds and the state of Sao Paulo is home to most of this diversity. The check-list of species is always necessary, in order to have an updated knowledge of the conservation status of

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original the region in question. The aim of this study was the check-list of the avifauna of Sorocaba and neighboring counties. For the evaluation of conservation status of current avifauna we compared the actual checklist with Natterer’s check

list

made in

the

nineteenth

century,

in the

Morro

de Araçoiaba (Flona Ipanema). The current listing resulted in 236 species, 114 of these were also recorded by Natterer. In the listing of the naturalist, 221 species were not recorded in the papers selected for the production of this check-list, among these, 34 are listed as endangered for the state of São Paulo, with 14 classified

as Critically

Endangered (CR), 4 In Endangered

(EN), 6

Vulnerable (VU), 8 Near Threatened (NT) and 2 with Data Deficient (DD) to be framed in a category of threat. We conclude that the species not more recorded for the region are probably locally extinct and studies of this magnitude always contribute to the knowledge of the conservation status of birds in a certain area. Key-words: Avifauna, Sorocaba, São Paulo. Introdução As aves, um dos grupos animais mais amplamente estudados no mundo, correspondem a cerca de 20% de toda a diversidade de vertebrados atuais. Muitos autores divergem, indicando, aproximadamente, entre 9.000 e 11.000 espécies descritas em todo o mundo (SICK, 1997; BRESSAN, et al. 2009). Isto pode sugerir que no Brasil, a diversidade da avifauna tem sido subestimada, já que, a cada ano mais espécies são descritas, sobretudo pelo uso de novas metodologias de amostragem e de classificação taxonômica (SILVEIRA & OLMOS, 2007). A estimativa atual é que o Brasil abrigue mais de 1.690 espécies de aves, sendo assim classificado como um dos países com a maior diversidade de aves do planeta. Além disso, mais de 10% destas espécies são endêmicas ao Brasil

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

89


Artigo Original (MARINI & GARCIA, 2005), destas a maioria é encontrada na Mata Atlântica, um dos hotspots da biodiversidade, com excepcional concentração de espécies endêmicas e grande perda de habitat. O estado de São Paulo, originalmente coberto por vegetação característica da Mata Atlântica, abriga atualmente cerca de 750 espécies de aves, representando aproximadamente 45% da diversidade da avifauna brasileira (SILVA, 1998). Entretanto, este número já foi maior no passado. Alguns naturalista que realizaram expedições ao Brasil no século XIX, como Johann von Natterer e Johann Baptiste von Spix identificaram uma quantidade de espécies muito superior a da atualidade. Silva

(2010)

realizou

um

trabalho

comparativo

de

levantamento

ornitofaunístico no Morro de Araçoiaba, na Flona de Ipanema, com o levantamento feito por Natterer, na mesma região, entre os anos de 1819 e 1822. Silva listou 189 espécies de aves, enquanto que Natterer listou 335, sendo que apenas 142 foram observadas pelos dois pesquisadores (SILVA, 2010). Esta importante comparação mostra uma quantidade expressiva de espécies (mais da metade da lista de Natterer) que provavelmente não habita mais a região. Levantamentos desta amplitude são de extrema importância quando se pretende a conservação das espécies. Este trabalho teve por objetivo realizar um levantamento secundário da avifauna de Sorocaba e municípios circunvizinhos, elaborando uma lista das espécies desta região, servindo assim como base bibliográfica para outros estudos e alicerce na caracterização de seu estado de conservação.

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Metodologia As pesquisas bibliográficas aqui realizadas para a produção da lista de aves levou em consideração estudos que cobriam a cidade de Sorocaba e os municípios da região: Araçoiaba da Serra, Capela do Alto, Iperó, Porto Feliz e Salto de Pirapora, região com alto grau de fragmentação de habitat, devido à intensa industrialização e constante crescimento das cidades. Esta lista teve como base os levantamentos realizados por Regalado e Silva (1998), Machado et al.(2008), Silva e Nakano (2008), Camargo e Barrela (2010), Moreno (2010), Oliveira (2010) e Silva (2010), além de dados da base SINBIOTA/FAPESP e o relatório técnico realizado pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) em 1991. A nomenclatura das espécies listadas está de acordo com o padrão da Lista das aves do Brasil, 10ª edição, de 2011, do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO). Com o levantamento bibliográfico feito e a listagem das espécies organizada, verificou-se a lista de espécies ameaçadas de extinção para o estado de São Paulo (BRESSAN, et al. 2009), afim de identificar o estado de conservação das espécies da avifauna da região. Com base no artigo de Silva (2010) fez-se também a comparação entre as espécies listadas neste levantamento secundário e as espécies listadas no levantamento primário de Natterer.

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Artigo Original Resultados O levantamento secundário da avifauna, contemplando os municípios já citados, listou 236 espécies distribuídas em 58 famílias (Tabela 1). Doze espécies encontram-se na lista de espécies ameaçadas de extinção para o estado de São Paulo (BRESSAN, et al. 2009). Dentre estas, 2 são enquadradas como Criticamente em Perigo (Urubitinga coronata e Coryphaspiza melanotis), 1 com status Em Perigo (Sarcoramphus papa), 3 enquadradas como vulnerável (Rhynchotus rufescens, Procnias nudicollis, Cyanoloxia brissonii) e 6 estando como Quase Ameaçadas (Sicalis citrina, Synallaxis albescens, Penelope obscura, Penelope superciliaris, Accipiter poliogaster, Mycteria americana). A seguir, a Tabela 1 apresenta a lista das espécies de aves, organizada por ordem, família e espécie, mostrando também seus nomes vulgares e os respectivos trabalhos numerados e cidades em que foram registradas.

Tabela 1. Ordens, famílias e espécies representativas da Avifauna. Legenda: Fontes: (1)RIMA/CTMPSP (1991) (2)Regalado e Silva (1998) (3)Machado et al.(2008) (4)Silva e Nakano (2008) (5)Camargo e Barrela(2010) (6)Moreno (2010) (7)Oliveira (2010) (8)Silva (2010) (9) SIMBIOTA/FAPESP (Acesso 03/2012) Locais: Araçoiaba da Serra- AS Capela do Alto - CA Iperó - Ip Porto Feliz – PF Salto de Pirapora - SaP Sorocaba - So

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Artigo Original Nome do Táxon Tinamiformes Huxley, 1872 Tinamidae Gray, 1840 Rhynchotus rufescens (Temminck, 1815) Nothura maculosa (Temminck, 1815) Crypturellus tataupa (Temminck, 1815) Crypturellus parvirostris (Wagler, 1827) Podicipediformes Fürbringer, 1888 Podicipedidae Bonaparte, 1831 Tachybaptus dominicus (Linnaeus, 1766) Podilymbus podiceps Suliformes Sharpe, 1891 Phalacrocoracidae Reichenbach, 1849 Phalacrocorax brasilianus (Gmelin, 1789) Anhinguidae Reichenbach, 1849 Anhinga anhinga (Linnaeus, 1766) Pelecaniformes Sharpe, 1891 Ardeidae Leach, 1820 Ardea cocoi (Linnaeus, 1766) Ardea alba (Linnaeus, 1758) Egretta thula (Molina, 1782) Bubulcus ibis (Linnaeus, 1758) Butorides striata (Linnaeus, 1758) Syrigma sibilatrix (Temminck, 1824) Nycticorax nycticorax (Linnaeus, 1758) Botaurus pinnatus (Wagler, 1829) Threskiornithidae Poche, 1904 Platalea ajaja (Linnaeus, 1758) Phimosus infuscatus (Lichtenstein, 1823) Ciconiiformes Bonaparte, 1854 Ciconiidae Sundevall, 1836 Mycteria americana (Linnaeus, 1758) Cathartiformes Seebohm, 1890 Cathartidae Lafresnaye, 1839 Sarcoramphus papa (Linnaeus, 1758) Coragyps atratus (Bechstein, 1793) Cathartes aura (Linnaeus, 1758) Anseriformes Linnaeus, 1758 Anatidae Leach, 1820 Cairina moschata (Linnaeus, 1758) Amazonetta brasiliensis (Gmelin, 1789) Dendrocygna viduata (Linnaeus, 1766) Accipitriformes Bonaparte, 1831 Accipitridae Vigors, 1824 Accipiter poliogaster (Temminck, 1824)

Nome vulgar

Fonte

Local

Perdiz Codorna-amarela Inhambu-chintã Inhambu-chororó

1; 7 1 1 1

SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip

Mergulhão-pequeno Mergulhão-caçador

1; 8 6

AS; CA; Ip PF

Biguá

1; 5; 6; 8

AS; CA; Ip; PF

Biguatinga

1; 6; 8

AS; CA; Ip

Garça-moura Garça-branca-grande Garça-branca-pequena Garça-vaqueira Socozinho Maria-faceira Savacu Socó-boi-baio

1; 5; 6; 8 1; 5; 6; 7; 8 1; 5; 6; 8 1; 4; 6; 7 1; 5; 8 1; 4; 7; 8 1; 4; 5; 6; 7 1; 8

AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; PF; So AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; PF; So AS; CA; Ip

Colhereiro Tapicuru-de-cara-pelada

1; 5 1; 8

So AS; CA; Ip

Cabeça-seca

1; 9

AS; CA; Ip

Urubu-rei Urubu-de-cabeça-preta Urubu-de-cabeça-vermelha

2; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip

Pato-do-mato Marreca-pé-vermelho Irerê

6 1; 5; 6; 7; 8 1; 5; 7

PF AS; CA; Ip; PF; SaP; So SaP; So

Tauató-pintado

9

Ip

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Artigo Original Elanus leucurus (Vieillot, 1818) Ictinia plumbea (Gmelin, 1788) Rostrhamus sociabilis (Vieillot, 1817) Geranoaetus albicaudatus (Vieillot, 1816) Buteo brachyurus (Vieillot, 1816) Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788) Heterospizias meridionalis (Latham, 1790) Urubitinga coronata (Vieillot, 1817) Falconiformes Bonaparte, 1831 Falconidae Leach, 1820 Herpetotheres cachinnans (Linnaeus, 1758) Milvago chimachima (Vieillot, 1816) Caracara plancus (Miller, 1777) Falco femoralis (Temminck, 1822) Falco sparverius (Linnaeus, 1758) Falco deiroleucus (Temminck, 1825) Galliformes Linnaeus, 1758 Cracidae Rafinesque, 1815 Penelope superciliaris (Temminck, 1815) Penelope obscura (Temminck, 1815) Gruiformes Bonaparte, 1854 Aramidae Bonaparte, 1852 Aramus guarauna (Linnaeus, 1766) Rallidae Rafinesque, 1815 Pardirallus nigricans (Vieillot, 1819) Aramides cajanea (Statius Muller, 1776) Aramides saracura (Spix, 1825) Porzana albicollis (Vieillot, 1819) Gallinula galeata (Lichtenstein,1818) Porphyrio martinica (Linnaeus, 1766) Cariamiformes Furbringer, 1888 Cariamidae Bonaparte, 1850 Cariama cristata (Linnaeus, 1766) Charadriiformes Huxley, 1867 Jacanidae Chenu & Des Murs, 1854 Jacana Jacana (Linnaeus, 1766) Charadriidae Leach, 1820 Vanellus chilensis (Molina, 1782) Recurvirostridae Bonaparte, 1831 Himantopus melanurus (Vieillot, 1817) Scolopacidae Rafinesque, 1815 Tringa solitaria (Wilson, 1813) Tringa flavipes (Gmelin, 1789) Gallinago undulata (Boddaert, 1783) Columbiformes Latham, 1790 Columbidae Leach, 1820 Columba livia (Gmelin, 1789) Patagioenas picazuro (Temminck, 1813) Patagioenas cayennensis (Bonnaterre, 1792)

Gavião-peneira Sovi Gavião-caramujeiro Gavião-de-cauda-branca Gavião-de-cauda-curta Gavião-carijó Gavião-caboclo Águia-cinzenta

1; 4; 7; 8 1; 8 1; 8 4; 8 1; 8 1; 4; 6; 7; 8 5; 8 8

AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip

Acauã Carrapateiro Caracara Falcão-de-coleira Quiriquiri Falcão-de-peito-laranja

8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 7; 8 1; 4; 8 4

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; So AS; CA; Ip; So So

Jacupemba Jacuaçu

1; 8 4; 6

AS; CA; Ip PF; So

Carão

8

AS; CA; Ip

Saracura-sanã Saracura-três-potes Saracura-do-mato Sanã-carijó Frango-d'água-comum Frango-d'água-azul

1; 5; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 5 1; 8 1; 5; 6; 8 1

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip

Seriema

1; 4; 6; 7; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Jaçanã

1; 5; 6; 7; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Quero-quero

1; 4; 5; 6; 7; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Pernilongo-de-costas-brancas

1; 6

AS; CA; Ip; PF

Maçarico-solitário Maçarico-de-perna-amarela Narcejão

1 1 1

AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip

Pombo-doméstico Pomba-asa-branca Pomba-galega

5; 6; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 7; 8

AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; So

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Zenaida auriculata (Des Murs, 1847) Columbina talpacoti (Temminck, 1811) Columbina squammata (Lesson, 1831) Leptotila verreauxi (Bonaparte, 1855) Leptotila rufaxilla (Richard & Bernard, 1792) Psittaciformes Wagler, 1830 Psittacidae Rafinesque, 1815 Forpus xanthopterygius (Spix, 1824) Pionus maximiliani (Kuhl, 1820) Aratinga leucophthalma (Statius Muller, 1776) Cuculiformes Wagler, 1830 Cuculidae Leach, 1820 Piaya cayana (Linnaeus, 1766) Crotophaga ani (Linnaeus, 1758) Guira guira (Gmelin, 1788) Tapera naevia (Linnaeus, 1766) Strigiformes Wagler, 1830 Strigidae Leach, 1820 Megascops choliba (Vieillot, 1817) Athene cunicularia (Molina, 1782) Megascops watsonii (Cassin, 1849) Asio flammeus (Pontoppidan, 1763) Tytonidae Mathews, 1912 Tyto alba (Scopoli, 1769) Caprimulgiformes Ridgway, 1881 Nyctibidae Chenu & Des Murs, 1851 Nyctibius griseus (Gmelin, 1789) Caprimulgidae Vigors, 1825 Hydropsalis albicollis (Gmelin, 1789) Antrostomus rufus (Boddaert, 1783) Hydropsalis torquata (Gmelin, 1789) Apodiformes Peters, 1940 Apodidae Olphe-Galliard, 1887 Streptoprocne zonaris (Shaw, 1796) Chaetura meridionalis (Hellmayr, 1907) Trochilidae Vigors, 1825 Phaethornis eurynome (Lesson, 1832) Phaethornis pretrei (Lesson & Delattre, 1839) Eupetomena macroura (Gmelin, 1788) Florisuga fusca (Vieillot, 1817) Anthracothorax nigricollis (Vieillot, 1817) Chlorostilbon lucidus (Shaw, 1812) Thalurania glaucopis (Gmelin, 1788) Leucochloris albicollis (Vieillot, 1818) Amazilia lactea (Lesson, 1832) Coraciiformes Forbes, 1844 Alcedinidae Rafinesque, 1815 Megaceryle torquata (Linnaeus, 1766)

Avoante Rolinha-caldo-de-feijão Fogo-apagou Juriti-pupu Juriti-gemedeira

1; 4; 5; 6; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 4; 8 1; 4; 7 1; 6; 7

AS; CA; Ip; PF; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Tuim-de-asa-azul Maitaca-verde Periquitão-maracanã

1; 4; 5; 6; 8 1; 8 4; 5; 6; 7

AS; CA; Ip; PF; So AS; CA; Ip PF; SaP; So

Alma-de-gato Anu-preto Anu-branco Saci

1; 4; 6; 7; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 4; 7; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; SaP; So

Corujinha-do-mato Coruja-buraqueira Coruja-orelhuda Mocho-dos-banhados

1; 4; 6; 8 1; 4; 5; 7; 8 4 7

AS; CA; Ip; PF; So AS; CA; Ip; SaP; So So SaP; So

Coruja-da-igreja

7

SaP; So

Mãe-da-lua

8

AS; CA; Ip

Curiango João-corta-pau Curiango-tesoura

1; 4; 8 1; 8 1; 8

AS; CA; Ip; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip

Andorinhão-de-coleira-branca Andorinhão-do-temporal

1; 8 1; 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip

Rabo-branco-de-garganta-rajada Rabo-branco-de-sobre-amarelo Beija-flor-rabo-tesoura Beija-flor-preto Beija-flor-de-veste-preta Besourinho-de-bico-vermelho Beija-flor-de-fronte-violeta Beija-flor-de-papo-branco Beija-flor-de-peito-azul

1; 8 1; 4; 6; 7; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 5; 8 8 5; 6; 8 8 1; 8 1; 4; 6; 7 ; 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Martim-pescador-grande

1; 5; 7; 8

AS; CA; Ip; SaP; So

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Chloroceryle amazona (Latham, 1790) Chloroceryle americana (Gmelin, 1788) Galbuliformes Fürbringer, 1888 Bucconidae Horsfield, 1821 Nystalus chacuru (Vieillot, 1816) Malacoptila striata (Spix, 1824) Piciformes Meyer & Wolf, 1810 Ramphastidae Vigors, 1825 Ramphastos toco (Statius Muller, 1776) Picidae Leach, 1820 Picumnus temminckii (Lafresnaye, 1845) Picumnus cirratus (Temminck, 1825) Colaptes campestris (Vieillot, 1818) Colaptes melanochloros (Gmelin, 1788) Celeus flavescens (Gmelin, 1788) Dryocopus lineatus (Linnaeus, 1766) Melanerpes candidus (Otto, 1796) Veniliornis spilogaster (Wagler, 1827) Passeriformes Linnaeus, 1758 Corvidae Leach, 1820 Cyanocorax cristatellus (Temminck, 1823) Rhinocriptidae Wetmore, 1930 (1837) Eleoscytalopus indigoticus (Wied, 1831) Thamnophilidae Swainson, 1824 Taraba major (Vieillot, 1816) Mackenziaena severa (Lichtenstein, 1823) Thamnophilus caerulescens (Vieillot, 1816) Dysithamnus mentalis (Temminck, 1823) Pyriglena leucoptera (Vieillot, 1818) Drymophila malura (Temminck, 1825) Thamnophilus ruficapillus (Vieillot, 1816) Thamnophilus punctatus (Shaw, 1809) Thamnophilus doliatus (Linnaeus, 1764) Conopophagidae Sclater & Salvin, 1873 Conopophaga lineata (Wied, 1831) Furnariidae Gray, 1840 Furnarius rufus (Gmelin, 1788) Synallaxis spixi (Sclater, 1856) Synallaxis ruficapilla (Vieillot, 1819) Synallaxis frontalis (Pelzeln, 1859) Synallaxis albescens (Temminck, 1823) Certhiaxis cinnamomeus (Gmelin, 1788) Cranioleuca pallida (Wied, 1831) Syndactyla rufosuperciliata (Lafresnaye, 1832) Automolus leucophthalmus (Wied, 1821) Heliobletus contaminatus (Berlepsch, 1885) Lochmias nematura (Lichtenstein, 1823) Dendrocolaptidae Gray, 1840

Martim-pescador-verde Martim-pescador-pequeno

1; 5; 6; 8 1; 5; 8

AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip

João-bobo Barbudo-rajado

8 1; 6; 7; 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Tucanuçu

7; 8

AS; CA; Ip; SaP; So

Pica-pau-anão-de-coleira-amarela Pica-pau-anão-barrado Pica-pau-do-campo Pica-pau-verde-barrado Pica-pau-de-cabeça-amarela Pica-pau-de-banda-branca Pica-pau-branco Pica-pauzinho-verde-carijó

6; 8 1; 4; 6; 7; 8 1; 5; 6; 7; 8 1; 4; 5; 6; 8 8; 7 4; 6; 7; 8 1; 5; 6; 7; 8 6; 8

AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF

Gralha-do-campo

4; 6; 7

PF; SaP; So

Macuquinho

8

AS; CA; Ip

Choró-boi Borralhara-preta Choca-da-mata Choquinha-lisa Papa-taoca-do-sul Choquinha-carijó Choca-de-chapéu-vermelho Choca-bate-cabo Choca-barrada

6 1; 8 1; 6; 7; 8 8 1; 8 8 1; 7 7 6

PF AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip SaP; So SaP; So PF

Chupa-dente

1; 6; 8

AS; CA; Ip; PF

João-de-barro João-tenenem Pichororé Petrim Uipí Curutié Arredio-pálido Trepador-quiete

1; 4; 5; 7; 8 1; 7; 8 1; 8 1; 4; 6; 8 7; 8 1; 7; 8 6; 8 8

AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip

Barranqueiro-de-olho-branco Bico-virado-do-sul João-porca

7; 8 8 1; 6; 7; 8

AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Sittasomus griseicapillus (Vieillot, 1818) Dendrocolaptes platyrostris (Spix, 1825) Xiphorhynchus fuscus (Vieillot, 1818) Campylorhamphus falcularius (Vieillot, 1822) Tyrannidae Vigors, 1825 Pseudocolopteryx sclateri (Oustalet, 1892) Camptostoma obsoletum (Temminck, 1824) Myiopagis viridicata (Vieillot, 1817) Elaenia flavogaster (Thunberg, 1822) Myiophobus fasciatus (Statius Muller, 1776) Lathrotriccus euleri (Cabanis, 1868) Pyrocephalus rubinus (Boddaert, 1783) Xolmis cinereus (Vieillot, 1816) Xolmis velatus (Lichtenstein, 1823) Knipolegus lophotes (Boie, 1828) Fluvicola pica (Boddaert, 1783) Fluvicola nengeta (Linnaeus, 1766) Arundinicola leucocephala (Linnaeus, 1764) Colonia colonus (Vieillot, 1818) Gubernetes yetapa (Vieillot, 1818) Hirundinea ferruginea (Gmelin, 1788) Machetornis rixosa (Vieillot, 1819) Myiarchus ferox (Gmelin, 1789) Myiarchus swainsoni (Cabanis & Heine,

Arapaçu-verde Arapaçu-grande Arapaçu-rajado Arapaçu-de-bico-torto

1; 8 1; 8 8 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip

Tricolino Risadinha Guaracava-de-olheiras Guaracava-de-barriga-amarela Felipe-de-peito-riscado Enferrujado Princípe Maria-branca Noivinha-branca Maria-preta-de-topete Lavadeira-de-cara-branca Lavadeira-mascarada Freirinha Maria-viuvinha Tesoura-do-brejo Gibão-de-couro Suiriri-cavaleiro Maria-cavaleira Irrê

9 4; 6; 7; 8 8 1; 4; 6; 7; 8 6; 8 1; 7; 8 1; 4; 8 8 4 8 8 5; 6; 8 1; 8 1; 6; 8 1; 8 8 1; 5; 8 7; 8 8

Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; So AS; CA; Ip; So AS; CA; Ip So AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip

Maria-cavaleira-de-raboenferrujado Bem-te-vi Bem-te-vi-de-bico-chato Bem-te-vizinho-de-asa-ferruginea Bem-te-vi-rajado

7

SaP; So

1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 4; 7; 8 1; 8 1; 4; 7; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; SaP; So

Bentevizinho-de-penachovermelho Peitica Tesourinha Suiriri Alegrinho

6

PF

8 1; 5; 6; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 6

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; PF; SaP; So PF

Abre-asa-de-cabeça-cinza Cabeçudo Teque-teque Ferreirinho-relógio Tororó Bico-chato-de-orelha-preta

8 8 1; 6; 7; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 8 1; 6; 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF

Patinho

1; 8

AS; CA; Ip

Caneleiro-cinzento Caneleiro-de-chapéu-preto

1; 8 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip

1859) Myiarchus tyrannulus (Statius Muller, 1776) Pitangus sulphuratus (Linnaeus, 1766) Megarynchus pitangua (Linnaeus, 1766) Myiozetetes cayanensis (Linnaeus, 1766) Myiodynastes maculatus (Statius Muller, 1776) Myiozetetes similis (Spix, 1825) Empidonomus varius (Vieillot, 1818) Tyrannus savana (Vieillot, 1808) Tyrannus melancholicus (Vieillot, 1819) Serpophaga subcristata (Vieillot, 1817) Rhynchocyclidae Berlepsch, 1907 (Incertae sedis) Mionectes rufiventris (Cabanis, 1846) Leptopogon amaurocephalus (Tschudi, 1846) Todirostrum poliocephalum (Wied, 1831) Todirostrum cinereum (Linnaeus, 1766) Poecilotriccus plumbeiceps (Lafresnaye, 1846) Tolmomyias sulphurescens (Spix, 1825) Tyrannoidea Vigors, 1825 (Incertae sedis) Platyrinchus mystaceus (Vieillot, 1818) Tityridae Gray, 1840 Pachyramphus rufus (Boddaert, 1783) Pachyramphus validus (Lichtenstein, 1823)

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Tityra cayana (Linnaeus, 1766) Tityra inquisitor (Lichtenstein, 1823) Pachyramphus polychopterus (Vieillot, 1818) Pipridae Rafinesque, 1815 Chiroxiphia caudata (Shaw & Nodder, 1793) Contigidae Bonaparte, 1849 Procnias nudicollis (Vieillot, 1817) Hirundinidae Rafinesque, 1815 Tachycineta leucorrhoa (Vieillot, 1817) Progne tapera (Vieillot, 1817) Progne chalybea (Gmelin, 1789) Pygochelidon cyanoleuca (Vieillot, 1817) Stelgidopteryx ruficollis (Vieillot, 1817) Hirundo rustica (Linnaeus, 1758) Troglodytidae Swainson, 1831 Donacobius atricapilla (Linnaeus, 1766) Troglodytes musculus (Naumann, 1823) Turdidae Rafinesque, 1815 Turdus rufiventris (Vieillot, 1818) Turdus leucomelas (Vieillot, 1818) Turdus amaurochalinus (Cabanis, 1850) Turdus albicollis (Vieillot, 1818) Turdus flavipes (Vieillot, 1818) Mimidae Bonaparte, 1853 Mimus saturninus (Lichtenstein, 1823) Motacillidae Horsfield, 1821 Anthus lutescens (Pucheran, 1855) Coerebidae d'Orbigny & Lafresnaye, 1838 Coereba flaveola (Linnaeus, 1758) Vireonidae Swainson, 1837 Cyclarhis gujanensis (Gmelin, 1789) Vireo olivaceus (Linnaeus, 1766) Emberizidae Vigors, 1825 Coryphaspiza melanotis (Temminck, 1822) Ammodramus humeralis (Bosc, 1792) Volatinia jacarina (Linnaeus, 1766) Sporophila lineola (Linnaeus, 1758) Sporophila caerulescens (Vieillot, 1823) Sicalis citrina (Pelzeln, 1870) Emberizoides herbicola (Vieillot, 1817) Zonotrichia capensis Sicalis flaveola (Linnaeus, 1766) Parulidae Parula pitiayumi (Vieillot, 1817) Geothlypis aequinoctialis (Gmelin, 1789) Basileuterus flaveolus (Baird, 1865) Basileuterus culicivorus (Deppe, 1830) Basileuterus leucoblepharus (Vieillot, 1817) Basileuterus hypoleucus (Bonaparte, 1830)

Anambé-branco-de-rabo-preto Anambé-de-bochecha-parda Caneleiro-preto

8 1; 8 1

AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip

Tangará-dançarino

1; 8

AS; CA; Ip

Araponga

1; 8

AS; CA; Ip

Andorinha-de-sobre-branco Andorinha-do-campo Andorinha-doméstica-grande Andorinha-pequena-de-casa Andorinha-serradora Andorinha-de-bando

1; 8 1; 5; 8 1; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 4; 7; 8 4

AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; SaP; So So

Japacanim Corruíra

1; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Sabiá-laranjeira Sabiá-barranqueiro Sabiá-poca Sabiá-coleira Sabiá-una

1; 8 1; 5; 6; 7; 8 1; 4; 5; 7; 8 1; 8 4

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip So

Arrebita-rabo

1; 4; 5; 6; 7; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Caminheiro-zumbidor

1; 7; 8

AS; CA; Ip; SaP; So

Cambacica

1; 4; 5; 6; 8

AS; CA; Ip; PF; So

Pitiguari Juruvuara-oliva

1; 5; 6; 7; 8 1; 6; 7; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Tico-tico-de-mascará-negra Tico-tico-do-campo Tiziu Bigodinho Coleirinho Canário-rasteiro Canário-do-campo Tico-tico Canário-da-terra-verdadeiro

3 1; 4; 7; 8 1; 5; 6; 7; 8 1; 8 1; 5; 8 7 7 1; 4; 5; 7; 8 5

AS; CA; Ip AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip SaP; So SaP; So AS; CA; Ip; SaP; So So

Mariquita Pia-cobra Canário-do-mato Pula-pula-coroado Pula-pula-assobiador Pula-pula-de-barriga-branca

1; 6; 8 1; 7; 8 1; 8 1; 6; 8 1; 4; 8 7

AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF AS; CA; Ip; So SaP; So

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Cardinalidae Ridgway, 1901 Habia rubica (Vieillot, 1817) Piranga flava (Vieillot, 1822) Cyanoloxia brissonii (Lichtenstein, 1823) Thraupidae Cabanis, 1847 Nemosia pileata (Boddaert, 1783) Ramphocelus carbo (Pallas, 1764) Tersina viridis (Illiger, 1811) Pyrrhocoma ruficeps (Strickland, 1844) Thlypopsis sordida (d'Orbigny & Lafresnaye,

Tiê-do-mato-grosso Sanhaço-de-fogo Azulão

4; 8 8 1; 4; 8

AS; CA; Ip; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; So

Saíra-de-chapéu-preto Pipira-vermelha Saí-andorinha Cabecinha-castanha Saí-canário

6 6 7 1; 8 8; 6

PF PF SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF

Tiê-preto Tiê-de-topete Sanhaçu-cinzento Sanhaço-do-coqueiro Sanhaço-cara-suja Saí-azul Figuinha-de-rabo-castanha Cigarra-do-campo Tico-tico-rei Trinca-ferro

1; 6; 7; 8 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 5; 6; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8 1; 4; 6; 7; 8 1; 6; 8 4 1; 7; 8 1; 8

AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF; SaP; So AS; CA; Ip; PF So AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip

Garibaldi Polícia-inglesa-do-norte Chopim-do-brejo Chopim, Vira-bosta Inhapim

1; 5; 7; 8 1; 8 1; 7; 8 1; 4; 5; 8 6

AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip AS; CA; Ip; SaP; So AS; CA; Ip; So PF

Pintassilgo Gaturamo-rei Gaturamo-fifi

1; 4; 7; 8 4; 8 1; 4; 5; 6; 7; 8

AS; CA; Ip; SaP; So So AS; CA; Ip; PF; SaP; So

Pardal

1; 4; 5; 6; 8

AS; CA; Ip; PF; So

Bico-de-lacre

1; 5; 6; 8

AS; CA; Ip; PF

1837) Tachyphonus coronatus (Vieillot, 1822) Lanio melanops (Vieillot, 1818) Tangara sayaca (Linnaeus, 1766) Tangara palmarum (Wied, 1823) Tangara cayana (Linnaeus, 1766) Dacnis cayana (Linnaeus, 1766) Conirostrum speciosum (Temminck, 1824) Neothraupis fasciata (Lichtenstein, 1823) Lanio cucullatus (Statius Muller, 1776) Saltator similis (d'Orbigny & Lafresnaye, 1837) Icteridae Vigors, 1825 Chrysomus ruficapillus (Vieillot, 1819) Sturnella militaris (Linnaeus, 1758) Pseudoleistes guirahuro (Vieillot, 1819) Molothrus bonariensis (Gmelin, 1789) Icterus cayanensis (Linnaeus, 1766) Fringillidae Leach, 1820 Sporagra magellanica (Vieillot, 1805) Euphonia cyanocephala (Vieillot, 1818) Euphonia chlorotica (Linnaeus, 1766) Passeridae Rafinesque, 1815 Passer domesticus (Linnaeus, 1758) Estrildidae Bonaparte, 1850 Estrilda astrild (Linnaeus, 1758)

O número de espécies coincidentes listadas tanto no levantamento de Natterer como na lista atual, é de 114 aves. Portanto, 123 espécies encontradas atualmente não foram registradas pelo naturalista e 221 espécies registradas por ele, não estão mais presentes na área atualmente, segundo as pesquisas incluídas como base para este estudo. Dentre estas, 34 estão listadas como ameaçada de extinção para o estado de São Paulo, sendo 14 classificadas como Criticamente

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Artigo Original em Perigo (CR), 4 Em Perigo (EN), 6 Vulneráveis (VU), 8 Quase Ameaçadas (NT) e 2 com Dados Insuficientes (DD) para serem enquadradas em alguma categoria de ameaça (Tabela 2).

Tabela 2 – Lista das espécies registradas por Johann von Natterer não mais registradas atualmente e com algum grau de ameaça no estado de São Paulo.

Nome do Táxon

Nome Vulgar

Estado de Conservação

Tinamiformes Huxley, 1872 Tinamidae Gray, 1840 Tinamus solitarius (Vieillot, 1819)

Macuco

Vulnerável

Garça-real

Vulnerável

Ciconiiformes Bonaparte, 1854 Ardeidae Leach, 1820 Pilherodius pileatus (Boddaert, 1783) Anseriformes Linnaeus, 1758 Anhimidae Stejneger, 1885 Anhima cornuta (Linnaeus, 1766)

Anhuma

Criticamente em Perigo

Anatidae Leach, 1820 Nomonyx dominica (Linnaeus, 1766)

Marreca-de-bico-roxo

Quase Ameaçada

Falconiformes Bonaparte, 1831 Accipitridae Vigors, 1824 Leptodon cayanensis (Latham, 1790) Spizaetus melanoleucus (Vieillot, 1816) Spizaetus tyrannus (Wied, 1820) Spizaetus ornatus (Daudin, 1800)

Gavião-de-cabeça-cinza Gavião-pato Gavião-pega-macaco Gavião-de-penacho

Quase Ameaçada Vulnerável Criticamente em Perigo Criticamente em Perigo

Gralhão

Criticamente em Perigo

Falconidae Leach, 1820 Ibycter americanus (Boddaert, 1783) Charadriiformes Huxley, 1867 Charadriidae Leach, 1820 Pluvialis dominica (Statius Muller, 1776)

Batuiruçu

Quase Ameaçada

Scolopacidae Rafinesque, 1815 Tryngites subruficollis (Vieillot, 1819) Numenius borealis (Forster, 1772)

Maçarico-acanelado Maçarico-esquimó

Dados Insuficientes Criticamente em Perigo

Sternidae Vigors, 1825

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Artigo Original Sternula superciliaris (Vieillot, 1819)

Trinta-réis-anão

Vulnerável

Pararu-espelho Juriti-vermelha

Criticamente em Perigo Em Perigo

Columbiformes Latham, 1790 Columbidae Leach, 1820 Claravis geoffroyi (Temminck, 1811) Geotrygon violacea (Temminck, 1809) Psittaciformes Wagler, 1830 Psittacidae Rafinesque, 1815 Amazona vinacea (Kuhl, 1820)

Papagaio-de-peito-roxo

Em Perigo

Cuculiformes Wagler, 1830 Cuculidae Leach, 1820 Dromococcyx phasianellus (Spix, 1824)

Peixe-frito-verdadeiro

Criticamente em Perigo

Bacurau-rabo-de-seda Bacurau-tesoura-gigante Curiango-do-banhado

Criticamente em Perigo Quase Ameaçada Criticamente em Perigo

Caprimulgiformes Ridgway, 1881 Caprimulgidae Vigors, 1825 Antrostomus sericocaudatus (Cassin, 1849) Hydropsalis forcipata (Nitzsch, 1840) Hydropsalis anomala (Gould, 1838) Apodiformes Peters, 1940 Apodidae Olphe-Galliard, 1887 Cypseloides senex (Temminck, 1826) Cypseloides fumigatus (Streubel, 1848)

Taperuçu-velho Taperuçu-preto

Quase Ameçada Dados Insuficientes

Trochilidae Vigors, 1825 Lophornis magnificus (Vieillot, 1817) Heliothryx auritus (Gmelin, 1788)

Topetinho-vermelho Beija-flor-de-bochecha-azul

Vulnerável Quase Ameçada

Galbuliformes Fürbringer, 1888 Galbulidae Vigors, 1825 Jacamaralcyon tridactyla (Vieillot, 1817)

Cuitelão

Criticamente em Perigo

Macuru

Vulnerável

Bucconidae Horsfield, 1821 Nonnula rubecula (Spix, 1824) Piciformes Meyer & Wolf, 1810 Ramphastidae Vigors, 1825 Pteroglossus aracari (Linnaeus, 1758)

Araçari-de-bico-branco

Criticamente em Perigo

Picidae Leach, 1820

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Artigo Original Dryocopus galeatus (Temminck, 1822) Campephilus robustus (Lichtenstein, 1818)

Pica-pau-de-cara-canela Pica-pau-rei

Em Perigo Quase Ameaçada

Papo-branco Choquinha-da-serra

Em Perigo Quase Ameaçada

Passeriformes Linné, 1758 Thamnophilidae Swainson, 1824 Biatas nigropectus (Lafresnaye, 1850) Drymophila genei (Filippi, 1847) Scleruridae Swainson, 1827 Geositta poeciloptera (Wied, 1830)

Andarilho

Criticamente em Perigo

Papa-moscas-do-campo Galito

Criticamente em Perigo Criticamente em Perigo

Tyrannidae Vigors, 1825 Culicivora caudacuta (Vieillot, 1818) Alectrurus tricolor (Vieillot, 1816)

Discussão Através da listagem das espécies que habitam uma determinada região, é possível estabelecer uma relação entre a presença ou ausência destas espécies, em diferentes épocas, com o seu estado de conservação. Das 335 espécies registradas por Natterer, apenas 114 foram registradas para a região atualmente. Isto resulta em 221 espécies que só foram registradas pelo naturalista (desconsiderando algumas poucas espécies que tenham sido registradas apenas nos trabalhos atuais e algumas divergências na nomenclatura utilizada por Natterer). É possível estabelecer uma relação entre a ausência do registro destas espécies na atualidade com o seu status de ameaça. Pode-se inferir que 34 espécies registradas no passado estão localmente extintas já foram extintas na região estudada. Estas são classificadas como com algum grau de ameaça, na lista de espécies ameaçadas de extinção para o estado de São Paulo (BRESSAN, et al. 2009). Assim, é possível caracterizar o estado atual da avifauna da região de Sorocaba e vizinhanças, como bastante empobrecida.

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Referências Bibliográficas BRESSAN, P. M.; KIERULFF, M. C. M.; SUGIEDA, A. M. (Coord.). Fauna ameaçada de extinção no Estado de São Paulo: vertebrados. São Paulo: Fundação Parque Zoológico de São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente, 2009. CAMARGO, P. H. A. S. & BARRELLA, W. Levantamento comparativo da Avifauna de trechos urbanos de dois rios paulistas. In: II Seminário de Pesquisa da Área de Proteção Ambiental (APA) Itupararanga, 2010. CBRO. Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (2011) Listas das aves do Brasil. 10ª Edição. Disponível em <http://www.cbro.org.br>. Acesso em: [15/03/2012]. IBAMA - INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS. Plano de Manejo da Floresta Nacional de Ipanema, Iperó, SP, Brasil, 2003. MACHADO, A. B. M.; DRUMMOND, G. M.; PAGLIA, A. P. (Ed.). Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Brasília, DF: MMA, (2 vols.), 2008. 1420 p. MORENO, D. J. Levantamento preliminar de avifauna do Parque das Monções, Porto Feliz/SP. Revista Eletrônica de Biologia, v. 3, n. 4, 2010. Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/index.php/reb/article/view/1946>. Acesso em: 23 mar. 2012. OLIVEIRA, E. M. Ecologia trófica das aves do campus da UFSCAR Sorocaba. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2010.

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Artigo Original RIMA/ CTMSP. Relatório de impacto ambiental para a implantação do reator nuclear no centro experimental ARAMAR em Iperó, SP. Monitoramento biótico, fornecido pelo CTMSP/CEA, 1991. SICK, H. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. SILVA, C. D. Alterações na comunidade de aves do Morro de Araçoiaba (Floresta Nacional de Ipanema - Flona, Iperó, SP). Revista Conhecimento Online. ano 2, v. 2, Set., 2010. Disponível em: <http://www.feevale.br/hotsite/default.asp?intIdHotSite=86&intIdSecao=4406&in tIdConteudo=43304>. Acesso em: 13 mar. 2012. SILVA, C. D. & REGALADO, L. B. Nidificação em cavidade rochosa por urubu-rei, Sarcoramphus papa (Falconiformes: Cathartidae) no Morro de Araçoiaba (Floresta Nacional de Ipanema - Iperó, São Paulo). Boletim CEO – Centro de Estudos Ornitológicos, n. 13, 1998. Disponível em: <http://www.ceo.org.br/bolet/boletim.htm>. Acesso em: 20 mar. 2012. SILVA, L. A. C. & NAKANO, C. A. Avifauna em uma Área de Cerrado no Bairro do Central Parque, Município de Sorocaba, São Paulo, Brasil. Revista Eletrônica de Biologia. v. 1, n. 1, 2008. Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/index.php/reb/article/view/8>. Acesso em: 23 mar. 2012. SINBIOTA-FAPESP. Programa de pesquisas em caracterização, conservação e uso sustentável da biodiversidade do Estado de São Paulo. Sistema de Informação Ambiental - Sinbiota. São Paulo, 2004. Disponível em: <http://www.sinbiota.cria.org.br>.

FERREIRA, Guilherme Lessa; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA AVIFAUNANA REGIÃO DE SOROCABA, SP.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 87-104, jun. 2012.

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Artigo Original Levantamento Secundário do Estado Atual da Mastofauna na Região de Sorocaba, SP. Bruno Assanuma Burstin Possui graduação em Bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é assessor técnico do Instituto Inteligência para Sustentabilidade – I2S, atuando principalmente nos seguintes temas: Monitoramento biológico de ambientes terrestres e aquáticos com ênfase em mastofauna e qualidade da água. E-mail: brunoburstin@gmail.com

Maurea Nicoletti Flynn Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em ecologia aplicada e experimental pelo programa recém doutor do CNPq, Universidade de São Paulo. Foi coordenador do Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz e Coordenadora de Pesquisas na Escola Superior de Química das Faculdades Oswaldo Cruz. Professor adjunto do curso de graduação em Ciências Biológicas e de pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem experiência nas áreas de Ecologia Bêntica, Ecologia Experimental, Dinâmica Populacional e Biodiversidade. E-mail: m.flynn@intertox.com.br

BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original Resumo Os mamíferos, em geral, apresentam grande diversidade morfológica e comportamental, sendo um representante ecológico de grande importância, tendo estreitas relações e interações com outras espécies e com o ambiente que habitam. Estudos da área da ecologia tem sido a principal ferramenta para a conservação dos ecossistemas naturais remanescentes. Para preservar uma área é importante conhecer as espécies que nela habitam. Neste sentido, o levantamento de dados sobre a ocorrência e abundância de espécies além do grau da vulnerabilidade tem sido essenciais ao se traçar estratégias em relação à escolha de áreas e à indicação de ações prioritárias para a conservação dos mamíferos. Embora o número de estudos e consequentemente o conhecimento sobre a mastofauna tenha aumentado, as informações relativas às suas distribuições ainda é considerado deficitária. Neste sentido, alguns autores vêm incentivando a realização de inventários faunísticos que consigam estabelecer os registros de ocorrência para uma determinada região especifica, para que se construa um patrimônio de informações pertinente à preservação conjunta da mastofauna do estado. Portanto, este trabalho objetivou-se em atualizar a listagem de espécies de mamíferos que ocorrem principalmente na região da Grande Sorocaba, com referência as que ocorrem na Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Médio-Tietê/Sorocaba (UGRHI 10), através de dados secundários levantados em referenciais bibliográficos. Os esforços deste trabalho levantaram uma lista com 71 táxons de mamíferos para a região. Dessas, a Panthera onça está classificada como criticamente em perigo (CR), o mico-leãopreto, Leontopithecus chrysopygus, em perigo (EN) e outras seis espécies como vulneráveis (VU).

BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original Palavras-chave: mastofauna, levantamento secundário, região de Sorocaba, Bacia Médio-Tiête/ Sorocaba

Abstract Mammals present great morphological and behavior diversity as well as an ecological representation of great importance, having strict relations and interactions with other species and its habitat. Ecological studies have been the primary tool for the conservation of remaining natural ecosystems. It is important to build knowledge on the habitant species in order to preserve a specific location. To this effect, surveying of data on the occurrence and abundance frequency, in addition to the vulnerability status, are essential when it comes to outlining strategies when choosing and indicating proprietary actions for the conservation of mammals. Despite the recent increase on the number of studies and knowledge on the mastofauna, information relative to its distribution is still considered deficient. Therefore, some authors are encouraging the realization of wildlife inventories that are able to establish the occurrence records for a particular specific region, as well as a patrimony on information relevant to the preservation of the state mastofauna. Hence, the objective of this was to update the list of mammals species that occur mainly in the Greater Sorocaba region, with reference to occurrences in the Water Resources Management Unit of the Médio-Tiête/Sorocaba (UGRHI 10), using secondary data raised in bibliographical references research. The efforts applied in this study have raised a list of 71 taxa of mammals for this region. Included in this list, Panthera onça is classified as critically endangered (CR), the black-lion-

BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original tamarin, Leontopithecus chrysonpygus, endangered (EN) and six other species as vulnerable (VU). Key-words: mastofauna, secondary survey, Médio-Tiête/ Sorocaba, Sorocaba region.

Introdução Atualmente, existem poucas listas regionais sobre riqueza de mamíferos associadas a limites políticos (VIVO et al., 2010). Uma amostragem sistemática de todas as regiões do estado, abrangendo os diferentes grupos de mamíferos, contribuiria para um maior e mais equilibrado sobre o atual estado da fauna do Estado de São Paulo (COSTA et al., 2005). Para preservar uma área é importante conhecer as espécies que nela ocorrem, de modo que é importante que mais inventários sejam incentivados e realizados (COSTA et al. 2005). Portanto, tornam-se validos os esforços em identificar os registros de ocorrências, com o objetivo de evidenciar a distribuição desses mamíferos, para uma determinada área específica, embora comumente ainda exista alguma dificuldade com o estabelecimento do registro em relação à localidade de ocorrência. Porém, é importante frisar a dificuldade de se organizar essa lista, localidadeespecífica, devido a essa escassez de acompanhamentos periódicos comprometendo a validade de alguns dados encontrados na atual literatura. De um modo geral, as maiores ameaças para a conservação dos mamíferos são o desmatamento e a caça. As consequências diretas do desmatamento são a BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original perda de habitat que causa o desaparecimento local e consequente diminuição das populações de espécies, e a fragmentação com isolamento das áreas remanescentes. Esta por sua vez, cria uma barreira ecológica, impedindo os animais de se locomoverem entre áreas e consequentemente separando-os de seus recursos necessários para sobrevivência (KIERULFF et al., 2008). O Estado de São Paulo, apesar do histórico de intensa degradação, mesmo que dividido em fragmentos vegetacionais significativos remanescentes de sua flora original, conta ainda com 13,94% do total de seu território de seus ecossistemas naturais.

Dá-se

maior

importância

aos

ecótonos

que

incluam

vegetação

remanescente de Mata Atlântica (floresta ombrófila densa, florestra ombrófila mista e florestas estacionais) e de Cerrado (cerrado stricto sensu, cerradão, campos e veredas), pois estão incluídos na lista dos hotspots (áreas excepcionalmente ricas em diversidade de espécies e endemismos, porém seriamente ameaçadas) mundiais de diversidade (KIERULFF et al., 2008). Para a conservação de grandes mamíferos terrestres são necessárias grandes extensões de habitats preservados que abriguem populações viáveis, ou seja, capazes de sobreviverem por um longo prazo (KIERULFF et al., 2008). Para áreas onde existe grande fragmentação de hábitat, como ocorre hoje no estado de São Paulo, é extremamente dificultoso relacionar, por exemplo, táxons de morcegos que apresentam grande abundância e diversidade no estado, porém tem poucos registros especificamente para esta região. Em relação aos pequenos mamíferos, a escassez de conhecimento

cientifico

básico,

principalmente

de

taxonomia,

sistemática,

distribuição e historia natural é a maior barreira enfrentada por pesquisadores, que

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Artigo Original durante coletas de campo deparam-se com a dificuldade em localizar populações de táxons específicos e na identificação de espécimes (COSTA et al., 2005). A fauna de mamíferos do Estado de São Paulo é formada por diversas frações de outras mastofaunas distintas do Brasil. Por isso, não apresenta uma distribuição uniforme e ainda evidencia a existência do fenômeno de encontro e superposição parcial dessas faunas distintas (VIVO et al., 1996). O presente trabalho teve como objetivo atualizar a listagem de espécies da mastofauna que ocorrem principalmente na região da Grande Sorocaba, com referência as que ocorrem na Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Médio-Tietê/Sorocaba (UGRHI 10), através de dados secundários levantados em referenciais bibliográficos.

Metodologia Os esforços em busca do levantamento de dados foram feitos estritamente sobre a região da Grande Sorocaba, que está inserida na sub-bacia do MédioTietê/Sorocaba. Foram englobados os municípios de Boituva, Capela do Alto, Iperó, Porto Feliz, Araçoiaba da Serra, Sorocaba, Salto de Pirapora, Votorantim, Alumínio, Mairinque e Itu. Além disso, levou-se em consideração ocorrências na UGRHI 10. Este levantamento de dados secundários está baseado em RIMA/CTMSP, 1991; Oliveira 2002; Gregorin, et al., 2004; Garavello et al., 2006; Gregorin et al., 2008; Messias et al., 2009; Tocchet, 2009; e na base de dados do Programa Sinbiota/FAPESP, acessado em 2012. Todas as espécies relatadas neste trabalho BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original foram comparadas com o trabalho elaborado por Vivo et al. 2010, Checklist de Mamíferos do Estado de São Paulo, Brasil do programa Biota Neotropica da Biota Fapesp. Este Checklist aponta que todos os registros apresentados por ele são decorrentes de espécimes-testemunho presentes em acervos, em especial na coleção de mamíferos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). Aspectos sobre a biologia das espécies foram retirados de bibliografias específicas e quando não especificadas no texto, foram resgatadas de Achaval et al. (2007) e de Oliveira e Cassaro (2006), no que se refere aos felinos. As espécies relatadas foram analisadas quanto ao grau de vulnerabilidade e risco de extinção com o auxílio do Livro de Fauna Ameaçada de Extinção no Estado de São Paulo, volume Vertebrados, 2009. Também foi utilizado o Atlas da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção em Unidade de Conservação Federais elaborado pelo ICMBio, 2011. A lista referente ao levantamento de dados secundários considerou, além das espécies nativas, as espécies consideradas introduzidas provenientes de outras partes do Brasil, termo denominado como alótone.

Resultados A lista elaborada com dados secundários apresenta 71 táxons de mamíferos (Quadro 1). Este número ainda é uma estimativa da real diversidade presente na região, devido à falta de amostragens e estudos específicos para a área, além das divergências sobe algumas revisões sistemáticas para determinados grupos.

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Artigo Original Quadro 1. Ordens, famílias e espécies representativas de mastofauna. Fontes: 1.RIMA/ CTMSP (1991) ; 2.Oliveira et al. (2002) ; 3.Gregorin (2004) ; 4.Garavello (2006) ; 5.Gregorin (2008) ; 6. Bressan (2009) ; 7.Messias (2009) ; 8.Tocchet (2009) ; 9.Vivo et al. (2010) ; 10.AFBAE UCF (ICMBio) (2011) ; 11.Sinbiota Fapesp (acesso 2012). Local: AS= Araçoiaba da Serra ; CA= Capela do Alto ; Ip= Iperó ; It= Itu ; Ta= Tatuí ; SaP= Salto de Pirapora ; So=Sorocaba ; Vo= Votorantim.Risco: CR= Criticamente em Perigo; EN= Em perigo ; VU=Vulnerável ; NT= Quase ameaçado ; LC=De menor risco ; DD=Dados Deficientes

ORDEM, Familia, Espécie ARTIODACTYLA Cervidae Mazama gouazoubira Tayassuidae Tayassu tajacu CARNIVORA Canidae Cerdocyon thous Cerdocyon thous azarae Chrysocyon brachyurus Dusicyon vetulus Felidae Felis catus Felis sp. Leopardus pardalis Leopardus tigrinus Panthera onça Puma concolor Puma yagouaroundi Mustelidae Eira barbara Galictis cuja Lontra longicaudis Procyonidae Nasua Nasua

Nome Vulgar

Veado catingueiro

Fonte

2, 4, 11

Local

Risco

AS, CA, Ip, Ta

LC

Catitu

1

AS, CA, Ip

Cachorro-do-mato Cachorro-do-mato Lobo-guará Raposinha-do-campo

2 4 11 11

AS, CA, Ip AS, CA, Ip Ip Ta

Gato Gato-do-mato Jaguatirica Gato-macambira, Pintadinho Onça Puma , Onça-parda, Suçuarana Jaguarundi; Gato-mourisco

11 1, 2, 4 6, 11 6, 10 1 2 2

So AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip

VU VU (A4e) CR (A4bc) VU (A3b) LC

Irara; Papa-mel Furão

AS, CA, Ip AS, CA, Ip

LC DD

Lontra

2 2 1, 2, 4, 11

AS, CA, Ip

NT

Quati

1, 2, 4

AS, CA, Ip

LC

LC VU

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Artigo Original Procyon cancrivorous CHIROPTERA Phyllostomidae Anoura caudifer Anoura sp. Carollia perspicillata Desmodus rotundus Glossophaga soricina Micronycteris megalotis Mimon bennetti Sturnira lilium Molossodae Molossops neglectus Molossops temminckii Vespertilionidae Myotis nigricans DIDELPHIMORPHIA Didelphis Didelphis albiventris Didelphis aurita Didelphis azarae Gracilinanus microtarsus Monodelphis americana Monodelphis kunsi Monodelphis scalops Thylamys velutinus EDENTATA Dasypodidae Cabassous unicinctus Dasypus novemcinctus Dasypus septemcinctus Euphractus sexcintus Mymercophagidae

Quaxinim

Morcego (beija-flor) Morcego (fruteiro-comum) Morcego-vampiro Morcego (beija-flor)

1, 4, 11

1, 11 11 1, 11 1 11

AS, CA, Ip

AS, CA, Ip , So So AS, CA, Ip , So AS, CA, Ip So

LC

Morcego

11

So

Morcego Morcego

5 1

AS, CA, Ip, SaP AS, CA, Ip

LC LC LC LC/endemica SP LC/endemica SP LC

Morcego Morcego

3 11

It It

DD DD

Morcego

1

AS, CA, Ip

LC

Gambá-de-orelha-branca , Saruê Gambá-de-orelha-preta Gambá, Mucura Cuíca Cuíca-de-três-listras, Guaxica , Catita Catita Catita, Guaxica Catita

Tatu-de-rabo-mole Tatu-galinha Tatu-mulita; Tatuí Tatu-verdadeiro, tatu-peba

2, 8, 11 2, 8 4 8

AS, CA, Ip, SaP, Vo AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip

8 8 8

AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip

6

AS, CA, Ip

2, 7 1, 2, 4 2,4 1

AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip AS, CA, Ip

LC LC LC NT LC NT VU (B1; B2abiii)

LC LC

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Artigo Original Tamandua tetradactyla LAGOMORPHA Leporidae Sylvilagus brasiliensis PRIMATA Callithricidae Callithrix jacchus Callithrix penicillata Leontopithecus chrysopygus Cebidae Alouatta sp. Cebus apella RODENTIA Agoutidae Agouti paca Caviidae Cavia aperea Cricetidae Akodon montensis Bibimys labiosus Calomys callosus Calomys laucha Calomys tener Necromys lasiurus Nectomys squamipes Oligoryzomys flavescens Oligoryzomys nigripes Oryzomys nitidus Oxymycterus rufus Thaptomys nigrita Echimyidae Euryzygomatomys spinosus Erethizontidae Coendou phehensilis Sphiggurus villosus Hydrochaeridae

Tamanduá-mírim

1,2

AS, CA, Ip

LC

Tapeti

2, 4

AS, CA, Ip

LC

Sagui-de-tufo-branco Sagui-de-tufo-preto

1 7

AS, CA, Ip AS, CA, Ip

Mico-leão-preto

9

AS, CA, Ip

alótone LC EN/endemica SP

Guariba, Bugio Macaco-prego

1 1, 2

AS, CA, Ip AS, CA, Ip

Paca

1, 2, 4

AS, CA, Ip

Préa

1, 4

AS, CA, Ip

LC

Rato-do-mato Rato-do-mato Rato Rato Rato-do-campo, rato-da-água Rato-do-mato, pixuna Rato-dágua Rato-silvestre Ratinho-do-arroz Rato-do-mato Rato-silvestre rato-do-mato

8 8 11 11 8 8, 11 11 8 8 11 11 11

AS, CA, Ip AS, CA, Ip SaP SaP AS, CA, Ip AS, CA, Ip, Sap SaP AS, CA, Ip AS, CA, Ip SaP SaP SaP

LC LC

Rato

11

SaP

Ouriço-cacheiro Ouriço-cacheiro

4 2

AS, CA, Ip AS, CA, Ip

LC LC LC LC LC

VU

LC

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Artigo Original Hydrochaeris hydrochaeris Muridae Mus musculus Rattus norvegicus Rattus rattus Myocastoridae Myocastor coypus Sciuridae Sciurus ingrami

Capivara

1, 2, 4, 11

AS, CA, Ip, It

Camundongo Ratazana Rato-preto

11 11 11

SaP SaP SaP

alótone alótone alótone

Ratão-do-banhado

2

AS, CA, Ip

alótone

1, 7

AS, CA, Ip

Serelepe / esquilo / caxinguelê

Foram encontrados registros de 8 espécies de marsupiais. Dá-se um enfoque maior sobre Thylamys velutinus (Wagner, 1842), espécie de catita recentemente classificada com o status de vulnerável (VU) devido à fragmentação de seu habitat, diminuindo a extensão de ocorrência e a sua área de ocupação, apresentando distribuição restrita. Outras duas espécies deste grupo aparecem classificadas como táxons quase ameaçados (NT), Monodelphis scalops (Thomas, 1888) e Monodelphis americana (Müller, 1776). Enquanto isso, Didelphis albiventris, D. aurita e Gracilinanus microtarsus apresentam ampla distribuição (BRESSAN, et al. 2009; VIVO et al., 2010). Para mamíferos terrestres de médio e grande porte foram encontrados registros de 28 espécies, distribuídos em: 2 da família Artiodactyla, 16 Carnivora, 5 Edentata, 1 Largomorpha e 5 Primatas. Entre eles, é importante frisar o endemismo do mico-leão-preto, Leontopithecus chrysopygus (Mikan, 1823), e que está classificado como espécie em perigo de extinção (EN). A Panthera onça (Linnaeus, 1758) está classificada como criticamente em perigo (CR) tendo sido constatado uma redução na população e distribuição geográfica consequências da fragmentação de habitat que leva a um declínio populacional. Outras espécies BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original apresentam um grau elevado de vulnerabilidade; lobo-guará Chrysocyon brachyurus (Illiger, 1815), Jaguatirica Leopardus pardalis (Linnaeus, 1758), gato-macambira Leopardus tigrinus (Schreber, 1775) e suçuarana ou onça-pintada Panthera concolor (Linnaeus, 1771). A lontra Lontra longicaudis (Olfers, 1818) está avaliada como quase ameaçada (NT), ou seja, está em vias de entrar para em uma das categorias acima num futuro breve. Já o sagui Callithrix jacchus (Linnaeus, 17580) é descrito como espécie alótona, originalmente nativo do nordeste do Brasil, introduzida nesta região, soltos em florestas ocupadas por Callithrix penicillata (Geoffroy, 1812), ameaçando a conservação da espécie nativa desta região (OLIVEIRA, 2002; BRESSAN, et al. 2009; MESSIAS et al., 2009; VIVO et al., 2010). O levantamento registrou um total de 11 táxons de quirópteros. Destacam-se duas espécies endêmicas do Estado de São Paulo, Mycronycteris megalotis (Gray, 1842) e Mimon bennetti (Gray, 1838) (GREGORIN et al. 2004; GREGORIN et al., 2008). Quanto aos roedores, mamíferos de pequeno porte, 23 táxons foram levantados. Apenas um táxon, é classificado como vulnerável (VU), Thaptomys nigrita

(Lichtenstein,

1830).

Porém,

quatro

das

espécies

registradas

são

classificadas como exóticas, da família Muridae; Mus musculus (Linnaeus, 1766), Rattus norvegicus (Berkenhout, 1769) e Rattus rattus (Linnaeus, 1758), e da família Myocastoridae o Myocastor coypus (Molina, 1872) ( BRESSAN, et al. 2009; VIVO et al., 2010). Segundo Vivo et. al 2010, a mastofauna pode ser dividida em três conjuntos relativos ao hábitat.

O primeiro e mais importante conjunto, classificado como

generalistas, apresenta espécies com ocorrência nas principais paisagens do estado, BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original sendo formado basicamente por quase todos os carnívoros terrestres, quase todos os morcegos e muitos roedores. Estão inclusos nessa lista, entre as espécies levantadas neste

trabalho,

os felídeos

Panthera

onça

(onça-pintada),

Puma concolor

(suçuarana), Leopardus pardalis (jaguatirica), Procyon cancrivorous (mão-pelada), e os tatus dos gêneros Dasypus e Cabassous. O segundo conjunto agrupa espécies presentes em formações de vegetação abertas, tais como o tatu-peba Euphractus sexcinctus, o canídeo Chrysocyon brachyurus (lobo-guará) e roedores do gênero Calomys. O terceiro conjunto inclui espécies essencialmente florestais, tais como todos os primatas, os marsupiais e roedores equimídeos. Ainda é possível subdividir este ultimo conjunto entre habitantes de florestas perenifólias e semi-caducifólias, os que habitam somente florestas ombrófilas densas e um terceiro componente florestal associado às florestas caducifólias do interior. Entretanto, das espécies que habitam exclusivamente os componentes florestais, não há consentimento sobre os táxons, provavelmente devido a pequena quantidade de remanescentes florestais da região. Neste levantamento obtivemos uma diversidade relativamente alta para um ambiente altamente degradado, com exceção à área da FLONA Ipanema. O levantamento apresentou 71 diferentes táxons para esta área sendo que, para todo estado de São Paulo atualmente há 231 espécies registradas (VIVO et al. 2010), ou seja, quase 1/3 (30.73%) dos mamíferos do estado podem ser encontrados naquela região. Foram listadas 11 espécies ameaçadas de extinção, aproximadamente 15% do total levantado.

Discussão BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original O presente trabalho que contou com um levantamento bibliográfico dos registros da fauna na região da Grande Sorocaba apontou que a mastofauna presente nesta região possui relação com elementos subtropicais e centrais do Brasil, dada sua ampla capacidade de locomoção. Porém, o planalto Paulista possui uma situação vigente bastante peculiar graças aos mosaicos vegetacionais que incluem manchas de cerrado próximas às florestas semi-decícuas, o que torna a delimitação dos componentes faunísticos mais difíceis, dado o fato de que a fauna de mamíferos possui estreita relação com os diferentes tipos de vegetação (VIVO, 1996 ; VIVO 1998). Descrevendo sucintamente os hábitos de alguns mamíferos, entre os animais que habitam nas florestas semidecíduas estacionárias, o lobo-guará é um animal muito ágil, de hábito solitário e ativo nos períodos noturno e crepuscular. É uma espécie onívora alimentando-se de insetos, anuros, lagartos, ofídeos e seus ovos, roedores e se aproveitando ainda de raízes de frutos. A lontra é um animal semiaquático, que habita as margens de rios, banhados e lagoas, fazendo tocas em barrancos, apresentando tanto atividade diurna quanto noturna, alimentando-se de peixes, anfíbios, moluscos, aves aquáticas e roedores. O procionídeo mão-pelada, arborícola de hábito onívoro, forma seus abrigos em ramos de arvores, com atividade noturna e crepuscular, alimentando-se de pequenos roedores, aves, ofídeos, anfíbios, peixes, insetos, moluscos, frutas e grãos. O tamanduá, Tamandua tetradactyla, é descrito como um animal solitário, de atividade diurna, crepusculares e noturnas, que se refugia contra os predadores em árvores e se alimenta de insetos coloniais e suas larvas (ACHAVAL et al., 2007).

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Artigo Original Entre os predadores, a jaguatirica se alimenta de pequenos roedores a cutias, tatus e macacos. A suçuarana é caracterizada por ser solitária e com hábitos tanto noturnos quanto diurnos e se alimenta de uma gama grande de vertebrados da floresta, desde roedores a animais de pecuária como bezerros e gados domésticos. O gato-macambira, um felino de menor porte, possui hábitos noturnos e caçam roedores de pequeno porte, lagartos e aves (OLIVEIRA e CASSARO, 2006). Por fim, os mamíferos de grande porte habitam grandes áreas, sendo assim, qualquer fragmentação do hábitat está reduzindo, exercendo grande pressão sobre a população remanescente, tornando-as inviáveis a médio e longo prazo. Outro grande problema é a caça que vem sendo combatido desde que a convenção Internacional sobre Comércio de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Silvestre (CITES) foi adotada, em 1975 (RODRIGUES et al., 2002). Porém, até hoje está batalha não foi vencida.

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BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

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Artigo Original RIMA/ CTMSP. Relatório de impacto ambiental para a implantação do reator nuclear no centro experimental ARAMAR em Iperó, SP. Trecho do monitoramento biótico, fornecido pelo contratante, 1991. RODRIGUES, F. H. G.; HASS, A.; REZENDE, L. M.; PEREIRA, C. S.; FIGUEIREDO, C. F.; LEITE, B. F.; FRANÇA, F. G. R. Impacto de rodovias sobre a fauna da Estação Ecológica de Águas Emendadas, DF. In: Anais do III Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação, Curitiba, p. 585-593, 2002. SINBIOTA-FAPESP. Programa de pesquisas em caracterização, conservação e uso sustentável da biodiversidade do Estado de São Paulo. Sistema de Informação Ambiental - Sinbiota. São Paulo, 2004. Disponível em: <http://www.sinbiota.cria.org.br>. TOCCHET, C. B. A fauna de pequenos mamíferos terrestres como indicador do estado de conservação da Floresta Nacional de Ipanema, SP. Trabalho de Conclusão de Curso, Universidade Federal de São Carlos, Sorocaba. 2009. VIVO, M. Estudo da diversidade de espécies de mamíferos do Estado de São Paulo, 1996. VIVO, M. Diversidade de Mamíferos do Estado de São Paulo. In: JOLY, C.A. & BICUDO, C. E. M. (Org.). Biodiversidade do Estado de São Paulo. 6 – Vertebrados. CASTRO, R. M. C. (Ed.), Ribeirão Preto, SP, 1998. VIVO, M., CARMIGNOTTO, A. P., GREGORIN, R., HINGST-ZAHER, E., IACKXIMENES, G. E., MIRETZKI, M., PERCEQUILLO, A .R., ROLLO, M. M., ROSSI, R. V.; TADDEI V. A. Checklist dos mamíferos do Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Biota Neotrop., vol. 11 (1a), 2010.

BURSTIN, Bruno Assanu; FLYNN, Maurea Nicoletti. LEVANTAMENTO SECUNDÁRIO DO ESTADO ATUAL DA MASTOFAUNA NA REGIÃO DE SOROCABA, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 105-121, jun. 2012.

121


Artigo Original Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP.

Lucas Alegretti Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é assessor técnico do Instituto Inteligência para Sustentabilidade-I2S, atuando principalmente nos temas: Pequenas Centrais Hidrelétricas, Ictiofauna, Herpetofauna, Monitoramento

Biológico

em

ambientes aquáticos e terrestres. E-mail: lucasalegretti@gmail.com

Maurea Nicoletti Flynn Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em ecologia aplicada e experimental pelo programa recém doutor do CNPq, Universidade de São Paulo. Foi coordenador do Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz e Coordenadora de Pesquisas na Escola Superior de Química das Faculdades Oswaldo Cruz. Professor adjunto do curso de graduação em Ciências Biológicas

e

de

pós-graduação

em

Biodiversidade

da

Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem experiência nas áreas de Ecologia Bêntica, Ecologia Experimental, Dinâmica Populacional e Biodiversidade. E-mail: m.flynn@intertox.com.br ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

122


Artigo Original Resumo O objetivo do trabalho foi atualizar, através de levantamento secundário, a listagem de espécies da herpetofauna que ocorrem na região da Grande Sorocaba, com referência as ocorrências na Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Médio-Tiete/Sorocaba (UGRHI 10). Pelo levantamento dos dados realizado foram encontradas 22 espécies de anfíbios e 53 espécies de répteis, sendo 7 destas identificadas somente a nível de gênero. Nenhuma das espécies se encontra em qualquer tipo de vulnerabilidade ou em perigo de extinção segundo o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção e Portaria IBAMA Nº 1.522, de 19 de Dezembro 1989. Palavras-Chave: herpetofauna, levantamento secundário, região de Sorocaba, Bacia do Medio-Tiete/Sorocaba. Abstract The objective of this paper is to update, through secondary survey, the listing of herpetofauna species of herpetofauna for Sorocaba and vicinity, and referring to occurrences in the UGRHI 10 (Médio Tiete/Sorocaba Basin). By the data survey, it was listed for the region 22 species of amphibians and 53 species of reptiles, 7 only identified till genus. None of the species is in any type of vulnerability or extinction danger according to the Red Book of the Threatened Brazilian Fauna and decrete IBAMA Nº 1,522, of 19 of December 1989. Key-Words: Herpetofauna, Secondary Survey, Sorocaba Region, MedioTiete/Sorocaba Region. Introdução A fauna brasileira de anfíbios conta com 849 espécies descritas, sendo que destas 821 são Anura, 27 Gymnophiona e 1 Caudata (BÉRNILS, 2009).

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

123


Artigo Original No Estado de São Paulo, são conhecidas 250 espécies de Anuros (ROSSAFERES et al., 2008), o que corresponde a aproximadamente 30% das espécies de anfíbios brasileiras. Os anfíbios são predadores vorazes quando adultos (principalmente de artrópodes), mas têm diversas formas de alimentação quando em estágio larval (herbívoros, carnívoros e raspadores) (BOYER e GRUE, 1994). No caso dos artrópodes, os anfíbios são importantes mantenedores das populações, inclusive daqueles que são considerados pragas ao homem. No grupo de vertebrados terrestres, os anfíbios podem ser utilizados para o biomonitoramento. São abundantes, de fácil coleta, apresentam grande número de espécies e tem respostas diversas a substâncias e alterações ambientais (BOYER e GRUE, 1994; HANOWSKI et al. 2006). Alguns grupos como as famílias Hilydae e Bufonidae podem ser considerados como bioindicadores, pois incluem espécies resistentes que sobrevivem em ambientes modificados e espécies extremamente sensíveis, em que o oposto ocorre (BOYER e GRUE, 1994; HANOWSKI et al., 2006; IUCN, 2005). Adicionalmente, podem ser indicadores de acúmulo de substâncias por ingerir presas contaminadas (BOYER e GRUE, 1994). No caso dos répteis, segundo o levantamento feito por Rossa-Feres (2008), o Estado de São Paulo conta com 200 espécies: dois crocodilianos, sete quelônios, 11 anfisbenídeos, 46 lagartos e 141 serpentes. Isso equivale, aproximadamente, a 30% da riqueza de espécies de répteis do país, que soma 708 espécies (BÉRNILS, 2009). As populações de répteis, de uma maneira geral, são afetadas pela perda e degradação do habitat (GIBBONS et al., 2000; IUCN, 2005), redução do número de presas, poluição ambiental, doenças, espécies invasoras, mudanças climáticas e comércio ilegal de animais silvestres (GIBBONS et al., 2000; O’ SHEA e HALLIDAY, 2002). Um exemplo disso são as serpentes, pois a grande maioria delas não é

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original generalista quanto ao hábito alimentar (O’ SHEA e HALLIDAY, 2002), uma vez que se alimentam de apenas um ou dois grupos de animais. Portanto, a redução da quantidade de presas (por razões diversas), por exemplo, pode determinar um impacto sobre a população de serpentes. Poucas espécies de répteis são herbívoras, algumas são onívoras e a maioria é carnívora (O’ SHEA e HALLIDAY, 2002).

Serpentes e

crocodilianos são exclusivamente carnívoros, enquanto que em lagartos e quelônios a dieta pode ser mais variada. Os carnívoros, portanto, contribuem

mais

para

a

manutenção

das

populações

de

presas,

principalmente de roedores (MARQUES et al., 2001). Os répteis podem ser utilizados como bioindicadores de contaminação ambiental, principalmente as serpentes, pois algumas espécies têm vida longa, exibem diferentes níveis tróficos e, em muitos casos, estão no topo de cadeias alimentares (BURGER et al., 2007). O objetivo do trabalho foi o de atualizar a listagem de espécies da herpetofauna que ocorrem principalmente na região da Grande Sorocaba, com referência as que ocorrem na Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Médio-Tiete/Sorocaba (UGRHI 10).

Material e Métodos A área de estudo que teve a herpetofauna pesquisada foi a região da Grande Sorocaba, inserida na sub-bacia do Médio-Sorocaba, e abrangendo os municípios de: Boituva, Capela do Alto, Iperó, Porto Feliz, Araçoiaba da Serra, Sorocaba, Salto de Pirapora, Votorantim, Alumínio, Marinque e Itu. Além disso, levou-se em consideração ocorrências na UGHRI 10. O levantamento bibliográfico cobriu publicações realizadas desde 1991 (RIMA, CTMSP, 1991), baseando-se a listagem nos autores: RIMA, ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original CTMSP, 1991; Franco et. al. 1997; Sawaya e Sazima 2003; Canedo et. al. 2004; Ferrarezzi et. al. 2005; Garavello, 2005; Santos Jr, 2005, Toledo et. al. 2005; Marques e Muriel 2007; Pinto et. al. 2008; Santos Jr et. al. 2008; Centeno et. al. 2010 e Forlani et. al. 2011, além disso foi consultado os dados do SINBIOTA/FAPESP e visitada a Coleção do Instituto Butantan (consulta realizada no ano 2009). Para a determinação do grau de vulnerabilidade das espécies levantadas, utilizaram-se listas em âmbito federal: a Portaria IBAMA nº 1.522, 1989 e Anexos I e II da Instrução Normativa nº 5, de 21 de maio de 2004 do Ministério do Meio Ambiente, o Livro Vermelho de Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Ministério do Meio Ambiente (2008) e Lista vermelha de anfíbios (IUCN, 2005). Resultados Pelo levantamento dos dados para a região de Sorocaba e arredores foram encontradas 22 espécies de anfíbios e 53 espécies de répteis, sendo 7 destas identificadas somente a nível de gênero. Nenhuma das espécies se encontra em qualquer tipo de vulnerabilidade ou em perigo de extinção segundo o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção e Portaria IBAMA Nº 1.522, de 19 de Dezembro 1989 (MACHADO et. al., 2008) Na região de Sorocaba, para o grupo dos anfíbios, registraram-se as famílias: Bufonidae (4 espécies), Hylidae (14 espécies) e Leptodactylidae (16 espécies). Para os répteis Squamata: Amphisbaenidae (4 espécies), Anomalepididae (1 espécie), Boidae (2 espécies), Colubridae (54 espécies), Elapidae (3 espécies), Gekkonidae (1 espécie), Polychrotidae (7 espécie), Scincidae (1 espécie), Teiidae (3 espécies), Viperidae (4 espécies) e para os répteis Testudines: Chelidae (3 espécies).

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original Para as espécies da herpetofauna registradas na UGHRI 10 e principalmente na região da Grande Sorocaba, não há informações quanto às espécies em risco de extinção. São registradas como populações estáveis (IUCN, 2005). Tabela 1 – Checklist da espécies de répteis e anfíbios pesquisadas para a região estuda, com indicação da fonte onde foi encontrada e dos locais. Fontes: (1)RIMA/CTMPSP (1991), (2)Franco et al (1997), (3)Sawaya e Sazima, (2003), (4)Canedo et al (2004), (5)Caramaschi e Napoli (2004), (6)Ferrarezzi et al (2005), (7)Garavello (2005), (8)Santos Jr. (2005), (9)Toledo et. al. (2005), (10)Marques e Muriel (2007), (11)Pinto et. al. (2008), (12)Santos Jr et. al. (2008), (13)Centeno et al (2010), (14)Forlani et al (2011), (15) SIMBIOTA/FAPESP, (16) Coleção do Instituto Butantan. Locais: Alumínio – Al, Iperó – Ip, Itu – It, Mairinque – Ma, Porto Feliz – PF, Sorocaba – So, Votorantim – Vo, Todos os Municípios da Grande Sorocaba – TM, UGHRI 10 – U10 ORDEM, Família e Espécie Nome vulgar Fonte Local ANURA Bufonidae Bufo crucifer

Sapo Bufo

7 e 15

TM

Bufo ictericus

Sapinho, Sapo – cururu

1, 7, 15

Ip

Bufo paracnemis

Sapo

1

TM

Bufo marinus

Sapo Bufo

7

Ip

Hyla albopunctata

Perereca-cabrinha

1

TM

Hyla faber

Sapo-ferreiro

7

Ip

Hyla lundii

Perereca

5

So

Hyla minuta

Perereca

1

TM

Hyla prasina

Perereca

1

TM

Hyla cf. punchella

Perereca

1

TM

Osteocephalus langsdorffi

Perereca

1

TM

Scinax duartei

Perereca

1

TM

Scinax fuscovaria

Perereca-de-banheiro

1

TM

Scinax hiemalis

Perereca

15

U10

Scinax perereca

Perereca-de-banheiro

15

U10

Scinax similis

Perereca-da-mata

15

U10

Scinax trachythorax

Perereca

15

U10

Scinax x-signatus

Perereca

1

TM

Adenomera marmorata

Rãnzinha

15

U10

Chiasmocleis albopunctata

Rãzinha-pintada

4 e 14

Ip

Eleutherodactylus binotatus

Rã-do-mato

1 e 16

TM

Eleutherodactylus guentheri

Rãzinha

1 e 16

TM

Hylidae

Leptodactylidae

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original Eleutherodactylus juipoca

Rãzinha-do-capim

15

U10

Eleutherodactylus parvus

Rãzinha

15

U10

Leptodactylus chaquensis

Rã-de-linha-branca

15

U10

Leptodactylus fuscus

Rã-assobiadora

1

TM

Leptodactylus mystaceus

Rã-marrom

9

So

Leptodactylus notoaktites

15

U10

1e7

TM

15

U10

Proceratophrys boiei

Rã-gota Rã-pimenta, manteiga Rãzinha-de-brigacolorida Sapo-de-chifres

1 e 15

TM

Physalaemus cuvieri

Rã-cachorro

1 e 15

TM

15

U10

Rãzinha-rangedoura

15

U10

Amphisbaenia Alba

Cobra-de-duas-cabeças

1

TM

Amphisbaenia darwinii

Cobra-de-duas-cabeças

1

TM

Amphisbaenia mertensi

Cobra-de-duas-cabeças

1

TM

Leposternon micracephalum

Cobra-de-duas-cabeças

1

TM

Cobra-cega

1, 13, 16

Ma, So

Boa constrictor

Jibóia

1,7, 16

Ip

Epicrates cenchria

Salamanta

16

U10

Apostolepis assimilis

Coral-falsa

1, 6, 16

It

Apostolepis dimidiata

Cabeça-preta

16

U10

Atractus reticulatus

Fura-fura

16

U10

Boiruna maculata

Muçurana-preta

16

U10

Chironius bicarinatus

Cobra-cipó, Espada

16

U10

Chironius exoletus

Cobra-cipó

16

U10

Chironius flavolineatus

Cobra-cipó

11 e 16

So

Chironius foveatus

Cobra-cipó

16

U10

Chironius sp

Cobra-cipó

1

TM

Chironius quadricarinatus

Cobra-cipó

16

U10

Clelia occipitolutea

Cobra-preta

1

TM

Mussurana

16

U10

Cobra

2

Al, It, So

Leptodactylus ocellatus Paratelmatobius cardosoi

Rã-

Physalaemus maculiventris Physalaemus olfersii SQUAMATA Amphisbaenidae

Anomalepididae Liotyphlops beui

PF,

Boidae

Colubridae

Clelia Clélia Clelia quimi

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original Echinantera melanostigma

Jararaquinha, Dormideira Corredeira-do-mato

Echinanthera miolepis

Cobra

8

Ta, It, Vo

Echinantera undulata

Corredeira-do-mato

16

U10

16

U10

Dipsas indica

Elapomorphus sp

1 e 16

TM

16

U10

Erythrolamprus aesculapii

Coral-falsa

1

TM

Gomesophis brasiliensis

Cobra-bola

16

U10

Helicops carinicaudus

Cobra-d’agua

16

U10

Helicops modestus

Cobra-d’água-preta

1 e 16

TM

Imantodes cenchoa

Dormideira

16

U10

Lemadophis sp

Cobra-d’água

7

Ta

Leptodeira annulata

Olho-de-gato

16

U10

16

U10

Liophis aesculapi Liophis almadensis

Cobra-d’água

1 e 16

TM

Liophis jaegeri

Jararaquinha-verde

16

U10

Liophis miliaris

Jararaquinha

1 e 16

TM

Liophis poecilogyrus

Cobra-de-capim

1 e 16

TM

Liophis typhlus

Cobra-d’água

1 e 16

TM

Mastigodryas bifossatus

Jararacuçú-do-brejo

10 e 16

So

Oxyrhopus clathratus

Coral-falsa

1 e 16

TM

Oxyrhopus guibei

Coral-falsa

1 e 16

TM

Philodryas olfersii

Cobra-cipó-verde

1 e 16

TM

Philodryas patagoniensis

Parelheira

1 e 16

TM

Pseudoboa nigra

Cobra-preta

16

U10

Rhachidelus brazili

Cobra-preta

16

U10

1

TM

Rhadinaea sp Sibynomorphus mikanii

Dormideira

1 e 16

TM

Sibynomorphus turgidus

Dormideira

16

U10

Simophis rhinostoma

Falsa-coral

16

U10

16

U10

Siphlophis longicaudatus Spilotes pullatus

Caninana

1 e 16

TM

Taeniophallus occipitalis

Corre-campo

12

Ta, It, Vo

Tantilla melanocephala

Coral-falsa

3 e 16

It, Ma

Thamnodynastes pallidus

Cobra-do-mato

16

U10

Thamnodynastes strigatus

Jararaquinha

16

U10

Thamnodynastes strigilis

Jararaquinha

1

TM

Tomodon dorsatus

Cobra-espada

11 e 16

TM

Tropidodryas serra

Cobra-cipó-marrom Quiriripitá, Jararaquinha

16

U10

1 e 16

TM

Xenodon neuwiedi

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original Xenodon merremi Waglerophis marremi

Jararaca, Jararaquinha Boipeva

16

U10

1

TM

Elapidae Micrurus corallinus

Cobra-coral

1

TM

Micrurus frontalis

Cobra-coral

1 e 16

TM

Micrurus lemniscatus

Cobra-coral

1

TM

Gekko cf gecko

Lagartixa (Exotica)

7

Ip

Hemidactylus mabouia

Lagartixa-de-parede

15

U10

15

U10

15

U10

Gekkonidae

Polychridae

Enyalius perditus

Lagartinho-da-serrado-mar Papa-vento

Polychrus acutirostris

Lagarto-preguiça

1

TM

Tropidurus torquatos

Lagartixa-preta

1

TM

Anolis SP

Papa-vento

1

TM

Urusthrophus sp

Lagartixa

1

TM

Urostrophus vautieri

Lagarto-da-pedra

15

U10

Calango-liso

7

Ip

Ameiva ameiva

Calango

1e7

Ip

Kentropyx sp

Lagarto

1

TM

Tupinambis teguixim

Teiu

1e7

Ip

Bothrops jararaca

Jararaca

1 e 16

TM

Bothrops alternatus

Urutu

1

TM

Bothrops neuwiedi

Jararaca-pintada

1 e 16

TM

Crotalus durissus

Cascavel

1, 7, 16

TM

Hydromedusa maximiliani

Cágado

1

TM

Hydromedusa tectifera

Cágado

1

TM

Phrynops geoffroanus

Cágado

1

TM

Ecpleopus gaudichaudi

Scincidae Mabuya sp Teiidae

Viperidae

TESTUDINES Chelidae

Discussão

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original A maioria dos anfíbios e répteis encontrados na região de Sorocaba é de ampla distribuição geográfica na Mata Atlântica e nesse levantamento foi encontrada apenas uma espécie exótica, Gekko cf gecko, uma lagartixa nativa do sul da Ásia, provavelmente um bicho de estimação que acabou sendo solto ou fugindo. Dentre os anfíbios encontrados algumas espécies que ocorrem na área (e.g., Hyla albopuncta, Leptodactylus cf. ocellatus e Physalaemus cuvieri) são ecologicamente generalistas e podem invadir ambientes alterados e em determinados casos, as populações destas podem atingir altos valores de dominância. Não se pode, hoje em dia, falar em anfíbios, sem mencionar a crise em que se encontram. Sabe-se que eles estão em declínio populacional em diversas partes do mundo (BOYER e GRUE, 1994; SILVANO e SEGALLA, 2005; IUCN, 2005). Algumas espécies correm risco de extinção caso os impactos sobre elas não cessem (IUCN, 2005). A iminência da extinção dos anfíbios está intimamente atrelada ao grau de exigência da grande maioria das espécies quanto à estabilidade do ambiente em que vivem (HANOWSKI et al., 2006). Na maioria das espécies, a vida é extremamente dependente da água e, para todas elas, a umidade é fundamental. A ausência de umidade não só causa dessecação no delicado tegumento, causando a morte dos indivíduos

por

desidratação,

como

também

prejudica

os

processos

respiratórios. Além disso, a reprodução e os estágios larvais dos anfíbios são dependentes de água (BOYER e GRUE, 1994). Portanto, alterações na quantidade e/ou qualidade da água podem influenciar diretamente tanto na fisiologia, quanto na reprodução dos anfíbios. A IUCN listou as maiores causas de extinção de anfíbios no mundo, concluindo que a perda do habitat e a poluição ambiental ocupam as primeiras posições (IUCN, 2005). Silvano e Segalla (2005) apontam ainda a infecção causada por fungos, poluição das águas, a contaminação por

ALEGRETTI, Lucas; FLYNN, Maurea Nicoletti. Levantamento secundário do estado atual da herpetofauna na região de Sorocaba, SP. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 122-134, jun. 2012.

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Artigo Original pesticidas, as mudanças climáticas, as espécies invasoras, a radiação ultravioleta e o comércio ilegal de animais silvestres. Para o biomonitoramento dos anfíbios, sugerem-se normalmente os grupos Hylidae e Bufonidae, já que são abundantes e predadores. Para os répteis, indica-se principalmente aqueles que possuem hábitos semiaquáticos (serpentes da família Dipsadidae), comedores de peixes e os terrestres comedores de anfíbios (serpentes Dipsadidae). As indicações para o monitoramento são as serpentes semi-aquáticas: Liophis milliaris, Sordellina punctata, e as serpentes do gênero Helicops (predam peixes e anfíbios, tanto adultos, quanto larvas). Além das comedoras de anfíbios: Imantodes c. cenchoa, Leptodeira annulata, Mastigodryas bifossatus, Simophis rhinostoma e os grupos: Xenodon, Thamnodynastes, Echinanthera, Liophis, Bothrops, Chironius e Philodryas.

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Ensaio Impactos e Benefícios da Produtividade de Biogás em Aterro Sanitário

Rodrigo Malanconi Engenheiro Ambiental pelas Faculdades Oswaldo Cruz, São Paulo. Email: rodrigo.malanconi@hotmail.com

Rodrigo Chimenti Cabral Engenheiro Civil e Gerente da Lara Energia

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Ensaio Resumo No presente ensaio serão apresentados conceitos básicos de geração de biogás a partir da decomposição da matéria orgânica proveniente de resíduos sólidos urbanos em aterros sanitários. O biogás produzido em aterros sanitários apresenta em sua composição dióxido de carbono e gás metano, um gás inflamável de alto poder calorífico e 2º gás de Efeito Estufa em ordem de importância. Com tamanho poder energético o biogás é utilizado para geração de energia elétrica como verificado no aterro sanitário Bandeirantes, o primeiro aterro sanitário brasileiro que utiliza biogás para acionar moto-geradores. A queima do metano acarreta ganhos ambientais na transformação do gás metano em água e gás carbônico, reduzindo o potencial de aquecimento global, gerando certificados de emissões reduzidas ou créditos de carbono em países em desenvolvimento como o Brasil. Palavras-chave: Aterro Sanitário. Produção de Biogás.

Abstratc In the present assay basic concepts of biogas production generation from the decomposition of the organic matter from urban solid residues in sanitary landfills will be presented. Biogás produced in sanitary landfills presents in its composition carbon dioxide and methane, an inflammable gas with high calorific power and 2º in importance promoting Greenhouse Effect. Biogás is used for generation of electric energy as verified in the Bandeirantes Landfill, the first Brazilian landfill that uses biogas to set in motion motor-generators. The methane burning brings environmental profits, since the transformation of the gas methane in water and carbonic gas reduces the potential of global heating and generates carbon reduction emissions certifications (carbon credits) in developing countries such as Brazil. Key words: Landfills. Biogas Production.

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Ensaio Introdução No presente ensaio serão discutidos conceitos básicos de geração de biogás à partir da decomposição da matéria orgânica de resíduos sólidos urbanos. Após dispostos nos aterros sanitários, o resíduo sólido urbanos, que contém significativa parcela de matéria orgânica biodegradável, passa por um processo de digestão anaeróbia por meio de micro-organismos que transformam a matéria orgânica em um gás conhecido no Brasil como Biogás. (IBAM, Instituto Brasileiro de Administração municipal, 2009). O Biogás gerado nos aterros sanitários é composto por dióxido de carbono (35%) e hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, amônia, oxido sulfídrico, aminas voláteis e monóxido de carbono, perfazendo (5%) e gás metano (60%); gás este apresenta grande responsabilidade pelo fenômeno conhecido como efeito estufa (NUNES MAIA, 1997). O resíduo sólido urbano é composto por material, substância objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade, a cuja destinação final se procede nos estados sólidos ou semissólidos. Bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede publica de esgotos ou em corpos d’água, ou exijam para isto soluções técnicas e economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível (Biogás Congress 2011, ABRELPE). São várias as maneiras de se classificar os resíduos sólidos. As mais comuns são quanto aos riscos potenciais de contaminação do meio ambiente e quanto à natureza ou origem (Manual Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, 2001). Quanto aos riscos potenciais de contaminação do meio ambiente, de acordo com a NBR 10.004/2004 da ABNT, os resíduos sólidos podem ser classificados em: 1. Classe 1 ou perigoso: São aqueles que, em função de suas características intrínsecas de inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade ou patogenicidade, apresentam riscos à saúde pública através do aumento da mortalidade ou da morbidade, ou ainda provocam efeitos adversos ao meio ambiente quando manuseados ou dispostos de forma inadequada. (NBR 10.004/2004 da ABNT). 2. Classe 2A, não inerte: São os resíduos que podem apresentar características de combustibilidade, biodegradabilidade ou solubilidade, com possibilidade de acarretar riscos à saúde ou ao meio ambiente, não se enquadrando nas classificações de resíduos Classe I – Perigosos – ou Classe 2B – Inertes. (NBR 10.004/2004 da ABNT). 3. Classe 2B, inerte: São aqueles que, por suas características intrínsecas, não oferecem riscos à saúde e ao meio ambiente, e que, quando amostrados de forma representativa, segundo a norma NBR 10.007, e submetidos a um

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Ensaio contato estático ou dinâmico com água destilada ou deionizada, a temperatura ambiente, conforme teste de solubilização segundo a norma NBR 10.006, não tiverem nenhum de seus constituintes solubilizados a concentrações superiores aos padrões de portabilidade da água, conforme listagem nº 8 (Anexo H da NBR 10.004/2004), excetuando-se os padrões de aspecto, cor, turbidez e sabor. (NBR 10.004/2004 da ABNT). Quanto à origem, os diferentes tipos de lixo podem ser agrupados em cinco classes, a saber: Lixo doméstico ou residencial, comercial, público, domiciliar especial e de fontes especiais. Os resíduos sólidos de origem urbana (RSU) compreendem aqueles produzidos pelas inúmeras atividades desenvolvidas em áreas com aglomerações humanas do município, abrangendo resíduos de várias origens, como residencial, comercial, de estabelecimentos de saúde, industriais, da limpeza pública (varrição, capina, poda e outros), da construção civil e, finalmente, os agrícolas (PROSAB - Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos, 2003). Na figura 1a segue gráfico de geração de RSU total no Brasil e na figura 1b segue o incremento de 7% no volume de resíduos de 2009 para 2010, sendo que no mesmo período a população cresceu 1%.

Figura 1a: Geração de RSU tonelada/ano. Fonte: Biogás Congress 2011, ABRELPE )

Figura 1b: Geração de RSU kg/hab/ano.

As características do lixo podem variar em função de aspectos sociais, econômicos, culturais, geográficos e climáticos, ou seja, os mesmos fatores que também diferenciam as comunidades entre si e as próprias cidades. A tabela abaixo expressa a variação das composições do lixo em alguns países, deduzindose que a participação da matéria orgânica tende a se reduzir nos países mais desenvolvidos ou industrializados, provavelmente em razão da grande incidência de alimentos semipreparados disponíveis no mercado consumidor (Manual Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, 2001).

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Ensaio Tabela1: Composição graviométrica do lixo de alguns paises (%).Fonte: Manual Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, 2001. Composição gravimétrica do lixo de alguns países (%) Mat. orgânica 65,00 61,20 50,30 Vidro 3,00 10,40 14,50 Metal 4,00 3,80 6,70 Plástico 3,00 5,80 6,00 Papel 25,00 18,80 22,50

35,60 8,20 8,70 6,50 41,00

Aproximadamente 20% dos resíduos sólidos urbanos de São Paulo, constituído por plástico, vidro, jornal e papelão, poderiam ser reciclados, mas somente 1% é reciclado e o restante apresenta uma correta destinação final, como aterros sanitários. (Revista da Folha, 28 de fevereiro, 2010). A figura 2 ilustra as características dos Resíduos Sólidos Urbanos da cidade de São Paulo. Características dos R.S.U. da cidade de São Paulo

(lixo orgânico) = 60% (plástico, vidro, jornal, papelão) = 20% (tecido, material higiênico usado) = 20%

Figura 2: Características dos RSU da cidade de São Paulo. Fonte: Revista da Folha, 28 de fevereiro de 2010.

Com o crescimento das cidades, o desafio da limpeza urbana não consiste apenas em remover o lixo de logradouros e edificações, mas, principalmente, em dar um destino final adequado aos resíduos coletados. Essa questão merece atenção porque, ao realizar a coleta de lixo de forma ineficiente, a prefeitura é pressionada pela população para melhorar a qualidade do serviço, pois se trata de uma operação totalmente visível aos olhos da população. Contudo, ao se dar uma destinação final inadequada aos resíduos, poucas pessoas serão diretamente incomodadas, fato este que não gerará pressão por parte da população (Manual Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, 2001).

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Ensaio Ainda cerca de 7% do RSU gerado não é coletado, pois em 2010 foi estimado que fossem geradas 60.868.080 toneladas de RSU e que fossem coletadas 54.157.896 toneladas (Biogás Congress 2011, ABRELPE). É comum observar nos municípios de menor porte a presença de "lixões", ou seja, locais onde o lixo coletado é lançado diretamente sobre o solo sem qualquer controle e sem quaisquer cuidados ambientais, poluindo tanto o solo, quanto o ar e as águas subterrâneas e superficiais das vizinhanças. Os lixões, além dos problemas sanitários com a proliferação de vetores de doenças, também se constituem em sério problema social, porque acaba atraindo os "catadores", indivíduos que fazem da catação do lixo um meio de sobrevivência, muitas vezes permanecendo na área do aterro, em abrigos e casebres, criando famílias e até mesmo formando comunidades (Manual Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, 2001). Diante desse quadro, a única forma de se dar destino final adequado aos resíduos sólidos é através de aterros, sejam eles sanitários, controlados, com lixo triturado ou com lixo compactado. Todos os demais processos ditos como de destinação final (usinas de reciclagem, de compostagem e de incineração) são, na realidade, processos de tratamento ou beneficiamento do lixo, e não prescindem de um aterro para a disposição de seus rejeitos. O processo recomendado para a disposição adequada para o lixo domiciliar é o aterro, existindo dois tipos: os aterros sanitários e os aterros controlados (Manual Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, 2001). Abaixo segue um panorama da destinação final de RSU coletados no Brasil (figura 3).

Figura 3: Destinação final dos RSU. Fonte: (Biogás Congress 2011, ABRELPE)

A diferença básica entre um aterro sanitário e um aterro controlado é que este último prescinde da coleta e tratamento do chorume, assim como da drenagem e queima do biogás. Um enfoque mais detido será dado ao aterro sanitário, já que esta solução é a tecnicamente mais indicada para a disposição

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Ensaio final dos resíduos sólidos (Manual Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, 2001). DISPOSIÇÃO FINAL DE RESIDUOS SÓLIDOS EM ATERRO SANITARIO É o processo utilizado para a disposição de resíduos sólidos no solo, particularmente, lixo domiciliar que fundamentado em critérios de engenharia e normas operacionais específicas, permite a confinação segura em termos de controle de poluição ambiental, proteção à saúde pública; ou, forma de disposição final de resíduos sólidos urbanos no solo, através de confinamento em camadas cobertas com material inerte, geralmente, solo, de acordo com normas operacionais específicas, e de modo a evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança, minimizando os impactos ambientais (D’ ALMEIDA & VILHENA, 2000). Antes de se projetar o aterro, são feitos estudos geológico e topográfico para selecionar a área a ser destinada para sua instalação de modo que não comprometa o meio ambiente. É feita, inicialmente, impermeabilização do solo através de combinação de argila e lona plástica para evitar infiltração dos líquidos percolados. Os líquidos percolados são captados (drenados) através de tubulações e escoados para lagoa de tratamento. Para evitar o excesso de águas de chuva, são colocados tubos ao redor do aterro, que permitem desvio dessas águas, do aterro (AMBIENTEBRASIL, 2008). A quantidade de lixo depositado é controlada na entrada do aterro através de balança. Os gases liberados durante a decomposição são captados e podem ser queimados com sistema de purificação de ar ou ainda utilizados como fonte de energia (aterros energéticos) (AMBIENTEBRASIL, 2008). Segundo a Norma Técnica NBR 8419 (ABNT, 1984), o aterro sanitário não deve ser construído em áreas sujeitas à inundação. Entre a superfície inferior do aterro e o mais alto nível do lençol freático deve haver uma camada de espessura mínima de 1,5 m de solo insaturado. O nível do solo deve ser medido durante a época de maior precipitação pluviométrica da região. O solo deve ser de baixa permeabilidade (argiloso) (ABNT, 1984). O aterro deve ser localizado a uma distância mínima de 200 metros de qualquer curso d água. Deve ser de fácil acesso. A arborização deve ser adequada nas redondezas para evitar erosões, espalhamento da poeira e retenção dos odores (AMBIENTEBRASIL, 2008). Abaixo segue uma ilustração com os setores típicos de um Aterro Sanitário (figura 4).

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Ensaio

Figura 4: Esquema de aterro sanitário fase a fase. Fonte: CABRAL, R. C. 2009.

PRODUÇÃO DE BIOGÁS A PARTIR DE RESIDUOS ORGÂNICOS A digestão anaeróbia é um processo fermentativo em que matéria orgânica complexa é degradada a compostos mais simples. A degradação ocorre através da ação de diversos grupos de micro-organismos que interagem simultaneamente, até a formação dos produtos finais, gás metano e gás carbônico. Na ausência de oxigênio ou de agentes oxidantes fortes como o sulfato, nitrato e enxofre, a degradação anaeróbia da matéria orgânica até a formação de metano, envolve três etapas: hidrólise, acetogênese e metanogênese. Na primeira etapa, a matéria orgânica complexa como policarbohidratos, proteínas e lipídeos é hidrolisada e fermentada por bactérias hidrolíticas fermentativas a compostos orgânicos simples como aminoácidos, açúcares, ácidos graxos e alcoóis. Na segunda etapa, os produtos metabólicos do primeiro grupo são então convertidos a acetado e hidrogênio pelas bactérias acetogênicas sintróficas associadas às bactérias utilizadoras de hidrogênio. Na terceira etapa, bactérias metanogênicas convertem acetato, formiato, hidrogênio, etc., a metano e dióxido de carbono.

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Ensaio O passo limitante, do processo é a metanogênese, pois as bactérias responsáveis, por essa etapa são as mais lentas e mais sensíveis às variações do meio. O bom desempenho do processo depende da manutenção do equilíbrio entre as populações microbianas envolvidas. BIOGÁS PRODUZIDO EM ATERROS SANITÁRIOS Após dispostos nos aterros sanitários, os resíduos sólidos urbanos, que contém significativa parcela de matéria orgânica biodegradável, passam por um processo de digestão anaeróbia, segundo o Instituto Brasileiro de Administração Municipal - IBAM. O processo de digestão anaeróbia dos resíduos ocorre pela ação de micro-organismos que transformam a matéria orgânica em um gás conhecido no Brasil como Biogás (IBAM, Instituto Brasileiro de Administração Municipal, 2009). O Biogás gerado nos aterros sanitários é composto basicamente pelos seguintes gases: metano (CH4); Dióxido de Carbono (CO2); Nitrogênio (N2), Hidrogênio (H2); Oxigênio (O2) e gás sulfídrico (H2S). (IBAM, Instituto Brasileiro de Administração Municipal, 2009). Pela característica dos resíduos sólidos no Brasil, o biogás gerado na maioria dos aterros sanitários apresenta elevada concentração de metano, acima de 55%, e de dióxido de carbono acima de 30%.(IBAM, Instituto Brasileiro de Administração Municipal, 2009). Tchobanoglous et al (1997), descrevem a geração de gás em aterros de resíduos em cinco fases, ou quatro se for desconsiderada a segunda, por ser uma fase de transição. Estas fases são ilustradas abaixo (Figura 5) e serão descritas a seguir (BORBA, 2006).

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Ensaio

Figura 5. Fases de geração de biogás em aterros de resíduos sólidos. Fonte: BORBA, 2006.

Fase I: Ajuste inicial. Fase em que os resíduos são depositados no aterro e sua fração biodegradável sofre a decomposição biológica em condições aeróbias. A fonte principal de micro-organismos aeróbios e anaeróbios, responsável pela decomposição dos resíduos, é o solo empregado na cobertura diária e final. Outras fontes de micro-organismos podem ser o lodo de estações de tratamento, depositado em alguns aterros, e a recirculação do chorume. Esta fase, em que a decomposição é aeróbia, se estende por um período de poucos dias após a execução da camada de cobertura, diminuindo a presença de oxigênio. Fase II: Transição. Fase em que decrescem os níveis de oxigênio e começa a fase anaeróbia. Enquanto o aterro é convertido em anaeróbio, o nitrato e o sulfato, que podem servir como receptores de elétrons em reações de conversão biológica, frequentemente são reduzidos a gás nitrogênio e sulfuro de hidrogênio. O início das condições anaeróbias pode ser verificado através do potencial de oxidação e redução que possui o resíduo. Com a queda do potencial de óxidoredução os micro-organismos responsáveis pela conversão da matéria orgânica em metano e dióxido de carbono iniciam a conversão do material orgânico complexo em ácidos orgânicos e outros produtos intermediários. Nesta fase o pH do chorume começa a cair devido à presença de ácidos orgânicos e pelo efeito das elevadas concentrações de CO2 dentro do aterro. Fase III: Ácida. Fase que antecede a formação de metano, em que as reações iniciadas na fase de transição são aceleradas com a produção de

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Ensaio quantidades significativas de ácidos orgânicos e pequenas quantidades de gás hidrogênio. A acidogênese envolve a conversão microbiológica dos compostos resultantes da primeira etapa em compostos intermediários com baixa massa molecular, como o ácido acético (CH3COOH) e pequenas concentrações de outros ácidos mais complexos. O dióxido de carbono é o principal gás gerado durante a fase III. Também serão produzidas quantidades menores de hidrogênio. Os microorganismos envolvidos nesta conversão, descritos como não metanogênicos, são constituídos por bactérias anaeróbias e facultativas. As demandas bioquímica (DBO) e química de oxigênio (DQO) e a condutividade do chorume aumentam significativamente durante esta fase devido à dissolução de ácidos orgânicos no chorume. O pH do chorume, se este é formado, é muito baixo (4 – 5), devido à presença de ácidos orgânicos e pelas elevadas concentrações de CO2 dentro do aterro. Também devido ao baixo pH, constituintes inorgânicos como os metais pesados serão solubilizados. Fase IV: Metanogênica: Nesta fase de fermentação do metano predominam microrganismos estritamente anaeróbios, denominados metanogênicos, que convertem ácido acético e gás hidrogênio em CH4 e CO2. A formação do metano e dos ácidos prossegue simultaneamente, embora a taxa de formação dos ácidos seja reduzida consideravelmente. O pH do chorume nesta fase ascenderá a valores na faixa de 6,8 a 8,0. A seguir o pH continuará subindo e serão reduzidas as concentrações de DBO5, DQO e o valor da condutividade do chorume. Com valores mais elevados de pH, menos constituintes inorgânicos permanecerão dissolvidos, tendo como consequência a redução da concentração de metais pesados no chorume. Fase V: Maturação. Esta fase ocorre após grande quantidade do material ter sido biodegradado e convertido em CH4 e CO2 durante a fase metanogênica. Como a umidade continua migrando pela massa de lixo, porções de material biodegradável até então não disponíveis acabam reagindo. A taxa de geração do gás diminui consideravelmente, pois a maioria dos nutrientes disponíveis foi consumida nas fases anteriores e os substratos que restam no aterro são de degradação lenta. Dependendo das medidas no fechamento do aterro, pequenas quantidades de nitrogênio e oxigênio podem ser encontradas no gás do aterro. A duração de cada fase de geração de gás variará conforme a distribuição dos componentes orgânicos no aterro, a disponibilidade de nutrientes, a umidade dos resíduos, a passagem de umidade pelo aterro e o grau de compactação inicial. Em condições normais, a velocidade de decomposição, medida através da produção de gás, chega a um máximo nos dois primeiros anos e logo decresce lentamente por 25 anos ou mais. Porém, as fases de um aterro não podem ser claramente definidas, já que novos resíduos são dispostos diariamente. Desta forma, enquanto alguns locais com resíduos novos estão passando pela fase

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Ensaio aeróbia, outros locais com resíduos mais antigos estão passando por fases de geração de metano (BORBA 2006). IMPACTOS GERADOS PELO BIOGÁS DE ATERROS SANITÁRIOS O biogás é um gás inflamável produzido por micro-organismos, quando matérias orgânicas são fermentadas dentro de determinados limites de temperatura, teor de umidade e acidez, em um ambiente impermeável ao ar (BRITO FILHO, 2005). Os gases produzidos nos aterros sanitários, quando não capturados e conduzidos para combustão em queimadores (Flares) para geração de energia elétrica ou mesmo para aquecimento de caldeiras causam impactos sociais relativos ao odor, e ambientais, relativos ao efeito estufa (CABRAL, 2009). O odor é um subproduto resultante da decomposição incompleta da matéria orgânica. Quando as células morrem, elas atraem as bactérias, as quais "quebram" as células do tecido morto, de modo que este possa, então, ser reciclado por um processo natural conhecido como decomposição, produzindo gases, como H2S, com odor desagradável ou irritante aos seres humanos (GLOTEC, 2008). O metano, principal componente do biogás, não tem cheiro, cor ou sabor, mas os outros gases presentes conferem-lhe um ligeiro odor de alho ou de ovo podre. Esta característica olfativa é uma problemática pelo incomodo à sociedade vizinha de um aterro sanitário (CABRAL 2009). O Efeito Estufa consiste, basicamente, na ação do dióxido de carbono e outros gases sobre os raios infravermelhos refletidos pela superfície da terra, reenviando-os para ela, mantendo assim uma temperatura estável no planeta. Ao irradiarem a Terra, partes dos raios luminosos oriundos do Sol são absorvidos e transformados em calor, outros são refletidos para o espaço, mas só parte destes chega a deixar a Terra, em consequência da ação refletora que os chamados "Gases de Efeito Estufa", GEE, (dióxido de carbono, metano, clorofluorcarbonetos – CFCs - e óxidos de azoto) têm sobre tal radiação reenviando-a para a superfície terrestre na forma de raios infravermelhos (SCHIEL, 2008) (Figura 6).

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Ensaio

Figura 6: Mecanismo do Efeito Estufa. Fonte: Schiel, 2008.

O aquecimento global é o aumento da temperatura terrestre (não só numa zona específica, mas em todo o planeta) e tem preocupado a comunidade científica cada vez mais. Acredita-se que seja devido ao uso de combustíveis fósseis e outros processos em nível industrial, que levam à acumulação na atmosfera de gases propícios ao Efeito Estufa, tais como o Dióxido de Carbono, o Metano, o Óxido de Azoto e os CFCs. (Revista Época). O Gráfico da figura 7 nos mostra o aumento dos gases de efeito estufa emitido pelo homem nos últimos 2000 anos.

Figura 7: Aumento dos gases de efeito estufa. Fonte: Revista Época.

Desde 1850 temos assistido a um aumento gradual da temperatura global, algo que pode também ser causado pela flutuação natural desta grandeza. Tais flutuações têm ocorrido naturalmente durante várias dezenas de milhões de

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Ensaio anos ou, por vezes, mais bruscamente, em décadas. Estes fenômenos naturais bastante complexos e imprevisíveis podem ser a explicação para as alterações climáticas que a Terra tem sofrido, mas também é possível e mais provável que estas mudanças estejam sendo provocadas pelo aumento de emissões de gases de Efeito Estufa, devido basicamente à atividade humana. De acordo com a NASA a temperatura média da terra sofreu um aumento e 2º graus Celsius em alguns lugares nos últimos 120 anos (Figura 8).

Figura 8: Variação de temperatura global. Fonte: Revista

Época. Abaixo segue uma tabela com os gases de efeito estufa com o seu potencial de aquecimento global em 20, 100 e 500 anos (Tabela 2). Tabela 2: gases de efeito estufa com o seu potencial de aquecimento global em 20, 100 e 500 anos. Fonte: CABRAL, R. C. 2009.

Espécie Dióxido de Carbono Metano Óxido Nitroso Ozônio HFC-23

Potencial de aquecimento global Tempo de Vida Fórmula Química (horizontal de tempo) (anos) 20 anos 100 anos 500 anos CO2 Variável 1 1 CH4 12+/-3 56 21 6.5 N2O 120 280 310 170 O3 0.1-0.3 n.d. n.d. n.d. CHF3 264 9 11700 9800

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Ensaio HFC-32 HFC-41 HFC-23-10mee HFC-125 HFC-134 HFC-134a HFC-152a HFC-143 HFC-143a HFC-227ea HFC-236fa HFC-145ca Hexafluorido de Enxofre Perfluorometano Perfluoroetano Perfluoropropano Perfluorociclobutano Perfluoropentano Perfluorohexano

CH2F2 CH3F C5H2F10 C2HF5 C2H2F4 CH2FCF3 C2H4F2 C2H3F3 C2H3F3 C3HF7 C3H2F6 C3H3F5 SF6 CF4 C2F6 C3F8 c-C4F8 C5F12 C6F14

5.6 3.7 17.1 32.6 10.6 14.6 1.5 3.8 48.3 36.5 209 6.6 3200 50000 10000 2600 3200 4100 3200

2 490 3000 4600 2900 3400 460 1000 5000 4300 5100 1800 16300 4400 6200 4800 6000 5100 5000

650 150 1300 2800 1000 1300 140 300 3800 2900 6300 560 23900 6500 9200 7000 0.87 7500 7400

200 45 400 920 310 420 42 94 1400 950 4700 170 34900 10000 14000 10100 12700 11000 10700

Durante a decomposição anaeróbia da matéria orgânica nos aterros sanitários é liberado o gás metano que é um potente gás de efeito estufa, com potencial de aquecimento global 21 vezes superior ao CO2 num período de 100 anos. Seu ciclo de vida na atmosfera é de aproximadamente 12 anos, sendo o 2º gás de Efeito Estufa em ordem de importância, pois responde por aproximadamente 18% de toda a pressão sobre o clima como é indicado em gráfico abaixo (CABRAL 2009) (Figura 9).

Figura 9. Disseminação de gás – Efeito Estufa. Fonte: CABRAL, R. C.2009.

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Ensaio Emissões de CH4 resultam de diversas atividades, incluindo aterros sanitários, tratamento de esgoto, sistemas de produção e processamento de petróleo e gás natural, atividades agrícolas, mineração de carvão, queima de combustíveis fósseis, conversão de florestas para outros usos e alguns processos industriais. Os Aterros Sanitários são a 3º maior fonte mundial de emissões antrópicas de Gases do Efeito Estufa respondendo por cerca de 13% desta como é indicado no gráfico abaixo (USEPA, 2008) (Figura 10).

Figura 10. Emissões de Metano. Fonte: CABRAL, R. C. 2009.

Abaixo, segue um panorama mundial de emissões de gás metano de aterros sanitários e um panorama brasileiro de emissões de gases de efeito estufa (Figura 11).

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Ensaio Figura 11: Panorama mundial de emissões de gás metano de Aterros Sanitários. Fonte: CABRAL, R. C. 2009.

O maior gerador de Metano de aterros sanitários é os Estados Unidos representando 26% de toda emissão, estando a China em 2º lugar representando 11% de toda Emissão e o Brasil representando 2 % de toda Emissão (USEPA, 2008). No Brasil, o setor Agropecuário é o maior responsável pelas emissões de CH4 (77% em 1994), sendo a principal emissão decorrente da fermentação entérica (eructação) do rebanho de ruminantes, quase toda referente ao gado bovino, o segundo maior rebanho do mundo. As emissões anuais de metano associadas à fermentação entérica foram estimadas em 9,4 Tg, 92% do total das emissões de metano do setor agropecuário. Os 8% restantes resultam do manejo de dejetos animais, da cultura de arroz irrigado e da queima de resíduos agrícolas (Figura 12). As emissões do setor aumentaram 7% no período de 1990 a 1994, devido, predominantemente, ao aumento do rebanho de gado de corte (Comunicação Inicial do Brasil, 2004).

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Ensaio

Figura 12: Emissões de metano por setor brasileiro em 1994. Fonte: Comunicação Inicial do Brasil, 2004.

O setor de mudanças no Uso da Terra e Floresta, as emissões ocorrem pela queima da biomassa nas áreas de desflorestamento representando 14% do total das emissões de metano apresentando a segunda maior fonte de emissão de metano em 1994. As emissões do setor de Tratamento de Resíduos representaram 6% do total das emissões de metano em 1994, sendo a disposição de resíduos sólidos responsável por 84% desse valor. No período de 1990 a 1994, as emissões de metano do setor de Tratamento de Resíduos aumentaram 9% apresentando a terceira maior fonte de emissão de metano (Comunicação Inicial do Brasil, 2004). PROTOCOLO DE KYOTO Esse Protocolo tem como objetivo firmar acordos e discussões internacionais para conjuntamente estabelecer metas de redução na emissão de gases-estufa na atmosfera, principalmente por parte dos países industrializados, além de criar formas de desenvolvimento de maneira menos impactante àqueles países em pleno desenvolvimento. Diante da efetivação do Protocolo de Kyoto, metas de redução de gases foram implantadas, algo em torno de 5,2% entre os anos de 2008 e 2012. O Protocolo de Kyoto foi implantado de forma efetiva em 1997, na cidade japonesa de Kyoto, nome que deu origem ao protocolo. Na reunião, oitenta e quatro países se dispuseram a aderir ao protocolo e o assinaram, dessa forma, comprometeram-se a implantar medidas com intuito de diminuir a emissão de gases. As metas de redução de gases não são homogêneas a todos os países, colocando níveis diferenciados de redução para os

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Ensaio 38 países que mais emitem gases, o protocolo prevê ainda a diminuição da emissão de gases dos países que compõe a União Europeia em 8%, já os Estados Unidos em 7% e Japão em 6%. Países em franco desenvolvimento como Brasil, México, Argentina, Índia e, principalmente, China, não receberam metas de redução, pelo menos momentaneamente. O Protocolo de Kyoto não apenas discute e implanta medidas de redução de gases, mas também incentiva e estabelece medidas com intuito de substituir produtos oriundos do petróleo por outros que provocam menos impacto. Diante das metas estabelecidas, o maior emissor de gases do mundo, Estados Unidos, desligou-se em 2001 do protocolo, alegando que a redução iria comprometer o desenvolvimento econômico do país. O ano que marcou o início efetivo do Protocolo de Kyoto foi 2005, vigorando a partir do mês de fevereiro. Com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, cresceu a possibilidade do carbono se tornar moeda de troca. O mercado de créditos de carbono pode aumentar muito, pois países que assinaram o Protocolo podem comprar e vender créditos de carbono, baixo panorama mundial de transações de credito de carbono. Abaixo segue um gráfico onde ilustra os países que compram créditos de carbono com suas devidas participações nas compras (Figura 13).

Figura 13: Panorama mundial de transações de credito de carbono. Fonte: Planck-e.

Abaixo segue uma planilha com os países que vendem créditos de carbono e suas devidas participações em volume de créditos de carbono (Tabela 3).

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Ensaio Tabela 3: Venda de crédito de carbono. Fonte: International Emissions Trading Association. VOLUME DE CRÉDITOS GERADOS (1) India 41,0% China 13,9% México 13,9% Brasil 5,1% Outros 26,0%

Brasil foi o primeiro país a aprovar um projeto no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Apesar disso, vem perdendo posições no ranking internacional do mercado de créditos de carbono. Uma das razões pelas quais o Brasil perdeu a liderança na comercialização é a burocracia do governo para chancelar os projetos cadastrados que, após essa etapa precisam ser aprovados pelo MDL. Segundo levantamento da Associação Internacional de Comércio de Emissões (IETA), o país tem o prazo mais lento entre os emergentes analisados. Enquanto um empreendimento no México leva em média 45 dias para obter a aprovação, no Brasil o prazo vai de dois a seis meses. Países como China e Índia já superam o país em número de projetos aprovados. É importante mencionar, que os preços dos certificados, diferem-se de acordo com o mercado que participam, constatando-se que mercados Kyotocompliance apresentam preços dos certificados mais elevados. Para verificar as diferenças em relação aos preços segue duas tabelas abaixo com os valores observados e estimados. Observa-se que há uma tendência de crescimento desses preços que têm variado entre de U$ 2 à U$ 7 desde 2003 até meados de 2005, e em 2006 já atingiu patamares de US$ 24 (Tabelas 4 e 5). Tabela 4: Preço médio dos créditos de carbono Kyoto-compliance (US$/tCO2e) Fonte: Banco Mundial (2005); Kossoy (2004); World Bank (2005a).

Tabela 5: Preço médio dos créditos de carbono Chicago Climate Exchange – CCX (US$/tCO2e). Fonte: CCX (2008).

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Ensaio O primeiro leilão de créditos de carbono no Brasil ocorreu em 26/09/2007, na BM&F; O lote de 808.000 toneladas de CO2 equivalente, ofertado pela prefeitura de São Paulo, foi arrematado pelo grupo belga-holandês Fortis. O Valor pago por RCE gerados pela queima de biogás no aterro sanitário bandeirantes foi de € 16,20/TCO2 totalizando €13 milhões. BENEFÍCIOS ENERGÉTICOS COM O USO DO BIOGÁS Face ao elevado poder calorífico do Biogás em muitos aterros sanitários no mundo, além da sua simples queima estão sendo implantadas unidades de geração de energia elétrica. O biogás pode ser utilizado também em sistemas de calefação ou como combustível veicular, sendo que nesta última alternativa haverá a necessidade de instalação de uma unidade de beneficiamento para aumentar o teor de metano no biogás (IBAM Instituto Brasileiro de Administração Municipal 2009). De acordo com Cabral (2009), o poder calorífico do gás metano é de 11 Kw/m3CH4 e o biogás por conter aproximadamente 55%v/v em sua composição resulta em um poder calorífico de aproximadamente 6 Kw/m3 de biogás. Para cada tonelada de resíduo disposto em um aterro sanitário, são gerados em média 200 Nm3 de biogás. A geração de biogás em um aterro sanitário é iniciada alguns meses após o início do aterramento dos resíduos e continua até cerca de 15 anos após o encerramento da operação da unidade (IBAM Instituto Brasileiro de Administração Municipal 2009). Um exemplo de beneficio energético pelo biogás de aterro sanitário no Brasil é o do Bandeirantes, recebeu cerca de 7.000 toneladas diárias do lixo de São Paulo, 50% do total produzido. Sua utilização foi iniciada há 33 anos e quando concluída, em 2006, armazena um total de 30 milhões de toneladas de lixo. O gás do aterro Bandeirantes encontra-se e é produzido nas camadas do aterro e sua coleta se dá através dos mesmos drenos verticais utilizados para sua queima e pode ser utilizado para produção de energia elétrica, dentre outras utilizações. As atividades consistem no encaminhamento aos moto-geradores de até 12.000 m3/h de biogás, com um conteúdo mínimo de 50% de metano, durante 24h/dia em 365 dias/ano. Essa quantidade é suficiente para a instalação de uma potência elétrica de 20 MW, que resultará na produção de até 170.000 MWh de energia elétrica, suficiente para abastecer uma cidade de 400.000 habitantes,

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Ensaio durante 10 anos. É a maior utilização de biogás para a produção de energia elétrica no mundo (LOGOS ARCADIS). CONCLUSÕES O biogás produzido em aterros sanitários apresenta em sua composição dióxido de carbono e gás metano, um gás inflamável que apresenta poder calorífico de aproximadamente 11 Kw/m3 e é o 2º gás de Efeito Estufa em ordem de importância, sendo que o produzido por resíduos sólidos representa 3º maior fonte mundial de emissões de metano. Com tamanho poder energético o biogás, que apresenta aproximadamente 6,0 Kw/m3 é utilizado para geração de energia elétrica como verificado no aterro sanitário Bandeirantes, o primeiro aterro sanitário brasileiro que utiliza biogás para acionar 24 conjuntos moto-geradores de 925 KW/conjunto, correspondendo a uma potência líquida de 20.000 KW beneficiando aproximadamente 400 mil habitantes. Apenas a queima do metano, gás que apresenta potencial de aquecimento global 21 vezes maior que o dióxido de carbono, acarreta ganhos ambientais na transformação do gás metano em água e gás carbônico, reduzindo o potencial de aquecimento global, gerando certificados de emissões reduzidas ou créditos de carbono em países em desenvolvimento como o Brasil. REFERÊNCIAS ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 8.419 - Apresentação de projetos de aterros sanitários de resíduos urbanos - Procedimento. 1984. ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 10.004/2004 - Resíduos Sólidos - Classificação. 2004. AMBIENTEBRASIL. Portal. Disponível em: http://www.ambientebrasil.com.br. Acesso em 10 jun de 2011. ARCADIS LOGOS ENERGIA. Disponível em: http://www.logoseng.com.br/logosenergia/. Acesso em 07 dez., 2010. BIOGÁS CONGRESS 2011, trabalho apresentado pela ABRELPE.

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Ensaio BIOGÁS CONGRESS 2011, trabalho apresentado pela PLANCK-E. BORBA, S. M. Análises de modelos de geração de gases em aterros sanitários: estudos de caso Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado . Rio de Janeiro: COOPE/UFRJ, 2006. BRASIL ESCOLA, Protocolo de Kyoto, disponivel em: <http://www.brasilescola.com/geografia/protocolo-kyoto.htm>.Acesso em 02/07/2011. CABRAL, R. C. Aproveitamento do biogás em aterros sanitários: especificações construtivas beneficiando aspectos ambientais e energéticos. 2009. 129 p. COMUNICAÇÃO INICIAL DO BRASIL 2004. D’ ALMEIDA, M. O., & VILHENA, A. Manual de gerencimento integrado. São Paulo: IPT / CEMPRE, 2000. EDUCAR.SC.USP. Aquecimento Global, disponível em: <http://educar.sc.usp.br/licenciatura/2003/ee/Aquecimentol1.html>. Acesso em 02/07/2011. GLOTEC. Disponível em: <http://www.glotec.com.br.> Acesso em 12 de jul de 2008. IBAM. Instituto Brasileiro de Administração Municipal. Disponível em: < http://www.iban.org.br/publique/media/boletim2a.pdf.> Acesso em 01 de jan de 2009. ICLEI, Manual para Aproveitamentode Biogás - Volume 1 - Aterros Sanitários. INMET. Disponível em: <http://www.inmet.gov.br/sim/abre_Graficos.php?data=06/2009>. Acessado em 05/08/2011. LARA. Central de Tratamento de Resíduos LTDA. Disponível em http://www.lara.com.br. Acesso em 02 de jan de 2008.

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Ensaio MANUAL DE GERENCIAMENTO INTEGRADO DE RESIDUOS SOLIDOS, 2001. NUNESMAIA, M. Lixo: soluções alternativas. Feira de Santana: UEFS, 1997. Jornal O Estado de São Paulo, Vida, 27 de outubro de 2010. pecora, V et al. Biogás : estudo de caso em São Paulo. Encontro brasileirobritânico: energias renováveis para uma vida sustentável. São Paulo: IEE USP. 2008 PROSAB, Gerenciamento de resíduos sólidos urbanos, 2003, pg 23. REVISTA DA FOLHA, 28 de fevereiro, 2010. SCHIEL, 2008 TSCHOBANOGLOUS, G.; THEISEN, H. & VINIL, S. Integrated solid waste management. Engineering principles and management issues. Irwin MacGraw - Hill. 1993. 978p. UNFCCC United Nations Framework Convention on Climate Change

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Ensaio Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos

Carolina Adélia Liberato Torres Engenheira Ambiental pelas Faculdades Oswaldo Cruz Email:cahzinha_torres@hotmail.com

Gabriela Nenna Ferraresi Possui mestrado em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela Universidade de São Paulo (2001). Atualmente é gerente do Setor de Resíduos Sólidos Industriais da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental - CETESB e professora das Faculdades Oswaldo Cruz e Faculdade de Tecnologia Oswaldo Cruz.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio RESUMO A destinação de resíduos eletroeletrônicos, conhecidos como lixo tecnológico, é um atual desafio mundial. O desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, associado à fase de consumo desenfreado que a sociedade enfrenta atualmente, tem gerado grandes problemas ambientais. Cada vez mais, os produtos eletroeletrônicos estão com o seu tempo de vida útil reduzido e, quando quebram, o consumidor prefere comprar um produto novo e mais moderno, ao invés de consertar o antigo, uma vez que o custo-benefício acaba sendo melhor. O Governo brasileiro, por sua vez, aprovou em 2010 a Politica Nacional de Resíduos Sólidos. Ela determina, entre outras coisas, que os resíduos de produtos que ofereçam alto risco de problemas ambientais e à saúde humana, por exemplo, os resíduos eletroeletrônicos, que possuem em sua composição metais pesados, são de responsabilidade de todos (responsabilidade compartilhada), e estimula a logística reversa destes resíduos, garantindo assim a diminuição do risco de contaminação ambiental por eles. O sistema de logística reversa é complexo e possui diversos caminhos, dependendo do tipo de resíduo gerado. Eles podem ser resíduos de pós venda, onde se enquadram aqueles produtos com problema de garantia e/ou validade ou pelo retorno de produtos por alto estoque do cliente. Os resíduos considerados de pós-consumo são aqueles produtos já usados, mas que podem entrar no processo de reuso, até atingirem o fim da vida útil, ou então aqueles produtos usados que podem ser reciclados e/ou descaracterizados com a reutilização de peças ou componentes. Por fim, aqueles componentes, peças, ou aparelhos que não se enquadram neste sistema, são encaminhados para disposição final. Com isso, a logística reversa, é a melhor alternativa para um melhor gerenciamento dos resíduos eletroeletrônicos, uma vez que com a reciclagem é possível utilizar peças, componentes e/ou metais valiosos que seriam descartados, em novos produtos. Palavras-chave: Logística Reversa. Resíduos Eletroeletrônicos. Reciclagem.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio ABSTRACT The disposal of electronics waste, known as e-waste, is now a global challenge. The development of new products and technologies associated to consumerism phase that our society faces today, creates major environmental problems. Those products have their lifetime more and more limited, and when they break, consumers prefer to buy a new and more modern product, rather than fix the old one, since the cost benefit, ends up being better. The Brazilian government, approved in 2010, the National Solid Waste Policy. It determines, among other things, that the waste products that offer high risk of environmental and human health problems, for example, electronic waste, which have heavy metals in their composition, are everyone's responsibility (shared responsibility), and stimulates the reverse logistics of this waste, ensuring a reduced risk of environmental contamination. The reverse logistics system is complex and has many paths, depending on the type of waste generated. They may be post-sales waste, which are those products that had manufacturing problems within the guaranteed period and/or that expired at customer inventory. The post consumer waste are those products that are used, but they can be reused until they reach the end of life, or those used products that can be recycled and / or disassembled with the reuse of parts or components . Finally, all the components, parts, or devices that are out of those criteria, are sent for final disposal. Thus, reverse logistics, is the best alternative for a better management of electronics waste, once recycling is a way to use parts, components and / or valuable metals from discarded into new products Key words: Reverse Logistic. E-waste. Recycling

TORRES, Carolina AdĂŠlia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. LogĂ­stica Reversa de Produtos EletroeletrĂ´nicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio 1. INTRODUÇÃO Ao longo da historia da humanidade, a idéia de crescimento se confunde com um crescente domínio e transformação da natureza. Nesse paradigma, os recursos naturais são vistos como ilimitados (RIBEIRO&MORELLI, 2009). Os problemas oriundos pelo modelo de desenvolvimento, somado ao consumismo desenfreado, resulta na consequente geração insustentável de resíduos sólidos que atinge toda a humanidade, não somente na última década mas desde o advento da Revolução Industrial em meados de século XVIII. No entanto, notadamente a partir da última década e início do século XXI é que o debate em torno desta problemática vem se acirrando tanto no mundo acadêmico quanto entre os profissionais na área ambiental em busca de novas tecnologias e modelos de gestão eficazes de modo a solucionar a questão. A produção de lixo vem aumentando assustadoramente em todo o planeta, e ele passou a ser descartado e acumulado no meio ambiente causando não somente problemas de poluição como também caracterizando um desperdício de matéria originalmente utilizada. Segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, cerca de 1% do lixo urbano é constituído por resíduos sólidos contendo elementos tóxicos. Diversos Esses resíduos são oriundos de pilhas, baterias, computadores, celulares, televisores, geladeiras e diversos outros produtos contendo componentes eletrônicos, o chamado lixo tecnológico. Seguindo esse raciocínio e, se o Brasil gera cerca de 250.000 toneladas de lixo diariamente, 1% desde total são resíduos com elementos tóxicos, ou seja cerca de 2.500 toneladas de resíduos por dia interage perigosamente com o meio ambiente. E devido as sérias deficiências na gestão do lixo da grande maioria dos municípios brasileiros, 59% desde total é disposto inadequadamente, ou seja, sem qualquer tipo de tratamento (MMA,2011). Um brasileiro gera, em média, 2,6kg de lixo tecnológico por ano (ONU,2011). No mundo, são descartados cerca de 50 milhões de toneladas de lixo tecnológico e menos de 10% desse volume é reciclado. Esse material aumenta três vezes mais rápido que o lixo comum e a previsão é triplicar nos próximos cinco anos (REVISTA HORIZONTE GEOGRAFICO,2011).

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Ensaio Isso representa um grande desafio, não somente para os governantes, mas como também para toda a humanidade, devendo fazer parte das discussões a respeito do planejamento ambiental das nações de todo o planeta. Considerando que, atualmente há uma grande quantidade de produtos disponíveis no mercado em um espaço de tempo cada vez menor, pode-se dizer que é também alta a quantidade de produtos descartados, se tornando resíduos no meio ambiente. Sob esta ótica, e dentre outras situações, foi criada a Politica Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, através da Lei 12.305 de 2 de Agosto de 2010. E regulamentada pelo Decreto Federal 7.404 de 23 de Dezembro de 2010. A aprovação desta lei constituiu um novo marco regulatório completo para o setor de resíduos sólidos, que vem ao encontro de grandes desafios a serem enfrentados pelo Governo e pela sociedade como um todo. O lixo tecnológico também é abrangido pela nova legislação, exatamente devido ao seu potencial de poluição e dano a saúde publica, visto que os produtos eletroeletrônicos contêm substancias toxicas como, por exemplo, o mercúrio, cádmio, arsênio, chumbo, etc. Dois dos objetivos abordados pela PNRS é a responsabilidade compartilhada e a logística reversa – LR de alguns produtos, dentre eles os considerados como “lixo eletrônico”. Por esta razão, foi escolhido o tema “Logística Reversa em produtos Eletroeletrônicos”, uma vez que enquanto produtos, eles não ofereçam nenhum risco à saúde humana e/ou ao meio ambiente, quando descartados e/ou obsoletos, eles deixam sua condição de produto e se tornam resíduos altamente perigosos, conforme será abordado neste trabalho. Assim será discutido aspectos relativos a viabilidade da logística reversa dos resíduos eletroeletrônicos e artigos internacionais para a pesquisa. A idéia central do sistema de logística reversa é fazer com que o resíduo eletrônico seja descartado e reinserido no processo de manufatura de novos produtos, ou então, que partes de seus componentes sejam utilizados como matérias-primas na fabricação de subprodutos. Outro aspecto importante é que o fluxo do sistema da LR previsto na PNRS apresenta diversos canais de distribuição e como são classificados os resíduos. Uma vez que o produto eletrônico é descartado, é avaliado suas características e condições, classificados como equipamento de reuso, equipamento para reciclagem ou em ultimo caso, para destinação final.

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Ensaio A LR, em sua essência, busca promover um conjunto de ações, procedimentos e meios, destinados a facilitar a coleta e a destruição dos resíduos eletroeletrônicos aos seus geradores, estes responsáveis pelas etapas de acondicionamento, coleta, tratamento e disposição final adequada. Isso significa dizer que o Poder Público e a coletividade são responsáveis pela efetividade destas ações, visando a busca por um meio ambiente sadio e a qualidade de vida da geração atual e das futuras.

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Ensaio 2.

RESÍDUOS SÓLIDOS

2.1

DEFINIÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS.

Em consequência do acelerado desenvolvimento que hoje a sociedade mundial se encontra, um dos maiores problemas identificados é a geração desenfreada de resíduos. E ligado a eles, existe o problema de encontrar uma tratativa ambientalmente adequada devido ao alto volume gerado nas cidades, principalmente nos grandes centros a falta de espaço para novos aterros com a constante extração de matéria prima para a produção de novos produtos, entre outros. Com o passar dos anos, a sociedade vem se preocupando cada vez mais em relação às questões ambientais e ao “lixo” gerado, tanto resíduo urbano como industrial. Os resíduos sólidos, conforme a norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT 10.004:2004 podem ser definidos como: “Resíduos nos estados sólido e semi-sólido, que resultam de atividades da comunidade de origem: industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como, determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnicas e economicamente inviáveis, em face à melhor tecnologia disponível”. De acordo com esta norma, estes resíduos são classificados em: “Classe I - Perigosos: são os resíduos que apresentam riscos à saúde pública e ao meio ambiente. Exigem tratamento e disposição especiais em função de suas características de inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade e patogenicidade;” “Classe II A – Não Perigosos e não inertes: são os resíduos que não são inertes, mas não apresentam periculosidade, podem ter propriedades tais como biodegradabilidade, combustibilidade ou solubilidade em água. Basicamente, são as características do lixo doméstico, nomeados como Resíduos Sólidos Domiciliares (RSD);” “Classe II B - Não Perigosos e Inertes: São os resíduos que não se decompõem ou não se degradam quando dispostos no solo. Estão nesta

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Ensaio classificação, por exemplo, os entulhos de demolição, pedras e areias retirados de escavações;” Outra classificação dos resíduos é pela origem: domiciliar, comercial, de varrição e feiras livres, serviços de saúde e hospitalares; portos, aeroportos e terminais ferro e rodoviários, industriais, agrícolas e entulhos. Os resíduos domiciliares são originados da vida diária das residências sendo dispostos para a coleta pelos munícipios das cidades. Constituído por materiais como papel, papelão, vidro, latas, plásticos, trapos, terra, restos de alimentos, madeira, papel higiênico, fraldas descartáveis e uma grande diversidade de outros itens, inclusive alguns resíduos tóxicos, que são descartados indevidamente pela população, como seringas, pilhas e baterias e materiais contaminados com óleos e graxas. O crescimento da produção de resíduos está vinculado ao aumento da população e do consumo desenfreado, assim, torna-se primordial a criação de estratégias de gerenciamento desses materiais, buscando alternativas de minimização, tratamento e destinação final ambientalmente adequada. A Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS é uma ferramenta que visa traçar diretrizes relativas à gestão integrada e ao gerenciamento dos resíduos sólidos, justamente para auxiliar a tomada de decisões e melhoria nas cadeias produtivas.

2.2

SEGREGAÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

A segregação dos resíduos sólidos tem como finalidade evitar misturas de resíduos que são incompatíveis, garantindo assim a possibilidade de reutilização, reciclagem e a segurança no manuseio dos mesmos. Caso a segregação seja feita de forma inadequada, a mistura de resíduos incompatíveis pode gerar: calor, fogo, explosões, gases tóxicos ou inflamáveis, entre outras coisas (ABNT 10.004:2004). Por isso, a fase de segregação dos resíduos é de extrema importância e deverá ocorrer na fonte geradora, identificando desde sua origem, quais são os componentes dos resíduos, a descrição das matérias-primas, dos insumos e dos processos nos quais os resíduos são gerados.

2.3 ACONDICIONAMENTO E ARMAZENAGEM DOS RESÍDUOS SÓLIDOS TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio Esta fase do processo da gestão de resíduos sólidos deve obedecer a norma ABNT NBR 12.235:1992, onde os resíduos devem ser armazenados de forma a minimizar os riscos de contaminação ambiental e não deverão ser armazenados juntos - classe I com classe IIA e/ou IIB. De acordo com a norma citada anteriormente, os resíduos deverão estar acondicionados em recipientes apropriados, sejam eles tanques, tambores metálicos, containers ou bombonas plásticas, caçambas abertas ou fechadas (cobertas), granel, sacos plásticos identificados por cores, por exemplo, entre outros. Toda área de armazenagem de resíduos perigosos, deverá apresentar um Plano de Emergência, em caso de acidentes e/ou vazamentos. Neste plano deverá estar indicado a pessoa que será o coordenador de emergência e um substituto com telefones e endereços junto com uma lista dos equipamentos de proteção individual (EPIs) ou equipamentos de proteção coletiva (EPCs) a serem usados no combate ao problema. (ABNT NBR 12.235/92).

2.3.1 Acondicionamento e Armazenagem de Resíduos Classe I No caso dos resíduos classificados como Classe I – Resíduos Perigosos, as formas de acondicionamento e armazenagem deverão seguir a ABNT NBR 12.235:1992, de modo a proteger a saúde pública e o meio ambiente. O acondicionamento dos resíduos perigosos, como forma temporária de espera para reciclagem, recuperação, tratamento e/ou disposição final, poderá ser em forma de containers, tambores, tanques e/ou granel. 2.3.2 Acondicionamento e Armazenagem de Resíduos Classe IIA e IIB No caso dos resíduos classificados como Classe IIA – Não Inertes e IIB Inertes, a área de armazenagem deverá seguir a ABNT NBR 11.174:1990.

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Ensaio 3.

POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS – PNRS

3.1

DEFINIÇÃO

A Política Nacional de Resíduos Sólidos instituída pela Lei 12.305, de 2 de agosto de 2010 e regulamentada pelo Decreto Federal 7.404 de 23 de Dezembro de 2010, institui algumas diretrizes a serem tomadas sobre o assunto. Constantes da PNRS presentes no art. 3º: a) Acordo setorial: ato de natureza contratual firmado entre o poder público e fabricantes, importadores, distribuidores ou comerciantes, tendo em vista a implantação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto; b) Ciclo de vida do produto: série de etapas que envolvem o desenvolvimento do produto, a obtenção de matérias-primas e insumos, o processo produtivo, o consumo e a disposição final; c) Destinação final ambientalmente adequada: destinação de resíduos que inclui a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação e o aproveitamento energético ou outras destinações admitidas pelos órgãos competentes; d) Disposição final ambientalmente adequada: distribuição ordenada de rejeitos em aterros, observando normas operacionais específicas de modo a evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança e minimizar os impactos ambientais adversos; e) Geradores de resíduos sólidos: pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, que geram resíduos sólidos por meio de suas atividades, nelas incluindo o consumo; f) Gerenciamento de resíduos sólidos: conjunto de ações exercidas, direta ou indiretamente, nas etapas de coleta, transporte, transbordo, tratamento e destinação final ambientalmente adequada dos resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos, de acordo com plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos ou com plano de gerenciamento de resíduos sólidos, exigidos na forma desta Lei; g) Gestão integrada de resíduos sólidos: conjunto de ações voltadas para a busca de soluções para os resíduos sólidos, de forma a considerar as

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Ensaio dimensões política, econômica, ambiental, cultural e social, com controle social e sob a premissa do desenvolvimento sustentável; h) Logística reversa: instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada; i) Responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos: conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei; A partir destas definições a Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS apresenta entre seus princípios o da prevenção e precaução, o do poluidorpagador e do protetor-recebedor, o da ecoeficiência dos processos e produtos e da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. Tem como objetivos a proteção da saúde pública e da qualidade ambiental, a não geração, a redução, a reutilização, a reciclagem e o tratamento dos resíduos sólidos, conforme Figura 1. Além disto, tem-se a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos, o estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produção e consumo, a adoção e desenvolvimento de tecnologias limpas, a capacitação técnica continuada na área de resíduos sólidos.

Figura 1 - Prioridade para tomada de decisão na gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos. Fonte adaptada: Ponce, 2011 TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio O incentivo às indústrias de reciclagem e a integração dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis nas ações que envolvam a responsabilidade compartilha pelo ciclo do produto e o uso destes como matérias-primas e insumos em processos e/ou re-processos (BRASIL, 2010). A coleta seletiva, os sistemas de logística reversa e outras ferramentas relacionadas à da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos são instrumentos desta Política. Adicionalmente podemos citar os planos de gerenciamento de resíduos sólidos, o monitoramento e a fiscalização ambiental, sanitária e agropecuária, os cadastros técnicos que relacionam atividades potencialmente poluidoras, bem como instrumentos de defesa e avaliação de impactos. Quanto às responsabilidades definidas na PNRS, o Distrito Federal e os Municípios tem a incumbência da gestão integrada dos resíduos sólidos gerados nos respectivos territórios, sem prejuízo das competências de controle e fiscalização dos órgãos federais e estaduais do Sistema Nacional de Meio Ambiente - SISNAMA, da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária - SNVS e do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária - Suasa, bem como da responsabilidade do gerador pelo gerenciamento de resíduos, consoante com o estabelecido na PNRS. Aos Estados cabe a promoção da integração da organização, do planejamento e da execução das funções públicas de interesse comum relacionado à gestão dos resíduos sólidos nas regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões. À União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios a organização e manutenção, de forma conjunta, do Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos - SINIR, articulado com o Sistema Nacional de Informação sobre o Meio Ambiente - SINIMA, cabendo aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios fornecer ao órgão federal responsável pela coordenação do SINIR, todas as informações necessárias sobre os resíduos sob sua esfera de competência. Na Política Nacional de Resíduos Sólidos são apresentadas as diretrizes para elaboração dos planos de resíduos sólidos, a saber: do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, do Plano Estadual de Resíduos Sólidos, do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos e do Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PONCE, 2011).

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Ensaio 3.2

PLANOS DE RESÍDUOS SÓLIDOS

3.2.1 Plano Nacional de Resíduos Sólidos Este plano deverá ser elaborado pela União, sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente, tendo como conteúdo mínimo: a) Diagnóstico da situação atual dos resíduos sólidos; b) Proposição de cenários, incluindo novas tendências internacionais e macroeconômicas; c) Metas de redução, reutilização, reciclagem, entre outras, buscando reduzir a quantidade de resíduos e rejeitos; d) Metas para aproveitamento energético dos gases gerados nas unidades de disposição final de resíduos sólidos; e) Metas de eliminar e recuperar áreas de lixões, associadas à inclusão social e emancipação econômica dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis.

3.2.2 Plano Estadual de Resíduos Sólidos Este plano deverá ser elaborado pelos Estados, tendo como conteúdo mínimo, além dos contidos no plano nacional, a previsão de zonas favoráveis para a localização de unidades de tratamento de resíduos sólidos e/ou de disposição final de rejeitos e de áreas degradadas em razão da disposição inadequada de resíduos sólidos ou rejeitos que poderiam ter recuperação ambiental. Além do Plano Estadual de Resíduos Sólidos, os Estados podem elaborar planos microrregionais de resíduos sólidos, assim como planos específicos, direcionados à áreas metropolitanas ou aglomerações urbanas. 3.2.3 Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Este plano deverá ser elaborado pelos Municípios, considerando também o Distrito Federal. E tem o seguinte conteúdo, entre outros: a) Diagnóstico da atual situação dos resíduos sólidos no território, contendo dados como origem, volume, caracterização, formas de destinação e disposição final adotada;

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Ensaio b) Identificação das áreas favoráveis para disposição final adequada, considerando o plano diretor e o zoneamento ambiental; c) Identificação dos geradores sujeitos à um plano de gerenciamento de resíduos sólidos específico e/ou a sistemática da logística reversa; d) Indicadores de desempenho operacional e ambiental dos serviços públicos de limpeza urbana e manejo dos resíduos sólidos; e) Regras para o transporte e outras etapas do gerenciamento de resíduos sólidos; f) Identificação de passivos ambientais relacionados aos resíduos sólidos, incluindo áreas contaminadas e respectivas medidas saneadoras. 3.2.4 Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos - PGRS Este é um plano direcionado ao setor empresarial, que faz parte do processo de licenciamento ambiental, e que atende as determinações do Plano Municipal de Resíduos Sólidos, do respectivo Município. E deve ser elaborado pelos seguintes geradores de resíduos sólidos: a) Dos serviços púbicos de saneamento básico; b) Industriais; c) De serviços de saúde; d) De mineração; e) De estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços que gerem resíduos perigosos e/ou resíduos que não sejam classificados como perigosos, porem não são considerados resíduos domiciliares; f) De empresas de construção civil; g) De responsáveis por terminais e outras instalações e serviços de transportes de portos, aeroportos, rodoviários, ferroviários, e passagens de fronteiras; h) De responsáveis por atividades agrossilvopastoris.

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Ensaio Para àquelas empresas que são de pequeno porte ou micro empresas, existe a possibilidade de soluções coletivas, as empresas que geram apenas resíduos sólidos domiciliares são dispensadas da elaboração do PGRS. As empresas localizadas em um mesmo condomínio, Município, região metropolitana ou aglomeração urbana, que exerçam atividades características de um mesmo setor produtivo, e possuam mecanismos de governança coletiva ou de cooperação em atividades de interesse comum, poderão apresentar um PGRS de forma coletiva e integrada. Porém o plano deverá conter indicações individualizadas das atividades e seus resíduos gerados, assim como as ações e responsabilidades de cada um dos geradores. O PGRS deve ter o seguinte conteúdo mínimo: a)

Descrição do empreendimento ou atividade;

b) Diagnóstico dos resíduos sólidos gerados, contendo o volume e a caracterização dos resíduos, incluindo os possíveis passivos a eles relacionados; c) Explicitação dos responsáveis por cada etapa do gerenciamento dos resíduos; d) Definição dos procedimentos operacionais relativos gerenciamento dos resíduos sob a responsabilidade do gerador;

às

etapas

de

e) Ações preventivas e corretivas a serem executadas em situações de gerenciamento incorreto ou acidentes; f) Metas e procedimentos relacionados à minimização da geração dos resíduos sólidos, à reutilização e reciclagem; g) Se couber, ações relativas à responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos; h)

Periodicidade de revisão, de acordo com o prazo da licença de operação.

3.3

RESPONSABILIDADES ESTABELECIDAS NA PNRS

Das responsabilidades dos Geradores e do Poder Público, a PNRS apresenta em seus Art. 25, Art. 26, Art.27 e Art.29 que o poder público, juntamente com o setor empresarial e a coletividade, são responsáveis pela efetividade das ações voltadas para assegurar a observância da Politica Nacional TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio de Resíduos Sólidos e das diretrizes e demais determinações estabelecidas em seu regulamento. O titular dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos é responsável pela organização e prestação direta ou indireta desses serviços, observados no respectivo plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos, na Lei nº 11.445, de 2007 que estabelece diretrizes nacionais para saneamento básico. De acordo com o Art. 20 da Lei 12.305/10, geradores de resíduos sólidos de serviço público, industriais, de serviços de saúde, de mineração, os estabelecimentos comerciais que gerem resíduos perigosos e/ou resíduos que não possam ser equiparados com resíduos domiciliares, empresas de construção civil, responsáveis por terminais ou resíduos de serviços de transporte bem como os responsáveis por atividades agrossilvopastoris são responsáveis pela implementação e operacionalização integral do plano de gerenciamento de resíduos sólidos aprovado pelo órgão competente. E cabe ao poder público atuar, subsidiariamente, com vistas a minimizar ou cessar o dano, logo que tome conhecimento de evento lesivo ao meio ambiente ou à saúde pública, relacionado ao gerenciamento de resíduos sólidos.

3.3.1 Responsabilidade Compartilhada A responsabilidade compartilhada é descrita, na seção II nos artigos numerados do 30 até 33. Pelo artigo 30, fica instituída a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, de forma individual e encadeada, os fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, os consumidores, os titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos às atribuições e procedimentos previstos nesta seção. No artigo 31, para fortalecer a responsabilidade compartilhada e seus objetivos, os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes são responsáveis por desenvolver produtos aptos à reciclagem e/ou reutilização, ou outra forma de destinação adequada e são também responsáveis pelo recolhimento dos produtos e resíduos remanescentes após o uso, assim como a destinação final ambientalmente correta. O artigo 32 especifica que as embalagens devem ser fabricadas com materiais que propiciem a reutilização ou a reciclagem. TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio E o artigo 33, define quem são aqueles que são obrigados a estruturar e implementar sistemas de logística reversa de forma independente do serviço público de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos. E são: I - Agrotóxicos, com seus resíduos e embalagens, assim como outros produtos cuja embalagem, após o uso, constitua resíduo perigoso, II - Pilhas e baterias; III - Pneus; IV - Óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens; V - Lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista; VI - Eletroeletrônicos e seus componentes.

3.4

COMITÊ INTERMINISTERIAL DA PNRS

O Comitê Interministerial da PNRS foi criado a partir do Decreto nº 7.404 de 23 de Dezembro de 2010. Ele tem a finalidade de apoiar a estruturação e implementação da PNRS, por meio de articulações dos órgãos e entidades governamentais, de modo a possibilitar o cumprimento das determinações e alcançar as metas previstas na Lei nº 12.305/10. De acordo com o art. 3º, do Decreto 7.404 de 2010, este ministério é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, e é formado por um representante, titular e suplente, de outros 9 (nove) ministérios (Cidades; Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Saúde; Minas e Energia; Fazenda; Planejamento, Orçamento e Gestão; Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Ciência e Tecnologia), além da Casa Civil e da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. Compete a este Comitê: - Instituir procedimentos, elaborar e avaliar a implementação do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, - Definir informações complementares ao Plano de Gerenciamento dos Resíduos Perigosos

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Ensaio - Formular estratégias de promover as tecnologias limpas para a gestão e gerenciamento de resíduos sólidos. - Incentivar pesquisa e desenvolvimento nas atividades de reciclagem, reaproveitamento e tratamento dos resíduos sólidos.

3.5

COMITÊ ORIENTADOR DA LOGÍSTICA REVERSA

Este Comitê Orientador foi criado também a partir do Decreto nº 7.404 de 23 de Dezembro de 2010. E é composto por representantes do Ministério do Meio Ambiente; da Saúde; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; da Fazenda; de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. E de acordo com o Decreto 7.404/10, tem a finalidade de: - Estabelecer a orientação estratégica da implementação de sistemas de logística reversa; - Definir prioridades e fixar o cronograma para lançamento de editais com propostas dos acordos setoriais, para a implantação de sistemas de logística reversa; - Aprovar estudos de viabilidade técnica e econômica; - Definir diretrizes metodológicas para avaliação dos impactos social e econômicos dos sistemas de logística reversa; - Revisão dos acordos setoriais, e dos termos de compromisso; - Propor medidas visando incluir nos sistemas de logística reversa os produtos e embalagens adquiridas diretamente de empresas não estabelecidas no País;

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio 4.

LOGÍSTICA REVERSA – LR

4.1

DEFINIÇÃO

Existem diversas definições e citações sobre logística reversa – LR atualmente, o que demostra que este é um assunto em evolução, diante de tantas possibilidades de negócios que vem surgindo ano após ano. Conforme Art. 33 da PNRS entende-se por logística reversa, como um instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e metas destinadas a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial para reaproveitamento, em seu ciclo ou outro ciclos produtivos ou outra destinação final ambientalmente adequada. Assim a LR tem como objetivo tornar possível o retorno dos bens de pósconsumo e de pós venda ao ciclo produtivo ou ao ciclo de negócios, por meio de canais de distribuição reversos, agregando assim valores de diversas naturezas: econômico, ecológico, legal, logístico, de imagem corporativa, entre outros (VIA SAPIA, 2011). Ainda de acordo com a PNRS, por meio de acordos setoriais e termos de compromissos, são obrigados a estruturar e implementar sistemas de logística reversa mediante o retorno dos produtos após o uso pelo consumidor, de forma independente do serviço público de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de: a)

agrotóxicos, seus resíduos e embalagens;

b)

pilhas e baterias;

c)

pneus;

d)

óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens;

e)

lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista;

f)

produtos eletrônicos e seus componentes;

Tem sido utilizada como uma importante ferramenta de aumento de competitividade e consolidação da imagem corporativa, para aquelas empresas TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio que têm uma visão de Responsabilidade Empresarial em relação ao Meio Ambiente e à Sociedade (VIA SAPIA, 2011). Esta responsabilidade ambiental, além que criar uma boa imagem para a empresa, permitirá o surgimento de uma nova economia de negócios, que vai gerar novos empregos, serviços e desenvolver novas tecnologias.

4.2

LOGÍSTICA REVERSA DE BENS DE PÓS VENDA

Os bens de pós venda, são aqueles que com pouco ou nenhum uso, que após o descarte, retornam aos diferentes elos da cadeia de distribuição direta. Tem como objetivo agregar valor aos fabricantes, daqueles produtos descartados por garantia/qualidade, por quantidade de estoque, razões comerciais, entre outros (VIA SAPIA, 2011). Aqueles produtos que se classificam com problemas de “garantia/qualidade”, apresentam defeitos de fabricação ou funcionamento, ou avarias no produto ou embalagens, que poderão ser submetidos à consertos ou reformas que os permitam retornar ao mercado primário, ou então à mercados denominados secundários, agregando assim, novamente um valor comercial. Têm aqueles produtos classificados como “estoques”, representam os produtos retornados devido à erros de pedidos, excesso de estoque no canal de distribuição, consignação ou liquidação de mercadorias ponta de estoques e outros, que retornarão ao ciclo de negócios por meio de redistribuição em outros canais de venda. Há também aqueles produtos, que segundo o, através da remanufatura, ou manutenção e/ou consertos ao longo da vida útil, podem retornar ao mercado primário ou secundário ou até serem enviados à reciclagem ou disposição final se não houver possibilidade de reaproveitamento.

4.2.1 Canal de Distribuição Reverso de Bens de Pós-Venda (CDR-PV) Estes canais são constituídos pelas diferentes formas e possibilidades de retorno dos produtos com pouco ou nenhum uso que é devolvido pelo consumidor, com problemas de fim da validade, qualidade do produto, estoques excessivos, por TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio consignação, ou avarias nas embalagens, que fluem no sentido inverso da compra, partindo do consumidor para o varejista, e do varejista ao fabricante. Um exemplo deste tipo de canal de distribuição, é a venda industrial de materiais, na forma de sucata, equipamentos usados diretamente ou através de leilões. São vendidos bens como: ativos das empresas, matérias-primas, insumos, móveis utensílios, entre outros. É considerado um importante canal, pois ele alimenta subcanais de produtos de segunda mão, alimentando alguns “desmanches” e mercado de reposição de peças, entre outros.

4.3

LOGÍSTICA REVERSA DE BENS DE PÓS-CONSUMO

Os bens de pós-consumo, são aqueles produtos em fim de vida útil ou usados, com possibilidade de reutilização, e resíduos industriais em geral, com o retorno ao ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo por meios de canais de distribuição reversos específicos, como reúso, reciclagem e destinação final, como se pode ver na figura 2 a seguir.

Figura 2 - Fluxo de Distribuição Reversa. Fonte: Via Sápia – Logística Reversa.

Tem como objetivo agregar valor ao produto inservível, classificados de acordo com as condições de uso, a vida útil do produto e resíduos industriais. TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio Aqueles produtos classificados de acordo com a condição do uso poderão ser reutilizados, tendo assim sua vida útil estendida, agregando valor e adentrando o canal reverso de “Reúso” no mercado secundário, até atingir o fim da vida útil (Figura 2). Aqueles classificados de acordo com o fim da vida útil, os bens entrarão nos canais reversos de desmanche e/ou reciclagem, onde seus componentes poderão ser aproveitados ou remanufaturados, retornando ao mercado secundário ou até a própria indústria que reutilizará como material reciclado, agregando valor econômico, ecológico e logístico (Figura 2). No caso dos resíduos industriais, alguns materiais constituintes podem ser reaproveitados, ou retornarem ao ciclo produtivo como matéria-prima secundária. E outros resíduos, que não houver condições para essas outras ações, encontrarão a disposição final, sendo aterros sanitários e incineração, agregando valor econômico, pela transformação do resíduo em energia elétrica, por exemplo (Figura 2). Dentro do canal de distribuição reverso de pós-consumo, os produtos são divididos em três categorias: os bens descartáveis, os bens semiduráveis e os bens duráveis: I – Bens Descartáveis São considerados bens descartáveis aqueles produtos que apresentem duração de vida útil média de algumas semanas, não superior a seis meses. Os produtos considerados bens descartáveis são, por exemplo, embalagens, brinquedos, material de escritório, suprimento de computadores, pilhas, fraldas, jornais, entre outros. II – Bens Semiduráveis São considerados bens semiduráveis aqueles produtos que apresentam duração de vida útil média de alguns meses, não superior a dois anos. É uma categoria intermediária, e por isso, ora apresenta características dos descartáveis, ora dos duráveis. Os produtos considerados bens semiduráveis são, por exemplo, baterias de veículos, óleos lubrificantes, baterias de celulares, computadores e periféricos, revistas especializadas, entre outros. III- Bens Duráveis São considerados bens duráveis aqueles produtos que apresentam duração de vida útil média variando de alguns anos a algumas décadas. São produtos que atendem as necessidades da sociedade. Por exemplo, os automóveis, os TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio eletrodomésticos, os eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos industriais, aviões, navios, construção civil, entre outros.

4.3.1 Descartabilidade dos Produtos Devido ao acelerado desenvolvimento tecnológico vivido hoje pela humanidade, pode-se perceber um grande aumento na introdução de novos materiais, novas tecnologias, que acabam melhorando a eficiência dos produtos, e/ou reduzem o tempo de vida útil, principalmente nos bens de consumo duráveis e semiduráveis. Com isso, aumenta a tendência à descartabilidade destes produtos. Como exemplo dessas inovações, podem-se citar os materiais plásticos que são mais baratos do que os metais para a confecção de vários componentes, e às vezes até melhoram o desempenho do produto, também com facilidades na produção e conformação. No ramo eletrônico, o desenvolvimento de tecnologias de miniatura, de chips, e inovações em aparelhos e programas nesta área também aumenta a tendência à descartabilidade de produtos “quase novos” por outros mais “atuais”. E como o preço destes novos produtos, está cada vez mais acessível a todos na sociedade, o consumidor acaba preferindo comprar um produto novo a um produto no mercado secundário. De acordo com a Figura 3, podem-se visualizar os motivos principais que geram o aumento da descartabilidade dos produtos.

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Ensaio

Figura 3 - Principais motivos da descartabilidade. Fonte: Via Sápia – Logística Reversa

Como consequência deste aumento no número de produtos descartados e da redução do tempo de vida deles, gera-se um aumento na quantidade de itens a serem manipulados pelos canais de distribuição diretos, exigindo assim uma rapidez no giro dos produtos, para não estocar produtos obsoletos para o mercado, e os produtos duráveis que antes eram descartados em alguns anos, ou ate décadas, estão se transformando em produtos semiduráveis, assim como os produtos classificados como semiduráveis, com o tempo de descarte em torno de alguns meses, estão se transformando em produtos duráveis, sendo descartados em alguns dias. Com isso, o volume de produtos de pós-consumo estão aumentando fortemente, e resultando no esgotamento dos pontos de destinação final tradicionais, bem como comprometendo os estoques não renováveis de recursos naturais necessários para a sua produção.

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Ensaio A disposição final dos bens de pós-consumo, é em um modelo controlado, que não danifique o meio ambiente e que não atinja, direta ou indiretamente a sociedade. Como disposição final inadequada, temos os terrenos baldios, rios, riachos, lixões, entre outros. Observa-se então que a disponibilização dos bens e materiais residuais, caso não seja controlada, gerará impactos ambientais. Como resíduos perigosos ao meio ambiente e à sociedade, pode-se citar as pilhas, que possuem metais pesados, como chumbo, cádmio e mercúrio, e que se descartadas de forma incorreta, podem contaminar o solo, e até as águas subterrâneas, oferecendo riscos à saúde humana. Porém, existem aqueles produtos de pós-consumo, constituídos por materiais que são considerados inofensivos à saúde humana, que se descartados em grandes quantidades, e sem a devida tratativa (saturação dos meios de disposição final), poderão gerar poluição de maneira indireta, tão nociva quantos as pilhas descartadas incorretamente.

4.3.2 Canal de Distribuição Reversos de Bens de Pós-Consumo (CDRPC) Estes canais são fluxos reversos constituídos por uma parcela de produtos e de materiais originados no descarte de produtos após a sua utilidade original e retornam ao ciclo produtivo de alguma maneira. Esse canal se subdivide em dois subsistemas, chamados de canais reversos de reúso e canais reversos de reciclagem/desmanche. Podendo também haver produtos que não se enquadrem em nenhum destes canais, sendo direcionados então à disposição final segura e controlada, que não provoque poluição, ou impacto ao meio ambiente.

4.3.2.1. Canal Reverso de Reúso Os bens industriais considerados duráveis ou semiduráveis, após o primeiro uso, tornam-se produtos de pós-consumo. Caso apresentem condições, podem ser reutilizados pelo mercado secundário, sendo comercializados diversas vezes até atingirem o fim da vida útil. Exemplo deste canal reverso são os veículos em geral, que possuem mercados paralelos, de segunda mão em todas as regiões do planeta. Com isso, pode-se dizer que este canal reverso em especifico, tem como finalidade extender a vida útil do produto, ou componente, com a TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio mesma finalidade que originalmente foi produzido. Ou seja, podemos considerar, neste caso, o produto de pós-consumo como produto bem usado.

4.3.2.2. Canal Reverso de Reciclagem/Desmanche Este é um sistema de revalorização do produto. No canal da reciclagem, os materiais descartados, podem transformar-se em matérias-primas secundárias ou recicladas que poderão ser reincorporadas ao ciclo produtivo. Exemplo deste caso, são os metais. Já no canal de desmanche, o produto durável de pós-consumo, sofre um processo de desmontagem, onde os componentes em condições de uso e/ou remanufatura são separados das partes que não possuem condições de revalorização. São enviados, diretamente ou após remanufatura para o mercado secundário de peças usadas, e aqueles materiais considerados inservíveis são destinados a aterros sanitários ou são incinerados.

4.3.2.3. Disposição Final Disposição final é considerada a última etapa do processo, o último local do destino para onde são enviados os resíduos que não possuem valor agregado, ou que possam vir a ter alguma revalorização.

4.4

RECUPERAÇÃO DE VALOR

A recuperação e agregação de valores aos produtos retornados podem vir de diferentes formas, dependendo das características e dos processos aos quais estes produtos foram submetidos. O valor do produto recuperado varia de acordo com o processo pelo qual é submetido, sendo que à medida que o produto avança sobre os níveis de Recuperação Direta da figura 4, maior será sua revalorização. Quando a etapa final do processo é a Revenda, o Reúso ou a Redistribuição garante-se assim, a função original do produto e uma maior revalorização.

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Ensaio Quando a alternativa para aquele produto estiver nos níveis de Reprocessamento, a revalorização é parcial e estará associada à recuperação de materiais, energia e/ou ao descarte apropriado dos resíduos.

Figura 4 - Recuperação Direta. Fonte: Via Sápia – Logística Reversa

4.5

CLASSIFICAÇÃO DOS SISTEMAS LOGÍSTICOS REVERSOS

Esta classificação é baseada na Figura 4, considerando o valor final recuperado, diminuição de impactos ambientais e os níveis de processos de cada produto. Na Figura 5, podemos identificar os três diferentes níveis de logística dos bens.

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Ensaio

Figura 5 - Sistemas de Logística Reversa. Fonte: Via Sápia – Logística Reversa

4.5.1 Sistema Logístico de Descarte (S.L.D.) Tem como objetivo principal a adequação às normas e legislações vigentes, o correto descarte dos resíduos, principalmente os considerados perigosos. Este sistema tem como etapas do seu processo, a coleta, o transporte, a inspeção dos bens retornados, e a correta destinação final, como por exemplo, a incineração. Como exemplo destes resíduos, podem-se citar as pilhas e baterias, as lâmpadas fluorescentes e agrotóxicos, entre outros.

4.5.2 Sistema Logístico de Reciclagem (S.L.R.) O segundo nível tem como objetivo principal, a recuperação da matériaprima, reaproveitamento dos insumos, minimização dos impactos ambientais, e uma futura diminuição nos custos da implantação da logística reversa, por meio de revenda ou reuso de materiais reciclados. Este sistema vem desde a segregação e identificação dos resíduos recicláveis, até o processo de reaproveitamento ou revenda desses materiais. Como exemplo, podem-se citar as empresas de papel e celulose, de alumínio, e construção civil, entre outras.

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Ensaio 4.5.3 Sistema Logístico de Recuperação (S.L.Rec.) O nível mais elevado da pirâmide tem como objetivos principais a revalorização e reaproveitamentos dos bens, minimização dos impactos ambientais, uma vez que a fábrica poderá substituir um insumo virgem por um recuperado. Este sistema possui as mais variadas etapas, desde a restauração, remanufatura, reforma e/ou reparo até a revenda, reuso ou redistribuição. Estes produtos são considerados “seminovos”, uma vez que retornam por motivos de pequenas falhas, ou necessitando de pequenos reparos. Como exemplo de produtos deste sistema, podem-se citar os computadores, celulares, peças automobilísticas entre outros.

4.6

LOGÍSTICA REVERSA E SEUS PROBLEMAS

Está claro que, com o crescente volume de novos produtos no mercado motivados pela incessante busca de novas tecnologias e melhoras de funcionalidade, a quantidade de produtos pré e pós-consumo está cada vez mais se tornando crescente em todo o mundo. E com este aumento, cresce também a dificuldade de coletar todos esses produtos e/ou equipamentos. Como exemplo, os aparelhos eletroeletrônicos, que cada vez mais estão tendo sua vida útil diminuída, pelo aumento de novas versões no mercado. Por isso, o governo brasileiro está cada vez mais engajado na criação de legislações e normas que possibilitem este controle de novos produtos e descarte correto dos antigos. (BRASIL, 2010) Considerando que o Brasil, possui um território de aproximadamente 8.514.877 km² (IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2004), e a facilidade da sociedade em adquirir produtos via internet, fica mais difícil para as empresas conseguirem equacionar o retorno de seus produtos consumidos ou não, para a tratativa adequada, seja ela remanufatura ou disposição final, gerando assim riscos à sociedade e ao meio ambiente. Com esta variedade enorme de produtos indo para o mercado diariamente, por exemplo, computadores, celulares, embalagens descartáveis entre muitos outros, têm aumentado a preocupação e a conscientização das empresas e da população para alguma ação sustentável que ajude a não degradar o meio ambiente. Estas ações sustentáveis podem ser estratégias de fidelização dos clientes à marca, anúncios de sustentabilidade entre outras. TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio Um dos maiores problemas enfrentados hoje por empresas que fazem a logística reversa em seus produtos, ou que para implantar este sistema de LR, é a grande extensão territorial, forçando os fabricantes a criar postos ou parcerias com empresas, tornando-as pontos de coletas, uma vez que segundo o artigo 5º do Decreto 7.404/2010, “Os fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores são responsáveis pelo ciclo de vida do produto”. Outro problema encontrado é o custo do transporte destes produtos, que muitas vezes para compensar o valor do frete, devem esperar uma quantidade específica de produtos, ou um peso pré-determinado para transportá-los. E nem sempre o ponto de coleta, ou o parceiro, pode ou tem espaço para armazená-los (VIA SAPIA, 2011). Outro ponto a se melhorar no sistema de logística reversa, e este é o principal, é o consumidor. Ás vezes eles podem não ter o conhecimento de que o fabricante daquele produto possui o sistema de logística reversa. Que aquele produto que aparentemente não tem mais uso, pode sim ser reutilizado para outras finalidades, ou até passar por uma remanufatura e retornar ao mercado secundário. Ou o consumidor tem o conhecimento deste sistema, porem não possui ponto de coleta próximo a ele, ou se existir, a sociedade como um todo não possui ainda esta conscientização ambiental, que leva o consumidor a pensar “O que vou ganhar em troca com isso?” e assim, não devolver aquele produto “acabado” nos pontos de coleta, e simplesmente descartá-los na lixeira comum de casa, onde será coletado pela limpeza pública urbana e acabará indo para aterros sanitários. Por isso, é tão necessária a conscientização e participação de todos para que os resíduos que para muitos não há mais uso, seja descartado corretamente, e assim, diminuindo os impactos ambientais.

4.7

LOGÍSTICA REVERSA E SUAS VANTAGENS

Apesar das dificuldades enfrentadas para a implementação da logística reversa no setor empresarial, este processo traz vantagens para todos: fabricante, distribuidor, lojista e consumidor. Começando pela ponta do processo, os fabricantes ganham com o sistema de logística reversa no fator econômico, uma vez que a LR está diretamente ligada à recuperação de ativos, principalmente no sistema logístico de recuperação, explicado anteriormente, que tem como objetivo a recuperação de produtos novos ou seminovos.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio Além do fator econômico, outros fatores motivadores para a implementação do sistema de LR é atender a legislação, melhoria da imagem corporativa, e competitividade no mercado. O distribuidor, com o sistema de LR no mercado, ele deverá se adequar as novas exigências de mercado, mas com o tempo poderá atender a nova demanda de um serviço de transporte de resíduos que está em crescimento. O lojista poderá colaborar e bastante com o sistema de LR, se tornando, por exemplo, um ponto de coleta para produtos obsoletos, sejam eles eletroeletrônicos, pilhas, baterias, entre outros estipulados pela Legislação Brasileira aumentando assim sua clientela. Já o consumidor, a vantagem que ele pode obter deste processo todo, é que contribuindo com o sistema, ou seja, descartando os produtos em pontos de coleta, ele estará ajudando com a reciclagem e/ou destinação ambientalmente correta dos produtos, e com isso, a fábrica poderá repassar a redução seus custos de produção para os produtos, e no final, o consumidor pode vir a pagar menos pelos produtos, além de usufruir de um meio ambiente mais equilibrado e sadio a qualidade de vida e de suas futuras gerações.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio 5.

RESÍDUO ELETRÔNICO

5.1

DEFINIÇÃO

Segundo a ABINEE – Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica e o MDIC – Ministério de Desenvolvimento, Industria e Comércio são considerados equipamentos eletroeletrônicos ou EEE, os equipamentos de uso doméstico, industrial, comercial e de serviços, cujo adequado funcionamento depende de correntes elétricas ou campos eletromagnéticos bem como os equipamentos para geração, transferência e medição dessas correntes e campos, concebidos para utilização com uma tensão nominal não superior a 1000 V para corrente alterna e 1500 V para corrente contínua e pertencentes à nove categorias. Pela legislação brasileira, há a Lei Estadual nº 8.876, de 16 de maio de 2008, do Estado do Mato Grosso, que em seu art. 2º: “Entende-se como lixo tecnológico os equipamentos de informática obsoletos, danificados e outros que contenham resíduos ou sobras de dispositivos eletroeletrônicos que são descartadas, fora de uso ou obsoletos, que possam ser reaproveitados ou ainda que contenha integrada em sua estrutura, elementos químicos nocivos ao meio ambiente e ao ser humano, mas passíveis de serem reciclados”. Ainda de acordo com o art. 2º, em seu paragrafo único:

etc), lâmpadas

“São considerados lixo tecnológicos, os computadores, equipamentos de informática, pilhas, baterias (celulares, filmadores, industriais, televisores e monitores, micro-ondas, máquinas fotográficas, fluorescentes e eletroeletrônicos”.

Outras definições também estão presentes em legislações de municípios brasileiros, como de Guarulhos/SP através da lei nº 6.663 de 12 de Abril de 2010, em seu art. 2º: “Considera-se lixo tecnológico: I - os componentes periféricos de computadores, portáteis ou não, inclusive monitores e televisores que contenham tubos de raio catódicos; II – os componentes de equipamentos ou aparelhos eletroeletrônicos e de uso geral, que contenham metal pesado ou qualquer outra TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio substância tóxica em sua composição; III –os equipamentos ou aparelhos eletroeletrônicos que contenham pilhas, baterias ou acumuladores de energia inseridos em sua estrutura de forma insubstituível; IV – as pilhas, baterias e acumuladores de energia que contenham em sua composição um ou mais dos elementos chumbo, mercúrio, cádmio, lítio, níquel e seus compostos, necessária os funcionamento de qualquer tipo de aparelho, de veiculo ou sistemas, fixos ou moveis, recarregáveis ou não; V – as lâmpadas fluorescentes, ou seja, lâmpadas onde a maior parte da luz é emitida por uma camada de material fluorescente aplicada na superfície interna de um bulbo de vidro, exercitada por radiação ultravioleta produzida pela passagem de corrente elétrica de vapor de mercúrio ou argônio; VI – as lâmpadas de vapor de mercúrio, lâmpadas na qual a luz é emitida pela passagem de corrente elétrica através do vapor de mercúrio a alta pressão, contido num bulbo de vidro; VII – as lâmpadas de vapor de sódio, na qual a luz é emitida pela passagem de corrente elétrica através de vapor de mercúrio à alta pressão, contido num bulbo de vidro; VIII – as lâmpadas de luz mista, na qual a luz é emitida pela passagem de corrente elétrica simultaneamente através de filamento metálico e de vapor de mercúrio, puro ou associado ao sódio, contido num bulbo de vidro; IX – as lâmpadas de vapor metálico, que contenham em seu interior vapor de mercúrio e/ou outro componente que seja tóxico; X – as lâmpadas halógenas dicróicas, incandescentes com adição de elemento química halógeno – iodo ou bromo; XI – toda e qualquer lâmpada que use em sua fabricação e contenha em sua composição ou sistema, vapor de mercúrio.” Este tipo de resíduo, também conhecido como e-lixo, é um dos maiores problemas que a sociedade moderna se depara atualmente. O consumo de produtos eletroeletrônicos, de todo os tipos, está cada vez maior e com isso aumenta-se exponencialmente o número de resíduos descartados em lixões, aterros, até mesmo no meio da rua, ou seja, descartados incorretamente, gerando riscos à saúde e impactando o Meio Ambiente. (VIA SÁPIA, 2011). Outro motivo do aumento da quantidade de produtos eletroeletrônicos descartados, é que muitos dos equipamentos do mercado atual, não duram o tempo que deveriam durar, e muitas vezes é mais fácil e acessível comprar outro TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio produto novo, do que mandar o antigo para conserto (ELECTRONICS TAKE BACK, 2010). É a chamada obsolência programada. O setor eletroeletrônico é responsável por 2 a 4% do impacto ambiental do planeta. Entretanto, é o provedor de serviços, produtos e as soluções dos demais 96 a 98% dos segmentos mundiais (CEMPRE,2011).

5.2

CATEGORIA DOS ELETROELETRÔNICOS NO BRASIL

De acordo com a ABINEE, os produtos eletroeletrônicos são subdivididos em categorias. As maiores são:

5.2.1. Linha Branca São considerados equipamentos eletroeletrônicos da linha branca os grandes eletrodomésticos como, por exemplo, refrigeradores, máquinas de lavar roupas e/ou louças, fogões, micro-ondas, aparelhos de aquecimento elétrico, condicionadores de ar, entre outros. 5.2.2. Linha Azul São considerados equipamentos eletroeletrônicos da linha azul, os pequenos eletrodomésticos como, por exemplo, aspiradores de pó, ferro de passar roupa, torradeiras, secadores de cabelo, máquinas de barbear, batedeiras, liquidificadores, entre outros.

5.2.3. Linha Verde São considerados equipamentos eletroeletrônicos da linha verde, os equipamentos de informática e telecomunicações como, por exemplo, computadores desktop, notebooks, impressoras (junto com seus acessórios e periféricos – cartuchos, cabos, teclados, mouse, entre outros), calculadoras, telefones sem fio, telefones celulares (junto com seus acessórios – cabos, fones, etc), entre outros.

5.2.4. Linha Marrom TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

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Ensaio São considerados equipamentos eletroeletrônicos da linha marrom, os equipamentos de consumo como, por exemplo, televisores (de tubo, LCD, Plasma), DVD/VHS, aparelhos de rádio, aparelho de áudio, ou qualquer equipamento para gravar e/ou reproduzir som e/ou imagem

5.3

COMPOSIÇAO DO RESÍDUO ELETRÔNICO

Como já foi dito anteriormente, estes resíduos não são somente aqueles computadores ou celulares descartados. Por isso, em 2006, o Global Resource Information Database, o GRID, um centro de pesquisa ligado ao UNEP - United Nations Environment Programme realizou um levantamento conforme a Figura 6 adaptada, que mostra como estavam distribuídos os resíduos eletroeletrônicos na Europa. O estudo foi divido em três fases: - Resíduo Eletrônico, como televisores, impressoras, entre outros; - Resíduo Elétrico, como geladeiras, máquinas de lavar e secar roupa, entre outros; - Adicionais, como brinquedos, ferramentas elétricas e eletrônicas, furadeiras, entre outros.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

193


Ensaio

Figura 6 - Composição dos Resíduos Eletroeletrônicos. Fonte: GRID, 2006

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

194


Ensaio Considerando a quantidade de produtos que entram no mercado com aqueles que são descartados pelos consumidores corretamente, todos os outros aparelhos substituídos que não são entregues em pontos de coleta e reciclados, são jogados em aterros, ou na melhor das hipóteses, a população brasileira possui uma tendência a doar os eletroeletrônicos, ou então esquecê-los na assistência técnica no aguardo de um orçamento fictício.

5.4

RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS NO BRASIL E NO MUNDO

Segundo o relatório realizado em 2009 da UNEP - United Nations Environment Programme com apoio da ONG StEP - Solving the E-Waste Problem, informa o tempo de vida útil em média de alguns aparelhos como por exemplo, um computador tem em média de 5-8 anos, um celular em torno de 4 anos e uma televisão uma média de 8 anos (Figura 7).

Figura 7 - Tempo estimado da vida útil de alguns eletroeletrônicos. Fonte: Relatório UNEP, 2009

Ainda segundo o relatório do UNEP/StEP de 2009 (Figura 8), a quantidade de resíduos eletroeletrônicos estimados que foram gerados em toneladas no ano de 2005, atualmente esta quantidade deve estar além do dobro. O valor foi estimado, porque o Governo Brasileiro não centralizava as informações sobre a gestão destes resíduos na época, e por isso foi aplicada a média do tempo de vida útil da cada produto, sobre a quantidade de produtos vendidos e/ou estocados no mercado.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

195


Ensaio

Figura 8 - Quantidade estimada em ton/ano de resíduos no Brasil em 2005. Fonte: UNEP, 2009, adaptado

O relatório da UNEP/StEP traz ainda a quantidade estimada de computadores descartados no mercado brasileiro, comparando com outros países, de acordo com a Figura 9. Com valores estimados novamente, pois não foi encontrado nenhum dado oficial das datas de venda destes produtos, então considerando o tempo de vida útil de um computador, 5 anos, o Brasil, obteve o valor mais alto dentre os países avaliados, sendo maior que 0,5 kg/cap.ano de geração de resíduos eletroeletrônicos.

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Ensaio

Figura 9 - Quantidade de PC descartados. Fonte: Relatório UNEP, 2009

O Brasil, de acordo com a conclusão deste relatório de 2009, estava classificado juntamente com o México e a África do Sul no Grupo C, considerado países em crescente desenvolvimento. Este grupo, também tem um significativo potencial, segundo o relatório divulgado, para se adaptar a mudanças de préfabricação de produtos eletroeletrônicos, e para extender seus potenciais na etapa de processo final, criando tecnologias que se apliquem as necessidades locais, com investimentos e trocas de conhecimento e tecnologias de outros países que já possuem este processo implementado, de acordo com o estudo realizado. Cada ano, o mundo descarta cerca de 20 à 50 milhões de toneladas de produtos eletroeletrônicos, o que significa cerca de 5% do volume total de resíduos sólidos gerados em cada município. De acordo com o relatório divulgado pela EPA - Environmental Protect Agency, a parcela do lixo eletroeletrônico dentro do total de lixo gerado nos municípios pelo mundo, está só crescendo. Enquanto os outros tipos de resíduos, como plástico, papel e outros recicláveis começam a ser segregados para tal fim, e os resíduos orgânicos são reduzidos a partir da diminuição do desperdiço de alimento, a quantidade dos resíduos eletroeletrônicos está crescendo quase que 5% anualmente. Deve ser ressaltado ainda que todos os resíduos eletroeletrônicos possuam metais preciosos, podendo ser reutilizados em novos produtos eletroeletrônicos.

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Ensaio Um estudo realizado de 2000 a 2007, pela EPA sobre os resíduos sólidos municipais nos Estados Unidos, Figura 10, constatou que apenas 13% dos resíduos eletroeletrônicos, são reciclados no total.

Figura 100 -% de resíduos reciclado nos EUA. Fonte Electronics Take Back, 2010.

5.5

RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS E SEUS MALES

Os aparelhos eletroeletrônicos podem inicialmente não apresentar riscos aos seus usuários, mas quando deixam de ser produtos e se tornam resíduos, podem gerar alto riscos ao meio ambiente e a saúde humana.

5.5.1 Problemas no Meio Ambiente Os aparelhos eletroeletrônicos geram problemas ambientais de todas as formas e aspectos. Por exemplo:

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Ensaio - Durante o processo de fabricação destes produtos, há emissões de substâncias poluentes, que quando não tratadas corretamente, podem poluir o ar; - Ainda na etapa de produção, são necessárias grandes quantidades de água no processo, por exemplo, para fabricação de um computador e um monitor, são necessários 1,5 toneladas de água, de acordo com o estudo feito pela UNEP em 2005. E novamente, senão tratada corretamente, esta água acaba indo parar nos rios, contaminando lençóis freáticos e solo; - Durante o processo de mineração dos metais e minerais necessários para a sua fabricação, algumas toxinas são liberadas; - E no descarte desses equipamentos, se o destino não for adequado, ou seja, que tenha o tratamento correto, vão terminar em aterros e/ou jogado em qualquer lugar, podendo contaminar solos e com o tempo, lixiviado aos lençóis freáticos; - Outro problema do descarte incorreto dos produtos eletroeletrônicos, é que muitas vezes, estes equipamentos são incinerados sem a devida atenção e tratamento dos gases, ou até mesmo queimados propositalmente a céu aberto, gerando assim emissões atmosféricas com substâncias perigosas, como as dioxinas e os furanos, devido à alguns aparelhos ainda terem em sua composição os BFR’s, da sigla em inglês para Brominated Flame Retardants, os retardantes de chamas bromado e o plástico PVC. “A contaminação por estes elementos pode ser pelo contato direto, no caso de pessoas que manipulam diretamente as placas eletrônicas e outros componentes perigosos dos eletrônicos em lixões a céu aberto, comuns ainda em países na África e Ásia. Mas também pode acontecer de forma acidental. Quando um eletrônico é jogado em lixo comum e vai para um aterro sanitário, há grandes possibilidades de que os componentes tóxicos contaminarem o solo e cheguem até o lençol freático, afetando a água” (NAKAMURA, 2009).

5.5.2 Problemas à Saúde Humana Os riscos que os resíduos eletroeletrônicos geram à saúde humana, são inúmeros. Na figura 11, estão relacionadas algumas substâncias perigosas presentes em produtos eletroeletrônicos e seus efeitos colaterais no ser humano.

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Ensaio

Figura 1111 - Metais pesados e Efeitos. Fonte: Ambiental Standard, 2010.

E ainda os BRF’s, substâncias retardantes de chama bromados, podem afetar seriamente as funções hormonais, bloqueando a função da tiróide, atrapalhando o desenvolvimento normal do indivíduo, de acordo com um estudo realizado em 2004, pela organização ambiental Clean Production Action. Já os plásticos PVC, quando queimados sem controle, soltam substâncias nocivas, que em contato com água nos pulmões, se transformam em ácido clorídrico. Podendo corroer o tecido dos pulmões, e causar severas complicações respiratórias (E-WASTE GUIDE, 2009)

5.6

A RECICLAGEM DOS RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS

À medida que os recursos naturais se tornam cada vez mais escassos, aumentam as preocupações com o meio ambiente. E o desafio maior é de conseguir fornecer produtos, serviços e soluções tecnológicas que ajudem os usuários finais e corporativos a reduzirem seus impactos ambientais causados ao longo daquele ciclo de vida daquele produto ou serviço. Uma das soluções indicadas para este problema é a reciclagem ou até o “upgrade” de aparelhos obsoletos, que é uma expressão usada em inglês para atualizar tecnologicamente um equipamento, substituindo parcialmente, apenas

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Ensaio algumas peças e/ou componentes eletroeletrônicos, desempenho, sem, contudo descartá-lo totalmente.

melhorando

o

seu

5.6.1 O Ranking das Empresas Ecológicas A ONG Greenpeace elabora desde 2006 um Guia de Eletrônicos Verdes, que avalia as 18 maiores empresas fabricantes de eletroeletrônicos “mais verdes” no mercado atual. Como é demostrado na Figura 12 a primeira versão do Guia apresentava apenas duas empresas com nota 7 (GREENPEACE, 2010).

Figura 12 - Guia de Eletrônicos Verdes de 2006. Fonte: Greenpeace, 2010.

Este “Guia Verde” é montado através de uma avaliação junto com as empresas, onde é verificado: - a produção de produtos sem a presença de substâncias consideradas perigosas; - o recolhimento e a reciclagem de seus produtos com responsabilidade, uma vez que se tornem obsoletos; - redução de impactos ambientais em seus processos de produção e seus produtos; - opções de aparelhos mais ecológicos no mercado.

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201


Ensaio Esse ranking tem como intuito, fazer com que as empresas produzam eletrônicos cada vez mais limpos e duráveis, e para que estes produtos consigam ser cada vez mais fáceis de serem substituídos, reciclados e/ou descartados, sem riscos ambientais e à saúde humana (GREENPEACE, 2010). Hoje, o ranking está diferente, conforme a Figura 13. Há empresas, próximas a nota 8, como é o caso da Nokia com pontuação 7,5 que entre outras razões, desde 2005, todos seus novos modelos lançados ao mercado, não possuem o plástico PVC em sua composição. Neste ranking há ainda a Sony Ericsson com 6,9, por ser umas das únicas empresas a atingir a máxima pontualidade no quesito “ausência de substâncias perigosas”, de acordo com o relatório elaborado para explicar os resultados da 16ª edição do Guia. A maioria das empresas avaliadas possuem notas entre 5 e 6, o que demonstra uma melhora na produção e nos requisitos avaliados em cada uma. Mas também é possível ver que algumas regrediram como, por exemplo, a Toshiba que teve sua nota reduzida comparada com o ranking anterior, que segundo o relatório do Greenpeace da 16ª edição do Guia, um dos motivos foi o não cumprimento do prazo estipulado por eles mesmos, de trazer ao mercado novos produtos livres de plásticos de PVC e substâncias retardantes de chamas. Também dá para se avaliar na comparação, que algumas empresas, com o passar dos anos, deixaram de ser avaliadas por este ranking, e outras entraram no lugar, como é o exemplo da Microsoft e Nintendo (GREENPEACE, 2010).

Figura 13 - Guia de Eletrônicos Verdes de 2010. Fonte: Greenpeace, 2010.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

202


Ensaio 6.

LOGÍSTICA REVERSA EM ELETROELETRÔNICOS

6.1

INTRODUÇÃO

O processo de reciclagem para eletroeletrônicos é diferente dos processos convencionais que encontramos para os outros resíduos. Devido às suas características únicas, a “manufatura reversa" ou LR, exige a reengenharia na separação, trituração e limpeza para prover a reinserção da matéria-prima com qualidade na fabricação de novos produtos e/ou subprodutos (CEMPRE, 2011). De acordo com o relatório da UNEP de 2009, a logística reversa da reciclagem de produtos eletroeletrônicos consiste em três etapas subseqüentes: (Figura 14). - a coleta; - a separação/descaracterização e pré-processo; - e o processo final. De acordo com o relatório, são necessários nestas três etapas, maquinário e profissionais qualificados para fazê-lo. A eficiência de todo o processo depende independentemente de cada etapa, que seja cumprida sem erros e que no todo, este processo seja bem gerenciado.

Figura 1412 - Etapas da Reciclagem Eletrônica. Fonte: Relatório UNEP, 2009.

6.1.1 Coleta dos equipamentos eletroeletrônicos A coleta destes equipamentos obsoletos e/ou quebrados é a etapa crucial para todo o processo de logística reversa. Ele vai determinar a quantidade de material disponível para ser recuperado.

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Ensaio Há vários programas de coleta de equipamentos eletrônicos pelo mundo, mas a eficiência deles depende de lugar para lugar. Por exemplo, no Brasil, a empresa HP - Hewllett-Packard possui o programa de “Take Back and Recycling” através de solicitações via web, no site da HP no Brasil, que coleta computadores, notebook, impressoras, periféricos, etc. diretamente de clientes e/ou em pontos de coletas disponíveis estrategicamente para um melhor campo de abrangência. Há outros fabricantes de eletrônicos que também possuem programas semelhantes. Para que este processo de coleta melhore e aumente cada vez mais os números que equipamentos coletados, é necessária a participação de todos. Que cada um faça sua parte no final da vida útil do produto. Uma vez que o produto esteja obsoleto, quebrado ou então sem uso, o consumidor tenha a consciência de descartá-los em pontos de coleta, para que seja ambientalmente tratado e destinado corretamente posterior.

6.1.2 Separação/ Descaracterização e pré-processo Esta segunda etapa do processo, se subdivide em três partes: a descaracterização e/ou desmonte do equipamento; o retalhamento dos resíduos; e por ultimo o pré-processo, onde serão segregados e acondicionados de acordo com suas composições e encaminhados para o processo adequado. A primeira etapa é a fase de desmonte dos equipamentos, onde são separados os componentes considerados críticos dos resíduos eletroeletrônicos, como por exemplo, os painéis de vidro de televisores e monitores, os gases CFC – Clorofluorcarbono, contidos em geladeiras, lâmpadas e baterias, etc (E-WASTE GUIDE, 2009). A grande maioria dos eletroeletrônicos descartados aqui no Brasil passa por este processo de descaracterização/desmonte manualmente, onde é mais fácil e garantido que os metais valiosos, ou pedaços inteiros do aparelho são removidos, como é visto na Figura 15 (UNEP, 2009)

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

204


Ensaio

Figura 15 - Balcão de separação. Fonte: Relatório UNEP, 2009.

Essas substâncias perigosas que foram retiradas devem ser estocadas ou tratadas corretamente, evitando assim a contaminação do meio ambiente e diminuindo os riscos gerados à saúde. Os metais valiosos, por exemplo, o cobre, é estocado, e eventualmente reaproveitado no mesmo processo, ou então é transformado em alguma outra coisa. Os monitores e televisores que são de CRT - Cathode Ray Tube ou em português tubo de raio catódico, contém de 2 a 4 quilos de chumbo, é nesta etapa que são retirados os metais pesados, além nos painéis de vidro (ELECTRONICS TAKE BACK, 2009). Já nos monitores de LCD - Liquid Cristal Display contém menores quantidades de chumbo, porém maior quantidade de mercúrio, que também é necessário retirar com cuidado, antes de enviá-los para a próxima etapa. E então os resíduos eletroeletrônicos já desmontados e descaracterizados, são encaminhados para a segunda etapa desta fase, que é a fase de Shredding, o retalhamento dos equipamentos. Normalmente, resta só a carcaça dos resíduos, onde estes são segregados de acordo com sua composição (PVC, ABS, PEBD, Alumínio, Ferro, Aço, entre outros) e suas cores. TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

205


Ensaio Esta etapa acontece em grande escala para se obter uma grande quantidade de materiais recicláveis. E este processo ocorre mecanicamente, com máquinas de esmagamento, trituradores entre outras (E-WASTE GUIDE, 2009). Para estes resíduos serem reaproveitados ao máximo, eles não poderão ser misturados, por exemplo, alumínio com ferro, aço com plástico, ou plástico ABS com plástico PVC. Por isso, o grande desafio desta etapa é encontrar as corretas ações que consigam separar corretamente os pedaços misturados, antes de serem moídos. Algumas empresas como, por exemplo, a HP - Hewllett-Packard possui um programa chamado “Design for Environment” que entre outras coisas, que durante a produção do produto original, eles gravam a sigla do tipo de material que é utilizado na peça, para facilitar o processo na separação manual. A terceira etapa desta fase é o acondicionamento dos resíduos moídos para o processo de reciclagem, chamado de pré-processo. Com isso, fica mais fácil e viável a venda deste resíduo para reinserção deles como matéria prima em novos produtos e/ou processos (E-WASTE GUIDE, 2009).

6.1.3 Processo Final A recuperação dos metais, a partir das frações dos resíduos da etapa anterior, é a ultima etapa do processo de reciclagem. Os pedaços ferrosos são encaminhados para fábricas de aço para recuperar o ferro, os pedaços de alumínio são encaminhados para fábricas que derretem alumínio. Resíduos ferrosos e não ferrosos quando derretidos, precisam de um tratamento das emissões atmosféricas, uma vez que os compostos orgânicos, contidos na tinta de alguns resíduos, e em partes de plásticos e resinas, se não tratados, podem gerar substâncias nocivas ao Homem e ao Meio Ambiente. O mesmo acontece para as placas de circuito dos eletroeletrônicos. Este último processo, o Brasil ainda não possui condições para fazê-lo. Sendo assim, as placas segregadas são exportadas para o Japão, Bélgica, Alemanha, Canadá para o devido tratamento (UNEP, 2009).

6.1.4 Reuso ou disposição final TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

206


Ensaio Aqueles resíduos que não podem ser reciclados nem reutilizados, deverão ter como destino final os aterros sanitários controlados para resíduos classe I, ou até mesmo co-processamento, como visto anteriormente, uma vez que possa haver algum resíduo classificado como perigosos, gerando riscos ao meio ambiente e/ou á saúde.

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

207


Ensaio 7.

CONCLUSÕES

Uma vez que o aparelho ou produto eletrônico é descartado e/ou tenha sua vida útil encerrada, ele se torna um resíduo, podendo ser classificado como classe I, e por isso, deverá seguir as normas recomendadas de armazenamento e transporte e destinação final de resíduos classe I de acordo com a ABNR NBR 12.235:1992 para evitar problemas de vazamento e/ou acidentes ambientais, que possam vir a causar grandes impactos ambientais. Um resíduo eletrônico, em sua composição possui substâncias que podem ser nocivas ao Homem e ao meio ambiente. Por exemplo, nas placas de circuito, há a presença de metais pesados, e ás vezes a carcaça de um computador e/ou impressora seja feita de PVC, ou com substâncias chamadas de BFR – retardantes de chamas bromados, que quando queimada emite as chamadas dioxinas e furanos, que são necessários tratamentos prévios antes de emiti-los à atmosfera. Por isso, foi criada em 2010 a PNRS, que busca a implementação do sistema de logística reversa no Brasil, de modo que os fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes e os consumidores, tenham a responsabilidade compartilha daquele produto que se tornará resíduo um dia. Graças ao complexo e diverso fluxo do sistema da LR, não serão todos os resíduos descartados e/ou obsoletos “jogados fora”. Dependendo das condições que aquele produto for descartado, ele poderá voltar ao mercado como produto de segunda linha, onde alguma peça foi trocada ou uma manutenção realizada. Já para aqueles produtos com problema de qualidade e/ou garantia, estes poderão ter alguns de seus componentes reaproveitados na cadeia produtiva, e outros poderão ser reciclados. Para aqueles produtos, que foram utilizados até o final de sua vida útil, a reciclagem deverá ser a primeira opção antes do descarte para aterros sanitários. Para o sistema da LR estar completo no Brasil, é necessário a aquisição de maquinários competentes para a tratativa por exemplo das placas de circuito dos eletrônicos. Hoje estas placas são enviadas para países como Japão, Alemanha, Bélgica, Canadá, entre outros. Países estes, que possuem este sistema já implementado, e desenvolveram maquinários para o processamento destas placas, uma vez que nela, contém metais pesados e metais precioso, como por exemplo, cádmio e cobre. Problemas com produtos eletroeletrônicos e a correta destinação de resíduos, é um problema recente que o Brasil vem enfrentando, versus outros TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

208


Ensaio países internacionais que já atuam nesta área há algum tempo. Por isso, o Governo, juntamente com fabricantes, comerciantes, consumidores, e todos que fazem parte da cadeia logística de consumo de produtos, são corresponsáveis pela melhoria da gestão destes e de outros resíduos que possam gerar riscos à saúde, ou que possam degradar e/ou impactar temporariamente ou permanentemente o Meio Ambiente em um todo.

REFERÊNCIAS

ABINEE - http://www.abinee.org.br/informac/arquivos/baptista.pdf ABINEE/ MDIC - http://www.mdic.gov.br/arquivos/dwnl_1320088836.pdf , 2011; AMBIENTE STANDARD - http://www.ambientestandard.com/ , 2010 ASSOCIAÇÃO BRASILERIA NORMAS TÉCNICAS. Resíduos sólidos – Classificação. Rio de Janeiro, 2004;

NBR

10.004/2004:

ASSOCIAÇÃO BRASILERIA NORMAS TÉCNICAS. NBR 11.174/1990: Armazenamento de resíduos classes II – não inertes e III - inertes. Rio de Janeiro, 1990; ASSOCIAÇÃO BRASILERIA NORMAS TÉCNICAS. NBR 12.235/1992: Armazenamento de resíduos sólidos perigosos. Rio de Janeiro, 1992; BRASIL. Decreto Nacional nº 7.404 de 23 de Dezembro de 2010; BRASIL. Lei Federal n° 12.305 de 2 de Agosto de 2010; CEMPRE. http://www.cempre.org.br/descarte.php, 2011; EPA. - http://www.epa.gov/osw/nonhaz/municipal/msw99.htm ,2009 E-WASTE GUIDE. http://ewasteguide.info/introduction/e-waste , 2009; GREENPEACE. 16º Relatório do Guia Verde. Outubro, (http://www.greenpeace.org/usa/en/campaigns/toxics/hi-tech-highlytoxic/company-report-card/);

2010

GRID/UNEP - http://maps.grida.no/go/graphic/what_is_e_waste TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

209


Ensaio GUARULHOS/SP. Lei Municipal nº 6.663 de 12 de Abril de 2010; IBGE - www.ibge.gov.br/ IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas – www.ipt.br/; MATO GROSSO. Lei Estadual nº 8.876 de 16 de Maio de 2008; MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE – MMA – www.mma.gov.br; NAKAMURA, FLAVIO. TI Verde: Tecnologia sendo Influenciada pelo meio ambiente, São Paulo 2009; ONG CLEAN PRODUCTION http://www.cleanproduction.org/Steps.BioSociety.Detoxifying.Computer.php 2004;

,

ONG ELECTRONICS TAKE BACK. “Designed for the dump.”, 2010; ONG ELECTRONICS TAKE BACK. “What happens to our e-waste?”, 2009; ONG ELECTRONICS TAKE BACK. http://www.electronicstakeback.com/resources/problem-overview / , 2010; ONU - www.onu-brasil.org.br/ PONCE ADRIANA. Artigo “Política Nacional de Resíduos Sólidos.” 2011. 5 Folhas; REVISTA HORIZONTE GEOGRÁFICO 2011; RIBEIRO, D. V.; MORELLI, M. R. 2009. Resíduos Sólidos: Problema ou Oportunidades? Rio de Janeiro; StEp/UNEP. “Recycling – From E-Waste to http://www.unep.org/PDF/PressReleases/EWaste_publication_screen_FINALVERSION-sml.pdf , 2009

Resources”

-

VIA SÁPIA TREINAMENTOS. Logística Reversa. São Paulo, 2011;

TORRES, Carolina Adélia Liberato; FERRARESI, Gabriela Nenna. Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 159-210, jun. 2012.

210


Ensaio Metodologia e Diretriz da Global Reporting Initiative (GRI): Contexto, relevância, oportunidades e riscos.

Bruno Santa Rosa de Melo Formado em Administração pela ESPM São Paulo (2004), Pós graduado em Comunicação Corporativa pela ESA - Paris (2008) e cursando Pós graduação em Gestão Socioambiental para a Sustentabilidade na FIA-USP (2012). Atua como especialista em Sustentabilidade na Intertox em Planejamento Estratégico para a Sustentabilidade; Relatórios de Sustentabilidade GRI; Capacitação para a Sustentabilidade; Engajamento de Stakeholders; Cadeia de Valor; Leis de Incentivo à Cultura e Esporte.

MELO, Bruno Santa Rosa de. Metodologia e Diretriz da Global Reporting Initiative (GRI): Contexto, relevância, oportunidades e riscos.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 211-214, jun. 2012.

211


Ensaio Hoje,

as

diretrizes

de

relatórios

de

sustentabilidade

mais

reconhecidas e utilizadas internacionalmente são as da Global Reporting Initiative (GRI)1. Sua missão é de “fazer com que a prática de relatórios de sustentabilidade se torne padrão, fornecendo orientação e suporte para as organizações”, através de uma estrutura robusta de princípios e indicadores (perfil e governança, econômicos, sociais, ambientais, direitos humanos, produtos e práticas trabalhistas), que permitam mensurar e comunicar anualmente os avanços nos desempenhos ambientais, sociais e econômicos de uma organização.

De acordo com o estudo “GRI Sustainability Reporting Statistics, 2010”2 a Europa ainda é o continente com maior número de relatórios (45%), seguido pela Ásia (20%) e América do Norte e América Latina (ambos com 14% cada).

O crescimento de publicações no mundo, em 2010, em

comparação com 2009, foi de 22%. O Brasil, que tem 7% dos relatórios publicados no mundo, foi o país que mais cresceu, atingindo um incremento de 68% em comparação com aquele mesmo ano.

1

A Global Reporting Initiative é uma Organização Não Governamental fundada em 1997 em Boston, pela CERES (Coalition for Environmentally Responsible Economies) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). Hoje, a GRI está sediada em Amsterdã e com representantes (pontos focais) no Brasil, Estados Unidas, Austrália, China e Índia, com o objetivo de contribuir com a disseminação

2

https://www.globalreporting.org/resourcelibrary/GRI-Reporting-Stats-2010.pdf

MELO, Bruno Santa Rosa de. Metodologia e Diretriz da Global Reporting Initiative (GRI): Contexto, relevância, oportunidades e riscos.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 211-214, jun. 2012.

212


Ensaio A publicação Rumo à Credibilidade 20103 aponta, no Brasil, a Natura como o relatório com melhor desempenho (65%), seguida pela Sabesp (51%) e Celulose Irani (50%). E, se olharmos o desempenho das dez primeiras colocadas, todas tiveram um incremento de pelo menos 7% em relação ao ano anterior (2009), evidenciando, conforme

destacado no estudo “GRI

Sustainability Reporting Statistics, 2010”, um ritmo crescente e mais acelerado nos resultados do que no resto do mundo.

Na contramão a este crescimento, encontramos, ainda, em grande parte dos relatórios nacionais, pouca transparência na prestação de contas dos temas de real relevância e materialidade para as organizações. Com um olhar mais crítico, percebemos que o processo de definição destes temas não passa por um processo estruturado junto

aos

seus stakeholders

estratégicos, conforme prevê a metodologia da GRI. Pensando no curto prazo, muitas empresas relatam assuntos, ações, programas e iniciativas que julgam relevantes e estratégicos, pois encaram esta importante ferramenta como uma mera peça de comunicação.

O processo de elaboração de um relatório de sustentabilidade, além de comunicar o desempenho ambiental, social e econômico aos stakeholders da organização, favorece um trabalho contínuo de autoconhecimento e gestão, 3

Segundo relatório da série brasileira (primeiro foi em 2008) da Global Reporters, da SustainAbility, focado nas tendências das prestações de contas de determinados países. Este estudo, examina as quatro principais dimensões de um Relatório de Sustentabilidade: Governança e Estratégia; Gestão; Apresentação do Desempenho; Acessibilidade e Verificação.

MELO, Bruno Santa Rosa de. Metodologia e Diretriz da Global Reporting Initiative (GRI): Contexto, relevância, oportunidades e riscos.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 211-214, jun. 2012.

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Ensaio através dos indicadores propostos pela GRI e do estabelecimento de planos de ação (curto, médio e longo prazos), mensuração dos resultados e comprometimento com metas de desempenho, sempre alinhadas com as melhores práticas, nacionais e internacionais, de Sustentabilidade e Responsabilidade Social Empresarial.

Se trabalhados com esta perspectiva, os resultados alcançados serão muito mais amplos do que reputação e imagem. Os relatórios de sustentabilidade podem contribuir para a minimização dos riscos e para a melhoria de desempenho ao longo do tempo, além de ser uma ferramenta essencial para a inserção transversal da cultura da sustentabilidade na estratégia dos negócios e para o real conhecimento e engajamento junto aos seus principais stakeholders.

Dentre outros propósitos, muitos já citados neste texto, as Diretrizes da GRI foram criadas para servir como base de comparação entre as organizações. Desta forma, fica evidente que relatar com foco em reputação e imagem é uma estratégia que não é sustentável ao longo do tempo. Os stakeholders, de um modo geral, estão cada vez mais atentos e exigentes, e a pressão sobre estas organizações tende a aumentar.

MELO, Bruno Santa Rosa de. Metodologia e Diretriz da Global Reporting Initiative (GRI): Contexto, relevância, oportunidades e riscos.. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 2, p. 211-214, jun. 2012.

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Revista Intertox - Revinter - Volume 5 Número 2 Junho de 2012 - São Paulo