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V. 4, N. 3, OUT. 2011 - ISSN 1984-3577


ISSN 1984-3577

S達o Paulo, v. 4, n. 3, out. 2011

_______________________________________________________________________________________________________ RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 08-285, out. 2011


 2011 Intertox Periódico científico de acesso aberto, quadrimestral e arbitrado meses: (2) fevereiro, (6) junho e (10) outubro. Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida desde que citada a fonte. As opiniões e informações veiculadas nos artigos são de inteira e exclusiva responsabilidade dos respectivos autores, não representando posturas oficiais da empresa Intertox Ltda. Seções Artigo Original; Artigo de Atualização; Comunicação Breve; Ensaio; Nota de Atualização e Revisão Idiomas de Publicação Português e Inglês Contribuições devem ser enviadas para <revinter@intertox.com.br>. Disponível em: <http://www.intertox.com.br/index.php/br/revista>. Normalização e Produção Website Morgana Oliveira Capa Morgana Oliveira

Projeto Gráfico Morgana Oliveira

RevInter – Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade. / InterTox uma empresa do conhecimento. – v. 4, n. 3, (out. 2011).- São Paulo: Intertox. 2011. Quadrimestral ISSN: 1984-3577 1. Ciências Toxicológicas. 2. Risco Químico. 3. Sustentabilidade Socioambiental. I. InterTox uma empresa do conhecimento. Biblioteca InterTox II. Título.

Rua Turiassú, 390 - cj. 95 - Perdizes - 05005-000 - São Paulo - SP – Brasil Tel.: 55 11 3872-8970

http://www.intertox.com.br / intertox@intertox.com.br

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Expediente Editor(a) Chefe Morgana Oliveira Bibliotecária

Conselho Editorial Científico (2009-2011) Alice A. da Matta Chasin Doutora em Toxicologia (USP)

Editor(a) Científico (2009-2011) Irene Videira Lima Doutora em Toxicologia (USP), Perita Criminal Toxicologista do IML-SP por 22 anos.

Eduardo Athayde Coordenador no Brasil do WWI - World Watch Institute

Comitê Científico (2009-2011) Irene Videira Lima Doutora em Toxicologia (USP), Perita Criminal Toxicologista do IML-SP por 22 anos.

Eustáquio Linhares Borges Mestre em Toxicologia (USP), ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia, exProfessor Adjunto de Toxicologia da UFBA.

Marcus E. M. da Matta Doutorando em Ciência pela Faculdade de Medicina USP. Especialista em Gestão Ambiental (USP). Engenheiro Ambiental e Turismólogo.

Fausto Antonio de Azevedo Mestre em Toxicologia USP, ex-Diretor Geral do Centro de Recursos Ambientais do CRA-BA, ex-Presidente do CEPED-BA, ex-Subsecretário do Planejamento, Ciência e Tecnologia do Estado da Bahia.

Moysés Chasin Farmacêutico-bioquímico pela UNESP-SP especializado em Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas e de Saúde Pública. Ex-Perito Criminal Toxicologista de classe especial e Diretor no Serviço Técnico de Toxicologia Forense do Instituto Médico Legal da SSP/São Paulo. Diretor executivo da InterTox desde 1999. Ricardo Baroud Farmacêutico-Bioquímico Toxicólogo, Editor Científico da PLURAIS Revista Multidisciplinar da UNEB e da TECBAHIA Revista Baiana de Tecnologia.

Isarita Martins Doutora e Mestre em Toxicologia e Análises Toxicológicas (USP), Pós-doutorado em Química Analítica (UNICAMP), FarmacêuticaBioquímica Universidade Federal de Alfenas MG. João S. Furtado Doutor em Ciências (USP), Pós-doutorado (Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, NC, EUA). José Armando-Jr Doutor em Ciências (Biologia Vegetal) (USP), Mestre (UNICAMP), Biólogo (USF). Sylvio de Queiroz Mattoso Doutor em Engenharia (USP), ex-Presidente do CEPED-BA.

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Sumário GERENCIAMENTO DE RISCO Abordagem Pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico

08

Limites de Exposição Ocupacional: estudo comparativo entre valores aplicados no Brasil e nos EUA

19

Sistema de Classificação de Perigo: divergências entre o GHS e o diagrama de Hommel

30

Uso de Tecnologia na Área Química e Toxicológica

40

A FISPQ e a Responsabilidade Social das Empresas

45

ECOTOXICOLOGIA Fator de condição e relação peso-comprimento de Mugil curema Valenciennes, 1836 (Pisces Mugilidae) como potencial bioindicador de contaminação por HPAs em ambientes estuários

51

Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo, em São Sebastião, São Paulo sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa slaterryi

65

Abordagem Populacional na Ecotoxicologia

79

TOXICOLOGIA COMPUTACIONAL Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custoefetividade nos testes alternativos

92

Modelagem in chemico as bases mecanísticas

114

TOXICOLOGIA Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I

135

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Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo

171

Investigação do uso de anabolizantes no município de Icó, CE: um estudo transversal

203

SUSTENTABILIDADE Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à

213

sustentabilidade Desafios e opções da liderança na formação e gestão das equipes

254

SOCIEDADE A formação do Sujeito o Nascimento dos Torcedores

265

Um novo risco: Guerra climática

274

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Editorial A ecotoxicologia tem o potencial para lidar com a atual necessidade de mitigar e prever os principais efeitos causados pela contaminação química do ambiente, o subproduto do desenvolvimento industrial e tecnológico que o Brasil vem apresentando nos últimos anos. Entretanto, apesar do nome ecotoxicologia, esta não atingiu ainda uma verdadeira complementação entre as disciplinas que a compõe, a ecologia e a toxicologia. O conceito de distúrbio/perturbação (disturbance) é tema central em ambas as disciplinas, entretanto ênfase é colocada em níveis distintos. A ciência da toxicologia clássica trata dos efeitos que agentes tóxicos exercem sobre organismos vivos, e mais especificamente a toxicologia humana tem tradicionalmente focado no desenvolvimento de protocolos com o objetivo de eliminar completamente o risco para todos os indivíduos. Já os ecologistas lidam com a prevenção da extinção de populações e comunidades, focando nos desequilíbrios de sistemas naturais. Resumindo, enquanto os toxicologistas ignoram as florestas em benefício das árvores, os ecólogos fazem exatamente o inverso. Reconhecer os vieses destas duas disciplinas é primordial para que a ecotoxicologia possa ocupar a dianteira da moderna ciência aplicada. A Revinter tem investido na consolidação desta posição, abordando temas que envolvem as diferentes facetas da toxicologia e ecologia, amalgamando as questões ambientais e sócio-ambientais associadas à atividade humana. Neste volume trazemos artigos de atualização ligados ao gerenciamento de risco químico cobrindo temas como Abordagem pragmática para avaliação qualitativa de risco químico, Limites de Exposição Ocupacional, e Sistema de Classificação de perigo; ensaios sobre toxicologia e sustentabilidade; e artigos originais que abordam a eficiência de conceitos estritamente ecológicos no diagnostico e na previsão de impacto ambientais. Desejamos a todos uma boa leitura e esperamos que o conteúdo da Revista seja proveitoso e sirva de estímulo a publicar e debater conosco.

Maurea Nicoletti Flynn

Editora Convidada

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A Revista Revinter adota as seguintes normas, que deverão ser observadas pelos autores, na redação e formatação de seus originais: ABNT

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ASSOCIAÇÃO

BRASILEIRA

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NBR 6021: Informação e documentação: publicação periódica científica impressa: apresentação. Rio de Janeiro, maio 2003. NBR 6022: informação e documentação: artigo em publicação periódica científica impressa: apresentação. Rio de Janeiro, maio 2003. NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro, ago. 2002. NBR 6024: numeração progressiva das seções de um documento escrito. Rio de Janeiro, maio 2003. NBR 6027: sumário: procedimento. Rio de Janeiro, maio 2003. NBR 6028: informação e documentação: resumos: apresentação. Rio de Janeiro, nov. 2003. NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro, ago. 2002. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA - IBGE Normas de apresentação tabular. 3. ed. Rio de Janeiro, 1993.

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Normas de publicação INSTITUTO

NACIONAL

DE

RevInter

METROLOGIA,

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NORMALIZAÇAO

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QUALIDADE INDUSTRIAL – INMETRO SI: Sistema Internacional de Unidades. 8. ed. Brasília, 2003. Vocabulário internacional de termos fundamentais e gerais de metrologia. 2. ed. Brasília, 2000. CRITÉRIOS DE EDIÇÃO Instruções aos Autores São aceitos artigos originais e inéditos, destinados exclusivamente à RevInter, que contribuam para o crescimento e desenvolvimento da produção científica das áreas enfocadas. A análise dos artigos será iniciada no ato de seu recebimento, atendidas às normas editoriais. A publicação dependerá do devido de acordo do Conselho Editorial, atendida as eventuais sugestões. A apreciação do conteúdo será realizada pelo Conselho Editorial, sendo mantido sigilo quanto à identidade dos consultores e dos autores. Serão aceitos trabalhos escritos em língua portuguesa, inglesa e espanhola. Os trabalhos deverão ser enviados exclusivamente por correio eletrônico para o seguinte endereço: revinter@intertox.com.br Os originais recebidos não serão devolvidos aos autores. ________________________________________________________________________________________________ RevInter Revista InterTox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, São Paulo, v. 4, n. 3, p. 08-273, out. 2011.


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Não se permitirá acréscimo ou alteração após o envio para composição editorial e fechamento do número. As opiniões e conceitos emitidos pelos autores são de sua exclusiva responsabilidade, não refletindo, necessariamente, o pensamento do Conselho Editorial ou da Revista. As pesquisas com seres humanos deverão explicitar o atendimento à Resolução CNS 196/96 para estudos dessa natureza e indicar o parecer de aprovação do Comitê de Ética devidamente reconhecido pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) do Conselho Nacional de Saúde (CNS) (ver modelo em “Manual Operacional para Comitês de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde”). Será necessário também: • Indicar a categoria para publicação. • Indicar endereço postal completo, correio eletrônico e telefone para contato com o(s) autor(es). • Toda e qualquer contribuição a ser submetida, para que seja avaliada para publicação na RevInter, obrigatoriamente deverá ser acompanhada dos seguintes formulários: a) Termo de Cessão de Direitos Autorais e Autorização para Publicação [Formulário Externo RvIn-ADM-02-2009] assinada por todos os autores de que o trabalho não foi publicado e nem está sendo submetido para publicação em qualquer outro periódico. Para os estudos realizados em seres humanos, esta declaração deverá conter também os dados referentes à aprovação do Comitê de Ética da Instituição onde foi realizada a pesquisa; b) Formulário preenchido e assinado pelos autores referente ao possível “Conflito de interesses”, que possa influir nos resultados [Formulário Externo RvIn-ADM-03-2009]. ________________________________________________________________________________________________ RevInter Revista InterTox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, São Paulo, v. 4, n. 3, p. 08-273, out. 2011.


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Instruções para Envio do Artigo A RevInter adota as normas preconizadas pelo Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (Requisitos de Vancouver), publicadas no ICMJE - Uniform Requirements

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Submitted

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Biomedical

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(http://www.icmje.org/index.html). Categoria dos Artigos A RevInter publica artigos técnicos originais,

trabalhos de revisão, ensaios,

atualização, estudos de caso e/ou relatos de experiência, comunicações e resenhas de livros, resumos de teses e dissertações. A apresentação dos artigos por categoria deverá obedecer: Artigos Originais - são trabalhos resultantes de pesquisa original, de natureza quantitativa ou qualitativa. Sua estrutura deve apresentar necessariamente os itens: Introdução, Métodos, Resultados e Discussão e Conclusão. Apresentação com até 20 laudas. Artigos de Revisão - são contribuições que têm por objeto a análise crítica sistematizada da literatura. Deve incluir com clareza a delimitação do problema, dos procedimentos adotados e conclusões. Apresentação com até 20 laudas. Ensaios e Monografias - são contribuições em que há um forte conteúdo analítico opinativo por parte do autor acerca de um determinado tema. Apresentação com até 100 laudas.

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Artigos de Atualização ou Divulgação - são trabalhos que tem por objetivo a descrição e/ou interpretação sobre determinado assunto, considerado relevante ou pertinente na atualidade. Apresentação em até 10 laudas. Comunicações Breves/Relatos de Caso/Experiência - se caracterizam pela apresentação de notas prévias de pesquisa, relatos de caso ou experiência, de conteúdo inédito ou relevante, devendo estar amparada em referencial teórico que dê subsídios a sua análise. Apresentação em até 10 laudas. Resenhas – são análises descritivas e analíticas de obras recentemente publicadas e de relevância para os temas abordados da RevInter. Apresentação em até cinco laudas. Resumos de Livros, Teses e Dissertações - são resumos expandidos apresentados com até 400 palavras, em português, inglês e espanhol, inclusive o título. Para teses e dissertações

deve

conter

o

nome

do

orientador,

data

e

local

(cidade/programa/instituição) da defesa. Forma de Apresentação dos Originais Os trabalhos deverão ser apresentados em formato compatível ao MS Word for Windows, digitados para papel tamanho A4, com letra tipo Times New Roman, tamanho 12, com espaçamento 1,5 cm entre linhas em todo o texto, margens 2,5 cm (superior,

inferior,

esquerda

e

direita),

parágrafos

alinhados

em

1,0

cm.

Título - deve ser apresentado com alinhamento justificado, em negrito, com a primeira letra em maiúscula, nos idiomas português e inglês ou espanhol. A seqüência de apresentação dos mesmos deve ser iniciada pelo idioma em que o artigo estiver escrito. Autores - nome(s) completo(s) do(s) autor(es) alinhados à esquerda. Enumerar em nota no final do documento as seguintes informações: formação universitária, titulação, ________________________________________________________________________________________________ RevInter Revista InterTox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, São Paulo, v. 4, n. 3, p. 08-273, out. 2011.


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atuação profissional, local de trabalho ou estudo (cidade e estado, província, etc), endereço para correspondência e e-mail do autor principal. Resumo e descritores - devem ser apresentados na primeira página do trabalho em português e inglês ou espanhol, digitados em espaço simples, com até 300 palavras. Ao final do resumo devem ser apontados de 3 a 5 descritores ou palavras chave que servirão para indexação dos trabalhos. A seqüência dos resumos deve ser a mesma dos títulos dos artigos. Estrutura do texto - a estrutura do texto deverá obedecer às orientações de cada categoria

de

trabalho

descrita

anteriormente,

acrescida

das

referências

bibliográficas, de modo a garantir uma uniformidade e padronização dos textos apresentados pela revista. Os anexos (quando houver) devem ser apresentados ao final do texto. Ilustrações - tabelas, figuras e fotografias devem estar inseridas no corpo do texto contendo informações mínimas pertinentes àquela ilustração (Por ex. Tabela 1; Figura 2; etc.), inseridas logo após serem mencionadas pela primeira vez no texto, com letra tipo Times New Roman, tamanho 10. As Ilustrações e seus títulos devem estar alinhados á margem esquerda e sem recuo. O tamanho máximo permitido é de um papel A4 (21 x 29,7 cm). Notas

de

rodapé

-

devem

ser

apresentadas

quando

forem

absolutamente

indispensáveis, indicadas por números e constar na mesma página a que se refere. Citações - para citações “ipsis literis” de referências bibliográficas deve-se usar aspas na seqüência do texto. As citações de falas/depoimentos dos sujeitos da pesquisa deverão ser apresentadas em itálico, em letra tamanho 10, na seqüência do texto.

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Referências bibliográficas - as referências devem ser organizadas em ordem alfabética ao final do texto, no formato ABNT (seguindo a norma ABNT NBR 6023 - Informação e documentação - Referências – Elaboração). Suas citações no corpo do texto devem ser feitas pelo sobrenome do(s) autor(es), seguidas de vírgula e ano. No caso de mais de dois autores, usar o sobrenome do primeiro seguido da expressão et al. e de vírgula e ano. Exemplificando, (NUNES; LACERDA, 2008), (KUNO et al., 2008). Essa orientação também se aplica para tabelas e figuras.

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Abordagem Pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico Camilla Colasso Farmacêutica e bioquímica, formada pela Universidade Paulista, Mestre em Toxicologia pela Universidade de São Paulo (USP/FCF). Cursos de Análises Toxicológicas de fármacos/drogas de abuso pela Universidade de São Paulo – (USP/FCF); Curso de Avaliação Qualitativa de Riscos Químicos – International Chemical Control Toolkit; conhecimentos de técnicas analíticas como HPLC/UV; GC/NPD; GC/MS, em técnicas de preparo de amostras toxicológicas; monitorização biológica de exposição ocupacional aos BTX. Analista de Risco Toxicológico da Intertox Ltda. Email: c.colasso@intertox.com.br

Resumo As substâncias químicas são utilizadas desde os primórdios da civilização humana para os mais diversos fins. O crescimento dos processos produtivos, armazenamento e transporte de substâncias químicas no mundo provocaram um aumento no número de indivíduos e das comunidades expostas aos riscos inerentes a estas atividades laborais. Trabalhadores de todo o mundo estão expostos a compostos químicos diariamente, e devido a essa preocupação, higienistas ocupacionais trabalham constantemente para desenvolver maneiras de proteger os trabalhadores, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, abrangendo tanto pequenas, médias quanto grandes empresas. Visando reduzir a exposição dos trabalhadores em relação aos agentes químicos, atualmente são propostas “caixas de ferramentas” para gerenciar o risco ocupacional. Uma delas é conhecida como Toolbox, que é baseada na avaliação qualitativa de risco e contem uma série de Toolkits – ferramentas semiquantitativas de gerenciamento de risco. Os Toolkits são baseados num conceito conhecido como “Control Banding” – controle por faixas/bandas. Organizações Internacionais como ILO, OSHA e HSE vem promovendo a divulgação COLASSO, Camilla. Abordagem pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 8-19, out. 2011. 8


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internacional essa ferramenta, mais conhecida como International Chemical Control Toolkit. Palavras-chave: Abordagem Pragmática. Avaliação Qualitativa. Risco Químico.

Abstract Chemicals are used since the dawn of human civilization for many different purposes. The growth of production processes, storage and transport of chemicals in the world led to an increase in the number of individuals and communities exposed to the inherent risks in such work activities. Workers are exposed to chemicals worldwide every day, and because of such situation, occupational hygienists are constantly working to develop ways to protect workers, both as in developed as in developing countries, covering equally small, medium and large companies. To reduce the exposure of workers to chemical agents, “toolboxes” are being currently proposed to manage the occupational hazard. One of them is known as Toolbox, which is based on qualitative assessment of risk management. The toolkits are bases on a concept known as “Control Banding” – range/tracks. International organizations such as ILO, OSHA, HSE has been promoting the international release of this tool, which is known as International Chemical Control Toolkit. Keywords: Pragmatic Approach. Qualitative Assessment. Chemical Risk. INTRODUÇÃO As substâncias químicas são utilizadas desde os primórdios da civilização humana para os mais diversos fins. A partir da II Guerra Mundial, o desenvolvimento tecnológico nos processos químico-industriais foi acelerado pelo capitalismo e pela globalização da economia, o que resultou na expansão da COLASSO, Camilla. Abordagem pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 8-19, out. 2011. 9


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produção, armazenamento, circulação e, principalmente, consumo de compostos químicos no âmbito mundial (FREITAS et al., 2002; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006). Em 1950, a comercialização mundial de substâncias químicas era de 7 milhões de toneladas, em 1970 passou para 63 milhões de toneladas, em 1985 chegou a 250 milhões e mais de 300 milhões no início da década de 1990, ultrapassando os 400 milhões de toneladas em 2000 (FREITAS et a., 2002; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006). Em 2009, o faturamento mundial da indústria química foi de 3,7 trilhões de dólares. Os produtos químicos representam 12% do comércio mundial de produtos manufaturados (RIBEIRO et al., 2010). A produção de substâncias químicas é extremamente diversificada, desde compostos químicos básicos para a produção de praguicidas, solventes, aditivos e produtos farmacêuticos, até matérias-primas ou produtos acabados que participam nas mais diversas etapas dos processos produtivos de praticamente todas as cadeias produtivas existentes (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006). Segundo o Programa Internacional de Segurança Química (PISQ), criado em 1972 através da Conferência Mundial das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, existem mais de 750 mil substâncias conhecidas e cerca de 70 mil são rotineiramente utilizadas pelo homem. Porém, do total de compostos existentes, estima-se que apenas 6 mil substâncias possuam uma avaliação considerada minimamente adequada quanto os possíveis riscos à saúde humana e ao meio ambiente (FREITAS et al., 2002). A ampla utilização de produtos químicos resultou em uma maior conscientização da sociedade dos riscos envolvidos, e, como resultado, o desenvolvimento de regulamentações específicas, como para o transporte, produção, classificação, comércio, locais de trabalho, entre outras (FREITAS, et al., 2002). O crescimento dos processos produtivos, o armazenamento e o transporte de substâncias químicas no mundo provocaram um aumento no número de indivíduos expostos aos riscos inerentes a estas atividades laborais e suas COLASSO, Camilla. Abordagem pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 8-19, out. 2011. 10


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comunidades. A convivência com compostos químicos atualmente é obrigatória e permanente, particularmente e com grande importância para os trabalhadores envolvidos direta ou indiretamente nos processos produtivos de produtos químicos, e a exposição a muitos deles pode causar danos à saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006; RIBEIRO et al., 2010). Avaliação Qualitativa de Riscos Químicos Trabalhadores de todo o mundo podem estar diariamente expostos a compostos químicos, fato que preocupa higienistas ocupacionais que trabalham constantemente para desenvolver maneiras de proteger os trabalhadores, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, abrangendo pequenas, médias e grandes empresas. O grande desafio para os higienistas é conseguir desenvolver programas que sejam viáveis, principalmente para os países em desenvolvimento, pois é neles que ocorrem muitos casos de acidentes envolvendo trabalhadores (PAPP et al., 2004). Atualmente, mesmo com grande conhecimento e técnicas disponíveis para prevenção e controle dos fatores de risco no ambiente de trabalho, ainda há imensas dificuldades para sua aplicação. Mundialmente falando, um ambiente de trabalho saudável ainda é um privilégio de poucos, e muitos trabalhadores permanecem expostos frequentemente aos riscos ocupacionais (EIJKEMANS, GOELZER, 2004). Mesmo nos países desenvolvidos há uma lacuna entre o conhecimento dos riscos e a aplicação de medidas de prevenção. Geralmente, o processo de prevenção falha devido à dificuldade de aplicar o conhecimento adaptado às condições específicas de trabalho (EIJKEMANS, GOELZER, 2004). Observações realizadas em diversos países, particularmente em países em desenvolvimento, revelam que as restrições mais comuns para a implementação efetiva de estratégias adequadas para controle do risco incluem: (i) falta de conhecimento, educação e política; (ii) falta de recursos financeiros e humanos; (iii) deficiências na informação/ acesso à informação e na comunicação entre COLASSO, Camilla. Abordagem pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 8-19, out. 2011. 11


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profissionais e instituições; (iv) abordagens preventivas inadequadas (incluindo muita confiança nas avaliações quantitativas) e (v) fracasso na tentativa de envolver os trabalhadores e seus representantes diretos na resolução dos problemas durante o processo (EIJKEMANS, GOELZER, 2004). Assim, pensando em minimizar os riscos, a avaliação qualitativa de risco torna-se uma vantajosa opção. A avaliação qualitativa de risco químico, como um processo de estimativa do risco químico resultante da exposição a um agente específico, em função do uso ou existência do mesmo no ambiente, leva em consideração os seguintes fatores: (i) os efeitos adversos para o indivíduo ou grupo que está em contato com o agente, (ii) as quantidades utilizadas, (iii) o estado físico do agente químico e (iv) as possíveis vias de exposição (RIBEIRO et al., 2010). Visando a reduzir a exposição dos trabalhadores em relação aos agentes químicos atualmente são propostas “caixas de ferramentas” para gerenciar o risco ocupacional. Uma delas é conhecida como Toolbox, que é baseada na avaliação qualitativa de risco (PAPP et al., 2004; VICKERS, 2004) e contém uma série de Toolkits – ferramentas semi-quantitativas de gerenciamento de risco. Os Toolkits são baseados no conceito conhecido como “Control Banding” – controle por faixas/bandas. Este conceito foi proposto desde 1980 por especialistas na área ocupacional da indústria farmacêutica. Eles observaram que diversos agentes poderiam ser classificados em faixas (bands), de acordo com sua toxicidade e de acordo com as restrições de exposição (NIOSH, 2009; NAUMANN, 2005). O Control Banding divide-se em: (i) faixas/bandas de perigo; (ii) faixa/banda de exposição; (iii) faixas/bandas de controle; e (iv) orientações para medidas de controle (PAPP et al., 2004; NIOSH, 2009). O modelo mais desenvolvido para a aplicação do Control Banding foi publicado pelo Health and Safety Executive (HSE, Reino Unido), em 1998. Tratase do guia de orientação conhecido como COSHH Essentials – Easy steps to Control Health Risks from Chemicals (EVANS, GARROD, 2004; HSE, 1999).

COLASSO, Camilla. Abordagem pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 8-19, out. 2011. 12


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Este guia foi desenvolvido para recomendar, quando é possível, medidas preventivas para controle do risco, a partir de informações obtidas dos processos e atividades realizados. O guia gerou discussão na comunidade européia de higienistas ocupacionais. Muitos dos profissionais o classificaram como uma ferramenta de fácil utilização e aplicação, e, assim, considerado apropriado à realidade das empresas (RIBEIRO et al., 2010). O método apresentado no guia foi minuciosamente estudado e permitiu a estimativa da exposição esperada em situações específicas, sem avaliações quantitativas,

e

propôs

medidas

de

controle

adequadas

(EIJKEMANS,

GOELZER, 2004). Assim, a ILO (International Labour Organization) e a WHO (World Health Organization) reconheceram o potencial do COSHH Essentials e iniciaram um movimento para promovê-lo internacionalmente, a fim de contribuir para alcançar o controle do risco ocupacional (RIBEIRO et al, 2010). O COSHH Essentials foi adaptado na forma de um Toolkit, denominado International Chemical Control Toolkit (ICCT) (ILO, 2011). O principal objetivo desta ferramenta é apoiar os países em desenvolvimento a concentrar seus esforços no controle do risco ocupacional, em vez de apenas focar na avaliação de risco (ILO, 2006; IOHA, 2010). Para realizar a divulgação internacional do ICCT, um grupo técnico foi escolhido em 2004, com representantes da WHO, IPCS (International Programme on

Chemical

Safety),

ILO,

IOHA

(International

Occupational

Hygiene

Association), HSE, NIOSH (National Institute for Occupational Safety and Health) e GTZ (Gesselschatf für Technisch Zusammenarbeit), para estruturar um projeto, intentando a germinação do mesmo. Uma reunião foi organizada pela WHO e IPCS, em junho de 2004, na Holanda, com objetivo de lançar ação eficaz em países selecionados, incluindo a elaboração de modelos e estratégias para a implementação da ferramenta (EIJKEMANS, GOELZER, 2004). Os projetos-piloto foram desenvolvidos baseados nas seguintes fases: planejamento, implementação, avaliação e propostas de melhora. O projeto também inclu��a treinamento, desenvolvimento e adaptação de práticas e soluções

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preventivas eficazes para o ambiente de trabalho (EIJKEMANS, GOELZER, 2004). Representantes de quatro países (Brasil, Índia, Benin e África do Sul) participaram do projeto piloto para a implementação inicial da ferramenta, e a partir

dessa

experiência

o

ICCT

foi

expandido

para

diversos

países

(EIJKEMANS, GOELZER, 2004). O Brasil, representado pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), decidiu focar o projeto-piloto com pequenas e médias empresas que utilizam produtos químicos (RIBEIRO, FILHO, 2006). International Chemical Control Toolkit Muitos trabalhadores estão expostos a riscos no ambiente de trabalho, e isso se deve a falta de programas que sejam embasados, bem estruturados e eficientes. Muita atenção é dada na vigilância e serviços médicos quanto à detecção e tratamento de doenças ocupacionais, e pouca atenção para o desenvolvimento de medidas preventivas. Os problemas observados são a falta de comunicação do risco e informações para os trabalhadores. Muita ênfase é dada as avaliações quantitativas, tanto da exposição quanto do risco, e, infelizmente, muitas vezes elas acontecem de forma a apenas atender as legislações, sem estratégias coerentes de amostragem e com resultados que não traduzem a realidade da exposição no ambiente de trabalho (RIBEIRO et al., 2010). A implementação de um sistema qualitativo de prevenção e controle à exposição ocupacional torna-se uma método atrativo por diversos fatores, entre eles: complementa os métodos tradicionais de controle e avaliação; é um método simples e aplicável; tem baixo custo; pode ser aplicado em diversos setores industriais (PAPP et al., 2004). Os objetivos desse tipo de avaliação qualitativa de riscos químicos são (i) facilitar (nos casos possíveis) a recomendação de ações preventivas, sem esperar pelas avaliações quantitativas que acarretam custos elevados e especialistas no COLASSO, Camilla. Abordagem pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 8-19, out. 2011. 14


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assunto, e não demonstram a real situação de exposição; (ii) permitir a tomada de decisão referente à exposição e controle da mesma; (iii) colaborar com as empresas a reconhecerem a existência de riscos químicos à saúde dos trabalhadores no local de trabalho e a necessidade de tomarem decisões para controlá-las e orientar na escolha de medidas adequadas (ILO, 2006). Metodologia Com visão focada em fornecer subsídios para o manuseio seguro de compostos químicos, a ferramenta é dividida em cinco etapas, conforme ilustra a figura abaixo:

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A primeira etapa da ferramenta consiste em classificar o potencial de perigo da substância. A classificação pode ser baseada nas frases R (Sistema de classificação da Comunidade Européia) ou no GHS (Sistema de classificação proposto pela ONU) (ILO, 2006; RIBEIRO et al, 2011). Com base na exposição, por meio ingestão ou inalação do composto, os perigos são alocados em cinco grupos distintos, do A ao E de acordo com o potencial de causar danos à saúde.. As substâncias que apresentam maior potencial para causar efeitos adversos à saúde humana estão alocadas no grupo E e as com menor potencial estão alocadas no grupo A. O grupo S abrange os compostos químicos com potencial de provocar efeitos adversos em contato com a pele e olhos (ILO, 2006; RIBEIRO et al., 2011). A segunda etapa da ferramenta consiste na determinação da quantidade do composto químico utilizado no processo/operação e, alguns casos, a quantidade utilizada por dia. Para a determinação da quantidade, há uma tabela que descreve a quantidade utilizada em: (i) gramas (sólidos) e mililitros (líquidos) – quantidade pequena; (ii) kilogramas (sólidos) e litros (líquidos) – quantidade média; e (iii) toneladas (sólidos) e metros cúbicos (líquidos) – quantidade grande (ILO, 2006; RIBEIRO et al., 2011). A terceira etapa da ferramenta fundamenta-se na determinação da propagação da substância química no ambiente e, a forma física é o que determina essa dispersão do composto no ambiente. Quando a substância se encontra na forma sólida, avalia-se a quantidade de poeira produzida durante o processo/atividade, enquanto para líquidos a volatilidade do composto é o que determina sua dispersão. Nesta etapa deve-se verificar se o processo/atividade é realizado em temperatura ambiente ou não (ILO, 2006). A quarta etapa da ferramenta é a junção das informações obtidas nas etapas anteriores, pois é através delas que será possível a determinação de qual medida de controle será necessária para a próxima etapa (ILO, 2006). A quinta etapa identifica quais as medidas necessárias para uma atividade específica, que pode ser desde ventilação geral, controle de engenharia, até a restrição, e, em último estágio, uma medida especial, em que é preciso a COLASSO, Camilla. Abordagem pragmática para Avaliação Qualitativa de Risco Químico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 8-19, out. 2011. 16


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assessoria especializada para definir quais as medidas de controle necessárias onde há uma elevada exposição durante o processo (ILO, 2006). Considerações finais O International Chemical Control Toolkit é um método simples e aplicável para prevenção e controle à exposição ocupacional, pois complementa os métodos tradicionais de controle e avaliação de risco, tem baixo custo, o tempo de capacitação para aplicação do método é curto e pode ser aplicado em diversos setores industriais. Conforme relatado pela Fundacentro, algumas empresas brasileiras já aderiram ao método ICCT proporcionando melhorias nas condições de trabalho. Além destes casos conduzidos pela própria Fundacentro, o Brasil possui empresas capacitadas na área de gerenciamento do risco químico com Know-how comprovado para auxiliar a implementação desta ferramenta de trabalho.

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RIBEIRO, M.G. et al. Avaliação Qualitativa de Riscos Químicos: orientações básicas para o controle da exposição a produtos químicos em gráficas. São Paulo: Fundacentro, 2011. RIBEIRO, M.G.; FILHO, W.R.P. Risk assessment of chemicals in foundries. The International chemical Toolki pilot-project. Journal of Hazardous Materials A. v. 136. p. 432-437, 2006. VICKERS, C. Occupational risk management toolbox global implementation strategy. The Global Occupational Health Network. Issue 07. WHO. 2004.

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Limites de Exposição Ocupacional: estudo comparativo entre valores aplicados no Brasil e nos EUA Ana Carolina Pedroza Farmacêutica-bioquímica, pós-graduanda de Ciências Toxicológicas das Faculdades Oswaldo Cruz. Experiência com atendimento ao cliente (agente de relacionamento SIC), informações médicas, farmacovigilância e reclamações técnicas. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos FISPQ, Ficha de Emergência, e rótulo). E-mail: a.predoza@intertox.com.br

Aretha Sessa Rodrigues Farmacêutica especializada em Toxicologia Analítica pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Experiência em laboratório de análises físico-químicas, ecotoxicologia e controle de qualidade. Participação ativa em projetos de pesquisa na área toxicológica. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos, Ficha de Emergência e rótulo). Instrutora de cursos na área de Segurança Química asessa@intertox.com.br pela Intertox. E-mail:

Carolina Francisquette de Sousa Cursando Farmácia e Bioquímica pelas Faculdades Oswaldo Cruz. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos -FISPQ-, Ficha de Emergência e rótulo). E-mail: carolina@intertox.com.br

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Fabriciano Pinheiro Diretor de Gerenciamento de Risco Toxicológico e Segurança Química da Intertox. Biomédico, IB-UNESP/Botucatu. Mestre em Toxicologia e Análises Toxicológicas, FCF-USP/SP. Coordenador e professor do curso de pós-graduação Ciências Toxicológicas das Faculdades Oswaldo Cruz/SP. Coordenador da Comissão de Estudos “Informações sobre Segurança, Saúde e Meio Ambiente relacionados a Produtos Químicos” (CE-10:101.05) do Comitê Brasileiro de Química (ABNT/ CB-10). E-mail: fabriciano@intertox.com.br

Resumo A saúde ocupacional busca a prevenção dos danos à saúde causados por contaminantes químicos presentes no ambiente de trabalho, fazendo com que os níveis desta exposição sejam mantidos em valores aceitáveis. Estes níveis são definidos através dos limites de exposição ocupacional e são estabelecidos visando a não manifestação de efeitos adversos decorrentes da exposição química. Atualmente, inúmeras legislações mundiais abordam o tema referente à exposição segura a compostos químicos no ambiente de trabalho. Os valores estabelecidos pela reconhecida agência norte-americana, American Conference of Governmental Industrial Hygienists (ACGIH) foram adequados pelo Ministério de Trabalho e Emprego brasileiro e publicados por meio da Lei nº 6.514 (22/12/1977) e sua Norma Regulamentadora n° 15 (NR15).

Este

trabalho de revisão teve como objetivo apresentar e discutir divergências existentes entre regulamentações que definem limite de exposição ocupacional no Brasil (NR15/LT-Limite de Tolerância) e nos Estados Unidos da América (ACGIH/TLV-Threshold Limit Value). Foram estudados os limites de exposição estabelecidos por esses países. Constatou-se considerável divergência quanto ao número de limites apresentados e também diferenças nos valores de limites de exposição; tanto redução como aumento de valores.

Estas diferenças são

comuns, sobretudo, porque a ACGIH revisa e atualiza anualmente seus limites PEDROZA, Ana Carolina. et al. Limites de Exposição Ocupacional: estudo comparativo entre valores aplicados no Brasil e EUA. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 20-29, out. 2011. 20


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de exposição com base em estudos recentes de avaliação de risco, enquanto no Brasil a NR15 teve sua última revisão em 1994, contudo, sem alteração nos valores dos LT. Conclui-se que os limites de exposição ocupacional descritos na legislação brasileira encontram-se consideravelmente desatualizados frente a agências de reconhecimento mundial, evidenciando a necessidade de novos estudos de avaliação de risco focados na exposição ocupacional do trabalhador brasileiro e, principalmente, da sua saúde e segurança. Palavras-chave: Limite de exposição ocupacional. Limite de tolerância. Segurança ocupacional. Abstract The occupational health aimed at preventing damage to health caused by chemical contaminants in the environment of work, ensuring that this exposure levels are maintained at acceptable values. These levels are defined as occupational exposure limit which are established with a view of not expressing adverse effects following chemical exposure. Currently, several global laws approach the issue regarding safe exposure to chemicals in the workplace. The values set by acknowledged U.S. agency, American Conference of Governmental Industrial Hygienists (ACGIH) were adequate by the Ministry of Labor and Employment and published on the Brazilian Law n° 6514 (12/22/1977) and the Norma Regulamentadora n°15 (NR15). This review aimed to present and discuss differences between regulations that define occupational exposure limit in Brazil (NR15/LT- Limite de Tolerância) and the United States of America (ACGIH/TLV-Threshold Limit Value). The exposure limits set by these countries were studied. There is considerable disagreement about the number of boundaries and also presented differences in the values of exposure limits, both reduced and increased values. These differences are common, largely because the ACGIH annually reviews and updates its exposure limits based on recent studies of risk assessment, while in Brazil, PEDROZA, Ana Carolina. et al. Limites de Exposição Ocupacional: estudo comparativo entre valores aplicados no Brasil e EUA. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 20-29, out. 2011. 21


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NR15 was last updated in 1994, however, no change in the values of LT. We conclude that occupational exposure limits described in Brazilian law are considerably outdated front of agencies worldwide recognition, highlighting the need for further risk assessment studies focused on occupational exposure of Brazilian

workers,

and

especially

its

health

and

safety.

Keywords: Occupational Exposure Limit. Tolerance Limit. Occupational Safety. INTRODUÇÃO A saúde ocupacional busca a prevenção dos danos à saúde causados por contaminantes químicos presentes no ambiente de trabalho, fazendo com que os níveis desta exposição sejam mantidos em valores aceitáveis. Estes níveis são definidos através dos limites de exposição ocupacional e são estabelecidos visando a não manifestação de efeitos adversos decorrentes da exposição química. Atualmente, inúmeras legislações mundiais abordam o tema referente à exposição segura a compostos químicos no ambiente de trabalho. Neste contexto, durante a gestão de riscos, os efeitos para a saúde são categorizados numa escala de intensidade que consideram os efeitos adversos observados e compreende: (i) efeito adverso não observado - NOAEL (No Observed Adverse Effect Level) e (ii) valor com menor efeito adverso observado LOAEL (Lowest Observed Adverse Effect Level). É a partir do conhecimento do NOAEL e/ou LOAEL que se fixam os valores máximos admissíveis da exposição ocupacional, ou valores limite de exposição. Estes correspondem a mais elevada concentração de uma substância química a que a grande maioria dos indivíduos de uma população trabalhadora pode estar exposta, dia após dia, sem que resulte na ocorrência de determinado efeito adverso para a saúde.

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Uva e Faria (2000) descrevem os dois tipos principais de limites de exposição: - TWA (Time-Weighted Average): É considerada a concentração média ponderada durante os 5 dias de trabalho de uma semana de 40 horas. No Brasil, o limite de tolerância teve este valor reajustado para uma jornada de trabalho de 48 horas semanais; -

Ceiling:

A

concentração

máxima,

ou

valor

teto,

que

mesmo

instantaneamente, nunca deve ser excedida; - STEL (Short-Term Exposure Limit): Concentrações médias ponderadas, por períodos de 15 minutos, que não devem ser ultrapassadas ao longo de toda a jornada de trabalho Os limites de exposição ocupacional são expressos em massa por volume de ar (mg/m3) e/ou volume por volume de ar, isto é, em partes por milhão (ppm), a depender das características da substância. Entre as referências estrangeiras mais atualizadas, estão os TLV® – Threshold Limit Values, que são editados anualmente pela American Conference of Governmental Industrial Hygienists/USA (ACGIH), uma instituição não governamental, privada, sem fins lucrativos, cujos membros são higienistas ocupacionais ou outros profissionais de segurança e saúde ocupacional dedicados a promover a saúde e a segurança dentro de um local de trabalho. Na condição de entidade científica, conta com comitês que analisam e compilam dados publicados na literatura científica e publicam guias de orientação, denominados TLV e Biological Exposure Indices (BEIs®), para a utilização por higienistas ocupacionais na tomada de decisões em relação a níveis de exposição seguros de vários agentes químicos e físicos encontrados no ambiente de trabalho. Esta associação não possui força de Lei, sendo a OSHA (Occupational Safety and Health Administration), a agência dos EUA ligada ao Ministério do Trabalho americano, incumbida da regulamentação dos valores

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limites no ambiente laboral. Entretanto, é possível observar a existência de um consenso entre os valores estabelecidos pela ACGIH e OSHA (PEIXE; NASCIMENTO; PINHEIRO, 2009). Os órgãos do governo estabelecem padrões de saúde pública, baseados em seu arcabouço legal, incluindo definições e critérios relativos à forma de identificar e gerenciar riscos. Na maioria dos casos, os órgãos governamentais que determinam padrões de saúde e segurança nos locais de trabalho são obrigados a avaliar os efeitos à saúde, a viabilidade econômica e técnica, bem como a disponibilidade de métodos aceitáveis para determinar a conformidade com o padrão. Países que não desenvolveram seus próprios limites de exposição ocupacional costumam adotar critérios definidos por outras nações. Este é o caso do Brasil, onde limites de exposição importados de outras realidades ganharam status de lei a partir da consolidação das Leis do Trabalho (Lei nº 6.514

(22/12/1977),

posteriormente

disciplinados

através

da

Norma

Regulamentadora nº 15 (NR15), do Ministério do Trabalho, que define entre outras coisas, a insalubridade cabível ao trabalhador exposto (Cordeiro; LimaFilho, 1995). No Brasil, a adoção dos critérios se deu por parte da ACGIH e a adequação dos valores limitou-se a uma discutível redução proporcional de todos os valores a 78% sob o pretexto de adaptação de 40 para 48 horas semanais de exposição. (ROSA et al, 2008) No anexo 11 da NR-15 estão fixadas as substâncias cuja insalubridade é caracterizada por Limites de Tolerância e fornece uma tabela de valores. Se estes valores ultrapassarem os limites, fica caracterizada a insalubridade, resultando na obrigatoriedade de proporcionar um adicional de 10, 20 ou 40% do salário mínimo ao trabalhador exposto, o qual não visa necessariamente proteger sua saúde, embora no início da NR-15 exista a citação sobre o Limite PEDROZA, Ana Carolina. et al. Limites de Exposição Ocupacional: estudo comparativo entre valores aplicados no Brasil e EUA. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 20-29, out. 2011. 24


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de Tolerância, que se refere à proteção da saúde do trabalhador durante a sua vida laboral. (ROSA et al, 2008) Em países desenvolvidos, apesar dos LT serem frequentemente definidos sem qualquer sustentação científica, a luta organizada dos trabalhadores consegue algumas vezes obrigar a redução dos valores-limite considerados mais permissivos. No Brasil, contudo, os sindicatos de trabalhadores não têm obtido grandes resultados nessa área, mesmo sabendo-se que a maioria dos LT não tem real base científica e que não foram feitos estudos específicos para as condições aqui existentes, copiando-se valores de outros países sem qualquer crítica ou, no máximo, fazendo-se pequenas adaptações. Além disso, o desrespeito ao trabalhador é tanto que nossa legislação tem problemas outros como o fato de que apenas 27 doenças profissionais ou do trabalho são reconhecidas para fins de indenização; o não reconhecimento da exposição a agentes interatuantes; e, em caso de insalubridade constatada, é vedada a percepção de adicional cumulativo, só valendo o grau mais elevado (VASCONCELOS, 1995).

Objetivo Este trabalho de revisão teve como objetivo apresentar e discutir divergências existentes entre regulamentações que definem limite de exposição ocupacional no Brasil (NR15/LT-Limite de Tolerância) e nos Estados Unidos da América (ACGIH/TLV-Threshold Limit Value). Metodologia Estudou-se a fundo cada um dos documentos que estabelecem os limites de exposição - 2010 TLVs® and BEIs®, ACGIH (EUA) e a NR-15 (Brasil) fazendo, sobretudo, a comparação entre os valores listados em cada normativa.

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Para este estudo, foram avaliados somente parâmetros estabelecidos para limites de exposição do tipo TWA. Resultados e discussão Constatou-se inicialmente considerável divergência quanto ao número de limites apresentados, enquanto a ACGIH trazia em sua listagem oficial de 2010 aproximadamente 700, a NR15 apresenta apenas 202 produtos químicos com limite estabelecido. Foram observadas diferenças preocupantes nos valores de limites como, por exemplo, do cloreto de vinila que possui um limite de tolerância de 156 ppm na NR15, enquanto na ACGIH o limite é 1 ppm. Diferenças de redução de valores como a citada para o cloreto de vinila são comuns em toda a lista, ocorrendo também para substâncias como butadieno, acrilonitrila e tolueno. O inverso também foi observado, o etanol, por exemplo, teve seu valor revisado pela ACGIH com aumento do limite de exposição. Estas diferenças são comuns, sobretudo, porque a ACGIH revisa e atualiza anualmente seus limites de exposição com base em estudos recentes de avaliação de risco, enquanto no Brasil a NR15 teve sua última revisão em 1994. A tabela 1 expõe alguns dos valores encontrados com maior diferença:

Tabela 1 – Limites de exposição da NR15 e ACGIH LT

Nome da substância

TLV-TWA (ACGIH, 2010) (ppm)

(NR-15, 1978) (ppm)

Acrilonitrila

2

16

Metil cellosolve

0,1

20

Óxido de etileno

1

39

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Cloreto de etila

100

780

Cloreto de vinila

1

156

Brometo de etila

5

156

2-etoxietanol

5

78

1,3-butadieno

2

780

Etanol

1000

780

A extrapolação dos resultados para o homem ainda é bastante difícil, pois elas podem variar em função das condições de vida desse trabalhador, principalmente no Brasil, onde devemos considerar as diversas regiões do país, pois não é correto aceitar um valor único a ser aplicado da mesma forma no norte e no sul do país. Os indicadores construídos a partir de dados provenientes de monitoramento ambiental e biológico são utilizados na avaliação de risco de forma isolada e descontextualizada, sem atentar para as inter-relações de todos os elementos que compõem o espaço sócio ambiental no qual se desenvolve a atividade de trabalho, constituindo isto uma das maiores limitações

à

estimativa

de

riscos

para

a

saúde

humana.

Muito se discute a respeito da confiança e aplicabilidade dos limites de tolerância, sobretudo, pela ampla gama de variáveis a serem consideradas, tais como (i) condições de trabalho; (ii) características do indivíduo; (iii) características do ambiente. Contudo, mesmo de fronte a tantas características específicas, ainda deve ser levado em conta tais valores a fim de alguma forma, minimizar a exposição do trabalhador, trazendo melhores condições de trabalho. Conclusão Conclui-se que os limites de exposição ocupacional descritos na legislação brasileira encontram-se consideravelmente desatualizados frente a agências de reconhecimento mundial, evidenciando a necessidade de novos estudos de

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avaliação de risco focados na exposição ocupacional do trabalhador brasileiro e, principalmente, da sua saúde e segurança. Adicionalmente, consideramos que a revisão dos LT deve ser feita incorporando-se o conhecimento já internacionalmente acumulado e, ao mesmo tempo, baseando-se em pesquisas realizadas em nosso meio, pesquisas estas que levem em consideração as especificidades das populações trabalhadoras brasileiras. REFERÊNCIAS AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIALS HYGIENISTS. TLVs® E BELs®: baseado na documentação dos limites de exposição ocupacional (TVLs®) para substâncias químicas e agentes físicos & índices biológicos de exposição (BELs®). Tradução Associação Brasileira de Higienistas Ocupacional. São Paulo, 2010. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora n° 15 – Atividades e operações insalubres. Brasil, Ministério do Trabalho e Emprego Secretaria de Inspeção do Trabalho. Diário Oficial da União, supl. 06 jul. 1978. CORDEIRO, R.; LIMA-FILHO, E. C. A inadequação dos valores dos limites de tolerância biológica para a prevenção da intoxicação profissional pelo chumbo no Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.11, n. 2, p. 177-186, 1995. PEIXE, T. S.; NASCIMENTO, E. S.; PINHEIRO, F. Proteção à saúde do trabalhador: um estudo comparativo entre regulamentações da Espanha, EUA e Brasil. Revinter - Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 2, n. 3, p. 27- 41, 2009. ROSA, H.V.D.; SIQUEIRA, M.E.P.B.; COLACIOPPO, S. Monitoramento ambiental e biológico. In: OGA, S.; CAMARGO, M.M.A.; BATISTUZZO, J.A.O. Fundamentos de toxicologia. 3. ed. São Paulo: Atheneu editora, 2008. p. 246.

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Sistema de Classificação de Perigo: divergências entre o GHS e o Diagrama de Hommel Alexandre Porto Engenheiro Químico pelas Faculdades Oswaldo Cruz. Experiência profissional em programas de BPF e PPHO (procedimentos padrão de higiene operacional) e assuntos regulatórios para indústrias de alimentos. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos-FISPQ-, Ficha de Emergência e rótulo. Gerente do Gerenciamento de Risco. Pós Graduando em Engenharia de Segurança do Trabalho. Email: aporto@intertox.com.br

Dayane Pereira Cursando Farmácia e Bioquímica pelas Faculdades Oswaldo Cruz. Experiência em farmacovigilância. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos-FISPQ-, Ficha de Emergência e rótulo). Email: dpereira@intertox.com.br

Fabriciano Pinheiro Biomédico, IB-UNESP/Botucatu. Mestre em Toxicologia e Análises Toxicológicas, FCF-USP/SP. Coordenador e professor do curso de pósgraduação Ciências Toxicológicas das Faculdades Oswaldo Cruz/SP. Coordenador da Comissão de Estudos “Informações sobre Segurança, Saúde e Meio Ambiente relacionados a Produtos Químicos” (CE10:101.05) do Comitê Brasileiro de Química (ABNT/ CB-10). Ministra palestras e treinamentos relacionados a FISPQ, Ficha de Emergência e envelope para o transporte, Rotulagem e Ficha de Dados de Segurança de Resíduos (FDSR) atendendo às normas vigentes e aos diversos sistemas de classificação de perigo (GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, ABNT-NBR 10004). Diretor de Gerenciamento de Risco Toxicológico e Segurança Química. Email: fabriciano@intertox.com.br

PORTO, Alexandre. et al. Sistemas de Classificação de Perigo: divergências entre o GHS e o diagrama de Hommel. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 30-39, out. 2011. 30


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Renato Bresciani Annicchino Cursando Farmácia e Bioquímica pelas Faculdades Oswaldo Cruz. Experiência em farmácia de manipulação e atendimento ao cliente em drogaria de família. Experiência breve de contato com pacientes hospitalares. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos-FISPQ-, Ficha de Emergência e rótulo). Email: rbresciani@intertox.com.br

Thiago Iorio Belviso Técnico Químico pelo Colégio Técnico Oswaldo Cruz. Experiência em laboratório de ensaios físicos e químicos na área ambiental com acreditação ISO 17025. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos-FISPQ-, Ficha de Emergência e rótulo). Email: tbelviso@intertox.com.br

Resumo Os sistemas de classificação GHS e NFPA têm gerado dúvidas sobre qual confiar e utilizar nos documentos para demostração de perigo. Ao desenvolver deste trabalho, as suas importâncias estão descritas, juntamente com suas diferenças e vantagens de utilização. Palavras-chave: GHS, NFPA, Sistemas de classificação, importâncias, diferenças e vantagens. Abstract The GHS classification systems and NFPA 704 have raised doubts about trust and use on the documents for demonstration of hazardous. The importance of both systems are described along this work with their differences and advantages of use. Keywords: GHS, NFPA, Classification Systems, importance, differences and advantages.

PORTO, Alexandre. et al. Sistemas de Classificação de Perigo: divergências entre o GHS e o diagrama de Hommel. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 30-39, out. 2011. 31


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INTRODUÇÃO Nos últimos anos, os vários sistemas de classificação de perigo dos produtos químicos têm criado uma ampla discussão a nível mundial. O aumento da demanda de produtos perigosos e a maior conscientização das pessoas sobre o assunto “sustentabilidade” são motivos para a procura de sistemas de classificação, visando estabelecer a comunicação de perigos para os trabalhadores que manuseiam os produtos e os perigos para o meio ambiente. Dentre esses vários sistemas de classificação, podemos citar o GHS (Globally Harmonized System of Classification and Labelling of Chemicals) e a NFPA 704 (National Fire Protection Association). GHS é o acrônimo para The Globally Harmonized System of Classification and Labelling of Chemicals - Sistema Harmonizado Globalmente para a Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos. Trata-se de uma abordagem lógica e abrangente para: • Definição dos perigos dos produtos químicos; • Criação de processos de classificação que usem os dados disponíveis sobre os produtos químicos que são comparados a critérios de perigo já definidos; • A comunicação da informação de perigo em rótulos e FISPQ (Fichas de Informação de Segurança para Produtos Químicos); • Extrapolação de perigos de mistura a partir das informações dos ingredientes, reduzindo a necessidade de realização de testes em animais. O GHS não é uma regulamentação. As instruções apresentadas fornecem um mecanismo para atender à exigência básica de qualquer sistema de comunicação de perigos, que é decidir se o produto químico fabricado ou fornecido é perigoso e preparar um rótulo e/ou uma FISPQ apropriada. O documento do GHS, também conhecido como “Purple Book”, é composto por requisitos técnicos de classificação e de comunicação de perigos, com informações explicativas sobre como aplicar o sistema. (ABIQUIM/DETEC, 2005).

PORTO, Alexandre. et al. Sistemas de Classificação de Perigo: divergências entre o GHS e o diagrama de Hommel. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 30-39, out. 2011. 32


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Muitos países, órgãos e agências reguladoras já têm sistemas implantados para cumprir todos ou alguns dos objetivos estabelecidos pelo GHS. Esses sistemas, no entanto, nem sempre são compatíveis, o que obriga as empresas a manterem vários esquemas para atender as exigências de diferentes agências reguladoras, no EUA,

(CPSC, DOT, EPA, OSHA, etc) e dos países para os quais exportam.

(ABIQUIM/DETEC, 2005). As instruções apresentadas no GHS fornecem um mecanismo para atender à exigência básica de qualquer sistema de comunicação de perigos, que é decidir se o produto químico fabricado ou fornecido é perigoso e preparar um rótulo e/ou uma FISPQ apropriada. O documento do GHS, também conhecido como “Purple Book”, é composto por requisitos técnicos de classificação e de comunicação de perigos, com informações explicativas sobre como aplicar o sistema. (ABIQUIM/DETEC, 2005). O documento GHS integra o trabalho técnico de três organizações: – OIT (Organização Internacional do Trabalho), OECD (Organization for Economic Cooperation and Development) e UNCETDG (United Nations Economic and Social Council's Committee of Experts on the Transport of Dangerous Goods), com informações explicativas. Ele fornece blocos para construção ou módulos de implantação para os órgãos reguladores desenvolverem ou modificarem programas nacionais existentes que garantam o uso seguro de produtos químicos ao longo de todo seu ciclo de vida. (ABIQUIM/DETEC, 2005). A estruturação do GHS começou com a premissa de que os sistemas de classificações existentes deveriam ser harmonizados, a fim de desenvolver um sistema único e globalmente harmonizado para tratar de classificação de produtos químicos, etiquetas e fichas de segurança. Este não era um conceito totalmente novo, desde a harmonização da classificação e rotulagem já estava em grande parte em vigor em relação aos perigos físicos e à toxicidade aguda no setor de transportes, com base no trabalho da UNCEDTG). No entanto, a harmonização não tinha sido alcançada nos setores de trabalho ou de consumo. (GHS, 2011).

PORTO, Alexandre. et al. Sistemas de Classificação de Perigo: divergências entre o GHS e o diagrama de Hommel. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 30-39, out. 2011. 33


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A delegação internacional que deu o impulso necessário para concluir o GHS foi adotado em 1992 na United Nations Conference on Environment and Development (UNCED), como refletido na Agenda 21: "Um Sistema Harmonizado Globalmente para a Classificação e um de Rotulagem de Produtos Químicos compatível, incluindo ficha de dados de segurança nacional e símbolos facilmente compreensíveis, devem estar disponíveis, se possível, até o ano 2000". Neste intuito o GHS foi criado pela ONU em 2002, onde sua primeira publicação foi em 2003 no Purple Book 1st Edition. (GHS, 2011). Outro tipo de sistema de classificação de produtos perigosos é conhecido como NFPA 704. Esse sistema de classificação reconhece

prontamente, com fácil

compreensão para identificação dos perigos específicos e,sua gravidade usando métodos espaciais, visuais e numéricos para descrever em termos simples, o risco relativo de um material. Este sistema aborda a saúde, a inflamabilidade, a instabilidade e os riscos relacionados a curta exposição ao material, ou seja, em exposições agudas, que têm mais maior probabilidade de ocorrer como resultado de fogo, derrame, ou de emergência similares. Os objetivos deste sistema são: - Fornecer um sinal apropriado ou alerta para a proteção do pessoal público e privado responsáveis pelo pessoal de emergência. - Para auxiliar no planejamento de operações de controle efetivo de fogo e emergência,

incluindo

limpeza.

- Para auxiliar todo o pessoal designado, engenheiros, planta, e pessoal de segurança na avaliação de riscos. Como uma nota lateral, ele irá ajudá-lo a fazer um inventário dos produtos químicos ao considerar seus riscos relativos. Durante seu inventário para a classificação, é possível verificar a necessidade eliminar produtos químicos

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desnecessários, fora do prazo de validade ou extraordinariamente perigoso. (NFPA, 2011) Este sistema se originou em 1957, onde grande parte do seu desenvolvimento foi feito pela Sectional Committee on Classification, Labeling, and Properties of Flammable Liquids com início em 1952. Dados de base foram publicados pela Associação, em sua revista trimestral em 1954, 1956 e 1958. O material, em sua forma atual, foi provisoriamente aprovado em 1960. A adoção oficial foi garantida em 1961, e as revisões foram adotadas em 1964, 1966, 1969, 1975, 1980 e 1985. Nas edições de 1987 e 1990, a Committee on Fire Hazards of Materials apresentou diretrizes quantitativas para a atribuição de Health Hazards and Reactivity Hazards Ratings. A edição de 1996 introduziu orientações complementares quantitativa e uma definição alterada para a avaliação do perigo de instabilidade. (SPENCER, 2007) Objetivo Este artigo tem como objetivo apresentar e discutir as diferenças existentes entre os sistemas de classificação e rotulagem GHS e NFPA 704, quanto sua abrangência e aplicabilidade. Diferenças entre GHS e NFPA 704: Na área de proteção, os usuários podem ver diferentes avisos nos rótulos ou informações nas FISPQs para os mesmos produtos químicos. No comércio, a necessidade de atender a múltiplas exigências relativas à classificação de perigos e rotulagem pode ter altos custos, além de consumir muito tempo. Algumas companhias multinacionais estimaram a existência de mais de 100 regulamentações diferentes de comunicação de perigos para a comercialização global de seus produtos. Para empresas de pequeno e médio porte (PMEs), o atendimento às exigências é custoso e complexo e pode se tornar uma barreira ao comércio exterior de produtos químicos. (ABIQUIM/DETEC, 2005).

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Com o objetivo de minimizar ou até mesmo eliminar estas dificuldades, o GHS surgiu com o intuito de padronizar um sistema mundial. Porém, temos a visão de que se mais

um sistema de classificação como o NFPA 704 fosse agregado, os

documentos ficariam mais completos e de visualização mais fácil em caso de incêndio e emergências. O GHS direciona sua classificação para informar os perigos do produto químico ao usuário pelos documentos de segurança, incluindo todos os perigos físicos, efeitos agudos, crônicos à saúde humana e ao meio ambiente. Enquanto o Diagrama de Hommel, símbolo utilizado pela NFPA 704 para informar os perigos, contempla apenas perigos físicos e agudos à saúde, sendo adequado para a resposta de emergências de produtos químicos. Estas divergências existentes entre os sistemas de classificação não os tornam, se utilizados adequadamente, excludentes, mas sim complementares. Portanto, como o Diagrama de Hommel apresenta informações de perigo para situações de emergência, torna-o inadequado para situações de uso repetido ou prolongado do produto, não podendo, portanto, ser o único sistema de classificação de perigo a ser utilizado em uma empresa. O GHS, por outro lado, apresenta informações mais abrangentes, tornando-o mais adequado para diversas situações em um local de trabalho, porém não tão eficaz

em

situações

de

atendimento

emergencial.

Foi escolhida a substância Tolueno como exemplo de classificação nos dois sistemas, já que é uma substância que apresenta muitos perigos tanto agudos quanto crônicos, ideal para elucidar as diferenças dos dois sistemas. Segue abaixo os dois tipos de classificação:

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Classificação GHS para o Tolueno: Pictogramas:

Palavra de advertência: PERIGO Frases de perigo: Líquido e vapores altamente inflamáveis. Nocivo se ingerido. Nocivo se inalado. Causa irritação à pele. Causa irritação ocular. Pode prejudicar a fertilidade ou o feto. Causa dano ao sistema nervoso central. Pode causar sonolência e vertigens (efeitos narcóticos). Causa dano ao sistema nervoso central, rins e fígado através da exposição repetida ou prolongada. Pode ser mortal em caso de ingestão e por penetração nas vias respiratórias. Tóxico para a vida aquática.

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Classificação NFPA – 704 para o Tolueno: Diagrama de Hommel

Saúde : 2 Inflamabilidade: 3 Reatividade : 0 Riscos específicos: – Com isso é possível visualizar que o GHS é um sistema bem mais completo, com pictogramas e frases de perigo, porém não tão de fácil visualização quanto ao Diagrama de Hommel, que utiliza números e cores chamativas para os perigos de emergência.

Conclusão Conclui-se que pelo fato da NFPA 704 ser focada aos perigos emergenciais, esta deve ser utilizada juntamente com o GHS, principalmente em áreas de manuseio do produto químico, para um acesso rápido e fácil visualização. Portanto, sugere-se a utilização de ambos os sistemas e que as empresas capacitem seus gestores de segurança química quanto à utilização e a compreensão de ambos os sistemas resultando na adequada comunicação de perigo.

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REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725: Ficha de Informações

de Segurança de Produtos Químicos (FISPQ). Rio de Janeiro, 2009.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA QUÍMICA. Departamento de Assuntos Técnicos. A868q. O que é GHS? Sistema harmonizado globalmente para a classificação e rotulagem de produtos químicos. São Paulo: ABIQUIM/DETEC, 2005. 69p. COLONNA, Guy, R. Fire protection guide to hazardous materials. 14 ed, Massachusetts: NFPA, 2010. Globally Harmonized System of Classification and Labelling of Chemicals (GHS). 4. rev. ed. New York: United Nations, 2011. NFPA - NATIONAL FIRE PROTECTION ASSOCIATION. Disponível em: <http://www.nfpa.org/faq.asp?categoryID=928&cookie_test=1#23057>. Acesso em: set. de 2011. O QUE É O GHS? Sistema Harmonizado Globalmente para a Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos. Anvisa. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/reblas/reblas_public_manual_ghs.pdf>. Acesso em: set. de 2011. SPENCER, Amy Beasley.; COLONNA, Guy R. NFPA 704. Identification of the hazardous of materials for emergency response. Massachusetts: NFPA, 2007.

PORTO, Alexandre. et al. Sistemas de Classificação de Perigo: divergências entre o GHS e o diagrama de Hommel. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 30-39, out. 2011. 39


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TI no Contexto da Segurança Química Fabiano Bergamo Ferrari Desenvolvimento do SafetyChem, software de elaboração de Documentos de Segurança Química para Intertox. Vasta experiência em Tecnologia da Informação, atuando no desenvolvimento de softwares nas linguagens: Delphi e C#, implantação e administração de servidores Linux e Windows, gerenciamento de banco-de-dados (SQL), manutenção em computadores e treinamento no uso de softwares. f.bergamo@intertox.com.br

E-mail:

Henry Douglas Luiz da Silva Consultoria em desenvolvimento de sites com Joomla, Experiência com Software Livre, Análise da necessidade de soluções e serviços na Área de Informática. Experiência em Hardware e Redes. Analista Junior em Marketing de Busca. E-mail: h.douglas@intertox.com.br

Resumo "Software”, “Site”, “link”, “e-mail”, “chat”, “on-line” e muitas outras expressões, anteriormente pouco conhecidas, foram incorporadas ao nosso vocabulário cotidiano com o acelerado crescimento do uso de ferramentas tecnológicas como a internet, que permite o compartilhamento de inúmeras informações. No que tange

à Segurança Química, as informações são analisadas, compiladas,

armazenadas, manipuladas e aplicadas como conhecimento consolidado e está o papel de TI, vale dizer, tratar sistemicamente dessas necessidades, contando com a ação de profissionais de varias áreas para a elaboração de uma rotina lógica FERRARI, Fabiano Bergamo; SILVA, Henry Douglas Luiz; TI no contexto da Segurança Química. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade 3, p. 40-44, out. 2011.

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para criação de um banco de dados confiável e completo. A ação da Tecnologia da Informação na área de segurança química vem apoiar a necessidade global do compromisso empresarial com a sustentabilidade e ao mesmo tempo com o alcance de suas metas mercadológicas, reduzindo o tempo de logística, elaboração e formatação de documentos, pontos fundamentais para atender à demanda das empresas, na produção, armazenagem, transporte e comercialização de seus produtos químicos.

Palavra-chave

: Tecnologia da informação. Segurança química. Metodologias

Tecnológicas.

Abstract "Software”, “Site”, “link”, “e-mail”, “chat”, “on-line” and many others expressions previously unfamiliar were incorporated in our daily vocabulary with the fast growth in use of technological tools such as internet, which allows sharing wide range of information. In chemical safety, those are analyzed, then compiled, stored, handled and applied as consolidated knowledge and this is the role of IT, systemically deal with those needs, which includes the action of various professional fields aimed at developing a logic routine to create a reliable and complete database . The action of the Information Technology in the field of chemical safety supplies the global necessity of corporate commitment to sustainability and, at the same time, with the reach of their marketing goals while reducing the time logistics, elaboration and formatting of the documents, which are Key points to attend the companies demand in production, storage, transport and sale of their chemicals.

Keywords : Information technology. Chemical safety. Technological Methodologies. “Software”, “Site”, “link”, “e-mail”, “chat”, “on-line” e muitas outras expressões anteriormente pouco conhecidas foram incorporadas ao nosso vocabulário cotidiano com o acelerado crescimento do uso de ferramentas tecnológicas como a internet, que, de FERRARI, Fabiano Bergamo; SILVA, Henry Douglas Luiz; TI no contexto da Segurança Química. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade 3, p. 40-44, out. 2011.

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Comunicação breve

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acordo com o instituto IBOPE de pesquisas, teve, no mês de agosto de 2011, 45,4 milhões de usuários em todo o Brasil e, com isso, ocupou a quinta posição no ranking mundial de internautas, os quais intercambiam Informações de maneira dinâmica e constante. A informação e o conhecimento são considerados patrimônios, pois agregam valor e propiciam sentido às atividades, entretanto para que esses elementos sejam um diferencial no âmbito profissional, é necessário o uso de uma ferramenta tecnológica para tratá-los de maneira adequada, objetivando o aumento de produtividade e considerável redução de falhas. Esse é o papel da Tecnologia da Informação (TI), definida como um conjunto de atividades e soluções providas por meio de recursos de computação que têm por meta permitir o armazenamento, o acesso e o uso das informações. No tocante à Segurança Química, inúmeras são as informações pesquisadas e analisadas que,

posteriormente compiladas, armazenadas, manipuladas e aplicadas

como conhecimento consolidado nos diversos serviços e projetos inerentes à área, fornecem, quando acessadas,

resultados com grande presteza. Destacam-se as

ferramentas capazes de proporcionar a segurança, a veracidade e o fácil acesso e uso dessas informações. Neste caso, a TI é responsável pelo estudo de como tratar sistemicamente essas necessidades advindas do seguimento de Segurança Química, com suas especificidades e particularidades, desenvolvendo e implementando uma ferramenta capaz de realizar as atividades inerentes à área de maneira prática, ágil e eficiente, de forma que estejam totalmente interligados conhecimentos tecnológicas,

de negócio

(informação) com

metodologias

operando como um grande facilitador na elaboração e gestão de

documentos, certificados, e demais atividades. Os programas de modelagem, simulação e de bases de dados permitem interatividade entre o usuário e o conhecimento, o que possibilita e facilita uma aprendizagem significativa dos conteúdos químicos. Importantíssimo salientar que a TI não atua de forma independente, muito pelo contrário, é necessária a ação de muitos profissionais de diversas áreas a fim de se FERRARI, Fabiano Bergamo; SILVA, Henry Douglas Luiz; TI no contexto da Segurança Química. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade 3, p. 40-44, out. 2011.

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Comunicação breve

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elaborar uma rotina lógica e fornecer informações confiáveis para a criação de um banco de dados completo. A definição da lógica e a ser empregada no desenvolvimento é a chave para um resultado final que atenda às necessidades imediatas e à manutenção evolutiva através de alterações e atualizações em legislação e normas que regulamentam toda a elaboração de um documento de segurança química. Além de passar o conhecimento para o desenvolvimento de lógicas consistentes que automatizam a confecção, emissão e gerenciamento dos documentos, somente estes profissionais altamente qualificados e de áreas distintas têm a capacidade também de “abastecer”

o banco

de dados com o maior número de

informações possíveis, que

comportem e alertem para os principais tipos de perigos existentes: físicos, à saúde e ao meio ambiente. Com essas duas pilastras, o auxilio aos profissionais de Segurança Química cresce,

com desenvolvimento de

gerenciamento

de documentos

softwares de segurança,

que automatizam

a elaboração

esta automatização

eo

não exclui

necessidade de profissionais qualificados, mas aumentam consideravelmente

a a

produtividade dos mesmos, pois muitas das partes “burocráticas”, quando elaboradas de forma automática, agilizam os processos. Na parte técnica, o ganho de desempenho e confiabilidade também é eminente, baseado nas lógicas desenvolvidas e nos conteúdos dos bancos de dados. As informações técnicas são geradas de forma automática, cabe ao profissional aferir e complementar essas informações conforme a necessidade do resultado apresentado. Neste caso, é pertinente

nova

junção de conhecimento e tecnologia com intuito do freqüente

acompanhamento das ferramentas computacionais às atualizações existentes nas áreas específicas. A internet

eleva ainda mais essa produtividade, pois os profissionais são

acionados, suas informações processadas e os resultados apresentados, de forma ágil e prática. Através da computação em “nuvem”, trafegam informações sobre solicitações, processamentos e resultados instantaneamente. Milhares de vezes por segundo, são FERRARI, Fabiano Bergamo; SILVA, Henry Douglas Luiz; TI no contexto da Segurança Química. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade 3, p. 40-44, out. 2011.

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RevInter

Comunicação breve consultadas

informações, elaborados

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documentos, processados dados

e tudo na

velocidade de um “clique“. A ação da Tecnologia da Informação totalmente

ao encontro

na área de segurança química

da necessidade global do compromisso empresarial

vem com a

sustentabilidade e ao mesmo tempo com o alcance de suas metas mercadológicas. Bem aplicada, portanto, a TI

reduz

o tempo de logística, elaboração e formatação de

documentos, que hoje são pontos cruciais para atender às demandas das empresas, na produção, armazenagem, transporte e comercialização de seus produtos químicos.

REFERÊNCIAS

INFOWESTER . O que é Tecnologia da Informação (TI)? < http://www.infowester.com/ti.php>. Acesso em: set. 2011

Disponível em:

TOBEGUARANY. Estatísticas , dados e projeções atuais sobre a Internet no Brasil. Disponível em: < http://tobeguarany.com/internet_no_brasil.php >. Acesso em: set. 2011

FERRARI, Fabiano Bergamo; SILVA, Henry Douglas Luiz; TI no contexto da Segurança Química. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade 3, p. 40-44, out. 2011.

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Ensaio

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A FISPQ e a Responsabilidade Social das Empresas Andressa Baldi Química de P&D na Weber Saint-Gobain. Bacharel em Química Ambiental, IQ-USP/São Paulo. Mestranda do Curso de Engenharia Civil em Construções Sustentáveis, Escola Politécnica-USP/SP. E-mail: andressa.baldi@saint-gobain.com

Fabriciano Pinheiro Diretor de Gerenciamento de Risco Toxicológico e Segurança Química da Intertox. Biomédico, IB-UNESP/Botucatu. Mestre em Toxicologia e Análises Toxicológicas, FCF-USP/SP. Coordenador e professor do curso de pós-graduação Ciências Toxicológicas das Faculdades Oswaldo Cruz/SP. Coordenador da Comissão de Estudos “Informações sobre Segurança, Saúde e Meio Ambiente relacionados a Produtos Químicos” (CE-10:101.05) do Comitê Brasileiro de Química (ABNT/ CB-10). E-mail: fabriciano@intertox.com.br

Resumo Um dos pré-requisitos para uma empresa que se diz responsável socialmente é possui e aplicar um sistema de gerenciamento de risco nas suas instalações, como também, auxiliar o desenvolvimento do mesmo nos clientes/usuários de seus produtos. Neste contexto, a FISPQ torna-se um documento imprescindível para a gestão segura dos produtos químicos. Palavras-chave: FISPQ. Responsabilidade Social. Segurança Química. Abstract One of prerequisites for a company that claims to be socially responsible it owns and apply a system of risk management in their facilities, but also assist in development of the same customers / users of its products. In this context, the SDS becomes an essential document for the safe management of chemicals. Keywords: SDS. Social Responsibility. Chemical Safety. ___________________________________________________________________________________________________ BALDI, Andressa; PINHEIRO, Fabriciano. A FISPQ e a responsabilidade Social das Empresas. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 45-50, out. 2011 45


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Ensaio

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A discussão e implementação de sistemas de gestão segura para substâncias químicas fez-se imprescindível com o aumento da produção e o uso de produtos químicos advindo do intenso processo de industrialização e do crescimento populacional,

aliado

ao

surgimento

de

inúmeras

doenças

e

acidentes

ocupacionais. O uso de produtos químicos é inevitável, inclusive na construção civil. Então por que não se preocupar com os riscos causados pelos materiais de construção? A segurança química, lastreada no conceito maior de qualidade de vida, é entendida como um conjunto de estratégias para o controle e prevenção dos efeitos adversos ao ser humano e ao meio ambiente, decorrentes da extração, produção, armazenagem, transporte, manuseio, uso e descarte final de produtos químicos e seus resíduos. Neste contexto, a FISPQ (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos) é um documento de suma importância, pois serve como base do sistema de gestão seguro sendo responsável pelo fornecimento de informações essenciais sobre os perigos desta classe de produtos (ZACARIAS; DOS SANTOS, 2009). A FISPQ é um meio de o fornecedor transferir informações essenciais sobre os perigos de um produto químico ao seu usuário, possibilitando-lhe agir de acordo com uma avaliação de riscos, tendo em vista as condições de uso do produto, e tomar as medidas necessárias para desenvolver um programa ativo de segurança, saúde e meio ambiente, incluindo treinamentos para manter as pessoas cientes quanto aos perigos no seu local de trabalho. No entanto, não é função deste documento prever e fornecer informações específicas para cada tipo de uso ou local de trabalho que o produto possa vir a ser utilizado, ou seja, difere da ficha técnica do produto. A

FISPQ

também

pode

ser

usada

para

informar

aos

trabalhadores,

empregadores, profissionais da saúde e segurança, equipes de emergência e de ___________________________________________________________________________________________________ BALDI, Andressa; PINHEIRO, Fabriciano. A FISPQ e a responsabilidade Social das Empresas. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 45-50, out. 2011 46


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centros de informações toxicológicas, pessoal envolvido no transporte, agências governamentais, assim como membros da comunidade, instituições, serviços e outras partes tenham algum contato com o produto químico. Tal fato demonstra a sua profunda vinculação com a filosofia de Responsabilidade Social que toda empresa precisa empreender. Essa filosofia é seguida pela Weber Saint-Gobain que, se antecipou às exigências da recém revisada Norma Regulamentadora 26 (NR 26), de 24 de maio de 2011 (MTE, 2011), a qual prevê a obrigatoriedade da atualização da FISPQ de misturas utilizando padrão definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) apenas em 2015. Desta forma, o usuário dos produtos da Weber Saint-Gobain podem contar um documento que facilita a escolha na melhor maneira de comunicar e treinar os trabalhadores, quanto à identificação e composição do produto, identificação dos perigos, medidas de primeiros socorros, medidas de combate a incêndio, medidas de controle para derramamento ou vazamento, instruções para manuseio e armazenamento, medidas de controle de exposição e proteção individual, informações sobre estabilidade e reatividade, informações toxicológicas e considerações sobre tratamento e disposição final de resíduos e do próprio material (citando, inclusive, as classificações dos resíduos conforme a NBR 10004 e a resolução Conama nº 307). Fica facilmente perceptível ao leitor atento que a FISPQ nada mais é do que uma ferramenta moderna (e que se atualiza a cada dia) para aumentar a segurança no trato humano com agentes químicos diversos sob a ótica da toxicologia. O setor da construção civil se vê, atualmente, pouco atrelado a essa temática de risco químico, sendo muito mais comum a percepção de risco físico, mecânico ou até mesmo ambiental dos produtos e seus resíduos. Porém, com o advento das certificações de construções sustentáveis, esse documento entra como um dos requisitos não apenas para somar na pontuação, mas como fundamental na gestão responsável do empreendimento. ___________________________________________________________________________________________________ BALDI, Andressa; PINHEIRO, Fabriciano. A FISPQ e a responsabilidade Social das Empresas. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 45-50, out. 2011 47


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Brasil

A “Ficha com dados de Segurança” é um documento que, segundo o Decreto Federal nº 2.657 de 03/07/1998, deve ser recebido pelos empregadores que utilizem produtos químicos perigosos. Atualmente, no Brasil, o modelo de FISPQ é definido pela Norma Brasileira (NBR) 14725 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), tendo como vigente a edição publicada em 2009 (ABNT, 2011). Esta NBR tem o objetivo de apresentar informações para a elaboração e preenchimento de uma FISPQ, e define que o documento deve conter 16 seções obrigatórias, obedecendo à seguinte numeração e sequencia: 1 - Identificação do produto e da empresa 2 - Identificação de perigos 3 - Composição e informações sobre os ingredientes 4 - Medidas de primeiros socorros 5 - Medidas de combate a incêndio 6 - Medidas de controle para derramamento ou vazamento 7 - Manuseio e armazenamento 8 - Controle de exposição e proteção individual 9 - Propriedades físicas e químicas 10 - Estabilidade e reatividade 11 - Informações toxicológicas 12 - Informações ecológicas 13 - Considerações sobre tratamento e disposição 14 - Informações sobre transporte 15 - Regulamentações 16 - Outras informações

___________________________________________________________________________________________________ BALDI, Andressa; PINHEIRO, Fabriciano. A FISPQ e a responsabilidade Social das Empresas. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 45-50, out. 2011 48


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Sistemas de classificação A elaboração correta de uma FISPQ inicia-se com a escolha de um sistema de classificação de perigos. Este sistema deverá estabelecer critérios para o enquadramento em classes quanto aos perigos físicos, à saúde humana e ao meio ambiente. O resultado dessa classificação, que, segundo a NBR 14725:2009 deverá ser relatado na seção 2 da FISPQ, norteará o preenchimento de todo documento. Existem inúmeros sistemas de classificação. Os sistemas europeus (Diretivas Europeia e CLP-Classification, Labelling and Packaging), o norte-americano para identificação de riscos de incêndio (Diagrama de Hommel/NFPA-National Fire Protection Association) e a regulamentação canadense para produtos controlados são bem estabelecidos e largamente difundidos. Atualmente, o sistema GHS/ONU (Globally Harmonized System of Classification and Labelling of Chemicals) que pretende harmonizar mundialmente a classificação e rotulagem de substâncias e misturas químicas, tem sido exaustivamente discutido e paulatinamente adotado pelos países (DOS SANTOS; ZACARIAS; RIBEIRO-SANTOS, 2009). O Brasil, conforme a revisão da NR26 e a norma ABNT-NBR 14725, já exige a adoção do sistema para substâncias e estabelece o prazo de junho de 2015 para misturas. Além da seção 2 da FISPQ, importante enfatizar que a seção 14 também preconiza a utilização de sistema de classificação próprio para o correto preenchimento de informações pertinentes ao transporte de produtos químicos perigosos. Embora a FISPQ seja um documento informativo sobre os perigos do produto comercializado, os riscos inerentes ao uso do produto serão sempre minimizados com a utilização adequada de equipamentos de proteção individual (EPI), ___________________________________________________________________________________________________ BALDI, Andressa; PINHEIRO, Fabriciano. A FISPQ e a responsabilidade Social das Empresas. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 45-50, out. 2011 49


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controles de engenharia e práticas de gestão segura durante o manuseio, armazenamento e descarte do produto químico.

REFERÊNCIA ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725: 2009. Disponível em: <http://www.abnt.org.br>. Acesso em: out. 2011. MTE – MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Portaria n° 229:2011. Disponível em: <http://portal.mte.gov.br/legislacao/portaria-n-229-de-24-052011.htm>. Acesso em: out. 2011. ZACARIAS, C. H.; SANTOS, P. E. A importância da capacitação em GHS. Revinter – Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 2, n. 2, p. 29-42, 2009. Disponível em: <http://www.intertox.com.br/documentos/v2n2/revv02-n02-3.pdf>. Acesso em: out. 2011. SANTOS, P. E; ZACARIAS, C. H.; RIBEIRO-SANTOS, G. A importância da FISPQ no processo de gerenciamento de risco químico – uma visão crítica e conceitual. Revinter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 2, n. 2, p. 61-63, 2009. Disponível em: <http://www.intertox.com.br/documentos/v2n2/revv02-n02-3.pdf>. Acesso em: out. 2011.

___________________________________________________________________________________________________ BALDI, Andressa; PINHEIRO, Fabriciano. A FISPQ e a responsabilidade Social das Empresas. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 45-50, out. 2011 50


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Artigo original Fator

de

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condição

comprimento

de

e

relação

mugil

pesocurema

valenciennes, 1836 (pisces, mugilidae) como indicadores de estresse Ambiental Carolina Costa de Araújo Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente é aluna de mestrado do Instituto Oceanográfico, Universidade de São Paulo, atuando na área de Recursos carolinaaraujo86@hotmail.com Pesqueiros. E-mail:

Maurea Nicoletti Flynn Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em ecologia aplicada e experimental pelo programa recém doutor do CNPq, Universidade de São Paulo. Foi coordenador do Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz e Coordenadora de Pesquisas na Escola Superior de Quimica das Faculdades Oswaldo Cruz. Professor adjunto do curso de graduação em Ciências Biológicase de pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem experiência nas áreas de Ecologia Bêntica, Ecologia Experimental, Dinâmica Populacional e Biodiversidade da Ambientes Aquáticos. Especialista em auditoria ambiental (Certificado EARA - Environmental Auditors Registration Association). E-mail: maureaflynn@gmail.com

William Roberto Luiz Pereira Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Biomatemática. Tem interesse na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia Teórica, Dinâmica Populacional e índices biológicos, tendo preferência aos seguintes temas: Alometria, Modelos Matemáticos Aplicados a Ecologia, Ecotoxicologia. Consultor do Instituto Inteligência para Sustentabilidade – I2S. E-mail: william_roberto_luiz@hotmail.com

Resumo ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 51


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O objetivo do presente trabalho é comparar através do cálculo de taxas vitais, as populações de Mugil curema de Cananéia, Piaçaguera e Bertioga, todas de áreas estuarinas, a primeira pertencente ao sistema estuarino de Cananéia e as duas últimas ao sistema estuarino de Santos. As taxas vitais calculadas foram o fator de condição relativo e a relação peso-comprimento, com o propósito de estabelecer um potencial bioindicador de estresse ambiental. Vários estudos mostram que sedimentos em diversas áreas do estuário de Santos apresentam alta contaminação por HPAs, especialmente em Piaçaguera. Em todas estas áreas, atividade mutagênica foi detectada na água e no sedimento e alterações mutagênicas em células de sangue e fígado foram encontradas em populações de Mugil curema, sendo que indivíduos provenientes de Piaçaguera em proporções claramente maiores do que as encontradas em indivíduos de Bertioga. As populações de Bertioga e Piaçaguera apresentaram valores de b (coeficiente angular da relação peso-comprimento) semelhantes e significativamente menores que 3, enquanto Cananéia apresentou um valor maior e próximo de 3. O valor 3 teoricamente fisiologicamente

representaria adequadas.

o A

crescimento diferença

isométrico

destes

valores

em

situações

entre

Bertioga,

Piaçaguera e Cananéia pode ser devida a condições ambientais diferenciadas. Piaçaguera possui em seus sedimentos altas concentrações de HPAs e Bertioga, pertencente ao mesmo estuário de Santos, apesar de não apresentar concentrações tão elevadas de HPAs, está localizada em área altamente urbanizada. Cananéia, por outro lado, se encontra em região estuarina inserida na área de preservação ambiental do complexo de Iguape - Cananéia. Portanto b parece ser um indicador efetivo de estresse ambiental, mas não particularmente de concentrações diferenciadas de HPAs. Palavras-chave: Fator de Condição Relativo. Relação peso-comprimento. Mugil curem. Estresse Ambiental. Contaminação por HPA. Abstract

ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 52


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The aim of the present work was to compare populations of Mugil curema from Cananéia, Piaçaguera and Bertioga, the first from Cananéia-Iguape estuary system and the last two from Santos estuary system, through the fish vital taxes. The vital taxes used were the relative condition factor and the relation weightlength, with the aim of establishing a potential indication for environmental contamination by HPAs. Studies show that the sediment in diverse areas of the Santos estuary presents high levels of contamination by HPAs. Mutagenic activity was detected in water and sediment of all contaminated areas and mutagenic alterations in blood and liver cells had been identified in population of Mugil curema at Santos estuary system, particularly at Piaçaguera region in clearly higher ratios than the ones found for Bertioga region. The populations of Bertioga and Piaçaguera presented values of b (angular coefficient from the weight-length

function)

significantly

lower

than

3,

while

Cananéia

population presented values equal or higher than 3. Values around 3, theoretically, would indicate the isometric growth in situations of physiological equilibrium. Differences in these values among Bertioga, Piaçaguera and Cananéia regions can be explained by differences in environmental conditions. Sediments

from

Piaçaguera,

an

industrialized

area,

present

higher

concentrations of HPAs than Bertioga, located in an area with dense urbanization. Cananéia, on the other hand, is situated in an area largely preserved. Therefore b seems to be an indicator of environmental adequacy, but not so clearly of the HPA concentration. Keywords: Relative Factor of Condition. Weight-length relation. Mugil curema Environmental Stress. Contamination by HPA.

INTRODUÇÃO

ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 53


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Os peixes da família Mugilidae, conhecidos popularmente por tainhas e paratis, estão entre as espécies mais abundantes em ambientes marinhos costeiros de águas rasas e estuarinos. Aí passam uma grande parte de suas vidas, migrando para as regiões costeiras na época de reprodução.

Essa família é

constituída por espécies eurihalinas e euritérmicas encontradas em águas tropicais e subtropicais de todo o mundo (MIRANDA et al., 2006). A desova dos mugilídeos ocorre no mar (SECKENDORFF e AZEVEDO, 1993), e, depois que os jovens alcançam mobilidade suficiente, migram para áreas estuarinas à procura de alimento, permanecendo nessa região até atingirem a maturidade sexual, quando saem novamente para desovar no mar. São iliófagos, ou seja, raspam o lodo em busca de detritos, matéria orgânica e microrganismos (RIBEIRO et al., 1997). O fator de condição (K) é um índice muito utilizado em estudos de biologia pesqueira, pois indica o grau de bem estar do peixe frente ao ambiente em que vive (BRAGA, 1986). O fator de condição reflete aspectos nutricionais recentes e/ou gastos de reservas em atividades cíclicas, sendo possível, relacioná-lo às condições ambientais e aos aspectos comportamentais das espécies (VAZZOLER, 1982). K pode ser obtido pela expressão K=W/L³ (fator de condição de Fulton), ou pela expressão K=W/Lb (fator de condição alométrico) onde b é estimado pela equação da relação peso-comprimento (W=aLb; onde W é o peso e L é o comprimento total e a e b são estimativas dos parâmetros de correlação), após a transformação logarítmica e ajuste pelo método dos mínimos quadrados dos dados. O fator de condição de Fulton pressupõe que a relação peso-comprimento é isométrica e o valor de b é igual a 3, o alométrico considera que as várias espécies de peixes podem ter diferentes relações peso-comprimento (ROCHA et al., 1997; FLYNN et al., 2010). A relação peso-comprimento W=aLb é fundamental para o estudo do ciclo de vida, e frequentemente utilizada em comparações morfométricas entre populações (BOLGER e CONOLLY, 1989). O parâmetro a é o coeficiente linear da relação peso-comprimento, sendo o intercepto na forma logarítmica, enquanto, o parâmetro b é o coeficiente angular da forma aritmética da relação peso-

ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 54


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comprimento e a inclinação da linha de regressão na forma logarítmica. Assim, quando b é igual a 3, a espécie pode ter um crescimento isométrico, ou seja, o peso aumenta proporcionalmente com o comprimento. No entanto, quando b é menor que 3 o crescimento é alométrico negativo, ou seja, o incremento maior se dá no peso, e quando b é maior que 3 o crescimento é alométrico positivo, com o incremento em comprimento mais acentuado que o peso. Le Cren (1951) afirma que os valores de b para peixes podem variar entre 2,5 e 4, mas geralmente encontram-se em torno de 3 (crescimento isométrico). Em peixes os HPAs estão relacionados a mutações, malformações, tumores e câncer, e também alterações fisiológicas e morfológicas nos rins e no fígado (Roubicek, 2003) Vários estudos mostram que os sedimentos em diversas áreas do estuário de Santos apresentam alta contaminação por HPAs (NISHIGIMA et al., 2001; CETESB, 2001; BÍCEGO et al., 2006; MARTINS et al., 2007). Atividade mutagênica foi detectada na água e no sedimento de todas as áreas contaminadas (ROUBICEK, 2003; UMBUZEIRO et al., 2004; UMBUZEIRO et al., 2006; KUMMROW et al., 2006a; KUMMROW et al., 2006b) e alterações mutagênicas em células de sangue e fígado foram identificados em populações de Mugil curema de Piaçaguera em proporções claramente maiores do que as encontradas em populações da mesma espécie em Bertioga, ambas as áreas na região estuarina de Santos (SANTOS et al., 2010). O sistema estuarino-lagunar de Cananéia-Iguape, por outro lado, é bastante preservado e representa um dos importantes ecossistemas produtivos do litoral sudeste sendo Mugil curema (parati) um dos principais recursos marinhos aí explorados (MENDONÇA, 2007). O objetivo do presente trabalho é comparar as populações de M. curema provenientes de Cananéia (sistema estuarino de Cananéia – Iguape) com as provenientes de Piaçaguera e Bertioga (sistema estuarino de Santos – São Vicente) utilizando o fator de condição e a relação peso-comprimento, com o propósito de investigar um potencial bioindicador de estresse ambiental por HPAs. Método

ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 55


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As medidas de peso (g) e comprimento total (cm) foram obtidas através da amostras de indivíduos, provenientes das regiões de Cananéia, Piaçaguera e Bertioga. Consideraram-se para Cananéia, 60 indivíduos obtidos em 2008 e para Bertioga e Piaçaguera, respectivamente 45 e 57 indivíduos, provenientes de coletas realizadas pela CETESB no período de fevereiro de 2006 a abril de 2007. Utilizando-se em ambos os casos redes de espera de malhas de 20 e 40 mm, com 140 metros de comprimento cada uma durante um período de 12 horas e arrasto de praia de malha de 10 mm com esforço de 15 minutos em dois dias consecutivos. Foram obtidos de cada exemplar, os dados de comprimento padrão e peso total, estes foram plotados em gráfico de dispersão, ajustado pela equação W=a.Lb, onde W é o peso total; L é o comprimento total; a e b, o intercepto ou fator de condição e o coeficiente angular da curva potencial ou coeficiente de alometria, respectivamente (LE CREN, 1951). O coeficiente de determinação (r2) foi calculado para expressar a proporção de variação total da variável peso (dependente)

que

é

explicada

pela

variação

do

comprimento

(variável

independente). Os parâmetros a e b foram calculados, após a transformação logarítmica dos dados de peso e comprimento total e subsequente ajuste de uma linha reta aos pontos, pelo método dos mínimos quadrados. De posse das equações, os coeficientes b foram comparados com outras curvas teóricas já publicadas e o crescimento em peso foi avaliado pelo grau de alometria como: isométrico (b=3), alométrico positivo (b>3) ou alométrico negativo (b<3). O fator de condição utilizado foi o Relativo (Kr) ou de Le Cren, representado pela equação Kr=Pobservado/Pesperado, sendo Pobservado, o peso obtido da pesagem de cada indivíduo e Pesperado, o peso determinado pela curva da relação peso-comprimento. Le Cren considera que a relação entre o peso observado e o peso esperado deve ser próxima de 1. No presente trabalho o Pesperado foi adotado da curva da população de Cananéia para verificar a relação entre a população de Cananéia com a de Bertioga e de Piaçaguera. Os fatores de condição (Kr) foram ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 56


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submetidos à comparação entre as populações de Cananéia, Bertioga e Piaçaguera. As diferenças foram analisadas pelo teste paramétrico t-Student com nível de significância de 5%. As curvas de crescimento em função do peso e idade foram obtidas através do modelo de Richards, que é uma generalização da equação de crescimento de von Bertalanffy, definido pela equação Wt = W∞ (1- ekt))b, onde

W∞ é o peso

assintótico ou peso adulto; k é a taxa de crescimento e b é o expoente de alometria. Para a obtenção de W∞ de cada população utilizou-se a expressão, W∞=a.L∞b, sendo L∞= 48,2. O valor k=0,24 junto com L∞ foi obtido de Cabral-Solís (1999). Os parâmetros a e b foram obtidos de cada população estudada.

Resultados e Discussão

A amplitude total de variação no comprimento e peso dos indivíduos de Cananéia, Bertioga e Piaçaguera está representada na tabela 1. Os indivíduos de Cananéia apresentaram maior comprimento e peso (mínimos, máximos e médios) dos que os indivíduos das populações de Bertioga e Piaçaguera.

Tabela 1. Amplitude na variação no peso (g) e comprimento total (cm) das três populações. Região

Comprimento (cm)

Peso (g)

n Mín. Máx. Média DP

Mín. Máx. Média

DP

Bertioga

45 22,5

33,5

27,81

2,35

112,4 324,4 205,16 52,11

Cananéia

60 25,4

33,8

28,40

1,86

166

378

224,77 50,42

Piaçaguera 57 23,0

31,5

27,78

2,15

121,9

304

214,49 51,58

O coeficiente de alometria (b) e o fator de condição (a) são parâmetros importantes, obtidos da relação peso-comprimento para o estudo das populações de peixes. Esses parâmetros são fundamentais para o conhecimento do ciclo de ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 57


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vida de uma população, e a maneira mais adequada para a estimativa de peso a partir de um comprimento conhecido e vice-versa. Suas aplicações permitem estimar o crescimento dos indivíduos, também podem ser utilizados como indicadores do acúmulo de gordura e de desenvolvimento das gônadas (Weatherley, 1972). A tabela 2 apresenta as equações da relação pesocomprimento, parâmetros a, b e o coeficiente de correlação (r2) obtidas para cada população. Tabela 2. Equações e parâmetros a e b para as três populações.

População

Equação

a

b

r2

Bertioga

W=0,015.L2,851

0,015

2,851

0,970

Cananéia

W=0,0106.L2,9726

0,0106

2,9726

0,8983

W=0,017.L2,832

0,017

2,832

0,957

Piaçaguera

A partir das equações obtidas para cada população obtiveram-se as curvas de potência (Fig.1). A população de Mugil curema da região de Cananéia apresentou coeficiente de alometria (b) < 3, indicando um crescimento alométrico negativo, ou seja, o crescimento é maior em comprimento do que em peso. Quando b > 3 o crescimento é alométrico positivo, onde o crescimento em peso é maior do que em comprimento e b=3, o crescimento é isométrico, ocorrendo de forma simétrica entre o peso e o comprimento. As populações de Bertioga e Piaçaguera apresentam o mesmo tipo de crescimento que a de Cananéia. Variações em torno desse parâmetro podem estar relacionadas às diferentes condições ambientais e ao aspecto biogenético característico de cada espécie (SILVA et al., 2005).

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Figura 1. Relação peso-comprimento da população de Cananéia, Bertioga e Piaçaguera.

As populações de Bertioga e Piaçaguera apresentaram valores de b bem próximos e significantemente menores que 3, enquanto Cananéia apresentou um valor maior e próximo de 3. O valor 3 teoricamente representaria o crescimento isométrico em situações fisiologicamente adequadas. A diferença destes valores entre Bertioga, Piaçaguera e Cananéia pode ser devida às condições ambientais diferenciadas. Piaçaguera possui altas concentrações de HPAs nos sedimentos de fundo e Bertioga, pertencente ao mesmo estuário de Santos, apesar de não apresentar concentrações tão altas de HPAs, está localizada em uma área com altamente urbanizada e, portanto, profundamente alterada (SANTOS et al., 2010; FLYNN et al., 2010). Cananéia, por outro lado, se encontra em uma área bastante preservada e em região estuarina inserida em área de preservação ambiental. Portanto b parece ser um indicador efetivo de adequação ambiental, mas não é indicador de concentração de HPAs. Os valores do fator de condição relativo (Kr) utilizado para verificar a relação entre as populações de Cananéia com Bertioga e com Piaçaguera estão representados na tabela 3. Tabela 3. Fator de condição relativo (Kr) ARAÚJO, Carolina Costa de; FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William. Roberto Luiz. Indicadores de qualidade da água e biodiversidade do Rio Jaguari-Mirim no trecho entre as pequenas centrais hidrelétricas de São José e São Joaquim, São João da Boa Vista, São Paulo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 51-64, out. 2011. 59


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Populações

Kr

Bertioga/Cananéia

0,967

Piaçaguera/Cananéia

1,021

Os dados obtidos da relação peso-comprimento individualmente de uma espécie fornecem indicações das condições do organismo em relação ao ambiente e estágios de desenvolvimento, através da estimativa do fator de condição relativo (Kr). Este parâmetro indica o grau de bem estar do indivíduo em seu ambiente, possibilitando a comparação entre duas ou mais populações vivendo em condições diferentes. O fator de condição relativo (Kr) obtido através da comparação entre as populações dos três locais analisados, não apresentou variações significativas, quando submetido ao teste t-Student (p>0,05). Como proposto por Le Cren (1951), o fator de condição entre ambientes semelhantes em relação à capacidade suporte seria próximo de 1. A relação entre Cananéia, Piaçaguera e Bertioga não diferiu significativamente da unidade, indicando, portanto, uma situação de bem-estar semelhante entre as três populações. Através da curva de crescimento em peso, foi possível observar que a presença dos HPAs no sedimento, não interfere ou ainda não interferiu no desenvolvimento dos indivíduos da população de Piaçaguera. Para a curva de crescimento em relação ao peso obteve-se W∞ = 716,59 para Bertioga; W∞ = 1067, 41 para Cananéia e W∞ = 1226,33 para Piaçaguera. As curvas estão representadas na figura 2.

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Variação temporal do peso 1200

Peso (g)

1000 800

Cananéia Piaçaguera Bertioga

600 400 200

28

25

22

19

16

13

10

7

4

1

0 Tempo (t)

Figura 2. Curva de crescimento em peso para as três populações.

Conclusões

É necessário que seja feita uma análise contínua para verificar alterações em populações expostas aos HPAs, apesar de estudos comprovarem efeitos nocivos (taxa mutagênica aumentada) em indivíduos sujeitos à tal exposição, as curvas de crescimento e o fator de condição ainda não se mostraram alteradas.

REFERÊNCIAS

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Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo, em São Sebastião, São Paulo sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa slaterryi Maurea Nicoletti Flynn Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em ecologia aplicada e experimental pelo programa recém doutor do CNPq, Universidade de São Paulo. Foi coordenador do Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz e Coordenadora de Pesquisas na Escola Superior de Quimica das Faculdades Oswaldo Cruz. Professor adjunto do curso de graduação em Ciências Biológicase de pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem experiência nas áreas de Ecologia Bêntica, Ecologia Experimental, Dinâmica Populacional e Biodiversidade da Ambientes Aquáticos. Especialista em auditoria ambiental (Certificado EARA - Environmental Auditors Registration Association). E-mail: maureaflynn@gmail.com

Maria Teresa Valério-Berardo Possui graduação em Instituto de Biociências pela Universidade de São Paulo, mestrado e doutorado em Oceanografia (Oceanografia Biológica) pela Universidade de São Paulo. Professor Titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Revisor de vários periódicos como a Nauplius, Iheringia. Série Zoologia, Revista Biota Neotropica, Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom. Tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia de Ecossistemas. Atuando principalmente nos seguintes temas: Amphipoda Ecologia Bentônica Ubatuba. E-mail: mariateresa_berardo@yahoo.com.br

William Roberto Luiz Pereira Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Biomatemática. Tem interesse na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia Teórica, Dinâmica Populacional e índices biológicos, tendo preferência aos seguintes temas: Alometria, Modelos Matemáticos Aplicados a Ecologia, Ecotoxicologia. Consultor do Instituto Inteligência para Sustentabilidade – I2S. E-mail: william_roberto_luiz@hotmail.com FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 65


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Resumo

A estrutura por classe de tamanho, a oscilação em densidade, a razão sexual, a curva de sobrevivência, o potencial reprodutivo, o tempo de geração, a capacidade suporte do ambiente e a taxa de crescimento intrínseco per capita foram taxas vitais estabelecidas para uma população de Jassa slaterryi associada a placas de substrato artificial. Estas foram amostradas mensalmente de março de 1997 a janeiro de 2003 para o programa de monitoramento do Terminal Petrolífero de São Sebastião. Ocorreram dois picos reprodutivos, um menor em maio e outro contínuo ao longo dos meses mais quentes do ano, de outubro a março, acarretando uma sobreposição de gerações. Razão sexual média de 0.32, favorável às fêmeas, foi registrada, um padrão freqüente em organismos epifaunais. J. slattery parece ser r-estrategista com fêmeas iteroparas e ciclo multivoltínico. O potencial reprodutivo médio estimado foi de 9,9214. A estratégia reprodutiva, de produção de ovos menores e diminuição do tamanho da fêmea madura, está relacionada ao habitat costeiro de maior instabilidade. A capacidade suporte do ambiente para a espécie antes do impacto era de 5000 indivíduos por placa e após o derramamento de 1500, atingida após um extenso período com ausência do organismo. A oscilação em densidade populacional, o tempo de retorno desta e a diminuição da capacidade de suporte do meio demonstraram claramente a importância do derramamento em termos do impacto causado pelo acidente com o navio petroleiro NT “Vergina II” em novembro de 2000. O conhecimento da dinâmica populacional de espécies marinhas costeiras em placas de toxicidade in situ constitui uma ferramenta valiosa

para

se

dimensionar

impactos

ambientais

ocasionados

por

derramamentos de petróleo. Palavras-chave: Derramamento de Óleo. Dinâmica Populacional. Amphipoda.

FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 66


Artigo original Abstract

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The size-class structure, density trends, sex-ratio, survivorship curve, net reproductive rate, generation time and per capita rate of population growth were established for a population of Jassa slatteryi from experimental plates placed at an oil terminal of Petrobras at Sâo Sebastião Channel, Southeastern Brazil as part of a monitoring program to assess oil impact in the marine ecosystem. Monthly samples, from March 1997 to January 2003, were taken. There were two reproductive peaks one smaller in May and another one throughout the warmer months from October to March imposing, with the continual reproduction, the overlapping of generations. A sex ratio biased in favor of females was recorded in all sampling dates. J. slatteryi appears to be r strategist, with iteroparous females and multivoltine cycle. For stabilized populations of experimental panels the reproductive rate estimated was 9.214. The carrying capacity of the panels (30 x 30 cm) for the species before impact was around 5000 individuals and after the spill, 1500 individuals, attained after a long period with no individuals. Population densities oscillation, returning time and carrying capacity decrease were a clear indication of the Virginia II spill impact in November 2000. The knowledge of the population dynamics of Jassa slatteryi constitutes an important tool to assess ecological damage caused by hydrocarbons in the coastal area. Keywords: Oil spill. Population dynamics. Amphipoda. INTRODUÇÃO O ambiente marinho constitui um complexo ecossistema exposto cada vez mais à influência de uma série de fatores ambientais de natureza antropogênica. O aporte cada vez maior de contaminantes de naturezas diversas faz com que haja crescente necessidade de estudos sobre o acúmulo e os efeitos de contaminantes sobre os organismos marinhos principalmente costeiros (Lima,

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1998). A dinâmica populacional de espécies costeiras constitui uma ferramenta importante na avaliação de risco ecológico. O monitoramento biológico é um elemento essencial para se assegurar a integridade do ecossistema, já que os organismos funcionam como uma base sensorial que reage a qualquer stress que afeta o sistema onde estão inseridos (Loeb 1994). Alguns requisitos são necessários na determinação de um indicador biológico, devem ser comuns, de fácil identificação e sedentários (Plafkin et al. 1989). Taxas vitais de populações de indicadores podem ser usadas como endpoints na avaliação do risco ecotoxicológico introduzido pelo contaminante. Para isso, é necessário o conhecimento da biologia reprodutiva e dinâmica populacional das espécies utilizadas (Flynn et al. 2005). A dinâmica populacional de J slatteryi vem sendo usada no programa de monitoramento do terminal petrolífero da Petrobrás no Canal de São Sebastião (Flynn et al. 2005, 2007). Este envolve o uso de substrato artificial funcionando como ensaio de toxicidade local. As placas fundeadas e avaliadas ao fim de certos períodos de imersão servem para verificar o padrão temporal de recrutamento larval e o subseqüente desenvolvimento da população de J. slaterryi. A região de São Sebastião é sujeita a uma severa poluição marinha causada por derramamentos de óleo. O derramamento ocorrido no dia 04 de Novembro de 2000, quando o navio petroleiro NT “Vergina II”, de bandeira cipriota, procedente da Bacia de Campos (RJ), colidiu com o píer sul do Terminal Almirante Barroso da PETROBRAS, em São Sebastião, acarretou no vazamento de aproximadamente 86000L de petróleo, tipo Albacora (CETESB, 2001). Equipes da PETROBRAS/CEMPOL – Centro Modelo de Prevenção, Controle e Combate a Poluição por Óleo no Mar, iniciaram imediatamente as operações emergenciais com a colocação de barreiras de contenção e recolhimento do óleo vazado, que perduraram até o dia 7 de Novembro (Lopes et al. 2001). O objetivo deste trabalho é selecionar taxas vitais da população de J. slaterryi tais como estrutura por classe de tamanho, razão sexual, curva de sobrevivência, potencial reprodutivo, tempo de geração, capacidade suporte do ambiente e taxa de crescimento intrínseco per capita como potenciais endpoints

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Metodologia Foram implantadas três estações para instalação de placas de toxicidade in situ no terminal petrolífero (figura 1). Em cada uma das três estações estabelecidas foram fundeadas linhas de placas experimentais de plástico branco, com dimensão 30 X 30 cm, cerca de 1 metro abaixo do nível do mar (figura 2). Segue a descrição das estações: Estação Sul: a cerca de 500 m do orifício mais ao sul do difusor 1 do emissário submarino, nas coordenadas 23°48,7’S e 45°23,3’W. Estação Centro: em frente aos difusores 1 e 2 do emissário submarino, nas coordenadas 23°48,35’S e 45°23,1’W. Estação Norte: a cerca de 500 m do orifício mais ao norte do difusor 2 do emissário submarino, nas coordenadas 23°48,1’S e 45°22,9’W.

Figura 1. Mapa da região

Figura 2. Placas experimentais

As estações foram visitadas regularmente de 1997 a 2003. As placas de cada estação tiveram seus dois lados fotografados; e, em seguida uma amostra de 150 cm2 era retirada de um dos lados da placa, sendo as placas fundeadas novamente; todo o material colocado em recipientes com solução de formol a 4 % para transporte ao laboratório, sendo então transferido para álcool 70% neutralizado. A análise dos organismos coletados em cada painel foi realizada sob lupa. Uma subamostra foi retirada, correspondendo a 10% do volume total FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 69


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de cada amostra, para a contagem de organismos da espécie J. slaterryi. Além

de contados, estes foram medidos e os sexos identificados. Em anos subseqüentes, somente o total de indivíduos foi contabilizado. O valor obtido foi extrapolado de acordo com o volume total da amostra, obtendo-se a densidade dos mesmos nas referidas placas. Com esses dados, montou-se um gráfico de flutuação populacional. Estabeleceu-se a capacidade suporte do ambiente para a espécie em placa. Em seguida, calculou-se a razão sexual ou sex-ratio para cada mês.

O sex-ratio

obtido foi aplicado aos jovens de cada classe etária para estimativa do numero de fêmeas. Com a soma das fêmeas jovens e adultas de cada classe, calculou-se o Nx para inserção na Tabela de Vida. Foram calculados os parâmetros: Taxa de sobrevivência (lx), o número de fêmeas de cada classe de comprimento x dividido pelo número de fêmeas na classe inicial: lx=Nx/N0

(1)

Fecundidade (mx) foi obtida da função-potência (Franz, 1988), que relaciona o tamanho corporal da fêmea (mm) e o tamanho da ninhada, baseado em dados obtidos em todas as estações do ano: NE = 0,11 x L(mm) 3,25

(2)

Potencial reprodutivo (R0) foi calculado pelo somatório do produto lx mx de cada classe de comprimento, expressa pela equação: R0=∑lxmx

(3)

Tempo de geração (T) foi estimado pela soma total de lx mx x dividido pelo potencial reprodutivo: T = ∑ lx mx x/∑ lx mx

(4)

A taxa intrínseca de crescimento foi obtida pela aproximação: r≈ ln (Ro)/T

(5)

Para quantificar a aleatoriedade ambiental foi considerada a seguinte relação: σ2r> 2 rmédio

(6)

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Resultados

Com os dados obtidos foram feitas as totalizações dos organismos coletados em cada painel (Tabela 1) com os indivíduos encontrados em cada mês de coleta, divididos em machos, fêmeas, jovens e totais, no período de março de 1997 a março

de

1998.

A

tabela

também

apresenta

as

coletas

realizadas

trimestralmente durante o período do derramamento, sendo analisado somente o número total de indivíduos. É possível observar também o período pós – impacto, de setembro de 2002 a janeiro de 2003, no qual as amostras foram coletadas mensalmente e quantificado somente o número total de indivíduos. Tabela 1: Distribuição de indivíduos de Jassa slatteryi por categoria do período de Março de 1997 a Janeiro de 2003. Meses

Macho

Fêmea

Jovens

Total

mar/97

115

210

1053

1378

abr/97

137

284

1762

2183

mai/97

589

2691

2001

5281

jun/97

127

356

798

1281

jul/97

75

392

1022

1489

ago/97

161

231

295

687

set/97

151

531

1560

2242

out/97

132

410

3078

3620

nov/97

70

410

3078

3558

dez/97

310

1331

3170

4811

jan/98

210

1766

3046

5022

fev/98

383

1519

2695

4597

mar/98

333

1491

3219

5043

out/00

750

jan/01

0

mai/01

0

ago/01

90

nov/01

10

set/02

410

out/02

2060

nov/02

1130

dez/02

780

jan/03

1210

A variação temporal da população de J. slatteryi no período de FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 71


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coleta mostra as oscilações (período de 97 a 98) decorrentes de épocas reprodutivas (figura 3), quando apresenta maiores densidades, coincidentes com o veranico de maio e o verão. O mesmo padrão foi observado para os jovens, as fêmeas e os machos.

Flutuação Populacional 6000

5000

número de indivíduos

4000

3000

2000

1000

se t/0 2 ou t/0 2 no v/0 2 de z/0 2 ja n/ 03

ja n/ 01 m ai /0 1 ag o/ 01 no v/0 1

-

0

ou t/0

m ar /9 7 ab r/9 7 m ai /9 7 ju n/ 97 ju l/9 7 ag o/ 97 se t/9 7 ou t/9 7 no v/9 7 de z/9 7 ja n/ 98 fe v/ 98 m ar /9 8

0

meses macho

fêmea

jovens

total

Figura 3. Flutuação populacional de Jassa slatteryi.

Machos e fêmeas apresentaram comprimentos variando entre 2 e 7 mm. A razão sexual foi ao longo de período estudado sempre favorável as fêmeas. Os valores médios calculados do potencial reprodutivo (Ro) foi de 9,9214, o , tempo de geração (t) foi calculado em 3,7377805 e da taxa de crescimento intrínseco (r ) em 0,6139179 (tabela II).

Tabela II - TABELA DE VIDA MÉDIA

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Machos

Fêmeas

Jovens

Sex Ratio

(média)

(média)

(média)

(médio)

1-2

359,75

mx

Ro

T

r

1,0000

0,5783 9,9214 3,7377805 0,6139179

2-3

10

19,666667

1350,6923

0,8981

2,4776

3-4

12,6

370,08333

391

0,5081

6,9324

4-5

72,461538

430,30769

88

0,2594

15,2586

5-6

87,538462

133,1

0,0741

28,8737

6-7

71,111111

65,666667

0,0245

49,2786

Total

253,71111

1018,8244

curvas

de

As

0,3153

lx

2189,4423

sobrevivência

103,40

variaram

mensalmente

apresentando

configurações entre tipo I e II, com baixa mortalidade em classes de menor tamanho. A mortalidade aumenta nas classes de tamanho 4/5 mm (figura 4).

3,5 3

mar/97 abr/97

2,5

mai/97 jun/97 jul/97

2

ago/97 set/97 out/97 nov/97

1,5 1 0,5 0 1-2

2-3

3-4

4-5

5-6

6-7

dez/97 jan/98 fev/98 mar/98 abr/98

Figura 4. Curvas de sobrevivência mensais para o período de março de 1997 a março de 1998.

O tamanho da ninhada aumenta com o aumento do corpo da fêmea (figura 5)

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nº de embriões por ninhada

Relação entre tamanho corporal da fêmea x tamanho da ninhada 70,00 60,00 50,00 40,00 30,00 20,00 10,00 1

2

3

4

5

6

7

Comprimento (mm) Figura 5. Relação entre o numero de embriões e o comprimento do corpo da fêmea.

A variância da densidade populacional aumenta com o aumento do tempo de previsão, entretanto não atinge o dobro do valor da taxa de crescimento intrínseco. O grau de incerteza na previsão do tamanho populacional aumenta com o tempo medido em números de gerações (figura 6).

250000

Variância Nt

200000 150000 100000 50000 0 1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

Tempo (t)

Figura 6. Relação entre a variância da densidade populacional e o tempo.

A curva logística representando hipoteticamente o crescimento em cada uma das situações pré - impacto, no momento do impacto e pós – impacto para cada período amostrado está graficamente representada com as capacidades FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 74


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suportes (K), nos valores de 5000, 0 e 1500 respectivamente. Cada curva apresentou um comportamento peculiar (figura 7). Variação populacional de Jassa slatteryi 5000 4500 4000

densidade populacional

3500 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 0

1

2

3

4

5

6

geração Impacto

Pós impacto recente

Pós impacto

Pré impacto

Pré impacto+desvio

Pré impacto -desvio

Figura 7. Curva logística de crescimento calculada para os períodos pré-impacto (azul), impacto (vermelha) e pós-impacto (verde).

Discussão O padrão populacional apresentado por Jassa slaterryi é consistente com o comportamento oportunístico de espécies costeiras em ambientes fisicamente controlados segundo a teoria da estabilidade-tempo de Sanders (1969). O ambiente portuário costeiro permite a instalação de espécies com estratégias adaptativas como reprodução contínua e sobreposição de gerações, (van Dolah & Bird 1980; Martin-Smith 1994). Os dados mostram flutuações naturais na densidade populacional indicativos de intensa reprodução associada à alta incidência de fêmeas em maio, dezembro e janeiro. A razão sexual favorecendo fêmeas também é uma característica comum em populações de anfípodes (Hasting 1981; Dauvin 1988; Valério-Berado & Flynn 2002). Parâmetros

como

tempo

de

geração,

fecundidade

e

taxa

de

sobrevivência dão indícios da estratégia de vida utilizada por uma espécie (Valerio-Berardo & Flynn 2004). J. slaterryi é considerada como r-estrategista FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 75


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por minimizar o tempo de geração e aumentar o potencial reprodutivo de maneira que a taxa de crescimento intrínseco (r) seja maximizada (May, 1976). A curva de sobrevivência é consistente com alta sobrevivência de indivíduos sexualmente maduros, seguida por uma acentuada senescência nos adultos mais velhos. Populações em ambientes fisicamente controlados podem apresentar valores para a taxa intrínseca de crescimento independente da densidade, o que significa que o crescimento populacional não está diretamente correlacionado com as taxas de natalidade e mortalidade, mas sim com o ambiente instável ou com a estocasticidade ambiental (Lewontin 1969). Para a população de J. slaterryi a variância de r não ultrapassou o dobro da média, sugerindo que não há chances de extinções locais devido à estocasticidade ambiental, e de fato não houve previsão de extinções durante o período pré-impacto. Em outra espécie costeira, Hyale nigra, com comportamento reprodutivo muito semelhante, houve ocorrência e projeção de extinção freqüentes (Flynn et al., 2008), sendo a variância neste caso bastante superior a 2 vezes a média de r. As extinções freqüentes podem então estar associadas à alta estocasticidade ambiental. A previsão do comportamento da população analisada como ferramenta para indicação de alterações ambientais perde precisão com a incerteza associada ao avança no tempo. Depois da sétima geração ocorre um aumento exponencial da variância, o que significa que não é possível prever o crescimento da população ao longo do ano através de r quando se prevê a longo tempo. Em curto prazo, a partir de uma população inicial é possível avaliar impactos ambientais ao se distanciar de crescimento populacional previsto em modelos, desde que a variância seja relativamente baixa. As oscilações de densidade e alterações na capacidade suporte do ambiente foram importantes na identificação do impacto ocasionado pelo derramamento de petróleo. A curva de variação temporal de densidade de J. slatteryi referente ao período de pré-impacto (Março de 1997 a Março de 1998) retrata alterações significativas em relação às curvas do período imediatamente posterior ao impacto (Outubro de 2000 a Novembro de 2001) e ao período de recuperação pós – impacto (Setembro de 2002 a Janeiro de 2003). Comparando-se estas curvas, FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 76


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observa-se que a população atinge um equilíbrio após dois anos do impacto, mas apresentando menor densidade, o que sugere que a capacidade suporte do ambiente para a J. slatteryi não se restabeleceu. REFERÊNCIAS CETESB - COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL. Operação Vergina II. São Paulo: CETESB, 2001. DAUVIN, J. C. Biologie, dynamique et production de populations de crustacés amphipodes de la Manche occidentale.1. Ampelisca tenuicornis Liljeborg. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, v. 118, p. 55-84, 1988. FLYNN, M. N. et al. Ensaio de toxicidade in situ para monitoramento da qualidade da água junto ao pier do terminal aquaviário de São Sebastião, São Paulo. In: PROCEEDINGS OF THE GLOBAL CONGRESS ON ENGENEERING AND TECHNOLOGY EDUCATION, Bertioga, 2005, p. 1730-1734, 2005. FLYNN, M.N. et al. Population dynamics of Hyale nigra associated to Bryocladia thyrsigera at Peruibe, Itanhaém beach, southeastern Brazil. In: CONGRESSO DA SOCIEDADE LATINO AMERICANA DE BIOLOGIA MATEMÁTICA XIV CLAB IX ELAEM, 14., 2007, Campinas: UNICAMP, 2007. HASTINGS, M. H. The life cycle and productivity of an intertidal populations of the amphipod Ampelisca brevicornis. Estuarine Coastal Shelf Science, v. 12, p. 665-677, 1981. LEWONTIN, R. C; COHEN, D.. On population growth in a randomly varying enviroment. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 62, n. 4, p. 1056-1060, 1969. LIMA, G. M. S. Efeitos do efluente do emissário submarino de São Sebastião-São Paulo, sobre o fitoplâncton marinho: estudo de campo e de laboratório. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo. Instituto Oceanográfico. 1998, 160p. LOEB, S. L.; SPACIE, A. Biological monitoring of aquatic systems. Florida: CRC Press LLC Lewis Publishers, 1994, 400 p. FLYNN, Maurea Nicoletti; VALÉRIO-BERARDO, Maria Teresa; PEREIRA, William Roberto Luiz Silva. Impacto ecotoxicológico do derramamento de petróleo em São Sebastião, São Paulo, sobre as taxas vitais de população do anfípode Jassa Slaterryi. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 65-78, out. 2011. 77


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Abordagem populacional na ecotoxicologia Maurea Nicoletti Flynn Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em ecologia aplicada e experimental pelo programa recém doutor do CNPq, Universidade de São Paulo. Foi coordenador do Curso de Engenharia Ambiental das Faculdades Oswaldo Cruz e Coordenadora de Pesquisas na Escola Superior de Quimica das Faculdades Oswaldo Cruz. Professor adjunto do curso de graduação em Ciências Biológicase de pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem experiência nas áreas de Ecologia Bêntica, Ecologia Experimental, Dinâmica Populacional e Biodiversidade da Ambientes Aquáticos. Especialista em auditoria ambiental (Certificado EARA - Environmental Auditors Registration Association). E-mail: maureaflynn@gmail.com

William Roberto Luiz Pereira Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Biomatemática. Tem interesse na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia Teórica, Dinâmica Populacional e índices biológicos, tendo preferência aos seguintes temas: Alometria, Modelos Matemáticos Aplicados a Ecologia, Ecotoxicologia. Consultor do Instituto Inteligência para Sustentabilidade – I2S. E-mail: william_roberto_luiz@hotmail.com

Resumo O intuito nesse artigo é demonstrar a possibilidade de realização de diagnósticos ambientais a partir de conceitos estritamente ecológicos pelo monitoramento de alguma população natural como indicadora de alteração no ambiente. Taxas intrínsecas da população monitorada podem ser usadas como um sinalizador de alterações no ambiente em que esta está inserida. Para isso contemplou-se o histórico da abordagem populacional na ecologia revendo-se os conceitos de crescimento exponencial, auto-limitação populacional e sistema consumidorrecurso. Foram analisados dados provenientes de populações reais procurando detectar padrões populacionais em sistema ecológico. Conclui-se que é possível FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William Roberto Luiz. Abordagem Populacional na Ecotoxicologia. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 79-91, out. 2011. 79


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sim fazer diagnósticos ambientais a partir de conceitos estritamente ecológicos. Nunca se terá acesso total aos sistemas, pois é impossível modelar todo o ecossistema de interesse, mas é possível apresentar modelos que apresentem informações suficientes para facilitar a tomada de decisão frente a impactos que acarretem em desequilíbrio ambiental. Desequilíbrio este que possa influenciar uma ou várias populações, a rede trófica, a comunidade ou o ecossistema como um todo. Palavras-chaves: Abordagem Populacional. Ecotoxicologia. Modelagem. Taxas Vitais Populacionais. Abstract The aim of this paper is to demonstrate the possibility of environmental assessment based on strict ecological concepts through the monitoring of a natural population as indicator of environmental impact. Population intrinsic taxes can be used as a beeper of alterations in the environment where it is inserted. An historical overview of the population approach in Ecology and Ecotoxicology was contemplated reviewing the concepts of exponential growth, population auto-limitation and consumer-resource systems. Data from natural populations were analyzed in order to detect patterns in ecological system. In conclusion, it seems to be possible environmental assessments based on strict ecological concepts, although the impracticability of having total access to complexes ecological systems. Nevertheless models can be inferred presenting enough information to aid the process of decision concerning environmental impacts that cause instability which can influence one or more populations, the food net, the community or the whole ecosystem. Keywords: Population Approach. Ecotoxicology. Modeling. Population Vital Taxes. Apresentação FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William Roberto Luiz. Abordagem Populacional na Ecotoxicologia. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 79-91, out. 2011. 80


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O termo ecotoxicologia foi sugerido e definido pela primeira vez em 1969 pelo toxicologista francês Rene Truhaut para nomear a ciência que “estuda os efeitos das substancias naturais ou sintéticas sobre os organismos vivos, populações e comunidades, animais ou vegetais, terrestres ou aquáticas, que constituem a biosfera”. Surgiu como um ramo da toxicologia trazendo suas características metodológicas (foco em padronização, testes laboratoriais com espécie padrão e metodologias de avaliação de risco), o que não permitiu a incorporação da teoria ecológica. Entretanto, a atual necessidade de prever os principais efeitos de agentes tóxicos em populações naturais e sistemas ecológicos tem propiciado o aparecimento de um grande número de modelos preditivos. Estes modelos têm incrementado o conjunto de modelos convencionalmente usados nas derivações mais reducionistas da ecotoxicologia que consideram efeitos tóxicos a níveis moleculares, bioquímicos, celulares, teciduais e em organismos. Muitos fenômenos ecológicos são contingenciados pelos organismos envolvidos e seus ambientes e muitos experimentos ecológicos só são válidos para o período, lugar e condições em que ocorrerem. Entretanto, a contingencia e a não reprodutibilidade experimental não são fato em todos os campos da ecologia. Existem, na ecologia populacional, muitos princípios que podem ser consideradas gerais, com padrões e regras replicáveis. Baseada nestes, a ecotoxicologia populacional cobre um vasto numero de tópicos voltados principalmente para temas como: a epidemiologia de doenças relacionadas a agentes químicos; os efeitos em determinadas qualidades populacionais gerais tais como taxas demográficas e persistência; e a genética populacional. Como colocado por Turchin (2001) três princípios da dinâmica populacional se assemelham às leis gerais da física: o crescimento exponencial (simulado pela equação de Malthus), a auto-limitação populacional (modelo do crescimento logístico de Verhust-Pearl), e a oscilação consumidor-recurso (tendo como modelo clássico o sistema presa-predador de Lotka-Volterra). A incorporação de tais “leis” ou “regras” ampliam a interpretação toxicológica sobre os sistemas naturais. E FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William Roberto Luiz. Abordagem Populacional na Ecotoxicologia. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 79-91, out. 2011. 81


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com este objetivo esse artigo analisará o histórico e a aplicação de princípios populacionais largamente aceitos na tentativa de prever o comportamento de populações naturais expostas a agentes estressores. Histórico: Crescimento exponencial, auto-limitação populacional e sistema consumidor-recurso A fonte mais antiga da moderna ecologia populacional é teórico-analítica e derivada da demografia inglesa do século XVII, desenvolvida como tentativa de conhecer e controlar as epidemias, particularmente a peste bubônica. Foi possível então concluir que a população londrina dobrava a cada 64 anos, com base em estatísticas primárias de nascimentos, mortes e número de casamentos, e que esta duplicação da população acarretaria implicitamente uma deterioração da qualidade de vida, a não ser que os recursos e facilidades disponíveis também acompanhassem o crescimento populacional. Esta visão pessimista foi explorada por Malthus (1798),

que

notou que as populações tendem

a

crescer

exponencialmente, enquanto seus recursos crescem em progressão aritmética (Figura 1a). O que leva à conclusão natural de que o crescimento populacional tende a ser controlado pela fome e pela miséria. A equação e solução propostas por Malthus para descrever tal comportamento são apresentadas a seguir.

A forma diferencial da equação indica que a taxa de crescimento da população

em função do tempo

é igual à taxa de crescimento

populacional ( ) multiplicada pelo contingente populacional

. A taxa de

crescimento populacional se traduz num balanço entre a taxa de indivíduos que nascem (

da palavra inglesa birth) e a taxa de indivíduos que morrem (

palavra inglesa death) e regula o crescimento da população.

da

é o tamanho da

população no início do processo. Uma condição ecológica essencial é

, ou

seja, o mínimo de 1 casal reprodutor (salvo em espécies, como as bactérias, com

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outras formas de reprodução). Apesar de o modelo ser aceito pelos ecólogos, ele raramente representa o comportamento temporal de populações reais. No século seguinte, as concepções demográficas encontraram plena manifestação na modelagem matemática. O mais famoso destes modelos, a curva logística do crescimento populacional, foi proposto pelo belga Verhulst (1845) que lançou a hipótese de que o crescimento das populações humanas seria mais bem representado pela curva logística. Esta curva foi redescoberta por Pearl (1925), que a aplicou ao crescimento de diversas populações animais. Este modelo representou uma melhoria ao de Malthus pela inserção da razão

, termo que

regula a taxa de crescimento ( ), aproximando-a de situações reais (Figura 1b):

De acordo com esta curva sigmóide, as populações atingiriam um patamar de equilíbrio, que corresponderia à capacidade de auto-sustentação do meio. Haveria, portanto, uma população sobrevivente e persistente de tamanho máximo permitida pelo ambiente, sendo o tamanho expresso pelo valor

. Essa

interpretação, muito lógica e coerente, permitiu que um novo conceito fosse incorporado a ecologia, o conceito de capacidade suporte.

Figura 1. a) Plotagem da solução da equação de Malthus ( da equação de Verhulst

). Plotagem da solução

Na curva sigmóide, diferentemente da curva exponencial, há um momento em que a taxa relativa de crescimento populacional começa a ser freada (matematicamente isso ocorre quando

). A população

neste ponto começa a sentir os efeitos das restrições ao crescimento impostas pelo FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William Roberto Luiz. Abordagem Populacional na Ecotoxicologia. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 79-91, out. 2011. 83


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ambiente. O efeito máximo dessas restrições ocorre quando a população chega, finalmente, a capacidade suporte, ou seja, a valores em torno de

. Neste

momento o contingente populacional não aumenta nem diminui à medida que o tempo

passa,

ficando

sempre

próximo

ao

valor

condicionado

por

.

Ecologicamente dizemos que a população está em equilíbrio, e nesse caso, em equilíbrio estável (teoricamente e na natureza podem ocorrer também equilíbrio instável, ciclo-limite e caos. Esses conceitos foram descritos por May, 1976). Pode-se refletir que as diversas espécies que conhecemos ao persistirem em seus habitats passaram por diversas catástrofes naturais (e ainda lutam contra as interferências humanas), e que processos evolutivos ocorreram para que se mantivessem em equilíbrio. Tal condição existe na natureza? A resposta é sim, existe, o que pode ser constatado pelas curvas adaptadas a dados documentados na literatura (Figura 2 a. 2b. 2c e 2d).

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Figura 2. a e b) Crescimento logístico de ovelhas (Ovies aries) introduzidas na Austrália e na Tasmânia. Os parâmetros usados para plotar a curva sigmoidal e os dados podem ser encontrados em Davidson (1938 a,b) mesmo com as populações localizadas em regiões geográficas bem distintas. c) Flutuação temporal de marta (Martes pennantis) (Novak et al., 1987). A curva sigmóide inserida no gráfico se ajustou muito bem aos dados a partir do instante em que a população cresceu e revelando um início de crescimento exponencial. d) Ajuste da curva sigmóide para dados de populações monitordas de grou-americano (Grus americana), a partir de encontrado na literatura (Canadian Wildlife Service and U.S. Fish and Wildlife Service, 2005). A a população irá estabilizar. e) Crescimento priori, não é possível saber para quais valores de populacional inicial de pingüim-do-Cabo (Spheniscus demersus) em três regiões distintas da África do Sul (Ilha de Robben, Ilha de Boulders e Stone Point) (Underhill et al., 2006). f) Crescimento populacional de veado-vermelho (Cervus elaphus) (Clutton-Brock et al., 1987). Os pontos amostrados estão e pontilhados. A curva ajustada foi originada da equação equação-θ de , . A curva ajustada “no Ricker na sua forma discretizada, com olho” revelou a taxa intrínseca de aumento populacional, a capacidade-suporte e o expoente de competição intra-específica, os parâmetros populacionais necessários para explicar o comportamento da série temporal.

As espécies não se encontram isoladas no ambiente, apesar de algumas

populações reais apresentarem crescimento ajustado à curva sigmóide (Figura 2). Dentre os dados populacionais analisados consideraram-se as espécies: Ovis aries espécie exótica introduzida na Austrália, Marthes pennanti cuja populaçõa sofre declínios devido à caça, Grus americana inserida em programa de recuperação, Spheniscus demersus cujas populações foram monitoradas em várias regiões e ilhas de África do sul, sendo que em 2 ilhas e um ambiente continental apresentaram indício de crescimento exponencial, e Cervus elaphus exterminada durante o século 18, e uma fonte de estudos para ecologia comportamental e socioecologia. Porém, em regra, espécies interagem umas com as outras (tecnicamente, pertencem à mesma rede trófica), estão inseridas numa comunidade biológica e esta, num ecossistema. Existem várias formas de interação entre indivíduos de diferentes populações, sendo usuais as relações de competição e predação. Nosso bom senso nos diz que os leões não esgotam a população de suas presas, pelo FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William Roberto Luiz. Abordagem Populacional na Ecotoxicologia. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 79-91, out. 2011. 85


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contrário, selecionam presas mais frágeis e/ou mais velhas; tubarões não esgotam o estoque de seus peixes preferidos, pelo contrário, suas presas são abundantes (provavelmente pelo fato das presas possuírem um

alto e os tubarões serem

predador generalista). Mesmo o lince, um predador especialista, não esgota a sua presa favorita, a lebre-do-Ártico. Como a natureza resolve esse problema? Para que ocorra predação é estritamente necessário que haja o encontro entre a presa e o predador. Se há uma grande quantidade de presas e uma pequena quantidade de predadores, a chance de captura é muito alta. E se há uma grande quantidade de predadores, rapidamente estes esgotariam suas presas e não resistiriam por muito tempo. Porém o predador possui uma capacidade natural para capturar suas presas (não serão considerados aspectos evolutivos, mas todas as populações adquirem certas habilidades que são otimizadas através de mecanismos evolutivos), supõe-se ainda que essa capacidade possa ser medida por um coeficiente, o coeficiente de ataque. Ao se inserir uma quantidade de predadores ataque, aqui denominado de

e multiplicar-se esta pelo coeficiente de

, ou seja,

, pode-se avaliar a eficiência da

população do predador de controlar a população da presa. E ao multiplica-se por

, pode-se avaliar o quanto a população de presa será afetada. Como

interfere negativamente sobre a população de ,

temos

.

Lotka imaginou que a população de predadores cresceria de forma diferente da exponencial apesar desta também apresentar em tese a capacidade de crescimento exponencial natural prevista por Fenchel (1974). O predador depende muito da oferta de presas para alimentar suas crias e, por isso, o seu crescimento populacional depende do quanto cada presa consumida é convertida em energia. Pode-se imaginar outro coeficiente, o coeficiente de eficiência de conversão ( ), que mede o quanto de energia a presa fornece para o sustento de um único indivíduo predador. Obviamente para que isto aconteça é necessário o encontro entre a presa e o predador. Análogo a modelagem da presa, se obtém , e, portanto,

. A população de presa sofre uma interferência negativa

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determinada pela mortalidade natural de indivíduos da própria população. Ao multiplicar a taxa de mortalidade ( ) a população de presas, , obtem-se

. Este

termo age negativamente sobre a população de predadores. Então se , obtém o sistema resultante abaixo. Não se tratará aqui da solu��ão do sistema, mas esta é uma função que tem comportamento elipsóide. e A população da presa na natureza tende a se comportar seguindo os moldes da curva logística, como qualquer população que dependa dos recursos disponíveis de seu ambiente. Ecologicamente diríamos que a população da presa tem regulação populacional dependente da densidade e a única interferência biológica sobre esta (pelo menos para esse modelo inicial) é a atividade predatória. O termo de regulação dependente da densidade é exatamente o termo criado por Verhulst (Figura 3). Inserido em

:

e Verifica-se a forma discreta análoga:

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Figura 3. Sistema presa-predador de Lotka-Volterra com presa crescendo logisticamente. (taxa de crescimento per Parâmetros do crescimento populacional para população de presa: capita); (capacidade suporte). Parâmetros de crescimento populacional para população de predador: (coeficiente de ataque); (coeficiente de conversão de energia); (taxa de natalidade do predador). Para todas as figuras e . a) , , . A presa cresce logisticamente e com isso é garantido recursos para o predador. b) , . Surge um ciclo populacional, porém as duas populações não se sustentam e ambas se extinguem. c) São . mantidas as mesmas condições de b, alterando-se apenas o coeficiente de ataque para Novamente surge um ciclo populacional com amplitudes bem diferenciadas, porém ambas as populações se extinguem. d) , , , e . Essas são as condições encontradas para que ambas as populações se sustentem.

O modelo mostra que é possível que as duas populações (presa e predador) persistam, mas há certos valores que os parâmetros devem tomar para que os ciclos garantam a permanência das populações ao longo do tempo. Dependendo de como se manipulam os parâmetros, a dinâmica das populações assume comportamentos bem diferentes, porém, pergunta-se: tais dinâmicas existem na natureza? A resposta também é afirmativa e podemos relembrar o exemplo clássico do sistema lebre-lince (Figura 4). O ciclo populacional entre a lebreamericana (Lepus americanus) e o predador especialista lince-canadense (Lynx canadensis) é o indício mais claro de que o sistema presa-predador realmente existe na natureza. Esse ciclo de 10 anos foi obtido trabalhando-se os dados de controle da produção de peles pela Companhia da Baia de Hudson, no Canadá, estabelecida em 1671. O número de peles caçadas, importadas para diferentes lugares do país, foi sempre documentado. Porém o sistema não é o suficiente para descrever os dados. Atualmente é sabido que é necessário incluir no sistema um modelo para o crescimento do recurso que a lebre precisa (no caso, a planta). Keith, em 1974, criou a hipótese planta-lebre-lince como conseqüência da interação entre as três cadeias tróficas e os determinantes desses ciclos ainda são estudados (Krebs et al., 2001; Zhang et al. 2007).

FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William Roberto Luiz. Abordagem Populacional na Ecotoxicologia. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 79-91, out. 2011. 88


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Figura 4. O ciclo populacional entre a lebre-americana (Lepus americanus) e o predador especialista lince-canadense (Lynx canadensis). Dados do GPDD (Global Population Dynamics Database) (NERC, 2010).

Considerações

Não existem leis gerais que abrangem todos os seres vivos estabelecidos nos diversos ecossistemas do globo terrestre, mas existem diversas evidências de que há regras que podem explicar o comportamento de populações ao crescer, ao atingir a capacidade-suporte e/ou flutuar em função da relação consumidorrecurso. A ecologia de populações e o entendimento de suas dinâmicas são oriundos de princípios estritamente biológicos transformados em parâmetros matemáticos que por sua vez definem o comportamento de certas equações. Qualquer análise de populações biológicas reais deve ser alicerçada nesses parâmetros. Caso contrário, perde-se o alicerce teórico edificado ao longo do tempo pela ecologia. Há outros parâmetros populacionais (generalizados pela ecologia como fatores bióticos) ou outros parâmetros ambientais (definidos como fatores abióticos) não analisados aqui que podem regular populações biológicas reais: expoente de competição intra-específica, coeficiente de competição interespecífica, efeito de Allee, efeito de Moran, taxa de agarramento da presa, etc. O acréscimo de tais parâmetros nos modelos os torna cada vez mais reais e refletem os dados empíricos com maior fidelidade. Conhecendo os parâmetros necessários para FLYNN, Maurea Nicoletti; PEREIRA, William Roberto Luiz. Abordagem Populacional na Ecotoxicologia. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 79-91, out. 2011. 89


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descreve a dinâmica de uma população ou a dinâmica de uma rede trófica, fica mais fácil antecipar o estresse ambiental. A quantidade de modelos populacionais descritas na ecologia é vasta e pode ser revista com o intuito de tornar o modelo ainda mais fiel ao comportamento de uma rede trófica real.

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Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos Carlos Eduardo Matos dos Santos Farmacêutico e Toxicólogo. Analista de gerenciamento de risco toxicológico da Intertox. Experiência em Toxicologia Computacional & In Silico, Toxicologia Ambiental, e assuntos regulatórios. E-mail: carlos@intertox.com.br

Aretha Sessa Rodrigues Farmacêutica especializada em Toxicologia Analítica pela UNICAMP. Analista de risco toxicológico da Intertox. Farmacêutica especializada em Toxicologia Analítica pela Universidade Estadual de Campinas Unicamp. Experiência em laboratório de análises físico-químicas, ecotoxicologia e controle de qualidade. Participação ativa em projetos de pesquisa na área toxicológica. Analista de risco toxicológico da Intertox.Instrutora de cursos na área de Segurança Química pela Intertox. E-mail: a.sessa@intertox.com.br

Resumo O desenvolvimento de métodos alternativos para avaliação da toxicidade é um novo foco das organizações internacionais, com o objetivo de poupar animais em testes e de tornar acessível e custo-efetiva a avaliação da toxicidade de substâncias químicas. A modelagem in silico é uma das abordagens alternativas à utilização animal, e já vem sendo considerada por organizações internacionais em programas de pesquisa e desenvolvimento, ações regulatórias, programas de avaliação de risco, entre outros. Os modelos in silico são baseados em diferentes abordagens, tais quais (Q)SAR ̶ (Quantitative) Structure-Activity Relationships, formação de categoria, análise de tendência, métodos de extrapolação etc. Para dar suporte à aceitação regulatória de modelos Q(SAR), a OECD publicou um guia de validação de modelos (Q)SAR, que definem princípios a serem SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 92


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considerados na aplicação em predições de toxicidade. Neste trabalho faz-se uma revisão de relatórios técnicos, guias, abordagens estratégicas, ações regulatórias de agências internacionais, que dispõem sobre a modelagem in silico e seu contexto diverso de aplicação, bem como a discussão das perspectivas de utilização no Brasil. Palavras-chave: Métodos Alternativos. Toxicologia in silico. Modelos in silico. Filosofia 3R. Abstract The development of alternative methods for assessment of toxicity is a new focus of international organizations, in order to save animals in testing and to make accessible and cost-effective evaluation of the toxicity of chemicals. The in silico modeling is one of the alternative approaches to animal use, and is already being considered by international organizations in research and development programs, regulatory actions, programs, risk assessment, among others. The in silico models are based on different approaches, such that (Q)SAR ̶ (Quantitative) Structure-Activity

Relationships,

category

formation,

trend

analysis,

extrapolation methods etc. To support the regulatory acceptance of models Q (SAR), the OECD published guide validation of (Q)SAR that define principles in the application to be considered in predictions of toxicity. In this paper we provide a review of technical reports, guides, strategic approaches, regulatory actions of international agencies, which provide for the in silico modeling and its different context of application as well as discussion of prospects in Brazil. Keywords: Alternative Methods. In silico Toxicology. In silico models. Philosophy 3R.

SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 93


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INTRODUÇÃO Grande ênfase vem sendo dada ao desenvolvimento de métodos alternativos para a avaliação da toxicidade. Visando poupar animais em testes, agências reguladoras integram o desenvolvimento de tecnologias, métodos alternativos, e abordagens estratégicas para a priorização de testes com animais nos programas de avaliação de substâncias. Os testes alternativos fazem parte da filosofia conhecida como “3R philosophy” ou seja Replacement, Refinement and Reduction (Substituição, Refinamento e Redução) em relação aos testes com animais, e que é citada no primeiro capítulo do documento “Recognition and Alleviation of Pain in Laboratory Animals”, publicado pelo National Research Council em 2009 (NRC, 2009). Nos Estados Unidos, a USEPA (United States Environmental Protection Agency), em seus programas de pesquisa e segurança toxicológica ExpoCast, ToxCast e Tox21, tem integrado abordagens inovadoras, como testes in vivo com tecnologia HTS (High-Throughput Screening) e modelagem computacional, para a avaliação da segurança das substâncias (USEPA, 2011a). Outros países desenvolvidos têm se preocupado com a utilização excessiva de animais, incentivando o desenvolvimento de abordagens alternativas à utilização animal, em alguns casos inserindo até mesmo medidas para o controle de testes em animais, como no caso da regulação de cosméticos na Europa, que proíbe a realização de testes com animais, considerando a existência de métodos alternativos, por meio das emendas da Diretiva de Cosméticos - Council Directive 76/768/EEC (EUROPEAN COMISSION, 1976). No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), num primeiro passo, assinou acordo de cooperação com a FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) para a validação de métodos alternativos, com o objetivo de reduzir a experimentação animal em testes de segurança ou pré-clínicos (ANVISA, 2011; INCQS, 2011). SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 94


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A modelagem in silico é uma das alternativas aos testes de toxicidade, do

âmbito da Toxicologia Computacional, ciência na qual se aplicam modelos computacionais e matemáticos para a predição de efeitos adversos, e para o melhor entendimento do(s) mecanismo(s) através do(s) qual(is) uma determinada substância provoca o dano, o que, na definição mais abrangente de outros autores, inclui os modelos de predição de exposição interna e externa, organização de dados toxicológicos e atribuição de peso às evidências de toxicidade (IUPAC apud SANTOS, 2011; CRONIM, 2010). A modelagem in silico pode ser baseada em diferentes princípios metodológicos ou da combinação destes, tais quais (Q)SAR ̶ (Quantitative) Structure-Activity Relationships, formação de categoria, análise de tendência, métodos de extrapolação etc., e que são aplicados em softwares de agências como a USEPA, OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development) e Comissão Européia. O presente trabalho tem como objetivo apresentar revisão das mais recentes abordagens estratégicas e guias de orientação de organizações internacionais, que incluem modelos in silico como métodos alternativos para a predição da toxicidade de substâncias, considerando os diferentes escopos (pesquisa e desenvolvimento, identificação e classificação de perigo, avaliação de risco, ações regulatórias, entre outros), bem como as perspectivas da Toxicologia in silico no Brasil para o setor produtivo e regulador. Validação de modelos (Q)SAR e aceitação regulatória Em 2004, foi feita discussão quanto à aceitação de modelos (Q)SAR por parte de agências regulatórias. A OECD, considerando o esforço internacional para nortear a tecnologia (Q)SAR com princípios e aplicações definidas, elaborou em 2006 um relatório contendo estudos de casos com exemplos de aplicações de modelos (Q)SAR para fins regulatórios em agências de diferentes países, bem como as perspectivas de tais aplicações. SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 95


Ensaio Em

2007,

considerando

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os esforços internacionais para

aceitação

regulatória de modelos (Q)SAR, a OECD publicou o documento “Guidance Document on the Validation of (Quantitative)Structure-Activity Relationships [(Q)SAR] Models”, com o propósito de orientar a validação metodológica na aplicação dos modelos, como também, auxiliar as agências regulatórias a definir seus próprios critérios de validação e aceitação (OECD, 2007). No documento foram definidos cinco princípios da OECD para validação de modelos QSAR: (i) o modelo QSAR deve ter um “endpoint definido”; (ii) o modelo QSAR deve ser expresso sob a forma de “um algoritmo inequívoco”; (iii) o modelo QSAR devem ser associados a “um domínio de aplicabilidade definido; (iv) o modelo QSAR deve ser associado com “medidas apropriadas de desempenho (ex. performance interna, robustez e previsibilidade)”; e (v) o modelo QSAR deve ter uma interpretação mecanística. Tais princípios também conhecidos como “princípios de Setubal”, foram propostos em um workshop sobre aceitação regulatória de modelos QSARs, organizado pelo ICCA (International Council of Chemical Associations) e European Chemical Industry Council (CEFIC), realizado em 2002, em Portugal, na cidade de Setubal (ECHA, 2009; OECD, 2007). ISO 10993-10:2010 – avaliação de dispositivos médicos A ISO (International Organization for Standardization) publicou guia de padronização dos procedimentos para a avaliação de dispositivos médicos que inclui métodos e in vitro e in silico como pré-testes. A descrição é feita na parte 10 da ISO 10993:2010, sobre testes de irritação e sensibilização dérmica (ISO, 2010). In Silico em Pesquisa e Desenvolvimento – P&D Além da questão do atendimento a regulamentações, muitos líderes empresariais têm reconhecido a necessidade de se fazer predições de toxicidade, SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 96


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devido às vantagens competitivas que podem ser obtidas com a possibilidade de identificar antecipadamente a toxicidade de novas moléculas (CRONIM, 2010). Sob nosso ponto de vista, uma vantagem competitiva, que também é de rápida execução e de baixo custo, e ainda, que racionaliza a utilização animal, pode tornar mais competitivo o setor de P&D. Ultimamente, tem surgido uma nova pressão - contra a utilização animal irracional e excessiva, o que implica na busca de testes alternativos no processo de desenvolvimento de novas substâncias e produtos (CRONIM, 2010). Como exemplo, tendo um grupo de 100 moléculas a avaliar, é possível (e sensato) reduzir a quantidade de testes com animais, pela priorização feita com base nos resultados da avaliação in silico. Além disso, é possível a eliminação dos agentes potencialmente mais tóxicos, antes mesmo do processo síntese. In Silico e GHS (Globally Harmonized System) O GHS (Globally Harmonized System of classification and labeling of chemicals) faz parte do esforço da ONU (Organização das Nações Unidas) para aplicação de um sistema unificado de classificação e rotulagem de produtos químicos. A primeira edição do livro oficial conhecido como livro Púrpura (Purple Book) foi lançada em 2003 e traz como objetivos da aplicação do sistema: aumentar a proteção da saúde humana e meio ambiente, fornecendo um sistema internacionalmente compreensível para comunicação de riscos, como também facilitar o comércio internacional de produtos químicos cujos riscos foram apropriadamente avaliados e identificados em uma base de dados internacional (ABNT, 2009). O Sistema apresenta ainda diferentes possibilidades para a redução do uso de animais em ensaios de perigos à saúde humana e meio ambiente, permitindo a utilização

de

dados

de

produtos

(matéria-prima

e

misturas)

testados

anteriormente ou já classificados em outros sistemas de classificação, como é o caso dos produtos classificados pela IARC (International Agency for Research on SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 97


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Cancer – Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer), como também a aceitação de métodos alternativos como métodos in vitro e o uso de QSAR. Algumas vezes o uso de QSAR pode ser limitado quando não há dados ou modelos confiáveis. Nesse contexto, a aplicação adequada da metodologia QSAR é citada no decorrer do Anexo IX – “Guia de perigos para o ambiente aquático”, o qual apresenta um tópico (A 9.6) exclusivo sobre o assunto. De acordo com o Livro Púrpura, dados derivados de testes experimentais são preferencialmente aceitos, no entanto, quando estes não estiverem disponíveis a metodologia validada do QSAR pode ser aplicada sem prejuízo à classificação, considerando agentes químicos cuja aplicabilidade seja bem estabelecida. A modelagem QSAR pode ser feita para predição de: (i) toxicidade aquática para peixes, microcrustáceos e algas; (ii) Log kow em substâncias nãoeletrólitos,

não-eletrofílicas

e

não

reativas;

e

(iii)

(bio)degradabilidade,

respeitando-se critérios específicos (UNITED NATIONS, 2011). No contexto de predições para toxicidade aquática, destaca-se que para algumas

substâncias

o

uso

de

QSAR

é

limitado,

como

no

caso

de

organofosforados, que agem através de mecanismos específicos de interação com receptores biológicos. Por outro lado, têm sido derivados modelos QSAR confiáveis para agentes químicos que agem através do mecanismo narcótico, tais quais hidrocarbonetos, alcoóis, cetonas, e certos hidrocarbonetos alifáticos clorados, cujos efeitos são produzidos em função de seu coeficiente de partição (UNITED NATIONS, 2011). Quando não há log Kow experimentais confiáveis disponíveis, pode ser feita a modelagem QSAR em vez de se fazer uma determinação analítica, especialmente para ácidos e bases fortes, substâncias que reagem com o eluente, ou substâncias superfície-ativas. No caso de substâncias muito solúveis em água, muito lipofílicas e os surfactantes, para as quais a determinação experimental do log Kow nem sempre é possível, a modelagem QSAR também pode ser aplicada. Diferentes métodos são recomendados para classificação no GHS, conforme quadro abaixo: SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 98


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Quadro 1. Modelos QSAR recomendados para predição do Kow (Adaptado de UNITED NATIONS, 2011). Modelo

Faixa de Log Kow

CLOGP

0 < log Kow < 9 a

Substâncias utilizadas O programa calcula log Kow para compostos orgânicos contendo C, H, N, O, Hal, P e ou S. O programa calcula log Kow para compostos

LOGKOW (KOWWIN)

- 4 < log Kow < 8 b

orgânicos contendo C, H, N, O Hal, Si, P, Se, Li, Na, K ou Hg. E alguns surfactantes (como álcool etoxilado). O programa calcula log Kow para alguns

AUTOLOGP

Log Kow > 5

compostos orgânicos contendo C, H, N, O, Hal, P e S.

Proporciona melhores SPARC

resultados que KOWWIN e CLOGP para compostos com log Kow > 5

SPARC é um modelo mecanístico baseado em princípios de termodinâmica. Somente SPARC pode ser aplicado como modelo geral para inorgânicos e compostos organometálicos.

O programa demonstrou predições precisas para um grande número de produtos químicos orgânicos com log Kow entre 0 e 9. b Comprovadamente válido para compostos com log Kow dentro do intervalo -4 a 8. a

Em relação à degradabilidade (abiótica), foram desenvolvidos alguns modelos QSAR para predição do valor aproximado da meia-vida por hidrólise, mas o uso de tais modelos é indicado apenas quando não há dados experimentais disponíveis. Para fins de classificação, o dado sobre meia-vida por hidrólise deve ser usado com cuidado, pois este não indica a degradabilidade final de uma substância. Em casos como este, torna-se indispensável a avaliação de especialistas. Quanto à biodegradabilidade, não há ainda modelo quantitativo (QSAR) com acurácia suficiente para a predição da rápida biodegradabilidade, no entanto SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 99


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os resultados obtidos por tais métodos podem ser aplicados para predizer que uma substância não é rapidamente degradável. Avaliação de metabólitos e produtos de degradação de agentes químicos em alimentos como suporte em decisões regulatórias

Sabe-se que em avaliação de agentes químicos em alimentos (intencionais ̶ aditivos, flavorizantes, conservantes, ou suplementos; ou inadvertidamente presentes ̶

poluentes ambientais, resíduos de praguicidas e agentes de uso

veterinário, componentes de materiais em contato com o alimento, agentes formados durante o processo produtivo ou por contaminantes biológicos), é geralmente limitado o conhecimento sobre as propriedades toxicológicas de metabólitos e/ou produtos de degradação do toxicante avaliado. Assim, torna-se não praticável a utilização de modelos animais para avaliação de todos os potenciais produtos de metabolismo ou degradação, sendo necessário o suporte de testes alternativos, como no caso de modelos computacionais (WORTH, 2011). Neste contexto, em um projeto intitulado PESTISAR, guiado pelo Joint Research

Centre

(JRC)

da

Comissão

Européia,

avaliou-se

a

potencial

aplicabilidade de modelos computacionais (QSAR, SAR e expert systems) em avaliação toxicológica de metabólitos e produtos de degradação de praguicidas em alimentos, para fins de avaliação de risco com fins regulatórios. Como resultado, um relatório final do projeto publicado este ano, apresenta considerações sobre quais modelos e sistemas atualmente disponíveis seriam aplicáveis em avaliação de risco (modelagem por endpoint) em segurança alimentar, após revisão de literatura e experiência de especialistas Tal relatório de suporte científico foi uma colaboração do JRC com a agência reguladora do contexto de alimentos European Food Safety Authority (EFSA) (WORTH, 2011). Em pesquisa feita pelo projeto PESTISAR em relação ao uso de modelos computacionais na indústria e organizações governamentais, obteve-se 38 respostas de diferentes setores e países, com descrição de como e quando são SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 100


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utilizados modelos QSAR, REA e outros. Verificou-se que em 37% dos casos as organizações faziam o uso de modelos computacionais em diferentes aplicações (ver alguns exemplos na Tabela 1), e, que em 60% não o faziam e desconsideravam o uso principalmente por falta de expertise no assunto. Tabela 1. Alguns exemplos de desenvolvimento e usos de modelos (Q)SAR por organizações governamentais e pela indústria. Organizações US Food and Drug Administration (FDA)

Chemisches und Veterinäruntersuchungsamt (Alemanha) Federal Agency for the Safety of the Food Chain (Bélgica) Danish National Food Institute (Dinamarca) US Food and Drug Administration (FDA)

Nestlé Research Centre

US Food and Drug Administration (FDA)

US Environmental Protection Agency

Descrição

Referência

Existe um grupo de SAR que dá suporte a ações regulatórias sobre a segurança de aditivos alimentares no Office of Food Additive Safety Avaliação de materiais de embalagem plástica em relação à carcinogenicidade, genotoxicidade, toxicidade para a tireóide, e outros endpoints para saúde humana Aplicação de metodologia SAR para comparar a toxicidade entre compostos químicos Uso de (Q)SAR em classificação e rotulagem, e, identificação de agentes tóxicos para a reprodução Uso de QSARs e expert system para predição da ocorrência e o modo de ação de carcinogênese em roedores (peso de evidência) Modelos computacionais são utilizados como suporte para a priorização em pesquisa, estabelecendo-se níveis de preocupação na ausência de dados toxicológicos experimentais Uso de ferramentas SAR no programa de revisão substâncias em contatos com alimentos (food contact substances – FCS) em Avaliações de Risco. Uso de métodos de toxicologia computacional para avaliação como suporte para ações regulatórias no contexto de impurezas e produtos de degradação em produtos farmacêuticos Método de scoring de peso de evidência para a predição do potencial carcinogênico em roedores utilizando expert systems Priorização em pesquisa. Com base em análise relação estrutura-atividade fez-se o ranking segundo o potencial carcinogênico de subprodutos de desinfecção (Disinfection byproducts ̶ DBP)

Yang et al.(2009) Rothenbacher et al. (2009) AFSCA (2009) Jensen et al.(2008) Matthews et al.(2008) Tilaoui et al.(2007)

Bailey et al.(2005) Kruhlak et al.(2007) Matthews & Contrera (1998)

Woo et al.(2002)

Adaptado de WORTH (2011) SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 101


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Atual contexto dos métodos in silico na avaliação de nanomateriais e segurança de alimentos Atualmente, tem sido amplamente discutida a questão da segurança na aplicação da nanotecnologia na indústria de alimentos. Sabe-se que entre as nanotecnologias do campo

de

alimentos,

destacam-se

as aplicações de

nanopartículas em embalagens, com sistemas de ação antimicrobiana, proteção ultravioleta, resistência mecânica e barreira contra fluxo de gases e componentes voláteis, e a chegada das chamadas “embalagens inteligentes” que incorporam nanosensores que indicam o estado de conservação e a autenticidade dos alimentos; aditivos; e a aplicação em nutracêutica, com substâncias (vitaminas, antioxidantes e outros) encapsuladas em sistemas de nanoentrega (ou “nanodelivery systems”). Existem

estudos

ainda

inconclusivos

quanto

à

biocinética

de

nanopartículas, sendo que as mesmas podem alcançar a circulação sistêmica permeando as barreiras epiteliais entre as células ou via endocitose. Sabe-se que a biotranformação de nanopartículas, dentre outras, depende da composição química da superfície da partícula (FAO/WHO, 2010). O emprego de nanopartículas em alimentos foi objeto de discussão na FAO/WHO (Food and Agriculture Organization and World Health Organization) em 2010. No relatório sob o título “Expert meeting on the application of nanotechnologies in the food and agriculture sectors:potential food safety implications” são discutidas as fragilidades em relação à avaliação de risco dos nanomateriais em alimentos à saúde humana, ressaltando entre outras,

a

necessidade de desenvolvimento de métodos para se avaliar, entender e predizer a toxicidade da nanomateriais, incluindo métodos in vivo, in vivo, e in silico, minimizando-se a utilização animal sempre que possível(FAO/WHO, 2010).

SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 102


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Burello e Worth (2011) apresentaram modelos QSAR recentes aplicados a

nanomateriais,

considerando

a

heterogeneidade

na

composição

e

no

comportamento das nanopartículas. Os autores verificaram que a falta de conhecimento sobre o comportamento biológico das nanopartículas e de métodos para tal avaliação, dificulta a identificação das características estruturais responsáveis pela atividade biológica, que seriam a base para o desenvolvimento dos modelos. In silico e GPS ̶ Global Product Strategy Recentemente, foi divulgada uma abordagem estratégica chamada GPS (Global Product Strategy), proposta pelo ICCA (International Council Chemical Associations), cujo objetivo é o de harmonizar de maneira global a avaliação de

segurança de produtos da indústria, e de melhorar a transparência e a confiança do público em relação à mesma. Tais objetivos seriam os reflexos positivos do processo de Avaliação e Comunicação de Risco proposto no documento guia “Global Product Strategy - ICCA Guidance on Chemical Risk Assessment”. Na ausência de dados de toxicidade, o documento guia do ICCA destaca que os testes com animais devem realizados sempre como últimos recursos, propondo a utilização de métodos alternativos, tais quais: (i) QSAR, (ii) abordagem read-across; (iii) métodos in vitro; entre outras abordagens. O guia faz referência a diferentes sistemas da metodologia in silico para a utilização em modelagem computacional, inclusive aqueles utilizados pela USEPA (ICCA, 2010). Métodos in silico e abordagens alternativas no Japão

Em um documento sob o título “R&D of In Vitro and In Silico Alternatives to Animal Testing under the Strategic R&D of Chemical Risk Analysis Technologies”, são apresentados projetos no campo dos testes alternativos SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 103


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(incluindo abordagens in vitro e in silico), guiados pela NEDO (New Energy and Industrial Technology Development Organisation), um órgão administrativo ligado ao Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) do Japão (NEDO, 2009).

Regulação da avaliação de cosméticos pela Comissão Européia e a importância do desenvolvimento de métodos alternativos Desde 11 de setembro de 2004 vem sendo gradativamente aplicada a legislação européia que proíbe a utilização de animais em testes com produtos cosméticos acabados ou com seus ingredientes individualmente (proibição de testes), com relação a endpoints específicos; e além da proibição de testes, é vetado o comércio na Comunidade Européia de ingredientes e combinações destes que tenham sido testados com animais (proibição do comércio) em relação a endpoints definidos, desde 11 de março de 2011. As proibições são consideradas tendo-se alternativas aos modelos com animais, o que estimula o desenvolvimento e validação de métodos alternativos para cumprimento da regulação européia (EUROPEAN COMISSION, 1976; 2011). Conforme as novas emendas na Diretiva de Cosméticos (Council Directive 76/768/EEC), a proibição do comércio de ingredientes testados poderá ser ampliada até 2013, abrangendo outros endpoints que estavam a atender este prazo, a saber: toxicidade para a reprodução, toxicidade em doses repetidas, e toxicocinética. Em 2008 foi publicado um relatório sob o título “Report on the Development, Validation and Legal Acceptance of Alternative Methods to Animal Tests in the Field of Cosmetics”, que enfatizava a necessidade da validação de métodos alternativos em consideração às novas emendas da diretiva de cosméticos da Comissão Européia.

SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 104


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Na 7ª revisão do documento

“The SCCS's notes of guidance for the

testing of cosmetic ingredients and their safety evaluation”, publicado pelo Comitê Científico sobre Segurança do Consumidor (SCCS – Scientific Committee on Consumer Safety) da Comissão Européia, são descritos procedimentos para avaliação da segurança de ingredientes de cosméticos, considerando métodos alternativos, como testes in vitro e modelos in silico (QSAR, read-across etc.), para a tomada de decisão no processo de avaliação de risco (EC, 2011). Avaliação de impurezas e produtos de degradação em medicamentos

Quanto à avaliação de impurezas e produtos de degradação de novas drogas, a FDA (Food and Drug Administration) publicou o guia sob o título “Guidance for Industry – Genotoxic and Carcinogenic Impurities in Drug Substances and Products: Recommended Approaches”, com recomendações para caracterizar e reduzir os riscos de câncer pela exposição a impurezas com propriedades carcinogênicas ou genotóxicas, durante os estudos clínicos ou após a aprovação da droga, com medidas específicas no caso de impurezas com suspeita de potencial genotóxico ou carcinogênico. Segundo o projeto de guia FDA, caso seja encontrada impureza com níveis abaixo

dos

limites

de

qualificação

ICH

(International

Conference

on

Harmonization): a impureza deve ser avaliada quanto à carcinogenicidade e genotoxicidade com base em Avaliação da Relação Estrutura Atividade – REA (Structure Activity Relationship Assessment), com a identificação de alertas estruturais, que pode ser feita através de Toxicologia Computacional e revisão da literatura disponível. No caso de identificação de alertas estruturais, um ensaio de mutagenicidade in vitro de poderia ser aceitável como triagem inicial. Em caso de resultados negativos na triagem inicial, a impureza poderia ser considerada qualificada em relação à genotoxicidade, sem necessidade de testes posteriores (FDA, 2008).

SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 105


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Tal guia, ainda não compulsório, foi publicado para consulta pública e teve

uso recomendado como complemento a outros três guias do ICH: o Q3A(R2) Impurities in New Drug Substances; o Q3B(R2) Impurities in New Drug Products; e o Q3C(R3) Impurities: Residual Solvents.

In silico e REACH

O REACH é o regulamento europeu para o Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Produtos Químicos, cujas regras vêm sendo gradativamente implementadas, segundo critérios específicos, desde 2007, e que dependendo da tonelagem e das propriedades produto, exige o registro dentro de um cronograma específico. As substâncias devem ser avaliadas quanto à toxicidade e risco, e as informações são submetidas para fins de registro por meio de dossiê. O anexo XI do regulamento do REACH, faz considerações sobre critérios e aplicações dos resultados obtidos de análise QSAR que podem ser utilizados em lugar de ensaios toxicológicos tradicionais, visando poupar animais em testes (EUROPEAN COMISSION, 2006). A ECHA (European Chemicals Agency) publicou guias de utilização de modelos in silico, dando ênfase à minimização de testes com animais. Sabe-se que sem testes custo-efetivos, o número de animais sacrificados e os custos para as empresas seriam altíssimos.

Programas de avaliação de segurança da USEPA SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 106


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Os programas de avaliação de substâncias da USEPA integram de maneira inteligente os dados obtidos com testes in vitro [principalmente HTS (HighThroughput Screening)] com a modelagem computacional, visando identificar agentes químicos com potencial de interferir em vias celulares, considerando-se os níveis mais relevantes de exposição humana (USEPA, 2011a).

Figura 1. Integração de resultados de toxicidade e modelagem computacional para identificação devias de toxicidade, considerando-se níveis de exposição relevantes para humanos (USEPA, 2011a)

O desenvolvimento de ferramentas computacionais nos programas da USEPA é de notável avanço. Uma das mais recentes cria um “ToxScore” pelo ToxPi (Toxicological Priority Index), sendo possível estabelecer prioridades para a SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 107


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avaliação de substâncias (índice de prioridade), com fundamento nas informações armazenadas nas bases dados (USEPA, 2011b).

Figura 2. Estabelecimento de índice de prioridade para avaliação de substâncias (USEPA, 2011b)

Discussão As perspectivas de aplicação dos modelos in silico e de outros métodos alternativos no Brasil são evidentes. Nessa nova etapa, o setor produtivo e o setor SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 108


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regulador poderão melhorar as políticas de segurança relacionadas aos produtos químicos com maior custo-efetividade e racionalização da utilização animal. O alinhamento dos modelos in silico com as políticas de agências reguladoras internacionais pode contribuir com o setor industrial no enfrentamento e adequação às regulações de outros países sobre produtos químicos. O setor de Pesquisa e Desenvolvimento passa a ter maiores possibilidades e vantagens competitivas, já que a predição de toxicidade pode ajudar na priorização de testes com animais e contribuir para a seleção de moléculas com menor potencial de preocupação para a saúde humana e para o meio ambiente. O setor regulador e de pesquisa pode passar a incorporar os métodos in silico nos

casos que

sempre

foram

um

desafio

devido

aos custos e

impraticabilidade da aplicação de métodos tradicionais, como no caso da avaliação de produtos de degradação e impurezas de substâncias em medicamentos e alimentos, como também a avaliação de substâncias para as quais há pouca informação sobre toxicidade disponível. Se países desenvolvidos já consideram importante a chegada de métodos alternativos e custo-efetivos em suas políticas de segurança, para aqueles países em desenvolvimento, que já demandam de políticas de segurança e têm menos recursos para a realização de testes, certamente é maior a necessidade e muito proveitosos serão os benefícios do planejamento de uma abordagem integrada de testes alternativos com priorização e racionalização de testes com animais. Considerações finais Os avanços da Toxicologia e dos modelos in silico estão tornando mais praticável e custo-efetivo o processo de avaliação da toxicidade, considerando a extensa quantidade de substâncias químicas produzidas, que pelos métodos clássicos representariam um custo elevadíssimo e modelo de sacrifício de animais impraticável. Cabe que cada país se atualize quanto aos avanços tecnológicos e científicos, já que este verdadeiro novo paradigma proposto pode trazer melhorias SANTOS, Carlos Eduardo Matos dos; RODRIGUES, Aretha Sessa. Toxicologia in silico: contexto de aplicação e o modelo de custo-efetividade nos testes alternativos. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 92-113, out. 2011. 109


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nas políticas de segurança para a saúde humana e para o meio ambiente, além de trazer maior êxito para o setor produtivo no desenvolvimento de substâncias e no comércio internacional, considerando-se suas novas tendências.

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Modelagem

in

chemico:

mecanísticas

entre

a

as

bases

reatividade

e

a

toxicidade Talita Chinellato dos Santos Farmacêutica formada pela Universidade Estadual de Campinas Unicamp. Experiência em indústria farmacêutica na área de controle de qualidade microbiológico, desenvolvimento analítico e equivalência farmacêutica. Elaboração de projetos de pesquisa na área de toxicologia social. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos -FISPQ, Ficha de Emergência, e rótulo). E-mail: t.chinellato@intertox.com.br

Resumo A ausência de informações sobre as substâncias químicas quanto ao potencial de toxicidade à saúde humana e ao meio ambiente vem trazendo preocupações ao longo

dos

anos.

A

metodologia

in

chemico,

apesar

de

abordada

mais

profundamente nos últimos cinco anos, é conhecida há muito tempo. Esses modelos possibilitam a interação com outras técnicas como in silico e in vitro e assim a criação de modelos alternativos que possam minimizar a experimentação animal. Vem sendo discutida a aplicação de modelos in chemico para a predição de endpoints

de

sensibilização,

toxicidade

aquática,

hepatotoxicidade

e

carcinogenicidade, já que a toxicidade de uma substância química pode estar relacionada com a sua reatividade. A preocupação quanto ao aumento do uso de animais em experimentações de avaliação de toxicidade devido às ações regulatórias como REACH, e também, a questão da proibição de testes com animais em alguns países para determinados fins; tornaram evidente a

SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 114


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necessidade do desenvolvimento e validação de métodos alternativos, bem como a atualização por parte de agências regulatórias. Palavras-chave: In chemico. Avaliação da toxicidade. Métodos alternativos. Abstract The absence of information on chemicals toxicity potential to human health and the environment has brought concerns over the years. The in chemico methodology, although further discussed in the last five years, is known for a long time. These models allow interaction with other techniques such as in silico and in vitro and thus the creation of alternative models that minimize animal testing. The applications of in chemico models have been discussed for the prediction of endpoints

such

as

sensitization,

aquatic

toxicity,

hepatotoxicity

and

carcinogenicity, since the chemical toxicity may be related to their reactivity. Concerns about the increasing of animal use in experiments of toxicity assessment due to regulatory actions as REACH, and also the ban on animal testing for certain purposes in some countries, have revealed the necessity of development and validation of alternative methods, as well as the update from part of regulatory agencies. Keywords: In chemico. Toxicity assessment. Alternative methods. INTRODUÇÃO A relação entre a capacidade de uma molécula reagir quimicamente e suas propriedades toxicológicas vem sendo descrita desde 1930 (Landsteiner e Jacobs, 1936). Essa relação, amplamente discutida nos últimos anos, originou a metodologia in chemico, que utiliza reações orgânicas simples relacionadas com dados já presentes na literatura para estabelecer a relação entre a reatividade de uma molécula e o efeito tóxico, dando suporte à avaliação de toxicidade das SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 115


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substâncias. A implementação de ações regulatórias com objetivo de promover a segurança

química,

a

exemplo

do

REACH

(Registration,

Evaluation,

Authorization, and restriction of Chemicals), tornou necessária a avaliação das propriedades físico-químicas, toxicológicas e ecotoxicológicas das substâncias. Estima-se que o número de animais utilizados em pesquisas para a avaliação da toxicidade à saúde a ao meio ambiente tenha um aumento significativo, mesmo que a autorização do uso de animais aconteça somente quanto necessário, seguindo os princípios dos

3Rs (replacement, refinement and reduction) (NCR, 2009). A

legislação européia através da Diretiva de Cosméticos proíbe os testes de avaliação de toxicidade que utilizem modelos animais nos produtos cosméticos acabados, bem como seus ingredientes separadamente. A partir de 2013 também haverá a proibição da comercialização na Europa de produtos cosméticos que tenham sido testados em animais (União Européia, 1976). A necessidade

de

disponibilizar informações toxicológicas sobre as

susbtâncias químicas sem aumentar o número de animais utilizados e a proibição dos testes animais em cosméticos, evidencia a necessidade do desenvolvimento de métodos alternativos confiáveis que viabilizem a avaliação de toxicidade de substâncias químicas. O ECVAM (European Centre for the Validation of Alternative Methods) visa informar, aumentar a aceitação e validar métodos alternativos nos preceitos dos 3Rs (Schaafsma et al., 2009). No Brasil, recentemente foi firmado um acordo da ANVISA (Agência Nacional de Vigilânica Sanitária) e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para o desenvolvimento de métodos alternativos com a finalidade de reduzir a utilização de animais, que será realizado

pelo

Centro

Brasileiro

de

Validação

de

Métodos

Alternativos

(BRACVAM). Muitas metodologias têm sido propostas como, por exemplo, os modelos in silico, a modelagem in chemico e o testes in vitro. O presente trabalho tem como objetivo apresentar as bases mecanísticas da reatividade in chemico, como base para a avaliação da toxicidade de substâncias, e, as perspectivas desta abordagem para as Ciências Toxicológicas.

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Metodologia in chemico Uma série de efeitos toxicológicos se inicia através de eventos moleculares. A interação de uma molécula reativa com biomoléculas pode ocasionar diferentes efeitos adversos à saúde humana e ao meio ambiente (Asturiol e Worth, 2011). Considera-se que o efeito tóxico pode acontecer através de ligações covalentes e não covalentes (Hilson e Roberts, 1992). As ligações não covalentes são aquelas produzidas por espécies como oxigênio reativo, ânions superóxidos, radicais hidroxila, peróxido de hidrogênio, já presentes no organismo humano e que podem ocasionar a morte celular (Hilson e Roberts, 1992). As ligações covalentes entre substâncias químicas e macromoléculas são relatadas como um dos fatores que predispõe a toxicidade a um alvo específico. Para a substância produzir um efeito tóxico ela pode reagir quimicamente e formar uma ligação covalente com uma macromolécula, tais quais peptídeos, proteínas e ácidos nucléicos (Schultz et al., 2006). Neste tipo de mecanismo de toxicidade, as ligações às biomoléculas de diferentes funcionalidades no organismo definem o endpoint (efeito final) produzido pela substância. Um dos mecanismos que explicam esse efeito é que a macromolécula ao se ligar a molécula tóxica, modifica sua estrutura restando impossibilitada de exercer sua função, outro mecanismo é pela formação de imuno-complexos (Hilson e Roberts, 1992). Essas ligações não são específicas, mas podem desencadear uma série de reações no organismo, ocasionando irritação e sensibilização da pele e trato respiratório, disfunção no sistema imune, toxicidade à reprodução, mutagenicidade, carcinogenicidade, entre outros efeitos adversos (Schultz et al, 2006). Os mecanismos de ligações podem ser diversos. A substância age basicamente como um eletrófilo e se liga a um nucleófilo presente nas proteínas humanas, os aminoácidos atuam no papel desses nucleófilos. Os endpoints que possuem estudos relacionados à interpolação de resultados com a toxicidade SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 117


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reativa são a sensibilização dérmica, sensibilização respiratória, toxicidade aquática, mutagenicidade, hepatotoxicidade (Asturiol e Worth, 2011), toxicidade aguda e carcinogenicidade (Schwöbel et al., 2010). Os métodos in chemico são elaborados a partir de dados de estudos prévios da toxicidade das substâncias e de estudos epidemiológicos para a comparação dos resultados obtidos quimicamente e verificação da exatidão do método proposto. As informações obtidas de modelos in chemico comparadas com dados existentes na literatura podem ser utilizadas para desenhar modelos QSAR e de read-across para determinar a toxicidade dentro de uma classe química (Schultz et al., 2009). Modelos utilizando reatividade do tiol foram descritos (Asturiol e Worth, 2011), porém as moléculas de baixo peso molecular estão sendo substituídas por nucleotídeos pequenos ou grandes (com mais de um resíduo de aminoácido), pois têm melhor similaridade com proteínas, apesar de não mimetizarem a estrutura em 3D das proteínas humanas. Também podem ser utilizadas as próprias proteínas humanas, o que melhora a extrapolação dos resultados para o real (Roberts e Patlewicz, 2009). Além de aproximar a molécula reativa a uma proteína é necessário aproximar as condições da reação para as condições fisiológicas (Asturiol e Worth, 2011), assim, reações em condições extremas não devem ser consideradas, pois não irão acontecer no organismo humano. A avaliação da toxicidade apenas pelos grupamentos presentes nas moléculas não é a maneira mais correta, pois grupos iguais não necessariamente atuam da mesma forma em uma reação química. Os domínios funcionais que definem como a molécula irá reagir, além de outras variáveis como, quantidade de substituintes, posição dos domínios, tamanho da molécula, entre outras, podem variar por diversos fatores (Asturiol e Worth, 2011). A glutationa (GSH), utilizada em diversos trabalhos e modelos, consiste em um tripeptídeo com um resíduo de tiol do aminoácido cisteína, e é descrita por ter grande efetividade, reatividade além de estar presente em grande concentração nas células e participar de muitos processos fisiólogicos importantes (Schwöbel et al., 2010). Níveis baixos de GSH têm sido relacionados com doenças como câncer, SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 118


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asma, Alzheimer e Parkinson (Asturiol e Worth, 2011). Modelos in chemico utilizando a glutationa têm sido utilizados para a sensibilização (Aptula et al., 2006), hepatotoxicidade (Bolton et al., 1992) e toxicidade aquática (Roberts et al., 2010). Peptídeos com mais resíduos de aminoácidos podem melhor mimetizar a reação que acontece no organismo, pois as moléculas das substâncias a serem testadas têm possibilidades diferentes de ligação com a proteína. As moléculas podem reagir com qualquer resíduo nucleofílico presente em aminoácidos e um número grande de substâncias tem mais de um domínio eletrofílico podendo gerar diversas possibilidades de reações (Aleksic et al., 2009). Estudos utilizam uma variedade de peptídeos, como, por exemplo, resíduos de lisina e tirosina (Wass e Belin, 1990) ou resíduos diversos como lisina, cisteina, histidina, alanina, arginina e tirosina (Aleksic et al., 2009). Todos os estudos mostram uma boa correlação entre a reatividade das substâncias e o efeito tóxico, porém mais estudos são necessários para desenvolver métodos que mimetizem outros processos que acontecem no organismo como, por exemplo, a metabolização. O in chemico propõe metodologias que utilizem de moléculas simples à complexas, incluindo uma capacidade metabólica para o sistema estabelecer a extensão e o tipo de reatividade, identificação dos complexos formados e a determinação de endpoints através de uma determinação qualitativa (reativa, não reativa) até quantitativa (Cronin et al., 2009). Nesse âmbito entra a possibilidade de integrar as técnicas atualmente conhecidas como in vitro, in chemico e in silico para melhor modelar os testes de avaliação de toxicidade. É importante ressaltar que a metodologia in chemico não é semelhante à metodologia in vitro, pois não utiliza-se de materiais biológicos apesar de alguns utilizarem enzimas entre outros, a metodologia usa basicamente as reações químicas orgânicas das moléculas e os dados presentes em estudos já realizados (Cronin et al., 2009). Mecanismos de reação

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O mecanismo descrito como mais importante de ligação de substâncias

químicas com proteínas é a Adição de Michael, mas também são descritas as reações de Substituição nucleofílica (SN2), Substituição nucleofílica aromática (SNAr), Reagente de Schiff e reações de acilação (Chipinda et al., 2011). Os tipos de fragmentos das moléculas definem o domínio de reação. Uma molécula pode ter mais que um domínio de reação e pode reagir tanto predominantemente por um dos mecanismos como também por mais de um mecanismo (Aptula e Roberts, 2006). É importante também identificar moléculas pró eletrofílicas, ou seja, moléculas que após um processo de metabolização ou transformação abiótica se tornam agentes eletrofílicos tornando-se reativas. Esses efeitos são muito importantes para certos end points como, por exemplo, a carcinogenicidade e mutagenicidade e menos relevantes no caso da sensibilidade dérmica (Aptula e Roberts, 2006). Adição de Michael As substâncias que reagem por esse mecanismo de reação possuem dupla ou tripla ligação e um substituinte retirante de elétrons tais como CHO, COR, CO2R, CN, SO2R, NO2 e grupos heterocíclicos como 2 ou 4 piridino. Grupos doadores de elétrons afetam a reatividade da molécula, resultando em uma fraca ou não interação com proteínas. Os substituintes alfa e beta dos carbonos também modificam a reatividade da molécula, seguindo o mesmo princípio, se o substituinte doar elétrons a molécula torna-se menos reativa e se retirar elétrons a molécula torna-se mais reativa. As moléculas chamadas de pró-aceptores de Michael, quando sofrem reações, como oxidação em contato com o ar ou metabolização pelo organismo podem se tornar reativas e produzir o efeito tóxico, substâncias que conhecidamente sofrem essa transformação são as para e orto quinonas. A reação de adição de Michael é reversível, portanto o equilíbrio de reação também influencia no resultado final e no efeito causado no organismo

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(Aptula e Roberts, 2006). Esse mecanismo de reação também foi utilizado para o desenvolvimento de modelos read across (Schultz et al., 2009).

Figura 1. Mecanismo de reação de Adição de Michael, figura adaptada de Aptula e Roberts, 2006.

Substituição nucleofílica aromática - SNAr As moléculas reativas para esse mecanismo são anéis aromáticos com um substituinte halogênio ou pseudo- halogênio e em posição orto ou para ao halogênio deve possuir pelo menos dois substituintes retirantes de elétrons como NO2, CN, CHO, CF3, SOMe, SO2Me e nitrogênio presente no ciclo (Aptula e Roberts, 2006).

Figura 2. Mecanismo de reação de Substituição nucleofílica aromática, figura adaptada de Aptula e Roberts, 2006.

Substituição nucleofílica de segunda ordem - SN2 As substâncias que sofrem esse tipo de reação são facilmente reconhecidas. Substâncias compostas por grupos benzílicos, alílicos e alquil primários ligados a grupos de saída como OSO2R e OSO2OR sendo que R pode ser tanto um grupo alifático como aromático. Quanto menor o grupamento alquila maior a rapidez da reação. Quando o grupo de saída é ligado a um grupo alquila secundário na maioria dos casos a molécula não reage de maneira suficiente para produzir o efeito no organismo, uma exceção é se carbono secundário fizer parte de um anel, nesse caso essas substâncias são sensibilizantes moderados. As moléculas são desativadas por halogênios ligados ao carbono beta. Anéis compostos por enxofre também sofrem esse mecanismo (Aptula e Roberts, 2006). SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 121


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Figura 3. Mecanismo de reação de Substituição nucleofílica de segunda ordem, figura adaptada de Aptula e Roberts, 2006.

Base de Schiff Os compostos que reagem de acordo com esse mecanismo de reação são os compostos carbonílicos como aldeídos alifáticos, α,β-dicetonas, α-cetoesteres e os sistemas hetero-insaturados como composto C-nitroso, hidrocarbonil, cianatos, isocianatos e isotiocianatos. As monocetonas simples e os aldeídos aromáticos não reagem dessa forma. Não é totalmente estabelecido que as reações no organismo sejam via formação da base de Schiff, porém há uma boa transposição de dados com a sensibilização dérmica e alguns modelos Qsar foram desenvolvidos com base nesse conceito (Aptula e Roberts, 2006).

Figura 4. Mecanismo de reação de formação de base de Schiff, figura adaptada de Aptula e Roberts, 2006.

Agentes acilantes Reagem através desse mecanismo os ésteres eletrofílicos como os carboxilatos e carbonatos, nos quais o grupo substituinte deve ser um halogênio ou um bom grupo de saída. Reagem também os anidridos cíclicos e não cíclicos, o sulfonil, fosforil e tioacil. As substâncias que reagem por esse mecanismo geralmente são eletrófilos fortes (Aptula e Roberts, 2006).

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Figura 5. Mecanismo de reação de agentes acilantes, figura adaptada de Aptula e Roberts, 2006.

Sensibilização A sensibilização pode ser causada por dois tipos de moléculas, as moléculas de alto peso molecular (maior que 1000 daltons) e as moléculas de baixo peso molecular (menor que 1000 daltons) (Lalko et al., 2011). As moléculas de alto peso molecular são reconhecidas pelo organismo na forma como se encontram, e assim ativam a resposta imune. Por outro lado as moléculas de baixo peso molecular se ligam direta ou indiretamente a uma proteína e são internalizadas processadas ou metabolizadas e dispostas para que o organismo as reconheça, essas são chamadas de haptenos (Chipinda et al., 2011). Os mecanismos de sensibilização dérmica e respiratória apesar de ter passagens semelhantes, diferem entre si em vários aspectos. A sensibilização dérmica tem métodos validados e um grande acervo de dados sobre os sensibilizantes, enquanto que a sensibilização respiratória tem poucos dados, em comparação à primeira. Isso se deve, provavelmente, a seu mecanismo de desencadeamento da resposta imune não ser muito bem elucidado, os dados provirem basicamente de estudos epidemiológicos em humanos e também pelas diversas formas de manifestação da reação alérgica respiratória (Hopkins et al., 2005). As diferenças entre as respostas imunes desses dois tipos de sensibilização podem estar relacionadas ao fato de cada resposta estimular uma linhagem diferente de células, pois a sensibilização dérmica ativa principalmente as células Th1 e a sensibilização respiratória ativa principalmente as células Th2, ocasionando a liberação de diferentes interleucinas e fatores de ativação celular (Lalko et al., 2011). A eletroficilidade da molécula ou sua capacidade de reagir com o nucleófilo presente nas proteínas humanas apenas não distingue um sensibilizante dérmico de um sensibilizante respiratório. Os diferentes domínios de interação mostraram-se ser importantes para a distinção do efeito, e a capacidade de descobrir onde e como as moléculas interagem pode desempenhar um papel SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 123


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importante na modelagem de testes in vitro para esses dois endpoints (Chipinda et al., 2011). O local da reação e a natureza do antígeno têm papel fundamental na resposta do organismo, pois influenciam diferentes respostas no organismo, porém como acontece esse efeito não é bem elucidado (Hopkins et al., 2005). A sensibilização dérmica geralmente desencadeia uma reação de hipersensibilidade do tipo 1 e a sensibilização respiratória desencadeia a hipersensibilidade do tipo 2. As substâncias químicas que produzem a resposta imune do tipo 1 demonstraram ligar-se a proteínas celulares e as substâncias que produzem resposta do tipo 2 ligaram-se preferencialmente a proteínas do soro. Essas ligações preferenciais não foram relacionadas à reatividade de diferentes aminoácidos (Hopkins et al., 2005). Esse conhecimento pode ser importante para a modelagem de testes in vitro de sensibilizantes com reatividade conhecida, podendo distingui-los de sensibilizantes dérmicos e respiratórios. Sensibilização dérmica A sensibilização dérmica é um dos endpoints de maior preocupação, pois além de ter grande importância ocupacional, não existem testes in vitro para a avaliação desse endpoint. O teste utilizado atualmente para a avaliação da sensibilização dérmica é o Local Limph Node Assay (LLNA) que substituiu o teste de maximização em Porquinhos da índia, teste mais invasivo (Asturiol e Worth, 2011). Com as premissas do REACH, de tornar acessível os dados de toxicidade à saúde humana, e a proibição do uso de animais em testes de produtos cosméticos, uma vez que a sensibilização dérmica não possui uma metodologia in vitro, há a necessidade do desenvolvimento de metodologias alternativas na avaliação desse endpoint. A sensibilização dérmica é atualmente o modelo in chemico mais estudado e tem várias técnicas propostas. O mecanismo biológico da sensibilização dérmica consiste na penetração do estrato córneo pela substância, baseada, entre outros fatores, na sua lipofilicidade SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 124


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expressa pelo coeficiente de partição n-octanol/água (logKow), para que disponibilize essa substância na epiderme e ocorra a posterior ligação com proteínas formando um complexo imune. Esse complexo é reconhecido e processado pelas células de Langerhans que migram para o linfonodo e ativam os linfócitos T produzindo a reação alérgica (Chipinda et al., 2011). Estudos mostram que o logKow não é fator limitante para a sensibilização dérmica, pois algumas substâncias que possuem baixo valor de logKow

se mostraram sensibilizantes

(Roberts e Patlewicz, 2009). Concluiu-se que além dos processos biológicos para ocorrer a sensibilização dérmica, a ligação covalente às proteínas é um fator importante uma vez que substâncias que não são capazes de reagir quimicamente com proteínas não produzem esse efeito (Roberts e Patlewicz, 2009). A pele é a interface do organismo com o ambiente externo e por esse motivo possuiformas de metabolização de moléculas para evitar a produção de um efeito tóxico, sendo que essa metabolização está dividida em fase I e fase II (Karlberg et al., 2008). Na fase I, acontece a metabolização da substância pelas enzimas presentes na pele como isoenzimas do citocromo P450, desidrogenases, esterases, amidases e monooxigenases. Após esse processo a substância passa pela fase II, sofrendo metabolização por enzimas como sulfatases, glucuronidases e glutationa que tem por função aumentar a hidrofilicidade da molécula para que seja melhor eliminada, é o processo de desintoxicação (Pease et al., 2003). Se um intermediário dessas reações não é bem metabolizado pode se ligar a ácidos nucléicos resultando, com o tempo, em carcinogênese (Pease et al., 2003). As moléculas que se ligam covalentemente a essas enzimas e proteínas e impedem que a mesma exerça seu efeito causa então o efeito tóxico, nesse caso, sensibilização ou irritação cutânea. As

substâncias

não

sensibilizantes

podem

ser

transformadas

em

sensibilizantes: são os pré-haptenos e os pró-haptenos. Os pré-haptenos são substâncias que após passarem por um processo de oxidação, por exemplo, pelo ar, tornam-se reativos

e os pró-haptenos se tornam reativos após passarem por

metabolização do organismo (Karlberf et al., 2008). Os pró-haptenos podem ser previstos pela relação estrutura atividade, porém apenas para classes de SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 125


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substâncias conhecidas. É importante o desenvolvimento de métodos que mimetizem essa metabolização. No estudo de Bergström et al.(2007) foi desenvolvido um coquetel de enzimas do citocromo p450 da pele, mostrando o começo do desenvolvimento de técnicas que possam prever células que atuem como pró-haptenos (Bergström et al., 2007). Outras técnicas para evitar falsos negativos dos pró e pré haptenos tem sido discutidas. O sistema denominado Direct Peptide Reactivity Assay (DPRA), atualmente em estado de validação pelo ECVAM (Cronin et al., 2009), utiliza 2 tipos de peroxidases e o sistema de cromatografia líquida de alta eficiência acoplada a espectrometria de massas (HPLC/MS) mostrou ser outro inicio de desenvolvimento de técnicas in vitro promissoras (Gerberick et al., 2009). Os mecanismos de reação química propostos para a sensibilização dérmica são: Adição de Michael (aceptores e pró-aceptores de Michael), Substituição nucleofílica (SN1 e SN2), Substituição nucleofílica aromátivca (SNAR), Reagente de Schiff e reações de acilação (Chipinda et al., 2011). Ferramentas adicionais como cromatografia líquida de alta eficiência e espectrometria de massas podem ser integradas aos sistemas de reações que utilizam vários resíduos de aminoácidos, possibilitando a qualificação e quantificação do efeito, distribuindo as substâncias em 3 categorias: Sensibilizantes fortes, moderados e fracos, assim como no teste de LLNA (Aleksic et al., 2009). Nos compostos aromáticos com muitos grupamentos é difícil de propor o mecanismo de reação, pois possuem vários domínios funcionais e diversas possibilidades, porém pode-se ressaltar dois mecanismos como principais: a oxidação eletrofílica e a formação de radicais livres que reagem com as proteínas como o sal de Würster reatividade

aos

(Aptula et al., 2009). As moléculas que demonstram

peptídeos

como

a

glutationa,

podem

ser

consideradas

sensibilizantes, porém o contrário nem sempre é verdadeiro, pois moléculas que não são eletrofílicas nos ensaios podem também ser sensibilizantes (Wass e Belin, 1990). A reatividade com a glutationa e o teste de in vitro TETRATOX foram

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associados em estudo por Aptula et al., (2006), demonstrando uma alta confiabilidade na predição da sensibilização. A dificuldade da metodologia in chemico é mimetizar as reações no organismo como, por exemplo, as mudanças de pH, pois o pH da pele é 5,5 e o pH fisiológico é 7,4. Essas diferenças modificam o modo como a molécula reage organicamente, modificando a reatividade do nucleófilo. Há também a dificuldade da predição de moléculas que precisam passar por reações de oxidação ou metabolização para produzir o efeito tóxico, como o caso dos pró e pré haptenos. Porém a vantagem de se realizar um ensaio in chemico pode ser notada, pois apesar da avaliação do grupo funcional fornecer uma boa predição de como as moléculas irão reagir, algumas moléculas com os mesmos grupos funcionais não necessariamente reagem da mesma maneira. A experimentação também minimiza a falsa predição de outliers. A utilização de metodologias integradas para o desenvolvimento de um método alternativo que não utilize animais para a predição da sensibilização dérmica têm se mostrado o melhor meio de se alcançar esse objetivo (Natsch et al., 2009). Sensibilização respiratória A sensibilização respiratória é um desafio para a avaliação de toxicidade de substâncias, pois há atualmente poucos métodos aceitos para o estudo desse endpoint, isso deve-se ao fato do mecanismo imunológico não ser bem elucidado, diferentemente da sensibilização dérmica. A sensibilização respiratória tem grande importância no âmbito ocupacional por sua considerável taxa de mortalidade (Kimber et al., 2007).

A asma ocupacional também tem sido

relacionada com a reatividade funcional de grupamentos presentes nessas substâncias sensibilizantes, mostrando a associação entre a reação química e o desenvolvimento da doença, tendo isso como conceito, modelos QSAR foram desenvolvidos (Jarvis et al., 2005). SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 127


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A toxicidade respiratória pode ocorrer de duas formas. Uma é a ligação

química covalente entre as moléculas tóxicas e as macromeléculas presentes no organismo e a outra devido a suas interações físicas (Ferguson, 1939). As interações

físicas

seriam

interações

fracas

não

covalentes,

interações

eletrostáticas, forças de Van der Walls e interações hidrofóbicas, que causariam irritações no trato respiratório. E as interações químicas são as interações covalentes e irreversíveis que podem resultar nas reações de hipersensibilidade. A resposta imune respiratória a alergenos protéicos é baseada na produção de IgE, porém não há uma ligação clara entre essa imunoglobulina e a sensibilização por compostos químicos (Lalko et al., 2011). A relação entre substâncias

conhecidamente

sensibilizantes

respiratórios

e

grupamentos

funcionais reativos é estabelecida em diversos estudos, mostrando que a quantidade de grupos reativos tem relação direta com a capacidade de desencadear a resposta imune, diferentemente da sensibilização dérmica que não tem relação direta à quantidade de centros reativos (Lalko et al., 2011). Genotoxicidade e Carcinogenicidade A

reatividade

de

um

composto

químico

pode

também

levar

ao

desenvolvimento de carcinogenicidade, genotoxicidade e mutagênese (Asturiol e Worth, 2011) por diferentes meios. A molécula se liga a proteínas do organismo e causa um dano ou efeito que leva ao desenvolvimento de câncer, ou como estudado mais recentemente, a molécula se liga ao próprio DNA da célula causando assim o efeito tóxico (Hilson e Roberts, 1992). Foi demonstrado que os compostos muito reativos formados através da metabolização ou da conjugação com a glutationa podem ligar-se a moléculas de DNA produzindo efeito genotóxico (Müller et al., 1998). O desenvolvimento de câncer por substâncias através da ligação com proteínas do organismo acontece e seu mecanismo é conhecido em diversos casos. Complexos carcinogênicos de proteínas como a albumina e a hemoglobina são SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 128


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utilizados como marcadores de exposição. Em fumantes o número de complexos protéicos chega a 15 incluindo 2 conhecidos como carcinogênicos (Hilson e Roberts, 1992). Estudos moleculares de dosimetria são utilizados para demonstrar a presença desses compostos em situações de desenvolvimento de câncer.

Uma

mesma substância pode modificar diversas proteínas do organismo e assim podendo desencadear a resposta apenas com um desses compostos formados. Para poder prever esse efeito e eliminar ao máximo o número de falsos negativos, tem-se que estudar todos os complexos possíveis de serem formados e suas possíveis vias de produzir o efeito (Liebler, 2008). A avaliação da carcinogenicidade se torna muito complexa e necessita mais estudos para o melhor entendimento da correlação entre a reatividade e o efeito. Hepatotoxicidade A reatividade das substâncias também tem um papel importante para a hepatotoxicidade. A metabolização pelo fígado de substâncias químicas e medicamentos pode ocasionar a formação complexos de proteínas, que podem ser responsáveis por produzir o efeito tóxico (Liebler, 2008). A importância desses complexos reativos para a produção do efeito tóxico depende da proporção na qual ele é produzido, a meia-vida do intermediário reativo e a sua habilidade em ligarse a biomoléculas (Castell et al., 1997).

Um dos mecanismos conhecidos de

toxicidade hepática é pela depleção de GSH nos hepatócitos (Bolton et al., 1992). A forma oxidada de GSH nas células tem uma concentração máxima que não deve ser excedida, e quando esta é atingida, as células precisam eliminar a GSH oxidada, como por exemplo, nos casos em que o metabólito produzido pela metabolização do fígado é eliminado através da glutationa. Assim a célula deve produzir GSH para retomar a quantidade perdida, o que causa um grande gasto de energia podendo desestabilizar o balanço energético da célula (Castell et al., 1997). A depleção de GSH da mitocôndria e a alta produção de ATP podem causar deficiências mitocondriais, outro mecanismo de toxicidade hepática (Castell et al., SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 129


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1997). Portanto, podemos mais uma vez relacionar a reatividade de substâncias à glutationa como causadora de efeito tóxico. Toxicidade Aquática A toxicidade aquática pode ser desencadeada por diversos mecanismos, mas se inicia por uma interação química entre as substâncias e o ambiente aquático (Schultz et al., 2006). A toxicidade é dependente da hidrofobicidade, da eletrofilicidade do orbital molecular e da estrutura molecular da substância (Yarbrough e Schultz, 2007) e pode ocorrer por diversos efeitos como o de narcose ou reatividade das moléculas. Em ambos os casos há a mudança covalente de nucleófilos presentes nos sistemas biológicos (Roberts et al., 2007). A reatividade das substâncias com GSH foi testada e demonstrou-se uma boa correlação com a toxicidade aquática, sendo que comparando os dados com estudos já existentes, as substâncias que não produzem esse efeito mostraram ser não reativas à glutationa (Roberts et al., 2007). O principal mecanismo de reação relacionado foi o de substituição nucleofílica (SN2), porém outros mecanismos também são descritos. A interface in chemico e in silico A metodologia in chemico já foi utilizada com diversas abordagens além de demonstrar a reatividade como fator inicial da toxicidade de substâncias químicas. Como já descrito, a metodologia in chemico pode ser utilizada no estudo da toxicidade de drogas como para prever o risco de medicamentos de produzir efeitos adversos no organismo, como intolerância ao álcool, formação de espécies reativas de oxigênio e interações medicamentosas ou a toxicidade de drogas ao fígado, pele e sistema hematopoiéticos e também a distinção do comportamento de drogas no organismo (Cronin et al., 2009). Entendendo as interações e reações, podemos prever a toxicidade sem utilizar animais. A base da reatividade abordada nos estudos descritos é a eletroficilicidade das substâncias químicas, porém outras SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 130


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formas de reatividades não devem ser descartadas como, por exemplo, nucleófilos, radicais livres e espécies reativas de oxigênio, pois causam toxicidade e podem ser modeladas (Cronin et al., 2009). A relação entre a toxicidade e a reatividade quando bem estabelecida pode dar origem a modelos de toxicologia computacional, ou seja, a metodologia in silico. Muitas das técnicas utilizadas na metodologia in chemico podem dar origem a modelos QSAR de estrutura-reatividade com a finalidade de diminuir ou evitar o uso da experimentação química, desenhar modelos para prever a toxicidade e também estudar os modelos mecanísticos trazendo mais informações dos domínios químicos (Cronin et al., 2009). O conhecimento dos mecanismos de reação também pode ser utilizado para odesenvolvimento de modelos de read-across (Schultz et al., 2009). Considerações finais Atualmente a preocupação com o sofrimento de animais utilizados em testes que avaliam efeitos à saúde, tem aumentado e trouxe a necessidade de minimizar ou até substituir os animais nas pesquisas. Na Europa com a instituição do REACH e a proibição de testes em animais em cosméticos, vêm sendo pesquisadas novas metodologias que poderão substituir os testes existentes. O Brasil também tomou frente a esse problema e a ANVISA criou o Centro Brasileiro de Validação de Métodos Alternativos, pioneiro na América do Sul. O primeiro passo foi dado, porém há muito a ser feito ainda em relação à diminuição da dependência da experimentação animal. A política, adotada por diversas indústrias químicas e indústrias relacionadas, do livre acesso às informações toxicológicas de substâncias em conjunto da grande quantidade de produtos exportados pelo país para a Comunidade Européia trouxe também para o Brasil a necessidade da realização de ensaios toxicológicos. Para tal, seria uma grande vantagem, o investimento nos métodos alternativos, pois além das questões éticas e morais envolvidas na experimentação animal, os testes alternativos têm menor SANTOS, Talita Chinellato Modelagem in chemico: as bases mecanísticas entre a reatividade e a toxicidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 114-136, out. 2011. 131


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custo, podem oferecer resultados com menor variabilidade e em tempos mais curtos quando comparados aos testes em animais.

Alguns fatores podem

influenciar no desenvolvimento dos métodos, tais quais a aceitação dos critérios propostos pelas autoridades competentes e o investimento em instituições de pesquisa, como as Universidades brasileiras. A metodologia in chemico, que voltou a ser estudada nos últimos anos, é descrita desde a década de 1930, demonstrando resultados muito promissores e está atualmente com um método proposto para a sensibilização dérmica em estado de validação pelo ECVAM. Além disso, os dados obtidos com esses modelos in chemico podem ser utilizados para o desenvolvimento de modelos QSAR em Toxicologia Computacional. A integração entre as metodologias in silico, in chemico e in vitro têm mostrado a produção de avaliações completas quanto aos perigos das substâncias químicas e pode trazer soluções para a substituição da experimentação animal. REFERÊNCIAS ALEKSIC, M. et al. Reactivity Profiling: Covalent Modification of Single Nucleophile Peptides for Skin Sensitization Risk Assessment. Toxicological sciences, v. 108, n. 2, p. 401–411, 2009. APTULA, A. O. et al. Non-enzymatic glutathione reactivity and in vitro toxicity: A non-animal approach to skin sensitization. Toxicology in Vitro, v. 20, p. 239– 247, 2006. APTULA, A. O.; ROBERTS, D.W. Mechanistic Applicability Domains for Nonanimal-Based Prediction of Toxicological End Points: General Principles and Application to Reactive Toxicity. Chemical Research in Toxicology, v. 19, p. 1097-1105, 2006. APTULA, A.O.; ENOCH, S.J.; ROBERTS, D.W. Chemical Mechanisms for Skin Sensitization by Aromatic Compounds with Hydroxy and Amino Groups. Chemical Research in Toxicology, v. 22, p. 1541–1547, 2009.

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Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I - Histórico Camilla Gomes Colasso Farmacêutica e bioquímica, formada pela Universidade Paulista, Mestre em Análises Toxicológicas pela Universidade de São Paulo (USP/FCF). Cursos de Análises Toxicológicas de fármacos/drogas de abuso pela Universidade de São Paulo – (USP/FCF); Curso de Avaliação Qualitativa de Riscos Químicos – International Chemical Control Toolkit, Fundacentro (Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho). Conhecimentos de técnicas analíticas como HPLV/UV; GC/NPD; CG/MS, em técnicas de preparo de amostras toxicológicas; monitorização biológica de exposição aos BTX. Analista de Risco Toxicológico da Intertox Ltda. Email: c.colasso@intertox.com.br

Fausto Antônio de Azevedo Farmacêutico-Bioquímico, USP; Especialista em Saúde Pública, USP; Mestre em Análises Toxicológicas USP; ex-Coordenador de Toxicologia da CETESB-SP; ex-Professor Titular de Toxicologia da PUC-Campinas; exDiretor Geral do Centro de Recursos Ambientais CRA-BA; ex-Gerente de Vigilância Sanitária da Secretaria da Saúde-BA; ex-Presidente do CEPED-BA, ex-Subsecretário do Planejamento, Ciência e Tecnologia do Estado da Bahia, ex-Superintendente de Planejamento Estratégico do Estado da Bahia. Professor e co-Coordenador do curso de pós-graduação em Ciências Toxicológicas das Faculdades Oswaldo Cruz, São Paulo. Diretor da Intertox Ltda. E-mail: f.azevedo@intertox.com.br

Resumo As armas químicas de guerra são definidas como qualquer substância química cujas propriedades tóxicas são utilizadas com a finalidade de matar, ferir ou incapacitar algum inimigo na guerra ou associado a operações militares. Estas substâncias têm sido utilizadas nas guerras desde tempos remotos, porém, o pico do uso dos agentes foi na Primeira Guerra Mundial, quando os alemães utilizaram em ataques contra os inimigos. Desde então, os agentes químicos foram intermitentemente utilizados em guerras e em atos terroristas. Diversos países possuem um arsenal de agentes químicos, a despeito do esforço legislativo COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 137


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do mundo para banimento de tais agentes, sob a Convenção de Armas Químicas, que entrou em vigor no ano de 1997. No entanto, a fabricação desses agentes não pode ser totalmente proibida, pois alguns têm potencial uso industrial. Além disso, apesar de medidas de correção tomadas até o momento e a condenação de sua utilização no mundo, há uma grande facilidade na fabricação destes compostos. Os agentes químicos são classificados de acordo com o mecanismo de ação tóxica nos seres humanos, como os agentes neurotóxicos, agentes vesicantes e levisita, agentes sanguíneos, agentes sufocantes e as toxinas. Alguns destes são tão devastadores quanto outras armas poderosas. Muitos, além de provocarem lesões imediatas, estão associados com morbidades e problemas psicológicos a longo prazo. Palavras-chave: Guerra Química. Arma Química. Propriedades Tóxicas. Abstract War chemical weapons are defined as any chemical whose toxic properties are used in order to kill, injure or incapacitate an enemy in war or in conjunction with military operations. These substances have been used in war since ancient times, however, such utilization reached a top during World War I, when the Germans used them against enemies. Since then, chemical agents were used continuously in wars and terrorist acts. Several countries have an arsenal of chemical agents, despite the worldwide legislative effort that attempts to ban such chemicals. Such laws are being elaborated and have entered into force by the Chemical Weapons Convention since 1997. However, the manufacture of these agents couldn´t be banned completely as some of these have great industrial importance. Moreover, despite corrective measures are being taken to ban such products and the condemnation of its use in the world, there is a great ease in manufacturing such compounds not without their effectivity, they are still used as powerful weapons. Chemical agents are classified according to the COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 138


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mechanism of toxic action in humans, such as nerve agents, vesicant agents and lewisite, blood agents, choking agents and toxins. Some of these agents are as devastating as other powerful weapons, and cause immediate injury, some of them are associated with morbidity and long-term psychological problems. Keywords: Chemical warfare. Chemical weapon. Property toxic.

1. INTRODUÇÃO Armas químicas de guerra são definidas como qualquer substância química cujas propriedades tóxicas são utilizadas com a finalidade de matar, ferir ou incapacitar algum inimigo na guerra ou associada a operações militares (SMART, 1997). O uso de substâncias químicas naturais em guerras é registrado há mais de dois milênios. Em 600 a.C., os atenienses envenenavam as águas de um rio com raiz de Heléboro, e os inimigos consumiam essa água e apresentavam intensa diarréia, pois a raiz é um drástico laxante. Em 429 a.C., os espartanos queimavam enxofre para produzir fumos tóxicos durante a Guerra do Peloponeso. Em 200 a.C., Cartago derrota os inimigos após contaminar tonéis de vinho com Mandrágora, uma raiz que provoca sono narcótico. Depois do consumo do vinho pelos soldados inimigos, os cartagineses voltaram e os mataram. Aníbal, em uma batalha Naval contra Eumenes II, de Pérgamo, lança cobras venenosas nos conveses de navios inimigos para derrotar os inimigos pergamenos. Outra forma de utilização de substâncias foi através de flechas impregnadas com substâncias venenosas nas pontas e arcos para dispará-las contra os inimigos (ECKERT, 1991; SMART, 1997; SCHECTER, FRY, 2005; CHAUHAN, et al. 2008). Após diversos relatos históricos sobre a utilização de substâncias com a finalidade de combater os inimigos, em 1675 ocorre, em Estrasburgo, a assinatura do acordo Franco-Germâmico proibindo a utilização de balas COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 139


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envenenadas. Depois de alguns anos, é realizada a Convenção de Bruxelas, em 1874, numa tentativa de estancar o uso de armas envenenadas. Em 1899, a Conferência Internacional da Paz, em Haia, promove um acordo mundial, em que declara ilegal o uso de projéteis com gases venenosos. Esperava-se que estes acordos detivessem a utilização de tais compostos, porém, não foi o que aconteceu, pelo contrário, continuou acelerado o desenvolvimento de novos agentes de guerra (ECKERT, 1991; GOLISZEK, 2004; SCHECTER, FRY, 2005; SZINICZ, 2005). As bombas chinesas de gases tóxicos (odor fétido) foram desenvolvidas juntamente com uma argamassa química que disparava estilhaços de ferro fundido. Projéteis de fumaça tóxica foram desenhados e empregados durante a guerra dos 30 anos. Leonardo da Vinci propôs uma arma de sulfeto de arsênio e “verdigris” (pigmento verde obtido através de misturas a base de acetato de cobre), no século 15 (SMART, 1997). Na Guerra da Criméia (1853 – 1856), houve propostas para utilização de armas químicas para ajudar os Aliados (Reino Unido, França e PiemonteSardenha) no combate contra o Império Russo, especialmente durante o cerco a Sevastopol. Em 1854, durante a Guerra, o químico britânico Lyon Playfair propôs a utilização de bombas de artilharia contendo cianeto, para uso principalmente contra os navios inimigos, porém a proposta foi rejeitada pelo Departamento de Artilharia Britânico, que considerou “ruim uma guerra onde ocorria o envenenamento de poços d’água utilizado pelos inimigos” (ECKERT, 1991; SMART, 1997; GOLISZEK, 2004; SCHECTER, FRY, 2005; SZINICZ, 2005). A resposta de Lyon Playfair agregou um conceito diferente, que conveio como justificativa para a guerra química no século seguinte: “Não há sentido em tal objeção. Considera-se um modo legítimo de guerra contaminar reservatórios com metal fundido, que se espalha entre os inimigos e produz um dos modos mais terríveis de morte. Porque vapores venenosos que matam os homens sem sofrimento é considerado modo ilegítimo de guerra, isso é incompreensível. A Guerra é destruição, e quanto mais destrutiva possa ser com o mínimo de sofrimento, mais cedo serão encerrados aqueles métodos bárbaros de proteção dos COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 140


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direitos nacionais. Sem dúvida, com o tempo a química será utilizada para minimizar o sofrimento dos combatentes e até mesmo usada em criminosos condenados a morte (SMART, 1997). A guerra química considerada moderna foi introduzida no século XIX, com o surgimento de bombas incendiárias de arsênio, que liberavam nuvem de fumaça tóxica nas linhas inimigas. Os soldados atingidos pela nuvem apresentavam espasmos musculares, vômitos intensos, colapso cardiovascular e morte em poucas horas após a inalação (GOLISZEK, 2004). Os agentes químicos foram inicialmente utilizados durante a Primeira Guerra Mundial, porém, a maioria deles foi descoberta nos séculos XVIII e XIX. Carl Scheele, químico sueco, descobriu o cloro em 1774 e em 1782 também determinou as propriedades e composição do cianeto de hidrogênio. Claude Louis Berthollet, químico francês, sintetizou o cloreto de cianogênio pela primeira vez em 1802. Humphry Davy, químico britânico, foi o responsável pela síntese do fosgênio, em 1812. O dicloroetilsulfeto, conhecido como agente mostarda, foi sintetizado em 1822 e identificado em 1886 por Victor Meyer. Em 1848, John Stenhouse, químico escocês, sintetizou a clorpicrina (SMART, 1997). Em 1862, durante a Guerra Civil Americana, o professor John Doughty foi um dos primeiros a propor a utilização de cloro como agente químico de guerra Interrogado quanto à questão moral da utilização de tal arma, o mesmo apresentou equivalente visão

à de Lyon Playfair: “tenho acompanhado os

acontecimentos nos últimos oito meses de guerra, e chego à conclusão que a introdução de tais compostos iria diminuir o caráter sanguinário dos campos de batalha, e tornar os conflitos mais decisivos em seus resultados”; aparentemente sua proposta não foi seguida (PITA, 2008). Em 1837, os alemães consideraram a utilização de gases lacrimogêneos com fins militares, e os franceses começaram uma guerra química rudimentar, através do desenvolvimento de gás lacrimogêneo contendo etilbromoacetato (SMART, 1997). COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 141


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2. Primeira Guerra Mundial No início da I Guerra Mundial (1914-1918), tanto os franceses como os britânicos estavam investigando e testando diversas armas químicas. Neste cenário os alemães também pesquisavam e avançavam no desenvolvimento das mesmas. Assim surgiu a sugestão do Prof. Walter Nernst e colegas para a utilização de clorossulfato de dianisidina. Devido à proibição internacional de armas químicas de 1899, os alemães prepararam as bombas com projéteis explosivos com finalidade de disfarçar o gás. Em 27 de outubro de 1914, os alemães lançaram 3.000 bombas na Neuve-Chapelle, mas sem efeitos visíveis, pois o aspecto explosivo das bombas destruiu o aspecto químico (SZINICZ, 2005). O fato é que, como mostra a Tabela 1, armas químicas acabaram sendo muito empregadas na I Guerra. Tabela 1. Histórico da utilização de armas químicas na Primeira Guerra Mundial Classe do Agente

Agentes esternutatórios, irritantes respiratórios, eméticos

Agentes lacrimogêneos

Nome do Agente

Data de introdução do agente

Clorosulfonado de dianisidine

27 Outubro, 1914 - Alemanha

Difenil cloroarsina

10 Julho, 1917 - Alemanha

Difenil cianoarsina

Maio, 1918 - Alemanha

Etilcarbazol Difenilaminacloroarsina

Julho, 1918 - Alemanha Não utilizado em campo de batalha

Fenildicloroarsina

Setembro, 1917 - Alemanha

Etildicloroarsina

Março, 1918 - Alemanha

Etildibromoarsina Metildicloroarsina

Setembro, 1918 - Alemanha Não utilizado em campo de batalha

Etilbromoacetato

Agosto, 1914 - França

Xilil brometo

Janeiro, 1915 - Alemanha

Benzil brometo

Março, 1915 - Alemanha

Bromometiletilcetona

Julho, 1915 - Alemanha

Etiliodoacetato

Setembro, 1915 - Grã-Bretanha

Benzil iodeto

Novembro, 1915 - França

Bromobenzilcianeto

Julho, 1918 - França

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Agentes pulmonares irritantes e gases asfixiantes

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Cloroacetofenona

Pós-guerra- Estados Unidos

Cloroacetona

Novembro, 1914 - França

Bromoacetona

Julho, 1915 - Alemanha

Iodoacetona

Agosto, 1915 - França

Acroleína Cloropicrina

Janeiro, 1916 - França Julho, 1916 - Alemanha/ Agosto, 1916 - Rússia

Cloreto de fenilcarbilamina

Maio, 1917 - Alemanha

Cloro

22 Abril, 1915 - Alemanha

Cloreto de metilsulfurila

Junho, 1915 - Alemanha

Cloreto de etilsulfurila

Junho, 1915 - França

Clorometilcloroformiato

18 Junho, 1915 - Alemanha

Dimetil sulfato

Agosto, 1915 - Alemanha

Perclorometilmercaptan

Setembro, 1915 - França

Fosgênio

19 Dezembro, 1915 - Alemanha

Difosgênio

Maio, 1916 - Alemanha Julho, 1916 - Alemanha e Aliados - Agosto, 1916 - Rússia

Cloropicrina Diclorodimetil éter e Dibromodimetil éter

Agentes vesicantes/bolhosos

Fenildicloroarsina

Setembro, 1917 - Alemanha

Etildicloroarsina

Março, 1918 - Alemanha

Fenildibromoarsina Dicloroetilsulfeto - mostarda de enxofre

Setembro, 1918 - Alemanha

Etildicloroarsina

Dibromoetilsulfeto

Março, 1918 - Alemanha Não utilizado em campo de batalha Não utilizado em campo de batalha Não utilizado em campo de batalha

Cianeto de Hidrogênio

01 Julho, 1916 - França

Brometo de Cianogênio

Setembro, 1916 - Austria

Cloreto de Cianogênio

Outubro, 1916 - França

Cloreto de fenilcarbilamina

Maio, 1917 - Alemanha

Clorvinildicloroarsina - Levisita Metildicloroarsina

Agentes sanguíneos ou agentes sitêmicos Fonte: SMART, 1997

Janeiro, 1918

12 Julho, 1917 - Alemanha

Os alemães continuaram a pesquisar armas químicas, e em novembro de 1914 o Dr. Hans Von Tappen as projetou com brometo de xilita. Foram lançadas mais COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 143


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de 18.000 bombas contra os russos, porém, a temperatura fria impediu a vaporização do gás (HILMAS et al., 2008). O conceito de criar nuvem de gás tóxico foi creditado a Fritz Haber, do Instituto de Física de Berlim, em 1914. Devido à escassez de granadas, Haber pensou que uma nuvem de gás químico poderia incapacitar os combatentes inimigos sem a utilização de explosivos, além do que, a liberação do gás se dispersaria por uma área muito mais ampla do que ataques de artilharia, e selecionou o gás cloro, devido a sua abundância na indústria alemã (SMART, 1997; HILMAS et al. 2008). Assim, em 10 de março de 1915, sob a orientação de Haber, 1.600 cilindros grandes e 4.130 cilindros pequenos foram depositados nas trincheiras francesas (FITZGERALD, 2008). Em abril de 1915, ocorreu o primeiro ataque alemão bem sucedido. No final da tarde de 22 de abril de 1915, membros de uma unidade especial do exército alemão, devidamente protegidos (eles haviam estudado cuidadosamente as condições meteorológicas e o comportamento do vento) abriram válvulas de mais de 6.000 cilindros, distribuídos ao longo da trincheira francesa em, Ypres, Bélgica. Em 10 minutos, 160 toneladas de gás cloro foram liberadas. As tropas francesas estavam totalmente despreparadas para o ataque alemão com a nova e terrível arma. O ataque surpresa do gás cloro permitiu a ruptura da frente francesa ao longo de 6 km, provocando pânico. Em questão de minutos a nuvem de gás cloro matou mais de 1.000 soldados franceses e feriu mais de 4.000 (FITZGERALD, 2008). Os alemães utilizam o cloro em um novo ataque, em Ypres, no dia 24 de abril de 1915, e mais outras quatro vezes em maio do mesmo ano (SMART, 1997; FITZGERALD, 2008). Relatos sobre o ataque em Ypres: “A mudança mais estupenda na guerra desde a pólvora foi inventada, havia chegado e veio para ficar, não se esqueçam disso”. Soldado britânico relata: “Ninguém parece ter percebido o grande perigo COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 144


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que os ameaçava, ninguém se sentiu desconfortável, os efeitos terríveis do gás vieram até nós como uma grande surpresa” (SMART, 1997). Após os ataques alemães, os franceses e britânicos começaram a desenvolver estratégias para atacar o inimigo com armas químicas. Em setembro de 1915, os aliados realizam um ataque com gás cloro contra os alemães nas trincheiras em Flanders, conforme ilustram a Figura 1 (SMART, 1997).

Figura 1. Ataque francês contra as trincheiras alemãs em Flanders, utilizando cilindros de gás cloro. A importância do vento é visível, a condensação do vapor de água formou nuvens. (FITZGERALD, 2008)

Após

os

ataques

dos

aliados

inicia-se

uma

competição

para

o

desenvolvimento de máscaras mais eficazes no combate às armas químicas, além da pesquisa e desenvolvimento de armas químicas mais potentes e sistemas para dispersão de tais compostos (Figura 2 e Figura 3). (FITZGERALD, 2008).

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Figura 2. Tentativas de desenvolvimento de máscaras eficazes contra as armas químicas durante a I Guerra Mundial (FITZGERALD, 2008).

Figura 3. Reparação do arame arrebentado durante em ataque com gás químico, 21 de Junho, 1918 – França (HILMAS, et al. 2008).

Os alemães substituíram o cloro pelo fosgênio. Em maio de 1916, começam a utilizar o difosgênio, enquanto os franceses tentaram utilizar o cianeto e meses após desenvolveram o cloreto de cianogênio. Em julho de 1917, os alemães introduzem o agente mostarda, que atacaria partes do corpo não protegidos. COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 146


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Assim, estes agentes não somente seriam tóxicos através da inalação como também pela/para a pele. Em março de 1918, as forças alemãs utilizam pela primeira vez os agentes etil e metildicloroarsina, capazes de provocar lesões na pele (SZINICZ, 2005). Na Figura 4 vê-se um soldado contaminado por gás sendo atendido ainda dentro da trincheira.

Figura 4. Soldado americano vítima de gás atendido ainda na trincheira. 21 Março, 1918 (HILMAS, et al. 2008).

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Com a guerra recém começada na Europa, a produção e utilização de

agentes químicos não passou despercebida pelos EUA: os americanos começaram a ter mais interesse no que estava acontecendo (SMART, 1997). No ano de 1916, os Estados Unidos criam o NRC, Conselho Nacional de Pesquisa com fins militares. Em 02 de abril de 1917 o presidente dos EUA pede uma declaração de guerra; os membros do NRC recebem a missão de investigar gases nocivos, do desenvolvimento de agentes químicos de guerra e da descoberta de antídotos. Depois de três dias, os Estados Unidos declaram guerra à Alemanha (SMART, 1997). Os americanos ainda não estavam preparados para a guerra química, e em 26 de fevereiro de 1918, os alemães lançam 150-250 cilindros de fosgênio e cloropicrina contra os americanos, perto de Bois de Remieres, França. O primeiro ataque ocorreu entre 1h20 e 1h30 da madrugada, houve um clarão de luz; o segundo ataque ocorreu aproximadamente uma hora mais tarde. Os americanos perderam 33% do seu batalhão neste ataque, pois as máscaras francesas e britânicas não eram eficientes (SMART, 1997; PITA, 2008). Em 28 de julho de 1918, os EUA criam o Departamento de Guerra Química (CWS - Chemical Warfare Service), com atribuições por todas as funções relativas aos agentes químicos de guerra, organizado com divisões responsáveis por: produção de máscaras contra gases tóxicos, produção e desenvolvimento de agentes químicos, produção do agente mostarda. Em 1918, o exército americano tem uma organização que produz agentes químicos, produz equipamentos de proteção, realiza treinamentos, testes e pesquisas (HILMAS et al., 2008). Entre 1917 e 1918 houve a construção de plantas de produção de agentes químicos em Maryland, EUA, e produziram-se agentes de prioridade na época: fosgênio, cloro, cloropicrina e agente mostarda. Mais de 935 toneladas de fosgênio foram produzidas, seguidas por 711 toneladas do agente mostarda. Houve também a produção de levisita, nome dado em homenagem ao Capitão W. Lee Lewis, membro do CWS, porém, este agente não foi utilizado na guerra (HILMAS, et al. 2008). COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 148


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3. Período entre Guerras Em primeiro de julho de 1920, o CWS tornou-se permanente nos EUA, com a missão de desenvolver, fornecer, adquirir agentes químicos e armas para guerra, além de ser responsável por formar um exército especialista em agentes químicos. Em 1928, padroniza os agentes químicos de guerra: sete foram selecionados como os mais importante: (i) agente mostarda – HS; (ii) metildifluorarsina – MD; (iii) 10-cloro-5,10-dihidrofenarsina; (iv) cloroacetofenona – CN; (v) tetracloreto de titânio – FM; (vi) fósforo branco – WP; (vii) e hexacloretano – HC. O fosgênio (CG) e a levisita (L) foram considerados de menor importância, e o cloro (Cl) e a cloropicrina (PS) foram classificados como os menos importantes (HILMAS, et al. 2008; PITA, 2008). A tentativa internacional para proibir não somente a utilização de armas químicas, mas também toda a pesquisa e produção, causou uma resposta que se materializou em uma nova política dos EUA com relação à guerra química. Assim, o chefe do Exército escreveu ao secretário nacional em 1932: “em matéria de guerra química, o Departamento de Guerra se opõe a qualquer restrição imposta aos EUA, nenhuma disposição que exija eliminação, destruição de qualquer instalação de guerra química, ou descarte dos estoques deve ser incorporada em um acordo. Além disso, a existência de um departamento específico de guerra envolvido na experimentação, desenvolvimento e produção de agentes químicos de guerra, e na formação para contingências imprevistas, é considerada essencial para a defesa nacional”. Não houve outras tentativas importantes para banir os agentes químicos na década de 1930 (HILMAS, et al. 2008; PITA, 2008). O CWS continuou a manter os estoques de agentes químicos da I Guerra Mundial, durante a década de 30. O secretário da Escola Guerra Química, resumiu que o CWS estava com planejamento para a próxima guerra, descrevendo: “escritores estrangeiros concordam que para os primeiros meses de COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 149


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qualquer guerra, que deve acontecer dentro de alguns anos, os gases conhecidos no final da I Guerra serão usados, assim, é unânime que o gás mostarda será o principal e mais valioso agente.” Neste contexto, é reaberta a planta localizada em Maryland, que produziu 154 toneladas do agente mostarda, com ampliação do seu estoque, e no mesmo ano produziu toneladas de fosgênio (HILMAS et al., 2008). Em 1931, Kyle Ward Jr. publica um estudo descrevendo um agente vesicante sem odor, denominado mostarda nitrogenada. O CWS investigou o novo composto, porém concluiu que era menos tóxico que as mostardas de enxofre, e o classificou como HN-1, mas foram os alemães que mostraram grande interesse neste composto (SMART, 1997; HILMAS, et al. 2008). Em 1936, o químico alemão Dr. Gerhart Schrader descobriu o composto organofosforado, que foi relatado para a Seção de Armas Químicas das forças armadas alemãs. Os militares alemães ficaram impressionados com os efeitos produzidos no sistema nervoso pelo novo composto e o recomendaram para novas pesquisas. Tal composto foi denominado Tabun. Após a Segunda Guerra Mundial o CWS o designou por GA (SZINICZ, 2005). Em meados de 1938, o Dr. Gerhart Schrader desenvolve um agente similar, o Sarin, cinco vezes mais tóxico que o Tabun, rebatizado mais tarde como GB. Os alemães recrutaram diversos químicos para desenvolverem novos agentes neurotóxicos e começaram a construir uma planta piloto para produzir estes compostos em 1939 (SMART, 1997). 4. Guerra Itália – Etiópia A primeira grande utilização de armas químicas após a Primeira Guerra Mundial ocorreu em 1935, durante a Guerra entre Itália e Etiópia. Em 3 de outubro de 1935, Benito Mussolini coordenou a invasão da Etiópia e países vizinhos como, Eritréia e Somalilândia. Porém, a invasão não obteve sucesso e um novo comandante assumiu o exército e recorreu às armas químicas para COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 150


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derrotar as tropas etíopes. Os italianos lançaram gás mostarda através de pulverização realizada por aviões. Eles utilizaram agente mostarda em pó. Houve rumores da utilização de fosgênio e cloropicrina, o que nunca foi confirmado. Mesmo com a proibição do uso de tais agentes (a Itália ratificou o Protocolo de Genebra), eles foram empregados sob a alegação de ser aceitável a utilização de armas químicas como represália a atos ilegais, porque os etíopes haviam torturado e assassinado soldados italianos (PANKHURST, 1999; SZINICZ, 2005). As armas químicas usadas devastaram os etíopes, que eram despreparados e desprotegidos. Com poucas armas e nenhuma força aérea, as aeronaves italianas dominavam os céus. Assim, a partir do final de janeiro de 1936, soldados, mulheres, crianças, animais, rios, lagos e pastagens foram tomadas pela chuva mortal; todos os que consumiram água e alimentos contaminados também sofreram com os agentes químicos. Milhares foram as vítimas do agente mostarda. Em março de 1936, o exército italiano havia dominado grande parte da Etiópia. Apenas em 1941, as tropas francesas e britânicas reconquistaram o país (PANKHURST, 1999; SZINICZ, 2005). O exército americano acompanhou de perto a guerra, assim como outros observadores, e concluiu que a utilização dos agentes químicos foi muito significativa para a vitória da Itália (PANKHURST, 1999; GOLISZEK, 2004; SZINICZ, 2005).

5. Guerra Japão – China Outra situação que atraiu o interesse dos especialistas em guerra química foi a invasão da China pelos japoneses. Estes tinham um extenso programa de armas químicas. As forças armadas japonesas em 1939 lançaram agente mostarda, fosgênio, difenilcianoarsina, cloracetofenona e levisita contra a inexperiente e despreparada tropa chinesa, e as armas se mostram muito eficazes. Os chineses relataram que suas tropas se retiravam de determinado COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 151


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local mesmo quando os japoneses usavam apenas fumos, pois temiam tratar-se de gases tóxicos (GOLISZEK, 2004). Além da utilização de armas químicas, os japoneses, do domínio da guerra biológica, usaram cólera e peste contra as tropas chinesas e a população (SZINICZ, 2005). 6. Segunda Guerra Mundial O início da guerra em 1939, juntamente com o rápido colapso da França em 1940, estimulou novamente o armamento americano, assim, como a possibilidade de novos ataques químicos ameaçava as grandes potências. Um jornal da época relata: autoridades militares européias prevêm a utilização de gases tóxicos na atual guerra e que essa utilização seria um sucesso. O Chefe do CWS advertia dizendo que Hitler provavelmente usaria armas químicas a qualquer momento (SMART, 1997; TOTA, P. 2006; HILMAS, et al. 2008). A Alemanha e o Japão demonstravam a potência de seus programas de armas químicas. O Japão produziu, durante a II Guerra Mundial, cerca de 8.000 toneladas de agentes químicos, como levisita, agente mostarda, fosgênio, mas acabou sendo ofuscado pela produção alemã (SMART, 1997; HILMAS, et al. 2008). Os alemães produziram aproximadamente 78.000 toneladas de agentes químicos, incluindo cerca de 12.000 toneladas de tabun, cerca de 1.000 libras de sarin. O agente mostarda foi produzido em maior escala. O fosgênio também foi produzido, além da produção de 2.000 toneladas de mostarda de nitrogênio. A Alemanha também capturou uma grande quantidade de armas químicas de países como França, Polônia, União Soviética, entre outros. Os alemães construiram fábricas na Alemanha, e mais tarde na Polônia, para a produção maciça de sarin, tabun, cloreto de cianogênio, ácido cianídrico e trifluoreto de cloro, conhecido como N-Stoff. Hitler, em um discurso em 19 de setembro de 1939, COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 152


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fez alusão às novas armas químicas como sarin e tabun e disse que os inimigos ficariam totalmente indefesos (SMART, 1997; HILMAS, et al. 2008). Diversas toneladas de agentes neurotóxicos foram sintetizadas e estocadas na Alemanha durante a Segunda Guerra, e nem os EUA nem a Grã-Bretanha tinham conhecimento disso na época. Em contrapartida, os países aliados não possuíam nenhuma arma química que pudesse ser comparada à letalidade dos agentes neurotóxicos (SMART, 1997; HILMAS, et al. 2008). Enquanto a Alemanha estava muito avançada na síntese de agentes químicos de guerra, pesquisadores britânicos descobriram um inalante letal, o diisopropil fluorofosfatado (SMART, 1997; HILMAS, et al. 2008). Todavia, a Segunda Guerra Mundial não foi marcada pela utilização intensa de agentes químicos, nem mesmo pela Alemanha. As razões pelas quais a Alemanha, mesmo com um estoque absurdo de agentes químicos não os utilizou são várias, entre elas o mais certo é que Hitler havia sido vítima de um ataque com gás cloro durante a Primeira Guerra Mundial e apenas os utilizaria como último recurso. Outra hipótese para a não utilização era que Hitler acreditava que os países inimigos conheciam e produziam os agentes neurotóxicos (PITA, 2008; SMITH, 2008). Após o término da guerra, houve a descoberta de várias instalações com grandes estoques de agentes químicos e vários cientistas alemães foram capturados. Foi apenas após essa apreensão, em abril de 1945, que os aliados tiveram conhecimento do tabun e dos seus efeitos fisiológicos. Somente assim os cientistas aliados acreditaram que Hitler tinha o gás da guerra, conforme havia reportado um cientista capturado em 11 de maio de 1943, na Tunísia.(HILMAS et al., 2008). Outros cientistas foram capturados após o término da guerra e revelaram informações sobre a existência de um antídoto, a atropina, e também sobre a existência do soman, e que os documentos estavam enterrados em uma mina abandonada em Berlim. Os soviéticos conseguiram capturar esses documentos, e soldados soviéticos também capturaram tabun e sarin em fábricas abandonadas e COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 153


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encontraram extensa documentação sobre a pesquisa e desenvolvimento de tais compostos. Assim, os soviéticos, em 1946, retomaram a produção de tabun e sarin. Americanos e britânicos também conseguiram capturar documentos referentes aos agentes neurotóxicos (SMART, 1997; HILMAS et al., 2008; PITA, 2008; SMITH, 2008). A utilização de agentes químicos na Segunda Guerra registou-se com gases nos campos de concentração. O uso do Zyklon B (HCN), primeiramente para controlar a proliferação de tifo, e, posteriormente, para matar os prisioneiros, principalmente os judeus – Holocausto, com o gás sendo liberado pelos chuveiros (SMART, 1997; HILMAS et al. 2008; PITA, 2008). Tanto os países aliados como os países do eixo tinham planos ativos para a utilização de agentes químicos na guerra, porém, apenas os utilizariam se o outro lado os utilizasse primeiro. Em setembro e dezembro de 1942, os alemães realizaram dois ataques com gás não letal contra as tropas soviéticas. Estas relatam que o exército alemão foi responsável por milhares de mortes. A partir deste fato, os soviéticos começaram a mostrar interesse em armas químicas (SMART, 1997; HILMAS et al. 2008; PITA, 2008). Após os japoneses invadirem a China e utilizarem armas químicas, o exército dos EUA começou o planejamento para uma possível guerra química. No início da Segunda Guerra, o presidente dos EUA declarou que “os americanos jamais iriam recorrer à utilização de armas químicas, ao menos que fossem utilizadas pela primeira vez pelos inimigos”. Em outra declaração oficial, em 1943, reiterou “o uso de armas químicas por qualquer potência do eixo, será imediatamente seguido pela mais completa retaliação com munições e armas químicas por toda a extensão do território”.(SMART, 1997; HILMAS et al., 2008; PITA 2008; SMITH, 2008). Os EUA tinham planos para invasão final do Japão no outono de 1945 e previam que haveria ataques com armas químicas, uma vez, que o Japão possuía tais compostos. No entanto, o Japão se rendeu depois dos ataques nucleares sobre Nagasaki e Hiroshima e não houve uso de armas químicas (SMART, 1997). COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 154


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Os americanos também tinham estoques de armas químicas, porém, não

foram utilizadas. Um observador da guerra relatou que “Esta é a era da bomba atômica”. Em novembro de 1946, o CWS avaliou o futuro da guerra química, informando que o fato das armas químicas não serem utilizadas na última guerra, não significa que não seriam utilizadas no futuro, e que não estavam fora de moda. “Os alemães desenvolveram novos agentes na Segunda Guerra, e eles acumularam toneladas de gases tóxicos, porém, não foram capazes de usá-las com medo do poder de retaliação dos inimigos, não podemos acreditar que outros países não as utilizem” (SMART, 1997; HILMAS et al. 2008; PITA, 2008). Com o término da guerra, os EUA foram envolvidos na desmilitarização de milhares de armas químicas capturadas na Alemanha (Figura 5). Estas armas foram lançadas ao mar. Entre 1945 e 1947, cerca de 40.000 bombas contendo tabun, 21.000 contendo gás mostarda, 2.700 contendo mostardas nitrogenadas entre outras foram enviadas ao EUA. Além de laçarem ao mar os agentes capturados, os americanos despejaram seu estoque de levisita, em 1948. Em alguns casos, ocorreram intoxicação de pescadores da região (SMART, 1997; HILMAS et al. 2008; PITA, 2008).

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Figura 5. Descarte de agentes químicos neurotóxicos após a II Guerra Mundial. A sequência ilustra um modelo Gren Ring 3 – bomba contendo tabun prestes a ser disparado, que foi drenado e descontaminado. Em maio de 1946, (a) membros da equipe despejam uma mistura de hidróxido de sódio e hipoclorito de sódio em um poço. (b) O reservatório que irá conter o tabun foi totalmente descontaminado e drenado. (HILMAS, et al. 2008)

7. Guerra da Coréia Após o fim da Segunda Guerra Mundial e o esfacelamento do Império Japonês, a Coréia, que era colônia do Japão desde 1910, foi ocupada ao Norte pela União Soviética e ao Sul pela administração militar dos EUA. Pouco depois se iniciou a guerra (STECK, 1995; STUECK, 2009). COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 156


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No decorrer da guerra da Coréia, entre 1950 e 1953, há relatos de que as

forças armadas americanas tenham utilizado armas químicas, tais como levisita, gás mostarda e fosgênio. Também há relatos de que prisioneiros americanos foram utilizados pelos soviéticos na Coréia do Norte em testes biológicos (STECK, 1995; STUECK, 2009). 8. Guerra da Indochina e do Vietnã As guerras da Indochina compreendem dois conflitos militares distintos, mas correlacionados. A guerra da Indochina ocorreu entre 1946 e 1954. Foi um movimento de libertação nacional do Vietnã – Vietminh contra a França, que era a colonizadora da Indochina. Esta guerra envolvia o direito da população vietnamita à independência do controle francês (MAGNOLI, 2006). A Guerra do Vietnã ocorreu entre 1960 e 1975 e envolveu o Vietnã do Norte e os Vietcongs – comunistas do sul do Vietnã, contra os Estados Unidos e o Vietnã do Sul. Neste caso, arrolava o regime político e econômico (MAGNOLI, 2006). Os vietnamitas interpretavam as duas guerras como uma só. Na primeira guerra, a França acabou se retirando do conflito, e a segunda guerra, a do Vietnã, baseava-se na luta de libertação e remoção da fronteira artificial que separava o norte e o sul, para que fosse reunificado o Vietnã (MAGNOLI, 2006). Nestes conflitos as forças armadas americanas utilizaram agentes irritantes, como o 2-[(2-clorofenil)metilideno]propanodinitrila; as forças do sul do Vietnã usaram a-cloroacetofenoxiacetato e a adamsita (difenilaminacloroarsina – provoca vômitos). Os EUA também utilizaram desfolhante químico à base de 2,4D (n-butil 2,4-diclorofenoxiacetato) e 2,4,5-T (n-butil triclorofenoxiacetato), contaminados com impurezas como a dioxina (GOLISZEK, 2004; SZINICZ, 2005). 9. Guerra civil do Iêmen (1963 - 1970) COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 157


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Enquanto os EUA estavam envolvidos na Guerra do Vietnã, uma pequena

guerra iniciava-se no oriente Médio. O Egito utiliza armas químicas contras as forças monárquicas do Iêmen. O Egito obteve as armas químicas dos soviéticos, e foi o primeiro país a utilizar armas químicas no Oriente Médio. Os agentes empregados foram: gás cloroacetofenona, gás mostarda, fosgênio e os agentes neurotóxicos (HILMAS et al. 2008; SMART, 1997). Em 8 de junho de 1963, aviões de fabricação soviética lançam bombas de gás lacrimogêneo em aldeias monárquicas localizadas no sul de Sadah. Outro ataque ocorreu supostamente em julho de 1963, contra um vilarejo de Al Kawma e matou sete civis. Relatos de vários jornais informam que ataques com agentes químicos ocorreram entre 1963 e 1967. Em janeiro de 1965, o Egito utilizou uma combinação de cloroacetofenona com gás mostarda sobre os moradores da região do Monte Urush. A mistura de fosgênio e gás mostarda foi lançada sobre os moradores da região de Sherazeih, a noroeste de Sana, entre março e julho de 1965 (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004; SZINICZ, 2005). Em janeiro de 1967, ocorreu um ataque na aldeia de Kitaf, no Iêmen. Foram lançadas bombas que produziram uma nuvem cinza esverdeada sobre a aldeia. Segundo relatos, 95% da população até a 2 km de distância do lançamento morreram dentro de 10 a 15 minutos; os animais da região também morreram. Uma estimativa aponta mais de 200 vítimas (SMART, 1997). Outro ataque aconteceu em maio de 1967, na cidade de Gaar, matando 75 moradores. Ataques adicionais ocorreram no mesmo mês em aldeias do Gabas, Hofal, Gard e Gadafa, matando mais de 243 pessoas. Além disso, mais duas aldeias localizadas perto da fronteira entre a Arábia Saudita e o Iêmen foram bombardeadas com armas químicas. Amostras de solo de fragmentos encontrados e analisados revelaram a presença de gás mostarda e agentes neurotóxicos (SMART, 1997). Os egípcios iniciaram os ataques com gases lacrimogêneos como uma medida para aterrorizar. Depois disso utilizaram os agentes mostarda, promovendo grande número de vítimas graves, e, finalmente, utilizaram os COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 158


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agentes neurotóxicos, para matar rapidamente grande número de pessoas. Este combate foi o primeiro a fazer o uso de tais agentes neurotóxicos (SZINICZ, 2005). A combinação do uso de agentes neurotóxicos pelos egípcios em 1967 e o início da guerra entre Egito e Israel, a Guerra dos Seis Dias, atraiu a atenção mundial para os eventos ocorridos no Iêmen (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004). O fim da guerra ocorreu oficialmente em 1970, com um acordo político entre os republicanos e as facções monarquistas (HILMAS et al. 2008). 10. Guerra dos Seis Dias No ano de 1967, a guerra entre árabes e israelenses tornou-se muito próxima de ser a primeira guerra em que ambos os combatentes utilizariam abertamente agentes químicos de guerra, entre eles os agentes neurotóxicos e também agentes biológicos (SMART, 1997). Nesta guerra Israel estava contra o Egito, Síria, Jordânia e Iraque, que contavam com o apoio do Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão (CAMARGO, 2006). Em 5 de junho de 1967, temendo um ataque, Israel lançou uma ofensiva preventiva contra a Jordânia, Egito e Síria. Os israelenses invadiram a Península de Sinai, Cidade Velha de Jerusalém, Faixa de Gaza, entre outras. Relatórios informaram que os egípcios haviam armazenado artilharias contendo agentes neurotóxicos na Península de Sinai para utilizarem durante a guerra (SMART, 1997). No entanto, a previsão de uso de armas químicas nesta guerra não ocorreu, devido ao cessar fogo patrocinado pela ONU, que pôs fim na guerra em 10 junho de 1967 (HILMAS et al. 2008).

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11. Guerra Irã-Iraque

O exército dos EUA estava monitorando a Guerra no Afeganistão, ocupado pelas tropas soviéticas, em apoio ao governo marxista, contra os afegãos que lutavam para derrubar o regime comunista no país. O confronto durou de dezembro de 1979 a fevereiro de 1989 (SMART, 1997). Neste contexto, os soviéticos tendiam a utilizarem armas químicas contra os afegãos, assim como a Itália as utilizou contra a Etiópia e como os EUA haviam usado no Vietnã. Os soviéticos acabaram utilizando armas químicas contra os afegãos, porém, não venceram a guerra e o Afeganistão implantou o regime mulçumano (HILMAS et al. 2008). Os EUA sempre tentaram assinar um tratado com a União Soviética sobre a não utilização de armas químicas em guerras, porém, este cenário começou a ser modificado durante a Guerra do Irã – Iraque, que durou de 1981 a 1989 (SMART, 1997; GHAZANFARI, 2009). Em 22 de setembro de 1980, o Iraque invadiu o Irã e o primeiro relato da utilização de armas químicas ocorreu em novembro de 1980. Os relatórios indicavam que os primeiros compostos utilizados pelos iraquianos foram gás mostarda e tabun, além da utilização de sarin. Os iraquianos também utilizaram estas armas químicas contra os curdos, um grupo étnico que vivia nas regiões de Israel e em outros países, como Irã e Síria (BIJANI, MOGHADAMNIA, 2002; SZINICZ, 2005; GHAZANFARI, 2009; PITA, VIDAL-ASENSI, 2010). Em 28 de junho de 1987, as forças iraquianas lançaram mais de 250 kg de mostarda de enxofre na parte do centro da cidade local densamente povoada Segundo dados, 8.025 pessoas foram afetadas, do total de 12.000 moradores da região (BIJANI, MOGHADAMNIA, 2002; GHAZANFARI, 2009; PITA, VIDALASENSI, 2010). Esses ataques utilizando armas químicas causaram grande número de mortes de militares e também de civis. Estudos mostram que até os dias atuais mais de 100 mil iranianos, a maioria veteranos de guerra e civis, sofrem com os efeitos COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 160


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crônicos devido à exposição às mostardas de enxofre (BIJANI, MOGHADAMNIA, 2002; GHAZANFARI, 2009). A Guerra Irã–Iraque devastou os dois países e não ocorreram mudanças territoriais. Mesmo o Iraque tendo utilizado armas químicas, o que resultou em 5% das vítimas iranianas, em agosto de 1988 ele finalmente aceitou o cessar fogo solicitado pela ONU (BIJANI, MOGHADAMNIA, 2002; GHAZANFARI, 2009). 12. Guerra do Golfo Conflitos ocorreram entre o Iraque e o Kuwait. O Iraque acusou o Kuwait de boicotar o preço do petróleo e questões referentes aos limites territoriais, cobrando indenizações. O Kuwait não cedeu, e em dois de agosto de 1990 tropas iraquianas invadiram o Kuwait. Em 8 de agosto o então presidente Saddam Hussein anunciou que o Kuwait, a partir daquela data, fazia parte do território do Iraque. Em resposta, o Presidente George Bush envia as forças americanas para a Arábia Saudita, a pedido do governo saudita, e assim foi organizado um contra ataque às tropas iraquianas (SMART, 1997; ARRAES, 2004). Os EUA planejaram o ataque ao Iraque e a operação ficou conhecida como Tempestade do Deserto. Os americanos intentavam atacar por terra, ar e mar, e libertar o Kuwait. Os EUA estavam cientes que enfrentariam uma guerra em que o inimigo poderia empregar armas químicas, e o Iraque havia anunciado publicamente a sua intenção de usá-las contra os americanos (SMART, 1997). A CIA (Central Intelligence Agency) estimava que o Iraque possuía mais de 1.000 toneladas de armas químicas (GOLISZEK, 2004). O ataque real dos EUA contra o Iraque ocorreu em 16 de janeiro de 1991, iniciando a Operação Tempestade no Deserto por meio do ataque aéreo. Em 28 de janeiro o presidente do Iraque Saddam Hussein disse que mísseis iraquianos atingiriam Israel e a Arábia Saudita podendo conter armas químicas, biológicas e outras (SMART, 1997; KURT, 1998; McCAULEY et al. 2002; BROWN, 2006). COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 161


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O Iraque teria ameaçado utilizar armas químicas contra as forças de

colisão caso continuassem os bombardeios incessantes contra as tropas iraquianas. Assim, os EUA ameaçaram também utilizar armas químicas contra Saddam Hussein, caso ele atacasse com armas químicas as forças de colisão da ONU (SMART, 1997; KURT, 1998; McCAULEY et al. 2002; BROWN, 2006). Quando as forças de colisão começaram a ofensiva terrestre em 23 de fevereiro de 1991, os especialistas em armas químicas e biológicas temiam o pior, e alarmes frequentemente eram acionados para sinalizar possíveis ataques com agentes químicos, porém, acabaram como alarmes falsos (SMART, 1997; KURT, 1998; McCAULEY et al. 2002; BROWN, 2006). O receio dos americanos da utilização de agentes neurotóxicos pelos iraquianos fez com que as tropas americanas recebessem pílulas contendo brometo de piridostigmina, um agente neurotóxico pré-tratamento, além de receberem um kit contendo atropina (antídoto para casos de intoxicação por agentes neurotóxicos), que bloqueia os efeitos musculares provocados pelo sarin, soman e tabun. Os soldados receberam também pralidoxima, que reativa a acetilcolinesterase (SMART, 1997; KURT, 1998; McCAULEY

et al. 2002;

GOLISZEK, 2004; BROWN, 2006). Em 27 de fevereiro as forças de colisão libertaram a cidade do Kuwait e destruiram as divisões iraquianas da região e nenhum ataque com agentes químicos foi perpetrado pelos iraquianos. Após o término da guerra, vários rumores surgiram sobre as razões pelas quais os iraquianos não utilizaram agentes químicos. Uma das hipóteses foi referente à alteração dos ventos durante as batalhas terrestres e o uso de tais compostos poderia ser prejudicial às suas próprias tropas. Outra hipótese se refere a logística ruim dos iraquianos e o constante bombardeio das tropas de colisão, e também o receio dos iraquianos de sofrerem retaliação dos americanos com ataques nucleares (SMART, 1997; KURT, 1998; McCAULEY et al. 2002; BROWN, 2006). Após o término do conflito, as alegações referentes à exposição a agentes químicos durante a guerra surgiram. O Departamento de Defesa americano COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 162


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inicialmente negou qualquer uso de armas químicas, mas relatos de veteranos da Guerra do Golfo começaram a aparecer (SMART, 1997; KURT, 1998; McCAULEY et al., 2002; BROWN, 2006). Há evidências de que os veteranos da Guerra do Golfo apresentam sintomas neurológicos inexplicáveis. Estima-se que aproximadamente 400 mil soldados norte-americanos tenham feito uso das pílulas com brometo de piridostigmina durante dias, semanas e até meses. Este composto é uma agente neurotóxico e quando utilizado juntamente com repelentes de insetos a base de dietiltoluamida – DEET, aplicado nos campos de batalha pelos soldados, tem a toxicidade potencializada em até sete vezes (GOLISZEK, 2004). Os cientistas americanos sabiam que a piridostigmina era um composto neurotóxico que causava alterações fisiológicas, eletrofisiológicas e microscópicas nas terminações nervosas e dos músculos (GOLISZEK, 2004; BROWN, 2006). Além de militares expostos a piridostigmina, os civis que participaram da Guerra do Golfo também foram expostos ao composto. Alguns pesquisadores informaram que veteranos da guerra apresentavam sintomas precoces de doenças cerebrais, que com a continuação do processo de adoecimento das células podem levar ao desenvolvimento de doenças degenerativas, como o mal de Parkinson (GOLISZEK, 2004; BROWN, 2006). 13. Ataques e revides •

Ataque em Matsumoto, Japão Em junho de 1994, um ataque terrorista com gás sarin ocorre em

Matsumoto, Japão. Este ataque foi organizado por um grupo religioso conhecido como Aum Shinrikyo (Verdade Suprema) e provocou a morte de oito pessoas, com mais de 200 feridos (OKUMURA, et al. 1996; REUTTER, 1999).

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Ataque no metrô de Tóquio, Japão Na manhã de segunda-feira 20 de março de 1995, aproximadamente as

7h55, horário de pico do funcionamento do metrô da cidade de Tóquio, ocorreu outro ataque terrorista organizado pelo mesmo grupo religioso Aum Shinrikyo (Verdade Suprema), (OKUMURA, et al. 1996; SETO, et al. 2005). O ataque utilizando gás químico atingiu cinco vagões do metrô em três linhas diferentes. Como resultado, onze pessoas morreram e mais de 5.000 ficaram feridas. Autoridades japonesas rapidamente identificaram o agente utilizado: era o sarin na sua forma diluída, um agente conhecido pelas suas propriedades neurotóxicas e sintetizado na década de 1930. O agente provoca bloqueio da ação da acetilcolina na junção mioneural, e provoca uma super estimulação dos receptores colinérgicos devido os níveis elevados de acetilcolina. Os sinais e sintomas de intoxicação são: miose, fasciculações musculares, convulsões, fraqueza, dificuldade respiratória, e diminuição da consciência. A morte ocorre devido a insuficiência respiratória.

A exposição ao gás sarin em ambientes

confinados aumenta a probabilidade de provocar graves lesões (SCHECTER, 1991, OKUMURA et al., 1996; FRY, 2005). •

Moscou

Durante o decorrer de 2002 a Rússia experimentou diversos incidentes envolvendo chechenos, devido à guerra na Chechênia. Em outubro de 2002, terroristas chechenos invadiram um teatro em Moscou e fizeram mais de 900 pessoas como reféns. (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004) Os terroristas tinham explosivos amarrados em seus corpos e se posicionaram no meio dos reféns, porém, não conseguiram atingir seus objetivos e decidiram executá-los. As forças de segurança russa lançaram no teatro um gás químico identificado como fentanil. Os russos invadiram o teatro e mataram a maioria dos terroristas a tiros, no entanto, mais de 118 reféns morreram devido aos efeitos do gás (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004; SZINICZ, 2005). COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 164


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Após o incidente, o governo russo manteve sigilo sobre a identidade do

composto químico utilizado, e somente após semanas do ocorrido, os russos finalmente revelaram a substância química, o que provocou um debate público sobre a violação da Rússia com a Convenção de Armas Químicas (SMART, 1997). •

Ataque em Londres

Em 30 de março de 2004, a polícia britânica impediu um possível ataque terrorista envolvendo pessoas ligadas a Al-Qaeda. Os terroristas tinham plano de atacar um aeroporto em Londres, além de outras áreas movimentadas, como o metrô. O ataque ocorreria com a liberação de bomba química à base de tetróxido de ósmio. Este composto pode ser comparado com agentes químicos de guerra em termos de toxicidade (MAKAROVSKY et al. 2007). A exposição a concentrações baixas pode ser letal, além de apresentar efeitos fisiológicos parecidos com os agentes de guerra (MAKAROVSKY et al. 2007). O tetróxido de ósmio tem elevada pressão de vapor, portanto, grande parte de sua utilização se dá na forma de vapores, que pode provocar queimaduras químicas graves nos olhos, pele e trato respiratório. O contato com o vapor pode causar, a curto prazo, lacrimejamento, acompanhado por tosse, dores de cabeça e tonturas (MAKAROVSKY et al. 2007). A exposição a este composto pode causar cegueira irreversível, porém, nem sempre os sintomas são perceptíveis e pode levar até horas para o aparecimento de sintomas. Por isso o produto torna-se muito interessante sob o ponto de vista dos terroristas (MAKAROVSKY et al..2007). Um dos efeitos mais graves provocados pelo composto é a lesão pulmonar aguda quando inalado. Em contato com a pele, por ser uma substância oxidante, provoca queimaduras dolorosas ou dermatite de contato (MAKAROVSKY et al. 2007).

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14. Testes com armas químicas •

Incidente em Dugway

Dugaway é uma região localizada no estado norte-americano de Utah e por ser uma região com um trecho de deserto plano, foi utilizada como campo de provas para realização de testes com armas químicas (SMART, J.M.A. 1997). Na manhã de 13 de março de1968, um jato riscando o céu do local lança mais de uma tonelada do agente neurotóxico VX. Na manhã seguinte, agricultores residentes a 40 km na direção do vento do local de lançamento do agente perceberam que as ovelhas estavam mortas. Como resultado mais de seis mil animais morreram, mas por causas desconhecidas (GOLISZEK, 2004). O exército americano apesar de ter indenizado os agricultores, não admitiu durante vários anos que a causa das mortes tenha sido os testes com o VX (GOLISZEK, 2004). •

Incidente em Okinawa

Em 8 de julho de 1969, o Exército americano anunciou que 23 soldados e um civil haviam sido expostos ao sarin em Okinawa, uma província localizada ao sul do Japão (SMART, 1997; HILMAS et al. 2008). A exposição ocorreu quando os soldados estavam realizando a limpeza de munições que continham sarin. Embora nenhum indivíduo tenha morrido, o anúncio sobre o ocorrido causou problemas. Primeiro, devido ao sigilo do exército a respeito de um estoque secreto de armas químicas em Okinawa e segundo, referente aos perigos de armazenamento de tais compostos (SMART, 1997). Após este acidente, o Departamento de Defesa americano começou o processo para retirada de armas químicas perto de cidades e áreas residenciais. Em 22 de julho de 1969, começou a remoção dos agentes químicos de Okinawa (SMART, 1997). COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137172, out. 2011. 166


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Operação CHASE

Operação CHASE foi um programa contínuo para a eliminação de munições de guerra. As munições e armas químicas eram lançadas ao mar, e a partir de 1967 o programa incorporou a eliminação de armas químicas (SMART, 1997). O CHASE 8 foi o primeiro a eliminar as armas químicas no ano de 1967. Nele havia toneladas de agente mostarda e sarin. Em junho de 1968 o CHASE 11 eliminou sarin e agente VX, em agosto de 1968 o CHASE 12 eliminou agente mostarda (SMART, 1997). A eliminação destes compostos no meio ambiente provocou preocupação o no público em geral. Como o medo da ocorrência de acidentes durante o transporte de tais compostos, além da preocupação com os efeitos sobre a vida marinha (SMART, 1997). 15. Guerra Química e experiências humanas A preocupação com a ação e efeitos dos agentes neurotóxicos e outros agentes químicos utilizados em guerras fez com que o exército americano e suas divisões realizassem estudos para determinar os perigos da exposição a tais compostos e se propor um tratamento adequado. Assim, os estudos foram conduzidos tanto com soldados como com civis (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004). Em 18 de setembro de 1994, relatório da Secretaria Geral dos EUA, informou que o Departamento de Defesa (DOD – Department of Defense) e o Serviço de Guerra Química (CWS – Chemical Warfare Service), entre outras agências de segurança nacional, utilizaram centenas de milhares de seres humanos em testes com compostos químicos perigosos (GOLISZEK, 2004). O Comitê sobre assuntos de Veteranos registrou que nos anos de 1940, cerca de 60 mil militares foram expostos sem esclarecimento a respeito, como objetos humanos de pesquisa para testar o gás mostarda e a levisita (GOLISZEK, 2004).

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Entre os anos de 1958 e 1975 milhares de “voluntários” foram submetidos a

experiências, sem respeitar as regras do Código de Nuremberg (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004). Um levantamento realizado em documentos britânicos mostra que, entre 1939 e 1989, até 20 mil soldados podem ter sido utilizados, sem informações claras a respeito, para testar os agentes neurotóxicos, agente mostarda e LSD na estação inglesa de Porton Down, que foi construída para fornecer uma base científica adequada sobre as armas químicas (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004). A revelação de documentos outrora secretos atestou que entre 1951 a 1969, ocorreram nos EUA mais de 1.600 testes de campo com agente VX, sarin e tabun, através de foguetes químicos, projéteis de artilharia e bombas para estudar o comportamento de tais agentes com os ventos (GOLISZEK, 2004). Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA e a ex-URSS utilizaram pesquisas alemãs para melhorar seus programas de armas químicas de guerra. A partir de 1970, a ex-URSS desenvolve os agentes binários, substâncias que quando misturadas tornam-se letais, esses agentes são extremamente tóxicos, superando o agente VX (GOLISZEK, 2004). Entre 1955 e 1975 mais de 6.000 soldados participaram de programas onde foram expostos a mais de 250 substâncias químicas. Em 1951 o Grupo de Química (Chemical Crops), divisão do Exército americano encarregado de defender a nação contra o ataque causado por armas químicas, biológicas, radiológicas e nucleares, realizou um projeto juntamente com o Instituto Psiquiátrico de Nova York para investigar os efeitos clínicos da mescalina e seus derivados. Estes testes foram realizados em civis e faziam parte do programa de desenvolvimento de agentes incapacitantes, porém, a mescalina e derivados mostrou-se não adequada como agente incapacitante, pois eram necessárias doses elevadas para ocasionar confusão mental (SMART, 1997; GOLISZEK, 2004).

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16. Considerações Finais Como vimos, a pesquisa de cunho toxicológico pela busca de novos agentes

químicos de guerra prossegue e tende a se avolumar. Há muitos indicativos de que isso esteja acontecendo nos dias presentes em diferentes países. É de se lastimar tal fato e urge que os esforços mundiais de controle da produção, no sentido da limitação e do impedimento, obtenham êxito. As Ciências Toxicológicas, de natureza tão nobre se recusam a viver com essa mácula imputada por seres não pensante e por grupos e governos desprovidos de responsabilidade e de senso humanitário. O esforço toxicológico de geração de conhecimento deve ser sempre e só em direção à predição da toxicidade de produtos químicos para fins de gerenciamento do risco toxicológico e jamais com o fito ensandecido de usar conscientemente produtos tóxicos contra seres humanos. Não

e

nunca

haverá

um

argumento

que

justifique

tamanha

monstruosidade. REFERÊNCIAS

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Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana

em

relação

organofosforado

ao

praguicida

metamidofós

e

sua

situação regulatória no Brasil e no mundo Camilla Gomes Colasso Farmacêutica e bioquímica, formada pela Universidade Paulista, cursando mestrado em Toxicologia pela Universidade de São Paulo (USP/FCF). Cursos de Análises Toxicológicas de fármacos/drogas de abuso pela Universidade de São Paulo – (USP/FCF); Curso de Avaliação Qualitativa de Riscos Químicos - International Chemical Control Toolkit, FUNDACENTRO (Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho). Conhecimentos de técnicas analíticas como HPLV/UV; GC/NPD, GC/MS, em técnicas de preparo de amostras toxicológicas; monitorização biológica de exposição ocupacional aos BTX. E-mail: c.colasso@intertox.com.br

Michelle Broglia Diaz Farmacêutica com Habilitação na área industrial pelo Centro Universitário São Camilo em 2003 (Campus Ipiranga em São Paulo/SP). Especializada em Homeopatia pela FACIS-IBEHE em 2009 (São Paulo/SP). Técnica em Química pelo Colégio Benjamin Constant em 1998. (São Paulo/SP). Experiência profissional através de estágios e trabalhos efetivos em hospitais, clínicas, drogarias, farmácias com manipulação, consultoria em toxicologia. Estágio em produção industrial e assistência farmacêutica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E-mail: m.diaz@intertox.com.br

Resumo O

metamidofós

é

um

inseticida

pertencente

a

classe

dos

compostos

organofosforados, segunda a classificação toxicológica da Anvisa, é pertencente a classe I (extremamente tóxico). É utilizado contra uma ampla variedade de insetos, e tem uso permitido para alguns cultivos no Brasil, tais como: algodão, amendoim, batata, feijão, soja, tomate e trigo.

COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 173


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As prováveis vias de exposição para os seres humanos são a inalatória, dérmica e menos frequentemente a via oral. O metamidofós tem sido amplamente estudado, devido aos efeitos especiais supostamente relacionados com a exposição ao este composto, como neurotoxicidade, imunotoxicidae, toxicidade à reprodução, toxicidade ao sistema imunológico, ao sistema endócrino, entre outros. Devido a estes efeitos, o metamidofós apresenta restrições para sua utilização tanto em âmbito nacional como também internacional. Palavras-chave:

Metamidofós.

Organofosforados.

Neurotoxicidade.

Imunotoxicidade. Toxicidade à Reprodução. Toxicidade ao Sistema Endócrino. Restrições. Abstract The insecticide methamidophos is one of a class of organophosphorus compounds and it is classified as class I (extremely toxic) according to the ANVISA toxicological classification. It is used against a wide variety of insects and its use is permitted in Brazil to protect some crops such as cotton, peanuts, potatoes, beans, soybeans, tomatoes and wheat. The probable routes of exposure for humans are by inhalation, by dermal and less frequently by the oral route. The methamidophos has been widely studied, due to its special effects supposedly associated with exposure to this compound such as neurotoxicity, immunotoxicity, reproductive toxicity, toxicity to the endocrine system, besides others. Because of such effects, methamidophos has restrictions for use nationally and also internationally. Keywords: Methamidophos. Organophosphorus. Neurotoxicity. Immunotoxicity. Reproductive Toxicity. Endocrine Toxicity. Restrictions.

1. INTRODUÇÃO COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 174


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O metamidofós (O,S,-dimethyl phosphoramidothioate - C2H8NO2PS) (Figura 1) é um inseticida acaricida organofosforado sistêmico, com efeito residual de 10 a 12 dias, e é ainda um produto da biotransformação e degradação do ingrediente ativo acefato (ANTONIUS et al., 1994; HSDB, 2010; TREVISAN, 2002). Seu modo de ação em insetos e mamíferos é através da inibição da acetilcolinesterase (AChE), enzima importante no funcionamento do sistema nervoso, pois é essencial para a ocorrência da transmissão normal dos impulsos nervosos (ANVISA, 2011; HUSSAIN et al.,1985). As formulações de metamidofós foram classificadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) como extremamente tóxicas (Classe I), considerando-se as exposições oral, dérmica ou inalatória (IPCS, 1993). Tais formulações acham-se disponíveis comercialmente em concentrado solúvel ou solução aquosa pouco concentrada.

O CH3O P SCH3 NH2

Figura 1. Estrutura química do metamidofós

O metamidofós tem peso molecular de 141,1, com ponto de fusão 44,5°C, pressão de vapor de 40 mPa, solubilidade em água 1,00E+05mg/L, solubilidade em solventes orgânicos, tais como: alcoóis, cetonas, hidrocarbonetos, éter, n-hexano, diclorometano e tolueno, coeficiente partição (octanol-água) – 0,8, em solução aquosa (pH 2) apresenta meia-vida 140h, na forma pura é sólido-cristalino com odor sulforoso. (HSDB, 2010; IPCS, 1993)

2. Usos e fontes de exposição COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 175


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O metamidofós tem ação acaricida-inseticida com propriedades sistêmicas.

Tem-se mostrado efetivo contra uma ampla variedade de insetos, tais como: pulgão-das-inflorescências, tripés, lagarta-do-pescoço vermelho, pulgão verde, mosca-branca, percevejo-da-soja entre outros. (ANVISA, 2011). É aplicado por meio de pulverizador, sob a forma de névoa, antes da colheita, em concentrações de 0,5 a 1,5 kg/ha (kg/hectare), e o controle de pragas é obtido num período de 7 a 21 dias. Tem uso agrícola autorizado para os seguintes cultivos: algodão, amendoim, batata, feijão, soja, tomate e trigo (ANVISA, 2011). Portanto, considerando-se sua forma de produção e utilização, poderá haver a exposição potencial de trabalhadores, seja na fase industrial da síntese e da formulação do produto comercial, seja na fase de aplicação no campo agrícola e na colheita e, ainda, dependendo das condições da produção agrícola e sua industrialização e comercialização, a exposição dos consumidores. Para todas essas eventualidades devem estar ativamente presentes as normas de vigilância e fiscalização. (ANVISA, 2011). 3. Análise de risco – Avaliação da toxicidade 3.1.

Toxicocinética

As prováveis vias de exposição de seres humanos ao metamidofós são a inalação e/ou contato dérmico no local de trabalho, onde o produto é produzido ou utilizado; e através da via oral para a população em geral, pela ingestão acidental ou intencional, ou por meio do consumo de alimentos/água contaminados com resíduos do produto (LARINI, 1999). Após ser absorvido, é facilmente distribuído por todo organismo, devido às suas características lipossolúveis, com maior afinidade pelo tecido adiposo, fígado, rins, pulmões, tireóide, pâncreas, paredes do intestino e do estômago, sistema nervoso central e musculatura (KARAMI-MOHAJERI, ABDOLLAHI, 2010; TIMCHALK, 2006). A molécula de metamidofós apresenta sítios tanto hidrofílicos quanto hidrofóbicos, o que permite a difusão através da barreira hemato-encefálica e, COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 176


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com facilidade, pela membrana plasmática e pela placenta (FERRER, 2003; PELKONEN et al., 2006). A maioria dos praguicidas organofosforados é degradada rapidamente pelas reações de biotransformação. Ocorrem reações de desalquilação e dearilação oxidativa, envolvendo a coenzima NADPH, o sistema citocromo P-450 e o sistema de regeneração-NADPH como doadores de elétrons e oxigênio para gerar produtos de biotransformação polares (NIGG, KNAAK, 2000). A hidrólise dos ésteres do ácido fosfórico e do fosforotióico ocorre através de várias hidrolases teciduais (carboxiesterases não específicas, arilesterases, fosforilfosfatases, fosfotriesterases e carboxiamidas), amplamente encontradas em animais e vegetais, sendo a atividade altamente dependente do tipo de radical (NIGG, KNAAK, 2000). A eliminação geralmente alcança o ápice dentro de dois dias. Uma pequena parte dos fosforados em suas formas ativas são eliminados sem modificação pela urina (ALONZO, CORRÊA, 2008; CROSSLEY, TUTASS, 1969; FAKHR et al., 1982; FAO/WHO, 2002; SAIEVA et al., 2004). A eliminação dos produtos de biotransformação ocorre principalmente pela urina (80 a 90% da dose absorvida) e, em menor quantidade, pelas fezes e pela expiração (LARINI, 1999). 3.1.1. Toxicodinâmica O metamidofós, como todos os compostos organofosforados, inibe a enzima AChE (EC 3.1.1.7) por um processo de fosforilação, resultando em acúmulo do neurotransmissor acetilcolina (ACh; substrato da AChE) nos terminais nervosos, o que produz um efeito tóxico sistêmico agudo no organismo (CARLOCK et al., 1999; LOTTI, 1995; TIMCHALK, 2001). A ACh é o mediador químico necessário para a transmissão do impulso nervoso em todas as fibras pré-ganglionares do sistema nervoso autônomo, em todas as fibras simpáticas pós-ganglionares parassimpáticas e em algumas fibras simpáticas pós-ganglionares, que inervam as glândulas sudoríparas e os vasos sanguíneos musculares (KANDEL et al., 1995a). Além disso, a ACh é o transmissor neuro-humoral do nervo motor do músculo estriado (placa COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 177


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mioneural) e de algumas sinapses interneuronais no sistema nervoso central (LOTTI, 1995; WILSON, 2001). A transmissão do impulso nervoso requer que a ACh seja liberada no espaço intersináptico ou entre a fibra nervosa e a célula efetora. Depois, a ACh se liga a um receptor colinérgico nicotínico ou muscarínico, gerando um potencial pós-sináptico e a propagação do impulso nervoso. A seguir, a ACh é imediatamente liberada e hidrolisada pela AChE (BOSGRA et al., 2009). A ACh une-se aos sítios aniônico e esteárico da AChE através de forças como a de van der Waals, dando lugar ao complexo enzima-substrato; em seguida, é liberada a colina, e a enzima fica acetilada. A enzima acetilada reage com água para regenerar a enzima, liberando ácido acético (TIMCHALK, 2006). As colinesterases pertencem ao grupo das enzimas β-esterases, que reagem com os compostos organofosforados e outros, ficando firmemente e, em alguns casos, irreversivelmente fosforiladas e, portanto, inibidas para seu papel fisiológico. Alguns fatores podem interferir na atividade das colinesterases, tais como doenças hepáticas, alterações fisiológicas (idade, gestação, entre outros), iatrogenia, inibição tóxica e variações genéticas (TIMCHALK, 2006; GOODALL; 2006). As duas enzimas colinesterásicas importantes são a AChE (colinesterase verdadeira), encontrada no tecido nervoso, junção neuromuscular e glóbulos vermelhos; e BuChE (butirilcolinesterase – pseudocolinesterase), encontrada principalmente no plasma, fígado, pâncreas, mucosa intestinal e na substância branca do sistema nervoso central. (ALONZO, CORREA, 2008). A AChE tem dois sítios ativos: um sítio aniônico e um sítio esterásico. Os organofosforados se unem somente no sítio esterásico, no qual o fósforo forma uma ligação covalente e estável, dando lugar ao ácido éster fosfórico (enzima fosforilada). Na presença de alguns inibidores, este ácido é hidrolisado lentamente, podendo durar dias ou semanas. Com outros compostos, a reação de esterificação

é

praticamente

irreversível,

podendo

durar

meses,

sendo

condicionada pelo tempo requerido para a síntese de novas moléculas de AChE.(ALONZO, CORREA, 2008) COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 178


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Exposição aguda

A Tabela 1 ilustra os estudos referentes à exposição aguda ao metamidofós. Tabela 1. Toxicidade aguda para metamidofós Toxicidade aguda

Espécie estudada

Vias de

Sexo

administração

Macho Fêmea

CAMUNDONGO

Oral

MIHAIL, 1981

16 mg/kg pc

CAVALLI, 1968

Fêmea

11 mg/kg pc Oral

Fêmea

Inalação (4hr)

Macho Fêmea Fêmea

GALINHA

23 mg/kg pc 12 mg/kg pc

Macho

COELHO

Referência

Macho Macho

RATO

CL50 e DL50

Dérmico Oral

GUO et al, 1986

16 mg/kg pc

FLUCKE, 1990

63 mg/m3 ar

SANGHA, 1984

77 mg/m3 ar 120 mg/kg pc

HIXSON, 1980

69 mg/kg pc 30 mg/kg pc

KRUCKENBERG et al, 1979

Adaptado: FAO, 2002

Os principais sinais e sintomas da intoxicação aguda por metamidofós são: sensação de fadiga, dores de cabeça, visão borrada, fraqueza, confusão mental, vômitos, dores abdominais, transpiração e salivação excessivas, constrição das pupilas. Pode ocorrer dificuldade para respirar, devido à congestão pulmonar e à fraqueza dos músculos diafragmáticos. Arritmias e falência cardíaca já foram reportadas. Na intoxicação severa podem ocorrer espasmos musculares, inconsciência e convulsões. A insuficiência respiratória poderá evoluir para

parada

respiratória, levando

ao

óbito

(O’MALLEY,

1997;

RUSYNIAK, NAÑAGAS, 2004). • Exposição subcrônica ZAYED et al. (1984) realizaram um estudo para avaliar a toxicidade subcrônica do metamidofós em camundongos, administrando o mesmo na dieta COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 179


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(oral) em doses de 0, 0,25; 50 e 100 ppm durante 2 semanas com 4 grupos de animais (20 de cada sexo), os resultados mostraram diminuição de peso em todos os animais, início de tremores na dose 100 ppm; inibição dose-dependente de colinesterase plasmática e eritrocitária; a atividade da colinesterase eritrocitária foi recuperada mais vagarosamente que no plasma e não foi completada em 2 semanas. CALORE et al. (2007) realizaram um estudo em ratos machos (3 grupos de 6 machos) com administração enteral de 0; 2,5 e 5 mg/kg pc/semana, durante 12 semanas e observaram hipertrofia dos cardiomiócitos, confirmada pelo aumento de seu diâmetro (análise morfométrica); diminuição da atividade plasmática colinesterásica após 24h da primeira administração; sintomas de intoxicação, como, tremores e fasciculações após a primeira administração da dose de 5 mg/kg pc. CHRISTENSON (1991), em um estudo com ratos machos e fêmeas através da administração pela dieta (oral) de metamidofós nas doses de 0; 0,5; 1; 2 e 4 ppm equivalente a 0; 0,03; 0,07; 0,13 e 0,24 mg/kg/pc/dia durante 56 dias, obtiveram resultados mostrando que não houve efeitos no peso corpóreo dos animais e nem referente ao consumo de alimento; mas ocorreu diminuição estatisticamente significativa da atividade da colinesterase (> 20%) em ambos os sexos; no NOAEL 2 ppm = 0,13 mg/kg por dia ocorreu inibição da atividade colinesterásica, tanto nervosa como eritrocitária. Estudos realizados por HAYES (1984c) com cães da raça beagle (4 grupos de 6 machos e 6 fêmeas), através da administração de metamidofós pela dieta (oral) nas doses de 0; 2; 8 e 32 ppm, equivalentes a 0; 0,06; 0,24 e 0,96 mg/kg/pc/dia durante 1 ano, revelaram uma diminuição da atividade colinesterásica eritrocitária, plasmática e nervosa para machos (≥ 8 ppm); para fêmeas ocorreu diminuição da atividade colinesterásica eritrocitária e nervosa (≥ 8 ppm); nas doses de 32 ppm ocorreu inibição da atividade colinesterásica eritrocitária (8487%) e nervosa (66-71%) em ambos os sexos; no NOAEL de 2ppm = 0,06 mg/kg pc/dia observou-se inibição da atividade colinesterásica nervosa e eritrocitária. COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 180


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• Exposição crônica HAYES (1984b) realizou um estudo para avaliar a toxicidade crônica do

metamidofós, o em camundongos, 4 grupos com 50 machos e 4 grupos com 50 fêmeas, com administração na dieta (oral) de metamidofós nas seguintes concentrações: 0; 1; 5 e 25 ppm, equivalentes a 0; 0,14; 0,67 e 3,5 mg/kg pc/dia para machos e 0; 0,18; 0,78 e 4 mg/kg pc/dia para fêmeas, durante 106 semanas. Os resultados demonstraram uma diminuição no consumo de alimentos e diminuição no ganho de peso (machos e fêmeas a 25 ppm); aumento do peso relativo das glândula adrenais, coração, rins e pulmões (fêmeas a 25 ppm); aumento do peso relativo do cérebro (ambos os sexos a 25 ppm); neoplasmas (similares com relação ao tipo, localização, tempo de início, incidência nos controles e nos animais tratados). Em ratos, o estudo também realizado por HAYES (1984a) com 5 grupos de 50 machos e 5 grupos de 50 fêmeas, através da administração de metamidofós na dieta (oral) nas seguintes concentrações: 0; 2; 6; 18 e 54 ppm, equivalentes a 0; 0,1; 0,29; 0,85 e 2,9 mg/kg pc/dia para machos e 0; 0,12; 0,35;1,1 e 3,4 mg/kg pc/dia para fêmeas, durante 2 anos, indicou alterações na coloração da urina, fezes amolecidas e lesões na pele (na cauda) – machos e fêmeas na dose de 18 a 54 ppm; diminuição do ganho de peso corpóreo (machos a 18 e 54 ppm e fêmeas a 54 ppm); aumento do peso relativo cerebral (machos e fêmeas a 54 ppm); neoplasmas (similares no tipo, localização, tempo de início, incidência nos controles e animais tratados); atividade da colinesterase inibida por tratamento de forma dose-relacionada (ambos os sexos); fraca a moderada inibição da atividade colinesterásica 31-39% (cerebral), eritrocitária (32-36%) e plasmática (26-47%) com dose de 6 ppm; inibição moderada da atividade colinesterásica cerebral (64%), eritrocitária (65-68%) e plasmática (70%) na dose de 18 ppm; na dose mais elevada, 54 ppm, houve uma marcante inibição da atividade colinesterásica cerebral (75-79%), eritrocitária (75-81%) e plasmática (91%). 3.2.

Efeitos Especiais

COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 181


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3.2.1. Neurotoxicidade Os organofosforados inibem a enzima AChE, o que impede a degradação do neurotransmissor ACh nas terminações nervosas. O acúmulo de ACh promove a síndrome aguda colinérgica, pois a neurotransmissão é contínua, o que gera sintomas nicotínicos e muscarínicos (HSIEH et al. 2001; KANDEL et al., 1995b; KEIFER, FIRESTONE, 2007). A toxicidade para o sistema nervoso central (SNC) inclui ansiedade, inquietação, ataxia, convulsões, depressão respiratória e coma, podendo levar à morte (JOKANOVIC, 2009; PAJOUMAND et al., 2004; PETER et al., 2006; SUNGUR, GÜVEN, 2001). A minoria dos pacientes, após 1 a 4 dias da intoxicação, apresenta manifestações neurológicas atípicas, como paralisia dos músculos proximais dos membros, músculos flexores do pescoço, músculos respiratórios e vários nervos craniais motores, o que é chamado síndrome intermediária (AARON, 2008; KARALLIEDDE et al., 2006; SENANAYAKE, KARALLIDDE, 1987; YANG, DENG, 2007). Em torno de 2 a 3 semanas após a intoxicação, pode surgir neuropatia periférica tardia, que começa

com

formigamento e dor nos membros inferiores e pode progredir para paralisia (LOTTI, MORETTO, 2005; SENANAYAKE, JOHNSON, 1982). Atualmente há diversos estudos referentes à neurotoxicidade induzida pelos compostos organofosforados e pelo metamidofós: GUBERT et al. (2011) realizaram estudo in vitro com cortes cerebrais do hipocampo e striatum de ratos, adicionando concentrações de 0,05; 0,1; 0,5 e 1M de metamidofós ao meio de cultura durante 5 a 15 min. Não houve inibição da AChE. Sinais foram observados nos neurotransmissores glutamato e GABA, que apresentaram alterações na captação sináptica. Outro estudo in vitro conduzido por KELLNER et al. (2000) com células cerebrais e de fígado de embriões de galinhas, adicionando metamidofós (técnico e analítico) ao meio de cultura em concentrações de 1 a 5 mM, mostrou que o metamidofós analítico (ambas as doses) produziu 59% de inibição total da NET e 5% de envelhecimento da enzima; COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 182


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o metamidofós técnico provocou 60% de inibição total da NET e 11% de envelhecimento da enzima; estas avaliações foram realizadas após 30 a 60 min. Nos estudos in vivo, KALKAN et al. (2009) realizaram ensaios com ratos através da administração de 20 mg/kg por via oral (dose única) e foram observados sintomas colinérgicos, como alterações na mastigação, salivação excessiva, convulsões e desconforto respiratório, alterações necróticas no músculo diafragmático e aumento da TBARS (substância reativa ao ácido tiobarbitúrico, utilizada para avaliação enzimática antioxidante cerebral). Ensaios realizados pela FAO/WHO (2002) em galinhas, com a administração de 400 mg/kg pc por via oral (dose única), apontaram o desenvolvimento de neuropatia tardia. QUISTAD et al (2001) Estudos para avaliação da neurotoxicidade subcrônica para o metamidofós também estão bem descritos na literatura. KORBERS et al. (2010) realizaram um estudo com cobaias através da administração oral pela água de consumo, em concentrações de 0; 0,3 e 3,0 g/m L/d ia d u r a n t e 7 d ia s, e os sin a is clín icos apresentados foram: alterações morfológicas cocleares, com lesões nas três espiras analisadas (cóclea, sáculo e utrículo), bem como alterações ciliares de sáculo e utrículo, intensificadas de acordo com a dosagem recebida. Num estudo conduzido por LIMA et al. (2009), com camundongos, foi administrado metamidofós por 29 dias através da água de consumo em concentrações de 0; 1,31 e 5,25

eg/m se observou L/dia , redução cerebral da AChE, e aparecimento de

comportamento depressivo. PELEGRINO

et

al.

(2006)

conduziram

pesquisa

com

ratos

pela

administração enteral, por 2 meses, de metamidofós em concentrações de 0; 2,5 e 5,0 mg/kg pc/semana, e observaram atrofia da camada molecular do córtex parietal na dose de 5,0 mg/kg; porém, a atrofia não foi acompanhada por perda neuronal nas camadas corticais piramidais interna e externa, e no núcleo caudado; sintomas de intoxicação, como tremores e fasciculações, após a administração da dose de 5,0 mg/kg também foram constatados. ZHAO et al. (2005), em um estudo realizado com galinhas, com administração subcutânea de 30 mg/kg/dia de metamidofós durante 15 dias, observaram que os animais COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 183


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desenvolveram neuropatia tardia e alterações nos neurofilamentos do nervo ciático. 3.2.2. Genotoxicidade A genotoxicidade diz respeito aos efeitos deletérios de agentes químicos e físicos sobre o material genético (DNA) e sobre os processos genéticos das células vivas (BOLOGNESI, 2003). Esses efeitos podem ser avaliados diretamente por meio da interação dos agentes com o DNA ou, indiretamente, através da avaliação de reparo de DNA, produção de mutações genéticas ou alterações cromossômicas (ERGENE et al., 2007; PRESTON, HOFFMANN, 2008; REMOR et al., 2009). Consoante o Integrated Risk Information System (IRIS), da USEPA - 2011 (United States Environmental Protection Agency Integrated Risk Information System), o metamidofós ainda não foi submetido a uma avaliação completa referente ao possível potencial carcinogênico humano. Quanto à IARC (The International Agency for Research on Câncer), que pertence à estrutura da Organização Mundial da Saúde, de acordo com as monografias apresentadas até 2011, o metamidofós não passou ainda por processo de avaliação do potencial carcinogênico. Diversos estudos são descritos na literatura. HERBOLD, FAO/WHO (2002) conduziu um estudo in vitro para verificar a mutação reversa em S. typhimurium, com adição de várias concentrações de metamidofós na placa, mas não observou mutação no oganismo. O mesmo foi revelado por estudo desenvolvido por MACHADO, FAO/WHO (2002). Estudos in vitro realizados por BIGGER, SINGLER, WHO/FAO (2002) com células de ovário de hamster para verificar o ponto de mutação nas mesmas também não foi identificado. Outros estudos para a determinação de aberração cromossômica em células de ovário de hamster também foram considerados negativos (MUERLI, WHO/FAO 2002). AMER, SAYED, WHO/FAO (2002) conduziram estudos in vivo com camundongos machos e fêmeas para verificar a formação de micronúcleos em COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 184


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Revisão células

da

medula

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óssea,

através

intraperitonial em concentrações

da

administração

de

metamidofós

0; 4,5 e 6 mg/kg pc/dia; por via oral em

concentrações de 0; 50 e 100 ppm na dieta, equivalentes a: 0; 7,5 e 15 mg/kg pc; e por via dérmica em concentrações de 0; 12 e 24 mg/kg pc por duas semanas e verificaram que o metamidofós induziu a formação de micronúcleos nas células. Porém, outros dois estudos realizados por HERBOLD, WHO/FAO (2002), também com células de camundongos machos e fêmeas para verificação da formação de micronúcleos em células da medula óssea, indicaram resultados negativos. 3.2.3. Mutagenicidade O termo mutagenicidade refere-se à propriedade que as substâncias químicas apresentam de provocar alterações ou modificações no material genético das células, de modo que estas sejam transmitidas para as novas células durante a divisão. Dependendo da célula afetada, as mutações podem acarretar desde a inviabilidade de desenvolvimento da célula-ovo, passando pela morte do embrião ou feto, até o desenvolvimento de anormalidades congênitas (BOLOGNESI et al., 2011; SANTELLI, 2003). A Tabela 2 traz uma série de estudos referente à mutagenicidade desse composto.

Teste

Tabela 2. Mutagenicidade do metamidofós Tipo de teste

Resultado

Referência

Mutação de genes Salmonella typhimurium (TA 100, TA 98, TA 97a, TA 1535) Salmonella typhimurium (TA 97a,

In vitro

Controverso

VARGAS; TOLEDO 1994

In vitro

negativo

VARGAS; RODRIGUES, 1994

In vitro

negativo

VEIGA, 1994

Salmonella/microssomo. S9

In vitro

negativo

HERBOLD, 1994

Células CHO/HGPRT

In vitro

negativo

BIGGER; SIGLER, 1993

Células CHO/HGPRT

In vitro

negativo

Salmonella/microssomo. S9

In vitro

negativo

TA 98, TA 100 e TA 102) Salmonella typhimurium (TA 97a, TA 98, TA100 e TA 102)

HARBELL; JACOBSONKRAM, 1990 MACHADO et al., 1982

Ensaios citogenéticos Micronúcleo e aberrações

In vivo

positivo

KARABAY; OGUS, 2005

COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 185


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cromossômicas em Ratos Wistar Micronúcleo de camundongos

In vivo

negativo

HERBOLD, 1996

Micronúcleo de camundongos

In vivo

negativo

VARGAS, 1994

Micronúcleo em camundongo

In vivo

negativo

VARGAS et al., 1994

Micronúcleo em camundongo

In vivo

negativo

VEIGA, 1994

In vitro

positivo

HEMALATHA, 1990

In vivo e in vitro

positivo

AMER; SAYED, 1987

In vivo

negativo

EINSENLORD et al., 1984

Medula óssea de camundongos

In vivo

negativo

ESBER, 1983b

Micronúcleo de camundongos

In vivo

negativo

HERBOLD, 1981c

In vivo

negativo

HERBOLD, 1980b

Células CHO/ aberrações cromossômicas. S9 Metáfase e aberração cromossômica cultura de cél. de rato e medula óssea Mutações dominantes letais em camundongos

Mutações dominantes letais em camundongos

Danos ao DNA/Reparos Hepatócitos de ratos, UDS –S9

In vitro

negativo

CURREN, 1988c

E. coli, reparo de DNA .S9

In vitro

negativo

HERBOLD, 1983b

Fonte: FAO/WHO, 2002

3.2.4. Oncogenicidade Consoante o Integrated Risk Information System (IRIS) da USEPA - 2011 (United States Environmental Protection Agency Integrated Risk Information System), o metamidofós ainda não foi submetido a uma avaliação completa referente ao possível potencial carcinogênico humano. Quanto à IARC (The International Agency for Research on Câncer), , de acordo com as monografias apresentadas até 2011, o metamidofós não passou ainda por processo de avaliação do potencial carcinogênico. 3.2.5. Toxicidade à reprodução A toxicidade à reprodução verifica os danos que podem ocorrer em organismos durante seu desenvolvimento, provenientes de alguma exposição a substâncias químicas antes da concepção (exposição de progenitores), entre a concepção e o nascimento, e ainda nos sistemas reprodutores masculinos e femininos (BARROS, DAVINO, 2003; PÉREZ-HERRERA et al., 2008). COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 186


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Há diversos estudos relatando toxicidade à reprodução provocada pelo

metamidofós. Por exemplo, CASTRO; CHIORATO (2007) realizaram um estudo com ratos fêmeas para verificar como a exposição maternal afeta a amamentação. Neste estudo administrou-se, via intraperitoneal, de 1 a 4 mg/kg em animais na fase de amamentação, e observou-se que a exposição maternal ao metamidofós interfere na mesma. BURRUEL et al. (2000), conduziram um estudo com camundongos adultos com administração intraperitoneal de metamidofós nas seguintes concentrações: 0,5; 3,75; 5 e 7,5 mg/kg e observaram alterações na fertilidade e desenvolvimento embrionário. EIGENBERG et al. (1998) fizeram estudo com ratos machos e fêmeas, administrando metamidofós na dieta em concentrações diferentes para machos e fêmeas. Ocorreu cruzamento e os filhotes foram tratados com metamidofós.

Observou-se que o praguicida provocou

toxicidade em multigerações. WANG, HUANG, FAO/WHO (2002) realizaram estudos com camundongos fêmeas, administrando metamidofós na dieta do 16° dia de gestação até o 21° dia de lactação e observou-se que o composto é tóxico para o desenvolvimento. Estudos conduzidos por HANAFY et al. (1986) com ratos fêmeas, HIXSON (1984b), com ratos fêmeas e MACHEMER (1979), com coelhas, também revelaram que o metamidofós provoca toxicidade no desenvolvimento. 3.2.6. Toxicidade ao sistema endócrino As glândulas endócrinas são grupos de células que sintetizam, armazenam e liberam suas secreções diretamente na corrente sanguínea. Elas sinalizam dispositivos localizados no fluido extracelular e são capazes de responder a mudanças no ambiente interno e externo para coordenar uma multiplicidade de atividades que mantêm a homeostase (CAPEN, 2007). O aumento do número de agentes químicos ambientais, incluindo praguicidas, tem a propriedade de produzir disrupção endócrina através de vários mecanismos. Essas substâncias podem afetar a secreção de hormônios de glândulas endócrinas e a taxa de eliminação de hormônio no corpo (DOKKI, GISA, 2004). COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 187


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Estudos feitos por SATAR et al. (2008; 2005) com ratos machos adultos,

com administração de 30 mg/kg por gavagem, demonstraram que o composto provoca alterações ultraestruturais da tireóide e diminuição de T3, T4 e TSH. SPASSOVA et al. (2000) administraram 5 mg/kg de metamidofós em ratos por injeção intraperitoneal e observaram redução na circulação sanguínea e da concentração de aminoácidos. Após 60 minutos da injeção, os níveis séricos de corticosterona e aldosterona aumentaram e a concentração plasmática de hormônio adrenocorticotrófico elevou-se. HEYES et al., WHO,FAO (2002) realizaram um estudo com cães da raça beagle através da administração de 2,8 a 32 ppm e observaram alterações macroscópicas, como cistos e aumento da tireóide e do útero, aumento do peso absoluto e relativo da tireóide e da pituritária.

3.2.7. Toxicidade ao sistema imunológico Os potenciais efeitos dos praguicidas no sistema imunológico não estão bem caracterizados. Apenas alguns organofosforados têm sido sistematicamente investigados quanto a seu potencial imunotóxico (BATTAGLIA et al., 2010; GALLOWAY, HANDY, 2003; HERMANOWICZ, KOSSMAN, 1984; KOVTYUKH, 1995; NEWCOMBE, 1992; REPETTO, BALIGA, 1996; RODGERS et al., 1985a; QING, 2007; VOCCIA et al., 1999) O sistema imunológico é importante para a defesa do organismo contra uma variedade de compostos químicos e é necessário para garantir o bem-estar e até mesmo a sobrevivência de organismos hospedeiros. No entanto, o sistema imunológico é complexo, é regulado por várias etapas e pode ser influenciado por outros sistemas do corpo (SHARMA, 2006). Para verificar o potencial efeito do metamidofós ao sistema imunológico TIEFENBACH et al. (1990) realizaram um estudo in vitro com células do timo e do baço de camundongos e com linfócitos do sangue periférico de doadores do sexo masculino. As células foram tratadas com concentrações de 10-7 a 10-3 mol/L de metamidofós, e observou-se que a viabilidade das células não sofreu alterações, COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 188


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porém, ocorreu diminuição da proliferação de linfócitos T para a formação de anticorpos. O autor conduziu um outro estudo in vivo, em 1990, com camundongos machos, através da administração intraperitoneal de 0,6; 1,2 e 6 mg/kg pc de metamidofós, e com ratos através de adrenalectomia após a administração

de

uma

dose

única

intraperitoneal

de

metamidofós

na

concentração de 1,2 mg/kg pc. Observou-se nos camundongos que as doses de 1,2 e 6 mg/kg pc inibiram de forma elevada a atividade da colinesterase tanto no plasma como no cérebro, assim induzindo uma série de efeitos imunológicos, tais como: diminuição no número de linfócitos e monócitos; aumento no número de granulócitos neutrófilos; diminuição do peso e número de linfócitos no baço e timo; aumento da proliferação celular no timo; aumento da proliferação de células da medula óssea e diminuição na formação de anticorpos; concentrações de cortisol, glicose e atividade da tirosina transaminase foram afetadas. Nos ratos que sofreram adrenolectomia não ocorreu nenhum efeito imunossupressor após a administração do metamidofós. 4. Situação regulatória para produção, comercialização e utilização do metamidofós no Brasil e para outros países relacionados à Convenção de Rotterdam O metamidofós é aprovado para uso como praguicida em muitos países. Os usos específicos, limitações e precauções estão apresentados em documentos regulatórios nacionais. No Brasil, o praguicida só poderá ser utilizado até 30 de junho de 2012. É o que determina a Resolução RDC 01/2011, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA,2011). De acordo com tal Resolução, a retirada do produto no mercado brasileiro será realizada de maneira programada, seguindo o seguinte cronograma: (i) as empresas só poderão produzir praguicidas com o ingrediente ativo metamidofós com base nos históricos quantitativos de comercialização de anos anteriores de cada empresa e com base nos estoques já existentes no país de matérias-primas, COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situaç��o regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 189


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produtos técnicos e formulados; (ii) a comercialização destes produtos só poderá ser feita até 31 de dezembro de 2011 e a utilização, até 30 de junho de 2012. De imediato, não serão autorizados novos registros de praguicidas à base de metamidofós, bem como

não serão autorizadas novas

importações do

praguicida pelo Brasil. As deliberações finais e recomendações para retirada do metamidofós foram discutidas na Comissão de Reavaliação da qual também fizeram parte a FIOCRUZ, o Ministério da Agricultura e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA, 2009). Após o cancelamento da comercialização e utilização, as empresas fabricantes do praguicida deverão recolher os estoques remanescentes em distribuidores e em poder dos agricultores, no prazo máximo de 30 dias, a partir do vencimento dos respectivos prazos. Além disso, essas empresas deverão controlar a quantidade do produto em todos os estabelecimentos comerciais e de produtores que adquirirem metamidofós, apresentando semestralmente este controle à ANVISA. A Convenção de Rotterdam sobre Consentimento Prévio Informado (PIC) é um tratado global que entrou em vigor em fevereiro de 2004. É projetado para proteger a saúde pública e o meio ambiente, promovendo a tomada de decisão informada por países importadores em relação aos produtos que foram proibidos ou severamente restringido por pelo menos dois outros membros (países) da Convenção. Não é um mecanismo para proibir o comércio mundial ou o uso de produtos químicos específicos, mas, para controlar seu comércio. Não é um substituto para os regimes de regulação em nível nacional nos países em desenvolvimento, ou onde a eficácia da regulamentação para controle é rudimentar. O PIC deve permanecer centrado na problemática de produtos químicos comercializados internacionalmente e não deve ser usado para criar controles desnecessários, principalmente com relação a praguicidas. Para a inclusão de determinada substância na lista do PIC é necessária formulações que excederem 600g i.a./L, pois,

apresentam classificação de

periculosidade aguda e grande risco de impacto sobre a saúde humana. A Convenção requer que os membros-exportadores honrem com as decisões dos COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 190


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membros-importadores. Ela formaliza os princípios voluntários estabelecidos no Código Internacional de Conduta.(PIC, 2010) Cada Parte designará uma ou mais autoridades nacionais que serão autorizadas a agir em seu nome no desempenho das funções administrativas exigidas pela Convenção. Cada parte deverá, no máximo até a data de entrada em vigor da Convenção, notificar o nome e endereço da(s) referida(s) autoridade(s) ao Secretariado. Cada Parte deverá notificar ao Secretariado, imediatamente, qualquer alteração no nome e endereço dessa (s) autoridade(s). No Brasil as autoridades nacionais designadas a prover informações ao Secretariado da Convenção são: • Ministério das Relações Exteriores – Divisão de Política Ambiental e Desenvolvimento Sustentável. • Ministério das Relações Exteriores (MRE) – Divisão de Política Ambiental e Desenvolvimento Sustentável (DPAD). • Ministério do Meio Ambiente - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). • Ministério do Meio Ambiente - Departamento de Qualidade Ambiental Industrial Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental Na XXXIII Circular PIC, de junho de 2011, as informações referentes ao metamidofós no Brasil dizem que

a decisão final sobre sua importação está

publicada desde 12/2004. As condições permitidas para a importação são somente para uso em praguicidas, como produtos técnicos (ingrediente ativo, registrados após a avaliação de eficácia), bem como formulações à base de ingrediente ativo, registrados após a avaliação de eficácia agronômica e efeitos toxicológicos e ecotoxicológicos pelos órgãos representativos das áreas de saúde, agricultura e meio ambiente. Não existem formulações contendo produtos registrados com mais de 600g/L de ingrediente ativo. Medidas legislativas ou administrativas pertinentes são apresentadas na Lei n° 7.802, de 11 de julho de 1989, e Decreto n°4.074, de 04 de janeiro de 2002, que dizem que praguicidas e seus compostos COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 191


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precisam ser registrados pela Autoridade Federal antes de ser produzidos, exportados, comercializados, importados ou utilizados.

Figura 2. Comercialização de metamidofós por estados brasileiros (Fonte: IBAMA, 2009)

Figura 3. Situação regulatória para importação do metamidofós no continente africano segundo o PIC Circular XXXII - Dezembro 2010 COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 192


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8% 24%

44%

Países com situação regulatória de importação proibida (11) Exs: Argentina, Canadá, Chile Países com situação regulatória restrita (6) Exs: Cuba, México, El Salvador Países sem posicionamento (6)

24% Países com situação regulatória permitida (2) Exs: Peru, República Dominicana Total de países 25

Figura 4. Situação regulatória para importação do metamidofós no continente americano segundo o PIC Circular XXXII - Dezembro 2010

14%

4%

Países com situação regulatória proibida (18) Exs: Arábia Saudita, China, Vietnã Países com situação regulatória restrita (5) Exs: Japão, Malásia

18% 64%

Países sem posicionamento (4) Países com situação regulatória permitida (1) Ex: República da Corea

Figura 5. Situação regulatória para importação do metamidofós no continente asiático segundo o PIC Circular XXXII - Dezembro 2010

COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 193


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Países com situação regulatória importação proibida (32) Exs: Noruega, Suíça, França, Alemanha, Portugal

18%

82%

Países sem posicionamento (7)

Figura 6. Situação regulatória para importação do metamidofós no continente europeu segundo o PIC Circular XXXII - Dezembro 2010

17% 33%

Situação regulatória para importação do metamidof ós no continente europeu segundo o PIC Circular XXXII - Dezembro 2010 Países sem posicionamento (3)

50%

Figura 7. Situação regulatória para importação do metamidofós na Oceania segundo o PIC Circular XXXII - Dezembro 2010

Tabela 3. Países sem posicionamento em relação ao PIC COLASSO, Camilla; DIAZ, Michelle Broglia. Estudo dos aspectos toxicológicos à saúde humana em relação ao praguicida organofosforado metamidofós e sua situação regulatória no Brasil e no mundo. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p.173-204, out. 2011. 194


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Países/data de notificação

Benin (06/2004); Botswana (06/2008); República Democrática do Congo (12/2005); África

Congo (12/2006); Djibouti (06/2005); Guiné Equatorial ( 06/2004); Gabão (06/2004); Georgia (06/2007); Lesoto (12/2008); Madagascar (06/2005); Moçambique (12/2010); Namíbia (12/2005); Somália (12/2010); Togo (12/2004); Uganda (12/2008). Antigua e Barbuda (12/2010); Bolívia (06/2004); Colômbia (06/2009); Dominica

América

(06/2006); Guatemala (12/2010); Paraguai (06/2004). Antigua e Barbuda (12/2010); Bolívia (06/2004); Colômbia (06/2009); Dominica

Ásia Europa

(06/2006); Guatemala (12/2010); Paraguai (06/2004). Albânia (12/2010); Bósnia e Herzegovina (12/2007); Croácia (06/2008); Macedônia

Oceania

(12/2010); Moldova (06/2005); Sérvia (12/2009); Ucrânia (06/2004). Ilhas Cook (12/2004); Ilhas Marshall (06/2004); Tonga (12/2010).

* Fonte: ROTTERDAM CONVENTION: PIC CIRCULAR XXXII – Dezembro 2010

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Investigação do uso de Anabolizantes no Município

de

Icó-CE:

um

estudo

transversal Carlos Petrônio Bezerra Nicolau Acadêmico de enfermagem alunos de iniciação científica do grupo de pesquisa epidemiologia, atividade física e saúde. E-mail: c_petronio@hotmail.com

Nagilla Pereira da Silva Acadêmico de enfermagem alunos de iniciação científica do grupo de pesquisa epidemiologia, atividade física e saúde. E-mail: raphaelduarty@hotmail.com

Rafael Bezerra Duarte Acadêmico de enfermagem alunos de iniciação científica do grupo de pesquisa epidemiologia, atividade física e saúde. E-mail: raphaelduarty@hotmail.com

Kerma Márcia de Freitas Enfermeira, Especialista em saúde da família e Saúde da Mulher. Coordenadora do curso de enfermagem da Faculdade Vale do Salgado. Pesquisadora do grupo de estudo em atividade física, epidemiologia e saúde. E-mail: kermamf@hotmail.com

Rafaelly Maria Pinheiro Siqueira Farmacêutica. Mestre em Farmacologia. Docente da Faculdade INTA, Sobral- CE. E-mail: rafaelly@gmail.com

CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 205


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Gilberto Santos Cerqueira Farmacêutico. Mestre em Farmacologia, Doutorando em Farmacologia pelo Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal do Ceará. Faculdade Vale do Salgado, Ceará. Líder do Grupo de Estudo em Atividade Física, Epidemiologia e Saúde E-mail: giufarmacia@hotmail.com

Leonardo Freire Vasconcelos Doutorando em Farmacologia pelo Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal do Ceará. E-mail: leo_san82@hotmail.com

Ana Paula Fragoso de Freitas Mestranda em pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Docente da Faculdade Vale do Salgado, Ceará. Pesquisadora do Grupo de Estudo em Atividade Física, Epidemiologia e Saúde. E-mail: paulinhaff4@hotmail.com

Rivelilson Mendes Freitas Pós-doutor em Farmacologia. Docente do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas, Núcleo de Tecnologia Farmacêutica, Laboratório de Pesquisa em Neuroquímica Experimental, Universidade Federal do Piauí. E-mail: E-mail: rivmendes@hotmail.com

Resumo O consumo de anabolizantes entre os praticantes de atividade física vem crescendo em todo o mundo, tornando um problema de saúde pública. O objetivo desse trabalho foi traçar o perfil do consumo de anabolizantes em praticante de atividade física da cidade do Icó, Ceará, Brasil. Realizou-se um estudo analítico transversal com abordagem quantitativa com 60 praticantes de atividades física da cidade do Icó. Observou-se que não existe diferença estatisticamente CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 206


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significativa entre consumo de anabolizantes entre os sexos. Verificou que 3,33% dos entrevistados utilizaram o ADE. Contatou-se que há um perfil de utilização de anabolizantes sem prescrição médica, campanhas educativas são de vital importância para reduzir o uso dessas substâncias. Palavras-chave: Doping. Esteróides. Abuso de Drogas. Atividade física. Efeitos adversos. Abstract The consumption of anabolic steroids among practitioners of physical activity has been growing worldwide, making it a public health problem. The aim of this study was to profile the use of anabolic-athlete in the city of Icó, Ceará, Brazil. We conducted across sectional study with a quantitative approach with 60 practitioners of physical activities in the city of Icó. It was observed that there is no statistically significant difference between anabolic consumption between the sexes. Found that 3.33% of the respondents used the ADE. It was noted that there is a profile of use of anabolic steroids without a prescription, educational

campaigns are

vitally

important to

reducethe

use

of

these substances. Keywords: Doping. Drug abuse. Physical activity. Adverse effects. Steroids.

INTRODUÇÃO O consumo de esteróides anabolizantes em praticante de atividade física é um problema de saúde pública. No meio de algumas práticas esportivas existe a crença, de alguns atletas, de que a melhora do desempenho e ganho de massa muscular se consiga através do uso de esteróides anabolizantes. Comumente, o próprio usuário injeta o esteróide no local em que deseja o aumento de massa CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 207


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muscular ignorando os inúmeros riscos e malefícios que isso pode causar (CARDOZO FILHO, 2011). Os anabolizantes são substâncias sintetizadas em laboratório, relacionadas aos hormônios masculinos (androgênios). O consumo destas substâncias produz efeitos anabólicos, como o aumento da massa muscular esquelética, e efeitos androgênicos ou masculinizantes (IRIART, CHAVES; ORLEANS et al., 2009). O uso ilícito dos anabolizantes dá-se por atletas na crença de que essas drogas aumentam a massa muscular, têm sido abusados, também, por não atletas com fins estéticos, pelo desejo de ganhar peso e melhorar a aparência (SCOTT ;WAGNER; BARLOW, 1996; LISE et al., 1999). O uso de anabolizantes podem provocar diversos efeitos sistêmicos indesejadas tais como fechamento epifisário precoce, atrofia testicular, acne, esterilidade, ginecomastia, afecções hepáticas, esterilidade, calvície e câncer de testículo, resistência à insulina, retenção de sal e água, aumento do colesterol, infarto precoce, entre outros. Efeitos colaterais locais incluem lesão tendínea, fratura por stress, lesão neurológica, celulite, necrose tecidual, abscesso e até mesmo, em casos extremos, à fasceíte necrotizante (CARDOZO FILHO, 2011). Na cidade de Icó centro sul do estado do Ceará há uma escassez de pesquisa sobre o uso de anabolizantes. Entretanto, observa-se um número crescente de uso de anabolizantes entre os jovens. Baseado nessas premissas o objetivo desse trabalho foi investigar o consumo de suplementos em indivíduos praticantes de exercícios físicos da cidade do Icó, Ceará, Brasil.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo exploratório descritivo com abordagem quantitativa. A pesquisa descritiva compreende a descrição, registro, análise e interpretação da natureza atual ou processo dos fenômenos, dentre seus tipos e modalidades CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 208


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iremos caracterizar o estudo de caso, que está voltado para a história e desenvolvimento de caso: pessoa, grupo, instituição social, comunidade, busca diagnosticar problemas e identificar medidas de reabilitação (POLIT, 2004). A coleta de dados foi realizada em academias, praças e em uma instituição de ensino superior do município do Icó estado do Ceará, nordeste Brasileiro. A Cidade do Icó, CE possui uma população com cerca de 65.456 habitantes distribuídos na zona rural urbana sendo a maior aglomeração na zona urbana (IBGE, 2007). Foram entrevistados 62 indivíduos praticantes de atividade física da zona urbana. Para seleção dos indivíduos que participaram da amostra, usamos técnica de randomização, com os seguintes critérios de inclusão ser morador da cidade a mais de 6 meses, aceitar em participar da pesquisa. Para a coleta de dados entre os praticantes de atividade física que foram selecionados para a pesquisa, aplicou-se um questionário baseado no modelo dos trabalhos de Rodrigues et al., (2000) e modificado por Cerqueira et al., 2010 através de autopreenchimento e de modo sigiloso. A equipe básica para coleta de dados foi composta por três estudantes previamente treinados para a aplicação do questionário. Este estudo foi derivado de um projeto de pesquisa intitulado uso de anabolizantes e suplementos alimentares por praticantes de atividade física do nordeste brasileiro, o qual foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraíba. Essa pesquisa não possui nenhum conflito de interesses e segue os preceitos da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, norma que regulamenta a pesquisa envolvendo seres humanos e Declaração de Helsinque (BRASIL, 1996). Todos os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Os dados coletados foram processados no programa estatístico Excel para construção de banco de dados referentes às variáveis quantitativas e expressos em figuras e tabelas com auxílio da planilha Excel for Windows versão 2000. . O CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 209


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teste do qui-quadrado (c2) foram aplicados para verificar a associação entre as variáveis estudadas, ao nível de significância de 5%. Foi utilizado como instrumento de análise estatística o aplicativo Graph Pad Prisma versão 5.0.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Verificou-se que a maioria dos participante possuíam idade entre 20 e 25 anos, sendo a maioria do sexo feminino 53,22%, onde 30% possuíam o ensino superior incompleto, e com renda de um a dois salários mínimos 61,29% Observou-se

que

3,33% dos participantes na

pesquisa utilizaram

anabolizantes, verificando que não existe diferença estatisticamente significante na utilização de anabolizantes relação ao gênero (p=0,1785) (Tabela 1). Tabela 1. Distribuição do consumo de suplementos alimentares entre os praticantes de atividade física da cidade de Icó, CE. Uso Suplementos alimentares Sim

Não

n

%

n

%

X2

p-valor

Masculino

2

3,33

30

50

1.81

0,1785

Feminino

0

0

28

46,67

Valores significativos p<0,05 pelo do Teste qui-quadrado

Nossos estudos corroboram com estudos realizados com militares na cidade de Goiânia e Aparecida de Goiânia que encontraram uma baixa prevalência de uso de esteróides anabolizantes 5,4% (COSTA et al., 2010). Em estudo realizados na cidade de Erexim e Passo Fundo, Rio Grande do Sul pesquisadores que encontram uma prevalência de 6,5% (FRIZON et al., 2005), porém divergem de vários estudos que investigaram o consumo de anabolizante em algumas cidades CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 210


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brasileiras: 11,57% em João Pessoa, (CERQUEIRA et al., 2010), 11,11% em Porto alegre, Rio Grande do Sul (SILVA et al., 2007), e até 14,06%, em três cidades do interior de Minas Gerais (GRANJEIRO et al., 2008).

Entretanto, a taxa

encontrada em nosso estudos é superior a observadas no Brasil em geral 2005 (09%)(CARLINI et al., 2007), que, por sua vez, já estava três vezes maior em relação a 2001 (0,3%) (CARLINI et al., 2002). Nos Estados unidos estudantes que participantes de competições universitárias revelou um alto consumo de anabolizantes de 17 a 20% (POPE; KATZ, 1988). Estudos realizados no Canadá, Suécia, Inglaterra, Austrália e África do Sul relataram prevalências entre escolares do Ensino Médio que variam de 1% a 3% (BAHRKE; YESALIS, 2004; IRIART, CHAVES; ORLEANS et al., 2009). Na Argentina o consumo de esteróides anabolizantes foi cerca de 25% dos fisiculturista(D´Angelo et al., 2005). Tabela 2. Anabolizantes utilizados por praticantes de atividade física na cidade Icó Ceará, 2009. Utilização de anabolizante

n

%

ADE

2

3,33

Não usaram

58

96,66

TOTAL

20

100

No que concerne o uso de anabolizantes verificou-se que 3,33 % dos praticantes de atividade física da cidade do Icó, utilizaram o ADE como medicamentos anabólicos. Pesquisadores avaliando a prevalência do uso de agentes anabólicos em praticantes de musculação de Porto Alegre encontraram uma freqüência de uso em torno de 4,2% para ADE conjuntamente com outros produtos de uso veterinários (SILVA et al., 2007). O polivitamínico conhecido como ADE é bastante utilizado com o intuito de aumentar em determinadas áreas o volume da massa muscular. Este nome é CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 211


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utilizado de forma genérica por seus usuários para se referirem aos medicamentos veterinários, que contém vitaminas lipossolúveis A, D e/ou E em veículo oleoso. Os nomes comerciais de tais medicamentos encontrados em agropecuárias são o Monovin-E (Laboratório Bravet) que é um concentrado oleoso de vitamina E; ADE (Laboratório Labovet); ADE (Laboratório Hertape Calier), ADE Thor (Laboratório Tortuga) que são concentrados oleosos das vitaminas A, D e E, entre outras marcas (FIGUEIREDO et al., 2011). A ADE ao serem injetados em músculos de seres humanos nas quantidades muito superiores às doses terapêuticas usadas em animais de grande porte como bovinos e equinos, causam um aumento volumétrico localizado. Porém este aumento não é relacionado à hipertrofia muscular ou a qualquer evento adaptativo fisiológico, tendo apenas um efeito cosmético duvidoso, pois o resultado da aparência do músculo pode não mais se assemelhar à anatomia do músculo normal. O volume injetado ocupa um espaço no local de aplicação, dentro do ventre muscular ou no tecido subcutâneo adjacente.

Por este aumento do

músculo pela simples injeção localizada, o ADE passou a despertar o interesse de praticantes de musculação, e até mesmo de não praticantes de musculação (FIGUEIREDO et al., 2011). O uso de ADE pode levar ao aparecimento de diversos problemas dentre os quais já foram citados na literatura os seguintes: dores no braço e tórax, convulsões, coma e cinco relatos de morte por complicações pelo uso de ADE (FIGUEIREDO et al., 2011). CONSIDERAÇÕES FINAIS Esses dados indicam que medidas sérias são necessárias para evitar o uso de dessas substâncias, principalmente por usuários de centros de fitness, visto que o uso errôneo desses medicamentos pode causar lesões irreversíveis inclusive a morte. Além disso, um controle mais rigoroso na vendas desses produtos, CERQUEIRA, Gilberto Santos. et al. Investigação do uso de Anabolizantes no Município de Icó-CE: um estudo transversal. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 205-214, out. 2011. 212


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associados a uma fiscalização da vendagem seria essencial para tentar reduzir o consumo, aliado campanhas educativas que são essências para promover o uso racional de anabolizantes.

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Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade Fausto Antônio de Azevedo Farmacêutico-Bioquímico, USP; Especialista em Saúde Pública, USP; Mestre em Análises Toxicológicas USP; ex-Coordenador de Toxicologia da CETESB-SP; ex-Professor Titular de Toxicologia da PUC-Campinas; exGerente de Vigilância Sanitária da Secretaria da Saúde-BA; exPresidente do CEPED-BA, ex-Subsecretário do Planejamento, Ciência e Tecnologia do Estado da Bahia, ex-Diretor Geral do Centro de Recursos Ambientais CRA-BA; ex-Superintendente de Planejamento Estratégico do Estado da Bahia. Diretor da Intertox, Professor e co-Coordenador do curso de pós-graduação em Ciências Toxicológicas das Faculdades Oswaldo Cruz, São Paulo. Diretor da Intertox. E-mail: fausto@intertox.com.br

Em nossa época, o discurso político é em sua maioria a defesa do indefensável. ...A linguagem política – e, com variações, isso é válido para todos os partidos políticos, de conservadores a anarquistas – é destinado a fazer mentiras soarem como verdades e o assassinato parecer respeitável, assim como dar uma aparência de solidez àquilo que é puro vento. George Orwell, A collection of essays, Harcourt Brace Jovanovich, 1953.

INTRODUÇÃO Quais seriam os subterrâneos da psique que podem justificar as atitudes presentes de extremo e alienado consumismo (que exigem uma exploração desmedida dos recursos naturais) e de descaso mesmo para com a conservação e a preservação ambientais (conforme temos reiteradamente refletido e nos preocupado i). Nossos problemas ecológicos se associam diretamente com a cultura contemporânea antropocêntrica e as subjetividades nela (a partir dela) ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 215


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formatadas e suas repercussões no pós-moderno. A civilização atual ii tem provocado sérios problemas ao ambiente na Terra e a si mesma. Ela faz isso em decorrência do seu modo de ser, pensar, agir. As causas desse seu modo operante de ação podem vir de épocas muito anteriores à história moderna, passando pela profundidade da vida psíquica humana consciente e inconsciente, pessoal e arquetípica. Somos portadores de instintos de violência, vontade de dominação, arquétipos sombrios que nos distanciam da boa vontade para com a vida e a natureza. É na intimidade da mente humana que nascem os processos que terminam por nos conduzir a uma luta de domínio e destruição contra a Terra, calcados que estamos, simultaneamente, no antropocentrismo (que bem já merece ser substituído por uma forma de biocentrismo inteligente) e no egocentrismo (que poderia, quem sabe, repartir diplomaticamente seu lugar com um tipo de altercentrismo). A mencionada cultura contemporânea antropocêntrica, que acabou por hipertrofiar e plasmar o capitalismo como único elemento de doutrina políticoeconômica

em

todo

o

planeta,

desaguando-o

num

supercapitalismoiii

paradoxalmente intangível e midiático, criou também, no dizer de Félix Guattari, o Capitalismo Mundial Integrado (CMI), viabilizador de um modo seu e único em escala global. Esse CMI (produtor de signos, de sintaxe e de subjetividades), com sua lógica, tem gerado áreas de exclusão e pobreza social, e de destruição ambiental, pelos cinco continentes (inclusive também no seio de países ditos ricos). Adverte Guattari: A instauração a longo prazo de imensas zonas de miséria, fome e morte parece daqui em diante fazer parte integrante do monstruoso sistema de "estimulação" do Capitalismo Mundial Integrado. iv

O CMI, no que tange aos segmentos supostamente incluídos, tem também criado autômatos, seres robotizados e consumidores padronizados que, ao mesmo tempo que são ‘sócios’, ‘acionistas’ do sistema, são seus fiéis e submissos servidores,

transformados

psicologicamente

que

foram,

pela

onipresente

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cantilena da mídia, em dóceis e ávidos consumidores. Quanto a isso também nos alerta Guattari: Assim, a subjetividade capitalística se esforça por gerar o mundo da infância, do amor, da arte, bem como tudo o que é da ordem da angústia, da loucura, da dor, da morte, do sentimento de estar perdido no cosmos... É a partir dos dados existenciais mais pessoais – deveríamos dizer mesmo infra-pessoais – que o CMI constitui seus agregados subjetivos maciços, agarrados à raça, à nação, ao corpo profissional, à competição esportiva, à virilidade dominadora, à star da mídia... Assegurando-se do poder sobre o máximo de ritornelos existenciais para controlá-los e neutralizá-los, a subjetividade capitalística se enebria, se anestesia a si mesma, num sentimento coletivo de pseudo-eternidade. v (grifo nosso)

Portanto, não se pode deixar de perceber que, intencionalmente ou não (e até que ponto será ingênuo pensar o não?), o sistema midiático mundial procura agir técnica e cirurgicamente no profundo de nossa psique, criando ou induzindo medos e desejos que venham a gerar práticas comportamentais desejáveis de opinião e de consumo. Se esse raciocínio for procedente (e por que o não seria?), está então a psicanálise instalada no centro de todas as tensões sociais atuais, mormente aquelas da dialética produção-consumo e seus efeitos colaterais; está instalada na base de nossas motivações comportamentais correntes e, assim, tem “tudo a ver” com o grau de impactos ambientais que causamos para atender nossos imperativos do princípio do prazer. Esse o confuso e preocupante quadro que se apresenta: formas novas e tumultuadas de subjetivação, massificação extenuante do apelo ao consumo, aumento do controle da sociedade pelo estado tecnológico e invasivo, insensibilidade para com o outro, as minorias e o meio ambiente. Sem qualquer dúvida, a discussão da questão ambiental, talvez muito apropriadamente feita por especialistas das ciências e da natureza nos anos 1960 e 1970, já não é mais uma questão desses especialistas e sim de sociólogos, antropólogos, historiadores, filósofos, teólogos e... psicanalistas!

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O pós-moderno pelo seu caráter policultural, sua multiplicidade, sua

hiperinformação,

serve

bem

à

constituição

de

uma

rede

inclusiva

de

consumidores. E nisso está presente a dejeção dos referenciais de representação e parece, ainda, não haver muito espaço sóciomidiático para aquilo que critica ou chama a atenção para descaminhos e necessidades de retorno. O indivíduo pós-moderno é alvejado pesada e aleatoriamente por informações parciais, sem nunca formarem um todo, e com importantes efeitos culturais, sociais, políticos... A vida nos ares pós-modernos é um show permanente (mais preocupante ainda é que o espetáculo seja a vida do outro, de um alter, via televisão, nos programas de realities...) e como tal precisa ser tratada, produzida e consumida. No panorama geral não parece haver uma estética do/para o meio ambiente ou a questão ambiental. A alma da pós-modernidade vem pelas cópias e imagens do real, de objetos reais, a reprodução técnica do real, significa desfazer a diferença entre real e o imaginário, ser e aparência, vale dizer, um real mais real e mais interessante que a própria realidade, a arte sendo uma ilusão perfeita do real, levando a um paulatino esquecimento da imagem natural, da natureza, da verdade natural (aliás, verdade é algo abominado pelo pós-moderno), produzindo o distanciamento do natural, a perda dessa tão vital referência. Por outro lado, a Ética Ambiental impõe que não queiramos utilizar inutilmente recursos do meio ambiente. Isto retroage a que re-examinemos aquilo que consumimos, no quê e no quanto. A ética ambiental impõe que conheçamos (cognição racional e emocional) mais a natureza. Sem querer evitar os reais benefícios das conquistas e dos avanços humanos, a ética ambiental reclama que sejamos mais cuidadosos e examinemos a fundo o que nos traz e o que não nos traz ganhos, aquilo que é só questão de fútil comodidade ou de modismo afirmante de psicologias individuais pouco seguras. Sobretudo, a ética ambiental não admite um faz-de-conta ético, como aquele da ecologia rasa e que, entre nós, tem-se tornado mais e mais rasa ainda. E mais: a ética ambiental não se ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 218


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contentaria apenas em preservar a vida do planeta e a vida humana, não, como muito bem disse Hans Jonas, devemos conservar, manter, preservar a vida sim, mas a vida humana genuína! O fato é que duas ações distintas e complementares precisam ser discutidas agudamente por toda a população mundial: de um lado, a necessidade de uma objetiva desaceleração do crescimento populacional (daí o começo que demos ao trabalho) e, por outro, formas exeqüíveis e práticas de redução de consumo a fim de que a pressão sobre os recursos naturais possa ser minimizada e administrada. Inegavelmente qualquer proposta séria de ‘adequação’ de consumo passará, seguramente, por uma ampla revisão de nosso modelo educacional e, também, pela busca de uma filosofia aplicável a esse tempo presente, porque violência, homicídios, baixo nível educacional, destruição ambiental, são, aristotelicamente falando, uma única e mesma substância que se repete nessas aparentemente distintas causas formais, de qualidade tão negativa e de expressão tão sinistra.

A necessidade humana de consumir Uma ressalva óbvia, porém necessária. Queremos nos referir aqui ao padrão de consumo de caráter consumista. Claro está que o ser humano sempre precisará consumir para suprir suas necessidades básicas. Lembramo-nos de Maslow vi. Mas todo o consumo que ultrapassa em vários degraus esse patamar notabiliza-se por ser supérfluo do ponto de vista das necessidades vitais e de conforto básico e passa a ser, por um lado conveniente ao supercapitalismo, mas por outro, de alto impacto ambiental. Ao iniciarmos esta breve reflexão sobre o consumo queremos desde logo indicar para o leitor mais interessado a obra de Zygmunt Bauman, Vida para ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 219


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consumo – A transformação das pessoas em mercadoria (Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 2008. 199 p.), bem como sua entrevista vii em que fundamentais aspectos da cena social e do consumo hoje, como a fragmentação, a individualização, a interdependência das sociedades, o limite de suportabilidade do planeta, a necessidade da reafirmação contínua da identidade, a (nova) privacidade, etc., a ambivalência liberdade-segurança e o mal-estar decorrente (invocando Freud), são abordados. De quando se fez presente no planeta, depois por ele mesmo chamado de Terra, o ser humano passou a consumir: de início os recursos naturais, depois outros, para atender suas necessidades de sobrevivência, de conforto, de luxo, de ostentação e psicológicas. Já de saída comecemos por lembrar que o consumo costuma ser muito bem definido e estudado pelas Ciências Econômicas, envolvidas que estão com a realidade da aquisição de bens (os bens de consumo e os bens de capital e serviços). Nessa óptica, consumo, por definição, é a utilização, aplicação, uso ou gasto de um bem ou serviço por um indivíduo, uma comunidade, ou uma empresa. Nesse sentido o consumo representa a etapa última do processo produtivo, que se iniciou na logística, fabricação, armazenagem, embalagem, distribuição e comercialização (e produção é ao mesmo tempo consumo, como bem observou Karl Marx, havendo uma relação dialética entre os dois elementos). Mas outras áreas do conhecimento/vida humano têm também dado cada vez mais atenção à matéria consumo, como, por exemplo, os especialistas e teóricos do marketing, posto que a propaganda é essencial nas sociedades capitalistas, porque seu papel é criar nos indivíduos a ‘necessidade’ de consumir certas coisas. O que talvez ainda esteja desbalanceado nessa equação é a quantia de tratamento filosófico – e psicanalítico! – com ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 220


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desdobramento efetivo da matéria (em que pesem algumas reflexões muito importantes viii). Passeando-se por dicionários aprendemos que consumo ix é o ato ou efeito de consumir; gasto; é a utilização de mercadorias e serviços para satisfação das necessidades x humanas. Até aí nada de novo, mas quando pesquisamos com melhor vontade os resultados do ato de consumir – e olhamos isso de forma menos egoísta –, notamos que, se de um lado satisfazemos nossas necessidades e sobrevivemos, nos confortamos – e temos direito a isso (algo como o próprio direito natural à existência) –, por outro lado (ou por todos os lados...) geramos consequências fora de nós (aquelas que são forjadas dentro de nós deixemos aos psicanalistas), que precisamos reconhecer e mensurar, até mesmo pela exata questão da sobrevivência. Tanto extraímos recursos naturais, de toda sorte, quanto adicionamos ao ambiente os produtos finais de nossos processos fabris xi e de nossos usos. O ambiente, portanto, relaciona-se conosco a um só tempo como doador e o receptor: doa-nos o melhor de si e recebe de nós o nosso pior... (eis outro bom ponto para aprofundamento ético). A literatura técnica especializada (em Biologia, em Ecologia, em Zoologia, em Botânica, em Agronomia, etc.) está farta de nos mostrar que não existe a possibilidade de suporte indefinido para o crescimento populacional humano e o crescimento da vontade de consumo das populações humanas (e cabe observar que o aumento de consumo pode se dar mesmo com a diminuição de uma população, porque se trata de matéria quali-quantitativa, referente ao número total de indivíduos que consomem e também a seu padrão de consumo, o que se associa a seu grau de maturidade, consciência, evolução e poder aquisitivo...). Não podemos nos esquivar da sensação de que o grande protagonista desse teatro de horrores que parece prestes a atingir a natureza e a nós próprios, o ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 221


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protagonista, dizíamos, é o próprio ser humano, ou, aquilo no que ele se transformou depois de dezenas de milênios de existência e, incrível!, depois dos três mil anos de uso do pensamento, desde a mais magnífica descoberta, ou invenção, da humanidade: a da filosofia xii. Tivemos que pensar muito, desde os filósofos pré-socráticos, tão preocupados com o próprio mundo natural, (i) até Sócrates que trouxe para o centro da cena do pensamento humano o próprio homem, (ii) até a assunção da confiança nesse homem e na Ciência, no Iluminismo e na Filosofia Moderna, e (iii) até a explosão de correntes na Filosofia Contemporânea, que nos levaram à formulação do capitalismo, do pragmatismo, do pragmatismo positivo, e o resultado de todo esse longo (e acumulativo?) processo deu no que deu xiii, pelo menos no que tange às chances ambientais. Algum desvio houve. Alguma falta de controle houve, porque hoje não nos parece que sejamos saudáveis, nem do ponto de vista ambiental, nem do social xiv. Em vez de atestarmos essa nossa afirmação com dezenas de referências de textos de especialistas na questão ambiental, preferimos transcrever um parágrafo e meio muito sugestivos de um texto denominado Medos de ontem e de hoje xv (o grifo é nosso) do escritor francês Jean Delumeauxvi, doutor em letras e respeitado estudioso do medo humano: “(...) de certa maneira, o medo é necessário quando se trata de uma sadia antecipação dos perigos, às vezes bem reais, que nos ameaçam. Ora, atualmente muitos dos dirigentes do planeta – chefes de Estado ou dirigentes econômicos – se recusam a olhar lucidamente o futuro e a tomar consciência do desastre ecológico que nos atinge e que diz respeito a todos nós. Desperdiçamos os recursos do planeta e nossos sucessores sofrerão as conseqüências disso. E, assim fazendo, nós aumentamos, aliás, de maneira inquietante, a poluição e, portanto, o clima do planeta. Um documentário suíço, difundido recentemente pelo canal francófono TV5, mostrou, por meio de cálculos muito simples que se 1,2 bilhões de chineses quisessem atingir dentro de 20 anos o nível de vida médio dos habitantes dos Estados Unidos, os recursos da Terra não seriam suficientes. Haveria, em escala mundial, falta de energia e falta de água; e, além do mais, uma poluição desmesurada e um acúmulo insuportável de dejetos. Estamos devidamente advertidos. Portanto é preciso que tomemos consciência dos perigos que nós mesmos criamos. Os países ricos deverão aceitar a redução de seu padrão de vida, e todos os cidadãos do mundo também deverão compreender que o planeta está frágil a partir de agora.” ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 222


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Já que citado pelo referido autor, quanto à inquietação que a todos nos

deve sobressaltar, há aquela a respeito das mudanças climáticas que, se, é verdade, inserem-se nos grandes ciclos de alterações próprias do planeta, também, tudo leva a crer, estão sendo hoje aceleradamente acentuadas pela atividade humana. Inquietação pode ser depreendida pelo exame atento da leitura do documento do IPCC: Climate Change and Water xvii. O que acreditamos é que houve, nesses séculos mais recentes, um pacto entre o desenvolvimento tecnológico e científico (as formas modernas de adquirilos), a lógica do lucro e as periódicas recaídas da humanidade na barbáriexviii. Nesse apogeu de civilização pragmática que ora vivemos, busca-se a felicidade e o sentido na vida pelo consumo de bens materiais e culturais. Após o advento da modernidade (que não trouxe algo nocivo em si, a questão sendo sempre a aplicação prática de doutrinas e idéias), como que sepultamos o ideal clássico do logos como sabedoria prática, a areté grega ou a virtus latina xix. Quanto a isso, queremos invocar um pouco do pensamento dos frankfurtianos, ou, mais precisamente, de um deles, Adorno. A filosofia desse autor fundamenta-se na perspectiva da dialética. Sua obra principal, escrita durante a segunda guerra, em colaboração com Max Horkheimer, a Dialética do Esclarecimento (1946), é uma crítica da razão instrumental (conceito fundamental deste último filósofo), isto é, uma crítica – que se apóia numa interpretação severa e um tanto negativa do Iluminismo – a uma civilização técnica e da lógica cultural do sistema capitalista (chamado por Adorno de "indústria cultural"). A obra critica ainda a sociedade de mercado que não persegue outro fim que não o do progresso técnico.

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Segundo o autor, nossa civilização técnica atual, advinda do espírito do

Iluminismo e do seu conceito de razão, não representa mais que um domínio racional sobre a natureza, que implica paralelamente um domínio (irracional) sobre o homem. Assim, os diferentes fenômenos de barbárie moderna (como regimes totalitários, ditaduras, o fascismo, o nazismo...), não seriam outra coisa que não mostras, e talvez as piores manifestações, desta atitude autoritária de domínio sobre o outro. Vamos adiante por nossa conta fazendo-nos lembrar que em nossa sociedade atual está cada vez mais difícil distinguir entre o lícito e o ilícito, o público e o privado, o racional e o irracional, o lógico e o confuso... Interessa-nos, aqui, a crítica à racionalidade instrumental da sociedade contemporânea,

ou,

conforme

Adorno

e

Horkheimer,

o

"esclarecimento

irracional": "Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também a sua relação com a verdade." xx

A crítica ao esclarecimento insurge-se contra as conseqüências da racionalidade instrumental, "tecnologizante": o positivismo, o nazismo, o fascismo, o socialismo burocrático da então União Soviética. Outra crítica extremamente importante dos frankfurtianos à sociedade contemporânea é a da Indústria Cultural: os produtos do espírito, da arte, recaem também sob a forma de mercadorias! Aspectos da arte, como sua livre fruição, seu caráter inovativo (vanguarda), e que conduz o sujeito-observador à reflexão e crítica são perdidos. Na indústria cultural privilegia-se o que está de acordo com o gostoconsumo-capacidade-de-deglutição geral do consumidor, o novo só é introduzido na medida em que seja vendável – essas características tendem a levar à dominação passiva, ao conformismo dos indivíduos (à formação de rebanhos dóceis) e destroem a arte, a verdadeira arte possível. E lembremo-nos de que tanto pior tudo se torna quanto mais baixo é o nível escolar e educacional desse consumidor, ficando, portanto, mais e mais barata a produção de ‘bens ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 224


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culturais’ de baixo custo e aumentado o lucro dos produtores. O leitor atento e sensível que acabou de pensar na pagodelândia nacional e nos Rocks in Rio está no caminho certo... A crítica à sociedade contemporânea, nas palavras de Adorno & Horkheimer: "O que nos propusemos, era, de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando na barbárie."

Na Dialética Negativa (1966) xxi, Theodor Adorno intenta mostrar o caminho de uma reforma da razão, com o fim de libertá-la deste domínio autoritário sobre as coisas e os homens que ela carrega desde a era iluminista. Opõe-se à filosofia dialética hegeliana, que reduz ao princípio da identidade ou a sistema todas as coisas através do pensamento, superando suas contradições (critica também o Positivismo Lógico, que deseja assenhorear-se da natureza por intermédio do conhecimento científico), o método dialético da "não-identidade", de respeitar a negação, as contradições, o diferente, o dissonante: o respeito ao objeto, enfim, e o rechaço ao pensamento sistemático. A razão só deixa de ser dominadora se aceita a dualidade de sujeito e objeto, interrogando e interrogando-se sempre o sujeito diante do objeto, sem saber sequer se pode chegar a compreendê-lo por inteiro. Mas não pretendemos traçar um ataque ao modo de pensar dominante na Filosofia Moderna e às crenças, até sedutoras, do Iluminismo. Deu-se, enfim, a revolução científica, depois a tecnológica, por esse caminho, e, inegavelmente, elas têm também muitos aspectos positivos. O que importa saber é como isolar tais facetas positivas e maximizá-las e como, também, bloquear as consequências negativas e neutralizá-las. Para tanto, acreditamos que seja necessário estruturar uma linha filosófica que não pode se limitar a contrapor dialeticamente argumentos e raciocínios ao pragmatismo positivo, ao liberalismo ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 225


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e neo-liberalismo, ao capitalismo, como fizeram Adorno e outros filósofos do pósmodernismo, nem pode preconizar apenas um respeito amoroso e direto à natureza, um puro reencantamento da relação do ser humano com o natural. Entendemos que o desafio é, a partir de todos os fatos filosóficos, históricos e sociais que já conhecemos, construir um novo homem, outra vez centrado em si, mas não como o pequeno deus, com seu poder inserido na elucidação científica da natureza e o direito de dominá-la, e sim como aquele que sabe utilizar o conhecimento científico de forma racional e moral, ética e estética, de forma filosófica, e de forma emocional, e não coloca esse poder a serviço de exploração (seja do ambiente seja dos demais homens) e sim a serviço de sua realização ulterior (quase que transcendental) como fenômeno de vida a ser elucidado permanentemente. Não é, obviamente, como demonstrado já está, com o acúmulo de bens materiais (nem mesmo culturais), que o ser humano poderá se afirmar e se distinguir em seu processo único e excepcional de existência cósmica. O acúmulo de todas as formas de poder é uma vã tentativa de preenchimento de vazios, uma busca infutífera de completude que para todo o sempre foi perdida na solução do Édipo de cada qual. Por enquanto, podemos ainda ser um pouco pacientes (isso é contestável), porque estamos na adolescência de nossa vida tecnológica. Ainda somos meninos que se deslumbram com os brinquedos e vemos nesses brinquedos um fim em si. Ainda nos encantamos com o apertar botõezinhos... Nosso primeiro grande passo, conseqüente a uma profunda reeducação, que precisará de um sistema filosófico de suporte, será nos desligarmos da tecnologia como fim em si e passá-la à categoria de apenas meio para implementação de necessidades humanas mais verdadeiras, eternas, relativas à explicação do que, afinal, somos e para o quê estamos existindo (que, imagina-se, não deve ser para que se tenha um celular ou um carro do ano...). Nisso tudo há que se fazer ainda uma forma de reconquista do aparelho psíquico,

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no sentido de poder torná-lo menos vulnerável, como hoje está, aos apelos do ter (falo) e do narcisismo. O fato é que, no momento, nessa adolescência tecnológica, o ser humano, ainda entorpecido pela cilada da má interpretação de seu poder científico e tecnológico, ainda confundindo ser com ter, plenitude com acúmulo, criação com fazer, esse adolescente viciou-se em consumir e, de tal forma enraizou-se nesse vício, que da droga já depende e sem ela entra em franca crise de abstinência, acreditando piamente ser inviável a vida sem os ícones (totens) de consumo. Consomem-se: marcas de produtos, marcas de serviços, modernidades up-to-date tecnológicas, estilos e comportamentos pessoais e grupais. Quem assim não o faz fica cada vez mais desintegrado, desengajado, desincluído, o que reflete profunda e negativamente em sua intimidade psicológica, a ponto de produzir-lhe mal por se acreditar um inferior ou incapaz ou incompetente – ou tudo somado. As portas que me interessam só se me abrem se eu usar tal etiqueta, tal agenda eletrônica, tal penteado, souber de tal notícia de tal articulista de tal jornal, se eu tiver assistido tal talk-show xxii e souber pelo menos uma citação da orelha da capa de tal livro do momento. Claramente, tudo isso atende a uma estratégia da indústria global e do sistema político-econômico que a suporta. Interessante é que, em nome da sociedade (e de uma certa sociedade democrática), anula-se o indivíduo. Dentre outras consequências, por certo está que, paradoxalmente, essa nova sociedade, assim moldada, não é a soma de seus indivíduos. Nesse sentido queremos transcrever o seguinte comentário do historiador e doutor em ciência política Marcelo Jasmim, discorrendo a respeito dos ‘Medos democráticos’: “(...) o indivíduo democrático vive o contexto da fragmentação e do isolamento social. Embora zele pela sua independência individual, a dificuldade ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 227


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de cumprir factualmente a suposição ‘cartesiana’ o dispõe a aderir às opiniões majoritárias de modo não crítico. Sendo o enfrentamento da dúvida sem descanso uma opção terrível e afeita aos poucos espíritos capazes de suportar uma angústia permanente, a adesão às correntes majoritárias de opinião, à moda, às vogas e padrões estéticos e intelectuais é o caminho preferido pela maioria dos mortais, pois oferece uma sensação de pertencimento à comunidade mais ampla, reduz o isolamento e a pressão moral sobre a razão individual e, conseqüentemente, a angústia democrática. Mas dessa adesão excessiva deriva a força inédita que a opinião pública, como opinião da maioria, tem nessas sociedades, o que põe em risco a independência intelectual dos indivíduos sob a pressão da massificação.” xxiii (grifo nosso) Suposição ‘cartesiana’ a que se refere o autor conota o indivíduo democrático moderno de Tocqueville. Tal indivíduo tem a necessidade permanente de submeter à dúvida e ao exame exclusivo da razão toda e qualquer informação ou proposição disponível. Como pode, nos tempos de hoje, com o incessante bombardeio de informações e de opiniões que a mídia lança sobre nós, o simples mortal exercer sua faculdade cartesiana de análise e anulação das inverdades?... O já referido autor Zygmunt Baumanxxiv desenvolve uma reflexão elegante ao longo de sua vasta obra. Para ele, o que se alterou foi a modernidade sólida, que deixa de existir, sendo substituída por uma modernidade líquida. A sólida começou com as transformações clássicas e com o surgimento de valores e modos de vida cultural e político estáveis. Na líquida, impera a volatilidade: as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto (familiar, de casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e assim por diante) perde consistência e estabilidade.

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A exacerbação crudelíssima da filosofia irrefreável de consumo é

cristalizada no plano coletivo do Estado quando aquele país (e poderia ser ele qual fosse) que ocupa a categoria de maior potência econômico-militar do momento, submete toda a economia nacional e toda sua tecnologia a um esforço vão de guerra (guerra que não há), porque tal ‘esforço’ gera gastos e produção e consumo de uma ordem que atende aos grupos econômicos interessados e assim mantém girando a roda, tal como fosse um insano – e o é – moto continuo. Bastante oportuno, quanto a essa análise, é o belíssimo texto de Robert Stam: “O outro tipo de manobra exterior e provocadora de medo diz respeito à política externa e aos orçamentos militares. Após a vitória contra inimigos reais, na Segunda Guerra Mundial, o ‘complexo militar-industrial’ dos Estados Unidos tornou-se cada vez mais poderoso, passando a necessitar cada vez mais de inimigos, como justificativa para os imensos gastos alocados no orçamento militar. O medo, nesse sentido, serviu como combustível básico para o complexo militar-industrial. Durante quase cinqüenta anos, a Guerra Fria serviu a esse propósito. Podemos observar a natureza artificial desses medos, ao lembrar que às vésperas do colapso soviético os ‘especialistas’ da direita ainda estavam advertindo para os terríveis perigos que a União Soviética representava. Após a queda do muro de Berlim, a busca voltou-se para novos inimigos, os ‘novos eixos do mal’, que pudessem justificar os gastos, que iam muito além dos gastos assumidos por qualquer outro país ou coalizão. Enquanto louvavam ‘mercados’ por princípio, o complexo construiu um sistema perfeitamente azeitado. Um Pentágono, sem auditoria – apesar da exigência constitucional – domina o país, enriquecendo aqueles que se encontram no alto da escada corporativo-militar. Nesse ponto, os exorbitantes gastos militares estão entrelaçados na trama da economia e do governo norte-americano. O sistema que gera uma necessidade estrutural por um inimigo – quer sejam eles comunistas, ou Estados fora-da-lei, ou traficantes de drogas, ou ainda o Eixo do Mal, ou terroristas. Bin Laden veio ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 229


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preencher essa lacuna e forneceu a justificativa perfeita para os gastos e uma guerra sem-fim, como parte do keynesianismo dos ‘guerreiros corporativos’. A guerra declarada do governo, como indicaram muitos críticos, não é contra um país, ou uma organização, mas sim contra uma abstração, o que traz a vantagem de nunca terminar.” xxv (grifo nosso) Mesmo países de muito menor envergadura econômico-militar almejam, por seus governos, uma poderosa indústria bélica, e consumo mundial para seus produtos, conforme se depara da matéria veiculada em jornais brasileiros em 1o. de fevereiro de 2008: Folha de São Paulo, sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008: Tarso e Jobim defendem fim de tributo sobre indústria bélica (dois Ministros do governo brasileiro, o da Justiça e o da Defesa, advogam a minimização de tributos para a indústria bélica a fim de fortalecer a exportação de armas). xxvi

Obviamente que todo esse esforço humano de produção de tecnologias e de bens, seja um mero celular, seja um moderno armamento, para atender suas necessidades de prazer (liberdade) e/ou segurança, gera uma pressão concreta e definida sobre o meio ambiente e sua homeostase. Muitos estudiosos (e principalmente os que se dedicam à compreensão e às teorias do marketing) têm procurado desvendar as bases filosóficas e psicológicas do consumo. Para Moisés Efraim, por exemplo, o consumo estaria bastante vinculado à Vontade de Potência, princípio capital do pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Objetivamente falando, o próprio Nietzche afirma que “vida é Vontade de Potência”. A identidade entre vida e vontade de potência, Nietzsche chama de ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 230


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“nova concepção” (de vida). A vontade de potência como vida é algo que quer crescer, criar, quer se realizar xxvii. Os autores discutem entre si o sentido de vontade de potência. Para alguns seria vontade de domínio, poder; para outros é força plástica, de criação, com impulso para efetivar-se e, com isso, criar novas configurações em relação às demais forças. O homem é uma multiplicidade de vontades de potência, cada uma com uma multiplicidade de formas de meios de expressão, e a vida, portanto, é uma variedade de significados e perspectivas que dependem de um jogo de impulsos (o que equivaleria às pulsões no sentido freudiano): tendências ativas que aumentam o impulso de vida (ascendentes), e tendências reativas que o diminuem (descendentes). Por esse caminho chega-se a que a questão do valor é, essencialmente, a das condições de intensificação ou conservação, de aumento ou diminuição da vida (vontade de potência). Segundo Efraim, “o consumo não passa de uma das expressões do exercício da Vontade de Poder”, ou vontade de potência. Subentende-se que pelo consumo o indivíduo estaria se diferenciando e criando sua inovação de vida, exercitando seu potencial para existir. Ademais, diz Efraim xxviii: “Um ponto de partida interessante para a demonstração da atualidade da Vontade de Poder e sua relação com o consumo é a discussão em torno da possibilidade de um “consumo responsável”. As bases científicas utilizadas para esse fim deixam subentendida a busca do que poderíamos chamar de o Ser do consumo. O consumo não é uma coisa, mas uma das manifestações por intermédio das quais o ser humano constitui um sentido para a sua existência dando vazão ao livre exercício de sua Vontade de Poder. O impulso consumista não manifesta a necessidade de auto-afirmação social ou uma compulsão, mas uma necessidade individual e existencial de se lançar no futuro (novo) e de diferenciar a existência (diversificação) como forma de construção de um sentido para a vida sem o qual ela perderia completamente seu valor.”

A necessidade de consumo do ser humano parece estar ancorada nas seguintes potentes molas propulsoras: (i) a necessidade de sobrevivência, (ii) a vaidade, (iii) o medo. A essas três poderíamos adicionar a suposição mais psicanalítica de que o consumo, o objeto desejado de consumo, representa simbolicamente um falo com o qual o consumidor, acredita, poderá reconquistar ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 231


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sua completude, sua plenitude. Seja como for, a filosofia (ou atitude) consumista pode estar se cristalizando numa nova ordem de posicionamento diante da vida e seus questionamentos xxix. A primeira diz respeito ao consumo daquilo que é absolutamente necessário e bastante para que se viva e, portanto, pode ser considerada como legítima, desde que o ser humano é também, legitimamente, como já foi dito, parte integrante intrínseca do grande processo universal de existência. Nessa compreensão, até um certo quantum (e isso pode ser polêmico), o consumo seria uma realização humana afirmativa da própria vida e, portanto, essencial à sua expressão como tal. A questão que se seguiria então seria a de fixar limites: quanto de consumo é ‘natural’, e a partir de quanto teríamos desvios de excesso ou exagero amaeaçadores da própria condição de manutenção da existência? Essa tarefa é enormemente difícil e complexa. A segunda e a terceira dizem respeito muito mais a imaginações e desvios de caráter do que a qualquer outro elemento, e podem levar ao consumo alienado. É possível que, a todo rigor, no fundo de uma dissecação exaustiva, o mecanismo da vaidade se confunda com o do medo. Por vaidade estamos entendendo o consumo ostentatório, desnecessário em verdade como necessidade para realização ética do ser, mas percebido como necessário pela pessoa a fim de abastecer-lhe o ego de segurança (nesse sentido, a vaidade de consumo não deixa de possuir também um componente narcísico). Quanto maior o grau de vaidade, maior a inferioridade em que a pessoa está ou se julga. A vaidade xxx é uma busca de exercitação de poder, e ela pode ser extremamente sutil, tanto que às vezes chega a ser confundida com bondade. O vaidoso necessita de reconhecimento e procura a ‘arte’ da vaidade para chamar a atenção para si. A vaidade é, portanto, a posse de algo (concreto ou imaterial) que outros não têm ou não podem ter, seja em qualidade (o grande orador, por exemplo), seja em quantidade (o milionário). Para poder possuir aquilo que vaidosamente a distingue, a pessoa lança-se ao ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 232


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consumo adequado para tal meta, que lhe propiciará a realização dessa sua insuficiência, ou pendência, psíquica. Conveniente notar que o filósofo Jean Baudrillard entende que a lógica do consumo se baseia na impossibilidade de que todos consumam, o que torna nosso momento presente mais maldoso ainda, pois subentende necessárias as hordas de excluídos. Segundo Baudrillard, o consumo atua remarcando a diferença entre os indivíduos, pois só faz sentido alguém querer/consumir um automóvel de luxo se poucos o puderem conseguir, operando o objeto comprado como um signo da diferença de status entre as pessoas. Diz Baudrillard: “O prazer de mudar de vestuário, de objetos, de carro, vem sancionar psicologicamente constrangimentos de diferenciação social e de prestígio.”

xxxi

Já o medo (os medos xxxii) pode ser de diferentes naturezas, mas, sempre, a pessoa, em última instância, acaba por percebê-lo como ameaça à sua integridade física ou psíquica, ou diretamente à sua vida. Como se sabe, o medo é necessário à manutenção da vida humana e caminha par-e-passo com nossa evolução. Contudo, além de hoje estarmos vivendo, em muitos aspectos, uma cultura do medo xxxiii e do terror, as pessoas podem fantasiar medos ou hiperdimensionar medos reais e isto, por sua vez, pode redundar no mecanismo de consumo, seja para formar poupanças concretas (financeiras, de alimentos, de peças de reposição) seja para acariciar o ego frágil pela sensação da não posse e, portanto, da fraqueza. O homem da modernidade é um ser que, estimulado pelos avanços sociais (porque eles não deixaram de acontecer), científicos (respostas, ao menos em parte, às perguntas mais básicas e angustiantes) e tecnológicos (capacidade de produzir e de alcançar), se conseguiu se liberar de mitos (restaram alguns), se ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 233


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conseguiu se iluminar, acabou também por criar (ou reforçcar) vazios para si – e vazios terríveis. O ser humano atual, que reduziu a importância de Deus (ainda que a marteladas...) e de crenças, prossegue não sabendo muito bem o que colocar no lugar do vácuo deixado pela ausência desses seus ícones. Como têm dito alguns autores atuais da psicanálise, parece haver uma crise (de fala) do Nome do Pai. O matemático e pensador Blaise Pascal xxxiv, já em seu tempo falava que sem Deus a alma fica vazia (e como mostra sua biografia, ele era um físico especialista em vácuo), deixando o homem desamparado frente a seu destino e ao universo. Não estamos defendendo a necessidade de alguma forma de religiosidade para dar contextura ao homem, mas sim estamos lembrando que o homem atual precisa criar valores éticos, morais, cívicos – e ambientais! – que lhe ocupem as preocupações do espírito e lhe dêem um norte seguro e limpo. E ele pode ser capaz disso. A não realização desse novo ser remete o homem à psicanálise, tal a monta de seus conflitos interiores entre a existência – que lhe é dada – e a sensação de vácuo, de vazio, de nada, que ele vive. Diz a psicanalista e poetisa Maria Rita Kehl: “O sujeito da psicanálise é o homem sem Deus da modernidade, indefeso perante sua própria divisão subjetiva.” xxxv Essa sensação de vácuo, que nas sociedades presentes também se estende a uma percepção de ausência da lei simbolizada, ausência ou ruptura do pacto entre os indivíduos, náufrago do coletivo com hiperdimensionamento da individualidade e da competição, ou seja, um mundo sem lei no qual é muito difícil viver e sobreviver, leva-nos a um crescimento do pânico e das sociofobias, e um mecanismo compensatório para a ocupação do espírito, o preenchimento da mente vazia e da alma expurgada é, sem dúvida, o ato de consumo, ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 234


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independentemente de sua real necessidade, que em esmagadora maioria, não existe. A mesma Maria Khel escreve: “Em uma sociedade laica, a transmissão da lei poderia sustentar-se em outras formações imaginárias, como os ideais coletivos. Mas, no Brasil de hoje, o espaço público e o imaginário social são preenchidos pela emissão constante e indiferenciada – sem cortes significativos – de imagens televisivas e publicitárias. A tevê é o representante do Outro na modernidade tardia. Como o Deus cristão, ela parece onipresente, onisciente e onipotente. Mas é um outro que não fala em nome de nenhum ser imaginário, seu mestre é o mercado, sua lei é gozo. Que significantes mestres regulam o gozo na sociedade atual? A potência paterna passou a ser medida pelo poder de consumo do pai real; fica excluída, assim, a possibilidade de um pai pobre fazer-se respeitar, mesmo nos casos em que este se apresente, à maneira antiga, como honesto, esforçado, trabalhador. Quanto aos que têm dinheiro, estes se vêem lançados em uma negociação permanente com os filhos, em termos de: se quiser que eu te obedeça, me pague. A publicidade demonstra constantemente que a fruição individual de um objeto de consumo (apresentado sempre como objeto do desejo) vale mais do que todos os ideais coletivos do mundo. Descolado de uma cadeia significante que sustente sua função simbólica, o pai contemporâneo sente-se, com frequência, incapaz de exercer a autoridade necessária, tanto para estruturar seus filhos por meio da imposição de limites quanto para protegê-los dos riscos das faltas de limites.” (grifos nossos) xxxvi Para ficarmos por aqui, posto que essa discussão sobre consumo atual e ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 235


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suas causas e consequências pode ser interminável, e de fato o é, dadas as intervenções de todos os aspectos (psicológicos, sociais, econômicos, políticos) envolvidos, queremos destacar que não é apenas o consumo nosso ditador contemporâneo. Outros fenômenos, comunicantes ao consumo, têm-nos sujeitado à neo-escravidão (às vezes sutil e imperceptível pela maioria) dos tempos presentes. Quanto a isso, vale recorrer a um trecho de uma belíssima crônica As Árvores do Piabanha xxxvii do intelectual brasileiro Artur da Távola: "... alertar sobre os riscos da emersão da nova patologia, do neototalitarismo expresso, no mundo contemporâneo, pelas ditaduras da ciência, da tecnologia e da economia supranacional. Sob várias ditaduras, vivemos: a do consumo; a do lazer dirigido; das decisões econômicas; dos interesses de corporações supranacionais; dos computadores; de alimentação determinada por medições econométricas; da hiperorganização; de guerras e revoltas fomentadas pela indústria bélica sempre a ganhar dos dois lados e à custa da vida e dos ideais alheios!"

Ora, isso tudo, como já salientamos antes, e agora para completar esta citação de Artur da Távola, fecha com a necessidade – e por oportuno estarmos já em pleno gozo do século XXI – de se iniciar, seriamente, um reexame de nossos hábitos e práticas, reformulá-los de modo inteligente e honesto, uma vez que, os resultados aí estão a nos cercar, tudo faz crer que faliu, no sentido de qualidade e segurança de vida, dignidade e inclusão, "a utopia material ou científica que encantou e hipnotizou o século XX" (o mesmo Artur da Távola acima referido). Mas, felizmente, há os que já detectaram todo esse processo e tentam expôlo aos olhos da opinião pública: desde respeitáveis filósofos e pesquisadores (teóricos e práticos) xxxviii, até jornalistas, poetas, cidadãos comuns (que são os mais incomuns de todos), ex-mandatários xxxix e entidades xl. Estas, por sinal, vivem promovendo eventos e divulgando notas que ou combatem ferozmente a sociedade de consumo, ou mais polidamente, circulam regras para condutas menos predadoras xli. Dentre esses mensageiros da preocupação ambiental para fins objetivos de sobrevivência humana – e sobrevivência digna, é conveniente ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 236


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citar Murray Gell-Mann xlii e Nicholas Georgescu-Roegen xliii (criador da chamada bioeconomia).

Ambos

abordam

com

ênfase

a

delicada

questão

da

estabilização/diminuição da população mundial. Babatunde Osotimehin, na matéria Rumo a um mundo de 7 bilhões de pessoas, diz-nos: “Em 31 de outubro de 2011, a população mundial atingirá 7 bilhões de pessoas. Esse marco apresenta um desafio, uma oportunidade e um convite à ação. Vivermos juntos, num planeta saudável, dependerá de nossas escolhas. Por isso, amanhã, Dia Mundial da População, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) lança a campanha mundial "7 Bilhões de Ações para um Mundo Mais Justo e Sustentável". Atualmente, quase 78 milhões de pessoas são adicionados à população mundial a cada ano, aumentando a demanda por recursos naturais e pressionando o planeta. Enquanto a pobreza, a desigualdade e a pressão por recursos representam grandes desafios, o mundo está mais interligado do que nunca; temos agora uma capacidade, sem precedentes, de compartilhar ideias e de envolver comunidades em todo o mundo para resolver nossos problemas. Reduzir as desigualdades e melhorar o padrão de vida para as pessoas hoje - bem como para gerações seguintes - exige novas formas de pensamento e cooperação global. O momento de agir é agora.” xliv (grifo nosso)

De acordo com Serge Latouche xlv, conhecido postulante do decrescimento, os recursos naturais são limitados, logo, não existe crescimento infinito e a melhoria das condições de vida deve ser conquistada sem aumento do consumo, e sim pela mudança do paradigma dominante. Apesar de o produtivismo ter sido parcialmente questionado pelos militantes do desenvolvimento sustentável, os adeptos do decrescimento têm uma crítica mais radical, pois consideram o próprio desenvolvimento sustentável como um oximoro (figura que consiste em reunir palavras contraditórias; paradoxismo), uma contradição, entendendo que seus termos são mutuamente excludentes (pensamento que também parece ser o do filósofo brasileiro Leonardo Boff). O desenvolvimento não pode ser sustentável, porque o constante crescimento da produção de bens e serviços ocasiona também aumento do consumo de recursos naturais, apressando o seu esgotamento. Os defensores do decrescimento entendem que a "desmaterialização da economia", que se daria com a movimentação do eixo da atividade econômica para o setor terciário, menos demandante de recursos naturais e de energia, mostrou-se ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 237


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ilusória. Para Serge Latouche, a "nova economia" é relativamente menos material, contudo, mais do que substituição da antiga economia pela nova, existem, de fato, relações de complementaridade entre ambas e, ao fim, todos os indicadores apontam que continua a crescer a extração de recursos naturais. Segundo Latouche, é preciso descolonizar nosso imaginário. Em especial, desistir do imaginário econômico (...) Redescobrir que a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio em um mundo são, e que esse objetivo pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo em uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram sob o slogan gandhiano ou tolstoísta de "simplicidade voluntária".

E, Se você está em Roma e deve ir de trem para Turim, mas, por engano, embarca em direção a Nápoles, não basta diminuir a velocidade da locomotiva, frear ou mesmo parar. É preciso descer e pegar outro trem, na direção oposta. Para salvar o planeta e assegurar um futuro aceitável para os nossos filhos, não basta moderar as tendências atuais. É preciso sair completamente do desenvolvimento e do economicismo, assim como é preciso sair da agricultura produtivista, que é parte integrante disso, para acabar com as vacas loucas e as aberrações transgênicas.

Conforme os teóricos do decrescimento sustentável, o PIB é uma medida só parcial da riqueza e para que se recupere toda a variedade de riquezas possíveis deve-se abandonar seu uso atual. Eles propõem a utilização de outros indicadores, como: Índice de Saúde Social, índice de Desenvolvimento Humano (IDH), "pegada ecológica", etc. Entre os pressupostos da Teoria do Decrescimento estão: • O funcionamento do sistema econômico atual depende essencialmente de recursos não renováveis e, portanto, não pode se perpetuar. As reservas de matérias-primas são limitadas, sobretudo quanto a fontes de energia, o que contradiz o princípio de crescimento ilimitado do PIB. • Não existe evidência da possibilidade de separar crescimento econômico do aumento do seu impacto ambiental. • A riqueza produzida pelos sistemas econômicos não consiste apenas de bens e serviços. Há outras formas de riqueza social, tais como a saúde dos ecossistemas, a qualidade da justiça e das relações entre os membros de uma sociedade, o grau de igualdade e o caráter democrático das instituições. O crescimento da riqueza ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 238


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material, medido apenas por indicadores monetários pode ocorrer em detrimento dessas outras formas de riqueza.

• As sociedades ocidentais, dependentes do consumo supérfluo, em geral não percebem a progressiva perda de riquezas como a qualidade de vida e subestimam a reação das populações excluídas – a exemplo da violência nas periferias e o ressentimento em relação ao ocidente, por parte dos países que não apresentam o padrão de desenvolvimento econômico ocidental.

O consumismo contemporâneo como um neototemismo Primeiro - Um novo superego Nossa atual sociedade de consumo, característica, portanto, dessa fase tardia do capitalismo, a que se tem chamado de supercapitalismo xlvi, sucede a sociedade de produção dos tempos primeiros do capitalismo. Wladimir Safatle, em seu artigo Um supereu para a sociedade de consumo: sobre a instrumentalização de fantasmas como modo de socialização xlvii, comenta dessa maneira as estruturas intrínsecas dessas duas sociedades: Sendo assim, se a lei moral que sustenta a disposição dos sujeitos em adotar certos tipos de conduta econômica é uma figura do supereu, então a economia libidinal do capitalismo como sociedade de produção seria impensável sem o desenvolvimento de uma civilização neurótica que só poderia pensar seus processos de socialização através da instrumentalização do sentimento de culpa. (grifo nosso)

E, no contraponto: Assim, ao invés da sociedade da produção, devemos compreender a contemporaneidade e seus traços a partir da temática da sociedade do consumo, no sentido de que problemas vinculados ao consumo acabam por direcionar todas as formas de interação social e de desenvolvimento subjetivo, assim como é o incentivo ao consumo que aparece como problema econômico central. (grifo nosso)

Prossegue Safatle: De uma maneira esquemática, podemos afirmar que o mundo capitalista do trabalho está vinculado à ética do ascetismo e da acumulação. O

mundo do consumo pede, por sua vez, uma ética do direito ao gozo. Pois o que o discurso do capitalismo contemporâneo precisa é da procura ao gozo que impulsiona a plasticidade infinita da produção das possibilidades de escolha no universo do consumo. Ele precisa da regulação do gozo no interior de

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um universo mercantil estruturado. Para ser mais preciso, ele precisa da instauração daquilo que Jacques Lacan chama de um “mercado do gozo”, gozo

disponibilizado através da infinitude plástica da formamercadoria. (negritos nossos) Destarte, ponto crucial na contemporaneidade, em oposição à fase inicial do capitalismo, na era da produção, é que hoje mais do que nunca o gozo é permitido e estimulado. O mesmo autor nos diz: O que nos interessa aqui são certas consequências psíquicas desta passagem da sociedade da produção à sociedade do consumo. Jacques Lacan identificou talvez a maior delas ao insistir que a figura social dominante do supereu na contemporaneidade não estava mais vinculada à repressão das monções pulsionais, mas à obrigação da assunção dos fantasmas. Não mais a repressão ao gozo, mas o gozo como imperativo. Daí porque ele nos lembra que o verdadeiro imperativo do supereu na contemporaneidade é: “Goza!”, ou seja, o gozo transformado em uma obrigação. (negritos nossos)

Ainda como cita o já invocado Safatle, o psicanalista francês Lacan tem clareza da alteração dos processos de socialização na contemporaneidade e de seu impacto na estruturação do superego. Ele realça o “grande número de efeitos psicológicos derivados do declínio social da imago paterna. Declínio condicionado pelo retorno sobre o indivíduo de efeitos extremos do progresso social” (grifo nosso) como a “concentração econômica e as catástrofes políticas”. A questão da perda da autoridade paterna é muito devida ao impacto, no interior da família, do desenvolvimento impessoal da grande corporação burocrática. Impacto que faz com que a figura paterna (o que não é o mesmo que função paterna, diferença que será empregada intensamente por Lacan) seja cada vez mais: “ausente, humilhada, carente ou postiça”. xlviii Porém, tal declínio da figura paterna ideal não equivale a decréscimo da pressão do supereu e de suas consequências. Lacan explicou que o declínio da imago paterna abria espaço para o advento de figuras fantasmáticas de autoridade que se assemelhavam ao pai primevo do mito freudiano de Totem e tabu; ou seja, ao pai-senhor do gozo que pauta suas ações pela procura incessante da satisfação imediata. Então, hoje, os processos de socialização, ao que parece, não mais estão associados a ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 240


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mecanismos de repressão, mas, pelo contrário, a mecanismos que cobram de maneira completa a gratificação irrestrita. Contudo, lembremos que a ordem – goza! é impossível de ser sempre e plenamente satisfeita. E esse é o problema. O superego não tem conteúdo normativo, orientador, educativo. Não explica como gozar ou qual o objeto apropriado ao gozo. Somente diz um “Goza!” sem qualificações, um puro “não ceda em seu desejo”. Retomando Safatle, tal autor afirma: O caráter insensato deste puro gozo fica evidente se pensarmos que toda escolha empírica de objeto é inadequada a um gozo que procura afirmar-se em sua pureza de determinações, em sua independência em relação a toda e qualquer fixação privilegiada de objetos. Ele só pode se realizar no “infinito ruim” do consumo e da destruição incessante dos objetos, que nada mais faz do que atualizar um excedente de gozo. xlix (grifo nosso)

Segundo - Um novo totemismo Elisabeth Roudinesco, em sua obra Dicionário de psicanálise, com Michel Plon, faz, no tópico Totem e Tabu l, o seguinte extrato para esta obra de Freud: Eis sua essência. Num tempo primitivo, os homens viviam no seio de pequenas hordas, cada qual submetida ao poder despótico de um macho que se apropriava das fêmeas. Um dia, os filhos da tribo, rebelando-se contra o pai, puseram fim ao reino da horda selvagem. Num ato de violência coletiva, mataram o pai e comeram seu cadáver. Todavia, depois do assassinato, sentiram remorso, renegaram sua má ação e, em seguida, inventaram uma nova ordem social, instaurando simultaneamente a exogamia (ou renúncia à posse das mulheres do clã do totem) e o totemismo, baseado na proibição do assassinato do substituto do pai (o totem). Totemismo, exogamia, proibição do incesto: foi esse o modelo comum a todas as religiões, em especial o monoteísmo. Sob essa perspectiva, o complexo de Édipo, trazido à luz pela psicanálise, nada mais é, segundo Freud, do que a expressão dos dois desejos recalcados (desejo do incesto e desejo de matar o pai) contidos nos dois tabus próprios do totemismo: a proibição do incesto e a proibição de matar o pai-totem. Assim, ele é universal, uma vez que traduz as duas proibições fundadoras de todas as sociedades humanas.

Quando assistimos ao frenesi das pessoas comprando num Shopping Center não podemos deixar de pensar no que escreveu Freud em Totem e Tabu: “Como vimos, os integrantes do clã, consumindo o totem, adquirem santidade; reforçam sua identificação com ele e uns com os outros. Seus sentimentos festivos e ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 241


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tudo que deles decorre bem poderiam ser explicados pelo fato de terem incorporado a si próprios a vida sagrada de que a substância do totem constitui o veículo.” li

Freud inicia o tópico sétimo da quarta parte de Totem e Tabu (O retorno do totemismo na infância) da seguinte forma: Um acontecimento como a eliminação do pai primevo pelo grupo de filhos deve inevitavelmente ter deixado traços inerradicáveis na história da humanidade e, quanto menos ele próprio tenha sido relembrado, mais numerosos devem ter sido os substitutos a que deu origem. lii (grifo nosso)

Talvez prossigamos dando origem a substitutos e talvez façamos isso hoje numa mega-escala, potencializada por toda a agressiva mídia, em proporções e intensidade que mesmo o grande psicanalista austríaco não chegou a cogitar. As massas dirigindo-se religiosamente aos santuários Shoppings, ordenados todos como cordeiros (quiçá sob o comando de uma “mente coletiva” liii), para a refeição do objeto sagrado, bem de consumo, foco do desejo fálico de cada qual, representam, sem dúvida, a reedição ad eternum do gesto e depois do rito dos irmãos da horda primeva, sem que disso hoje se dêem conta, ou melhor, sem que conta se dêem conscientemente, porque como refletiu Freud: Uma tal compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e dogmas que restaram da relação original com o pai pode ter possibilitado às gerações posteriores receberem sua herança de emoção. liv

O totem está presente nos rituais de passagem. No ritual de passagem há morte de algo para que outro algo venha. No ritual, quando do estádio seguinte, há a imposição de novos tabus, novas regras. A ida ao Shopping é um ritual lv, e talvez de passagem, na medida em que ao ir e fazer uma compra eu saio de um estádio, o de não consumidor, ou de não consumidor daquilo, e, portanto, não incluído em dado grupo (clã), para o de membro do grupo do produto tal ou da marca tal (pelo menos será assim que pensarei). Saio da condição de não ter e ser excluído daquilo para a de ter e ser incluído, e isso me impõe novas regras, como, por exemplo, a de ser fiel àquele produto, uma forma

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de pacto religioso, divulgá-lo e cultivá-lo (enquanto me interessar, enquanto interessar ao meu gozo) como um novo totem – o totem dentro do totem... Quinodoz, em sua obra Ler Freud lvi, assim se refere a um determinado aspecto de Totem e Tabu: A refeição totêmica e o assassinato do pai Prosseguindo sua investigação acerca de outras características do totemismo, particularmente a suposta existência de uma “refeição totêmica” originária, Freud lança uma hipótese audaciosa segundo a qual o pai da horda primitiva teria sido morto e devorado por seus filhos na origem dos tempos, em uma refeição sacrificial: “Um dia, os irmãos expulsos se reuniram, mataram e comeram o pai, o que pôs fim à horda paterna. Reunidos, eles se tornaram valentes e puderam realizar o que cada um, tomado individualmente, teria sido incapaz de fazer”. A cerimônia de refeição totêmica das tribos primitivas seria uma lembrança comemorativa: “A refeição totêmica, que é talvez a primeira festa da humanidade, seria a reprodução e uma espécie de festa comemorativa desse ato memorável e criminoso que serviu de ponto de partida para tantas coisas: organizações sociais, restrições morais, religiões”. Tendo assim saciado seu ódio, os filhos começaram a sentir a consciência de culpa e o desejo de se reconciliarem com o pai ofendido. Desse sentimento de culpa decorreria a religião totêmica acompanhada de seus dois tabus principais, a proibição de matar o animal totem, representante do pai, e a proibição do incesto. Segundo Freud, essa consciência de culpa estaria não apenas na origem da religião totêmica, mas também na origem de todas religiões, da sociedade e da moral: “A sociedade repousa agora sobre uma falta comum, sobre um crime cometido em comum; a religião, sobre o sentimento de culpa e sobre o arrependimento; a moral, sobre as necessidades dessa sociedade, de um lado, e sobre a necessidade de expiação engendrada pelo sentimento de culpa, de outro”.

De fato, ao consumirem os produtos totêmicos (totêmicos para cada qual) do totem Shopping Center, as pessoas se santificam na impressão de satisfação, gozo, pelo bem adquirido, reforçam seu senso de pertencer àquele seleto clã ou a uma forma diferenciada de ser, ficam em festa por algum tempo, o júbilo pela posse do bem acalentado, seu gozo, aquilo que ele representa ou significa, enfim, parece que absorveram a substância do totem e agora estão revitalizadas, isto é, reinstalaram em si a vida, são de novo alguém, porque alcançaram o bem mágico e desejado. Convém observar que o consumismo não se dá mais apenas no ato objetivo da compra de um bem, produto ou serviço, transação mercantil objetiva, mas ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 243


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também pode ser percebido no empenho por se consumir uma grande marca que funcione como um próprio sobrenome, um adendo triunfal à subjetividade, tal qual se vem constatando com a disputa aguerrida de milhares de jovens, recém formados em faculdades, por pouquíssimas vagas de trainees em grandes organizações. Procuram eles consumir a marca, o símbolo institucional, recompor a família com missão, visão e valores da organização, ganhando visibilidade, como substituto de referências e valores perdidos ou não construídos, tal qual os que até então tivéramos.

Alguma conclusão Freud, ao longo de seu trabalho de quarenta anos, chega a duas formulações muito importantes para analisar o poder na sociedade: a matriz do Édipo e o mito da transição da horda primitiva para a aliança fraterna. A partir dessas duas formulações o problema do poder na Psicanálise pode ser pensado. Para Freud, a entrada da criança (vista como uma tábua rasa) na cultura é um embate forte. Há as forças da criança e há as da cultura, que disputam poder subjetivo e que deixam grandes marcas no sujeito, as quais determinarão atitudes que depois os adultos (aquelas antigas crianças) terão frente ao poder, a instituições, ao Estado, ao sistema enfim. Portanto, é importante legitimar a Psicanálise como algo que pensa a cultura e pensa o poder, logo não surpreende que se queira buscar na Psicanálise mais uma fonte de oferta para possíveis ações de ganho ambiental e , por essa via, civilizacional. Ora, no que concerne ao tema do consumo, como abordado, tudo faz crer que forças poderosíssimas determinam hoje o padrão de consumo consumista que nossas sociedades ocidentais (e em avanço nas orientais) ostentam: (i) de um lado temos, assumidos os pensamentos de Lacan, um superego que se revolucionou e em lugar de ser uma entidade da interdição, como outrora, passou a fazer a ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 244


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estimulação ao gozo, (ii) de outro lado temos uma sacralização totêmica do processo de compras, os modernos e cada vez mais luxuosos e convidativos Shopping Centers sendo o templo santo dessa operação (representação). No Shopping, os filhos – que são irmãos – compartilham da refeição totêmica simbolizada no ato da compra – comer, mastigar, deglutir, expelir, foram sutilizados pelo comprar, levar, usar, descartar. Do mesmo modo como na ritualização é preciso de tempos em tempos reproduzir a cerimônia da refeição totêmica, também cada indivíduo hoje necessitará retornar ao Shopping para novamente partilhar da comunhão da compra, o que convém sobremaneira ao sistema, pois o realimenta sem fim. O Shopping tomou o lugar do templo (da Igreja) e da Ciência (do conhecimento, do pensar), a compra o lugar da refeição totêmica (o alimento simbólico do corpo do pai), os outros compradores, ainda que anônimos e à distância, cumprem o papel dos irmãos da horda primitiva e apaziguam um pouco a enorme solidão dos indivíduos das sociedades contemporâneas. Mais atualmente ainda, a internet está ocupando, ou disputando, o lugar do templo Shopping. Eu consumo ‘protegido’, de casa; realizo meu ritual e celebro a cerimônia, pelo ato canibal da compra, de homenagear o pai, que um dia, na remota memória, meus antecedentes sacrificaram a fim de que tivessem acesso ao poder. Assim, tememos que os esforços no sentido de alertar e/ou reeducar os hábitos de consumo desenvolvidos por muitas instituições e pessoas (antes mencionadas), baseados seja na argumentação, na conscientização, na dialética lógica de valores e estatísticas, seja em formas de reeducação, como a educação ambiental, bem como toda a discussão atual a respeito da sustentabilidade, resultarão relativamente inócuos, sem efetividade, posto que atuam na periferia e não no âmago da questão, o qual se relaciona exatamente com as tais forcas poderosíssimas de ordem psíquica profunda, talvez pulsionais diríamos.

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Será o fim? O que fazer? Como despertar dessa narcose, dessa distopia?

O filósofo francês Luc Ferry lvii talvez nos dê uma pista de esperança com sua proposição de uma nova forma de humanismo, a sacralidade laica do próprio homem, e a afirmação do amor lviii. Possibilidade a se conferir. Outra pista poderia ser a deduzida de Bauman, quando ele discute, em A arte da vida lix, as formas de felicidade e aborda o binômio destino-caráter, entendendo que o caráter pode ser moldado e melhorado por nós, pois boa parte dele está sob nosso controle. O destino oferece um balizamento largo em possibilidades, mas que não controlamos; contudo, sobre tal esteio podemos implementar nosso caráter de forma a que ele seja identificável com nossa própria singularidade – e melhorá-lo em busca da decantada felicidade. Pensamos aqui se é possível moldar o caráter para que se seja feliz com menos, isto é, consumindo menos. Todavia, como se estrutura o “caráter”?. O que é o caráter de cada qual? A palavra caráter (carácter em Português de Portugal) vem do latim character, -eris, pelo grego kharakter, como sinal, marca gravada; por metáfora, marca impressão ou símbolo na alma. Portanto, o caráter reúne certo conjunto de características de uma pessoa. Mas, entendemos, que o caráter que se definiu em alguém repousa num arcabouço psíquico profundo. Portanto, melhorar o caráter, como pensa Bauman, seria intervir nos fatores e forças que esculpiram a psique daquela pessoa. Como fazê-lo? Outra possibilidade a se conferir. Uma pista mais antiga, que permanece vagando, seria retomarmos o Zaratustra na crença da possibilidade de reinventar o homem. A conferir também. Já sabemos que Freud também atribuía grande valor ao peso do destino, tanto quanto sabemos da força determinante da cultura sobre a formação de cada eu. Assim, parece-nos que a tentativa a ser feita, se isso for o que como humanidade desejarmos, deva se dar pela interação da reforma da estrutura da ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 246


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cultura e seu modus operandi com a perseverança individual de se autoconhecer, como possibilita o trabalho da psicanálise. Vale dizer, de um lado, como produto de grande e consciente esforço coletivo, deveríamos batalhar pela revisão de nossos hábitos sociais, econômicos e políticos, ainda que tão custoso isso pareça, direcionando-os para uma salvaguarda inteligente das chances de futuro para todos e para os próximos, e, de outro lado, necessitaríamos/necessitamos de um profundo mergulho na gênese de nossa personalidade (seus contornos e essência psíquica) a fim de nos desintoxicarmos de atos repetitivos e deletérios, que praticamos para preencher carências, mas que jamais poderão nisso ter êxito, posto que as incompletudes carenciais têm outro mecanismo genealógico e operacional, o que, se corretamente abordado, poderá nos aumentar a oportunidade de conquista da aqui idealizada transformação. Afinal de contas, voltando à filosofia, já é bem mais do que a hora de sairmos da caverna...

Notas e Referências i

Como demonstram as seguintes iniciativas de publicações: AZEVEDO, F.A.de, VALENÇA, M.Z. Ecofilosofia: o despertar de uma era definitiva. Revinter Revta. Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade v1, n1, outubro de 2008. Revista eletrônica, disponível no endereço: http://www.intertox.com.br/documentos/v1n1/rev-v01-n01-06.pdf. Acessado em 03/outubro/2011. AZEVEDO, F.A.de, VALENÇA, M.Z. Por uma ética e uma estética ambientais. Revinter Revta. Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade v2, n1, fevereiro de 2009. Revista eletrônica, disponível no endereço: http://www.intertox.com.br/documentos/v2n1/rev-v02-n01-01.pdf. Acessado em 03/outubro/2011. AZEVEDO, F.A.de. Liderança Ambiental – O Novo Desafio (Competência) para o Líder Empresarial. AGIRÁS, Revta. AGIR de Ambientes e Sustentabilidade, Vol. 1, N. 1, ago/nov, p. 37-53, 2009. Revista eletrônica, disponível no endereço: http://www.pratigi.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=15&tmpl=component&for mat=raw&Itemid=110. Acessado em 03/outubro/2011. AZEVEDO, F.A.de. Ainda uma vez a ética e a ética ambiental. Revinter Revta. Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, vol.3, nº2, mar/jun, 2010. p. 2-9. Revista eletrônica, disponível no endereço: http://www.intertox.com.br/documentos/v3n2/rev-v03-n02-01.pdf. Acessado em 10/julho/2010 AZEVEDO, F.A.de. 80 anos depois: um mal-estar ambiental. RevInter Revta. Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 1, p. 96-137, fev. 2011. Revista eletrônica, disponível no endereço: http://www.intertox.com.br/documentos/v4n1/rev-v04-n01-06.pdf. Acessado em 05/março/2011

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AZEVEDO, F.A,de. Endossustentação para a sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 2, p. 164-184, jun. 2011. Revista eletrônica, disponível no endereço: http://intertox.com.br/documentos/v4n2/rev-v04-n02-13.pdf. Acessado em 03/outubro/2011 ii

Civilização atual que por suas disparidades e diversidades de comportamento coletivo e momento histórico tem sido chamada de do espetáculo, do narcisismo (Lasch, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1984.), do espetáculo (Guy Ernest Debord. A Sociedade do Espetáculo (La societé du spectacle) Paris: Gallimard, 1967.), sociedade de risco (Ulrich Beck. Risk Society. Towards a new modernity. Londres: Sage Publications, 1992), civilização da fumaça (Antonio Carlos Jobim), e sociedade de consumo, em oposição à sociedade de produção das fases iniciais do capitalismo. Somos hoje, também, uma sociedade na qual o diálogo vai ficando cada vez mais remoto, qualquer dialética parece estar muito longínqua das pessoas comuns. Alguém já disse que conversar dá trabalho e a época não é de conversar, mas sim de compartilhar: compartilhar, à distância, qualquer tipo de informação mesmo pessoal, desde que na proteção isolada do próprio quarto com seu indefectível computador (vejam-se casos como os do Orkut, Facebook, etc.). iii

A respeito, ver a obra de Robert Reich, Supercapitalismo: como o Capitalismo tem transformado os Negócios, a Democracia e o Cotidiano. Rio de Janeiro, Editora Campus/Elsevier, 2008. 304 p.

iv

GUATTARI, Felix. As três ecologias. 11ª ed. 2001. [Tradução: Maria Cristina F. Bittencourt. Revisão da tradução: Suely Rolnik. Revisão: Josiane Pio Romera, Regina Maria Seco e Vera Luciana Morandim. Titulo original em francês: Les trois écologies. © Éditions Galilée, 1989.] 1ª Edição eletrônica. Revisada por TupyKurumin www.tupykurumin.wd2.net . p. 12. v

Idem, p. 34.

vi

Hierarquia de necessidades de Maslow – Pirâmide de Maslow. Disponível http://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_de_necessidades_de_Maslow. Acessado em 07/10/2011.

em

vii

Zygmunt Bauman - Fronteiras do Pensamento 2011. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A. Acessado em 03/outubro/2011. viii

Reflexões filosóficas de conteúdo a respeito do tema do consumismo podem ser lidas em: BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: Edições 70, 1995. 280 p. BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. 2a. ed. São Paulo: Edições 70, 2007. 216 p. HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976.

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LORENZ, Konrad. Civilização e pecado – os oito erros capitais do homem moderno. São Paulo: Coleção Veja, s/d. 140 p. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. ix

Convém salientar que consumo é deverbal de consumir, do latim consumere = 'gastar', 'comer', 'destruir', 'dar cabo de', 'arruinar’, que tem a mesma raiz de consunção (ou comsumpão), do latim consumptione. = ato ou efeito de consumir(-se), definhamento progressivo e lento do organismo humano produzido por doença. x

Resta saber se tais necessidades são de fato essenciais para o bem-estar e a sobrevivência ou se são desejos supérfluos, relacionados a carências tolas, se é que isso pode existir, nas quais, de qualquer sorte, a pessoa fixa seu falo de maneira incontrolável. xi

Veja-se por exemplo o enorme esforço que atualmente o Brasil vem fazendo para criar as condições para implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos e da lei que a sustenta, a 12.305, de 02/08/2010. Para mais detalhes ver: Sancionada lei da Política Nacional Resíduos Sólidos (PNRS) xii

Nesses quase três mil anos em que o ser humano aprendeu a pensar, a sistematizar seu pensamento, e avançou mais do que nunca se comparamos este período com todo seu tempo anterior de existência, cinco principais marcos podem ser apontados como momentos ou fatos de revoluções no domínio das idéias humanas. (1) A primeira grande revolução foi nos séculos VI e V a.C., na Grécia, o surgimento da razão como um recurso para se buscar e entender a verdade. Os pensamentos e descobertas dos filósofos gregos do período nos chegaram por meio de obras pré-socráticas que sobreviveram e pelos diálogos de Platão, que, baseado em Sócrates, propôs que nossas idéias são corretas ou errôneas e, a partir disso, formulou sua Teoria das Idéias. (2) A segunda revolução deu-se apenas no séc. XVIII, pelos filósofos empiristas, na Grã-Bretanha. John Locke, George Berkeley e David Hume, a partir do método científico de seu predecessor do séc. XVII, Francis Bacon, criaram um sistema filosófico que entende que só podemos conhecer aquilo que está no terreno de nossa experiência, a qual resulta da ativação de nossos sentidos. A razão, isto é, a prática do exercício racional, por si só, não poderia descobrir nada de novo. Poderia, isto sim, rearrumar o conhecimento já fornecido/obtido pelos sentidos. (3) A terceira grande revolução não se distanciou tanto da segunda como foi o lapso de tempo desta à primeira. De fato, foram praticamente simultâneas. A partir duma pequena Konigsberg, Alemanha, Immanuel Kant a provocou. Disse ele que, contrariamente à teoria platônica, não podemos penetrar na natureza intrínseca das coisas porque tudo que a mente humana apreende é moldado pelos sentidos e pelo intelecto. Assim, só conhecemos a versão antrópica das coisas, mesmo de Deus, da Virtude e da Beleza. Para Kant, quanto mais conhecemos a capacidade de nossa própria mente, mais nos aproximamos do conhecimento verdadeiro. A compreensão dos limites do nosso mundo só nos será dada pelo exame dos limites de nosso pensamento. (4) A quarta revolução veio no séc. XIX, pelo pensamento do alemão Georg Hegel, que trouxe para a filosofia as “forças históricas’. Hegel passa a estudar filosoficamente o que o homem pode vir a ser e não apenas aquilo que ele simplesmente é. Para ele, essas “forças históricas” superam a própria razão na criação de novas idéias e de novos modos de vida. No mesmo século, a revolução na forma de filosofar provocada pela dialética de Hegel, que ataca a razão a partir de cima ou de fora, foi completada por outro alemão, Friedrich Nietzche, que martela a razão por meio de um apelo ao motivo, afirmando que os valores são transformados em verdade pela “Vontade de Poder (ou de Potência)” dos indivíduos e não por qualquer recurso a fatos e observação. (5) A quinta revolução, no séc. XX, vem pela postulação de que os limites do pensamento são delineados pelos limites da linguagem em que ele é desenvolvido e conduzido. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, que inicia esse processo, e seus seguidores, dirão que os padrões para avaliação da verdade não estão nem no céu nem na intimidade da mente, mas, isto sim, na gramática da prática pública. Segundo os “filósofos analíticos”, quando os outros filósofos pensavam estar examinando a natureza das coisas, estavam, na verdade, apenas retirando palavras de seu contexto. (Nicholas Fearn. Filosofia: novas respostas para antigas questões. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2005. p. 9-10). Ainda relativamente a divisões periódicas, devemos aduzir a apresentada por Márcia Gonçalves para a Filosofia da Natureza, e que são quatro. (1) Segundo a autora, o primeiro paradigmático momento está na origem do pensamento grego (como vimos acima), no qual a concepção de physis ocorre em relação intrínseca com a idéia de uma ordem imanente ou uma forma de entendimento que perpassa os movimentos e processos da natureza. (2) O segundo momento, ainda na antiguidade grega, refere-se à teoria atomista para a formação da matéria, que contrasta muito com a idéia de natureza animada, concebida no mesmo período. (3) O terceiro instante, já na Idade Média, apresenta o aparecimento de uma compreensão ambígua da natureza, que a um só ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 249


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tempo é criada por Deus mas é inabitada por ele. Tal entendimento será afrontado pela analogia da natureza a um livro sagrado capaz de revelar o divino. (4) O quarto momento virá no século XVII, sobretudo, com a cristalização de um pensar mecanicista. (Márcia Cristina Ferreira Gonçalves. Filosofia da Natureza. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006. p. 9. [Coleção Filosofia Passo-a-Passo, 67.] xiii

Segundo dados da Unesco, na população mundial hoje: 50% estão mal nutridos; 70% não sabem ler; 80% vivem em condições de pobreza, e apenas 1% tem instrução universitária. xiv

A esse respeito, o das dificuldades que a sociedade humana enfrenta globalmente no que concerne ao próprio convívio social entre os povos e entre os cidadãos, poder-se-ia arrolar aqui todo o permanente noticiário das guerras pelo planeta. Mas nos limitaremos, apenas como toque final do pincel na tela sinistra, a recomendar uma ‘visita’ a um endereço na internet, para um passeio quase que macabro, não fosse a seriedade da página e de seus autores/mantenedores: http://www.pebodycount.com.br/home/index.php, onde se poderá acompanhar a contagem dos homicídios diários em Recife – e não que essa bela capital seja assim diferenciada e estigmatizada em relação a nossas demais grandes cidades... xv

DELUMEAU, Jean: Medos de ontem e de hoje. In: NOVAES, Adauto (organizador). Ensaios sobre o medo. São Paulo, Editora Senac, 2007. p. 51. xvi

Jean Delumeau nasceu em 18 de junho de 1923, em Nantes, França. É doutor em letras e um historiador especializado no cristianismo, particularmente no período da Renascença. Firmou-se como historiador com seu livro La civilisation de la Renaissance (1968), premiado pela Academia Francesa. O reconhecimento de seu trabalho culminou com sua eleição para o Collège de France, em 1975, e a seguir para o Institut de France, a Academia de Ciências do país. Dedica-se, ainda, a atividades relativas à cultura da paz e da não-violência. Tem dezenas de livros publicados. Sua extensa obra se concentra no exame dos sonhos de felicidade, dos desejos e angústias no Ocidente cristão. No Brasil foram lançados: História do medo no ocidente (1989), Mil anos de flicidade (1997) e O que sobrou do Paraíso ? (2003) pela Companhia das Letras, e O pecado e o medo: a culpabilização no Ocidente (séculos 13-18), pela Edusc.

xvii

WMO. UNEP. Intergovernamental Panel on Climate Change. IPCC: Climate Change and Water. junho 2008. Disponível em http://www.ipcc.ch/pdf/technical-papers/climate-change-water-en.pdf. Consultado em junho de 2008. xviii

A respeito, é mesmo inacreditável que possa deliberadamente haver uma política do caos programado ou do desastre estratégico a fim de se vender a força de um governo, seja ele qual for, que possa reorganizar tal caos em termos de defesa e segurança de sociedades. É pena que a humanidade, com suas Sociedades de Risco, chegue a deenvolver uma tal ‘expertise’. Veja-se o artigo de Paulo Arantes, O caos como regra, na revista Filosofia Ciência & Vida, Ano II, número 19, 2008, páginas 7 a 11. xix

MATOS, Olgária C. F. Theodor Adorno: o filósofo do presente.. Psicol. Soc., 13 (2):142-146, jul.-dez. 2001.

xx

ADORNO, T., Horkeheimer, M. A dialética do esclarecimento. 2a. ed. Jorge Zahar Editora, 2004. 72 p.

xxi

ADORNO, Theodor. Dialéctica negativa – La jerga de la autenticidad. Trad. Alfredo Brotons Muñoz. Madrid: Akal, 2005. [Negative dialektik. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1982.] xxii

A nova Ágora, como bem expõe Zygmunt Bauman na já citada entrevista Fronteiras do Pensamento 2011. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A. Acessado em 03/outubro/2011. xxiii

JASMIM, Marcelo. O despotismo democrático, sem medo e sem Oriente. In: In: Adauto Novaes (organizador). Ensaios sobre o medo. São Paulo, Editora Senac, 2007. p. 129-130.

____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 250


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Zygmunt Bauman nasceu na Polônia, em 19 de novembro de 1925. Como sociólogo, começou sua carreira na Universidade de Varsóvia, mas em 1968 foi afastado dessa instituição. Emigrou da Polônia, retomando a carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália. Em 1971, chegou à Grã-Bretanha, tornando-se, por vinte anos, professor titular da Universidade de Leeds. Bauman tem uma vasta obra e fez-se notado por suas análises das relações entre modernidade e o holocausto e do consumismo pós-moderno. Recebeu os prêmios Amalfi (1989, por Modernidade e Holocausto) e Adorno (1998, pelo conjunto de seus trabalhos). É professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. No Brasil, tem vários livros lançados pela Jorge Zahar Editor: Modernidade e Holocausto; Modernidade e Ambivalência; O Mal-Estar da Pós-Modernidade; Globalização: as conseqüências humanas; Modernidade Líquida; Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos; Vidas Desperdiçadas; Vida Líquida; Medo líquido; Tempos líquidos; etc. xxv

STAM, Robert: Quem tem medo de Donald Rumsfeld. In: Novaes, ADAUTO (organizador). Ensaios sobre o medo. São Paulo, Editora Senac, 2007. p. 78. xxvi

Disponível para assinantes em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0102200806.htm.

xxvii

Talvez pudéssemos arriscar aí algum paralelismo com a ideia de Pulsão de Vida de Freud.

xxviii

Moisés Efraym. Filosofia do Consumo. http://www.mundodomarketing.com.br/2006/ver_coluna.asp?cod=2521 xxix

Convivendo em simultaneidade com outras ordens, como o fundamentalismo, que é um oponente do consumismo, porque ele assume que já tem a resposta fundamental da verdade e do propósito. Nesse sentido é tão contemporâneo quanto o consumismo e não um retorno à radicalização religiosa.

xxx

A vaidade humana foi magistralmente dissecada e exposta na obra do grande filósofo brasileiro e paulista Matias Aires: Reflexões sobre a vaidade dos homens, surgida em 1752 com o título Reflexões sôbre a vaidade dos homens, ou, Discursos moraes sobre os effeitos da vaidade offerecidos a elrey nosso senhor D. José I. (Lisboa : Na Officina de Francisco Luiz Ameno ..., 1752, 403 p., 24 cm.). xxxi

BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: Edições 70, 1995. p. 38.

xxxii

NOVAES, Adauto (organizador). Ensaios sobre o medo. São Paulo, Editora Senac, 2007.

xxxiii

A respeito, ver a bonita participação do escritor, biólogo e jornalista moçambicano Mia Couto nas Conferências do Estoril 2011 em http://youtu.be/jACccaTogxE. Acessado em 03/outubro/2011. xxxiv

Blaise Pascal (Clermont-Ferrand, Puy-de-Dôme, França, 19 de junho de 1623 - Paris, 19 de agosto de 1662) foi filósofo, físico, matemático brilhante, teólogo e escritor. Como filósofo e místico, criou uma das teses mais ditas pela humanidade até hoje, O coração tem razões que a própria razão desconhece, síntese de sua doutrina filosófica: o raciocínio lógico e a emoção, ou seja, a mente apenas não é capaz de penetrar a essência do conhecimento: É o coração que sente Deus e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração. Como matemático, especializou-se em cálculos infinitesimais e criou, em 1642, a La pascaline, máquina de somar mecânica, primeira calculadora de que se tem notícia (encontra-se no Conservatório de Artes e Medidas de Paris). Como teólogo e escritor, foi importante mestre do racionalismo e irracionalismo modernos e sua obra influenciou os fundadores da Igreja Metodista. Viajou com o pai para Rouen, onde fez as primeiras pesquisas na Física. Suas experiências sobre sons resultaram em um pequeno tratado (1634, com onze anos); no ano seguinte chegou à dedução de 32 proposições de geometria de Euclides. Em 1640, publicou Essay pour les coniques, com o célebre teorema de Pascal. Novamente em Paris (1647), estudando as experiências de Torricelli, enunciou os primeiros trabalhos sobre o vácuo e demonstrou as variações da pressão atmosférica. Aperfeiçoou o barômetro de Torricelli e publicou o Traité du triangle arithmétique (1654). Com Pierre de Fermat fixou as bases da teoria das probabilidades e da análise combinatória (1654). Por conta de uma "visão divina", deixou as ciências e se voltou exclusivamente à teologia, tendo se recolhido na abadia de Port-Royal des Champs, centro do jansenismo. Retornou às ciências em 1658, após "novo milagre". Neste período publicou suas principais obras filosófico____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 251


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religiosas: Les Provinciales (1656-1657), para defender o jansenista Antoine Arnauld, e Pensées (1670), sobre a espiritualidade, em que defende o cristianismo e começa seu afastamento dos jansenistas. Um dos seus estudos sobre hidrostática, Traité de l'équilibre des liqueurs, lançado um ano após sua morte (1663), esclareceu os princípios barométricos, da prensa hidráulica e da transmissibilidade de pressões e o princípio de Pascal, segundo o qual, em um líquido em repouso ou equilíbrio as variações de pressão transmitem-se igualmente e sem perdas para todos os pontos da massa líquida. É o princípio de funcionamento do macaco hidráulico. xxxv

KEHL, Maria Rita. Elogio do medo. In: . In: Adauto Novaes (organizador). Ensaios sobre o medo. São Paulo, Editora Senac, 2007. p. 103.

xxxvi

Idem, pp. 109-110.

xxxvii

TÁVOLA, Artur da. Amor a sim mesmo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Crônica As Árvores do Piabanha. p. 81 e 82.

xxxviii

Schopenhauer antecipa a crítica à modernidade. ”Somos movidos pela vontade e não pela racionalidade”, criticando Hegel. Marx também antecipa tal crítica à modernidade que virá, quando, por exemplo, recusa qualquer transcendência e qualquer moralidade implícita na vida. Estão ambos, portanto, descartando qualquer idéia de finalidade da experiência humana. Freud é outro, quando mostra que nossa racionalidade e liberdade são, em última instância, condicionadas pelo imenso e desconhecido inconsciente. E Nietzsche, sem dúvidas, quando, por exemplo, indaga “como tornar-me aquilo que sou?” ou quando faz o discurso dos últimos homens... Já no limiar da modernidade registram-se suspeitas agudas quanto às chances de a modernidade cumprir suas esperanças e promessas. Destaquem-se agora: CAPRA, Fritjof e outros. Alfabetização Ecológica. São Paulo, Cultrix, 2006. 312 p. FURTADO, João Salvador. Sustentabilidade Empresarial – Guia de Práticas Econômicas, Ambientais e Sociais. Salvador: CRA-Centro de Recursos Ambientais, 2005. 188 p. JACKSON, Tim. Prosperity without Growth - Economics for a Finite Planet (Prosperidade sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito). Ver a respeito: http://www.sdcommission.org.uk/data/files/publications/prosperity_without_growth_report.pdf. Acessado em 05/10/2011. JONAS, Hans. The Imperative of Responsibility. In: Search of Ethics for the Technological Age (1979). Chicago: University of Chicago Press, 1985, ©1984. ISBN: 0226405974 9780226405971. JONAS, Hans. Técnica e responsabilidade: reflexões sobre as novas tarefas da Ética. In: José A. Bragança de Miranda. Ética, medicina e técnica. Lisboa: Editora Vega - passagens, 1994. p. 27-62. MORAN, Emilio F. Nós e a natureza. São Paulo, Editora Senac. 2008. 302 p. PELIZZOLI, Marcelo L. A emergência do Paradigma Ecológico. Reflexões Ético-filosóficas para o Século XXI. 2a. ed. Editora Vozes, 1992, 160 p. PENA-VEGA, Alfredo. O despertar ecológico: Edgar Morin e a ecologia complexa. Rio de Janeiro, Garamond, 2003. 108 p. REES, Martin. Hora final - Alerta de um cientista: o desastre ambiental ameaça o futuro da humanidade. São Paulo, Companhia das Letras, 2005. 240 p. SERRES, Michel. Le Contrat naturel (O contrato natural). Éditions Bourin, França, 1990. Em português: • tradução de Serafim Ferriera, Lisboa: Instituto Piaget (Coleção Epistemologia e Sociedade), 1990. • O Contrato Natural. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1991. 142 p. UNGER, Nancy Mangabeira (org.). Fundamentos filosóficos do pensamento ecológico. São Paulo, Edições Loyola, 1992. 107 p. Interessante palestra envolvida com a questão foi proferida por Leandro Chevitarese: Um mundo sem finalidade e que não segue uma ordem moral – no programa da CPFL, em 3 de junho de 2011, em Campinas, e que pode ser assistida no endereço http://www.cpflcultura.com.br/site/2011/06/03/um-mundo-sem-finalidade-e-que-nao-segue-uma-ordem-moral%E2%80%93-leandro-chevitarese-2/. Acessado em 12/10/2011. xxxix

Conforme Eduardo Athayde (em Bolsas de "novos" valores ambientais. Opinião. Gazeta Mercantil 05/05/2007): “Enquanto o governador da Califórnia, Arnold Schwazenegger, declara em Washington a sua nova vocação ambiental, o primeiro ministro inglês, Tony Blair, deixa o governo para dedicar-se à mesma causa. O ex-presidente soviético Michail Gorbachev criou e dirige a Green-Cross International. Na última visita a São ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 252


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Paulo, o ex-presidente americano Bill Clinton revelou o que fala para o seu espelho: ‘Bill, agora você é uma ONG. Está dedicado ao movimento ambiental global’ ". xl

Dentre outras, o Instituto Akatu (http://www.akatu.net/), que desde 2001 estimula o consumidor a perceber o impacto de suas ações e valorizar empresas que minimizem possíveis danos ao meio-ambiente. Pela lógica da ação, pessoas melhores informadas e mais conscientes passariam naturalmente a comprar produtos de empreendimentos sócio e ambientalmente responsáveis. Estes, por sua vez, se destacariam no mercado, forçando outras companhias a assumir a mesma postura. Outras entidades que também fazem trabalho útil e interessante http://www.vitaecivilis.org.br/ e no tema podem ser conhecidas em http://www.climaeconsumo.org.br/default.html. Abolutamente digno de menção é ainda todo o trabalho do WWI – Worldwatch Institute, bem como suas publicações, com destaque, no caso em tela, para o Estado do Mundo, 2004, que tem como enfoque especial A Sociedade de Consumo (verificar em www.wwiuma.org.br). xli

Ver, por exemplo, New Road Map Foundation http://www.criancaeconsumo.org.br/imprensa_menos.html

Seattle,

WA,

EUA,

em

xlii

Murray Gell-Mann nasceu em Nova York, 15 de Setembro de 1929. Obteve o bacharelado em Ciências na Universidade de Yale, em 1948. Em 1951, doutorou-se em Filosofia, no Instituto de Tecnologia de Massachussets. Em 1969, recebeu o Prêmio Nobel da Física, por suas pesquisas em Física Quântica. Foi ele quem deu o nome às partículas menores, os Quarks, dos quais se constituem os prótons e nêutrons, até então tidos como indivisíveis. É professor emérito de física teórica do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Auxiliou a fundar o Instituto Santa Fé, voltado a trabalhos teóricos de assuntos vistos como sistemas complexos em evolução: mecânica quântica, sistema imunológico dos mamíferos, evolução das línguas e economia global. xliii

Nicholas Georgescu-Roegen nasceu na Romênia, a 4 de fevereiro de 1906 e faleceu em Nashville, Tennessee, a 30 de outubro de 1994). Foi matemático, estatístico e economista. Diplomou-se em 1926, em matemática, na Universidade de Bucarest. Depois, tendo vencido um concurso, foi a Paris, onde estudou estatística e economia. Em 1930 obtém seu doutorado e vai, então, a Londres, para estudos de dois anos no University College, com Karl Pearson. In 1932, volta para sua pátria e se torna professor de estatística da Universidade de Bucarest até 1946. De 1950 a 1976 ele foi professor da Universidade Vanderbilt. Nicholas Georgescu, que foi um discípulo do renomado economista Joseph Schumpeter, fez-se muito conhecido com sua obra de 1971 A Lei da Entropia e o Processo Econômico (The Entropy Law and the Economic Process, Harvard University Press: Cambridge, Massachusetts), que é considerada o livro que abre o campo da termoeconomia. Nele o autor considera que a segunda lei da termodinâmica rege também os processos econômicos (a energia livre útil tende a se dispersar ou ficar perdida na forma de “energia ligada”). Nicholas Georgescu-Roegen (bem como os estudos divulgados pelo Clube de Roma) julga haver uma impossibilidade de compatibilizar conservação ambiental e crescimento econômico. O pesquisador romeno argumentou que em um sistema fechado como a Terra, a matéria se dissipa tanto quanto a energia, e afirmou que a exaustão de recursos materiais poderia ser mais importante do que a energia para limitar o crescimento. Assim, de acordo com a lei da entropia, as atividades econômicas gradualmente transformam a energia de baixa entropia (energia livre, útil) em forma de calor tão difusa (alta entropia) que se torna inutilizável. A conclusão é que ao utilizar diversos recursos naturais na atividade econômica, muitos deles não se recuperam, o que nos deve levar a uma atitude crítica de cuidado e estudos. Dessa forma o autor colaborou enormemente para a Bioeconomia (termo cunhado num seu artigo de 1977) e para a Economia Ecológica. xliv

Babatunde Osotimehin é diretor-executivo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Para detalhes consultar http://www.7billionactions.org/. xlv

Serge Latouche nasceu em Vannes, França, em 12 de janeiro de 1940. É um economista e filósofo discípulo de François Partant, tendo sido membro fundador e ex-presidente da La ligne d'horizon, associação cujo objetivo é prosseguir as reflexões de Partant. Latouche desenvolveu trabalhos de Antropologia econômica e uma crítica à ortodoxia econômica. Denunciou o economicismo e o utilitarismo nas Ciências Sociais e combateu, por uma argumentação teórica consistente bem como por uma abordagem empírica, formada de numerosos exemplos, o conceito de desenvolvimento e as noções de eficácia e racionalidade econômica. Tem-se destacado como ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 253


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oponente do consumismo e da racionalidade instrumental, contrário à ocidentalização do planeta. e vem atuando em diversas frentes na elaboração do conceito de pós-desenvolvimento. É um dos contribuintes históricos de La Revue du MAUSS (Mouvement anti-utilitariste en sciences sociales), é professor emérito da Faculdade de Direito, Economia e Gestão Jean Monnet da Universidade de Paris - XI (Paris-Sud), em Sceaux, e no Institut d'études du dévoloppement économique et social (IEDS) de Paris, e dirige o Groupe de Recherche en Anthropologie, Épistémologie et Économie de la Pauvreté (GRAEEP). Sua obra é composta por inúmeras publicações, com os seguintes lançamentos em português: A ocidentalização do mundo: ensaio sobre a significação, o alcance e os limites da uniformização planetária. ("L'occidentalisation du monde"). Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. Os perigos do mercado planetário ("Les Dangers du Marché Planétaire"). Lisboa: Instituto Piaget, D.L. 1999. Análise econômica e materialismo histórico ("Le Projet marxiste : Analyse économique et matérialisme historique"). Rio de Janeiro: Zahar, 1977. xlvi

Conforme já apontados na Nota III, ver Robert Reich, Supercapitalismo: como o Capitalismo tem transformado os Negócios, a Democracia e o Cotidiano. Rio de Janeiro, Editora Campus/Elsevier, 2008. 304 p. xlvii

Vladimir Safatle é professor de filosofia da USP e organizador de “Um limite tenso: Lacan entre a filosofia e a psicanálise” (Unesp, 2003). O artigo citado: Um supereu para a sociedade de consumo: sobre a instrumentalização de fantasmas como modo de socialização pode ser lido em http://www.oocities.org/vladimirsafatle/vladi073.htm, acessado em 25/setembro/2011. xlviii

xlix

LACAN, Jacques. AE, p. 60-1.

Vladimir Safatle op. cit.

l

ROUDINESCO, E., PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 758.

li

FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. Obras Completas, v. XIII. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996. p. 144.

lii

Op. cit., p. 157.

liii

Op. cit., p. 157.

liv

Op. cit., p. 160.

lv

Deve-se fazer uma ressalva, por certo, à situação de grandes cidades que não dispõem de recursos naturais ou equipamentos urbanos (praças, parques, jardins, etc.) suficientes e apropriados para permitir a interação/integração das pessoas. Tal realidade, evidentemente, deve cooperar de alguma maneira para a hegemonia da atração que os Shoppings acabam por exercer. lvi

QUINODOZ, Jean-Michel. Ler Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 141.

lvii

Luc Ferry, filósofo, nasceu em 1o. de janeiro de 1951, em Colombes, nos Hauts-de-Seine, Paris. Foi Ministro da Educação, em França, no governo de Jean-Pierre Raffarin, entre 2002 e 2004. Ferry tem sido um dos principais defensores do Humanismo Secular, visão de mundo que se contrapõe à religião, por conta de seu compromisso com o uso da razão crítica, a ética e a justiça, em vez da fé, na busca de respostas para as questões humanas mais importantes. Define a filosofia como uma soteriologia, isto é, uma doutrina da salvação. Ela é, assim, uma concorrente das grandes religiões, e não é, portanto, mais do que uma reflexão crítica. Ferry tem uma vasta produção escrita e em seu livro de 1992, Le Nouvel Ordre écologique (subtítulo A árvore, o animal e o homem), prêmio Médicis de ensaio e prêmio Jean-Jacques-Rousseau (lançado no Brasil como A nova ordem ecológica. São Paulo: Ensaio, 1994), ele critica certas tendências do ecologismo, em particular a Ecologia Profunda representada no pensamento dos filósofos Hans Jonas e Michel Serres. É professor de Filosofia nas universidades francesas de Lyon II, de Caen, e de Paris VII, e também um dos fundadores do Collège de Philosophie. ____________________________________________________________________________________________________ AZEVEDO, Fausto Antônio de. Shopping Center – Centro de Consumo Totêmico: pressão de risco à sustentabilidade. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 215-255, out. 2011. 254


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Ver, em particular, as obras: FERRY, Luc. Aprender a viver - Filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2007. 302 p. e FERRY, Luc. A Revolução do Amor. Coimbra: Editora Temas e Debates (Almedina). 2011. 480 p. Ver também palestra do autor, mediada pelo psicanalista Jorge Forbes, no Café Filosófico CPFL Especial Fronteiras do Pensamento - As transformações do mundo contemporâneo, dia 29/09/2011 na CPFL Cultura, em http://www.cpflcultura.com.br/site/2011/09/30/cafe-filosofico-cpfl-especialfronteiras-do-pensamento-2011-%E2%80%93-as-transformacoes-do-mundo-contemporaneo-%E2%80%93-lucferry-e-mediacao-de-jorge-forbes-traduzido/. Acessado em 07/10/2011. lix

BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. 184 p.

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e

Opções

RevInter

da

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Liderança

na

Formação e Gestão de Equipes Mário José de Souza Neto Graduado e mestre em Engenharia Química pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, pós-graduado em Administração Industrial pela USP e possui MBA Executivo Internacional pela FIA-USP. Tem experiência como executivo das áreas industrial e Supply Chain atuando em multinacionais como BASF, Norske Skog, Rhodia e Saint Gobain. Email: m.souza@intertox.com.br

Resumo O desafio que os líderes enfrentam atualmente mais do que nunca é como formar times de alto desempenho, que trabalhem com altos níveis de sinergia e cooperação e ao mesmo tempo reter os talentos na organização. Nesta breve reflexão sobre o tema foi o que se procurou responder, por meio de um rápido delineamento

das

mais

atuais

formas

de

abordagem

da

matéria.

Palavras-chave: Liderança. Organização. Gestão de Equipes. Abstract Today´s leaders face important challenges such as build high performance teams that work with high cooperation and synergy levels and retain the organization talents. The main question that this work aims to answer is to know the employee expectations about the leader, what really motivates them in the daily work and how they cooperate in teams to achieve the target results. Based on this knowledge it is possible to guide leaders to perform better in the team management role. Keywords: Leadership. Organization. Management Teams. SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 256


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No cenário atual de intensa competitividade entre as organizações empresariais no mundo globalizado, a gestão dos talentos humanos (atração, retenção e desenvolvimento) ganha espaço cada vez mais importante na estratégia das empresas. Novas arquiteturas organizacionais de negócio, maior complexidade das organizações, maior nível de informação e qualificação das pessoas e ciclos de mudanças cada vez mais curtos são fatores que exigem da liderança organizacional uma grande habilidade na gestão das equipes e das carreiras em busca dos resultados necessários. Outro desafio observado na área de gestão de carreiras é o início da contínua migração das carreiras tradicionais organizacionais (centradas na organização) para carreiras não tradicionais (carreiras proteanas e sem fronteiras). Nestas, a responsabilidade da gestão de carreira é única e exclusiva do indivíduo e não mais da organização. Em tal contexto, os líderes 1 encontram grande desafio no processo de formação e gestão das equipes: orientar as pessoas de acordo com suas expectativas, desenvolver equipes cooperativas com alto desempenho e atingir os resultados necessários. A gestão deste processo requer habilidade de conciliar interesses da organização e do indivíduo que lidera. Envolve questões relacionadas com objetivos muitas vezes conflitantes, valores e cultura organizacional. Considerando os desafios atuais das organizações, tentemos compreender os desafios da liderança para formar equipes de alto desempenho, satisfazer as expectativas dos liderados e promover um ambiente de alta cooperação. Com mais consciência destes desafios, os líderes terão êxito nas suas principais 1

Para fins deste trabalho não faremos aqui distinção entre líder e coordenador. Estamos cientes de que muitos autores e tendências interpretam o coordenador (democrático, integrador, horizontal) como uma forma evoluída da liderança clássica convencional.

SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 257


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funções na organização: promover as mudanças necessárias, atingir os resultados desejados e reter os talentos dentro da organização, estabelecendo uma cultura de melhoria contínua. Este entendimento pode ser obtido pesquisando-se respostas para as perguntas: a) Que tipo de líder as pessoas querem seguir? b) Que tipo de comportamento as pessoas desejam ver no líder? c) Que tipo de orientação e apoio as pessoas esperam do seu líder? d) O reconhecimento dos pares e o relacionamento entre os colegas de equipe são importantes para que o indivíduo se sinta bem e valorizado? É mais importante do que o reconhecimento e relacionamento com o líder? e) Que tipo de relação as pessoas constroem com seus pares? f) O que realmente move as pessoas a trabalharem de forma eficaz para atingir resultados? g) A gestão da carreira do indivíduo está centrada na organização ou no indivíduo?

Para compreender melhor os desafios das lideranças organizacionais em relação à formação e gestão de equipes, é necessário revisitar a bibliografia que discorre sobre a teoria de liderança e gestão de carreiras nas organizações. LIDERANÇA

Considerando-se a extensa bibliografia sobre liderança 2, seria muito pretensioso querer apresentar aqui uma completa revisão bibliográfica sobre o

2

Que, por exemplo, remonta a mais de 2500 anos com Sun Tzu e a obra A arte da guerra, ou se quisermos, mais recentemente do que dois milênios, porém na mesma dimensão seminal de impacto com Sigmund Freud e seu Psicologia das massas e análise do eu.

SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 258


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tema. Portanto, vamos mostrar uma curta introdução sobre o tema e direcioná-la para os modelos de liderança mais recentes. Em trabalho anterior (SOUZA NETO & AZEVEDO, 2005), apresentamos alguns conceitos elementares sobre Liderança, que podem ser assim resumidos: •

a liderança pode ser caracterizada como um fenômeno social, que acontece, portanto, em grupos sociais (mas, devemos lembrar ainda um tipo de liderança comportamental, facilmente observável entre animais);

a liderança é alguma forma de influência interpessoal, que se estabelece numa situação relacional, e que pode ser direcionada, por meio de um pacto entre as partes, à conquista de propósitos específicos e comuns;

pode-se entender a liderança como uma faculdade, uma habilidade. Tal faculdade obrigatoriamente contém grande capacidade de reflexão, de aprofundamento do pensamento, de sensibilidade e intuição para perceber a cena externa, e, sobretudo, de entusiasmo, o qual precisa ser repartido com os demais;

a liderança é construída no próprio processo e dele se nutre, inclusive de suas autocorreções (retificações e ratificações);

parece fora de cogitação que a liderança tenha algum componente genético e discute-se até que ponto a capacidade de liderar é resultado da personalidade. Contudo, indubitavelmente, a liderança demanda por motivação, habilidades de comunicação e alguns conhecimentos elementares a respeito.

Modelos de Liderança Há

uma

tendência

de

se

correlacionar o

comportamento

do

líder

(independentemente de suas características pessoais) com os resultados reais da liderança. Por tal caminho logo ressaltam dois modelos ou estilos básicos de SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 259


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liderança: o autoritário e o democrático. Entre estes, uma gama de variações podem ser percebidas (SOUZA NETO & AZEVEDO, 2005). A teoria da Grade Gerencial proposta por Blake e Mouton na década de 60 (BLAKE et al, 1964) demonstra claramente esta variação, em que os extremos coincidem com os estilos autoritário (alta preocupação com a produção e baixa preocupação com as pessoas) e democrático (alta preocupação com as pessoas e baixa preocupação com a produção). A junção equilibrada dos dois pólos produziria um estilo gerencial em equipe, onde existe alta preocupação com as pessoas e também com a produção. Neste sentido, as realizações de trabalho são de pessoas comprometidas e a interdependência através de um “interesse comum” no objetivo da organização leva a relações de confiança e respeito. Para alguns, não necessariamente deve haver um perfil ideal de líder, ou um estilo ideal de liderança, mas ocorrem (e interagem) dois fatores influentes na eficácia do líder: as circunstâncias ambientais e as características (a reverberação) do liderado. Por esta linha, o que verdadeiramente importa é o estilo mais apropriado à situação existente. A isto se chamou de Teoria Situacional (HERSEY & BLANCHARD, 1986). O líder, portanto, precisa fazer uma leitura assertiva do comportamento de tarefa (se alto ou baixo) e do comportamento de relacionamento dos liderados (se alto ou baixo). Com base nesta percepção, ele elege o estilo mais apropriado para a situação: delegar, compartilhar, persuadir ou determinar. Em revisão recente sobre o tema liderança, AVOLIO et al. (2009) apresentam os avanços obtidos em cada modelo de liderança, indicando também as futuras pesquisas em cada modelo específico. No âmbito do trabalho supra-citado, destacam-se como mais atuais e com maior número de pesquisas recentes os modelos de liderança autêntica, liderança transformacional carismática e liderança compartilhada.

SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 260


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A liderança autêntica é definida como padrões de comportamentos éticos e

transparentes que encorajam abertura no compartilhamento de informações necessárias para tomar decisões, levando em conta a opinião dos liderados. É um processo de liderança que deriva de capacidades psicológicas positivas e um ambiente organizacional altamente desenvolvido, resultando em comportamentos autorreguladores e estimulando o autodesenvolvimento (LUTHANS, AVOLIO, 2003). A liderança transformacional ou carismática é definida como sendo uma liderança com padrões de comportamentos que transformam e inspiram os seguidores a desempenhar além de suas expectativas, enquanto ultrapassam o interesse próprio para bem da organização. A teoria sugere que tais líderes levantam as aspirações dos seus seguidores através da identificação dos seus valores com a missão da organização ou projeto em comum, de forma que eles se sentem melhores sobre seu trabalho e desempenham acima das expectativas (AVOLIO, 1999; BASS, 1985; CONGER, KANUNGO, 1998). A liderança compartilhada é definida como sendo um processo de influência dinâmico e interativo entre indivíduos, cujo objetivo é liderarem um ao outro para atingir as metas individuais e da organização. O processo de influência frequentemente envolve pares ou hierarquias acima ou abaixo (PEARCE, CONGER, 2003). O´CONNOR e QUINN (2004) ressaltam que a liderança compartilhada pode ser percebida como uma propriedade resultante de todo o sistema

coletivo,

em

oposição

aos

esforços

puramente

individuais.

Consequentemente, a efetividade da liderança é muito mais resultante do produto das conexões e relações entre as partes do que o resultado de qualquer uma das partes, inclusive a liderança por si mesma. CARSON e colaboradores (2007)

sugerem que o ambiente de equipe que favorece a liderança

compartilhada consiste de três dimensões altamente relacionadas e que se reforçam entre si: propósito compartilhado, suporte social e voz ativa dos membros da equipe. Propósito compartilhado existe quando todos da equipe têm um entendimento similar dos objetivos primários a serem atingidos e tomam SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 261


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iniciativas para assegurar o foco em metas coletivas. Suporte social é descrito como o esforço dos membros de equipe em prover suporte emocional e psicológico um ao outro. Isto ajuda a criar um ambiente onde os membros da equipe sentem que suas opiniões são valorizadas e aceitas. Voz ativa é o grau em que cada integrante tem a oportunidade de se colocar a respeito de como o time está conduzindo seu propósito. Em Momento de liderar, Michael Useem (USEEM, 1999) coloca os requisitos básicos para um bom líder: •

ter visão clara dos objetivos e transmiti-las - criar um projeto comum;

guiar-se por seus valores e pelos valores da organização e manter a coerência na adversidade;

estimular e criar as condições objetivas para o compartilhamento de informações, conhecimento e experiências - ajudar a equipe a aprender com a própria experiência;

preparar as pessoas para as situações adversas, capacitando-as para tanto e criando o suporte da equipe para cada um de seus integrantes;

esperar e cobrar um alto desempenho da equipe;

manter as pessoas focadas no que é essencial;

estimular o uso dos pontos fortes das pessoas e ampliação dos mesmos;

conquistar aliados para apoiá-lo nas situações difíceis;

possuir coragem para tomar as decisões necessárias.

De certa forma, esta recomendação reúne os três modelos de liderança comentados anteriormente e, provavelmente, é uma boa bússola para aqueles que ousam se aventurar no caminho arriscado da liderança. Sob o ponto de vista dos liderados, qual é a aderência dos modelos de liderança abordados anteriormente com as expectativas em relação ao líder? Neste sentido, a liderança eficaz aparece quando existe o casamento perfeito entre os dois. SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 262


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Na prática, observa-se que o líder estratégico e sensível aos seus liderados

procura fazer um diagnóstico de suas expectativas e das características do ambiente para então aplicar os estilos de liderança

mais aderentes à sua

personalidade. Porém, se existe um descompasso entre a personalidade e estilo de gestão do líder e a expectativa dos liderados, o processo de liderança poderá ser conturbado e produzir muita energia sem resultados eficazes. Lembremo-nos sempre da tríade líder-processo de liderança-liderado, que é o verdadeiro fenômeno dinâmico que se dá. GESTÃO DE CARREIRAS

A bibliografia sobre gestão de carreiras na empresa contemporânea é tão vasta e extensa quanto a bibliografia de liderança. Sabe-se que a gestão de pessoas passa por grandes transformações no mundo, consequência de um novo contrato psicológico entre pessoas e organização. Neste sentido, boas referências que exploram o tema no Brasil são as de Joel Souza Dutra (DUTRA, 1996, 2007 e 2008). Segundo o autor, as pessoas percebem mais rapidamente que sua mobilidade, tanto no interior da organização quanto no mercado, está atrelada ao seu contínuo desenvolvimento. Elas passam a demandar das organizações a criação de condições objetivas e concretas para seu desenvolvimento contínuo, passam a assumir investimentos em seu desenvolvimento e mudam valores na relação com as organizações. No Brasil, a partir da década de 1990, as pessoas passaram a se preocupar muito mais com sua autonomia e liberdade. A partir disso, as organizações começaram a ser pressionadas a uma postura de maior abertura, a serem mais participativas na relação com as pessoas. SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 263


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Ao mesmo tempo, o aumento da longevidade e o fenômeno de encurtamento

das carreiras nas organizações provocaram uma dinâmica mais intensa nas carreiras dos indivíduos, obrigando fechamento de ciclos mais rápidos e um aumento do número de transição de carreiras para um mesmo indivíduo. Consequentemente, esta dinâmica força o indivíduo a assumir definitivamente a gestão de seu percurso. O novo contrato psicológico está assentado no desenvolvimento mútuo, ou seja, a relação se mantém na medida em que a pessoa contribui para o desenvolvimento da organização e vice-versa. Portanto, o desenvolvimento organizacional está atrelado ao desenvolvimento das pessoas e estas valorizam cada vez mais as condições oferecidas pela empresa para seu desenvolvimento. O novo modelo de carreira proteana proposto por HALL (2002) reflete claramente este contrato psicológico. Segundo tal modelo, o novo contrato de carreira possui as seguintes características: a. a carreira é gerenciada pela pessoa e não pela organização; b. a carreira é uma série de experiências ao longo da vida; c. o desenvolvimento é obtido através do aprendizado contínuo, autodirecionado, relacional e encontrado em desafios de trabalho; d. os ingredientes de sucesso vêm mudando de know-how para learninghow; de segurança de emprego para empregabilidade; das carreiras organizacionais para as carreiras proteanas; do ser humano do trabalho para ser humano integral; e. a organização deve prover tarefas desafiadoras, desenvolvimento de relações e informações de outros recursos de desenvolvimento; f. o objetivo da carreira é o sucesso psicológico (critério interno). Uma vez constatada a tendência contemporânea de migração para o modelo de carreira proteana, é de se esperar uma mudança radical na necessidade de gestão de carreira por parte do indivíduo do líder e da organização.

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O líder deve não somente se adaptar às demandas de liderança exigidas por

sua equipe, mas também estar preparado para gerir sua carreira e as carreiras de seus liderados no novo quadro. Consequentemente, o perfil de liderança para gerir carreiras proteanas nas organizações contemporâneas é bem diferente daquele dos líderes das organizações baseadas em gestão de carreiras tradicionais, em que a carreira ainda era gerida por elas, as empresas, e não pelo indivíduo.

REFERÊNCIAS AVOLIO, B.J. Full leadership development: building the vital forces in organizations. Thousand Oaks, CA: Sage. 1999. 234 p. AVOLIO, B.J; WALUMBWA, F.O.; TODD, J.W. Leadership: current theories, research and future directions. Annual Rev. Psychol. n. 60, p. 421-449, 2009. BASS, B.M. Leadership and performance beyond expectation. New York: Free Press, 1985. 256 p. BLAKE, R.R. et al. Exhibit from “Breakthrough in Organization Development”. Harvard Bussiness Review, nov-dec, 1964. CARSON, J.B.; TESLUK, P.E.; MARRONE, J.A. Shared leadership in teams: na investigation of antecedent conditions and performance. Acad. Managem. n. 50, p. 1217-34, 2007. CONGER, J.A., KANUNGO, R.N. Charismatic leadership in Organizations.Thousand Oaks, CA: Sage, 1998. 288 p. DUTRA, J.S. Administração de carreiras. São Paulo: Atlas, 1996.

SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 265


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DUTRA, J.S. O conceito de competência e sua contribuição para gestão de carreira. In: CHAMON, E.M.Q.O. (Org.) Gestão de organizações públicas e privadas: uma abordagem interdisciplinar. Rio de Janeiro: Brasport, 2007. DUTRA, J.S. Gestão de Carreiras na Empresa Contemporânea. São Paulo: Atlas, v. 1, 2010. 312 p. HALL, D.T. Career in and out of organizations. Thousand Oaks, California, EUA, 2002. HERSEY, P.; BLANCHARD, K.H. Psicologia para administradores: a teoria e as técnicas da liderança situacional. Trad. Edwino A. Royer. São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, 1986. LUTHANS, F; AVOLIO, B.J. Authentic leadership: a positive development approach. In Positive Organizational Scholarship: Foundations of a New Discipline. Ed. K.S. Cameron, JF. Dutton, RE Quinn. San Francisco, CA: Berrent-Koehler, p. 241-58, 2003. O´CONNOR, P.M.G.; QUINN, L. Organizational capacity for leadership. In the Center for Creative Leadership Handbook of Leadership Development. Ed. McCauley, E. Van Velsor. San Francisco, CA, 2004. PEARCE, C.L., CONGER, J.A. Shared leadership: reframing the Hows and Whys of Leadership. Thousand Oaks, CA: Sage, 2003. SOUZA NETO, M.J; AZEVEDO, F. A. O trinômio líder-liderança-liderado como realização positiva. Tecbahia Revista Baiana De Tecnologia, v. 20, n. 1, p. 619, 2005. SOUZA NETO, M.J.; AZEVEDO, F. A. A personalidade daquele que exercerá o papel de Líder. Tecbahia Revista Baiana De Tecnologia v. 21 n. 2-3, p. 5-27, 2006. USEEM, M. O momento de liderar. São Paulo: Negócio Editora, 1999. 320 p.

SOUZA NETO, Mário José. Desafios e opções da Liderança na Formação e Gestão das Equipes. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 2546-266, out. 2011. 266


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A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. Ulisses Caballi Filho Psicólogo pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas, Psicanalista em formação pelo CEP - Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo. E-mail: caballi.ulisses@yahoo.com.br

Resumo O principal objetivo desse artigo é propiciar a aproximação entre a teoria formulada por Melanie Klein sobre a formação do sujeito, sendo este um torcedor de futebol, ou seja, o produtor de uma paixão que avassala a sociedade mundialmente. Com isso, será feita a analogia entre o amor e o ódio, ou melhor, os objetos bons e maus que são investidos pelos torcedores aos seus respectivos times de corações. Palavras-chave: Formação do Sujeito. Objetos Parciais. Torcedores. Abstract The main purpose of this article is to promote the approximation between the theory formulated by Melanie Klein about the formation of the subject, this being a football fan, that is, the generator of a passion that has befallen the society worldwide. With this, it will be made an analogy between love and hate, or better, the “good” and the “bad” objects that are invested by supporters of their respective football teams. Keywords: Formation of Subject. Partial Objects. Fans. CABALLI FILHO, Ulisses. A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 267-273, out. 2011. 267


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INTRODUÇÃO

Caros leitores, ao se depararem com esse texto, peço-lhes por favor, que não se decepcionem caso não encontrem respostas prontas, melhor dizendo, verdades absolutas para a formação do sujeito, mas sim, novos paradigmas para a temática, pois nessa intempérie nasce uma ideia, a qual será elucidada oportunamente. Para tanto, solicito-lhes que acompanhem as novas edições, por hora, segue uma leitura introdutória sobre a formação do sujeito 1. A formação do sujeito: o nascimento dos torcedores Numa maternidade, dois pais iniciaram uma conversa enquanto esperavam suas respectivas esposas e primogênitos, entre uma pergunta e outra, por exemplo, é menino ou menina? Os dois responderam que seriam meninos, e assim o assunto continuou, sem que imaginassem o que estava por vir. Inconscientemente emergira ali uma rivalidade, a qual se manifestou quando o assunto passou a ser futebol. Explica-se: os pais eram torcedores de dois grandes clubes da capital, que ostentavam uma inominável rivalidade, que percorria quase um século. Foi quando o sadismo 2 cingiu a relação em que cada um desejava controlar o outro. E assim, um começou a lembrar as glórias do Sport Clube Pégaso, e logo, o outro revidou citando tambem quantas vezes a Sociedade Esportiva Quimera fora campeã em cima do Pégaso. Quando já não sustentavam mais a discussão de qual dos times era o melhor, dois médicos se aproximaram dos pais, que momentamente deixaram a rivalidade de lado, e escutaram ansiosamente o que os homens de branco traziam para lhes dizer, mas ocasionalmente os médicos perceberam que os pais conversavam sobre futebol. Um dos médicos disse ao senhor Reduf que ele

1 - Fundamentação teórica de Melanie Klein. 2 - Definição de Laplanche & Pontalis (1982): Sinônimo de agressividade na escola Kleiniana. CABALLI FILHO, Ulisses. A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 267-273, out. 2011. 268


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acabara de se tornar pai de mais um torcedor do Pégaso e, em seguida, o outro médico disse ao senhor Gunj que ele

se tornara pai de mais um torcedor do

Quimera. Temporariamente o conflito entre os pais parecia ter chegado ao fim. Então foram conduzidos a caminho dos quartos das respectivas mamães, cada pai com seu presente em mãos trocavam olhares agressivos entre si.... O senhor Reduf foi recebido por sua esposa Lenik que lhe disse: “O nosso campeão nasceu!”, mas Lenik percebera que Reduf demonstrava certa irritabilidade e ela perguntou o que estava acontecendo, se ele não estava feliz. Reduf respondeu à esposa que sim, estava feliz pelo nascimento do filho, mas que enquanto aguardava na sala de espera conhecera um pai torcedor do Quimera que o atormentou profundamente com a história de que o time dele é melhor que o nosso. Reduf, olhando para o filho, disse: “Onde já se viu? Até aqui tenho que escutar isso! Mas não é verdade filho, nosso Pégaso é o maior de todos e logo você saberá o que estou falando”. Lenik percebera que Reduf havia deixado na mesa um presente e tentou mudar de assunto, pois sabia que o marido era um torcedor fanático pelo Pégaso e lhe perguntou o que era aquilo, ele responde que era uma roupinha do Péaso para o Neto usar quando saísse do hospital. Neste momento podemos dizer que o bebê Neto vivenciara inconscientemente suas primeiras experiências, sendo elas boas e más, a partir do que seu pai havia comentado. Por exemplo, a fala do pai ao filho de que “o Pégaso era o maior de todos e que logo ele saberia disso”, pode ser incorporada como uma experiência boa, sendo assim um objeto que pode satisfazer a necessidade do torcedor do Pégaso. Por outro lado, a fala “conheci um pai torcedor do Quimera que me atormentou profundamente com aquela história de que o time dele é melhor que o nosso” pode ser considerada uma experiência má, causadora de uma fantasia inconsciente para Neto, que pode começar a sentir-se atacado e perseguido por um objeto que deseja destruí-lo: Segundo Melanie Klein, no nascimento já existe ego suficiente para experimentar ansiedade, usar mecanismos de defesa e formar relações de objeto primitivas na fantasia e na realidade. (Hanna Segal, Introdução à Obra de Melanie Klein, 1973, pg. 36). CABALLI FILHO, Ulisses. A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 267-273, out. 2011. 269


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No outro quarto, Nana aguardava ansiosamente com Júnior nos braços,

quando o senhor Gunj se aproximou deles dizendo: “Eis o nosso campeão, e aqui está o seu primeiro uniforme do Quimera”. Em poucos segundos Nana havia passado Júnior aos braços do pai, que comentou o lhe ocorrera enquanto aguardava na sala de espera: “Você não vai acreditar filho, mas por incrivel que pareça tive uma discussão com outro pai lá fora”. Nana, preocupada, perguntou a Gunj o que havia sucedido, e ele respondeu que a conversa estava indo bem até a hora em que falaram de futebol, pois o outro pai é torcedor do Pegaso. Houve uma discussão baseada em qual dos times era o melhor... “ainda bem que estávamos no hospital, porque se estivéssemos no estádio eu não seria responsável pelos meus atos”. Nana, como já conhecia o estado de humor de Gunj, resolveu não incentivar a conversa e rapidamente mudou de assunto: “Gunj, o nosso filho não é lindo?” Mas parece que não adiantou, porque Gunj também era fanático por seu time e respondeu: “É claro que ele é lindo! E ficará ainda mais lindo quando colocar o uniforme que eu toruxe”. Neste momento, o ego de Júnior é imaturo e já está sendo exposto ao instinto de morte, mediante a intolerância apresentada pelo pai quando este disse que se estivesse no estádio não seria responsável pelos seus atos. Quando confrontado com a ansiedade produzida pelo instinto de morte, o ego a deflete. Essa deflexão do instinto de morte, descrita por Freud, consiste, segundo Melanie Klein, em parte numa projeção e em parte na conversão do instinto de morte em agressividade. (Hanna Segal, Introdução à Obra de Melanie Klein, 1973, pg. 37).

Após os pais presentearem seus filhos com as respectivas “roupinhas” dos “clubes do coração”, eles se encontraram novamente, já a caminho do elevador, deixando a maternidade. Objetivamente, aqueles cinco andares a sereme encidos pelo elevador foram o suficiente para aumentar a rivalidade oriunda de horas antes. Ao sairem do hospital os casais rumaram caminhos distintos, não obstante, os dois pais trocaram farpas, e as mães tentaram acalmar a situação diante das CABALLI FILHO, Ulisses. A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 267-273, out. 2011. 270


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cirscunstâncias, contudo o conflito só cessou quando os dois bebês começaram a chorar. Podemos dizer que essa cena foi fantasiada inconscientemente pelos bebês, pois nessa fase, conhecida como posição esquizoparanóide, eles já apresentam as relações com os objetos, sendo bons ou maus, apesar de possuirem um ego primitivo e pouco organizado. Melanie Klein introduziu o termo posição esquizoparanóide em 1946, no trabalho Notas sobre alguns mecanismos esquizóides, em que Esquizo é a divisão e Paranóide é a perseguição. É neste período do desenvolvimento que o ego está cindido (splitting), igualmente aos objetos que são percebidos como parciais. Do nascimento até aos 3 ou 4 meses, o ego sente o temor de ser destruído pelos objetos que o cindem, assim qualquer experiência vivenciada nessa posição poderá ser vista como boa ou má. No caso dos bebês Júnior e Neto, é necessário considerar como essa cena foi incorporada, uma vez que ela é demasiadamente intensa, originária de temores persecutórios que estabeleceram o ponto de fixação na posição esquizoparanóide, impedindo assim a transição de fase do desenvolvimento, o que seria normal para qualquer outro indivíduo cujas experiências boas suprissem as pulsões agressivas. Na primeira infância, surgem as angústias caracteristicas das psicoses, que levam o ego a desenvolver mecanismos de defesas especificos. Neste período, encontram-se os pontos de fixação de todas as pertubações psicoticas. (Melanie Klein, 1946, pp. 255-256).

No caminho para casa Reduf continuou a comentar com Lenik sobre o ocorrido; ela no banco de trás do carro com Neto em seu colo, amamentando-o, enquanto apenas escutava o marido a falar. Ao chegaram em casa, foram diretamente ao quarto do bebê e outros afazeres, mas sobrou tempo para Reduf acessar a internet e ver as notícias de seu time Pégaso. Diferentemente de Reduf, que falou o caminho inteiro sobre o acontecimento no hospital, Gunj fez um percurso rápido e silencioso. Quando chegaram em casa, Nana foi colocar Júnior no berço, já Gunj ligou o televisor. Após isso, Nana se aproximou de Gunj e assim CABALLI FILHO, Ulisses. A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 267-273, out. 2011. 271


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começaram a falar sobre o que havia acontecido. Em plano de fundo, o jornal noticiava uma matéria sobre o aumento da rivalidade no futebol, principalmente porque se aproximava mais um jogo entre os times Pégaso e Quimera no fim de semana próximo. A história continuará e fatos se repetirão, como até então tem acontecido, e o leitor bem sabe disso como estará agora fazendo conjecturas suas do que virá a se dar... Breve conclusão Como citado introdutoriamente, a partir deste estudo podemos pensar em novos paradigmas para a formação dos torcedores diante de suas relações objetais que são fantasiadas inconscientemente por meio da identificação com o objeto bom (a vitória), que é sentida pelos torcedores como uma fonte de vida, de amor, de superação, e já o objeto mau (a derrota), que pode ser considerada como um objeto persecutório. Em fantasia, a derrota poderá destruir o torcedor, sendo este objeto que vai dar origem ao sentimento de perseguição e destruição do ego. A parte da pulsão de morte que permanece no ego é transformada em agressividade. Por hora, foi possível perceber que a partir destas experiências, sendo elas boas ou más, os torcedores se formam como sujeitos. Pode-se assim delinear um paralelo entre os torcedores e a violência que atinge a realidade contemporânea no mundo futebolístico por meio da ambivalência entre o amor e ódio, tema que será oportunamente abordado.

CABALLI FILHO, Ulisses. A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 267-273, out. 2011. 272


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REFERÊNCIAS

BLEICHMAR, Norberto M., BLEICHMAR, Celia Leiberman. A Psicanálise Depois de Freud Teoria e Clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. KLEIN, Melanie. A Psicanálise da Criança 2ª. Ed. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1975. LAPLANCHE, Jean., PONTALIS, Jean Bertrand. Vocabulário de Psicanálise, 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. SEGAL, Hanna. Introdução à Obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

CABALLI FILHO, Ulisses. A Formação do Sujeito: o Nascimento dos Torcedores. Parte I. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 267-273, out. 2011. 273


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Um novo risco: Guerra climática Thiago Iorio Belviso Técnico Químico pelo Colégio Técnico Oswaldo Cruz. Experiência em laboratório de ensaios físicos e químicos na área ambiental com creditação ISO 17025. Experiência na classificação de perigo de produtos químicos (sistemas GHS, Comunidade Européia, Diagrama de Hommel, transporte, etc) e elaboração de documentos de Segurança (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos – FISPQ -, Ficha de Emergência e rótulo). Email: tbelviso@intertox.com.br

Resumo Nos últimos anos o mundo tem passado por uma evolução tecnológica desenfreada. A princípio, os objetivos das novas tecnologias são garantir maior conforto, praticidade e soluções eficazes para problemas enfrentados pelas populações. No entanto, esta nota nos traz uma revelação alarmante de como a tecnologia, em parceria com a busca pelo poder econômico e hierarquia, pode interferir no futuro da humanidade causando efeitos irreversíveis para o ambiente e as futuras gerações. Poderio tecnológico, manipulação e ganância podem descrever o perfil de mais um risco para o globo terrestre. HAARP (The High Frequency Active Auroral Research Program), este é o nome do projeto que muda o conceito que atualmente ainda temos sobre guerra.Dez anos após os ataques do 11 de setembro em Nova York, uma nova ameaça a segurança mundial vem a tona. O denominado projeto HAARP, pode desencadear uma séria preocupação para a sociedade mundial, pois este como veremos neste artigo tem uma autonomia de controlar o clima mundial e até mesmo ser usado para futuras guerras. O que é o projeto HAARP? Quando foi criado e por quem foi criado? Qual sua finalidade em questão de meio ambiente? Estas e outras perguntas serão respondidas nesta edição da RevInter Revista InterTox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, boa leitura! Palavras chave: HAARP, guerra climática, ionosfera. BELVISO, Thiago Iorio. Um novo risco: Guerra Climática. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 274-285, out. 2011. 274


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Abstract In recent years the world has gone through an unbridled technological development. The principle objectives of the new technologies are to ensure comfort, practicality and cost effective solutions to problems faced by the people. However, this note brings a startling revelation of how technology, in partnership with the search for economic power and hierarchy, may affect the future of humanity causing irreversible effects on the environment and future generations. Technological power, manipulation and greed can describe more of a risk profile for the globe. HAARP (High Frequency Active Auroral The Research Program), this is the name of the project that changes the concept that today we still have about war. Ten years after the attacks of September 11th in New York, a new threat to world security comes up. The project called HAARP, could trigger a serious concern to the world society, as we will see in this articles, this project has a range of global climate control and even be used for future wars. What is HAARP? When it was created and by whom was it created? What is your purpose in a matter of environment? These and other questions will be answered in this edition of RevInter InterTox Journal of Toxicology, Environmental Risk and Society, good read! Keywords: HAARP, Weather Warfare, ionosphere.

HAARP a máquina que pode controlar o clima Desde o primeiro conflito entre grupos ou povos da humanidade tivemos várias formas de guerras, passando pelas que poderiam ser chamadas de tradicionais até se chegar, com o avanço da tecnologia e ambição pelo poder, às guerras químicas, biológicas e, posteriormente, nucleares. Agora temos a guerra climática. (Folha Universal, 2011).

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Imagine um planeta onde algumas pessoas e países podem controlar o clima. Se você acha que isso é ficção científica, se enganou. Embora pareça absurdo, o projeto HAARP – sigla para The High Frequency Active Auroral Research Program ou Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Freqüência, controlado pela Força Aérea dos Estados Unidos e por sua Marinha de Guerra, tem essa capacidade. A manipulação do clima chegou ao extremo e coloca em risco a sobrevivência da humanidade (Folha Universal, 2011). Os investimentos em estudos com o HAARP se intensificaram após os ataques do 11 de Setembro em 2001, desde este período o mundo enfrenta a chamada década do “combate ao terror”. Tal combate foi iniciado pelo governo de George W. Bush, quando declarou guerra ao Afeganistão, ao Iraque, aos extremistas terroristas ligadas à rede Al Qaeda juntamente com seus aliados e aos países que abrigam tais grupos.

Figura 1: Instalações do projeto H.A.A.R.P. no Alasca. (Folha Universal, 2011)

O HAARP é bastante polêmico e obscuro. Com sede no estado norteamericano do Alasca, o projeto, que existe desde 1990, tem como objetivo ampliar o conhecimento sobre as propriedades físicas e elétricas da camada da atmosfera, conhecida como Ionosfera. (Folha Universal, 2011). Hoje, sabe-se que a ionosfera é uma camada de Plasma (o quarto estado da matéria e a substância mais comum

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que compõe o Universo). Esse estado é difícil de ser produzido e controlado em laboratório. Assim, a existência desta camada na Terra é uma excelente fonte de pesquisas e, claro, de “testes” (Gnosis Online, 2011) Estudos relacionados à manipulação da ionosfera por ondas de rádio não são novos: o inventor sérvio Nikola Tesla fez as primeiras experiências em 1899 e foi o gênio inspirador de Dennis Papadopoulos, o físico que dirigiu a construção do HAARP nos Estados Unidos. (Folha Universal, 2011) A ionosfera tem a capacidade de permitir comunicações de longo alcance em altas e baixas freqüências, principalmente utilizada em sistemas militares e de vigilância (Gnosis Online, 2011)

Figura 2: Camadas terrestres (Pra Sempre Geografia, 2011)

O Sol tem um efeito considerável sobre esta camada, através do “vento” solar (Sun flares) e ejeção de massa coronal (CME´s), as popularmente conhecidas “tempestades solares”, são capazes de provocar o total aniquilamento da comunicação via ondas eletromagnéticas (EM) em todo o planeta, como o evento ocorrido em 03.08.1997, onde um “blackout” eletromagnético parou quase todos os EUA (Gnosis Online, 2011).

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Estes efeitos podem provocar desde mudanças no clima (com tempestades, furacões, relâmpagos) até mudanças no comportamento humano sob influência do forte efeito eletromagnético (EMI – Eletro Magnetic Interference). Modernas simulações realizadas em computadores demonstram a enorme variação e turbulência que ocorre na Ionosfera durante uma “tempestade solar” (Gnosis Online, 2011). Enfim, se algo ou alguém pudesse controlar estes eventos, segundo o governo norte-americano, teríamos um poderoso instrumento capaz de alterar o clima em certas regiões, eliminar ou melhorar os sistemas de comunicações de um país e induzir a população a certos comportamentos (Gnosis Online, 2011). Essa justificativa não convence muitos os especialistas, que acreditam que o HAARP pode se tornar uma arma de destruição em massa (Folha Universal, 2011). Um projeto similar ao HAARP foi utilizado no início dos anos 1960, a antiga União Soviética construiu uma parede de antenas conhecido como Russian Woodpecker ou o pica-pau Russo. Esta antena emitia fortes sinais de rádio com o objetivo de usá-los como arma na Guerra Fria – e de fato usou contra submarinos norte-americanos e interceptores de mísseis a longa distância (Gnosis Online, 2011).

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Figura 3: Antena utilizada durante a guerra fria (Radio Amador, 2011).

O inicio da Guerra climática Quanto a uma possível guerra climática, onde países usariam a tecnologia para causar inundações e secas em outras nações, em busca de maior poder econômico, o pesquisador destaca que esse tipo de acontecimento já ocorre há 60 anos e que a Organização das Nações Unidas (ONU) condena a prática (Folha Universal, 2011). Mattos cita um artigo publicado em julho de 2010 no site Global Research que destaca a manipulação do clima para fins militares: “Em um simpósio internacional realizado em maio de 2010 em Ghent, na Bélgica, cientistas afirmaram que ‘a manipulação do clima por meio da modificação das nuvens não é nenhuma brincadeira, nem teoria da conspiração’. É um fato ‘totalmente operacional’, com uma sólida história de 60 anos. Apesar de sua proibição pela Convenção das Nações Unidas em 1978, o seu uso ‘amigável’ hoje está sendo saudado como o novo salvador frente às alterações climáticas. Segundo este artigo, o complexo militar-industrial dos Estados Unidos está preparado para capitalizar e controlar o clima mundial (Folha Universal, 2011). BELVISO, Thiago Iorio. Um novo risco: Guerra Climática. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 274-285, out. 2011. 279


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Figura 4: Agricultor em região atingida por forte seca na Índia. Arma norte-americana já pode reproduzir artificialmente esta situação (Folha Universal, 2011).

Para o engenheiro elétrico norte-americano Brooks Agnew, especialista em ondas de baixa freqüência, como as do HAARP, é de conhecimento geral que o projeto pode modificar zonas de pressão, com a manipulação da ionosfera, e, assim,

controlar

as

chuvas

de

um

determinado

local.

“Eu não duvido que o HAARP possa ser usado como manipulador de clima. Faz mais de 20 anos que estudo ondas de baixa freqüência e sabemos que, em se tratando de ressonância, essas ondas podem movimentar as placas tectônicas abaixo da terra e causar grandes terremotos”, explica o cientista (Folha Universal, 2011). “Uma vez, fazendo uma experiência próxima a Portland, no Oregon (EUA), ligamos transmissores dessas freqüências e imediatamente a terra começou a tremer. Isso pode acontecer; o que não pode acontecer são as pessoas utilizarem esta tecnologia para ameaçar nações, ou durante uma guerra”, completa ele (Folha Universal, 2011).

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Figura 5: Também na Índia. Homem caminha em meio à enchente. Manipulação do tempo possibilitaria provocar chuvas em excesso. (Folha Universal, 2011).

Possíveis danos causados pelo projeto HAARP Em um recente documentário exibido pelo canal History Channel, desconfiase que a guerra climática já teria causado grandes estragos. Abaixo listamos os supostos ataques que o projeto HAARP teria causado (Ecocídio, 2011) - Terremoto com magnitude 9,15 e Tsunami na Indonésia em 26 de dezembro de 2004 (230 mil vítimas fatais) (O Estado de São Paulo, 2004). -Furacão Katrina que destruiu uma parte dos EUA em 28 de agosto de 2005 (1833 vítimas fatais) (Terra, 2005). -Furacão Nargis em Mianmar em 04 de maio de 2008 (350 vítimas fatais) (Uol, 2008). -Terremoto com magnitude de 7,0 no Haiti em 12 de Janeiro de 2010 (316 mil vítimas fatais) (G1, 2010) -Terremoto com magnitude de 8,8 no Chile em 27 de fevereiro de 2010 (795 vítimas fatais) (G1, 2010) -Terremoto de 8,9 e Tsunami no Japão em 11 de março de 2011 (14 mil vítimas fatais) (G1, 2011) Esses desastres mencionados acima são alguns exemplos do que o HAARP poderia ter causado por motivos que ainda desconhecemos, mas tudo indica que foram por buscas de poder econômico e interesses políticos. BELVISO, Thiago Iorio. Um novo risco: Guerra Climática. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 274-285, out. 2011. 281


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Rastros químicos Chemtrails ou também podemos chamar de rastros químicos, são rastros deixados por aviões com origem desconhecidas e estes se expandem formando nuvens. (Lagoativa, 2011). Estas grandes nuvens químicas dispersadas em altitudes elevadas são feitas para que preencham as falhas ou bolhas ionosféricas da atmosfera para evitarem a perda de sinal das comunicações e perdas de equipamentos que custam centenas de milhares de dólares (Ecocídio, 2010).

Figura 7: Rastros químicos dispersos na atmosfera (Lagoativa, 2011).

Este fenômeno tem sido reportado em todas as partes do mundo desde 1999, resultando uma instabilidade climática nos últimos anos (Lagoativa, 2011). É aonde o HAARP entra em pauta, pois pela emissão de ondas eletromagnéticas, este pode aquecer a ionosfera ou oceano ate determinada escala a uma temperatura de 600ºC e de acordo com bases meteorológicas isso geraria um ciclone instantâneo. Portanto conforme as condições criadas com os chemtrails podem-se criar furacões e tendo em vista a manipulação do campo magnético da terra, manipula-se a direção do vento para qualquer localização do globo (Lagoativa, 2011). BELVISO, Thiago Iorio. Um novo risco: Guerra Climática. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 274-285, out. 2011. 282


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Ameaça invisível São preocupantes as possíveis catástrofes que este projeto pode acarretar ao meio ambiente e ao clima mundial, porém foram observados os danos causados à saúde humana dentro de um curto e longo prazo de exposição. Segundo o físico-químico Andrew Goliszek “Tais armas não atacam simplesmente o corpo de uma pessoa, alcançam tudo até a mente. Têm como finalidade desorientar ou perturbar a estabilidade mental” (GOLISZEK, 2004). O físico-químico possui dados relevantes que podem explicar porque os indivíduos que vivem perto das instalações do HAARP têm índices tão elevados de perda de memória, leucemia, defeitos de nascença, câncer e doenças cerebrais (GOLISZEK, 2004). Considerações finais Este artigo tem como intuito alertar a sociedade técnica cientifica e a qualquer pessoa que venha possuir acesso a tal informação, pois essa tecnologia ou também podemos chamar de arma, deve ser questionada para que não cause maiores danos ou até mesmo a destruição da humanidade.

REFERÊNCIAS

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