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DO PRESIDENTE

MENSAGEM

Bragança, cidade de fronteira com uma localização geoestratégica relevante no âmbito da definição e consolidação da fronteira do Estado Português, teve que contribuir, significativamente, ao longo de séculos de História, para a defesa do País, com vidas, com património, com poupanças conseguidas com muito sacrifício para assegurar a construção e manutenção de estruturas militares de defesa. O Antigo Forte de São João de Deus, construído após a Restauração da Independência e ascensão da Casa de Bragança, foi, durante cerca de quatro séculos e meio, uma estrutura militar marcante na vida social, económica e urbanística da cidade. Com a extinção, a trinta de novembro de 1978, do destacamento militar e saída definitiva de Bragança dos militares, abriu-se um novo capítulo da História de Bragança, distrito em que sempre houve uma forte tradição de acesso à carreira militar, sobressaindo grandes exemplos de dedicação, capacidade de comando e de bravura ao serviço da Pátria. O crescimento da cidade e a precariedade de instalações de algumas das instituições públicas, como as da Câmara Municipal, levaram a que o então presidente, Eng.º José Luís Pinheiro, no ano de 1979, tivesse solicitado a transferência dos Serviços da Câmara Municipal para parte das instalações militares, o que ocorreu entre o final de 1979 e meados do ano de 1982. No ano de 1987 foi lavrado auto de cessão, a título precário, de parte dos terrenos e dos edifícios, à Câmara Municipal, tendo a parte restante (terrenos e construções) sido entregues à Guarda-Fiscal, à Polícia de Segurança Pública e à Junta Autónoma de Estradas. No ano de 1998, foi aprovada pela Câmara Municipal o projeto de proposta de cessão a título definitivo e oneroso da parte ocupada pelo município (45.193,20 m2), terrenos e construções, proposta aprovada na versão final em reunião de câmara de cinco de junho de 2000. A aquisição definitiva ocorreu com a publicação da resolução do Conselho de Ministros n.º 51/2005 e escritura entre o Estado Português e o Município, lavrado a vinte e três de agosto de 2005. Seguiu-se o processo de aquisição da área do antigo campo de futebol do trinta e área envolvente, com 33.100 m2, logo de seguida, a área necessária para a construção do novo Mercado Municipal (18.300 m2) e, mais tarde, os terrenos das antigas casernas, com 13.666,75 m2, para instalação definitiva da Feira Mensal, que agora ficará integrada com o espaço do mercado de produtos da terra e do Mercado Municipal, criando-se assim uma moderna unidade para a promoção económica, dotada de centralidade urbana e boa acessibilidade. Terminado este longo processo de negociação que levou à aquisição por parte do município de todas as construções militares e terrenos com a área total de 110.159,75 m2, o município pode, para lá da intervenção relativa à construção do novo Mercado Municipal, encarar o desafio de projetar,


com autonomia, uma grande operação integrada de reabilitação urbana, prosseguindo a linha de orientação iniciada para a cidade, no ano de 1998, de modernização e requalificação do espaço público. Foram assim, progressivamente, sido reunidas condições para uma ampla operação de reabilitação urbana, elaborado um plano global, envolvendo funções económicas, habitacionais, de serviço público, desportivas, de lazer e de memória da anterior ocupação desta área, garantindo às próximas gerações uma nova centralidade urbana de elevada qualidade em que não se perde a relação com o passado. Foi requalificado o antigo edifício de Comando para Centro de Memória do Forte, que permite uma viagem interativa e virtual pela história da presença militar no antigo Forte de São João de Deus, construído no “lugar” – sítio do sardoal, e da antiga ermida de São João de Deos, tendo a investigação ficado a cargo e sob orientação do Doutor Alexandre Rodrigues, com a colaboração da Dr.a Rosa Cadime e do Major Paulo Rodrigues . Os trabalhos de escavação arqueológica permitiram-nos a musealização de vestígios das fundações do antigo Forte e a recuperação da antiga “messe” dos oficiais, edifício que mantinha uma estrutura digna de ser reabilitada, ao contrário de muitas das outras construções. Neste edifício foram previstas funções de apoio as feiras mensais e de promoção económica. No período de 2012/2013, procedeu-se a uma profunda operação da requalificação urbanística, com vista a dotar o município de instalações modernas, integradas num amplo espaço urbano de boa localização e fácil acessibilidade. Aqui se tem vindo a construir cidade com elevada qualidade, e que ficará como uma marca urbana harmoniosa na relação entre o espaço edificado e o espaço público urbanizado e que virá a consolidar mais uma nova centralidade na cidade. O projeto de reconversão urbanística foi premiado no ano de 2013, com o prémio de “Excelência” na categoria “Inovação”, projeto designado de Ecopolis/Ecodomus, de entre quarenta e quatro projetos concorrentes a nível nacional, evidenciando os mais elevados critérios de ecoconstrução e de sustentabilidade, integrando soluções construtivas e de gestão que serão indutoras de boas práticas na construção e remodelação de edifícios. Conseguimos construir mais uma referência de modernidade na cidade contemporânea, sem que a presença das marcas da História fossem apagadas, seguindo a orientação política com que, no ano de 1998, iniciamos a gestão municipal, de com o passado construir o futuro.

António Jorge Nunes PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE BRAGANÇA

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Luís Alexandre Rodrigues

NO FORTE DE S. JOÃO DE DEUS

A FORTIFICAÇÃO E A PERMANÊNCIA DA ARMA DE CAVALARIA


Cobrindo uma boa parte da primeira metade do “século de ferro”, a Guerra dos Trinta Anos [1618-1648] representou a assumpção de desenvolvimentos inovadores nos movimentos e no tirocínio das tropas que na Europa estiveram activas em consequência de um clima de grande conflitualidade, onde também se integram as resistências ao domínio exercido por Espanha nos Países Baixos e na Itália, os levantamentos da Catalunha e a Restauração portuguesa. Da evolução das armas de fogo e do uso generalizado da pólvora decorreu a racionalização da intencionalidade que os exércitos beligerantes reservavam para as suas manobras. Mas, ao mesmo tempo, outras implicações vieram à tona, especialmente as que interferiam directamente na organização e no financiamento de um aparelho militar mais gastador, no que se refere aos recursos do tesouro, e mais exigente em matéria de aptidões técnicas e no domínio de competências tácticas e estratégicas dos seus efectivos. A nova conjuntura europeia significaria a consagração da mudança de paradigma no que respeita aos processos de gestão de conflitos bélicos. Alterações que também afectaram os esquemas tradicionais de recrutamento da massa constituinte das fileiras dos terços militares e os modos de relacionamento entre o poder central, em processo de fortalecimento dos poderes do soberano, e os sectores sociais donde provinham os que costumavam ocupar os postos de mando. Depois do sucesso de 1476, que nos remete para a campanha de Toro, as armas de Portugal só voltaram a faiscar em Alcácer-Quibir, uma operação cujos resultados desastrosos deixaram ver a incapacidade organizativa das nossas forças terrestres. Diga-se que, aproximadamente na centúria que antecedeu essa tragédia nacional,

todas as atenções privilegiaram o ciclo marítimo, designadamente através instalação de peças de artilharia nas naves que comerciavam ou apoiavam o trato marítimo. Um reforço que complementava as fortificações que integravam a rede de vigilância das águas continentais, onde era preciso estar atento ao corso proveniente do Norte de África e, depois de 1580, às investidas dos países inimigos da monarquia que nos tutelava a partir de Madrid. Deslumbrado pelo poderio da época de D. Manuel I, Portugal não acompanhou os avanços que foram ocorrendo em matéria de guerra terrestre. No exército de D. Sebastião a lança continuava a ter muito peso. Mas este era um tempo em que as armas neurobalísticas eram postas de lado a favor do arcabuz e do mosquete, peças que, ao conhecerem uma utilização generalizada, implicaram alterações tácticas nas manobras da infantaria e da cavalaria. Apesar da tendência para a cavalaria reduzir os seus efectivos por comparação com a tropa apeada, na Guerra da Aclamação reafirmava-se a sobreposição entre a condição de cavaleiro e a pertença ao estado da nobreza. Portanto, continuava a enaltecer-se o prestígio social da cavalaria apesar do seu préstimo na guerra moderna ter empalidecido com a capacidade de intimidação e com o poder destrutivo que o uso da artilharia pesada podia representar. Os cometimentos de bravura individual, quase sempre desconexos, com que alguns memorialistas adornavam as biografias de “pessoas de qualidade” deixaram de ter sentido no quadro moderno onde a organização castrense só podia manobrar com acerto no âmbito do respeito por certas regras e normas de conduta e no quadro de uma cadeia de comando bem identificada. Nesta altura, como alguns salientavam, a disciplina tinha-se transformado no nervo da guerra.

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No entanto, o poder e o alcance de fogo isentavam os soldados, os que atacavam e os que defendiam as praças de guerra, de se olharem nos olhos, simplesmente porque os projécteis podiam vencer distâncias razoáveis. Esta possibilidade evidenciava a fragilidade dos castelos medievais, agora convertidos em alvos susceptíveis de serem batidos com muita facilidade. As grossas massas dos panos das muralhas e os altaneiros volumes das torres que as guarneciam muito facilitavam o trabalho da artilharia pesada. A revolução construtiva, iniciada pelos arquitectos italianos do Renascimento que deram coerência ao baluarte, iria desenvolver novas soluções para que as praças de guerra pudessem cumprir com o seu papel. Verdadeiramente, dava-se consistência ao conceito de fortificação caracterizado pela diminuição em altura dos muros, preferencialmente construídos com tijolos e protegidos com terra, que engrossaram extraordinariamente e adoptaram planos em esbarro para mais facilmente amortecerem os impactos dos projécteis. Os projectistas são, agora, os engenheiros militares, os mesmos que se especializaram a organizar um complexo escavado na terra para, na medida do possível, fazer esmorecer as silhuetas da fortificação na linha do horizonte. Esta adopta casamatas com artilharia, complementando o seu poderio com obras exteriores ao polígono principal, submetidas a uma geometria complexa e estudada de forma a não consentir ângulos mortos. Assim, os sitiados podiam bater as posições do atacante. De um modo geral, estes polígonos militares compendiavam, entre outros, os progressos da matemática e da geometria, verificando experimentalmente a adequação dos respectivos postulados com a realidade. Em Portugal, vista a urgência de assegurar a posse das velhas fronteiras do país, foi depois de 1640 que o esforço de actualização dos processos tácticos da guerra moderna e a assimilação das regras da fortificação se tornaram mais prementes. Um dos primeiros passos seria consubstanciado, ainda em 1640, com a criação da Junta das Fortificações.

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Contudo, apesar da experiência adquirida por alguns portugueses que ao serviço da Casa de Áustria estiveram no teatro de guerra, vários estudiosos apontam a falta de preparação e o desconhecimento generalizado das regras que pautavam as manobras militares. Tudo caldeado com anacrónicos conceitos de bravura e muita dificuldade na observância da disciplina. Ao mesmo tempo, o prestígio social da nobreza continuava a ser determinante no levantamento de homens em armas para a formação dos terços que, no caso da cavalaria, se subdividiam em companhias de 100 soldados, em esquadras de 25 soldados e em fileiras de cinco homens. Todavia não esqueçamos que, não existindo incorporação regular de mancebos no exército, as levas se formavam quase sempre num ambiente de grande resistência social ao recrutamento. Por isso, alguns registos apontam um elevado número de deserções e, outras fontes deixam ver como, em regra, a vida de soldado se caracterizava pela grande penúria de meios. Daí que a esta vida se tenham, durante muito tempo, associado a prática de roubos e o recurso à violência e à mendicidade como formas de acautelar o sustento. A valorização da linha da raia no contexto das guerras que se seguiram à Restauração resultou da percepção que seria por terra que Espanha iria invadir Portugal. Diversas circunstâncias como a movimentação do grande número de homens que compunham os exércitos, os problemas de carretagem dos equipamentos, mormente da artilharia, e outras questões logísticas localizaram no Alentejo as principais linhas de penetração. As mesmas razões não aconselhavam as dificuldades que as estradas e caminhos da região de Bragança podiam colocar além de que as produções agrícolas da região estavam longe de poderem oferecer as provisões que permitissem o regular abastecimento dos regimentos invasores. Mesmo assim, confundiam-se a segurança geral de pessoas e bens com a acção patriótica de assegurar que o traçado da fronteira nordestina seguia a demarcação que vigorava antes das Cortes que, em 1581, se reuniram em Tomar para aclamar Filipe II como rei de Portugal.

Planta da Praça de Bragança cituada na Prov.ª de Trás-os-Montes, 1754 F ON T E : DI E / E XÉ R C I T O ( 9 2 6 -1 -4 A -8 )


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Plano de la cuidad de Breganza com fortificaciones, [17 F ON T E : BI BL I OT E C A

DI G I TA L R E A L A C A DE M DE L A HI S T OR I A

( OA I : BI BL I OT E C A DI G I T

R A H. E S / DG BR A H: 1 2 5 7

Planta de Braganรงa: feita por ordem do Illm.ยบ e Exm.ยบ Sr. George Cary, Tenente General dos Exercitos de Sua Mag. de Fidell.mo, [1700-1900] F O NT E : DI E /E X ร‰ R CI T O (928-1-4A -8)

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d m sus 762]

M IA

TAL.

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Na cidade de Bragança, as barreiras defensivas iriam prolongar-se de modo a proteger o casario que foi ocupando os solos exteriores à muralha do castelo. Estes trabalhos desenvolveram-se, no essencial, depois de 1640 e traçaram uma nova delimitação, apenas interrompida nas raras portas e postigos, que permitia diferenciar com clareza o espaço da cidade, o território urbano propriamente dito, da zona rural. Algumas palavras, como “A Estacada”, ao serem assimiladas pela toponímia, recordam a existência dum segmento das antigas cortinas e, ao mesmo tempo, clarificam a natureza perecível de alguns materiais usados no moderno sistema defensivo da urbe. Portanto, quando se fala de muralhas devemos ter presente que o seu aspecto era muito diverso daquele que apresenta actualmente a maioria dos muros dos nossos castelos medievais, quase todos reconstruídos durante o Estado Novo segundo metodologias muito próprias. Em tempo de guerra, os objectivos militares equiparavam-se ao interesse nacional. Por isso, algumas vezes as casas de particulares seriam derrubadas para não perturbarem a trajectória dos muros de defesa ou para permitirem a criação de esplanadas. Neste ambiente, mesmo os dois conventos de freiras existentes na cidade viram a área das respectivas cercas diminuída e até a amputação de alguns dormitórios. Pelas mesmas razões, a capela de S. Sebastião, que era do padroado da Câmara, seria derrubada e alguns arruamentos seriam completamente eliminados para se formarem esplanadas. Sofrendo profundas intervenções, o tecido urbano ficava à mercê dos interesses da engenharia militar e da sua apetência para, na medida do possível, o sujeitar aos pressupostos geométricos que continuavam a manter vivo o conceito de cidade ideal. Ao mesmo tempo, respondiam às funcionalidades exigidas, onde se contavam a facilidade e rapidez no acesso a qualquer dos pontos nevrálgicos do sistema defensivo das defesas. Por isso, a disposição da maioria dos arruamentos da zona histórica de Bragança pouca relação apresenta com o urbanismo medieval.

Os avanços da pirobalística retiraram e até anularam a capacidade táctica aos castelos. Para se manter a do castelo de Bragança, a engenharia optou pelo derrube e pelo encurtamento de várias das torres que integravam a sua cintura para se formarem eirados onde as peças de artilharia pudessem ser instaladas. Mesmo assim, a falta de potencial impôs o lançamento de raiz de uma estrutura moderna que seria edificada no Sardoal, um cabeço que distava «hum tiro de mosquete» do castelo. A metodologia da sua concepção era conhecida em toda a Europa e, entre nós, ensinada na Aula de Fortificação e Arquitectura Militar, onde teve papel de relevo o engenheiro - mor, Luís Serrão Pimentel. Era de padrão regular, com quatro baluartes artilhados, dois agrupamentos de quartéis a ladearem uma ermida que tinha S. João de Deus por orago. Por isso, o forte tomaria o nome do seu padroeiro. Como obras exteriores, apenas um fosso e dois revelins. Ao francês Saint-Paul, um dos numerosos engenheiros militares atraídos pelas perspectivas de acção que, na altura, o nosso país oferecia, deve atribuir-se um papel relevante na concepção e na organização do estaleiro do Forte de S. João de Deus que operava com grande força desde os começos da segunda metade do século XVII. Todavia, não deve ser descartada a possibilidade de ter existido alguma interferência de Miguel de L’Écolle, conhecedor do terreno e autor de uma planta de Chaves, onde debuxou uma fortificação muito semelhante à de Bragança. De nacionalidade francesa, a acção deste engenheiro militar que viveu e faleceu em Viana do Castelo, alargar-se-ia à arquitectura civil e religiosa sendo ainda autor de um tratado que não conheceu o rigor dos prelos. A hipótese de Miguel de L’Écolle ter estado em Bragança logo após a Restauração carece de confirmação documental. Contudo, não deve ser afastada a possibilidade da sua intervenção ou recomendação por Martim Velho da Costa, que, sendo sargento-mor de Viana do Castelo, foi nomeado governador das armas de Trás-os-Montes, justamente para incrementar os estudos e o início dos trabalhos de fortificação da cidade de Bragança.

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Planta do for da cid o proj cavalla

F ON T E :

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a, prospecto e cortes rte de S. João de Deos dade de Bragança com jecto dos quarteis de aria, [1700-1900]

: D I E/ E XÉ R CIT O (925- 1- 4A -8 )

A urgência do momento pode explicar o desenho do Arquivo de Estocolmo e os primeiros olhares para os terrenos do Sardoal onde no tempo do governo de D. Rodrigo de Castro (1658-1660) muito avançou a empreitada do Forte de S. João de Deus. Contudo, seria injusta a omissão do nome de Rodrigo de Figueiredo Alarcão por, ainda em 1641, ter dado muita atenção às defesas de Bragança, uma matéria que continuou a preocupar os moradores e por isso foi tema de análise nas cortes de 1653. A conflitualidade na região bragançana seria amortecida pelo facto dos lances estratégicos mais relevantes se terem desenrolado na fronteira alentejana. Daí que, durante longas temporadas, a eficácia táctica do Forte de S. João de Deus tenha sido limitada à presença do regimento de cavalaria aí aquartelado. Apesar das lacunas no conhecimento relativo à ocupação desta fortaleza, somos levados a pensar que a sua permanência foi intermitente uma vez que a mobilização e a formação dos regimentos acompanhavam as incongruências que rodeavam a nossa organização militar. Por isso, logo que esfriava o calor dos conflitos ocorria a desmobilização dos efectivos. Em todo o caso, a importância do Forte de S. João de Deus, por ter gerado novas possibilidades de circulação no contexto urbano, vai muito além dos aquartelamentos e das cavalariças que se edificaram no seu perímetro. Na segunda metade do século XVIII, tanto as obras realizadas no castelo como no Forte de S. João de Deus, para poder receber bocas de fogo, já não apresentavam a operacionalidade necessária. Esta situação seria comprovada em 1762, quando o exército espanhol, sem resistência, progrediu de Miranda do Douro, uma cidade dilacerada, para Bragança, onde não se disparou um tiro. Controlada a cidade, as forças invasoras ocuparam-se a saquear e a destruir as obras de defesa e alojamentos da tropa. Neste contexto, alguns sectores do forte de S. João de Deus seriam criteriosamente dinamitados, como apontou o engenheiro Cavagna num dos levantamentos que efectuou, para o incapacitarem militarmente, o mesmo

sucedendo a cerca de um terço da muralha do castelo. Um dos engenheiros militares que integrava o exército invasor traçou o “Plano de la Ciudad de Berganza con sus fortificaciones”, hoje na Real Academia de la Historia de Madrid, escrevendo “que se hallaba en mal estado porque le faltava la contra escarpa (plano oblíquo do fosso, oposto à escarpa), y camino cubierto”. Na mesma sequência, antes de concluir que “igualmente que el castillo se ha vollado los bauartes”, anotava que “los edifícios interiores para alojamiento de tropa eran cencillos, pero mui comodos y nuevos”. Em finais do século de setecentos, aproveitando-se o envasamento da muralha derrubada do castelo de Bragança, edificaram-se novos quartéis para a arma de infantaria que, em 1797, os engenheiros militares Carlos Frederico Bernardo de Caula e Luís Gomes de Carvalho consideravam em condições de receber a tropa. Estes aquartelamentos tinham sido projectados em 1791 por José de Morais Antas Machado, Tenente-Coronel Engenheiro com provas dadas, nomeadamente no Oriente. Na mesma ocasião apresentou os planos para novos quartéis de cavalaria no Forte de S. João de Deus, projectados para um regimento de oito companhias. No conjunto da avaliação que efectuaram à capacidade das defesas de Bragança, interessa-nos a avaliação realizada por aqueles dois elementos, sobretudo pelas informações que proporcionaram. Justificando a sua apreciação, apontavam as várias brechas existentes e o elevado custo da reparação, bem como a necessidade de se fazer a totalidade dos parapeitos, “por todos lhe faltarem”. Constatando-se que os fossos apenas tinham sido principiados, valorizavam-se as razões técnicas: a análise do plano interior mostrou-o totalmente descoberto; a altura dos reparos permitiria que os invasores batessem o forte a partir de várias posições da campanha; o revelim, situado num plano baixo e em grande parte arruinado, era incapaz na defesa das capitais dos baluartes laterais.

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“A Planta 2.ª mostra o Plano dos antigos Quarteis do Forte de S. João de Deos da Cidade de Bragança, em que as agoadas encarnadas mostrão as paredes que actualmente existem, e destas, as mais vivas notão as que se devem conservar, segundo o novo projecto: as mais desmaiadas, e remissas mostrão as que se devem demolir, e as aguadas amarellas mostrão as paredes, que de novo se devem construir. Por este Plano se vê que ha superabundante comodidade para o alojamento de cada huma das 8 companhias de hum Regimento de Cavallaria; e pela Planta I.ª feita debaixo de petipé duplo se mostra mais claramente que, no quartel de cada huma das companhias, construidos os madeiramentos na forma que vão projectados no profil notado com a letra P, tem a consideravel comodidade de ter cada huma das companhias dentro no seu respectivo quartel o seu respectivo palheiro, e o seu respectivo celeiro para sete mezes, sem que seja precizo fazer a avultada despeza de se construirem em outra parte com incomodo e gastos de conducçoens, evitando por este meio despeza que Sua Majestade annualmente faz de duzentos e vinte e tantos mil reis de alugueres de cazas particulares em diversas partes da cidade para guardar a palha e grão precizo para o Regimento. A agoa para os soldados não chega a ficar distante 400 passos, e para os cavallos beberem no rio, ou no chafariz, apenas tem que andar 600 passos. De traz do mesmo quartel há uma planicie em que não só pode manobrar o Regimento, mas ainda outro ou mais se precizo fosse: os soldados tem o comodo de lhes ficar perto lugar de donde podem tirar lenha para o seu uzo, e a praça principal da cidade onde se faz o mercado publico lhe fica de sete a oitocentos passos. Este quartel, segundo o calculo que me meudamente fiz poderá importar de sete athé outo contos de reis, que sendo feito em outra parte onde fosse precizo fazer tudo de novo, senão faria menos de quinze, ou dezaseis contos de reis, porque neste sitio se achão já a maior parte das paredes feitas, e toda a cantaria, e alvenaria preciza para as que se hão-de fazer de novo. Este he o meu parecer e o que aeste respeito se me offerece dizer. “ Bragança, 28 de Novembro de 1791. Joze de Moraes Antas Machado Tenente Coronel Engenheiro

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Planta dos Antigos Quartéis do Forte de S. João de Deos da cidade de Bragança, 1791. F O NT E : B I B L I O T E CA P Ú B LI CA M U NI CI PA L D O P O R T O – PA S TA 2 4 -5 -1

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Planta dos Antigos Quartéis do Forte de S. João de Deos da cidade de Bragança, 1791 FONT E: B IB L IOT E CA P Ú B L I CA M U NI CI PA L D O P O R T O – PAS TA 2 4 -3 -3

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Como a inoperância militar do Forte de S. João de Deus era prejudicada pelos elevados gastos necessários à transformação do presídio numa unidade operacional, apontou-se para o reforço da presença da infantaria na cidade, no interior das muralhas do castelo. Mesmo assim, ainda se consideravam os projectos executados por José de Morais Antas Machado, onde se assinalava uma poupança significativa caso se levasse adiante a empreitada e se aproveitasse as estruturas aí existentes antes de 1791. Embora com hiatos, a arma de cavalaria permaneceria duradouramente no Forte de S. João de Deus sendo conhecidos vários projectos de quartéis, cavalariças e armazéns, que demonstram como essa presença se cruzava com a vontade de introdução de funcionalidades e cómodos adequados às conjunturas e aos padrões de austeridade que sempre caracterizaram a vida castrense. Em todo o caso, a engenharia militar poucas variações imprimiu a um padrão de corpos rectangulares alinhados a um e outro lado da capela de S. João de Deus que, em certas alturas foi ladeada pelos cómodos dos principais oficiais com funções de comando. Em regra, edificavam-se aquartelamentos para os soldados com dois pavimentos, com as tarimbas aos lados de um corredor central, sendo o segundo servido por uma escadaria de dois lanços. Mostrando alguma variação no número, as portas e janelas sempre se apresentavam com molduras de cantaria

desprovidas de lavores. Diferentes eram as aberturas das cavalariças, sendo as janelas rasgadas em cotas elevadas, com lumes comedidos e enxalços oblíquos. Entre várias peças desenhadas, interessa-nos destacar uma “Planta Prospecto e Corte do Forte de S. João de Deos da Cidade de Bragança com o Projecto dos Quarteis de Cavalaria”, trabalho não datado nem assinado, porque ao incluir uma “Vista do Forte com o Projecto para a parte da Cidade”, o seu autor não só registou visualmente os danos infligidos à fortificação pela soldadesca espanhola durante a ocupação de 1762 mas ainda representou as portas luzindo algum aparato arquitectónico que incluía elementos da “Architectura” de Jean Vredreman de Vries e ensinamentos de Luís Serrão Pimentel e de Manuel de Azevedo Fortes, sendo os últimos considerados tratadistas nacionais com exercício do cargo de engenheiro-mor do reino. Manuel de Azevedo Fortes, considerando que as portas principais deviam ser feitas no meio da cortina, propunha que o seu aspecto devia ser hórrido mas acompanhado de robustez arquitectónica. Para cumprir o último preceito, os engenheiros militares socorriam-se, com frequência, da ordem toscana ou da ordem dórica. Combinava-se, assim, o conceito de robustez com o austero despojamento que as edificações militares quase sempre ostentam, fazendo com que o espírito do observador aceitasse que a praça de guerra que os seus olhos vislumbravam era inexpugnável.•

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Planta do Quadrilátero, fechado pelas cortinas [e seus prolongamentos] do Forte de S. João de Deos, nas imediações da Cidade de Bragança em 1820, 1821 FONT E: D IE/ EXÉR CI T O ( 9 3 2 -1 -4 A -8 )

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“Planta do quadrilatero, fechado pelas cortinas [e seus prolongamentos] do Forte de S. João de Deos, nas immediações da cidade de Bragança em 1820 Contendo os edificios, construidos anteriormente a 1820; e neste anno, mas incompletos; e os restantes em projecto, para se concluir a ultimação dos quarteis, para o Regimento n.º 12 de Cavallaria. Explicação do Dezenho. Os edificios, lavados com agoada de tinta da china são os construidos, anteriormente a 1820: e se figurão os telhados, excepto na antiga capella, em cujo anterior se fez ultimamente a conveniente obra para uso, que vai indicado. Os edificios, cujas paredes vão lavadas d’ agoada de simples carmim, são os que tem estas na sua altura completo. Os edificios, cujas paredes vão lavadas d’ agoada de carmim, com toque de tinta da china, ou propriamente roxa, são aquelles em que as mesmas paredes ainda não tem chegado á devida altura: distinguindo: esta cor vai mais ou menos escura, á medida que a altura, em que se achão as paredes incompletas, he menor, ou maior: isto hé: mais escura quando não tem ainda chegado ao plano do soalho, ou pavimento da caserna, que devem fechar; mais clara, quando já se achão, acima deste plano. NB. Assim vão lavados d’ agoada roxa-clara as cortinas da antiga fortificação, e parte do flanco; que devem approveitar-se nos novos Edifícios, por isso que, semdo ao presente a sua altura, acima do pavimento dos planos terreos dos mesmos, não chegão com tudo á devida altura dos ditos edifícios. Os edifícios, cujas paredes apparecem lavadas de amarello são aquelles que só existem em projecto: distinguindo: destes os lavados com agoada amarella com tinta da china, são aquelles, cuja alteração se propõem, conforme á planta em separado – que contem picadeiro, casa para o official de dia, corpo da guarda de quartel, e prisões: e he assignada na data desta. NB. Quanto ao palheiro, cuja cor d’ agoada indica ser tão bem proposto para alteração se fallara nas reflexões, relativas a estes desenhos, as quaes vão assignados na mesma data. As tarimbas existentes vão lavadas da cor, propriamente destinada a figuras madeiras; e em projecto vão na cor do papel, [entradas] por linhas competentes. Os numeros; isto he; os algarismos que se vêem sobre as tarimbas indicam o numero de homens, a que são destinadas, em cada lanço. Quanto a cor se praticou o mesmo, a respeito dos prumos de madeira." Cidade de Bragança 31 de Janeiro de 1821 Fulgencio Gomes dos S.tos Valle Cap.am do R. C. d’ Eng.os

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Rosa Maria Teixeira Morais Cadime

FORTE DE S. JOÃO DE DEUS

A PRESENÇA DAS UNIDADES MILITARES NA CIDADE E NO


Bragança é uma cidade com tradição militar, pois durante quatro séculos (XVII a XX) albergou, de forma mais ou menos contínua e organizada, diferentes unidades militares. Decorria o ano de 1664 quando o Terço de Bragança estacionou na urbe e possibilitou a defesa da linha de fronteira. Se a população por um lado se viu a braços com os aboletamentos, por outro percebeu a importância económica e cultural que a presença de diferentes unidades imprimia numa sociedade de cariz rural. Em 1707, D. João V transformou os Terços pagos em regimentos de Infantaria, permitindo o harmonizar da designação das unidades do exército Português. O Terço de Bragança teve então como fiel depositário o regimento de Infantaria de Bragança. Face aos sucessivos conflitos bélicos em que Portugal se viu envolvido e que colocavam em causa a afirmação da soberania e da identidade nacional, foi aquartelado, em 1754, no Forte de São João de Deus, também designado “Forte de Cavalaria”, o regimento de Cavalaria Ligeira de Bragança. O 1.º e 2.º regimento de Infantaria de Bragança estavam estacionados na cidade quando, em 1762, o Forte foi diminuído na sua capacidade militar pelo exército espanhol no contexto da Guerra dos Sete Anos. Apesar da destruição, as armas de Infantaria e Cavalaria mantiveram-se na cidade, agravando a situação dos aboletamentos e a necessidade de construção ou reconstrução de um quartel condigno. Em 1774, Bragança contribuiu com um regimento para a campanha da reconquista do Rio Grande do Sul, no Brasil. Trajariam com “casaca azul, vestia branca, calção azul, bandas brancas, canhões vermelhos, gola vermelha, forro vermelho, galões e botões amarelos e polainas pretas.”Recorde-se que foi

em 1764 que surgiu o regulamento de uniformes que introduziu a distinção em Portugal dos regimentos pela cor das golas, bandas da casaca, canhões das mangas, forros e véstias, pelo Conde Lippe O regimento de Cavalaria Ligeira n.º 6, fiel depositário do regimento de Cavalaria Ligeira de Bragança, assentou praça em Bragança, no ano de 1806, tal como o regimento de Infantaria n.º 24. A cavalaria vestiria, pelo menos formalmente, casaca e calção azul e vestia branca. Este ano revelou-se de especial importância para o Exército Português, pois é publicado o primeiro Plano de Uniformes do Exército em que as Unidades passam a ser identificadas por um número (que traziam no barrete), mantendo a distinção também pelas cores que eram combinadas nas golas, forro das fardas e canhões das mangas. Entretanto, vários estudos de reconstrução, implicando até a ampliação, eram projetados para o Forte de São João de Deus. O castelo de Bragança, alvo de obras nos finais do século XVIII e inícios do XIX, albergava a infantaria. O regimento de Cavalaria n.º 12, com alguns militares aquartelados no Forte, e outros no Barracão da Eiras do Colégio, substituiu o n.º 6 em 1808, e viu-se envolvido, juntamente com o de Infantaria n.º 24, nos confrontos entre absolutistas e liberais que assolavam o país. Por decreto de 9 de julho de 1829, D. Miguel identificou as unidades pelas localidades onde se encontravam. Assim, o regimento de Infantaria n.º 24 passou a designar-se regimento de Infantaria de Bragança, sendo extinto o regimento de Cavalaria n.º 12. Em 1834, o primeiro assume novamente o n.º 24, quando regressa também a Cavalaria.

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Fachado do edifício, incompleto, fundado sobre a Cortina, do Norte, do Forte de S. João de Deos, nas imediações da cidade de Bragança, em 1820, 1821 FONT E: D IE/ EXÉR CI T O ( 9 3 4 -1 -4 A -8 )

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Em 1837, nova reorganização do exército. O regimento de Cavalaria n.º 7 foi aquartelado no Forte de São João de Deus, onde se manteve muitos anos e contribuiu para a ligação deste quartel à cidade, mormente através do arranjo das vias de acesso, e também para acesas disputas dos terrenos adjacentes. Esta unidade teria cerca de 460 homens efetivos e 390 cavalos. O seu uniforme registava gola encarnada e forro branco. A cidade viu partir o regimento de Infantaria n.º 12, mas em 1840 esta arma regressou através do sempre emblemático batalhão de Caçadores n.º 3 e o problema do aboletamento continuava, causando “um estado de miséria a que se achava reduzido a maior parte dos habitantes da Cidade, e quanto estavam sendo vexados com o aquartelamento de tropa que afluía de diferentes pontos da Província e Reino”. Culturalmente, a cidade ganhava com esta presença, pois os concertos musicais pelas bandas militares eram realizados em locais públicos (Praça Camões e Praça da Sé), com uma duração de cerca de duas horas. Todavia, exigia-se mais, um regimento de infantaria, face ao “definhamento e a penúria em que este Concelho e a par dele o Distrito vai submergindo-se pela falta de um Corpo de Infantaria nesta Cidade”. Após a saída do regimento de Cavalaria n.º 7 sabe-se, pela descrição feita pela comissão liquidatária, que o Forte de São João de Deus necessitava de algumas obras, pois possuía muitos vidros partidos e apresentava infiltrações de água. Em julho de 1869, já se encontrava na Cidade um esquadrão da Cavalaria n.º 6, que também ficaria, pelo menos parcialmente, instalado no Forte. Mas, em 1873, o regimento de Cavalaria n.º 7 regressou em substituição do esquadrão de Cavalaria referido, o que levou a Câmara, em sessão de 7 de maio desse ano, a propor a realização de um estudo para melhorar a estrada que ligava a Cidade ao Forte, como prova de gratidão pelo “benefício que resulta da permanência nesta Cidade do regimento de Cavalaria que brevemente se espera”. Fontes Pereira de Melo protagonizou, em 1884, uma nova reorganização do Exército, motivada pela

necessidade de defesa das fronteiras e que se traduziu num aumento de efetivos. O batalhão de Caçadores n.º 3 passou a regimento de Caçadores n.º 3. O regimento de Cavalaria n.º 7, decorria o ano de 1893, estava há mais de um ano em “letargia”, devido à falta de soldados e cavalos, destacados para a cidade do Porto. Pela reorganização de 1899, que pretendeu uma diminuição de efetivos do exército e uma mobilização mais eficaz em tempo de guerra, foi mesmo dissolvido. A Bragança foram atribuídos os 3.º e 4.º esquadrão do regimento de Cavalaria n.º 6. Na Infantaria, o regimento de Infantaria n.º 10 foi o fiel depositário do anterior regimento de Caçadores n.º 3. Em 1901, foi reforçada a Cavalaria com o 3.º e 4.º do regimento de Cavalaria n.º 9. Todavia esta reforma não acalmou os ânimos dos decisores que, em sessão de Câmara de 19 de janeiro de 1905, deliberaram “representar aos altos poderes do Estado sobre a conveniência que há para esta Cidade e região do restabelecimento completo de um regimento de Cavalaria, por isso que possuindo Bragança um ótimo aquartelamento e o Concelho forragens adequadas para a sua manutenção, deve tal medida ser de vantagem tanto para o Estado como para os povos do Concelho, que melhor poderão fornecer aqueles géneros, no que vai nisso a sua prosperidade e bem-estar relativos.” Dez anos depois, em 1911, a Cidade viu partir as unidades de cavalaria. O motivo prendia-se com uma nova reorganização do Exército, decretada a 25 de maio, e que resultou da preocupação da República Portuguesa em modificar e atualizar “as instituições militares, de forma a integrá-las completamente na obra da República, que é a grande obra da Pátria” e que lamentava “que o recurso do país em gado cavalar não permitia que cada um destes regimentos – de cavalaria – não tenha quatro esquadrões… É para desejar que, com o desenvolvimento da indústria pecuária, muito em breve se possam aumentar algumas unidades de cavalaria”. Também nesse ano, o regimento de Infantaria n.º 30 foi instalado no Forte de São João de Deus, motivando que aquele se passasse a denominar de “Trinta” e a cidade recebe ainda o 6.º Grupo de Metralhadoras.

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No “Trinta” a carreira de tiro organizava torneios abertos aos civis e, sendo considerada de 3.ª classe, no ano económico de 1914-1915 teve uma dotação de 90 escudos, destinados a pequenas reparações e limpeza, material para a instrução e ferramentas, expediente e concursos de tiro. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) vai obrigar a um recrutamento amplo de soldados e oficiais, que tomariam parte nos campos de batalha da Europa a partir de 1916 e em África, na defesa das colónias de Angola e Moçambique. Bragança assistiu emocionada a várias partidas de soldados. A 21 de agosto de 1926 foi decretada uma nova reorganização do Exército, que muito penalizou a Cidade. O regimento de Infantaria n.º 10 vai manter-se, ocupando também as instalações do Forte de São João de Deus, principalmente quando o número de recrutas era elevado, mas o regimento de Infantaria n.º 30 e o grupo de Metralhadoras n.º 6 são extintos. Refira-se que, em 1930, o comandante militar de Bragança solicitou a urgente necessidade de o quartel instalado no Forte de São João de Deus ser abastecido de água, precisamente por aí se realizar a instrução militar. Em 1939, a cidade recebeu o batalhão de Caçadores n.º 10, fiel depositário do de Infantaria com o mesmo número. E aquele, em 1943, passou a n.º 3, considerando “que o batalhão de Caçadores n.º 3 tem honrosas tradições ligadas à Cidade de Bragança, onde esteve aquartelado desde 1839 e de onde partiu para as campanhas da ocupação colonial do final do século XIX”. O Forte continuava a albergar tropas desta arma, ainda que a sede fosse nos quartéis do castelo. Rude golpe marca a vida dos brigantinos em 1958. Foi extinta a única unidade ainda aquartelada na cidade. Mas nenhum habitante desistiu, prova é o ofício datado de 1964 e enviado ao ministro da Guerra: “a perda do batalhão de Caçadores 3 foi o mais duro golpe que esta Cidade sofreu… Durante o ano em curso, têm lugar as comemorações do V Centenário… Além dos atos e solenidade que se preveem, a instalação de uma unidade militar

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seria o acontecimento de maior interesse para este Distrito, que se encontra militarmente abandonado… Interpretando o sentir de toda a população, não posso deixar ainda de afirmar a vossa excelência que, se lhe for consentido, cada habitante auxiliará com um dia de trabalho; porque todos, numa só voz, pedem o restabelecimento da sua tão querida e gloriosa unidade militar. Adriano Augusto Pires”. O ministro da Guerra, Luz Cunha, aprovou, em 1965, a construção de um novo aquartelamento em Bragança nos terrenos do antigo Forte de São João de Deus e a 28 de agosto de 1966 entrou, finalmente, em Bragança, o batalhão de Caçadores n.º 3. As obras de construção no Forte São João de Deus continuavam: caserna para duas companhias, edifício da delegação de manutenção militar, dois “paiolins” cobertos para instrução, arrecadações, parques e oficinas e edifício de comando. Estavam previstas outras construções, como um bloco para oficiais, que não se concretizaram. O Boletim Amigos de Bragança relatava a chegada apoteótica, com as janelas da Cidade engalanadas “donde mãos senhoris lançavam, durante o desfile, em ar de saudação, papéis com as cores nacionais e municipais em substituição das pétalas de flores”. Em 1977, o decreto-lei n.º 181, de 4 de maio, “considerando a necessidade de transformar o exército numa força eficiente e apta a desempenhar a sua missão, transformação esta que deverá ser compatível com as necessidades económicas do País”, declarou extinto o batalhão de Caçadores n.º 3, com efeitos a partir de 30 de abril de 1975, passando a designar-se destacamento do regimento de Infantaria de Vila Real e, a partir de 1 de maio desse ano, destacamento de Bragança do regimento de Infantaria de Vila Real. E o decreto-lei n.º 386, de 20 de setembro de 1980, extinguiu definitivamente o Destacamento da Cidade de Bragança, com efeitos a partir de 30 de novembro de 1978. Em 1979, o quartel do Forte de São João de Deus encontrava-se já em total abandono.•


Bragança, 1840 FO NTE: DIE/EX ÉRCITO ( 4013-1 - 4A- 8)

Planta do Forte de S. João de Deus em Bragança e terrenos dependentes, 1899 FON TE: DIE/EX É R C I T O ( 7 8 0 4 -1 -4 A -8 )

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TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS NA ÁREA DO ANTIGO FORTE DE S. JOÃO DE DEUS Clara André

Meu prezado amigo. Estimo que se tenha dado bem na sua nova posição. Isto aqui não é tão mau como diziam. Será talvês [sic] até uma parcela do melhor dos mundos. Aceite um abraço do seu amigo e Camarada ALÍPIO LEMOS [?] REG. DE INF.ª N.º 30 / BRAGANCA [SIC] 5-12-912. [TEXTO ESCRITO, NUM POSTAL, POR UM MILITAR DO REGIMENTO DE INFANTARIA N.º 30, UNIDADE AQUARTELADA NO FORTE DE S. JOÃO DE DEUS, DE 1911 A 1926, E QUE AINDA HOJE SE ASSOCIA À TOPONÍMIA DESTA ZONA.]

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Enquadramento No momento da redacção destas linhas, ainda decorrem as obras de requalificação urbanística da zona do antigo forte de S. João de Deus, estrutura militar edificada na segunda metade do século XVII, no contexto das guerras que se seguiram à aclamação do 8.º duque de Bragança como rei de Portugal, o qual, com o título de D. João IV, deu início à Dinastia de Bragança (1640-1910), depois de 60 anos de domínio espanhol (1580-1640), numa altura em que o uso das armas pirobalísticas já havia tornado os velhos castelos medievais desadequados à defesa da raia. A moderna fortaleza abaluartada, implantada na elevação (cota máx. actual aprox.: 723m) em frente da colina do castelo, no sentido poente, numa zona então despovoada – o Sardoal –, funcionaria como um posto destacado ou avançado que vigiava uma vasta área do lado ocidental da cidade, à qual se ligava pela caleja do Forte. As plantas antigas mostram uma praça regular, configurando um quadrilátero em cujos cantos foram construídos os respectivos baluartes. Dois revelins protegiam as cortinas viradas a oés-noroeste e a lés-sueste. No interior do recinto, ao centro, a capela do padroeiro, S. João de Deus, da qual não se conhecem vestígios, organizava o espaço onde os edifícios se dispunham de forma simétrica. Consequência do uso continuado e diferenciado deste espaço, ao longo de mais de três séculos, foi a remodelação/destruição das estruturas existentes 26

e/ou a construção de novos edifícios, situações que terão contribuído para a descaracterização da estrutura militar seiscentista, a que se associa ainda a destruição parcial da fortificação exterior provocada pelo ataque espanhol de 1762. Anteriormente ao início das obras em curso, toda a área apresentava diversos problemas e aos quais era preciso dar resposta: edifícios sem condições dignas para o bom funcionamento dos serviços que acolhiam, edifícios devolutos e deteriorados, espaços degradados, etc. Neste contexto, foi, pois, propósito da Autarquia levar a cabo um amplo programa de reconversão urbanística, o qual inclui, para além do arranjo dos espaços exteriores, a demolição de alguns edifícios, a remodelação e a construção de outros e, ainda, a criação de um espaço destinado à feira. A execução dos projectos elaborados para o efeito implicava a necessidade de proceder a significativas movimentações de terras, as quais poderiam pôr em risco estruturas do forte ainda preservadas, pelo que estes trabalhos tiveram que ser precedidos de escavações arqueológicas. Objectivos e trabalhos arqueológicos realizados Tendo como objectivos gerais a detecção, identificação e salvaguarda de vestígios alvo de impacte negativo por motivo das obras, os trabalhos arqueológicos foram concretizados em duas fases: uma, prévia à execução do projecto, com realização de sondagens arqueológicas de diagnóstico e avaliação, num total de 50m2, implantadas em zonas

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1. Troço do fosso após o desaterro.

O tracejado indica o corte no afloramento. 2. Vestígios da cortina seiscentista com

arranque do flanco do baluarte. 3. Perspectiva parcial da parede da caserna

construída, no séc. XIX, sobre a cortina do séc. XVII, (o tracejado separa os dois momentos construtivos).

onde era expectável a identificação de vestígios do forte; outra, em fase de obra, com acompanhamento de todo o tipo de trabalhos que implicassem mobilização de terreno e desmonte de estruturas. Resultados mais significativos De um modo geral, as sondagens revelaram uma estratigrafia simples, sem espólio directamente associado ao quotidiano militar que este espaço testemunhou e sem evidências que permitam definir o momento da sua edificação e/ou estabelecer cronologias para as diversas fases construtivas sugeridas por diferentes plantas do forte. Contudo, no decurso dos trabalhos de acompanhamento arqueológico do desaterro necessário para a construção do novo edifício que albergará alguns serviços municipais, foi identificado um troço do fosso que terá envolvido o baluarte oés-sudoeste. Esta estrutura negativa, escavada na rocha, apresentava uma largura de cerca 11m e uma profundidade de 3m. Do baluarte, já nada restava [1]. Na área destinada à feira, foi identificada a cortina seiscentista virada a nor-nordeste e que ainda conserva o arranque do flanco do baluarte nor-noroeste [2]. No séc. XIX, este troço de cortina, facilmente identificável pelo seu talude, foi integrado numa das paredes da caserna então construída e que ainda se conserva parcialmente [3]. Igualmente nesta zona da empreitada, foram identificados o nível de circulação e os arranques das paredes que conformavam uma das cavalariças,

provavelmente construída ou remodelada nos inícios da centúria de Oitocentos, cujo interior é pavimentado, incluindo as áreas destinadas aos animais, certamente por motivos que se relacionam com a higiene – a esta interpretação acresce o facto de apresentarem ligeira inclinação (6,8%) no sentido do corredor central, do qual estão separadas por um pequeno canal semi-circular escavado em pedra de granito, e que a legenda de um projecto elaborado em 1781 esclarece destinar-se a desagoadouro das ourinas de Cavallos. A memória do futuro Avaliado o interesse patrimonial das estruturas identificadas e da sua integração no espaço em requalificação, a Autarquia envidou esforços no sentido da sua musealização; encontrando-se em fase de remodelação o projecto do novo espaço da feira, de modo a poder apreciar-se parte das mencionadas estruturas de uma das cavalariças e uma porção da cortina seiscentista que ainda conserva o arranque do flanco do baluarte, à qual foi adossado o alicerce da parede da caserna construída no séc. XIX. A musealização destas estruturas, a par do centro interpretativo instalado no antigo edifício da secretaria regimental, contribuirá, decerto, para o reforço da memória da presença militar em Bragança ao longo de mais de três séculos.

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CENTRO DE MEMÓRIA FORTE S. JOÃO DE DEUS A FORTIFICAÇÃO E A PERMANÊNCIA DA ARMA DE CAVALARIA NO FORTE S. JOÃO DE DEUS

A centúria de seiscentos, a que alguns autores chamam “século de ferro”, foi marcada por um clima de grande conflitualidade internacional em que avultaram as resistências ao domínio que Espanha exercia na Europa e no mundo. Interessa-nos destacar a Restauração de 1640, um movimento nacionalista que pôs fim à usurpação, em 1580, da coroa portuguesa por parte da monarquia espanhola. Na Europa dilacerada por graves crises económicas e sociais, a guerra foi muitas vezes o campo onde se buscavam as soluções para os problemas de natureza política. Mas a gestão dos conflitos bélicos era, agora, secundada pela mobilização de grande número de efectivos para os exércitos que tendiam a usar em escala alargada armas de fogo ligeiras e complementavam com a utilização de peças de artilharia de grande calibre e enorme poder destrutivo. A atenção que Portugal votou ao domínio dos mares no Oriente, fortificando posições terrestres e armando as naves do comércio, e à costa do continente, para a livrar dos ataques dos corsários, afastaram o país do acompanhamento dos avanços técnicos que interessavam à guerra terrestre. Por isso, o cuidado com a extensa fronteira terrestre passaria para plano secundário, acabando por se diluir durante os tempos da união ibérica. Tudo mudaria após 1640 uma vez que as tentativas de Espanha para novamente submeter Portugal levaram D. João IV a criar o Conselho de Guerra. Sendo formado por peritos em assuntos militares, a este órgão competia a defesa nacional, superintendendo em assuntos como a organização das tropas, as questões de disciplina, o problema dos orçamentos de guerra, as operações militares e os assuntos de fortificação.

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A defesa das fronteiras, equivalendo à defesa da soberania, estava na ordem do dia, impondo um enorme esforço financeiro acompanhado de uma rápida actualização, em termos de guerra moderna, da capacidade militar do país. Para tal, foi importante a contratação de engenheiros militares estrangeiros que eram conhecedores dos métodos que franceses e holandeses tinham desenvolvido nos conflitos em que se envolveram. A utilização generalizada da pólvora tinha levado já os arquitectos do Renascimento italiano a desenvolverem a geometria do baluarte, um avanço com grande aplicação nas fortificações que proliferaram durante o século XVII. Em consequência, os avanços da pirobalística anularam a serventia táctica e estratégica dos velhos castelos medievais. De facto, os extensos panos de muralhas e os altaneiros volumes das suas torres tornaram-se alvos fáceis para os disparos da artilharia pesada. O novo conceito de fortificação impunha-se com a edificação de construções mais ou menos complexas em que ressaltava a diminuição em altura dos seus fortes muros em paralelo com os esforços de enterrar algumas das suas componentes de modo a que a silhueta do edificado fosse pouco perceptível na linha do horizonte. Ao mesmo tempo, os progressos da matemática, da geometria e da balística eram meticulosamente considerados pela engenharia militar de forma a que os ângulos mortos fossem eliminados. Por estar localizada na proximidade da fronteira com Espanha, a cidade de Bragança seria contornada por barreiras defensivas enquanto nas suas proximidades, no sítio do Sardoal, se iniciava a construção do Forte de S. João de Deus. Pautado pelas novas metodologias, seguia uma traça semelhante à de uma estampa do “Método Lusitânico”, da autoria do engenheiro-mor do reino, Luís Serrão Pimentel. É muito provável que na sua execução tenham tido um papel importante os engenheiros militares Miguel de L´École e SaintPaul, franceses ao serviço da coroa portuguesa. Contudo, a geometria desta fortificação era muito mais simples do que outros complexos militares, por exemplo os de Almeida ou de Elvas. A sua simplicidade deveu-se ao facto da conflitualidade na região bragançana ter sido amortecida pela maior importância estratégica da fronteira do Alentejo. Em todo o caso, o Forte de S. João de Deus teria consequências sobre o ulterior alargamento da malha urbana de Bragança e grande importância

por ter acolhido no seu perímetro, durante largas dezenas de anos, uma força militar de cavalaria. Mesmo depois de 1762, altura em que uma invasão do exército espanhol destruiu criteriosamente os pontos nevrálgicos do Forte, os seus quartéis, projectados e reformulados pela engenharia militar, continuariam a dar guarida a um contingente que tinha na cidade um peso e uma importância que ia muito além da função militar. O ganho desta presença perpassava os planos económico, cultural e social ao potenciar as transacções económicas, o contacto com diferentes formas de cultura e ao imprimir mais dinâmica à vida urbana. Todavia, o acréscimo populacional, até que o problema do alojamento militar fosse resolvido, provocou grandes constrangimentos devido aos aboletamentos. As diferentes reestruturações do exército português e as tensões nacionais ou internacionais iam ditando, precisamente, a entrada e saída das diversas unidades militares estacionadas na urbe e mais concretamente no Forte de S. João de Deus. Este ganhou novas designações consoante a arma ou a unidade que aí se aquartelaram: “Forte de Cavalaria” e, mais tarde, “Trinta”, pela presença do regimento de Infantaria n.º 30. A cavalaria foi a principal arma estacionada no quartel, embora a infantaria, a partir de 1911, aqui se tenha fixado. O ano de 1958 ficou marcado pela extinção da única unidade militar presente na cidade e que usufruía das casernas do Forte de S. João de Deus, como complemento ao aquartelamento do alojamento dos quartéis do castelo. O regresso ocorreu em 1966, quando o país atravessava momentos que exigiam um esforço acrescido ao Exército Português. As instalações militares do Forte sofreram obras de remodelação e ampliação que passaram pela construção de novos edifícios. Mas em 1978 foi oficialmente extinto o destacamento do regimento de Infantaria ali aquartelado, tendo sido os edifícios aproveitados para albergar instituições públicas. Depois, no ano de 2013, todo o espaço sofreu profunda alteração urbanística que permitiu que a modernidade e a história se complementassem.


CENTRO DE MEMÓRIA FORTE S. JOÃO DE DEUS THE FORTIFICATION AND PRESENCE OF CAVALRY AT S. JOÃO DE DEUS FORT

The sixteen hundreds, which some authors call "the iron century", was marked by a climate of great international conflict as a result of increased resistance to Spanish domination of Europe and worldwide. We are interested in highlighting the Restoration of 1640, a nationalist movement that ended the usurpation, in 1580, of the Portuguese crown by the Spanish monarchy. In a Europe torn by serious economic and social crises, war was often the field used to seek solutions to political problems. The management of the wars was now backed by the mobilisation of large numbers of soldiers for armies that tended to use light firearms on a larger scale, complemented by the use of large calibre artillery of enormous destructive power. Portuguese attention on controlling the seas of the Far East, fortifying land positions and arming trade ships and the coast of the mainland, to eradicate attacks by corsairs, distanced the country from accompanying the technical advances focused on a ground war. Therefore, Portugal’s focus on its extensive land border was relegated to a secondary level, and it ended up being watered down during the era of the Iberian Union. Everything would change after 1640, since the attempts by Spain to again dominate Portugal led King João IV to create the War Council. This body of experts in military affairs was responsible for the defence of the nation, overseeing matters such as the organisation of troops, disciplinary issues, the problem of funds for war, military operations and matters related to fortification.

The defence of the borders, which was equivalent to the defence of sovereignty, was on the agenda. It implied a huge financial effort accompanied by a rapid update of the military capacity of the country, in terms of modern means of war. A significant factor in achieving this was the hiring of foreign military engineers who were knowledgeable of the methods that the French and Dutch had developed in the disputes in which they had been involved. The widespread use of gunpowder had already led the architects of the Italian Renaissance to develop the geometry of the bastion, a design advance that was widely added to the fortifications that proliferated during the seventeenth century. These changes resulted from the advances in the range of firearms, which nullified the tactical and strategic usefulness of old medieval castles. In fact, the lengthy walls and soaring height of their towers had made them easy targets for heavy artillery. The new concept of fortification implied the construction of buildings of varying complexity with the main change being the decrease in height of their strong walls and efforts to bury some of the components so that the buildings’ silhouettes were barely noticeable on the horizon. At the same time, advances in mathematics, geometry and ballistics were meticulously considered by military engineers so that blind spots could be eliminated. The city of Bragança would be circumvented by defensive barriers since it was located close to the Spanish border, while the construction of S. João de Deus Fort began in its vicinity, at the location of Sardoal. The construction of S. João de Deus Fort was guided by the new methods, and it followed a pattern similar to the "Lusitanian Method" designed by the chief engineer of the kingdom, Luís Serrão Pimentel. It is very likely that the military engineers Miguel de L'École and Saint-Paul, Frenchmen working for the Portuguese crown, played an important role in its construction. The geometry of this fortification was, however, much simpler than other military complexes, those at Almeida or Elvas, for example. Its simplicity is due to the fact that conflict in the Bragança region was damped down by the greater strategic importance of the border in Alentejo. In any case, S. João de Deus Fort would have an impact on the later urban expansion of Bragança and it was of great importance for housing a cavalry military force within its perimeter for many decades. Even after 1762, when an invading Spanish army selectively

destroyed the fort’s nerve centres, its barracks, designed and reformulated by military engineers, would continue to be home to a military contingent of influence and importance in the city that went far beyond its military role. The gain from this presence pervaded the economic, cultural and social spheres by fostering economic transactions, contact with different forms of culture and giving more dynamism to urban life. However, population growth was severely limited by private residences being obliged to provide shelter to soldiers, until the military housing problem was solved. The restructuring of the Portuguese army and national or international tensions dictated the stationing and departure of the various military units from the city, and more specifically at S. João de Deus Fort. The fort gained new names according to the branch of the army or unit that was stationed there:, i.e. the "Cavalry Fort" and, later on, the "Trinta", due to the presence of the 30th Infantry Regiment. The cavalry was the main unit stationed at the headquarters, although infantry was stationed there from 1911. In 1958, the only military unit in the city, which used the barracks of S. João de Deus Fort in addition to the barracks at the castle, was removed from the city. Military units returned in 1966, when the country was going through a time that required increased effort from the Portuguese Army. The military installations of the Fort underwent refurbishment and expansion that included the construction of new buildings. In 1978, however, the section of the infantry regiment stationed there was officially withdrawn from the city. The buildings have been used to house public institutions. In 2013, the entire space underwent a profound urban change that has allowed modernity and history to complement each other.

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FICHA TÉCNICA

EQUIPA

CATÁLOGO

PROMOTOR

COORDENAÇÃO EDITORIAL

Municipio de Bragança

Prof. Doutor Luís Alexandre Rodrigues

COORDENAÇÃO E GESTÃO DE PROJETO

AUTORIA DOS TEXTOS

Presidente da Câmara Municipal de Bragança, Eng.º Jorge Nunes CONCEÇÃO PROJECTO EXPOSITIVO

Eng.º Jorge Nunes Prof. Doutor Luís Alexandre Rodrigues Dr.ª Rosa Cadime Dr.ª Clara André

Ideias Emergentes Produção cultural crl

DESIGN GRÁFICO

PRODUÇÃO & EXECUÇÃO DE CONTEÚDOS

Departamento (Pedro Regadas e Telmo Sá)

Videocontacto Tecnologias da informação, lda

TRADUÇÕES

Gbliss, lda INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA E CIENTÍFICA

Prof. Doutor Luís Alexandre Rodrigues (Coordenação) Dr.ª Rosa Cadime

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS

Biblioteca Pública Municipal do Porto Direcção de Infra-estruturas do Exército Clara André (pág. 24/25)

COLABORAÇÃO

Major Paulo Rodrigues Direcção de Infra-estruturas do Exército Museu Militar de Bragança

IMPRESSÃO

Greca Artes gráficas EDIÇÃO

DESIGN DE COMUNICAÇÃO

Departamento (Pedro Regadas e Telmo Sá) FINANCIAMENTO

Município de Bragança

Câmara Municipal de Bragança Agosto de 2013


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Centro de Memória Forte S. João de Deus, Bragança  
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