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4 folha da rua larga

maio – junho de 2015

história baú da rua larga

Gamboa dos barões, dos negros e portuários O bairro que abrigou aristocratas e a primeira favela do Brasil Reprodução

Uma enseada de águas calmas na Baía de Guanabara aos pés do Morro do Livramento. Assim era a Gamboa há 200 anos. O nome significa “remanso tranquilo” ou mesmo um lago. No final do século XVIII e parte do século XIX, o local serviu de residência para a aristocracia carioca. O barão da Gamboa, José Manoel Fernandes Pereira, português de nascimento, era fidalgo da Casa Imperial e vereador. Residia na rua de seu nome, no número 24. Possuía terras e um trapiche que o imperador lhe concedeu em 1863. Negociante e político, o barão morreu em dezembro de 1865. Sua esposa, D. Delfina, retornou para a Quinta de Pidre em Vila Nova de Famalicão, em Portugal. Em 1870, as praias da Gamboa e da Saúde, do Saco do Alferes e Formosa, estavam apinhadas de embarcações que afluíam para embarcar e descarregar cargas. Nesta época, devido ao aumento do comércio que ali florescia, discutia-se a escavação das enseadas da Saúde e Gamboa, visando dar profundidade necessária à flutuação dos barcos e navios de calado de 9 metros, e a construção de cais e molhes para embarque e desembarque de passageiros em atendimento à concessão de 90 anos, dada pelo governo imperial ao engenheiro André Rebouças e à firma Stephen Busk & Company. Como os tempos eram de mudanças no Centro do Rio, o Imperador Pedro II, em 7 de setembro de 1870, solicitou ao conselheiro

Rua do Livramento com a Gamboa, em 1920

Paulino a construção de uma escola pública noturna para atendimento dos operários que trabalhavam na Gamboa e bairros mais distantes. Os reclames nos jornais da época eram no mínimo prosaicos. Um deles, com o nome de “Abuso”, dizia que “uma respeitável fábrica da Gamboa mandava lavar seus animais na mesma praia, das três às quatro horas da madrugada”. Enquanto isso, a revista Semana Ilustrada tecia elogios ao engenheiro Rebouças, chamando-o de patriota, pelo lançamento do livro Melhoramentos do Porto do Rio de Janeiro, que organizava a Cia. Docas de D. Pedro II nas enseadas da Gamboa e Saúde. Os elegantes, nas rodas sociais, se fartavam com o rapé Princesa de Lisboa, da fábrica do Domingos da Gamboa, e cobriam suas janelas com vidros da fábrica São Sebastião de Gaspar & Companhia. Assistiam ao Réquiem de Verdi, num sarau sob a ba-

tuta do maestro Napoleão, com a presença augusta do Imperador, no novíssimo Cassino Fluminense. Com o término da campanha militar da Guerra de Canudos, em 1897, o bairro recebeu os contingentes de soldados que foram lutar na Bahia, e o ajuntamento de barracos e casas precárias nas encostas do Morro da Providência recebeu a denominação de favela. Foi a primeira da cidade. Os pobres coitados esperavam uma indenização que nunca chegou. Subiram o morro e seus descendentes estão por lá até hoje. Podemos dividir a história da Gamboa em três fases. A primeira, quando foi o local preferido da aristocracia que buscava a tranquilidade da enseada junto ao mar; a migração dos ricos para outros bairros por conta da construção do porto, permitindo assim, a transformação da área numa pequena África; e o renascimento com os projetos do Porto Maravilha. Berço do samba e das

manifestações da cultura negra, a Gamboa, desmembrada do bairro da Saúde, oficialmente se tornou um bairro em 1981, com um Decreto do então prefeito Marcos Tamoyo, para incentivar o desenvolvimento socioeconômico da Zona Portuária. Atualmente, o grande número de imóveis tombados atesta a importância do patrimônio cultural do bairro: o Cemitério dos Ingleses, atualmente administrado pela fundação British Burial Ground, inaugurado em 5 de janeiro de 1811, para servir de última morada para um almirante inglês, na antiga Enseada

da Gamboa; o Cemitério dos Pretos Novos, localizado recentemente nas escavações da Rua Pedro Ernesto; o complexo fabril do Moinho Fluminense, os Jardins do Valongo e o Cais da Imperatriz; a Fortaleza Militar da Conceição situada no Morro da Conceição, construída em 1718, com 36 bocas de fogo e 1.000 balas de diferentes calibres; a Igreja de Nossa Senhora da Saúde erguida em 1742 e recentemente recuperada pelo BNDES e a Mitra Diocesana. Preservando a cultura local, temos a Sociedade Dramática Filhos de Talma, onde nasceu o clube Vasco da Gama, a sede do Afoxé Filhos de Ghandi e o bloco Pata Preta, que homenageia na Harmonia um dos líderes da Revolta da Vacina. Talvez os viadutos e as obras que se fizeram ao longo de décadas conseguiram esconder e manter a antiga arquitetura, praças bucólicas como a Harmonia e vielas repletas de casarões, principalmente na Zona Portuária. Tudo isso, agora, pode ser visto, apreciado e redescoberto pelos turistas e cariocas: os pequenos morros, os grandes armazéns e os detalhes

de um Rio antigo que ainda está preservado. A retirada do viaduto da Perimetral e a construção da Via Binário fizeram uma limpeza na região. Uma cortina se abriu para mostrar o conteúdo daquele teatro antigo. Parafraseando, podemos dizer que o Porto Maravilha está revelando maravilhas que sempre estiveram encobertas. Como dizia João da Baiana (1887/1974), no samba Cabide de Molambo de 1928: “Meu Deus, eu ando com o sapato furado / Tenho a mania de andar engravatado / A minha cama é um pedaço de esteira / É uma lata velha que me serve de cadeira...” Amigo e parceiro de Donga e Pixinguinha, que se criou na Região Portuária do Rio e foi cocheiro do futuro presidente Hermes da Fonseca, João da Baiana, um dos pioneiros do pandeiro no samba, acerta na letra, pois a Gamboa deixou de ser molambo e passou a respirar ares mais refinados.

aloysio clemente breves pesquisador de história soubreves@yahoo.com.br

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