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4 folha da rua larga

julho – agosto de 2014

história baú da rua larga

Prata preta, pão francês e Filhos de Talma: harmonia na praça Eventos históricos marcantes agitaram o logradouro bucólico da Região Portuária Divulgação

O orixá dança coberto de palha no terreiro. Suas marcas estão escondidas. Ele é o senhor dos segredos da morte, das pragas e doenças. É Omulú ou Obaluaiê, o deus africano que pode espalhar a varíola ou atenuar seus efeitos. O Rio de Janeiro é assolado pela epidemia de varíola em 1904. Pereira Passos, o alcaide reformador, e o médico sanitarista Oswaldo Cruz decidem aplicar a vacina. Estamos diante de um conflito! A Revolta da Vacina! Resistência à medicação salvadora e práticas religiosas em choque. Mostrar partes íntimas de homens e mulheres para os médicos e aplicadores da vacina? Esse procedimento estava fora de cogitação. Surge um líder nos arredores da Praça da Harmonia, na Saúde: Horácio José da Silva, conhecido como Prata Preta. Jovem, forte, alto e exímio capoeirista. Estivador, o guerreiro africano era difícil de ser batido numa luta ou controlado. Em novembro de 1904, barricadas e bandeiras vermelhas foram montadas na praça e a luta se alastrou pelas ruas do Centro do Rio, durando mais de quatro dias. Bondes foram derrubados e ataques foram promovidos por aquele povo

A Praça da Harmonia, com seu bucólico coreto, é uma das poucas a manter a atmosfera do Rio Antigo Reprodução

Numa charge da época, o capoeirista Prata Preta foi retratado como um espantalho

negro, descalço, armado de paus, pedras, navalhas, garruchas velhas, ancorado principalmente na crença inabalável em suas entida-

des protetoras. Diz o ponto: “Meu pai Oxalá é o rei, venha nos valer, o velho Omulú Atotô Obaluaê!”. Prata Preta foi espanca-

do pela polícia. Após muita luta, foi preso e, segundo alguns, deportado para o Acre. Passos e Cruz contiveram a revolta e, graças à vacina, dizimaram a peste da varíola. Hoje, Prata Preta é lembrado em blocos de carnaval e festas juninas que ocorrem na bucólica Praça da Harmonia. Com a comemoração dos 100 anos da Revolta da Vacina, o Bloco Prata Preta, ostentando as cores vermelho, branco e azul em homenagem aos Filhos de Talma e à Vizinha Faladeira, desfilou pelas ruas da Saúde entoando a marchinha de carnaval: “O Prata Preta voltou a circular / Voltou a circular num cordão cheio de alegria / Nas ruas da Gamboa, na Praça da Harmonia”. Ali mesmo, muito perto, está a Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, fundada em 1879, que há mais de 130 anos promove bailes e reuniões sociais. Situada na Rua do Propósito, entre os números 18 e 20, o prédio deteriorado foi interditado em 2012. O nome da sociedade é uma homenagem ao ator francês François-Joseph Talma (1763-1826), um dos preferidos de Napoleão. A boa notícia é que a operação urbana Porto Maravilha fornecerá os recursos necessá-

rios para a reconstrução da sede. A histórica sociedade esteve sempre presente nas artes e na cultura popular, e também foi palco da assembleia que fez nascer o Club de Regatas Vasco da Gama, em agosto de 1898. A praça nos remete às cidades interioranas: é fresca e prazerosa para a modorra do fim de tarde. Revitalizada, a região do Porto recebe novas instalações de inúmeros projetos e o restauro de imóveis históricos. A novíssima Via Binário irá cortar a região e, com a retirada do viaduto da Perimetral, a brisa do mar avançará e vai arejar a região. O pão nosso de cada dia nasce na Gamboa da Saúde. Toneladas de trigo uruguaio, argentino e americano passam pelo túnel subterrâneo com destino às máquinas do Moinho Fluminense. O grande conjunto de prédios de arquitetura inglesa construídos pelo arquiteto Antônio Januzzi, em 1877, com fachadas neoclássicas e vitorianas, tijolos, pedras e óleo de baleia, produz a farinha de trigo para o comércio carioca desde que o Decreto de 25 de agosto de 1887, assinado pela princesa Isabel, autorizou o funcionamento da empresa. Até 2016, o trigo e as máquinas deixarão

o local. Os prédios tombados pelo município foram vendidos pela Bunge, proprietária do moinho. Shoppings, escritórios e espaços culturais vão ocupar os prédios e silos da fábrica. É o renascimento da área portuária. O Moinho Fluminense foi símbolo de resistência na Revolta da Armada em 1893, acolhendo Rui Barbosa, que se refugiou no local por conta da sua amizade com Gianelli, um dos fundadores da fábrica. Também serviu de anteparo para as barricadas montadas na Revolta da Vacina em 1904. O prefácio do livro O porto e a cidade – Rio de Janeiro entre 1565 e 1910, de Paulo Knauss (UFF-RJ), é um belo retrato da diversidade da vida portuária: “Houve um tempo de naus e um tempo de cargueiros, um tempo de escravos e um tempo de trabalhadores livres; um tempo de muita força humana e um tempo de máquinas”. Acrescento: um tempo de modernidade e vida nova para os centenários espaços de Santo Cristo, Gamboa, Saúde, Praça Mauá, Providência, Livramento e Morro da Conceição.

aloysio clemente breves soubreves@yahoo.com.br

Folha da Rua Larga Ed.46  

Folha da Rua Larga 46ª Edição