Revista Aviação Agrícola - Edição 7 - abril/junho 2020

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Júnior Dagostin/Divulgação

ISSN 2675-3928

Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020

ESPECIAL

Voo essencial Indispensável para garantir fibras, alimentos e energia em época de pandemia, a aviação agrícola será essencial também no pós-crise, como sinalizam produtores de algodão e de outras lavouras atendidas pelo setor

Entrevista Presidente da Abrapa fala sobre expectativas do mercado do algodão

Gestão Mentoria do Sindag e Ibravag qualifica lideranças e resultados

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ISSN 2675-3928 Vol . 3 Nº 2 abril a junho/2020

SUMÁRIO

Aviação Agrícola é uma publicação trimestral do Instituto Brasileiro da Aviação Agrícola – IBRAVAG

ESPECIAL

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Coordenação, textos e edição: Castor Becker Júnior jornalista - reg. 8862-DRT/RS

MERCADO E PANDEMIA

Textos: Jane Catarina de Oliveira jornalista - reg. 5857-DRT/RS

Os cenários e perspectivas de mercado para principais lavouras do agro atendidas pela aviação agrícola

Comercial: Romualdo Francisco da Silva E-mail: relacionamentosindag2@gmail.com Fones: (54) 99196-4068 - (54) 99711-2812

Projeto gráfico e diagramação: Beto Soares (Estúdio Boom) Coordenação da revista digital: Júnior Dagostin

INCÊNDIOS

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Empresas e pilotos se preparam para a temporada de fogo em lavouras e reservas naturais

REGULAÇÃO

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Conselho Editorial Antônio Borges Eduardo Cordeiro de Araújo Gabriel Colle Júlio Augusto Kämpf Júnior Oliveira

Solução à vista para demandas do setor, como normativa para drones e digitalização de relatórios mensais

www.revistaavag.org.br

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Presidente: Júlio Augusto Kämpf Vice-presidente: Thiago Magalhães

GESTÃO

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Projeto de mentoria do Sindag e Ibravag qualifica lideranças, com foco em imagem e resultados para 181 empresas aeroagrícolas

PRAGAS

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Após quase 70 anos sem grande incidência no Brasil, uma nuvem gigantesca de gafanhotos mobiliza entidades do Mercosul

Conselheiros: Alexandre de Lima Schramm Bruno Ricardo de Vasconcelos Marcos Antônio Camargo Mário Augusto Capacchi Nelson Coutinho Peña Conselho Fiscal: Jorge Humberto Morato de Toledo Marcelo Amaral Endereço: Rua Felicíssimo de Azevedo, nº 53, sala 703 Bairro São João Porto Alegre/RS, CEP 90540-110

(51) 3237-7961

ENTREVISTA

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Algodão brasileiro ganha espaço no mercado internacional com manejo responsável e alta qualidade

CONGRESSO

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Transferido para 2021, Congresso AvAg tem versão virtual este ano e se prepara para o centenário da aviação agrícola

ibravag@ibravag.org.br

www.ibravag.org.br Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020 Aviação Agrícola

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Graziele Dietrich/C5 NewsPress

EDITORIAL

O NOVO NORMAL E

stamos iniciando o segundo semestre de um ano anormal, devido a pandemia do novo coronavírus. Fomos atingidos por incertezas e pelo desconhecido. Apesar de toda a tecnologia, inteligência artificial, automação e avanços científicos, ficamos completamente vulneráveis e perplexos com as nossas fragilidades, expostas por um inimigo invisível. Na política, enquanto a maioria dos países se voltaram para dentro, discutindo soluções de curto, médio e longo prazos para os setores essenciais de suas economias, aqui ficamos assistindo – perplexos – a uma disputa desnecessária de poderes. O que será da globalização? Como será a dependência externa dos países? Como os mercados vão agir após a pandemia? Qual o futuro do agronegócio no mundo? Qual a importância das tecnologias nas nossas vidas? Aliás, será que seremos cada vez mais tecnológicos e virtuais ou nossas relações interpessoais serão mais verdadeiras e próximas pósCovid-19? Qual será o novo normal? 4

Não sabemos e, talvez, ninguém saiba. A Covid-19 terá impactos significativos e ainda não completamente dimensionados sobre a sociedade. O certo é que o mundo de amanhã não será o mesmo de ontem. É nítido, portanto, que todos os setores produtivos precisam se adaptar, inovar e renovar. E é isso que o Ibravag e o Sindag têm feito. Reuniões virtuais semanais e a edição de 2020 do Congresso da Aviação Agrícola realizada, com total êxito, de forma totalmente online, juntando especialistas e a sociedade em geral. Um exemplo de resiliência e de capacidade de adaptação que deu certo. Reinvenção também será necessária para a nossa agropecuária. É preciso estar atento às mudanças sociais, econômicas e políticas no Brasil. Mesmo com o dólar elevado tornando nossos produtos mais competitivos no mercado externo e fazendo com que o agronegócio fosse, no último trimestre – mais uma vez, o responsável pelo superávit da

Aviação Agrícola Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020

balança comercial brasileira. Temos a certeza de que o agronegócio, com seus mais de 40 subsetores, será fundamental para a recuperação da economia nacional. E um desses subsetores é a globalmente importante cultura do algodão, a fibra têxtil mais consumida no mundo. É por isto que nesta 7ª edição da revista Aviação Agrícola damos destaque ao setor algodoeiro – cultura que movimenta anualmente cerca de US$ 12 bilhões e envolve mais de 350 milhões de pessoas em sua produção e em que o Brasil é destaque, sendo um dos cinco maiores produtores mundiais. Desejamos a todos uma ótima leitura e que consigamos voltar às nossas atividades, com eficiência, resiliência e segurança. Bem-vindos ao novo normal. Júlio Augusto Kämpf Presidente do Conselho de Administração do Ibravag


COVID-19 SINDAG AJUDA AEROAGRÍCOLAS COM PLANOS INDIVIDUAIS CONTRA O CORONAVÍRUS Em parceria com um médico, sindicato preparou ações para serem adotadas sistematicamente pelos colaboradores e parceiros de cada empresa

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Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) está ajudando as associadas a revisarem e (quando é o caso) prepararem seus planos de prevenção e contingência contra a Covid-19. O objetivo é fazer com que todas as 180 empresas ligadas à entidade (70% do total do setor) passem a ter as regras cumpridas de maneira sistemática por todos os seus colaboradores. Segundo o presidente do Sin-

Clique no QR Code para acessar a palestra

REDE: Esboço geral foi apresentado em abril, durante palestra virtual sobre o tema

dag, Thiago Magalhães, a ideia nasceu depois que o Ministério Público do Trabalho passou a exigir o plano em alguns Estados. “O Sindag resolveu incentivar adoção da medida em todas as 23 unidades da Federação onde a aviação agrícola atua, independente da exigência. Isso para reforçar a segurança e a responsabilidade social do setor”, assinala Magalhães. Para isso, o sindicato aeroagrícola conta com a parceria do médico Arivaldo Ferreira Mendes Júnior, do Mato Grosso do Sul. A ideia é aumentar a segurança dos empregados e dirigentes das empresas e seus fami-

liares, além de parceiros e clientes. No último dia 20, Mendes Júnior participou da série Palestras Web do Sindag – apresentando aos empresários o esboço geral do protocolo de prevenção e contingência contra a Covid-19 nas empresas. A partir daí, as empresas passaram a preencher o formulário criado pelo Sindag, informando dados de cada uma, para que o médico adaptasse o protocolo. Desde o início da pandemia, no começo do ano, a aviação agrícola seguiu operando a plena capacidade, por ser considerada atividade essencial para manter a segurança alimentar do País durante a crise.

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Fotos: Castor Becker Júnior/C5 NewsPress

ANJOS DA GUARDA

Aviação agrícola se prepara para a temporada de incêndios 2020 Além do treinamento feito nas empresas que normalmente atuam contra chamas, setor ganhou este ano o curso da Fundação Astropontes

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om a proximidade do mês de julho e o início da temporada de incêndios florestais no Sudeste e Centro-Oeste do País, pilotos agrícolas de todo o Brasil começam a se preparar para as operações contra chamas. Normalmente, os treinamentos são promovidos por empresas aeroagrícolas que atuam na proteção de parques, áreas de preservação e socorrendo produtores rurais contra o fogo em lavouras. Dois exemplos desse caso ocorreram em Goiás, onde operadoras do setor no sudoeste do Estado aproveitaram os meses de maio e junho para afinar suas equipes. Paralelamente, em São Paulo, este ano a Fundação Astronauta Marcos Pontes (Astropontes) também entrou no circuito: preparou seu primeiro curso de combate aéreo a incêndios em campos e florestas. A iniciativa da Fundação Astropontes ocorre em conjunto com a Faculdade de Ciências Aeronáuticas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), de Bauru, e tem parceria com a empresa Pachu Aviação Agrícola, no município de Olímpia (a 435 quilômetros da capital paulista), além do apoio do Sindag e do Ibravag. Com aulas programadas para a semana de 13 a 17 de julho, a ideia veio do aumento da incidência 6

de focos de incêndios florestais verificado em 2019 no Brasil. Um total de 161.236, entre janeiro e outubro, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – 45% a mais do que em 2018 e 84% deles registrados no mês de agosto. EQUIPE DOCENTE Segundo Edson Mitsuya, diretor de Operações da entidade beneficente criada em 2010 pelo então astronauta e hoje ministro da Ciência e Tecnologia Marcos Pontes, foi montado um time de instrutores de peso para o curso. A equipe conta com a especialista em aviação agrícola Mônica Maria Sarmento e Souza – do Ministério da Agricultura e com formação em Aviação de Combate a Incêndios em Campos e Florestas pelo British Columbia Forest Service/Canadá; pela Junta de Andaluzia/Espanha e Governo do Chile. Além dela, o piloto Sepé Tiaraju Barradas e os empresários Astor Schlindwein (Americasul Aviação Agrícola) e Marcelo (China) Amaral, da Pachu. Todos com mais de uma década de experiência em operações contra chamas. “O curso é exclusivamente para pilotos agrícolas que já operam turboélices – aviões maiores e mais potentes que as aeronaves com motor a pistão”, explica Mitsuya. Ele lembra que as aulas estavam inicialmente previstas para junho, mas acabaram adiadas devido à pandemia do novo coronavírus. Além de aumentar o número de pilotos agrícolas capacitados para esse tipo de missão, a ideia é também divulgar as vantagens de contar com a aviação

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em operações contra chamas. “Protegendo reservas, matas nativas e a sustentabilidade ambiental”, completa. No caso da empresa aeroagrícola de Olímpia, além de sediar o curso, Amaral atuará na parte prática do curso, ministrando as aulas com um turboélice agrícola Air Tractor AT- 504, de dois lugares e duplo comando. O avião tem capacidade para 1,8 mil litros de água e, além do trabalho em lavouras e combate a incêndios, também é utilizado em instruções para pilotos que estão começando a voar em aeronaves turboélices. “A expectativa com o curso é muito boa. Os pilotos terão que fazer pelo menos quatro lançamentos de combate a incêndio e terão que acertar o alvo”, explica o empresário.


EXERCÍCIOS Além das aulas teóricas, repassando procedimentos de voo, comunicação e comportamento do fogo, os pilotos também precisam realizar simulações com lançamentos de água

Especialistas ajudam pilotos a aperfeiçoar procedimentos No caso das duas empresas goianas citadas no início da reportagem, o curso mais recente ocorreu na Tradição Aeroagrícola, do município de Caiapônia. Cinco pilotos passaram por um treinamento de dois dias, com parte teórica no dia 2 e prática no dia 3 de junho. No caso, tendo como instrutores a especialista Mônica Sarmento e o piloto Sepé Barradas. “A turma já tinha experiência contra fogo, mas achamos melhor aperfeiçoar o grupo, trazendo gente de peso para falar sobre coordenação com as aeronaves, aproximação e ataque ao fogo, por exemplo”, explica o empresário Lourival Lopes Freitas. O curso contou com a participação também dos mecânicos, técnicos e outros funcionários da Tradição. Cada piloto teve que realizar cinco lançamentos, somando uma hora de voo. Aproveitando o início da entressafra – quando há uma pausa no trato

de lavouras, a empresa terá três aeronaves Ipanema (com motor a pistão e capacidade para 950 litros de água cada) de prontidão, com o suporte de uma caminhonete e dois caminhões para transporte de combustível e equipamento. “Serão cinco pilotos, cinco executores (técnicos agrícolas com especialização em operações aéreas) e dois coordenadores de aviação agrícola (agrônomos) no revezamento. Do começo de julho até o início das chuvas, em setembro”, ressalta Freitas. Conforme o empresário, os casos de incêndios ocorrem principalmente nas lavouras de cana-de-açúcar e milho: na palhada e nas plantas em pé. “Aqui, nós não voamos em áreas de eucalipto ou outras florestas, mas às vezes também temos que proteger nascentes e algumas áreas verdes”, completa. “Todos os anos o pessoal (produtores) passa muito apuro.”

AMARAL: Diretor do Sindag dá instrução em um turboélice agrícola de duplo comando lado a lado Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020 Aviação Agrícola

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Divulgação/Itagro

ANJOS DA GUARDA

Prontidão no campo e ação social na cidade O outro exemplo mencionado foi a Aerotex Aviação Agrícola, no município de Rio Verde (GO). Seus 15 pilotos encarregados da prontidão contra chamas em lavouras ou áreas de preservação tiveram seis horas de aulas teóricas no dia 13 de maio. Os integrantes da chamada Brigada Aérea da Aerotex ainda devem passar em julho pelos exercícios práticos, conforme forem iniciando os plantões. Na primeira etapa, os profissionais (também experientes) revisaram os conhecimentos sobre navegação, meteorologia e fraseologia na comunicação via rádio. Além de segurança operacional, boas práticas e eficiência no combate às chamas. A Brigada Aérea tem este ano cinco aviões de prontidão. Os produtores que resolvem investir no serviço dividem os custos dos pilotos e profissionais de apoio em solo. E, quem acionar a Brigada, paga mais as horas voadas. Como nos dois anos anteriores, desde sua criação, metade do arrecadado pela Brigada Aérea vai para instituições beneficentes de Rio Verde. Segundo o diretor da Aerotex, Ruy Alberto Textor, no ano passado foram distribuídos R$ 158.4 69,00, entre entidades que cuidam de crianças, idosos, dependentes químicos e outras. Isso depois de 140 acionamentos, 220 horas voadas e 1.050 lançamentos de água contra chamas. 8

CAMPOS: Aeroagrícola alegretense teve três operações em pouco mais de um mês na mesma região

No Sul, aeroagrícola de Alegrete lançou 97 mil litros de água em três incêndios No Rio Grande do Sul, com o tempo seco no início do ano, o setor aeroagrícola teve que entrar em ação para proteger campos nativos no município de Alegrete, na região da Campanha. Em apenas três chamados entre março e abril, a empresa Itagro Aviação Agrícola lançou mais de 97 mil litros de água contra as chamas. A ação mais intensa durou 11 horas e foi no dia 20 de abril, uma segunda-feira. Contra um incêndio que atingiu mais de 600 hectares na região de Guaçu-Boi – 50 quilômetros no interior do Município. “As chamas começaram no domingo, mas fomos acionados só no final do dia. Por isso, tivemos que esperar para decolar no amanhecer seguinte”, conta o empresário da Itagro e diretor do Sindag Marcos Antônio Camargo. Quando a primeira aeronave decolou, ao raiar do dia, a equipe de apoio já havia chegado de madrugada em uma pista no interior, a mais próxima do incêndio com disponibilidade de água – a 14 quilômetro das chamas. “O avião (um turboélice Air Tractor 402B, com capacidade para 1,5 mil litros de água) já partiu cheio da base da Itagro e foi direto para o fogo”, conta Camargo. No total, a aeronave fez 62 lançamentos contra o fogo. À tarde, a empresa teve que deslocar um segundo avião para outra frente na área, a fim de eliminar as chamas que chegavam perigosamente perto de residências em uma das fazendas atin-

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gidas. Nesse caso, um Embraer Ipanema, com capacidade para 800 litros de água, que fez outros 17 lançamentos contra chamas. Saldo total da ocorrência em Guaçu-Boi: mais de 81 mil litros lançados contra o fogo. PROTEÇÃO A Itagro ainda lançou quase 16 mil litros de água em outros dois incêndios nos campos alegretenses. Um deles no dia 10 de março e o último no dia 23 de abril. Na operação de março, a missão foi proteger uma área de mata nativa no campo incendiado. “O pessoal em terra estava dando conta do combate, mas havia um ponto de difícil acesso. Por isso, precisaram do avião”, recorda Camargo. Já a última operação foi no dia 23 de abril, em uma área de 30 hectares a cerca de seis quilômetros da pista da Itagro. Novamente com dois aviões em serviço – e um terceiro de prontidão, que acabou não sendo necessário. Foram usados apenas 7 mil litros de água para dar conta do recado. “O vento ajudou, virando no final da operação e soprando na direção já queimada”, completa. “Nesse tipo de operação, sempre contamos também com pessoal em terra, eliminando braseiros e focos menores logo que o avião passa”, destaca o empresário. Aliás, a própria proteção do pessoal em solo também é tarefa do piloto nesses casos.


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Fotos: Castor Becker Júnior/C5 NewsPress

SHOW REGULAÇÃO AÉREO

Segundo semestre será de definição para demandas do setor Chefe da Divisão de Aviação Agrícola do Mapa destaca soluções para a digitalização de relatórios e pulverizações com aparelhos operados remotamente

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odernizar a regulamentação da aviação agrícola e colocar em funcionamento a (tão esperada) plataforma digital para os relatórios das operações aeroagrícolas. Isso além de incrementar a fiscalização de empresas e operadores privados (a pedido do próprio Sindag). Essas são ações no horizonte dos próximos meses no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), segundo a chefe da Divisão de Aviação Agrícola (DAA) do órgão, Uéllen Lisoski Duarte Colatto. Temas que ganharam urgência a partir da pandemia do novo coronavírus, quando o setor aeroagrícola foi considerada indispensável para ajudar o agro a segurar a economia e garantir a regularidade de alimentos e

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NÃO TRIPULADOS Texto elaborado desde 2019 considera classificação de aparelhos com peso até 25 quilos

matérias-primas no País. “A aviação agrícola é e continuará sendo essencial na retomada da economia brasileira”, destaca Uéllen, adiantando expectativas sobre a ferramenta também no póspandemia. Funcionária de carreira do órgão desde 2007, Uéllen assumiu o comando da DAA em julho do ano passado. No mesmo mês, representou o Mapa no Congresso da Aviação Agrícola do Brasil em Sertãozinho, São Paulo. Embora já viesse conversando com a diretoria do Sindag, o evento proporcionou contato simultâneo com toda a cadeia em torno do setor. De lá para cá, ela vem dando andamento a demandas importantes do setor aeroagrícola.


IN dos drones entra em consulta pública até julho Uma das principais demandas do setor aeroagrícola junto ao Mapa se refere à regulamentação do uso agrícola de veículos aéreos remotamente tripulados – RPAs, na sigla em inglês também adotada pelos órgãos governamentais, ou drones, na terminologia popular. Uéllen Colatto explica que a proposta de Instrução Normativa (IN) sobre o tema deve entrar em consulta pública entre junho e julho. “A partir daí, entes públicos e privados e a sociedade em geral poderão participar, apresentando suas contribuições”, ressalta. Será também o último passo antes da versão final da norma entrar em vigor. O que, espera-se, ocorra ainda no segundo semestre. O esboço da IN dos drones ganhou corpo a partir do início de 2019, com a participação do Sindag e do Ibravag. O debate durante o ano envolveu ainda a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef, que deu lugar à Crop Life Brasil), União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e outras entidades e especialistas. A minuta esteve em consulta interna no Mapa até o último dia 27 de maio. Desde 1º de junho, um grupo de técnicos do Ministério vinha avaliando as sugestões recebidas até então e ajustando o texto para submetê-lo ao crivo da sociedade. De um modo geral, a proposta construída até aqui considera a classificação adotada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), segundo o peso dos aparelhos. Assim, a IN do Mapa vai abranger drones de até 25 quilos – Classe III, na regulamentação da Anac. Já para os aparelhos mais pesados (Classe I, mais de 150 quilos, e Classe II, acima de 25 e até 150 quilos) devem valer, por enquanto, as mesmas regras que se aplicam a aviões e helicópteros agrícolas. Além disso, todos os operadores de drones terão que ter curso específico, as operações precisarão ter um engenheiro agrônomo res-

UÉLLEN: setor é e continuará sendo essencial para a economia brasileira

ponsável e os operadores deverão elaborar relatório detalhado de cada operação – como ocorre com os aviões. SEGURANÇA Para o empresário Ulf Bogdawa, fundador e CEO da SkyDrones Tecnologia Aviônica, de Porto Alegre, a regulamentação ajudará no crescimento e desenvolvimento do setor. Além de estabelecer o regramento de segurança operacional e ambiental, a normatização garantirá segurança jurídica para quem trabalha sério no campo. O empresário já havia participado das discussões para a regulamentação dos drones pela Anac – ocorrida em 2017, com a publicação do Regulamento Brasileiro de Aviação Civil (RBAC-E) 94. E agora está presente também nos debates no âmbito do Mapa. “A norma até 25 quilos nos atende, já que as categorias acima (com aparelhos mais pesados) ainda estão na fase de protótipos. A própria indústria do setor ainda não sabe ao certo o que vem por aí”, resume. Membro do Sindag, a SkyDrones foi a primeira empresa de aparelhos não-tripulados no mundo associada a uma entidade aeroagrícola. Segundo Bogdawa, os drones têm um grande horizonte como ferramenta complementar à aviação nas lavouras e nas plantações menores, substituindo, por exemplo, os pulverizadores costais.

Informatização dos relatórios operacionais permitirá raio-X do setor A Instrução Normativa (IN) dos drones pelo Mapa também deverá refletir na informatização dos relatórios mensais de todas as operações aeroagrícolas realizadas no País. Conforme a chefe da Divisão de Aviação Agrícola, a criação da plataforma no Sistema Integrado de Produtos e Estabelecimentos Agropecuários (Sipeagro) teria, ainda nesse mês de julho, conclusão da primeira etapa, para as operações com aeronaves. Já a segunda e última etapa, dos relatórios das aplicações por aparelhos remotos “depende de como ficará a regulamentação dos drones”, adianta Uéllen Colatto. A expectativa, segundo ela, é resolver tudo até final do ano. Conforme o diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle, a contribuição do Mapa, nesse caso, seria inestimável. Não só por simplificar o envio dos relatórios – cujos originais seguiriam obrigados a ficar nas empresas por dois anos à disposição de fiscalizações (como é desde 2008). “Mas por atender a um pedido de mais de uma década do Sindag, de que essas informações pudessem, enfim, gerar relatórios de todo o setor no País.” Para se ter uma ideia da riqueza de dados, todos os operadores – empresas aeroagrícolas e fazendeiros que têm seus próprios aviões – a cada operação registram o produto utilizado, localização, tipo e tamanho da lavoura tratada; tipo, formulação e dosagem do produto, além dos parâmetros técnicos da aplicação, desde a altura do voo e regulagem de equipamentos até a temperatura, velocidade do vento e umidade relativa do ar. A documentação ainda leva os nomes, registros e assinaturas do piloto agrícola, do técnico agropecuário em campo (de presença obrigatória em todas as operações) e do engenheiro agrônomo responsável pela operação. A lista inclui ainda, quando é o caso, o mapa do Sistema de Posicionamento Global Diferencial da aeronave (DGPS, que registra o percurso do avião, cada faixa aplicada e onde o sistema estava aberto ou fechado). “Do ponto de vista estratégico, facilitaria a construção de políticas públicas, as relações institucionais e até, pelo aumento da transparência, a aproximação com a sociedade”, destaca Colle. Para Uéllen, tanto o regramento dos drones quanto a digitalização dos relatórios darão ainda maior suporte para o Mapa reforçar suas ações fiscais. Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020 Aviação Agrícola 11


GESTÃO

Fortalecendo o espírito, valorizando as pessoas e desvendando números Sindag e Ibravag lançam programa inédito de mentoria, com 28 consultores altamente capacitados atendendo gratuitamente 181 empresas associadas

diferentes períodos de entressafra no País. Os encontros são em salas virtuais, por meio de diferentes plataformas de videoconferência – outra condição alinhavada há dois anos e que se adaptou perfeitamente ao cenário de Covid-19.

“R

evolucionário.” É assim que o consultor de empresas e planejamento estratégico Osmar Vicentin, com mais de 20 anos de estrada, define o Projeto Mentoria. A iniciativa do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), em parceria com o Instituto Brasileiro de Aviação Agrícola (Ibravag), vinha sendo gestada há dois anos para, de modo quase profético, sair do papel agora, em plena pandemia do coronavírus. Missão: aprimorar os processos de gestão das empresas de aviação agrícola, com foco no diagnóstico da situação atual, planejamento de longo prazo, sucessão familiar, plano comercial, plano de marketing, desenvolvimento de pessoas, gestão de custos e outros aspectos. Com a ideia de fortalecer o setor, o plano oferecido gratuitamente aos 181 associados da entidade foi baseado em uma verdadeira rede de mentores. São 28 especialistas em planejamento estratégico, gestão de custos, cultura organizacional, coaching, entre outras áreas. Todos aceitaram doar seu tempo para auxiliar as operadoras aeroagrícolas a olharem mais da porteira (ou da porta do hangar) para dentro. Para tanto, cada profissional recebeu entre 5 e 7 empresas para orientar, escolhidas de forma aleatória. O programa teve seu start em 30 de abril e segue até o final do ano, contemplando os associados em seus

Projeto Mentoria complementa o conhecimento que os empresários aeroagrícolas têm da parte técnica, do dia a dia.

VICENTIN 20 anos de estrada e experiência em empresas e entidades do Brasil e Alemanha

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AJUSTES Conforme o diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle, como se trata de um projeto novo, é esperado que ainda ocorram ajustes. “Muitas empresas do setor já têm uma administração top, mas sempre é bom um novo olhar. Além disso, muitos mentores atuam em áreas complementares e alguns já conheciam o setor aeroagrícola. Isso também permite que eles interajam, potencializando os atendimentos”, completa. Caso de Vicentin, que já havia ajudado o Sindag em 2018, na elaboração do Planejamento Estratégico da entidade até 2022. Onde a própria diretoria da entidade e empresários aeroagrícolas de todo o País haviam definido, no Programa de Melhoria Contínua da Aviação Agrícola, o propósito de qualificar todos os gestores do setor nos próximos cinco anos. Com base em Florianópolis, Santa Catarina, e atuação em empresas e entidades empresariais do Brasil e Alemanha, Vicentin destaca que o Projeto Mentoria complementa o conhecimento que os empresários aeroagrícolas têm da parte técnica, do dia a dia. A ideia é fazê-los se posicionar estrategicamente em um cenário onde o mundo necessita cada vez mais de alimentos, mas com o desafio da eficiência: produzir sem avançar a fronteira agrícola. O que, para o consultor exige justamente tecnologias e gestão de ponta, “com a aviação agrícola no centro disso tudo”.


Tânia Viana/divulgação

Meta: ser referência no mercado aeroagrícola Às 9h54 chega o link via WhatsApp para o encontro da manhã, em um sábado agendado entre o consultor Osmar Vicentin e os gestores da Precisa Aeroagrícola Ltda, Hoana Almeida Santos e Flávio Cunha Lemos Filho. O especialista falando de Santa Catarina e os empresários conversando a partir do município de Lagoa da Confusão, interior de Tocantins, onde fica a empresa. A conversa começa às 10 horas, na sala meet.google.com, uma das muitas plataformas utilizadas pelos profissionais do Projeto Mentoria (escolhidas conforme a preferência de mentores e mentorados). Vicentin repassa as tarefas do planejamento desenvolvido a partir do Business Model Canvas (com perguntas sobre nove áreas da empresa para fazer o diagnóstico), enquanto Hoana e Flávio vão relatando avanços e dúvidas.

Em pouco mais de uma hora, novas diretrizes são alinhavadas para os empresários expandirem horizontes, agregando serviços que vão além do período da safra. Diretora-executiva da Precisa, Hoana se entusiasma. “Fui surpreendida e estou adorando”, conta ao refazer o caminho que trilhou nos últimos 12 anos como empreendedora em um setor dominado por homens. Trajetória iniciada em luto, quando seu primeiro esposo faleceu. Era o negócio do casal e ela resolveu enfrentar sozinha esse universo desafiador. Hoje se diz confortável, mesmo tendo passado os primeiros sete anos encontrando soluções sozinha. O que também lhe permitiu conquistar respeito no setor – tanto que hoje é a primeira mulher eleita diretora do Sindag. Atualmente, a empresária tem como sócio seu segundo marido. O

HOANA Começo difícil e respeito conquistado em um mercado predominantemente masculino

engenheiro agrônomo Flávio Cunha Lemos Filho é também seu braço direito. Juntos, buscam agregar valor aos serviços oferecidos pela empresa, que atualmente conta com oito colaboradores. Embora nunca tenha pensado em fazer uma mentoria, o projeto do Sindag/ Ibravag “serviu como uma luva”, diz ela. A meta do casal é tornar a Precisa referência no trabalho aeroagrícola. Para tanto, uma estratégia é oferecer serviços também durante a entressafra. Proposta que está direcionando esforços para o estudo do per fil e necessidades de cada cliente. Um dos “temas-de-casa” da Mentoria e que tem a ver também com a definição do público-alvo da empresa.

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GESTÃO

ALINE: mestrado internacional em Neuromarketing e professora da FGV

Foco no desenvolvimento humano das operadoras Unindo psicologia e neurociência, a professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Aline Dotta acredita que a pandemia está levando as pessoas revisitarem as escolhas feitas no início da carreira. “É o momento de olhar para o próximo e ajudar.” Foi com essa premissa que a mestre em Administração de Empresas com foco em Neuromarketing (pela Florida Christian University, nos Estados Unidos) aceitou o convite para fazer parte do Projeto Mentoria. Seu foco é a gestão de pessoas, o que ela considera o principal desafio para todas as empresas. O trabalho passa por avaliar os recursos de cada empresa e trabalhar o desenvolvimento humano e organizacional. Com demandas que muitas vezes passam por organizar as responsabilidades tanto do dono do negócio, quanto da sua equipe. “Uma característica do setor aeroagrícola diz respeito à formação das empresas. A maioria nascida da paixão do piloto, que comprou seu avião e montou uma pessoa jurídica

Reforço na imagem do setor aeroagrícola Sócio-diretor da Aerodinâmica Aviação Agrícola, no município gaúcho de Erechim, Mário Augusto Capacchi, o Italiano, revela estar entusiasmado com o trabalho desenvolvido pelo Projeto Mentoria em sua empresa. Orientado por Aline Dotta, ele conta que a iniciativa do Sindag/ Ibravag se encaixou perfeitamente em seus planos, já que há tempos pensava em submeter a empresa ao diagnóstico de um profissional em gestão. Mesmo com o processo ainda em andamento, já percebe uma nova postura dos colaboradores em relação à empresa. “Um outro olhar”, resume. Para Capacchi, a mentoria

dará uma nova imagem para todas as empresas que aproveitarem a oportunidade. “A maioria das empresas aeroagrícolas começa com o piloto comprando, um, dois, três aviões, muitas vezes sem dar a atenção adequada a áreas como finanças e administração.” Ele destaca a importância das ferramentas de gerenciamento que permitem ao gestor desenvolver o que de melhor cada pessoa na empresa tem a oferecer. Na mentoria, Capacchi ainda conta com o auxílio da funcionária Vanessa Pasquali. Segundo o empresário, pessoa chave nessa missão de gerenciar uma equipe que atua em operações no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

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para prestar o serviço e cresceu”, resume Aline. “Assim, passam de pilotos a empreendedores. Nesta mudança de rotina, muitas vezes, têm um choque de realidade.” O que, segundo ela, não é prerrogativa só da aviação agrícola. “Trata-se de um desafio comum a diferentes áreas”, comenta, com a autoridade de quem já atendeu mais de 280 empresas, de setores diversos. “Mas é diferente ser piloto e ser empresário.” Como empresários, os operadores precisam aprender a delegar funções, organizar uma rotina e desenvolver as pessoas. Em resumo: é sair do papel operacional e ir para o papel de gestor. Assim, segundo a consultora, sua contribuição é provocar o autoconhecimento e o desenvolvimento da inteligência emocional. Em resumo, ajudando o dono da empresa a gerenciar melhor a sua equipe e, também, a si mesmo. Isso a partir da consciência dos seus pontos de melhor performance e os pontos que precisa desenvolver.


Vontade, garra e sonho não são suficientes

AERODINÂMICA: Empresa de Erechim atua no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina

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Foto: Bruna Back/divulgação

SCOLA: Foco em relacionamento interno, atendimento e inovação

Consultor em Transformação Cultural Alinhamento Organizacional, o engenheiro Roberto Scola faz uma analogia com a invenção do avião para mostrar a importância do conhecimento técnico para se atingir metas. “Como para voar não basta ter asas, garra e vontade – é preciso conhecer os princípios da física (...), também não basta só ter vontade, garra e sonho para ser gestor.” Scola considera fundamental que o administrador do negócio tenha claro a filosofia de trabalho, bem como os planos táticos em cima dessa filosofia. “Essa cultura organizacional também deve ser comunicada a todos os colaboradores, dando uma unidade à organização”, assinala. Ele ainda reforça a urgência dessa atitude no quadro atual. “A Covid-19 deixou o mercado instável, exigindo uma gestão ágil e dinâmica para enfrentar as demandas que surgem a cada dia.” Por cultura organizacional, Scola se refere a aspectos de relacionamento interno, atendimento e inovação. Ou seja, como a organização quer ser conhecida no mercado. “Coisas das quais não se abre mão, especialmente em tempos de crise e de poucas oportunidades.” O que abrange, por exemplo, comprometimento social e responsabilidade ambiental. “A empresa aeroagrícola precisa mostrar que faz mais que prestar serviço de pulverização”, conclui.


GESTÃO

Olhar renovado sobre o mercado Como as demais empresas que atuam no Mato Grosso, a Garra Aviação Agrícola, situada em Primavera do Leste, enfrenta a concorrência direta de grandes produtores rurais que resolveram adquirir suas próprias aeronaves para o trato de suas lavouras. Segundo o sócio-gerente Ticiano Tomazi Bürgin, situação que exige esforço extra de gestão, para garantir (e mostrar) as vantagens da terceirização. Ainda mais considerando o fato de que os produtores têm menos encargos legais do que as empresas para operarem suas aeronaves. Situação que também tornou o Projeto Mentoria precioso para os

TICIANO: Empresário também atua como piloto na empresa em Mato Grosso

empresários locais. Assessorado pelo consultor Roberto Scola, Ticiano está focando mais na organização financeira e no cliente. Ele reconhece que o tempo na atividade – além de piloto, é operador aeroagrícola há 18 anos – fez com que descuidasse de

pontos que considera importante no relacionamento com o mercado. “A mentoria trouxe um novo olhar para o nosso negócio”, comenta, explicando que a empresa é gerenciada por ele e sua esposa, Andréia Soares Marques, e reúne 12 funcionários em época de safra.

Cabeça nas nuvens, mas com os pés sempre no chão Ser sustentável no período da entressafra é o grande desafio das empresas de aviação agrícola, segundo o educador corporativo empresarial Plínio Fernando Ribeiro. Como aeromodelista, o consultor do Projeto Mentoria se sente à vontade para ser provocativo: “É muito interessante ter a cabeça nas nuvens, mas com os pés no chão.” Isto é, quando o avião pousa, começa a gestão do negócio. Psicoterapeuta transgeracional e com MBA em Marketing, ele explica uma das carências do setor. “Tudo está na cabeça do piloto e a retaguarda, em solo, nem sempre tem conhecimento de gestão comercial ou de mídia. Ou mesmo de risco em relação à sazonalidade para investir e fazer com que, quando todos pousarem, a empresa continue voando.”

Ribeiro também destaca a providência da mentoria ter chegado neste momento em que a sociedade está às voltas com o coronavírus e sem certezas no amanhã. “Quem fizer um bom plano neste momento, vai se dar muito bem. Já aqueles que fizerem um planejamento mediano vão achar que esse trabalho não serve para nada.” E, de novo, provoca: “O empresário frente aos desafios 20/21 será um terreno fértil ou árido para as mudanças?” A resposta ele mesmo dá e é simples: “precisa ser um terreno fértil”. E isto, explica, não é dizer sim para tudo. É estar aberto ao que é bom. O mentor lembra que a Covid-19 tornou imediatas exigências que o mundo teria daqui a cinco ou oito anos. Veio o distanciamento social e o home-office, logo, reuniões

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de trabalho ou sociais passaram a exigir investimento em uma boa estrutura de Internet para videoconferências. “As próprias mentorias estão sendo oferecidas por meio dessas ferramentas.” Ribeiro também bate na tecla da gestão de pessoas – não é por acaso que sua empresa se chama Consultoria de Gente. “Além de entender do corebusiness, que é voar, pulverizar e fazer a manutenção do avião, o gestor precisa cuidar da saúde da empresa – gestão financeira, de marketing, comercial e de clientes. Ele tem que cuidar da saúde da terra do cliente e da saúde dos que compõem a empresa – da esposa que é gerente financeira, do irmão que é piloto e sócio; dele, que voa em outro lugar e dos demais funcionários.”


CONFIRA A LISTA DOS MENTORES

Com a mente aberta para evoluir Atento às orientações do consultor Plínio Fernando Ribeiro, o diretor da Pulvesul Aviação Agrícola, Sandro Marques da Cruz, revela estar otimista com os resultados que poderá obter a partir do Projeto Mentoria. “A gente aprende muita coisa com o olhar de alguém que pensa fora da tua caixinha”, ressalta. A operadora aeroagrícola tem sede em Itaqui, no oeste gaúcho, e atua também em São Paulo, onde presta serviço em lavouras de cana de uma usina de cana-deaçúcar. Cruz, que também é piloto,

Aline Dotta

gerencia dez funcionários diretos e quatro prestadores de serviço. Ele admite que boa parte da administração da aeroagrícola é intuitiva. Por isso, conta que o programa oferecido pelo Sindag/ Ibravag chega em boa hora, oferecendo a profissionalização de que necessita. O processo ainda está no início, na fase de diagnóstico. Mas ele se diz contente e com a mente aberta ao novo. “Quando alguém pontua uma situação diferente, é interessante pensar o que pode adaptar, o que a empresa pode evoluir com isso.”

Ana Letícia Lunardi Andrei Daniel dos Santos Daiana Fiorentin Wendler Dayane da Silva Jakel Diego Brugnera Edina Pereira Ezequiel Schumann Rosa Gilson Sálvio Zimmermann Jean Pier Xavier de Liz Júnior Oliveira Rafael Jun Mabe Luiza Utzig Modesti Marcia Rodrigues Capellari Marília Guenter

SANDRO Gestor e piloto na empresa que opera no oeste gaúcho e no interior paulista

Pamela Fiuza Roberta Bonet Rodrigo Carrijo Romualdo Francisco da Silva Vanderlei Feldmann Osmar Vicentin Luciano Giannini Gabriel Colle Plinio Fernando Ribeiro Eng Donario Lopes de Almeida Robson Mendonça Vânia Stoco Tomé Roberto Scola

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CAPACITAÇÃO

Confira os temas e seus instrutores

Sindag inaugura Academia de Segurança via web Iniciativa inédita no País tem procura acima do esperado e, em duas edições, já com pedidos de novos módulos mais avançados

D

uzentos e vinte profissionais da aviação agrícola, entre empresários, pilotos, técnicos e administradores participaram das duas primeiras edições da Academia Brasileira de Segurança de Voo Aeroagrícola, ocorridas em maio e junho. Promovida pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), a iniciativa conta com o apoio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e da Agência Nacional de Aviação Agrícola (Anac) e é inédita no País em seu formato. São 18 horas de palestras e debates por meio de videoconferências, em cinco dias de atividade e com 14 especialistas de diversas áreas. “O currículo abrange temas como gerenciamento de risco, manutenção, planejamento operacional, fadiga humana, protocolos de investigação, legislação e estatística de acidentes, entre outros”, destaca o coordenador da Academia, Júnior Oliveira. “Com a entrada da Anac como apoiadora da iniciativa (a partir da segunda edição), conseguimos reunir o tripé formado por entidades empresarial, civil e órgão militar do setor aeronáutico, todos em um propósito: segurança operacional de voo aeroagrícola”, completa. Oliveira lembra que a primeira edição teve ainda a participação do diretor-

•Gerenciamento do Risco Aeroagrícola Agadir Mosmam •Estatísticas de Acidentes Agrícolas -Fator Contribuinte Nilson Luiz Pires de Souza •Aerodinâmica no Contexto da Aviação Agrícola Enio de Cezere •Vistoria de Segurança Operacional Milton Cardoso de Lima •Protocolos de Investigação SIPAER (Estudo de Caso) tenente-coronel aviador Carlos Henrique Baldin •Prevenção de Acidentes Aeronáuticos tenente-coronel aviador Carlos Henrique Baldin OLIVEIRA: iniciativa envolve entidades empresarial, de regulação civil e órgão militar do setor aeronáutico

executivo da Fearca, Danilo Cravero. O executivo argentino conversou com os profissionais brasileiros sobre os desafios do setor e o trabalho realizado em seu país. Para o presidente do Sindag, Thiago Magalhães Silva, o novo modelo de treinamento em segurança é “um trabalho de alto nível, com um bom aproveitamento e grande participação do setor.” “Ficamos surpresos pela alta receptividade da iniciativa, com as inscrições para as duas primeiras turmas se encerrando mais de uma semana antes do prazo”, destaca Magalhães. A primeira turma fechou com 120 participantes e com 50 interessados já na fila de espera pela segunda edição – que acabou limitada a 100 vagas para otimizar a participação de todos nos debates. Além disso, a grande maioria dos participantes já manifestou desejo pela realização de um segundo módulo, elevando o nível dos temas. OFICIAIS O chefe do Cenipa, brigadeiro do ar Adolfo Aleixo da Silva Júnior, parabenizou o Sindag pela iniciativa, assim como os 14 instrutores da Academia. “Atividades como essa são muito importantes para a prevenção de acidentes e serão sempre incentivadas e apoiadas pelo Cenipa”, destacou.

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•Aspectos Jurídicos do SIPAER Geovane Machado Alves •Prevenção de Acidentes na Manutenção Aeroagrícola Milton Cardoso de Lima •CTM-Registros de Manutenção Tatiane Coutinho •Reação a Mudança (Erro Humano) Caroline Venzon •Planejamento Operacional na Aviação Agrícola Alan Poulsen •Perda de Controle-Colisão com Obstáculo Alexandre Derivi Endres •SGSO –Sistema de Gerenciamento de Segurança Operacional José Eronde Quadros Junior •NR31 Paulo Matielo •RELPREV/RCSV/RAC (Relatórios específicos) André Luís Raimann •Fadiga Humana e Automedicação capitão médico Anderson Ravy Stolf

Empolgação compartilhada também pelo chefe do Quinto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa V), tenente-coronel aviador Carlos Henrique Baldin. “Não tem como não estar feliz com o retorno positivo, mesmo com o distanciamento social (pela pandemia da Covid-19)”, resumiu. “Não teríamos o alcance que tivemos com esse evento, dessa forma, se o tivéssemos feito da maneira tradicional (com encontros presenciais).”


Castor Becker Júnior/C5 NewsPress

RADIOGRAFIA

Pesquisa traçará perfil socioeconômico das empresas aeroagrícolas do País Parceria entre o Sindag e a Faculdade Imed abrange as 181 associadas do sindicato aeroagrícola, em 23 Estados, representando 70% do setor

U

m retrato profundo e sistematizado da estrutura e do trabalho realizado pelas empresas aeroagrícolas, em todos os 23 Estados onde o setor atua. Esse é o foco da pesquisa Perfil de empresas e empresários da aviação agrícola no Brasil, que está sendo feita pela Faculdade Imed de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em parceria com o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). O trabalho abrange as 181 associadas ao Sindag – que, por sua vez, representam 70% das empresas aeroagrícolas do Brasil. O estudo começou em maio e, além do raio-X do setor (que deve ser concluído até agosto), está prevista também a elaboração de cartilhas e formações voltadas para a saúde mental, relações humanas, segurança e outros fatores. A pesquisa está a cargo da mestranda em Psicologia Carine Tabaczinski e da psicóloga Tainá Broetto (formada pela Imed). A coordenação é do professor Carlos Costa (doutor em Plant Science), que atua nos Programas de Pós-Graduação (PPG de Mestrado) da Adminis-

A pesquisa está a cargo da mestranda em Psicologia Carine Tabaczinski e da psicóloga Tainá Broetto tração e da Psicologia. Pelo convênio entre a Imed e o Sindag (assinado ainda em abril), o sindicato aeroagrícola está investindo um total de R$ 5 mil em uma bolsa-auxílio para a pesquisa. O estudo deve gerar ainda artigos para publicações científicas no Brasil e no exterior e seus resultados serão apresentados durante o Congresso da Aviação Agrícola do ano que vem, em Sertãozinho, São Paulo. QUALITATIVO “Esse é o começo de uma relação que esperamos ser longa”, explica Carlos

Costa. O professor do PPG da Imed comenta que não existem muitas informações publicadas sobre o qualitativo das empresas e frota aeroagrícolas. “Primeiro, estamos conhecendo o perfil de cada uma. Em um segundo momento, vamos avaliar os níveis de bem-estar dos trabalhadores, ver quais são as empresas familiares ou não e ouras características”, conta Carine Tabaczinski. Atualmente, o Brasil tem a segunda maior frota aeroagrícola do mundo, com 2.280 aeronaves, conforme a última versão do levantamento anual realizado pelo consultor e ex-diretor do Sindag Eduardo Araújo – com base no Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), da Anac. Segundo o diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle, a parceria com a Imed vai resultar no incremento das ações estratégicas junto às associadas (capacitação de lideranças, formação de profissionais e outras frentes de trabalho), além de reforçar as ações institucionais junto a autoridades e sociedade em geral. “Vamos ter um perfil socioeconômico do setor, nacional e por regiões”, resume.

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Senasa/Divulgação

EMERGÊNCIA

Uma nuvem com 400 milhões de insetos se originou no Paraguai e viajou mais de mil quilômetros, chegando a cerca de 140 quilômetros do Rio Grande do Sul, na província de Corrientes

D

epois de mais de 70 anos sem a incidência em grande escala de uma praga de gafanhotos no Sul do Brasil, uma nuvem de insetos próximo à fronteira gaúcha com a Argentina colocou em alerta, no final de junho, autoridades, produtores rurais e empresas de aviação agrícola no Estado. A luz vermelha no lado brasileiro acendeu quando os insetos, originados quase mil quilômetros ao norte, já em território paraguaio, chegaram à província argentina de Corrientes. Já no dia 23 e 24 de junho, intensificaram-se as conversas entre a ministra da Agricultura brasileira, Tereza Cristina, o secretário de Agricultura do Rio Grande do Sul, Covatti Filho, envolvendo também o Sindicato Nacional das Empresas de

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Aviação Agrícola (Sindag) e outras entidades do agro. “Ainda no dia 23, havíamos enviado à ministra Tereza Cristina e ao secretário Covatti Filho ofícios colocando o setor aeroagrícola à disposição para o uso de aviões contra a praga, logo que ela entrasse no Estado”, ressalta o presidente do Sindag, Thiago Magalhães Silva – que atualmente também preside o Comitê Mercosul e Latino-Americano de Aviação Agrícola. A discussão em nível governamental envolveu ainda o deputado federal Jerônimo Goergen (PP/RS) e o senador gaúcho Luis Carlos Heinze (PP). A nuvem que entrou em Corrientes teria cerca de 10 quilômetros de extensão por três de largura, com mais de 400 milhões de gafanhotos.


Mais de 50 aviões prontos na fronteira No dia 27 de junho, o presidente Thiago Magalhães e o diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle, tiveram uma videoconferência com empresas aeroagrícolas de Uruguaiana, na fronteira oeste gaúcha. O objetivo foi repassar com os empresários a quantidade de aeronaves disponíveis imediatamente para uma ação contra gafanhotos, caso a nuvem sobre a Argentina se desviasse para o território brasileiro. O encontro, via web, ocorreu horas depois em uma operação da aviação agrícola argentina contra a nuvem de insetos, na região de Curuzú Cuatiá, na província de Corrientes – a 140 quilômetros da fronteira (veja na página 22). “Iniciamos uma contagem tendo em vista que, sendo entressafra de algumas lavouras, é comum os empresários aproveitarem para a manutenção periódica das aeronaves”, comenta Magalhães. Além dos 10 aviões em condições de voo em Uruguaiana, a contagem abrangeu também operadores da fronteira sul, com o Uruguai. No total, eram mais de 50 aviões em condições para ações imediatas junto aos vizinhos do Mercosul. Lembrando que o Rio Grande do Sul tem a segunda maior frota aeroagrícola do país, com 426 aeronaves em todo o seu território. PRONTIDÃO

VORAZ A espécie de inseto presente na Argentina é a do gafanhoto sul-americano (Schistocerca cancellata), diferente do gafanhoto do deserto (Schistocerca gregaria), presente na África. Mas ambas rápidas e altamente destrutivas.

Aviação agrícola brasileira tem mais de 50 aeronaves só na região de fronteira gaúcha

Insetos suficientes para dizimar lavouras inteiras em apenas um dia, onde quer que pousassem. A título de comparação, uma nuvem de apenas um quilômetro quadrado consumiria, em uma pastagem, o mesmo que 2 mil vacas em um dia. Em uma lavoura, o ataque equivale ao consumo de 35 mil pessoas. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) agiu rápido e, em 25 de junho, publicou a Portaria nº 201/20. O documento declara emergência fitossanitária pelo risco da invasão de gafanhotos em áreas de produção agrícola do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A medida vale por um ano e, além de permitir ações emergenciais, impulsionou a elaboração de um plano permanente de ação contra a praga. Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020 Aviação Agrícola 21


Crédito: Senasa/Divulgação

EMERGÊNCIA

Técnicos argentinos no encalço da nuvem

Técnicos argentinos estão há semanas monitorando a nuvem, mapeando locais onde ela pousa e é possível fazer o combate

Desde o ingresso da nuvem de gafanhotos na província de Corrientes, em junho, o Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (Senasa), do Ministério da Agricultura argentino, vinha em seu encalço esperando o momento pra que ela assentasse em um ponto onde pudesse ser mapeada. Isso para que se tivesse coordenadas que permitisse uma aplicação de inseticida, por equipe a pé ou, de preferência, por avião agrícola. A oportunidade surgiu no dia 26 de junho, quando uma operação aérea eliminou cerca de 15% dos insetos. Eles haviam pousado para passar a noite em

os insetos passaram a percorrer distâncias curtas, mas pousavam em áreas próximas a banhados ou onde só é possível chegar a cavalo, o que dificultou a aproximação por terra. No lado brasileiro, seguia o alerta, mas, segundo o fiscal agropecuário Juliano Ritter, da Secretaria de Agricultura gaúcha, ao menos nas próximas semanas o frio estaria pouco convidativo para os gafanhotos. Encarregado do monitoramento contra a nuvem na fronteira do Estado, Ritter se tornou uma das principais referências para os produtores em uma faixa de 300 quilômetros.

uma área de 70 hectares no interior do município de Curuzú Quatiá. Dali eles foram perseguidos até a região norte do município de Sauce, onde outra aplicação aérea eliminou mais 15% da nuvem, estacionada em uma área de 115 hectares. Conforme o representante local das Confederações Rurais Argentinas (CRA) Martin Rapetti, a aplicação foi considerada satisfatória devido às condições da área: a vegetação densa em alguns pontos protegeu os gafanhotos. A partir daí, até o fechamento desta edição, os técnicos do Senasa seguiam perseguindo a nuvem. Devido ao frio,

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MONITORAMENTO


Sindag teve encontros com parceiros do Mercosul Paralelamente às articulações no Brasil, o Sindag buscou informações sobre a crise dos gafanhotos junto à Federação Argentina de Câmaras Agroaéreas (Fearca) e ambas tiveram depois uma videoconferência com a terceira entidade coirmã da região: a Associação Nacional de Empresas Aeroagrícolas Privadas do Uruguai (Anepa). A partir daí, as três entidades promoveram um segundo encontro no dia 2 de julho, com a participação também de autoridades governamentais dos três países. O encontro contou ainda com representantes de parlamentares e mais de 20 entidades do Brasil, entre órgãos governamentais (Embrapa, secretarias estaduais de Agricultura e outras), além de entidades de classe, associações de produtores e universidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, mato Grosso, Mato Grosso do Sul e até do Maranhão. Do Mercosul, participaram também o Ministério da Agricultura Uruguaio e representantes do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (Senasa), do Ministério da Agricultura argentino. HISTÓRICO O objetivo foi nivelar as informações entre os técnicos, autoridades e operadores aeroagrícolas sobre o histórico, cenário e perspectivas quanto ao problema na região. Um dos destaques foi a apresentação do chefe do Programa Nacional de Gafanhotos e Ticuras do Senasa, Hector Emílio Medina. Ele relatou o histórico das ações de combate a gafanhotos em seu país desde a fundação do Programa, em 1897. “Historicamente, a maior praga na região ocorreu em 1994, quando os gafanhotos chegaram até a Patagônia”, comentou. A incidência de grandes nuvens chegou a ser considerada extinta em 1954, mas elas retornaram nos anos 60. Conforme Medina, o Senasa detectou o aumento, desde 2015, na incidência de grandes nuvens de gafanhotos na região entre a argentina, Paraguai e a Bolívia. O coordenador do Programa de Gafanhotos destacou que a nuvem que agora chegou à província de Corrientes havia sido detectada pela primeira vez em 11 de maio, quando o Serviço de Qualidade e Sanidade Vegetal do Paraguai (Senave) alertou o governo argentino de que uma nuvem de gafanhotos estava se deslocando pela região do Chaco rumo sul.

MEDINA: coordenador do Senasa mostrou o cenário da praga na região, com as últimas posições dos ganhotos em corrientes (pontos vermelhos)

Esboço para um programa permanente no Brasil O encontro com autoridades e parceiros do Mercosul teve também a apresentação do Sindag do plano preparado pela entidade para um programa permanente para controle de pragas de gafanhotos no Brasil. Isso a partir dos protocolos do Senasa e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O documento segue sendo avaliado pelo Mapa e abrange dados sobre as características dos insetos e sua voracidade, as formas de combate em cada estágio e a tecnologia disponível no País. Os produtos para aplicações também são relacionados no texto preliminar do sindicato aeroagrícola, que se baseou ainda em recomendações da FAO. O documento abrange dados sobre as características dos insetos e sua voracidade, as formas de combate em cada estágio e a tecnologia disponível no País. O estudo reforça ainda os requisitos legais para as empresas aeroagrícolas operarem, além de recomendar a exigência de tecnologias de ponta, como fluxômetro (controla o fluxo de produto de acordo com a velo-

cidade do avião) e bicos e atomizadores com capacidade para gerar o tamanho correto de gotas para cada tipo de operação. A lista abrange ainda o sistema de posicionamento via satélite com sinal diferencial (DGPS, que tem precisão de centímetros) com capacidade de gravação de toda a operação. O documento inclui também técnicas de combate – de preferência, com os gafanhotos no solo, ao final da tarde ou início da manhã (quando a nuvem se condensa em área menor). E, em casos especiais, sobre a nuvem em voo. A equipe do sindicato aeroagrícola que elaborou o Plano de Ação contou com quatro especialistas, todos agrônomos: a doutora em Biologia e pós-doutora em Bioquímica e Fisiologia Andréa Brondani da Rocha; o doutor em Entomologia Maurício Pasini, da Unicruz, e o doutor em Produção Vegetal (sistemas automáticos de pulverização), Henrique Borges Neves Campos. O quarto especialista é Eduardo Cordeiro de Araújo, um dos pioneiros em tecnologias aeroagrícolas no Brasil.

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ENTREVISTA ENTREVISTA MILTON GARBUGIO

José Medeiros

Presidente da Abrapa

VOLTA ÀS ORIGENS Em 2000, o então pecuarista e produtor de milho e soja começou a produzir algodão, que logo se tornou o carro-chefe de sua fazenda em Campo Verde, no Mato Grosso

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Algodão brasileiro tem safra recorde e aposta no manejo responsável para ampliar mercado externo Presidente da Abrapa, Milton Garbugio vê a aviação agrícola uma ferramenta de manejo necessária para manter a qualidade da fibra produzida no Brasil e aponta falta de disponibilidade das operadoras aeroagrícolas em determinadas regiões

A

safra do algodão 2019/2020 deve chegar à casa dos 2,86 milhões de toneladas colhidas. Desse montante, estima-se que 1,95 milhão de toneladas sejam exportadas. Um recorde na série histórica, mantendo o Brasil na quarta posição no ranking mundial de produção e o segundo maior exportador da fibra, atrás somente dos Estados Unidos. Posição alcançada com a safra 2018/2019, resultado do trabalho contínuo de entidades setoriais, como a Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), presidida por Milton Garbugio (2019/2020). Cotonicultor desde 2000, somou a atividade à produção de milho, soja e pecuária, mas logo o algodão se tornou o carro-chefe de sua fazenda em Campo Verde, no Mato Grosso, Estado que lidera a produção brasileira da pluma, seguido da Bahia. Garbugio também preside a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e entende que o principal desafio do setor é abrir mercado no exterior. Segundo ele, para conquistar e manter espaço são imprescindíveis as boas práticas socioambientais adotadas pelos cotonicultores brasileiros, produzindo um algodão responsável. A qualidade alcançada na fibra vem da tecnologia de ponta no manejo, do plantio à colheita, evitando assim a contaminação da pluma. Neste processo, as pulverizações aéreas são fundamentais, principalmente no combate ao bicudo, principal praga nesse tipo de lavoura. A sua família plantava algodão no Paraná e, ao mudar para o Mato Grosso, focaram em outras culturas. O que fez voltar ao algodão no ano de 2000? Milton Garbugio - No Paraná, meu pai plantava algodão, mas era aquela lavoura braçal. Aquela lavoura pequena, que não tem nada a ver com a desenvolvida hoje. O manejo mudou totalmente. O que me levou a plantar algodão no Mato Grosso foi o lado econômico. O algodão dá dinheiro? Sim. Por isso, resolvi plantar algodão. Não foi pela tradição. Inclusive, eu não tinha conhecimento nenhum da lavoura de

Para o presidente da Abrapa, “a aviação agrícola trouxe um grande avanço devido à agilidade e eficiência, porque o algodão é uma cultura que cresce e fecha”. Além disso, como o cultivo é de longo prazo – em torno de 200 dias para a colheita, a variação climática, como muitas chuvas, pode impedir a entrada de máquinas terrestres na lavoura. Isso sem contar que a pulverização aérea evita dano mecânico e conta com uma legislação severa e tecnologias de ponta: o que favorece tanto a fiscalização por organismos governamentais quanto o controle por parte do produtor. Se dentro da porteira o manejo é determinante para a qualidade do algodão colhido, no outro lado a reputação também faz a diferença. Atualmente, conforme o portal Sou Algodão, 30% da fibra licenciada pela Better Cotton Iniciative (BCI) do mundo saem das lavouras brasileiras – a BCI licencia pouco mais de 70% da produção total. Ele ainda comemora as boas notícias do setor, como a agilização do embarque das exportações no Porto de Santos, de 2019 para 2020, e prevê que o algodão brasileiro pode um dia se tornar referência mundial, como ocorreu com a soja. Além da liderança de diferentes entidades setoriais do algodão, Garbugio também tem no currículo a política partidária: atualmente é vice-prefeito de Campo Verde, distante 130 quilômetros de Cuiabá.

O Brasil está aumentando muito a produção e precisamos colocar esse algodão no mercado mundial. Principalmente na Ásia, nosso carro-chefe

algodão. Quem tinha era meu pai. Na época, no Paraná, eu era muito jovem, adolescente, não conhecia nada. Eu ia ajudar a colher algodão com a mão e via como se trabalhava. Quando o senhor e sua família se mudaram para o Mato Grosso? Milton Garbugio - Eu vim para o Mato Grosso em 1983. Nós éramos uma família de nove irmãos e viemos em busca de oportunidades. O senhor assumiu a presidência da Abrapa em 2019. Qual é a sua principal preocupação como dirigente da entidade setorial?

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ENTREVISTA ENTREVISTA MILTON GARBUGIO Presidente da Abrapa

Milton Garbugio - Hoje, a maior preocupação do produtor de algodão é a liquidação da produção. Isto é: entregar os contratos firmados. O Brasil está aumentando muito a produção e precisamos colocar esse algodão no mercado mundial. Principalmente na Ásia, que é o nosso carro-chefe em termos de exportação da fibra. Enquanto o Brasil é novo na exportação do produto, há muitos países que já são tradicionais no mercado. Mas aos poucos vamos conquistando espaço.

O algodão brasileiro tem qualidade igual a do algodão produzido nos Estados Unidos, igual ao da Austrália e igual ao algodão produzido em Israel

O Brasil exporta desde quando? Milton Garbugio - Em pouco volume, o Brasil exporta há mais de dez anos. Mas, de quatro a cinco anos para cá, estamos aumentando a quantidade vendida para o mercado externo. Se pegar as últimas duas safras, a exportação dobrou. Hoje, aparecemos no ranking como o segundo maior exportador de algodão do mundo. Na seção Palavra do Presidente, no portal da Abrapa, o senhor diz que o algodão é uma das culturas agrícolas mais futuristas. Como se dá o investimento em tecnologia? Milton Garbugio - No Brasil há poucas instituições que trabalham com pesquisas e desenvolvimento do algodão. Hoje temos parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que é uma parceira na busca de melhoria na parte de biotecnologia. Mas existem algumas instituições privadas, como o IMAmt (Instituto Mato-grossense do Algodão) e a TMG (Tropical Melhoramento & Genética), em Rondonópolis (ambas no Estado), que também trabalham no desenvolvimento de pesquisas em algodão. Hoje, em nível de Brasil, praticamente são essas três instituições que fazem estudos em biotecnologia em variedade e desenvolvimento. Depois, temos as multinacionais, como Bayer e a Basf, que são globais e desenvolvem pesquisas no mundo inteiro.

Quais as perspectivas em melhorias de sementes, manejo e do fio? Milton Garbugio -Há novidades a caminho. A biotecnologia trabalha muito a melhoria da qualidade do algodão, melhoria da qualidade da fibra e a redução do custo. Buscamos tecnologia para reduzir o uso de defensivos. Hoje, com a própria transgenia há variedades

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de algodão que tiveram reduzida a necessidade de aplicação de defensivos, o que tem ajudado muito no manejo. Facilita bastante, no dia a dia, um algodão com menor necessidade de insumos. Já há novidades nesse sentido? Milton Garbugio - Sempre há. Sempre se está lançando coisas novas, porque as soluções a partir da biotecnologia vão perdendo eficiência com o tempo. Então, é preciso sempre inovar. O grande desafio é buscar variedades que um dia cheguem a ser resistentes até ao bicudo – a principal praga nesse tipo de lavoura. A gente vem trabalhando forte, buscando parceria com todas as instituições de pesquisa – no Brasil e no exterior – para se chegar a uma variedade de algodão que tenha resistência a essa praga. O nosso algodão é do tipo com fio médio? Milton Garbugio - O algodão brasileiro tem qualidade igual a do algodão produzido nos Estados Unidos, igual ao da Austrália e igual ao algodão produzido em Israel. É assim: você planta o algodão e cada fardo tem uma qualidade intrínseca. Dependendo do clima, do tempo, pode variar o percentual de algodão com maior qualidade e o percentual de algodão com menor qualidade. É igual no mundo inteiro. Aqui, 92% do algodão é produzido a céu aberto, sem irrigação. Como nosso clima é tropical, você pode ter chuva na colheita ou falta de chuva em um período de desenvolvimento, o que tira a uniformidade da planta. É diferente do algodão produzido em alguns lugares do mundo, que é 100% irrigado e consegue manter uma uniformidade melhor. Não é dizer que o algodão brasileiro tem uma qualidade inferior ao algodão do resto do mundo. A diferença é que a gente pode ter um percentual a menos na colheita de algodão de alta qualidade. Mas produzimos algodão de alta qualidade com fibra longa, com índice micronaire (medida para verificar a qualidade da fibra) excepcional. O algodão brasileiro é tão bom quanto o produzido no resto do mundo. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento


Laura de Paula/Divulgação

AÇÕES: Abrapa entrega projeto para a implantação de um escritório permanente na Ásia à ministra da Agricultura, Tereza Cristina (ao centro), em agosto do ano passado

(Conab), a safra 2019/2020 deve ser a maior da história, alavancada justamente pelos investimentos no setor. Além das pesquisas, houve outros investimentos? Milton Garbugio - A gente espera para esta safra (2019/2020) uma produção perto de 3 milhões de toneladas. Isso, um pouco, devido aos preços do algodão praticados na safra 2017/2018, que estavam bem melhores do que os praticados hoje. O algodão é uma cultura onde se trabalha bastante com o mercado futuro. Então, 70% do algodão que está sendo colhido agora, em meio à crise do dólar e o impacto da pandemia do coronavírus nas fábricas, já estava vendido. A lavoura de algodão, soja ou milho é resultado de um planejamento que você faz um ano ou dois anos antes. O produtor é bem esclarecido do percentual de lucro que vai obter. Nas áreas onde se planta algodão, está previsto o rodízio de culturas como ocorre na soja e no milho?

Milton Garbugio - Sim. Você pode plantar algodão, milho, soja. No Mato Grosso, por exemplo, 90% do algodão colhido é a segunda cultura anual na mesma terra. Tira-se a soja em janeiro e planta-se algodão. O algodão brasileiro é considerado um dos melhores do mundo. Mas não foi sempre assim: no início do milênio o produto nacional tinha uma reputação duvidosa no mercado interno e internacional. O que mudou nestas duas décadas? Milton Garbugio - O algodão do passado – duas, três décadas atrás – era uma cultura de subsistência, que utilizava trabalho braçal em larga escala, principalmente na hora de colher o produto. Hoje, a colheita do algodão é 100% mecanizada, com grande eficiência, trazendo também uma qualidade melhor para a fibra, pois não há contaminação decorrente do trabalho manual. Nosso algodão vem ganhando espaço muito grande no mercado mundial devido à melhoria da qualidade da fibra, muito

em função do processo de colheita. Mas a qualidade também tem a ver com as boas práticas na lavoura, do ponto vista socioambiental... Milton Garbugio - Isso. A gente chama de algodão responsável, trabalhado com boas práticas. A aviação agrícola ajuda nesse ponto? Milton Garbugio - A aviação agrícola trouxe um grande avanço para a cultura do algodão, que é de longo prazo: demora 200 dias para ser colhida. Na fase mais produtiva, usa-se muito a aviação agrícola, para evitar danos mecânicos à lavoura, para se ter eficiência de produto e pela rapidez na aplicação. Hoje, boa parte do algodão brasileiro é tratado por aviões. Do ponto de vista de produtividade, qual a diferença entre a pulverização aérea em relação à pulverização terrestre? Milton Garbugio -O normal ainda

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ENTREVISTA MILTON GARBUGIO Presidente da Abrapa

é a pulverização feita com máquinas terrestres, mas a aviação agrícola trouxe um grande avanço devido à agilidade e eficiência, porque o algodão é uma cultura que cresce e fecha. Além disso, como o algodão é uma cultura de longo prazo, pode ocorrer muita chuva durante o período que ele está vegetando e aí não se consegue entrar na lavoura com máquinas terrestres. Se ocorre uma praga, como uma lagarta que está prejudicando o algodão, a ferramenta aérea consegue dar conta. É uma ferramenta necessária.

CRESCIMENTO Garbugio fala na 24ª edição do Clube da Fibra, em maio, quando a Abrapa anunciou que o País deve bater recordes de produção e exportação na temporada 2018/2019, ficando atrás apenas dos Estados Unidos em vendas externas

Qual ferramenta o senhor utiliza na lavoura? Milton Garbugio - Eu não tenho avião. Eu uso a pulverização terrestre. Quando preciso de uma aplicação urgente (aérea), eu terceirizo. Estou em uma região que tem boa disponibilidade do serviço (de empresas aeroagrícolas). Então, não tenho aeronave própria por opção minha. Mas quem está em uma região em que não tenha essa oferta de trabalho (aéreo) é quase obrigado a adquirir uma aeronave. Vai muito de região para região e da visão do produtor. De que forma as empresas aeroagrícolas poderiam conquistar espaço na parceria com os cotonicultores. Que diferenciais buscam os produtores de algodão no trato das lavouras? Milton Garbugio - A terceirização depende muito de onde o produtor está e quem é a pessoa que presta esse serviço. Mas vai muito do custo, cada agricultor mede o seu custo: há os que optam pela aquisição de uma aeronave porque pretendem aumentar a extensão da área plantada. Há produtores grandes e pequenos que compram avião. Vai da necessidade de cada um e da disponibilidade de operadores aeroagrícolas na região em que se está. A aviação agrícola é seguidamente alvo de mitos em 28 Aviação Agrícola Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020


Divulgação

Missão Compradores 2019: O programa funciona desde 2015, levando compradores oriundos dos maiores destinos da pluma brasileira: China, Bangladesh, Vietnã, Turquia, Paquistão, Índia e Coreia do Sul, para conhecer o nosso modo de produção

relação às pulverizações nas lavouras. No entanto, sabe-se que se trata de uma ferramenta muito segura, tanto tecnologicamente quanto pela legislação severa que atende. Como o senhor vê essa questão? Milton Garbugio -Eu gosto de avião. Acho que é uma baita ferramenta para a agricultura. Acredito que as operadoras aeroagrícolas precisam defender mais as aplicações, explicar aos políticos como funciona o trabalho de pulverização aérea. O avião se torna imprescindível em alguns casos. Se no ano que vem, em qualquer cultura, no milho, na soja ou no algodão, chova dois, três dias e não se consiga entrar com (equipamento) terrestre na lavoura para combater uma praga que está prejudicando sua produção, o que se faz? Por que se usa avião quando pega fogo no meio da cana, no meio da mata? Porque não há outra ferramenta tão eficiente. É a única capaz de controlar praga logo após um período chuvoso ou quando, de uma hora para outra, algo como a helicoverpa (Helicoverpa armígera, lagarta voraz que já colocou Estados em emergência fitossanitária) ataca tudo de uma vez, como aconteceu em

para o futuro. Isso para nós não é presente ainda.

A aviação agrícola trouxe um grande avanço para a cultura do algodão, que é de longo prazo: demora 200 dias para ser colhida

2013 e 2014. No caso dos drones, a tecnologia tem conquistado espaço nas lavouras de algodão? Milton Garbugio - O uso de drones ainda está muito restrito à área da pesquisa e à aplicação de alguns produtos muito concentrados e biológicos para combate a pragas, mas não tenho conhecimento de causa para falar desses produtos. Também em grande escala, ainda não vi nada. Acho que é uma coisa mais

Que tipo de estratégia está sendo pensada para incrementar o marketing do algodão? O projeto setorial para promover a pluma brasileira no exterior teria ganho ainda mais urgência com a pandemia do coronavírus... Milton Garbugio - Na realidade, os projetos de marketing desenvolvidos para este ano e 2021 foram iniciados ainda no ano passado. Dentro de uma plataforma nossa, a Abrapa abriu uma filial na Ásia, com uma pessoa para trabalhar a promoção do algodão brasileiro. Para abrir espaço para nosso algodão na Ásia, precisamos estar presentes lá. Não basta ir uma, duas ou três vezes por ano visitar o cliente e voltar. É preciso ter uma pessoa lá, constantemente fazendo visitas e mostrando o algodão brasileiro para a indústria e para os governos daquela região. Principalmente na China, maior comprador mundial de algodão e maior consumidor do nosso produto, a mão do governo local está presente em todo o investimento. Também contamos com apoio do governo brasileiro, pela Apex-Brasil

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ENTREVISTA MILTON GARBUGIO Presidente da Abrapa

(Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Pela parceria Abrapa e Apex-Brasil, podemos usar o nome do governo brasileiro nas negociações. A Abrapa é a primeira entidade da agricultura respondendo pelo produtor brasileiro lá. Há representantes da indústria, do comércio, mas em produção agrícola mesmo, os primeiros somos nós. Acredito que vá dar também uma dimensão melhor para o mercado do nosso produto. Como aconteceu com a soja: hoje, o Brasil é o maior exportador de soja do mundo e a soja brasileira é referência mundial. Creio que, logo, o algodão deva se tornar referência também. De acordo com o ICAC (Comitê Consultivo Internacional do Algodão), o Brasil é o quarto maior produtor de pluma mundial,

ficando atrás da Índia, China e Estados Unidos, e o segundo maior exportador, atrás somente dos norte-americanos. Em entrevista ao Globo Rural, em abril deste ano, o senhor alertou para a possibilidade de uma redução de até 40% na área plantada para a próxima safra, em função do coronavírus. Isso provocaria uma perda no status do algodão brasileiro em termos globais, ou todos os países tenderiam a reduzir também? Milton Garbugio - A pandemia chegou no Brasil no fim de fevereiro. De uma hora para a outra, caiu na nossa cabeça. Esse vírus trouxe para o Brasil uma crise que a gente desconhecia e atingiu diretamente o algodão. O produto saiu de 75 a 80 centavos de dólar a librapeso e foi para 48 centavos de dólar a libra-peso. Isso provocou um caos no mercado. O algodão é uma commodity dolarizada, mas o seu custo também é pela moeda americana e, na época dessa declaração, o mercado estava caindo rapidamente. Fui bem claro na ocasião. Disse: “se o mercado não

ANIVERSÁRIO: No último mês de dezembro, a Abrapa foi homenageada em sessão especial no Senado Federal, pelos 20 anos da entidade, completados em abril

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reanimar, se o consumo mundial não retornar, pode ser que o algodão caia drasticamente”. Mas, graças a Deus, era uma hipótese que não se confirmou e o preço hoje subiu uns 15%. Toda crise uma hora passa, e esperamos colher bons frutos do algodão em um futuro bem próximo. Há uma preocupação em aumentar a produtividade do algodão por hectare? Como na soja, por exemplo, onde se busca aumentar a produção sem ampliar a área plantada e, assim, reduzir o impacto ambiental. Milton Garbugio -Isso já vem acontecendo no algodão. O Brasil tem uma das melhores médias do mundo de algodão (1.771 quilos de pluma por hectare). Produtividade que é quase o dobro dos Estados Unidos e três ou quatro vezes mais que a Índia por hectare. O Brasil tem tudo para crescer ainda mais. Por isso, precisamos ter mercado e alguém que nos represente e dê confiança para o mercado. O comprador de algodão quer qualidade, quer seriedade no negócio feito, quer pontualidade na entrega do produto. O Brasil não tinha


ATIVIDADES INTERNACIONAIS: Encontro do Brazilian Cotton Day, em Liverpool, na Inglaterra, em outubro de 2019. A iniciativa acontece há mais de uma década, reunindo tradings, corretores e agentes de diversos elos da cadeia do algodão

essa visão, era conhecido como um país que vendia um produto de má qualidade, sem responsabilidade na produção e sem confiança. Provamos para o mercado mundial que nós não somos assim. Essa mudança de reputação faz parte do trabalho da Abrapa ao longo de sua existência. O volume embarcado em março deste ano foi 35% maior que o volume registrado no mesmo mês em 2019, mas o maior comprador do mês agora não foi a China e sim o Vietnã. O mesmo fenômeno ocorreu em fevereiro. O Brasil está mudando a distribuição do produto no mercado externo ou é sazonal este comportamento? Milton Garbugio - Nos meses de janeiro e fevereiro, o problema da pandemia atingiu principalmente a China. Acredito que por isso o país estava segurando as importações. Isso passou e eles voltaram a importar algodão. É provável que esse número maior (do Vietnã) em março tenha sido reflexo do freio que (a China) teve em janeiro. O Brasil

se mostrava precário em relação ao embarque das exportações há um ano ou dois anos. Então, de 2019 para 2020 se viu um avanço muito grande, principalmente no Porto de Santos, de onde 90% do algodão brasileiro sai para o exterior. Tivemos uma eficiência muito grande no embarque de algodão. Eu não sei se foi porque outros produtos tiveram suas exportações reduzidas, mas a gente bateu recordes mês a mês na exportação do algodão. É uma coisa que nos deixou surpresos. Uma boa notícia para o setor. O que o senhor diria para a sociedade entender a importância do algodão para o Brasil e na vida de cada pessoa? Milton Garbugio -O algodão é uma fibra natural conhecida há milhares de anos e é um produto de produção responsável. Cada meia ou pedaço de tecido com fibra sintética é um potencial poluidor do meio ambiente. O algodão não é assim. Trata-se de uma fibra natural: ela se decompõe e vira matéria orgânica. Se

cada pessoa se conscientizar sobre a importância dessa fibra, acredito que teremos um mundo bem melhor em relação a poluição. A indústria do algodão é mais consciente. Há algum estudo sobre produtos alternativos ou de valor agregado? Milton Garbugio -O tecido é o carro-chefe, mas o algodão tem várias utilidades. Há o algodão hospitalar, hidrófilo, que é desidratado e absorve água ou umidade. Esse algodão é usado na medicina e para outras finalidades. É um mercado menor, mas importante. Existe estudo de outros usos para o algodão? Milton Garbugio -O algodão tem dois processos. Na usina, você tira a fibra do caroço. Aí você tem dois produtos. O caroço é destinado para fazer óleo comestível. Depois que você extrai o óleo, tem ainda o farelo, que é usado para a nutrição animal. Você pode usar o caroço inteiro in natura para consumo animal também. Por exemplo, para o gado leiteiro.

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Júnior Dagostin/Divulgação

MERCADO

Os reflexos da pandemia e os horizontes da aviação no campo Em tempos de coronavírus, as principais lavouras atendidas pelo setor aeroagrícola apresentam oportunidades, mas com caminhos diferentes

A

pandemia do novo coronavírus diminuiu drasticamente o movimento no comércio, praticamente zerou o turismo e trouxe apreensão para vários outros setores da economia. Mesmo no agro, embora a produção de alimentos em matériasprimas tenha continuado – considerada atividade essencial durante a crise, a situação também não é de total conforto. No entanto, para o diretorexecutivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Eduardo Daher, além de prudência para não escorregar em incertezas, o foco da cadeia produtiva deve se direcionar energias para as oportunidades no pós-pandemia. O que vale também para a aviação agrícola. Nas grandes culturas também não

houve unanimidade. A citricultura, por exemplo, sentiu a demanda crescer. “A laranja teve um aumento de consumo na ordem de 30%, diante da crença que a fruta podia auxiliar o sistema imunológico.” Na outra ponta, a cana-de-açúcar sentiu os preços do etanol e do açúcar despencarem em um primeiro momento (por causa da crise do petróleo entre Rússia e Arábia Saudita) e o algodão também começou a trabalhar com a perspectiva imediata de queda de demanda. TECNOLOGIAS O diretor da Abag diz que o foco principal para o agro no pós-crise será a certeza de que “os hábitos mudaram e o consumidor incorporará

às suas exigências os 3Ss: Saúde, Sanidade e Sustentabilidade”. Uma boa oportunidade para o Brasil no cenário mundial, mas que exige mão de obra cada vez mais qualificada e alta tecnologia no manejo. Ou seja, um horizonte ainda mais amplo para setores que já seguem essa cartilha, como a aviação agrícola. Ponto para tecnologia embarcada nas aeronaves, a alta exigência de qualificação e até para os relatórios operacionais completos de cada aplicação. Uma rotina prevista em lei para os operadores aeroagrícolas e que agora é um diferencial que se conecta com exigências cada vez mais onipresentes no mercado: rastreabilidade e confiança no suprimento por sanidade e saúde.

SEGURANÇA Transparência, eficiência e tecnologias que são rotina para a aviação serão referenciais no pós-pandemia

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ALGODÃO aviação agrícola como principal aliada e com espaço para crescer Na lavoura algodoeira, a pandemia provocada pelo novo coronavírus não chegou a modificar o manejo. Como diz o presidente da Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), Júlio Cézar Busato: “Continuamos trabalhando da mesma forma, com a Covid-19 ou sem a Covid-19, porque não temos como pedir aos insetos e doenças para ficarem em casa.” No entanto, o mercado foi afetado. O consumo reduziu em torno de 30%, e o preço da pluma caiu. Caso não ocorra uma retomada, há possibilidades de redução da área plantada entre 10% e 20% na próxima safra. Mesmo assim, os produtores rurais entendem que há condições da aviação agrícola ampliar sua presença na cultura, que tem o bicudo como seu arqui-inimigo. A praga, que dizimou o algodão no Brasil na década de 1980, requer sempre ação rápida e efetiva. Quesito no qual aeronaves são consideradas a melhor opção, inclusive reduzindo custos de produção, pela diminuição do número de aplicações. Para Busato, não há como produzir algodão sem aviação agrícola. “Quando as pragas atacam e você não consegue

BUSATO: força aérea vem e resolve, simples assim

mais resolver, você chama a força aérea, que vem e resolve. É por aí”, brinca. Sobre a segurança da ferramenta, o dirigente lembra ainda que 80% das lavouras algodoeiras do Brasil possuem o selo Algodão Brasileiro Responsável.

Certificação que exige o cumprimento de 178 itens na parte social, ambiental e de segurança do trabalho. Já para o coordenador de Projetos e Difusor de Tecnologia do Instituto Matogrossense do Algodão (IMAmt), Márcio de Souza, tanto durante a pandemia do novo coronavírus como no pós-Covid-19, é a aviação que garante as aplicações dentro do momento mais correto e de uma forma segura para o ambiente e para a cultura do algodão. “O avião é menos impactante.” Souza lembra que além do menor uso de água do que o terrestre para fazer a calda, antes de voltarem para o hangar as aeronaves vão para os pátios de descontaminação (onde são lavadas e eventuais resíduos de produtos vão para um sistema de tratamento). O coordenador entende que há espaço para as operadoras aerogrícolas ampliarem espaço na lavoura do algodão, mesmo que muitos produtores tenham adquirido aeronaves. Para isso, as terceirizadas devem buscar uma forma de mensurar o trabalho realizado. “Existem programas hoje que fazem todo o mapeamento da área aplicada, identificando as falhas e mostrando em números sua eficiência.”

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MERCADO

PEREIRA: setor espera melhoria contínua por parte da aviação

ARROZ

soja

CANA

bom momento e mudança de paradigma

Busca de eficiência nas aeroagrícolas

contratos com foco na parceria

No Rio Grande do Sul, Estado que responde por mais de 70% da produção nacional, o setor orizícola passa por um bom momento com a diminuição da área plantada. Além disso, o produtor ganhou mais estabilidade financeira sabendo revezar suas áreas com a soja e a pecuária. Para o presidente do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), Guinter Frantz, a quebra de paradigma fez com que a lavoura de 2019, colhida em 2020, fosse um divisor de águas no Estado. Principalmente porque a diminuição de área serviu como uma espécie de reciclagem para os produtores, que começaram a trabalhar “de acordo com o alcance das próprias pernas”. Além disso, grande parte da indústria ligada ao setor também passou a atuar diretamente na produção, aumentando a injeção de recursos privados na cultura. Para completar, segundo o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Alexandre Velho, veio a abertura de novos mercados, por exemplo, com o México autorizando o embarque de arroz com casca. Cenário favorável também para a aviação agrícola, já que a ferramenta aérea é fator de produtividade também da soja e é importante para o plantio de pastagens – que revezam com a lavoura orizícola.

Unidade em toda a cadeia que movimenta o agronegócio. Essa é aposta do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja/Brasil), Bartolomeu Braz Pereira, para garantir a sustentabilidade do setor diante das adversidades da pandemia. Uma das poucas culturas que não sofreu os impactos negativos do flagelo mundial tem a aviação agrícola como grande aliada, desde o plantio até a colheita. “O agro espera que a aviação agrícola busque se aperfeiçoar ainda mais, aumentando sua eficiência”, aponta, sobre os requisitos para os empresários ganharem espaço. Com a safra 2019/2020 estimada em 124,2 milhões de toneladas (novo recorde), o setor está iniciando a segunda colheita do ano. O próximo plantio se inicia em setembro e a expectativa é de mais recorde. Isso com base nos números do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que projeta 131 milhões de toneladas. Braz Pereira conta que há uma tendência dos produtores terceirizarem ainda mais tanto o plantio quanto a aplicação de insumos.

Sobre os efeitos da pandemia do novo coronavírus na cultura da canade-açúcar, o economista Haroldo José Torres da Silva alerta os operadores aeroagrícolas para três tendências a serem observadas. “Há usinas que deverão entrar em falência ou recuperação judicial, outros grupos vão precisar cortar custos e reduzir investimentos, o que inclui menos aplicações aéreas. E há ainda os grupos em situação financeira mais confortável e que poderão manter os investimentos.” Doutor em Economia e professor do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) da Universidade de São Paulo (USP), Haroldo Silva destaca que, na hora de discutir os contratos para a safra, o momento é de focar em parcerias estratégicas. “Na saúde ou na doença. O que quer dizer não pensar apenas no preço do serviço, mas, por exemplo, também jogar o prazo de pagamento e tentar em um relacionamento mais duradouro.” O economista lembra que, além da Covid-19, o setor ainda teve no início da crise a queda violenta de preços pelo embate entre Rússia e Arábia Saudita no mercado do petróleo – o preço da gasolina caiu e deixou o etanol menos competitivo. Nesse aspecto, o tema de casa aí ficou para toda a cadeia do setor. “É preciso agregar o aspecto ambiental como valor ao etanol.”

34 Aviação Agrícola Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020


VIEGAS: mercado europeu exige boas práticas no campo permanentemente

MILHO

CÍTRICOS

FLORESTAS

estabilidade e novos mercados

pandemia aumentou a demanda

pesquisas com drones e helicópteros

Com uma safra que deve chegar a 101 milhões de toneladas, os sinais são de que a pandemia do coronavírus não chegou a mostrar ao setor sua face mais sombria. Mais do que isso, o presidente executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Alysson Paolinelli, diz que a Covid-19 tem aberto alguns mercados, especialmente na Europa. “Felizmente, o Brasil está com um crescimento grande na demanda de milho. Preços razoáveis e demanda não é só do consumo interno, mas também nas exportações”, pontua. “Vamos crescer muito. Vai ser o cereal mais demandado do mundo, e o Brasil é o único que pode crescer de fato a produção.” Ele cita como exemplo o México, que importava milho só dos Estados Unidos e, no ano passado, comprou 1,2 milhão de toneladas do Brasil. Ao mesmo tempo, o Egito passou a ser um grande importador de milho. A Europa, fortemente castigada pelo novo coronavírus, também aumentou muito o consumo de milho brasileiro. “A própria China que queria ser autossuficiente, não conseguiu. Importou do Brasil e vai continuar importando.” Neste processo de conquista de novos mercados e ampliação da produção, Paolinelli confirma que a aviação agrícola é uma ferramenta fundamental.

Com a maior produção mundial de laranja, os citricultores brasileiros viram a demanda pela fruta aumentar devido justamente à pandemia do novo coronavírus. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio de Carvalho Pinto Viegas, o motivo foi maior busca por vitamina C. Só na Europa, principal mercado da produção brasileira, o crescimento foi em torno de 40%, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), do Ministério da Agricultura. Mesmo com a previsão de quebra da safra 2020/2021 na casa dos 25,6% em relação à anterior – conforme Pesquisa de Estimativa de Safra (PES), do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), o dirigente da Associtrus diz que não faltará produto no mercado. “Há estoque da colheita passada”, confirma Viegas, que aposta em demanda estável mesmo após a pandemia. “O Brasil está nesse mercado há mais de 60 anos e nosso principal comprador sempre foi o público europeu, justamente o mais exigente”, diz Viegas. Daí o foco em garantir uma produção de suco livre de qualquer resíduo químico, exigindo permanentemente boas práticas no campo. O que torna a aviação fundamental.

O setor de florestas plantadas pode representar incremento para a aviação agrícola. A sinalização é do diretor executivo da Associação das Empresas de Base Florestal do Estado de São Paulo (Florestar SP), João Pedro Pacheco. Segundo ele, além da aplicação de defensivos e micronutrientes, as aeronaves também atuam no controle biológico de pragas. Ele adianta que estão em desenvolvimento algumas pesquisas com drones e helicópteros, principalmente para a eliminação de inimigos naturais das árvores. “O drone tem essa facilidade de chegar aos locais. Eu diria que um mercado muito promissor são os monitoramentos”, observa Pacheco. De acordo com o gestor, “já se fala em silvicultura 4.0. Isto é: o produtor e o pessoal da empresa têm a informação de cada árvore individualmente. E o drone está sendo muito utilizado para coletar dados e captar imagem de como a árvore está crescendo.” Ocupando uma área de 9 milhões de hectares no Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor de florestas plantadas não chegou a ser totalmente impactado pela pandemia.

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EVENTOS

Congresso AvAg invade a web para valorizar parceiros e motivar o setor na pandemia Programação pela internet segue movimentando expositores, técnicos e palestrantes em encontros virtuais com o público do maior evento aeroagrícola do mundo

C

om o Congresso da Aviação Agrícola do Brasil, em Sertãozinho, São Paulo, adiado para 2021 devido à pandemia do novo coronavírus (veja na página ao lado), o Sindag e o Ibravag apostaram em uma programação pela internet neste 2020. O resultado foi o Congresso Web, com uma rotina de videoconferências reunindo mais de 2,5 mil participantes, em 22 dias de movimentação intensa. A programação tem participação gratuita, com encontros sobre perspectivas para a economia no setor primário, comunicação no agro, liderança colaborativa e outros temas. Além da série Trilha do Conhecimento (com trocas de experiências entre profissionais e especialistas sobre equipamentos, legislação e tecnologias), ocorre o 2º Fórum Científico da Aviação Agrícola. FEIRA VIRTUAL E CONCURSO INFANTIL O roteiro de encontros virtuais começou no Dia Internacional do Piloto Agrícola (27 de maio) e segue até o dia 30 de julho data em que encerraria o evento presencial deste ano). Conforme a coordenadora de Eventos do Sindag, Marília Güenter, na feira virtual reúne três ações principais: a divulgação de notícias das expositoras e parceiras

(Empresas em Movimento) e a divulgação de promoções das empresas. Ainda, ocorrem Rodadas de Negócios, onde semanalmente os expositores participam de lives para apresentar produtos ou promoções. “O fechamento, dia 30, será com o anúncio do vencedor da Medalha Flapinho – Amiguinho da Aviação Agrícola, uma grande novidade deste ano, voltada para a criançada”, explica Marília. Trata-se de um concurso de vídeos sobre a aviação agrícola, aberto a participantes com até 10 anos de idade. “A criançada está enviando materiais de até um minuto de duração sobre o trabalho da aviação agrícola nas lavouras ou no combate a incêndios”, destaca. Os trabalhos serão publicados até o dia 15 de julho nos canais do Sindag - no Facebook e no Instagram. “O mais curtido será o vencedor e ganhará a medalha, uma maquete de avião agrícola e todos os participantes receberão um exemplar da Revista Flapinho”, ressalta a coordenadora, sobre a publicação do mascote criado

36 Aviação Agrícola Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020

pela fabricante de aviões Air Tractor e adotado pelo Sindag. TRADIÇÃO Além de valorizar os patrocinadores e parceiros do Congresso AvAg e, ainda, qualificar e motivar o setor, o Congresso Web está ajudando a preservar uma tradição de mais de 30 anos. É que o setor aeroagrícola tem anualmente seus encontros nacionais desde 1988 – época da Fenaero, organizada pelas antigas Federação Nacional de Aviação Agrícola (Fenag) e Associação Sul Rio-grandense de Aplicadores Aéreos (Asupla). Entidades precursoras do Sindag, que entrou em cena em 1992. Dados que constam no levantamento do consultor e exdiretor do Sindag, Eduardo Araújo, no Histórico e Perfil da Aviação Agrícola Brasileira, de 2015. O trabalho também aponta encontros nacionais em 1971, 1976, 1980, 1983 e 1985, organizados, alternadamente, pelo Ministério da Agricultura, Embraer, Asupla e Fenag.


2021 será o ano do centenário e dos debates internacionais

ATRAÇÕES Debates técnicos, rodadas de negócios e até premiação infantil inovaram edição virtual do evento

A decisão de adiar para 2021 o Congresso da Aviação Agrícola do Brasil foi anunciada no dia 15 de abril pelo presidente do Sindag, Thiago Magalhães Silva. Para isso, ele contou com o apoio dos empresários aeroagrícolas, patrocinadores, expositores e apoiadores do evento. Além do Comitê Mercosul e Latino-Americano de Aviação Agrícola, entidade que também tem à frente o dirigente brasileiro. Neste caso, uma sinalização importante, já que 2020 seria o ano do Brasil sediar também o Congresso Mercosul e Latino-Americano de Aviação Agrícola – conforme o revezamento anual com Argentina e Uruguai. “Com isso, a programação que seria agora, em Sertãozinho, ficou para julho de 2021, também no Centro de Eventos Zanini”, explica Magalhães. Essa decisão foi tomada após um debate que chegou a considerar o adiamento da edição 2020 para setembro. “O que, ainda em abril, já se mostrava um prazo muito apertado – por questões de segurança (garantia de que a crise tenha passado) ou de tempo de retomada da economia para todo o público do Congresso (expositores, parceiros e visitantes do Brasil e do exterior).” O presidente ressalta que o encontro mantém o caráter internacional, abrangendo a 28ª edição do Congresso Mercosul e Latino Americano. A transferência do evento também levou para o ano que vem a avaliação de trabalhos e a premiação do 2º Fórum Científico da Aviação Agrícola. O concurso é promovido pelo Sindag e Ibravag em parceria com a Universidade de Cruz Alta (Unicruz), no Rio Grande do Sul. A iniciativa busca fomentar estudos que atestem ou incrementem a segurança e eficiência da ferramenta aérea nas lavouras. Com o adiamento, os trabalhos agora podem ser entregues até abril de 2021. “Por fim, teremos um fator a mais agregando todo o setor em 2021: as comemorações do Centenário da Aviação Agrícola no mundo (e 74 anos de Brasil)”, completa Magalhães. “Por tudo isso, a expectativa é de que se mantenha em 2021 a sequência de recordes desde 2016, nos números de participantes.” No ano passado, o congresso aeroagrícola do Sindag reuniu cerca de 3,1 mil visitantes, entre empresários, pilotos, produtores rurais, autoridades, pesquisadores, especialistas e estudantes. Foram 143 expositores na mostra de tecnologias e equipamentos e 42 palestras, além de cinco fóruns temáticos.

HISTÓRIA

EUA: primeira operação aeroagrícola no mundo foi em 1921, em Ohio

A primeira operação aeroagrícola no mundo ocorreu em 3 de agosto de 1921, próximo à cidade de Troy, no estado norte-americano de Ohio. Na época, foi um experimento do Departamento de Agricultura do Estado, como apoio a Aviação do Exército norte-americano, para combate a lagartas em uma floresta comercial de catalpa. O que acabou dando certo e daí a ferramenta passou a ser adaptada para vários tipos de lavoura. No Brasil, a primeira operação aeroagrícola foi em 19 de agosto de 1947, em uma ação para o combate a praga de gafanhotos em Pelotas, no Rio Grande do Sul. A data é hoje Dia Nacional da Aviação Agrícola e o piloto de então, Clóvis Candiota, é considerado patrono do setor no País. Vol . 3 Nº 2 - abril a junho/2020 Aviação Agrícola 37


INSTITUCIONAL

Dirigentes aeroagrícolas conversam com ministros do Planalto e do STF Na pauta, a defesa da regulamentação federal da atividade, participação nas políticas para o setor e uniformização das fiscalizações

Q

uestões estruturais como a necessidade de políticas para o setor aeroagrícola, maior representatividade dentro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), elaboração de um marco regulatório para alinhar (e fortalecer) as fiscalizações nas diferentes esferas de governo. Paralelamente, defender sob a ótica da Constituição Federal o fato de que a aviação agrícola é amplamente regulamentada pela esfera federal. Por isso, não pode simplesmente ser considerada atividade ilegal por legisladores nos Estados ou Municípios. Esses foram os temas em pauta em três videoconferências da diretoria do Sindag com ministros do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF). O primeiro encontro via web ocorreu em 16 abril, com a ministra Cármem Lúcia, do STF. O tema foi a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6137, movida pela Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) contra a Lei Estadual 16.820/2019, que proibiu o uso da aviação agrícola no Ceará. A ministra é a relatora do processo na casa e o Sindag foi incluído no debate como amicus curiae – entidade cujo conhecimento ou relação com o debate pode contribuir com a discussão. O objetivo foi reiterar a solicitação de liminar para suspensão da lei, ou que o processo fosse logo colocado em debate em plenário. O presidente Thiago Magalhães Silva apresentou a Cármem Lúcia os prejuízos econômicos, sociais e ambientais da lei, que, na verdade, suprime a única ferramenta para o trato de lavouras com legislação específica e altamente fiscalizável. Para ilustrar, uma das principais consequências da proibição no Ceará foi a necessidade do aumento de até 15 vezes mais no uso de defensivos nas lavouras de

STF: Representantes do sindicato aeroagrícola apresentaram a Cármem Lúcia os argumentos do setor sobre a ADI 6137

banana. Produtos que, na falta dos aviões, estão tendo que ser aplicados por trabalhadores a pé usando pulverizadores costais. Além disso, a ProcuradoriaGeral da República já manifestou entendimento de que a proibição da atividade aeroagrícola pelo Estado é inconstitucional. O parecer do procurador-geral Augusto Aras foi entregue ao STF doze dias após a conversa entre o Sindag e a relatora do processo. As videoconferências tiveram a participação também do diretorexecutivo do Sindag, Gabriel Colle, do secretário-executivo Júnior Oliveira e do assessor jurídico da entidade, Ricardo Vollbrecht. MEIO AMBIENTE E INFRAESTRUTURA Já com os ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, as conversas ocorreram, respectivamente, em 28 de maio e 2 de junho. Com Salles, a agenda foi intermediada pelo deputado federal Jerônimo Goergen (PP/RS). A pauta abrangeu o alinhamento das

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informações com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a padronização das fiscalizações. “Nesse ponto, reforçamos a necessidade de um entendimento sobre a duplicidade de fiscalizações nos Estados, onde seguidamente agentes de órgãos diversos têm entendimentos diferentes sobre a mesma legislação”, ressalta Thiago Magalhães. A reunião teve a participação também do empresário gaúcho Wilson Klauck. Com Tarcísio Gomes de Freitas, o presidente do Sindag aproveitou para reafirmar demandas que haviam sido apresentadas na reunião presencial de outubro do ano passado. Magalhães aproveitou para reforçar a importância que a aviação agrícola terá na retomada do País no pós-pandemia do coronavírus. “O ministro destacou que pretende dar toda atenção às demandas setoriais prioritárias do setor”, enfatizou o presidente do Sindag. A conversa teve a participação também dos diretores do Sindag Francisco Dias da Silva e Alan Sejer Poulsen, além do assessor parlamentar Pietro Rubin.


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PESQUISA A COTONICULTURA BRASILEIRA OCUPA LUGAR DE DESTAQUE NO CENÁRIO MUNDIAL, LIDER EM CERTIFICAÇÕES DE BOAS PRÁTICAS TRABALHISTAS E AMBIENTAIS, EMBORA SEJA UM DOS SETORES DO AGRONEGÓCIO QUE NECESSITEM DE DEFENSIVOS AGRÍCOLAS PARA MANTER A QUALIDADE DO ALGODÃO COLHIDO. ESTUDO APONTA QUE A INSPEÇÃO DA FAIXA DE DEPOSIÇÃO (IFD) PODE RESULTAAR EM MELHOR UNIFORMIDADE DA APLICAÇÃO DE PRODUTOS.

Tecnologia de aplicação aérea: Diretrizes aplicadas a cultura do algodão Autores Rodolfo G. Chechetto (1), Fernando K. Carvalho (1), Alisson A. B. Mota (1), Ulisses R. Antuniassi (2), Simone Silva Vieira (3) (1) Engenheiro agrônomo, pesquisadores da AgroEfetiva. Botucatu/SP. rodolfo@agroefetiva.com.br; fernando@agroefetiva.com. br; alisson@agroefetiva.com.br; (2) Engenheiro agrônomo, Professor Titular do Departamento de Engenharia Rural da FCA/UNESP Botucatu/SP. ulisses.antuniassi@unesp.br; (3) Entomologista, Pós doutoranda FCA/UNESP - Botucatu/SP. sisilvavieira@gmail.com

1. Introdução O Brasil ocupa uma posição de destaque em relação à produção e comercialização de algodão no mundo. De acordo com o ranking ordenado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (EUA), o país está entre os 5 maiores exportadores e produtores de algodão do mundo. O mercado brasileiro de algodão continua promissor. Líder mundial em certificação de boas práticas trabalhistas e ambientais, cerca de 86% da produção é certificada pelos padrões internacionais dos auditores. Com alta tecnologia e produtores extremamente organizados, por meio da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA), o setor investe em qualidade, rastreabilidade e marketing para continuar crescendo e buscando resultados positivos. Porém, para manter esse alto nível de qualidade e mercado, a cultura do algodão, no Brasil,

é a maior responsável pelo uso de inseticidas (OLIVEIRA et al., 2014). Estima-se que durante o ciclo da cultura do algodoeiro de 18 a 23 pulverizações são realizadas. Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, na safra 2017/2018 o uso de inseticidas representou 20% do custo total de produção no estado do Mato Grosso MT. Sendo que, o bicudo do algodoeiro é responsável por aproximadamente 10% desse custo de produção.

2. Manejo Integrado de Pragas na cultura do algodão O Manejo Integrado de Pragas (MIP) visa a reduzir a população de insetos-pragas em níveis abaixo daqueles que possa causar danos à lavoura, utilizando diferentes estratégias de controle, que devem ser empregadas atendendo as recomendações técnicas e de boas

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práticas agrícolas. O controle de pragas nas lavouras de algodão, tem se tornado cada vez mais desafiador e oneroso. Para que se consiga o máximo de eficácia das estratégias utilizadas em um programa de manejo integrado, elas devem ser sustentadas por uma base sólida de informações, para a tomada de decisão de quais estratégias devem ser utilizadas a cada momento, além de como ela será utilizada. As espécies de insetos, como pulgões, Aphis gossypii, bicudodo-algodoeiro, Anthonomus grandis e curuquer, Alabama argillacea, necessitam que medidas de controle sejam adotadas para conter os surtos populacionais, em todas as áreas onde o algodão é cultivado e, portanto, são denominadas pragas-chave da cultura. Na região Centro-Oeste, o percevejo castanho, Scaptocoris castanea, que ataca as raízes, a lagarta de maçã, Heliothis virescens e Helicoverpa armigera, que atacam estruturas do algodoeiro,


também são pragas-chave, devido à alta frequência de ocorrência e, ocasionalmente, podem reduzir severamente a produtividade. Além disso, como mudanças no sistema de cultivo foram observadas nas últimas décadas e, principalmente, nas principais regiões produtoras, emergem outras pragas, como as lagartas do gênero Spodoptera spp. e espécies de Helicoverpa zea, Chrysodeixis includens, moscas-brancas, assim como os insetos migrantes da soja, Nezara viridula, Euschistus heros e Piezodorus guildinii, pragas reconhecidas como secundárias ou como pragas-chave de outras culturas e que atacam o algodão (SILVA et al., 2013). O controle químico através da aplicação de inseticidas sintéticos é a principal estratégia adotada para o manejo de pragas no algodoeiro. No Brasil, o bicudo é o responsável pelo maior número de pulverizações de inseticidas contra uma única espécie-alvo de pragas em lavouras de algodão (LIMA JUNIOR et al., 2013; BÉLOT et al., 2016). As estimativas de custo do controle de pragas do algodão indicam o bicudo como a praga que mais inflaciona os custos. Sua presença nos campos de algodão determina a frequência da pulverização e a escolha do inseticida durante a decisão da pulverização (SHOWLER, 2012; BÉLOT et al., 2016). Quando a infestação do bicudo atinge o limiar econômico, pelo menos cinco pulverizações sequenciais são realizadas para obter o controle de adultos emergentes ao longo de 20 a 25 dias do período de desenvolvimento (da oviposição à emergência do adulto) (BARROS et al., 2019). O MIP na cultura do algodão ainda é um desafio, principalmente devido à dificuldade de controle de algumas espécies de pragas como o bicudo do algodoeiro e algumas espécies de lagartas. A necessidade de resolver os

Figura 1: Comportamento da fumaça: (a) situação normal e (b) situação característica de inversão térmica. Fonte: (KRUGER; ANTUNIASSI, 2019).

problemas a curto prazo, acaba por dificultar a solução a longo prazo. Portanto, é necessário que o conceito de sustentabilidade de manejo seja considerado no momento da tomada de decisão. Assim, os principais pontos a se trabalhar de imediato são: o monitoramento e as estratégias de manejo de resistência de insetos, seja a plantas Bt resistente lagartas, ou a inseticidas. Para o manejo de resistência de insetos a inseticidas, o primeiro passo é a utilização dos mesmos, dentro das recomendações técnicas de boas práticas agrícolas, buscando obter o máximo de eficiência de controle das moléculas disponíveis. Nesse cenário, o uso das doses recomendadas e da tecnologia de aplicação adequada são os primeiros passos para se obter maior eficiência de controle de pragas na cultura do algodão.

3. Tecnologia de Aplicação A tecnologia de aplicação pode ser definida como um conjunto de conhecimentos que integram informações sobre defensivos agrícolas, formulações,

adjuvantes, pulverização, alvos, recursos humanos, tecnologia de informação e ambiente, visando uma aplicação correta, segura e responsável, sempre respeitando as boas práticas agrícolas. O princípio básico da tecnologia de aplicação é a divisão do líquido a ser aplicado em gotas (processo denominado como (pulverização h), multiplicando o número de partículas (gotas) que carregam os princípios ativos em direção aos alvos da aplicação. O tamanho de gotas e o volume de calda são, portanto, os fatores básicos que devem ser considerados em primeiro lugar para o planejamento de uma aplicação. Parâmetros como o momento da aplicação, as condições meteorológicas, a recomendação dos produtos e as condições operacionais devem ser considerados em conjunto para a determinação da técnica a ser utilizada, visando o máximo desempenho com o mínimo de perdas, sempre com o menor impacto ambiental possível. Ainda, soma-se a isso a avaliação do entorno, direção do vento, bem como a legislação que regulamenta o setor, em especial aquela que trata das faixas de segurança (IBAMA, 2008).

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PESQUISA

Figura 2: Movimento da fumaça, caracterizando momento de inversão térmica. Fonte: AgroEfetiva, 2019.

4. Condições meteorológicas e inversão térmica Para o sucesso do tratamento fitossanitário, a adequação da tecnologia de aplicação às condições meteorológicas é fundamental. Para a maioria dos casos, devem ser evitadas aplicações com umidade relativa inferior a 50% e temperatura ambiente maior do que 30o C. O ideal é que as aplicações sejam realizadas com velocidade média do vento entre 3 e 10 km h-1. A ausência de vento também pode ser prejudicial, principalmente pela chance de ocorrer inversões térmicas ou ar aquecido ascendente (correntes de convecção), fatores que dificultam a deposição das gotas pequenas. As inversões ocorrem nas manhãs muito frias e de céu limpo (sem nuvens), típicas do inverno, onde o ar parado e a dinâmica da atmosfera podem

Figura 3: Movimento ascendente das gotas de pulverização, caracterizando momento decorrentes de convecção. Foto: Farias, 2013.

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impedir a deposição das gotas mais finas. Sob condições de inversão, a deriva da pulverização pode ser severa. Pequenas gotas de pulverização podem cair lentamente ou serem suspensas e moverem-se a distâncias maiores, transportadas por uma brisa suave. Não aplique defensivos durante condições de inversão térmica. A situação de inversão pode ser identificada observando-se a fumaça a partir de gerador de fumaça ou fogo (Figura 1). O movimento da fumaça horizontalmente perto do solo indicativo de inversão térmica (Figura 2) (KRUGER; ANTUNIASSI, 2019). De maneira análoga, nas tardes muito quentes é comum a formação de correntes de ar quente ascendente, as quais, principalmente na ausência do vento, também transportam gotas para longas distâncias, podendo causar grandes prejuízos por deriva (Figura 3). Por esta razão, é necessário priorizar as aplicações de defensivos agrícolas nos horários em que haja vento (no mínimo de 3 km h-1), pois nestas condições há estabilidade da atmosfera modificada, reduzindo o efeito desses fenômenos que dificultam a deposição das gotas mais finas.

5. Registro das condições meteorológicas O ideal é que se registre as condições meteorológicas a cada decolagem da aeronave, principalmente quando a empresa ou a fazenda não utilizar ferramentas que façam isso de maneira autônoma, como o uso de estações meteorológicas nos talhões e softwares de telemetria para as aplicações aéreas. É importante monitorar as condições para que, na média, os valores de temperatura,

Figura 4: Exemplo de atomizador de discos, detalhando os componentes. Fonte: AgroEfetiva.

umidade e velocidade do vento estejam dentro dos limites recomendados. Entretanto, o bom senso deve prevalecer na delimitação das variações admissíveis. É importante que as características da técnica de aplicação utilizada sejam consideradas no momento da tomada de decisão. A decisão final quanto a eventuais variações nas condições meteorológicas deve ser tomada pelo técnico responsável pela aplicação, dentro dos conceitos de boas práticas. IMPORTANTE: a bula do produto pode apresentar limites meteorológicos mais restritivos do que as recomendações acima (recomendações gerais de boas práticas). Portanto, sempre a recomendação indicada na bula deve prevalecer. Se uma aplicação tiver que ser feita perto dos valores limites das condições meteorológicas, alguns parâmetros têm que ser ajustados. Seguem algumas recomendações básicas: l Aumentar o tamanho das gotas e o volume de calda; l Reduzir a altura de voo, resguardando-se as questões de segurança de voo e ajustando-se

a faixa útil de aplicação (como através de um estudo prévio como o da Inspeção da Faixa de Deposição, IFD).

6. Perdas e deriva Muitos fatores afetam a deriva física, mas um dos mais importantes é o tamanho inicial das gotas. Gotas pequenas desaceleram mais rapidamente do que gotas grandes e caem lentamente através do ar, fazendo com que elas sejam mais propensas a serem carregadas para mais longe pelo movimento do ar. O tamanho de gotas é medido em micrometros (µm). Gotas com diâmetros menores do que 100 µm, aproximadamente o diâmetro de um fio de cabelo humano, são consideradas altamente sensíveis à deriva, embora valores diferentes variando entre 80 e 150 µm sejam usados como referência, dependendo da fonte bibliográfica. Essas pequenas gotas não podem ser prontamente vistas a menos que estejam em altas concentrações, como em uma neblina. Devido ao tamanho pequeno das gotas, a deriva é mais dependente do

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PESQUISA

Figura 5: Falhas na aplicação resultantes da falta de uniformidade na faixa de deposição. Foto: Veliz, 2013.

movimento irregular do ar turbulento do que da gravidade (KRUGER; ANTUNIASSI, 2019). Dessa forma, quanto mais tempo a gota estiver no ar, maior será o potencial de deriva, o que é diretamente correlacionado pela altura de voo adotada nas aplicações para a cultura do algodoeiro. É importante notar que qualquer gota pode sofrer deriva e qualquer gota pode se depositar no alvo, independentemente do tamanho, a depender dos parâmetros ambientais e de aplicação aos quais a gota é exposta. Essas características (gotas finas, muito finas ou extremamente finas) atreladas aos fatores operacionais utilizados para aplicações na cultura do algodão, como altura de voo e faixa de deposição, tornam a pulverização ainda mais criteriosa.

7. Atomizadores rotativos Os atomizadores rotativos utilizam a energia centrífuga proveniente da alta rotação,

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que por sua vez é gerada pelo fluxo do ar em voo. A vazão nos atomizadores é ajustada por um orifício que regula a vazão do líquido e pela pressão da calda no sistema hidráulico de pulverização. Alguns atomizadores mais simples utilizam uma conexão hidráulica


com restritores de vazão formados por discos perfurados, enquanto outros utilizam um sistema de ajuste rotativo denominado Unidade de Restrição Variável VRU h (Figura 4). Em busca de informações mais precisas sobre o espectro de gotas real gerado pelos atomizadores nacionais, a AgroEfetiva realizou pesquisa nos laboratórios da Universidade de Nebraska-Lincoln (EUA), em parceria com a UNESPBotucatu/SP (Brasil), visando coletar dados de espectro de gotas, usando os mesmos métodos de análise das gotas feitos para o Micronair (Micron Group, Herefordshire, UK). Com base nesta pesquisa foi possível fazer uma análise comparativa entre os dados de espectro de gotas dos atomizadores nacionais e um importado, modelo que é frequentemente usado como referência no Brasil para a estimativa do espectro de gotas gerado por atomizadores. Um exemplo desta análise pode ser observado na Tabela 1, a qual apresenta os dados de um atomizador nacional de discos (CBB, Sorocaba, SP), usado em aplicações em algodão, em comparação aos dados gerados para o atomizador de telas mencionado.

Figura 7: Sistema de coleta de dados para a Inspeção da Faixa de Deposição® - IFD. (Fonte: AgroEfetiva, 2019).

Sistema para avaliação de altura de voo

Estação meteorológica

Dispositivo para recolhimento do fio

É interessante observar, que para os mesmos ajustes de ângulo de pá, as rotações obtidas nos atomizadores são diferentes, sendo essa diferença variável e que consequentemente altera todo o espectro de gotas gerado por cada um dos atomizadores, além, é claro, do mecanismo de geração de gotas, como discos ou tela. Vários fatores interferem do espectro de gotas gerado pelos atomizadores, como diâmetro dos orifícios das malhas dos

Indicador do centro do fio

Base de armazenamento de fio novo

Avaliação da velocidade

atomizadores rotativos, número de discos e tamanho das ranhuras dos atomizadores de discos, velocidade de voo, entre outros. O importante é saber que os atomizadores podem possibilitar uma ampla variação do espectro de gotas, principalmente nas classes menores, como finas, muito finas e extremamente finas. Alguns podem gerar gotas médias, e ainda há aqueles desenvolvidos para gerar gotas maiores, para reduzir deriva.

Figura 6: Faixa de deposição total, indicada pela imagem verde no gráfico. A linha tracejada indica a largura da faixa efetiva. Neste caso, houve maior deposição das gotas sob a asa esquerda da aeronave, indicado pela seta azul. (Fonte: AgroEfetiva, 2018).

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PESQUISA

8. Inspeção da Faixa de Deposição (IFD)®

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A falta de uniformidade, bem como faixas de deposição muito largas ou estreitas, gera grande variação da dose dos produtos aplicados no campo, que degrada a qualidade da aplicação e gera perdas. Por exemplo, a falta de uniformidade no controle de pragas como o bicudo do algodoeiro (Anthonomus grandis) pode comprometer o controle e gerar enormes prejuízos, pois o ciclo de reprodução ou propagação na cultura é muito rápido. Em alguns casos, a falta de uniformidade na faixa de deposição efetiva é grande o suficiente para resultar em falhas aparentes na lavoura (Figura 5). A Figura 6 ilustra um exemplo onde a aeronave apresentava maior depósito de calda sob a asa esquerda. Neste caso, para uma faixa efetiva de deposição de 15 m, o CV no sentido carrossel seria de 22% e para o sentido vai e vem, 27%. Nesse caso, ajustes devem ser feitos, como na disposição e regulagem dos dispositivos geradores de gotas, para que o CV seja reduzido abaixo de 20%. Em geral, a uniformidade das aplicações aéreas é medida pelo coeficiente de variação (CV, %) (PARKIN; WYATT, 1982) e deve ser menor do que 20%. Esses parâmetros podem ser avaliados utilizando um método novo no país. Tal método utiliza espectrofotometria de fio, e foi introduzido no Brasil pela AgroEfetiva®, em 2017, e denominado de IFD – Inspeção da Faixa de Deposição® (Figura 7). Ao todo são realizados três voos sobre o centro do fio por configuração da aeronave. Depois de 1 minuto da aplicação, cada fio é recolhido e as três repetições analisadas em um espectrofotômetro de fio. Com isso, o próprio software calcula o Coeficiente de Variação (CV) para várias larguras de faixa de deposição, menores e maiores do

30

Percentual

40 35 25 20 15 10 5 0

Fuselagem

Raíz da “asa esquerda”

Raíz da “asa direita”

Vórtices de ponta de asa

Outros

Figura 8. Locais correspondentes aos principais problemas observados nas faixas de deposição de aeronaves agrícolas. (Fonte: AgroEfetiva)

que a faixa praticada, a qual é informada pela equipe técnica responsável pela aeronave. O processo termina com a indicação da melhor largura da faixa de deposição em função da uniformidade indicada pelo CV para os sentidos vai e vem (back-toback) e carrossel.

9. Dicas para melhorar a qualidade das aplicações Em pesquisa realizada pela AgroEfetiva entre os anos de 2017 e 2018 em vários estados brasileiros, o principal problema observado nas faixas de deposição (FD) foi o acúmulo ou falha no depósito de gotas sob a fuselagem das aeronaves, observado em 40% dos casos onde foram encontrados algum problema na faixa de deposição (Figura 8). Isso ocorre em função do vórtice criado pela hélice, sendo que quando não há posicionamento adequado dos bicos, por exemplo, pode haver deposição desuniforme. Foram consideradas faixas desuniformes aquelas que tinham coeficiente de variação (CV) maior do que 20%. A falta de uniformidade pode causar falhas no controle ou acelerar o surgimento de resistência de pragas, por exemplo.

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O segundo problema mais frequente foi acúmulo ou falha de deposição na “raiz da asa esquerda”. Esse local também recebe interferência do vórtice de hélice, e deve ser observado. Os problemas de acúmulo ou falha na “raiz da asa direita” e vórtices de ponta de asa corresponderam a cerca de 17% do total. Esses resultados proporcionam a tomada de medidas, muitas vezes simples, como o reposicionamento de bicos, com potencial de tornarem as aplicações uniformes.

10. Conclusões O Brasil ocupa uma posição de destaque em relação à produção e comercialização de algodão no mundo. No entanto, essa cultura depende de aplicações aéreas para o controle de insetos-praga, como pulgão, A. gossypii, o bicudodo-algodoeiro, A. grandis e o curuquerê, A. argilácea. Essa prática deve fazer parte das estratégias de controle que compõe o Manejo Integrado de Pragas. Para uma aplicação de qualidade, vários parâmetros devem ser considerados, como as condições meteorológicas, o espectro de gotas e a uniformidade das aplicações. As equipes também devem receber programas de capacitação continuada, para assim manter a sustentabilidade e a competitividade da agricultura nacional.



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