suinoBrasil 1ºTrimestre

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1º TRIMESTRE 2021

SUÍNOBRASIL

A MÍDIA DO COLOSSO DO AGRONEGÓCIO NACIONAL:

A SUINOCULTURA!


Uma visão técnica e inovadora da suinocultura nacional.

suinobrasil.porcino.info /suínobrasil


04

SUÍNOBRASIL é recebida com entusiasmo por lideranças do setor

15

O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões Joana Barreto

08

Antibiograma: importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial Anna Vilaró

Grupo de saneamento suinícola de Léria (Espanha)

Zootecnista – UFLA Mestre em Nutrição e Produção de Animais não Ruminantes - UFLA Doutoranda em Nutrição e Produção de Animais não Ruminantes - UFLA Linha de Pesquisa em Nutrição Funcional de Suínos Integrante do NESUI – Núcleo de Estudos em Suinocultura Integrante do NUFSUI – Grupo de Pesquisa em Nutrição Funcional de Suínos

suinobrasil.porcino.info 1 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021


21

China: em busca da autossuficiência em carne suína

39

Carlos Humberto Corassin

Cândida Pollyanna Francisco Azevedo

Prof. Associado Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, FZEA, Universidade de São Paulo. Medicina Veterinária, Universidade de Marília. Mestrado em Produção e Nutrição Animal, FMVZ, Universidade de São Paulo. Doutorado em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ, Universidade de São Paulo. Pós-Doutorado em Engenharia de Alimentos, FZEA, Universidade de São Paulo. Pós-Doutorado em Engenharia de Alimentos, FZEA, Universidade de São Paulo .

Zootecnista - UFV MsC Zootecnia - UFV Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens ESALQ/USP Redatora Grupo de Comunicação AgriNews

28

Entrevista com Dra. Janice Zanella: Status sanitário da suinocultura nacional

47

Dra. Janice Zanella

Fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos Guadalupe Edgar Beltrán Rosas

Tecnóloga em Alimentos, pós-graduada em Gestão da Qualidade e especialista em Segurança dos Alimentos

2 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021

Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões

Sara Beitia Delgado

Chefe Geral da Embrapa Suínos e Aves

34

Os impactos das micotoxinas na produção de suínos

Médica Veterinária

59

Colonização microbiana em suíno Cândida Pollyanna Francisco Azevedo

Zootecnista - UFV MsC Zootecnia - UFV Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens ESALQ/USP Redatora Grupo de Comunicação AgriNews


SUÍNOBRASIL, A MÍDIA DO COLOSSO DO AGRONEGÓCIO NACIONAL: A SUINOCULTURA!

O

cenário histórico da suinocultura nacional em 2020 foi um notável estigma para o agronegócio brasileiro. Em um ano desafiador com a pandemia da Covid-19, o agro, com toda sua força continuou abastecendo não só o Brasil, mas o mundo! Nas palavras do presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, “O mundo vê o Brasil não só como um parceiro, mas sim como um parceiro que o mundo confia para o fornecimento de alimento.” Com uma produção recorde, a suinocultura brasileira exportou 1,021 milhão de toneladas nos 12 meses, número 36,1% superior ao registrado em 2019, quando foram exportadas 750,3 mil toneladas. E vale ressaltar que, mesmo quebrando a barreira de 1 milhão de toneladas de carne exportada, o setor manteve altíssima disponibilidade do mercado interno de 73 a 77%. E é nesse cenário colossal que surge a SuínoBrasil, com toda maestria do Grupo AgriNews, presente na Europa, Estados Unidos, América Latina e agora também no Brasil para trazer conteúdo técnico de qualidade para os profissionais da suinocultura. Presente nas mídias sociais, a SuínoBrasil lança a primeira edição totalmente digital da revista trimestral! E nesta primeira edição, apresentamos artigos técnicos sobre manejo, biosseguridade, nutrição, reprodução e microbiota intestinal, todos assuntos abordados por renomados pesquisadores e profissionais do setor. Dentre eles, o Professor da USP, Carlos Humberto Corassin, aborda os impactos das micotoxinas na produção de suínos. Sobre biosseguridade, a médica veterinária Anna Vilaró abordou, de forma detalhada, técnicas para realização do antibiograma e a importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial.

EDITOR

Para elucidar sobre técnicas de manejo no período pré-desmame, a zootecnista Joana Barreto nos atualiza sobre o uso creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões.

GRUPO DE COMUNICACIÓN AGRINEWS S.L.

Outro assunto relevante para o sucesso da suinocultura é o conhecimento dos aspectos reprodutivos. Sendo assim, o assessor técnico de suínos Guadalupe Edgar Beltrán Rosas aborda quais os fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos. E a médica veterinária Sara Beitia Delgado apresenta a influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões. E para compreender um pouco mais sobre a complexidade da microbiota intestinal, a zootecnista Cândida Azevedo nos atualiza sobre a colonização microbiana em suínos. Um dos assuntos mais comentados na suinocultura nacional foi a recuperação de plantel da China e a autossuficiência em carne suína. A SuínoBrasil entrevistou profissionais do setor nas áreas de sanidade e de análise de mercado, avaliando os riscos da recuperação chinesa, que ainda sofre com as consequências da devastadora Peste Suína Africana.

PUBLICIDADE Cândida P. F. Azevedo +55 (19) 991958144 suinobrasil@grupoagrinews.com

Luis Carrasco +34 605 09 05 13 lc@agrinews.es

REDAÇÃO Cândida P. F. Azevedo

ADMINISTRAÇÃO Inés Navarro Tel: +17866697313 info@grupoagrinews.com www.suinobrasil.porcino.info

E por fim, para manter o protagonismo na suinocultura global, os profissionais da cadeia suinícola devem estar atentos na preservação do maior diferencial competitivo da suinocultura brasileira: a sanidade. E para falar sobre o tema, a Chefe Geral da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella, concedeu uma entrevista para falar sobre o status sanitário da suinocultura nacional, cujas normas de biosseguridade servem de modelo para o mundo.

Preço da assinatura anual: Brasil 30 $ Extranjero 90 $

Boa leitura!

3 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021


SUÍNOBRASIL É RECEBIDA COM ENTUSIASMO POR LIDERANÇAS DO SETOR

declarações

Informação técnica e de alta qualidade fomentam o setor produtivo e impulsionam o desenvolvimento setorial. É o tipo de informação que encontramos na SuínoBrasil, agora também em revista.

Ricardo Santin Presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal.

4 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Declarações


Vivemos dias muito desafiadores, onde a informação e conhecimento são armas fundamentais para vencermos. Desta forma, é muito bem vinda a revista SuínoBrasil. Juntos, com qualidade de informação , podemos transformar nosso país. O setor certamente abraçará a SuínoBrasil e contribuirá para

Contem comigo!

declarações

compartilharmos conhecimento em alto nível.

José Antônio Ribas

,

Diretor do Sindicarne/SC (Sindicato das Insdústrias de suínos de SC);

Presidente da ACAV (Associação Catarinense das Industrias de Aves); Vice Presidente do Sindiavipar (Sindicato das Industrias de aves do PR).

5 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Declarações


“Publicações jornalísticas que se preocupam em transmitir informações corretas e de qualidade sobre a suinocultura são de extrema importância, pois nos auxiliam na missão de comunicar a carne suína, fomentar o consumo e incentivar a cadeia como um todo. Precisamos seguir sempre com uma comunicação clara, completa e objetiva. Só assim conseguiremos de fato quebrar os mitos que cercam a proteína e levar mais conhecimento e capacitação aos elos do setor.”

declarações

Marcelo Lopes

Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS).

6 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Declarações


Vivemos um mundo de informações e opiniões em excesso. São os efeitos colaterais do jornalismo 24 horas e das redes sociais.

O jornalismo profissional reafirma sua grande importância nesse contexto que é selecionar, filtrar e direcionar conteúdos e fontes confiáveis dentro do objetivo de estimular o debate e a troca de ideias refletida e madura. Por essa ótica, parabenizo a SuínoBrasil por ampliar

sua cobertura de conteúdos com a nova revista digital somando ainda mais ao tão necessário debate dos caminhos da nossa cadeia de produção.

Alvimar Jalles

declarações

Médico Veterinário e Consultor de Mercado da Associação dos Suinocultores do Estado de Minas Gerais.

Acredito que a atualização constante para os profissionais da suinocultura é uma premissa. Nesse sentido, iniciativas como a SuínoBrasil, que garantem o desenvolvimento e difusão de informação de qualidade,

são de fundamental importância para o nosso setor.

Cesar Augusto Pospissil Garbossa

Universidade de São Paulo. Professor Doutor do Departamento de Nutrição e Produção Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia.

7 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Declarações


ANTIBIOGRAMA: IMPORTÂNCIA DA QUALIDADE DA AMOSTRA E DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Sanidade

Anna Vilaró Grupo de saneamento suinícola de Lérida (Espanha)

A introdução dos primeiros antibióticos na medicina foi um dos maiores avanços para a saúde, porém, anos depois, as primeiras resistências aos antibióticos começaram a ser descritas. O uso de antibióticos acelerou e continua aumentando o aparecimento de microrganismos resistentes, tanto na medicina veterinária quanto na humana.

Em 2014, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou o primeiro relatório global sobre resistência a antibióticos, alertando para a grande ameaça que o uso exacerbado representa para a saúde global. É por isso que pesquisas são desenvolvidas constantemente sobre uso responsável de antibióticos. Especificamente, na medicina veterinária, o papel do laboratório e do veterinário em fazer um bom diagnóstico é fundamental para se obter um estudo de sensibilidade antimicrobiana que sirva para tratar, quando necessário, cada caso clínico e poder superar com êxito uma infecção. Para a realização de um estudo de susceptibilidade aos antimicrobianos, a primeira medida necessária é uma amostragem adequada e posterior isolamento das bactérias envolvidas.

8 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial


IMPORTÂNCIA DA QUALIDADE DAS AMOSTRAS DESTINADAS AO LABORATÓRIO DE BACTERIOLOGIA A execução correta da coleta, conservação e transporte são bases fundamentais para isolamento das bactérias patogênicas envolvidas no processo infeccioso. Existem vários pontos-chave para realização de um bom diagnóstico:

Amostra representativa Seleção de amostras representativas de animais com sintomas e que não receberam tratamento com antibióticos. Evite coletar amostras de animais com muitas horas de registro do óbito, para que não haja contaminação (autólise ou invasão post-mortem).

Precisão e Precaução

A

As condições mais assépticas possíveis. É imprescindível o uso de luvas descartáveis, material estéril e desinfetantes tópicos, como a clorexidina.

Conservação e transporte

Sanidade

Condições assépticas

A amostragem deve ser feita de forma minuciosa, amostrando apenas a área que se deseja analisar, tomando cuidado para não contaminar o material.

B

C

As amostras para cultura bacteriológica devem ser mantidas refrigeradas e enviadas ao laboratório o mais rápido possível (máximo 48 horas). Este ponto é essencial, principalmente quando se deseja isolar uma bactéria incômoda como a Glaesserella parasuis, cuja viabilidade é afetada por fatores ambientais como temperatura ou tempo de transporte.

D E

Identificação da amostra As amostras devem ser identificadas e armazenadas em recipientes estéreis e herméticos. Embora esse ponto seja bastante direto, muitas vezes falhas são cometidas na identificação das amostras ou as amostras são enviadas sem etiqueta, o que dificulta ao laboratório decidir, por exemplo, qual meio de cultura utilizar para a análise das amostras. 9 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial


DIAGNÓSTICO BACTERIOLÓGICO ETAPAS ANTERIORES AO ANTIBIOGRAMA

Sanidade

Assim que a amostra é recebida, o laboratório realiza o diagnóstico em 4 fases:

PROCESSAMENTO E INOCULAÇÃO DA AMOSTRA A primeira fase consiste no processamento da amostra e inoculação em meios de cultura. Com auxílio de um cotonete, retira-se a amostra de forma estéril e uma faixa é feita em um meio de cultura adequado para crescimento da bactéria.

1

PURIFICAÇÃO DA CULTURA A segunda etapa consiste em obter a cultura pura. Nesta etapa, o principal interesse é o isolamento de bactérias patogênicas em uma cultura pura.

2

IDENTIFICAÇÃO Em seguida, as bactérias são identificadas. Existem diferentes sistemas disponíveis, como a espectrometria de massa (MALDI-TOF Biotyper) que permite uma identificação muito rápida, bastando apenas alguns minutos para identificar uma bactéria. É o método utilizado em hospitais e atualmente vem ganhando espaço nos laboratórios de diagnóstico veterinário.

ANTIBIOGRAMA A última etapa é a realização do antibiograma.

GRAM STAIN

3

TESTES BIOQUÍMICOS MALDI TOF PCR SEQUENCIAMENTO OUTRAS

4

Figura 1. Fluxo de trabalho para obter um antibiograma final. 10 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial


REALIZAÇÃO DO ANTIBIOGRAMA Um antibiograma é um teste in vitro que permite determinar o perfil de sensibilidade de uma bactéria a um ou mais antibióticos. Para isso, os laboratórios podem utilizar sistemas qualitativos ou quantitativos baseados na determinação da CIM (Concentração Inibitória Mínima).

Inoculando a bactéria em meio de cultura sólido

ENSAIOS QUALITATIVOS KIRBY-BAUER Em relação aos ensaios qualitativos, o sistema mais utilizado é o disco de difusão em ágar ou Kirby-Bauer. Baseia-se na utilização de discos inoculados com uma concentração específica de um antibiótico e que, uma vez colocados na superfície de uma placa de cultura, se difundem radialmente.

Os discos com os antibióticos de interesse são dispensados ​​e as placas são incubadas por algumas horas a uma temperatura especificada (geralmente 18-24h a 35-37ºC). Após a incubação, os diâmetros dos halos de inibição do crescimento que se formam ao redor do antibiótico são mensurados e, a partir da dimensão do diâmetro é possível determinar se a bactéria é sensível ou resistente a este antibiótico.

Incubação das placas com antibiótico

Sensível

Resistente Mensuração dos diâmetros do halo de inibição Figura 2. Antibiograma por difusão em ágar (Kirby-Bauer). Leitura dos diâmetros dos halos de inibição.

11 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial

Sanidade

A bactéria em estudo é inoculada em uma placa contendo um meio de cultura sólido específico para o cultivo (por exemplo, ágar Müeller-Hinton).


ENSAIOS QUANTITATIVOS Por outro lado, existem diferentes tipos de ensaios quantitativos pelos quais se determina a CIM (expressa em µg / ml ou mg / L), que é a menor concentração de antimicrobiano necessária para inibir o crescimento da bactéria in vitro. As técnicas mais utilizadas são:

MÉTODOS DE DIFUSÃO E-test: são tiras que contêm uma concentração crescente de antibiótico.

Sanidade

Uma vez depositado em uma placa de cultura com a bactéria de interesse, o antibiótico se difunde criando um gradiente. Após a incubação, um halo-elipse de inibição é formado onde o valor CIM será o ponto de intersecção do halo com a tira.

MÉTODOS DE DILUIÇÃO Diluição em ágar sólido: são utilizadas placas com meio de cultura específico e cada uma contém uma concentração de antibiótico. Adicionando as bactérias, veremos em que concentração a bactéria pode crescer e em que concentração seu crescimento é inibido. Microdiluição: são utilizadas placas multipoços que contêm vários antibióticos em diferentes concentrações. A Figura 4 ilustra as etapas a serem seguidas em laboratório. Resumidamente, uma concentração padronizada de bactérias é preparada em um caldo de cultura e adicionada a cada um dos poços (mesmo volume por poço). As placas são incubadas a uma temperatura e duração específicas e a leitura é realizada posteriormente. A menor concentração que inibiu o crescimento bacteriano será o CIM. Este sistema é cada vez mais utilizado devido à existência de sistemas comerciais que permitem automatizar o processo e a leitura dos resultados.

Figura 3. Estudo de sensibilidade antimicrobiana com tiras E-teste. Leitura CIM.

12 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial


Inóculo

Inoculação

Incubação

Leitura

Interpretação e emissão de resultados

Macrodiluição: é um sistema semelhante ao anterior, a única diferença é que trabalha com volumes maiores.

+ 0,03

+ 0,06

+ 0,12

+ 0,25

_

_

0,5

1

INTERPRETAÇÃO DE ANTIBIOGRAMAS E CIM Uso de antibiogramas no campo

mg/l

CMI Figura 5. Diagrama de um estudo de susceptibilidade antimicrobiana por macrodiluição em tubos de ensaio. As concentrações de antibióticos testados variam de 0,03 a 1mg / L. O CIM é igual a 0,5mg / L (primeiro tubo onde o crescimento bacteriano foi inibido).

Uma vez obtidos os valores de CIM ou os diâmetros de inibição, é necessário interpretar os resultados, ou seja, fornecer uma categoria clínica (Sensível / Resistente).

O fato da bactéria isolada ser sensível a um determinado antibiótico significa que, se a infecção for tratada com esse antibiótico com o regime de dosagem registrado, espera-se um curso favorável da infecção. Em contrapartida, a categoria resistente significa que o uso desse antibiótico não mudará o curso da infecção.

13 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial

Sanidade

Figura 4. Estudo de susceptibilidade antimicrobiana por microdiluição em placa de 96 poços (12 antibióticos e 8 diluições de antibiótico).


INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS Para atribuir uma categoria clínica, existem alguns documentos produzidos por organizações internacionais (CLSI e EUCAST) que estudam e estabelecem pontos de corte clínicos para que os laboratórios possam interpretar CIMs ou diâmetros.

Sanidade

Esses pontos de corte definem por quantos milímetros de diâmetro a bactéria será considerada sensível a um determinado antibiótico ou a partir de qual CIM a bactéria é resistente a um antibiótico. Os pontos de interrupção são específicos para espécies, microrganismos e antibióticos. Embora na medicina humana os pontos de corte sejam bastante estabelecidos, na medicina veterinária faltam muitos, o que dificulta a interpretação dos resultados em alguns casos.

CONCLUSÕES Os antibiogramas são uma ferramenta muito útil para o clínico, pois permitem prever o sucesso / fracasso de um tratamento individual, mas, ao mesmo tempo, permitem monitorar a resistência em uma granja ou pirâmide de produção. Entretanto, as informações fornecidas no antibiograma devem ser bem utilizadas. O relatório do laboratório serve como um guia, mas o médico veterinário é responsável por decidir qual terapia antimicrobiana é a mais adequada com base nos resultados laboratoriais, bem como, na sua experiência prévia e, claro, levando em consideração a categorização mais atual dos antibióticos (EMA, relatório AMEG, 2020).

Para concluir, observe que um antibiograma não adianta se vier de um diagnóstico errado. Portanto, vale continuar a enfatizar aos veterinários a importância da coleta de amostras completa e asséptica, apesar das dificuldades que podem ser encontradas em ambientes de granjas pouco estéreis.

Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial.

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14 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Antibiograma: Importância da qualidade da amostra e diagnóstico laboratorial


O USO

DO

CREEP FEEDING COMO ESTRATÉGIA PARA MELHOR DESEMPENHO DOS LEITÕES creep feeding

Joana Barreto Doutoranda em Nutrição e Produção de Animais não Ruminantes - UFLA Linha de Pesquisa em Nutrição Funcional de Suínos Integrante do NESUI – Núcleo de Estudos em Suinocultura Integrante do NUFSUI – Grupo de Pesquisa em Nutrição Funcional de Suínos

A

evolução na genética de suínos, especialmente das fêmeas, trouxe para o sistema de produção, animais com uma capacidade reprodutiva melhorada que possibilitou um aumento no número de leitões nascidos. No cenário nacional, observa-se que o número médio de leitões nascidos vivos por fêmea/ano aumentou de 27,22 em 2008 para 31,02 leitões em 2019 (AGRINESS, 2020).

Ainda de acordo com os relatórios da Agriness, houve uma redução de 100 g/ leitão no peso médio ao nascimento para o mesmo período.

Aliado a essas características do cenário brasileiro, a prática de desmame precoce entre 21 e 28 dias de idade permite um melhor aproveitamento das instalações nas granjas (XUE et al., 1993).

15 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões


creep feeding

Contudo, o manejo dos leitões na maternidade se torna ainda mais desafiador, pois além de existir uma maior proporção de leitões leves que necessitam de maiores cuidados iniciais, a produção de leite pela porca é insuficiente para atender a demanda das leitegadas numerosas. Portanto, é fundamental que sejam aplicadas estratégias de manejo como o uso do creep feeding, com o objetivo de minimizar o impacto do déficit em produção de leite e preparar a leitegada para o período de transição entre as fases de maternidade e creche.

É um período considerado como um dos mais críticos e desafiadores, pois os leitões são submetidos à diferentes fontes de estresse. São mudanças marcantes, tais como: separação materno-filial e mistura de lotes; adaptação às novas instalações e ao ambiente; e o consumo de uma dieta sólida

(PLUSKE et al.,1997; WEARY et al., 2008).

FISIOLOGIA DO TRATO GASTRO INTESTINAL X DESMAME O peso ao desmame é um fator determinante para o desempenho subsequente dos leitões. Segundo resultados observados por Kummer et al., (2009) um desempenho satisfatório na terminação está intimamente relacionado com o desempenho dos animais na fase de creche, especialmente na primeira semana após o desmame. Naturalmente, o desmame em suínos acontece em torno de 10 a 12 semanas de idade, de maneira gradual e corresponde com o desenvolvimento quase que completo do sistema epitelial, imunológico e nervoso do trato gastrintestinal (MOESER et al., 2017).

Durante a amamentação, os leitões ingerem o leite da porca que é rico em gordura, lactose e caseína e a composição química característica dessa secreção é compatível com a fisiologia digestiva dos animais nesse período (LALLÈS et al., 2004).

Ao serem desmamados, passam a ingerir um alimento sólido e seco, pouco digestível, composto por proteína vegetal, amido e óleo. No entanto, não possuem um sistema digestório adequadamente desenvolvido para o melhor aproveitamento desses nutrientes e, consequentemente, expressam um baixo desempenho

(LANGE et al., 2010; KIM et al., 2012).

16 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões


Logo após o desmame, são observadas diversas alterações enzimáticas e morfológicas no trato gastrintestinal dos leitões (PLUSKE et al., 2013) que estão associadas ao baixo consumo de ração, especialmente nos primeiros dias. O consumo de matéria seca semelhante ao do período pré-desmame só acontece entre os dias 7 e 14 da fase de creche (BURRIN & STOLL, 2003). Ou seja, a deficiência em energia e nutrientes nessa fase inicial pode comprometer a recuperação e o desenvolvimento do trato gastrintestinal dos leitões.

creep feeding

As vilosidades revestem o epitélio do intestino e amplificam a área de superfície para o processo de digestão e absorção de nutrientes enquanto as criptas localizadas na base das vilosidades, possuem células importantes para a renovação celular constante do epitélio (ZHANG & XU, 2006). O funcionamento ideal do intestino delgado está relacionado com vilosidades longas, porém, após o desmame há um período de atrofia das vilosidades e hiperplasia das criptas no intestino dos leitões e a principal razão para essas alterações se dá pelo baixo consumo de ração.

Nas primeiras semanas de vida, o sistema digestório dos leitões é eficiente em digerir, principalmente, o açúcar do leite da porca pela alta atividade da enzima lactase. O período de desmame corresponde com uma queda na atividade da lactase e um aumento gradativo das enzimas lipase, protease e amilase, em razão do aumento dos níveis de gorduras, proteínas e carboidratos na dieta (CHAMONE

et al., 2010).

Aumento das enzimas lipase, protease e amilase

Ainda de acordo com os mesmos autores, nesse momento os leitões são incapazes de manter um baixo valor de pH devido a insuficiente produção de ácido clorídrico. Dessa forma, a elevação do pH estomacal favorece a proliferação de bactérias patogênicas como Escherichia coli e a diminuição da digestão e absorção de nutrientes, principalmente proteínas.

Queda na atividade da lactase 17 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões


Neste sentido, algumas estratégias podem ser adotadas no pré-desmame para melhorar o desempenho e a uniformidade da leitegada. A principal característica desse momento de transição entre a maternidade e a creche é a fonte e a forma física do alimento dos leitões, ou seja, deixam de consumir o leite materno,

Uma das estratégias mais adotadas nas granjas é o fornecimento de dietas sólidas (creep feeding) para os leitões lactentes ainda na maternidade. Os principais benefícios conferidos à essa prática são de fornecer uma dieta com ingredientes altamente digestíveis, para que o consumo seja antecipado e haja uma adaptação intestinal precoce aos nutrientes que não estão presentes no leite, além de fornecer uma nutrição suplementar (SHEA et al, 2013).

Estudos que classificaram os leitões como “consumidores” e “não consumidores” do creep feeding mostraram resultados consistentes de que apenas uma proporção de leitões da leitegada consome a ração do creep feeding e que esses mesmos leitões “consumidores” têm um maior consumo inicial e desempenho no período pósdesmame comparado aos “não consumidores” (BRUININX et al., 2002; KULLER et al., 2007; SULABO et al., 2010a).

O estímulo ao consumo é uma das principais justificativas para o fornecimento do creep feeding no pré-desmame. De acordo com os resultados observados por Bruininx et al., (2002), leitões que consomem ração na maternidade, demoram menos tempo para se alimentarem após o desmame sugerindo que, o estímulo ao consumo precoce favorece o consumo na fase de creche (Figura 1).

Média de tempo para início do consumo = 10,7 horas Nº total = 192 leitões

100 90

Leitõnes em jejum, % do total

creep feeding

um alimento líquido de alta digestibilidade, para consumir uma dieta sólida de menor digestibilidade (CAMPBELL et al., 2013).

80

leitões consumidores não consumidores leitões que não tiveram acesso ao creep feeding

70 60 50 40 30 20 10

Figura 1 - Porcentagem de leitões desmamados que permaneceram em jejum após o desmame em função do tempo. Adaptado de Bruininx et al., 2002.

0 0

10

20

30

40

50

60

70

80

Intervalo pós-desmame, h

18 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões


De maneira geral, segundo Eastwood (2018), algumas características são importantes para o sucesso dessa estratégia e para maximizar o consumo do creep feeding como: oferecer aos leitões alimentos de alta qualidade e digestibilidade; iniciar o fornecimento uma semana após o parto; fornecer pequenas quantidades, no mínimo 3 vezes ao dia; estimular o comportamento exploratório utilizando comedouros específicos; observar e definir o tamanho ideal dos pellets; e manter sempre os comedouros limpos.

As dietas complexas para leitões recém desmamados utilizam ingredientes de alta palatabilidade e digestibilidade como, por exemplo, plasma sanguíneo, lácteos e farinha de peixes. Da mesma forma, a formulação de uma ração de creep feeding deve levar em consideração a fisiologia intestinal imatura do leitão lactente.

Atenção especial deve ser dada à inclusão do farelo de soja, que pode causar reações alérgicas de hipersensibilidade intestinal nos leitões. Para avaliar o efeito da qualidade de creep feeding fornecido aos leitões na maternidade a partir dos 18 dias de idade, Salubo et al., (2009) compararam uma dieta simples, a base de milho e farelo de soja, com uma dieta complexa contendo, entre outros, soro de leite, farinha de peixe e plasma spray-dried. Observou-se que os leitões que receberam dieta complexa consumiram duas vezes mais ração comparado aos leitões da dieta simples. Além disso, a proporção de leitões consumindo ração na dieta complexa aumentou de 28% para 68%, o que é importante, pois estes animais provavelmente estarão mais adaptados às dietas logo após o desmame. O fornecimento precoce do creep feeding pode ser vantajoso para o desempenho dos leitões lactentes. Nesse sentido, Lee e Kim (2018) observaram que o fornecimento do creep feeding na maternidade sete dias após o nascimento comparado ao fornecimento 14 e 21 dias após o nascimento dos leitões, aumenta o peso corporal e o ganho de peso médio diário dos animais. Os autores sugerem que uma duração mais longa do creep feeding pode melhorar o desempenho dos leitões.

O tipo de comedouro utilizado nesse manejo também pode influenciar o consumo e a quantidade de desperdício de ração. Os comedouros do tipo bandeja, por exemplo, permitem que vários animais possam consumir ao mesmo tempo. A escolha de um comedouro adequado deve prevenir que os leitões urinem e defequem, fuçam ou se deitem sobre a ração fornecida.

19 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões

creep feeding

Fornecimento do creep feeding


Segundo Sulabo et al., (2010b) o comedouro circular com aro divisor e reservatório demonstra ser mais adequado e indicado para fornecer o creep feeding, pois a presença do reservatório dificulta a entrada e permanência dos leitões dentro do comedouro, evitando assim que os animais fucem, urinem ou defequem na ração, reduzindo o desperdício.

Diâmetro do pellet

creep feeding

É comum observar em granjas comerciais o fornecimento da ração do creep feeding em forma de pellets. Geralmente o pellet é muito pequeno, com aproximadamente 3 milímetros de diâmetro ou menor. Essa é uma característica física da ração que também pode influenciar o consumo dos leitões. Uma série de estudos foram conduzidos por van den Brand et al., (2014) para avaliar o efeito do tamanho do pellet da ração fornecido no creep feeding de leitões a partir da primeira semana após o nascimento. Foram oferecidos pellets de tamanho considerado padrão, com 2 a 3 mm comparados aos pellets considerados grandes, com 10 a 12 mm de diâmetro. Os autores observaram que, quando os leitões tem a oportunidade de escolher, preferem os pellets de maior diâmetro e consomem mais ração. Observaram também o mesmo comportamento no consumo quando foi oferecido apenas uma opção de tamanho do pellet. A partir disso, concluíram que após o desmame o consumo de ração e o ganho de peso foram superiores para os leitões que consumiram os pellets grandes durante a lactação. A quantidade de ração consumida pelos leitões na maternidade é muito variada e nem sempre irá refletir em melhorias de desempenho após o desmame. Os leitões que têm acesso ao creep feeding durante a lactação demonstram um aumento no consumo de ração e ganho de peso durante os primeiros dias após o desmame, mas segundo alguns autores, essa vantagem não se mantém até o final da fase de creche (LAWLOR et al., 2002; SULABO et

al., 2010c ; VAN DEN BRAND et al., 2014).

CONCLUSÃO Diante disso, devemos considerar que, embora seja frequentemente utilizado como estratégia para melhorar o desempenho dos leitões na maternidade ou de adaptação às dietas sólidas do pós-desmame, os resultados disponíveis em relação ao creep feeding ainda são inconsistentes. Isso se deve a diferentes fatores, principalmente, pela alta variação no consumo entre os leitões. Tanto em granjas comerciais quanto em avaliações experimentais, o início do fornecimento e a quantidade de ração consumida do creep feeding têm sido muito variadas, e geralmente muito baixa (WATTANAKUL et al., 2005). Portanto, é fundamental se atentar não só para a qualidade da dieta oferecida, mas também para a forma física da ração e o tipo de comedouro a ser utilizado. Esses fatores podem ser determinantes no sucesso deste manejo. O fornecimento precoce de ração suplementar ao leite da porca pode antecipar o contato dos leitões com os alimentos sólidos e estimular um maior consumo logo após o desmame. Esse tipo de estratégia deve estar alinhado com os manejos de desmame, formulação de dietas e uso de aditivos para que se possa alcançar os melhores resultados de desempenho e saúde dos animais. O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões

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20 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | O uso do creep feeding como estratégia para melhor desempenho dos leitões


CHINA: EM BUSCA DA AUTOSSUFICIÊNCIA EM CARNE SUÍNA

reportagem

Cândida Azevedo

Em setembro de 2020 a China, maior consumidora de carne suína, estabeleceu uma meta de longo prazo para se tornar autossuficiente em 95% na produção de carne suína. E para atingir a meta, o país governado por Xi Jinping lidera uma campanha para aumentar a eficiência e a segurança do setor de alimentos, reduzir o desperdício e aumentar o peso do abastecimento doméstico.

A suinocultura chinesa está se reerguendo do surto de peste suína africana (PSA), que desde 2018, já reduziu a criação chinesa suína pela metade. Além da infecção ser fatal para os animais, grande parte dos 450 milhões de suínos do rebanho chinês que existiam no país precisaram ser sacrificados para evitar a disseminação da doença.

21 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | China: em busca da autossuficiência em carne suína


MAIOR COMPLEXO PRODUTIVO DO MUNDO E para atingir a meta de autossuficiência

Se funcionar como planejado – e

mediante as duras consequências da PSA,

outros suinocultores seguirem o

a suinocultura chinesa está investindo em

exemplo - o maior consumidor

complexos de produção de suínos no país e

de carne suína do mundo poderia

em outros continentes.

reduzir as compras do mercado global, afetando o comércio de carne

No território chinês, a grande produtora

em expansão que tem apoiado os

de suínos Muyuan Foods está tentando

agricultores em todo o mundo.

ampliar a produção de suínos em um único local – um investimento de risco elevado com a mortal PSA persistindo.

Diante desse investimento colossal fica o seguinte questionamento no ar:

E O CONTROLE SANITÁRIO

reportagem

NOVO MEGA COMPLEXO DE PRODUÇÃO DE SUÍNOS DA MUYUAN perto de Nanyang

DO REBANHO? Com milhões de pequenas unidades produtoras de suínos que criam

x

menos de 500 animais por ano,

21

a China agora estabeleceu outra

de sete andares

meta, de que 70% de todas as propriedades sejam de grande

x x

escala até 2025, proporção que

84.000

deve aumentar para 85% até 2030.

e suas respectivas leitegadas

10

o tamanho de uma suinocultura regular

O objetivo dessa nova política é centralizar a produção de suínos, aumentando assim o controle sanitário do rebanho e mitigando a possibilidade de

x 2,1 milhões

um novo surto dizimar o plantel do maior consumidor de carne suína do mundo.

por ano

22 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | China: em busca da autossuficiência em carne suína

Imagen: Muyuan Foods / Reuters


COMPLEXOS CHINESES NA ARGENTINA Além da construção desses enormes complexos, para atingir a autossuficiência, a China anunciou um investimento na Argentina. O país vizinho receberá três complexos de suinocultura chineses que funcionarão em formato integrado para exportação. As unidades serão construídas na Província de Chaco.

A província de Chaco que está situada na região do Chaco reportagem

argentino possui extensão territorial de 99.633 km² e população de 984.446 habitantes (censo de 1991), cuja capital é a cidade de Resistencia, foi escolhida para sediar o investimento de US$ 129 milhões. Os estabelecimentos estarão localizados em áreas estratégicas do território provincial: um no nordeste, outro no centro e o terceiro no sudoeste.

O acordo bilateral foi assinado entre a Argentina e a empresa de capital sinoargentino Feng Tian Food (FTF). As estruturas irão atuar na província com os produtores locais como parceiros estratégicos.

23 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | China: em busca da autossuficiência em carne suína


DEMANDA DE INSUMOS No que tange a demanda por insumos na

O governador da Província de Chaco, Jorge

alimentação, que corresponde a 70% dos

Capitanich, informou que

custos de produção, cada complexo vai demandar 32,3 mil toneladas (total 96,9 mil toneladas) de soja 87,4 mil toneladas (total 262,2 mil toneladas) de milho por ano para alimentar os suínos, abastecidos pela produção local.

reportagem

PRODUÇÃO DE SOJA DOS HERMANOS NA TEMPORADA 2020/21 segundo a Bolsa de Rosário

x 50 milhões de toneladas

x 48 milhões de toneladas

Vale ressaltar que, as variações dos preços externos estão encorajando a produção de milho mesmo em um ano em que o clima se tornou o principal adversário da safra.

24 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | China: em busca da autossuficiência em carne suína

“É um volume que pode ser abastecido localmente sem transtornos, já que a província produz cerca de um milhão de toneladas de milho por ano e 1,6 milhão de soja”


REFLEXOS SOBRE O MERCADO NACIONAL DE CARNE SUÍNA E para responder a esse questionamento a

A empresa Feng Tian Food já tem

SuínoBrasil consultou o Diretor de Mercados

parcerias comerciais entre os dois países (China e Argentina) e passará imediatamente a desenvolver contatos

da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Luís Rua. Segundo Rua:

diretos com investidores chineses. Segundo autoridades locais o impacto gigantesco.

Cada complexo será formado por: Cinco propriedades de 2.400 matrizes cada Um refrigerador de

reportagem

“Em termos de exportações, e em de fato se concretizando estes projetos, são nações que devem ganhar no médio prazo algum espaço entre os fornecedores da China. Os impactos para o Brasil e os demais atuais fornecedores de carne suína para a China não devem ser, entretanto, expressivos. Isto, se considerarmos a dimensão da lacuna hoje em vigor no mercado chinês – com perdas superiores a 30% da produção de carne suína chinesa este ano, quando comparado ao ano de 2018, ou seja, pré-efeitos da PSA.

econômico com a construção será

exportação Uma usina de biodiesel Um biodigestor com geração de energia Uma planta alimentar equilibrada

Diante da recomposição de rebanho acelerada do “furacão China” e a instalação de novos complexos no país vizinho, fica o questionamento:

Quais os reflexos desses acordos sobre o mercado nacional de carne suína?

Ainda, a previsão de restabelecimento de 95% da produção chinesa até 2025 indica que haverá posteriormente um mercado de ao menos 2,5 a 3 milhões de toneladas (~5%) a ser abastecido via importações se, e quando, a China restabelecer efetivamente os níveis anteriores de produção. Somase a isto, o aumento da população chinesa e a inserção de grande contingente populacional no consumo de carne suína nos próximos anos, fruto do crescimento econômico chinês. Ou seja, entendemos que haverá espaço para vários fornecedores e ao Brasil cabe lutar para garantir um bom espaço neste mercado desde já, promovendo o seu produto e a sustentabilidade de sua produção. Em termos de insumos, também não se acredita em forte elevação da demanda sobre o insumo brasileiro - já que a Argentina é autossuficiente na produção de grãos.”

25 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | China: em busca da autossuficiência em carne suína


Outro fator relevante desse acordo, a ser

“A estimativa é para uma produção de 900 mil toneladas, valor considerável, mas a curto prazo o cenário ainda é limitado com esses volumes. A Argentina, com relação à produção de carne suína, no mercado internacional, é um player incipiente, com uma produção ainda pequena e conta com um mercado doméstico muito forte, com uma produção anual média de 600 mil toneladas e 95% desta produção é destinada ao mercado doméstico. Em 2019 a Argentina exportou aproximadamente 30 mil toneladas de carne suína. A título de comparação, apenas no ano de 2020 o Brasil exportou mais de 500 mil toneladas de carne suína para a China”

considerado, é o controle sanitário nas granjas em Chaco, bem como o controle das barreiras Brasil-Argentina. A Chefe Geral da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella elucidou sobre o tema, afirmando que:

“Existem ações do MAPA fora e dentro da fronteira, além de ações gerais de granja e comércio”

E além disso, a pesquisadora ressalta que o trânsito de animais no país é proibido reportagem

se a origem desses animais for de países com casos de PSA ou a peste suína clássica.

Os volumes de demanda para a China ainda são muito grandes, antes da crise da PSA, metade do rebanho mundial estava na China.

“O risco sempre existe e o Brasil tem implementado fortes ações de fiscalização em portos, aeroportos e fronteiras, a partir da atuação do VIGIAGRO (Vigilância Agropecuária Internacional), garantindo assim, o controle sanitário da pecuária nacional.”

Na visão do analista econômico de proteína animal da Rabobank, Wagner

“Olhando em termos de competitividade, Brasil x Argentina, a demanda mundial por carne suína ainda é elevada. Pensando em curto prazo, as movimentações são incipientes em competitividade” conclui Wagner

Yanaguizawa esses acordos a curto prazo apresentam pouco risco à produção nacional de carne suína, uma vez que, tais acordos ainda estão sendo implementados, cujo prazo final

China: em busca da autossuficiência em carne suína

para implementação é de quatro a

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cinco anos.

26 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | China: em busca da autossuficiência em carne suína


Uma visão técnica e inovadora da suinocultura nacional.

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Entrevista com...

JANICE ZANELLA

DRA

entrevista

Status sanitário da suinocultura nacional

O Brasil ocupa hoje uma posição de destaque na suinocultura global, devido ao seu criterioso controle sanitário que garante ao país o 4º lugar no ranking mundial de exportação de carne suína. “Para manter o protagonismo na suinocultura global, os profissionais da cadeia suinícola devem estar atentos na preservação do maior diferencial competitivo da suinocultura brasileira: a sanidade.

É essencial que profissionais envolvidos na atividade conheçam as doenças que estão ameaçando mundialmente a suinocultura e, principalmente, adotar medidas de biosseguridade para reduzir o risco da entrada destas doenças no país e nas granjas.” Palavras do Presidente da ABCS, Marcelo Lopes

E para esclarecer todas as dúvidas sobre as doenças presentes na suinocultura global e nacional a Chefe Geral da Embrapa Suínos e Aves, Dra. Janice Zanella que é médica veterinária formada pela Escola de Veterinária da UFMG, com M.Sc. e Ph.D. em Virologia Molecular na University of Nebraska, Estados Unidos concedeu uma entrevista pelo instagram da SuínoBrasil.

28 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Entrevista Dra. Janice Zanella: Status sanitário da suinocultura nacional


Zanella é pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves na área de Virologia Animal. Além disso, participa do Comitê Técnico do Programa Nacional de Sanidade Suídea do MAPA, bem como dos Comitês da OIE: Peste Suína Clássica, Peste Suína Africana e Influenza Suína. De 2008 a 2010, foi cientista visitante no USDA em Ames, Estados Unidos.

Todas causam grande impacto econômicos ao setor, mas a de maior impacto no plantel do rebanho brasileiro são as doenças da produção, principalmente as doenças do trato respiratório, causadas tanto por vírus quanto por bactérias, destacando:

Gripe suína/Influenza suína Circovírus suíno Haemophillus parasuis Actinobacillus

acometem o rebanho nacional a pesquisadora

Mycoplasma pneumoniae (causa pneumonia)

emtrevista

Para esclarecimento das principais doenças que esclareceu que as doenças de suínos são divididas em três grandes grupos, sendo eles: Doenças da produção; Doenças de apoio a defesa, que apresentam grande impacto às exportações; e Doenças de segurança de alimentos, são aquelas transmitidas por alimentos.

29 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Entrevista Dra. Janice Zanella: Status sanitário da suinocultura nacional


Outro ponto de destaque, no que tange o

A pesquisadora também ressalta outras

controle sanitário da suinocultura nacional,

medidas para o controle sanitário no país, tais

foi a evolução da adoção de medidas de

como:

biosseguridade, tanto na avicultura quanto na suinocultura intensiva. E a Chefe Geral da Embrapa destacou a Instrução Normativa 19, que considera a importância econômica da suinocultura e a necessidade de manter

Controle da importação de material genético;

um nível sanitário adequado nas granjas que

E destaca a iniciativa do MAPA que em uma

comercializam, distribuem ou mantenham

iniciativa público-privada criou a Estação

reprodutores suídeos para multiplicação

Quarentenária de Cananéias no litoral do

animal, a fim de evitar a disseminação de

Estado de São Paulo, cujo objetivo é a

doenças (Peste Suína Clássica, Aujeszky,

importação de suínos em que é realizado um

Lepstospira, Sarna, Brucelose, Tuberculose) e

protocolo de testes e diagnósticos, mantendo

assegurar níveis desejáveis de produtividade.

assim o controle sanitário da suinocultura

Além disso, alguns estados brasileiros tem instituído IN ou Portarias relacionadas a

entrevista

Controle de entrada de animais no país;

critérios de biosseguridade para animais enviados para o abate, sendo estes critérios: Embarcadouros; Delimitação das áreas com cerca;

nacional.

Há médicos veterinários atuando no país inteiro, tanto na área do controle quanto na área de inspeção, ressalta Janice Zanella.

Vestiário; Escritório; Controle de roedores; Tratamento de água; Vazio sanitário.

30 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Entrevista Dra. Janice Zanella: Status sanitário da suinocultura nacional


Brasil é livre e que estão presentes na Como está o desenvolvimento da vacina para

suinocultura global?

combater a PSA? A pesquisadora destacou a presença da Peste Suína Clássica (PSC) no Nordeste do país e ressaltou os 15 estados brasileiros livres da PSC.

A pesquisadora Janice Zanella que também é membro do Comitê da OIE de PSA ressalta grupos de pesquisas na Espanha, bem

E dentre as principais doenças

como no USDA que estão com os estudos

presente na suinocultura global, o

avançados. A pesquisadora reforça que o

Brasil é livre da PIRRS, destacando

vírus causador da PSA possui mais de 20

o trabalho dos importadores que

genótipos ou sorotipos diferentes do vírus,

realizaram testes em animais e

dificultando o desenvolvimento de uma

material genético que entraram no

vacina segura.

país, garantindo assim a sanidade do plantel nacional. A diarreia epidêmica (PED) também está

É um vírus muito difícil

ausente na suinocultura nacional. E

de trabalhar!

além disso, a pesquisadora ressalta a ausência das Trichinellas no rebanho nacional.

31 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Entrevista Dra. Janice Zanella: Status sanitário da suinocultura nacional

emtrevista

Quais as principais doenças que o


Quais as diferenças entre Peste Suína

Além disso, Janice ressalta a tradição cultural

Africana e Peste Suína Clássica?

da caça em países com registros de surtos da PSA.

A pesquisadora evidencia quais características as doenças possuem em comum, sendo elas: São duas doenças extremamente

E por fim, o vírus da PSC causa uma infecção persistente, ou seja, uma porca infectada dará origem a leitões também infectados. O sistema imune dos leitões não desenvolve uma linha defesa contra o vírus da PSC.

importantes e são classificadas como doenças vermelhas, elas não são zoonoses (o consumo da carne não infecta o

Quais são as medidas adotadas garantem

homem), e podem apresentar infecção

aos demais estados brasileiros como área

crônica e subclínica.

livre da PSC?

entrevista

E as diferenças entre as doenças: A PSC é uma doença da família Flaviviridae, de genoma RNA. Ao passo que a PSA é uma doença cujo vírus pertence à família Asfarviridae e o genoma é um DNA. A PSC é menos

Desde o controle sanitário embasado em inúmeras IN até mesmo a adoção de barreiras, controle no transporte, compartimentação. A Chefe da Embrapa Suínos e Aves faz a seguinte ressalva:

persistente na carne e derivados em comparação à PSA. E outro ponto importante da PSA é que os suídeos

O mais importante de tudo é a educação sanitária!

africanos o vírus desenvolve o ciclo tanto no animal quanto no carrapato. Janice salientou na ocasião para falar sobre o Projeto Javali, que desde 2012 em uma ação conjunta entre a EMBRAPA, MAPA, IBAMA e Exército estabelece critérios para realização da caça desde capacitação de caçadores até o mapeamento de regiões com presença de animais asselvajados. Que nas palavras da pesquisadora toda essa conexão garante a segurança dos demais estados.

32 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Entrevista Dra. Janice Zanella: Status sanitário da suinocultura nacional


Por fim, para concluir e conscientizar a população sobre a importância do controle sanitário para manutenção da sanidade do rebanho suíno, a Dra. Janice Zanella reforça para o turista o risco eminente em trazer para o país produtos de origem animal por tentativa ilegal por meio de bagagens. A pesquisadora rechaça ações em que turistas tentam entrar no país com produtos de caça, carnes e demais produtos de origem animal, de países com registros de doenças cujo o Brasil é livre.

emtrevista

As normas brasileiras de biosseguridade na cadeia suinícola servem de modelo para outros países, Janice Zanella!

Entrevista Dra. Janice Zanella. status sanitário da suinocultura nacional

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33 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Entrevista Dra. Janice Zanella: Status sanitário da suinocultura nacional


FATORES QUE AFETAM O SISTEMA REPRODUTIVO EM SUÍNOS

reprodução

Guadalupe Edgar Beltrán Rosas Assessor técnico de suínos

A

pesquisa básica aplicada e a compreensão da fisiologia da reprodução em suínos, avanços na nutrição, genética das características reprodutivas, comportamento animal, melhorias nas instalações, no meio ambiente, têm permitido alcançar maior eficiência reprodutiva nas granjas comerciais. Durante os últimos 40 anos, foram proporcionadas as bases para o desenvolvimento de fêmeas hiperprolíficas e diversas práticas de manejo e tecnologias como a inseminação artificial, que aumentaram significativamente a eficiência da reprodução no rebanho reprodutor.

Uma taxa de ovulação de 20 não é incomum em matrizes suínas contemporâneas hiperprolíficas. Portanto, presume-se uma gestação de 115 dias, lactação de 21 dias, intervalo desmame/cio de 5 dias, taxa de concepção de 100% e mortalidade embrionária e pré-desmame nula, as porcas têm potencial para dar à luz 2,6 vezes / ano e produzir 52 leitões / porcas / ano desmamados. Entretanto, devido a vários fatores, como estação do ano, nutrição, doença, mortalidade embrionária antes dos 30 dias de gestação e mortalidade antes do desmame dos leitões, o potencial de 52 leitões / porca desmamados em determinadas condições não é alcançado.

34 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos


A capacidade de reprodução ocorre, desde que as condições (ambiente, alimentação, saúde, etc.) sejam adequadas, é imprescindível a obtenção da rentabilidade zootécnica e econômica, que se supõe para uma granja de suínos. Com a evolução dos sistemas de produção, influenciados pela pressão de produção, o uso de ferramentas tecnológicas como os hormônios, substâncias químicas que hoje nos permitem manipular os processos fisiológicos que controlam a fase reprodutiva, torna-se cada vez mais importante.

Portanto, os objetivos de um produtor em relação à reprodução de seu rebanho devem ser: Maximizar o número de leitões desmamados por ninhada Atingir o melhor peso possível dos leitões ao nascer Maximizar o número de leitegadas/ porca/ano Maximizar a produção de leite Melhorar o peso do leitão ao desmame Melhorar a longevidade das porcas em produção

Há relatos de que suínos com um alto nível de medo de humanos exibem elevação sustentada nas concentrações de corticosteroides no plasma associada a uma baixa taxa de concepção e tamanho da leitegada. A maioria dos estudos mostra que suínos com manejo positivo têm menos medo de humanos em comparação aos expostos a experiências negativas ocasionais. Isso tem um impacto significativo na maneira como os suínos percebem o tratador. As porcas que temem humanos durante a gestação têm maior probabilidade de atacar seus leitões e o manejo aversivo das porcas durante o final da gestação aumenta a morbidade dos leitões. O treinamento de trabalhadores na arte da criação de animais continua a ser um desafio para os gerentes de empresas de suínos e é cada vez mais importante à medida que os consumidores se tornam mais interessados no cuidado humano dos animais. O manejo adequado das futuras matrizes inclui: ambiente e acomodação adequados, transporte, fluxo de animais, vacinação preventiva, adaptações, desenvolvimento, seleção e nutrição. Se alguma dessas áreas for comprometida, é bem possível que a produtividade da futura matriz seja afetada ao longo de sua vida, com diminuição nos resultados reprodutivos e aumento nos custos de produção.

35 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos

reprodução

Interação animal-homem


reprodução

Fatores de fertilização relacionados à matriz suína Genética A reprodução e seleção de marrãs da linha materna são geralmente realizadas por fornecedores de suínos com base na taxa de crescimento da progenitora, composição corporal, estado de saúde, desenvolvimento sexual e histórico reprodutivo. A capacidade de expressar o estro e continuar o ciclo deve ser a principal característica reprodutiva para a seleção de marrãs de reposição. A herdabilidade da capacidade de manifestação do estro na puberdade e ovular dentro de 10 dias após o desmame de uma leitegada foi relatada como 0,31. As fêmeas que não apresentam estro na puberdade também apresentam maior incidência de ovulação sem estro, 10 dias após o desmame da primeira leitegada.

É comum ter em algumas raças o que se denomina de linhagens ou linha materna, isto é, machos e fêmeas selecionados para o aumento da prolificidade e para melhoria da habilidade materna, e animais de linhagens ou linhas paternas, selecionados principalmente para aumento da taxa de crescimento, da eficiência alimentar e da deposição de carne na carcaça. São, portanto, grupos de animais que foram refinados pela seleção para expressarem um determinado desempenho (FENÓTIPO).

Dentre os cruzamentos utilizados na suinocultura intensiva lista-se: as raças Landrace , Large White e Duroc, respectivamente, embora cruzamentos entre Landrace e Large White também sejam usados. Além disso, cruzamentos entre Landrace ou Large White com Duroc também são usados para obter F1, no qual busca-se principalmente mais “durabilidade” na granja, ou seja, mais número de partos (vida útil), e obviamente uma maior resistência às condições ambientais adversas (rusticidade), vigor, tamanho e etc. Essa vantagem produtiva do F1 sobre as linhas parenterais se deve à heterose, fenômeno típico do cruzamento de indivíduos pertencentes a populações que não se reproduzem há muito tempo. Por exemplo, duas raças diferentes ou duas linhagens diferentes da mesma raça geralmente produzem animais com melhores características reprodutivas. Linhagens hiperprolíficas também foram desenvolvidas e de fato são utilizadas com bastante sucesso, para as quais foram introduzidas certas raças asiáticas, como a Meishan, exibindo taxas de prolificidade muito mais altas do que as raças europeias e americanas. Normalmente existem diferenças entre as raças quanto à idade a puberdade, assim como entre porcas mestiças e puras, as primeiras são consideradas mais precoces. Esta é outra expressão de heterose. Parte da diferença depende da taxa de crescimento desde o nascimento até a maturidade sexual. Possivelmente há aumento da atividade hipofisária em híbridos, relacionado ao maior peso hipofisário em comparação com porcas puras da mesma idade. Outras raças, como: Pietrain, Hampshire, Landrace belga, não são utilizadas como reprodutores devido à sua menor prolificidade.

36 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos


Status sanitário Uma premissa fundamental é a correta adaptação da matriz aos microrganismos que coexistem na granja e o estabelecimento de protocolos de limpeza e adoção de barreiras sanitárias. Muitos dos problemas reprodutivos estão ligados a infecções não específicas que afetam o aparelho reprodutor, tais como: Acasalamentos ou inseminações inadequadas Infecções pós-parto por imperícia (manuseio inadequado)

reprodução

Infecções urinárias por contaminação da água de beber, entre outras

Condições ambientais

Idade e peso vivo O fator que sinaliza o início da produtividade da porca é seu primeiro cio. A puberdade pode ser definida como a fronteira entre a imaturidade e a maturidade sexual, coincidindo na porca com o aparecimento do cio. Embora atualmente não haja consenso sobre qual é a idade e peso adequados para realizar a primeira cobertura. Vale ressaltar, seja qual for o sistema de criação, a primeira cobertura deve ser realizada quando a fêmea consegue levar a prenhez sem qualquer problema para ela ou para a leitegada (desenvolvimento anatômico e fisiológico completo).

Neste caso deve-se atentar à mudança de alojamento, desde ter as porcas alojadas em baias individuais até à pressão da competição em baias coletivas, há muita diferença. Os produtores e técnicos devem tentar agrupar as porcas em lotes muito homogêneos e escolher o sistema de alimentação que melhor se adapte não só ao animal, mas também à empresa. Ou então, como já está sendo observado, muitos problemas surgirão, entre os quais: Mortalidade embrionária Reabsorções Retorna ao calor Claudicação

37 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos


Temperatura ambiente

Infertilidade estacional O efeito da estação na fertilidade é mediado pela temperatura e pelo fotoperíodo. A puberdade é atrasada no verão, ao passo que, o intervalo desmame-estro e a duração do estro são mais longos no verão e a taxa de ovulação, taxa de concepção e tamanho da leitegada são menores no verão do que no final do outono e inverno.

reprodução

Um exemplo claro do que acontece com a luz e sua intensidade é observado em marrãs que recebem iluminação complementar, uma quantidade de luz por superfície de 300 lux, entre 05h20 e 08h30 e entre 16h30 e 20h20, durante os meses em que o dia é mais curto, essas porcas geralmente atingem a puberdade 20 dias mais cedo do que as porcas que não receberam esta iluminação complementar.

A elevação da temperatura ambiental reduz o consumo de ração na lactação, retarda a puberdade, diminui a taxa de ovulação, aumenta a mortalidade embrionária, diminui a produção de leite e prolonga o intervalo desmame/cio em porcas. O principal problema observado nas fêmeas é a dificuldade em dissipar o calor, os animais modificam seu ritmo circadiano, modificam seus comportamentos para adaptar sua atividade à temperatura e, portanto, mudam sua atividade durante o dia. Portanto o cio é menos perceptível e tendem a ser mais curtos. Nas porcas desmamadas no verão, observam-se regularmente elevação do intervalo desmame/ cio. Normalmente, se medidas provisórias não forem estabelecidas, os índices reprodutivos no outono sofrem variações negativas para os resultados produtivos desejados. Quanto aos machos, tendo em vista que sua temperatura ótima varia de 13 a 16 ° C, já podemos imaginar os problemas que sofrem quando sua temperatura ambiente sobe acima de 24 ° C. A principal alteração que nos leva a detectar um problema de excesso de temperatura é o aumento da porcentagem de aglutinação dos espermatozóides.

Fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos

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38 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Fatores que afetam o sistema reprodutivo em suínos


OS

IMPACTOS

DAS MICOTOXINAS NA PRODUÇÃO DE SUÍNOS Prof. Dr. Carlos H. Corassin Universidade de São Paulo Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos

nutrição

As micotoxinas são compostos tóxicos produzidos por alguns tipos de fungos em crescimento nos ingredientes da ração. Estes fungos podem infectar os grãos no campo, bem como durante a colheita, manuseio e armazenamento. Embora atualmente, mais de 200 micotoxinas tenham sido identificadas, acredita-se que apenas algumas influenciam o desempenho produtivo e reprodutivo de suínos. O risco de ocorrência das micotoxicoses é dependente da idade e saúde dos suínos e do nível de toxina presente na dieta. O efeito mais grave é a morte do animal, porém baixos níveis de micotoxinas podem prejudicar o desempenho e o bem-estar geral dos suínos. Quando os suínos consomem dietas contendo micotoxina, esta toxina pode afetar o sistema nervoso, o fígado, os rins, o sistema imunológico ou a reprodução dos suínos.

39 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


MICOTOXINAS NA PRODUÇÃO SUINÍCOLA Aflatoxinas, zearalenona, deoxinivalenol, fumonisinas e ocratoxinas são as micotoxinas de maior preocupação para os suínos.

nutrição

Cada uma destas micotoxinas são produzidas por fungos específicos, necessitando de condições ideais para promover sua produção, sendo a alta umidade e temperaturas elevadas os principais requisitos.

40 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


A aflatoxina, geralmente produzida pelo micotoxinas Aspergillus flavus, afeta o diferentemente o desempenho dos suínos, em função da idade e da saúde dos animais, bem como da concentração da toxina na alimentação. Os suínos jovens são mais sensíveis aos seus efeitos. Os sintomas ocorrem com concentrações na faixa de partes por bilhão (ppb). Pequenas quantidades podem reduzir o desempenho e a saúde geral dos suínos. A aflatoxina em níveis reduzidos (20 a 200 ppb) reduz a resposta do sistema imunológico deixando os suínos mais suscetíveis a doenças bacterianas, virais ou parasitárias.

Perdas associadas a micotoxinas

A exposição prolongada a aflatoxina pode levar ao câncer, danos ao fígado, icterícia e hemorragia interna. Com o tempo, os lucros do rebanho serão reduzidos em função da perda na eficiência, crescimento mais lento e aumento dos custos de tratamento veterinário. Quando os níveis das contaminações por aflatoxina estiverem em altas concentrações (1.000 a 5.000 ppb) os efeitos são agudos, incluindo morte. A aflatoxina M1, um metabólito da aflatoxina, é encontrada no leite de porcas alimentadas com dietas contaminadas com aflatoxinas.

nutrição

AFLATOXINA

Os animais alimentados com leite contaminado com aflatoxina M1 apresentaram mortalidade aumentada e crescimento mais lento.

41 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


No entanto, vários estudos indicam que os efeitos estrogênicos da zearalenona não são permanentes e que as marrãs podem reproduzir sem reduções na fertilidade após um período de duas semanas sem ingestão de zearalenona.

nutrição

ZEARALENONA A zearalenona é produzida pelo Fusarium graminearum e dentre as micotoxinas é a que afeta mais seriamente a reprodução. Ela ocasiona alterações no sistema genital de marrãs imaturas. As alterações visuais incluem vermelhidão da vulva, aumento de tamanho e peso do útero e aumento das glândulas mamárias. Em casos extremos, podem ocorrer prolapsos retais e vaginais. Essas alterações pelo efeito do hiperestrogenismo induzido pela zearalenona são muito bem caracterizadas em marrãs pré-púberes. A ingestão de dietas contendo 10 partes por milhão (ppm) de zearalenona é suficiente para alterar o início da puberdade em marrãs.

Dietas contendo 25-100 ppm de zearalenona, fornecidas continuamente do desmame à recria, ocasionam graves casos de infertilidade. Porcas em lactação também são suscetíveis à zearalenona em altas concentrações, quando alimentadas com 50-100ppm

42 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


de zearalenona por 2 semanas antes do desmame e por cerca de 60 dias após o desmame, apresentam estro constante.

Quando os machos pré-púberes consomem 40ppm de zearalenona de 14 a 18 semanas de idade, seus níveis de libido reduzem em relação aos machos não tratados. Essa redução é associada a uma concentração reduzida de testosterona no sangue, o hormônio sexual masculino responsável pelo desejo sexual. Comumente rebanhos com histórico de contaminação da dieta com zearalenona relatam casos de natimortos, mortalidade neonatal, mumificação fetal, aborto e retorno anormal ao estro dentre outras anormalidades reprodutivas. Contudo o mecanismo de ação específico da zearalenona em cada uma dessas situações ainda não está bem elucidado.

Adicionalmente, na maioria dos casos, os alimentos contaminados pelas micotoxinas não foram adequadamente testados e as conclusões são feitas a partir de observações de campo em vez de análises micotoxicológicas da dieta ou dos biomarcadores dos animais. Portanto, é possível que outras micotoxinas em conjunto com a zearalenona estejam interagindo para produzir esses efeitos.

DEOXINIVALENOL Deoxinivalenol (vomitoxina) é uma micotoxina produzida pelo Fusarium graminearum antes mesmo da colheita. Comumente contamina milho, trigo e DDGS e o suíno é relatado como a espécie mais sensível. Esta micotoxina interfere na síntese de proteínas, na modulação da imunidade e na atividade de neurotransmissores no cérebro.

nutrição

Porcas alimentadas com dieta contendo 10 ppm de zearalenona durante os últimos 14 dias de lactação exibem um intervalo prolongado do desmame ao cio.

Apesar do que o nome sugere, a vomitoxina raramente induz vômito em suínos, o quadro de toxicidade agudo é incomum, mas é somente nesse caso que pode ocorrer vômito, diarreia, lesões digestivas graves e morte súbita. A toxicidade crônica por vomitoxina é bem mais comum e de grande importância prática. Na maioria dos casos, há uma rápida diminuição no consumo de ração, levando a uma redução na taxa de crescimento. O impacto na ingestão de alimentos é dependente da dose contaminante, com uma estimativa de 4% de redução no consumo de ração para cada ppm adicional de deoxinivalenol acima da concentração de 1,5 ppm na dieta.

43 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


OCRATOXINA

nutrição

FUMONISINA As fumonisinas são produzidas por espécies do gênero Fusarium, sendo a fumonisina B1 a mais abundante. Estas micotoxinas interferem na função celular e na sinalização em muitos tecidos, mas principalmente os pulmões, coração e fígado. Também causam imunossupressão. A toxicidade aguda ocasiona o quadro clínico de edema pulmonar, muito característico da intoxicação por fumonisina, causando insuficiência cardíaca e acúmulo de líquido nos pulmões. Os suínos com toxicidade aguda têm sinais respiratórios graves, apresentando respiração difícil, cianose e morte.

A ocratoxina é produzida principalmente por Aspergillus ochraceus, Penicillium verrucosum e Penicillium viridicatum durante o período de armazenamento. A toxicidade por ocratoxina é perceptível nos rins e fígado. Na maioria dos casos de micotoxicoses por ocratoxina A, os suínos apresentam reduzida eficiência alimentar e taxa de crescimento, devido ao quadro de insuficiência renal e hepatotoxicidade. Porém, o consumo alimentar muitas vezes não é afetado, sendo que em alguns casos, o único sinal da toxicidade da ocratoxina A é encontrado durante o abate, nas alterações dos rins, pela aparência pálida, firmes e aumentados.

A toxicidade crônica é decorrente da ingestão de pequenas quantidades de fumonisinas por um período prolongado. Os animais com toxicidade crônica têm menor consumo de ração e menor taxa de crescimento, mas também pode ter maior suscetibilidade a doenças secundárias e menor resposta à vacinação por causa da supressão do sistema imunológico.

44 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


Micotoxina

Categoria

60 ºC

Aflatoxinas

Crescimento/ terminação

< 100 ppb 200 a 800 ppb

Reprodução

800 a > 2000 ppb 400 a 800 ppb

Crescimento/ terminação

< 1 ppm 2 a 8 ppm 10 ppm

Sem sinais

1 a 3 ppm 3 a 10 ppm > 30 ppm

Edema vulvar e vermelhidão, prolapsos de reto e vagina

Zearalenona

Fumonisinas

Ocratoxina A

Reprodução

Todas as categorias Crescimento/ terminação

Sem sinais Baixo consumo de ração, baixa taxa de crescimento, imunossupressã Disfunção hepática grave, hemorragias, icterícia e morte súbita Sem nas reprodutoras, leitões com crescimento lento devido à aflatoxina M1 no leite Diminuição acentuada no consumo de ração, baixa taxa de crescimento Recusa total de ração, vômito, diarreia, lesões digestivas graves, morte súbita Anestro, falsa prenhez Perda embrionária precoce

< 20 ppm 50 a 100 ppm > 100 ppm

Sem sinais

200 ppb > 1000 ppm

Baixa taxa de crescimento, baixa eficiência alimentar, lesões renais no abate

Baixo consumo de ração, baixa taxa de crescimento, imunossupressão Lesões pulmonares graves, respiração difícil, cianose e morte nutrição

Deoxinivalenol (DON)

70 ºC

Disfunção renal grave

*Efeitos das micotoxicoses de acordo com a categoria dos suínos e o nível de micotoxinas na dieta

45 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


ESTRATÉGIAS

A inclusão de inibidores de fungos e adsorventes de micotoxinas na dieta podem ser usados como uma boa estratégia. Os inibidores podem controlar a contaminação fúngica e prevenir o crescimento de fungos, enquanto os adsorventes ligam-se às micotoxinas e evitam a absorção através do intestino.

nutrição

Mesmo com baixas concentrações de micotoxinas, os grãos contaminados podem afetar a saúde e desempenho dos animais. Estratégias para mitigação das micotoxinas em dietas para suínos devem ser adotadas. Dietas contaminadas devem ser sempre evitadas, principalmente para animais mais novos e em reprodução, em casos que a contaminação é inevitável, este alimento deverá ser destinado aos suínos em terminação, que são normalmente menos suscetíveis às micotoxinas.

Porém, muita atenção, pois os adsorventes de micotoxinas não costumam ser eficazes contra todas micotoxinas, sendo assim, é importante analisar o alimento, realizando uma análise micotoxicológica, e assim conhecer qual, ou quais micotoxinas estão presentes na dieta e escolher o adsorvente específico para a necessidade.

Outras estratégias para alimentos contaminados com alta concentração de micotoxinas podem ser adotadas, como destinar estes alimentos para espécies menos sensíveis a micotoxinas, como o gado de corte, ou os alimentos contaminados serem misturados com alimentos não contaminados, para reduzir concentração de micotoxinas por diluição.

Os impactos das micotoxinas na produção de suínos

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46 suínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Os impactos das micotoxinas na produção de suínos


INFLUÊNCIA DA

CONDIÇÃO CORPORAL DE

FÊMEAS HIPERPROLÍFICAS NO PARTO reprodução

E AS CONSEQUÊNCIAS SOBRE AS CONDIÇÕES DE NASCIMENTO DOS LEITÕES Sara Beitia Delgado Médica Veterinária

A

alta variabilidade no peso ao nascimento dos leitões tornou-se uma constante nos programas de seleção genética para fêmeas suínas de alto desempenho. A produção de leitegadas maiores leva a um menor peso médio ao nascimento, aumentando o número de leitões nascidos com peso inferior a 1kg.

O baixo peso ao nascer é considerado um impacto negativo no crescimento dos leitões, o que se traduz em um aumento do risco de mortalidade.

47 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


A importância da condição corporal da fêmea suína É fundamental identificar os mecanismos fisiológicos e bioquímicos responsáveis ​​ pela variação do peso ao nascer da leitegada e pela otimização da nutrição materna para suportar as necessidades de crescimento e desenvolvimento de todas as estruturas que abrangem a gestação.

reprodução

A demanda energética da matriz suína durante a lactação é alta, principalmente nas marrãs, pois devem manter o crescimento corporal e a produção de leite paralelos. Com reservas de gordura limitadas, as porcas podem ter um efeito negativo na reprodução. Em fêmeas primíparas, a perda substancial de reservas corporais durante a lactação demonstrou ter efeitos negativos em algumas funções reprodutivas

Estudos constataram que a perda de espessura de toucinho durante a lactação está associada a:

Intervalos mais longos do desmame ao estro Diminuição das taxas de prenhez Uma vida produtiva mais curta Associação negativa entre gordura dorsal no final da gestação e porcentagem de natimortos

Matrizes suínas com excesso de gordura no final da gestação apresentam dificuldades ao parto e dão à luz um maior número de leitões natimortos. Portanto, a espessura de toucinho deve ser mantida dentro de uma faixa ideal para garantir o melhor desempenho produtivo.

Capacidade de ovular e recriar Tamanho da leitegada Produção de leite O período de reprodução em porcas está associado a elevação das necessidades energéticas, especialmente durante o terço final da gestação e durante a lactação. Nestes períodos, o consumo voluntário de alimentos na maioria das vezes é insuficiente para satisfazer os nutrientes necessários à manutenção e lactação, levando à mobilização das reservas de gordura e proteína. A mobilização excessiva de gorduras e proteínas durante a lactação reduz significativamente a reprodução subsequente, ou seja; se a porca mobilizar muita proteína, haverá uma redução no crescimento da leitegada e uma diminuição na função do ovário. Estudos constataram que a perda de espessura de toucinh

48

SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


OBJETIVOS A fim de estudar a heterogeneidade dentro da leitegada, os seguintes objetivos foram definidos:

Geral

reprodução

O objetivo geral que constitui o propósito central do projeto é determinar como a condição corporal das fêmeas suínas afeta o nascimento dos leitões.

Específicos Verificar se a condição corporal das fêmeas afeta o peso dos leitões ao nascer. Determinar se a condição corporal das porcas influencia na porcentagem de nascimento dos leitões. Verificar se a condição corporal das matrizes no parto influencia o tamanho da leitegada ao longo de sua vida produtiva. Verificar se um maior número de partos (primíparas/multíparas) afeta negativamente e/ou significativamente o estado dos leitões.

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MATERIAL E MÉTODOS

A propriedade trabalha com uma linhagem hiperprolífica (DANBRED), que constitui 80% das matrizes reprodutoras e 20% das matrizes híbridas. Nesta propriedade foram testados diferentes tipos de curvas de alimentação e a que deu os melhores resultados é a curva plana na fase de gestação. Com esta alimentação as matrizes ficam calmas, sem sinais de agressividade.

reprodução

O estudo teve duração de quatro semanas, em que a espessura de toucinho foi medida uma semana antes do parto usando um sistema de ultrassom de alta precisão em um total de 108 matrizes.

Espessura de toucinho PESAGEM DOS LEITÕES

DELINEAMENTO EXPERIMENTAL

O projeto foi realizado em uma propriedade com 800 matrizes reprodutoras localizada no norte da Espanha (Albelda, província de Huesca).

A pesagem dos leitões foi realizada ao longo da semana, exceto nos fins de semana. Para todas as matrizes do estudo, foram registrados os seguintes dados:

Musculatura Identificação individual Número do ciclo Data do parto Número de nascidos vivos, natimortos e mumificados. Na semana seguinte após a medição da espessura de toucinho, os leitões foram pesados 2​​ 4 horas após o parto individualmente e em grupos. Por não realizar a sincronização do parto, houve porcas que pariram no final de semana, sendo descartadas as que pariram nesse período. O peso dos leitões seria tendencioso ao tomar mais de 1 dia com colostro. Quando os leitões foram pesados, nem todos foram pesados ​​da mesma forma: Pesagem individual: os leitões foram pesados ​​ individualmente nas primeiras duas semanas, mas foi uma tarefa muito trabalhosa e cara, além de diminuir o ritmo de trabalho da granja. Pesagem por leitegada: na última semana de estudo decidiu-se pesar toda a leitegada. No peso individual por grupo de leitões, há menos porcas do que no peso por grupo de leitegada, sendo: 69 porcas com peso por ninhada 44 porcas pesadas individualmente Um total, 765 leitões foram pesados. 800 fêmeas reprodutoras 765 leitões

ET

pesagem individual e por leitegada

50 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


Com base nos milímetros de espessura de toucinho, as fêmeas são classificadas em três grupos:

NORMAIS GORDAS

Ao medir a espessura de toucinho uma semana antes do parto, considera-se os valores da coluna anteparto em nulíparas 18 (espessura de toucinho, ET) e multíparas 17 ET como referência. Esses valores estariam dentro da classificação de "fêmea normal". Analisando os resultados do estudo e a produtividade da propriedade, decidiu-se classificar as fêmeas em três categorias: 5cm

5cm

reprodução

MENSURAÇÃO DA ET

MAGRAS

Para mensurar a espessura de toucinho, foi utilizada uma máquina de ultrassom portátil com sondas lineares e transdutores de alta frequência (5 MHz), que mostram claramente as camadas de gordura desde o primeiro milímetro. Foi feito a partir do Ponto de Medida P2, que fica entre a última e a penúltima costela, a uma distância de 5 cm da coluna vertebral.

13-20 mm

<13 mm FÊMEAS MAGRAS

FÊMEAS NORMAIS 5cm

>20 mm FÊMEAS GORDAS

Figura 1. Imagens de ultrassom portátil com sonda linear e transdutor de alta frequência (5Mhz). Na primeira foto observa-se a espessura do músculo das costas marcada em vermelho, e na segunda foto a espessura de toucinho em amarelo.

51 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


RESULTADOS E DISCUSSÃO Há estudos que evidenciaram que o peso corporal e a espessura de toucinho são significativos para prolificidade, tanto para nascidos vivos quanto para nascidos totais. Este resultado demonstra a grande importância da espessura de toucinho na cobertura após o desmame, ou seja, quanto maior a condição corporal da porca após a lactação, melhor seu funcionamento ovariano e seu desenvolvimento folicular, favorecendo mais leitegadas nos próximos partos.

O presente estudo foi proposto com o objetivo de determinar se a condição corporal da porca antes do parto é um fator determinante no peso ao nascimento dos leitões.

PESO DA LEITEGADA FRENTE A ET.

Por outro lado, valores excessivamente elevados de espessura de toucinho na cobertura, típicos de porcas gordas ou obesas, influenciam negativamente a fertilidade.

35

reprodução

Peso da leitegada

30 25 20 15 10 10

15

EGD

20

25

30

PESO DA LEITEGADA

Gráfico 1. Relação entre a Espessura de toucinho (ET) e o peso das leitegadas. Não existe relação entre o peso da leitegada e a espessura de toucinho na matriz. Os dados estão muito dispersos no gráfico e não seguem uma correlação clara e significativa.

Os resultados do Gráfico 1 ajudaram a definir se era necessária mais uma semana da parte experimental para que o gráfico tivesse uma relação significativa, mas dada a variabilidade e a forma de dispersão dos dados, nada teria mudado.

52 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


Para alguns autores, a espessura de toucinho mínima para realizar a cobertura que desencadeia resultados produtivamente ótimos foi referenciada em 12 mm, embora isso dependa da linhagem genética em questão e tenha variado nos últimos anos à medida que as matrizes reprodutoras evoluem para tipos morfológicos mais magros ou enxutos.

Relação entre a ET e a ordem de parto As matrizes primíparas geralmente entram na baia de parto (maternidade)com espessura maior que as multíparas, neste caso com 18,12 mm, contra 17,66 mm para as multíparas. As fêmeas se desgastam com o avanço da lactação, por isso é recomendado que as marrãs engrossem um pouco mais do que as multíparas na primeira lactação. Se entrarem muito magras, é muito mais difícil recuperar nos próximos partos. Embora estatisticamente não se possa afirmar que haja relação porque p> 0,05.

No que diz respeito à relação entre o peso da leitegada e a ordem de parto, pode-se observar que o peso da leitegada é maior com o avanço da lactação (25,95 kg nas multíparas contra 21,62 kg nas primíparas). Além disso, seu peso é maior nas fêmeas classificadas como gordas (25,81 kg) em relação às magras (23,97 kg) e normais (23,37 kg). Portanto, mostra-se que a condição corporal da porca na semana anterior ao parto não é o único fator que influencia o peso ao nascimento dos leitões.

Segundo alguns autores, a melhor forma de prever a variação das reservas corporais da matriz ao longo do ciclo de produção, principalmente com genéticas muito magras como as atuais, é conhecer a evolução do peso vivo, embora este caráter não tenha sido levado em consideração no presente estudo.

Por outro lado, foi possível demonstrar que a porcentagem de leitões leves <1 kg é maior nas porcas classificadas como ''gordas'', fato incomum visto que nas porcas mais magras o peso dos leitões é maior do que nas demais. Por este motivo, pesquisas futuras com um maior número de porcas por grupo e em mais de uma granja serão necessárias.

53 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões

reprodução

Relação entre peso da leitegada e ordem de parto (grupo)


SOBREVIVÊNCIA DO LEITÃO

PERDA DE GORDURA

reprodução

Estudos anteriores estabeleceram que as perdas de gordura durante a lactação são menores em porcas com espessura <20 mm em comparação a porcas com> 20 mm e foi relatado que o nível de perdas de espessura de toucinho era proporcional ao número de leitões desmamados vivos, por este motivo, recomenda-se não engrossar muito a espessura de toucinho nas porcas. Conforme mencionado no início, a espessura deve ser mantida dentro de uma faixa ótima para garantir o melhor desempenho produtivo. Por esse motivo, classificou-se no presente estudo como matrizes ''gordas'' aquelas com espessura superior a 20 mm. De acordo com alguns estudos, as maiores perdas de gordura em porcas com espessura de toucinho > 20 mm podem ser devidas a um maior número e taxa de crescimento de leitões desmamados do que em porcas com espessura de toucinho <20 mm.

Em outros estudos, os dias de vida de alguns leitões na leitegada são reduzidos em leitões com peso inferior a 1 kg e, em menor grau, em leitões com peso entre 1,0 e 1,28 kg ao nascer, em comparação àqueles com peso> 1,28kg. A redução do número de leitões na leitegada das marrãs é explicada principalmente pela maior mortalidade antes do desmame. Os resultados mostram que um peso inferior a 1 kg influencia negativamente a produção de leitões e a longevidade das futuras fêmeas reprodutoras.

>1,28 Kg 1 Kg-1,28 Kg <1 Kg

IVÊ S O BR E V

NCIA

54 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


PESO DA MATRIZ AO NASCIMENTO

As fêmeas nascidas com baixo peso e selecionadas para reprodução apresentam resultados satisfatórios em termos de manifestação de cio e taxas de parto. Porém, o número de lactações dessa porca é menor para as nascidas com menos de 1kg. Por esta razão, neste trabalho, dentro dos pesos individuais dos leitões,foram classificados em leitões > 1 kg e <1 kg . No caso da granja utilizada no estudo, o peso médio individual dos leitões ao nascer nas marrãs é de 1,29 com nível de significância p <0,05. Consequentemente, eles não terão tantos problemas para selecionar futuros reprodutores.

reprodução

Além disso, as diferenças iniciais entre os leitões com baixo peso ao nascer e seus irmãos mais pesados m ​​ ostraram ter um impacto significativo na sobrevivência e no ganho de peso subsequentes dos leitões com baixo peso ao nascer. Isto é consistente com outros estudos nos quais a diminuição do peso individual foi referida como 43 g quando o tamanho da leitegada aumenta em um leitão ou 300 g menos no peso total da leitegada por leitão nascido.

55 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


Relação entre peso individual e ordem de parto (Grupo) PESO INDIVIDUAL VS ORDEM DE PARTO NIVEL

Mínimos Quadrados

Erro Padrão

Prob > F 0,0025

2

1,34

0,04

PRIMÍPARA

1,29

0,09

SEGUNDO

1,57

0,06

Tabela 1. Relação entre peso individual e ordem de parto

reprodução

Ao contrário de até agora, a relação entre o peso em leitões individuais e a ordem de parto e grupo é significativa com P <0,05. O peso corporal, a taxa de crescimento e o número de leitões desmamados foram maiores nas porcas com espessura de toucinho> 20 mm do que nas porcas com espessura <20 mm.

PESO INDIVIDUAL VS CONDIÇÃO CORPORAL NIVEL

Mínimos Quadrados

Erro Padrão

Prob > F

MAGRA

1,34

0,07

0,005

NORMAL

1,59

0,08

GORDA

1,27

0,04

Tabela 2. Relação entre peso individual e a condição corporal.

Neste estudo, apenas os leitões foram pesados ao nascer, não sendo possível concluir qual grupo de leitões era mais velho ao desmame. Por outro lado, alguns autores mostram associação negativa entre espessura de toucinho e tamanho da leitegada ao desmame. Essa associação negativa corrobora com o resultado obtido na Tabela 2, onde está relacionado o peso individual dentro dos grupos (magro, normal e gordo). O resultado estatístico nos diz que os leitões das fêmeas gordas têm peso médio de 1,27 kg, comparados a 1,34 kg dos magros ou 1,59 kg dos normais, com nível de significância de p <0, 05. Em estudos futuros, os dados de peso dos leitões ao desmame seriam coletados para comparar o que esses autores dizem.

56 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


Relação entre musculatura e ordem de parto MUSCULATURA VS CONDIÇÃO CORPORAL NIVEL

Mínimos Quadrados

Erro Padrão

Prob > F

MAGRA

47,30

1,86

0,0098

NORMAL

52,73

1,15

GORDA

55,12

2,35

Tabela 3. Relação entre musculatura e condição corporal.

Em relação à musculatura , existe uma relação significativa P <0,05 em termos de grupo. Observa-se menos musculatura nas fêmeas magras (47,30 mm) em comparação com as fêmeas gordas (55,12 mm), e à medida que o nível de gordura aumenta, também aumenta a espessura do músculo, embora nem sempre seja proporcional.

NIVEL

Mínimos Quadrados

Erro Padrão

Prob > F

2

48,79

1,16

0,0099

PRIMÍPARA

51,64

2,60

SEGUNDO

54,72

1,60

reprodução

MUSCULATURA VS ORDEM DE PARTO

Também existe uma relação significativa entre a musculatura e a ordem de parto, sendo menor em porcas com mais de dois partos. Conforme a vida reprodutiva da porca avança, a musculatura tende a se desgastar.

Tabela 4. Relação entre musculatura e ordem de parto.

57 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


Relação entre nascidos vivos e ordem de parto (Grupo) Em relação aos leitões nascidos vivos, podemos observar que há um maior número de leitões nascidos vivos em porcas multíparas (17,91 leitões) em relação aos leitões de primeiro e segundo partos (16,08 e 16,42 leitões). Dentro da classificação do grupo, o maior número de nascidos vivos ocorre em porcas normais (17,66 leitões) e o menor em porcas classificadas como gordas (16,04 leitões).

reprodução

Relação entre nascidos totais e ordem de parto (Grupo) Em relação ao total de nascimentos, nota-se uma diferença notável de leitões em porcas multíparas, com aproximadamente 2,5 a mais leitões em relação aos de primeira e segunda paridade e com nível de significância de P <0,05. Na relação entre o total de nascimentos e o grupo, deve-se notar que as porcas classificadas como normais dão à luz 2 leitões a mais que as gordas, 18,91 leitões contra 16,44, um dado muito importante na produção. Embora neste último caso não haja significância estatística.

LEITÕES NASCIDOS VIVOS 17,91 16,42

16,08

NÚMER

ÕES O DE LEIT

NASC

I

V DOS

I VO

S

MULTÍPARA 1erPARTO

2 PARTO o

Portanto, podemos concluir que a condição corporal das matrizes hiperprolíficas ao parto não é uma variável que influencia diretamente no peso ao nascer do leitão. Pesquisas futuras terão que medir mais parâmetros, como espessura de toucinho no final da lactação, intervalo desmame-cio, prolificidade e fertilidade.

Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões

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58 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Influência da condição corporal de fêmeas hiperprolíficas no parto e as consequências sobre as condições de nascimento dos leitões


COLONIZAÇÃO MICROBIANA EM SUÍNOS

microbiota intestinal

Cândida Pollyanna Francisco Azevedo Zootecnista - UFV MsC Zootecnia - UFV Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens ESALQ/USP Redatora Grupo de Comunicação AgriNews

A

compreensão da dinâmica da microbiota do trato gastrointestinal (TGI) tem sido um dos objetivos primordiais de pesquisas tanto da saúde humana quanto da saúde e produção animal. Isto porque, a diversidade genética da microbiota intestinal contribui para as funções metabólicas, além de atuar sobre:

a produção de ácidos graxos voláteis, reciclagem de sais biliares, síntese de vitamina K, digestão de fibras e desenvolvimento do sistema imunológico (Kim e Isaacson, 2015).

59 SuínoBrasil 1º Trimestre 2021 | Colonização microbiana em suínos


O desenvolvimento da microbiota inicia-se após o nascimento, quando o feto transita de um ambiente supostamente estéril, o saco amniótico, através do canal do parto, para um ambiente denso (elevada carga microbiana). Nesta etapa ocorre colonização da membrana da mucosa e do epitélio da pele (Nowland et al., 2019). A microbiota pós-parto do TGI atua, essencialmente, de três maneiras: proteção, metabolismo e trofismo (Yang et al., 2016). Proteção: os microrganismos atuam como uma barreira contra organismos patogênicos pela exclusão competitiva.

microbiota intestinal

Metabolismo: Em seguida, auxiliam na digestão e metabolismo do colostro e do leite, e na eliminação de toxinas, síntese de vitaminas e absorção iônica. Trofismo: E, por fim, atuam no crescimento e diferenciação celular do epitélio que reveste o lúmen intestinal, simultaneamente à homeostase do sistema imunológico (Yang et al., 2016).

O fornecimento de colostro nas primeiras horas de vida do leitão recém-nascido, além de prover calor, energia e imunidade, atua na colonização da microbiota, através do estabelecimento de bactérias comensais (Nowland et al., 2019).

Morissette et al. (2018) observaram que o consumo de colostro e leite nas duas primeiras semanas de vida influenciou a colonização microbiana. Os autores constataram que leitões com maior ganho de peso apresentaram maiores níveis de Bacteroidetes, Bacteroides e Ruminoccocaceae e menores proporções de Actinobacillus porcinus e Lactobacillus amylovorus em comparação a leitões com baixo ganho de peso. Esses dados sugerem que consumo de leite nas duas primeiras semanas de vida influencia não apenas o ganho de peso, mas também a saúde e o desempenho dos animais a longo prazo, a partir da colonização microbiana

(Nowland et al., 2019).

Outro fator importante no processo de colonização microbiana do TGI é o aspecto sanitário. Ao avaliarem a exposição de leitões recém-nascidos a diferentes ambientes sanitários, Inman et al. (2010) observaram que ambientes com baixa higiene (leitões mantidos com fêmeas suínas) ou com alta higiene (leitões isolados, alimentados com fórmulas lácteas) influenciou o desenvolvimento imunológico de leitões. Sendo que, leitões criados com a fêmea suína apresentaram maior diversidade microbiana em comparação aos leitões mantidos em ambientes germ-free.

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O estabelecimento da colonização microbiana sofre influência de fatores intrínsecos e extrínsecos, tais como:

Neste estudo, os autores constataram que leitões do genótipo FUT1 podem ser classificados de acordo com a suscetibilidade à ETECF18, com genótipos de FUT1AA como resistentes e leitões com os genótipos

genética,

FUT1AG e FUT1GG como suscetíveis.

idade,

concluíram que leitões do genótipo FUT1AG

antibióticos, nutrição e estresse pós-desmame. A alteração do processo de colonização microbiana desencadeará em um desequilíbrio, a disbiose. Neste processo de desequilíbrio microbiano ocorre uma redução acentuada de bactérias anaeróbicas benéficas (comensais), e.g. membros das famílias Clostridia e Bacteroidia, e aumento significativo de bactérias anaeróbicas patogênicas, e.g. membros das famílias Enterobacteriaceae e Prevotellaceae

(Winter et al., 2013).

Em um estudo recente, Riis et al. (2018) apresentaram maior número de bactérias hemolíticas e Enterobacteriaceae em comparação aos leitões FUT1AA. A compreensão da relação entre a microbiota intestinal e o estágio de crescimento do suíno é essencial, pois o estágio de crescimento está diretamente relacionado ao manejo alimentar (Han et al., 2018). Ao avaliarem a alteração da microbiota intestinal de suínos em diferentes estágios de crescimento, Han et al., 2018 constataram que os gêneros Lactobacillus e Clostridium, do filo Firmicutes, apresentaram correlação positiva aos 10, 21 e 93 dias de idade. Entretanto, Lactobacillus foi negativamente correlacionado com o gênero Prevotella, do filo Bacteroidetes, aos 10, 63 e 93 dias de idade, e o Clostridium foi negativamente correlacionado com Bacteroides aos 10, 21 e 63 dias de idade.

Dentre os fatores intrínsecos responsáveis pela modulação da microbiota estão a genética e a idade. A constituição genética do suíno pode ser considerada como um fator de predisposição à infecção intestinal, resultando em alterações microbianas no intestino. A Escherichia coli Enterotoxigênica (ETEC) que expressa as fímbrias F4 (ETEC F4) é conhecida por ser uma das principais causas de diarreia em leitões recém-nascidos e pós-desmame (Rampoldi et al., 2011). Vogeli et al. (1997) analisaram o gene α- (1,2) fucosiltransferase (FUT1) por suas propriedades no controle da expressão intestinal dos receptores ETEC F18.

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microbiota intestinal

FATORES QUE INFLUENCIAM A COLONIZAÇÃO MICROBIANA


A microbiota intestinal do suíno apresenta composição e diversidade dinâmicas que se alteram com o tempo e ao longo de todo o trato gastrintestinal (Isaacson et al., 2012). Leitões recém-desmamados geralmente são vulneráveis a estressores nutricionais, fisiológicos e psicológicos,

microbiota intestinal

Dentre os fatores extrínsecos responsáveis pela modulação da microbiota destaca-se o uso de antibióticos como promotor de crescimento (APC), uma alternativa eficiente e economicamente viável para maximizar a eficiência da cadeia produtiva (Nowland et al., 2019). Ao avaliarem a inclusão de tilosina como um APC, Kim et al., (2012) constataram um aumento do ganho de peso e melhora da conversão alimentar de leitões que receberam doses subterapêuticas do APC.

levando a alterações da morfologia intestinal, função fisiológica, disbiose e, consequentemente, aumento da incidência de diarreia (Meale et al., 2017).

Além disso, os autores observaram que a microbiota intestinal dos leitões alimentados com tilosina apresentou alterações populacionais microbianas, denotadas por um aumento na taxa de sucessão e maturação dos gêneros Lactobacillus, Sporacetigenium, Acetanaerobacterium e Eggerthella na microbiota intestinal.

MICROBIOTA E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O METABOLISMO A interação entre microbiota intestinal, metabólitos e fisiologia do hospedeiro tem ganhado cada vez mais atenção. Esses metabólitos são principalmente os ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), bem como os ácidos graxos de cadeia ramificada.

Em contrapartida, o uso generalizado de antibióticos na produção animal provavelmente contribuiu para o aumento do número de patógenos resistentes, um grande problema de saúde humana e animal (Nowland et al., 2019). O uso prolongado pode ter efeitos negativos a longo prazo no TGI do hospedeiro, incluindo a colonização por populações de bactérias patogênicas (Shigella spp., E. coli e Salmonella spp.) que permanecem muito tempo após o início do tratamento com antibiótico (Schokker et al., 2014).

Vale ressaltar que Guevarra et al., (2019) salientam quanto à escassez de pesquisas explorando o mecanismo de ação pelo qual os antibióticos induzem a disbiose e influenciam o crescimento do animal.

Além disso, existem alguns outros metabólitos produzidos pela microbiota, incluindo metabólitos da colina, metabólitos dos ácidos biliares, indol e derivados fenólicos, que demonstraram efeitos benéficos sobre a barreira intestinal, regulação imunológica e processo inflamatório.

A partir da associação do sequenciamento do gene 16S rDNA e o método de cromatografia gasosa por espectrometria de massa (Tandem Time-of-Flight) GC-TOF/MS, Li et al. (2018) avaliaram os efeitos do estresse do desmame sobre a microbiota intestinal e os perfis de metabólitos em leitões. Ao aplicarem o método GC-TOF/MS, Li et al. (2018) observaram quantitativamente pequenos metabólitos moleculares em amostras biológicas e identificaram cinco vias metabólicas incluindo: metabolismo de fenilalanina, ciclo de Krebs, glicólise ou gliconeogênese, metabolismo do propionato e metabolismo de nicotinamida.

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As espécies da família Aloprevotella estão envolvidas na síntese de succinato e acetato, o que poderia promover melhorias na barreira intestinal e exibir função antiinflamatória (Downes et al., 2013).

Ao comparar dois grupos de leitões (lactentes x desmamados), os autores constataram diferenças significativas, sendo que as famílias Lachnospiraceae, Negativicutes,

As espécies da Oscillospira são produtoras de butirato e podem usar glucanos do hospedeiro como fonte de energia (Konikoff & Gophna, 2016). Gophna et al. (2017) constataram que a presença da Oscillospira é reduzida em doenças que envolvem a inflamação intestinal.

Selenomonadales, Campylobacterales e outras 15 espécies aumentaram em leitões desmamados, enquanto que foi observada uma redução das espécies pertencentes às famílias Porphyromonadaceace, Alloprevotella, Barnesiella e Oscillibacter.

Cellular Respiration

Cell

Cytosol

carbon Dioxide

Pyruvic Acid 1.Glycolisis

ATP

Glucose

NADH

2. Krebs Cycle

NADH

microbiota intestinal

Mitochondrion

water

3. Electron transport

Food Oxygen

Além disso, Li et al. (2018) observaram uma redução de bactérias da família Oscillospira, conhecida como produtora de butirato, em leitões recémdesmamados, o que pode indicar a diminuição da produção de AGCC após o desmame.

ATP

ATP

Evidências crescentes comprovaram que os AGCCs protegem o hospedeiro contra doenças do cólon, melhora a função da barreira intestinal e exibe efeitos anti-inflamatórios (Peng et al., 2009). Além disso, efeitos metabólicos benéficos mediados por AGCC no organismo podem ser mediados pela indução da gliconeogênese intestinal (De Vadder et

al., 2014).

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As espécies da família Campylobacterales são categorizadas como um dos patógenos oportunistas causadores de doença gastrointestinal com elevado índice de mortalidade (Xie et al., 2011). As populações de Campylobacteraceae e Campylobacter também foram aumentadas após o desmame.

microbiota intestinal

O aumento dessa espécie bacteriana em leitões desmamados pode ser uma das principais causas de diarreia pósdesmame (Li et al., 2018).

O ciclo de Krebs é responsável pela degradação oxidativa de açúcares, gorduras e aminoácidos, tendo o piruvato como intermediário primordial da rota. Li et al. (2018) constataram uma redução do nível de piruvato em leitões pósdesmame e concluíram que, a redução no metabolismo energético pode fazer parte do processo de adaptação intestinal e que os microrganismos podem envolver energia para mecanismos de adaptação para assegurar as funções fisiológicas.

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(Belenky et al., 2007).

Li et al. (2018) observaram a redução de niacina em leitões recém-desmamados, que pode ser atribuída a uma influência adversa desencadeada pelo estresse. E concluem, que o estresse do desmame, além de promover a disbiose, altera os perfis metabólicos no TGI.

MODULAÇÃO DA MICROBIOTA A modulação da microbiota intestinal a partir da utilização de aditivos zootécnicos tornouse uma das alternativas na nutrição de suínos pós-desmame. Em suma, os mecanismos de ação pelos quais os ingredientes funcionais afetam a ecologia microbiana intestinal são: 1

manipulação da microbiota alterando o pH luminal,

2

inibição competitiva do patógeno,

3

produção de substâncias antimicrobianas,

4

fornecimento de nutrientes para microrganismos comensais, e

5

estímulo do sistema imunológico

microbiota intestinal

A administração de niacina (ácido nicotínico e nicotinamida) mostrou afetar beneficamente a interação microbiota-hospedeiro em camundongo (Hashimoto et al., 2012). Nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD+) é o cofator central do metabolismo, mediando a geração de ATP, desintoxicação de espécies reativas de oxigênio (ROS), processos biossintéticos, reparo de DNA e regulação gênica nutricionalmente sensível

(Guevarra et al., 2019).

CONCLUSÃO Diante do exposto, torna-se evidente a relevância de pesquisas futuras para melhor compreensão da interação entre a diversidade microbiana, aditivos zootécnicos, metabólitos e fisiologia do hospedeiro, a fim de desenvolver biotecnologias que possam atuar em conjunto com os mecanismos de defesa do organismo animal.

Colonização microbiana em suínos

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Uma visão técnica e inovadora da suinocultura nacional. /suínobrasil

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