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Brasília • Chandigarh Patrimônio Moderno Fotografias de Stéphane Herbert

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Brasília • Chandigarh Patrimônio Moderno Fotografias de Stéphane Herbert


BrasĂ­lia, cidade que inventei Lucio Costa

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Reconnais cette main ouverte, la main ouverte dressé comme un signe de réconciliation ouverte pour recevoir ouverte pour donner.

Agradece a essa mão aberta, a mão aberta estendida como um símbolo de reconciliação aberta para receber aberta para dar

Le Corbusier


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Fotogênicas Cidades

Brasília e Chandigarh

Utopias Modernas

Wagner Barja Diretor do Museu Nacional do Conjunto Cultural da República

A fotografia revelou o que o olho não viu – proposital e incisivo o olhar prospectivo das lentes de Stéphane Herbert acumulou, em paralelo, os traços culturais distintos da Chandigarh da Índia independente e da Brasília num Brasil pujante e pleno de sua peculiar 2ª modernidade nos anos 50/60. Em ambas as situações, o lógico e simétrico traçado determinou os rumos de um urbanismo humanista, inventado para conter arquiteturas de formas arrojadas. Ousadias brancas, solares e etéreas, rarefeitas propostas, construídas para se viver em cidades num mundo progressista e em sublimação. O espírito do novo instalou-se e a soprar os novos ventos da invenção em cada esquina, cada parque, estádio, habitação, palácio, cada construção estatal, cada ponte, cada estrada ou caminho, que pudesse levar o homem urbano e consciente de ser moderno aos limites da sua imaginação. Comuns a estas prerrogativas conceituais do novo mundo, as cidades gêmeas: Brasília e Chandigarh são o saboroso fruto das grandes utopias do século XX. Ambas nasceram de uma mesma síndrome do desejo de sermos modernos, civilizados e por demais idealistas, atores protagonistas no afã de uma nova sociedade, com a redução das distâncias entre os seus cidadãos. Duas jovens cidades, mas já sítios históricos a serem preservados como Patrimônio da Humanidade, com natureza e missões muito assemelhadas e um mesmo DNA ético e estético, matriz das genialidades de parecências incontestáveis: Le Corbusier, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

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Ao Encontro da Felicidade Cláudia Estrela Porto Curadora

Por muitos e muitos anos, quando pensava num fotógrafo e numa imagem, o meu subconsciente retrocedia alguns anos até fixar numa foto de Stéphane Herbert, tirada no Tajiquistão, e por ele denominada “entre a terra e o céu”. Ali, naquela paisagem árida, um bardo em êxtase, dedilhava o seu “dotar”, espécie de bandolim, alheio ao mundo ao seu redor. Tão concentrado na sonoridade de sua música, parecia levitar. A força da imagem congelada exige o instante preciso, onde a composição, luz, sonoridade, intangibilidade serão os agentes para nos trazer à realidade, para nos transmitir a mensagem, para nos relatar a história. É isto que Stéphane se propõe a fazer, ao tentar captar “a estética da fluidez” em Brasília e “o espaço indizível” em Chandigarh, com quinze imagens de cada cidade, que ele dispõe lado a lado, conduzindo o olhar do espectador para estes dois pólos, tão diversos e tão similares. Brasília e Chandigarh, duas cidades símbolos da modernidade, surgidas praticamente na mesma época, fruto da audácia de seus governantes que desejavam mostrar a hegemonia de países independentes. Ambas deveriam expressar a fé da nação no futuro. Brasília, nascida no plano urbanístico de Lucio Costa e das formas estruturais inusitadas de Oscar Niemeyer, traria a capital para o interior do país, idéia concebida após a independência do Brasil e até então não concretizada. E fortaleceria o lema de campanha à presidência de Juscelino Kubitscheck: “50 anos em 5”, o slogan representando o desenvolvimento que o Brasil teria sob o seu comando. Chandigarh, por sua vez, seria a nova capital do Punjab, após a independência da Índia, em 1947, e a perda da histórica capital Lahore para o Paquistão. Com tal objetivo, o Primeiro Ministro Jawaharlal Nehru convoca um time internacional de grandes arquitetos para o desenho da nova capital. Enquanto Le Corbusier traça o plano urbanístico da cidade e desenha o complexo do Capitólio e equipamentos culturais, Pierre Jeanneret, Maxell Fry e Jane Drew se ocupam do setor habitacional e dos complexos comerciais no interior dos setores. Chandigarh, para Nehru, expressaria o futuro da Índia, tanto que profetiza numa visita em 1952: Let this be a new town symbolic of the freedom of Índia, unfettered by the traditions of the past, an expression of the nation´s faith in the future. Após 50 anos, Stéphane nos convida a percorrer estas duas cidades, ressaltando o seu caráter monumental, bucólico e residencial. Embora focado em suas respectivas arquiteturas – as curvas poéticas de Oscar Niemeyer e a força volumétrica dos edifícios Corbusieanos -, ele nos mostra que os princípios urbanísticos então adotados são muito similares, resultando em duas cidades parques excepcionais. Talvez, por isso, um olhar especial dirigido ao espaço público.

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Em Chandigarh, a grande esplanada do complexo do Capitólio acentua a monumentalidade dos edifícios oficiais, permitindo que eles se estendam pelos reflexos nos espelhos d´água. O espaço doméstico, no interior dos setores, proporciona uma identidade local e própria. Da mesma forma, em Brasília, as novas formas estruturais que brotam do solo do cerrado, soltas, majestosas, emolduradas pelo céu e água, são emanadas de uma força que as faz levitar na paisagem da cidade. Já no interior das superquadras, a cadência da simplicidade da vida evidencia uma outra identidade, igualmente local e própria. Stéphane, porém, deseja encontrar a alma destes novos sítios de concreto. “O mais importante é sentir estas cidades pelo contato com os seus habitantes, pelas amizades que se criam”, enfatiza. Para ele, misturar-se às multidões incógnitas nas ruas indianas, atravessar as superquadras de Brasília ou passar longas noites ao ritmo dos batuques dos Candomblés da Bahia, tudo é pretexto para perceber o pulsar e a vibração de um país. Naturalmente, as pessoas, com os seus diferentes modos de ver e reagir, apropriamse dos espaços públicos e privados, conferindo-lhes vida, sabor, uso e função. O fotógrafo aqui nos passa informação e emoção em doses equilibradas. Sem dúvida, a força da imagem se concentra nos elementos arquitetônicos, mas ele não esquece de seu coadjuvante maior. As pessoas, inseridas de forma discreta, ora são espectadoras, ora participantes desta paisagem singular. Os indianos em cócoras ou deitados sobre um catre, resgatam costumes ancestrais. A garota, que sobe descalça a plataforma do Congresso Nacional, apossa-se do espaço monumental e democrático. Anos de reportagens pelo oriente e nos países americanos aguçaram o olhar de Stéphane, despertado pela cor na Guatemala, onde nasceu e retornou algumas vezes: “foi lá que descobri o uso da cor, os verdes mais intensos ao redor das ‘milpas’, pequenas plantações de milhos nos altos platôs, audácia de associações de cores na padronagem dos ‘huipils’ das mulheres Mayas, reflexos cósmicos desta civilização”. Por tudo isso, as imagens de Stéphane nos remetem a um mundo de formas e espaços espetaculares, realçados pela luz vibrante que neles incide. Sombras, luzes, texturas, matizes, tudo adquire uma nova dimensão, envoltos pelo brilho solar e pela imensidão das nuvens que os circundam. Ele espera pacientemente o momento certo, aquele ínfimo de segundo “em que o fotógrafo encontrará a felicidade”. Se a Torre das Sombras, estrutura no coração do Capitólio em Chandigarh, permeia este passeio, não é por acaso. Aqui, Le Corbusier observa o ritmo solar, suas fachadas mostrando as possibilidades de controle possível nas quatro direções cardinais. Com esta exposição de fotografias, Stéphane passa de Brasília à Chandigarh, do Brasil à Índia, com uma desenvoltura que só aqueles acostumados a fazer do mundo sua própria casa conseguem. Incita-nos a lutar por sua integridade arquitetônica, gritar por sua conservação, para garantir que possam ser vistas pelas futuras gerações como partes integrantes das paisagens brasileira e indiana, como duas obras universais.

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História

Idealizada desde a independência do Brasil, no século XIX, Brasília foi imaginada como um movimento de interiorização geográfica do país-continente. A decisão audaciosa do presidente Juscelino Kubitschek, a confiança lúcida do urbanista Lúcio Costa, as curvas poéticas do arquiteto Oscar Niemeyer e a extraordinária dinâmica brasileira foram necessárias para construir, a partir de 1956, esta cidade excepcional nas terras virgens do Planalto Central. O Eixo Monumental testemunhou o rápido crescimento de símbolos arquitetônicos. Nas mãos de Oscar Niemeyer, o concreto ganhou leveza. A genialidade de Brasília repousa nas Asas Residenciais, em prédios construídos sobre pilotis, imersos em uma vegetação exuberante com mais de quatro milhões de árvores. Reprimida durante vinte anos de ditadura, a cidade foi, em 1987, tombada como Patrimônio Mundial pela Unesco. Brasília representou um passo fundamental na afirmação e reconhecimento de uma civilização brasileira. Após a divisão da Índia, em 1947, Lahore, capital histórica da vasta região do Penjab, tornou-se parte do Paquistão. O Primeiro-Ministro Jawarhar Lal Nehru, querendo dar à Índia independente um símbolo de modernidade, convidou o arquiteto Le Corbusier, em 1950, para construir uma cidade nova diante dos contrafortes do Himalaia. Propagador da arquitetura moderna, Le Corbusier supervisionou durante quinze anos as obras do complexo do Capitólio, assim como o urbanismo geral da cidade onde os princípios de circulação e as condições da natureza concretizaram suas concepções revolucionárias. Afetada por divisões administrativas, Chandigarh é, apesar disso, uma cidade indiana ao mesmo nível das outras cidades, ditas tradicionais, tais como Fatehpur Sikri ou Jaipur que foram planificadas nos séculos XVI e XVIII. Ápice da arquitetura do século XX, esta cidade moderna inscreve-se na história de uma das mais antigas civilizações.

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Patrimônio

Em Brasília, a originalidade dos princípios urbanísticos produziu uma nova norma de proteção. As quatro diferentes escalas – monumental, residencial, gregária e bucólica – são levadas em consideração. São, então, a volumetria e os espaços livres que devem ser respeitados. Assim sendo, qualquer edifício poderá ser modificado, demolido e reconstruído na medida em que a escala seja reconstituída, com exceção simbólica da Catedral Metropolitana e do Catetinho, protegidos sob a norma convencional. Prédios públicos de concepção extraordinária passarão somente por restaurações necessárias. Ao contrário da patrimonização das cidades antigas, cuja rigidez fixa cada edifício no tempo, Brasília está destinada a ser atualizada em respeito às proporções iniciais. Aqui é o “vazio” que está teoricamente protegido. A candidatura de Chandigarh está no momento em suspenso por razões diplomáticas. Esta deverá seguir um projeto trans-nacional, que reunirá diversos países para adicionar as principais obras de Le Corbusier à lista do Patrimônio Mundial da Unesco. Em sua maioria, as obras de Le Corbusier são consideradas manifestos de um novo pensamento. Elas testemunham não só uma criatividade fulgurante, mas prefiguram, com lucidez, algumas soluções que são estudadas em arquitetura e urbanismo no mundo inteiro. Essa produção não está vinculada a uma cultura local, mas possui intrinsecamente uma intenção universal. O arquiteto, urbanista, pintor, escultor e poeta Le Corbusier sonhou as verdes, abertas e móveis Villes Radieuses. Combinando todos os aspectos de seu gênio, Chandigarh é a sua realização mais grandiosa.

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Imagens que Ecoam Stéphane Herbert

Fotografar duas cidades como estas foi um desafio se considerarmos a “estética da fluidez” de Brasília e o “espaço indizível” de Chandigarh. Das curvas aos ângulos, suas arquiteturas são utopias concretas, poemas de concreto. Um “mundo material” com fortes contrastes e um sentimento profundo de espaço que ilustra o famoso dito de Le Corbusier: L’architecture est le jeu savant, correct et magnifique, des volumes assemblés sous la lumière. A arquitetura é um jogo engenhoso, correto e magnífico dos volumes compostos sob a luz. Brasília e Chandigarh são cidades abertas. Abertas às luzes. Abertas a movimentos livres. A genialidade dessas duas cidades também expressa a reconciliação do urbanismo com a natureza. Brasília e Chandigarh são duas cidades humanas e modernas, patrimônio universal. 13


BRASÍLIA Símbolo democrático. A plataforma das cúpulas inversas do Congresso Nacional é acessível a todos.

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CHANDIGARH Emblema de paz. A Mão Aberta gira ao sabor dos ventos acima do Fosso da Contemplação.

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BRASĂ?LIA Curvas fluidas da Catedral Metropolitana.

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CHANDIGARH Volumes potentes do Palรกcio da Assembleia.

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BRASÍLIA Decorações geométricas no Ministério das Relações Exteriores.

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CHANDIGARH Grandes colunas da sala hipostilo do Palรกcio da Assembleia.

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BRASĂ?LIA Memorial Juscelino Kubitschek no Eixo Monumental.

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CHANDIGARH Instituto Gandhi no coração do campus universitário.

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BRASĂ?LIA Grandes vitrais da Catedral Metropolitana.

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CHANDIGARH Torre das Sombras para observar o movimento solar.

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BRASÍLIA Parte do prédio do Centro Cultural Banco do Brasil

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CHANDIGARH Detalhe da Secretaria

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BRASĂ?LIA Luz e sombra da capela Santa Maria dos Militares.

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CHANDIGARH Cores primรกrias iluminando a rampa da Secretaria.

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BRASรLIA Azulejos modernos da igrejinha de Nossa Senhora de Fรกtima.

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CHANDIGARH Plasticidade do concreto sob o pรณrtico da Assembleia.

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BRASĂ?LIA Perspectiva do Teatro Nacional Claudio Santoro.

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CHANDIGARH Pilares do Tribunal de Justiรงa.

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BRASÍLIA “Rua-fórum” da Universidade de Brasília.

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CHANDIGARH Espiral do Centro de Estudantes.

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BRASÍLIA Salão panorâmico de um restaurante de funcionários.

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CHANDIGARH Galeria circular do Centro de Estudantes.

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BRASÍLIA Música no “pátio urbano” de uma Superquadra.

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CHANDIGARH Cricket numa “V6”, de um Setor Residencial.

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BRASĂ?LIA Caminhos entre os arbustos silvestres das esplanadas do Eixo Monumental.

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CHANDIGARH Vários jardins dos Setores Residencias sucedem-se como um único grande parque.

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BRASÍLIA Todos os domingos, o “Eixão” de 12 quilômetros das Asas Residenciais é proibido aos veículos.

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CHANDIGARH Atravessando a cidade, o Vale do Lazer (sucessĂŁo de jardins com temas florais) ĂŠ o lugar preferido dos caminhantes e amantes.

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BRASÍLIA Pirâmide do Johrei na Asa Norte.

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CHANDIGARH Reino imaginรกrio do Rock Garden.

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brasí

Caminhada

Brasília terre rouge, ciel indigo

terra vermelha, céu índigo

Immense plateau du Cerrado étoilé de cristaux terra vermelha, céu Immense plateau du Cerrado étoilé de cristaux Imenso planalto do Cerrado estrelado de cristais terre ocre, rouge terra rouge ocre, vermelha terre ocre, eaux entremêlées águas emendadas eaux entremêlées affluentes de l’Amazonie et du Sertão afluentes da Amazônia e do Sertão de l’Amazonie du Sertão le lac affluentes Paranoá invite la cité oetlago Paranoá convida a cidade scintillante au cœur dulecontinent no coração continente lac Paranoácintilante invite la cité Imensodo planalto do Cerrado estrelado de cristais ses ailes déployées sous des milliers d’arbres suas asas abertas sob milhares de árvores scintillante au cœuros dumoradores continent se terra ocre, vermelha des habitants s’y lovent à l’ombre des pilotis aconchegam à sombra dos pilotis ses ailesen déployées sous des milliers d’arbres citoyen du monde cidadão do mundo águas emendadas un homme se promène um homem caminha des habitants s’y lovent à l’ombre des pilotis afluentes da Amazônia e do Sertão traverse les vastes esplanades atravessa as vastas esplanadas citoyencontempla du mondeas curvas o lago Paranoá contemple les courbes en pures puras convida a cidade modernes mégalithes un homme semodernos promène megálitos cintilante no coração do continente aurore d’une civilisation alvorada de uma civilização traverse les vastes esplanades suas asas abertas sob milhares de árvores murmure du palmier en majesté murmúrio da palmeira em majestade contemple courbes os moradores se aconchegam na sombra dos pilotis ciel bleu, les indigo céupures azul, índigo ...rêveriemodernes ...énergiemégalithes ...devaneio em ...energia cidadão do mundo convection cosmique convecção cósmica aurore d’une civilisation um homem caminha un faisceau vert affleure à l’horizon. um feixe verde aflora no horizonte. murmure du palmier en majesté

ciel bleu, indigo

Stéphane Herbert

...rêverie ...énergie convection cosmique un faisceau vert affleure à l’horizon.

atravessa as vastas esplanadas contempla as curvas puras modernos megálitos alvorada de uma civilização

murmúrio da palmeira em majestade céu azul, índigo ...devaneio ...energia convecção cósmica

terre rouge, ciel indigo

Stéphane Herbert

um feixe verde aflora no horizonte.

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índigo


ília

chandigarh

Respiração

Chandigarh Mão Aberta, cidade aberta

f'kokfyd dh igkfM+;ksa esa ctrk dksbZ jkx lq[kuk >hy ls mBrh B.Mh gok dh cqgkj jkWd xkMZu dh tknqbZ /qu vkSj xqykcksa dh [kq'kcqvksa esa ugk;k gj lqcg txrk gS ,d 'kgj lqcg dk lwjt djrk gj ?kj vkaxu jks'ku vk[kksa es rSjrs vuar LoIu foLr`r gksrk vkdk'k jkst+h jksVh dks ryk'k esa tks Hkh vk;k ;gka ,d ckj jg x;k ;gha dk gksdj cl xbZ ,d nqfu;k lq[k] 'kkafr] le`f¼ o ubZ laLd`fr dh mHkjrh ,d rLohj jaxksa esa xqaFkrs jax] thou ds lax [kqyh gFksyh ij /M+drk gS iRFkjksa dk ,d 'kgj xks;k ,d [kwclwjr dfork

Mãonas Aberta, cidade aberta Uma melodia toca colinas Shivalik um vento fresco sopra do lago Sukhana um eco misterioso do Rock Garden no perfume das Rosas desperta cada dia uma cidade o sol da manhã Uma melodia toca nas colinas Shivalik ilumina cada lar, cada quintal um vento fresco sopra do lago Sukhana os sonhos nos olhos um eco misterioso do Rock Garden o céu se estende quem chega um dia no perfume das Rosas instala-se para sempre desperta cada dia uma cidade um mundo a se desdobra oum sol da manhã de felicidade, de paz, de prosperidade, quadro ilumina cada lar, renovada cada quintal de cultura uma paleta de cores mescla-se com a vida os sonhos nos olhos sob a Mão Aberta o céu se estende palpita quem chega um dia pedras a cidade das ...tudopara umsempre poema. instala-se um mundo se desdobra

Yojna Rawat

um quadro de felicidade, de paz, de prosperidade, de cultura renovada uma paleta de cores mescla-se com a vida sob a Mão Aberta palpita a cidade das pedras

[kqyh gFksyh ij /M+drk ,d 'kgj

...tudo um poema.

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Yojna Rawat


Chandigarh, Brasília e suas abstrações construídas. Cláudio José Pinheiro Villar de Queiroz Chandigarh Charles-Edouard Jeanneret, viajante, estudioso, em sua formação registra reflexões críticas de boa parte da arquitetura da Terra. Ao assumir-se como o arquiteto Le Corbusier, em croquis expressivos registra hábitos humanos e modos de ser, através das técnicas edilícias vernáculas de outros tempos e do seu, refletindo as civilidades ulteriores. Ele busca entender as construções tradicionais e as novas tecnologias; a mecânica, o desenho dos utilitários, como automóveis, aviões e navios; des paquebots; bâtiments-vapeur, as máquinas industriais e os novos materiais construtivos. Registra os símbolos característicos dos países por onde passa, como um antropólogo: os hábitos e os gestos simples do povo. Capta aspectos distintos, desde os animais típicos das regiões – domésticos e silvestres – às colorações variegadas e recorrentes das diferentes culturas. Sobre a Índia, seus desenhos constituiriam farta documentação. Lá, o grande arquiteto impressionou-se com muralhas, fortificações, templos e palácios. Admirou-se do país profundo, com a criançada e suas escolas primárias ao ar livre, nas periferias urbanas e no campo; a lousa fixada no tronco, sob a sombra de frondosa mangueira. Os animais sagrados e a vida adormecida nas calçadas, em catres de madeira e tiras de couro. Desenhou paisagens e edifícios; redesenhou cabras, serpentes, tartarugas, elefantes, taureaux e toda a existência captada pela percepção sensível do humanista. A natureza tão cultuada no país desvela para o mestre arquiteto esses símbolos, como os percebidos através das divindades mágicas e das criaturas do imaginário. Elas são desocultadas das arkées transcendentais, da história e dos mitos da antiga civilização. Agnóstico, o arquiteto se deixa assimilar pela espiritualidade da Índia, traduzindo-a em arquitetura. Chandigarh (1950) foi construída para ser a capital do Punjab. Chandigarh e, na França, o convento La Tourette (1952) ocorreram no tempo em que Le Corbusier escrevia e pintava menos. À mesma época, realizou a Oeste da Índia, em Ahmendabad, as residências Shodhan e Sarabhaï (1952/1954), um museu e a sede da associação dos tecelões. As obras despojadas em concreto aparente, inspiradas nas formas da arquitetura indiana tradicional, são adequadas ao clima tropical úmido, feitas de vocábulos desenvolvidos desde os anos 1920. Os brise-soleils destacados, com sombras profundas resultantes, protegem o edifício da insolação e da claridade excessiva. Tal como a grande laje da cobertura, suspensa acima do teto, ventilando e sombreando o espaço intermediário. Ambos concorrem para o frescor das edificações.

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Mas, em Chandigarh é – na prática das artes plásticas – que o arquiteto encontra a essência de sua arquitetura e urbanismo, cuja seiva intelectual é de pura criação artística. Posterior ao purismo com Ozanfant e depois, com a “Associação pela síntese das artes”, na companhia de Matisse e de Picasso, entre outros, Le Corbusier elabora, em 1940, a série Ozon et des Obus e depois Les Taureaux. Curiosamente, em suas pesquisas pictóricas nos Pirineus (1950), touros e bois de trabalho passam cotidianamente diante de sua janela, assumindo uma presença intrometida nas telas sobre a natureza, nas quais, galhos e seixos rolados seriam exclusivos. Também na Índia, as vacas sagradas, os touros possantes e graúdos das espécies do gado indiano – maiores que das espécies européias – entre quelônios, najas, cabras e diferentes aves de rapina impressionaram Le Corbusier. O grande edifício do Secretaria, a Residência do Governador, o Palácio de Justiça e o Assembléia sintetizam a visão onírica desenvolvida pelo arquiteto sobre a eterna Índia, culturalmente mítica e historicamente transcendental. No secretariado, a grande fachada é uma tessitura de brise-soleils ou elementos vazados de concreto, possuindo geometria regular e alguns se destacam como acordes esculturais variáveis. Na casa do parlamento, os brises das fachadas laterais são regulares, como grandes e profundos muxarabis. No Palácio de Justiça eles são mais leves. A placa que sombreia a cobertura da Casa do Governador em Chandigarh se diferencia daquelas sobre as residências de Ahmendabad. Trata-se de um elemento arquitetônico destacado e monumental, qualificando o edifício. Em sua aparência abstrata – como se fossem cornos –, constitui o símbolo de força dos potentes touros indianos, pairando sobre a cobertura abaixo, ventilando e protegendo-a do sol. No palácio de justiça só é evidente analisando o corte transversal. A grande placa de concreto sobre a cobertura é uma caprichosa laje duplamente inclinada sobre pilares, como um ‘Y’ transversal, grande cobertura-canal, direcionada longitudinalmente no sentido do edifício, de empena a empena. As extremidades superiores do ‘Y’ em curva, são rufos longitudinais, acentuando transversalmente o aspecto simbólico dos taureaux, sublimados pelo sombreamento da edificação. Na casa da Assembléia a “cara do touro”, ao contrário, é flagrante. É evidente em corte ou nas fachadas laterais. A revelação decorre de contemplação da impressionante marquise que compõe o peristilo e dos recortes ou vazados nas colunas, mimetizando abstratas caras, olhos e bocas dos grandes bovinos que Le Corbusier desenhou e redesenhou, como se refletisse e acariciasse a própria Índia. Este elemento é o simbolismo recorrente, empregado para a desejada unidade arquitetônica do conjunto. Tanto para o sombreamento funcional, quanto para o indispensável caráter nacional, cultural e estético. Os volumes vistos sobre a cobertura, ao contemplar a inteireza das fachadas, notadamente as laterais, não deixam de causar a insólita impressão da corpulência de um taureau com suas corcovas, características do gado indiano. A enorme porta de concreto do edifício do parlamento é pivotante, revestida de aço emaillé, com as cores fortes da natureza, reagrupando elementos culturais dessa terra, como se o artista e arquiteto do século juntasse toda a simbologia daquela “civilização”.

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Brasília A concepção de Lucio Costa e de Oscar Niemeyer para Brasília é a da síntese histórica do país – o produto estético-simbólico dessa jovem nação, engendrada a partir dos povos os mais antigos – contemplando o seu devir. As transcendências foram misturadas pela precoce alteridade da insólita alternativa histórica, aberta e indiferente à mestiçagem. Desde então se revelam abstrações significantes da antropofagia intercultural, próprias a desocultar novos referenciais estéticos e simbólicos. O guerreiro deitado apontando o grande arco tupi, registrado por Debret, poderia ser comparado ao próprio partido sintético do plano piloto de Brasília voltado para Leste. O modo de vida, nas Asas de Brasília, em suas quadras encadeadas, também parece imitar a recorrente forma da rede indígena – como as de dormir, amar, viver, morrer e baixar sepultura –, constituída a partir da imagética marcante do objeto herdado da indianidade autóctone. A rede foi o primeiro objeto adotado pelos europeus em seu descobrimento de tantas inovações. As negras baianas de largas ancas em alvos vestidos brancos e longos não são, como quis Malraux, as cariátides libertárias desveladas como as míticas divindades animistas? Tais como são as herdadas juremas, janaínas e iracemas, cunhãs parideiras de inusitadas mestiçagens? Ou tal como foram as das contrabandeadas maternidades negras, metafóricas iemanjás, oxuns e iansãs com toda a interculturalidade resultante de numerosos sincretismos? Em Brasília são marmóreas, na alvura cândida e brilhante de suas purezas heróicas. Lá estão todas as concepções nacionais do gênero intercultural, homenageadas na Praça dos Três Poderes, além da Esplanada dos Ministérios de onde o espaço se desoculta. As arquetípicas caravelas para descobrir a iniciática Era Moderna foram as intangíveis challengers lusitanas, as colonizadoras mais eficientes, posteriormente racionalizadas em jangadas de vernácula funcionalidade. Com suas velas constitutivas de pregnâncias simbólicas extensivas às colunatas brasilienses, estão organizadas em peristilos praieiros prontos para um novo devir na Praça dos Três Poderes, em Brasília. E esses edifícios públicos - palácios - não lembram igualmente os avarandados plenos de redes, como eram os casarões da brasilidade profunda? E estes não são como o legado arquitetônico das habitações palafitas avarandadas da mesma forma, construídas com a leveza deslizante das canoas de tronco indígenas? Não são tributários daquele mesmo vernáculo originário dos sertões, de onde vem a Capoeira, consumando na luta, jogo e dança de liberdade, a funcionalidade, a racionalidade e a estética/ética da pouco referida alteridade brasileira precípua? Trata-se da dialética entre a nova e as reapresentadas terras extintas. Incluam-se, além da Europa e da África, as do “pindorama”, que os da terra viram se transtornar. Aqui se fundiram os conceitos das fortificações portuguesas com os das habitações indígenas, evoluindo a precoce arquitetura colonial brasileira de origem “levantina”. As ascendências mouras e moçárabes se sofisticaram pelas heranças portuguesas, inclusive originárias da China e da Índia, aqui chegadas como lastros de navios.

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São as referidas arkèes importadas, com os degredados europeus e com os contrabandeados africanos, inovando em ritmo, modulação e harmonização a diversificação étnica autóctone. Mas Brasília teria um padrão fractal, como as cidades tradicionais? Este se reconstituiu diferentemente, fundido com os objetos imagéticos referidos, do tipo arcos tupis, redes, jangadas, cunhãs – de maneira cerebral – e triângulos, os da modernidade paradigmática contida em egalité, fraternité et liberté. E estes triângulos são, socialmente, tão utópicos quanto recorrentes em Brasília: desde o “gesto primário” de Lucio Costa, até sua Torre de TV – na totalidade estrutural e nos detalhes – como é repetido na escala do urbano. Isto ocorre efetivamente: no jardim de Burle Marx, diante do Quartel General das Forças Armadas; na realidade do terrapleno da Praça ou na virtualidade dos seus três poderes; e ainda na virtualidade altiva do Congresso Nacional visto da Plataforma da Rodoviária Central. “Brasília é a certidão de nascimento da civilização brasileira”. (Jean-Loup Herbert, 2000)

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TranscendĂŞncias intangĂ­veis

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Atemporalidades idealizadas

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SĂ­ntese arquitetural e rigor monĂĄstico

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A leveza tecnológica e as invenções culturais surpreendentes de sombreamento profundo

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Em BrasĂ­lia, a Suprema Corte contempla os dois outros poderes da RepĂşblica

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Em Chandigarh, a Mão Aberta acena a Alta Corte e o velho “Enigma da Dom”

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Contrapontos: India • Brazilia Claude-Marin Herbert

Percorrendo esta exposição, os visitantes ouvirão (em volume baixo) duas composições do famoso saxofonista John Coltrane. Parece estranho escutar vibrações de jazz com fotografias de duas cidadessimbólicas do patrimônio moderno? Certamente não: John Coltrane (1926-1967) e seu Quarteto são mais ou menos contemporâneos à criação de Chandigarh e Brasília. Jazz contextualizado na tradição afro-americana, porém livre de fórmulas pré-concebidas, sua música é um impulso lírico em direção ao universal. A carreira de John Coltrane foi ao mesmo tempo muito curta e de rara intensidade, um puro florescer. Do classismo be-bop ao free jazz, em qualquer forma, foi exploratório e inspirado. Inspirado pelos sentimentos de amor (Naima) ou revolta (Alabama), por sua fé (A Love Supreme, Crescent, Ascension), pelo cosmos (Interstellar Space, Stellar Regions) e pela celebração mundial: Africa, Bahia, Dakar, India, Brazilia... Estes nomes evocam lugares que Coltrane talvez tenha “visitado” apenas em pensamento. Apesar disso, seus sonhos musicais parecem encontrar a realidade: curvas musicais e cantos estão presentes em India (1961), em Brazilia (1965) luzes parecem atravessar blocos maciços. Essas duas composições sugerem fantásticos contrapontos às estéticas das curvas fluidas da Catedral Metropolitana em Brasília e ao ritmo rigoroso da Torre das Sombras em Chandigarh. Essa contemporaneidade merece uma reflexão.

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Biografias

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Stéphane Herbert Nasceu em 1968, na Guatemala. Morou na Unité d’Habitation Le Corbusier em Firminy, na França, durante sua adolescência. Formou-se em fotografia de reportagem nas cidades de Nova-York e Istambul. Nos últimos 20 anos, trabalhou para diversas revistas (Géo, Grands-Reportages, Equinox...) no Oriente Médio, na Ásia Central e nas Américas (Portfólio : www.imaginals.com). No Brasil, focalizou-se na cultura afrobrasileira através dos rituais Capoeira-Candomblé-Carnaval. Retratou os mestres Lucio Costa e Oscar Niemeyer e fotografou Brasília. Continuou sua pesquisa sobre o patrimônio moderno em Chandigarh e apresentou a exposição BRASÍLIA | CHANDIGARH nas principais cidades da Índia em 2008-09. Co-autor das ilustrações do livro BRASÍLIA, l’épanouissement d’une capitale. Membro da organização Globe Vision. Contato: stephaneherbert@globevision.org

Cláudia Estrela Porto Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília, com mestrado em Art et Archéologie, na Université de Paris, onde também cursou doutorado. Fez pós-doutorado na Agência RFR, em Paris, especializada em Estrutura de Ponta. Atualmente é Professora Associada 2 do Departamento de Tecnologia da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Arquitetura, com ênfase em Sistemas Estruturais. Dedica-se à docência, pesquisa e orientação de pós-graduação na área de Tecnologia da Construção, Sistemas Estruturais e Arquitetura Asiática. Desde 1990, coordena vários Acordos Internacionais, possibilitando o intercâmbio de estudantes da FAU/UnB com Universidades na Itália, na França e na Tunísia. Contato: claudiaestrelaporto@gmail.com

Cláudio José Pinheiro Villar de Queiroz Nasceu em 1948, no Brasil. Participou da emancipação da capoeira contemporânea com o movimento Senzala nos anos 60. Com Oscar Niemeyer trabalhou por dez anos na Argélia. Passou seis meses na Índia (1984). Foi diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (1994-98) e superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (2000-03). É doutor em Desenvolvimento Sustentável. Trabalha com consultoria em arquitetura em Brasília. Contato: cqarquitetos@gmail.com

Yojna Rawat Nasceu em 1966, em Chandigarh na Índia. Doutorada em literatura hindi. Professora da Universidade do Panjâb. Escreve poesias e diários de viagens. Tradução em hindi de dois livros e uma centena de poemas franceses. Prepara a publicação na Índia do “Poème de l’angle droit “. Contato: yojnarawat@rediffmail.com

Claude-Marin Herbert Nasceu em 1971, na França. Graduado em filosofia e musicologia. Autor-intérprete sob o pseudônimo de LunDi (http://laciterne.org/lundi). Trabalha na BPI do Centro Pompidou em Paris. Contato: herbert@bpi.fr.

Fotos páginas 70 e 71: Brasília, Ermida Dom Bosco. Divindade Chandi em Chandigarh

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Ficha Técnica Brasília • Chandigarh Patrimônio Moderno Fotografias de Stéphane Herbert Patrocínio FAC – Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal Realização Museu Nacional do Conjunto Cultural da República e Objeto Sim Projetos Culturais Coordenação geral Quadra Produções Culturais Carmem Moretzsohn, Gioconda Caputo, Maria Alice Monteiro Curadoria Cláudia Estrela Porto Quadra Produções Culturais Produção Executiva Quadra Produções Culturais, Gustavo Magalhães e Daniela Estrella Assistente de Produção Quadra Produções Culturais – Amanda Guedes Assessoria de Imprensa ABC Digital – Agência Brasília de Comunicação Programação Visual • Lumen Argo Arte e Projeto Evandro Salles Arte Final Jarbas Delani Tradução inglês/português Maria Alice Monteiro Apoio: Globe Vision, Embaixada da França no Brasil, Aliança Francesa, Tininha 4 Molduras Agradecimentos Cristina L’Homme, Leonardo Fernandes, Paulo Cohen, Sérgio Moriconi, Thelma Peres, Sabine Gorovitz

Fotografias © Stéphane Herbert Fotografia da página 42 de Evandro Salles Ilustrações © Cláudio José Pinheiro Villar de Queiroz Poesias © Stéphane Herbert, Yojna Rawat Textos © Claudia Estrela Porto, Stéphane Herbert, Cláudio José Pinheiro Villar de Queiroz, Claude Marin Herbert



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