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Governo de Minas e

Apresentam

REVISTA DE

GAMBIOLOGIA * * * * * * * * * * * * * facta.art.br * * * * * * * * * * * * *


XXX


• ÍNDICE • INDEX •

GAMBIARRA MOVIMENTO

4

EM

12

THE GAMBIARRA MOVEMENT Fred Paulino

24

AS ARTES E CIÊNCIAS DA

GAMBIARRA THE ARTS AND SCIENCES OF

31

GAMBIARRA

SOLUCIONÁTICA

34

BRAZILIAN

44

BRASILEIRA

SOLUCTIONACTIC Rui Cezar dos Santos

CRITICAL

48

MAKING GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE

CRITICAL MAKING

54

GAMBIOLOGIA THAT COMES FROM THE NORTH

DESOBEDIÊNCIA TECHNOLOGICAL Ernesto Oroza

56

TECNOLÓGICA DISOBEDIENCE

63

COINCIDÊNCIAS

66

INDUSTRIAL COINCIDENCES Guto Lacaz

68

DO

70

INDUSTRIAIS

HOBISTA DO SÉCULO XX AO

Newton C. Braga

FROM THE

HOBBYST OF THE 20TH CENTURY

MAKER MAKER TO THE

DO SÉCULO XXI OF THE 21ST CENTURY

77


TUPI AND NOT TUPI

80

Entrevista com Laymert Garcia dos Santos

86

TUPI AND NOT TUPI

SOMOS TODOS

89

PARDAL

96

WE ARE ALL GEARLOOSES

TATUAGENS

98

E

GAMBIARRAS Taiom Almeida

105 108

TATTOO AND GAMBIARRA

Azucena Losana e Carolina Andreetti

TAPP

E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS

113 115

AND THE POTENTIALITY TAPP OF PRECARIOUS IMAGES

Liliana Gil

CUIDADOS PALIATIVOS

118 119

PALLIATIVE CARE Maira Begalli

EM BUSCA DA

GAMBIARRA PERFEITA IN SEARCH OF THE

122

PERFECT GAMBIARRA

GAMBIARRAS

129

LITERÁRIAS Jacques Fux

134

LITERARY GAMBIARRAS Felipe Efeefe Fonseca

137 140 GAMBIDUST

GAMBAREIA


Detalhe de escultura criada por alunos do LaboratĂłrio de Gambiologia realizado no Exploratorio (Parque Explora). MedellĂ­n, Colombia, junho de 2017. Foto: Fred Paulino.


GAMBIARRA MOVIMENTO EM

por Fred Paulino

A

As luzes e as trevas, o aparente e o secreto: eis toda a arte. Aqueles que a possuem assemelham-se ao céu e à terra, cujos movimentos nunca são aleatórios1.

quarta edição da Facta chega ao leitor após um grande hiato. Quase três anos foi o tempo necessário para reunir o conteúdo desta edição. Após lidarmos com a o Apocalipse (Facta #1), a Acumulação (#2) e o Hacker (#3), o tema deste número é, literalmente, a gambiarra. A ciência brasileira do improviso é a grande inspiração da Gambiologia e neste número

da revista se apresenta literal, seminal, transversal. Mas esta inspiração é um processo de transformação constante. Não só o projeto em si, desde sua elaboração mostrou-se completamente mutante, parecendo mesmo ter vida própria, como também a inspiração processual e estética na gambiarra é posta tão somente como o mote inicial para uma reflexão acerca de inúmeros processos da sociedade contemporânea.

Gambiarra para todo lado Primeiramente, Gambiologia relaciona-se a uma proposta criativa atuante nas artes e no design e sugere um deslocamento da improvisação e da precariedade da esfera do cotidiano, da necessidade, da carência de recursos, tratando-as como uma opção estética. Segundo, ela flerta com as discussões sobre o desenvolvimento tecnológico, não só considerando que a eletrônica analógica e os sistemas digitais são parte fundamental das criações gambiológicas, mas também problematizando os impactos da produção industrial massiva

de tecnologia – e o que sobra dela – sobre a sociedade e o meio artístico. Gambiologia alerta também para o uso de resíduos sólidos (tecnológicos ou não), de uma maneira, se não se pode dizer eficiente, peculiar e que tem servido de inspiração a muita gente. Além disso, muitos são os que, desde 2010, têm vivenciado o projeto em sua esfera educacional, integrando oficinas e mentorias que se propõem a lecionar por meio de experiências de aprendizado de tecnologia de

* GAMMBIARRA EM MOVIMENTO *

7


No Brasil, elas estão por todos os lados.

uma maneira prática, lúdica, consciente e in- de povos menos abastados mas que, no entanto, tegrada à realidade dos participantes – e, por somente cá no Brasil possui nome tão sonoro tudo isso, bastante efetiva. A Gambiologia como “gambiarra”. Aqui, ademais, as habilidaé uma estratégia de aprendizado que não se des de improvisação tornaram-se praticamente baseia em manuais de instruções, em padro- marca registrada, sendo a gambiarra uma alenização, mas na valorização da capacidade de goria onipresente nos mais diversos contextos improviso e invenção que vem de berço. A sociais2. relação com o que se tem chamado de “movimento maker” é também cada vez mais evi- A Gambiologia se espalha por mais e mais dente, com a peculiaridade do projeto estar esferas do conhecimento, e não só o projeto, inserido no movimento com uma mas sua compreensão e escopo de atuação se expandem contribuição relevante: o caAs habilidades de ráter nacionalista, não quase viralmente, sem improvisação tornaram-se no sentido de fechar-se praticamente marca registrada, plano prévio. A grana influências e inspira- sendo a gambiarra uma alegoria de aderência de artistas, ções estrangeiras, mas de onipresente nos mais diversos pesquisadores, fazedores, contextos sociais. se pensar como as referêncriadores, curiosos e “cicias nativas do que se chama de dadãos comuns” às iniciativas brasilidade, em suas especificidades técnicas, coletivas originadas do projeto, das quais esta estéticas e inventivas, podem contribuir para revista seja provavelmente o expoente maior, uma melhor assimilação da cultura “fazedo- são motivos de satisfação e, para este editor, ra” no país. a prova de que a gambiarra pode ser sim gatilho para uma forma de se pensar o mundo. Por fim, há a valorização da capacidade de improviso frente às vicissitudes e a habilidade Não me interessa neste Editorial uma definide reconstrução da própria realidade por meio ção precisa, enciclopédica, do que é gambiarra. de processos empíricos, característica notória Primeiro porque os colaboradores dessa edição 8

* GAMBIARRA EM MOVIMENTO *


Fotos: Fred Paulino

da Facta discorrem extensivamente sobre o à precariedade como aceitação de uma supostema nas páginas a seguir. Segundo porque ta inferioridade frente ao “desenvolvimento”, a gambiarra tem sido maciçamente apre- mas também como diferencial estratégico sentada em todas as realizações do projeto (skillfulness, diriam os gringos) em um mundo Gambiologia, não só nos números anterio- que, cada vez mais, cobra soluções diferenciares desta publicação como, desde 2008, em das em um contexto de concorrência e crise. várias outras iniciativas. Terceiro, e princi- Gambiarra como propulsora de uma lógipalmente, porque não me interessa a gam- ca de reaproveitamento, da sustentabilidade biarra como um conceito fechado, mas tão que não se encontra nos manuais dos deparsomente como a articulação de tudo o que foi tamentos de marketing. Gambiarra como prática hacker de reconfiguração dito nos parágrafos acima, junto ao que provavelmente está por Gambiarra como das funções dos objetos. Gambiarra do olhar assertivo para vir. “O general deve conhecer sugestão de uma 3. criatividade essencial, as coincidências industriais4. a arte das mudanças” que não requer formação Gambiarra como sugestão de ou metodologia. O que cabe neste texto é um uma criatividade essencial, pensamento sobre como a gamque não requer formação ou mebiarra pode canalizar processos de mudança, todologia. Gambiarra em que, com as “mãos de recombinação, de invenção. Gambiarra na massa”, o ser humano é o ator principal da como mote de transformação técnica e social. transformação de seu entorno. Gambiarra de Gambiarra como metáfora de brasilidade, quem transforma não só ao seu entorno, mas como característica inevitável da “cultura pop a si mesmo. Gambiarra que não é definitiva, tupiniquim”. Gambiarra do Brasil, distinta tampouco infalível. Pelo contrário, é precária de processos semelhantes em diversas outras e vulnerável como, na maioria das vezes, sonações, mas agregadora de experiências de mos nós mesmos. Gambiarra que não se precoletivização do saber e de atuação do ho- tende consolidada, estática, restrita, eterna. mem sobre o mundo. Não somente um culto Gambiarra em movimento. 9


Uma concorrida oficina de gambiarras em São Paulo, Brasil (setembro de 2017). Foto: Fred Paulino.

Devaneios sobre a gambiarra em movimento Buscando a etimologia da palavra “movimento” chegamos ao verbo “mover”, do latim movere, significando basicamente “deslocar”, mas também “induzir, persuadir” e “causar, inspirar”5. São definições sugestivas se lembrarmos de que o gesto de se fazer uma gambiarra denota uma ação perante o mundo. Mas também apresenta um risco, uma crença, uma persuasão a si próprio de que determinada solução para um problema será alcançada, mesmo em um contexto de imperfeição, adaptação material e ausência de recursos adequados. Na Filosofia, o movimento é, desde a Antiguidade, tema de interesse de grandes pensadores, como Aristóteles, Descartes, Newton, Leibniz, Mach e Einstein. “Uma compreensão adequada do movimento (…) foi considerada crucial para decidir questões sobre a natureza do espaço e do tempo e suas interconexões. (…) As lutas dos filósofos para compreender esses conceitos muitas vezes pa10

reciam assumir a forma de uma disputa entre concepções absolutas ou relativas de espaço, tempo e movimento”6. Na Física, o movimento é “a variação de posição espacial de um objeto ou ponto material em relação a um referencial no decorrer do tempo”7. Esse ponto referencial não necessariamente está inerte e, nesse sentido, movimentos são frequentemente exponenciais, com aceleração e bidirecionais. Da mesma maneira acontece a interferência do ser humano sobre o meio. O conhecimento surge a partir de processos infinitos de transformação mútua em que não só o objeto (material, técnico ou virtual) é manipulado, como quem o opera transforma-se, por meio da experiência prática. A gambiarra é uma forma de aprendizado empírico que é transmitida de pai – e mãe – para filho. Por meio da experiência, estimula processos de aprendizado que podem ser socialmente transformadores.

* GAMBIARRA EM MOVIMENTO *


A ciência Física que estuda o movimento é a Mecânica. A Mecânica prática, aplicada a ciclos, carros, motores, engenhocas, é provavelmente um dos terrenos mais prolíficos para a prática gambiarrística, tornando-se inclusive marcas culturais. Exemplos são a Jugaad na Índia e os Rikimbilis em Cuba. Dentre os resultados de uma busca de imagens pelo termo “gambiarra”, ou suas traduções em inglês makeshift, kludge, ou mesmo a cômica macgyverism, provavelmente a maior parte de resultados está relacionada a automotores. Os principais estudos físicos acerca do movimento foram desenvolvidos por Isaac Newton em sua obra “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural” e sintetizados nas famosas “Leis de Newton”. A título de divagação, pensemos quais são e como podem ser aplicadas nos processos gambiológicos:

Newton (1795–1805). Por Willian Blake.

PRIMEIRA LEI

LEI DA INÉRCIA "Todo corpo continua no estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme, a menos que seja obrigado a mudá-lo por forças a ele aplicadas."

Adotar uma postura estática torna um problema insolúvel. Toda solução requer movimento, atitude, atividade. Se não tem recursos adequados, faça uma gambiarra. SEGUNDA LEI

LEI FUNDAMENTAL DA DINÂMICA "A resultante das forças que agem num corpo é igual à variação da quantidade de movimento em relação ao tempo".

Os processos gambiárricos são muitas vezes dependentes de um conjunto de forças e materiais – nem sempre minimalistas – e frequentemente o trabalho coletivo é mas profíquo do que uma atuação individual. Comecemos a considerar a Gambiologia como movimento. TERCEIRA LEI

LEI DE AÇÃO-REAÇÃO "Se um corpo A aplicar uma força sobre um corpo B, receberá deste uma força de mesma intensidade, mesma direção e sentido oposto à força que aplicou em B."

Jugaad na India. Foto: http://www.team-bhp.com

Gambiarra é ação e reação. É atuar sobre as coisas com uma atitude que não é préconcebida e receber, como resposta, não só uma solução como também um aprendizado. 11


Heiner Müller apontou em 1990 que “a estratégia de aceleração total econômica e tecnológica se fundava no princípio da seleção, e que o sujeito humano ia desaparecer no vetor da tecnologia”8. A gambiarra, de certa maneira, questiona a inevitabilidade da aceleração tecnológica, trazendo o uso de refugos e tecnologias antigas à experiência cotidiana. Na Física não há aceleração negativa, mas na vida prática clamamos por uma aceleração às avessas. É que nós, humanos, não fomos programados para a velocidade a que somos submetidos e por isso estamos, frequentemente, A aceleração, componente físico do movi- mais à vontade com os aparatos antigos, mento, é questão central no mundo con- obsoletos, mas que, no entanto, estão sob a temporâneo. O poeta e dramaturgo alemão égide de nossa compreensão e afeto. Se pensarmos a nível atômico, observaremos que o movimento está presente em toda a matéria. Os elétrons de um átomo estão ligados ao núcleo por forças eletromagnéticas e nunca estão estáticos. Aqui podemos divagar que um imenso rol de gambiarras busca sanar problemas relacionados à eletroeletrônica. A própria eletrônica, origem das tecnologias digitais, está baseada em movimento atômico e reconfiguração da matéria. A gambiarra, como transformação da matéria posta, é um movimento macro que parte do micro, e a ele retorna.

Enfim, a gambiarra como movimento

Finalmente, o movimento desta publicação e do projeto que a move. Facta chega, com esta edição, ao fim de sua primeira temporada. Tomamos aqui, de forma literal, a compreensão aristoteliana de movimento como passagem de potência a ato. A potência resultante das quatro primeiras edições da revista são a certeza de sua continuação. Para tanto, se necessário, certamente faremos as gambiarras possíveis para que esta publicação, ápice da confluência de interesses que movem a Gambiologia, permaneça da maneira como for possível. É como a Terceira Lei: a Gambiologia move a Facta, e a Facta move a Gambiologia.

MOVIMENTOS SÃO ARTICULAÇÕES QUE INFLUENCIAM PARA ALÉM DE SUA ZONA DE ATUAÇÃO.

12

Depois de quase dez anos desde o insight de criação da “ciência da gambiarra”, chega também a hora de explicitar sua fragmentação. Para a continuação do projeto, é imprescindível assumir a coletivização como determinante para o prosseguimento de suas iniciativas e a ampliação de sua área de atuação e influência. Após a dissolução do Coletivo Gambiologia em 2015 e um período de reconfiguração do modus operandi da gambiologia (inicial minúscula para um substantivo comum, será?), ela agora reconfigura-se como uma plataforma criativa aberta, em que os processos colaborativos e uma rede cada vez mais ampla de colaboradores são fundamentais. Movimentos são articulações que influenciam para além de sua zona de atuação. E exigem certa dose de nomadismo. Para Deleuze e Guattari, “nômades e movimentos artísticos, científicos e ideológicos são potenciais máquinas de guerra, na medida em que traçam um espaço liso de deslocamento - vetorial, projetivo ou topológico, ocupado sem medição, em oposição ao espaço estriado, métrico”9.


Gambiarra Made in USA: o portal There I Fixed It apresenta uma vultosa galeria de gambiarras das mais diversas.

Chegamos então à compreensão de movimento como uma reunião organizada de pessoas em torno de um tema, de uma causa. Após anos de apresentação do projeto Gambiologia em várias cidades, países e contextos dos mais diversos, é cada vez mais evidente a possibilidade de articulação de um grupo maior de pessoas em torno da proposta, desde que o projeto esteja aberto para isso. A formação de um movimento requer descentralização e a influência de um grupo de pessoas atuantes, em torno de objetivos comuns. Em nosso caso, exige assumir o caráter mutante do projeto e sua

transformação constante não só como inevitável, mas imprescindível. Admitir a impossibilidade de controlar os desdobramentos de uma ideia orgânica, espontânea, improvisada, respondendo progressivamente à ordem dos acontecimentos, mas deixando o acaso gambiárrico influenciar devidamente os rumos dessa pesquisa.

1 Sun Tzu, “A Arte da Guerra”. Pg. 28. Editora L&PM, 2006.

5 Antônio Geraldo da Cunha. "Dicionário etimológico da

2 A valorização da gambiarra é frequentemente confundida

com ufanismo e sua celebração, interpretada erroneamente como se a gambiarra estivesse sendo tratada como “potencial emancipatório”. Prefiro entendê-la como um conjunto de processos criativos e comunicacionais em transformação, que não estão fechados em si, mas acessíveis a um público diverso. Aquilo que frequentemente falta à academia.

3 Sun Tzu, “A Arte da Guerra”. Pg. 44. Editora L&PM, 2006. 4 Ver ensaio de Guto Lacaz na página 66.

Dito isso, declaro: Gambiologia não é mais um coletivo, tampouco a ciência da gambiarra. Gambiologia, agora, é a gambiarra em movimento. língua portuguesa”. Editora Lexikon, 2010.

6 https://plato.stanford.edu/entries/spacetime-theories/ 7 https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento

8 Citação por Laymert Garcia dos Santos, entrevistado desta

edição de Facta. http://cultura.estadao.com.br/noticias/ artes,a-inteligencia-das-especies,55853

9 Daniel Hora, “Arte

hackeamento: diferença, dissenso e reprogramabilidade tecnológica”. Pg. 38. Universidade de Brasília, 2010. Grifo nosso. 13


THE GAMBIARRA MOVEMENT by Fred Paulino

The lights and the darkness, the apparent and the secret: this is all art. Those who have it they resemble heaven and earth, whose movement are never random1. The fourth edition of Facta comes to the reader after a big hiatus. Almost three years was the time needed to gather the content of this edition. After dealing with Apocalypse (Facta #1), Accumulation (#2) and Hacker (#3), the theme of this number is literally gambiarra (makeshift or kludge in English). The Brazilian science of improvisation is the great inspiration of Gambiologia and in this issue of the magazine it is presented literally, seminal, transversal. But this inspiration is a process of constant transformation. Not only has the project itself been completely mutant, it seems to have a life of its own, but also the procedural and aesthetic inspiration in gambiarra is only the starting point for a reflection on the many processes of contemporary society.

Gambiarra all around Firstly, Gambiologia is related to a creative proposal that is active in the arts and design and suggests a displacement of improvisation and precariousness of the sphere of everyday life, of the need, of the lack of resources, treating them as an aesthetic option. Second, it flirts with the discussions about technological development, not only considering that analog electronics and digital systems are a fundamental part of gambiological creations, but also problematizing the impacts of massive industrial production of technology - and what is left of it - on the society and the artistic realm. Gambiologia also warns against the use of solid waste (technological or not), in a way, if one can not say efficient, quirky and has inspired many people. In addition, many have been experiencing the project in their educational sphere since 2010, integrating workshops and mentoring that aim to teach through technology learning experiences in a practical, playful, conscious and integrated way to the reality of participants – and therefore, very effective. Gambiologia is a learning strategy that is not based on instruction manuals, in standardization, but in the valuation of the improvisation capacity and invention that comes from cradle. The relation with what has been called the "movement maker" is also increasingly evident, with the peculiarity of the project being inserted in the movement with a relevant 14

contribution: the nationalist character, not in the sense of closing off to foreign influences and inspirations , but to think about how the native references of what is called Brazilianness, in their technical, aesthetic and inventive specificities, can contribute to a better assimilation of the culture "of doing" in the country. Finally, there is the appreciation of the improvisation capacity in the face of fickleness and the ability to rebuild reality itself through empirical processes, a notorious feature of less affluent peoples but which, however, only here in Brazil has a name as sonorous as "gambiarra". Here, in addition, improvisation skills have become almost trademark, and gambiarra is an omnipresent allegory in the most diverse social contexts2. Gambiologia spreads through more and more spheres of knowledge, not only the project, but its understanding and scope of action expand almost virally, without a prior plan. The great adherence of artists, researchers, doers, creators, curious and "ordinary citizens" to collective initiatives originated from the project, of which this magazine is probably the greatest exponent, are reasons for satisfaction and, for this editor, the proof that gambiarra can be a trigger for a way of thinking about the world. I am not interested in this Editorial a precise, encyclopedic definition of what is gambiarra. First because the contributors of this issue of Facta expound extensively on the topic in the following pages. Secondly, gambiarra has been massively featured in all the accomplishments of the Gambiologia project, not only in the previous issues of this publication, but since 2008 in several other initiatives. Third, and especially, because I am not interested in gambiarra as a closed concept, but only as the articulation of everything that was said in the above paragraphs, next to what is likely to come. "The general must know the art of change�3. What fits in this text is a thought about how gambiarra can channel processes of change, recombination, invention. Gambiarra as a motto of technical and social transformation. Gambiarra as a brazilian metaphor, as an inevitable characteristic of "tupiniquim pop culture". Gambiarra of Brazil, distinguished from similar processes in several other nations, but aggregator of experiences of collectivization of knowledge and of man's role on the world. Not only a cult of precariousness as acceptance of a supposed inferiority against the "development" but also as a strategic differential


(skillfulness, the gringos would say) in a world that, increasingly, demands differentiated solutions in a context of competition and crisis. Gambiarra as a propeller of a logic of reuse, of sustainability that is not found in the manuals of the marketing departments. Gambiarra as a hacker practice of reconfiguring the functions of objects. Gambiarra's assertive look at industrial coincidences4. Gambiarra as a suggestion of an essential creativity, which does not require training or methodology. Gambiarra in which, with "hands on", the human being is the main actor of the transformation of their surroundings. Gambiarra who transforms not only his surroundings, but himself. Gambiarra that is not definitive, nor infallible. On the contrary, it is precarious and vulnerable, as most of the time, we are ourselves. Gambiarra is not intended to be consolidated, static, restricted, eternal. Gambiarra on the move.

technical or virtual) is manipulated, but also the person who operates it becomes transformed through practical experience. Gambiarra is a form of empirical learning that is transmitted from father - and mother - to son. Through experience, it stimulates learning processes that can be socially transformative.

Daydreams about gambiarra in movement

The main physical studies of the movement were developed by Isaac Newton in his work "Mathematical Principles of Natural Philosophy" and synthesized in the famous "Laws of Newton". By way of rambling, let us think about what they are and how they can be applied in gambiological processes:

Searching for the etymology of the word "movement" we come to the verb "to move", from the latin movere, meaning basically "to move", but also "to induce, to persuade" and "to cause, to inspire"5. They are suggestive definitions if we remember that the gesture of making a gambiarra denotes an action before the world. But it also presents a risk, a belief, a self-persuading that a solution to a problem will be achieved, even in a context of imperfection, material adaptation and lack of adequate resources. In Philosophy, movement has been, since Antiquity, a subject of interest to great thinkers, such as Aristotle, Descartes, Newton, Leibniz, Mach, and Einstein. "A proper understanding of the movement (...) was considered crucial in deciding issues about the nature of space and time and their interconnections. (...) The struggles of philosophers to understand these concepts often seemed to take the form of a dispute between absolute or relative conceptions of space, time, and movement"6. In Physics, movement is "the variation of the spatial position of an object or material point in relation to a reference in the course of time"7. This reference point is not necessarily inert and, in this sense, movements are often exponential, with acceleration and bidirectional. In the same way happens the interference of the human being on the environment. Knowledge arises from infinite processes of mutual transformation in which not only the object (material,

The physical science that studies movement is Mechanics. Practical mechanics, applied to cycles, cars, engines, gadgets, is probably one of the most prolific terrains for gambiarristic practice, becoming even cultural marks. Examples are Jugaad na India and Rikimbilis in Cuba. Among the results of a search for images by the term "gambiarra", or their translations into English makeshift, kludge, or even the comic macgyverism, probably the most results are related to automotive.

• First Law (Law of Inertia): "Every body remains in the state of rest or uniform rectilinear motion, unless it is forced to change by forces applied to it." Adopting a static posture makes a problem insoluble. Every solution requires movement, attitude, activity. If you do not have the right resources, play a game. • Second Law (Basic Law of Dynamics): "The resultant of forces acting on a body is equal to the variation of the amount of movement in relation to time." Gambiaric processes are often dependent on a set of forces and materials - not always minimalist - and collective work is often more proficient than an individual performance. Let's start to consider Gambiologia as a movement. • Third Law (Law of Action-Reaction): "If a body A applies a force on a body B, it will receive from it a force of the same intensity, same direction and opposite way to the force applied in B." Gambiarra is action and reaction. It is to act on things with an attitude that is not preconceived and receive, as an answer, not only a solution but also an apprenticeship. If we think at the atomic level, we will observe that motion is present in all matter. The electrons of an atom are connected to the nucleus by electromagnetic forces and are never static.

* THE GAMBIARRA MOVEMENT *

15


Here we can wonder that an immense roll of gambiarras seeks to solve problems related to electro-electronics. The very electronics, origin of the digital technologies, is based on atomic movement and reconfiguration of the matter. The gambiarra, as a transformation of matter, is a macro movement that starts from the micro, and returns to it.

action. And they demand a certain amount of nomadism. For Deleuze and Guattari, "nomads and artistic, scientific, and ideological movements are potential war machines in that they draw a smooth space of displacement - vector, projective or topological, occupied without measurement, as opposed to metrical, striated space”9.

Acceleration, the physical component of movement, is a central issue in the contemporary world. The German poet and playwright Heiner Müller pointed out in 1990 that "the strategy of full economic and technological acceleration was based on the principle of natural selection, and that the human subject was going to disappear into the vector of technology"8. Gambiarra, in a way, questions the inevitability of technological acceleration, bringing the use of old refuse and technologies to everyday experience. In physics there is no negative acceleration, but in practical life we cry out for an acceleration in reverse. It is because we humans have not been programmed for the speed at which we are subjected and so we are often more at ease with the old apparatuses, obsolete, but which, nevertheless, are under the aegis of our understanding and affection.

We then come to the understanding of movement as an organized gathering of people around a theme, a cause. After years of presentation of the Gambiologia project in several cities, countries and contexts of the most diverse, it is increasingly evident the possibility of articulating a larger group of people around the proposal, as long as the project is open to it. The formation of a movement requires decentralization and the influence of a group of active people, around common goals. In our case, it requires assuming the mutant character of the project and its constant transformation not only as inevitable, but indispensable. Admitting the impossibility of controlling the unfolding of an organic, spontaneous, improvised idea, progressively responding to the order of events, but letting gambiaric chance influence the course of this research.

In short, gambiarra as movement

Having said that, I declare:

Finally, the movement of this publication and the project that moves it. Facta arrives, with this issue, at the end of its first season. Here we take literally the Aristotelian understanding of motion as a passage from power to act. The resulting power of the first four issues of the magazine assures its continuation. For this, if necessary, we will certainly make the possible gambiarras so that this publication, at the apex of the confluence of interests that move the Gambiologia, remain in the possible way. It's like the Third Law: Gambiologia moves Facta, and Facta moves Gambiologia.

Gambiologia is no longer a collective, nor is it the science of gambiarra. Gambiologia, now, is the gambiarra movement.

After almost ten years since the creation insight of the "science of gambiarra", it is also time to make explicit its fragmentation. For the continuation of the project, it is essential to assume collectivization as a determinant for the prolongation of its initiatives and the expansion of its area of action and influence. After the dissolution of the Gambiologia Collective in 2015 and a period of reconfiguration of the modus operandi of gambiologia (tiny initial to a common noun, will it?), It now reconfigures itself as an open creative platform, in which collaborative processes and an everexpanding network of collaborators are fundamental. Movements are joints that influence beyond your area of 16

1 Sun Tzu, “Art of War”. Pg. 28. Edition L&PM, 2006. 2

The valorization of gambiarra is often confused with patriotism and its celebration, interpreted erroneously as if gambiarra was being treated like "emancipatory potential". I prefer to understand it as a set of transformative creative and communicational processes, which are not closed to each other but accessible to a diverse audience. That which is often lacking at the academy.

3 Sun Tzu, “Art of War”. Pg. 44. Edition L&PM, 2006. 4 See Guto Lacaz's essay on page 66. 5

Antônio Geraldo da Cunha. " Etymological dictionary of the Portuguese language”. Edition Lexikon, 2010.

6 https://plato.stanford.edu/entries/spacetime-theories/ 7 https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento 8

Quote by Laymert Garcia dos Santos, interviewed for this issue of Facta. http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,ainteligencia-das-especies,55853

9

Daniel Hora, “Art hacking: difference, dissent and technological reprogramming”. P. 38. Brasilia University, 2010.

* THE GAMBIARRA MOVEMENT *


Q U X A AS P N E E R O IÊ S N C IA

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FACTA #4 - GAMBIARRA EM MOVIMENTO OUTUBRO/2017

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CONCEPÇÃO E EDIÇÃO EDITOR

Fred Paulino CONSELHO EDITORIAL EDITORIAL BOARD

Paulo Henrique Pessoa "Ganso" Raquel Rennó Rodrigo Minelli (in memorian) REDAÇÃO WRITERS

PRODUÇÃO PRODUCTION

Fernanda Salgado ASSESSORIA JURÍDICA LEGAL ADVICE

Diana Gebrim - Diversidade CONTEÚDO AUDIOVISUAL AUDIOVISUAL CONTENT

Apiário

Daniel Barbosa Fred Paulino

IMPRESSÃO PRINT

VERSÃO PARA INGLÊS

COLABORADORES #4

Lu Tanure e Glenn Cheney - Access Group Thais Mol

Azucena Losana & Carolina Andreetti Conrado Almada • Ernesto Oroza Fabio Zimbres • Felipe Fonseca • Guto Lacaz Jacques Fux • Laymert Garcia dos Santos Liliana Gil • Maira Begalli Newton C. Braga • Rui Cezar dos Santos Taiom Almeida • Tatiana C Bond

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PROJETO GRÁFICO & ILUSTRAÇÕES ART DIRECTOR & ILLUSTRATIONS

Xande Perocco DESIGN GRAPHIC DESIGN

Fred Paulino Xande Perocco

Imprimaset CONTRIBUTORS #4


QUEM FAZ FACTA Apiário

Espaço de criação e cultivo de ideias, dedica-se à produção e concepção de trabalhos artísticos e comerciais, filmes, vídeos, animações, ilustrações, fotografias, escritos e sons de variadas espécies. It is a space for creation and cultivation of ideas. It is dedicated to conceiving and producing artistic and commercial works, films, videos, animations, illustrations, photographs, writings, and sounds of varied species.

Azucena Losana

Nasceu na Cidade do México (1977), vive e trabalha em Buenos Aires. Seu trabalho compõe-se de filmes, instalações e vídeos experimentais. É responsável pelo laboratório de resistência à película Arcoiris Super 8. Integra o TAPP (Oficina de Projetores Precários). Born in Mexico City (1977), lives and works in Buenos Aires. Her art productions are experimental films, installations and videos. She is on charge of the laboratory of film resistance Arcoiris Super 8. She is part of TAPP (Workshop of Precarious Projectors).

Carolina Andreetti

Vive e trabalha em Buenos Aires. Sua arte está relacionada a projetos de pesquisa e ação no espaço público, vídeo, experiências audiovisuais em tempo real e performance sonora. Integra o colectivo Circuito C!NICO e coordena o projeto La Copia Infiel - vídeo contemporâneo. Integra o TAPP (Oficina de Projetores Precários). Lives and works in Buenos Aires. Her art productions are projects in public space, video, real time audiovisual and sound performance. She is part of Circuito C!NICO collective and coordinates La Copia Infiel - contemporary video project. She is part of TAPP (Workshop of Precarious Projectors).

Conrado Almada

Formado em Comunicação e natural de Belo Horizonte. Artista audiovisual, trabalha em diferentes suportes, do papel ao vídeo. He is born in Belo Horizonte and graduated in Communications. He is an audiovisual artist that works in different media, from paper to video.

Daniel Barbosa

Jornalista cultural, trabalha no O Tempo e tem passagens pelo Hoje em Dia, Gazeta Esportiva Online (SP) e revista Palavra. Atuou como curador em programas como Natura Musical, Música Minas e Vozes do Morro. Toca na banda de hardcore Vulgaris. A cultural journalist, he works at "O Tempo” and has worked at Hoje em Dia, Gazeta Esportiva Online and Palavra magazine. He has served as a curator in programs such as Natura Musical, Música Minas and Vozes do Morro. He plays in the hardcore band Vulgaris.

Ernesto Oroza

Nasceu em Havana (1968), vive e trabalha em Aventura, Florida (EUA). É pesquisador, artista e designer. Integrou exposições e realizou oficinas em dezenas de cidades do mundo. É responsável pelos projetos Arquitetura da Necessidade e Desobediência Tecnológica. He was born in Havana (1968), lives and works in Aventura, Florida (USA). He is a researcher, artist and designer. He has joined exhibitions and held workshops in dozens of cities around the world. He is responsible for the projects Architecture of Necessity and Technological Disobedience.

Fabio Zimbres

Nasceu em São Paulo (1960), vive e trabalha em Porto Alegre. É designer gráfico, organiza exposições, pinta, faz histórias em quadrinhos e ilustrações. Foi um dos editores da revista de HQ alternativa Animal. É criador e editor das Edições Tonto. He was born in São Paulo (1960), lives and works in Porto Alegre. He is a graphic designer, organizes exhibitions, paints, makes comics and illustrations. He was one of the editors of Animal, an alternative HQ magazine. He is the founder and editor of Tonto Editions.

Felipe Fonseca

Pesquisador e articulador de projetos relacionados a redes de produção colaborativa e livre, mídia independente, software livre e apropriação crítica de tecnologia. Researcher and articulator of projects related to collaborative and free production networks, independent media, free software and critical appropriation of technology.

Fernanda Salgado

Produtora cultural e roteirista audiovisual. Graduada em Radialismo e Mestre em Artes pela UFMG, é sócia-fundadora da Apiário. Coleciona histórias, personagens e narrativas. Cultural producer and screenwriter. She graduated in Radio, TV and Film and holds a Master of Arts, both at UFMG. She is a founding member of Apiário and collects stories, characters and narratives.

Fred Paulino

Cientista da computação, designer, artista e gambiólogo. Realiza e coordena desde a década de 1990 projetos criativos como Mosquito, Osso Design, Graffiti Research Lab Brasil e Coletivo Gambiologia. É editor da Facta. Computer scientist, designer, artist, gambiologist. He has carried out and coordinated, since the 1990’s, creative projects such as Mosquito, Osso Design, Graffiti Research Lab Brazil and the Gambiologia collective. He's the editor of Facta.


Guto Lacaz

Nasceu em São Paulo (1948), onde vive e trabalha. É artista multimídia, ilustrador, designer, inventor, desenhista e cenógrafo. Recebeu prêmios como a Bolsa Guggenheim e o Prêmio Excelência Gráfica, entre outros. Publicou livros como “omemhobjeto” e “80 desenhos”. He was born in São Paulo (1948), where he lives and works. He is a multimedia artist, illustrator, designer, inventor, illustrator and scenographer. He received awards such as the Guggenheim Scholarship and the Graphic Excellence Award, among others. He has published books such as "omemhobjeto" and "80 drawings".

Jacques Fux

Natural de Belo Horizonte (1977). É graduado em Matemática, mestre em Ciência da Computação, doutor e pós-doutor em Literatura. Foi pesquisador visitante na Universidade de Harvard. É autor dos livros: Antiterapias, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor e Meshugá: um romance sobre a loucura. He was born in Belo Horizonte (1977). He has a degree in Mathematics, a Master in Computer Science and a PhD in Literature. He was a visiting researcher at Harvard University. He is the author of the books: Antitherapies, Brochadas: sexual confessions of a young writer and Meshugá: a novel about madness.

Laymert Garcia dos Santos

Pesquisador, escritor, sociólogo, doutor em Ciência da Informação na França, é professor titular de Sociologia na Unicamp. Foi conselheiro do Ministério da Cultura e diretor da Fundação Bienal de São Paulo. Atualmente coordena o Laboratório de Cultura e Tecnologia em Rede do Instituto Século 21, em São Paulo. Researcher, writer, sociologist, Doctor in Information Science in France, Professor of Sociology at Unicamp. He was advisor to the Ministry of Culture of Brazil and director of the São Paulo Biennial Foundation. Currently, he coordinates the Laboratory of Culture and Technology in Networks at Século 21 Institute.

Liliana Gil

Doutoranda em Antropologia na New School em Nova Iorque. Seu trabalho foca-se em estudos de tecnologia e produção de conhecimento dentro e fora de espaços convencionais de ciência. She is a PhD student in Anthropology at the New School in New York. Her work centers on people's ability to cross boundaries of expertise and challenge conventional structures of knowledge.

Paulo Henrique Pessoa “Ganso”

Artista gráfico, gambiólogo, designer de luminárias, diretor de arte, colecionador de coleções. Graphic artist, gambiologist, light designer, art director, collector of collections.

Luciana Tanure

Jornalista, tradutora e produtora cultural. Integra a Quixote-Do Livraria e Editoras Associadas, em Belo Horizonte. Journalist, translator and cultural producer. She is ahead of Do publishing house and runs a bookstore in her region.

Maira Begalli

Doutora em Planejamento e Gestão do Território, Mestra em Ecologia, Pósgraduada em Comunicação Jornalística. Desenvolve possibilidades envolvendo apropriação crítica de tecnologias livres, abertas, DIY, DIWO e de baixo custo para empoderamento socioecológico. PhD in Planning and Territory Management, Master in Ecology, Postgraduate in Journalism Communication. She develops possibilities involving the critical appropriation of free, open, DIY, DIWO and low cost technologies for socioecological empowerment.

Newton C. Braga

Autor de centenas de artigos em revistas técnicas de eletrônica e mecatrônica, tem mais de 140 livros publicados no Brasil e exterior. É professor do Colégio Mater Amabilis e proprietário da Editora NCB. Author of hundreds of articles in technical magazines of electronics and mechatronics. He has over 140 published books in Brazil and abroad. He is a Professor at Colégio Mater Amabilis and owner of NBC Publishing House.

Rui Cezar dos Santos

Master of Philosophy pela Sussex University. Master in Arts pelo Pratt Institute, com Distinção e um "minor" em Crítica da Fotografia. Aposentado, lecionou na UFMG e na FUMEC. Atua como fotógrafo, curador e crítico. Master of Philosophy at Sussex University. Master in Arts at Pratt Institute, with Distiction and a "minor" in Photography Critics. He was Professor at UFMG and FUMEC and is now retired. He works as photographer, curator and critic.

Taiom Almeida

É tatuador e artista visual formado pela UnB. Tem mais de dez anos de carreira no Brasil e exterior. A busca de seu trabalho é tornar visível simbologias, conceitos e subjetividades relacionadas ao corpo urbano e humano. He is a tattoo artist and visual artist at UnB (Brasilia University). He has an experience of more than ten years in Brazil and abroad. The quest for his work is to make visible symbologies, concepts and subjectivities related to the urban and human body.

Xande Perocco

Artista gráfico Azucrinista, desenvolve projetos de design e artes com foco no equilíbrio de suas propostas. Azucrinist graphic artist, develops design and arts projects foscused on the balance of their proposals.


Weltmaschine (World Machine) Franz Gsellmann, 1958-1981 Foto: Gery Wolf


AS ARTES E CIÊNCIAS DA

GAMBIARRA No Brasil, ela é onipresente e elemento de identidade cultural. Para artistas, pode ser fonte de inspiração e, cada vez mais, é valorizada em todo mundo como uma um forma original de inovação. Facta apresenta a soberana gambiarra.

N

o Brasil, a gambiarra dispensa apresentação. É atávica, inata, está no dia a dia e possivelmente desde sempre, ao menos desde o processo de colonização, que, afinal, foi fruto, em boa medida, de uma gambiarra da Corte Portuguesa. A palavra gambiarra é uma marca brasileira, conforme aponta o designer Rodrigo Boufleur, que defendeu na USP (Universidade de São Paulo) em meados da década passada a tese “Fundamentos da Gambiarra”. Ele destaca que há expressões semelhantes no inglês, como makeshift ou kludge, mas a conotação de gambiarra no Brasil vai além.

mente de uma condição de precariedade mais comum em países em desenvolvimento. Vale ressalvar, contudo, que a prática é natural do ser humano, e mundial. Além das expressões afins em inglês (das quais life hack parece ser o verbete do momento), há termos que denotam mais ou menos o mesmo sentido na Espanha (apaño ou chapuza), na Índia ( jugaad), na Colômbia (chatarra), no Chile (hechizo), em Portugal (desenrascanço), na China ( jiejian chuangxin) ou na França (Systeme D ou bricolage). No Brasil, são também comumente e ironicamente utilizados os sinônimos “engenharia de emergência” ou “recurso técnico alternativo”.

“O uso informal do termo como improviso denota uma propensão cultural relacionada ao que se costuma chamar de jeitinho brasileiro. É uma manifestação não exclusiva, porém típica e muito presente na cultura popular brasileira”, diz Boufleur em sua dissertação de mestrado “A Questão da Gambiarra”. Com efeito, se entendida como um remendo, um quebra-galho, uma improvisação para se resolver um problema ou a prática de reutilização ou requalificação de um determinado material para superar uma carência, é correto afirmar que as gambiarras partem principal-

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra gambiarra tem etimologia de origem “contraditória e duvidosa”. Nos principais dicionários brasileiros, a primeira acepção para o substantivo é “uma ramificação ou extensão de luzes”. Apesar do evidente e difundido uso informal do termo no Brasil, visto como uma forma de improvisação, nenhum destes dicionários inclui qualquer acepção que se refira precisamente a este significado. Tecnicamente, uma ramificação desarmônica mas funcional de luzes parece ser o sentido original da palavra gambiarra, que, com o tempo, passou 27


a se aplicar a qualquer solução precária para um problema. Várias dentre as cerca de 200 improvisações criativas analisadas por Boufleur têm essa característica de adversidade ou carência de materiais. Disso surgem tampas de xampu que viram lanternas traseiras de bicicletas, um disco rígido que vira uma lixa e um olho mágico que, acoplado ao celular, proporciona uma lente diferente. Um bom exemplo de gambiarra vem do fotógrafo paulista Daniel de Granville, que, para captar o som de aves, improvisou um guarda-chuva invertido. O princípio é o mesmo de uma antena parabólica: o guarda-chuva reflete o sinal sonoro e o concentra num ponto do cabo onde fica o microfone. “A ideia partiu do alto preço e da dificuldade de achar equipamentos”, conta.

MacGyverism: um dos sinônimos para gambiarra em inglês é originado do lendário personagem de um "enlatado americano" dos anos 1980.

quisadora e curadora Lisette Lagnado, que ele inclusive cita em seu artigo. Em um ensaio sobre o tema da gambiarra nas artes brasileiras, “O Malabarista e a Gambiarra”, publicado na revista digital “Trópico” em outubro de O escritor e ativista cearense Ricardo Rosas, 2003, ela sugere que a gambiarra é uma peça falecido prematuramente em 2007, afirma em em torno da qual um tipo de discurso está seu clássico artigo “Gambiarra: Alguns Pon- ganhando velocidade. Articulação de coisas tos para se Pensar uma Tecnologia Recombi- banidas do sistema funcional, a gambiarra, nante” que a transformação da precariedade tomada “como conceito, envolve transgrespode ter dimensões sociais e “sanar uma defi- são, fraude, tunga – sem jamais abdicar de ciência, tentar curar feridas uma ordem, porém de uma "A gambiarra não se do sistema, trazer conforto ordem muito simples”. O faz sem nomadismo nem mecanismo da gambiarra, ou voz a quem isso é negainteligência coletiva” do”. Rosas defende que a para Lagnado, teria, além (Lisette Lagnado) gambiarra tem um sentido disso, um acento político cultural muito forte, paralém do estético. Baseada ticularmente no Brasil. É na falta de recursos, a “gambiarra não se faz usada para definir uma solução rápida e feita sem nomadismo nem inteligência coletiva”. de acordo com as possibilidades à mão. “Esse sentido não escapou à esfera artística, com A gambiarra está igualmente muito próxima várias criações no terreno próprio das artes do conceito de bricolagem formulado por plásticas. É dessa seara que podemos captar Claude Lévi-Strauss em “O Pensamento mais alguns conceitos reveladores da natureza Selvagem”. Pensando o bricoleur como da gambiarra e o seu significado simbólico- “aquele que trabalha com suas mãos, cultural”, aponta. utilizando meios indiretos se comparado ao artista”, seu conjunto de meios não é O discurso de Rosas se alinha com o da pes- definível por um projeto, como é o caso do 28

* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *


O BRICOLEUR CRIA USANDO EXPEDIENTES E MEIOS SEM UM PLANO PRECONCEBIDO, AFASTADO DOS PROCESSOS E NORMAS ADOTADOS PELA TÉCNICA.

engenheiro, mas se define apenas por sua instrumentalidade, com elementos que são recolhidos e conservados em função do princípio de que “isso sempre pode servir”. O bricoleur cria usando expedientes e meios sem um plano preconcebido, afastado dos processos e normas adotados pela técnica, com materiais fragmentários já prontos, e suas criações se reduzem sempre a um arranjo novo de elementos cuja natureza só é modificada à medida que figurem no conjunto instrumental ou na disposição final. A diferenciação que Lévi-Strauss faz entre o bricoleur e o engenheiro é essencial para se entender a gambiarra – essa livre criação além dos manuais de uso e das restrições projetuais da funcionalidade – como uma prática essencialmente de bricolagem. Acima de tudo, para entender a gambiarra não apenas como prática, criação popular, mas também como arte ou intervenção na esfera social, é preciso

ter em mente elementos quase sempre presentes. Alguns deles seriam: a precariedade dos meios, a improvisação, a inventividade, o diálogo com a realidade circundante local, com a comunidade, o reuso, o flerte com a ilegalidade, a recombinação tecnológica ou novo uso de uma dada tecnologia (hacking), entre outros.

Para além do " jeitinho" Quando Rosas diz que a transformação da precariedade implícita na gambiarra pode ter dimensões sociais e tentar curar feridas do sistema, podem vir à tona exemplos como o “Gambiarra Favela Tech”, um projeto que tenta identificar talentos criadores em diferentes comunidades cariocas, criando uma rede entre eles e estimulando o potencial criativo e artístico dos envolvidos. O projeto é uma tentativa de devolver a cultura maker às suas origens: as oficinas e garagens onde talentos "Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500", de Oscar Pereira da Silva (1922). O início da gambiarra civilizatória brasileira.

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anônimos desenvolvem soluções para proble- ro de brinquedo num inalador para asma e mas cotidianos usando princípios de elétrica, acoplou canos a um desentupidor de pia para eletrônica, informática e manualidades, acres- produzir uma centrífuga portátil. cidos de uma boa dose de criatividade. Nas visitas que faz a Honduras e outros O potencial de intervenção social da gam- países da região, Gómez-Márquez encontra biarra pode ser identificado não só no Brasil, cirurgiões e enfermeiros que seguem esse mas no mundo, especialmente em países ou exemplo e também desenvolvem soluções regiões com carência de recursos. Formado criativas para seus problemas. “Queremos dar condições para que se pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), O potencial de intervenção tornem colaboradores”, diz. social da gambiarra Para tanto, o engenheiro o engenheiro hondurenho pode ser identificado dirige no MIT o programa José Gómez-Márquez passa não só no Brasil. IIH (sigla em inglês para o dia às voltas com prendeInovações em Saúde dores, remendos, canos e peças de Lego. Ainda que pareça apenas um Internacional), uma rede de laboratórios em monte de traquitanas, são soluções médicas 12 lugares do planeta – do Peru ao Paquistão. de baixo custo, que já ajudaram milhares de E as parcerias têm dado frutos. Na Nicarágua, pessoas em países em desenvolvimento. Com sócios conseguiram fundos do BID (Banco um filtro de café, Gómez-Márquez bolou um Interamericano de Desenvolvimento) para instrumento para controlar medicação anti- seus projetos. O país foi palco do lançamento tuberculose. Fez um inalador com uma bom- do Medikit, um kit que auxilia profissionais ba de bicicleta. Transformou um helicópte- da saúde a desenhar protótipos. Smell Camera é um dispositivo para monitoramento da saúde desenvolvido pela estudante Manisha Mohan, do MIT. Essa gambiarra eletrônica digitaliza a respiração de pacientes. Foto: Gabriella Zak.

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* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *


Video instalação "Elektronischer dé-coll/age Happening Raum (1968), de Wolf Vostell: precariedade com sucatas e eletrônicos. Foto: Marc Wathieu.

Artistas da gambiarra Exemplos muito próximos e, ao mesmo tempo, ao redor do mundo atestam a ligação da gambiarra com o universo das artes plásticas. Formado em Belo Horizonte entre 2008 e 2015 e motor desta publicação, o Coletivo Gambiologia trazia no próprio nome sua fundamentação e, entre as várias frentes e possibilidades que a “ciência da gambiarra oferece”, explorou com proeminência sua dimensão artística. Em âmbito nacional, alguns nomes de artistas que têm na gambiarra um de seus procedimentos também se destacam. Cao Guimarães desenvolve por mais de dez anos um projeto fotográfico que tem o tema como mote. Ao longo de sua trajetória, a série de fotografias “Gambiarras” já esteve exposta em inúmeros países. O paulistano Guto Lacaz também figura com destaque no trato com a gambiarra. É um artista-

inventor que cruza os terrenos da ciência e da tecnologia, sobretudo quando constrói as suas máquinas e aparelhos paradoxais ou absurdos. É uma espécie de antiengenheiro que aplica seu know-how na desmontagem, na desorganização, na desconstrução do sistema produtivo industrial. Outro artista que frequentemente faz da precariedade um preceito estético, o paraense Dirceu Maués navega na direção contrária das últimas tecnologias do mundo fotográfico e é hoje um dos maiores conhecedores no país da fotografia estenopeica, como também é chamado o registro com câmera pinhole (“buraco de agulha”). Seus aparatos óticos são artesanais e feitos com materiais diversos: lata, madeira, caixa de fósforo, embalagens velhas, latões etc. Há também os artistas que, em algum momento de suas carreiras, flertam com o universo da gambiarra.

* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *

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"Refunct Media", de Benjamin Gaulon.

É o caso de Jarbas Lopes, Efraim Almeida, Ducha e Marepe, que em 2003 realizaram a exposição coletiva “Gambiarra: New Art of Brazil”, na Gasworks Gallery, em Londres, na Inglaterra. “Poesia da Gambiarra” é também o nome de uma exposição realizada por Emmanuel Nassar entre 2003 e 2004 (Rio, Brasília e São Paulo), apresentando sua produção de desenhos, fotografias e murais que aludiam à precariedade. Em âmbito internacional podemos citar o trabalho de Benjamin Gaulon, um artista, pesquisador e professor que lança trabalhos sob o nome de “Recyclism”. Sua série “Refunct Media” propõe uma colagem de dispositivos eletrônicos obsoletos, remontados em uma grande e complexa cadeia de elementos. Desde 2005 Benjamin tem também liderado

workshops e ministrado palestras na Europa e EUA sobre lixo eletrônico, reprogramação de hardware e reciclagem. Os participantes de suas oficinas exploram o potencial das tecnologias obsoletas de forma criativa e encontram novas estratégias para a reciclagem de lixo eletrônico. Quem quiser conhecer um pouco mais desse universo tem ao alcance dos olhos as exposições coletivas “Gambiólogos”, cujas primeiras edições aconteceram em Belo Horizonte em 2010 e 2014. As mostras apresentam uma panorâmica sobre a precariedade e o improviso cotidiano aplicado à arte, sem deixar de lado o ingrediente lúdico. É, em suma, uma oportunidade de aplicar arte e invenção a um cotidiano, não raro no Brasil de hoje, precário e improvisado. DB

“REFUNCT MEDIA” PROPÕE UMA COLAGEM DE DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS OBSOLETOS, REMONTADOS EM UMA GRANDE E COMPLEXA CADEIA DE ELEMENTOS.

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* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *


THE ARTS AND SCIENCES OF

In Brazil, it is ubiquitous and an element of cultural identity. For artists, it can be a source of inspiration and, more and more, is valued throughout the world as an original form of innovation. Facta presents the sovereign gambiarra.

In Brazil, gambiarra doesn’t require an introduction. It is atavistic, innate, it is in everyday life and possibly since ever, at least since the colonization process, which, in the end, was the fruit, to a large extent, of a gambiarra of the Portuguese Court. The word gambiarra is a Brazilian brand, as pointed by the designer Rodrigo Boufleur, who defended at USP (University of São Paulo) in the middle of the last decade, the thesis “Gambiarra Fundamentals”. He points out that there are similar expressions in English, such as makeshift or kludge, but the connotation of gambiarra in Brazil goes further.

of improvisation, none of these dictionaries includes any interpretation that precisely refers to this meaning. Technically, a disharmonious but functional branch of lights seems to be the original definition of the word gambiarra, which, over time, began to be applied to any precarious solution to a problem. Several of the approximately 200 creative improvisations analyzed by Boufleur have this characteristic of adversity or lack of materials. From this, shampoo lids that turn into bicycle taillights, a hard disk that turns into a sandpaper and a magic eye that, coupled to a cell phone, provides a different lens emerge. A good example of gambiarra comes from Daniel de Granville, a photographer from São Paulo who improvised an inverted umbrella in order to capture the sound of birds. The principle is the same as a satellite dish: the umbrella reflects the sound signal and concentrates it at a point on the cable where the microphone is. "The idea came from the high price and the difficulty of finding equipment," he says.

GAMBIARRA

“The informal use of the term as improvisation denotes a cultural propensity related to what is commonly called ‘the Brazilian way’. It is a non-exclusive manifestation, but rather typical and very present in Brazilian popular culture”, says Boufleur in his Master's dissertation “The Gambiarra Issue”. In fact, if understood as a patch, a bump, an improvisation to solve a problem or the practice of re-use or requalification of a certain material to overcome a shortage, it is correct to affirm that gambiarras depart mainly from a condition of precariousness that is more common in developing countries. It is worth mentioning, however, that this practice is natural to the human being and it is found worldwide. In addition to the related expressions in English (of which life hack seems to be the entry of the moment), there are terms that have more or less the same meaning in Spain (apaño or chapuza), India ( jugaad), Colombia (chatarra), Chile (hechizo), Portugal (desenrascanço), China ( jiejian chuangxin) and in France (Systeme D or bricolage). In Brazil, the terms "emergency engineering" or "alternative technical resource" are also commonly and ironically used. According to the Houaiss dictionary, the word gambiarra has an etymology of "contradictory and doubtful" origin. In the main Brazilian dictionaries, the first meaning for the noun is "a branch or extension of lights." Despite the evident and widespread informal use of the term in Brazil, seen as a form

Ricardo Rosas, a Brazilian writer and activist who died prematurely in 2007, states in his classic article “Gambiarra: Some Points to Think of a Recombinant Technology” that the transformation of precariousness can have social dimensions and "heal a disability, try to heal wounds of the system, bring comfort or voice to whom this is denied." Rosas argues that gambiarra has a very strong cultural meaning, particularly in Brazil. It is used to define a quick solution and made according to the possibilities at hand. "This sense hasn’t escaped the artistic realm, with several creations in the fine arts. It is from this area that we can capture some more revealing concepts of the nature of gambiarra and its symbolic-cultural meaning," he points out. The speech of Rosas is aligned with that of the researcher and curator Lisette Lagnado, whom he even quotes in his article. In an essay on the subject of gambiarra in the Brazilian arts, “The Juggler and the Gambiarra”, published in the digital magazine Trópico in October 2003, she suggests that gambiarra is a part around which a type of discourse is 33


gaining speed. Articulation of things banned from the functional system, gambiarra, taken "as a concept, involves transgression, fraud, chigoe - without ever abdicating an order, but a very simple order". The mechanism of gambiarra, for Lagnado, would have, moreover, a political accent beyond the aesthetic one. Based on the lack of resources, "gambiarra is not done without nomadism and collective intelligence". The gambiarra is also very close to the concept of bricolage formulated by Claude Lévi-Strauss in "The Savage Mind". Considering the bricoleur as "one who works with her/his hands, using indirect means, if compared to the artist", his set of means is not definable by a project, as it is the case of the engineer, but it is defined only by her/his instrumentality, with elements that are collected and preserved in accordance with the principle that "this can always serve". The bricoleur creates using expedients and means without a preconceived plan, away from the processes and norms adopted by technique, with fragmentary materials already ready, and her/ his creations are always reduced to a new arrangement of elements whose nature is only modified as they appear in the instrumental set or in the final disposition. The differentiation made by Lévi-Strauss between bricoleur and engineer is essential to understand gambiarra - this free creation that goes beyond manuals of use and design restrictions of functionality - as an essentially bricolage practice. Above all, in order to understand gambiarra not only as a practice, a popular creation, but also as art or intervention in the social realm, it is necessary to keep in mind elements that are almost always present. Some of them would be: the precariousness of means, improvisation, inventiveness, dialogue with surrounding local realities, with the community, reuse, flirting with illegality, technological recombination or new use of a given technology (hacking) among others. 34

Beyond The Brazilian Way When Rosas says that the transformation of the precariousness that is implicit in gambiarra can have social dimensions and that it tries to heal wounds of the system, we can think of examples such as the "Gambiarra Favela Tech", a project that aims to identify creative talents in different communities in Rio de Janeiro, creating a network between them and stimulating the creative and artistic potential of those involved. The project is an attempt to return the maker culture to its origins: the workshops and garages where anonymous talents develop solutions to everyday problems using principles of electrical, electronics, computer science and crafts, plus a good deal of creativity. The gambiarra potential of social intervention can be identified not only in Brazil, but worldwide, especially in countries or regions with a lack of resources. Graduated in the Massachusetts Institute of Technology (MIT), the Honduran engineer José Gómez-Márquez spends his days with fasteners, patches, pipes and Lego pieces. Although they look just as bunch of trachytes, they are low-cost medical solutions that have already helped thousands of people in developing countries. With a coffee filter, Gómez-Márquez has developed an instrument to control antituberculosis medication. He has made an inhaler with a bicycle pump. He has turned a toy helicopter into an asthma inhaler and has coupled pipes to a sink nozzle to produce a portable centrifuge. During his visits to Honduras and other countries in the region, Gómez-Márquez meets surgeons and nurses who follow his example and also develop creative solutions to their problems. "We want to make conditions for them to become collaborators," he says. To do so, the engineer is in charge, at the MIT, of the program IIH (Innovations in International

* THE ARTS AND SCIENCES OF GAMBIARRA *


Health), a network of laboratories in 12 places on the planet –from Peru to Pakistan. And partnerships have borne fruit. In Nicaragua, partners have secured IDB (Inter-American Development Bank) funds for their projects. The country hosted the launch of Medikit, a kit that helps healthcare professionals to design prototypes.

Gambiarra Artists Very close examples and at the same time around the world attest the connection of gambiarra with the universe of fine arts. Formed in Belo Horizonte between 2008 and 2015 and the motor of this publication, the Gambiologia Collective had its grounding in its own name and, among the various fronts and possibilities that the "science of gambiarra” offers, they had explored its artistic dimension with prominence. At the Brazilian level, some names of artists who have in the gambiarra one of their procedures also stand out. Cao Guimarães has developed, for over ten years, a photographic project that has this theme as a motto. Throughout his trajectory, the "Gambiarras" photo series has already been exposed in numerous countries. Guto Lacaz also figures prominently in the deal with gambiarra. He is an artist-inventor who crosses the lands of science and technology, especially when he constructs his paradoxical or absurd machines and apparatuses. He is a kind of anti-engineer who applies his know-how in the dismantling, disorganization and deconstruction of the industrial production system.

made from various materials: tin, wood, matchbox, old packaging, brass etc. There are also artists who, at some point in their careers, flirt with the gambiarra universe. This is the case of Jarbas Lopes, Efraim Almeida, Ducha and Marepe, who held in 2003 the collective exhibition "Gambiarra: New Art of Brazil" at the Gasworks Gallery in London. "Gambiarra Poetry” is also the name of an exhibition by Emmanuel Nassar between 2003 and 2004 in Rio, Brasilia and São Paulo, presenting his production of drawings, photographs and murals that alluded to precariousness. Internationally we can mention the work of Benjamin Gaulon, an artist, researcher and teacher who launches works under the name of "Recyclism". His series "Refunct Media" proposes a collage of obsolete electronic devices, reassembled in a large and complex chain of elements. Since 2005 Benjamin has also led workshops and lectures in Europe and the United States on e-waste, hardware reprogramming and recycling. His workshop participants explore the potential of obsolete technologies in a creative way and find new strategies for recycling e-waste. Those who want to know a little more about this universe have at their fingertips the collective exhibitions "Gambiólogos", whose first editions took place in Belo Horizonte in 2010 and 2014. The exhibits present a panoramic view on precariousness and daily improvisation applied to art, without leaving aside the playful ingredient. It is, in short, an opportunity to apply art and invention to a daily life, not infrequently in today's Brazil, precarious and improvised. DB

Another artist who frequently makes precariousness an aesthetic precept, Dirceu Maués navigates in the opposite direction of the latest technologies of the photographic world and is today one of the greatest connoisseurs in the country of pinhole photography. His optical devices are handcrafted and 35


SOLUCIONÁTICA

BRASILEIRA Fotografias e texto por Rui Cezar dos Santos


O

dade de Engenharia e de uma graduação e pós em Ciências Econômicas me predispuseram a suspeitar e rejeitar gambiarras e seus praticantes. A esta formação se juntou uma certa penchant stalinista que marcou minha geração (Ah! Os promissores Grandes Relatos... ver Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna) e a prática das ditas “ciências exatas”, entre as quais alguns pensadores inserem a economia. Mas, cá entre nós, é como dar murro em ponta de faca. Porque a gambiarra, razoo, foi uma necessidade imposta pelo processo de colonização de Pindorama. Devia haver carência de tudo, daí a necessidade do improviso, do famoso jeitinho familiar a todos. Querem um exemO vernáculo que temos à frente é o termo plo? É fácil, escolham o melhor altar barroco das nossas igrejas e peçam gambiarra. O Aurélio (EdiDevia haver carência de para vê-lo por trás: verão, tora Positivo, 4ª. edição, tudo, daí a necessidade assombrados, um palimp2009) não é de valia, pois do improviso, do famoso sesto de ripa sobre ripa, reo define como uma lâmpajeitinho familiar a todos. mendo sobre remendo. Ou da colocada na extremidade então consultem os quatro de um longo fio que permite seu emprego em uma área relativamente volumes da História da Vida Privada no Bragrande, como um conjunto de lâmpadas para sil (Cia. das Letras, 1997) ou os relatos dos uso naval ou no teatro. Se a memória não me celebrados viajantes europeus que nos visitatrai, meu conhecimento de sua existência foi ram há séculos atrás. O Brasil colonial nos nos anos setenta, quando pronunciado por legou a prática da gambiarra. Quem não tem Chico Jacob, que assim se referiu a um pe- cachorro caça com gato, ora pois. queno improviso que estava a fazer em seu apartamento. Então supus que ele o empre- A gambiarra é estrutural, embora em alguns gara substituindo o termo bricoleur, que de- setores da atividade humana nos quais o comsigna pequenos trabalhos sem importância, o putador (a exatidão) penetrou pra valer, como biscate. Depois ponderei que alguém deve ter nas oficinas mecânicas, tenha sido relevada associado a experiência do biscate com o im- aos grotões. Vivemos hoje uma dicotomia enproviso e, daí, com a gambiarra elétrica dos tre o científico e o “gambiárrico” encarnado cenários teatrais tal como definida no Auré- como marca, estigma, como um diferencial cultural. Proponho duas formas pretensalio. Um improviso. mente científicas para gerar uma abordagem Mas também imprecisão. Minha educação, intrincada ao termo melhorando seu status, curso científico, um preâmbulo na Facul- um upgrade. Primeiro, podemos encaixá-lo VERNÁCULO, aqui entendido como a língua viva das ruas, é uma tremenda fonte de vivacidade, sabedoria e riqueza cultural. Empregado com frequência como um escudo contra o poder, como uma proteção contra estranhos ao ninho (jargões, gírias e até mesmo a língua do “P” das crianças que Gal Costa cantou), ele reflete inteligência prática e direta, na veia, ou universaliza algo como um adjetivo irrecorrível, incontestável – tal como roscofe, um ordinário relógio suíço de má qualidade, ou legal, termo da lei de que o submundo se apropriou para fins de denominar os pequenos nirvanas aos quais é permitido, mesmo que na marra.

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na definição de economia do suplemento que Foucault criou para designar um suplemento que, gerado para auxiliar na faina diária, inverte a equação e escraviza, impõe-se. O automóvel e o telefone celular são menções honrosas dessa aberração. Segundo, pode ser entendido como um rizoma, conceito de Deleuze e Guattari para abordar sistemas que não têm como característica a hierarquia verticalizada. Expansionista na dimensão horizontal, o rizoma é como um câncer em fase de metástase. Um exemplo à mão é o ensaio “Vietnam: The thousand plateaus”, de Herman Rapaport (“The 60’s Without Apologies”, University of Minnesota Press, 2ª. Ed., 1985). Ali o autor analisa a guerra do Vietnã empregando o rizoma para discorrer sobre a tática guerrilheira da resistência contra o sistema rígido e hierárquico das forças militares americanas. Ubíqua entre nós, a gambiarra pode ser fruída quando relembramos vários lances do maldito golpe militar de 1964 e seus generais (em especial o sediado em Minas). Tudo acochambrado (o “feito nas coxas” se refere ao molde empregado para produzir as telhas coloniais, feitas nas coxas, gambiarrada). Blefes, insultos a granel e o resultante cisco verde-oliva em nossos olhos. Duas décadas! Neste meu improvisar, outra lembrança. Durante a presidência de JK, o então ministro da Fazenda (acho) José Maria Alckmin deparou-se com uma demanda dos bares e cafés cariocas, que queriam aumentar o preço do cafezinho. Concedido o aumento de cem por cento, o ministro ouviu a gritaria da população e, de pronto, decretou que a xícara deveria ter seu volume duplicado.

Vivemos hoje uma dicotomia entre o científico e o “gambiárrico” encarnado como marca, estigma, como um diferencial cultural. Orlando, Coronel (que nunca conseguia “prender” o Garrincha), Vavá e Pinga. De quebra, tinha o guarda-metas Barbosa, o eterno injustiçado, culpado pela derrota para o Uruguai em 1950. De lá para cá, ou seja, do supercampeonato de 1958 até hoje, a cueca samba-canção virou tanga, o samba canção foi deslocado pela bossa nova, Sérgio Ricardo e Glauber Rocha (“te arreda santo safado”) pelo Tropicalismo, aliás uma ode à gambiarra alegremente enriquecida pelos Novos Baianos e, encurtando a narrativa, pelo Planet Hemp, MCs e áreas próximas. Ficou desonroso, segundo Foucault, falar pelos outros, menos na política.

É, político sempre fala pelos outros, um tipo de deformação profissional - é, eles são profissionais, inclusive com direito a aposentadoria depois de alguns mandatos. Neste campo, mais apropriado seria dizer nesta miséria, desde a reinauguração da res publica nos anos oitenta temos assistido a um festival bizarro de meias-verdades, improvisos e gambiarras. Parece que de nada adiantou que o governo Vargas, nos anos cinquenta, enviasse Celso Furado, Roberto Campos e Ignácio Rangel para estudar nas estranjas e orientar os destinos da economia (trouxeram um econometrista inglês para falar grosso na coleta e no processamento de dados estatísticos). No país das gambiarras os destinos viraram desatinos: leiam sobre a gestão Delfim Netto (e os Delfim’s boys) durante a ditadura militar Mas estas são águas passadas, da época em que e a internacionalização da nossa economia (o o Vasco da Gama era vistoso, tinha Bellini, capital estrangeiro vinha se imiscuindo desde

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os anos 1950; veja, por exemplo, “Um dia na vida do Brasilino”, que o Centro de Cultura Popular da UNE imprimiu). Desde então, a gambiarra econômica passou a ser conhecida por pacote! Gambiarra à la brasilien (jamais um país sério, frase atribuída talvez erroneamente a Charles De Gaulle durante a Guerra da Lagosta com a França). Avanço algumas décadas para enfocar 2010/11, com a política petista de desoneração de tributos e concessão de subsídios para, assim, gerar excedentes que, esperava-se, seriam aplicados na economia como investimento (no escambau, isso sim). As burras do erário sacrificaram impostos a “fundo perdido”. O que aconteceu com o excedente ninguém sabe, mas provavelmente rendem juros no exterior. Afinal, quem quer investir nessa balbúrdia, agora tornada dissonante pelas minorias e sindicatos e a esquerda brasileira, a última, outro exemplo de rizoma, desde o início da década de 2000? À gambiarra, o pacote, que é como se pode chamar a política econômica adotada 40

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então, 2010, somaram-se os problemas externos (preços das commodities) e as perdas sucessivas de arrecadação, o aumento constante dos gastos, justificados, com educação, moradia, saúde – direitos básicos do ser humano. Daí originou-se o descontrole da “administração” Dilma, sua gambiarra gerencial. O chamado desajuste fiscal só foi se agravando até a reeleição de 2014, ganha “nas coxas” com o expediente de maquiar dados. Os 54 milhões queriam mais: moradias, educação, saúde, quilombos e por isso o Aecinho dançou feio, como se diz, morreu na praia após uma tremenda recuperação que o levou ao segundo turno. E aí teve início a gambiarra que nos trouxe ao presente estado das coisas.

Fiesp; o apoio logístico da indústria da informação (a televisiva, pois a mídia impressa não compactuou totalmente) e a claque das ruas comandada pelo Movimento Brasil Livre, o último supostamente apolítico, mas apoiado financeiramente pelo PMDB e DEM, geraram o pacto (que horror, titia) a que se refere o senador Romero Jucá nas gravações de março. Seguindo a cartilha da gambiarra, estas apenas foram reveladas meses depois, somando-se à “deposição” do gangster Cunha da presidência da camarilha e cassação de seu mandato, pedido que ficou “dando filhote” no colo de um juiz do Supremo de dezembro até a passagem do pedido de impedimento. E a gente que achava, a partir do ícone postado lá em Brasília, que a justiça é cega (“tá bem”, mas não é surda e tem o pleno sentido do tato nas mãos).

Recontagem de votos, requerimento de impugnação A gambiarra econômica do resultado no TSE, uma Tal “golpe branco”, para as passou a ser conhecida gritaria do coro dos deselites, revelou-se uma nepor pacote! contentes que calculavam cessidade, já que recorrer às os danos futuros: a volta de armas engalanadas poderia: Lula em 2018 e mais 12 anos com a mão da 1) despertar neles o fascínio pelo trono, como esquerda vermelha distribuindo as cartas do em 1964, e teríamos hoje a história como farjogo democrático! Tisconjuro. Deus que me sa (nos dizeres de Karl Marx, a primeira vez é livre! Sai Satanás. Pois é, veio então a dispu- como tragédia e a segunda...); 2) com a queda ta pela presidência da camarilha dos depu- do muro de Berlim ficou insustentável o apoio tados (dos quais apenas setenta e três foram às ditaduras no mundo “livre” do neoliberarealmente eleitos, o restante subiu na cota lismo A amarração que se procedeu desafia os partidária), vencida pelo gangster Eduardo ensinamentos dialéticos que apontam para as Cunha. Há aqui um ponto cego que minhas contradições internas da oligarquia. Um epipobres fontes não me permitem clarear: será sódio vem à baila: Negrão de Lima, do PSD, que o gangster teve o insight de impedir a durante a presidência de Juscelino, concorreu continuidade do mandato da Presidenta ou à prefeitura da capital federal, Rio de Janeiro, alguém soprou em seus ouvidos darwiniana- contra um adversário da UDN. Ganhou. mente adaptados? Não sei, mas que começou Empossado, deu um cartório de presidente aí o projeto de ingovernabilidade, disto temos ao oponente político derrotado. O episódio sugere que as diferenças internas são certeza. superadas quando há um interesse comum. O patinho amarelo (cor da covardia) da Sufocar as esquerdas, manter o povo oprimido

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e conformado e segurar os anéis. Sob a batuta de Eduardo Cunha, o poderoso psicopata, segundo seu correligionário pernambucano Jarbas Vasconcelos, assediou-se a administração federal. Fez-se o país ingovernável, ao mesmo tempo em que foram cerzidas novas alianças com o baixíssimo clero e a pletora absurda de partidos nanicos. O que já era confuso e criticável aumentou como uma bola de neve, com uma pequena ajuda da indústria da informação, o olhar benevolente da justiça e o olhar armado atento ao MST (segundo um deputado participante da armação).

foram contemplados com ministérios e outros cargos estratégicos, em termos de poder e influência, na gestão da Presidente. Preferiu-se a gambiarra: todos abandonaram o barco, deixando um segundo “timoneiro” de plantão. Haveria alguma dúvida no emprego do termo calhorda para os atores dessa tragicomédia? Ou de que se trata verdadeiramente de um golpe?

Vencidas as duas etapas preparatórias, tornou-se necessário limpar as mãos sujas de Cunha e Jucá: arquivos mortos, um ônus. O exílio presencial de Cunha foi “providenUm governo de coalização, o padrão republi- cialmente” resolvido pelo Supremo. Jucá tamcano pós militarismo, é como uma sociedade bém, com o “vazamento” de conversas que, limitada. Manda quem tem cinquenta e um para os iniciados, configuram sem sombra por cento do capital. Entretanto, com a ban- de dúvida a aplicação de um “golpe branco”, carrota batendo na porta, os quarenta e nove ou se preferirem, uma ação de reintegração por cento restande posse executada tes gritam, mero Vários partidos foram contemplados com pelas elites. Mas ministérios e outros cargos. Preferiu-se a rolou então o iminstinto de sobregambiarra: todos abandonaram o barco. ponderável (colatevivência, e provavelmente serão ral de gambiarras). ouvidos. Ao confronto de ideias preferiu-se a Não se contava com isso, pois os militares, retirada da súcia, deixando o general a pos- que em 1964 representaram a mão de ferro tos, queixoso e quase humilde em sua “DR” das oligarquias, foram excluídos, mas a jusalardeada ao público. Foi o aviso prévio, o bi- tiça, com o sopro de vida e respeitabilidade lhete azul, anunciando que as oligarquias não da República do Paraná, é, a operação Lava queriam outros dez anos vermelhos no leme Jato, escapou ao controle, preocupada e fasda nau sem rumo. Este é mais um fato reve- cinada com o próprio umbigo e ... novamente lador sobre a natureza da política brasileira a história se repete: a justiça tornou-se inconpara se reter na memória e contar aos filhos trolável, para o desespero dos oligarcas. Nos dizeres de Sarney, o vice-rei, a pior ditadura e netos. de todas! Porque nossa política carece de honra, palavra, compromisso, sentido do coletivo e, aci- O doutor Moro, um barnabé do andar de ma de tudo, respeito ao público tratado como baixo, mas uma exceção no que toca à obserignorante. Em qualquer das dez maiores vância de seus deveres de servidor público, foi economias do mundo, o Brasil é uma delas, rapidamente transformado em herói, adquio imbróglio seria resolvido com os sócios ne- rindo “imexibilidade” (devo o termo ao migociando à exaustão. Afinal, vários partidos nistro do trabalho na gestão Collor de Mello, 42

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Antônio Magri, que empregou o vocábulo pela primeira vez). Moro materializa um conto de Dalton Trevisan que discorre sobre o vampiro de Curitiba. Está mordendo e sugando a jugular de corruptos e corruptores, a mescla, que já comentei em outra ocasião, do capital nacional sobrevivente à internacionalização da economia – a construção civil pesada – e o sistema político viciado, torto, demagógico e oportunista. Moro, por assim dizer, está “roubando” a farta merenda da politicagem voraz, predatória, traidora da pátria e de seus eleitores, o que ficou patente no espetáculo mambembe da votação do impedimento na camarilha dos deputados, onde votaram pela mulher, filhos, pais, tios e animais de estimação e não pelos que representam. O coletivo. Fred Paulino gentilmente enviou-me dois links que versam sobre uma barganha proposta ao interino: em troca a seu voto pelo impedimento no Senado, o senador Hélio José (PMDB-DF), também conhecido como senador Gambiarra, quer: a presidência do Banco do

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Brasil, nomear o presidente da Itaipu, ser o líder do governo no Congresso e mais outros 34 cargos (ver blog do Fred Lima e matéria do Tijolaço de 21/06)! A quem esse político representa, candangos?

inculcados que fomos pelo entretenimento do Fantástico e sua ênfase nos poderes de um mágico, David alguma coisa, há algumas décadas. Se isto não bastasse, que tal o reforço dos superpoderes dos bem apregoados nos horários alugados à indústria televisiva: os milagreiros a granel?! Bíblia para quem precisa de Bíblia; boi para quem precisa de boi; bala para quem precisa de bala – e mais uma vez, mister Oscar Wilde, a vida imita a arte do BBB (Big Brother Brasil).

O negócio está feio e tende a piorar. Gostaria que algum jornalista da nossa verdadeira imprensa, a alternativa, fizesse uma pesquisa em Brasília sobre as compras de tranquilizantes nas drogarias da capital e outra nas latas de lixo dos poderosos de foro privilegiado. O instituto de geofísica da UnB, que sempre Soa impossível chegar a alguma conclusão. reporta as magnitudes dos tremores de ter- Primeiro, porque estamos investigando uma ra em Minas Gerais, bem que poderia dar conjuntura que mais parece areia movediça. uma força e apontar a magnitude do tremor A cada novo dia, ou jornal da noite, somos no epicentro em Brasília. Enquanto não rola, bombardeados por novos fatos: mais um minos contentamos com Jô Soares e sua trupe nistro que renuncia, um chefe regional do PSDB é preso em Minas de jornalistas da indústria Gerais. O Financial Times da informação que, via de Em menos de um mês de rotula os governistas atuais força, comentam gracejando gestão gambiarrada, a de desertores, vários dessobre os apuros que a situsenilcracia já desperta desconfiança. ação criou, como um bumentidos do presidente, merangue que agora volta à reafirmação de liberdade origem do movimento. de ação para a Lava Jato... Uma comentarista política disse há duas semanas no Programa Nosso gótico interino (arghhh, démodé) já se do Jô que estava achando o governo “velho”. irritou com as manifestações, deu murro na Não qualificou seus sentimentos, o que deimesa e garantiu que está habituado a tratar xa o comentário livre para interpretação. com bandidos, aprendizado adquirido em O governo interino não só parece, como nasduas gestões no comado da segurança pública ceu velho: uma senilcracia branca, misógina, do estado de São Paulo. Cercou-se correta- formada por suspeitos nos ministérios e no mente do que já conhecia (alguns já dança- legislativo, que sinaliza contra os avanços nas ram, outros vários estão citados em processos áreas sociais das últimas décadas. É velho sortidos). Seu lado vampiresco, mágico, ma- como sua estratégia de lotear o governo aos nifestou a vontade de levitar os pobres bra- aliados da hora, que assim os mantém, com sileiros pobres à condição de classe média, as trinta moedas, mesmo que contradiga o imediatamente após anunciar vagamente as que apregoa. intenções de atingir em cheio os que sempre pagam o pato da Fiesp: isso mesmo, os po- Em menos de um mês de gestão gambiarrada, bres e descamisados, os verdadeiros onera- a senilcracia já desperta desconfiança (a causa dos do chamado Custo Brasil. Acreditamos, da recessão, segundo os atuais governistas) 44

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até mesmo entre aliados e reticentes. A imprensa e a indústria da informação já deram puxões de orelha. A senilcracia só é neoliberal nos ministérios doados ao PSDB (Serra), na liderança do governo no Senado, na presidência da Petrobras (sinal de abertura do pré-sal ao capital estrangeiro) e no Ministério da Fazenda. A estes, compete a solução do paradoxo entre os dogmas do neoliberalismo e a realidade que produz. Os demais integrantes e coadjuvantes são políticos da velha cepa, oportunistas, politiqueiros de competência e idoneidade suspeitas, hoje tratados a caviar e champanhe e loas (o pequeno sheik pediu aplausos para o Congresso pela votação da pauta do “trem da alegria”, um lenitivo para os “anos de chumbo” da insensível Presidenta). Entre bandidos e traidores da pátria, o pequeno drácula desfila garboso, levita com um largo sorriso de contentamento. Um sinal prematuro de hedonismo – a “ditadura da justiça’ começa a se ocupar com os “Al Capones” do PMDB. No meu íntimo, torço para a condenação de Eduardo Cunha e a concessão de uma delação premiada ao gangster – grande premiação para o povo em geral. Já é tempo, não há mais o que demonizar em Lula e no PT. O atual lado negro da gambiarra, somado à nossa maior e terrível gambiarra – as favelas, que devem abrigar cerca de trinta por cento da população – são embaraços à vontade de solicitar à Unicef que a declare patrimônio cultural nacional. 04 de junho de 2016. Lembrete aos mais jovens: o grande Dadá Peito de Aço, centroavante do Galo na gloriosa campanha do primeiro Campeonato Brasileiro, em uma entrevista, sentiu-se apertado com as perguntas e retrucou: “não me venha com problemática, que eu tenho a solucionática.”


BRAZILIAN SOLUCTIONACTIC Photos and text by Rui Cezar dos Santos

The vernacular, here understood as the living language of the streets, is a tremendous source of liveliness, wisdom and cultural richness. Frequently employed as a shield against power, as a protection against strangers to the nest (jargon, slang and even the language of the "P" of the children, sang by Gal Costa), it reflects practical and direct intelligence in the veins, or universalizes something like an irrefutable adjective, incontestable - such as roscofe, an ordinary Swiss watch of poor quality, or legal, term of the law that the underworld appropriated for the purpose of naming permitted small nirvanas, even by force. The vernacular we have ahead is the term gambiarra. The Aurélio (Editora Positivo, 4th Edition, 2009) is not of value, because it defines it as a lamp placed on the edge of a long wire that allows its use in a relatively large area, such as a set of lamps for naval use or in theater. If memory doesn’t betray me, my knowledge of its existence was in the seventies, when uttered by Chico Jacob, who so referred to a little improvisation he was doing in his apartment. Then I supposed that he had employed it by substituting the term bricoleur, which designates small unimportant works, the biscate. Then I considered that someone should have associated the experience of the biscate with the improvisation and, from there, with the electric gambiarra of the theatrical scenes as defined in the Aurélio. An improvisation. But also imprecision. My education, scientific course, a preamble in the Faculty of Engineering and an undergraduate and graduate in Economic Sciences predisposed me to suspect and reject gambiarras and their practitioners. To this formation, a certain Stalinist penchant that marked my generation was joined (Ah! The Promising Great Reports... see Jean-François Lyotard, The Postmodern Condition) and the practice of the so-called "exact sciences", among which some thinkers include Economics. But, between us, it's like punching a knife. Because gambiarra, reasonable, was a necessity imposed by the process of colonization of our Pindorama. There must be a shortage of everything, hence the need for improvisation, for the famous “little way”, familiar to all. Do you want an example? It is easy, choose the best baroque altar in our churches and ask to see it from behind: you will see, haunted, a palimpsest of clapboard over clapboard, patch over patch. Or consult the four volumes of the História da Vida Privada no Brasil (History of Private Life in Brazil - Cia. Das Letras, 46

1997) or the reports of celebrated European travelers who visited us centuries ago. Colonial Brazil bequeathed us the practice of gambiarra. Well then, who has no dog to hunt, hunt with a cat. The gambiarra is structural, although in some sectors of the human activity in which the computer (the accuracy) penetrated for good, such as in the mechanic workshops, it has been relieved to the grottoes. Today we live a dichotomy between the scientist and the "gambiararric" embodied as a brand, stigma, as a cultural differential. I propose two supposedly scientific ways to generate an intricate approach to the term by improving its status, an upgrade. First, we can fit it into the definition of the supplement economy, which Foucault created to designate a supplement which, generated to aid in the daily work, inverts the equation and enslaves, imposing itself. The automobile and the cell phone are honorable mentions of this aberration. Second, it can be understood as a rhizome, a concept of Deleuze and Guattari to approach systems that don’t have the vertical hierarchy as characteristic. Expansionist in the horizontal dimension, the rhizome is like a cancer in the metastasis phase. An example at hand is Herman Rapaport's essay "Vietnam: The Thousand Plateaus" ("The 60's Without Apologies", University of Minnesota Press, 2nd Ed., 1985). Here the author analyzes the Vietnam War using the rhizome to discuss the guerrilla tactics of resistance against the rigid and hierarchical system of American military forces. Ubiquitous among us, the gambiarra can be enjoyed when we remember several bids of the damn military coup of 1964 and its generals (especially the one based in Minas Gerais). All rough-and-ready (in Portuguese "made in the thighs", refering to the mold used to produce the colonial tiles, made in the thighs, "gambiarred"). Bluffs, insults in bulk and the resulting olive mote in our eyes. Two decades! In this improvising of mine, another memory. During the presidency of JK, José Maria Alckmin, the Minister of Finance then (I think), was faced with a demand of the bars and cafes of Rio de Janeiro that wanted to increase the price of coffee. Granted the increase of one hundred percent, the minister heard the shouting of the population and, suddenly, decreed that the cup should have its volume doubled. But these are past waters, from the time when Vasco da


Gama was flashy, had Bellini, Orlando, Coronel (who could never "catch" Garrincha), Vavá and Pinga. And even the goalkeeper Barbosa, the eternal wronged, blamed for its defeat for Uruguay in 1950. From then on, that is, from the 1958 super-championship to today, the boxer shorts became a tiny underwear, the samba song was displaced by bossa nova, Sérgio Ricardo and Glauber Rocha ("te arreda santo safado") by Tropicalismo, in fact an ode to gambiarra cheerfully enriched by the Novos Baianos and, shortening the narrative, by Planet Hemp, MCs and nearby areas. It was disgraceful, according to Foucault, to speak for others, except in politics. Yes, politicians always speaks for others, a type of professional deformation - yes, they are professionals, including with the right to retirement after some mandates. In this field, more appropriate would be to say in this misery, since the re-inauguration of the res publica in the eighties, we have witnessed a bizarre festival of half-truths, improvisations and gambiarras. It seems that it had not use at all that the Vargas government, in the fifties, had sent Celso Furado, Roberto Campos, and Ignácio Rangel to study abroad and guide the destinies of the economy (they brought in an English econometrician to speak thick in the collection and processing of statistical data). In the country of the gambiarras the destinies have turned nonsense: read about the management of Delfim Netto (and the Delfim's boys) during the military dictatorship and the internationalization of our economy (foreign capital had been impinging since the 1950s, see, for example, "A day in the life of Brasilino", published by UNE Center for Popular Culture). Since then, economic gambiarra has become known as a package! Gambiarra à la brasilien (never a serious country, a phrase perhaps mistakenly attributed to Charles De Gaulle during the Lobster War with France). I here advance a few decades to focus on 2010/11, with the PT's policy of tax relief and subsidies to generate surpluses that, it was hoped, would be applied to the economy as an investment (in escambray, that is). The dumbs of the treasury sacrificed taxes to "lost fund." What happened to the surplus no one knows, but it likely yield interest abroad. After all, who wants to invest in this uproar, now made dissonant by minorities and unions and the Brazilian left, the last, another example of rhizome, since the beginning of the 2000s? To gambiarra, the package, which is what can be called the economic policy adopted then, 2010, the external problems (commodity prices) and the successive losses of collection, the constant increase of expenses, justified with education, housing, health - basic human rights -, were

added. This gave rise to the lack of control of the Dilma "administration", her managerial gambiarra. The so-called fiscal mismatch was only worsening until the re-election of 2014, won "in the thighs" with the expedient of maquie data. The 54 million wanted more: housing, education, health, quilombos and that's why Aecinho (Aécio, a presidential candidate) danced ugly, as it is said, he died on the beach after a tremendous recovery that took him to the second round. And there began the gambiarra that brought us to the present state of things. Votes’ recount, request to contest the result in the TSE, a shouting of the choir of the discontents that calculated future damages: the return of Lula in 2018 and another 12 years with the hand of the red left handing the cards of the democratic game! Tisconjuro. God forbid! Get out Satan. Well, then came the dispute for the presidency of the chamber of deputies (of which only seventy-three were actually elected, the rest rose in the party quota), won by gangster Eduardo Cunha. There is a blind spot here that my poor sources don’t allow me to clarify: did the gangster have the insight to prevent the continuity of the President's term or did someone blow in his darwinian adapted ears? I don’t know, but the project of ungovernability started there, we are sure of that. The yellow duckling (color of cowardice) of Fiesp; The logistical support of the information industry (television, because print media didn’t fully embrace it) and the street claqueur led by the Movimento Brasil Livre, the latter supposedly apolitical, but financially supported by PMDB and DEM, generated the pact (horror, Auntie) referred by Senator Romero Jucá in the March recordings. Following the gambiarra booklet, these were only revealed months later, adding to the "deposition" of the gangster Cunha of the presidency of the chamber and cassation of his mandate, request that was "giving a puppy" in the lap of a Supreme Court judge from December until the passage of the request for impediment. And the people who found, from the icon posted there in Brasilia, that justice is blind ("okay", but it is not deaf and it has the full sense of touch in its hands). Such a "white blow", for the elites, proved to be a necessity, since resorting to decked arms could: 1) awaken in them the fascination for the throne, as in 1964, and today we would have history as a farce (in Karl Marx's words, the first time is like tragedy and the second...); 2) with the fall of the Berlin Wall, support for dictatorships in the "free"

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world of neoliberalism is unsustainable. The tying that has proceeded defies the dialectical teachings that point to the internal contradictions of the oligarchy. One episode comes to the head: Negrão de Lima, from PSD, during Juscelino's presidency, ran for mayor of the federal capital, Rio de Janeiro, against an UDN opponent. He won. Empossed, he gave a presidential notary to the defeated political opponent. The episode suggests that internal differences are overcome when there is a common interest. To suffocate the lefts, to keep the people oppressed and conformed and hold the rings. Under the baton of Eduardo Cunha, the powerful psychopath, according to his corroborative from Pernambuco Jarbas Vasconcelos, harassed the federal administration. The country became ungovernable, at the same time that new alliances were being made with the very low clergy and the absurd plethora of tiny parties. What was already confused and objectionable rose like a snowball, with a little help from the information industry, the benevolent eyes of justice, and the watchful armed eye on the MST (according to a deputy in the circus). A coalition government, the post-militarism Republican standard, it is like a limited society. The one who has fiftyone percent of the capital rules. However, with bankruptcy knocking on the door, the remaining forty-nine percent scream, mere instinct for survival, and will probably be heard. To the confrontation of ideas, withdrawal of the subjugation was preferred, leaving the general in position, complainant and almost humble in his "DR" vaunted to the public. It was the warning, the blue note, announcing that the oligarchs didn’t want another ten red years at the helm of the ship without direction. This is another revealing fact about the nature of Brazilian politics to keep in mind and tell the children and grandchildren. Because our politics lacks honor, word, commitment, sense of the collective and, above all, respect to the public, treated as ignorant. In any of the ten largest economies in the world, Brazil is one of them, the imbroglio would be solved with partners negotiating to exhaustion. After all, several parties were granted with ministries and other strategic positions, in terms of power and influence, in the management of the president. The gambiarra was preferred: all left the boat, leaving a second "helmsman" on duty. Was there any doubt in the use of the term scoundrel for the actors of this tragicomedy? Or that it was really a coup?

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After the two preparatory stages, it became necessary to clean the dirty hands of Cunha and Jucá: dead files, a burden. Cunha's presential exile was "providentially" settled by the Supreme. Jucá also, with the "leakage" of conversations that, for the initiates, undoubtedly constitute the application of a "white coup", or a reintegration action of possession carried out by the elites, if preferred. But then the imponderable happened (collateral of gambiarras). We didin’t count with this, because the military, which in 1964 represented the iron hand of the oligarchies, were excluded, but the justice, with the breath of life and respectability of the Republic of Parana, that is, the Lava Jato operation, escaped to the control, preoccupied and fascinated by its own navel and... history repeats itself: justice has become uncontrollable, to the despair of the oligarchs. In the words of Sarney, the viceroy, the worst dictatorship of all! Doctor Moro, a downstairs barnaber, but an exception as regards to the observance of his public servant duties, was quickly transformed into a hero, acquiring "imexibilidade” (I owe the term to the minister of labor in the management of Collor de Mello, Antônio Magri, who used this word for the first time). Moro materializes a tale by Dalton Trevisan that narrates the vampire from Curitiba. He is biting and sucking the jugular of the corrupt and the corrupting, the mixture, which I have already commented on another occasion, of the national capital surviving the internationalization of the economy - the heavy civil construction - and the addicted, crooked, demagogic and opportunist political system. Moro, so to speak, is "stealing" the plentiful meal of the voracious, predatory, treacherous politics of the country and its constituents, which was evident in the mambembe spectacle of the impediment vote in the chamber of deputies, where they voted for their women, parents, uncles and pets and not by those they represent. The collective. Fred Paulino kindly sent me two links that deal with a bargain proposed to the interim: in exchange for his vote in favor of the impediment in the Senate, Senator Hélio José (PMDB-DF), also known as Senator Gambiarra, wants: Banco do Brasil’s presidency, to appoint the president of Itaipu, to be the leader of the government in the Congress and another 34 other positions (see Fred Lima's blog and the Tijolaço news in 06/21)! Who does this politician represent, candangos?

* BRAZILIAN SOLUCTIONATICS *


The deal is ugly and it tends to get worse. I would like that some journalist from our real press, the alternative, to do a research in Brasilia on the purchase of tranquillizers in the drugstores of the capital and another in the garbage bins of the powerful with privileged forum. The UnB geophysics institute, which always reports the magnitudes of earthquakes in Minas Gerais, could well give us a hand and point to the magnitude of the tremor at the epicenter in Brasilia. While this is not made, we are content with Jô Soares and his troupe of journalists of the information industry who, by force, comment joking about the troubles that the situation created, like a boomerang that now returns to the origin of the movement. Our interim gothic (arghhh, démodé) has already become irritated by the demonstrations, he has beaten the table and assured that he is accustomed to dealing with thieves, a knowledge acquired in two managements in the public safety command of the state of São Paulo. He was rightly enclosed in what he already knew (some have already danced, others are cited in assorted processes). His vampire, magical side manifested the will to levitate the poor Brazilians to the condition of the middle class, immediately after vaguely announcing the intentions of reaching in full those who always pay the duck at Fiesp: that's right, the poor and shirtless, the true burdened by the so-called Brazil Cost. We believe, instilled that we are through the entertainment of Fantástico and its emphasis on the powers of a magician, David something, for a few decades. If this weren’t enough, what about the reinforcement of the superpowers of the wellpraised in the hours rented to the television industry: the miracle workers in bulk?! Bible for those who need the Bible; Ox for those who need ox; bullet for those who need bullets and again, Mr. Oscar Wilde, life imitates the art of BBB (Big Brother Brazil). It seems impossible to come to any conclusion. First, because we are investigating a conjuncture that looks like quicksand. With each new day, or night newspaper, we are bombarded by new facts: another minister who resigns, a regional chief of the PSDB that is arrested in Minas Gerais. The Financial Times labels the current government of deserters, several denials of the president, reaffirmation of freedom of action for Lava Jato... A political commentator said two weeks ago in Jô’s program that she was finding the government "old". She didn’t qualify her feelings, which leaves the comment free for interpretation. Not only does the interim government seem

old, but it is old since birth; a white, misogynistic senilecracy, made up of suspects in the ministries and in the legislature, which signals against the social advances of the last decades. It is old as its strategy of parting the government to the allies of the hour, which thus keeps them, with the thirty coins, even if it contradicts what it preaches. In less than a month of "gambiarred" management, the senilecracy already arouses distrust (the cause of recession, according to the present governors) even between allies and reticents. The press and the information industry have already been pulling their ears. The senilcracy is only neoliberal in the ministries donated to the PSDB (Serra), in the leadership of the government in the Senate, in the presidency of Petrobras (sign of the open of the pre-salt to foreign capital) and in the Ministry of Finance. To these, the solution of the paradox between the dogmas of neoliberalism and the reality that it produces is left. The other members and collaborators are politicians of the old strain, opportunists, politics of suspicious competence and reputation, now treated with caviar, champagne and loas (the little sheik asked applause for the Congress for the voting of the agenda of the "train of joy", a lenitive for the "leaden years" of the insensitive President). Between bandits and traitors of the country, the little Dracula parades gaily, levitating with a broad smile of contentment. A premature signal of hedonism - the "dictatorship of justice" begins to deal with the "Al Capones" of the PMDB. In my heart, I hope for the condemnation of Eduardo Cunha and the granting of a delation to the gangster - a great prize for the people in general. It's time, there's nothing more to demonize in Lula and the PT. The present black side of gambiarra, added to our biggest and terrible gambiarra – the slums, which house about thirty percent of the population - are embarrassing to the will of asking Unicef to declare it a national cultural heritage. June 4th, 2016 A reminder to the youngest: the great Dadá Peito de Aço, centerforward at Atletico Mineiro in the glorious campaign of the first Brazilian Championship, in an interview, felt pressed with the questions and retorted: " don’t come with the problematic, I have the solutionatic. "

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Pรกgina do editorial do fanzine Critical Making, por Garnet Hertz.


Innovación es una palabra manchada. Como revolución.1 Grey Filastine

CRITICAL

MAKING GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE Enquanto no Brasil, a cultura maker vem cada vez mais se consolidando com um discurso ipsis literis conforme a cartilha original norteamericana, sendo aceita como a “nova revolução industrial”2, exatamente de onde menos se espera – no caso, do extremo norte da América do Norte, no Canadá –, surge um projeto com enorme afinidade com a Gambiologia. Critical Making, ou “Fazer Crítico” é o nome de uma linha de estudos engajada com o movimento maker mas que traz, no entanto, uma reflexão crítica sobre os impactos dessa mais nova “revolução” sobre a vida cotidiana.

o aprendizado obtido em processos do fazer são mais importantes que seus resultados. A consequência seria uma reconexão de nossa experiência cotidiana com a tecnologia a um pensamento crítico. Os estudiosos da causa alertam que o distanciamento entre tecnólogos e artistas faz com que a tecnologia permaneça isolada de contextos de transformação social. Critical Making seria “a junção de dois modos distintos de engajamento no mundo – o ‘pensamento crítico’, considerado abstrato, explícito, discursivo, interno e cognitivamente individualista; e o ‘fazer’, tipicamente entendido como tácito, tangível, externo e orientado para a comunidade”3.

Segundo o verbete disponível na Wikipedia, Critical Making refere-se às atividades produtivas realizadas com as “mãos na massa” que conectam as tecnologias digitais à sociedade. Trata-se de uma proposta de aproximação da criação material a uma reflexão conceitual, reivindicando-se que

1 http://www.nativa.cat/2015/07/grey-filastine-innovaciones-una-palabra-manchada-como-revolucion/ 2 Com as mesmas problemáticas questões estruturais das revoluções anteriores no que se refere à exploração do trabalho, ao esgotamento de recursos naturais, ao enriquecimento de poucos e muito, muito marketing – desta vez, no entanto, do tipo hipster ou “ fofinho” (conforme proposto por Giselle Beiguelman) e conectado ao empreendedorismo e à inovação. 3 https://en.wikipedia.org/wiki/Critical_making - tradução livre

BONS VENTOS SOPRAM DO NORTE.

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Foto: Michael Mandiberg https://www.flickr.com/photos/theredproject

O termo foi cunhado em 2008 por Matt O artista e pesquisador canadense Garnet Ratto, professor da Universidade de Toronto, Hertz, professor na Emily Carr University que a seguir fundou o Critical Making Lab, of Art and Design, em Vancouver, também na mesma instituição. O laboratório rapida- tem se dedicado ao tema por meio da organimente adquiriu simpatizantes e colaboradores zação de publicações colaborativas dedicadas prestigiosos. Dentre eles estão: John Maeda ao “Fazer Crítico”. Imagine uma Facta em (pesquisador de design e tecnologia, com formato fanzine de bolso, com 352 páginas passagens pelo MIT Media Lab e Rhode e apenas 300 cópias impressas em máquina Island School of Design), Golan Levin (en- de xerox hackeada, encadernadas uma a uma genheiro e artista norteameripelo próprio editor e também cano, considerado um dos mais O Critical Making Lab postadas pessoalmente por ele. importantes midiartistas da rapidamente adquiriu atualidade), Dale Dougherty simpatizantes e colabora- Trata-se de “Critical Making”, dores prestigiosos. (um dos fundadores da editora a primeira publicação editada O'Reilly, CEO da revista Make por Garnet em 2012, com a e considerado o “pai” do movimento maker), contribuição de 70 autores. Os artigos foram Mitch Altman (inventor, hacker, palestrante distribuídos em 10 volumes, cada um com um e educador referencial da rede mundial de recorte temático4. Reunidos, compõem uma hackerspaces) e Reed Ghazala (a maior obra seminal que não necessariamente nega sumidade mundial em circuit bending). a cultura maker, mas problematiza a maneira como ela vem sendo aplicada mundialmente e propõe uma reflexão sobre os rumos da sociedade tecnológica. A coleção de fanzines 4 Conteúdo integralmente disponível em http://www.conceptlab.com/criticalmaking. é um ponto fora da curva em relação às pu52

* CRITICAL MAKING: GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE *


Foto: http://www.disobedientelectronics.com

ESTE PROJETO PRETENDE APONTAR QUE: 1 Construir objetos eletrônicos pode ser

(Brexit, Trump & Le Pen). Perguntas uma forma efetiva de argumentação social como "É moral golpear nazistas na cara?" devem ser respondidas com alternativas ou protesto político. inteligentes à violência, que são peças 2 O faça-você-mesmo, a cultura do provocativas de ação direta. fazer e as produções artesanais locais 4 Se estamos vivendo um tempo póspodem ter fortes componentes nacionalistas e protecionistas - em alguma medida, verdade, devemos nos concentrar em tentar tornar os argumentos e fatos progressivao populismo pode ser visto como o surgimente mais inteligíveis e atraentes para mento de uma cultura faça-você-mesmo um público amplo e diversificado. não especialista.

3 O Design Crítico e Especulativo

(Dunne & Raby) são abordagens que valem a pena no contexto do design industrial, mas talvez não sejam conflituosas o suficiente para responder aos movimentos populistas de direita contemporâneos.

5 A moda da 'cultura maker' acabou.

Arduinos e impressoras 3D são coisas fascinantes, mas as questões maiores do que significa sermos humanos ou uma sociedade precisam ser diretamente confrontadas.

* CRITICAL MAKING: GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE *

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Adesivo distribuído junto aos volumes de Critical Making faz paródia à capa da revista Make.

Manual de instruções para libertação de Barbies, pelo coletivo Barbie Liberation Organization (1993).

blicações especializadas, para o bem e para tema “Protestos”. A introdução já dá bem o o mal. Ao mesmo tempo em que sugere uma tom da proposta. (veja na página anterior) atitude punk “faça-você-mesmo”, radical em seu modo de produção e necessária em um O conteúdo do fanzine coletivo, que conta momento em que a cena maker se espalha- com 24 colaboradores, além do próprio Garva para todo o mundo, o número limitado de net, é composto por projetos de arte-ativismo cópias e o formato reduzido (com tipografia geralmente baseados em um suporte tecnológico e que, em sua maioria, ilegível em alguns momentos) restringiam o acesso a Maneiras alternativas de o trazem à tona questões um material tão relevante e design, a arte e a tecnologia caras ao momento atual. cuidadosamente elaborado. contribuírem com a reflexão É uma amostragem imporsobre temas fundamentais nas tante de obras que propõem discussões contemporâneas. maneiras alternativas de o “Disobedient Electronics” design, a arte e a tecnologia (2017), a mais recente experiência editorial de Garnet, a qual gentil- contribuírem com a reflexão sobre temas funmente recebemos uma das 300 unidades em damentais nas discussões contemporâneas, e primeira mão, ganhou não só mais uma cor que vão muito além de suas zonas de influ(ao invés de somente P&B, o zine conta com ência, afetando diretamente a vida das socieum belo duotone de preto e magenta) e um dades em todo o planeta: aborto, feminismo, fino acabamento em costura, mas principal- economia, racismo, política, transparência, mente uma boa pitada de radicalização sob o privacidade, ecologia... 54

* CRITICAL MAKING: GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE *


O USO CONSCIENTE DAS TECNOLOGIAS É TAREFA NECESSÁRIA EM AMBOS OS HEMISFÉRIOS DO GLOBO.

Apesar de os projetos apresentados serem muitas vezes excessivamente conceituais ou acadêmicos para uma publicação com proposta despojada, o conjunto de obras definitivamente faz valer a leitura. Os celebrados culture jammers do Barbie Liberation Organization (BLO), por exemplo, disponibilizam o manual de instruções para “libertação” de bonecas Barbie. Essa libertação, realizada centenas (há quem diga milhares) de vezes pelo grupo mundo afora, basicamente trata-se da troca do circuito de áudio entre Barbies “patricinhas” e bonecos “machões” da série G. I. Joe, e a posterior devolução de ambos às prateleiras de lojas de brinquedos. O resultado são Barbies que murmuram “a vingança é minha” e Joes declarando que “a praia é o lugar perfeito no verão”. Em “Disobedient Elecronics” está presente também o já clássico “Robotic Graffiti Writer” (robô grafiteiro) do Institute for Applied Automomy, grupo de

arte-ativistas criado ainda na década de 1990. Por fim, um trio de pesquisadores em design, arte e engenharia da Universidade do Arizona apresenta a proposta de um forno solar que, tamanha simplicidade e baixo custo, poderia muito bem ser originário do Brasil ou da Índia, por exemplo. “Critical Making” e “Disobedient Electronics”, apesar de contarem com poucos autores latinos e africanos, apresentam um conjunto de trabalhos, experiências e divagações que demonstram que a reflexão sobre o uso consciente das tecnologias é tarefa necessária em ambos os hemisférios do globo. Comprovam também que a prática criativa pode ser, sim, um poderoso instrumento para a construção de uma sociedade cujos habitantes não sejam somente consumidores, mas agentes atuantes de transformação da própria realidade. FP

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CRITICAL MAKING GAMBIOLOGIA THAT COMES FROM THE NORTH "Innovation is a stained word. As revolution." Grey Filastine1 GOOD WINDS BLOW FROM THE NORTH. While in Brazil the maker culture is being consolidated with a discourse ipsis literis according to the North American primer, accepted as the "new industrial revolution"2, exactly where least expected - in the case, the extreme north of America, in Canada –, it arises a project with great affinity with Gambiologia. Critical Making is the name of a line of study engaged with the maker movement, which nevertheless brings a critical reflection on the impact of this new "revolution" on everyday life. According to the Wikipedia entry, Critical Making refers to the "hands on" mass production activities that connect digital technologies to society. It is a proposal to approximate the artifacts creation to a conceptual reflection, claiming that the learning obtained in the processes of doing are more important than their results. The consequence would be a reconnection of our everyday experience with technology to critical thinking. The subject’s scholars warn that the distance between technologists and artists makes technology remain isolated from contexts of social transformation. Critical Making would be "the elision of two typically disconnected modes of engagement in the world – "critical thinking," often considered as abstract, explicit, linguistically based, internal and cognitively individualistic; and "making," typically understood as tacit, embodied, external, and communityoriented". 3 The term was coined in 2008 by Matt Ratto, a professor at the University of Toronto. He lately founded the Critical Making Lab in the same institution. The lab has quickly acquired sympathizers and supporters of great prestige, such as John Maeda (design and technology researcher who has worked at MIT Media Lab and Rhode Island School of Design), Golan Levin (North American engineer and artist, considered one of the most important media artists nowadays), Dale 56

Dougherty (one of the founders of O'Reilly Media, CEO of Make magazine and considered the "father" of the maker movement), Mitch Altman (inventor, hacker, lecturer and referential educator of the worldwide hackerspaces network) and Reed Ghazala (world-renowned circuit bender). Canadian artist and researcher Garnet Hertz, a professor at the Emily Carr University of Art and Design in Vancouver, has also been dedicated to the subject by organizing collaborative publications dedicated to Critical Making. Imagine Facta as a pocket-sized zine-like volume, containing 352 pages and only 300 copies printed on a hacked photocopier, bound and stapled one by one by the editor and also posted personally by himself. This is "Critical Making", the first publication edited by Garnet in 2012, with the contribution of 70 authors. The articles were distributed in 10 volumes, each one with a thematic focus. Together, they compose a seminal work that does not necessarily deny the maker culture, but at least problematizes the way it is being applied worldwide and proposes a reflection on the directions of the technological society. The set of zines is na outlier in relation to specialized publications, for good and evil. While practically suggesting a "do-it-yourself" punk attitude, being radical in its production process and referential at a time when the maker scene was spread to the whole world, the limited number of copies and the small format , with typography in some moments illegible, restricted the access to a material so carefully elaborated and relevant. "Disobedient Electronics" (2017), Garnet's latest editorial experience, which we kindly received one of 300 units firsthand, won not only one more color (instead of only B&W, the zine has a beautiful duotone in black and magenta) and a fine seam finish, but mostly a good pinch of radicalization under the theme "Protests." The introduction already gives the tone of the proposal:


THIS PROJECT AIMS TO POINT OUT THAT: 1. Building electronic objects can be an effective form of social argument or political protest. 2. DIY, maker culture and local artisinal productions can have strong nationalist and protectionist components to them - in some senses, populism can be seen as the rise of the DIY non-expert. 3. Critical and Speculative Design (Dunne & Raby) are worthwhile approaches within industrial design, but perhaps not adversarial enough to reply to contemporary populist rightwing movements (Brexit, Trump & Le Pen). Questions like “Is it moral to punch Nazis in the face?” should be answered with smart alternatives to violence that are provocative pieces of direct action. 4. If we are living in a post-truth time, we should focus on trying to make progressive arguments and facts more legible and engaging to a wide and diverse audience. 5. The fad of ‘Maker Culture’ is over. Arduinos and 3D printers are fascinating things, but the larger issues of what it means to be a human or a society needs to be directly confronted. The collective zine, which has 24 collaborators, besides Garnet itself, is composed by art activism projects usually based on a technological support and that, in the majority, bring up issues dear to the present moment. It is an important sampling of works that propose alternative ways for design, art and technology contribute to a reflection about fundamental contemporary issues that go far beyond their zones of influence, directly affecting the life of societies throughout the planet: abortion, feminism, economy, racism, politics, transparency, privacy, ecology ...

Although the projects presented are often overly conceptual or academic for a publication with an informal proposal, the presented set of works definitely makes it worth reading. The celebrated culture jammers of the Barbie Liberation Organization (BLO), for example, provide the manual for "redeeming" Barbie dolls. This release, performed by the group hundreds (there are some who say thousands) of times around the world, basically it is the exchange of audio circuits between "preppy" Barbies and "macho" G.I. Joe puppets, and the later devolution of both to toy stores’ shelves. The result is Barbies mumbling "revenge is mine" and Joes declaring that "the beach is the perfect place in the summer". In "Disobedient Elecronics" is also present the already classic "Robotic Graffiti Writer" by the Institute for Applied Automomy, art activism group created in the 1990s . Finally, a trio of researchers in design, art and engineering at the University of Arizona present a solar oven that, so simple and low cost, might well have come from Brazil or India, for example. "Critical Making" and "Disobedient Electronics", despite having few latin and african authors, present a set of works, experiences and ramblings that demonstrate that the reflection on the conscious use of technologies is a necessary task in both hemispheres of the globe. They also prove that creative practice can be a powerful instrument for building a society whose inhabitants are not only consumers, but acting agents of transforming their own reality. FP

1 http://www.nativa.cat/2015/07/grey-filastine-innovacion-esuna-palabra-manchada-como-revolucion/ 2 With the same problematic structural issues characteristic of previous revolutions regarding to the exploitation of labor, depletion of natural resources, enrichment of few and too much marketing - this time, however, of the "cute" (as proposed by Giselle Beiguelman) hipster type, connected to entrepreneurship and innovation. 3 https://en.wikipedia.org/wiki/Critical_making

* CRITICAL MAKING GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE *

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DESOBEDIÊNCIA

TECNOLÓGICA Texto e fotos por Ernesto Oroza

"Trabalhador, construa sua máquina!"

A

ssim Ernesto "Che" Guevara proclamou ao setor industrial cubano, logo após o triunfo do movimento evolucionista que ele ajudou a liderar. O ano era 1961, e Cuba, cada vez mais isolada, estava experimentando um êxodo de empresas estrangeiras e investimento devido às políticas de mercado hostis

do governo nascente de Fidel Castro. O início do agora famoso embargo dos Estados Unidos contra Cuba significou a saída em larga escala de recursos materiais de uma ilha que dependia fortemente do dinheiro e das importações americanos. Com restrições ao empreendedorismo e às empresas individuais, a economia atingiu o fundo do poço nos anos 1970.


Artigo originalmente publicado na revista Makeshift nº3: Resistência (2012)

Revolução Talvez prevendo um futuro que exigiria autossuficiência, Guevara – então Ministro da Indústria – proporcionou o primeiro impulso ideológico para o que viria a ser um modo de vida para as próximas gerações de cubanos – que não teriam escolha senão construir e consertar, mais e mais, tanto as máquinas de fábricas do Estado quanto as de suas casas. Desde a restauração interminável dos icônicos Buicks 1950 até a criação de brinquedos para bebês feitos de latas de leite e feijão, fabricar bens não oficialmente disponíveis na ilha tornou-se uma habilidade essencial. O recém-formado governo socialista de Castro nacionalizou as empresas estrangeiras e transformou os trabalhadores nos novos "patrões" do setor industrial. Ele impulsionou-os a assumir trabalhos de manutenção e a criar peças sobressalentes. As pessoas começaram a ver as máquinas estragadas como o maior inimigo do país. Uma furadeira sem um cilindro, uma serra de correia sem uma polia, um molde desgastado - esses artefatos mutilados aterrorizavam a sociedade como zumbis feridos. As carências nas máquinas paralisaram as engrenagens da revolução. Os trabalhadores começaram a suprir as carências, o que fariam tantas vezes ao longo de tantos anos que, hoje, as máquinas têm mais peças feitas a partir dos reparos do que peças originais. As oficinas deram nomes para as engenhocas montadas ou construídas de zero. Algumas emperraram, ou-

tros não. Se um engenheiro cubano retornasse à ilha depois de 10 anos de exílio, não seria mais um especialista. De fato, apesar de seu treinamento, ele não reconheceria as traquitanas que cresciam sem controle, em uma prática grosseira de design. Qualquer coisa que ele soubesse sobre o funcionamento interno de uma tecnologia americana já teria sido substituída por uma prática de design mais bruta, no entanto igualmente produtiva. Esta primeira onda de "fazedores" deixou um rastro de invenção que mudou o curso da interação com a tecnologia em Cuba. Os cubanos começaram a trazer essa mentalidade de reparo para casa, transformando seus eletrodomésticos em laboratórios. O mesmo engenheiro iria, durante o dia, consertar o motor de um avião a jato soviético MIG15 e, à noite, com a escassez de fósforos em todo o país, construir um isqueiro elétrico com uma caneta e uma lâmpada. Aqui reside alguma ironia: a desobediência tecnológica – que a revolução promoveu como uma alternativa ao estancado setor produtivo do país – tornou-se o recurso mais confiável para os cubanos driblarem as ineficiências do sistema político estadual. Trabalhadores que haviam dedicado sua imaginação e engenhosidade a manter a revolução de pé foram, então, forçados a empregar esses atributos para levar a vida com necessidades mínimas.

* DESOBEDIÊNCIA TECNOLÓGICA *

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Acumulação

dos pátios, de debaixo das camas ou de cantos obscuros dos quartos que guardavam pilhas de A falta de confiança no sucesso da revolução coisas velhas - fossem elas peças ou máquinas transformou as casas cubanas em armazéns para completas. todos os tipos de objetos – qualquer coisa que pudesse ser útil, mas não disponível em linha. Coisas aparentemente insignificantes recebeO acúmulo de produtos levou os trabalhadores ram novas utilidades. Os topos dos frascos de a questionar radicalmente os processos e meca- penicilina tornaram-se a melhor solução para nismos industriais. Eles começaram a olhar para válvulas em panelas de pressão. As latas de objetos não com os olhos de um engenheiro, mas desodorantes provaram ser excelentes intercom os de um artesão. Todo objeto poderia ser ruptores elétricos (feche a tampa para ligar a potencialmente reparado ou reutilizado, mesmo eletricidade!). Tubos fluorescentes defeituosos agora compõem molduras de em um contexto diferente do seu imagens 3D. Um velho vinil design original. A acumulação A acumulação separava o – neste caso um gesto automáti- objeto da intenção ocidental de 33 rpm, cortado adequaco – separava o objeto da inten- e do ciclo de vida para o qual damente, serviria como uma estava destinado. pá de ventilador – e seus inção ocidental e do ciclo de vida ventores poderiam reprodupara o qual estava destinado. zir cópias. Uma lâmpada de querosene Eagle Isso é desobediência tecnológica. velha e deteriorada reapareceu quando quedas Quando as pessoas se apegaram às coisas, elas de energia se tornaram comuns, e às vezes uma também mantiveram os princípios técnicos e garrafa de leite ou tanque de gás funcionava uma idéia de como elas se encaixavam. Em qual- como abajur. A nova aparência e nova função quer momento crítico, eles quebrariam a cabeça de cada criação tornavam-na única. para encontrar a peça exata que poderia resolver o problema. Quando a energia caia, o ventila- Os cubanos, nessa época, conheciam apenas dor quebrava, ou a cadeira rachava, a família se algumas marcas: TV's Caribe e Kim, ventiladores atentava para ouvir sussurros tecnológicos vindo Orbita e máquinas de lavar roupa Aurika. O mer-

RIKIMBILIS

Motocicletas gambiárricas tradicionais em Cuba.


cado comunista dos anos 70 priorizou a produção com um fim social: por exemplo, foram distribuídas, em toda a ilha, cadeiras comissionadas pelo Estado. As pessoas, assim, acumularam bens idênticos, o que significou que métodos de reparo engenhosos apareceram por todo lado. Bandejas metálicas padronizadas nas escolas, por exemplo, mostraram-se apropriadas para a criação pela "classe fazedora" de um produto que até então não existia oficialmente na ilha: a antena de TV.

países socialistas – serviu com dupla finalidade, como reservatório de combustível e abajur. Isso transformou o recipiente mais conhecido de Cuba na lâmpada de querosene mais comum. Necessidade e recursos padronizados significavam soluções replicáveis ​​e desobediência tecnológica repetida.

Ao longo dos anos 1980, os subsídios soviéticos criaram uma década de relativa estabilidade econômica e, com isso, uma maior abundância Ninguém sabe ao certo se a ideia inspirou cada de recursos. Depois, com a queda do Muro de Berlim e o colapso da União pessoa individualmente ou se Soviética, o governo cubaNecessidade e recursos as pessoas ensinaram umas às outros. A bandeja era o único padronizados significavam no proclamou um "Período metal acessível para essa tarefa – soluções replicáveis e​​ desobe- Especial" de racionamento e mas seu uso secundário seria um diência tecnológica repetida. escassez extremos. Em 1993, uma nova lei desesperada firesultado inevitável da mistura de necessidade, disponibilidade igual de bens nalmente permitiu - com restrições - empresas envolvidas em desenvolvimento e invenção. para todos e uso criativo? Uma nova era de empreendimentos criativos foi Outro objeto apareceu misteriosamente em forçada a se iniciar. muitas casas: a lâmpada de querosene. Construída com um recipiente de vidro cilíndrico – 13 Desobediência cm de altura e largura – e dentro, mergulhado em querosene, um suporte de pavio feito de No início do "Período Especial", substitutos tubo de pasta de dentes. O recipiente, produ- instantâneos, objetos e consertos provisórios zida pela Comecon – a já extinta aliança dos permitiram que os cubanos se mantivessem até

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CONSERTO, ADAPTAÇÃO, INVENÇÃO

o fim da crise. Isto gerou a confiança do trabalhador na coisas feitas em casa: construção, transporte, roupas e dispositivos. Mas essas eram apenas soluções reparadoras de uma realidade material destruída ou insuficiente – e, finalmente, apenas a porta de entrada para a onda mais forte de criatividade revolucionária.

Cadeiras e bancos improvisados em Havana.

exalam. Se alguma coisa está quebrada, ela será consertada – de alguma forma. E se de alguma maneira ela mostrar-se útil para ainda reparar outros objetos, eles também poderiam salvá-la, em partes ou inteira. Um novo futuro espera.

Um objeto emblemático desta construção é o "ventilador-telefone". Um técnico improvisado Ao reinventar suas vidas, surgiu uma menta- lembrou-se, quando a base do seu ventilador lidade inconsciente. Como um cirurgião se quebrou, que ele tinha guardado, em algum lutorna dessensibilizado a feridas, os cubanos gar, um telefone da Alemanha comunista quetornaram-se dessensibilizados para objetos brado. Ele lembrou-se disso porque a base do projetados. Eles pararam de ver o propósi- ventilador Orbit se assemelhava um pouco à forto original dos objetos. Ao ma piramidal prismática do Ao reinventar suas vidas, invés disso, as coisas tornatelefone; O inspirado criador ram-se amostragens de par- surgiu uma mentalidade não estava interessado em asinconsciente. tes. Esta é a primeira expressociações ou significados, mas são cubana de desobediência na analogia formal baseada no em sua relação com os objetos – um crescen- tamanho e na estrutura. O ventilador consertate desrespeito pela identidade de um objeto e do, reconstruído e reapresentado era, ao mesmo pela verdade e autoridade que ela encarna. tempo, um esboço das habilidades astutas do indivíduo, um diagrama da acumulação em sua Depois de abri-los, quebrá-los, repará-los e usá- casa e uma imagem de sua desobediência. -los com tanta freqüência conforme sua conveniência, os "fazedores" acabaram desconsiderando Dentro do processo de conserto, reaproveitamenos sinais que fazem dos objetos ocidentais uma to e reinvenção, três conceitos-chave denotam um unidade, uma identidade fechada. Os cubanos elevado grau de subversão. Em primeiro lugar, não temem a autoridade emanante que marcas reconsiderando o objeto industrial sob a perspeccomo a Sony, a Swatch, ou mesmo a NASA, tiva de um artesão. Em segundo lugar, negando o ciclo de vida tradicional de um objeto ocidental. 62

* DESOBEDIÊNCIA TECNOLÓGICA *


E por último, substituindo os usos tradicionais O conserto, a refuncionalização e a reinvenção por funções alternativas que atendam à demanda. mostraram saltos de imaginação em oposição aos conceitos de inovação da lógica de produção No sentido de restauração, a reparação legiti- em massa ocidental. E cada salto permitiu uma ma as qualidades de um objeto e permite que pequena adaptação à pobreza sob a qual a maioo "fazedor" se familiarize com ele de maneira ria dos inventores desobedientes vivia. distinta. Mas às vezes reparar significa criar uma ferramenta nova. Estes consertos são in- A desobediência tecnológica em Cuba não é fluenciados pelos processos mais radicais de somente sobre a transgressão da autoridade reinvenção e reorientação. do design industrial e o modo de vida que ele projeta para seus usuários. Esta prática tamUm caso digno de menção é o de um carrega- bém dribla as agrangentes restrições do regidor para baterias não recarregáveis ​​desenvolvi- me cubano. Todas as casas contêm invenções do em Havana em 2005. Enildo, o criador do rebeldes: bandejas de almoço que recebem dispositivo, queria recarregar as baterias para sinais de televisão; LP's de salsa cortados soo aparelho auditivo de sua esposa. Ele pode- prando ar frio; latas de desodorantes que acenria conectar seu novo carregador a uma tomada dem e apagam luzes; e componentes elétricos e, em apenas 20 minutos, fornecer 20 dias de agora recarregando pilhas não-reutilizáveis. duração da bateria. Como o Dr. Frankenstein criando seu monstro, Enildo juntou diodos de Mas a desobediência tecnológica não respeita um rádio antigo, fragmentos de um condutor e limites. Ela se move para as esferas social, popequenos pedaços de chapa, colocando-os so- lítica e econômica que inspiram a subversão de bre um pedaço de plástico retirado do rádio. seus próprios direitos. Ela mantém a vida fluindo O novo carregador, deslocado de seu propósito para aqueles que a adotam. Ela interrompe o flutécnico original, evoca memórias de diagramas xo interminável de bens ocidentais e o constante da classe de ciências. O objetivo era recarregar impulso do comunismo na ilha. E ela mantém as a bateria. A maneira como isso é feito tensiona mãos inspiradas para criar coisas que tornarão a a lógica técnica e comercial vigente das baterias. vida de seus praticantes um pouco melhor. A DESOBEDIÊNCIA TECNOLÓGICA NÃO RESPEITA LIMITES. 63


Copos fabricados com garrafa de vidro cortadas e plástico. Havana, 2004

Copos de plástico fabricados pelo método de injeção. Produzidos em casa. A matéria prima foi coletada entre dejetos da cidade. Cuba, 1994-2015.

Lampião de querosene fabricado com fragmentos de embalagens distintas. Cuba, 1999-2005. Aquecedor de água. Funciona por choque elétrico. Matanzas, 2003.

Objetos plásticos fabricados pelo método de injeção. Produzidos em casa. A matéria prima foi coletada entre dejetos da cidade. Cuba, 1994-2015. 64


TECHNOLOGICAL

DISOBEDIENCE text and photos by Ernesto Oroza

“Worker, build your machine!” So Ernesto “Che” Guevara’s proclaimed to Cuba’s industrial sector, shortly after the triumph of the evolutionary movement he helped lead. The year was 1961, and Cuba, increasingly isolated, was experiencing an exodus of foreign companies and investment due to the unfriendly market policies of Fidel Castro’s nascent government. The start of the now famous United States embargo against Cuba meant the large-scale departure of material resources from an island that once relied heavily on American cash and imports. With restrictions on entrepreneurship and individual enterprise, the economy hit rock bottom in the 1970s.

Revolución Perhaps foreseeing a future that demanded self-sufficiency, Guevara – then Cuba’s Minister of Industries – offered the first ideological push for what would become a way of life for generations of Cubans to come – Cubans who would have no choice but to build and repair, over and over again, both the state factory machines and the smaller machines in their homes. From the endless, ongoing restoration of the iconic 1950s Buicks to the creation of baby toys made from milk cans and dried beans, fabricating goods not officially available on the island became an essential skill. Castro’s newly formed socialist government nationalized foreign companies and converted workers into the new “bosses” of the industrial sector. He urged them take on reparation jobs and to create spare parts. People started viewing dilapidated machines as the country’s biggest enemy. A drill without a cylinder, a belt saw without a pulley, a worn out mold – these mutilated artifacts terrorized the new society like wounded zombies.

The empty spaces in the machines paralyzed the cogs driving the revolution. The workers started to fill the spaces, which they would do so many times over so many years that machines now have more pieces made from the repairs than from the original parts. The workshops gave names for the assembled or built-from-scratch contraptions; some stuck, others that did not. If a Cuban engineer had returned to the island after 10 years in exile, he’d no longer be an expert. In fact, despite his training, he wouldn’t recognize the contraptions growing out the hands of the more crude practice of design. Whatever he knew about the internal workings of an American technology would already have been substituted for a cruder but equally productive design practice. This first wave of makers left a trail of invention that changed the course of interacting with technology in Cuba. Cubans began to bring this repair-mindset home, turning their own households into laboratories. The same engineer would, during his day shift, repair the engine of a Soviet MIG15 jet fighter and, in the evening – faced with a countrywide shortage of matches – build an electric lighter out of a pen and light bulb. Here lies some irony: The technological disobedience – which the revolution promoted as an alternative to the country’s stalled productive sector – became the most reliable resource for Cubans to navigate the inefficiencies of the state political system. Workers who had devoted their imagination and resourcefulness to keeping the revolution on its feet were then forced to employ those attributes to endure lives short on necessities.

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Acumulación Lack of trust in the success of the revolution turned Cuban homes into warehouses for all kinds of objects – anything that could be useful but unavailable down the line. The accumulation of products led workers to radically question industrial processes and mechanisms. They started looking at objects not with the eyes of an engineer but those of an artisan. Every object could potentially be repaired or reused, even in a different context from its original design. Accumulation – in this case an automatic gesture – separated the object from the Western intent and lifecycle it was destined for. This is technological disobedience. When people held onto things, they also kept the technical principles and an idea of how they fit together. In any critical moment, they would scratch their heads to conjure the exact piece that could solve the problem. When the power went out, the fan broke, or the chair snapped, the family kept an ear out for technological whispers from the patios, under the beds, or from obscure corners of rooms guarding piles of old things – either parts or in their entirety. Seemingly insignificant things were assigned new, useful tasks. The tops of penicillin vials have become the best solution for valves on pressure cookers. Deodorant copies of it. An old and deteriorated Eagle kerosene lamp reappeared when power outages became common, and sometimes a milk bottle or gas tank functioned as the lampshade. Each creation’s new appearance and new function made it unique. Cubans in this time knew just a few brands: Caribe and Kim TVs, Orbita fans, and Aurika washing machines. The communist market of the 70s prioritized production with a social end: clones of state-commissioned chairs, for example, were distributed across the island. That people thus accumulated identical goods meant that similarly ingenious repair methods popped up throughout. Standardized metal trays in schools, for example, were appropriated by the “maker class” to create a product then not officially in existence on the island: the TV antenna. 66

No one’s really sure whether the idea inspired each person individually or people actively taught each other. The tray was the only accessible metal for this task – but was its secondary use an inevitable result of the mix of necessity, standard availability of goods, and creative use of them? Another object mysteriously appeared in many houses: the kerosene lamp. Built with a cylindrical glass container – 13 cm high and wide – and inside, dipped in kerosene, a wick holder made from a tube of toothpaste. The container, produced by Comecon – the now-defunct alliance of socialist countries – served dual purposes as a fuel vessel and lampshade. This transformed Cuba’s most recognizable container into its most common kerosene lamp. Necessity and standardized resources meant replicable solutions and repeated technological disobedience. Throughout the 80s, Soviet subsidies created a decade of relative economic stability and, with that, a greater abundance of resources. Then, with the fall of the Berlin Wall and collapse of the Soviet Union, the Cuban government proclaimed a “Special Period” of extreme rationing and shortages. In 1993, a desperate new law finally permitted – with restrictions – businesses engaged in making and tinkering. A new era of creative enterprise was forced open.

Desobediencia At the start of the Special Period, instantaneous substitutes, objects, and provisional fixes let Cubans hold on until the end of the crisis. This built worker confidence in homebrewed construction, transport, clothing, or appliances. But these were just reparative solutions of a destroyed or insufficient material reality – and ultimately, just the waiting room for the strongest wave of revolutionary creativity. While reinventing their lives, an unconscious mentality emerged. As a surgeon becomes desensitized to wounds, Cubans became desensitized to designed objects. They stopped seeing the original purpose of the object; instead it

* TECNOLOGICAL DISOBEDIENCE *


became a sample of parts. This is the first Cuban expression of disobedience in their relationship with objects – a growing disrespect for an object’s identity and for the truth and authority it embodies. After opening, breaking, repairing, and using them so often at their convenience, the makers ultimately disregarded the signs that make occidental objects a unity, a closed identity. Cubans do not fear the emanating authority that brands like Sony, Swatch, or even NASA, command. If something is broken, it will be fixed – somehow. If it could even be conceived as usable to repair other objects, they might as well save it, either in parts or in its entirety. A new future awaits. An emblematic object of this building is the “fan-phone”. An improvised repairman remembered, when his fan’s base broke, that he had kept somewhere a broken phone from Communist Germany. He recalled it because the Orbit fan base somewhat resembled the prismatic pyramidal shape of the phone; the inspired creator was interested not in associations or meanings but in the formal analogy based on size and structure. The repaired, rebuilt, and repurposed fan was, at the same time, an outline of the cunning abilities of the individual, a diagram of the accumulation in his house, and an image of his disobedience. Within the process of repair, repurposing, and reinvention, three key concepts speak to an elevated degree of subversion. Firstly, reconsidering the industrial object from an artisan’s perspective. Secondly, denying the traditional lifecycle of a Western object. And lastly, substituting traditional roles with alternative functions that meet demand. In the sense of restoration, repairing legitimizes an object’s qualities and allows the maker to become acquainted with an object differently. But sometimes repairing means creating a novel tool; these reparations are influenced by the more radical processes of reinvention and repurposing.

A telling case is that of a charger for non-rechargeable batteries developed in Havana in 2005. Enildo, the device’s creator, wanted to recharge batteries for his wife’s hearing aid. He could connect his new charger to an outlet and, in just 20 minutes, provide 20 days of battery life. Like Dr. Frankenstein creating his monster, Enildo pieced together diodes from an old radio, fragments of a conductor, and little pieces of sheet metal, placing them atop a piece of plastic pulled from the radio. The new charger, stripped of its original technical purpose, summons memories of diagrams from science class. The goal was to recharge the battery; how it’s done questions the technical and commercial logic scribed upon the batteries. The reparation, refunctionalization, and reinvention show leaps of imagination in opposition to the concepts of innovation favored by the logic of Western mass production. And each leap allowed for some small adjustment to the poverty that most of the disobedient inventors lived under. Technological disobedience in Cuba is not just about the transgression of authority of industrial design and the way of life it projects onto its users. This practice also detours the overarching restrictions of the Cuban system. Houses all over contain rebellious inventions: lunch trays receiving television signals; chopped-up salsa LPs blowing cool air; deodorant cans turning lights on and off; and electrical components now reviving non-reusable batteries. But technological disobedience doesn’t respect boundaries. It wiggles its way in to the social, political, and economic – realms that inspire subversion in their own rights. It keeps life flowing for those who participate. It interrupts the endless flow of Western goods and the constant push of communism on the island. And it keeps inspiring hands to create things that will make life just a little better for their owners.

DISOBEDIENCE This article originally appeared in Makeshift Issue 3:* Resistance (2012) * TECNOLOGICAL

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COINCIDÊNCIAS

INDUSTRIAIS por Guto Lacaz

O topo da tampa do nankin Talens tem diâmetro externo igual ao diâmetro interno de um dos círculos do gabarito.


8 colas Pritt cabem no diâmetro interno do magazine de filme super 8. O rolo de filme super 8 tem diâmetro externo igual ao diâmetro interno do rolo de fita crepe.

* COINCIDÊNCIAS INDUSTRIAIS *

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O diâmetro interno do copinho de café é igual ao diâmetro externo da lata de refrigerante.

INDUSTRIAL COINCIDENCES by Guto Lacaz

The serialized industrial production, in a context of very high technological development, has resulted in the elaboration of increasingly specific products that, in turn, are formed by extremely unique parts and components for each application. Art, however, does not always lend itself to consumption, nor to serial production, and so is almost always ready to subvert industrial logic. Guto Lacaz is an artist-inventor who shifts objects 70

from their original use, questioning the functionality, practicality and efficiency of the industry. With elegant irony and a peculiar sense of humor, he deconstructs industrial production models by shifting functionality from components - a hacking" of things. Among other works in this line of thought, he has been conducting the "Industrial Coincidences" series since 1982, in which he unveils perfect metric inserts between pieces of different origins, made of different materials. "The meeting of


A

produção industrial serializada, em um contexto de altíssimo desenvolvimento tecnológico, tem resultado na elaboração de produtos cada vez mais específicos que, por sua vez, são formados por peças e componentes extremamente únicos para cada aplicação. A arte, no entanto, nem sempre se presta ao consumo, tampouco à produção em série, e assim, está quase sempre a postos para subverter a lógica industrial. Guto Lacaz é um artista-inventor que desloca os objetos de seu uso original, questionando a funcionalidade, a praticidade e a eficiência da indústria. Com fina ironia e um peculiar senso de humor, desconstrói modelos de produção industrial por meio do deslocamento da funcionalidade de componentes – um “hackeamento” de coisas. Dentre outras obras nessa linha, realiza desde 1982 a série “Coincidências Industriais”, em que desvenda encaixes métricos perfeitos entre peças de origens distintas, feitos de diferentes materiais. “O encontro de precisão dos dois objetos gera um terceiro objeto rico

em desenho e composição”1 e, a partir dessa des-construção, questiona-se a padronização robótica da sociedade contemporânea, em que tudo se encaixa, numa perfeição ilusória. Na série de montagens fotográficas, coincidências de formato, bitola, diâmetro, tamanho e largura propõem ao espectador um novo olhar perante o que se consome, o que se descarta e, assim, sobre a própria atuação do ser humano sobre o ambiente. Dois objetos totalmente distintos, quando unidos, tornam-se uma terceira construção e abrem a possibilidade de um olhar mais atento ao que nos cerca. Observar as Coincidências Industriais é uma prática valiosa para o gambiólogo e um exercício de observação em que, com o simples gesto de se unir peças distintas, propõe-se novas maneiras de manejar o mundo. FP 1 Entrevista de Guto Lacaz a Renata Marquez e Wellington

Cançado. Artigo publicado em: HISSA, C. E. V. (Org.). Conversações: de artes e de ciências. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. p.59-77. Disponível em http://www. geografiaportatil.org/files/lacaz.pdf. Último acesso em 15/06/2017.

SUBTITLES:

The top of the Talens nankin package has outside diameter equal to the inner diameter of one of the circles of the circle template. 8 Pritt glues fit into the inner diameter of the super-8 film reel. The super-8 film roll has an outside diameter equal to the inner diameter of the roll of crepe tape. The inside diameter of the coffee cup is equal to the outside diameter of the can. precision of the two objects generates a third object rich in design and composition"1 and, from this deconstruction, the robotic standardization of contemporary society, in which everything fits in an illusory perfection, is questioned. In the series of photographic assemblies, coincidences of format, gauge, diameter, size and width propose to the viewer a new look at what is consumed, what is discarded

and, thus, on the very performance of the human being on the world. Two totally different objects, when united, become a third construction and open the possibility of a closer look at what surrounds us. Observing the “Industrial Coincidences” is a valuable practice for the gambiologist and an observation exercise in which, with the simple gesture of joining different pieces, new ways of managing the world are proposed. FP

* INDUSTRIAL COINCIDENCES *

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DO

HOBISTA DO SÉCULO XX AO

MAKER

DO SÉCULO XXI Newton C. Braga

Montar circuitos eletrônicos e criar novos produtos baseados em sua tecnologia é algo fascinante e esta atividade está crescendo de uma forma espantosa no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Os “makers” ou “fazedores” estão não mais apenas improvisando com gambiarras malucas, mas criando circuitos e produtos, ganhando dinheiro com uma nova e rentosa atividade que somente o desenvolvimento tecnológico permite. Veja neste artigo como de um simples montador de circuitos, criador de gambiarras e aprendiz de eletrônica você pode ser tornar um verdadeiro inventor.

A

história do montador de equipamentos eletrônicos, circuitos e descobridor de coisas novas em tecnologia vem de longe. De antes mesmo do século XX. Para entender como tudo está acontecendo e como cada vez mais o montador de coisas e aquele que conhece eletrônica e tecnologia pode ganhar dinheiro com seu próprio negócio, vamos revisar um pouco da história da ciência e tecnologia.

simples. As gambiarras eram regra e muitas delas mostravam um grau de imaginação surpreendente. Um exemplo disso pode ser encontrado no trabalho de Michael Faraday.

Indo Longe no Passado Os pioneiros da tecnologia e da ciência eletrônica lutavam com dificuldades enormes para criar seus projetos, fazer suas descobertas e mesmo experimentar dispositivos muito Figura 1 - Michael faraday (1791 – 1867)


Michael Faraday foi, em sua época, considerado o melhor experimentador (gambiarrista) do mundo, pois tinha uma habilidade enorme para criar coisas. De fato, Faraday era um aprendiz de encadernador que trabalhava em uma oficina onde tinha o hábito de ler os livros que encadernava e, assim, aprendeu muito, resolvendo partir para a experimentação do que lia e descobrir coisas novas. Faraday não podia contar com materiais que hoje encontramos em qualquer fornecedor. Assim, para descobrir o transformador, ele precisou fabricar os seus próprios fios, derretendo cobre e cobrindo-os com seda, para ter o isolamento. Naquela época, a ciência e a tecnologia se misturavam, por isso muitos dos trabalhos de montadores e criadores de coisas, como o transformador de Faraday, passaram a fazer parte da ciência. Com o passar do tempo, os novos recursos se tornaram disponíveis e no começo do século XX já era possível comprar ”partes”, ainda bem caras, pesadas e não muito fáceis de se trabalhar. Para fazer suas montagens, os “fazedores” precisavam de verdadeiras oficinas equipadas com ferramentas mecânicas.

Figura 2 - Fonógrafo de 1919

Figura 3 - Anúncio da Heathkit

Na figura 2 temos o projeto de um fonógrafo, original de uma publicação de 1919. Nessa época, o montador precisava de ferramentas para cortar madeira, perfurar e dobrar metais, e muito mais, se desejasse fazer uma montagem perfeita. As primeiras revistas de eletrônica, como a Radio Experimenter, de onde tiramos o projeto abaixo, começavam a aparecer. Com o passar do tempo, o montador hobista já pôde contar com algo mais do que a simples disponibilidade de peças. Surgiram os fornecedores de kits como a Heathkit e Radio Shack. Circuitos eletrônicos completos podiam ser adquiridos e montados com pouco mais do que um ferro de solda e algumas ferramentas de uso geral. Na figura 3 temos um anúncio de uma revista da década de 50. Com o passar do tempo, as revistas de eletrônica se multiplicaram. No exterior destacamos a Radio Electronics, Popular Electronics, Everyday Electronics, Electronics Today International (ETI), CQ , Selecções de Rádio, Radio Chassis Television. Electronique Pratique, Haut Parleur, Funkshau Elektor, etc. No Brasil, surgiram revistas como a Antenna, Eletronica Popular, Radio Eletronica, Revista Monitor, Eletrônica Total, Revista Saber Eletrônica e muitas outras que já não existem mais.

* DO HOBISTA DO SÉCULO XX AO MAKER DO SÉCULO XXI *

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Estas revistas descreviam projetos práticos que podiam ser realizados por quem conhecesse os fundamentos da eletrônica e tivesse as ferramentas apropriadas, que não eram muitas. Com apenas um bom ferro de solda, alicates, chaves de fendas e eventualmente um multímetro, podia-se montar praticamente tudo que estas revistas descreviam. O “fazedor” de então podia criar coisas novas que, na maioria dos casos, não podiam ser encontradas prontas nas lojas, como ocorre hoje.

Nesta época também aumentou muito a disponibilidade de cursos de eletrônica, tanto por livros quanto por correspondência. Todos queriam aprender eletrônica. Nos Estados Unidos, tivemos escolas como a International Schools e CEI. No Brasil, o Instituto Universal Brasileiro e o Instituto Monitor, que existe até hoje. Foi nesta escola que tive meu primeiro emprego, trabalhando como professor do curso e fazendo sua remodelação e atualização.

Alarmes, rádios, amplificadores, equipamentos auxiliares de som e transmissores eram descritos com peças que podiam ser encontradas com facilidade no mercado especializado. Lojas de componentes se espalharam pelo Brasil e muitas delas passaram a vender pelo correio, anunciando nas revistas especializadas. Nos grandes centros, lojas de componentes se multiplicaram, geralmente concentradas em ruas como a Santa Ifigênia, em São Paulo, e General Osório, no Rio.

Minha História na Eletrônica Lá pelos anos 60, ganhei de uma tia um livro chamado “Experiências e Passatempos com Eletricidade”. Esse livro me chamou a atenção e, depois de lê-lo, decidi ir em frente para criar coisas novas utilizando a eletrônica.

Comecei então a não apenas a montar eletrônicos como também a inventá-los. Tornei-me ávido comprador da revista Eletrônica Popular (Fig. 5) e, em pouco tempo, me Até hoje ainda restam lojas especializadas tornei seu colaborador, passando a publicar nestas ruas e vizinhanças, mas o cunho eletrô- meus circuitos. nico das mesmas está reduzindo, com a crescente venda de equipamentos de informática. Foi então que Gilberto Afonso Penna, editor desta revista, me convidou a criar uma seção chamada ”Eletrônica Para Juventude”. Algum tempo depois, comecei a trabalhar no Figura 3 - Rua Santa Ifigênia em fim de semana Instituto Monitor, remodelando seu curso, e então fui convidado a fazer parte da Revista Saber Eletrônica, onde me aposentei 33 anos depois, criando a minha própria empresa. Em todo esse tempo de atuação, vi a eletrônica passar por muitas fases. Das montagens com transistores, passamos para os circuitos integrados, que eram disponíveis em cada vez maior complexidade, pos74


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sibilitando ao montador a criação de muitos mesmo a da sala!) até bancadas elaboradas. circuitos, até o surgimento do microprocessa- Alguns tinham salas bem equipadas, com dor e do microcontrolador. muitos recursos.

O Montador do Final do Século XX

Transição para o digital

Até os anos 1980, o montador eletrônico ou hobista tinha um perfil bem definido. Eram estudantes de escolas técnicas, amadores independentes, muitos dos quais de áreas de trabalho que nada tinham a ver com a eletrônica, que compravam componentes e montavam circuitos a partir das revistas técnicas. Muitos iam além, criando novos circuitos e também publicando-os, sem compromisso, em revistas. Existiram publicações que reuniam apenas “Projetos dos Leitores”, com grande sucesso, e até dando premiações, como viagens para conhecer fábricas de componentes, que não existiam no Brasil.

A transição ocorreu com a chegada do microprocessador e, com ele, os computadores pessoais. O primeiro, o Altair 8800, foi lançado em kit num artigo da Popular Electronics de 1975. No Brasil tivemos diversos microcomputadores que fizeram época, como o MSX, CP200, etc.

Foi então que muitos praticantes de eletrônica deixaram de montar circuitos e passaram a ter como novo hobby o microcomputador que, segundo se apregoava, podia “fazer tudo”, sem mais a necessidade de eletrônica. As montagens eletrônicas diminuíram de tal forma que, a partir dos anos 1990, muitas reO montador de “fim de semana” investia vistas entraram em crise e desapareceram. algum dinheiro de que dispunha comprando componentes e normalmente seu local As poucas que se mantiveram foram obride trabalho ia desde uma mesa pequena (até gadas a modificar seu conteúdo, passando a

* DO HOBISTA DO SÉCULO XX AO MAKER DO SÉCULO XXI *

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critor Chris Anderson, autor dos livros “A Cauda Longa - Do Mercado de Massa para o Mercado de Nicho” e “Makers - a Nova Revolução Industrial”. Esta revista explorava não apenas a montagem de projetos eletrônicos, mas qualquer tipo de coisa que se podia fazer em casa: o DIY (Do It Yourself ) ou “faça você mesmo”, muito apreciado pelos norteamericanos e por muitos de nós. A evolução da tecnologia, entretanto, deu um novo impulso ao DIY, com o desenvolvimento cada vez maior das placas de microcontronte ladores, que se tornaram poderosas e baratas, apresentar projetos que envolviam o uso do sensores de todos os tipos e, finalmente, imcomputador. Também abordavam uma nova pressoras 3D. tecnologia que começava a aparecer: a robótica, um ramo da mecatrônica. Mas mesmo Partindo de placas eletrônicas mais compleassim, a maioria das publicações desapareceu. xas, sensores fabulosos que podiam ser acoEntão, um novo fenômeno começou a mudar plados a drones, robôs submarinos (como o as coisas novamente, a começar pelos EUA. da capa da revista acima), humanoides e muito mais, até mesmo as menores peças, difíceis Makers e a volta das montagens de obter no mercado especializados, podem agora ser fabricadas em uma impressora 3D. Nos EUA, uma revista que ainda se man- Nos EUA, já existem impressoras dpor metinha forte era a revista Make, que tem até nos de 500 dólares e muitas escolas e laborahoje, como colaborador de destaque, o es- tórios brasileiros já as possuem. Figura da revis 7 - Capa de u m a ed ta Mak ição rece e

Figura 8 – Impressora 3D

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Figura 9 – Fabricando produtos com uma impressora 3D


O novo amador da eletrônica, o maker, pode então criar seu próprio protótipo e até mesmo fabricá-lo em casa para vender pela Internet, criando-se assim uma nova forma de negócio, que é uma tendência do futuro. Cada um será dono da sua própria empresa, fabricando eletrônicos e vendendo-os pela Internet. E, quando a demanda crescer, pode-se contratar uma fábrica da China a custos muito baixos para fabricar seu produto, que então você poderá vender, sem precisar sair de casa...

dades e vendidos pela Internet, criando assim uma nova atividade, que deixa de ser apenas hobby para se tornar um negócio. E as escolas têm, nessa atividade, a possibilidade de levar a seus alunos, de forma fácil e rápida, o aprendizado da eletrônica, robótica e informática, conhecimentos absolutamente necessários nos próximos anos, em todos os ramos de atividade.

A Eletrônica Básica O maker do século XXI é uma versão atuali- Ainda é Necessária zada do hobista” do século XX, fazendo uso das tecnologias disponíveis em nossos tempos. Ele utiliza placas como Arduino, PIC, Raspberry PI, Beaglebone e outras para controlar seus projetos, que podem ir de simples automatismos ou controles até drones, robôs e braços mecânicos bastante complexos. Ele utiliza componentes eletrônicos para montar seus circuitos periféricos (shields) ou compra-os prontos e tem recursos para a montagem das eventuais partes mecânicas, quando não as encontra prontas. Ele faz a programação de suas criações no computador e compartilha seus projetos na Internet com outros makers.

Isso também nos leva a uma outra forma de abordagem para estes fantásticos criadores de coisas, a passagem do DIY para o DIT, ou seja, o Do It Together (Faça-o em Conjunto). O compartilhamento das ideias é algo fenomenal em nossos tempos. Para que “quebrar a cabeça” tentando encontrar uma solução para um problema que alguém já resolveu? Por que não compartilhar suas ideias?

Se bem que as impressoras 3D possam fazer as partes mecânicas de um projeto, as placas de microcontroladores contenham as funções eletrônicas mais complexas, ainda é preciso ligar circuitos periféricos ao conjunto para se chegar ao projeto final. Uma placa de Arduino não controla motores de alta potência ou motores de passo diretamente. Uma placa deste tipo também não trabalha com sinais de áudio ou vídeo e, se desejarmos obter estes efeitos, precisamos de placas periféricas, os shields.

Figura 10 – Shield para Arduino pronto (placa de relés)

Isso é o que está ocorrendo hoje. Muitos estão desenvolvendo projetos, compartilhando-os e até criando novos produtos, que serão industrializados, fabricados em pequenas quanti-

* DO HOBISTA DO SÉCULO XX AO MAKER DO SÉCULO XXI *

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Figura 11 - Saber usar uma matriz de contato é fundamental

Existem muitos shields que podem ser comprados prontos, como placas de relés, pontes H e muito mais, conforme mostra a figura 10, mas você precisa conhecer eletrônica para saber ligá-las e usá-las. Isso significa que o maker precisa conhecer eletrônica. A eletrônica básica é fundamental. Resistores, capacitores, diodos, transistores e muitos outros componentes devem ser manuseados e montados, tanto numa matriz de contato como numa placa definitiva. A eletrônica básica volta, então, a ser importante nos nossos dias, como conhecimento

complementar para o desenvolvimento de qualquer projeto. Se você é um maker, não deixe de acessar meu site www.newtoncbraga.com.br. Lá você encontrará uma infinidade de circuitos eletrônicos colecionados ao longo de minha longa carreira. Muitos deles podem fazer parte de projetos mais complexos, atuando como shields que não são encontrados prontos para venda. Envie você também seus artigos, pois todos serão analisados para publicação. O compartilhamento de ideias é, mais do que nunca, colocado em prática em nosso portal.

INSTITUTO NEWTON C. BRAGA

A mai s tradi cional institui ção de ensino de eletrôni ca no Bra sil! ELETRÔNICA * MECATRÔNICA * TECNOLOGIA * AUTOMAÇÃO

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AC ES SE JÁ

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FROM THE

HOBBYST OF THE 20TH CENTURY TO THE

MAKER

OF THE 21ST CENTURY Newton C. Braga Assembling electronic circuits and creating new products based on their technology is fascinating and this activity is growing in an amazing way all over the world, including in Brazil. The makers are no longer just improvising with crazy gambiarras, but creating circuits and products, earning money with a new and productive activity that only technological development allows. Check out in this article how you can be become a true inventor from a simple circuit maker, creator of gambiarras and apprentice of electronics. The history of the assembler of electronic equipments, circuits and discoverer of new things in technology comes from afar. From even before the twentieth century. To understand how everything is happening and how more and more the assembler of things and the one who knows electronics and technology can make money with their own business, let's review some of the history of science and technology.

Going Far In The Past The pioneers of technology and electronic science struggled with enormous difficulties to create their projects, make their discoveries and even experiment with very simple devices. Gambiarras were the rule and many of them showed a surprising degree of imagination. An example of this can be found in the work of Michael Faraday. Figure 1 - Michael faraday (1791 – 1867) Michael Faraday was, in his time, considered the best experimenter (gambiarist) in the world, because he had an enormous ability to create things. In fact, Faraday was an apprentice binderman who worked in a workshop where he had a habit of reading the books he bound, so he learned a great

deal, going on experimenting with what he read and discovering new things. Faraday could not rely on materials we find today at any supplier. So, to discover the transformer, he had to fabricate his own wires, melting copper and covering them with silk, for insulation. At that time, science and technology mingled, so many of the work of assemblers and creators of things, like the Faraday transformer, became part of science. Over time, new resources became available and by the beginning of the twentieth century it was possible to buy "parts", which were still expensive, heavy and not very easy to work with. To make their mounts, the "doers" needed real workshops equipped with mechanical tools. In Figure 2 we have the design of a phonograph, originally from a 1919 publication. At that time, the assembler needed tools to cut wood, drill and bend metals and more, if he wanted to make a perfect assembly. The first electronics magazines, such as Radio Experimenter, from which we took off the project below, began to appear. Figure 2 - Phonograph of 1919. Over time, the hobbyist could already been able to count on something more than the simple availability of parts. The suppliers of kits like Heathkit and Radio Shack have appeared. Complete electronic circuits could be purchased and assembled with little more than a soldering iron and some commonly used tools. In figure 3 we have an announcement of a magazine of the 50's. Figure 3 – Heathkit Announcement Over time, electronic magazines have multiplied. Abroad, we highlight Radio Electronics, Popular Electronics, Everyday Electronics, Electronics Today International (ETI), CQ , Selecções de Rádio, Radio Chassis Television, Electronique Pratique, Haut Parleur, Funkshau Elektor, etc. In Brazil, magazines such as Antenna, Eletronica Popular, Radio Eletronica, Revista Monitor, Eletrônica Total, Revista Saber Eletrônica and many others that no longer exist. These magazines described practical projects that could be carried out by those who knew the basics of electronics and had the appropriate tools, which weren’t many. With just a good soldering iron, pliers, screwdrivers and eventually a 79


multimeter, one could assemble just about everything these magazines described. The maker of then could create new things that, in most cases, couldn't be found ready in stores, as it is the case today. Alarms, radios, amplifiers, auxiliary sound equipment and transmitters were described with parts that could easily be found in the specialized market. Component stores were scattered throughout Brazil and many of them began to sell by mail, advertising in specialized magazines. In large centers, component stores multiplied, usually concentrated in streets such as Santa Ifigênia in São Paulo and General Osório in Rio. To this day, in these streets and neighborhoods there are still specialized stores, but their electronic signature is being reduced with the increasing sale of computer equipments. Figure 3 – Rua Santa Ifigênia in a weekend At this same time, the availability of electronic courses, both for books and correspondence, has greatly increased. Everyone wanted to learn electronics. In the United States, there were schools like the International Schools and CEI. In Brazil, the Brazilian Universal Institute and the Monitor Institute, which still exists today. It was at this school that I had my first job, working as a course teacher and doing its remodeling and updating.

My History in Electronics

Figure 5 - Eletrônica Popular from the time when Newton C. Braga was a collaborator From assemblies with transistors, we moved to the integrated circuits, which were available in increasing complexity, allowing the assembler to create many circuits, until the emergence of the microprocessor and the microcontroller.

The Profile of the Assembler of the End of the 20th Century Until the 1980s, the electronic assembler or hobbyist had a well defined profile. They were technical school students, independent amateurs, many of them from workplaces who had nothing to do with electronics, who bought components and set up circuits from technical magazines. Many went beyond, creating new circuits and also publishing them, without commitment, in magazines. There were publications that only gathered "Readers' Projects", with great success, and even giving prizes, such as trips to know factories of components, that didn’t exist in Brazil. The "weekend" assembler invested the money he had by buying components, and her/ his workplace usually went from a small table (even in the living room!) to elaborate benches. Some had well-equipped rooms with many features.

Transition to digital

Back in the '60s, an aunt gave me a book called "Experiences and Hobbies with Electricity." This book caught my attention and, after reading it, I decided to go ahead to create new things using electronics.

The transition occurred with the arrival of the microprocessor and the personal computers with it. The first, the Altair 8800, was released as a kit in an article by Popular Electronics in 1975. In Brazil we had several microcomputers, such as the MSX, CP200, etc.

Figure 4 - My first technical book

Figure 6 – The first computer kit

I began not only to assemble electronics but also to invent them. I became an avid buyer of the Popular Electronics magazine (Fig. 5) and, shortly afterwards, I became its collaborator, starting to publish my circuits.

It was then that many electronics practitioners stopped to set up circuits and began to have the microcomputer as a new hobby, which, according to what was said, could do "everything", without the need of electronics. Electronic assemblies have declined in such a way that, since the 1990s, many magazines have gone into crisis and disappeared.

It was then that Gilberto Afonso Penna, editor of this magazine, invited me to create a section called "Electronics for Youth". Some time later, I started working at the Monitor Institute, reshaping its course, and then I was invited to be part of the Saber Eletrônica Magazine, where I retired 33 years later, creating my own company. In all this time of action, I saw the electronics go through many phases. 80

The few that remained were forced to modify their content, starting to present projects that involved the use of computer. They also addressed a new technology that was beginning to appear: robotics, a branch of mechatronics. But even so, most of the publications have disappeared. So a new phenomenon started to change things over, starting with the US.

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The Appearance of Makers - Return of theAssembling In the United States, a magazine that was still strong was the magazine Make, which has until today, as an outstanding collaborator, the writer Chris Anderson, author of the books "The Long Tail - From the Mass Market to the Niche Market" and "Makers - the New Industrial Revolution". This magazine explored not only the assembly of electronic projects, but also any kind of thing that could be done at home: DIY (Do it Yourself), much appreciated by the Americans and many of us. Figure 7- Cover of a recent issue of Make magazine The evolution of technology, however, has given new impetus to DIY, with the ever increasing development of microcontroller boards, which have become powerful and cheap, sensors of all kinds, and finally 3D printers. From more complex electronic boards, fabulous sensors that could be coupled to drones, submarine robots (like the one from the cover of the magazine above), humanoids and more, even the smallest, hard-to-get specialized parts can now be manufactured on a 3D printer. In the US, there are already printers for less than USD 500 and many Brazilian schools and laboratories already have them. Figure 8 – 3D Printer The new electronics enthusiast, the maker, can then create her/his own prototype and even manufacture it at home to sell over the Internet, thus creating a new form of business that is a trend of the future. Each one will own their own company, making electronics and selling them over the Internet. And when demand grows, one can hire a factory in China at very low costs to manufacture their own product, which then can be selled without even leaving the house... The 21st century maker is an updated version of the hobbyist of the twentieth century, making use of the technologies available in our times. She/he uses boards such as Arduino, PIC, Raspberry PI, Beaglebone and others to control their designs, ranging from simple automatisms or controls to fairly complex drones, robots and mechanical arms. She/he uses electronic components to mount its peripheral circuits (shields) or buys them ready and has the resources to assemble any mechanical parts when they can’t be found ready. She/He does the programming of her/his creations on the computer and shares her/his projects on the Internet with other makers. This also leads us to another way of approaching these fantastic creators of things, the transition from DIY to DIT,

that is, Do It Together. Sharing ideas is phenomenal in our times. Why to "break your head" trying to find a solution to a problem that someone has already solved? Why not share your ideas? This is what is happening today. Many are developing projects, sharing them and even creating new products, which will be industrialized, manufactured in small quantities and sold over the Internet, thus creating a new activity that is no longer just a hobby and becoming a business. Figure 9 - Making products with a 3D printer And in this activity, schools have the possibility to take their students, in an easy and fast way, to learn electronics, robotics and computer science, absolutely necessary knowledge in the next years, in all branches of activity. Basic Electronics is still needed Although 3D printers can make the mechanical parts of a design and microcontroller boards contain the most complex electronic functions, one still have to connect peripheral circuits to the assembly to get to the final project. An Arduino board doesn't control high power motors or step motors directly. A board of this type also doesn't work with audio or video signals, and if we wish to obtain these effects, we need peripheral plates, the shields. There are many shields that can be purchased ready, such as relay boards, H-bridges and much more, as shown in figure 10, but you need to know electronics to know how to connect them and use them. Figure 10 – Shield for ready Arduino (relay board) This means that the maker needs to know electronics. Basic electronics is key. Resistors, capacitors, diodes, transistors and many other components must be handled and mounted, either in a contact array or on a definitive plate. Basic electronics, then, is important in our day as complementary knowledge for the development of any project. Figure 11 – Knowing how to use a contact matrix is fundamental If you are a maker, be sure to visit my website www. newtoncbraga.com.br. There you will find a myriad of electronic circuits collected throughout my long career. Many of them can be part of more complex projects, acting as shields that are not found ready for sale. Send your articles too as they will all be reviewed for publication. The sharing of ideas is, more than ever, put into practice in our portal.

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Laymert Garcia dos Santos

O professor Laymert Garcia dos Santos é um dos mais respeitados intelectuais brasileiros na atualidade. Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Sorbonne (França), é professor titular do Departamento de Sociologia da Unicamp.

çado em 2003, é uma das maiores referências nacionais na discussão sobre a influência das tecnologias na sociedade.

Para completar, Laymert é estudioso e entusiasta das culturas indígenas praticantes do xamanismo, o que o aproximou dos povos Yanomani e possibilitou Sua pesquisa concentra-se principal- o desenvolvimento de um ponto de vista mente em Sociologia da Tecnologia e em peculiar na relação entre as tecnologias Arte Con-temporânea, acumulando, ancestrais e as contemporâneas. desde a década de 1980, uma extensa bibliografia em tópicos que são de grande O inquieto professor recebeu a Facta para interesse da ciência gambiológica: tecno- a entrevista a seguir, em que discorre sologia, biotecnologia, arte contemporânea, bre gambiologia, hackeamento, política, política e Brasil. Seu livro “Politizar as arte contemporânea e antropofagia, semnovas tecnologias: o impacto sócio-técnico pre com simplicidade, gentileza, o olhar da informação digital e genética”, lan- astuto e a opinião aguda.


Em sua obra é possível observar um rompimento entre tempos: o que é contemporâneo está sempre olhando o passado, e ao mesmo tempo os primatas são analisados por um ponto de vista totalmente contemporâneo. Como você analisaria o conceito de “gambiologia” sob este aspecto? A gambiologia não opõe o mundo digital e o mundo da gambiarra. Ao contrário, há uma tentativa de se pensar a articulação entre ambos. Eu acho que vocês vão em cheio no que interessa. Vou contar uma história que me marcou e me ensinou muito. O psicanalista francês Félix Guattari veio ao Brasil em 1982 e assistiu a um filme sobre o candomblé. Ele ficou muito impressionado ao ver uma filha de santo pintada para o ritual e comentou: “é fantástico, porque ela parece um Picasso e, ao mesmo tempo, o está acontecendo é completamente mágico. E é incrível, porque essa mesma pessoa que está no terreiro de candomblé, daqui a meia hora vai sair e pegar o seu walkman. Ou seja, ela vai passar do tempo mítico pro tempo tecnológico sem conflito algum”. Eu achei a observação muito importante pra nós, brasileiros, porque aqui a gente tinha, ao contrário dos países já industrializados, uma mistura de temporalidades muito grande. Tanto o tempo profano e o sagrado quanto o tempo do passado e do futuro. A lógica de pensamento contemporânea é a da recombinação e a gambiarra é também uma recombinação. O Brasil é um terreno fertilíssimo pra isso. Temos uma experiência acumulada de recombinações, de desvios de funções, dada pela precariedade e pela necessidade de corresponder dentro dessa precariedade a certas respostas. Isso tem a ver com as recombinações que os próprios sistemas informacionais exigem. Para poder navegar nos sistemas

eletrônicos, você precisa de intuição o tempo todo, porque as interfaces são todas inteligíveis, mas também intuitivas, e então esse ponto de confluência e a lógica da recombinação, pra mim, são o ponto central nessa história. Seu livro “Politizar as novas tecnologias”, de 2003, tem o subtítulo “o "impacto sócio técnico da informação digital e genética". Passados mais de dez anos e partindo da experiência do digital 2.0, o que você acha que mudou, e o que é mais relevante para se pensar a tecnologia e a política naquele tempo e hoje? A velocidade com que as coisas estão mudando foi muito maior do que eu era capaz de pensar. Em 2007, 2008, eu conheci um pesquisador chamado Constantino Scaracasi que estudava o futuro no Escritório Europeu de Patentes. Ele me revelou uma coisa com a qual eu não parei mais de conviver: os especialistas em prospectiva de desenvolvimento tecnológico sempre param as suas pesquisas em 2030. As projeções nunca vão além. E elas não vão além porque depois de 2030 é inimaginável! Ele tinha uma equipe de 40 pessoas estudando o futuro e eles descobriram que se você pegasse a intensidade tecnológica do ano 2000 e projetasse para os 100 anos anteriores, o século XX comprimia-se e se transformava em 16 anos! Eles pegaram essa mesma medida e projetaram de 2000 para os próximos 100 anos e descobriram que a aceleração tecnológica era tal que 100 anos equivaliam a 25.000 anos. É inimaginável. Porque nós estamos no que os especialistas chamam de avalanche tecnológica. Isso já foi apontado desde a década de 1970 por um inventor norte-americano chamado Richard Buckminster Fuller. Ele disse: “Decolou”. A aceleração é exponencial, quer dizer, é a aceleração da aceleração. É como quando

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se manda um foguete para o espaço, durante um certo tempo ele está sob o efeito da gravidade, a partir do momento que ele deixa a atmosfera ele não encontra mais nenhuma resistência: é a sua “velocidade de escape”. Isso já aconteceu com a tecnologia.

sam os mundos virtuais. Por que eu posso entender isso desse modo? Porque a dicotomia moderno/tradicional já foi desconstruída pelo próprio processo de aceleração da aceleração.

De onde vem uma certa nostalgia do passado e mesmo uma valorização da precaNão dá pra considerar 25.000 anos, então riedade que notamos em alguns artistas e vamos considerar uma aceleração de 3.000 pesquisadores? Seria a necessidade de algo anos, que vai acontecer nos próximos 20. Isso que se perdeu ou simplesmente um fetiche? significa que o impacto é equivalente a uma tribo na África que vivia seguindo suas tra- Num mundo predominantemente digitalizadições e de repente é arremessada no século do, a presença sensorial fica diminuída. Eu XXI. Esse impacto de temporalidade é seme- acho que a gambiologia busca maquinações lhante ao que estamos sofrendo, só que com com tecnologias mais antigas, nas quais o uma diferença. Ele vinha para as tribos de que contava mais era o mecânico, o objeto, fora para dentro e, no nosso caso, ele vem de a presença física, um funcionamento que, de dentro para fora, porque é a nossa sociedade certo modo, é apreendido muito mais senque está fazendo esse impacto. Então, de cer- sorialmente. Eu acho que há uma nostalgia to modo, nós somos os neo-primitivos deste dessa presença, que é cada vez mais comprooutro mundo que está surgindo. O impacto metida porque, de certo modo, a tecnologia é tão violento e tão forte que até essas dico- digital é um fetiche e uma fissura: você tem tomias moderno/tradicional foram apagadas. que estar conectado o tempo todo. Se você O contemporâneo trata o moderno como algo pudesse conceber essa tecnologia como algo que é tão arcaico quanto o tradicional. Ao que você entra e sai e que o mundo que não é mesmo tempo, o próprio tradicional já não é esse já rarefeito é tão importante quanto o oumais arcaico, porque eu posso olhar uma tribo tro (e, inclusive, é muito mais rico você entrar indígena e dizer que eles desenvolveram um e sair do que só ficar nele), aí você começa a outro tipo de tecnologia que eu não sou ca- perceber que no presente também existe uma paz de entender. Mas eles desenvolveram, por sensorialidade que pode ser forte, desde que exemplo, uma tecnologia extremamente sofis- seja concedida a sua experiência às pessoas. ticada no xamanismo, que nós não achamos Eu acho que a arte contemporânea se coloca que é tecnologia porque eles não têm apare- muito nesse sentido. Muito de uma espécie lhos, mas eles desenvolveram de outro modo, de afeto anti-tecnológico que existe em parte no corpo, na mente, no modo como eles aces- da arte contemporânea, por exemplo, até na


body art, vem da necessidade de se contrapor a essa rarefação. Mas é possível você trabalhar as sensações dentro do mundo digital, como as instalações imersivas que solicitam um envolvimento que não é só puramente mental ou intelectual. Você afirma que o xamã, através das plantas ou do ayahuasca, talvez consiga se conectar a mundos virtuais. Um cientista de garagem pode, através de objetos físicos e técnicos mais rudimentares, fazer uma ponte entre o homem e a máquina?

foi na garagem. E foi o quê? Bricolagem. São agenciamentos que foram tentados, recombinações feitas a partir de funções que já existiam e que criaram coisas novas. É preciso fazer isso também com os computadores, com o digital. Qual a importância do hacker para a cultura contemporânea?

Pra mim o hacker é uma figura central. Existe um livro do teórico finlandês Pekka Himanen sobre o hacker que eu acho interessantíssimo. Ele falou que o hacker é a aristocracia da era cibernética. Eu acho que pode. Me lembro Aristocracia não no sentido de de uma exposição que vi há uns classe social, mas no sentido 30 anos em Paris, de um artisprimeiro da palavra, que eram ta europeu cujo trabalho era os aristoi, os melhores, os que unicamente desvio de funções, estão mais capacitados a lidar de objetos técnicos da primeira com o mundo no qual estão vivendo. Eu acho que os hackers revolução industrial. E aí era são os aristocratas da avalanche fantástico, porque o que ele fa- "Os hackers são os zia era enlouquecer as máqui- aristocratas da ava- tecnológica. Eles estão munas. Eu não me lembro do nome lanche tecnológica." dando uma série de padrões e dele, mas a exposição era hilária, parâmetros de uma maneira porque havia uma inteligência fantástica em que não está sendo reconhecida. A política desviar os objetos de sua função e enlouque- não pode mais ser pensada da mesma macer seu potencial tecnológico. Porque a tecni- neira depois de Assange, Bradley Manning, cidade do objeto não se esgota nele mesmo. Snowden... A própria maneira de se pensar a Os objetos evoluem e essa tecnicidade está, de política mudou com a abertura da sua caixa certo modo, congelada, mas existe uma aber- do segredo. Mostrou-se, por exemplo, que tura para ela poder ser puxada em algumas a palavra “democracia” como é empregada direções. Se a gente pensar qual foi o papel hegemonicamente no ocidente não faz mais da garagem no início da virada cibernética, no sentido. Os Estados Unidos não podem mais começo da invenção dos PC’s, etc... Tudo isso fazer uma intervenção em algum lugar e


dizer que é em nome da democracia, quando eles têm a NSA. Portanto, quando instalaram esses sistemas de controle, eles mesmos desconstruíram a própria noção de democracia. Então o os hackers fizeram? De certo modo, desvendaram no plano político o que aconteceu em escala global, para todos os povos do planeta. Pra mim existe política antes e depois do Snowden. E não é por acaso que um intelectual sueco propôs que ele ganhasse o prêmio Nobel da Paz. Eu acho que ele deveria ganhar. Do ponto de vista da política, pra mim, é por aí. Do ponto de vista da arte, o hacker é como um sujeito que trabalha com criação e com invenção. Eu faço uma distinção entre criação e invenção: o artista, em geral, ele trabalha com criação, o tecnólogo trabalha com invenção. O hacker opera com ambos porque, de certo modo, ele cria uma situação nova. Ele mexe com a lógica de funcionar das coisas. E ao mexer com essa lógica, ele põe outros atores dentro do processo, ele próprio já é um ator totalmente novo dentro dos processos, e ele quebra os parâmetros, ele acaba com as oposições tradicionais que orientavam a nossa maneira de pensar. Você poderia desenvolver melhor essa questão do desvio de função, mais especificamente no Brasil?

cultura digital, existe uma figura emblemática que é o Gilberto Gil. Ele foi a figura que percebeu o que era preciso juntar, articular, que era a capacidade criativa e inventiva do povo brasileiro e suas especificidades, com o advento da virada cibernética. Poucas pessoas podem fazer esse tipo de articulação. Porque é preciso conhecer muito bem a cultura brasileira pré-digital e conhecer bem a tecnologia. O Gil, se a gente fosse percorrer sua produção musical ligada às máquinas, você vê que ele tem um pensamento sobre a tecnologia, e por isso ele pôde articular a cultura brasileira com a cultura digital. E, ao fazer isso, e transformar em uma política de Estado, ele abriu a possibilidade de uma potência imensa, que é articular o que há de mais contemporâneo com o que é mais forte no Brasil, uma capacidade de sobrevivência, de improvisação e de afirmação, de positividade de transformar o negativo em positivo, que é da adversidade que vivemos. Nós vivemos um paradoxo enorme, somos um povo que tem cultura sem cultura. Porque não teve acesso. Tem uma cultura que foi absorvida e que tem uma positividade muito grande. Quem conhece as três matrizes da cultura brasileira – a indígena, a negra e a europeia –, e o modo de articulação entre elas, sabe que aí tem uma potência muito grande. Mas essa potência ainda pode ser trabalhada na era cibernética de uma maneira muito mais forte, e é isso que a gente tem pra apresentar ao mundo, pra dizer que é a nossa diferença.

O primeiro ponto que me interessa bastante é uma mudança de mentalidade que aconteceu com relação à maneira de ser brasileiro, Você pesquisou o pajé, o xamã, tem uma por questões históricas, culturais etc. Para vivência com as culturas indígenas, mas essa transformação, em confluência com a comentou que está se mudando para um 86

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apartamento no Pacaembu. Como é possí- nossas diferenças, colocar alguma coisa em vel estar sempre se renovando? comum. Se a gente conseguir estabelecer interfaces ou pontos de contato, isso é extremaEu tenho uma relação com os Yanomami que mente produtivo. A primeira coisa a se fazer é já vem de longa data. O que me interessou no quebrar a mentalidade de colonizado. Porque xamanismo? O ponto de partida era que eu aí você começa a poder se relacionar com o tinha que quebrar a superioridade ocidental outro da maneira como o outro é, e aí você de achar que aquilo que a gente não compre- começa a ouvir o que o outro está falando. ende é arcaico, primitivo, atrasado. Aquilo que eu não compreendo eu não sei o que é. O “Manifesto Antropofágico” é um ponto Eu também não posso imaginar que uma fundamental dessa história, eu até vou fazer população indígena ficou parada no tempo uma palestra sobre o dilema hamletiano do durante 3.000 anos. Porque se brasileiro, que é um espelho eles são humanos também, e se invertido do dilema que a gente coloca para os índios: “vocês eles têm inteligência, isso significa que eles evoluíram de algutêm que ser brasileiros, senão ma maneira. O xamanismo, pra vocês não têm direito à existência”. Aí, quando eles se convermim, é um modo de existência e tem em brasileiros, a gente diz: de conhecimento extremamente "tá vendo, você deixou de ser complexo e sofisticado. E é uma índio. Então, como você não é tecnologia de acesso aos munNós vivemos um dos virtuais que nós não conheíndio mais, você não tem mais paradoxo enorme, cemos, tão ou mais sofisticada direito a certas prerrogativas”. somos um povo do que a nossa. Eu não vou me Se ele insiste em ser índio, você que tem cultura converter em um xamã porque sem cultura. fala: "tá vendo, você não quer ser eu não tenho a cultura deles e eu brasileiro". É o que, na psicolonão vou poder ter o pensamento mágico que gia, o Gregory Bateson chamava de double eles têm, porque a minha herança cultural bind, você coloca duas posições impossíveis é outra. Mas eu sou capaz de entender que, para a pessoa, ela não pode assumir nem uma através do pensamento mágico, eles podem nem a outra, e ela fica esquizo. O abismo fazer uma elaboração não só cultural, mas lançado, formulado pela dúvida hamletiana do ponto de vista do acesso a experiências de do Oswald, era “tupi or not tupi, that’s the conhecimento e a modos de ser e dimensões question”. Enunciada em inglês! É vertiginode mundo que são mais interessantes ou mais so. Quanto mais você pensar nisso, mais você sofisticadas do que as nossas. O interessante é vê qual é o problema do brasileiro, que não ver como a gente pode entrar em contato com sabe quem ele é. Então eu acho que tem que eles, para que eles nos contem como é isso. ser transformado não em um "ou, ou”, “tupi E a gente ver se pode, inclusive através das or not tupi", mas sim em "tupi and not tupi".

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TUPI AND NOT TUPI Interview with Laymert Garcia dos Santos

Professor Laymert Garcia dos Santos is one of the most respected Brazilian intellectuals nowadays. He holds a PhD in Information Science from the Sorbonne University (France), and he is a professor in the Department of Sociology at Unicamp. His research is focused mainly on Sociology of Technology and Contemporary Art, and he has accumulated, since the 1980s, an extensive bibliography on topics that are of great interest of the gambiological science: technology, biotechnology, contemporary art, politics and Brazil. His book "Politizing New Technologies: The Socio-Technical Impact of Digital and Genetic Information", launched in 2003, is one of the greatest national references in the discussion of the influence of technologies on society. To conclude, Laymert is a scholar and an enthusiast of indigenous cultures practicing shamanism, what had brought him closer to the Yanomani people and has enabled the development of a peculiar point of view in the relation between ancestral and contemporary technologies. The restless professor had agreed to receive Facta for the following interview, in which he talks about gambiologia, hacking, politics, contemporary art and anthropophagy, always with simplicity, kindness, shrewd eyes and a sharp opinion.

In your work it is possible to observe a rupture between times: what is contemporary is always looking at the past, and at the same time primates are analyzed from a totally contemporary point of view. How would you analyze the concept of "gambiologia" in this respect? Gambiologia does not oppose the digital world and the world of gambiarra. On the contrary, there is an attempt to think the articulation between both. I think you're going straight to the point. I'll tell you a story that moved me and taught me a lot. The French psychoanalyst FĂŠlix Guattari came to Brazil in 1982 and watched a movie about candomblĂŠ. He was very impressed to see a saint's daughter painted for the ritual and he commented: "It's fantastic because she looks like a Picasso and at the same time, what's happening is completely magical. And it's incredible, because this same person who is in the candomblĂŠ grounds, will go out in half an hour and get her walkman. That is, she will go from a mythical time to a technological time without any conflict." I found his remark very important for us Brazilians, because here we had, unlike the already industrialized countries, a very great mixture of temporalities. Both profane and sacred times as well as the times of the past and future. The logic of contemporary thinking is that of recombination and gambiarra is also a recombination. Brazil is a very fertile ground for this. We have an accumulated experience of recombination, of misuse of functions, given by the precariousness and the need to correspond to certain answers within 88

this precariousness. This has to do with the recombinations that information systems require themselves. In order to navigate electronic systems, you need intuition all the time, because the interfaces are all intelligible but also intuitive, and this confluence point and the logic of recombination are to me the central point in this story. Your book "Politizing the new technologies" (2003) has the subtitle "the socio-technical impact of digital and genetic information". After more than ten years and from the digital 2.0 experience, what do you think that has changed, and what is more relevant to think technology and politics at that time and today? The speed with which things are changing was much greater than I was able to think. In 2007, 2008, I met a researcher named Constantino Scaracasi who was studying the future at the European Patent Office. He told me one thing I have not stopped living with: specialists in prospects for technology development are always stopping their research in 2030. Projections never go further. And they do not go beyond because after 2030 is unimaginable! He had a team of 40 people studying the future, and they found that if you caught the technological intensity of the year 2000 and projected for the previous 100 years, the twentieth century was compressed and turned into 16 years! They took that same measure and projected from 2000 for the next 100 years and found that the technological acceleration was such that 100 years equaled 25,000 years. It's unimaginable. Because we are in what the


experts call technological avalanche. This has been pointed out since the 1970s by an American inventor named Richard Buckminster Fuller. He said, "it took off". Acceleration is exponential, that is, acceleration of acceleration. It's like when you send a rocket into space, for a while he is under the effect of gravity but from the moment he leaves the atmosphere he finds no resistance anymore: it is its "escape velocity". This has happened to technology. We can not consider 25,000 years, so let's consider an acceleration of 3,000 years, which will happen in the next 20 years. This means that the impact is equivalent to a tribe in Africa that lived by following its traditions and is suddenly thrown into the 21st century. This impact of temporality is similar to what we are going through, with only a difference. It came to the tribes from the outside in, and in our case it comes from the inside out, because it is our society that is making that impact. So, in a way, we are the neo-primitives of this other emerging world. The impact is so violent and so strong that even these modern/traditional dichotomies have been erased. The contemporary treats the modern as something that is as archaic as the traditional. At the same time, the traditional itself is no longer archaic because I can look at an Indigenous tribe and say that they have developed another type of technology that I am not able to understand. But they have developed, for example, an extremely sophisticated technology in shamanism, which we do not think is technology because they have no apparatus, but they have developed it otherwise, in body, in mind, in the way they access virtual worlds. Why can I understand it this way? Because the modern/traditional dichotomy has already been deconstructed by the acceleration process of accelaration. Where does a nostalgia for the past come from, and even a valuation of the precariousness that we notice in some artists and researchers? Would it be a need for something that is lost or just a fetish? In a predominantly digitized world, the sensory presence is diminished. I think that gambiologia seeks machinations with older technologies, in which what counted most was the mechanic, the object, the physical presence, an operation that, in a way, is much more perceived sensorially. I think there is a nostalgia for this presence, which is increasingly compromised because, in a way, digital technology is a fetish and a fissure: you have to be connected all the time. If you could conceive of this technology as something that you enter and leave and that the world that is not this already rarefaction world is as important as the other (and it is even richer to get in and out than just staying in it), then you begin to realize that in the present there is also a sensoriality that can be

strong, as long as you give your experience to people. I think contemporary art stands very much in that direction. Much of a kind of anti-technological affect that exists in part of contemporary art, for example, even in body art, comes from the need to counteract this rarefaction. But it is possible for you to work the sensations within the digital world, such as immersive installations that require an involvement that is not only purely mental or intellectual. You say that the shaman, through plants or ayahuasca, may be able to connect to virtual worlds. Can a garage scientist, through more rudimentary physical and technical objects, bridge the gap between man and machine? I think the answer is yes. I remember an exhibition I saw some 30 years ago in Paris of a European artist whose work was solely a diversion of functions, of technical objects of the first industrial revolution. And there it was fantastic, because what he did was to drive the machines crazy. I do not remember his name, but the exhibition was hilarious, because you had a fantastic intelligence in diverting objects from their functions and driving their technological potential crazy. Because the technicality of the object does not exhaust itself. Objects evolve and this technicality is somewhat frozen, but there is an opening for it to be pulled in some directions. If we were to think about the role of the garage at the beginning of the cybernetic turn, at the beginning of the invention of the PCs, etc ... All this was in the garage. And what was it? DIY. They are agencies that have been tried, recombinations made from functions that already existed and that created new things. This also has to be done with computers, with digital ones. How important is the hacker to contemporary culture? For me the hacker is a central figure. There is a book by the Finnish theorist Pekka Himanen about the hacker that I find very interesting. He said that the hacker is the aristocracy of the cyber-era. Aristocracy not in the sense of social class, but in the first sense of the word, that they were the aristoi ones, the best, those who are better able to deal with the world in which they are living. I think hackers are the aristocrats of the technological avalanche. They are changing a number of patterns and parameters in a way that is not being recognized. Politics can no longer be thought of in the same way after Assange, Bradley Manning, Snowden ... The very way of thinking politics has changed with the opening of its secret box. It has been shown, for example, that the word "democracy" as it is used hegemonically in the West no longer makes sense. The United States can no longer intervene somewhere and say that it is in the name of democracy when they have the NSA. Therefore, when they installed these systems of control, they

* TUPI AND NOT TUPI *

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themselves deconstructed the very notion of democracy. So what did the hackers do? In a way, they unveiled on a political level what happened on a global scale, for all the peoples of the planet. For me there is politics before and after Snowden. And it is not by accident that a Swedish intellectual proposed that he should win the Nobel Peace Prize. I think he should win. From the political point of view, for me, that's the way it is. From the point of view of art, the hacker is someone who works with creation and invention. I make a distinction between creation and invention: the artists, in general, work with creation, the technologists works with invention. The hacker works with both because, in a way, it creates a new situation. It messes with the logic of functioning of things. And by tinkering with this logic, she/he puts other actors in the process, she/he is already a totally new actor within the processes, and she/he breaks the parameters, she/he ends the traditional oppositions that guided our way of thinking. Could you better discuss this issue of deviation of function, more specifically in Brazil? The first thing that draws my attention is a change in mentality that took place in regards of a way of being Brazilian, because of historical and cultural reasons. For this transformation, in confluence with the digital culture, there is an emblematic figure that is Gilberto Gil. He was the figure who realized what it was necessary to join, articulate, that was the creative and inventive capacity of the Brazilian people and their specificities, with the advent of the cybernetic turn. Few people can do this kind of joint. Because it is necessary to know very well the Brazilian pre-digital culture and to know the technology well. Gil, if we were to go through his music production linked to the machines, you see that he has a thought about technology, and so he could articulate Brazilian culture with digital culture. And in doing so, and transforming it into a state policy, he opened the possibility of an immense power, which is to articulate what is most contemporary with what is most powerful in Brazil, a capacity for survival, improvisation and affirmation, of positivity, of turning the negative into positive, that is the adversity that we live. We live a huge paradox, it is of a people who have culture without culture. Because we don't have access. There is a culture that has been absorbed and that has a very great positivity. Who knows the three matrices of Brazilian culture - indigenous, black and european - and the way of articulation between them knows that there is a very great power there. But that power can still be worked on in the cybernetic age in a much stronger way, and this is what we have to present to the world, to say that it is our difference. 90

You have researched the shaman, you have an experience with indigenous cultures, but you have commented that you are moving to an apartment in Pacaembu. How is it possible to constantly renew yourself? I have a long-standing relationship with the Yanomami. What interested me in shamanism? The starting point was that I had to break the western superiority of thinking that what we do not understand is archaic, primitive, backward. What I do not understand I do not know what it is. I also can not imagine that an indigenous population stood in time for 3,000 years. Because if they are human too, and if they have intelligence, it means that they have evolved in some way. Shamanism, to me, is a very complex and sophisticated mode of existence and knowledge. And it is a technology of accessing virtual worlds that we do not know, so much or more sophisticated than ours. I will not become a shaman because I don't have their culture and I won't be able to have the magical thinking they have because my cultural heritage is different. But I am able to understand that through magical thinking, they can make an elaboration not only of culture, but from the point of view of accessing experiences of knowledge and ways of being and dimensions of the world that are more interesting or more sophisticated than ours. The interesting thing is to see how we can get in touch with them, so they can tell us how it is. And we see if we can, even through our differences, have something in common. If we can establish interfaces or points of contact, this is extremely productive. The first thing to do is to break the colonized mindset. Because then you start to relate to each other the way the other is, and then you begin to hear what the other is talking about. The "Anthropophagic Manifesto" is a fundamental point of this story, I even give a talk about the Brazilian's Hamletian dilemma, which is an inverted mirror of the dilemma that we pose for the Indians: "you have to be Brazilian, otherwise you have no right to exist ". Then, when they become Brazilians, people say, "You see, you stopped being a native, so you're no longer indigenous, you no longer have the right to certain prerogatives." If she/he insists on being indigenous, you say "You see, you do not want to be Brazilian." This is what Gregory Bateson called "double bind" in psychology, you put two impossible positions for the person, she/he can not assume either, and he/she becomes schizophrenic. The pit that was thrown up, formulated by Oswald's Hamletian doubt, was "tupi or not tupi, that's the question." Enunciated in English! It is vertiginous. The more you think about it, the more you see what the Brazilian's problem is, who doesn't know who she/he is. Then I think it has to be transformed not into a "or, or", "tupi or not tupi", but rather in "tupi and not tupi".

* TUPI AND NOT TUPI *


Foto: Daniel Nozzle Drive, Helpers.

SOMOS TODOS

PARDAL


Cientista maluco "vintage".

Procedimento em coração artificial no filme O Homem Imortal (1939).

A

dalberto Maduar, tradutor e roteirista da Editora Abril, deve ter pensado, muito acertadamente, que Gyro Gearloose não só era um nome muito estranho aos ouvidos brasileiros como também que, numa tradução ao pé da letra (algo como Pardal Periscópio), ficaria um tanto sem sentido. Optou, então, por batizar como Professor Pardal o personagem criado pelo cartunista Carl Barks que estreou em 1952, na HQ “Gladstone’s Terrible Secret” (no Brasil, “A Sorte do Gastão” ou “Sorte É Pra Quem Tem”) e se tornou um ícone da cultura pop mundial, sinônimo de cientista maluco e com vários paralelos na vida real. Não será descabido afirmar que todo mundo conhece ou já conheceu um Professor Pardal de carne e osso. O inventor norte-americano Dean Kamen diz ter se inspirado na criação de Carl Barks para dar forma a algumas de suas invenções, como o Segway Human Transporter, um meio de transporte de duas rodas lançado na década de 1990 e já bastante comum nos dias de hoje. Essa invenção possui um 92

giroscópio que permite a seu piloto ter um maior equilíbrio, e faz com que o Segway pare em pé. Kamen é o fundador da DEKA Research & Development Corporation, empresa que ficou famosa mundialmente por suas invenções inovadoras, e idealizador do First, uma organização criada com o intuito de incentivar jovens a se interessarem por ciência e tecnologia. Há cerca de 440 patentes registradas sob seu nome, apresentadas ao longo de mais de 30 anos de trabalho como inventor. Há quem faça da invenção um negócio ou um investimento, mas a representação do Professor Pardal abarca também a esfera do despropósito. O personagem dos quadrinhos tem em sua conta criações birutas e inúteis, como a “Máquina de Fazer Nada” e o “Chapéu Pensador”, um pequeno telhado com um ninho de corvos que supostamente o ajuda a ter novas ideias brilhantes. Mesmo a maior invenção do Professor Pardal das HQs, o minirobô Lampadinha, não tem propriamente uma função ou finalidade, senão a de conselheiro do seu criador.

* SOMOS TODOS PARDAL *


Franz Gsellman e a Máquina do Mundo. Foto: Gery Wolf.

O austríaco Franz Gsellmann tornou-se célebre após trabalhar intensamente, ao longo de 23 anos, num invento que batizou como “Máquina do Mundo”. Gsellmann nunca teve qualquer conhecimento científico ou de engenharia mecânica. Sua monumental criação gira, faz barulhos de cliques e assobios, emite luzes e um monte de outras coisas, mas, na verdade, ninguém sabe qual é a função do artefato ou porque Franz o criou. Algumas explicações simbólicas ou metafóricas dão conta de que a estrutura é uma simples forma de demonstrar a complexidade do funcionamento da natureza ou que a máquina expressa o funcionamento da alma humana. E por falar em criações aparentemente sem utilidade, que apenas giram, fazem barulhos de cliques, assobios, emite luzes e um monte de outras coisas, temos, em Belo Horizonte, o Presépio do Pipiripau, com sua complexa rede de bonecos e cenários. Criada pelo artesão Raimundo Machado Azevedo em 1906, foi

O escultor George Rhoads montando uma de suas Ball Machines.

doado à UFMG em 1976 e tombado pelo patrimônio histórico nacional em 1984. O Presépio é composto por reproduções e miniaturas móveis que narram do nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo, com 580 figuras e 45 cenas. O mecanismo de funcionamento do Presépio foi recentemente restaurado e sua visitação reaberta. A engenhoca natalina encontra-se exposta no Museu de História Natural da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Conceitualmente não muito distante da “Máquina do Mundo” estão as “Máquinas de Rube Goldberg”, que são deliberadamente aparelhos que realizam uma tarefa muito simples de uma forma muito complexa, geralmente usando uma reação em cadeia. Reuben Garrett Lucius Goldberg foi um artista plástico, cartunista, escultor, escritor e engenheiro norte-americano. A expressão “Rube Goldberg Machine” é tida como originada por volta de 1930, para descrever as ilustrações

NÃO SERÁ DESCABIDO AFIRMAR QUE TODO MUNDO CONHECE OU JÁ CONHECEU UM PROFESSOR PARDAL DE CARNE E OSSO.

* SOMOS TODOS PARDAL *

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O Presépio do Pipiripau é uma atração turística em Belo Horizonte.

"Realizar por meio extremamente complexo e desviado o que realmente ou aparentemente poderia ser feito de maneira simples".

Na Inglaterra, as traquitanas complexas sem utilidade são chamadas de "Heath Robinson". 94

e as máquinas absurdas que ele criava. Seus desenhos, por exemplo, quase sempre incluíam um animal vivo que era posto para realizar parte da sequência de tarefas. O termo apareceu pela primeira vez no “Webster’s Third New International Dictionary” com a definição de “realizar por meio extremamente complexo e desviado o que realmente ou aparentemente poderia ser feito de maneira simples”. Desde então, expandiu-se a expressão para designar qualquer tipo de engenhoca ou sistema excessivamente complicado. Muitos criadores de “Máquinas de Rube Goldberg” participam de competições, como as que tradicionalmente acontecem no Novo México (EUA). No início de 1987, a Universidade de Purdue, no Estado de Indiana, começou a realizar um concurso anual, o “Rube Goldberg Machine Contest”. Nos desenhos das séries animadas de TV, como “Tom & Jerry”, o gato frequentemente utiliza aparelhos complicados, como “Máquinas de Rube Goldberg”, para tentar capturar o ratinho. O mesmo acontece no desenho do Coiote e do Papa-Léguas. Em “Arquivo X”, no episódio “The Goldberg Variations”, um homem

* SOMOS TODOS PARDAL *


Fotos: Leo Drumond / NITRO.

caçado pela máfia se vê às voltas com estranhas sequências de reações, semelhantes às de uma “Máquina de Rude Goldberg”. No filme “A Grande Aventura de Pee Wee” (1985), de Tim Burton, o personagem Pee Wee Herman tinha dispositivos de Goldberg que faziam café da manhã. Esse panorama dá uma dimensão da popularidade dessas traquitanas. O conceito de “Rube Goldberg” também pode ter uma aplicação artística, e um bom exemplo é a videoarte “The Way Things Go”, traduzida por aqui como “O Percurso das Coisas”, dos artistas suíços Peter Fischli e David Weiss. Realizado em 1987, o filme documenta uma longa cadeia aparentemente casual, mas minuciosamente planejada, de indução entre objetos do cotidiano e reações químicas. A instalação foi feita em um armazém com cerca de 100 metros de comprimento – espaço em que foram dispostos materiais como pneus, sacos de lixo, escadas, sabão, tambores de óleo, sapatos velhos, água e gasolina. Fogo e muita pirotecnia foram empregados como gatilhos químicos que criam uma reação em cadeia entre esses materiais, resultando em um clássico da linguagem audiovisual.

O conceito de “Rube Goldberg” também pode ter uma aplicação artística

Professor Butts and the Self-Operating Napkin (1931). Ilustração original por Rube Goldberg.

Purdue Society of Professional Engineers, criadores da maior Rube Goldberg Machine do mundo. Foto: Andy Jessop.

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Frame do video The Way Thing Go, de Peter Fischli e David Weiss (1987).

Assim como a dupla suíça, há outros professores pardais que também se expressam no campo das artes, como o britânico Felix Thorn, que, para fazer música, resolveu se transformar em escultor. Suas criações têm um aspecto de máquina, traquitanas autônomas que tocam uma sequência musical predeterminada. Sua obra pode, eventualmente, parecer uma banda, um instrumento ou um animal. Ao longo de sua carreira, Thorn já passou por muitos ramos da criação: música contemporânea, música popular, artes visuais e a invenção de instrumentos. Com suas esculturas sonoras de grandes dimensões, tornou-se uma referência mundial neste tipo de trabalho. Mesmo sem nenhum glamour artístico, o Sr. Bernardo Riedel também logrou grande prestígio com suas criações. Trata-se de um professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e antigo astrônomo do Observatório Astronômico Frei Rosário. Ele é hoje considerado pela comunidade científica como um dos principais especialistas brasileiros na construção de telescópios. O primeiro foi em 1954, período em que se associou ao Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais. Em 1978 fundou a B. Riedel Ciência e Tecnologia, em Belo Horizonte, com o objetivo de fabricar instrumentos astronômicos de qualidade, montando telescópios, cúpulas, lentes, espelhos, filtros e acessórios diversos ligados à observação astronômica.

As criações de Felix Thorn têm um aspecto de máquina, traquitanas autônomas que tocam uma sequência musical predeterminada. 96

Felix's Machine, de Felix Thorn.


Foto: Sofia Ilyas - Oneyemusic.

Prof. Bernardo Riedel em sua oficina. Foto: Leo Drumond / NITRO.

Em sua oficina, em Belo Horizonte, telescópios sofisticados nascem por meio de máquinas construídas a partir de motores de sorveteiras, polias de máquinas de costura, mecanismos hidráulicos de cadeiras de dentista, eixo de assadoras de frango, bomba de vácuo da força aérea norte-americana, correias de copiadoras e outras geringonças. Um de seus maiores orgulhos é a câmara de vácuo que pertenceu à fábrica de válvulas da RCA Victor em Contagem-MG, até a década de 1960. Antes de entrar na câmara de vácuo para ser transformada em espelho de telescópio, a lente é aquecida num antigo forno de pizza. Desenvolvedor de diversas técnicas originais, algumas delas em plena sintonia com os procedimentos gambiológicos, Bernardo Riedel ganhou, efetivamente, da comunidade astronômica amadora o apelido de Professor Pardal. O cientista tornou-se também tema do documentário “Kappa Crucis”, dirigido pelo cineasta João Borges, e pouco a pouco vai tornando-se conhecido não só pela comunidade de gambiólogos, pardais e adjacentes, mas também por um público mais amplo, por meio da exibição cada vez mais frequente do filme no circuito internacional de festivais de cinema. DB

Desenvolvedor de diversas técnicas originais, Bernardo Riedel ganhou, efetivamente, o apelido de Professor Pardal. 97


WE ARE ALL GEARLOOSES Adalberto Maduar, translator and screenwriter at Editora Abril must have thought, very correctly, that Gyro Gearloose wasn’t only a very strange name to Brazilian ears, but also that, in a literal translation (something like Periscope Sparrow), it would be somewhat meaningless. He chose, then, to name as Professor Pardal (Professor Sparrow) the character created by cartoonist Carl Barks, which debuted in 1952, in the comic book "Gladstone's Terrible Secret", and became an icon of the world pop culture, synonymous of crazy scientist, with several parallels in real life. It will not be unreasonable to claim that everyone knows or have met a Gyro Gearloose of flesh and blood. American inventor Dean Kamen says he was inspired by the creation of Carl Barks to shape some of his inventions, such as the Segway Human Transporter, a two-wheeled mode of transportation launched in the 1990s and already quite common today. This invention features a gyroscope that allows its rider to have a better balance, and makes the Segway stand upright. Kamen is the founder of DEKA Research & Development Corporation, a company that became world famous for its innovative inventions, and he is also founder of First, an organization created to encourage young people to become interested in science and technology. There are about 440 patents registered under his name, presented over more than 30 years of work as an inventor. There are those who make the invention a business or an investment, but the representation of Gyro Gearloose also encompasses the sphere of nonsense. The comic book character has quirky and useless creations such as the "DoNothing Machine" and the "Thinker Hat," a small roof with a nest of crows that supposedly helps him to come up with bright new ideas. Even the greatest invention of the comics’ Gyro Gearloose, the minirobot Little Helper, hasn’t an exact function or purpose, but rather one of adviser of its creator. 98

The Austrian Franz Gsellmann became famous after working intensely, for 23 years, in an invention that he named World Machine. Gsellmann has never had any scientific or mechanical engineering learning. His monumental creation revolves, makes noises of clicks and whistles, emits lights and a lot of other things, but, in fact, no one knows what the artifact's function is or why Franz had created it. Some symbolic or metaphorical explanations suggest that the structure is a simple way of demonstrating the complexity of nature's functioning or that the machine expresses the functioning of the human soul. And speaking of seemingly useless creations that only rotate, make noises of clicks, whistles, emits lights and a lot of other things, we have in Belo Horizonte the Pipiripau Crib, with its complex network of dolls and scenarios. Created by the artisan Raimundo Machado Azevedo in 1906, it was donated to UFMG in 1976 and registered in the Brazilian national historical patrimony in 1984. The crib is composed of mobile reproductions and miniatures that tell of the birth, life, death and resurrection of Christ, with 580 figures and 45 scenes. The crib’s mechanism of operation was recently restored and had its visitation reopened. The Christmas gadget is exhibited at the Museum of Natural History of UFMG (Federal University of Minas Gerais). Conceptually not too far from the World Machine are the Rube Goldberg Machines, which are deliberately devices that perform a very simple task in a very complex way, usually using a chain reaction. Reuben Garrett Lucius Goldberg was an American fine artist, cartoonist, sculptor, writer and engineer. The expression Rube Goldberg Machine is believed to have been originated around 1930, to describe the illustrations and the absurd machines he had created. His drawings, for example, almost always included a living animal that was put to perform part of the sequence of tasks. The term first appeared in the "Webster's Third New Inter-


national Dictionary", with the definition of " accomplishing by extremely complex, roundabout means what actually or seemingly could be done simply". Since then, the expression has been expanded to designate any type of overly complicated gadget or system.

ment or an animal. Throughout his career, Thorn has gone through many branches of creation: contemporary music, popular music, visual arts and the invention of instruments. With his large sound sculptures, he has become a world reference in this type of artwork.

Many creators of Rube Goldberg Machines join competitions, such as those that traditionally take place in New Mexico (USA). In the beginning of 1987, the University of Purdue, in Indiana, began to hold an annual contest, the Rube Goldberg Machine Contest. In cartoons of animated TV series, such as "Tom & Jerry", the cat often uses complicated gadgets such as Rube Goldberg Machines in order to capture the mouse. The same happens in Wile E. Coyote and the Road Runner cartoons. In "The X-Files," in "The Goldberg Variations" episode, a man hunted by the mafia finds himself struggling with a strange sequences of reactions, resembling a Rube Goldberg Machine. In Tim Burton's "Pee-wee's Big Adventure" (1985) the character Pee Wee Herman had Goldberg devices that made breakfast. This panorama gives a dimension of the popularity of these trachytes.

Even with no artistic glamor, Mr. Bernardo Riedel has also achieved great prestige with his creations. He is a retired professor at the UFMG (Federal University of Minas Gerais) and a former astronomer at the Frei Rosário Astronomical Observatory. He is now considered by the scientific community as one of the main Brazilian specialists in the construction of telescopes. The first was in 1954, when he joined the Center for Astronomical Studies of Minas Gerais. In 1978 he founded the B. Riedel Science and Technology in Belo Horizonte, with the goal of manufacturing astronomical instruments of quality, assembling telescopes, domes, lenses, mirrors, filters and various accessories related to astronomical observation.

The Rube Goldberg concept may also have an artistic approach and a good example is the video art "The Way Things Go", by Swiss artists Peter Fischli and David Weiss. Produced in 1987, the movie documents a long seemingly casual, but meticulously planned chain of induction between everyday objects and chemical reactions. The installation was put together in a warehouse of about 100 meters long – where materials such as tires, garbage bags, stairs, soap, oil drums, old shoes, water and gasoline were arranged. Fire and lots of pyrotechnics were used as chemical triggers that create a chain reaction, resulting in a classic of the audiovisual language. Likewise the Swiss duo, there are other Gyro Gearlooses who also express themselves in the arts, such as the British Felix Thorn, who, to make music, decided to become a sculptor. His creations have a machine-like appearance, autonomic trachytes that play a predetermined musical sequence. His work may eventually look like a band, an instru-

In his manufactory in Belo Horizonte, sophisticated telescopes are born using machines built from ice cream engines, sewing machine pulleys, hydraulic dentist chair mechanisms, chicken rotisserie shafts, North American Air Force vacuum pumps, copier belts, and other contraptions. One of his greatest prides is the vacuum chamber that belonged to RCA Victor valve factory in Contagem, Brazil, until the 1960s. Before entering the vacuum chamber to be transformed into a telescope mirror, the lens is heated in an old pizza oven. A developer of several original techniques, some of them fully in tune with gambiological procedures, Bernardo Riedel has effectively earned the nickname of Gyro Gearloose in the amateur astronomical community. The scientist also became the subject of the documentary "Kappa Crucis", directed by filmmaker João Borges, and little by little he is becoming known not only by the community of gambiologists, Gearlooses and related, but also by a wider public, through the film's increasingly frequent screening on international film festivals. DB

* WE ARE ALL GEARLOOSES *

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TATUAGENS E

GAMBIARRAS por Taiom Almeida

Foto: Moisen Saman. Cortesia de Sony World Photography Award 2008.


“Nada é mais próximo da comunicação humana do que nosso próprio corpo.”

Célia Maria Ramos

TATUAGEM

Tecnicamente, é uma aplicação subcutânea obtida por meio da introdução de pigmentos na pele, utilizando-se agulhas, a fim de deixar visível alguma marca permanente. Para além disso, tatuagens estão relacionadas a conceitos histórico-sociais agregados, que naturalmente divergem a cada contexto cultural e se transformaram ao longo dos seus 5 mil anos de história. Já serviram como símbolo de força sagrada ou status de nobreza, e também como guia no mundo dos mortos ou para a cura de doenças. A tatuagem teve também seus momentos de estigma, ora com orgulho, ora com pesar, para escravos, nobres, ladrões, guerreiros, prisioneiros, prostitutas e cristãos. Indiferente ao valor cultural agregado, ela carrega algo de íntimo na relação humana. É a forma de se escrever sobre o próprio corpo, de usá-lo como plataforma de comunicação visual. A linha limite que separa o eu dos outros, o invólucro do indivíduo, a pele, que por ser tão íntima a cada um, é sua forma mais crua de relação. É lugar primeiro para emergir as vontades do eu, que podem ter origem em infinitos motivos, mas que transparecem por lá e, por muitas vezes, através de agulhas e tintas.

GAMBIARRA

A vontade de se tatuar surge por infinitos motivos e nos faz descobrir inúmeras maneiras de se marcar. É certo que a técnica evoluiu muito, passando por espinhas de peixe e agulhas de aço, de pedaços de madeiras a máquinas elétricas. Mas o princípio básico se mantém o mesmo desde sempre: perfurar a pele para inserir pigmento. Um exemplo é o que acontece nas cadeias do mundo inteiro. A proibição da prática e a falta de materiais adequados não impedem a vontade de se fazer inscrições corporais definitivas. A procura por soluções une-se ao tempo ocioso da vida no cárcere e alternativas começam a aparecer. Com paciência, um clipe de metal ou uma corda de violão podem se tornar uma agulha, ou até sola de sapato pode se transformar em tinta. Existem incontáveis receitas e formas de se montar um equipamento básico para tatuagem. Desde que se entenda o princípio, as soluções começam a surgir a partir da criatividade e disponibilidade de materiais.

* TATUAGEM E GAMBIARRA *

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TATUAGEM DE CADEIA MARA SALVATRUCHA E M-18 Gangues formadas por imigrantes de origem latina, como salvadorenhos e mexicanos, que surgiram na década de 1980 entre ruas e presídios da Califórnia e atualmente se espalham pelas Américas Central e do Norte. Era comum ver os membros das gangues com tatuagens no rosto, pescoço e mãos, lugares difíceis de serem vestidos e que mostram a coragem e o desejo de pertencer à “família”, assumindo permanentemente a identidade do grupo.

Cortesia: John Sevigny http://www.johnsevigny.org/

MÁFIA RUSSA Conhecida como Vory v Zakone, ou “ladrões na lei”, não costumam tatuar o rosto, porém a complexidade e a riqueza de seus códigos chamam a atenção. Sendo uma organização hierárquica, as tatuagens têm o papel de classificar a escala social dentro da facção, contando também a história da vida de quem as carrega.

NO BRASIL Os principais registros têm base na pesquisa do psiquiatra Moraes Mello, que trabalhou no Carandiru nos anos 1920, e analisou mais de três mil diferentes marcas nos corpos dos detentos. Além dos motivos estéticos e do ócio, as tatuagens carcerárias pesquisadas apontaram para traços da personalidade do criminoso, mostrando tanto as especialidades do detento no mundo do crime, quanto os seus amores e preferências sexuais. Confira mais fotos de tatuagens de cadeia em:

https://br.pinterest.com/taiom/ 102

* TATUAGEM E GAMBIARRA *


MATERIAIS BÁSICOS PARA

TATTOO AGULHA O que faz a tatuagem não é a máquina especial desenvolvida para a prática. Basta ter agulha e tinta e, manualmente, ponto por ponto, furo por furo, pode-se fazer uma “tattoo”. E por agulha, entende-se qualquer objeto rígido e afiado a ponto de perfurar a pele, como por exemplo, a corda Mi de metal do violão.

TINTA A maioria das tintas é composta basicamente por três componentes: pigmento, que pode ser mineral ou vegetal e confere coloração; veículo, que é o material para transportar o pigmento, normalmente substâncias aquosas ou oleosas; e o aglutinante, como resina acrílica ou cola, que vai fixar o pigmento à superfície. No caso da tatuagem, a cicatrização da pele é responsável pela fixação do pigmento, portanto não se utiliza aglutinante. Para o pigmento preto, usa-se o carbono, recolhido como fuligem proveniente da queima de carvão ou madeira.

PIGMENTO Existem diferentes formas de se fazer a tinta a partir do pigmento extraída da queima. Adicionando somente água, temos a tinta mais básica e primitiva. Mas outras receitas podem incluir a mistura de shampoo para dar mais consistência à tinta, e mesmo vodka ou gim. Ou então, utilizar urina da própria pessoa a ser tatuada, o que mesmo soando bem estranho, pode prevenir infecções e ajudar na cicatrização. 103


MÁQUINA A máquina de tatuagem elétrica moderna foi adaptada de um modelo de caneta para gravação em metal patenteado por Thomas Jefferson. Este modelo utiliza-se de um eletroímã, mas existem outros que usam a força de um pequeno motor elétrico. O que essas versões fazem, na verdade, é apenas repetir o movimento de "sobe e desce" necessário para que a agulha perfure a pele repetidas vezes, fazendo os pontos em sequência tornarem-se uma única linha. Movimento este que pode ser pacientemente repetido à mão, segurando diretamente a agulha com a ajuda de uma haste e furando ponto a ponto.

de três partes básicas: motor, base em forma de L e ponteira. O motor pode ser encontrado em diferentes aparelhos elétricos, como toca-fitas, videocassete, escova de dentes elétrica, videogame, carrinho de controle remoto, barbeador, CD player, etc. Ele é responsável pelo movimento circular, que a partir da inserção de um contraeixo passa a ter um diâmetro de giro maior, dando a distância necessária para o movimento da agulha. A base em forma de L é a peça central onde se apoiam o motor e a ponteira, colocando-os em ângulo de 90º. A ponteira é o bico da máquina, onde o tatuador a segura e por onde a agulha passa internamente.

A maioria das máquinas caseiras ou carcerárias utilizam um motor de rotação e são compostas

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• Colher ou garfo velho • Fita isolante • Agulha de costura • Raio de bicicleta • Fio-dental • Isqueiro • Tesoura e estilete • Carregador de celular (que não tenha mais uso) • Motor DC de rotação (3 a 6 Volts)

BIBLIOGRAFIA RAMOS, Célia Maria Antonacci. Teorias da tatuagem: corpo tatuado: uma analise da loja Stoppa Tattoo da Pedra. Florianópolis: UDESC, 2001. SIDOROV, Alexander. Russian Criminal Tattoo Encyclopaedia. Volumes I, II, e III. Londres: FUEL, 2008. TOFFOLLI, Rodrigo de Oliveira. Corpos Tatuados: preliminares a uma abordagem semiótica. In: Estudos Semióticos, no 1. São Paulo, 2005.

* TATUAGEM E GAMBIARRA *

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INFORMAÇÕES BÁSICAS Antes de se arriscar a marcar você ou seus colegas de forma permanente, existem alguns princípios básicos. O primeiro já foi dito, mas vale relembrar para deixar bem claro: TATUAGEM É PERMANENTE! Existem alguns procedimentos de remoção à laser, mas além de caros e doloridos, não garantem a remoção completa dos pigmentos da pele e podem causar cicatrizes ainda maiores que a marca do arrependimento.

terilização e limpeza. O álcool pode ajudar a limpar a área de procedimento e do corpo a ser tatuada e com um isqueiro pode-se esquentar a agulha a ser usada, com o intuito de eliminar germes e bactérias. Utilizar luvas garante a segurança do tatuador, ao evitar o contato direto com o sangue do tatuado. E o mais importante é que todo material que entrar em contato com sangue deve ser descartado. Isso inclui luvas, agulhas e a própria ponteira da máquina. Agulhas JAMAIS Outro ponto tão óbvio quanto importante é devem ser reaproveitadas! que o ato de tatuar exige procedimentos básicos de biossegurança e assepsia. Por entrar Além disso, para ajudar os aventureiros, vale em contato direto com o sangue, é considera- dizer que a agulha deve perfurar entre 2 e 4 do pela Anvisa como uma microcirurgia e seu milímetros da pele da corajosa cobaia. Isso é, exercício deve obedecer a critérios rígidos. em média, a distância em que se passa da primeira para a segunda camada da derme, mas Na gambiarra caseira ou carcerária é possível pode variar de pessoa para pessoa e também de se atentar apenas a princípios básicos de es- acordo com a região do corpo.

Referência técnica Anvisa para tattoo e piercing: http://bit.ly/2gjNhKZ 106

* TATUAGEM E GAMBIARRA *


TATTOO AND GAMBIARRA by Taiom Almeida

"Nothing is closer to human communication Than our own body. " CĂŠlia Maria Ramos Tattoo

Technically, it is a subcutaneous application obtained through the introduction of pigments in the skin, using needles, in order to make visible some permanent mark. In addition, tattoos are related to aggregate historical-social concepts, which naturally diverge from each cultural context and have transformed over its 5,000-year history. They have already served as a symbol of sacred strength or status of nobility, and also as a guide in the world of the dead or for the cure of diseases. The tattoo also had its moments of stigma, sometimes with pride, sometimes with regret, for slaves, nobles, thieves, warriors, prisoners, prostitutes and Christians. Indifferent to its aggregate cultural value, it carries something of intimate in the human relationship. It is the way to write on the body itself, to use it as a platform for visual communication. The boundary line that separates the self from the others, the envelope of the individual, the skin, which, because it is so intimate to each one, is the crudest form of relationship. It is the first place for the wills of the self to emerge, which may originate in infinite motives, but which appear there and often through needles and paints.

Gambiarra

The will to tattoo oneself arises for infinite reasons and makes us discover innumerable ways of marking. It is true that the technique has evolved greatly, ranging from fish bones and steel needles, from pieces of wood to electrical machines. But the basic principle remains the same since ever: puncture the skin to insert pigment. An example is what happens in prisons around the world. The prohibition of practice and the lack of adequate materials don’t prevent the will to make definitive corporal inscriptions. The search for solutions joins the idle time of prison life and alternatives begin to appear. With patience, a metal clip or a guitar string can become a needle, or even shoe soles can turn into paint. There are countless recipes and ways to assemble a basic tattoo equipment. As long as the principle is understood, solutions begin to emerge from creativity and the availability of materials.

Prison Tattoo - Mara Salvatrucha and M-18 Gangs made up of immigrants of Latin origin, such as Salvadorans and Mexicans, who emerged in the 1980s on California's streets and prisons and are now scattered throughout Central and North America. It was common to see gang members with tattoos on their faces, necks and hands, places that are difficult to dress and show the courage and desire to belong to the "family," permanently assuming the identity of the group. * photos: https://br.pinterest.com/taiom/maras/

Russian Mafia

Known as Vor v. Zakone, or "thieves in the law," they don’t usually tattoo their faces, but the complexity and richness of their codes draw attention. Being it a hierarchical organization, tattoos have the role of classifying social scale within the faction, also telling the story of the life of the bearer. * photos: https://br.pinterest.com/taiom/vor-v-zakone/

In Brazil

The main records are based on the research of psychiatrist Moraes Mello, who worked at Carandiru in the 1920s, and analyzed more than three thousand different marks on the bodies of inmates. In addition to the aesthetic motives and idleness, the researched prison tattoos pointed to traits of the criminal's personality, showing both the inmates' specialties in the world of crime, as well as their love and sexual preferences. * photos: https://br.pinterest.com/taiom/carandiru/

Needle And Ink

What the tattoo does is not the special machine developed for practice. One just have to have the needle and ink and manually, point by point, hole by hole, can do a "tattoo". And by needle, we mean any rigid and sharp enough object to puncture the skin, such as the Mi metal string of the guitar: Most paints are composed basically of three components: 107


pigment, which can be mineral or vegetal and confers color; vehicle, which is the material for transporting the pigment, usually aqueous or oily substances; and the binder, such as acrylic resin or glue, which will attach the pigment to the surface. In the case of tattooing, the healing of the skin is responsible for fixing the pigment, so no binder is used. For the black pigment, carbon, collected as soot from the burning of coal or wood, is used.

Basic Information

There are different ways of making the ink from the pigment extracted from the burning. Adding only water, we have the most basic and primitive paint. But other recipes may include mixing shampoo, to give more consistency to the paint, and even vodka or gin. Or, use the person's to be tattooed own urine, which, even sounding very strange, can prevent infections and help in healing.

Another point, as obvious as it is important, is that the act of tattooing requires basic procedures of biosafety and asepsis. By coming into direct contact with the blood, it is considered by Anvisa as a microsurgery and its exercise must obey strict criteria.

Machine

The modern electric tattoo machine has been adapted from a patented metal engraving pen modeled by Thomas Jefferson. This model uses an electromagnet, but there are others that use the power of a small electric motor. What these versions actually do is just to repeat the "up and down" movement necessary for the needle to pierce the skin over and over again, making the sequenced stitches become a single line. This movement can be patiently repeated by hand, directly holding the needle with the help of a rod and sticking point to point. Most homemade or prison machines use a rotating motor and are composed of three basic parts: motor, L-shaped base and ferrule. The motor can be found in different electrical appliances such as cassette players, VCR, electric toothbrush, video game, remote control cart, shaver, CD player, etc. It is responsible for the circular movement, which from the insertion of a countershaft happens to have a larger turning diameter, giving the necessary distance for the movement of the needle. The L-shaped base is the center piece where the motor and the tip rest, placing them at a 90º angle. The ferrule is the nozzle of the machine, where the tattooer holds it and where the needle passes internally. Check out the simplified tutorial below to learn how to set up yours:

Materials:

- pencil 0.7 or larger - spoon or old fork - insulating tape - sewing needle - bicycle radius - floss - lighter - scissors and stylus - cell phone charger (not being used anymore) - DC motor (3-6 V) * Illustration: Machine 1, 2, 3, 4 and 5. 108

Before you risk marking yourself or your colleagues permanently, there are a few basic principles. The first has already been said, but it is worth saying it again: TATTOO IS PERMANENT! There are some laser removal procedures, but apart from being expensive and painful, they don’t guarantee the complete removal of the pigments from the skin and can cause scars even greater than the mark of regret.

In home or prisons’ gambiarra it is possible to pay attention only to basic principles of sterilization and cleaning. Alcohol can help cleanse the area of the procedure and body to be tattooed and with a lighter you can warm up the needle to be used, in order to eliminate germs and bacteria. Using gloves ensures the tattooist's safety by avoiding direct contact with the tattooed's blood. And the most important thing is that any material that comes in contact with blood should be discarded. This includes gloves, needles, and the machine tip itself. Needles NEVER should be reused! In addition, to aid the adventurers, it is worth saying that the needle must puncture between 2 and 4 millimeters of the skin of the brave guinea pig. That is, on average, the distance from the first to the second layer of the dermis, but it can vary from person to person and also according to the region of the body. *Anvisa norms for tattoo and piercing: http://bit.ly/2gjNhKZ

BIBLIOGRAPHY RAMOS, Célia Maria Antonacci. Teorias da tatuagem: corpo tatuado: uma analise da loja Stoppa Tattoo da Pedra. Florianópolis: UDESC, 2001. SIDOROV, Alexander. Russian Criminal Tattoo Encyclopaedia. Volumes I, II, e III. Londres: FUEL, 2008. TOFFOLLI, Rodrigo de Oliveira. Corpos Tatuados: preliminares a uma abordagem semiótica. In: Estudos Semióticos, no 1. São Paulo, 2005.

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TAPP

E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS por Azucena Losana e Carolina Andreetti


O

s projetores de transparências ou slides são dispositivos analógicos ótico-mecânicos desenhados para projetar filmes positivos em grandes dimensões. Durante a década de 1950, no boom de eletrodomésticos dos EUA, desenvolveu-se o primeiro aparelho de uso caseiro para a projeção de imagens estáticas, com inspiração na lanterna mágica, inventada no século XVII. A indústria fotográfica amadora à cores já estava bem estabelecida na classe média pela Kodak (nos EUA), Agfa (na Europa) e Fuji (no Japão). O filme positivo colorido tinha uma vantagem sobre a fotografia, que era requerer somente um estágio no processo de revelação. Além disso, o rolo sendo enviado ao laboratório, o que retornava era apenas uma caixa de fotogramas, montados em molduras plásticas compactas, e não envelopes com papel fotográfico pesado. As projeções tornaram-se

um evento social onde se emulava a projeção de um filme estrelado pela própria família, precedendo o cinema amador de 16 e 8 mm. Os projetores de slides tiveram seu pico de popularidade entre os anos 1960 e 70, quando multiplicaram-se em modelos compactos, simples e relativamente baratos. Os fabricantes japoneses buscavam reduzir o tamanho dos aparelhos e os americanos, a automatização. Os projetores tiveram um grande uso na educação e em apresentações, e podiam ser encontrados em diferentes modelos: automático, manual ou semiautomático, de carretel linear ou circular. Também foram fabricadas variantes, como o retroprojetor. Até o final dos anos 1970, era comum ver esses equipamentos em reuniões familiares, aulas em grupo, conferências e exposições. Estes aparelhos formaram também parte da experimentação audiovisual de artistas e realizadores nas

Os retroprojetores foram, por muitos anos, o equipamento básico para projeção de imagens em sala de aula.

* TAPP E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS *

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Colaboração entre Pablo Light Show & San Fransisco Light Works “The Last of the Best”. Foto: Jay Moss.

psicodelia lumínica que acompanhou o rock nos anos 1960 e 70. Com o avanço da tecnologia digital, o mercado analógico começou a retrair-se. Os componentes e peças de reposição deixaram de ser fabricados, saindo da cadeia de produção industrial. Lentamente, estes dispositivos foram entrando no gabinete dos aparatos sem serventia.

performer. A ilusão de movimento é executada pelo projecionista, seja movendo o modulador em um dos eixos ou vedando a luz com a palma da mão. Por esta razão, é uma ferramenta ideal para a montagem de um cinema sem película, permitindo também o uso de objetos, texturas, tintas, óleos, etc.

Para a construção dos diferentes protótipos, utilizamos papelão O precário requer manuten- coletado nas ruas ou MDF. Com o TAPP (Taller de ção, atenção personalizada Estes materiais permitem e soluções precisas para Proyectores Precarios ou ser modificados manualcada modelo. mente ou utilizando-se “Oficina de projetores precários”, em Português) nos ferramentas simples. Deste propusemos a lançar um espaço de pesqui- modo, o foco de nosso trabalho vai além sa, desenvolvimento e construção de pro- da construção de um dispositivo de projetores analógicos, utilizando recursos e jeção, concentrando-se em explorar suas materiais disponíveis atualmente. Nossos possibilidades visuais e performáticas. projetores são protótipos de código aberto, que podem ser transformados conforme Os projetores que construímos são "precáa necessidade. Pensamos estes dispositi- rios", o que pode significar várias coisas: em vos como "próteses", extensões do corpo do primeiro lugar, pode-se construir um proje112

* TAPP E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS *


Frank Zappa and the Mothers of Invention com projeções analógicas do Joshua Light Show, nos anos 1960.

tor muito rapidamente – algumas horas de trabalho são o suficiente para vê-lo funcionando. Eles são também estruturas instáveis, suas peças podem soltar ou cair: o precário requer manutenção, atenção personalizada e soluções precisas para cada modelo. Soluções que, às vezes, não serão repetidas. Soluções sob medida para cada projetor, únicas.

lâmpada dicróica e lentes chinesas. O resultado é o esqueleto de um sistema de projeção ao qual se pode adaptar diferentes fontes de luz, aparatos óticos e elementos de modulação.

Trabalhando com esses Frankys, aprendemos a possibilidade de intercambiar três elementos principais: a fonte de luz, a parte ótica e os moduladores. Entendemos que, manejando estas variáveis, podemos consEntendemos estes aspectos do "precário" que se Algo instável, que perde truir inúmeros protótipos seu equilíbrio, pode ser manifestam em nossos para projeção de transparêntambém a possibilidade de cias ou objetos opacos. No projetores como um pouma mudança de estado. entanto, o que nunca consetencial de transformação. guimos garantir é que dois Algo instável, que perde seu equilíbrio, pode ser também a possi- projetores serão iguais. Mesmo que utilizemos bilidade de uma mudança de estado. Nos as mesmas lentes, saídas do mesmo container obriga a manter os sentidos em alerta, procedente da China, o resultado é sempre diencontrar soluções, resolver problemas. ferente em distância focal ou luminosidade. Em outras palavras, ao contrário da produção indusUm dos modelos mais desenvolvidos no trial, que busca modelos em série, na construção TAPP, batizado de "Franky", é um projetor precária nós sempre temos diferenças, modelos de transparências feito de madeira MDF, únicos e nenhuma padronização é possível.

* TAPP E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS *

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Galeria de projetores precários desenvolvidos pela TAPP em workshops.

Os moduladores são elementos que se interpõem na trajetória da luz a ser projetada através do sistema ótico. Em um projetor, a parte ótica funciona como um microscópio, que amplia o que, a olho nu, quase não percebemos. Uma característica dos nossos projetores é que podemos converter quase qualquer coisa em um modulador de luz. Tudo que seja transparente, translúcido ou permita a passagem de luz sob a forma de contraste pode ser material projetável. Assim, encorajamos os participantes do TAPP a ligarem suas antenas e colocarem seu radar em “modo desfazer" ao andarem na rua, para olharem com novos olhos, por exemplo, utensílios de cozinha ou investigarem elementos orgânicos como plantas ou insetos. Grandes tesouros estão escondidos a nosso redor, mesmo no lixo. Claro que podemos também encontrar filmes de slides escondidos em armários ou brechós, ou mesmo produzi-los com pigmentos, tintas, gel ou óleo.

Um modelo que desenvolvemos em oficinas curtas ou viagens é o "ZAPATAPP". Consideramo-lo o modelo mais sintético e simples, algo como a expressão mínima de um projetor: uma caixa de sapatos ou de papelão, duas lentes e uma fonte de luz. Se uma lanterna de LED é usada como fonte de luz, obtemos ainda um projetor sem fio, ideal para uso externo. Outro aspecto desenvolvido no TAPP é a experimentação de trabalho coletivo. Nossa dinâmica de trabalho é de oficinas em grupo, onde o conhecimento e as experiências são compartilhadas de modo horizontal. Cada edição do TAPP culmina na formação de uma Orquestra Audiovisual Improvisada, em que os participantes criam coletivamente uma partitura que é executada ao final da oficina. Com a Orquestra, nos interessa explorar as possibilidades de projeção múltipla, as relações sinestésicas entre luz e som e, acima de tudo, a possibilidade de criação coletiva em tempo real.

http://proyectoresprecarios.blogspot.com.ar/

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TAPP

AND THE POTENTIALITY OF PRECARIOUS IMAGES

by Azucena Losana e Carolina Andreetti

Transparency or slide projectors are optical-mechanical analog devices designed to project large-scale positive films. During the 1950s, in the U.S. home appliance boom, the first homemade appliance was developed for the projection of static images, inspired by the magic lantern, invented in the seventeenth century. The amateur color photographic industry was already well established in the middle class by the work of Kodak (in the U.S.), Agfa (in Europe) and Fuji (in Japan). The colored positive film had an advantage over photography, which was to require only one stage in the process of revelation. In addition, the roll being sent to the lab, what returned was just a box of frames, mounted in compact plastic frames, and not envelopes with heavy photographic paper. The projections became a social event where the projection of a film starring the family itself was emulated, preceding the amateur cinema of 16 and 8 mm. Slide projectors had their peak of popularity between the 1960s and 1970s, when they multiplied into compact, simple, and relatively inexpensive models. Japanese manufacturers sought to reduce the size of appliances and the Americans, the automation. The projectors had great use in education and presentations, and could be found in different models: automatic, manual or semiautomatic, of linear or circular reel. Variants were also made, such as the overhead projector. By the late 1970s, it was common to see such equipment in family gatherings, group lessons, conferences and exhibitions. These devices were also part of the audiovisual experimentation of artists and directors in the psychedelia of light that accompanied the rock in the 1960’s and 70’s.

With the advancement of digital technology, the analogue market begun to shrink. Components and spare parts were no longer manufactured, leaving the industrial production chain. Slowly, these devices were entered into the cabinet of the apparatus without service. With TAPP (Taller de Proyectores Precarios or "Workshop of Precarious Projectors" in English) we set out to launch a space for research, development and construction of analog projectors, using resources and materials currently available. Our projectors are open source prototypes, which can be transformed as needed. We think of these devices as "prostheses", extensions of the performer's body. The illusion of motion is performed by the projectionist, either by moving the modulator on one of the axes or sealing the light with the palm of the hand. For this reason, it is an ideal tool for the assembly of a cinema without film, also allowing for the use of objects, textures, paints, oils, etc. For the construction of different prototypes, we use cardboard collected in the streets or MDF. These materials can be modified manually or by using simple tools. In this way, the focus of our work goes beyond the construction of a projection device, concentrating on exploring its visual and performance possibilities. The projectors we build are "precarious", which can mean a number of things: First, you can build a projector very quickly - a few hours of work is enough to see it working. They are also unstable structures, their parts can drop or fall: The precarious requires maintenance, personalized attention and precise solutions for each model. Solutions that sometimes will not be repeated. Solutions tailored to each projector, unique.

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We understand these aspects of the "precarious" that manifest in our projectors as a potential of transformation. Something unstable, which loses its balance, may also be the possibility of a change of state. It forces us to keep our senses on alert, to find solutions, to solve problems. One of the most developed models in TAPP, called "Franky", is an overhead projector made of MDF wood, dichroic lamp and Chinese lenses. The result is the skeleton of a projection system to which different light sources, optical devices and modulation elements can be adapted. Working with these Frankys we learned the possibility of exchanging three main elements: the light source, the optical part and the modulators. We understand that by manipulating these variables, we can construct numerous prototypes for the projection of transparencies or opaque objects. However, what we can never guarantee is that two projectors will be similar. Even if we use the same lenses, from the same container from China, the result is always different in focal length or brightness. In other words, unlike industrial production, which seeks models in series, in precarious construction we always have differences, unique models, and no standardization is possible. The modulators are elements that interpose in the trajectory of the light to be projected through the optical system. In a projector, the optical part functions like a microscope, which enlarges what, with the naked eye, we hardly perceive. A feature of our projectors is that we can convert almost anything into a light modulator. Anything that is transparent, translucent or allows for the passage of light in the form of contrast can be projectable material. Thus, we encourage TAPP participants to connect their antennas and put their radar in "undo mode" when they walk in the street, to look with new eyes, for example, kitchen utensils or to investigate organic elements like plants or insects. Great treasures are hidden around us, even in the trash. Of course, we can also find hidden slides in cabinets or thrift stores, or even producing them with pigments, paints, gel or oil. One model that we develop in short workshops or trips is the "ZAPATAPP". We consider it the most synthetic and simple model, something like the minimal expression of a projector: A shoebox or cardboard box, two lenses and a light source. If an LED flashlight is used as a light source, we also get a wireless projector, ideal for outdoor use. Another aspect developed in the TAPP is the experimentation of collective work. Our work dynamics are group workshops, where knowledge and experiences are shared horizontally. Each edition of the TAPP culminates in the formation of an Improvised Audiovisual Orchestra, in which the participants collectively create a score that is executed at the end of the workshop. With the Orchestra, we are interested in exploring the possibilities of multiple projection, the synesthetic relations between light and sound and, above all, the possibility of collective creation in real time.

http://proyectoresprecarios.blogspot.com.ar/ 116

* TAPP AND THE POTENTIALITY OF PRECARIOUS IMAGES *


CUIDADOS PALIATIVOS por Liliana Gil


“UÊ, ISSO AÍ QUE VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE GAMBIARRA EU NÃO CONHEÇO,

Começávamos bem. A portuguesa voou mais de sete mil quilômetros para investigar a gambiarra e afinal está perdida nos substantivos. “A gambiarra que eu conheço é um fio com quatro ou cinco bocais. Isso sim é gambiarra. Agora as outras coisas... isso chama-se improviso, paliativo, quebra-galho…” Do topo da sua laje com vista para a comunidade do Adeus no Complexo do Alemão, Seu Silva enfrentava sereno as minhas perguntas mediadas por um aparato de filmagem montado com fita adesiva numa tábua de passar. NÃO!”

gambiarra não se esgotam na necessidade. Há também o tempo a menos e o tempo a mais, a falta de certos materiais e a relativa abundância de outros, as infraestruturas estatais e privadas que tardam em chegar, a especificidade ou urgência de um determinado problema, a apreciação da reutilização, ou até mesmo a zoeira e o prazer de ser inventivo. Todos estes Era a segunda semana que ali estava reco- motivos, por sua vez, se desdobram em intrinlhendo histórias sobre gambiarra. Enquanto cados mapas semânticos que refletem o que estudante de doutorado, tenho investigado significa viver improvisando no Adeus. formas vernaculares de hacking e improviso, como o desenrascanço em Portugal, ou a Há mais de quarenta anos vivendo na favela, jugaad na Índia. Por todo o lado se dá um boa parte dos quais trabalhando como pejeitinho, mas o modo como essas práticas são dreiro e, mais tarde, construtor, o Seu Silva reconhecidas e valorizadas varia muito de foi um dos maiores peritos no tema que lugar para lugar. encontrei. O acumular de experiência fez dele um taxonomista do improviso, alguém Com a ajuda de pessoas como o Seu Silva, as que distingue com nuance entre coisas como percepções que tinha inicialmente foram se gatos, gambiarras e paliativos. Gatos, me complexificando. Sim, na favela os recursos ensinou, dizem respeito às ligações de luz, são muitas vezes escassos e as relações de pro- internet e TV a cabo feitas pelos moradores, priedade e trabalho incrivelmente precárias, ligações essas que, apesar da aparente depelo que o improviso faz parte do dia-a-dia. sorganização, formam elaborados sistemas Mas se a impossibilidade de adquirir certos de distribuição de serviços na comunidade. produtos obriga as pessoas a darem um jeito, Gambiarra é para ele uma técnica utilizada a verdade é que os motivos que levam à nos gatos de luz que serve para transformar


um fio abastecedor em várias linhas elétricas. Nenhuma destas práticas é necessariamente improvisada. Já os paliativos – que incluem quebra-galhos e gatilhos –, esses sim, são a joia da coroa da inventividade e o verdadeiro segredo do negócio da construção. Quando surge um imprevisto, quando você tem um trabalho encomendado mas de repente algo quebra ou está em falta e o tempo é limitado e os recursos também, o que é que você faz? Um paliativo. “Paliativo é tudo aquilo que você faz ali de provisório”, na hora. O cliente não tem que saber. (Aliás, é até melhor que não saiba.) Com o humor que caracteriza o assunto, Seu Silva partilhou comigo algumas das suas aventuras. Teve aquela vez em que o depósito de água do carro se estragou e ele consertou com uma garrafa. E aquela em que ele se esqueceu do garfo e acabou almoçando com uma colher que fez a partir de um balde de plástico. E aquela outra em que reparou o fundo duma caixa de água com o tampo duma mesa, e a outra ainda em que o cano da Dona Alva rompeu e ele salvou a situação com uma junta velha de bicicleta. Um bom construtor tem que dominar a arte dos cuidados paliativos.

paliativos ocupam-se de doentes terminais, daqueles que, não podendo ser curados, podem ao menos ser aliviados. Que coisas são estas que estão quebrando e vão sendo cuidadas pelas mãos de Seu Silva? Doutor da vida das coisas, tratando ruínas, adiando permanentemente a catástrofe. Como quem assiste um paciente incurável, Seu Silva emenda e remenda o chão, as paredes, os telhados, os canos e a luz, aliviando os efeitos negativos de uma condição sem modificar a sua causa. E embora a sua intenção é que funcionem como soluções temporárias, muitos dos seus paliativos vão ficando, ficando, ficando, até que viram permanentes, entrando no limbo das quimeras concretas.

O riso de Seu Silva ressoava pela laje afora, atravessando casas e ruelas inclinadas. Seu orgulho nos seus improvisos era evidente, mas cauteloso. "Paliativo não é bom, bom é você fazer a coisa certa”, repetia. Afinal de contas, a constante remediação do mundo é uma tarefa arriscada e a gambiarra é uma habilidade sem ética – pode ser utilizada para fins muito diferentes. E como que antecipando qualquer entusiasmo excessivo que eu pudesse ter com a criatividade da favela, ele frisava que nada daquilo era específico dali e que a necessidade de improviso, mesmo não sendo igual para todos, é uma condição universal. “A necessidade faz você ter que fazer certas coisas, você tem Desde a nossa conversa que penso no termo. que improvisar, não tem jeito. Não é a favela… Enquanto especialidade médica, os cuidados A vida em si ensina que temos que nos virar.”


PALLIATIVE CARE por Liliana Gil

“I have no idea of what you’re talking about.” He paused and I got worried. “Gambiarra is an electrical wire with four or five outputs, that’s gambiarra. Those other things you’re bringing up are improvisations, palliative remedies, quick fixes...” (Interview with Seu Silva, Complexo do Alemão, 08.15.2015) As a student and researcher in anthropology, I’ve been interested in vernacular forms of technological improvisation – things like gambiarra in Brazil or jugaad in India. Admittedly, forms of resourceful repurposing take place everywhere in the world. And yet, these practices can be recognized and valued in very different ways depending on a number of circumstances, from their institutional framing to the functions they achieve, or the expectations about their authors’ abilities and the materials involved. With the help of Seu Silva I confirmed the obvious – that, in the Brazilian poor peripheries known as favelas, resources are so scarce and property and labor relations are so precarious that improvisation becomes a very significant part of daily-life. But I also learned that the values of gambiarra are not limited to poverty and necessity. There are many other reasons to perform it, including: having too much or not enough time; the lack or abundance of a particular material; the delays in the arrival of state and private infrastructure; the specificity or urgency of a problem; even humor and play, zoeira, and the pleasure in being inventive. All these unfold into complex semantic maps about what it means to improvise with materials in Seu Silva’s neighborhood. Seu Silva has worked as a construction worker for more than forty years. He is an expert in gambiarra, distinguishing with nuance between many different notions that I had never heard before. Gatos, he explained, are the electrical, TV, and internet connections made by residents. Apparently informal, these form, in fact, sophisticated distribution networks organized according to a zoning system. Gambiarra, in its turn, is a sort of gato subcategory, a technique used to turn one electrical supply wire into several. None of these practices is necessarily improvised. To understand improvisation, I was told, I would have to look into “palliatives” – including quebra-galhos and gatilhos – the crown jewel of ingenuity and “the true secret of the construction business.” 120

When something unexpected goes wrong, when you have a job to finish and something breaks or is missing and time is short and resources as well, you make a palliative. “Palliatives are anything that you make provisionally, in that very moment.” Nobody needs to know you did it. With the sense of humor that often characterizes the subject, Seu Silva shared with me some of his stories. There was that time when his car’s water tank broke and he fixed it with a PET bottle. And that other time when he forgot his fork and ended up eating his lunch with a spoon made from a plastic bucket. And the other one when he fixed the bottom of a cistern with a table top. When Dona Alva’s pipe broke, he saved the day with a joint from an old bike. A good construction worker must master the art of palliative care. The term stuck with me. As a medical domain, palliative care provides patients with relief from the pain and stress of an illness that cannot be cured. What are these things that keep on breaking and are cared for by the hands of Seu Silva? Doctor of things, treating the life of ruins, constantly mitigating and delaying catastrophes. Just like someone who relieves a terminal patient, Seu Silva fixes floors, walls, ceilings, pipes and wires, lessening symptoms without addressing their cause. And even though his intention is that these palliatives work as provisional solutions, many of them linger; they linger until they become permanent and enter the limbo of object chimeras. Seu Silva’s laugh could be heard far away, I was sure, resounding from the terrace through the neighborhood’s narrow windy streets. His pride in his improvisations was evident, but he was also cautious: “palliatives aren’t good; good is to do it right,” he repeated. After all, the permanent remediation of life is a risky business and gambiarra is an ability without ethics – it can be used for many different ends. And as if warning me of the dangers of excessive enthusiasm for “the poor’s way,” Seu Silva stressed that necessity, although not equal for all, is a universal condition. “Necessity makes you do certain things, you must improvise, there’s no other way. But it’s not the favela... Life itself teaches that you got to find a way.”


EM BUSCA DA

GAMBIARRA PERFEITA por Maira Begalli

J

á faz mais de dez anos, mas lembro do primeiro dia de aula na graduação em Gestão Ambiental. O professor chegou na sala e disse: “Quero que vocês façam o seguinte exercício: deletem desse ambiente tudo o que deriva de plástico e escrevam o que restou em uma folha”. Todo mundo escreveu um monte de coisa. Passados alguns minutos, ele corrigiu a todos. O correto é que o plástico estava em tudo: do fio sintético usado para fazer lingeries até a tinta da parede. Ou seja, o petróleo, matéria-prima utilizada para o fazer o plástico, era onipresente. O petróleo é um combustível fóssil, encontrado em formações geológicas subterrâneas, produto da decomposição de grandes quantidades de matéria orgânica, submetidas a altas temperaturas e pressão, há 150 milhões de anos. Até aí nada de novo... O uso do petróleo foi adotado por populações

humanas há milhares de anos e ganhou amplitude na sociedade contemporânea com o consumo do querosene em larga escala, no final do século XIX, na segunda fase da Revolução Industrial, para suprir a crescente demanda por iluminação das cidades. Desde então, sua queima tem liberado a energia solar acumulada pelos vegetais e organismos fossilizados agregados em sua composição, datada de um pouquinho depois de que o mundo passou a ser mundo. Arrisco a dizer que extrair um líquido viscoço de grandes profundidades da terra e do oceano e depois transformá-lo em tudo quanto é coisa que possa ser vendida e descartada em larga escala foi a maior gambiarra do capitalismo em relação ao planeta Terra. O problema é que todo sistema ecológico possui pontos de equilíbrios, que quando rompidos provocam consequências que o 121


dinheiro não pode conter. As atividades de extração, transformação, produção e descarte de itens confeccionados a partir do “ouro negro” (além de grandes vazamentos) alteraram muitos dos processos ocorridos nos ecossistemas. Tudo isso ainda foi somado ao advento dos meios de transportes motorizados, da motocicleta de entrega do motoboy aos grandes navios intercontinentais atravessando oceanos com cargas de todo tipo - incluindo patinhos de borracha que, vez outra, ainda são encontrados no litoral, anos após o tombamento de um container repleto deles1. É possível, por exemplo, citar a influência desse ciclo no estudo de pássaros na Ilha Midway, parte do território dos Estados Unidos da América, localizada no Oceano Pacífico, entre a América do Norte e a Ásia. Os pássaros comem plástico no oceano e morrem no paraíso2. Voltemos aos vazamentos. O maior desastre ambiental envolvendo petróleo da história aconteceu em 20 de abril de 2010, na plataforma Deepwater Horizon, localizada no 122

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Golfo do México. Os impactos foram noticiados durante bastante tempo e muita gente já deve ter esquecido sem nunca ter feito correlação com seus hábitos. Mas nem todo mundo. Foi nessa época que surgiu o Protei, uma iniciativa para desenvolvimento de drones que possuem movimentos similares aos de cobras e utilizam as correntes marítimas para coletar poluentes3. 2014. Parece que a situação complicou um pouco mais. No Brasil é ano de eleição, e nesse país de biodiversidade gigantesca (porém também em declínio) ainda é propagado o desenvolvimento e o progresso por meio da bonança proporcionada pelas jazidas do pré-sal. Uma perspectiva caída, que se baseia na urbanização e na fabricação de bens de consumo, um modelo de desenvolvimento estabelecido no século XIX e que apresenta altas probabilidades de impactos ambientais de grandes proporções, provocados por vazamentos de petróleo e derivados, como os ocorridos recentemente em 11 praias dos municípios de São Sebastião e Caraguatatuba, litoral norte do estado de São Paulo.

EM BUSCA DA GAMBIARRA PERFEITA

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Enquanto isso, entre a comunidade acadêmica pipoca a urgência de todos os países revisarem seus modelos “de operar”. Depois de anos e anos de queima e extração do óleo que vale ouro, parece que foi acionado um mecanismo chamado “bombas de clarato”. Mas o que é isso? Imagine que o gelo do Ártico, além de refletir a luz solar e evitar uma maciça absorção de calor, também “aprisionasse” hidratos ou claratos de metano. Com o degelo, uma quantidade significativa de metano passaria a ser liberada na atmosfera. A consequência? Aumento da temperatura da Terra e a possível extinção da humanidade em um curto período de tempo. Situações surreais começam a dar as caras: a Terra perdeu um pouco da sua gravidade4, uma epidemia de Ebola passou a nos sondar junto com a queda dos reservatórios de água potável5.Para piorar, a Rússia acaba de anunciar a descoberta, no oceano Ártico, de um campo de petróleo maior que o do Golfo do México e vai começar a extração6. Será o fim? Pode ser, mas “ainda” acredito que não. Nós, humanos, que fizemos tanta estupidez

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mas também descobrimos coisas geniais, não poderíamos fazer mais uma gambiarra? E se houvesse uma forma de absorver em massa esse metano? Um enxame de drones no Ártico? Ou refletir a luz solar, como a superfície branca? Talvez ainda tenhamos tempo para hackear 1. http: //portaldomar.blogspot.com . o quebr/2013/08/o-que-podem-280 nós mesmos fizemos e tentar a gam0 0 -patos-deborracha.html 7 biarra2. nessa ferida h t t p :./ Por / w wisso w . yvale o u t uatentar b e . c o mpara / watch?v=swgPHqIbhSY a relevância dos software e hardware livres e 3. http://edition.cnn.com/2011/10/20/ tech/motherboard-sailing-drone/ abertos, feitos com materiais de baixo custo e 4. http://www.slate.com/blogs/future_ reciclados, para mitigar ou recuperarcauses_ impactense/2014/09/29/antarctic_ice_melt_ small_shift_in_gravity.html?wpsrc=fol_tw tos e 5. http://prosperouswaydown.com/ebolagerar uma economia diferente, baseada game-changer/ na prestação de serviços ambientais8. 6. h t t p : / / w w w . z e r o h e d g e . c o m / news/2014- 09-27/russia-discovers-massive1. http://portaldomar.blogspot.com.br/2013/08/o-que-podemarctic-oil-field-which-may-be-larger-gulf-mexico 28000-patos-de-borracha.html 7. h t t p : / / b r a s i l . e l p a i s . c o m / brasil/2014/09/29/opinion/1412000283_365191. 2. http://www.youtube.com/watch?v=swgPHqIbhSY html 3. http://edition.cnn.com/2011/10/20/tech/motherboard8. http://www.cesarharada.com /thesailing-drone/ political-relevance-of-open-hardware/ 4. http://www.slate.com/blogs/future_tense/2014/09/29/ antarctic_ice_melt_causes_small_shift_in_gravity. html?wpsrc=fol_tw 5. http://prosperouswaydown.com/ebola-game-changer/ 6. http://www.zerohedge.com/news/2014-09-27/russiadiscovers-massive-arctic-oil-field-which-may-be-largergulf-mexico 7. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/ opinion/1412000283_365191.html 8. http://www.cesarharada.com/the-political-relevance-ofopen-hardware/

EM BUSCA DA GAMBIARRA PERFEITA

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123


IN SEARCH OF THE PERFECT GAMBIARRA by Maira Begalli It's been more than ten years, but I remember the first day of classes in Environmental Management. The teacher came into the room and said, "I want you to do the following exercise: delete everything that comes from plastic in this room and write what's left on a sheet of paper." Everyone wrote a lot of things. After a few minutes, he corrected everyone. The right thing is that plastic was in everything: from the synthetic yarn used to make lingeries up to the paint on the wall. That is, oil, the raw material used to make plastic, was omnipresent. Petroleum is a fossil fuel found in subterranean geological formations, product of the decomposition of large quantities of organic matter, subjected to high temperatures and pressure 150 million years ago. Until then nothing new... The use of oil was adopted by human populations for thousands of years and had gained breadth in contemporary society with the consumption of large-scale kerosene, in the late nineteenth century, in the second phase of the Industrial Revolution, to meet the growing demand for city lighting. Since then, its burning has released the solar energy accumulated by fossilized plants and organisms aggregated in its composition, dated a little after the world became world. I venture to say that extracting a viscous liquid from great depths of land and ocean and then turning it into everything that can be sold and discarded on a large scale was the greatest gambiarra of capitalism in relation to planet Earth. The problem is that every ecological system has points of equilibrium, which when broken have consequences that money can not contain. The activities of extraction, transformation, production and disposal of items made from this "black gold" (in addition to large leaks) have altered many of the processes occurred in ecosystems. All this has been added to the advent of motorized means of transportation, from motorcycle delivery to large intercontinental ships crossing oceans with loads of all kinds - including rubber ducks that, once in a while are still found on the coasts, years after the tipping of a container full of them1. It is possible, for example, to cite the influence of this cycle on the study of birds on Midway Island, part of the territory of the United States of America, located in the Pacific Ocean, between North America and Asia. Birds eat plastic in the ocean and die in paradise2. Let's go back to the leaks. The largest oil-related environmental disaster ever happened on April 20, 2010 on the Deepwater Horizon platform in the Gulf of Mexico. The impacts have been reported for a long time and many people may have forgotten it without ever having correlated with its habits. But not everyone. It was at this time that Protei emerged, an initiative to develop drones that have snake-like movements and use sea currents to collect pollutants3. 124

2014. It seems that the situation complicated a little more. In Brazil it is a year of election, and in this country of gigantic (but also declining) biodiversity, development and progress are still propagated through the bonanza provided by the presalt deposits. A bottom-up perspective, based on urbanization and the manufacture of consumer goods, a development model established in the nineteenth century and presenting high probabilities of large-scale environmental impacts caused by oil spills and by-products, such as those recently happened in 11 beaches in the municipalities of SĂŁo SebastiĂŁo and Caraguatatuba, north coast of the state of SĂŁo Paulo. Meanwhile, among the academic community there is the urgent need for all countries to revise their "operating" models. After years and years of burning and extraction of oil that is worth gold, it seems that a mechanism called "clarato bombs" was fired. But what is this? Imagine that the Arctic ice, in addition to reflecting sunlight and avoiding massive heat absorption, also "trapped" hydrates or clarans of methane. With the snowbreak, a significant amount of methane would be released into the atmosphere. The consequence? Rising Earth's temperature and the possible extinction of mankind in a short time. Surreal situations are starting to take over: the Earth has lost some of its gravity4 an epidemic of Ebola has come to plumb us along with the dropping of potable water reservoirs5. To make matters worse, Russia has just announced the discovery, in the Arctic Ocean, of an oil field larger than that of the Gulf of Mexico and extraction will begin6. Is it the end? It may be, but I "still" think it is not. We humans, who did great stupidity but also discovered great things, could not make another gambiarra? What if there was a way to absorb this methane? A swarm of drones in the Arctic? Or reflect the sunlight, like the white surface? Maybe we still have time to hack what we've done ourselves and try to make a gambiarra in this wound7. Therefore, it is important to consider the relevance of open and free software and hardware, made with low-cost and recycled materials, to mitigate or recover impacts and generate a different economy based on the provision of environmental services8.

1. http://portaldomar.blogspot.com.br/2013/08/o-que-podem28000-patos-de-borracha.html 2. http://www.youtube.com/watch?v=swgPHqIbhSY 3. http://edition.cnn.com/2011/10/20/tech/motherboard-sailingdrone/ 4. http://www.slate.com/blogs/future_tense/2014/09/29/ antarctic_ice_melt_causes_small_shift_in_gravity. html?wpsrc=fol_tw 5. http://prosperouswaydown.com/ebola-game-changer/ 6. http://www.zerohedge.com/news/2014-09-27/russiadiscovers-massive-arctic-oil-field-which-may-be-larger-gulfmexico 7. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/ opinion/1412000283_365191.html 8. http://www.cesarharada.com/the-political-relevance-of-openhardware/


Fabio Zimbres Apresenta


por Jacques Fux

GAMBIARRAS

LITERÁRIAS

O Uso da Matemática, Lógica e Computação na Literatura 129


N

é que estavam viciados. Somente eles, não eu”. Diante da mesma restrição imposta, dois microcontos completamente diferentes foram escritos. Diante da mesma restrição, um fenômeno de comunicação está ocorrendo: um volume gigantesco de grandes ou pequenos textos circula diariamente pela Internet e pelos celulares e passa a ser um fator determinante na política, na publicidade, na informação e na literatura. Neste ensaio apresento alguns usos das restrições na literatura – essas, talvez, “gambiarras” matemáticas, tecnológicas e computacionais, concebidas para recriar e refundar a escrita.

o dia 15 de março de 2010, a Academia Brasileira de Letras lançou o primeiro Concurso Cultural de Microcontos. Os microcontos de tema livre deveriam conter no máximo 140 caracteres, seguindo a mesma restrição do Twitter. “Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida” foi o tweet da ganhadora, Bibiana Silveira da Pieve. A segunda colocada, Carla Ceres Oliveira Capeleti escreveu: “Joguei. Perdi outra vez! Joguei e perdi por meses, mas posso apostar: os dados

Gambiarras Literárias Letras e números costumam ser vistos como rio se dá, na maioria das vezes, por meio da símbolos opostos, correspondentes a sistemas apresentação, reflexão e transformação em de pensamento e linguagens distintas e por matéria narrativa de problemas de ordem lóvezes incomunicáveis. Essa perspectiva, no gica – como paradoxos, ambiguidades e jogos entanto, foi muitas vezes refutada pela pró- combinatórios – que objetivam complexificar pria literatura, que em diversas ocasiões va- a narrativa e aumentar sua potencialidade, leu-se de elementos matemáticos como forma ampliando suas possibilidades de leitura. É de melhor explorar sua potencialidade e de certo que nenhuma leitura é unívoca: o texto, por si só, não diz nada; ele amplificar suas possibilidades criativas. É a esses A utilização da matemática no só vai efetivamente procontatos literário-mate- campo literário se dá, na maioria duzir sentido no momenmáticos que nos dedicare- das vezes, por meio da apresenta- to em que é lido. Levando mos ao longo deste breve ção, reflexão e transformação em ao extremo tal perspectiensaio, apresentando al- matéria narrativa de problemas va, um texto seria capaz de produzir tantos sentide ordem lógica. gumas experiências desse dos distintos quanto fosdiálogo entre as letras e os sem as leituras dele feitas. números realizadas ao longo da história literária e discorrendo, com maior profundidade, sobre um grupo emblemático da mesma, em Qual seria, então, o papel da matemática atuação até os dias de hoje: o OULIPO, Ou- nessa relação de amplificação potencial? Por vroir de Littérature Potentielle, grupo literá- que se considera que os jogos combinatórios rio-matemático fundado na França em 1960. aumentam as possibilidades de leitura? Nesse sentido, a própria noção de potencialidade A utilização da matemática no campo literá- torna-se fundamental: potencial é o que ain130

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *


Encontro de autores do OULIPO.

Uma contrainte pode ser entendida como uma restrição inicial imposta à escrita de um texto ou livro, sendo as mais básicas de caráter linguístico. O OULIPO trabalha tanto com as restrições matemáticas quanto com outros tipos de restrições: dado um tema, os integrantes do grupo discutem e compõem textos, livros e pequenos manuscritos com essa res-

trição inicial. Já o grupo criado por Jacques Roubaud e Paul Braffort em 1981 chamado ALAMO (Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs), que é uma extensão computacional do OULIPO, tem como objetivo gerar textos literários automáticos, dados determinadas contraintes. O grupo oferece, também, alguns programas de computador que permitem qualquer pessoa elaborar e produzir seus próprios textos. São eles: CAVF (Conte à Votre Façon) e LAPAL (Langage Algorithmique pour la Production Assistée de Littérature).

da não existe concretamente, mas é passível de existência por apresentar-se como possibilidade latente. Então, se dois leitores, diante do mesmo texto, apresentam diferentes possibilidades de leitura, o que acontece com essa potencialidade se os textos ainda puderem ser permutados, alterados, jogados, falsificados, ludibriados? A matemática potencializa o texto, tornando ainda mais amplo seu campo de leituras possíveis a partir de algoritmos, regras, restrições e contraintes, num contínuo processo de expansão: “Mesmo que o projeto geral tenha sido minuciosamente estudado, o que conta não é o seu encerrar-se numa figura harmoniosa, mas a força centrífuga que dele se liberta, a pluralidade das linguagens como garantia de uma verdade que não seja parcial” (CALVINO, 1995, p. 131).

Jogos Matemáticos e Lúdicos Ainda que a utilização sistemática e rigorosa da matemática na literatura tenha se afirmado com o OULIPO, muitas experimentações de intercâmbio entre as letras e os números foram feitas anteriormente. Um dos primeiros autores que podemos citar nesse âmbito é o trovador Arnaut Daniel, que viveu em Ribérac, França, entre os séculos XII e XIII, considerado um dos grandes poetas da humanidade, responsável pela elaboração de poe-

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *

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mas de grande exigência poética e métrica. Daniel é tido como o criador da sextina, um poema formado por seis estrofes, compostas cada uma delas por seis versos, seguidas de uma estrofe final de três versos. Com um estilo narrativo que busca rimas ricas, palavras ou assonâncias raras, cada linha da sextina termina por uma palavra escolhida entre um grupo de seis palavras previamente fixadas – os vocábulos A, B, C, D, E e F, distribuídos da seguinte forma: ABCDEF - FAEBDC CFDABE - ECBFAD - DEACFB - BDFECA – ECA.

do século XX se interessaram por seus desdobramentos, como Raymond Queneau e Georges Perec, ambos membros do OULIPO.

A grande contribuição de Arnaut Daniel com esse modelo foi a possibilidade de generalização por ele permitida: se substituirmos o 6 por um n qualquer, colocamos em pauta a possibilidade de escritura de um texto qualquer com n estrofes, cada uma com n versos, todos terminados pelas mesmas n palavras. O poeta francês criou, assim, uma estrutura matemática rigorosa para Não é apenas de forma compor sua poesia, deterestrutural que percebemos o minando a priori e com diálogo com a matemática ao recursos matemáticos a longo da história da literatura. estrutura de seus poemas.

Essa construção trata-se, em termos matemáticos, de uma permutação σ dessas seis palavras, que pode ser representada pela matriz 1 2 3 4 5 6 = 2 4 6 5 3 1

Embora os recursos utilizados não sejam muito avançados em termos matemáticos, suas implicações são bastante importantes para o estabelecimento de um diálogo entre a matemática e a literatura: além de esse mesmo tipo de composição ter sido utilizado por poetas de diferentes épocas, muitos escritores

Alice ilustrada por John Tenniel. 132

Não é apenas de forma estrutural, entretanto, que percebemos o diálogo com a matemática ao longo da história da literatura, que pode se dar também em termos conceituais. É o caso dos caminhos matemáticos indicados por Miguel de Cervantes na composição de Dom Quixote, obra que em vários de seus trechos exalta a matemática numa postura romântica que ainda vê, nessa ciência, uma autoridade, reflexo da crença de que conhecer e provar alguma teoria matematicamente é garantia de tranquilidade para a continuidade do raciocínio. Essa visão, entretanto, da matemática como uma ciência perfeita, coerente e consistente, dilui-se no início do século XX, diante dos Teoremas de Incompletude de Gödel1. 1 Nos seus teoremas, Gödel prova que um sistema axiomático não pode atestar sua própria consistência e que, caso ele o faça, só pode ser inconsistente. Além disso, em sistemas com o poder de definir os números naturais, sempre há proposições (chamadas “indecidíveis”) que não podem ser provadas dentro do sistema (portanto, o sistema é incompleto). Desta forma, não se pode provar a completude e consistência de um sistema capaz de fazer aritmética.


Festín de Sancho Panza en la ínsula Barataria. Pintura de Moreno Carbonero.

Mas não é apenas nas referências à mate- Se esse paradoxo, a princípio, pode parecer mática que Cervantes se firma, recorrendo inocente, foi a dificuldade de sua resolução também o autor aos paradoxos lógicos como que levou à criação da Teoria Axiomática recurso ficcional, como numa passagem do de Conjuntos atribuída a Bertrand Russell livro que narra o período em que Sancho foi e que pode, por meio de outro movimento, governador de Barataria, momento em que servir à literatura como importante recurso precisou solucionar complicadas questões de ficcional: o paradoxo do mentiroso, aplicaseus súditos em busca por justiça. Cervantes do à matemática e à lógica, criou problemas se vale, nesse momento, de uma variação do e novos caminhos para sua solução; na literatura, foi utilizado em paradoxo do mentiroso, inúmeras versões por esatribuído ao grego EuO paradoxo do mentiroso, bulides de Mileto no sé- aplicado à matemática e à lógica, critores como Cervantes culo IV a.C., que em sua criou problemas e novos caminhos; e, posteriormente, Jorge Luis Borges, escritor mais simples versão assim na literatura, foi utilizado para quem a matemática se constitui: um homem em inúmeras versões. se constitui como recurso diz que está mentindo; o criativo fundamental. que ele diz é verdade ou mentira? É essa a situação que se reflete no texto de Cervantes: “Se deixarmos passar este homem livremen- Diferentemente de Miguel de Cervantes e te, ele mentiu no seu juramento e, portanto, Arnaut Daniel, Lewis Carroll, que além de deve morrer; e, se o enforcamos, ele jurou escritor foi um importante matemático, utilique ia morrer naquela forca, e, tendo jurado zou como estratégias ficcionais de suas obras a verdade, pela mesma lei deve ficar livre” conceitos estritamente matemáticos e lógicos. Muitas passagens de Alice no País das (CERVANTES, 2002, p.577).

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *

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Maravilhas e Alice através do espelho estão repletas de enigmas e problemas que até os dias de hoje permitem aos leitores múltiplas interpretações. É o caso, por exemplo, dos problemas de relógios apresentados pelo escritor – qual dos relógios marca o tempo mais fielmente? Um que se atrasa um minuto por dia ou um que está sempre parado? –, ou de sua fixação com as imagens dos espelhos e com o jogo de xadrez.

Labirintos

Ilustração contida no livro "Alphabet" de Raymond Queneau, por Claude Stassart-Springer.

Em novembro de 1960, pessoas que se in- Raymond Queneau talvez seja o mais importeressavam tanto pela literatura quanto pela tante nome do grupo por sua participação na matemática reuniram-se para discutir estas fundação do mesmo. Conforme Benabou e questões e formaram o Sélitex (Seminário de Roubaud, é ele o “responsável por esta emLiteratura Experimental). Entre essas pesso- preitada insana”, “um dos pais fundadores” do as estavam François Le Lionnais, Raymond OULIPO ao lado de Le Lionnais. EncicloQueneau, Albert-Marie Schmidt, Jean Que- pedista e matemático amador, Queneau vai val, Jean Lescure, Jacques Duchateau, Claude colocar em prática as concepções de escrita Berge e Jacques Bens. Cerca de um mês de- voluntária que norteiam o grupo por meio de pois, registrava-se nas atas de reunião do gru- diversas obras, dentre as quais se destaca, junpo a mudança de seu nome para OULIPO to aos também reconhecidos Exercices de style – Ouvroir de Littératue Petite cosmogonie portare Potentielle. Essa muOs membros do OULIPO tive, aquela que pode ser dança de nomenclatura acreditam que a potencialidade considerada a primeira é importante, pois ela exprime melhor a diversidade tentativa consciente de utiaponta para uma noção de combinações e manipulações lização da análise combida linguagem. fundamental ao trabalho natória na literatura: Cent do OULIPO: a de pomille milliards de poèmes. tencialidade da literatura. É exatamente essa questão que justifica o abandono do termo Cent mille é uma verdadeira máquina poéti“experimental” presente no acrônimo da pri- ca que possibilita a construção de 10 sonetos, meira denominação do grupo, uma vez que com 14 versos cada um, onde a cada primeiro seus membros acreditam que a potencialida- verso de cada soneto podemos fazer a corresde exprime melhor a diversidade de combi- pondência com outros 10 versos diferentes. nações e manipulações da linguagem, a uti- Já no primeiro verso, temos a combinação de lização de contraintes, da matemática e das 100 possibilidades (102); no terceiro verso, 103 inúmeras possibilidades de leitura. possibilidades; em 14 versos, 1014 possibilidades de poemas. Nas palavras de Queneau: 134

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *


QUENEAU COLOCA EM CENA ASPECTOS PRIMORDIAIS DO TRABALHO LITERÁRIO-MATEMÁTICO DO OULIPO: SEU CARÁTER VOLUNTÁRIO, LÚDICO E DE INTERCÂMBIO COM O LEITOR.

Essa pequena obra permite a cada um compor à vontade cem mil bilhões de sonetos, todos normalmente bem entendidos. É um tipo de máquina de fabricar poemas, mas em número limitado; é verdade que esse número, ainda que limitado, produz leitura por aproximadamente cem milhões de anos (lendo vinte e quatro horas por dia) (QUENEAU apud OULIPO, 2009, p. 879). O poema maquinal de Queneau traz à tona um aspecto da matemática bastante explorado pelo OULIPO e que aporta interessantes perspectivas para a narrativa: a combinatória. Queneau acredita que a literatura é combinatória, e ainda em 1964 queixa-se da falta de instrumental sofisticado que possibilite a exploração da mesma – hoje, as tecnologias informáticas têm propiciado inúmeras experiências nesse campo. É justamente a construção baseada na combinatória que estabelece a principal diferença entre o poema de Queneau e outros textos poéticos: por ser pensado de forma a aceitar – e mesmo a possibilitar – a permutação, sua estrutura, sua rima e sua composição conservam-se, mesmo se executarmos a quase infinita tarefa de 100.000.000.000.000 de

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. São Paulo: Nova Cultural, 2002. OULIPO. Anthologie de l’OuLiPo. Paris: Gallimard, 2009.

combinações possíveis (número que, apesar de muito grande, é finito). Com esse texto, Queneau coloca em cena os três aspectos primordiais do trabalho literário-matemático do OULIPO: seu caráter voluntário, lúdico e de intercâmbio com o leitor. Brincando seriamente com os cem versos do escritor, cabe ao leitor a construção do seu poema, a escolha de um entre os “cem mil bilhões” de poemas diferentes que essa matriz pode gerar. O texto foge, assim, à estrutura que se lhe impõe, escapa pelos interstícios de uma rede que apresenta os mais diversos cruzamentos e os mais distintos percursos... Transforma-se no vão deixado pelo puzzle, no espaço em forma de X que resta na mesa (quase) totalmente preenchida... No baralho de tarô cujas imagens espelhadas abrem-se à imaginação, num processo de criação, ele sim, infinito, incapaz de ser concluído: “Então suas mãos embaralham as cartas, recolhem-nas no maço e recomeçamos tudo do princípio” (CALVINO, 1994, p. 69).


LITERARY GAMBIARRAS: THE USE OF MATHEMATICS, LOGIC AND COMPUTER SCIENCES IN LITERATURE

Jacques Fux On March 15, 2010, the Brazilian Academy of Letters launched its first Cultural Contest of Short Stories. The free theme short stories should have a maximum of 140 characters, following the same restriction of Twitter. "Every Tuesday she would go to the dentist and come back sunny. They told her husband without the slightest anesthesia. She was found on a Wednesday, summarily nightfalled" was the tweet of the winner, Bibiana Silveira da Pieve. Carla Ceres Oliveira Capeleti, second place, wrote: "I played. I lost again! I played and lost for months, but I can bet: the dices were addicted. Only them, not me." With the same imposed constraint, two completely different shorts were written. Faced with the same constraint, a phenomenon of communication is taking place: a gigantic volume of large or small texts circulates daily through the Internet and cell phones and becomes a determining factor in politics, advertising, information and literature. In this essay I present some uses of constraints in literature - these, perhaps, are mathematical, technological and computational gambiarras designed to recreate and refound writing.

Literary Gambiarras Letters and numbers are often seen as opposing symbols, corresponding to distinct and sometimes incommunicable systems of thought and languages. This perspective, however, has often been refuted by literature itself, which on several occasions have used mathematical elements as a way to better explore its potential and amplify its creative possibilities. It is to these literary-mathematical contacts that we will dedicate ourselves in this brief essay, presenting some experiences of this dialogue between letters and numbers throughout the literary history and thus discussing, in greater depth, about an emblematic group of the same, in action until today: the OULIPO, Ouvroir de Littérature Potentielle, a literary-mathematical group founded in France in 1960. The use of mathematics in the literary realm occurs most often through the presentation, reflection and transformation 136

of problems of a logical order in narrative matters - such as paradoxes, ambiguities and combinatory games -, which aim to complicate the narrative and increase its potentiality, expanding its reading possibilities. It is true that no reading is unequivocal: the text, by itself, doesn’t say anything; it will only effectively make sense in the moment that it is read. Taking such perspective to the extreme, a text would be capable of producing as many different senses as its readings. What, then, would be the role of mathematics in this relation of potential amplification? Why do you think combinatorial games increase reading possibilities? In this sense, the very notion of potentiality becomes fundamental: potential is what doesn’t yet concretely exist, but is capable of existence because it presents itself as a latent possibility. So if two readers, facing the same text, present different possibilities of reading, what happens to this potentiality if the texts can still be exchanged, altered, played, falsified, deceived? Mathematics enhances the text, making its field of possible readings even more broad from algorithms, rules, constraints and counterintes, in a continuous process of expansion: "Even if the general project has been thoroughly studied, what counts is not its ending in a harmonious figure, but the centrifugal force that is set free, the plurality of languages as a guarantee of a truth that is not partial" (CALVINO, 1995:131). A contrainte can be understood as an initial restriction imposed on the writing of a text or book, being the most basic of linguistic nature. OULIPO works both with mathematical restrictions and with other types of constraints: given a topic, group members discuss and compose texts, books and small manuscripts with this initial restriction. However, rhe group created by Jacques Roubaud and Paul Braffort in 1981 called ALAMO (Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs), which is a computational extension of OULIPO, aims to generate automatic literary texts, given certain contraintes. The group also offers some computer programs that allow anyone to create and produce their own texts. They are: CAVF (Conte à Votre Façon) and LAPAL (Langage Algorithmique pour la Production Assistée de Littérature).


Mathematical and ludic games Although the systematic and rigorous use of mathematics in literature has been affirmed with OULIPO, many experimentations of interchange between the letters and the numbers had been previously made. One of the first authors to mention in this context is the troubadour Arnaut Daniel, who lived in Ribérac, France, between the 12th and 13th centuries, being him considered one of the great poets of mankind, responsible for the elaboration of poems of great poetic and metrical exigency. Daniel is regarded as the creator of the sextine, a poem consisting of six stanzas, each composed of six verses, followed by a final stanza of three verses. With a narrative style that seeks rich rhymes, rare words or assonances, each line of the sextine ends by a word chosen from a group of six previously fixed words - words A, B, C, D, E, and F, distributed as following: ABCDEF - FAEBDC - CFDABE - ECBFAD - DEACFB - BDFECA - ECA. This construction is, in mathematical terms, a permutation σ of these six words, which can be represented by the matrix

1 2 3 4 5 6 = 2 4 6 5 3 1 Although the resources used are not very advanced in mathematical terms, their implications are quite important for the establishment of a dialogue between mathematics and literature: in addition to this same type of composition being used by poets of different epochs, many writers of the century XX were interested in its developments, such as Raymond Queneau and Georges Perec, both OULIPO members. Arnaut Daniel’s great contribution with this model was the possibility of generalization that it allowed: if we replace the 6 with any n, we put the possibility of writing any text with n stanzas in question, each with n verses, all finished by the same n words. The French poet thus created a rigorous mathematical structure to compose his poetry, determining a priori and with mathematical resources the structure of his poems. It is not only structurally, however, that we perceive the dialogue with mathematics throughout the history of literature, which can also occur in conceptual terms. This is the case of the mathematical paths indicated by Miguel de Cervantes in the composition of Don Quixote, a work that in several of its extracts extols mathematics in a romantic posture that still

sees, in this science, an authority, a reflection of the belief that to know and to prove some theory mathematically guarantees tranquility in the continuity of reasoning. This view, however, of mathematics as a perfect, coherent and consistent science, is diluted in the early twentieth century, in the face of Gödel's Incomplete Theorems1. But it is not only in the references to mathematics that Cervantes establishes himself, and the author also appeals to logical paradoxes as a fictional resource, as in a passage from the book that recounts the period in which Sancho was governor of Barataria, at which point he had to solve complicated issues of his subordinates in search of justice. Cervantes uses, at this moment, a variation of the paradox of the liar, attributed to the Greek Eubulides of Miletus in the fourth century B.C., which in its simplest version is thus constituted: a man says he is lying; What does he say is true or false? This is the situation reflected in Cervantes' text: "If we let this man pass freely, he lied in his oath and therefore must die; And if we hang him, he swore that he was going to die on that gallows, and having sworn the truth, by the same law he must be freed" (CERVANTES, 2002, p.577). If this paradox may seem innocent at first, it was the difficulty of its resolution that led to the creation of the Axiomatic Theory of Ensembles attributed to Bertrand Russell and that can, through another movement, serve literature as an important fictional resource: the paradox of the liar, applied to mathematics and logic, created problems and new paths for its solution; in literature, it has been used in countless versions by writers such as Cervantes and later by Jorge Luis Borges, a writer for whom mathematics is a fundamental creative resource. Unlike Miguel de Cervantes and Arnaut Daniel, Lewis Carroll, who besides being a writer was an important mathematician, used strictly mathematical and logical concepts as his fictional strategies. Many passages from Alice in Wonderland and Alice through the Looking Glass are filled with puzzles 1

In his that an theorems, Gödel proves axiomatic system can not attest to its own consistency and that, if it does, it can only be inconsistent. Moreover, in systems with the power to define natural numbers, there are always propositions (so-called "undecidable") that can not be proved within the system (hence the system is incomplete). In this way, one can not prove the completeness and consistency of a system capable of doing arithmetic.

* LITERARY GAMBIARRAS *

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and problems that allow, even today, for multiple interpretations by readers. This is the case, for example, of the problems of watches presented by the writer - which of the clocks is the most accurate? One that is delayed one minute a day or one that is always stopped? - or his fixation with the images of the mirrors and the game of chess.

Labyrinths In November 1960, people who were interested in both Literature and Mathematics came together to discuss these issues and they formed the Sélitex (Seminar on Experimental Literature). Among these people were François Le Lionnais, Raymond Queneau, Albert-Marie Schmidt, Jean Queval, Jean Lescure, Jacques Duchateau, Claude Berge and Jacques Bens. About a month later, in the minutes of the group meetings, the change of name to OULIPO - Ouvroir de Littérature Potentielle - was recorded. This change of nomenclature is important, as it points to a fundamental notion of OULIPO's work: that of the potentiality of literature. It is precisely this question that justifies the abandonment of the term "experimental" present in the acronym of the first denomination of the group, since its members believe that potentiality expresses better the diversity of combinations and manipulations of the language, the use of contraintes, of mathematics and of reading possibilities. Raymond Queneau is perhaps the most important name of the group for his participation in its foundation. According to Benabou and Roubaud, he is the "responsible for this insane enterprise", "one of the founding fathers" of OULIPO next to Le Lionnais. Encyclopedist and amateur mathematician, Queneau will put into practice the conceptions of voluntary writing that guide the group through several works, among which stands out, along with the also known Exercices de style and Petite cosmogonie portative, that that can be considered the first conscious attempt to use combinatorial analysis in Literature: Cent mille milliards de poèmes. Cent mille is a true poetic machine that enables the construction of 10 sonnets, with 14 verses each, where each first verse of each sonnet can be matched with 10 different verses. Already in the first verse we have the combination of 100 possibilities (102); in the third verse 103 possibilities; in 14 verses 1014 possibilities of poems. In the words of Queneau: This small work allows each one to compose, at will, one hundred thousand billion sonnets, all normally well understood. 138

It is a type of machine to make poems, but in limited numbers; it is true that this number, although limited, produces reading for approximately one hundred million years (reading twenty-four hours a day) (QUENEAU apud OULIPO, 2009, p.887). Queneau's mechanical poem brings to the surface an aspect of mathematics that is extensively explored by OULIPO and which brings interesting perspectives to the narrative: the combinatorial. Queneau believes that Literature is combinatory, and still in 1964 he complains of the lack of sophisticated instruments that make it possible to explore it - today, computer technologies have provided innumerable experiences in this field. It is precisely the construction based on the combinatorial that establishes the main difference between the poem of Queneau and other poetic texts: because it is thought in a way that it accepts - and even allows for - permutation, its structure, its rhyme and its composition are conserved, even if we perform the almost infinite task of 100,000,000,000,000 possible combinations (number that is very large but finite). With this text, Queneau puts on the scene the three primary aspects of OULIPO's literary-mathematical work: its voluntary, playful and interchangeable character with the reader. Playing seriously with the one hundred verses of the writer, it is up to the reader to construct her/his poem, choosing one among the "one hundred thousand billion" of different poems that this matrix can generate. . Thus, the text escapes the structure that is imposed to itself, escapes through the interstices of a network that presents the most diverse crossings and the most distinct paths... It becomes the gap left by the puzzle, in the X-shape space that remains on the table (nearly) fully filled... In the tarot, whose mirror images open to the imagination, in a process of creation, it is infinite, unable to be completed: "Then your hands shuffle the cards, collect them in pack of cards and we start all over again" (CALVINO, 1994, p.69). BIBLIOGRAPHIC REFERENCES CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. São Paulo: Nova Cultural, 2002. OULIPO. Anthologie de l’OuLiPo. Paris: Gallimard, 2009.

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GAMBAREIA Parte IV / IV

A

pé. Fones de ouvido conectados ao telinha. Não por acaso, escuto a trilha sonora de Código 46. O calor está ameno, o sol já se pôs há algumas horas. Cruzo avenidas de asfalto liso e carros velozes, explorando mentalmente o mapa que evito consultar no bolso. Algumas famílias passeiam pelo parque que margeia a orla, e isso ainda me causa estranhamento. Não as famílias em si, exceto talvez pelo horário. Mas é o próprio parque que tem um quê de irreal. Só em volume de água - dessalinizada, bom lembrar -, estes milhares de metros quadrados de grama devem consumir mais do que regiões inteiras do semiárido brasileiro. Isso para não falar de energia, ferramentas e trabalho. Mas aqui tudo é assim. Estamos na borda entre o mar e o deserto. Mas esta cidade faz de tudo para esconder isso. Um segredo entre tantos outros. No meu caminho, algumas pistas - rastros humanos nesse lugar quase vazio de registro histórico. Uma revista e um capacete ao lado de uma tampa de bueiro. O carrinho de supermercado abandonado no meio-fio, emborcado de lado. Um par de botas de trabalho encostadas numa parede baixa. A falha no calçamento ainda esperando os bloquetes, recordando que

são pouquíssimos centímetros que dividem a cidade quase cenográfica da infinita areia. Todo esse cenário artificial, um gigantesco canteiro de obras com prédios brilhantes & bregas atirando lasers para as nuvens, avenidas novas e shopping centers, é na prática produzido com mãos e habilidades humanas, e a construção está longe de acabar. Pessoas construindo um país que não é delas. E nem é para elas, de maneira profunda e clara. Fui convidado a passar duas semanas por aqui como residente em uma universidade. Estou trabalhando com dez estudantes do mestrado em design. São brilhantes. Oito são mulheres, que afluem para cá em busca de horizontes mais amplos de estudo, ainda raros nos outros países árabes. A residência é sobre gambiarra e cultura do conserto, um tema que neste lugar soa algo estranho. O Catar é um país rico, cuja forma atual foi construída de maneira acelerada com recursos oriundos da exploração de gás natural. A VCUQ , minha anfitriã, é na verdade uma universidade estadunidense (Virginia Commonwealth University) que tem uma unidade aqui em Doha. Está sediada


na “Cidade da Educação”, uma iniciativa do governo local que instalou por aqui cinco universidades estadunidenses em um campus moderno. Grande parte dos professores são europeus. Contam com laboratórios totalmente equipados, uma sala com amostras de materiais (centenas, milhares de itens?) e uma biblioteca muito completa e agradável.

entre sociedade e território, o resultado não poderia ser diferente de um consumismo que chega à obsessão.

Um aluno relatou que o que mais se faz nas horas vagas por aqui é comprar coisas. Isso não me surpreende, assim como também não difere tanto do estilo de vida de muitas pessoas que eu conheço em São Paulo. No CaO antigo rei, que há poucos anos abdicou em tar, entretanto, tudo é superlativo. Compra-se favor do filho, já sabia que o gás natural vai muito, usa-se quase nada. Consequentemenacabar, e quis criar alternativas para garantir te, as coisas são descartadas compulsivamente. que no espaço de algumas décadas a economia não dependa só dele. Investiu - de forma bem Meu destino hoje não foi o mercado central caricatural, mas vamos lá - em mídia, tecnolo- remodelado para o turismo, nem algum dos gias, turismo e outras áreas. Sua esposa criou museus internacionais sediados em prédios uma fundação voltada à educação que financia assinados por arquitetos famosos, ou algum projetos em todo o mundo. Mas o país con- hotel internacional em cujo bar o álcool seja tinua tendo características bem particulares. permitido. Fui na verdade a um hipermercado de origem francesa que fica dentro de um shoPor aqui, os habitantes não pagam impos- pping center, para comprar crédito para meu tos, e cidadãos locais (uns 15% da população telinha e petiscos para comer nos horários em atual) têm educação e saúde de graça. A mão que não tenho refeições garantidas no hotel. de obra para atividades menos qualificadas vem do sudeste asiático. Cargos técnicos e O shopping me incomodou menos do que eu administrativos de alto nível são usualmen- esperava. Muito parecido com lugares similate ocupados por europeus e estadunidenses, res no Brasil, exceto pela enorme diversidade exceto no setor ligado à extração de gás que étnica/nacional e de vestuário. Curiosamente, é o favorito dos jovens Cataris e no qual têm a gente perde de longe neste tema. Por outro preferência de contratação. lado, ele tinha também a pista de esqui no gelo, as lojas internacionais, o fast food e outras coiJuntando um altíssimo poder de compra e o sas usuais nessa cultura homogênea e entedianbaixo nível de enraizamento ou mesmo afeto te do shopping center. Mas além de tudo vi 140

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muitas sacolas de compras, e não consigo parar de pensar no destino de todas estas coisas. Na inauguração da minha residência, conversei com os estudantes sobre lixo, descarte e reuso. Apresentei vídeos: Ilha das Flores; Comprar, tirar, comprar; alguns trechos do Lixo Extraordinário; Digital Handcraft. Uma aluna comentou que aqui as pessoas simplesmente jogam as coisas fora, mas que pensando bem, este “fora” não existe. Essa não é uma ideia nova, mas aqui tornase ainda mais radical. No Catar, jogar fora é atirar ao implacável deserto ou a um mar disputado. Um dos professores contou o causo de que o país teria chegado a construir uma planta para reciclagem de diversos materiais, com os equipamentos mais avançados que o dinheiro podia comprar. Mas não chegou a ativá-la porque não existe mercado local para matéria-prima reciclada (não existe indústria). E exportá-la pelo mar aumentaria muito o preço de venda. Resultado: a própria planta de reciclagem foi também deixada no deserto para desaparecer. De modo geral, todo o grupo de estudantes estava ciente de questões sobre o impacto ambiental da produção industrial e do mundo contemporâneo. Mas, até como reflexo

das dinâmicas da sociedade local, isso não figurava como prioridade no trabalho de nenhum deles. Para focar nestas questões, decidimos fazer uma etapa de pesquisa de campo. Durante os próximos dias, vamos visitar profissionais ligados aos consertos e à fabricação artesanal: alfaiates, marceneiros, relojoeiros, sapateiros. Sairemos também em busca de cemitérios de automóveis e pneus, situados no meio do deserto. Por fim, vamos fazer dois dias de Repair Cafe nas dependências da universidade, chamando a atenção para estas questões e criando uma oportunidade para que os próprios estudantes ponham as mãos na massa. Enquanto percorro o caminho de volta ao hotel, uma ansiedade se mostra de leve. Estou tentando descobrir em que medida a gambiarra faz sentido como recorte de criatividade tática, solução desobediente de problemas cotidianos e construção de futuros diferentes (e melhores). Olho em volta mais uma vez, respiro fundo e escuto o som nos fones. Topo com mais uma daquelas cenas que lembram a natureza humana de quae todo o trabalho feito por aqui: uma luva, sozinha na calçada. Neste lugar, acho que a gambiarra sempre ocupará um lugar subalterno. Escondida, indesejada, alheia aos mecanismos de decisão. Mas está lá sim. E deve se espalhar pelo mundo, cada vez mais.

* GAMBIAREIA *

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GAMBIDUST Felipe Efeefe Fonseca

On foot. Headphones connected to the little screen. Not by chance, I listen to the soundtrack of Code 46. The heat is mild, the sun has set a few hours ago. I cross avenues of smooth asphalt and fast cars, mentally exploring the map that I avoid consulting in my pocket. Some families stroll through the park that borders the coastline and this still causes me some estrangement. Not the families themselves, except perhaps by the time. But it's the park itself that has a kind of unreal touch. Only in volume of water - desalinated, it is good to remind - these thousands of square meters of grass should consume more than entire regions of the Brazilian semiarid. Not to mention energy, tools and work. But here everything is like this. We are on the edge between the sea and the desert. But this city does everything to hide it. One secret among so many others. On my way, some clues - human trails in this almost empty place of historical record. A magazine and a helmet next to a downtake pipe cover. The abandoned grocery cart on the curb, overturned sideways. A pair of working boots leaning against a low wall. The failure in the pavement still waiting for the bloques, reminding us that there are just a few centimeters that divide this almost scenographic city of the infinite sand. All this artificial setting, a gigantic construction site with bright & cheery buildings throwing lasers to the clouds, new avenues and shopping malls are, in practice, produced with human hands and abilities, and the construction is far from over. People building a country that is not theirs. And neither it is for them, in a deep and clear way. 142

Part IV / IV

I was invited to spend two weeks here as a resident at a university. I'm working with ten students of the master's degree program in design. They are brilliant. Eight are women who flock here in search of wider horizons of study, still rare in other Arab countries. The residence is about gambiarra and the culture of repair, a theme that in this place sounds strange. Qatar is a rich country whose current form has been built in an accelerated way, with resources from natural gas exploration. The VCUQ , my host, is actually an American university (Virginia Commonwealth University) that has a unit here in Doha. It is headquartered in the "City of Education," a local government initiative that has set up five U.S. universities here on a modern campus. Most teachers are European. They have fully equipped laboratories, a room with samples of materials (hundreds, thousands of items?) and a very complete and pleasant library. The old king, who had abdicated in favor of his son a few years ago, already knew that natural gas would end, and wanted to create alternatives to ensure that, in the space of a few decades, the economy doesn't depend on it alone. He invested - in a very caricatural way, but let's face it - in media, technology, tourism and other areas. His wife has created an educational foundation that funds projects around the world. But the country continues to have very particular characteristics. People here don’t pay taxes, and local citizens (about 15% of the current population) have free education and health care. The workforce for less skilled activities comes from Southeast


Asia. High-level technical and administrative positions are usually occupied by Europeans and Americans, except in the gas extraction sector which is the favorite of the young Cataris and who have preference in hiring. Combining a very high purchasing power and the low level of rooting or even affection between society and territory, the result couldn’t be different of a consumerism that reaches obsession. A student reported that what is most done in the free hours here is to buy things. This doesn’t surprise me, just as it doesn’t differ so much from the lifestyle of many people I know in São Paulo. In Qatar, however, everything is superlative. People buy a lot but they use almost nothing. Consequently, things are compulsively discarded. My destination today wasn’t the central market, remodelled for tourism, nor some of the international museums housed in buildings signed by famous architects, or some international hotel where alcohol is allowed in the bar. I actually went to a hypermarket of French origin that is inside a shopping mall, to buy credit for my little screen and snacks to eat at times when I have no guaranteed meals at the hotel. The mall bothered me less than I expected. Much like similar places in Brazil, except for the huge ethnic/national and clothing diversity. Curiously, we lose by far on this topic. On the other hand, it also had the ice-skating rink, international stores, fast food, and other usual things in this homogeneous and tedious mall culture. But I've seen lots of shopping bags, and I can’t stop thinking about the fate of all these things. At the opening of my residence, I talked with the students about trash, waste and reuse. I uploaded videos: Ilha das Flores; Buy, take out, buy; Some excerpts from Extraordinary Waste; Digital Handcraft. One student

commented that here people just throw things away, but by thinking it through, this "out" doesn’t exist. This is not a new idea, but here it becomes even more radical. In Qatar, to put out is to throw to the ruthless desert or to a disputed sea. One of the teachers told us that the country had built a plant to recycle various materials with the most advanced equipment that money could buy. But it didn't come to reality because there is no local market for recycled raw material (there is no industry). And exporting it by sea would greatly increase the selling price. Result: the recycling plant itself was also left in the desert to disappear. In general, the entire group of students was aware of issues about the environmental impact of industrial production and the contemporary world. But even as a reflection of the dynamics of local society, this wasn't a priority in the work of any of them. To focus on these issues, we decided to do a field research stage. During the next few days, we will visit professionals related to repairs and craftsmanship: tailors, carpenters, watchmakers, shoemakers. We will also go out in search of car cemeteries and tires, located in the middle of the desert. Finally, we will do two days of Repair Cafe on campus, calling attention to these issues and creating an opportunity for the students to get their hands on. As I walk my way back to the hotel, a slight anxiety shows itself. I am trying to find out to what extent gambiarra makes sense as a clipping of tactical creativity, disobedient solution to everyday problems and building different (and better) futures. I look around once more, take a deep breath and listen to the sound on the headphones. I see one more of those scenes that remind me of the human nature of all the work done here: a glove, alone on the sidewalk. In this place, I think gambiarra will always occupy a subordinate place. Hidden, unwanted, unrelated to decision mechanisms. But it is there yes. And it must spread throughout the world, more and more.

* GAMBIDUST *

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#GAMBIARRA

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Revista de Gambiologia #4 - Gambiologia magazine - 4th issue 10/2017 "Gambiarra em movimento" / "The gambiarra movement"

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