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gambiologia * * * * * * * * * * * * * facta.art.br * * * * * * * * * * * * *

Arte • Gambiarra • Tecnologia • DIY • Cultura pop tupiniquim Colecionismo • Design sustentável • teoria e prática Hacker


"Viemos do Mar nº 6" (1978) Coleção Valéria Braga, RJ Foto: Eduardo Ortega

por Farnese de Andrade


O que acontece com as coisas quando elas acabam? Veja como artistas têm respondido a esta pergunta.

Os quartos exóticos que foram precursores dos museus e da ciência moderna, em destaque na Facta.


A história dos irmãos nova-iorquinos que tornaram-se famosos por terem morrido em meio à sucata.

Quando a coleção se torna uma patologia.


Fotos de coleçþes do editor, por Nidin Sanches

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por Fred Paulino

O

que acontece no instante exato da morte? Dentre as mais variadas interpretações de cunho científico, religioso ou esotérico para essa questão que inexoravelmente nos acompanha, uma me parece a mais singular: há quem acredite que o homem reveja flashes da própria vida, em altíssima velocidade e cronologia inversa. Como um rewind de nossa história completa, é a chamada “experiência de quase-morte”. Segundo essa suposição, precisamente no evento mais único, inexplicável e extremo da existência, a vida parece contradizer-se: são de repente invertidas as lógicas da experiência, do envelhecimento, da maturidade, do tempo, para voltarmos ao que éramos no início. Um retorno solitário e derradeiro à nossa origem mais pessoal. De forma semelhante, esta publicação, que em seu primeiro número abordou o Apocalipse – óbito eminente do universo – e se autodeclarou como “nascida já morta”, agora volta seus olhos ao passado. Seguindo nossa proposta de abordar, de forma livre e com a participação de uma rede de colaboradores, temas amplos que relacionam-se de formas distintas com a ideia de Gambiologia, desta vez abordaremos as práticas de acumulação e colecionismo: formas do homem relacionar-se com o tempo a partir da aquisição e guarda de objetos materiais.

"É o estilo de época de uma época sem estilo". (Laura Erber) Definitivamente não apresentaremos esses temas a partir da amostragem de personagens exóticos com a mania de guardar objetos. O que esta edição da Facta investiga é como o hábito de acumular parece estar se tornando, no mundo contemporâneo, cada vez mais comum. E mais: de que forma antiguidades, velharias, refugos descartados, objetos supostamente sem perspectiva de vida-apósa-morte têm sido matéria prima e inspiração valiosas para a criação de obras de arte e peças de design. t

A relação do cidadão contemporâneo com o tempo soa confusa. Somos obrigados, hoje, a imprimir ao nosso cotidiano um ritmo mais acelerado que o humanamente razoável. O presente passa tão rápido, que é improvável não confundi-lo com memórias do passado e planos para o futuro. Já em 1967, Guy Debord1 anunciava o que chamou de “tempo cíclico”. Segundo ele, há uma relação inseparável entre a “história humana” e a “história natural”. A segunda só existiria efetivamente na medida em que fosse compreendida pela primeira: “a temporealização do homem, tal como ela se efetua pela mediação de uma sociedade, é igual a 1 " A Sociedade do Espetáculo", 1967.

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uma humanização do tempo”. Sendo assim, quanto mais uma sociedade se conscientiza sobre a passagem do tempo, mais ela o nega, tratando-o não como o que passa, mas o que regressa. Em contraponto, a burguesia, “senhora do poder”, estaria ligada ao tempo do trabalho. O imperativo da produtividade, do acúmulo de mercadorias e capital faria surgir a ideia de tempo irreversível, unificado mundialmente. “O triunfo do tempo irreversível é também a sua metamorfose em tempo das coisas, porque a arma da sua vitória foi precisamente a produção em série dos objetos, segundo as leis da mercadoria.”

Neste século acelerado por demais, de ritmo pautado por corporações e suas estratégias de avanço tecnológico e obsolescência programada, podemos observar dois fatos recorrentes, que talvez sejam tão-somente escapes para compensar nossa provável relação mal resolvida com o tempo: a ansiedade em vislumbrar o futuro e o saudosismo de cultuar o passado.

No primeiro caso, a insaciedade pela atualização nos impele, mesmo de maneira inconsciente, a estar sempre antenados com “o próximo modelo”. Seja o mais novo smartphone do mercado, a versão mais recente de Mas acontece que as mercadorias, um app ou a tendência para vestir na próxima hoje, são descartáveis. Bauman (2005)2 estação, vivemos curiosos pelo que há por define nossa sociedade como regida vir, antecipando o momento futuro e não por uma “vida líquida” nos permitindo viver pleque “projeta o mundo e todos namente a experiência do A ansiedade em vislumbrar os seus fragmentos animados o futuro e o saudosismo de hoje. “As preocupações mais e inanimados como obintensas e obstinadas (…) cultuar o passado jetos de consumo, são os temores de ser pego ou seja, objetos que tirando uma soneca, não perdem a utilidade (e portanto conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, o viço, a atração, o poder de sedução e o valor) ficar para trás, deixar passar as datas de venenquanto são usados”. E acrescenta: “estes têm cimento, ficar sobrecarregado de bens agora uma limitada expectativa de vida útil e, uma indesejáveis, perder o momento que pede vez que tal limite é ultrapassado, se tornam mudança e mudar de rumo antes de tomar impróprios para o consumo”. Ou seja: o tempo, um caminho sem volta. A vida líquida é uma agora ditado pelas regras da produção em um sucessão de reinícios…”. contexto de economia especulativa, literalmente nos escapa pelas mãos. Por outro lado, me parece que o ser humano insiste, paradoxalmente, em incorporar os Linkando as análises de ambos os autores, rastros do antigo em seu cotidiano. São exfica a questão: a irreversabilidade de nossa emplos vários: das câmeras digitais que reprohistória estaria, então, diluída num instante duzem filmes analógicos ao dia das crianças de tempo perdido? online, quando nos pegamos divertidos a postar fotos da infância. Das roupas que já são t produzidas envelhecidas à valorização do mercado de móveis antigos reformados. 2 BAUMAN, Z ygmunt. "Vida Líquida", Editora Zahar, 2007.

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* ACÚMULO, AÇÃO CRIATIVA *


Da moda “chique” da taxidermia decorativa à celebração do design retrô. E finalmente, o hábito cada vez mais usual de cidadãos dos grandes centros urbanos de colecionar ou acumular objetos raros, únicos, exclusivos. Quem não tem ao menos um conhecido que gosta de “juntar trecos”, sem razão aparente? Quantos de nós não consegue evitar o gesto de, ao passar por uma caçamba cheia, conferir rapidamente se não há algo que poderia ser (in)útil em casa?

de retenção de nossa experiência passageira no mundo. As coisas valem como chave de entrada para a memória e grande parte das vezes, o apego a um objeto deve-se tanto mais pelas lembranças a que ele remete do que por seu valor monetário. As coleções nos transportam ao mundo imaginário de um passado inacessível: a recordação vaga de um país, a saudade de alguém que partiu, o sabor de um prato ou de um drink a dois. Há quem colecione de tudo: selos, moedas, imagens antigas, brinquedos estragados, lâmpadas Em uma época em que nossas memórias estão queimadas, insetos, tampinhas de garrafa, digitalizadas nas galerias das redes sociais, rolhas, sachês de chá… Há também quem tornando-se imediatamente passado com colecione inimigos, rancores, frustrações um simples gesto de scroll, a acumulação amorosas, listas que só fazem crescer, ideias soa como compensação de um vazio não realizadas... Há quem colecione todas resultante da vida líquida. Se não há como as coisas citadas e outras mais. Botonismo, agarrar-se ao tempo, quem adesivoterapia, durexia, sabe juntar objetos não seja ruinologia: novos substantiA acumulação soa como uma forma desesperada de compensação de um vazio vos para incontáveis manias, resgatar memórias… resultante da vida líquida patologias e suas variações. t

t

O ato de colecionar confunde-se com a passagem do homem pela Terra. Desde muito cedo até os dias atuais, o ser humano tem deixado rastros por onde passa: pinturas em cavernas, nomes em árvores, graffitis nos muros de uma cidade e mesmo livros e filmes, por exemplo. Mas nossa experiência é marcada não só pelo que deixamos, mas também pelo que coletamos e guardamos. Sejam itens materiais – objetos que, por motivos diversos e inexplicáveis, simplesmente queremos guardar – ou lembranças impalpáveis, memórias. Assim como faz um contador de histórias que declama seus “causos” incorporando o saber de seu tempo ao de seus antepassados, a vida é, acima de tudo, uma experiência de acumulação. De coisas e de afetos.

A reutilização de objetos acumulados é pertinente à criação artística contemporânea. Além da inevitável questão da sustentabilidade (muito conveniente para o marketing corporativo, mas pouco colocada em prática), nas mais diversas esferas da indústria criativa os ciclos estéticos vão e retornam. Muitas vezes, ser reconhecido como contemporâneo é nada mais nada menos que saber ressignificar, ou samplear, referências de épocas distintas, relacionando-as com questões da atualidade.

De forma mais específica, no repertório da Gambiologia utilizamos objetos velhos, incorporando neles novas ou precárias tecnologias para que “renasçam” como novidade. Catar, agrupar, organizar objetos são gestos E já que nas obras usamos basicamente

* ACÚMULO, AÇÃO CRIATIVA *

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objetos de origem industrial descartados, um mix estético de diferentes épocas nos parece mais rico e atrativo visualmente. Porque as produções da indústria de hoje são excessivamente limpas, parecidas demais entre si, descartáveis, serializadas...

próprio processo de memória: evidenciar um desajuste ante o tempo, através de um deslocamento. Para além do colecionismo usual, baseado em processos de pesquisa/ posse/acumulação/arquivo/preser vação, entendemos que a transformação de tais objetos em outros lhes subverte a aura intocável e reconfigura o seu valor. "Estragar" um objeto raro pode ser simplesmente trazê-lo para o agora, não só potencializando sua carga de memória ao incorporá-lo ao momento presente mas, principalmente, unindo tempos instransponíveis.

Por tudo isso, acumulamos acervos de muita coisa. No entanto, mais do que somente guardar objetos, nos interessa transformá-los. No arcabouço gambiológico, para além do valor estético, funcional e monetário de uma peça única, importa a sua transfiguração em uma ideia. O resgate e a refuncionalização de uma antiguidade, de um objeto descartado, Uma ação sobre a acumulação, que se de um refugo sugerem um jogo com o transforma em obra.

“A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’” Nietzsche 12

* ACÚMULO, AÇÃO CRIATIVA *


by Fred Paulino

What happens at the exact moment of death? Among the most varied interpretations of a scientific, religious or esoteric nature to this question that inevitably accompanies us, one seems to me the most natural: there are those who believe that a review of a man 's life flashes on high speed and reverse chronology. As a rewind of our complete story, it is the so called "near-death". According to this assumption, more precisely in the most unique, unexplained and extreme event of an existence, life seems to contradict itself: the logic of the experience of aging, maturity and time are suddenly reversed so we can get back to what we were at the beginning. A lonely and ultimate return to our most personal home. Similarly, this publication, which in its first issue addressed the Apocalypse - the imminent death of the universe - and has declared itself as having been "born already dead," now turns its eyes to the past. Following our proposal of approaching, freely and with the participation of a network of collaborators, broad themes that relate in different ways to the idea of Gambiologia, this time we discuss accumulation and hoarding practices: ways man relates with time beginning with the acquisition and custody of material objects. We definitely do not present these issues by sampling exotic characters with a mania to keep valuables. What this edition of Facta investigates is how the habit of accumulating seems to become, in the contemporary world, increasingly more common. And more: How antiques, waste and discarded items, objects supposedly with no prospect of life-after-death have been valuable raw material and inspiration for the creation of works of art and design pieces. t The relationship of the average contemporary citizen with time sounds confusing. We are obliged today to press a faster pace to our daily life than what is humanly reasonable. The present happens so fast that it is unlikely not to be confused with memories of the past and plans for the future.

"It is the epoch style of an styleless epoch". (Laura Erber)

In 1967, Guy Debord announced what he called a "cyclical time". According to him, there is an inseparable relationship between "human history" and "natural history.The second would only exist effectively if understood by the first: " the time-realization of man, as it takes place through the mediation of a society, is equal to a humanization of time." Thus, the more a society becomes aware of the passage of time, the more it denies it, treating it not as what passes, but as what returns. In contrast, the bourgeoisie, the "owner of power," would be linked to the time of labor. The imperative of productivity, the accumulation of goods and capital would raise the idea of irreversible time, worldly unified." The triumph of irreversible time is also its metamorphosis into the time of things, because the weapon of its victory was precisely the mass production of objects, according to the laws of goods. " But what happens today is that goods are disposable. Bauman (2005) defines our society as one governed by a "liquid life", which "projects the world and all its animate and inanimate fragments as consumption objects, or in other words, as objects that lose their usefulness (and therefore their vitality, attraction, seductive power and value) as they are used. " He adds: "these have a limited life expectancy and, once this limit is exceeded, they become unfit for consumption." That is, time, now dictated by production rules in a context of speculative economy, literally escapes from our hands. Linking the analyzes of both authors, the question remains: would, then, the irreversibility of our history be diluted in a moment of lost time? t In this over accelerated century of a rhythm ruled by corporations and their strategies of technological advancement and planned obsolescence, we can observe two recurring facts which perhaps are merely escapes to offset our possible unresolved relationship with time: the anxiety to glimpse the future and the longing to worship the past.

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In the first case, the insatiable drive for updates takes us, even unconsciously, to always be attuned to "the next model." Be it the newest smartphone on the market, the latest version of an app or a tendency to wear the next season’s collection, we live curious as to what's to come, anticipating the future moment and not allowing us to fully live the experiences of today. "The most intense and obstinate concerns (...) are the fears of being caught napping, not being able to keep up with the speed of events, to fall behind, to let due dates pass, to get overwhelmed with now undesirable goods, to lose the moment that calls for change and changing courses before taking a path of no return. Liquid life is a succession of restarts... ".

attachment to an object happens to be much more related to the memories of what it refers to as for its monetary value. Collections transport us to the imaginary world of an inaccessible past: a vague recollection of a country, the longing for someone who has gone already, the flavor of a dish or a drink together. Some people collect everything: stamps, coins, old pictures, damaged toys, burned out bulbs, insects, bottle caps, corks, teabags... There are also those who collect enemies, grudges, love frustrations, lists that only grow, unperformed ideas... There are those who collect all those mentioned things and more. Buttonism, stamp therapy, tapism, ruinology: new nouns to countless fads, pathologies and their variations.

On the other hand, it seems to me that humans insist, paradoxically, on incorporating the traces of the past in their daily lives. There are several examples: digital cameras that replicate analog films of children's day online, when we had fun posting pictures of our childhood. From the clothes that are already produced old to the market appreciation of aged and remodeled antique furniture. From the "chic" fashion of a decorative stuffing to the celebration of retro design. And finally, the increasingly common habit of urban people to collect or accumulate rare, unique and exclusive objects. Who does not have at least one acquaintance who likes to gather stuff for no apparent reason? How many of us can not avoid the gesture of looking through a full dumpster to quickly check whether there is something that could be of use at home? In a time when our memories are scanned in the social networks galleries, becoming immediately “from the past” with a simple scrolling gesture, accumulation sounds like a compensation for the void resulting from liquid life. If there is no way to hold on to time, maybe to gather objects isn’t a desperate way to rescue memories...

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t The act of collecting is intertwined with the passage of humans on Earth. From early times until today, humans have left footprints wherever they go: cave paintings, names on trees, graffiti on the walls of a city, and even books and movies, for example. But our experience is marked not only by what we leave behind, but also by what we collect and store. Being material items - objects that for various unexplained reasons we just want to save - or intangible remembrances, memories. Just as a storyteller does, who declaims his "tales" incorporating the knowledge of his/ her time to the time of his/her ancestors, life is, above all, an experience of accumulation. Of things and emotions. To gather, group and organize objects are gestures of retaining our fleeting experience of the world. Things are taken as a key input to memory, and most of the time the

The reuse of accumulated objects is pertinent to contemporary artistic creation. In addition to the inevitable issue of sustainability (very convenient for corporate marketing but little acted upon), in the most diverse spheres of the creative industry, aesthetic cycles go away and come back. Often, being recognized as contemporary is nothing more nor less than to know how to reframe or sample references from distinct epochs, relating them to current issues. More specifically, in the repertoire of Gambiologia we use old objects, incorporating in them new or substandard technologies so they can be "reborn" as a novelty. And since we mainly use in our works discarded objects of industrial origin, an aesthetical mix of different eras seems richer and more visually attractive to us. We go this way because the productions of the industry of today are excessively clean, too similar to each other, disposable, serialized... For all that, we have accumulated a lot of collections. However, more than just to store objects, we are also interested in in the matter of transforming them. In our gambiological framework, beyond the aesthetic, functional or monetary characters of a single piece, we care for its transfiguration into an idea. The rescue and refunctionalization of an antique, a trashed object, a scrap, suggests a game with its very own memory process: an evidence of a time misfit, a displacement. Beyond the usual collecting, based on the process of research/possession/ build/file/preservation, we believe that the transformation of such objects in others subverts their untouchable aura and reconfigures its value. To “spoil" a rare object can often simply bring it to the now, not only enhancing its memory load as it is incorporated into the present moment, but mainly uniting insurmountable times. An action into accumulation, which is transformed into artwork.

"The eternal hourglass of existence is turned upside down again - and you with it, speck of dust!” Nietzsche 14


Facta #2 - acúmulo, ação criativa outubrO/2013

Capa: "Assemblage Gambiológica", por Coletivo Gambiologia Acervo e coordenação: Paulo Henrique Pessoa "Ganso" Fotos por Nidin Sanches Publicação aperiódica Tiragem: 1720 exemplares Contatos / contacts: editor@facta.art.br producao@facta.art.br redacao@facta.art.br www.facta.art.br www.gambiologia.net Este trabalho está licenciado em conformidade com a Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Brasil. Para ver uma cópia da licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/br

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FICHA TÉCNICA CREDITS concepção e edição EDITOR

produção production

Fred Paulino

Fernanda Salgado

CONSELHO EDITORIAL

assessoria jurídica

Birimbica Potter Lucas Mafra Paulo Henrique Pessoa "Ganso" Rodrigo Minelli

Diana Gebrim - Diversidade

editorial board

REDAÇÃO writers

Daniel Barbosa • Fred Paulino VERSÃO PARA INGLÊS english version

Luciana Tanure e Glenn Cheney (Access Group) projeto gráfico art director

Xande Perocco design graphic design

Fred Paulino • Xande Perocco FOTOGRAFIA PHOTOGRAPHY

Nidin Sanches desenvolvimento web web development

Paulo Barcelos

legal advice

conteúdo audiovisual audiovisual content

Apiário impressão print

Imprimaset COLABORADORES #2 COntributorS #2

Adauany Zimovski • Ângelo Abu Antônio Carlos Figueiredo Bárbara Soalheiro • Beatriz Leite Conrado Almada • Daniel Ribão Eduardo Imasaka • Evandro Castro Evan Roth • Farnese de Andrade Felipe Fonseca • Felipe Rocha Giuliano Obici • Janina Pessoa • Julia Valle Lucas Resende • Lu Tanure Mariana Pinheiro • Newton C. Braga Nícia Mafra • Pedro David Rosângela Rennó • Simone Pazzini Thais Mol • Xico Sá Zedu Carvalho • Zoe Clayton 17


Ângelo Abu Sendo o que colecionei, figurinhas da Hanna-Barbera, fitas de Atari, quadrinhos do ZéCarioca, casquinhas de machucados, cachorros, coisas vermelhas, discos e livros de quase tudo, pôsteres antigos de cinema, fotos 3x4, alfabetos não romanos, desenhos aleatórios, histórias inacabadas. I am what I have collected: Hanna-Barbera trading stamps, Atari tapes, Zé Carioca comics, scabs, dogs, red things, records and books of almost everything, old movie posters, 3x4 photos, non-Roman alphabets, random sketches, unfinished stories. Apiário

Espaço de criação e cultivo de ideias, dedicase à produção e concepçãode trabalhos artísticos e comerciais, filmes, vídeos, animações, ilustrações, fotografias, escritos e sons de variadas espécies. Apiário is a space for creation and cultivation of ideas. It is dedicated to conceiving and producing artistic and commercial works, films, videos, animations, illustrations, photographs, writings, and sounds of varied species.

Beatriz Leite Artista e ceramista, formada pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Atua como professora de artes visuais em Belo Horizonte, na Escola Balão Vermelho e no Corpo Cidadão - projeto social idealizado pelo Grupo Corpo de Dança. Artist and ceramist with a degree from the University of the State of Minas Gerais. She serves as a Professor of Visual Arts in Belo Horizonte, at the Red Balloon School, and Corpo Cidadão – a social project by Grupo Corpo de Dança.of varied species. Birimbica Potter Artista plástica, designer gráfica, ilustradora, tradutora, catalogadora de coleções. Artist, graphic designer, illustrator, translator, Interpreter of objects and collections Conrado Almada

Formado em Comunicação e natural de Belo Horizonte. Artista audiovisual, trabalha em diferentes suportes, do papel ao vídeo. He graduated in Communications and a native of Belo Horizonte. An audiovisual artist, he works in different media, from paper to video.

Daniel Barbosa

Jornalista cultural, trabalha no "O Tempo" e tem passagens pelo Hoje em Dia, Gazeta Esportiva Online (SP) e revista Palavra. Atuou como curador em programas como Natura Musical, Música Minas e Vozes do Morro. Toca na banda de hardcore Vulgaris. A cultural journalist, he works at "O Tempo” and has worked at Hoje em Dia, Gazeta Esportiva Online (SP) and Palavra magazine. He has served as a curator in programs such as Natura Musical, Música Minas and Vozes do Morro. He plays in the hardcore band Vulgaris.

Evandro Castro Psicoterapeuta formado pela UFMG, estudou também artes plásticas, design gráfico, desenho e fotografia. Elaborou projetos gráficos de diversos livros publicados, fez exposições de seus trabalhos e escreve crônicas e poesias que há anos o perseguem e que hoje estão atulhando suas gavetas. Psychotherapist from UFMG, he has also studied Fine Arts, Graphic Design, Drawing and Photography. He has elaborated the graphic design for several published books, has made exhibitions of his work, and has written short stories and poetry that for years have been persecuting him and are now littering his drawers. Felipe Fonseca Pesquisador e articulador de projetos relacionados a redes de produção colaborativa e livre, mídia independente, software livre e apropriação crítica de tecnologia. Researcher and articulator of projects related to collaborative and free production networks, independent media, free software and critical appropriation of technology. Fernanda Salgado Produtora cultural e roteirista audiovisual. Graduada em Radialismo (UFMG) e Mestre em Artes (UFMG), é sócia-fundadora da Apiário. Coleciona histórias, personagens e narrativas. Cultural producer and screenwriter. She graduated in Radio, TV and Film (UFMG) and holds a Master of Arts (UFMG). She is a founding member of Apiário and collects stories, characters and narratives.


Fred Paulino

Cientista da computação, designer, artista e gambiólogo. Realiza desde a década de 90 projetos criativos como Mosquito, Osso Design, Graffiti Research Lab Brasil e Coletivo Gambiologia. É editor da Facta. Computer scientist, designer, artist, gambiologist. He has carried out, since the 90’s, creative projects such as Mosquito, Osso Design, Graffiti Research Lab Brazil and the Gambiologia collective. He's the editor of Facta.

Glenn Cheney É um escritor estadunidense, tradutor e editor. Autor de mais de vinte livros, ensinou literatura e redação em várias universidades e tem Mestrado em Comunicação. Inglês e Escrita Criativa. Mora em Hanover, Connecticut. An American writer, translator, editor, and publisher. The author of over 20 books, he has taught writing at several universities and holds Master's degrees in communication, English, and creative writing. He lives in Hanover, Connecticut. Julia Valle

Comunicadora Social pela UFMG, estilista pela Designskolen Kolding e mestranda em Artes pela UFRJ. Trabalhou para diversas marcas e hoje desenvolve trabalhos autorais na Casa Ramalhete. Teve projetos expostos no Brasil, EUA, Eslovênia e Dinamarca. Social Communicator from UFMG, stylist by the Designskolen Kolding school and a Master of Arts student at UFRJ. She has worked for brands and today she develops her own projects at Casa Ramalhete. She had projects exhibited in Brazil, USA, Slovenia and Denmark.

Lucas Mafra Grão Mestre gambiólogo, designer de produtos, artista de dispositivos, hobbysta em eletrônica, PC’s hacking, DIY e gambiarras tecnológicas. Gambiological Grand Master, Products Designer, device artist, hobbyist in electronics, PC hacking, DIY and technological makeshifts. Luciana Tanure Jornalista pela UFMG e Mestre em Artes pela Universidade do Texas. Trabalha como professora, tradutora e produtora. Fundou o Grupo Access e a editora Fogão de Lenda. Gambióloga de coração, traduz os textos para a Facta. Journalist from UFMG and Master of Arts from the University of Texas. She works as a teacher, translator and producer. She has founded the Access Group and the publishing company Fogão de Lenda. Gambióloga at heart, she translates the texts of Facta. Newton C. Braga Autor de mais de uma centena de

livros sobre eletrônica, publicados no Brasil e exterior, professor e mantenedor do site www.newtoncbraga. com.br, onde estão disponíveis milhares de artigos interessantes para gambiarras. Author of over a hundred books on electronics, published in Brazil and abroad; professor and maintainer of the site www.newtoncbraga.com.br, where thousands of items for interesting makeshifts are available.

Nícia Mafra

Com formação multidisciplinar e sistêmica, integra os conhecimentos adquiridos em meio ambiente e design para sustentabilidade, relacionados à gestão de resíduos sólidos, tendo se dedicado, nos últimos 30 anos, aos processos de reciclagem de papel. Atua como consultora através da empresa Lenum Ambiental. With a multidisciplinary and systemic approach, she integrates her knowledge performing works related to the environment and design for sustainability related to solid waste management. She has dedicated the last 30 years to the process of recycling paper. She works as a consultant through the company Lenum Ambiental.

Paulo Barcelos É um tecnologista que pesquisa maneiras de se utilizar o conhecimento técnico como uma forma de expressão e como conectar seres humanos e máquinas de maneiras mais significativas. Brazilian creative technologist that researches ways to use open technologies as a tool for expression and how to connect people and machines in more meaning ful ways. Paulo Henrique Pessoa “Ganso” Artista gráfico, designer de luminárias, diretor de arte, colecionador de coleções. Graphic artist, designer of lamps, art director, collector of collections. Pedro David

Nasceu em Santos Dumont, MG, 1977. Vive e trabalha em Nova Lima e Belo Horizonte. Fotógrafo/artista visual, jornalista pela PUC Minas, cursou pós-graduação em artes na Escola Guignard (UEMG). Publicou os livros "Paisagem Submersa", "O Jardim" e "Rota Raiz". Born in Santos Dumont, MG, 1977. He lives and works in Nova Lima and Belo Horizonte and is a Photographer/Visual Artist, journalist from PUC Minas and graduate degree from the Guignard Art School (UEMG). He has published the books "Underwater Landscape", "The Garden" and "Route: Root".

Rodrigo Minelli Artista, professor e curador, idealizador de projetos coletivos de experimentação e reflexão sobre arte eletrônica como o “FAQ” e Festival “Arte.mov”. Artist, Professor and curator. He is the creator of collective projects of experimentation and reflection on electronic art such as the "FAQ" and "Arte.mov" Festival. Rosângela Rennó Nasceu em Belo Horizonte, 1962.

Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Formou-se em Artes Plásticas pela Escola Guignard e em Arquitetura pela UFMG. É doutora em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Born in Belo Horizonte, 1962. She lives and works in Rio de Janeiro and has graduated in Fine Arts at the Guignard School and in Architecture at the Federal University of Minas Gerais. She is a Ph.D. in Arts from the School of Communications and Arts at USP.

Thais Mol

Finalmente incorporou a ideia do eterno retorno e está feliz vivendo em Belo Horizonte. Tira da moda o sustento e seu currículo há mais de 15 anos. Para equilibrar com as temáticas fashionistas, tem se desavergonhado pelo vídeo em pesquisas sobre envelhecimento e morte. She has finally incorporated the idea of the “eternal return” and is happy living in Belo Horizonte. From fashion she gets her sustenance and her resume for over 15 years. To balance with the fashion themes, she has been working also with video in her research on aging and death.

Xande Perocco

Azucrinista que fAZ questão de perder seu tempo entre desenhar letra, e avacalhar tudo que é possível como seu alter-ego Azucrina! Azucrinist who makes sure to waste his time between drawing letters and messing up everything possible as his alter-ego Azucrina!

Xico Sá Jornalista e escritor. É colunista e mantém um

blog diário na Folha. É autor de “Big Jato”, "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá", entre outros livros. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). He is a journalist and writer. He's a columnist and keeps a daily blog at Folha. He is the author of "Big Jato", "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" and "Chabadabadá", among other books. On TV, he participates in the shows Cartão Verde and Saia Justa.


“Being Different (Why is She so Different?)” Anna Oppermann, 1970-1986


Respostas criativas a um sĂŠculo de acĂşmulos

"Mechanical Head [The Spirit of Our Age]", Raoul Hausmann, 1920


O

que acontece com as coisas quando elas acabam? Inúmeros artistas e pensadores das mais diversas áreas do conhecimento diriam que as coisas, depois que acabam, continuam. E como defendem alguns deles, continuam mais plenas, porque livres do caráter de funcionalidade que lhes foi imputado de nascença. Objetos do cotidiano podem, então, ter sua função original transcendida e virar história, significado, lastro, memória, obra de arte. De dadaístas a contemporâneos, do extremo oriente ao Brasil, não são poucos os nomes no panorama da produção artística e crítica que incorpor(ar)am em suas criações e pesquisas a reutilização do que já não tem uso, o emprego do precário, o reaproveitamento, a requalificação e reorganização de objetos já desprovidos de seu sentido primeiro. Diferentes gerações de artistas têm utilizado como matéria prima e fonte de inspiração os resíduos da sociedade de consumo, valendo-se da acumulação, do colecionismo, da arquivação como impulso criativo. Porque só retendo o que já é, conforme a lógica de mercado, apto ao descarte, é que se tem a possibilidade de subverter a ideia de “útil” e, finalmente, o imperativo do consumo.

Dadaístas e acumuladores Kurt Schwitters, figura central do Dadaísmo, nas primeiras décadas do século passado, foi um dos pioneiros na ressignificação do objeto comum. A ideia de acumulação é pilar em seus trabalhos, desde as assemblages utilizando tickets de ônibus, objetos encontrados

Merzbau: a obra do alemão Kurt Schwitters traz consigo o panorama de um período na história em que já vicejava a obsolescência – se não como hoje, ao menos como esboço.

e recortes de jornais, até no que é considerada sua principal realização, o “Merzbau”. Trata-se de um híbrido entre instalação, escultura e performance, que consistiu na reorganização, ao longo de 15 anos (entre 1923 e 1937) de um apartamento, com tudo que havia dentro, sem que nada fosse descartado, mas com um rigoroso deslocamento de função ou encaixe sistêmico de cada parte. O edifício que abrigava a obra terminou por ser destruído em um bombardeio aliado em 1943. Em meados da década de 60, o francês Arman funda o movimento do Nouveau Réalisme juntamente com Yves Klein e Jean Tinguely, dentre outros. Influenciado por uma exposição de Schwitters ocorrida em 1954, o artista vai progressivamente abandonando a pintura bidimensional para realizar suas séries mais notáveis, “Accumulation” 23


e “Poubelle” (do francês: lixeira). As “Acumulações” consistiam de objetos comuns idênticos, organizados em caixas de madeira, que se transformavam em quadros. Arman afirmava que as obras surgiam insconscientemente de uma obsessão em colecionar coisas, hábito herdado da mãe. Suas coleções de relógios, câmeras, sapatos, instrumentos musicais e bonecos transfiguravam-se em trabalhos que sugeriam uma abstração pela repetição.

Assim como muitos de seus contemporâneos no país, ela passou a reter objetos como autodefesa ante o período de privações, evitando descartar tudo que pudesse ter algum uso no futuro. A obra de Dong evidencia não só as cicatrizes de um período histórico caro ao povo chinês, mas o intenso resgate da memória que pode emergir de uma coleção aparentemente banal, estabelecendo uma desconcertante aproximação entre questões gerais e locais, coletivas e pessoais, a partir de objetos ordinários.

Colecionismo pop Inúmeros criadores internacionais trilham os caminhos da acumulação como crítica a uma cultura de produção excessiva de resíduos ou simplesmente opção estética. Da Índia emergente, despontam nomes como Subodh Gupta – que esculpe com centenas de panelas de cozinha minuciosamente organizadas – e Krisnajarad Chonat, que em 2011 apresentou na mostra Paris-Delhi-Bombay (Centre "Infinity of Typewriters", obra de Arman (1962) George Pompidou, Paris) a obra “My hands smell of you”, uma enorme assemblage de mouses, teclados e outros eletrônicos descartaMemória ressignificada dos. Também o britânico Wayne Chisnal, O legado materno também serviu de fonte com suas esculturas de sucata, e a holandesa criativa para o chinês Song Dong em sua Marjan Teeuwen, que cria e fotografa instamonumental instalação “Waste Not”, apre- lações-cenários reproduzindo ambientes que sentada pela primeira vez no MoMA em poderiam pertencer ao mais obstinado dos 2009. O trabalho consiste na disposição dos acumuladores, parecem negar toda forma de mais de 10.000 itens compulsivamente acu- minimalismo para exacerbar o eterno ciclo de mulados por sua mãe enquanto viva, obsessão uso e desuso das coisas. consequente da escassez de recursos durante o “Grande Salto Adiante” de Mao Tsé-Tung, Mas não é preciso ir tão longe, do outro entre 1958 e 1960. A desastrosa campanha, lado do Atlântico, a um velho mundo tão que pretendia desenvolver a economia da mais acossado pelo peso de seu próprio pasChina em tempo recorde, resultou não só sado, tão mais repleto das coisas que já não em 20 milhões de mortos, mas também em são mais, para flagrar profícuos exemplos de distúrbios como o da supracitada senhora. artistas sucateiros – esse campo estético que 24

* ARTISTAS SUCATEIROS ARTISTAS *


"Waste Not", de Song Dong, no Museum of Modern Art, New York, 2006. Foto: Andrew Russeth " Archief 5 ", de Marjan Teeuwen (2011)


parece ser trincheira contra o consumismo e que propõe questões que vêm desde Duchamp e passam tanto pela psicanálise quanto pela política. No Brasil, já na década de 60, o genial Farnese de Andrade (1926-1996), mineiro radicado no Rio, passou a criar obras a partir materiais descartáveis naturais e industriais que recolhia, como brinquedos destruídos, estatuetas de santos, cacos de vidro, conchas, mariscos e outros rescaldos marinhos. Também utilizava móveis adquiridos em antiquários, depósitos, brechós ou mesmo catados na rua. Fotografias antigas, inclusive de sua própria família, constituem outro elemento de sua obra, em que fica evidente o peso simbólico de peças antigas como elo entre passado, presente e futuro.

Jac Leirner - "Todos os Cem (Lista de compras)", 1998 Coleção particular. Foto: Eduardo Ortega Cortesia Galeria Fortes Vilaça

Os processos de realização da paulistana Jac Leirner também implicam um longo tempo de coleta de objetos ordinários, normalmente ligados ao sistema de consumo. Esses objetos, retirados de seu lugar original e inseridos no circuito artístico, passam a sugerir 26

novos significados. Jac pode, atuando como colecionadora, gastar até quinze anos para acumular o que acha necessário para uma obra. Na década de 80, ela realizou uma série de trabalhos com papel-moeda. Em “Os Cem” (1987), valeu-se de notas de 100 cruzeiros. As cédulas foram furadas, presas em longas tiras e espalhadas pelo chão. Já em “Corpus Deliciti” (1985-1993), a artista reuniu objetos que, digamos, pegou à revelia de consentimento em aviões de carreira, como cinzeiros, copos, cobertores e outros. De Sara Ramo já se disse que “se apropria de elementos e cenas do cotidiano, deslocando-as de seus lugares de origem e rearranjando-os em vídeos, fotografias, colagens, esculturas e instalações. Ramo investiga o momento em que os objetos param de fazer sentido na vida das pessoas para criar situações em que a calma e a ordem se perdem”. Dentre muitos exemplos da forma intrigante e sensível com que Sara lida com esses objetos em sua obra, estão a instalação “Jardim das Coisas do Sótão” (2004) e o vídeo “Traslado” (2008), em que a própria artista encena o esvaziamento de uma mala contendo um número de “tranqueiras” que parece nunca acabar. A artista parece nos provocar: o quê e quanto nos interessa guardar de cada mudança na vida? A acumulação e reorganização de coisas também está na base do trabalho de Márcia X (19592005), com temas (ou obsessões?) muito bem delineados. Utilizando objetos eróticos, brinquedos infantis e ícones religiosos – grande parte deles garimpada na tradicional feira do Troca-Troca, na Praça XV, no Rio de Janeiro – suas performances e instalações eram marcadas pela relação sexo/infância, em que objetos pornográficos são transformados em brinquedos infantis e estes, em objetos eróticos. O movimento,

* ARTISTAS SUCATEIROS ARTISTAS *


Díptico "Baño", de Sara Ramo: mapeamento de uma realidade caótica

aplicado pelo uso de circuitos eletrônicos destacam-se navios (recorrente devido à sua em suas esculturas, evidencia a percepção do relação com a Marinha na juventude), estanobjeto como um corpo vivo. dartes, faixas de misses e objetos domésticos. Bispo terminou por alcançar reconhecimento Artistas sucateiros póstumo, com sua obra sendo elevada à categoria de arte vanguardista e frequentemente comCom o trânsito fluido e impreciso entre parada à de Marcel Duchamp. Ele foi o grande artista e sucateiro, há o caso exemplar de homenageado da Bienal de São Paulo em 2012. Arthur Bispo do Rosário. Em determinado momento de sua longa trajetória de mais de Nessa mesma linha, é impossível não citar 50 anos como interno da Colônia Manico- parte da obra de Vik Muniz. Suas esculturas mial Juliano Moreira, localizada no subúrbio feitas com milhares de peças descartadas, de Jacarepaguá (RJ), sob o diagnóstico de minuciosamente dispostas em proporções esquizofrênico e paranoico, ele passou a enormes, transformam-se em imagens produzir objetos com diversos tipos de fotográficas de aves, peixes e personagens materiais oriundos do lixo. Entre os temas, humanos literalmente compostos por sucata.

A função em Baudrillard

Arthur Bispo do Rosário, "Lutas" (1938-1982). Foto © Rodrigo Lopes/Museu Bispo do Rosário

A questão do colecionismo, da acumulação e da reorganização sistêmica de coisas ecoa no campo da filosofia aplicada às mais diversas áreas. O teórico francês Jean Baudrillard sugere que os objetos passam continuamente do enfoque funcional para o simbólico dentro de um determinado sistema cultural. Ele afirma que os objetos possuem significados imanentes e que o próprio adjetivo “funcional” não está ligado apenas à finalidade prática das coisas, mas também à sua capacidade de fazer parte de um jogo de relações. Tais ideias estão expressas em seu Sistema de Objetos. 27


No livro, Baudrillard enfoca também o lugar da coisa antiga, já desprovida de função. A importância das antiguidades se dá justamente na medida em que contradizem o raciocínio funcional para cumprirem um propósito de outra ordem: a sobrevivência do tradicional e do simbólico através do testemunho, da lembrança, da nostalgia e da evasão. Em sua dissertação de mestrado em design para a Universidade Federal do Paraná, o pesquisador Marcos Beccari aponta que “para Baudrillard, o homem não se sente em casa no meio funcional, justificando assim a presença necessária do objeto antigo como um reorganizador do mundo e, simultaneamente, um álibi que preserva o foro íntimo daquele que o possui.

Enquanto o objeto funcional refere-se à atualidade e se esgota na cotidianidade, o objeto antigo aparece (tanto ao nível dos objetos quanto dos comportamentos e das estruturas sociais) como uma dimensão regressiva que, embora testemunhe um relativo fracasso do sistema, paradoxalmente o faz funcionar”. Na prática que a teoria sustenta, evitar o descarte e o consumo de novos bens a que o mercado e o próprio sistema impelem será sempre mais do que simplesmente acumular tralhas. É só uma questão de olhar de novas maneiras para cada coisa que nos cerca e “garimpar” nelas o valor simbólico apontado por Baudrillard. Nada está perdido. DB/FP

sucateiros, seus contrapartes têm geografia vasta. O fazendeiro chinês Wu Yulu ficou famoso em todo o mundo depois de inventar Numa via contrária mas não muito distante e construir 47 robôs com ferro velho no dos artistas sucateiros, haverá sempre os suquintal de sua casa. Os robôs desempenham cateiros artistas. A mídia se encarrega de, vez tarefas variadas, como pular, pintar, beber, ou outra, trazer alguns deles à tona. É o caso massagear e até levar o dono em um riquixá, de Wagner Agnaldo de Souza, um vigilante aquele típico veículo chinês que é puxado por de Samambaia, no Distrito Federal, que há uma pessoa. Depois de um longo período dez anos reaproveita sucata para fazer enfeites de dívidas e descrédito, motivados por sua como relógios, guitarras e motos. Os preços obsessão, ele foi convidado a exibir mais de das peças, vendidas em uma feira da região, 30 de seus robôs na Feira Mundial de Artes variam entre R$ 40 e R$ 600. Geralmente de Xangai. retirado de veículos, enxadas e panelas, o material que ele emprega em suas obras é recolhido nas ruas ou doado por vizinhos. A habilidade para transformar ferro, plástico, madeira e vidro em arte surgiu ainda na infância. O vigilante conta que fez todos os brinquedos dele e das seis irmãs com material encontrado nas ruas.

Sucateiros artistas

É compreensível que o Brasil seja um solo fértil para sucateiros artistas, por suas peculiaridades culturais, mas assim como os artistas 28

* ARTISTAS SUCATEIROS ARTISTAS *

Foto: www.jingdaily.com


Creative responses to a century of accumulation What happens to things when they are used up? Numerous artists and thinkers from various fields of knowledge would say that things, after their end, continue. And as argued by some, they continue more fulfilled, because they are free from the character of functionality attributed to them at birth. Everyday objects can, then, have their original function transcended and become history, meaning, ballast, memory, work of art. From Dadaists to contemporaries, from the Far East to Brazil, there are no few names in the panorama of artistic and critical production that incorporate in their creations and research the reuse of what no longer has use, the employment of the precarious, the rehabilitation and reorganization of objects already devoid of their first meanings. generations of artists have used the waste of consumer society as raw material and source of inspiration, taking advantage of accumulation, collecting and archiving as a creative impulse. Because only by retaining what already is, according to the logic of the market, appropriate for disposal, do you have the ability to subvert the idea of "useful " and, finally, the imperative of consumption.

Dadaists and hoarders Kurt Schwitters, the central figure of Dada in the early decades of the last century, was a pioneer in the redefinition of the common object. The idea of accumulation is central in his work, from his assemblages using bus tickets, found objects and newspaper clippings, to what is considered his main achievement, the "Merzbau". This is a hybrid between installation, sculpture and performance, which

consisted in the reorganization, for over 15 years (between 1923 and 1937) of an apartment, with everything that was inside, without anything being discarded, but with a strict displacement of function or systemic fitting of every part. The building that housed this piece ended up being destroyed in an Allied bombing in 1943. In the mid 60s, the French Arman founded the Nouveau RĂŠalisme along with Yves Klein and Jean Tinguely, among others. Influenced by an exhibition of Schwitters that occurred in 1954, the artist progressively abandons the two-dimensional painting to make his most notable series: "Accumulation" and "Poubelle" (French: trash). The "Accumulations" consisted of identical common objects arranged in wooden boxes which turned into paintings. Arman claimed his works arose unconsciously from an obsession with collecting things, a habit inherited from his mother. His collections of watches, cameras, shoes, musical instruments and dolls transfigured into works that suggested an abstraction achieved by repetition.

Resignified memory The maternal legacy also served as a creative source for the Chinese Song Dong in his monumental installation "Waste Not", first presented at MoMA in 2009. The work consists of the exhibition of the more than 10,000 items compulsively accumulated by his mother while she was alive, an obsession consequent to the scarcity of resources during the "Great Leap Forward" of Mao TseTung, between 1958 and 1960. The disastrous campaign, which aimed to develop China's economy in record time, not only resulted in 20 million deaths, but also in disorders like the one of the aforementioned lady. Like 29


many of her contemporaries in the country, she became an object holder as a self-defense developed in the period of deprivation, avoiding discarding anything that could have some use in the future. The work of Dong highlights not only the scars of a historical period costly to the Chinese people, but also the intense rescue of memory that can emerge from a seemingly trivial collection, establishing a disruptive approach between local and general as well as collective and personal issues raised from ordinary objects.

Pop collectionism Numerous international designers tread the paths of accumulation as criticism of a culture of excess waste production or simply by aesthetic choice. From the emerging India, there are names like Subodh Gupta - who sculpts with hundreds of kitchen cookware thoroughly organized - and Krisnajarad Chonat, who in 2011 presented in the Paris- Delhi –Bombay show (Centre George Pompidou, Paris) the work "My hands smell of you", a huge assemblage of mouses, keyboards and other discarded electronics. Also, the British Wayne Chisnal, with his sculptures of scrap, and the Dutch Marjan Teeuwen, who creates and photographs installationsscenarios reproducing environments that could belong to the most obstinate of accumulators, seem to deny all forms of minimalism to exacerbate the eternal cycle of use and disuse of things. But we don’t need to go as far, on the other side of the Atlantic, to an old world so much harassed by the weight of its own past, much more full of things that are no longer, to catch some prolific examples of scrap artists - this aesthetic field that seems to be a trench against consumerism and proposes questions that come from Duchamp and touches both psychoanalysis and politics. In Brazil, already in the 60s, the genial Farnese de Andrade (1926-1996), a man from Minas Gerais based in Rio, began to create pieces from natural and industrial disposables that he gathered, such as destroyed as toys, statuettes of saints, broken glass, shells, shellfish and other marine embers. He also used antique furniture that he would acquire in deposits, thrift stores or even picked up in the street. Old photographs, including of his own family, 30

are another element of his work, in which the symbolic weight of antiques as a link between past, present and future is evident. The processes of realization of Jac Leirner, an artist from São Paulo, also imply a long time for the collection of ordinary objects, usually linked to the consumption system. These objects, removed from their original place and inserted into the art circuit, start to suggest new meanings. Jac can, acting as a collector, spend up to fifteen years to accumulate what she thinks is necessary for the work. In the 80s, she held a series of works made with paper money. In "The Hundred" (1987), she used notes of 100 cruzeiros. They were perforated, fixed in long strips and scattered on the floor. In "Corpus Deliciti" (19851993), the artist assembled objects, say, caught in default of agreement from airliners, such as ashtrays, cups, blankets and other things. About Sara Ramo it has been said that she " appropriates elements and scenes of everyday life, displacing them from their places of origin and rearranging them in videos, photographs, collages, sculptures and installations. Ramo investigates the moment in which objects stop making sense in people's lives to create situations where calm and order are lost." Among many examples of the sensitive and intriguing way that Sara deals with these objects in her work are the installation "Garden of the Attic Stuff " (2004 ) and the video "Ride" (2008 ), in which the artist herself enacts the emptying of a bag containing an amount of "junk " that seems to never end. The artist seems to provoke us: what and how much we care to save from every change in life? The accumulation and reorganization of things is also the basis for the work of Marcia X (1959-2005), with themes (or obsessions?) that are well delineated. Using erotic objects, children’s toys and religious icons - most of them gotten in the traditional fair on the XV Square in Rio de Janeiro - her performances and installations were marked by the relation sex/childhood, in which porn objects are turned into toys and these in erotic objects. The movement, achieved by the use of electronics in her sculptures, shows the perception of the object as a living body.

* ARTISTS SCRAP ARTISTS *


Scrap artists With a flowing and imprecise traffic between artist and wrecker, there is the exemplary case of Arthur Bispo do Rosário. At one point in his long career of more than 50 years as an intern in the mental health institute Juliano Moreira located in the suburb of Jacarepaguá in Rio de Janeiro, under the diagnosis of schizophrenic and paranoid, he began to produce objects with different types of materials from trash. Among the themes, ships stand out (recurring due to its relationship with the Navy in his youth), banners, misses’ bands and household objects. Bispo ended up achieving posthumous recognition, with his work being elevated to avant-garde art and often compared to that of Marcel Duchamp. He was greatly honored at the Bienal de São Paulo in 2012. Along the same lines, it is impossible not to mention part of the work of Vik Muniz. His sculptures made from thousands of discarded pieces, carefully arranged in huge proportions, become photographic images of birds, fish and human characters literally composed of scrap.

The function in Baudrillard The issue of hoarding, accumulation and systemic reorganization of things echoes in the field of philosophy applied to various areas. The French theorist Jean Baudrillard suggests that objects continually pass from the functional to the symbolic realm within a given cultural system. He claims that objects have imanente meanings and that the very adjective "functional" is not just linked to the practical purpose of things, but also to their ability to take part in a game of relationships. These ideas are expressed in his “The System of Objects”. In this book, Baudrillard also focuses on the place of antique stuff, now already devoid of its function. The importance of antiques occurs, precisely, in that it contradicts the reasoning function to fulfill a purpose of another order: the survival of the traditional and the symbolic through testimony, remembrance, nostalgia and evasion. In his dissertation in design to the Federal University of Paraná, the researcher Marcos Beccari points out that "to Baudrillard, men don’t feel at home amongst

the functional, thus justifying the necessary presence of the antique object as a reorganizer of the world and, simultaneously, an alibi that preserves an intimacy of the one who owns it. While the functional object refers to the current and is depleted by the everydayness, the old object appears (both in terms of objects and also in behaviors and social structures) as a regressive dimension that, although witness to a relative failure of the system, paradoxically makes it work". In practice this theory holds, to avoid the disposal and consumption of new goods that the market and the system itself impel will always be much more than simply accumulating junk. It's just a matter of new ways of looking to everything around us and ”mining” from them the symbolic value pointed out by Baudrillard. Nothing is lost.

Artist scraps In the opposite direction but not far from the scrap artists, there will always be the scrap artists. The media is responsible for, occasionally, bringing some of them to the surface. This is the case of Wagner Agnaldo de Souza, a vigilant from Samambaia, in the Federal District, who for ten years now recycles scrap metal to make ornaments and watches, guitars and motorcycles. The prices of the pieces, sold at a fair in the region, ranges from R$ 40 to R$ 600. Usually taken from vehicles, spades and pans, the material he uses in his work is collected in the streets or donated by neighbors. The ability to transform iron, plastic, wood and glass into art originated in childhood. The vigilante says he made all his and his six sisters’ toys with material found on the streets. It is understandable that Brazil is a fertile ground for scrap artists, for its cultural peculiarities, but just like the scrap artists, their counterparts have vast geography. Chinese farmer Wu Yulu became famous around the world after inventing and building 47 robots in his backyard with old iron. These robots perform various tasks, such as jumping, painting, drinking, massaging and even leading the owner to a rickshaw, that typical Chinese vehicle that is pulled by a person. After a long period of debt and discredit, motivated by his obsession, he was invited to display more than 30 of his robots at the World Arts Fair of Shanghai.

* ARTISTS SCRAP ARTISTS *

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Menos

valia

[leilão] Rosângela Rennó

Várias são as razões que levam os objetos ao abandono: o excesso de uso e desgaste, a obsolescência natural ou programada, um desaparecimento involuntário ou a simples perda de interesse do proprietário em possuí-lo. Entretanto, o que os leva de volta ao mercado, através das feiras de artigos de segunda mão, é a certeza de que algum valor, mesmo que improvável, possa lhes ser atribuído, sempre. O projeto Menos-valia [leilão] foi constituído por um conjunto de 73 desses objetos pertencentes ao universo fotográfico, encontrados e adquiridos em diversas feiras, e sua “denominação de origem” – inscrita, fisicamente, em cada um deles – é tão importante quanto sua própria natureza. Por meio de um longo processo de seleção, recomposição e recondicionamento, transformação, recontextualização e exposição, essas peças passaram por sucessivas agregações de valor material e simbólico até seu destino final: um leilão dentro de um espaço institucionalizado da arte. O conjunto foi exposto na XXIX Bienal de São Paulo e leiloado, lote por lote, pelo leiloeiro oficial Aloisio Cravo, no dia 9 de dezembro de 2010, no próprio pavilhão da Bienal. Cada comprador recebeu o certificado de propriedade de uma parte do projeto Menos-valia [leilão] e, dessa maneira, a incluiu em sua coleção de arte.

Livro: "Rosângela Rennó". Textos: Moacir dos Anjos, Lucia Capanema, Maria Angélica Melendi e Cuauhtémoc Medina. São Paulo: Cosac Naify, 2012 336 pp., 154 ils Fotos: © Edouard Fraipont

No campo das ideias, esse projeto deve ser compreendido, também, como exemplo de “recuperacionismo ativo de transformação” – devidamente ancorado na Ruinologia –, prática já bastante consolidada nos territórios da ética e da estética contemporânea. 33


MInUs valUE

[AUCTION] Rosângela Rennó

Objects are abandoned for several reasons: because they have been worn and torn, because of a natural or planned obsolescence, involuntary disappearance, or simple loss of interest. However, what brings them back into circulation, in the market for used goods, is the certainty that some value, even if it seems unlikely, can always be attributed to them. The project Minus-Value [Auction] comprised a collection of 73 objects, all belonging to the world of photography, found and purchased in various flea markets, whose “designation of origin” – inscribed on each of them – is as important as their nature.

Through a long process of selection, recomposition and reconditioning, transformation, recontextualization and exhibition, these objects underwent successive aggregations of material and symbolic value along the way to their final destination: an auction held in an institutionalized art space. The collection was exhibited at the XXIX São Paulo Bienal and auctioned, object by object, by Aloisio Cravo, official auctioneer, on December 9, 2010, in the Bienal pavilion itself. Each buyer received a certificate of ownership of of part of the Minus-Value Auction] project and, in this manner, included it in their art collection. In the field of ideas, this project should be understood, also, as an example of “active recuperation transformation” – properly anchored in Ruinology – a practice already well-established in the areas of ethics and contemporary aesthetics. 35


Coisas Que do Caem Céu

Things Falling From The Sky

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Mudei-me para um apartamento térreo com duas áreas privativas, cimentadas.

I moved my home to a ground level apartment with two private cemented areas

Logo percebi pequenas coisas Soon I noted Que todos os dias, Small things appearing aparecem sobre o chão everyday in the ground Coleciono-as. Some recur I collect’ em I

por PedroDavid


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* COISAS QUE CAEM DO CÉU *


* THINGS FALLING FROM THE SKY *

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* COISAS QUE CAEM DO CÉU *


* THINGS FALLING FROM THE SKY *

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Encaixotando os amores perdidos Xico Sá Por causa de uma mudança, estive um pouco ausente aqui do nosso banco de praça. Mudar de casa é uma trabalheira. Só não é mais complicado do que mudar de sexo. Ou mudar de mulher. Ou mudar de marido. No que o DJ imaginário solta a trilha “Mudanças”, clássico da Jovem Guarda da Vanusa. A musa recomenda: revirar gavetas, sentimentos e ressentimentos tolos etc.  Estou dentro. Mudar é bronca, mesmo no meu caso, que farei a menor mudança do mundo: apenas um gato e um pendrive com as crônicas do amor louco para eventuais reciclagens. Perdão, minha mulherzinha amada, levarei também os vinis Burt Bacharach – atenção que o cara faz show sábado em São Paulo, imperdível. Burt Bacharach para dançar de rostinho colado. O pior da mudança, mesmo com o meu desapego adquirido com a práxis cigana –não com as ilusões do orientalismo de boutique-, é tropeçar nos objetos que marcaram, de alguma forma, os ex-amores. Sem se falar nas cartas no fundo daquela gaveta esquecida, caligrafia caprichada de moça que ama, os beijos de batom impressos para sempre, as promessas, venho por meio desta… Uma romana me mandou uma fábula de Morávia…

Os utensílios do lar também falam alto, repetem antigas declarações, nos lembram velhas dores mumificadas. Aquele escorredor de macarrão que matou nossa fome dominical com TV a cabo e DVDs incompreensíveis. Desapego. Cavaleiro solitário vende/ doa tudo. Viva mais um ritual de passagem e mudança. Aqueles lençóis que encobriram nosso desamor final e nossa preguiça de segunda-feira, nossa inércia, o edredon que abafou e adiou o “the end” e os créditos finais do nosso filme. Solta a voz, Vanusa! E como a gente guarda coisas que nem sabia tê-las. Assim como cartas, papéis avulsos, recortes sentimentais que julgávamos esquecidos. Qual o quê, basta uma polaroide borrada da Cindy para rebobinar um amor que não houve. É mandar tudo para a feira Benedito Calixto dos amores perdidos ou para a rua do Lavradio das paixões rústicas, trincadas e envelhecidas. Mudança é trabalheira por dentro e por fora. Vamos nessa. Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar, já dizia o filósofo do mangue.

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Xico Sá Because I was moving I've been a bit absent here in our park bench. Moving home is a hassle. It is just less complicated than performing gender change. Or switch wives. Or switch husbands. As my imaginary DJ launches the track "Mudanças", a classic by the Velha Guarda movement artist Vanusa. The muse recommends: to roll drawers, foolish feelings, resentments and so on. I am in. Change is scolding, even in my case; I will make the slightest change in the world: only a cat and a pendrive with chronics of crazy love for eventual recycling. Excuse me, my beloved little wife, I'll also bring the Burt Bacharach discs - note that the guy has a show on Saturday in Sao Paulo, unmissable. Burt Bacharach to dance face to face. The worst change, even with my detachment acquired with gypsy praxis – not with the Orientalism-boutique illusions, is tripping over objects that marked, somehow, my former lovers. Without speaking about the letters at the bottom of that forgotten drawer, neat handwriting of a girl who loves, the lipstick kisses print forever, promises, I come through this... A Roman sent me a Moravian fable... 44

The household utensils also speak loudly, repeating old statements that remind us of old mummified pain. That pasta drainer that helped us kill our hunger on a Sunday with cable TV and incomprehensible DVDs. Detachment. Lone Rider sells/donates it all. Live one more rite of passage and change. Those sheets that hid our final lovelessness and our Monday laziness, our inertia, the blanked that stifled and postponed the "the end" and the final credits of our film. Unleash your voice, Vanusa! And how we keep things we did not even know we had them. Such as letters, loose papers, sentimental clippings we thought were forgotten. Now what, just a blurry Polaroid of Cindy is enough to rewind a love that wasn’t. It is to send everything to the fair of Benedito Calixto of lost loves or to the Lavradio street of rustic, cracked and aged passions. Change is hassle inside and out. Let’s go. One step ahead and you are no longer in the same place, used to say the philosopher of the swamp.


por Paulo Henrique Pessoa “Ganso”


Gravura de Ferrante Imperato "Dell'Historia Naturale" (Nápoles, 1599): a primeira ilustração de um gabinete de história natural


O

GABINETE DE

CURIOSIDADES


Pintura a óleo do pintor italiano Domenico Remps, idos de 1690

P

ouco se pensa a respeito, mas os museus, que em boa parte dos casos guardam o passado (excetuados estão, naturalmente, os que se dedicam à arte contemporânea), também têm passado. Menos vinculados à estética e à fruição do belo do que à ciência e ao descobrimento, os Gabinetes de Curiosidades ou Quartos das Maravilhas escrevem essa pré-história dos museus. Ambas as denominações, com toda a incontornável carga poética que carregam, expressam o esforço de quem empreendeu rumo ao desconhecido na época das grandes explorações e descobrimentos dos séculos XVI e XVII. Exploradores que cruzavam os mares e as terras colecionavam objetos raros ou estranhos dos três ramos em que era dividida a biologia 48

na época: animalia, vegetalia e mineralia. Também entravam no rol desse exercício colecionista as realizações humanas, naturalmente as que eram estranhas aos olhos de quem as colecionava, já que falamos de “descobridores” e suas “descobertas” (as aspas chamam a atenção para o quão relativa é essa dinâmica de quem descobriu o quê).

Os Gabinetes de Curiosidades eram normalmente uma exposição de coisas exóticas e achados procedentes das novas explorações ou de instrumentos tecnicamente avançados,

como foi o caso da coleção do czar Pedro, o Grande, que elevou a Rússia a uma outra janela de pensamento ao retornar de uma expedição pelos Países Baixos, de onde trouxe cartas topográficas, livros e invenções de

* O GABINETE DE CURIOSIDADES *


" Trinity - Pharmacology, Physiology, Pathology, 2000" - Damien Hirst, 2000

© Hirst Holdings Limited and Damien Hirst. All rights reserved / Licenciado por AUTVIS, Brasil, 2013

Os gabinetes tiveram um papel fundamental para o desenvolvimento da ciência moderna Isaac Newton, além de mestres, técnicos, médicos e homens letrados de todas as áreas. Em outros casos, os Quartos das Maravilhas eram amostras de quadros e pinturas, como as que o arquiduque Leopoldo Guillermo promoveu e que podem efetivamente ser consideradas como as precursoras dos atuais museus de arte. Os gabinetes tiveram um papel fundamental para o desenvolvimento da ciência moderna, embora refletissem a opinião popular de seu tempo – assim, não era raro encontrar coisas tidas como sangue de dragão secado ou esqueletos de animais míticos. A edição de catálogos, geralmente ilustrados, permitia acessar e difundir o conteúdo para os cientistas da época. Mesmo em algumas enciclopédias e dicionários ilustrados da primeira metade do

século XX esse tipo de edição ainda ecoava. O tema, de modo geral, ainda é explorado pelo mercado editorial. Bom exemplo é a coleção “O Gabinete das Curiosidades”, lançado pela editora Dantes com oito volumes em 2008. Trata-se de material que vinha sendo levantado desde 1999. Cinco dos títulos constituem uma espécie de “Brasiliana” (termo que, no conceito do bibliófilo e historiador Rubens Borba de Moraes, designa livros sobre o Brasil – no todo ou em parte, impressos ou gravados desde o século XVI até o final do século XIX, e os livros de autores brasileiros impressos ou gravados no estrangeiro até 1808): foram escritos por boticários, naturalistas e curiosos nascidos no Brasil no século XVIII com o intuito de narrar, classificar ou pesquisar

* O GABINETE DE CURIOSIDADES *

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o território e a natureza brasileira e suas potencialidades numa época em que o novo mundo e seus artigos não eram sequer verbetes consolidados nas enciclopédias. Os outros três títulos tratam de termos e questões técnicas que costuram o conjunto das obras. Os Gabinetes de Curiosidades desapareceram durante os séculos XVIII e XIX, sendo substituídos por instituições oficiais e coleções privadas. Os objetos considerados mais interessantes ou valiosos foram transferidos para museus de artes e de história natural que começaram a ser fundados. Tiveram grande importância no estudo pioneiro de certas disciplinas de biologia ao criar coleções de fósseis, conchas e insetos.

Mas assim como na esfera editorial, o conceito e a própria conformação dos Quartos

“Gabinete de Curiosidades Jean Baptiste 333”, por Ganso (2010)

das Maravilhas acabaram reverberando para além de seu tempo, até a atualidade.

São, por exemplo, referência para a produção no universo das artes. Vários trabalhos do controverso britânico Damien Hirst (mais conhecido por suas exposições de animais mortos conservados em formol) têm ligação com a estética dos Gabinetes, como os “Trinity Cabinets”, que dispõem em estantes objetos da farmacologia. Nomes como Tim Holtz e Mark Dion também desenvolvem trabalhos que dialogam com o tema. No Brasil, o artista gráfico, designer de produto e integrante do Coletivo Gambiologia Paulo Henrique Pessoa “Ganso” já lançou um olhar sobre o tema com seu “Gabinete de Curiosidades Jean Baptiste 333” - obra que integrou a exposição “Gambiólogos”, apresentada em Belo Horizonte em 2010. DB


Little thought is given to it, but museums, which in most cases keep the past (except, of course, those dedicated to contemporary art), also have a past. Less related to aesthetics and the enjoyment beauty than to science and discovery, the cabinets of curiosities, or the Wonder Rooms, write this pre-history of museums. Both denominations, with all the inescapable poetics they carry, express the effort of those who embarked into the unknown at a time of great explorations and discoveries of the sixteenth and seventeenth centuries. Explorers who crossed seas and lands collected rare or strange objects of the three branches that biology was divided into at the time: animalia, vegetalia and mineralia. Also entered into the list of this collectionist effort were those human doings strange to the eyes of those who collected them, since we speak of "discoverers" and their "discoveries" (quotation marks draw attention to how relative is this dynamic of who discovered what). The Cabinets of Curiosities were usually a display of exotic things and new findings coming from explorations or technically advanced instruments, as was the case of the collection of Tsar Peter, the Great, who raised Russia to another window of thinking upon his returning from an expedition through the Netherlands, from where he brought topographic maps, books and the invention of Isaac Newton, as well as technical teachers, coaches, doctors and educated men from all areas. In other cases, the Rooms of Wonders were samples of pictures and paintings, such as ones the Archduke Leopoldo Guillermo promoted and that could effectively be considered as the precursor of today's art museums. The cabinets had a key role in the development of modern science, although they reflected the popular opinion of their time - so, it wasn’t uncommon to find things taken as dried dragon's blood or skeletons of mythical animals. The editing of catalogs, usually illustrated, allowed access and distribution of content to scientists of the time. Even in some encyclopedias and illustrated dictionaries from the first half of the twentieth century this type of editing still echoed. Generally, the topic is still operated by the publishing market. A good example is the collection

"The Cabinet of Curiosities", released by the publisher Dantes in eight volumes in 2008. It deals with material that had been researched since 1999. Five of the titles make up a kind of "Brasiliana" (term with which the concept of the bibliophile and historian Rubens Borba de Moraes, designates books about Brazil - in whole or in part, printed or written abroad, from the sixteenth century until the late nineteenth century; and the books by Brazilian authors printed abroad until 1808): They were written by apothecaries, naturalists and curious people born in Brazil in the eighteenth century with the purpose of narrating, classifying or researching the Brazilian territory, its nature and its potential at a time when the new world and its articles were not even consolidated entries in encyclopedias. The other three titles deal with technical terms and link all the other pieces. The Cabinets of Curiosities disappeared during the eighteenth and nineteenth centuries, being replaced by official institutions and private collections. The objects considered more interesting or valuable were transferred to art and natural history museums that were being initiated. They had great importance in the pioneering study of certain disciplines of biology by creating collections of fossils, shells and insects. But as in the editorial scope, the concept and the actual conformation of the Cabinets ended up reverberating beyond its time, until today. They are, for example, reference to production in the world of arts. Several works of the controversial British Damien Hirst (best known for his exhibitions of dead animals preserved in formaldehyde) are connected with the aesthetics of the Room of Wonders, such as the "Trinity Cabinets", which display objects of pharmacology on shelves. Names like Tim Holtz and Mark Dion also develop works that dialogue with it. In Brazil, the graphic artist, product designer and member of the Gambiologia collective, Paulo Henrique "Ganso", have already cast a glance on the topic with his "Cabinet of Curiosities Jean Baptiste 333" - piece that was part of the exhibition "Gambiólogos", presented in Belo Horizonte in 2010. 51


Little great things During a visual arts workshop taught at the Red Balloon School, in Belo Horizonte, students 6 to 9 years old received a challenge: from a talk on hoarding, each one should create a set of objects that featured a collection. But, with a twist: it would have to fit in a matchbox! The little ones showed that creativity has no size nor age.

Pequenas grandes coisas por Beatriz Leite

Durante uma oficina de artes visuais ministrada na Escola Balão Vermelho, em Belo Horizonte, alunos de 6 a 9 anos receberam um desafio: a partir de muita conversa sobre colecionismo, cada um deles deveria criar um conjunto de objetos que caracterizasse uma coleção. Porém, com uma peculiaridade: ela teria que caber em uma caixa de fósforos! Os pequenos mostraram que criatividade não tem tamanho, nem idade. 52


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por Lucas Mafra 57


Proteja Sua Coleção Newton C. Braga

Para os colecionadores de qualquer coisa, proteger a sua coleção é a coisa mais importante do mundo. Para os que gostam de mexer com eletrônica, a possibilidade de se montar o próprio sistema de proteção para seus preciosos objetos, obtidos com tanto sacrifício, é algo que atrai. Mais do que isso, não é tão complicado, pois isso pode ser feito com componentes comuns e de baixo custo. Baseados na nossa ampla “coleção” de circuitos, escolhemos alguns que podem ser muito interessantes para você proteger os tão valiosos objetos.

C

om tecnologia simples e sensores que podem até ser improvisados, podemos elaborar alarmes que, apesar disso, são extremamente eficientes. Os circuitos dados a seguir são apenas um pequeno exemplo do que pode ser feito. Muito mais pode ser encontrado no site e nos livros do autor.

Alarme Psicológico O melhor meio de proteger alguma coisa nem sempre é um alarme que toca quando o ladrão já está de posse do objeto. Um meio alternativo que deve ser analisado, é desestimular qualquer ação de um ladrão evitando que ele tente qualquer coisa, por verificar que o objeto ou área se encontra protegido. Um "engana ladrão" que fará com que os amigos do alheio se afastem, é o que descrevemos como nosso primeiro projeto.

Descrevemos a montagem de um circuito que consiste simplesmente num pisca-pisca de LEDs, mas colocado num local bastante visível, por exemplo, junto ao objeto a ser protegido, e que possui dois elos de ligação com esse objeto. Evidentemente, o circuito não acionará alarme ou qualquer dispositivo de proteção real, mas dará a impressão visual de que ele protege e muito bem o objeto!

Mais vale prevenir do que remediar! Com esta frase resumimos a proposta de Observando o carro antes de uma ação, nosso projeto. o ladrão terá a nítida impressão que o elo 60


feito com fios comuns enlaçando o objeto, praticamente nulo e com os LEDs piscando o consistem em proteções reais. consumo é baixo, o que significa que ele pode ficar permanentemente ligado. Os elos são simples de instalar, já que podem ser encaixados por meio de plugues Para um intruso, tudo vai indicar que e quando isso é feito, o circuito é ativado removendo este elo, o alarme vai disparar. imediatamente fazendo com que os LEDs pisquem alternadamente. É claro que o aparelho pode também ser usado em lojas para simular a proteção de Na condição de espera, sem os elos (que objetos valiosos ou mesmo em passagens para podem ser retirados facilmente) o consumo é desestimular a entrada de intrusos.

Como Funciona O circuito funcionalmente consiste num multivibrador com dois transistores onde a freqüência é determinada pelos capacitores C1 e C2. O montador pode experimentar capacitores de 1 uF a 22 uF, de modo a obter a freqüência que desejar para as piscadas. Quando em funcionamento, os transistores conduzem alternadamente fazendo com que os LEDs ligados aos seus coletores pisquem.

Os resistores em série com os LEDs determinam a intensidade das suas piscadas e podem ser alterados, mas não muito para não elevar demais o consumo de energia do aparelho.

Montagem Na figura 1 temos o diagrama completo do "engana ladrão".

Figura 1 – Diagrama completo do alarme psicológico

* PROTEJA SUA COLEÇÃO *

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A montagem pode ser feita numa placa de circuito impresso. Nesta montagem, o montador deve ter cuidado para não deixar os terminais dos componentes encostarem uns nos outros nos pontos em que eles se cruzam.

posições dos transistores e as polaridades dos LEDs e capacitores eletrolíticos. Observe que a conexão dos elos de proteção é feita através de bornes.

Na figura 2 temos a disposição dos compoTambém é muito importante observar as nentes numa placa de circuito impresso.

Figura 2 – Montagem numa placa de circuito impresso

A alimentação pode ser feita com 6 V de 4 pilhas comuns ou ainda por uma fonte de 6 V a 12 V com pelo menos 250 mA. No entanto, na versão com pilhas o circuito não deve ficar ligado permanentemente para não haver desgaste muito rápido da fonte de energia. Para testar o aparelho ligue os elos de proteção e alimente o circuito com 12 V. Os LEDs devem piscar alternadamente. Se quiser modificar a freqüência das piscadas altere os valores dos capacitores C1 e C2.

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Lista de Material - BC548 ou equivalente transistores NPN de uso geral • LED1, LED2 - LEDs vermelhos ou de outra cor, comuns • R1, R4, R5, R6 - 1 k ohms - marrom, preto, vermelho • R2, R3 - 100 k ohms - marrom, preto, amarelo • C1, C2 - 4,7 uF/16V - eletrolíticos • C3 - 47 uF/16V - eletrolítico • Q1, Q2, Q3

Diversos:

- bornes comuns isolados - 250 a 500 mA - fusível •P  laca de circuito impresso ou ponte de terminais, caixa para montagem, suporte para o fusível, elos com plugues para proteção, fios, solda, etc.

• J1, J2, J3, J4 • F1

* PROTEJA SUA COLEÇÃO *


Alarme de Passagem Um projeto muito solicitado é o que detecta a passagem de objetos ou pessoas por um local. Com a passagem de alguém ou algo um alarme dispara, e assim permanece por um tempo que pode ser programado entre alguns segundos a diversos minutos. Se o leitor está a procura deste tipo de projeto a versão que damos é sensível e usa componentes comuns de baixo custo.

de um LDR como sensor, e a velocidade de resposta relativamente elevada possibilitando a detecção da passagem muito rápida de objetos entre a fonte de luz e o sensor.

O circuito pode funcionar tanto com alimentação de 6 V como 12 V conforme o relé, e seu consumo na condição de espera depende somente da fonte de luz usada. No nosso caso usamos uma pequena lâmpada Descrevemos a montagem de um alarme de 6 ou 12 V, mas nada impede que uma foto-elétrico de passagem, ou seja, que lâmpada ligada à rede de energia seja usada. detecta a passagem de um objeto por um local Pode também ser usado como emissor pela interrupção de um feixe de luz. um LED infravermelho e assim o alarme Bem ajustado e usando alguns recursos trabalhará com uma fonte invisível. ópticos, o alarme pode proteger corredores, janelas ou outros locais. Outra aplicação Encontramos dois ajustes no projeto. O para o circuito é na detecção de objetos que primeiro permite ajustar a sensibilidade eventualmente passem entre os sensores, caso do LDR de acordo com a luz ambiente e em que encontramos aplicações industriais a distância que se encontra a lâmpada de referência. O segundo é o ajuste de tempo, para o circuito. que determina por quanto tempo o relé vai A sensibilidade obtida é grande graças ao uso permanecer fechado depois da detecção.

Como Funciona O LDR permanece iluminado por uma fonte de luz remota. Se algum objeto ou pessoa interromper a luz que incide sobre o LDR, sua resistência aumenta por um instante e com isso, o transistor Q1 que se encontrava no corte conduz. A corrente de condução em função da resistência do LDR é ajustada em P1. Na figura 3 mostramos como o corte de luz pode ocorrer num alarme.

Figura 3 – Interrompendo o feixe de luz

* PROTEJA SUA COLEÇÃO *

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Com a condução de Q1 a tensão no seu coletor cai por um instante fazendo com que o pino 2 seja momentaneamente aterrado via C1. Isso é suficiente para disparar o 555 que se encontra ligado na configuração monoestável.

Nos contactos do relé podemos então ligar o dispositivo a ser controlado pela passagem: uma sirene, buzina ou outro dispositivo que pode ter alimentação independente.

Na figura 4 mostramos como podemos ligar ao relé uma campainha alimentada pela rede Com o disparo, a saída do 555 vai ao nível de energia ou ainda outra carga que será alto por um tempo que vai depender do ajuste acionada pela passagem. de P2 e do valor de C2. Com 100 uF obtemos tempos que podem chegar a um minuto. Se o leitor desejar maiores tempos pode aumentar C2 até 1 000 uF que é um valor razoável. Ir ao nível alto, significa que a saída do 555 que tinha uma tensão de 0 V passa a apresentar uma tensão praticamente igual a da alimentação usada no circuito, 6 V ou 12 V. Essa tensão é suficiente para saturar o transistor Q2. Saturado, o transistor aciona o relé ligado em seu coletor, fechando seus contactos.

Figura 4 – Conectando o alarme a uma cigarra ou campainha

Montagem O diagrama do Alarme de Passagem é mostrado na figura 5.

Figura 5 – Diagrama do alarme de passagem

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* PROTEJA SUA COLEÇÃO *


Nessa figura não mostramos a fonte de alimentação, já que ela dependerá do relé usado. Uma sugestão de fonte de alimentação é mostrada na figura 6. Se for usada uma lâmpada ligada à rede de energia para iluminar o sensor, o alarme pode ser alimentado por pilhas comuns já que na condição de espera o seu consumo será muito baixo.

Figura 6 – Fonte de alimentação para o alarme

Figura 7 – Placa de circuito impresso para a montagem

A placa de circuito impresso para o alarme é mostrada na figura 7. O LDR é do tipo redondo comum e deve ser montado num tubinho opaco que ficará apontado para a lâmpada, conforme mostra a figura 8. A lâmpada usada pode ser de 6 ou 12 V, conforme a tensão de alimentação. Lâmpadas de lanterna ou de carro com correntes de 50

* PROTEJA SUA COLEÇÃO *

Figura 8 – Instalação do sensor

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mA a 500 mA podem ser usadas. É claro que, quanto mais potente a lâmpada maior a distância que pode haver até o sensor, mas também teremos um consumo maior. Para provar basta alimentar o circuito e iluminar o LDR. O trimpot P2 deve estar na posição de mínima resistência. Em seguida vá ajustando P1 e ao mesmo tempo fazendo sombra sobre o LDR. No momento do disparo do relé percebemos isso pelo ruído de seus contactos. Depois dos ajustes o leitor verificará que sempre que fizer sombra no LDR o relé dispara e permanece dessa forma por alguns segundos. Atuando sobre P2 o tempo em que o relé permanece disparado aumenta. Comprovado o funcionamento, os mesmos ajustes devem ser feitos quando o dispositivo for instalado no local definitivo de proteção. Na figura 9 mostramos como usar o alarme para proteger uma passagem.

Figura 9 – Instalação do alarme

Lista de Material • CI-1

– 555 – circuito integrado

• Q1, Q2 – BC548 ou equivalente – transistores

de uso geral – 1N4148 – diodo de uso geral • R1, R4 – 10 k ohms – marrom, preto, laranja • R2 – 22 k ohms – vermelho, vermelho, laranja • R3 – 47 k ohms – amarelo, violeta, laranja • R5 – 1 k ohms – marrom, preto, vermelho • P1, P2 – 1M ohms – trimpots • LDR – foto-resistor redondo comum • C1 – 10 uF – eletrolítico • C2, C3 – 100 uF – eletrolítico • NPN • D1

Diversos: • X1 –

Lâmpada de 6 ou 12 V – ver texto 6 ou 12 V x 50 mA - relé sensível • Placa de circuito impresso, fonte de alimentação, fios, solda, etc.

• K1 –

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Alarme de Uso Geral

O circuito de alarme que descrevemos neste artigo pode proteger os mais diversos tipos de patrimônios. Sua casa, os objetos de sua coleção, ou simplesmente uma área que não deva ser invadida. Alimentado por pilhas ou bateria, ele incorpora o circuito de aviso, com um sinal de áudio de boa intensidade. Os sensores são do tipo NA ou NF e podem ser instalados em qualquer quantidade.

condição de repouso tem um consumo extremamente baixo. Quando disparado, ele aciona um relé, passando nessa condição a ter um consumo maior.

Os sensores podem ser do tipo reed-switch ativados por imãs ou ainda fios comuns para atuarem por interrupção. Também podem ser usados sensores NA (normalmente abertos) como micro-switches. O circuito não possui O alarme que descrevemos pode ser trava. Isso significa que, se o sensor for alimentado por pilhas ou bateria e na reativado o alarme para de soar.

Como Funciona As etapas sensoras usam duas das portas Os sensores NF, por exemplo, podem ser disparadoras do 4093 operando como fios colocados em portas e janelas, conforme inversores/comparadores ativados pelos mostra a figura 10. sensores. A primeira porta tem sua saída indo ao nível baixo quando qualquer dos sensores normalmente fechados for aberto. Esses sensores podem ser fios finos enlaçados nos objetos a serem protegidos. Seu rompimento causa o disparo do alarme. A segunda porta é ativada quando qualquer dos sensores normalmente abertos é fechado. A saída dessa porta vai ao nível baixo quando o disparo ocorrer. Os sensores podem ser reed-switches, microswitches ou chaves de outros tipos NA. Veja então que temos dois conjuntos de sensores diferentes que podem ser usados à vontade conforme o tipo de proteção desejado.

Figura 10 – Protegendo um obejto de madeira

Ao serem interrompidos, o alarme é disparado. Os fios para os sensores podem ser bem longos, mas devem ser isolados.

* PROTEJA SUA COLEÇÃO *

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Montagem Na figura 11 temos o diagrama completo do alarme.

Figura 11 – Diagrama completo do alarme

A montagem pode ser feita com base numa placa de circuito impresso, conforme mostra a figura 12.

Figura 12 – Placa de circuito impresso para o alarme

O conjunto pode ser instalado numa pequena caixa plástica com pontes de parafusos para conexão dos sensores, conforme mostra a figura 13. Para uma alimentação por pilhas, recomendase o uso dos tipos médios ou grandes, dado o consumo maior quando o alarme é disparado. Na condição de espera, o consumo é muito baixo. 68

Figura 13 – Montagem em caixa com bornes

* PROTEJA SUA COLEÇÃO *


O circuito também pode ser alimentado por Lista de Material uma fonte, mas neste caso existe o perigo do • CI-1 – 4093 – circuito integrado CMOS intruso cortar a energia do local antes de sua • Q1 – BC548 ou equivalente – transistor invasão, justamente para desativar alarmes. NPN de uso geral • D1, D2, D3 – 1N4148 – diodos de uso geral Prova e Instalação • R1, R2 – 1 M ohms x 1/8 W – marrom, Para provar o aparelho, basta manter aberto preto, verde qualquer dos sensores ligados em série. O • R3 – 100 k ohms x 1/8 W – marrom, preto, relé deve fechar seus contactos, ativando o amarelo • R4 – 4,7 k ohms x 1/8 W – amarelo, violeta, circuito externo. vermelho Comprovado o funcionamento, é só fazer a • C1 – 100 uF x 16 V – eletrolítico instalação definitiva. Na figura 14 damos uma Diversos: sugestão de sistema de proteção doméstico • X1 a X6 – sensores NA e NF • K1 - Relé de 6 ou 12 V com bobina de 50 usando este alarme. mA e contactos conforme o circuito externo controlado Para rearmar o circuito, basta desligar a  laca de circuito impresso, pilhas, bateria ou alimentação e refazer a conexão dos sensores • P fonte de alimentação, caixa para montagem, disparados. fios, solda, etc.

Figura 14 – Instalação do alarme

* PROTEJA SUA COLEÇÃO *

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Newton C. Braga For collectors of anything, protecting their collection is the most important thing in the world. For those who like to mess with electronics, the possibility of setting up their own system of protection for their precious objects, obtained with much sacrifice, is something appealing. More than that, it's not complicated, as it can be done with common and inexpensive components. Based on our broad "collection" of circuits, we chose some that can be very interesting for you to protect those very valuable objects. With simple technology and sensors that can even be improvised, one can produce alarms that, though simple, are extremely efficient. The circuits given below are just a small example of what can be done. Many more can be found on the website and in the author’s book.

PSYCHOLOGICAL ALARM The best way to protect something is not always an alarm that sounds when the thief is already in possession of the object. An alternative way that should be considered is to discourage any possible actions of a thief, preventing him from trying anything as he realizes the object or area is protected. A "thief- trick" that will make these “friends” depart; this is what we describe as our first project.

In standby, without the links (which can be easily removed) consumption is practically zero, and with the LEDs flashing consumption is low, which means that it can be always on.

Better safe than sorry! With this expression we summarize our proposed project.

Of course this device can also be used in stores to simulate the protection of valuable objects or even in entrances to discourage intruders.

We describe the assembly of a circuit that is simply an LED flasher placed in a very visible place, for example, together with the object to be protected, and with two links connecting to that object. Evidently, this circuit won’t trigger any alarm or device of real protection, but it gives the visual impression that it is protecting the object very well! Observing from the car before an action, the thief will have the distinct impression the link made with common wires connected to the object consists of a real protection. The links are simple to install, as they can be fitted with plugs, and when this is done, the circuit is immediately activated, making the LEDs blink alternately. 70

To an outsider, everything will indicate that removing this link will trigger the alarm.

How it works The circuit functionally consists of a multivibrator with two transistors where the frequency is determined by the capacitors C1 and C2. The assembler can experience with capacitors of 1 uF to 22 uF to get the desired frequency for it to blink. When in operation, the transistors conduct alternately, causing the LEDs connected to their collectors to blink. The resistors in series with the LEDs determine the intensity of their flashes and can be changed, but not too much in order not to raise the power consumption of the device.


Assembly

THE PASSAGE ALARM

In Figure 1 we have the complete diagram of the "thief- trick."

The circuit can operate both with a supply of 6 V or 12 V according to the relay, and its consumption in standby mode depends only on the light source used. In our case, we used a small bulb of 6 or 12 V, but nothing prevents the use of a lamp connected to the power grid.

Figure 1 – Complete diagram of the psychological alarm The assembly can be done on a printed circuit board. In this assembly, the assembler must be careful not to let the component leads touch each other at the points where they intersect. It is also very important to note the positions of the transistors, the LEDs’ polarity and the electrolytic capacitors. Note that the connection of the protection links is made via bornes. In figure 2 we have the arrangement of components in a printed circuit board. Figure 2 - mounting on a printed circuit board The feeding can be made with 6 V from 4 ordinary batteries or from a source of 6 V to 12 V and at least 250 mA. However, in the version with batteries, the circuit shouldn’t be permanently on so there isnt’ a very rapid waste of energy source.

An infrared LED can also be used as an emitter so the alarm will work with an invisible source. We found two settings in the project. The first adjusts the sensitivity of the LDR according to the ambient light and the distance of the reference lamp. The second is the time setting, which determines how long the relay will remain closed after detection.

How it works The LDR remains illuminated by a remote light source. If any object or person blocks the light falling on the LDR, its resistance increases for an instant, and with that, the transistor Q1, which a broken circuit, is completed. The driving current, because of the resistance of the LDR, is set at P1. In figure 3 we show how the interruption of light may occur in an alarm. Figure 3 - Interrupting the light beam

To test the device, connect the protection links and feed the circuit with 12 V. The LEDs should flash alternately. If you want to modify the frequency of blinks, change the values of the capacitors C1 and C2.

With the conduction of Q1 the voltage at its collector falls for a moment, causing pin 2 to be momentarily grounded via C1. This is sufficient to trigger 555, which is connected with a monostable configuration.

List of materials

With the trigger, the output of 555 goes to high level for a time that will depend on the setting of the value of P2 and C2. With 100 uF we get times that can reach a minute. If the reader wants more time, she/he can increase C2 up to 1000 uF, which is a reasonable value.

• Q1, Q2, Q3 - BC548 or equivalent NPN general purpose transistors • LED1, LED2 - red LEDs or colored, common • R1, R4, R5, R6 - 1 k ohms - brown, black, red • R2, R3 - 100 k ohms - brown, black, yellow • C1, C2 - 4.7 uF/16V - electrolytic • C3 - 47 uF/16V - electrolytic Miscellaneous: • J1, J2, J3, J4 - common isolated bornes • F1 - 250-500 mA - fuse • Printed circuit board or bridge, mount box, support for fuse, links with plugs for protection, wires, solder, etc..

Go to high level means that the output of 555, which had a voltage of 0 V, changes to a voltage substantially equal to the power used in the circuit, 6 V or 12 V. This voltage is sufficient to saturate the transistor Q2. Saturated, the transistor drives the relay connected to its collector, closing its contacts. In the relay contacts we can connect the device to be controlled by the passage: a siren, horn or other device that can be self-powered.

* PROTECT YOUR COLLECTION *

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In Figure 4 we show how we can connect a buzzer powered by the power grid or other charge that will be triggered by the passage to the relay Figure 4 - Connecting the alarm to a buzzer or a bell

Assembly The alarm passage diagram is shown in Figure 5. Figure 5 – Passage Alarm Diagram In this figure we don’t show the power supply, since it depends on the relay used. A suggestion of power supply is shown in figure 6. Figure 6 - Power supply for the alarm If a lamp connected to the power grid to light the sensor is used, the alarm can be powered by ordinary batteries, as in standby condition its consumption is very low.

Test and Use To test just feed the circuit and light the LDR. The P2 trimpot should be in the position of least resistance. Then adjust P1 while shading on the LDR. We can hear the sound of the contacts when the relay is triggered. After the adjustments the reader will find that whenever this is a shadow on the LDR, the relay triggers and stays that way for a few seconds. Acting on P2 increases the time the relay continues triggered. Once the operation is tested, the same adjustments should be made when the device is installed in the definitive place of protection. In Figure 9 we show how to use the alarm to secure a passage, firing an alarm. Figure 9 - Installing the alarm

The printed circuit board for the alarm is shown in Figure 7.

List of Materials

Figure 7 - Printed circuit board for mounting

• CI - 1- 555 - IC •Q  1, Q2 - BC548 or equivalent NPN general purpose transistors • D1 - 1N4148 - General Purpose Diode • R1, R4 - 10 k ohms - brown, black, orange • R2 - 22 k ohms - red, red, orange • R3 - 47 k ohms - yellow, violet, orange • R5 - 1 k ohms - brown, black, red • P1, P2 - 1M ohms - Trimmers • LDR - common round photo-resistor • C1 - 10 uF - electrolytic • C2, C3 - 100 uF - electrolytic Miscellaneous: • X1 - Light 6 or 12 V - see text • K1 - 6 or 12 V x 50 mA – sensitive relay • Printed circuit board, power supply, wire, welding, etc.

The LDR is of the common round type and must be mounted in a small opaque tube which will be pointed to the lamp, as shown in Figure 8. Figure 8 - Installing the sensor The light used can be of 6 or 12 V, depending on the supply voltage. Flashlight bulbs or car lamps with currents of 50 mA to 500 mA can be used. It is clear that the more powerful the lamp, the longer the distance up to the sensor can be, but there will also be a greater consumption.

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* PROTECT YOUR COLLECTION *


General Use Alarm

Figure 11 – Full diagram of alarm

The alarm circuit we have described in this article can protect various types of assets - Your house, the objects of your collection, or simply an area that should not be invaded. Powered by a battery, it incorporates the warning circuit with an audio signal of good intensity. The sensors are of the type NA or NF and can be installed in any quantity.

The assembly can be made based on a printed circuit board, as shown in Figure 12.

The alarm we have described can be powered by batteries or a battery and at rest it has a extremely low consumption. When triggered, it triggers a relay, having a higher consumption then. The sensors can be of reed-switch type, activated by magnets or common wires to work by interruption. NA sensors can also be used (normally open) as microswitches. The circuit has no lock. This means that if the sensor is reactivated the alarm stops sounding.

How It Works The sensing steps use two 4093 triggering ports operating as inverters / comparators activated by the sensors. The first port has an output going to the low level when any sensor normally open is closed. These sensors can be thin wires entwined in the objects to be protected. Their disruption causes the triggering of the alarm. The second port is activated when any sensor is normally open are closed. The output of this port goes to low level when the trigger occurs. The sensors can be reed-switches, micro-switches or other NA type. See then that we have two different sets of sensors that can be used as desired depending on the type of protection desired. The sensors NF, for example, can be wires placed on doors and windows, as shown in Figure 10. Figure 10 - Securing a wood object When interrupted, the alarm is triggered. The wires to the sensors can be quite long, but they must be insulated.

Assembly In Figure 11 we have the complete diagram of the alarm.

Figure 12 - Printed circuit board for alarm The assembly can be installed in a small plastic box with bridges of screws for connecting the sensors, as shown in figure 13. Figure 13 – Mounting in box with bornes For a battery power supply, it is recommended to use the medium or large types, due to the increased consumption when the alarm is triggered. In standby mode, the consumption is very low. The circuit can also be powered by a source, but in this case there is the danger of the intruder cutting the power supply of the place before the invasion, in order to disable alarms.

Test and Installation To test the device, just keep open any of the sensors connected in series. The relay should close its contacts, activating the external circuit. With operation tested, just do the final installation. In Figure 14 we give a suggestion of domestic protection system using this alarm. Figure 14 - Installation of the alarm To reset the circuit, just turn off the power and re-connect the fired sensors.

List of Materials • CI- 1- 4093 - CMOS integrated circuit •Q  1 - BC548 or equivalent NPN general purpose transistor • D1, D2, D3 - 1N4148 - General purpose diodes • R1, R2 - 1 M ohms x 1/8 W - brown, black, green • R3 - 100 k ohms x 1/8 W - brown, black, yellow • R4 - 4.7 k ohms x 1/8 W - yellow, violet, red • C1 - 100 uF 16 V - electrolytic Miscellaneous: • X1 to X6 – NA and NF sensors • K1 - Relay of 6 or 12 V with a 50 mA coil and contacts as controlled external circuitry • Printed circuit board, batteries or power supply, mount box, wire, welding, etc..

* PROTECT YOUR COLLECTION *

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P

arece policial noir, e aliás daria um dos bons. No dia 21 de março de 1947, a polícia de Nova York foi chamada por vizinhos de um prédio na esquina da Quinta Avenida com a 128th Street, no Harlem, em Manhattan. Eles acusavam o mau cheiro que emanava do endereço, mais precisamente do apartamento onde moravam os irmãos Homer Lusk Collyer, que tinha então 68 anos, e Langley Wakeman Collyer, de 62. Eram figuras reclusas, consideradas excêntricas por quem morava ali por perto, e justamente por isso acabavam por despertar a curiosidade da vizinhança.

Quando chegou ao local e tentou entrar à força no apartamento, já que nenhum outro tipo de contato ou abordagem era possível, a polícia descobriu que não seria uma empreitada fácil. A porta da frente estava barrada por uma muralha de papéis, catálogos e entulho genérico. As janelas do porão estavam quebradas, mas protegidas por grades. A solução encontrada foi arrombar e entrar pela janela de um quarto no segundo andar. O cenário dentro do cômodo se omparavaaodoandardebaixo:umaenormidade de caixas, papéis, objetos diversos, a estrutura de um carrinho de bebê, vários guarda-chuvas amarrados em um molho e todo tipo de


material que se possa imaginar. O primeiro policial a entrar levou duas horas para engatinhar através do entulho e chegar ao corpo de Homer, encontrado sentado em uma cadeira, vestindo um roupão de banho azul e branco. A perícia médica constatou que ele provavelmente morreu vítima de uma combinação de desnutrição, desidratação e complicações cardíacas, há não mais que dez horas, o que significava que o mau cheiro que exalava do apartamento não podia ser dele. Polícia e bombeiros seguiram tirando o entulho do local, na esperança de também encontrar Langley no apartamento. Cerca de 600 curiosos acompanhavam da rua os trabalhos. Dois dias depois, já haviam sido retiradas mais de 19 toneladas de lixo, papéis e tralha que os irmãos Collyer acumulavam compulsivamente. E nem sinal de Langley.

Nove dias depois, quando equipes ainda retiravam coisas do apartamento – já eram contabilizadas, então, cerca de 84 toneladas de entulho – rumores apontavam que o mais novo dos Collyer tinha sido visto pelos lados de Atlantic City. Teve início uma busca por Langley que cobriu nove diferentes Estados. E nada. No dia 8 de maio daquele ano, finalmente ele foi encontrado, no próprio apartamento, a poucos metros de distância de onde estava o cadáver de Homer, soterrado por uma pilha de catálogos telefônicos, livros e outros papéis. Seu corpo em decomposição havia sido parcialmente comido por ratos. A demora para se chegar até ele deveu-se, fundamentalmente, à dificuldade de remoção de tanto entulho. Ficou constatado que ele havia morrido antes de Homer, e era dele, portanto, o mau cheiro que exalava da casa. Langley se esgueirava por um corredor entre as toneladas de objetos para


levar água e comida ao seu irmão mais velho, que tinha problemas de locomoção, causados pelo reumatismo e porque havia perdido a visão em 1933 – vivia, portanto, praticamente inválido. O Collyer mais novo foi vítima de uma armadilha que ele mesmo preparou. Ao passar por ela, causou o desabamento da tralha sobre si e morreu esmagado. As armadilhas – havia várias pelo apartamento – foram feitas com o intuito de impedir a entrada de estranhos. Foram retiradas ao todo da casa dos Collyer aproximadamente 140 toneladas de coisas indistintas que eles haviam acumulado ao longo dos anos: armas, 14 pianos, uma máquina de raio-X, a carcaça de um Ford T Model, muitos papéis, incluindo catálogos de telefone de datas vencidas, cerca de 25 mil livros e pilhas de jornais, mesas, cadeiras,

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caixas, órgãos humanos conservados em frascos, berços, violinos, acordeons e outros instrumentos musicais, garrafas de vidro, bolas de boliche, bicicletas velhas, gramofones, discos, camas, sofás, penteadeiras, relógios, quadros e tantos quantos mais objetos se possa imaginar, tudo à maneira de lixo compactado, além de oito gatos vivos. O caso dos irmãos Collyer, pouco conhecido no Brasil, é referencial nos Estados Unidos do que se denominou compulsive hoarding – a acumulação obsessiva de qualquer coisa, não raro sem qualquer foco. O termo “Collyer Mansion” se tornou um jargão entre os bombeiros de Nova York e é usado até hoje. Durante décadas, Langley e Homer juntaram e mantiveram objetos em seu apartamento sem um propósito aparente. Progressivamente foram também se afastando do convívio social,

* COLLYER BROTHERS *


transformando o próprio lar numa espécie de fortaleza inexpugnável, com direito às armadilhas. Por falta de pagamento, o serviço telefônico dos Collyer foi cortado em 1917, a água, a eletricidade e o gás, em 1928, o que significa que eles passaram os últimos 19 anos de suas vidas no improviso – um lampião a querosene para iluminar, uma engenhoca criada por Langley para gerar alguma energia e a água conseguida em um posto nas proximidades. Também a comida era obtida graças às andanças mendicantes do irmão mais novo pela cidade. Poderia haver alguma justificativa ou moral da história para o caso que registra o comportamento dos Collyer, mas não, trata-se apenas de uma degeneração patológica do ato tão comum a qualquer pessoa de colecionar. O caso dos irmãos Collyer reverberou tanto,

a propósito, que muitos dos itens que acumularam – incluindo a cadeira em que Homer foi achado morto – acabaram reunidos em uma exposição no Hubert’s Dime Museum, em Nova York, no início dos anos 1950, e seguiram em exibição pública por um bom tempo, numa excêntrica espécie de metacoleção de coleções. Além de exposição, o episódio também gerou outros produtos culturais, como livros (é o caso de “My Brother’s Keeper”, de Marcia Davenport, de 1954, ou “Ghosty Men”, de Franz Lidz, que veio à luz em 1991) e filmes (o curta “Collyer Brother Syndrome”, de David Willing e Jessica Birnbaum, lançado em 2003 e que pode ser visto no YouTube, e o longa “Unstrung Heroes”, de 1995, dirigido por Diane Keaton) – o que atesta a vocação do bizarro episódio para o universo da ficção. DB

* SOTERRADOS PELO ACÚMULO *

77


It seems a police noir, and indeed it would make a good one. On March 21,1947, the New York City police were called by neighbors of a building at the corner of Fifth Avenue and 128th Street, in Harlem, in Manhattan. They reported the stench emanating from the address, more precisely from the apartment where the brothers Homer Lusk Collyer, who was then 68 years old, and Langley Wakeman Collyer, 62, lived. They were inmates figures, considered eccentric by those who lived nearby, and rightfully so they ended up arousing neighborhood curiosity. When the police reached the spot and tried to forcibly enter the apartment, since no other type of contact or approach was possible, they learned that it would not be an easy endeavor. The front door was barred by a wall of papers, catalogs and general debris. The basement windows were broken, but protected by railings. The solution was to break and enter the window of a room on the second floor. The scene inside the room was comparable to the downstairs: a multitude of boxes, papers, various objects, the structure of a stroller, several umbrellas tied in a bundle and every imaginable type of material. The first officer to enter took two hours to crawl through the rubble and get to the body of Homer, found sitting in a chair, wearing a blue and white bathrobe. The medical team found that he probably died from a combination of malnutrition, dehydration and cardiac complications, no more than ten hours before, which meant that the stench exuded from the apartment could not be his. Police and firefighters continued taking the debris out of the site, hoping to find Langley also in the apartment. About 600 onlookers followed the work from the street. Two days later, more than 19 tons of garbage had been removed, papers and junk the Collyer brothers compulsively accumulated. And no sign of Langley. Nine days later, when crews were still taking things from the apartment - about 84 tons of debris had been already accounted for by then - rumors abound that the youngest of the Collyer brothers had been seen near Atlantic City. A search for Langley which covered nine different states began. But nothing. On May 8 of that year, he was finally found inside the apartment, a few meters away from where the corpse of Homer had been, buried under a pile of phone books, books and other papers. His decomposing body had been partially eaten by rats. The delay to reach him was fundamentally due the difficulty of removing so much debris. It was found that he had died before Homer, and it was his stench, therefore, that exuded from that house. Langley crept down a hallway from tons of objects to bring water and food to his older brother, who had mobility problems caused by 78

rheumatism and because he had lost his sight in 1933 – he lived thus practically an invalid. The youngest Collyer had been a victim of a trap he had prepared himself. When passing by it, he caused the collapse of the junk on him and died, crushed. The traps – there were several in the apartment - were made in order to prevent entry by outsiders. There were taken, in whole, from the Collyer house, approximately 140 tons of indistinct things they had accumulated over the years: guns, 14 pianos, one X-ray machine, the carcass of a Ford Model T, much paper, including telephone books of old date, approximately 25,000 books and piles of paper, tables, chairs, boxes, human organs preserved in jars, cradles, violins, accordions and other musical instruments, glass bottles, bowling balls, old bicycles, gramophones, records, beds, sofas, dressers, clocks, paintings and many many more objects imaginable, all in the way of compressed garbage, plus eight live cats. The case of the Collyer brothers, little known in Brazil, is referential in the United States to what is called compulsive hoarding - the obsessive accumulation of anything, often without any focus. The term "Collyer Mansion" became a jargon among New York firefighters and is used even today. For decades, Langley and Homer brought objects together in their apartment without apparent purpose. They were also gradually moving away from social life, turning their home into a kind of impregnable fortress, complete with traps. Because of non-payment, the Collyer phone service was cut in 1917, water, electricity and gas in 1928, which means that they have spent the last 19 years of their lives in improvisation - a kerosene lamp to light, a gadget created by Langley to generate some energy and the water from a station nearby. Also their food was obtained thanks to the mendicant strolls of the younger brother in the city. Could there be any justification or moral of the story for the case that records the behavior of the Collyers? No, it's just a pathological degeneration of the so common act of collecting that could happen to any person. The case of the Collyer brothers reverberated far, by the way, and many of the items that have been accumulated by them - including the chair in which Homer was found dead - were gathered in an exhibition at the Hubert's Dime Museum in New York in the early 1950s, and followed on public exhibition for a long time, in an eccentric kind of metacollection of collections. Besides the exhibition, the episode also generated other cultural products such as books (it is the case of "My Brother's Keeper" by Marcia Davenport, 1954, or "Ghosty Men" by Franz Lidz, which came to light in 1991) and films (the short "Collyer Brother Syndrome", by David Willing and Jessica Birnbaum, launched in 2003 and that can be seen on YouTube, and the feature "Unstrung Heroes",1995, directed by Diane Keaton) - a testament to the vocation of this bizarre episode to the universe of fiction.


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SUPER TRIAC

DIMMER por Lucas Mafra


N

esta Facta #2 lhes apresento meu amigo Super TRIAC (Triode for Alternating Current): BTA41600B. Eu o conheci quando perguntei ao vendedor da eletrônica: qual é o TRIAC mais nervoso que você tem? Tudo começou quando eu estagiava, fazendo luminárias com o nosso amigo “Ganso”. Ele tem lampadões incandescentes antigos, de 300, 500, 750, até de 1000 Watts! São gigantes em comparação com uma mera lâmpada de 100W. A mais potente que encontramos no mercado geralmente é de 200W. Pararam de fabricar os “lampadões”, pois surgiram alternativas mais eficientes; e elas se tornaram uma raridade. A problemática era encontrar um DIMMER potente o suficiente para construir luminárias com esses belos lampadões, já que encontrávamos nas lojas apenas dimmers de 150 a 400W. Solucionática: trocar o TRIAC, a alma do DIMMER. Resolvido! Poderia ter

usado o TIC263 que também é potente (25A), mas a diferença de preço entre ele e o “super BTA” (40A) era mui pequena. Na vídeo-aula dessa edição, você aprenderá a construir uma luminária profissional, em que poderá posteriormente instalar um DIMMER comum e realizar o procedimento de substituição do TRIAC. Para os entusiastas e colecionistas da eletrônica, aqui está um esquemático da Eletrônica Popular de 1967, onde LP1 é uma pequena lâmpada neon (Figura 1). Veja também outro esquema mais atual, encontrado no portal do mestre Newton C. Braga (Figura 2). Caso utilize o dimmer para cargas maiores que 1000W, motores ou resistências, convém usar um radiador de calor no triac e conectores de porcelana, para suportar o aquecimento.

FIG. 2

Links: Controle de potência (dimmer): www.newtoncbraga.com.br/index.php/eletronica/57-artigos-eprojetos/6507-controle-universal-de-potencia-art997 Datasheet do TRIAC BTA41600B e família: www.datasheetcatalog.org/datasheet/stmicroelectronics/7469.pdf

* SUPER TRIAC DIMMER *

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SUPER TRIAC

DIMMER by Lucas Mafra

On this #2 issue of FACTA magazine I introduce my friend Super TRIAC (Triode for Alternating Current): BTA41600B. I met him when I asked the electronics seller: what is the most nervous triac you have? It all started when I was interning, making fixtures with our friend the "Goose". He has huge old incandescente lamps, of 300, 500, 750, and up to 1000 Watts! They are giant in comparisson with a simple 100W lamp. The most powerful we usually find in the market is of 200W. They stopped making these beautiful large lamps because more efficient alternatives emerged, and they became a rarity. The problem was finding a powerful enough DIMMER to build fixtures with these beautiful great lamps since we were able to find in the shops only 150 to 400W dimmers. Solutionatic: to replace the TRIAC, the dimmer’s soul. Problem solved. I could have used the TIC263, which is also powerful (25A), but the price difference between it and the "super BTA" (40A) was very small. In this edition’s instructional video you will learn how to build a professional lamp in which you will be able to install a common DIMMER and later replace the TRIAC. For enthusiasts and collectors of electronics, we present in Figure 1 a schematic from the Popular Electronics of 1967, where LP1 is a small neon lamp. In Figure 2 you can check a more recent scheme, taken from the website of our master Newton C. Braga. If you use the dimmer for a greater than 1000W charge, motors or resistors, you should use a heat radiator at the triac and also porcelain connectors in order to withstand the heat. References: Dimmer control: www.newtoncbraga.com.br/index.php/eletronica/57-artigos-e-projetos/6507-controle-universal-de-potencia-art997 TRIAC BTA41600B and family datasheets: http://www.datasheetcatalog.org/datasheet/stmicroelectronics/7469.pdf

83


Prólogo Apesar de ter sido uma das maiores catástrofes fabris na história , o desabamento da fábrica Rana

Plaza em Bangladesh, que matou cerca de 1100 pessoas e feriu perto de outras 2000, parece pouco afetado a indústria da moda. A fábrica produzia peças para gigantes como Primark, WallMart, GAP, H&M e outras (é difícil, hoje, o armário de um consumidor de moda não conter ao menos uma peça de alguma delas). Mas dos pedidos de assinatura de um Tratado que melhorasse a qualidade de vida dos trabalhadores naquele país, muitas dessas grandes marcas ficaram de fora.

texto por Julia Valle • fotos por Thais Mol


“A cada semana uma nova coleção” Chilli Beans

P

ara 162 modelos, produzidos em tiragens com variação entre 35 e 140 unidades, 2 estilistas, 15 costureiras, 5 modelistas, 1 mês de pesquisa (por materiais, formas, acabamentos, volumes, cores e aviamentos), 3 meses na produção de um mostruário de peças pilotos, 15 minutos de desfile, 5 meses de venda, seguidos por 2 meses de liquidação, a fim de reduzir ao máximo os estoques da estação, correspondendo a quase 50% de toda a produção1. Com períodos de sobreposições de etapas, o ciclo se repete ininterruptamente.

A moda é rápida ,

para o semioticista francês Roland Barthes ao reconhecer a criação do design de obsolescência em seu “O Sistema da Moda” (ainda que não nestes termos) via instituição de durações específicas para estações, tendências e coleções e 86

diferenciação clara entre moda (tendência) e Moda (estilo); para estilistas que, a fim de alcançar metas de vendas estabelecidas pelas empresas, são obrigados a criar coleções de primavera, verão, resort, alto verão, outono, inverno, e ainda compartimentam cada estação em 3 ou 4 meses; para o consumidor, que encontra a impossibilidade de acompanhar e adquirir peças a cada novo lançamento, de ampliar seus armários a cada seis, quatro, três meses; e para as fábricas de tecido, continuamente pressionadas por novidades que devem ser apresentadas com mais de um ano de antecedência dos lançamentos nas lojas. A moda é rápida, rápida o suficiente para não conseguir processar um termo em língua estrangeira e traduzi-lo para a língua local e, na urgência da incorporação, transforma, por exemplo, peep-toes2 em peep-tools.

* MODA, ROUPAS E AUTODESTRUIÇÃO *


1 Uma coleção é considerada um sucesso por análises de marketing e vendas

quando as vendas a preço cheio ultrapassam 60% do total da produção.

2 Sapato ou sandália com pequena abertura na frente, que deixa visível

(‘peep’ do inglês, pode ser traduzido como ‘vista parcial’) apenas parte dos dedos do pé.

3 Termo utilizado para descrever mulheres jovens e atraentes, normalmente

ícones populares. Não estranhamente, o termo remete de alguma forma também, em uma dura tradução, à idéia de garota-objeto.

Verão 2013/2014

• 12 casacos • 22 blusas malha • 25 blusas tecido plano • 14 camisas; 7 delas, brancas • 17 calças tecido • 2 calças malha • 14 saias/shorts/bermudas • 16 vestidos malha • 25 vestidos tecido • 15 vestidos festa

Pensar o termo coleção neste cenário parece absurdo, com um número infindável de objetos entrando em cadeias de produção e inseridos em lojas a cada 3 meses, 1 mês, ou ate mesmo 1 semana (como sugerido na campanha da marca de óculos Chilli Beans). Acompanhar a última tendência adquirindo um par de óculos com armações em cores neon, porque eles caíram perfeitamente naquela it-girl3, não é um investimento, por mais que vendedores tentem nos convencer disso. Não é pretendido aqui construir um guia de melhor custo-benefício para compras em moda, mas sim propor uma forma de análise qualitativa que beneficie o desenvolvimento de um mercado de consumo mais sustentável e uma reflexão sobre os caminhos que este campo do conhecimento e do comércio tem traçado. 87


Desde suas origens, nas maisons dos primeiros criadores na França, a moda depende de uma sazonalidade com extensão não muito prolongada de validade de tempo para sobreviver como indústria e estabelecimento comercial. No século XVI esta duração chegava a alcançar décadas. Com o aumento da disponibilidade de materiais pós industrialização, o crescimento da mão-deobra qualificada disponível, e mais tarde, a diminuição da quantidade de tecido utilizada na confecção de uma peça (mudança natural decorrente das guerras), esta vida útil vai sofrendo diminuições. No momento em que nos encontrarmos hoje, uma ‘tendência’ pode durar menos que uma estação.

(inevitável quando se trata da produção que acontece no momento evolutivo do presente) de coleções em arte contemporânea, e levanta diversas questões como qual a duração válida para o contemporâneo. Pensar essa idéia para a aquisição de peças em moda nos leva ao reconhecimento e esclarecimentos de movimentos que vem sendo iniciados desde o surgimento do pret-a-porter e que, nos dias de hoje, parecem fazer cada vez mais sentido.

Troca e Cessão

Por sorte, preocupação ambiental, falta de espaço ou por simples ausência de fundos disponíveis, muitas iniciativas interessantes concorrem com o comércio tradicional de peças Mas se a moda participa de um conjunto de de roupa. Olhares variados sobre a moda e a expressões criativas, a partir do momento roupa encontram, nestas formas de transferênem que os criadores passam a assinar suas cia, possibilidades de diálogo. Para muitos, o peças inserindo etiquetas, tendo sido elas uso da roupa ainda estabelece uma relação de contemporâneas ou não, aplicar a proposta mera necessidade básica com o usuário. Para de colecionismo do curador norte-americano outros, se expande para espaços de expressão Bruce Altschuler em “Collecting the New” cultural, afirmação social, tratamento estético. (2005) parece muito sensata. Para ele, compor O surgimento de brechós, lojas de segundauma coleção compreende tanto momentos mão, aluguel de roupas, e encontros promovidos de aquisição e análise quanto momentos de entre conhecidos para trocas de peças têm troca, cessão e destruição. Sua proposta é movimentado de forma saudável, sustentável e direcionada ao desenvolvimento constante acessível o mercado de moda.

uma ‘tendência’ pode durar menos que uma estação 88

* MODA, ROUPAS E AUTODESTRUIÇÃO *


Short Promocional planilha de Custos

Tecido

R$ 10,00

Mão-de-obra (separação, corte, costura)

R$ 8,00 R$ 4,00

Beneficiamentos

R$ 3,00

Aviamentos

R$ 7,00

Transporte+outros+lucro facção

R$ 32,00

Total por unidade (produção mínima 300 peças)

R$ 128,00

Preço final venda

Destruição (ou Auto-Destruição) O exemplo acima apresenta uma sugestão real em planejamento de vendas de uma marca ‘rápida’ brasileira. O algodão utilizado aqui talvez tenha uma trama pouco fechada e deforme irregularmente ao lavar, a costureira talvez seja proveniente de outro país latinoamericano e, para pagar suas dívidas com a imigração ilegal mantenha seu custo de mão-de-obra abaixo de R$4/hora para o empregador e sendo cobrada uma velocidade bem acima do comum (fazendo as contas, jamais alcançaria um salário mínimo trabalhando as normais 45h/semana), dentre outras possíveis irregularidades na produção. A qualidade, portanto, garante que ainda que o design do objeto ultrapasse um semestre, sua integridade física certamente não conseguirá.

linha, a moda que mais cresce no mundo no momento poupa seus consumidores da seleção para destruição. Com valores definidos inquestionavelmente baixos, H&M, Zara, Forever21, C&A, Primark, e tantas outras, garantem que a durabilidade de seus produtos não ultrapassará muito mais que os 6 meses de uma estação, se auto destruindo, em aspectos visuais e funcionais.

A constante luta pelo menor custo e maior lucro já tão estabelecida no universo produtivo da moda faz com que clientes deixem de questionar a razão de um short ‘rápido’ custar R$128 e considerem ‘roubo’ uma outra cadeia de produção, que prioriza sustentabilidade dos processos, durabilidade do produto e qualidade de vida dos profissionais envolvidos, a qual não encontra formas de tornar sua ‘marca menor’ O fast-fashion (e ainda tantos outros caminhos competitiva em relação às grandes marcas. na moda, visando lucro máximo acima de qualquer outro valor) elimina parte do tra- Além da planejada obsolescência nas funções balho na construção e/ou seleção de uma (como alterações de tamanho graves após a coleção pelo consumidor. Estabelecendo primeira lavagem, bolsos com costuras abertas limites de custo para tecidos, aviamentos e nos primeiros usos, perda de botões, dentre mao de obra a serem utilizados em uma peça, outros), a obsolescência de estilo é peça central com estratos bem definidos dentro de cada no desenvolvimento de um produto de moda.

* MODA, ROUPAS E AUTODESTRUIÇÃO *

91


O que a moda parece nos entregar hoje é uma coleta de objetos

Auto-Regulação Terrível constatação: essa precariedade em qualidade, combinada com a expertise em design de obsolescência, acaba fazendo com que a moda em seu sistema se auto-regule até certo ponto. Se mantivéssemos o volume produzido atualmente em unidades, substituindo a matéria prima por tecidos de qualidade e utilizando mão de obra que leva o tempo necessário para executar bem todas as etapas do fechamento de uma peça, poderíamos gerar um grande problema. Tramas mais bem construídas podem levar mais tempo para degenerar, todos os armários se tornariam pequenos para comportar toda a coleção que, ainda que utilizada por anos, perduraria. Cenário ridiculamente absurdo, claro. Porém, um controle rigoroso nas produções resultariam em peças caras, duráveis, menos prováveis a variações de tendências, redução no consumo, armários mais compactos, e um horizonte muito mais valioso em produções estilísticas e interessante, tanto para a cadeia produtora quando para a cadeia de consumo. O que a moda parece nos entregar hoje é uma coleta de objetos que participam de um movimento de tendências de uma estação. Os critérios seletivos e os métodos utilizados para precificação priorizam quantidade sobre qualidade, maior lucro, menor durabilidade. Colecionar é bem diferente de coletar.

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* MODA, ROUPAS E AUTODESTRUIÇÃO *


modelo: Aline Paiva AgĂŞncia Ford MG


text by Julia Valle / photos by Thais Mol Prologue:

Despite being one of the largest manufacturing disasters in history, the collapse of the Rana Plaza factory in Bangladesh, which killed about 1,100 people and injured around other 2000 seemed to affect little in the fashion industry. The factory produced products for giants like Primark, Walmart, GAP, H & M and others. (Today it is hard to find a closet of a fashion consumer that doesn’t have at least one item from one of them.) But in the requests to sign a treaty that would improve the quality of life of workers in that country, many of these big brands were not included.

“Each week a new collection” Chilli Beans Summer 2013/2014 12 coats, 22 knitted sweaters, 25 T-shirts of flat fabric, 14 shirts, 7 of them white, 17 fabric pants, 2 mesh pants, 14 skirts /shorts/bermudas, 16 knitted dresses, 25 fabric dresses and 15 party dresses For 162 models, produced in runs varying between 35 and 140 units, 2 designers, 15 sewers, 5 designers, 1 month of research (for materials, shapes, finishes, volumes, colors, and trims), 3 months in production of a showcase pilot, 15-minute fashion show, five months of sales, followed by two months of discount sale in order to reduce the season’s inventories as much as possible, equaling nearly 50% of all production1. With periods of overlapping stages, the cycle repeats continuously. Fashion is fast, according to the French semiotician Roland Barthes, who recognizes the creation of designed obsolescence in his "The Fashion System" (though not in these terms) via the definition of specific 'durations' for seasons, trends and collections and clear differentiation between fashion (trend) and Fashion (style); for designers who, in order to achieve sales targets set by companies, are required to create collections for spring, summer, resort, high summer, autumn, winter, and still compartmentalize each season in 3 or 4 months; for the consumer, who faces the inability to follow and purchase parts with each new release, to expand their closets every six, four, three months; and for fabric factories, continually pressured by novelties that must be presented with more than 1 year in advance of the launches in stores. Fashion is fast, fast enough not to be able to process a term in a foreign language and translate it into local language, and, in the urgency of merging, transforms, eg, peep-toes2 into peeptools. To think about the term 'collection' in this scenario sounds absurd, with a number of endless objects entering production chains and inserted into stores every three months, one month, or even one week (as suggested in the Chilli Beans eyewear brand campaign). 94

To follow the latest trend by purchasing a pair of glasses with frames in neon colors because they fell perfectly in that it-girl 3, is not an investment, as much as sellers try to convince us of that. It is not intended here to build a guide for better costbenefit for fashion shopping, but rather to propose a form of qualitative analysis that benefits the development of a more sustainable consumption market and a reflection on the ways that this field of knowledge and commerce has traced. Since its origins, in the maisons from the first stylists in France, fashion depends on a not too prolonged seasonal extension to survive as an industry and commercial establishment. In the sixteenth century this time came to take decades. With the post-industrial increase in availability of materials, the growth of available skilled labor, and later, the reduction of the amount of fabric used in the making of a piece (a natural change due to wars), this life span will suffer decreases. Today, a 'trend' may last less than a season. But, if fashion participates in a range of contemporary creative expressions, from the moment the creators sign their pieces by inserting labels, whether contemporary or not, applying the proposal of collecting of the American curator Bruce Altschuler in "Collecting the New"(2005) seems very sensible. For him, composing a collection comprises both time for acquisition and analysis as moments of exchange, transfering and destruction. His proposal is directed to the constant development (inevitable when it comes to what happens in the production of this current evolutionary time) of collections of contemporary art, to think about these ideas raises several questions such as the valid duration for the contemporary. Thinking about this idea for athe acquisition of products in fashion leads to the recognition and clarification of movements that have been started since the emergence of pret-a-porter and, that, these days, seems to make more and more sense.


Shift and Delivery Because of luck, environmental concerns, lack of space or simple lack of available funds, many interesting initiatives compete with traditional trade in garments. Various looks on fashion and clothing found in these transfer forms possibilities for dialogue. For many, the use of clothes also establishes a relationship of mere necessity with the basic user. For others, it expands to spaces of cultural expression, social statement, aesthetic treatment. The emergence of thrift stores, second-hand clothes stores, rente of clothing and meetings promoted between acquaintances to exchange pieces have moved the fashion market in a healthy, sustainable and affordable way.

Destruction (or Self-Destruction) Short on sale:

Costs Limits (minimum production of 300 pieces): • Fabric . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . R$ 10 • Hand labor (separation, cutting, sewing) . . . . . . . R$ 8 • Benefits . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . R$ 4 • Trimmings . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . R$ 3 • Shipping + others + faction profit . . . . . . . . . . . . R$ 7 Total per unit . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . R$ 32 Final sales price . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . R$ 128 The example above shows an actual hint in sales planning of a 'fast' Brazilian brand. The cotton used here may have a bit closed pot and therefore deform irregularly when washing; the seamstress is perhaps from another Latin American country and to pay her debts with illegal immigration keeps her labor cost under $ 4/hour for the employer and is being charged a well above the ordinary rate (doing the math, she will never reach the minimum wage working the normal 45h/week), among other possible irregularities in production. Quality, therefore, ensures that even if the design of the object exceeds one semester, its physical integraty won’t. The fast-fashion (and still many other ways in fashion, seeking maximum profit above any other value) eliminates most of the work in construction and/or selection of a collection by the consumer. Establishing cost limits for fabrics, trims and manpower to be used in a piece, with well defined strata within each row, the fashion that is fastest growing in the world right now saves its consumers from selection to destruction. With defined values unquestionably low, H&M, Zara, Forever21,

C&A, Primark, and many others, ensure the durability of its products will not exceed more than the six months of a season, being auto wrecking, in visual and functional aspects. The constant struggle for lower cost and higher profit already so established in the productive universe of fashion makes customers stop questioning the reason for a short 'quick' cost R$ 128 and consider 'stealing' another production chain that prioritizes sustainability processes, product durability and quality of life of the professionals involved, which does not find ways to make its 'mark less' competitive with major brands. In addition to planned obsolescence in functions (such as serious changes in size after the first wash, pockets with open seams in the earliest uses, lost buttons, among others), the obsolescence of style is central in developing a fashion product.

Self-Regulation Terrible realization, this precariousness in quality combined with an expertise design of obsolescence ends up making fashion to self-regulate itself to some extent. If we kept the current produced volume in units, replacing raw materials by using quality fabrics and workmanship that takes the necessary time to perform well all stages of closing a piece, we could generate a big problem. The most well done plots may take longer to degenerate and all drawers would become small to hold an entire collection that, although being used for years, would endure. This is of course a ridiculously absurd scenario. However, strict control on production would result in expensive parts, durable, less likely to variations in trends, reduced consumption, more compact cabinets, and a much more valuable and interesting horizon of stylistic productions, both for the production and the consumption chains. What fashion seems to give us today is a collection of objects that participate in a movement of trends of a season. The selection criteria and methods used for pricing prioritize quantity over quality, higher profits, less durability. To collect is quite different than collecting. 1 A collection is considered a success by marketing analysis when the sells

in full price are bigger than 60% of the total amount produced.

2 Shoe or sandal with a small opening in front, leaving visible ('peep' in

English can be translated as 'partial') only part of the toes.

3 Term used to describe attractive young women, usually popular icons.

Not strangely, the term also refers in some way, in a tough translation, the idea of an object-girl.

* FEAR, FASHION AND SELFDESTRUCTION *

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PULGAS de

fino trato do mundo é uma experiência imperdível. d e p u l ga s ” v e m d o f r a n c ê s Não somente para adquirir peças únicas “marché aux puces”, bazar ao ar livre como objetos, móveis, roupas, obras de arte, surgido em meados de 1860, no subúrbio ou experimentar novos sabores locais, norte de Paris. O nome remete ao abundante mas principalmente pela rica possibilidade vestuário de segunda mão à venda no local de encontro com diferentes culturas e e sua inevitável infestação pelos miúdos e variadas épocas, em um ambiente quase incômodos parasitas da ordem Siphonaptera. sempre caótico. Apesar da origem do termo ser muitas vezes questionada, esses mercados de rua, hoje O fato é que os "flea markets" espalhados por todo o mundo com diferen- são um prato cheio para qualtes nomes, formatos e tamanhos, são uma quer gambiólogo que se preze. unanimidade quando se trata de “garimpar” Facta resolveu então convocar quinze objetos interessantes e raros por ótimos preços. colaboradores em diferentes cidades do mundo para uma missão: ir ao seu mercado Mesmo que mais recentemente tenham predileto, documentá-lo fotograficamente, sido, em grande parte, invadidos pela safra adquirir um objeto curioso (o mais barato de produtos chineses descartáveis, ou que os possível) e levá-lo para casa como recordação. artigos encontrados possuam muitas vezes procedência duvidosa, a visita a um desses Confira, nas páginas a seguir, as diferentes paraísos da barganha em qualquer cidade respostas ao nosso desafio. FP D i z - s e q u e o t e r m o “ m e r c ad o


Daniel Ribão • Lisboa, Portugal “Eis-me aqui, gambiologizando! Dei algumas voltas pela Feira da Ladra nos últimos dias, em outros dias choveu. Aqui em casa, fiz um bestiário gambiológico. Diz lá se Jean Baptiste Gambièrre ficou satisfeito.”

FLEAS OF FINE TRACT It is said that the term "flea market" comes from the French "marché aux puces", an outdoor bazaar that emerged in the mid 1860s in the northern suburb of Paris. The name refers to the abundance of second-hand clothing for sale at the place and its inevitable infestation by these tiny and troublesome parasites of the order Siphonaptera. Although the origin of the term is sometimes questioned, these street markets, today scattered all over the world with different names, shapes and sizes, are unanimous when it comes to "mining" for rare and interesting objects for great prices. Even with the markets being, recently, in large part, invaded by the crop of Chinese disposable products, or with the items found having often a dubious source, to visit one of these bargain havens, in any city in the world, is an

unmissable experience. Not only to acquire unique pieces such as objects, furniture, clothing, or artwork, or to try new local flavors, but also, mainly, for the rich possibility of encountering different cultures and different epochs in an environment almost always chaotic. The fact is that flea markets are a full plate for any selfrespecting gambiólogist. So, Facta decided to call upon 15 collaborators from different cities around the world on a mission: go to your favorite market, photograph it, and purchase a curious object (the cheapest possible) and take it home as a souvenir. Check out the different responses we had to our challenge in the following pages.


Adauany Zimovski • Porto Alegre, Brasil “Olha que eu me contive, cada vez q vou no Brique saio com uns dinheiros a menos no bolso.... Tb comprei uns copos um outro dia q fui, livros, revista velha, etc. Mas essa pintura eu adorei, primeiro pq eu trabalho com paisagem e pq tava um clima muito do bizarro aqui o dia q fui, pq foi o domingo seguinte à tragédia de Santa Maria. E o nome do quadro é "Silêncio Noturno"!! Pra mim soou mórbido e bonito ao mesmo tempo.”


Paulo Barcelos • Estocolmo, Suécia “Acabei comprando um minigame retrô do Space Invaders. Feito no Japão, com joystick analógico e um display com luz azulada. Não saiu tão baratinho, pois o Thasan, dono da barraca, era um mala... Mas eu curti tanto que não resisti :). Custou SEK 80 (deve dar uns 20 reais), incluindo um pacote com 4 baterias AA novas.”


Zedu Carvalho • Salvador, Brasil “Seguem as fotos lá do Cabral Descobertas. Nem deletei as que estão ruins. Meu cartão de memória está com problema, foi um parto para extrair as fotos. Desculpe o atraso. Escolha e trato a luz, as cores etc. Abs.”


Zoe Clayton • Londres, Reino Unido "These ones are of my local market in Elephant and Castle. It is one of the oldest street markets in London- it started as a market in the 16th century. On Sunday they have 'antiques', which means cheap 1970s knick knacks and ornamental plates. I love cheap 1950s and 1960s science fiction and have quite a collection now, most of which I bought for 10p each. The cover art is worth that alone!�


Evan Roth • Paris, França “I have my homework assignment ready! As far as I know it's the largest market in Paris. The piece I ended up buying (for 5 euros) is for blowing bubbles, haha. Thanks for the invitation to participate, it was fun. Please let me know how the magazine comes out, I look forward to seeing it.”


Mariana Pinheiro • Rio de Janeiro, Brasil “As fotos custaram 10 reais todas, sendo que a das gatas de maiô era a mais cara e o vendedor fez um pacote promocional. Acho que vou mandálas em cartas escritas no papel para uns amigos e familiares, descrevendo como se fossem retratos do nosso passado.”


Simone Pazzini • Cidade do México “Eu acabei indo no Mercado da Lagunilla que é o mais famosão mesmo, o que era mais longe e mais toscão, ficou difícil, porque não tive companhia no dia e lá é perigoso ir sozinha, ainda mais com câmera. O objeto que escolhi comprar no dia, tbm queria mandar pros "gambiólogos" porque se trata de uma mão mecânica, que nela mesma encontrei uma pequena gambi já que não funciona... Beijo e saludos desde el Valle de Mexico.”


Janina Pessoa • Montreal, Canadá “O objeto que eu escolhi me chamou atenção por ser uma das coisas mais kitschy que eu já vi na vida. E não! Il n'est pas une pipe. É um after shave. Dentro da cabeça do Tio Sam ainda tem a loção pós barba rsrs. Espero que as fotos funcionem! Custou $9.00. O dono do lugar ficou todo feliz!”


Felipe Rocha • Padova, Itália “Opa, demorou mas chegou. Eu comprei esse cobertor térmico pra gatos (?) e foi tipo 5 euros rs. Acabei indo não no mercado de Treviso, mas um que tem perto de Padova e é muito mais legal. PS: semana passada conheci uma menina do Havaí que conhece a Gambiologia! ”


Bárbara Soalheiro • São Paulo, Brasil “CARA, UM MILHÃO E MEIO DE PERDÕES. É assim: eu fui na feira do Bixiga. Fiz as fotos. Comprei meu castiçal lindo. Só não te mandei e não te mandei e não te mandei... Li seu email num corre louco. Enfim, parando tudo agora, nesse instante. Mas olha, não é falta de amor ou dedicação meu pouco talento para fotos ok? Não mesmo!”


Eduardo Imasaka • Buenos Aires, Argentina “Perdona, estoy ‘orbitando’ con mucho trabajo y movimiento estos meses. Finalmente nada compre, los vendedores estan ausentes y son dificiles de convencer...Ellos quieren vender a turistas, los porteños no. Pero te saque varias fotos a objetos que deseo pero no pago ese precio por ellos.”


Ângelo Abu • Atenas, Grécia “Fiz umas fotos incríveis hj em um mercado de pulgas de Athenas. Estou saindo pra Creta, qdo chegar eu te mando, amanhã. Mesmo n sendo + p a revista. Composições incríveis de trecos. Comprei nada não pq achei q o prazo estava vencido. Mas te envio anyway algumas delas... Abraço!”


Lucas Resende • Nova Iorque, EUA “Foi mal a demora. As fotos eu não gostei, now it's up to you. O mercado é esse aqui: www.brooklynflea.com/ markets/williamsburg/. O livro se chama ‘Have I ever lied to you?’ e tem um relógio adaptado. Gostei da capa tipo Tio Sam que sempre mente, mas faz propaganda que não. E o tempo, que nunca mente. Fica a pergunta...”


Giuliano Obici • Berlim, Alemanha “Comprei um Kreisel-Peão. Porém esse peão tem a capacidade por as cobras pra dançarem, ou encantar as serpentes, como diz na caixa do brinquedo. Comprado no Flohmarket do Mauerpark Berlin, 27 Jan 2013. Custou 3,5 euros. Olha só: Fiz os videos e depois saquei que a bateria da câmera estava fraca. Sei lá, dá pra ter pelo menos uma ideia de como funciona.”


TOUR gambiológica

na praça XV Acesse já

Feira do Troca-Troca, Rio de Janeiro com

facta.art.br Paulo Henrique Pessoa “Ganso”

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VIMEO.COM/GAMBIOLOGIA

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O queniano Cyrus Kabiru ficou famoso mundialmente por seus 贸culos produzidos com materiais achados na rua

UPCYCLING o Ciclo Tecnol贸gico por N铆cia Mafra


“Lixo nada mais é do que a matéria desprovida de sentido” Rafael Cardoso

S

ão facilmente perceptíveis as dificuldades enfrentadas neste novo milênio, algumas já previstas no início do século XX. Problemas novos e sérios convivem com antigos, como a persistência da pobreza e das necessidades essenciais não satisfeitas – ameaças cada vez mais graves ao ambiente e à sustentabilidade da vida econômica e humana.

produtiva, após a revolução industrial e influenciada por Marx, deveria ter se tornado mais estável e ordenada. No entanto, o mundo de hoje parece estar em descontrole. Algumas situações consideradas de risco, decorrentes da mudança do clima global e resultantes da intervenção humana ao ambiente, não são de todo apenas fenômenos naturais e estão inextricavelmente ligados à globalização. Para minimizar estes riscos é necessário uma visão integrada (ou integradora) da relação dinâmica entre as partes e o todo, onde o que afeta também é afetado em quase todos os aspectos. “O que vai, volta”.

Para combatê-los, é preciso considerar a liberdade individual como um comprometimento social (Sen: 2010). A noção de liberdade – que inclui oportunidades econômicas, liberdades políticas, facilidades sociais, garantias de transparência e segurança protetora, assim como acesso ao No funcionamento do mundo A noção de liberdade conforto na forma estabelecida social, os indivíduos atribuem pelo desejo (tão bem manipulado traz uma cultura de determinado significado ao seu pelas ferramentas de marketing) desconexão com o todo ambiente e agem de acordo com – traz uma cultura de desconexão essa atribuição. As interpretacom o todo. ções individuais baseiam-se num conjunto de pressupostos fornecidos pela história e Com o processo de globalização, a questão pela tradição. O termo em inglês tradition da democracia como modelo de liberdade tem origem no latim tradere, que significa relaciona-se de perto com um problema transmitir, ou confiar algo à guarda de cultural merecedor de atenção. Trata-se do alguém. Tradere foi originalmente usado no poder esmagador da cultura e do estilo de vida ocidentais para solapar modos de vida e costumes sociais tradicionais. Uma ameaça inescapável, sendo difícil resistir às forças do intercâmbio econômico e da divisão do trabalho em um mundo competitivo impulsionado pela revolução tecnológica. O sociólogo britânico Anthony Giddens tem dado contribuições significativas à teoria social, explorando as interações entre estruturas sociais e a atividade humana. A sociedade 114

Bijouteria feita de "sea glass", vidro lapidado produzido espontaneamente na natureza

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O norte-americano Boris Bally produz mobiliários " humanofaturados" a partir de placas de trânsito. Fotos: J.W. Johnson (www.borisbally.com)

contexto do direito romano, em que se referia às leis da herança. Considerava-se que uma propriedade passava de uma geração a outra em confiança. O herdeiro tinha obrigação de protegê-la e promovê-la (Giddens, 2011:49).

Nossa sociedade vive o fim da tradição e poderá viver o fim da natureza , ou certamente passar por uma grande transformação. Tradições sucumbem à modernidade, são esvaziadas de seu conteúdo e, comercializadas, tornam-se objetos de herança ou kitsch.

Algumas tradições perdidas podem fazer muita falta, causando angústia e um A nova economia em sentimento de perda. Tradições sucumbem à rede transformou proÉ comum permanecer certa nostalgia por objetos modernidade, são esvaziadas de fundamente as relações especializados e elegantes, seu conteúdo e, comercializadas, sociais entre o capital e tornam-se objetos de o trabalho, como analisa como uma velha máquina herança ou kitsch Manuel Castells. O capital a vapor ou um relógio é global, ao passo que o antigo, mas em geral as máquinas obsoletas e descartadas não são trabalho é local. As grandes redes empresariais difundem o poder de forma hierárquica, em particularmente desejadas. um processo controlado e linear. Mas nas Há tempos convivemos com objetos produzi- redes e inter-relações ecológicas, o processo dos para atender a uma função ou necessidade. é não-linear e envolve múltiplos anéis de Segundo Giddens, a idéia de que as tradições realimentação, sendo os resultados, muitas são impermeáveis à mudança é um mito. vezes, imprevisíveis. Num ecossistema, Elas podem ser inventadas e reinventadas, nenhum ser é excluído da rede. Todas as espéainda que algumas, como as associadas às cies, até mesmo as menores dentre as bactérias, grandes religiões, durem centenas de anos. contribuem para a sustentabilidade do todo.

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Portanto, há uma diferença crucial entre as redes ecológicas da natureza e as redes da sociedade atual.

semelhante ou maior, em sua segunda vida. Como registrado no livro “Do Berço ao Berço: refazendo o caminho para fazer coisas”, o conceito é contrário ao da “obsolescência Uma das grandes vantagens de reconhecer a programada”. Ou seja, as coisas devem ser complexidade do mundo é compreender que projetadas de forma a prever sua reintrodução todas as partes estão interligadas. As ações no ciclo, seja por reciclagem, por reaproveitade cada um juntam-se às mento, ou utilizadas como ações de outros para gerar matéria-prima para serem Upcycling: conversão de movimentos que estão além transformadas em outros um nutriente industrial em da capacidade individual algo de valor semelhante ou produtos, não perdendo a de seus componentes. A maior, em sua segunda vida qualidade quando recicladas interação entre as estruturas e ainda reforçando os sociais e a atividade humana conceitos dos 3 R’s: reduzir, tem caráter cíclico: “os tempos mudam, e reutilizar e reciclar. muda com eles o significado das coisas que Pode-se dizer que a obsolescência parecem fixas.” (Cardoso, 2012) programada é filha da sociedade

Assim pode ser verificada a noção de ciclo no complexo sistema de hoje, que conceitua o tema principal deste artigo, o Upcycling. Cunhado pelo arquiteto William McDonaugh e o químico Michael Braungart, o termo define o processo de conversão de um nutriente industrial (material) em algo de valor

Consumo x consumismo: Carrinho de supermercado "upcycled", por Etienne Reijnders. Foto: Lindholm Interior Concepts

de consumo,

mais especificamente do chamado consumismo. Aqui já cabe uma distinção feita por Bauman entre consumo e “consumismo”. Para o autor, o consumo é um elemento inseparável da própria sobrevivência biológica, já a “revolução consumista” surge mais recentemente:


Luminárias gambiológicas utilizando LED's em lâmpada queimada, lata antiga e fitas cassete: obsolescência iluminada. Por Lucas Mafra, Coletivo Gambiologia e www.recycled-market.com

"Aparentemente o consumo é algo banal, até Produtos de fibras celulósicas, como papel e mesmo trivial. É uma atividade que fazemos papelão, são essencialmente compostáveis, todos os dias. Se reduzido à forma arquetípica biodegradáveis, recicláveis. São produtos a do ciclo metabólico de ingestão, digestão e serem usados para vários fins. Ao receberem excreção, o consumo é uma condição, e um aspecto, qualquer impressão, passam a conter resíduos permanente e irremovível, sem limites temporais de carbono e metais pesados provenientes ou históricos; um elemento inseparável da das mais diversas composições de tintas e sobrevivência biológica que nós humanos acabamentos gráficos. As modernas e atrativas compartilhamos com todos os outros organismos embalagens transformam a matéria-prima do vivos. [...] Já o consumismo, em aguda oposição papel em um complexo amálgama de polpa às formas de vida precedentes, associa a felicidade de madeira, polímeros, vernizes, tintas, menão tanto à satisfação de necessidades (como suas tais pesados, halogenados e hidrocarbonetos. “versões oficiais” tendem a Caso seja incinerado Ao serem reciclados, deixar implícito), mas a um produzirá dioxinas, algumas volume e uma intensidade produtos de papel e fibras destas muito perigosas de desejo sempre crescentes, o celulósicas geram resíduos e cancerígenas. inservíveis que por sua vez implica o uso imediato e a rápida substituição Ao serem reciclados, dos objetos destinados a satisfazê-la." produtos de papel e fibras celulósicas (aparas) geram resíduos inservíveis, como Consideremos os bens produzidos para serem polietilenos (plásticos), alumínio e colas. consumidos, não só para a satisfação de Além disso, o ciclo de aproveitamento necessidades, mas também para atender aos das fibras celulósicas é curto: elas podem desejos das pessoas. Alguns produtos são ser recicladas de cinco a sete vezes, compostos por matérias-primas que podem sempre perdendo resistência, sendo que a cada ser biodegradáveis, ou seja, transformadas novo ciclo de reciclagem são acrescentadas no ciclo biológico; outros por materiais fibras virgens ou longas. Considerando que tecnológicos que estão no ciclo técnico. aparas pós-consumo contêm impressões, a reciclagem será cada vez menos nobre e as

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fibras serão aproveitadas para outros fins, por exemplo, servindo como miolo de papelão ou papelões prensados (aqueles cinzas). Ou seja, um processo complexo que envolve o uso de químicos para branqueamento, gerando necessidade de adaptações eco-eficientes ao processo produtivo.

Henry Ford inovou os sistemas produtivos da indústria do automóvel, no final do século XIX, introduzindo conceitos de produção que reduziam o tempo de preparação das máquinas e os custos e aumentavam a produtividade com o ciclo contínuo de projeto em uma seqüência lógica, além da produção de todos os componentes dentro da própria empresa. O mesmo acontece com plásticos que são De forma simplificada e inovadora à época, misturados a outros, produzindo materiais Ford praticou a primeira forma de upcycling híbridos com qualidade inferior. Da mesma - uma nova concepção de design industrial forma acontece com metal, alumínio e que deve reduzir consideravelmente a vidro, pois quase sempre são acrescentadas emissão de resíduos tóxicos no ar, no solo e matérias-primas virgens para melhoria de na água; medir a prosperidade na relação de qualidade, ou até mesmo para viabilização do menor atividade; cumprir com as inúmeras e processo. Toxinas, entre outros componentes complexas legislações para manter as pessoas e químicos presentes nos produtos de polietile- os sistemas naturais livres de envenenamento; no, são danosos à saúde. Desta forma, uma produzir menos materiais perigosos camiseta produzida com fie quantidades menores bras PET não irá para o solo de resíduos não utiPensar em com segurança, ao contrário desenvolvimento sustentável lizáveis; aterrar o mínimo das 100% algodão, sendo significa reaprender com de materiais, sabendo este mais um novo dilema a natureza que estes nunca mais da reciclagem. poderão ser recuperados. Nesta concepção, o design de produtos passa Reciclar muitas vezes não é um a ser concebido em todas as suas partes e processo vantajoso. Produtos condizente com o conceito de “nutriente tecdescartados como resíduos são re- nológico”, ou seja, o produto para o serviço, a introduzidos como matéria-prima geração de resíduos como recursos. secundária e provenientes de um intrincado processo em cadeia, que depende de Pensar em desenvolvimento sustentável |inúmeros elos (frágeis) no complexo significa reaprender com a natureza, imitando sistema da coleta seletiva. Desta forma, a o metabolismo natural, onde não existe resíduo, reciclagem não pode nunca ser considerada pois o resíduo de um é alimento para o outro. um ciclo fechado, mas um “downcycling”, pois Eliminar o conceito de “lixo” significa desenhar a qualidade do material é sempre reduzida. coisas - produtos, embalagens e sistemas Entretanto, o conceito de eco-eficiência desde o mais inicial entendimento de que aplicado aos modernos modelos de manufatura resíduo pode ser re-significado como recurso, deve ser considerado positivo quando o ciclo na valorização de todos os componentes, tecnológico e os produtos forem desenhados matérias-primas, nutrientes, determinando para retornarem ao ciclo técnico, numa forma o desenho e buscando a forma, não somente de metabolismo industrial. a função ou aparência. Porém, não é esta a 118

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Luminรกria a partir de peรงas de carro, por "The Rag and Bone Man" Descansos de panela feitos com rolhas e abraรงadeiras metรกlicas (www.dailydanny.com)

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Restos de isqueiros promovidos a pendrive, antena wi-fi e conexão bluetooth - por Saulo Policarpo / Lucas Mafra / Coletivo Gambiologia

definição mais usual do termo upcycling, entre as inúmeras “propostas de design ecologicamente correto”. O que é divulgado são aplicações de materiais recicláveis em forma de artesanato, que têm uma vida útil muito curta e não consideram todo o ciclo de vida do produto até o seu descarte. São produtos que tratam apenas da reutilização de materiais, usando partes de produtos, comumente embalagens, muitas vezes mantendo a mesma configuração e ainda deixando aparentes as marcas, ou logotipos, o que invariavelmente será motivo de polêmicas. Resta-nos planejar qual a duração do ciclo se está propondo manter, seja pensando na vida humana individual com duração máxima de 100 anos, na dos nossos descendentes, ou até mesmo no futuro de um planeta que serve de morada à humanidade há milênios, acolhendo e suprindo a vida. 120

REFERÊNCIAS: Braungart, M.; McDonough, W. Cradle to Cradle: remaking the way we make things. London: Vintage Books, 2009. Bauman, Z. Vida para o Consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. _______________________. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Trad. José Gradel. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. Capra, F. As conexões ocultas - ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002. Cardoso, R. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2012. Giddens, A. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2011. NBR ISO 14040: Gestão Ambiental: Avaliação do Ciclo de Vida Princípios e Estrutura. Rio de Janeiro: ABNT, 2001. Sen, A. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Simonetto, E. O.; Borestein, D. A Decision Support System for the Operational Planning of Solid Waste Collection. Waste Management, 27 (10), p. 1286-1297, 2007. United Nations Environment Program (UNEP). Life cycle management: a business guide to sustainability. Genebra: UNEP, 2007.

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UPCYCLING The TECHnological cycle by NĂ­cia Mafra

"Trash is simply matter without meaning�. Rafael Cardoso The difficulties faced in this new millennium are easily noticeable, some had been predicted in the early twentieth century. New and serious problems coexist with old, such as the persistence of poverty and unmet basic needs health and nutrition - increasingly serious threats to the environment, the sustainability of economics and human live, especially after the advent of globalization. To fight these problems, one must consider individual freedom as a social commitment (Sen: 2010). The notion of freedom, which includes economic opportunities, political freedom, social facilities, guarantees of transparency and protective security, as well as access to comfort in the form established by desire (so manipulated by marketing tools), brings up a culture of disconnection from the whole. With the process of globalization, the question of democracy, as a model of freedom, is closely related to a cultural problem worthy of attention. It is the overwhelming power of culture and Western lifestyle to undermine ways of living and traditional customs. An inescapable threat, it is difficult to resist the forces of economic exchange and division of labor in a competitive world driven by the technological revolution. Anthony Giddens, a leading British sociologist, has made significant contributions to social theory, exploring the interactions between social structures and human activity. The productive society after the industrial revolution and influenced by Marx, should have become more stable and orderly. However, today it seems to be a runaway world. Some situations, considered at risk, resulting from global climate change and from intervention in the environment, are not all just natural phenomena. New risks and uncertainties affect us wherever we live, no matter how privileged or poor we are, and are inextricably linked to globalization, an era of transformation. To understand and minimize these risks, we need an integrated, or integrating vision of the dynamic relationship among the parts and the whole, where what affects is also affected in almost all ways, or: "what goes around comes around."

In the functioning of the social world, individuals assign certain meaning to their environment, act according to this meaning and the individual interpretations are based on a set of assumptions provided by history and tradition. The linguistic roots of the word "tradition" are old. The English word comes from the Latin term tradere, which means transmitting, or entrusting something to another. Tradere was originally used in the context of Roman law, where it referred to the laws of inheritance. Presumably, a property that passed from one generation to another was given in trust - the heir had an obligation to protect it and promote it (Giddens, 2011:49). Some lost traditions may be greatly missed, as the extinction of ancient ways of life that may cause anxiety and a sense of loss. A certain nostalgia for specialized objects may prevail, such as an elegant, old steam engine or an antique clock, but in general obsolete machines and discarded things are not particularly desired. For a while we have been living with objects produced to meet a need or function. According to Giddens, the idea that tradition is impervious to change is a myth. Traditions can be invented and reinvented. However, some, such as those associated with the great religions, last hundreds of years. Thus, two basic changes are occurring today under the impact of globalization; not only public institutions but also everyday life is liberating itself from tradition. This society is experiencing the end of tradition and may experience the end of nature, or, indoubtably, undergo a major transformation. Traditions succumb to modernity, they are emptied of their contents, and, commercialized, they become objects of inheritance or kitsch. This new network economy has profoundly transformed the social relations between capital and labor, as Manuel Castells analyzes. The capital is global, while the labor is local. Large enterprise networks diffuse power in a hierarchical manner, where the exercise of power is a controlled and linear process. In networks and ecological interrelationships, the process is nonlinear an involves multiple feedback cycles, being the results often impossible 121


to predict. So there is a crucial difference between ecological networks of nature and human society’s networks of businesses or industry. In an ecosystem, no being is excluded from the network. All species, even the smallest among bacteria contribute to the sustainability of the whole. One of the great advantages of recognizing the complexity of the world is to understand that all parts are interrelated. Thus, the actions of each join the actions of others to form movements that are beyond the capacity of any one individual parts or componentes. The interaction between social structures and human activity is cyclical, "times change, and with them change the significance of things that seem fixed. "(Cardoso, 2012) Then we can verify the notion of cycle in the complex current system, which defines the main theme of this article the "Upcycling". The term, coined by William McDonaugh (architect) and Michael Braungart (chemist), means the process of converting an industrial nutrient (material) into something of similar or greater value, in its second life, theme of this article, the book "Cradle to cradle: remaking the way to do things," whose main premise is the opposite of the concept of "planned obsolescence". In other words, things should be designed anticipating its reintroduction to the cycle, either by recycling for reuse, or used as raw material for processing into other products, not losing quality when recycled and further reinforcing the concept of the 3 R's: reduce, reuse and recycle. We can say that planned obsolescence is the daughter of the consumer society, more specifically of the so-called consumerism. Here it fits a distinction made by Bauman between consumption and "consumerism". For this author, consumption is an inseparable element of biological survival, but the "consumer revolution" comes much later with the passage of consumption to consumerism: Apparently consumption is banal, even trivial. It is an activity that we do every day. When reduced to the archetypal form of the metabolic cycle of ingestion, digestion and excretion, consumption is a condition, and a permanent and immovable aspect, without time or historical limits, an inseparable element of biological survival that we humans share with all other living organisms. [...] Yet, consumerism, in sharp contrast to previous forms of life, associates happiness not so much with the satisfaction of needs (as its "official versions" tend to imply), but an Always increasing volume and intensity of desire, which in turn implies the immediate and rapid replacement of objects designed to satisfy it.

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Consider the goods produced to be consumed, not only for the satisfaction of needs, but also to meet the desires of people. Some products are made of raw materials which may be biodegradable, ie transformed into the biological cycle; others made of technological materials within the cycle or technical metabolism. Products of cellulose fibers, such as paper and cardboard, are essentially compostable, biodegradable, recyclable. Products are to be used for various purposes. Upon receiving any kind of printing, they receive residues of carbon and heavy metals from the most diverse compositions of inks and graphic finishes. Modern and attractive packaging transforms the raw material of paper into a complex mixture of wood pulp, polymers, varnishes, inks, heavy metals, halogenates and hydrocarbons. If incinerated, they produce dioxins some of which are very dangerous and cancerous. Materials created by humans, therefore, are in a technology cycle. Paper or pulp fibers products (scraps), when recycled, generate many useless wastes, such as polyethylene (plastic), aluminum glues. Furthermore, the cycle of use of cellulosic fibers has a short life. They can be recycled from 5 to 7 times, each time generating less resistance, since in each new recycling virgin or longer fibers are added. Since post-consumer scrap contains printing, recycled material becomes less pure and fibers are used for other purposes, for example, serving as cardboard core or pressed cardboard (the gray ones). That is, a complex process involving the use of bleaching chemicals, generating the need for ecoefficient adjustments to the production process. The same goes for plastics, which are mixed with other materials, producing hybrids of lower quality. The same happens with metal, aluminum and glass, since almost always virgin materials are added to improve quality or facilitate the process. Toxins, among many other chemicals, mainly present in the polyethylene products are damaging to health. Thus, a shirt produced from PET fibers will not safely go to the ground, unlike the 100% cotton shirts. This is a new dilema of recycling. Recycling is often not an advantageous process. Discarded products such as waste are reintroduced as secondary raw material and from an intricate chain process, which depends on numerous links (fragile) in the complex system of selective collection. Thus, recycling can never be regarded as a closed loop process, but a "downcycling", because the quality of the material is always reduced. However, the concept of eco-efficiency applied to the manufacture of modern designs should be considered

* UPCYCLING THE TECHNOLOGICAL CYCLE *


as positive when the technology cycle and products are designed to return to the technical cycle in a form of industrial metabolism.

REFERENCES:

Henry Ford innovated the productive systems of the automobile industry in the late nineteenth century, introducing concepts of production that reduced the preparation time of machines and costs and increased productivity with a continuous cycle of the project in a logical sequence, in addition to producing all components within the same company. In a simplified and innovative form at the time, Ford practiced the first form of "upcycling" - a new concept of industrial design that should considerably reduce the emission of toxic waste into the air, soil, and water each year; measure prosperity in relation to less activity; comply with numerous and complex laws to keep people and natural systems free of poisoning as soon as possible; produce less hazardous materials and smaller amounts of unusable waste; using the minimum of materials, knowing that they may never be recovered.

Bauman, Z. Life for consumption: the transformation of people into merchandise. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

Within this concept, the design of products is now viewed in all its parts and it is consistent with the concept of "technical nutrient", in other words, the product to the service, the generation of waste as a resource.

Braungart, M., McDonough, W. Cradle to Cradle: remaking the way we make things. London: Vintage Books, 2009.

_______________________. The individualized society: lives lived and stories told. Trad. José Gradel. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. Capra, F. The hidden connections - science for sustainable living. Sao Paulo: Cultrix, 2002. Cardoso, R. Design for a complex world. Sao Paulo: Cosac Naify, 2012. Giddens, A. Runaway world: what globalization is doing to us. Rio de Janeiro: Record, 2011. ISO 14040: Environmental Management: Life Cycle Assessment - Principles and Structure. Rio de Janeiro: ABNT, 2001. Sen, A. Development as Freedom. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Simonetto, E. O.; Borenstein, D. A Decision Support System for the Operational Planning of Solid Waste Collection. Waste Management, 27 (10), p. 1286-1297, 2007. United Nations Environment Program (UNEP). Life cycle management: a business guide to sustainability. Geneva: UNEP, 2007.

To think about sustainable development means relearning with nature, mimicking the natural metabolism, where there is no waste because the waste of one is food for another. To eliminate the concept of "waste" means designing things - products, packages and systems – using the minimum of materials, knowing that they can be redefined as resource in the appreciation of all components, raw materials, nutrients, determining the design and form, not only the function or appearance. However, as there are many meanings, this is not the most widespread definition of the term "upcycling", among numerous interpretations attributed to "proposals for environmentally-friendly design." What is disclosed are applications of recyclable materials in the form of artifacts, which have a very short life and do not consider the entire life cycle of the product until disposal. These are products with "design" that only address the reuse of materials, using parts of products, commonly packaging, often keeping the same configuration and still leaving visible marks, or logos, which will invariably cause controversy. It remains for us to plan how long the cycle is proposing to preserve itself, being thinking about the individual human life lasting a maximum of 100 years, in the future descendants, or even the future of a planet that serves to host humanity for millennia, accepting and supplying life.

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por Ă‚ngelo Abu


Cleptô texto e ilustrações por Evandro Castro

mano


D

esesperado, um colega psiquiatra Sua história era cinematográfica. Desde uma um dia desabafou comigo: "só me infância carente até a vida adulta suportada aparece doido!". Não era verdade, por um alcoolismo severo, havia cenas ele estava cansado e às vezes até nós comoventes. Era artista, freelancer desenhista nos surpreendíamos com a alma humana. de joias, inteligente, bem informado, mas Há anos trabalhávamos na mesma clínica, um pouco esquisito. Havia acabado de se cada um em sua sala, atendendo em psico- separar de uma mulher louca, segundo ele, terapia os clientes que nos procuravam com e tinha dois filhos que o preocupavam e o os mais variados problemas, desde os mais faziam temer o futuro. Surpreendentemente, banais aos mais complexos. Entretanto, todo nada disto era o motivo de sua consulta. mundo sabe que as profissões “psi” sempre O que lhe trouxera ali era uma compulsão foram cercadas de preconceitos e fantasias. atroz que o perseguia desde a adolescência O dono da lanchonete localizada no andar e que ultimamente tinha se especializado. térreo de nosso prédio e que também era poeta, "– Como?" Perguntei sem entender. com sarcasmo provocava: “... eles eram doidos, pareAos dezoito anos, sem queExperimentou sensações ciam normais, mas eram incríveis desde o momento rer, aconteceu seu primeiro clientes do doutor, por isto em que pensou pegar para furto. Simplesmente sentiu eu sabia, eram doidos”. si o singelo cinzeirinho até o uma vontade irresistível de instante em que o surrupiou colocar no bolso o cinzeiro Numa lenta manhã, alguns de lata que estava em cima dias mais tarde, durante um intervalo entre da mesa do Bar do Português, na esquina de clientes, bateram na porta de meu consultório. sua casa. Experimentou sensações incríveis Era um sujeito baixinho, careca e com uma desde o momento em que pensou pegar para barbinha que lhe emoldurava o queixo e a si o singelo cinzeirinho até o instante em que boca. Muito simpático, me disse ter vindo o surrupiou. Inicialmente sentiu uma atração ao prédio e por acaso havia visto minha misturada com medo e tensão e depois, alívio plaquinha de psicólogo. Por impulso resolveu e euforia. Foi andando para casa morrendo de me procurar. Geralmente eu só aceitava rir com sua travessura e não havia lugar para clientes indicados, o que me possibilitava uma arrependimento ou dúvidas: aquilo tinha que primeira triagem. Talvez por curiosidade e ser feito, e conseguiu fazer bem feito. Para sua por estar disponível naquele momento, desdita, a coisa não parou e daí alguns dias resolvi atender o sujeito que me disse seu “teve” que se apropriar ilicitamente de uma nome e insistiu que eu o chamasse pelo colherinha numa lanchonete, e da mesma apelido: "Mestre". forma foi obrigado por uma força interna a 127


colecionar facas, gravatas, pentes, garrafas vazias, bonés, a parte de cima de biquínis, pés esquerdos de sandálias e outras coisas absolutamente inúteis. Apesar de ser uma pessoa geralmente deprimida, de um modo ou de outro conseguiu ir levando uma vida normal como artista e ativa na prática daquilo que para ele era um vício excitante. Sua mulher sempre se mostrou extremamente solidária e muitas vezes o ajudou a efetuar suas ações emocionantes protegendo-o para não ser flagrado.

de pequenas peças componentes de obras de arte. A última, para fechar sua instalação de pequenos objetos de arte (furtados), havia sido na 29ª Bienal de São Paulo, poucos dias antes de nossa entrevista. Foi uma de suas proezas mais difíceis: uma intervenção cirúrgica na obra "350 Points Towards Infinity, de 2009". Conseguira cortar o fio de prumo que sustentava um pêndulo obliquamente suspenso e qual, junto com outros 349, compunha a belíssima obra da italiana Tatiana Trouvé. Claro que correra sério risco de ser pego e pior, mal entendido, apesar de já posFoi em 1983, durante a 17ª Bienal de São suir quase uma centena de pequenas peças, Paulo, que sua compulsão começou a se sua coleção de readymades “artísticos” ainda dirigir para objetos específicos. Havia lido não havia sido consagrada pelo público, pelas Marcel Duchamp e entendera muito bem suas instituições de arte e nem pelos críticos e ele proposições fundadoras poderia ser confundido da Arte Contemporânea. Apesar de ser uma pessoa com um ladrão. Principalmente a par- geralmente deprimida, de um te dos readymades e sua modo ou de outro conseguiu Compreendi, então que definição, a qual coincidia ir levando uma vida normal o motivo de me procurar impressionantemente com como artista e ativa na prática era um conflito que se sua atividade artística daquilo que para ele era um estabelecera a partir do vício excitante. marginal. Para ele estava momento em que ele foi claro, o que sempre seduzido pela possibilidade havia feito era arte: descobrir objetos inúteis, de mostrar o produto de seus furtos em comuns, anestéticos e apropriar-se deles, des- forma de arte. Sua exposição acabaria com sua locá-los de seu lugar original. Por não saber proteção, sua capa de impunidade e ele poderia que aquilo que praticava por impulso poderia tornar-se não só um artista conhecido, como ser arte, vivera até então na marginalidade também um réu-conhecido. "Que faço, mas, a partir de então, teria oportunidade doutor? Me ajuda!" de ser artista contemporâneo, reconhecido e valorizado. Foi pensando assim que, diante Havia sumido todo meu interesse por da obra minimalista de Piet Stockmans, Mestre, senti repulsa e uma vontade de recitar montada no chão do 2º andar do pavilhão da Manoel Bandeira: "... a única coisa que posso Bienal, Mestre abaixou-se, pegou e colocou fazer é mandar tocar um tango argentino". no bolso da jaqueta uma pequena xícara de Mas foi aí que meu cliente com horário porcelana branca sem alça com uma man- marcado bateu à porta, aumentando minha cha azulada no fundo, a qual fazia parte de ansiedade em parar com aquela entrevista uma espécie de tapete montado pelo artista que já durava duas horas. Abruptamente belga. Era o começo de uma série de furtos encerrei nossa conversa, dei-lhe meu cartão 128

* CLEPTÔMANO *


e disse-lhe para marcar uma próxima sessão, caso quisesse. Recebi o próximo cliente, mas logo percebi que não tinha condições para atendê-lo. Dei uma desculpa e fechei a porta. Meus conflitos, que coincidentemente também envolviam questões com a arte, tinham sido atingidos. Eu havia acabado um curso de Artes Plásticas e decidira não seguir carreira, abandonar sonhos de sucesso, reconhecimento público e talvez até de uma Bienal, algum dia. Pensava em me dedicar apenas à construção de pequenos objetos inúteis pelo resto de minha vida. Fazer como Aureliano Buendia, personagem de Garcia Marquez em seu livro "Cem Anos de Solidão" que, no final da vida, se trancou em sua oficina a produzir

peixinhos dourados, iguais àqueles três que eu mesmo fizera e que ficavam na mesinha ao meu lado. Nada disto, porém, explicava meu descontrole e a angústia que comecei a sentir no final da entrevista com Mestre. Lembrei-me que foi logo depois de me levantar para tomar um copo d’água que aquela sensação começara. A partir daí, fui ficando incomodado, com raiva, sem entender meus sentimentos. Para piorar veio-me à memória, como um flash, o título grotesco de uma das poesias do meu amigo da lanchonete: “Seria o doutor um louco furioso?” Nem tanto. Ao olhar com atenção em cima de minha mesinha de apoio, descobri um possível motivo inconsciente para minhas reações emocionais: um peixinho dourado sumira!

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text and illustrations by Evandro Castro Desperate, a colleague psychiatrist vented with me one day - Only crazy people show up to me! It was not true, he was tired and sometimes we were surprised by the human soul. For years we were working in the same clinic, each in his room, attending in psychotherapy clients who came to us with a wide variety of problems, from the most mundane to the most complex. However, everyone knows that “psi� professions have always been surrounded with prejudices and fantasies. The owner of the coffee shop located on the ground floor of our building and who was also a poet, sarcastically teased, "... they were crazy, they looked normal but they were clients of the doctor, so I knew they were crazy." On a slow morning, a few days later, during an interval of several hours between clients, someone knocked on my office door. He was a short man, bald, and with a beard that framed his chin and mouth. Very friendly, he told me he had come to the building and by chance had seen my psychologist nameplate and decided on impulse to look for me. I usually only accept indicated clients, which facilitated an initial screening. Perhaps out of curiosity and because I was available at that time I decided to attend the guy who told me his name and insisted that I call him by his nickname - Master. His story was like a film, from a poor childhood to adulthood, supported by severe alcoholism, it had its moving scenes. He was an artist, a freelance jewelry designer, intelligent, well-informed, but a little weird. He had just separated from a crazy woman, he said, and had two children who made him worry and fear the future. Surprisingly, none of this was the reason for his visit; what had brought him there was a gnawing compulsion that haunted him since adolescence and that lately he became specialized. How? I asked blankly. At eighteen, unwittingly, his first theft happened. He just felt an irresistible urge to put in his pocket the tin ashtray that was on the table of the Portuguese Bar, on the corner of his home. He experienced amazing sensations from the moment he thought of getting it for himself to the moment he pilfered the little ashtray. Initially he felt an attraction mixed with fear and tension and then relief and euphoria. He went walking home laughing with his mischief and there was no room for regret or doubt, that had to be done and he managed to do it well. To his misfortune, the thing has not stopped and a few days later he "had" to unlawfully appropriate a teaspoon at a diner and likewise he was forced by an internal drive to collect knives, ties, combs, empty bottles, caps, the tops of bikinis, the left feet of sandals and other absolutely useless things. Despite being a generally depressed person, one way or another he managed to lead a normal life as an artist, and was active in the practice of what for him was an exciting vice. His wife has always been extremely supportive and has often helped him make his exciting actions, protecting him from being caught. 130


It was in 1983, during the 17th Bienal de São Paulo, that his compulsion began to turn to specific objects. He had read Marcel Duchamp and understood very well his founding propositions of contemporary art. Especially the part of the ready-mades and its definition, which coincided strikingly with his marginal artistic activity. For him it was clear that what he had always done was art: to discover useless, common, anesthetic objects and take possession of them, move them from their original place. Not knowing that what he practiced by impulse could be art, hitherto living on the margins, he learnt since then he had a chance to be a contemporary artist, recognized and valued. Thinking this way, before Piet Stockmans’minimalist piece, mounted on the floor of the 2nd floor pavilion at the 17th Bienal de São Paulo, Master bent down, picked up and put in his jacket pocket a small white porcelain cup, without a handle and with a blue spot in the background, which was part of a kind of tapestry put together by the Belgian artist. It was the beginning of a series of thefts of small components of artwork pieces. The last, to close his installation of small (stolen) art objects, was a few days before our interview. It was at the 29th Bienal de São Paulo and it was one of his most difficult feats. A surgical intervention in the piece 350 Points towards Infinity, of 2009. He managed to cut the plumb line that held a pendulum suspended obliquely, and which along with other 349 pieces composed the beautiful work of the Italian Tatiana Trouvé. Of course he had run a serious risk of being caught and worse, misunderstood, despite already owning nearly a hundred small pieces, his collection of "artistic" ready- mades had not yet been consecrated by public institutions of art nor by critics and he could be mistaken for a thief. I realized then that the reason he was looking for me was a conflict that had been established from the moment he was seduced by the possibility of showing the product of his thefts in an art form. His exhibition would end his protection, his cloak of impunity, and he could become not only a well-known artist but also a well-known defendant. What do I do doctor ? - Help me! All my interest for Master had fled, I felt revulsion and a desire to recite Manoel Bandeira: "... the only thing I can do is to ask to play an Argentinean tango." But that was when my scheduled client knocked on the door, increasing my anxiety to stop with that interview that had already lasted two hours. I abruptly shut our conversation, I gave him my card and told him to schedule a next meeting if he wanted to. I received my next client, but soon I realized that I was in no condition to attend him, so I gave an excuse and shut the door. My conflicts, which coincidentally also involved art issues, had been reached. I had just finished a Fine Arts course and had decided not to pursue a career, to abandon dreams of success, public recognition and maybe even a biennal one day. I thought of dedicating myself to building small useless objects for the rest of my life. Do as Aureliano Buendia did, a Garcia Marques character in his book One Hundred Years of Solitude, who late in life locked himself in his workshop to produce goldfish - like those three I had done myself and that were on the table beside me. None of this, however, explained my disarray and anguish that I began to feel at the end of that interview with Master. I remembered it was right after I got up for a glass of water that that feeling had begun. From there on I was getting annoyed, angry, without an understanding of my feelings. To make matters worse, it came to mind, like a flash, the title of one of the grotesque poems of my cafeteria friend: "Might the doctor be a furious madman ?" Not really, looking carefully over my support table I discovered a possible unconscious reason for my emotional reactions - a goldfish was gone! 131


Foto: Department of Psychiatry, UCSD


COMPULSIVE

HOARDING

Síndrome de Diógenes: a irrefreável compulsão por acumular

O

caso dos irmãos Collyer, relatado nesta edição, é um exemplo clássico da acumulação patológica, a compulsão por juntar coisas e a extrema dificuldade para livrar-se delas. São relativamente recentes os primeiros estudos sobre a Acumulação Compulsiva (ou Pathological Collecting). Somente no final da década passada surgiu no Reino Unido a primeira terapia de grupo para pessoas que padecem deste mal. Ao longo dos últimos anos foram detectados os traços típicos dos acumuladores compulsivos, os problemas que normalmente enfrentam, as possíveis causas desse comportamento e até mesmo um mapa neurológico deles. Depressão, ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade são sintomas comuns em pessoas que desenvolvem ssa desordem obsessivo-compulsiva. A maior incidência se dá entre os mais velhos, que comumente já não são mais assistidos pela família e, assim, podem transformar suas casas em apertados depósitos de tudo.

Hoarding apresenta riscos conexos diretos e indiretos, como doenças que podem surgir com a sujeira (problemas respiratórios causados por poeira) ou trazidas por ratos, baratas e animais congêneres afeitos ao lixo, bem como o risco de incêndio e, num caso mais extremo – o dos irmão Collyer é exemplar – o esmagamento pelo entulho. Segundo algumas correntes médicas, a Síndrome de Diógenes ainda não pode ser considerado uma desordem mental claramente configurada, e muitos acumuladores podem não apresentar nenhum outro sintoma de transtorno obsessivo-compulsivo. Tampouco costumam reconhecer em si algum distúrbio.

Casas de acumuladores compulsivos podem ter cômodos totalmente interditados pela tralha e, assim sendo, é normal que essas pessoas evitem e até mesmo impeçam visitas, tornando-se cada vez mais isoladas. O Compulsive Hoarding pode ser dividido em, por assim dizer, variantes específicas, como a bibliomania, cujo foco da atração são os Também conhecido como Síndrome de livros, catálogos e textos dispersos em geral, Diógenes, "síndrome de miséria senil", ou o Animal Hoarding, que trata da obsessão Syllogomania, Disposophobia ou ainda, infor- pelos animais de estimação. malmente, como Packratting, o Compulsive Depressão, ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade são sintomas comuns em pessoas que desenvolvem essa desordem obsessivo-compulsiva 133


O pesquisador David Tolin, da Escola de Medicina da Universidade de Yale, quis descobrir o que acontece no cérebro desses acumuladores usando imagens obtidas com ressonância magnética funcional. Nesse trabalho, ele e sua equipe diagnosticaram o problema como a “aquisição excessiva

e a incapacidade de descartar objetos,

resultando

em

uma

desordem debilitante”.

Os exames mostraram que os acumuladores tinham diferenças importantes no cérebro, tanto no córtex cingulado anterior, associado com a atenção e a capacidade de concentração, quanto na ínsula anterior, ligada à avaliação de riscos, importância de estímulos e decisões emocionais. Os acumuladores submetidos às experiências de Tolin mostraram uma capacidade de processamento mais baixa na atividade cerebral nessas regiões no momento de tomada de decisões, motivada quase sempre por uma incerteza acerca do resultado. A conclusão foi que eles não necessariamente precisam manter o que têm porque amam seus pertences. Na verdade, eles evitam tomar decisões sobre o que fazer pelo medo extremo de estar cometendo um erro ao optar por jogar qualquer coisa fora (por acharem que poderão precisar dela mais tarde). Além do emblemático caso dos irmãos Collyer, há outros – que inclusive já foram tema de documentários e reportagens televisivas –, como o de um homem que tinha compulsão por guardar informações: revistas, livros, jornais, tudo espalhado pelos cômodos de sua casa. Ele chegava a vasculhar o lixo regularmente para ver se algum escrito podia ser recuperado e guardado. Mas o Compulsive Hoarding não está exclusivamente ligado

134

www.orvallisadvocate.com

www.wikimedia.org

www.thehoardingproject.org


www.wikimedia.org

ao lixo, a velharias ou às coisas sem uso. Há registrado o caso de uma mulher que era uma acumuladora-consumidora, ou seja, a tralha que estorvava os cômodos de sua casa era quase toda fruto de suas compras. Mesmo sem ter necessidade, mas por um desejo incontrolável, ela comprava de tudo. A reportagem que focalizou o drama desta mulher apontava que a escada que dava acesso ao segundo piso de sua casa havia sido interditada pelos objetos e, na sala,

era preciso encontrar trilhas

entre as montanhas de compras,

boa parte ainda lacrada e com as etiquetas.

www.wikipedia.org

www.orvallisadvocate.com

É digno de menção, ainda, o relato de uma outra mulher, que dizia não achar que acumulava coisas, mas que as estava “salvando”. O detalhe é que o pai dela era lixeiro e sempre levava para casa objetos que encontrava na rua, o que denota uma espécie de acumulação compulsiva hereditária. Já em idade avançada, com cinco filhos criados e encaminhados na vida, morando sozinha, ela justificava que os objetos lhe faziam companhia. Ela e o marido – alcoólatra, internado diversas vezes por esquizofrenia – foram expulsos de modo recorrente dos locais onde moravam pela vizinhança, incomodada com o entulho que se espalhava pelo quintal e com os animais pestilentos que o lixo atraía. São casos não tão raros quanto se imagina e justamente por isso vêm sendo merecedores de atenção, tanto pela ótica científica quanto pela esfera do entretenimento. Personagens que são acumuladores compulsivos, reais ou fictícios, já povoam a literatura, o cinema e mesmo a televisão. O foco da abordagem é que naturalmente varia, do humor ao drama. DB 135


www.messiemother.com

PATOLOGIA ENTRETENIMENTO Colecionismo, acumulação compulsiva e afins são temas de várias séries de TV ACUMULADORES (Hoarders)

A&E • www.aetv.com/hoarders Antiques Roadshow

PBS • www.pbs.org/wgbh/roadshow AUCTION Hunters

Spike • www.spike.com/shows/auction-hunters Bizarrices (oDDITIES)

Discovery Science

science.discovery.com/tv-shows/oddities

Tibira e Carrô são os protagonstas da série Caos, que acompanha o diaa-dia de uma loja em São Paulo que também é balada, bar e antiquário. Foto: Reinaldo Meneguim - cortesia The History Channel

caçadores de relíquias (AMERICAN PICKERS)

The History Channel

mestres da restauração

Caos

The History Channel

www.seuhistory.com/programas/cacadores-de-reliquias.html

The History Channel

www.seuhistory.com/programa/caos.html Confessions: Animal Hoarding

(AMERICAN RESTORATION)

www.seuhistory.com/programas/mestres-da-restauracao.html QUEM DÁ MAIS? (Storage Wars)

A&E • www.aetv.com/storage-wars

Animal Planet

animal.discovery.com/tv-shows/confessions-animal-hoarding

STORAGE HUNTERS TruT V • www.trutv.com/shows/storage-hunters

Hoarding: Buried Alive

trato feito (PAWN STARS)

TLC

The History Channel

www.tlc.com/tv-shows/hoarding-buried-alive

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www.seuhistory.com/programas/trato-feito.html


COMPULSIVE

HOARDING Diogenes syndrome: The unbridled compulsion to accumulate

The case of the Collyer brothers, which is reported in this FACTA issue, is a classic example of pathological accumulation, the compulsion to gather things and the extreme difficulty to get rid of them. Preliminary studies on Compulsive Hoarding (or Pathological Collecting) are relatively recent. Only at the end of the last decade, in the UK, that the first group therapy for people who suffer from this evil took place. [I know this looks weird, but: ‌the UK, did the first group therapy for people who suffer from this evil take place] Over the last few years the traces of typical compulsive collectors were detected, the problems they usually face, the possible probable causes of this behavior, and even a neurological map of them. Depression, anxiety, attention deficit and hyperactivity disorder are common symptoms in people who develop this obsessive-compulsive disorder. The highest incidence occurs among older people, who are no longer commonly attended by family and thus can transform their homes into tight deposits of everything. Also known as Syllogomania, Disposophobia or informally as Packratting, compulsive hoarding has direct and indirect risks associated with it, such as diseases that can arise with the dirt (respiratory problems caused by dust) or brought by rats, cockroaches and related animals attracted to waste, as well as the risk of fire and, in the most extreme case - the example is of the Collyer brothers - the risk of being crushed by the debris. According to some current medical thought Compulsive Hoarding can not yet be considered a clearly configured mental disorder, and many accumulators may have no other symptoms of obsessive - compulsive disorder. Nor do they often recognize a disorder in themselves. Homes of compulsive accumulators may have rooms totally blocked by stuff and, therefore it is normal for these people to avoid and even prevent visits, becoming increasingly isolated. Compulsive Hoarding can be divided into specific variants, so to speak, such as bibliomania, in which the focus of attraction are is books, catalogs and texts in general, or Animal Hoarding, which deals with the obsession with pets. Researcher David Tolin, from the School of Medicine at Yale University, wanted to find out what happens in the brain of these accumulators by using images obtained with fMRI. In this work, he and his team diagnosed the problem as an "excessive acquisition and the inability to discard

objects, resulting in a debilitating disorder." The tests showed that the accumulators had important differences in the brain, both in the anterior cingulate cortex, associated with attention and the ability to concentrate, and in the anterior lobe, linked to risk assessment and the importance of stimuli and emotional decisions. The collectors subjected to Tolin's experiments showed a lower processing capacity of brain activity in these regions at the moment of making decisions, often motivated by uncertainty about the outcome. The conclusion was that they do not necessarily need to keep what they have because they love their belongings. In fact, they avoid making decisions about what to do by extreme fear of making a mistake by choosing to throw anything away (because they think they may need it later). Besides the emblematic case of the Collyer brothers, there are others - which also have been the subject of documentaries and TV shows - such as the man who had a compulsion to save information: magazines, books, newspapers, all scattered through the rooms of his home. He came to scour the garbage regularly to see if there were any writings that could be recovered and saved. But Compulsive Hoarding is not exclusively linked to waste, junk or things of no use. There is a recorded case of a woman who was a hoarder - consumer, i.e. the stuff that messed the rooms of her house was almost entirely the result of her purchases. Quite without necessity, but moved by an ungovernable desire, she would buy everything. The report, which focused on the drama of the woman, showed that the stairs that led to the second floor of her house had been blocked by the objects, and in the living room it was necessary to find paths among the mountains of stuff, most still sealed and with tags. It is worth mentioning also the story of another woman who said she did not think she accumulated things but instead she was "saving" them. The detail is that her father was a garbage man and had always brought home objects found in the streets, which denotes a kind of hereditary compulsive hoarding. Already in advanced age, with five children raised and already independent in life, living alone, she justified her hoarding by saying the objects kept her company. She and her husband - an alcoholic hospitalized several times for schizophrenia - were expelled recurrently from the places where they lived by neighbors troubled with the rubble that spread across the yard and with the stinking animals the garbage attracted. These cases are not as rare as one may think, and rightfully so they have been worthy of attention, both by the scientific view as by the sphere of entertainment. Characters who are compulsive accumulators, real or fictitious, already populate the literature, films and even television. The focus of the approach is what naturally ranges from humor to drama. 137


Quem

passa

galpão

da

pela

Matiz

discretamente

fachada Arte

do

Objeto,

localizado

em

um prédio da região central de Belo Horizonte, não faz ideia das preciosidades que habitam seu interior. Antônio Carlos Figueiredo, proprietário do espaço, tem acumulado durante 30 anos um formidável conjunto de peças antigas, relíquias, raridades da cultura mineira, brasileira e mundial que pretende transformar em um Museu do Cotidiano. O acervo, além de exalar as memórias de tempos antigos, faria inveja em qualquer diretor de arte hollywoodiano, tamanha a variedade e quantidade de peças: Antônio orgulhosamente afirma serem mais de cem mil, dispostas não só nessa locação, mas

também em mais três galpões, uma casa, quatro salas e uma loja. Todos lotados. Apesar da aparência de caos e mesmo sensação de claustrofobia em um primeiro momento – os objetos estão muitas vezes empilhados do chão ao teto –, o espaço vai se mostrando surpreendentemente organizado. “Conto com a ajuda do Santo Expedito”, diz o anfitrião. Expedito é na verdade o braço direito “ambidestro, nordestino e paciente” que ajuda na lida do dia a dia, limpando e organizando, de tempos em tempos, o acervo. O galpão contém “departamentos” de quase tudo: TV’s, rádios, garrafas, placas, taxímetros, latas, opalinas, filtros de água, talheres, geladeiras, pias de trens, brinquedos, papéis e também uma sala reservada, estão guardadas


obras de arte mais valiosas e que sutilmente não fomos convidados a conhecer. As quase quatro horas de visita pela reportagem de Facta, seguindo o que nos pareceu ser um já tradicional roteiro de visita guiada do espaço, são pouco, muito pouco tempo para adentrar o universo secular a que as peças remetem. Por isso preferimos, ao invés de tentar mapear itens específicos, assumir o impacto causado pelo percurso dentre as pilhas de itens falando aleatoriamente um pouco de tudo: antiguidades, gambiologia, valor afetivo, programas de TV, especulação imobiliária, tecnologia, cachaça, lobby, ferros velhos, luminárias, psicanálise… Apesar de preservar a maior parte dos objetos

originais, nosso personagem evita tratá-los somente como memorabilia ou lembranças estáticas de tempos idos. Surpreendentemente mostra, ao contrário, um ponto de vista bastante gambiológico: “Não trabalho com objetos decorativos, do tipo que os decoradores procuram. Eu trabalho com objetos decolativos. Quero na verdade que você, a partir dos objetos que estou te mostrando, faça a sua viagem.” Mesmo com a impressionante dimensão do acervo, objetos “banais” são dispensados. Cada item é minuciosamente escolhido por seu desenho, origem, história e adquiridos somente se apresentarem alguma peculiaridade especial. Como por exemplo uma geladeira que pertenceu ao ex-presidente JK e por isso “não é uma qualquer”, ou a máqui-


na de escrever em grego, ou um filtro em formato de abacaxi, ou mesmo uma balança para medição de ovos. Quando se empolga sobre alguma peça, Antônio indaga: “tem jeito de viver sem isso?”. Mais recentemente, ele garimpou em Brumadinho um baú no qual havia inscrito o sobrenome Tim. Fácil deduzir que trata-se de algum parente do Nhô Tim, senão o próprio minerador inglês que inspirou o nome do Centro de Arte Contemporânea Inhotim. Somente após muita insistência e quase no fim da visita – em que, diga-se, erramos 99% das perguntas e provocações proferidas por Antônio sobre as peças mais curiosas – ele aceita dar algumas dicas sobre as estratégias para se conseguir acumular um acervo de raridades. Os “macetes” são poucos e valiosos, mas a conclusão sobre a forma mais eficiente de tornar-se um colecionador é simples: andar nas ruas (“cobra que não anda não engole sapo”), conversar com as pessoas, trocar. Mais uma vez, a experiência de colecionar parece surgir inevitavelmente da mais simples e cotidiana vivência de mundo. A o s e r i n dagad o s e s e r i a u m a c u m u l ad o r c o m p u l s i v o,

Também não se diz colecionador. Nem artista. Prefere ser chamado de “Objeteiro”. Profissionalmente originário do mercado financeiro, ele hoje sustenta-se vendendo uma ou outra peça e alugando parte do acervo histórico para filmes e novelas de época, além de eventuais exposições, ensaios de moda, etc. Mas é fácil perceber o que o Objeteiro parece gostar na verdade: adquirir novos itens para juntar mais e mais e mais e mais e mais… FP

Antônio Carlos nega.


Fotos: Nidin Sanches


Who passes through the facade of Matiz Arte Objeto warehouse, discreetly located in a building in the central region of Belo Horizonte, has no idea of the treasure there is inside. Ant么nio Carlos Figueiredo, owner of the space, has accumulated over 30 years a formidable array of antiques, relics and rarities of our state culture, as well as of Brazil and the world, which he would like to transform into a Museum of Everyday Life. The collection, in addition to venting the memories of old times, would be the envy of any Hollywood art director, such are the variety and quantity of its pieces: Antonio proudly claims he has over one hundred thousand pieces, which are not only at this location but also in three other warehouses, a house, four rooms and a shop. All crowded. Despite the appearance of chaos and even the claustrophobic feeling at first - the objects are often stacked from floor to ceiling - the space is surprisingly organized. "I count on the help of Saint Expedite," says the host. Expedite is actually the right arm "ambidextrous, northeastern and patient" that helps him in his daily dealings, cleaning and organizing his archive. The shed contains "departments" of almost everything: TV's, radios, bottles, plates, taxi meters, cans, opal, water filters, cutlery, refrigerators, trains, toys, papers and also a private room where the most valuable artworks are stored and which we were subtly not invited to know. The nearly four-hour tour of our Facta crew, following what seemed to be a traditional scripted guided tour of the space, is very, very little time to enter the secular world which the pieces refer to. Therefore we chose, rather than trying to map specific items, to assume the impact caused by our journey through the piles of items randomly talking about a bit of everything: antiques, Gambiologia, affective value, TV shows, speculation, technology, rum, lobby, old irons, lamps, psychoanalysis... While preserving most of the original objects, our character avoids treating them only as memorabilia or static souvenirs of bygone days. Surprisingly, he rather shows a quite gambiologic point of view: "I do not work

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with decorative objects, the type that decorators look for. I work with take-off objects. What I actually want is that you, from the objects that I'm showing you, take off on your own trip." Even with the impressive size of the collection, "banal" objects are discarded. Each item is carefully chosen for its design, origin, history, and only acquired if they have some special peculiarity. Such as a refrigerator that belonged to the former president Juscelino Kubitschek and therefore "is not any one, " or the typewriter in Greek, or a filter with a pineapple shape, or even a scale for measuring eggs. When he is excited about a piece, Antonio asks, " Is there a way to live without it ?" More recently, he dug up in Brumadinho a chest in which there was inscribed the surname Tim. It is easy to deduce that it belonged a relative of Nh么 Tim, if not the English miner himself who inspired the name of the Inhotim Centre for Contemporary Art. Only after much insistence and almost at the end of the visit - which, we must say, we got 99 % of the questions and provocations delivered by Antonio wrong about the most curious pieces - he accepts to give us some tips and strategies to achieve a collection of rarities. The "tricks" are few and valuable, but the conclusion about the most efficient way to become a collector is simple: walk the streets (" a snake that does not go around does not swallow a frog "), talk to people, exchange. Again, the experience of collecting seems to arise inevitably from the most simple and everyday experience of the world. When asked if he would be a compulsive accumulator, Antonio Carlos denies it. Nor he is a collector. Nor an artist. He prefers to be called an "Objecteer." Professionally originated from the financial market, he now holds up selling one or another piece and renting part of his historical archive for movies and period soap-operas, in addition to occasional exhibitions, fashion shoots, etc. But it is easy to see what the Objecteer actually likes: to acquire new items to add more and more and more and more and more...


O

sol vem de mansinho avisar que o dia chegou. O ar ainda está fresco e úmido da madrugada. J estica as pernas. Esfrega os olhos, olha para o mar que aparece em meio a uma estreita fresta da mata. Seria um fantástico dia de praia, mas não vai rolar. Tem novato chegando na área, e o velho gosta que o gambimestre esteja por perto nessas horas.

espessa. A pele é enrugada, queimada de sol. Veste uma bata clara e calça de algodão cru.

J enrola a colcha em volta do travesseiro e guarda na estante feita de tábuas apoiadas em esqueletos de gabinetes de computadores. Veste bermuda cargo azul, regata amarela estampada e chinelos de dedo. Ele atravessa em silêncio o dormitório para não acordar ninguém. Os três beliches estão ocupados. Aqui e ali, o cheiro de álcool sugere que o luau foi longe na noite passada. Mais tarde, vai pôr a molecada para suar nos pedais geradores.

Cê me conhece. Muita coisa para deixar pronta hoje.

Faz uma rápida pausa na casinha do banheiro seco, depois usa o tanque para lavar as mãos e o rosto. Besunta braços, pernas e cintura com o óleo de citronela disponível no pote de plástico na mesinha. A dengue está na área, outra vez. Em seguida, sobe o caminho de terra batida até o salão comum – um quiosque alto e largo, voltado para o mar. O ambiente cheira a pão quente e café recente. O velho está à mesa. Ele tem cabelos brancos e barba

E assim você aproveita para testá-lo também, não?

Que belo dia, não é, Jota? - O velho, olhando para o horizonte. Promete. Que horas chega o novo ráquer? Sempre com pressa, não?

Ele vem no caminhão. Chega no meio da tarde, se não houver contratempos. Deve vir desequipado. OK. Preparei ontem à noite um tablete e um telinha. Só o sistema limpo, não instalei nada ainda. Achei que ele ia gostar de passar alguns dias explorando nossas redes.

J responde com um raro sorriso e pede licença. Reparte com as mãos um pedaço do pão integral, cobre-o com uma fatia de queijo meia-cura e se serve de café em uma caneca de metal. Sai andando, acelerado. Depois de matar o pão e o café, pendura a caneca no mosquetão preso a um passante de cinto na

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lateral da bermuda. Pára à beira da mata, bate palmas três vezes e leva a mão direita aos lábios para soltar um assovio alto e agudo. Pega no batente da porteira um facão embainhado, e continua.

No geral, tudo está bem. Em continuando com os padrões de consumo atuais, a propriedade tem autonomia para três semanas de eletricidade. Nada mal, levando em conta que têm transformado em média cento e trinta por cento da demanda diária. Ou seja, O solo está úmido. J desce a trilha até o riacho. o tempo de autonomia só tende a crescer. Segue por alguns metros até a turbina, que gira em ritmo constante. É um dispositivo J aprendeu com o velho que eletricidade relativamente pequeno, feito com uma roda geralmente não é “gerada”. Quase sempre é de bicicleta e ímãs extraídos de discos rígidos um processo de transformação: de energia descartados. Aparentemente, a chuva intensa mecânica em elétrica ou de potencial químico das últimas semanas não deixou sequelas em energia elétrica, ou então transformação na instalação. J atravessa o curso d'água e de formas diversas a partir da radiação solar. continua seguindo pelo outro lado. Logo, Ele olha para cima e agradece a Oxalá e chega ao local onde está instalado o fim do Apolo pela dádiva, e também a Prometeu, cano que desce trezentos metros de morro Mercúrio e Exu pelo acesso a ela. para chegar a outro gerador elétrico, este industrial. Ali também a estrutura parece As cigarras cantam, sugerindo que o sol vai intacta. Ele toma o caminho que sobe para o firmar durante o dia. É bom sinal para a outro lado do vale. primeira noite de lua cheia. Ele se levanta. Uma das antenas do lado de fora da casa está Depois de muitas voltas, chega à cabana de torta. Deve ter sido o forte vento da noite bambu, quase no topo do morro. Senta-se em passada. Saca do bolso a chave de fenda, um banco e saca seu telinha. Identifica-se com encaixa uma ponta de chave estrela e a senha do dia e um comando de voz que é aperta os parafusos até que a antena esteja praticamente um resmungo. Navega um pouco novamente alinhada. pelo sistema. Dezoito pontos de geração estão ativos agora. Outros oito não mandam Jdevolveofacãoàporteira.Passanosalãocomum sinal nenhum, como esperado. Estes são em – que já tem oito pessoas conversando sua maioria pontos complementares: pedais, alegremente e comendo - para pegar a caixa retorno de tração das roldanas e outros. de sinc e seu boné vermelho. Já saindo da

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propriedade, desbloqueia o telinha. Aciona o programa para abrir a porta da garagem. Pega uma das bicicletas e percorre mais dois quilômetros pela estrada de terra. O entorno de mata fechada começa a dar lugar a pequenos sítios onde se criam bananas, jussara e mandioca. Um pouco mais adiante, casas simples e alguns estabelecimentos comerciais. J cumprimenta com um aceno todas as pessoas que encontra pelo caminho. Ocasionalmente, chama os interlocutores pelo time de futebol pelo qual torcem. Chegando ao asfalto, atravessa a estrada e espera no ponto. Em menos de cinco minutos, o ônibus amarelo chega, pára e abre a porta dianteira. O motorista parece verificar alguma coisa em seu telinha, pressiona algumas teclas. Para os passageiros, ele pode estar enviando uma mensagem à esposa ou à amante. Alguns fazem cara feia, mas ninguém reclama. Após pouco mais de um minuto, ouve-se um bip curto. O motorista olha para o horizonte, fecha as portas do ônibus e segue seu rumo. J tira do bolso um par de fones sem fio e os encaixa nos ouvidos. Monta na bicicleta e ruma de volta à propriedade. Assim que tem certeza de que está sozinho, aperta o botão do fone e fala com o telinha: Quanto veio hoje?

Uma voz metálica (mais uma opção estética do que limitação tecnológica) lhe responde após alguns segundos: Vinte e oito megabytes. J está esperando há alguns dias que uma prima responda a seu e-mail perguntando por notícias da família. E sabe também que o velho aguarda informações sobre o avanço dos ráqueres de cristo no litoral norte. Pelos últimos relatos que tiveram, algumas igrejas neopentecostais têm se esforçado em identificar e converter jovens que costumavam prestar serviços de captura, monitoramento e compilação de dados para organizações criminosas. A esses profissionais é oferecida a oportunidade de trabalhar “para a obra do senhor” em troca do perdão divino e, em alguns casos, judicial. Existem cidades em que pastores obtêm informação suficiente para chantagear toda a classe política local. O velho falou uma vez que “dados bem escolhidos acusam a qualquer um”. J sabe que o velho trabalhou por décadas na indústria de segurança da informação. E já percebeu que ele está disposto a agir. Tempos interessantes se aproximam, pensa o gambimestre enquanto abre a porta e retorna para seu mundo.

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The sun comes softly to announce that the day has come. The air is still cool and damp from dawn. J stretches his legs. Rubs his eyes, looks at the sea that appears in the middle of a narrow crack in the woods. It would be a fantastic day on the beach, but it won’t happen. There is a rookie coming in the area, and the old man likes the gambimaster to be around at these hours. J wraps the quilt around the pillow and puts it on the shelf made of planks supported by skeletons of computer cases. He wears blue cargo shorts, tank top and yellow patterned flip-flops. He crosses the dorm quietly not to wake anyone. The three bunks are occupied. Here and there, the smell of alcohol suggests that a luau took place the former night. Later, he will put the kids to sweat on the generator pedals. After a brief pause in the outhouse, he then uses the washtub to wash his hands and face. He smears his arms, legs and waist with citronella oil from a plastic pot on the table. Dengue fever is in the area again. He then goes up the dirt road to the common room - a tall and wide gazebo, facing the sea. The atmosphere smells like hotcakes and recently made coffee. The old man sits at the table. He has white hair and bushy beard. The skin is wrinkled, sunburned. He wears a clear smock and raw cotton pants. What a beautiful day, isn’t it, Jota? - The old man, looking at the horizon. Promises. What time does the new hacker arrive? Always in a hurry, right? You know me. Many things to get ready today. He comes in the truck. He arrives in the afternoon, if there aren’t any setbacks. He should come unequipped. 146

OK. I prepared a tablet and a small screen last night. It is only a clean system, I have not installed anything yet. I thought he'd like to spend a few days exploring our networks. And so you took the opportunity to test it also, no? J responds with a rare smile and excuses himself. He parts with his hands a piece of bread, covers it with a slice of half-aged cheese and pours himself a coffee in a tin cup. He walks away, fast. After finishing off his bread and coffee, he hangs the mug on a carabiner attached to a belt on the side of his shorts. He stops at the edge of the forest, claps three times and puts his right hand to his lips to let out a high-pitched whistle. He takes a sheathed machete from the gate, and continues. The soil is moist. J descends the trail to the creek. He walks a few meters until the turbine, which rotates at a constant rate. It is a relatively small device, made from a bicycle wheel and magnets extracted from discarded hard drives. Apparently, the heavy rain of recent weeks did not leave any problems in the installation. J crosses the stream and continues on the other side. Soon, he gets to where is installed the end of the pipe that goes down the hill three hundred meters to reach another electrical generator, this one industrial. Again, the structure appears intact. He takes the path that goes up to the other side of the valley. After many turns, he reaches the bamboo hut near the top of the hill. He sits on a bench and takes out his small screen. He identifies himself with a daily password and a voice command that is almost a growl. He navigates the system a bit. Eighteen points of generation are active now. Eight others do not send any signal, as expected. These are mostly complementary points: pedals, return traction of sheaves, and others. Overall, everything is fine.


In continuing with the current consumption patterns, the property has autonomy for three weeks of electricity. Not bad, considering it is transforming an average of one hundred thirty percent of the daily demand. That is, the runtime will only grow. J learned with the old man that electricity is usually not "generated". It is almost always a process of transformation: from mechanical energy into electrical or from chemical potential to electric power, or transformation in various forms from solar radiation. He looks up and thanks Oxalรก and Apollo for their gift, and also Prometheus, Mercury and Exu for his access to it. The cicadas sing, suggesting that the sun will firm up during the day. It is a good sign for the first night of full moon. He gets up. One of the antennas on the outside of the house is crooked. It must have been the strong wind from last night. He gets a screwdriver from his pocket, he fits a tip wrench to it and tightens the screws until the antenna is aligned again. J returns the knife to the gate. He passes through the communal lounge - which already has eight people happily chatting and eating - to pick up the sync box and his red cap. Leaving the property, he unlocks the small screen. He triggers the program to open the garage door. He grabs one of the bikes and rides two miles down the dirt road. The surroundings with forests begin to give way to small ranches where people grow bananas, cassava and jussara. A little further on there are simple houses and some shops. With a wave J greets all the people he meets along the way. Occasionally, he calls to his interlocutors with the name of their preferred soccer team. Coming to the asphalt, he crosses the road and waits. In less than five minutes the yellow bus arrives, stops and opens

the front door. The driver seems to check something on his small screen and presses a few keys. To the passengers, he could be sending a message to his wife or lover. Some do frown, but nobody complains. After a little more than a minute, there is a short beep. The driver looks to the horizon, closes the doors of the bus and continues on his way. J takes from his pocket a pair of wireless headphones and fits them to his ears. He gets on his bike and heads back to the property. Once he is sure he is alone, he presses the headset button and talks to the small screen: How much came today? A metallic voice (more of an aesthetic choice than technological limitation) responds after a few seconds: Twenty-eight megabytes. For several days J has been expecting a cousin of his to respond to his e-mail asking for news about his family. And he also knows that the old man is waiting for information on the progress of the hackers of Christ on the north coast. From recent reports he learned that some neo-Pentecostal churches have struggled to identify and convert young men who used to provide services of capturing, tracking and compiling data for criminal organizations. To these employees are offered the opportunity to work "for the work of the Lord" in exchange for divine and, in some cases, judicial forgiveness. There are cities in which pastors get enough information to blackmail the entire local political class. The old man once said that "well-chosen data can accuse anyone." J knows the old man worked for decades in the information security industry. And he has already noticed that he is willing to act. Interesting times are coming, the gambimaster thinks as he opens the door and returns to his world. 147


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Facta #2