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Revista de Criação Literária

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SUMÁRIO Insulamento...........................................................................4 O mistério da casa abandonada..........................................8 O pincel que pintava somente finais felizes.....................12 Tiramissu..............................................................................14 Informal................................................................................18 A perfeição do sangue feito de violinos...........................20 Uma madrugada inusitada.................................................24 O amor e seus reflexos.......................................................32 A realidade...........................................................................36 À noite, entre as árvores....................................................42 Mais uma vez......................................................................46 As aves.................................................................................50 Voluntário da pátria..........................................................54 O fantasma do abacateiro.................................................60 Graciliana.............................................................................66


Insulamento

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Aquela senhora sentada na calçada todos conhecem, apesar de lhe negarem o olhar. Todos da cidade já foram abordados pela velha, que pedia esmola com uma cara de choro. Mesmo assim, ninguém sabia seu nome ou sequer conhecia a história que antecede aquela situação dramática a qual se acomodara. Uma mulher sem futuro e sem passado. Alguns diziam que ela era uma pessoa normal e que desistiu da vida que tinha, se rebaixando ao cotidiano humilhante. As noites na praça eram regidas por uma pequena quantidade de iluminação pública, que se transformava em atrativo para casais de namorados e más companhias. Para aquela senhora, apenas um cobertor velho a protegia daquele mundo sombrio. Ela dormia agarrada a uma garrafa. Ninguém sabe ao certo o que sonhava. Ninguém conhecia sua perspectiva de vida. Era apenas ela, vivendo sua vida solitária em um universo que não era o seu. Se não acordasse na manhã seguinte, sabe-se lá quanto tempo demoraria até perceberem. Aquela tosse rouca coçando a garganta causava desconforto. Ouviu passos de alguém se aproximando, mas não se sentiu assustada. Na verdade, o som produzido pelo salto despertou curiosidade. Aquela praça não era um local indicado para passeios noturnos. A velha demonstrou espanto ao perceber quem se aproximava e tentou disfarçar a emoção contida naquele encontro. Sentou-se ainda segurando a garrafa. O olhar buscava sempre o chão, como se sentisse dor ao enfrentar os olhos da moça que se sentava ao seu lado: – Trouxe umas roupas – disse a moça, deixando uma sacola no chão, entre as duas. A senhora puxou a doação para próximo dos pés e agradeceu, desconcertada. As duas ficaram em silêncio, sentadas no banco da praça mal iluminada. – Eu passei ontem de carro por aqui e vi a senhora. Faz tempo que não tínhamos notícias suas. Perdoe-me, mas agora eu preciso ir. Só queria ver se estava bem. A moça se levantou aflita. O momento parecia incomodá-la também: – Até breve – disse enquanto se afastava da velha sentada.

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Ela olhou para a garrafa e a apertou, como se sentisse uma forte contração. – Como ele está? A moça parou e deu um sorriso, que foi rapidamente consumido pela dor que a lembrança parecia trazer. – Ontem ele disse a primeira palavra. Ele falou “mãe”. A velha sorriu enquanto seus olhos lacrimejavam. – Ele é esperto como o pai era. – É sim – respondeu a moça, também emocionada com a conversa. – Eu realmente preciso ir. – Eu entendo. Não se preocupe. Obrigada! – Se precisar... – Não. Não se preocupe. Estou bem. Sério! A moça ainda tentou esconder a preocupação enquanto saía. A realidade é que as duas tentavam demonstrar superficialidade. A velha a assistiu partir e fuçou a sacola. Encontrou um agasalho, que vestiu no mesmo instante. Mais no fundo da sacola achou uma foto de um bebê, na qual ficou minutos parada, olhando. Após isso, deitou-se e dormiu agarrada à garrafa. Ninguém sabe ao certo o que sonhava. Era apenas ela, vivendo sua própria vida solitária em um universo no qual era hóspede indesejada.

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O mistĂŠrio da casa abandonada

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O céu prenunciava uma terrível tempestade. O homem olhou ao redor. Estava em um lugar ermo, exceto por aquela casa antiga e abandonada. Então, começou a chover torrencialmente. Raios e trovões cortavam o céu. Sem alternativa, decidiu se abrigar lá mesmo. Era moreno claro, de estatura mediana, tinha cabelos e olhos castanho-claros e uma barba espessa. Aparentava ter trinta e poucos anos. Por ser andarilho, estava acostumado aos percalços do caminho. Levava sempre uma mochila com poucas roupas, um cantil e uma lanterna. E também algum dinheiro. Não tinha celular, nem outro aparelho de comunicação. Quando chegasse à cidade mais próxima, compraria mais pilhas para deixar de reserva e outros itens de primeira necessidade. Entrou na casa. Era uma antiga mansão de três andares, com cômodos vazios. Paredes descascadas e desbotadas, janelas enferrujadas, poeira e teias de aranha realçavam o ar de abandono. Na sala, havia somente um antigo canapé empoeirado e desbotado e um grande relógio de madeira quebrado. Mesmo corroído pelo tempo, o relógio ainda era imponente e majestoso, como uma testemunha silenciosa de uma longínqua época. Lá fora, a tempestade ainda era muito forte. Apesar do cenário pouco convidativo, limpou como pôde a poeira do móvel, descalçou as botas e se deitou. Estava exausto! Logo pegou no sono... Acordou assustado com as badaladas do relógio. Era meia-noite. Ao ouvir esse som sinistro, pensou: “O relógio está funcionando... mas como?” Então, escutou ruídos no andar de cima. Também sentiu um aroma adocicado. A curiosidade venceu o medo e ele resolveu investigar. Subiu as escadas, iluminado pela tênue luz da lanterna. Chegou ao primeiro andar. No meio do corredor, tinha um quarto com a porta entreaberta. Pela fresta, mesmo com pouca iluminação, visualizou uma espécie de altar, sobre o qual havia uma vela acesa, incensos, um livro aberto, um athame... Parecia um ritual. No canto esquerdo do cômodo, envolto na penumbra, um pequeno vulto o observava.

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De repente, ouviu passos subindo as escadas. Vozes femininas, intercaladas por risadas, sussurravam palavras incompreensíveis. Sorrateiramente, afastou-se e foi até o fim do corredor. Subiu até o segundo andar. Nesse piso, havia outro quarto. Nele, o som de uma suave melodia infantil chamou sua atenção. A porta estava aberta e ele entrou. Um lustre de cristal iluminava o cômodo. Nele, meninos e meninas com roupas antigas brincavam de roda, embalados pela música de um antigo gramofone. Todos tinham cabelos claros e eram extremamente pálidos. Estavam descalços e se moviam de forma sincronizada, quase automática. Aproximando-se um pouco mais, ele notou que as crianças eram bastante semelhantes. No entanto, o que mais se descava eram seus olhos, grandes e brilhantes... Hipnóticos! Ao notarem sua presença, todos se viraram em sua direção e falaram, em uníssono: − Que bom que você chegou! Venha brincar com a gente! Ele fechou a porta rapidamente. E pensou: “Já chega disso tudo!” Desceu as escadas correndo. Aterrorizado, conseguiu chegar à sala. Suas pernas tremiam. A lanterna iluminava tudo fracamente e as pilhas iam acabar logo. Lá fora, havia parado de chover. Apressadamente, começou a guardar suas coisas na mochila enquanto lhe restava um pouco de luz. Nesse momento, notou um bilhete sobre o canapé. Nele estava escrito: “Seja bem-vindo! Estávamos esperando você há algum tempo. Se quiser saber mais sobre nós, siga a lebre...” Virou-se bem devagar e viu uma grande lebre acinzentada na soleira da porta. Ela tinha olhos grandes e brilhantes, que o miravam hipnoticamente. Ele fechou os próprios olhos e refletiu por uns instantes. Depois os abriu devagar. Então se decidiu... Nesse momento, o relógio da sala bateu três horas da madrugada. E a lanterna se apagou definitivamente...

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O pincel que pintava somente finais felizes

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Encontrei o pincel que você esqueceu na sala de artes. Devo ter chegado pouco tempo depois de você ter saído. Ele estava caído perto de uma tela recém-pintada por você, entre outros pincéis e tintas que completavam a decoração do lugar. A tinta do quadro ainda estava molhada e de alguma forma isso parecia aumentar ainda mais a profundidade da obra que retratava um belo pôr do sol. Uma parte da tinta laranja que tingia o céu havia escorrido e se encontrado com o mar do fim de tarde, em uma junção que parecia querer demonstrar um romance secreto entre o calor do Sol e o frio do mar. Era o retrato de um horário especial, em que o sentimento entre os dois elementos tomava forma no reflexo do pôr do sol na água. Sempre amei os seus quadros e sempre gostei desse seu pincel que, por algum motivo, que no momento não compreendi, acabou deixando na sala. Lembro que ele era o seu pincel favorito. Gostava de brincar que ele pintava somente finais felizes, somente belas paisagem e histórias de doces amores gravados em aquarela. No cabo dele, tinha o seu nome, assim como os seus sonhos que aquele objeto capturou a cada pincelada que formavam, ao fim, uma pintura que nada mais era do que o retrato de algo que há muito tempo já existia na sua imaginação. Por saber o quanto o objeto lhe era estimado, abaixei-me para pegá-lo e guardei-o em minha pasta. Pretendia lhe devolver no dia seguinte, mas você não apareceu na escola, nem naquele dia e nem no dia seguinte. Mesmo que fosse tímido, resolvi perguntar por você para a professora, e ela logo me contou. Sabia que não poderia vir lhe visitar de mãos vazias. Pensei em comprar flores, o que era o esperado em uma situação como essa, ou cartões de melhoras. Mas, no fim, preferi lhe presentear com flores de aquarela, que ao contrario das outras não vão murchar. Elas foram pintadas com o seu pincel. Sabe, no começo tinha medo de usá-lo, pois não parecia certo ele ser usado por alguém que não fosse você. Mas depois percebi que o pincel merecia fazer o que mais gostava: pintar finais, mesmo que esse não seja tão feliz como os que costumava pintar. Poderia ser apenas impressão minha, mas achei que a tela ficou ainda mais bela por ter sido pintada por ele. E acho que o pincel deve ficar com você. Vou deixá-lo ao lado do quadro, pois espero que um dia acorde para ver as flores. Não se preocupe, porque elas vão lhe esperar acordar o tempo que for preciso. Assim como eu.

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Tiramissu

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Até poucos anos eu era o líder do meu país, cuja história é marcada por extremismo religioso e disputas por petróleo. Como ocorre a todos que possuem personalidade forte, ao longo da vida fiz muitos inimigos. Por conta disso, passei mais de vinte anos protegido por severo sistema de segurança, o qual incluía, entre outras coisas, dezenas de sósias com a finalidade de confundir possíveis assassinos. Dentre os homens que me serviram como sósia, Khalil foi, sem dúvida, o mais habilidoso e o que mais se parecia comigo. Quando postos lado a lado – eu e ele –, nem minhas esposas identificavam o verdadeiro. Contudo, tinha um grande defeito: a gula; que se tornava mal ainda maior, por ser também uma de minhas principais fraquezas. Poliglota e mestre em artes marciais, Khalil era, ainda, exímio atirador. Não bastasse, nas horas vagas era especialista em culinária e vinhos. Homem de educação refinada, não tardou a ser nomeado também meu provador oficial de alimentos, função à qual ele se dedicou com máxima eficiência. Khalil provava com minúcia cada fruto, cada massa, cada legume, água, sucos... Tudo que eu ia comer ou beber passava antes por sua boca. Seu degustar era meticuloso: saboreava as porções com olhos semicerrados; sorvia os líquidos de modo suave, quase em êxtase. Depois, dava ao corpo o tempo necessário para apresentar os efeitos danosos, caso os alimentos estivessem envenenados. Somente quando convicto de não haver o menor risco, ordenava aos criados que me trouxessem a refeição. A princípio, a presença de Khalil deixava-me mais tranquilo. Com o passar dos anos, porém, seu jeito meticuloso começou a incomodar. Notei que as porções que me traziam estavam cada vez menores. Aos poucos fui observando que quanto mais delicioso era o prato, menor a quantidade que chegava à minha mesa. No fim da década de oitenta – logo após a guerra contra o Iran –, durante viagem à Europa para discutir questões políticas com outros líderes mundiais, contratei uma chef de cozinha de nome Dirce, em cujo currículo constavam serviços prestados ao chanceler alemão Helmut Schmidt. Eu andava ávido por expandir meus horizontes gastronômicos.

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Dirce preparava pratos deliciosos, como eu jamais havia provado. O problema é que Khalil também gostava. Quase tudo que me serviam era somente o sobejo desse fiel provador. Eu já quase me acostumara àquela humilhação quando, certo dia, trouxeram-me a guloseima que mudaria a história – um resquício de sobremesa que ocupava apenas meia tigela. Muito a contragosto, provei uma pontinha e, de imediato, tive a sensação de ter morrido e chegado ao Paraíso, sendo recebido de braços abertos por Alá. Uma lágrima escorreu de meus olhos e entendi quão doce poderia ter sido a vida, caso eu tivesse escolhido outros caminhos. Em agradecimento, ajoelhei, pus a testa no chão, orei em silêncio – corpo voltado para Meca. Mandei chamar a nova chef de cozinha para que me dissesse o que era aquilo. Ela foi elucidativa, como só os germânicos sabem ser: – Chama-se tiramissu. Iguaria criada no Japão e aperfeiçoada em Treviso, na Itália, onde ficou conhecida por revigorar boêmios; feita com pão de ló embebido em café e conhaque amareto, entremeado com creme à base de queijo mascarpone, polvilhada com chocolate amargo. Fascinado, ordenei que tal sobremesa me fosse servida em todas as refeições. Embora Dirce tenha seguido à risca minha ordem, de nada adiantou. O que eu recebia do delicioso doce era sempre mínima fatia. Por mais que eu reclamasse, Khalil afirmava ter sentido resquícios de algum veneno o que, em nome de minha segurança, o levara a provar outros bocados. Perguntei se seria melhor demitir a nova chef; ele rejeitou a ideia, alegando precisar de provas mais concretas. Com isso, a ele cabia a quase totalidade do tiramissu, restando-me pedaço tão pequeno que só servia para atiçar minha ira. Mas a vida não é feita só de doces. Em 1990 fui informado por meus ministros que a superprodução de petróleo do país vizinho fizera o preço do barril despencar no mercado internacional, afetando drasticamente as finanças da minha já tão endividada nação. Não pensei duas vezes: fui à guerra. E no que invadi o Kwait, fazendo inverter novamente a tendência dos preços do barril, não tardou e outros países tomaram as dores. Sem prova alguma, acusaram-me de desenvolver armas de destruição em massa e de financiar a Al-Qaeda. Em março de 2003 os norte-americanos e os britânicos invadiram Bagdá. Havendo pouco a defender, fugi levando a família, meu estado-maior e os criados mais íntimos.

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Tendo se passado alguns meses, já instalado em lugar seguro, resolvi dispensar a Dirce que – agradecida por poder deixar a zona de guerra –, antes de se mudar para o Brasil presenteou-me com imenso tiramissu, que eu guardei para comer sozinho, na madrugada. Porém, após tensa reunião com o que restara do alto comando do exército, ao abrir a geladeira encontrei somente a travessa vazia. Blasfemei mil vezes. Depois me acalmei e fui ler o Corão. Foi aí que o onipotente Alá iluminou-me o pensamento. No dia seguinte chamei Khalil para uma conversa em particular e disse: – Você é meu soldado mais importante. Preciso que se esconda e só saia quando eu chamar. Ele concordou prontamente. Ordenei a alguns militares que o escoltassem até o abrigo em Tikrit, minha terra natal. Feito isso, envolvi a cabeça com um pano e fui à rua. Encontrei um telefone público, no qual havia um cartaz – ‘PROCURADO!’ – onde se viam também minha fotografia, um número para contato e as cifras da sedutora recompensa. Liguei para o serviço de inteligência norte-americano, informando a localização exata do homem que eles tanto procuravam. Pobre Khalil... os fuzileiros não lhe deram ouvidos quando ele, ao ser surpreendido dentro de um buraco no meio do deserto, tentou explicar que era somente um sósia meu. Levado para Camp Cropper, ali ficou por anos, aguardando julgamento. E por ninguém acreditar em sua versão, Khalil decidiu morrer com honra. Assumiu de vez minha identidade, enfrentou a corte marcial com coragem e sabedoria impressionantes. Condenado por crimes contra a humanidade, ao ser levado à forca não tremeu – tendo ainda a dignidade de bradar versos islâmicos e frases patrióticas, antes que se abrisse o cadafalso. Já eu, nem precisei de disfarce – as pessoas acreditam mesmo em tudo que veem na televisão. Quando Khalil foi preso, deixei o país tranquilamente pela fronteira oposta. Hoje... quarenta quilos mais gordo; careca; pele queimada pelo sol de Cancun; sem bigode e usando novo nome, passo os dias a gastar o dinheiro que, por décadas, guardei em bancos de paraísos fiscais. Quanto aos demais detalhes de minha vida atual, somente Dirce conhece a verdade. Contratei-a novamente, agora que ninguém mais há que me roube o tiramissu.

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Informal

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Sim, eu fiz esta compra. Parcelei em duas vezes. Nota fiscal? Não tenho. Serve o comprovante de pagamento? Como não? Ah, sim, não comprova que paguei também a vocês. Não posso garantir que a loja passou o valor ao governo, já perguntaram aos donos dela? Não, não sou sócia ou acionista da loja, vocês já deveriam saber disso. É verdade, posso não ter declarado. Mas se já rastreiam os prendedores de roupa que peço da China por que não rastreariam algum investimento meu naquela loja? Como assim, não era loja? Empresa de fachada? Meu Deus, quem diria! O que? Uma floricultura? Mas achei que era uma sapataria! Veja, meu comprovante que comprei essas alpargatas que estreei hoje, acessem a câmera 18, podem consultar o registro do drone 9-W-045 que me seguia na hora. Não comprei nenhuma flor nem sabia que lá vendiam flores! Sim, ganho meu suado dinheiro dublando filmes. Sabe a voz da mocinha de Velozes e Furiosos 26? Claro que sabem, era a minha voz. Sim, sou eu nessas imagens. É que costumo cortar caminho pelo cemitério. Sério que os proprietários do cemitério tinham um acordo com a sapataria? Desculpe, com a floricultura? Não, não estou sabendo de catálogo nenhum de flores. Ora, eu costumava comprar sim quando entrava no cemitério, afinal vendiam flores lá. Não comprava? Tudo bem, eu peguei esses copos-de-leite, achei que seriam debitados pelo biocelular. Podem deixar, vou levá-lo para o concerto e formatar minha assinatura genética. Não é esse o problema? Não entendi. Essas planilhas são minhas sim, sobre as atrizes e filmes que irei dublar. Criptografia de identificação de defuntos? Como assim? Sim, demorei 32 minutos no cemitério. Foi durante o enterro do ministro da Honestidade? Nem sabia quem era. Quero falar com meu advogado. Desculpe, força do hábito de tanto ver filmes do século XX. Já não precisamos de alguém que subverta nossas ações. Eu confesso. Fiz um serviço clandestino de carpideira, sem registro no conselho. Mas nem sabia que era o ministro! Tudo isso de multa? Se soubesse teria cobrado mais.

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A perfeição do sangue feito de violinos

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Ao descer aquele veludo encorpado que beijava as escadas, o coração de Liv gritava. Era a sua noite! Os violinos e cellos se harmonizavam e deslumbravam a todos com músicas gloriosas. Vestidos das mais diversas colorações e rendas, ternos dos mais variados estilos e o desfile primoroso das máscaras. Uma multidão de máscaras e seus olhares místicos. As fitas, as penas, os enfeites, todas aquelas pedras e a perfeição do brilho, era o céu dançando naquele salão, num baile frenético de luminosidade. A máscara da garota possuía o avermelhado do sangue e seu vestido o mais enegrecido do baile. Verdadeira comunhão do sangue com as trevas! O tapete chegou ao salão e lá no centro, as mulheres se movimentavam com a delicadeza dos deuses e os homens sempre tentavam conduzir a noite. A orquestra e o festival de dançarinos deixavam Liv extasiada. Era o primeiro baile em vinte anos de existência e ela queria adentrar a diversão daquele mundo. Garçons serviam os dançarinos exaustos, as risadas entre conversas superficiais e as máscaras preservando a identidade de todos. Qual deles merecia o sofrimento? Será que todos conseguiam saber o que havia atrás daqueles adereços? Incansável orquestra, um salão com pessoas que pareciam semideuses e ela não conseguia compreender. Nenhum copo quebrado, nenhum salto quebrado! Nenhuma gota de suor, maquiagem borrada ou uma discussão. Parecia a magnitude em forma de baile. Não existia uma ponta solta e nem os penteados se desmanchavam. Liv passou minutos ali, exposta no salão, evitando convites para dançar. Caminhou até um garçon e pegou uma taça cheia de um escarlate líquido, com um morango no alto da taça. Bebeu afoitamente e vomitou tudo em questão de segundos. Um apodrecido sangue era expulso de sua garganta. O staccato dos violinos se encerrou, os pés flutantes agora eram estáveis e todos os olhares se direcionaram para Liv. A língua dela ainda espalhava o sabor do líquido sangrento quando uma senóide de pavor vagueou por todo o seu corpo.

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As máscaras foram desabando e o salão foi tomado por dançarinos com púrpura nos olhos. Aos poucos, a pele de cada um tomou a grotesca forma de um esfomeado animal. A garota agora estava no núcleo daquela festa e os únicos movimentos no salão eram de salivantes línguas ansiosas por ela, rosnados que aterrorizavam sua espinha e o vibrato do medo ao redor das frequências de toda a sua vida. As trevas em seu vestido contaminavam seus pensamentos e o escarlate de sua máscara se concretizava com os anseios daquelas criaturas. Ao redor dela, todos ensaiavam o ataque e a perfeição naquele momento parecia tão feroz. Ela vibrava da maneira equivocada, deixando sua alma se desprender antes mesmo da carne. Orquestra de guturais, fome e todas as partículas de Liv enfeitaram o baile por alguns minutos. Os convidados satisfeitos deixaram o salão, a partitura da morte já havia chegado ao encerramento e apenas uma máscara permanecia deslumbrante dançando com um negro vestido no chão embebido de trevas e um lago vermelho.

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Uma madrugada inusitada

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Bento abre a porta, dá dois passos e desce o degrau até a rua de terra. A manhã está chegando e ele precisa trabalhar. Ainda sonolento, observa a neblina que cobre toda a cidade enquanto o frio cortante faz seu corpo estremecer. As únicas luzes da cidade são provenientes dos lampiões a querosene, brilhando vagarosamente por entre a névoa esbranquiçada. Impossível enxergar além de cinco ou seis metros de distância. Volta, pega o abafador e sai. Tranca a porta, passa o cordão com a chave pelo pescoço e leva as mãos até a boca, assoprando e esfregando diversas vezes, na tentativa de aquecê-las e segue seu caminho. Carregando o abafador, para apagar os lampiões, Bento caminha nas proximidades do cemitério. Ao longe, um cambaleia em sua direção, dançando por entre as sombras causadas pela neblina e o fumo dos postes à sua frente, descendo a rua. Ao se aproximar, o vulto, cada vez mais nítido, se apresenta ao acendedor de lampião. É o velho Thomás. Acreditava-se que Thomás tinha 63 ou 64 anos, nascido em 1835, ao menos, era o que dizia o conhecido personagem da antiga Penha do Rio do Peixe, nome original da cidade de Itapira. O velho negro, que perambulava pela cidade, contava histórias de outros tempos, antes da República, quando o Brasil era comandado por um imperador e ele, um escravo. Histórias de quando, ainda cativo, vivia sob o jugo e as ordens de capatazes e seu “sinhô”, um abastado fazendeiro da Penha. Pouco se sabia sobre Thomás. Era filho de um casal de escravos que chegaram à Penha do Rio do Peixe pelos anos de 1830, procedentes de um mercado de escravos do interior paulista. Nascido em uma fazenda próxima à cidade, foi separado de seus pais e irmãos em uma venda. Sozinho, acabou como escravo em uma grande fazenda de café. Carregava uma grande cicatriz no lado direito de seu rosto, causada por uma briga no passado. — Bom dia nhô Bento! — Bom dia velho Thomás! O que faz acordado tão cedo? – disse o acendedor de lampiões. — Estava na igreja dos pretos nhô Bento, ajudando nos preparativos da festa de São Benedito amanhã.

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— Havia quase me esquecido. - disse Bento – É aquela festa dos negros em homenagem à Libertação da tua gente, não é? — Sim sinhô Bento, a festa do 13 de maio, festa de São Benedito. Thomás sentou-se nos degraus de uma casa com duas janelas grandes de madeira e uma porta ao centro, onde residia um velho conhecido dos dois, o fotógrafo de nome José. Natural de Vila de Cristina no sul das Minas Gerais, José Retratista atuou na profissão durante anos, percorrendo inúmeras cidades entre Minas Gerais e São Paulo com seus equipamentos fotográficos. Ainda uma novidade cara na época, a fotografia era privilégio de poucos, não apenas para os “bem de vida”, abastados fazendeiros, mas também aos corajosos que se permitiam ser fotografados. Ele trabalhava também com reproduções e pinturas fotográficas. Após anos viajando, José Retratista resolveu se estabelecer na Penha do Rio do Peixe, uma cidade promissora no leste paulista, grande produtora de café, cheia de ruas arborizadas, teatros, restaurantes e clubes. Ali, instalou o primeiro “studio photográfico” da cidade, atendendo a grande clientela local e da região, pois, seu estúdio ficava próximo à estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Bento olha para Thomás e diz: - Cuidado velho! Não vá acordar o Sr. Retratista. — Só preciso descansar as pernas um pouco nhô Bento, logo eu me levanto. Olhando para aquele ancião, com o corpo marcado pelo sofrimento, por anos de trabalho forçado nas plantações de café, com cicatrizes profundas de chicotadas pelos braços, pernas e pescoço, além da grande cicatriz no rosto, Bento questiona: — Porque insiste em participar dessa festa Thomás? Não entendo o motivo daquela cantoria todos os anos. Porque sua gente faz aquelas fogueiras e ficam rodeando o fogo, tocando aqueles batuques nas madrugadas de 13 de maio? — Pra agradecer a Santa Princesa Isabel, nhô Bento. Porque ela nos deu a liberdade. Pela Glória de São Benedito. Faz dez anos desde a Abolição. Prometi a mim mesmo, a São Benedito e ao sinhô delegado que vou rezar por eles todos os anos neste dia, nhô Bento.

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— Ao delegado? – questionou, curioso o jovem. — Sim, ele salvou muito negro no passado – respondeu Thomás. Bento olha para os lados com apreensão e desconfiança e sussurra: – É do tal Firmino que você tá falando? — Sim nhô Bento, ele mesmo. Joaquim Firmino, o antigo delegado aqui da Penha… Bento interrompe o velho e diz: – Itapira, o senhor quer dizer. — Mudaram o nome da cidade pra ninguém mais poder lembrar dele. – sussurrou o velho Thomás – Toda a Penha do Rio do Peixe sabe disso nhô Bento, mas ninguém fala nada, porque têm medo de ter o mesmo fim que o delegado. — Que fim? – diz o curioso jovem. Bruscamente uma das janelas é aberta com toda a força, fazendo grande barulho e assustando a dupla. Ao mesmo tempo, uma voz rouca e potente diz: — A morte! Bento se recompõe após o salto para trás que deu com o susto. O velho Thomás, mesmo não se assustando tanto quanto o jovem, também se recupera, levando a mão direita ao peito. Era o José Retratista quem causara o susto em ambos. Ouve-se então barulho da trinca se abrindo e da madeira que prendia a porta sendo retirada. Segundos depois, o Retratista abre a porta, segurando uma vela, dizendo: — Eu o conheci bem. Trabalhei para ele. — Trabalhou? – perguntou o ex-escravo. — Sim Thomás. Fiz seu retrato quando assumiu a delegacia aqui da cidade. Era por volta de 1886, se não me falha a memória. Era um moço jovem, casado com uma senhora também jovem, com alguns filhos. Uma família bonita. — É verdade o que comentam? – disse o curioso Bento. — O que comentam? – respondeu o fotógrafo.

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Bento olha novamente em volta, olha para o velho e diz: — Que ele se recusava a caçar escravos fugitivos e que os escondia na sua casa. — Juro por São Benedito que sim, nhô Bento. – diz Thomás, e continua: — O delegado era muito bom pra minha gente. Protegia os negros que queriam liberdade. Muitos acabaram fugindo das fazendas e indo procurar socorro na casa dele. Conheci um escravo que foi ajudado por ele na sua fuga. O delegado o abrigou no porão por alguns dias até ele conseguir pegar uma rota para um quilombo rumo ao litoral. Eu mesmo fui ajudado por ele quando me acusaram injustamente pelo roubo de uma leitoa, o dotô Joaquim me tirou do tronco e não deixou que me castigassem com chibatadas. O retratista olha para o velho Thomás e o jovem Bento e os convida para entrar, tomar um café. A curiosidade do acendedor de lampiões era tamanha que ele simplesmente se esqueceu de terminar o serviço na rua do cemitério. Diariamente, no início da noite, Bento acende os lampiões de Itapira. Nos finais das madrugadas, ele precisa acordar cedo para apaga-los. Uma profissão que não exigia muito, além de simplesmente acordar antes de todos não importando se estava calor ou frio, tempo bom ou chuva forte. Enquanto isso, o ex-cativo ansiava por contar suas lembranças do delegado ao jovem curioso. Sentados à mesa simples de madeira, enquanto a água ferve no fogão à lenha de José Retratista, os três se entreolham e a curiosidade do jovem acendedor quebra o silêncio: — Se ele era um homem bom, porque o mataram? — Porque ele ajudava os negros nhô Bento. Porque ele não aceitava o que os “sinhô” das fazendas mandavam ele fazer. Era pro delegado prender os negros fugitivos, caçar os negros. Isso, nhô Bento, ele não fazia. Os fazendeiros todos ficaram irritados com o delegado, se reuniram lá no bairro do Cubatão de madrugada e subiram até à Rua do Comércio, onde ele morava, invadiram a casa dele e mataram o Joaquim Firmino a pauladas e cacetadas. Naquele tempo, eu ainda era escravo, nhô Bento. Estava na cidade, na senzala da casa do meu senhor e acordei com os barulhos de tiro e gritaria. De manhã vi a casa toda destruída e o corpo do delegado estendido na mesa da sala. — Eu vi quase tudo – disse o retratista com voz triste e pesarosa.

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— Viu? – exclamou o jovem Bento. — Sim. Naquela noite acabei por ficar na boemia com um amigo italiano. Era um sábado à noite e fomos a um circo. Depois disso, jantamos e tomamos vinho na bodega do português. Lá pelas tantas, fomos expulsos pelo seu Eugênio e terminamos a noite na casa deste meu amigo, seu nome era Guido. O Retratista segura o bule com a água fervendo e derrama sobre o coador de pano direto numa caneca de madeira. O cheiro de café fresco inunda a cozinha simples. Os primeiros raios de sol começam a surgir lentamente pelas frestas da janela. A manhã fria de 13 de maio se aproximava. — A conversa estava muito boa, portanto, viramos a noite conversando sobre técnicas fotográficas, vinhos, livros e mulheres – disse saudoso o fotógrafo – quando então ouvimos uma enorme barulheira lá pelas bandas da Rua do Comércio. Ficamos curiosos, pois, parecia ser algo grave. Guido olhou para mim e perguntou: “Cosa faremo? Vediamo, o que succede”. Me levantei e abri a porta. — Mas o que estava acontecendo? – perguntou curioso o jovem acendedor. — Guido morava em uma pequena casa de taipa pilada na Rua do Pescador, muito próxima à casa do delegado, na rua de trás. Quando dobramos a esquina, vimos uma grande multidão em volta da casa dele, logo, imaginamos que algo acontecia de errado com o delegado. Foi tudo muito rápido, nada pudemos fazer. — Não tive coragem nem permissão de sair durante a confusão. – comentou o velho Thomás. Os três se entreolharam enquanto o fotógrafo oferecia o café. As tristes e terríveis lembranças da dupla mais velha e a curiosidade do jovem acendedor de lampiões, misturado com o frio do amanhecer, o fumo do fogão a lenha e a meia luz daquele cômodo tipicamente caipira, com suas paredes de taipa pilada, criavam um clima de total mistério, segredo e tensão. O velho Thomás segura nas mãos do jovem Bento e diz: — Tem gente muito poderosa envolvida nisso, nhô Bento. Não saia perguntando sobre a morte do delegado pela cidade. Muitos foram acusados, mas

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ninguém pagou pelo crime. Estão todos eles por aí, seguindo suas vidas normalmente, como se nada tivesse acontecido. É por isso que não podemos arriscar. Faz só dez anos que a escravidão acabou nhô Bento e faz só dez anos que mataram o delegado. É perigoso demais tocar nesse assunto. O fotógrafo interrompe seu velho amigo e diz: — Uns dois anos depois do crime, os fazendeiros, políticos, gente poderosa, sabe? Alguns deles diretamente envolvidos no crime resolveram mudar o nome da cidade. Penha do Rio do Peixe não era mais um nome bom para o município. Os jornais do Império todo falaram sobre aquele crime, a cidade ficou muito conhecida. Resolveram então pedir ao Governo da Província, lá em 1890, que trocasse o nome para Itapira. — Muita gente não gostou, inclusive eu. – disse Thomás. — Mas foi a maneira que eles encontraram para tentar apagar a história do crime da Penha. Aqui na cidade, o povo sempre teve muito medo dos senhores de escravos, porque além de fazendeiros muito ricos, eles eram proprietários de armazéns e outros comércios, além de estarem envolvidos com a política da cidade. Muita gente dependia deles, de um jeito ou de outro. Assim ficava fácil mandar e desmandar por essas bandas – completou o Retratista. De maneira respeitosa, o velho Thomás estufou o peito e disse: — É por isso, nhô Bento, que eu jurei a Deus e a São Benedito, que sempre rezaria pela alma do pobre Joaquim Firmino, o delegado da Penha do Rio do Peixe. Muitos outros escravos fizeram o mesmo. Depois que a Santa Princesa Isabel assinou a Abolição, começamos a comemorar o 13 de maio lá na capela de São Benedito. Se depender de nós, nhô Bento e meu amigo Retratista, se depender de nós essa festa será pra sempre, pela Glória de São Benedito. O silêncio da manhã é cortado por intensos batuques, ecoando de uma colina próxima. São os primeiros sinais de que a congada inicia sua festa na capela de São Benedito. Sem conseguir controlar sua curiosidade, Bento olha para as duas testemunhas vivas daquela história e pergunta: — Quem matou o delegado?

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O velho Thomas olha para o fotógrafo, esboça um sorriso, vira seu rosto para o jovem Bento, respira fundo e diz: — Tentaram calar a nossa voz, nhô Bento. Segue a procissão mais tarde e veja quem está nos primeiros bancos da igreja. Não queira precisar daquele doutor americano, ele já fez muito mal pros negros da Penha, hoje em dia ninguém mais tem lembranças daqueles tempos ou não faz questão de lembrar. Tomado pela curiosidade, Bento decide terminar seu trabalho diário e seguir rumo à procissão, na tentativa de descobrir novas informações sobre o terrível crime da Penha. O que ele não poderia imaginar é que parte da culpa recaía sobre sua própria família.


O amor e seus reflexos

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Ajustamos uns olhares de horas marcadas. Ela, tamponada na janela do quarto da sala, eu, de passagem apressada – modos de correição – como quem ia de compromissos e urgências. Mas qual? Pura vadiagem de menino-homem ainda frango, querendo ensaiar os primeiros cantos de galo. Assim foi que dei os primeiros passos em terrenos de mulher, em barra de “barra de saia”, em negócios de fêmea. Conforme é muito fácil o percebimento, neste longe ainda não conhecia corpo e gosto de mulher, galalauzinho que eu era. Mas para aprender a ser homem basta o faro. Não carece professor, receita, mapa… nem bússola. Passa tempo… Tempo passa e aquilo engrossou o caldo feito mingau em fogo baixo e ganhou patentes e liberdades. A moça iniciou tecidos de muitas agulhas e teias, sentada à porta com os joelhos à mostra. Quem me visse zanzando ali e acolá dizia que eu estava em trabalhos de muitos cargos, cargas e encargos de fiscalização, tantas vezes perneava aquela rua, bem medida, aos passos lentos e curtos, rápidos e longos, com paradas estratégicas. Certa vez deixei flor mimosa e sem espinhos, colhida na hora, feito bandeira, no mourão da cerca do quintal. Dia seguinte no lugar da flor, em bilhete perfumado, com florezinhas caprichosamente desenhadas e letra redondoza, a palavra: Bobo! – Quase nem acredito. Até hoje… Num domingo de festas, padres e botinas lustrosas, na fila da comunhão, a moça deu três pancadinhas de dedos no meu cangote e falou: – Licença! Fiquei uma semana alisando o lugar que ela me tocou – como uma revoada de mil e mais mil borboletas – a mão da donzela. Tempo passa… Passa tempo e o perfeito das alegrias não foi ainda nascido para coração de homem. Pelo menos não para coração de homem pobre. A menina de meu bem querer se jogou de cabeça, trecos e tecidos, em noivado de supetão com um primo lá dela. Rendeu até falatório e coisa e tal. Ele, recém-chegado da Mina de Morro Velho, amontado em besta brilhosa, bailarina e barulhenta e, carregando nas costas, além da corcunda, estabilidade de aposentadoria precoce, movida por mal sem cura de pleura, pulmão e fígado. Seco, amarelo e chiador feito peixe-tolo, mas com histórias de uns cobres sobrando na

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algibeira e ainda mais nos bancos. Diz-se que até talão de cheques. Arrebatou a moça e meu coração. Ela, para o altar e cama de cabeceira alta e, aquele, para o limbo dos corações e paixões desfeitas a força e fórceps. Bebi juras de vingança e morte em copos grandes, “amarrei o lote”, bambeei valentia de garrucha velha e enferrujada na cinta. Nem atirava mais, capaz que. Até que Zé Prefeito, velho sábio e cego de um olho, mas que enxergava mais que toda a nossa gente junta, chamou-me às falas e me segredou conselhos: – Deixa estar que isto não dura um nada. Nem um mijinho de gato. O rapaz é roncolho e tem pulmão não. A moça larga logo. Ou, mais certo das certezas, é que fica viúva. Viúva e com os cobres do desbagado. Ai você aproveita. Embirrei. Engoli e vomitei fel de mágoa. Quem que o cego velho pensava que eu fosse? Cachorro pidão? Tatu de cemitério? Anu branco? Matava! Matava e pronto! Mas, semana e meia, depois de mais cinco bebedeiras e explanação de raivas e iras sem fim, atrelei o caso na estaca do esquecimento. Passa tempo… Tempo passa e casamento marcado, casamento rezado. Nem bem mês e meio, me chegou por mãos de alcoviteira, carta da desposada prima do mandi. Sem perfumes e nem florezinhas, letras agarranchadas. Mas trazia propostas de gordas safadezas, num papel de embrulhar carne manchada de banha de porco. Isso, dizia: “Segunda o marido viaja a negócio. Volta só na quarta. Vou fazer um buraco na cerca no fundo do quintal, debaixo do pé de coité e deixar a porta da cozinha só encostada. ” A última réstia de sol daquela segunda flagrou-me feito lobisomem rondando os fundos da casa do casal, em busca dos fundos da moça. E, a primeira luz da terça-feira ainda me pegou na “rapação” com a mulher do roncador. Mas aquilo aumentou minha revolta: a moça reclamou de tristezas e saudades, amor e outras queixas. Desejei ligeiro e raivoso mil mortes dolorosas e lentas do rival, sem contudo, ser eu a segurar na mão da Pantasma que o levaria para as profundas. Entretanto, na presença do regalo farto e fácil, degluti a rebelião e esbanjei na tarefa, de eito e empreitada, de sujar, nos lençóis da menina, o nome e a honra do sujeito ladrão dos amores da gente. Este gozo durou pouco mais de meio ano, porém. Numa segunda, tarde da noite, o ofendido em honra chamou a mulher dele na porta da sala e eu, saí pela da cozinha… Escapei por milagre e

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mira ruim, do tiro de garrucha que me relampejou na cara e a passou a centímetros de minha orelha esquerda que me deixou surdo por dias e mais dias e, meio mouco, até hoje. Daí que estou até hoje, 30 anos depois e mais umas tantas quaresmas, correndo do roncolho, feito o diabo, da cruz. E o mandi, ao que me consta, contam e passam recibo, está sem pressa nenhuma de dar seus ossos. Tempo passa… Passa tempo. E o tempo é hoje, do agorinha mesmo. Soube deles por novidadeiro de minha terra. Diz que a moça tomou tanto gosto pela safadaria que nunca mais largou do ofício de enfeitar a testa do chiador e que o marido ainda não trabalhou na mira lá dele, já errou mais de dúzia e meia de tiros nos amantes de sua senhora. Se é roncolho, só Deus, os médicos e a mulher é quem podem dizer. Mas, ao que tudo indica, a mulher é manina, pois nunca tiveram um filho. Nem dele e nem doutros. Estão felizes e em paz!


A realidade

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A minha mãe é alegria. E sabor. Ela junta açúcar num pratinho com requeijão ainda quente que o meu pai acabou de trazer. Delícia! Colhemos figos amarelos a escorrer um pingo de doçura dourada. Regalo! Vamos à fonte buscar água. Fresca! Eu corro à frente. A correr, ninguém ganha à Flecha, a cadela. Corro com ela, feliz. Correr é bom! E andar descalço pelos campos. E nas areias frescas da ribeira. Pela sombra dos amieiros. E estar deitado no meio da erva. Ouvindo os muitos pequenos sons do campo. E sentindo os muitos aromas das plantas. O cheiro a fumo da erva cortada de fresco…

Fumo? Pedro acorda. Está no escritório. Sentado e com os cotovelos apoiados no tampo da secretária, tinha adormecido por momentos. No cinzeiro, um cigarro queimado até ao filtro. Olha o relógio. Já passa das seis. Arruma alguns papéis que estavam dispersos pela secretária, veste o casaco e sai. Ainda é cedo para ir para casa. Resolve passar pela tabacaria, para comprar o jornal, antes de se sentar na esplanada do fundo da rua. Nada mais repousante num fim de tarde: uma cadeira, um jornal e um café. Na tabacaria, olha os cabeçalhos de jornais e revistas e decide-se por uma de nome a branco sobre vermelho. — A Pesquisa, se faz favor! Paga-a e sai observando a capa. Apresenta o desenho de um cérebro sob um título que promete revelar tudo sobre a fase REM do sono. Cruza maquinalmente o passeio e começa a atravessar a rua sem despegar os olhos da revista. Logo um guinchar estridente lhe assola os ouvidos e o seu olhar já lhe desvenda a origem. A poucos metros, vem um carro de rojo, agarrando-se desesperadamente ao alcatrão. Os olhos do condutor fitam-no aterrorizados, como que a pedirem-lhe o milagre de se desviar, a tempo, da trajetória do carro. O sol refletido nos cromados fere os olhos. Os travões gemendo desfazem-se em chispas de fogo. As pessoas detêm-se de olhos fixos no horror que se desenrola mesmo ali. Sabem que um homem vai ser atropelado e nada fazem. Algo as mantém presas. Há movimentos apenas esboçados. Parece que tudo decorre em grande lentidão. Lentidão apenas aparente. Àquela velocidade, o carro vai esmagar o homem.

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Pedro dá um pulo na cama. À sua frente desenrola-se um acidente do qual ele próprio é o atropelado iminente. Em escassos momentos, porém, o carro que vem ao seu encontro desvanece-se e desaparece, deixando em seu lugar apenas os ferros graciosamente enrolados da sua acolhedora cama. Pedro pestaneja, olha em volta, e finalmente fecha a boca, que possivelmente gritara. Passam-se os segundos, mas na sua memória as imagens são nítidas. O carro parece estar ali. O carro, o chiar dos travões, o cheiro dos pneus, mesmo a cara do condutor que ele não conhece. É difícil acordar de um pesadelo, mas no fim é um alívio. Pedro respira fundo, enquanto passa a mão pela testa. Da rua chegam-lhe ruídos de discussão. Levanta-se e vai à janela. Lá em baixo, no alcatrão, dois homens discutem. Um carro está atravessado na rua e outro em posição de ter surgido da lateral. Os rastos da travagem daquele atingem mais de dez metros. Aí está a explicação do aparecimento e do conteúdo do seu sonho. Pedro volta para dentro, calça os chinelos, alisa o cabelo, e passa do quarto, onde dormira a sesta habitual dos sábados, à sala onde o seu filho se entretém com um automóvel de brinquedo e a sua mulher o recebe com um sorriso. — O quê? Já acabaste a sesta? Ele beija-a e senta-se. Sabem-lhe bem os sofás macios, confortáveis. A sala acolhedora fá-lo sentir o contraste com a vivência de há momentos. — Nem queiras saber o pesadelo que tive... Ia sendo atropelado. — No sonho! — Sei lá se foi só no sonho. Era tão real! Eu ia a atravessar uma rua e de repente, sem esperar, aparece-me um carro a toda a velocidade. — Eu, às vezes, também tenho sonhos horríveis. — Mas as coisas estavam tão nítidas, tão coerentes, que eu chego a duvidar se era só sonho. Ainda me lembro da cara do tipo que conduzia. E das pessoas que assistiam. Sabes que a coerência interna das situações é o único indício que costumo tomar como certeza de que estou acordado.

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Pela mente de Pedro, desfilam novamente as peripécias do sonho. Todos os pormenores permanecem vivos na sua memória: o rodado dos pneus, o aspeto da rua, o rosto da empregada da tabacaria, a revista... — E a revista era a Pesquisa. O engraçado é que é uma revista que já não compro há uns meses. Anunciava nesse número, em grandes letras, “Sono REM — o organizador da realidade”. Lembro-me bem. — Não sei que organização é essa, porque, para mim, isso de sonhos está cheio de incoerências. — Talvez não só incoerências! Repara que, na maior parte das vezes, o sonho reflete as peripécias do dia de quem sonha, ainda que sob uma capa surrealista. Posso sonhar que atravesso a vau um pântano onde outras pessoas chafurdam e não acho isso estranho. Quando acordo, se me lembrar do sonho e fizer um esforço de o relacionar com episódios do dia anterior, talvez me lembre de ter atravessado um relvado acabado de regar a caminho do trabalho. O terreno empapado está lá; o resto talvez seja um sentimento inconsciente do que penso do local de trabalho e de quem por lá se arrasta. — Hm, sim! Mas não seria mais lógico sonhares com o local de trabalho, mesmo, e não com o relvado? — Talvez, mas é a maneira como o nosso cérebro funciona. Aliás, os sonhos incongruentes perturbam-me menos do que aqueles que não distingo da realidade… Como é que eles acontecem? Sou eu, que estou a dormir, que consigo imaginar histórias, que nunca vivi, cheias de pormenores como na vida real? Chegam a ser tão coerentes e semelhantes à realidade que eu já me tenho perguntado o que é afinal real: o que vemos aqui, ou o que vemos nos sonhos? Ou ambos? Deixa-me cá beliscar… Ah! Outra curiosidade. Antes deste sonho, tive outro com recordações de infância. Esse era uma grande baralhada e já não me lembro bem. — Eu chego a ter quatro e cinco sonhos só numa noite... — Sim, mas sabes o que me aconteceu? É que passei de um sonho para outro, como se passasse de um sonho para a realidade. Acordei, pensava eu. Mas era outro sonho, percebes? E olha que estava mesmo convencido que estava acordado.

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Pedro fica calado a pensar. Depois adianta: — Quem me diz a mim que isto tudo não é outro sonho igual ao do acidente? Entreolham-se. Pedro belisca-se novamente. A mulher finge que se zanga: — Então e eu sou o quê? — Tens razão, querida. Tu és mesmo real. E ainda bem. Passa-lhe a mão pelos cabelos e pela face macia, olha-a no azul dos olhos e beija-a no quente dos lábios, longamente. O miúdo, que brincava com o carrinho, mas sem perder pitada do ambiente, vem a correr meter-se entre eles, para não ficar de fora na distribuição de carícias. Os três estão abraçados e a rir com a brincadeira, quando soa uma campainha. Ele pega no telefone, mas ninguém responde. — Deve ser a porta. Ela vai abrir, mas volta logo. — Não está ninguém à porta... Ele desliga o televisor, mas a campainha continua a tocar sem interrupção. Entreolham-se todos, com olhares um pouco assustados, sem trocarem palavra. O miúdo corre a abrigar-se nos braços da mãe. Olham para todos os cantos da sala, para o teto... O som da campainha continua, mete-se pelos ouvidos adentro, parecendo vir de todos os lados ao mesmo tempo.

Pedro começa a tomar consciência das cores escuras e pesadas. Depois as formas aparecem-lhe com mais nitidez. Os seus olhos abrem-se definitivamente e com eles percorre o aposento: roupa amarrotada numa cadeira; um poster de revista na parede; uma mesa com um prato sujo em cima; do outro lado da cama, um banco com um cinzeiro e um despertador. O barulho do despertador é já insuportável. Pedro trava-o com um murro. Fica a olhar para ele e para tudo o que ele significa: trabalho, submissão a horários, salário de miséria... — Seis e meia. Merda de vida!

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Senta-se na cama, encostado à parede. O leito é um colchão de espuma com um saco-cama em vez de lençóis. Acende um cigarro. Acodem-lhe ao pensamento imagens do sonho que acaba de viver. Detém-se nos sofás confortáveis, na estante cheia de livros, nos quadros, no menino adorável, na mulher linda e deliciosa… — Não querias mais nada: boa casa, um bom emprego e uma mulher boa! Um sorriso amargo aflora-lhe a boca. Acaricia a ponta do travesseiro, sonhador, pensativo. — Sonhos! Os seus olhos percorrem o local onde poderia estar deitada uma mulher. «É difícil viver sem mulher.» Mais difícil e amargo ainda lhe foi viver com uma mulher em desarmonia. «Que fazer?» Volta a olhar a miséria monótona do quarto. Não é preciso beliscar-se. Esta realidade conhece ele bem. Ou não? Afinal, que crédito pode dar ao que, de todas as vezes, lhe pareceu realidade? Por que aceitar esta, se ela parece tão desagradável? «Não quero esta merda!», decide. «Qualquer das outras é preferível.» Acabado o cigarro, estende-se outra vez, relaxado. — Que se lixe! Umas três horas depois, sonha que voa por cima do parque da cidade. Controla tão bem o seu corpo que bastam poucos movimentos dos pés para se elevar, e pequenas inclinações do tronco para orientar a trajetória. Acaba por poisar num enorme relvado junto a uma mata. Desta sai um urso que se prepara para o atacar. Pedro pega num pau e bate com ele fortemente na cabeça da besta. O animal tem a cara do seu patrão, que lhe aponta o indicador: — Estás despedido! Pedro salta da cama com um forte sentimento de angústia. Está outra vez atrasado. Muito. Lava os olhos à pressa, veste-se num ápice e sai do quarto a correr. Lá fora, a realidade parece saída de um quadro de Bosch.

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ร€ noite, entre as รกrvores

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(...) for if you stray from the path for one instant, the wolves will eat you. They are grey as famine, they are unkind as plague. Angela Carter, The Company of Wolves

Observe como o lobo espreita a porta do lenhador. Os aldeões, simples ignorantes ou talvez simples crentes, não sabem lidar com os lobos. Eles sabem, apenas, o que ouviram de seus pais e de suas mães, que antes ouviram de seus avôs e de suas avós: nunca confie num lobo. Alguns dizem que o lobo, por vezes, também pode ser um homem; por isso, você, que viaja por estas florestas escuras, ou que ouve tais relatos e os trata como inverídicos, preste atenção: nunca caminhe entre as árvores em noites de lua cheia. Com alguma sorte, nem os lobos, e nem o homem que talvez seja lobo, o encontrarão. Com mais sorte ainda, nem os outros habitantes desta floresta, seres que não me atrevo a mencionar e muito menos a descrever. Mas o lenhador, ele sim, tem medo. Medo não por estar desarmado – pois observe o seu machado encostado junto à porta; medo não por ser um adversário insignificante frente ao lobo – pois as contínuas machadadas lhe deram uma robustez um tanto invejável. Medo, todavia, pela menina. Oh, sim, a doce filha, ainda desavisada da floresta lá fora e dos lobos que nela se escondem. Seus olhos alargados, incapazes de compreender o receio do lenhador. E agora, veja como o lobo circunda a casa, à procura da entrada ideal. O seu uivo, ressonando pela floresta, recebe o uivo de seus companheiros; pois, em breve, eles aqui estarão. Com o machado em mãos, o lenhador se aproxima da filha. Um abraço que apenas ressalta a inevitabilidade do que está por acontecer. O lobo bate e bate e bate. Até que cessa. Mas, não!, a criança não compreende aquela estranha silhueta que atravessa

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a janela e, em meio ao vidro estilhaçado, se lança contra o pai. A cabeça dele, solitária e com um aspecto agora rubro, colide contra a parede. Pois o lobo é carnívoro por natureza; ele se delicia na carne madura do homem. Pois o lobo é mau: ele não se importa de devorá-lo em frente à menina. Cercado agora pelos seus iguais, o lobo é soberano na casa. Ele se aproxima da menina sem cerimônias e, veja!, o seu pelo regride no peito e nas patas; seu focinho, lentamente, se modela num rosto humano. O rosto de um homem, por que não, charmoso e com olhos ainda amarelados. Não há mais escapatória para você, doce criança. O homem lobo lhe estende a mão, e é claro que a menina aceita – o que mais ela poderia fazer? Juntos, eles todos desaparecem em meio ao bosque. Os aldeões, não muito longe dali, reforçam as trancas das portas; maridos e esposas espremem-se juntos na cama, embaixo de cobertas que, apesar de grossas, nada podem fazer contra garras e dentes afiados. Nunca confie num lobo. É apenas isso que eles entendem, é apenas isso que eles dizem uns aos outros em noites como esta. Então, você, viajante, passe longe desta floresta. Se não o fizer, ou se tomar por boato tudo o que lhe foi dito até aqui, tenha certeza: os lobos irão lhe encontrar. Você verá um par de olhos amarelos, ali, observando-o em meio às árvores. Você pode orar, mas lobos raramente andam sozinhos.

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Mais uma vez

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A porta da cozinha se abre com um solavanco e o marido aparece. Após horas de trabalho na lavoura, suas roupas estão suadas, os cabelos grisalhos e ralos pregados na testa, as unhas encardidas pela terra escura. Ao ver seu rosto, a mulher pousa a jarra que lavava sobre a pia, afasta a mecha de cabelos brancos caída sobre a testa e aponta a panela sobre o fogão: - Quer jantar, Antônio? Ele ignora a pergunta: - Aninha, você nem imagina o que achei no mato! Ela pega uma toalha e começa a enxugar a jarra: - Um brinquedo velho, como da outra vez? - Não. Algo horrível! - O quê? Diz logo! Não faz mistério! - Três crânios e muito ossos! A jarra se espatifa no chão da cozinha. Ele continua a falar, nervoso: - Vamos chamar a polícia! A voz da mulher sai tremida: - Embaixo da mangueira, não foi? Disse para você não cortar a mangueira! - Como você sabe que foi embaixo da mangueira? Ela dobra os joelhos para juntar os cacos. Um fragmento penetra em seu dedo mindinho. Ela o retira. O sangue tinge o chão de vermelho em pequenos círculos: - Antônio, pelo amor de Deus, por que você tinha que mexer ali? Ele para de gesticular: - Você sabe de alguma coisa, Ana? Dobrada sobre o piso, percebe que ele não a chamou de Aninha. Observa o próprio sangue no chão, pensa na coincidência do vidro se quebrando em

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tantas ocasiões distintas. Escreve algo no cimento com o líquido que sai do dedo ferido. É a data em que o último vidro se quebrou, cinco anos antes. - Me responde! - ele insiste. Ela suspira: - Infelizmente, eu sei. - De quem são os ossos? Ela fecha os olhos cheios de tristeza: a vida é sempre repetição? - Não vou te mentir. São do Pedrinho. E do Bertô. E do Tequila. A voz do homem se altera, se avoluma, treme: - Quem são esses? O rosto dela está virado para o chão e ela fala próximo da gola do vestido. Sai uma voz abafada: - Você sabe que fui mulher de outros, antes de te conhecer. Três vezes. Te contei no começo. Ele mostra os dentes, ele rosna: - Disse que estava traumatizada com os homens! Três ex-maridos e todos sumidos no mundo! Ela levanta com um caco grande de vidro escondido atrás das costas. Mais alta que ele, avança para o marido: - Mas sumiram mesmo. Ele recua: - Vou chamar a pol...

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A mulher o surpreende com uma força que ele desconhecia. Enterra o vidro bem fundo em seu pescoço. Espera que ele caia no chão e pare de se mover. Depois senta ao seu lado e observa o sangue jorrando sem trégua. Acaricia os cabelos do marido, lembrando da sua primeira morte. Até que gostava desse! Mas na sua história, cheia de repetição e engano, ela sempre terminava sozinha em meio a um mar de sangue. Sorri, sem se dar por vencida. Se o azar lhe alcançara por quatro vezes seguidas, encontraria o amor na quinta tentativa.


As aves

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Quando aterrei de repente e sem total previsibilidade minha por companhia face ao que iria presenciar, fiquei no imediato atento à selvagem vida das aves, voando alegremente e na incessante busca do que faltava para o seu diário. Muito pareceu à perspectiva minha que já teriam responsável posse mas tal suficiente não deveria ser, pelo menos, dedução correcta pensei enquanto observava novo bando delas chegando para lugar de abrigo reclamarem como seu, igualmente de mente própria me saiu. Aliás tudo o que conferia pela frente nascia de convicções pessoais resultantes de perspectivas que empregavam tempo meu, sem demais ocupações. Mas como remunerado e bem, ali me encontrava, nem reclamar haveria que considerar hipótese. Se bem deduzi, existia por ali uma ave que recebia das outras comportamentos tais dignos de quem se dirige a superior numa hierarquia que cada espécie supostamente terá como, e julgo ter pensado no acertado, naquele aterro onde no anterior repente cheguei, tais aves igualmente adoptavam para si os referidos trejeitos considerados. O topo era personificado pela ave importante no mais enquanto as restantes gravitavam à sua volta feitas naturais satélites, respirando da sua notável importância. Deviam por igual obediência sua e tinham no retribuir vindo de cima as benesses alimentares que pudessem disponibilizadas ser por autorizadas. De baixo, olhava-se para o alto à figura da autoridade, não havendo possibilidade tida por exequível de refilar face a quem ditava o que fosse preciso na vontade do destino em condução. Guiava-se cada qual ao sabor da ordem estabelecida, aceitando a lei do mais forte, neste caso, a ave feita rainha, restando-me saber quem a coroou, se é que tal evento teve lugar de facto. Sim, porque no eventual poderia ter acontecido golpe algum que a tivesse colocado por lá, ditando ordens ao colectivo existente e o que mais estivesse para chegar em busca de tantas benesses por distribuir. Havia, estou no crer de tanto fato de ave, muito a preceito de traje vestido para a gulosa partilha do que tantas mais desejavam, sentindo a importância sua a chegar na entrega das oferendas que antes lhes chamei benesses, a serem disponibilizadas às seguidoras trajadas no rasto da rainha. Sim, porque o seguimento implicava o acesso ao que houvesse e por demasia assim via eu por contabilização que chegaria para todas. Só que as minhas contas eram feitas na base das aves que eu constatava por ali na procura de lugar e alimento e, com infinitas outras na entrada para o aterro visando o mesmo que as restantes já tinham por seu, comecei a suspeitar que, ou as

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benesses teriam de ser produzidas em número maior, ou então parecia-me difícil existência de prosperidade reflectida no rosto de todas. Algumas não aparentavam de todo nesse igual vislumbrar pois eram as que trabalhavam em prol dos alimentos por recolha, as tais benesses para no imediato serem distribuídas pelas seguidoras e, o mais que preciso fosse para o funcionamento da sociedade. Encerravam-se no lugar mais baixo da hierarquia e por muito que reclamassem, nada conseguiriam obter para si quando comparado à lista interminável que compunha a vida das seguidoras. A rainha assim debitava quando falava na linguagem sua, então para audição de todas, mesmo que as operárias, se assim as posso identificar, reivindicassem apenas interiormente e muito assim me assemelhava o seu resmungar. Queriam certamente um justo mais viver mas provavelmente não sabiam como fazer tal empreitada. Não tinham a organização que mesmo num hierárquico mais baixo nível sempre convém existir, até para sua partilha de viveres dentro da sociedade. Estava realmente compenetrado neste estudo social das aves em questão e até começava a tomar partido sentido numa das classes, desejando sua libertação face aos ditados e outros escritos por certo legislados à vontade de rainha para usufruto de tantas oportunistas. E como elas não paravam de chegar! Parecia o infinito de novas seguidoras e duplicado considerar no que houvesse para retirar em próprio benefício. Mas eis que grupo novo de aves apareceu e no imediato por si escolhido, colocou em causa a hierarquia estabelecida, sabe-se lá desde quando, pelo menos não fui eu informado de tantos antecedentes que deram por consequência este de coisas estado. Fiquei mais animado por bem e no meu escrito também, senti idêntica viragem de ânimo. O virar de estado nem sempre é pacífico, muitas vezes é um revoltado mar com demasiados náufragos e uns parcos heróis que só uns quantos glorificam. No então deste enredo, houve confrontos verbais e exposições naturalmente previstas no antes, com distintos trocados vista de pontos, os quais entendeu minha pessoa que assim teria de ocorrer a bem de mudança pelo melhor social com baixas que não existissem. O pacifismo deve ter sempre lugar e nem aceito ismo outro para texto este. Também ninguém mais apareceu para redigir escrita em continuação pelo que sigamos apenas com as vigentes considerações. Debate houve e muito entre rainha nóveis interlocutores de poder que se pretendia diferente

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e plural a bem de todas as aves, todas elas no semblante de expectativa pelo que viria por seguir. Diverso e no bastante muitas anteviam, especialmente as seguidoras na recepção, talvez mesmo subtracção por travessos meios, de benesses sem fim. Este iria para outro estado, assim se esperava para se poder dizer que enfim, sociedade nova aí viria, onde aves por seu colectivo pleno, tudo poderiam construir e partilhar sem umas quaisquer hierarquias, ditadas sabe-se lá por quem, ou mesmo sabendo, não realçando no singular desvios que por ali se definiam e pior ainda, se desenvolviam, quando o tempo de mudança é que importava destacar. O citado mudar foi, na dúvida sem, pacífico e ainda por bem, pelo que tarefa minha estaria por quase terminada, faltando ainda registar através de caracteres por mim escolhidos, como a mudança ocorreu na direcção que mais se ansiava, sem baixa de aves nem o continuar de uma ou plural seguidista olhando de cima para outras em tarefas que apenas beneficiariam umas quantas. Era no aplaudido e festejado real que se via uma sociedade de aves finalmente irmã por colectivo, trabalhando todas elas em prol da sociedade e delas próprias, quando a soma das aves singulares resultava num plural numérico que era igual à efectiva soma, com ausência de discrepâncias que enviesassem a contabilização que toda a gente deveria fazer saber. Estava já eu de retirada para dar lugar de destaque a quem proporcionou o novo bem-estar social no aterro onde aves não faltavam e muito para festejos havia por justificação, quando elas mesmo em ave plural no designar meu, convite fizeram no repente para me juntar à festa da mudança para a sua nova sociedade.


Voluntรกrio da pรกtria

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Assunção, outubro de 1870.

Foi numa manhã como a de ontem que a derrota do Paraguai chegou pela primeira vez no acampamento. De mansinho, arrodeando o nosso território, se escondendo e querendo se mostrar. A primeira coisa que reparei foi o mundaréu de cabelos cobrindo o corpo mirrado e a cabeça cheia de ossos. Foi só um relance, depois não vi mais. Estava deixando a sentinela quando vi outra vez. Algum dos nossos deve ter feito o serviço nela, porque roía um pedaço de pão, e caridade não é coisa que se encontre numa guerra. Na hora, não atinei que Encarnación era a proclamação da nossa vitória e não tinha mesmo como entender. De mulheres paraguaias, a retaguarda do Trigésimo Quarto dos Voluntários da Pátria estava cheia, muitas arrebanhadas e outras por vontade própria, assim sua presença não tinha nada demais. A magreza, sim, era de estranhar, porque quem come na mesa de quem está ganhando necessidade não passa, mas bem que podia ser uma recém-chegada. Por isto, não dei maior atenção. Depois de uns quinze dias, ela apareceu de novo. Junto com a fome, carregava uma tristeza tão grande que lhe falar alguma coisa me pareceu obrigação. Além do mais, eu gosto de dizer palavras em guarani, uma língua que parece encaminhar os falantes para o céu. Quando caminhei em sua direção, Encarnación levantou os braços de maneira tão desalentada e grandiosa que naquele momento tive a certeza, que eu, um simples cabo, com as divisas ganhas no charco e na baioneta, e não na Academia Militar, estava recebendo a rendição do Paraguai. Encarnación não vinha de uma vila arrasada ou das cinzas de algum povoado. Tinha saído diretamente das trincheiras inimigas. Não há mais comida para as mulheres, e o pouco da carne e farinha que resta é para manter a tropa de pé, me explicou. Não era vivandeira, mas mulher de um só soldado, protegido por sortilégios contra a espada ou o fuzil dos brasileiros. Aquilo que as armas nacionais não conseguiram, a varíola se encarregou de fazer, e Encarnación ficou sozinha. A proibição de alimentar as mulheres já existia, seu esposo tirava da própria boca a pouca bóia que recebia. Quando ele se foi, ela também teve que partir. Foi a última guarani a deixar os pelotões de Solano

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López, e agora estava diante de mim como bandeira entregue num ato de capitulação. Os generais paraguaios estão errados, ela me esclareceu. Como foram educados na Europa, não sabem que as mulheres guaranis são a alma da guerra, sem elas não é possível vitória. Sem suas fêmeas, a pátria paraguaia estava à deriva, com a cabeça exposta à espera do carrasco. Como todas as outras, Encarnación ficou nas carroças, misturada à cozinha, ajudando preparar o ragu pela manhã e sendo servida à noite nas tendas dos nossos soldados. Eu passei a visitá-la com frequência enquanto nosso Exército movia-se penosamente Paraguai adentro. Estávamos entrando no quarto ano, e a guerra não parecia perto de acabar. Eu que tinha começado do começo rezava para que o exército inimigo, desamparado das fêmeas, perdesse a vontade de lutar. Não por covardia, mas por fastio, porque se é verdade que qualquer um se acostuma a matar, verdadeiro é também é que enjoa. Foi com a boca ainda com gosto de vômito e a cabeça martelando de náusea que a busquei depois da sangueira desatada de Itororó. Até o primeiro tiro, confesso que nutria lá no fundo a esperança de ver surgir a bandeira branca do lado dos paraguaios. Veio uma balaceira danada, e os homens sem mulheres lutaram pior do que o Cão. Geralmente não me lembro do que acontece nas batalhas, só do final: o silencio dos surdos, o sangue entrando pelos olhos e um nojo do mundo sem tamanho. Desta vez, um nó nas tripas mal me deixava andar. Cambaleante, encontrei Encarnación pendurando o brinco usado para espantar a tristeza, no último retoque antes de iniciar a ronda noturna. Como quem oferece um remédio, me levou para a rede. Afundei na quentura, rolei no seu cheiro, explorei sua fenda para negar fogo, miseravelmente. Na cabeça, o desejo não se impunha, afogado pela visão da baioneta entrando, saindo, voltando a entrar na barriga de um paraguaio com uma volúpia ausente do meu caralho. Se o homem falha, a culpa é da mulher. Ela era a culpada, anunciara o fim da guerra me fazendo acreditar que não ia mais me lavar em sangue. Minhas reclamações expulsaram Encarnación da rede, de onde saiu a contragosto. Amuada, acendeu um cachimbo de barro, quieta no canto, e em silencio hora e meia ficou. Quando abriu a boca, foi para dizer, assim do nada: sem as mulheres, o Paraguai não pode vencer. Ora, com as índias do lado deles tínhamos vencido muitas batalhas, Tuiuti, Curuzu e outras tantas, então

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que diferença fazia? Ela sorriu baixinho antes de dizer: a de hoje, por exemplo, vocês iam perder. Não perdemos. Vieram Avaí, Lomas Valentinas, Angustura,; uma sucessão de batalhas vitoriosas naquele dezembro de 1869 que colocaram Assunção ao alcance de nossas mãos. Depois de cada combate, tomei o costume de procurar Encarnación, sem perceber me enrabichei da índia. Tirei ela da roleta dos soldados, assumi sua guarda. Ela gostou, como já disse, sempre foi mulher de um homem só. Quando não estava de sentinela, a gente arrumava um canto debaixo do céu preto ou das estrelas e por lá se arranchava. Se chovesse, íamos para tenda da bóia, onde os ajudantes eram meus considerados. Antes das batalhas, como amuleto, e depois das matanças, como purificação, era obrigatório afundar nas suas carnes magras até que o desespero se acalmasse. Era tudo no silêncio, pouco se conversava, não tinha precisão. Então chegou a noite que antecedeu nossa entrada triunfal na capital paraguaia. O dia fora enjoado, tomar banho, costurar uniformes, engraxar botinas, ensaiar o hino,; quando o alferes saiu de cima do nosso lombo, a lua já ia alta no céu. Tinha no ar um cheiro de fim de linha. Amanhã acabava a guerra. Íamos desfilar pela capital inimiga, e depois o abismo. De lá, sairia num vapor, no rumo de casa, e Encarnación, como ficaria? O próprio fato de me fazer esta pergunta era a prova de como estava seduzido. Largar mulheres pelo caminho é próprio dos conquistadores, não se apaixonar pelas amantes é a divisa dos soldados, mas eu hesitava, e minha hesitação era a prova cabal de que me enredava no erro. Depois do coito, perguntei o que ela pensava em fazer. A resposta foi um tiro no peito. Ia buscar o filho numa casa para os órfãos de guerra, em Assunção mesmo. Só isso e já era o bastante para tempos impossíveis de se vislumbrar o dia seguinte. O que dizer? Já tinha me passado pela cabeça a ideia de levá-la para o Brasil. Apesar de loucura, podia fazer, era solteiro, sem família para prestar contas, porém, carregar nos ombros um garoto desconhecido era demais para qualquer um. Assim fiquei quieto. Como ela não se importou, nos agarramos outra vez. O desfile foi macabro. As ruas vazias, sem um ser humano para aplaudir ou apupar. Até os cachorros guardaram um silêncio sepulcral. Quando voltei para o acampamento, não encontrei Encarnación. Ela tinha se evaporado sem deixar sequer o cachimbo para trás.

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Foi assim, num vazio assombroso, que decorreram os dias seguintes. A guerra parecia suspensa num limbo. López sumira, e não aparecia ninguém para assinar o tratado de paz,. pPor sua vez, Assunção, pendurada em fantasmas, parecia minguar dia após dia. A cada semana, sumia mais gente. Primeiro foram as crianças e as mulheres, depois, os velhos e os aleijados, por fim, sobraram apenas alguns loucos que insistiam em saudar o Generalíssimo pelas esquinas. Pelas ruas solitárias, o único que corria eram os boatos. Diziam que a guerra ia continuar. Como e para quê, ninguém dizia. Neste reme e reme acabou sendo oficialmente anunciada a partida do Marquês de Caxias. Disse oum cabo, comentando o sargento, por inconfidência do tenente, que o nosso Supremo Comandante não era capitão do mato e não ia perseguir os restos do ditador cordilheira afora. Caxias se foi e chegou o Conde, genro do Imperador, para prosseguir a campanha. Desgraça completa. O exército paraguaio sem mulheres, agora também sem homens, subira as montanhas, e nós atrás das sombras, em doida perseguição. De marcha mais penosa, não recordo. Vilarejos abandonados, um ódio espalhado no ar, espreitando atrás de cada casebre. De vez em quando, o vento trazia choro de crianças. Foi assim que chegamos a Peribebuí para o que deveria ser a última batalha da guerra. Depois de algumas horas, estava tudo terminado. Não fizemos prisioneiros, até o comandante paraguaio teve o pescoço cortado. Estava na porta da barraca, armando um cigarro com o tabaco extra distribuído em função da vitória, com a cabeça esvaziada pelo fim da guerra. Para mim tinha terminado de verdade. Os últimos soldados e o último general de López estavam jogados no campo, sem cabeças, com os corpos devorados pelo incêndio. O ditador escapulira, mas não podia ir muito longe. Até que enfim chegara a hora do ponto final. Aí, ela reapareceu. Envolta num halo luminoso, com chispas nos olhos, Encarnación trazia o fogo das batalhas que eu julgava apagado. Com a língua soltando estrelas, anunciou a continuidade da guerra. As mulheres voltaram ao Exército, disse num tom radiante. Por isto tinha ido embora. Agora quem iria combater eram as crianças, e, para os pequeninos lutarem, as mães eram indispensáveis. Ademais, nas tropas de López não existiam mais generais. Sem

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ter ninguém para impedir, as madres tinham trazido seus filhos e organizado um novo exército para fazer brotar, outra vez, vitórias do arrasado solo paraguaio. Qualquer um confundiria Encarnación com uma fugitiva de um hospício, menos eu, surpreendentemente desesperado, tentando, com beijos que ela não sentia, mantê-la perto de mim, adivinhando sua partida. Antes de desaparecer na noite, ela me agradeceu suavemente e me aconselhou a desertar. Não queria levar na alma o peso da minha morte. Quatro dias depois, chegamos a um descampado que rola suavemente de uma colina. Acosta Ñu era seu nome. De repente, uma enxurrada de pontos pequeninos desceu das montanhas. Com uniformes maltrapilhos e fuzis que mal podiam carregar, os pequenos guaranis pareciam anjinhos remetidos para o céu por nossa fuzilaria. Atrás, como harpias agourentas, vinham as mulheres gritando, incentivando e também morrendo. Como já disse, pouco me lembro das batalhas. Desta, só sei dizer que fiquei parado, sem disparar um tiro. Quando tudo terminou, fui embora sem olhar para os corpos. Pensava no erro cometido meses atrás, quando vi Encarnación pela primeira vez. Como descobri mais tarde, a palavra rendição não existe no idioma guarani.


O fantasma do abacateiro

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Tombo inesperado e dolorido. O cavalo se espanta com o bafo ardido que vinha além das colinas e empina, todo selvagem, expulsando o experiente cavaleiro. Disparou com a sela desocupada para qualquer lado onde ainda despontasse o céu azul, Breno ficando para trás e o gado fugidio mais e mais distante. Devia fazer o mesmo, mas nem cogita abandonar o rancho onde trabalhou a vida inteira, por isso acelera pelo caminho de volta em passos coxos, consolado pelos xingos escarrados ao vento e ritmado pelo avançar do fogo em marcha, imperioso. Um incêndio ainda distante, carregado no sopro dos prados e que estufa os pulmões com oxigênio tórrido, como se inflasse um balão. Breno sabia que maus presságios avizinhavam o rancho, tragédias são anunciadas com escândalo pela natureza, só não entende porque ignorou-os. Começou com a alvorada, que se espalhou no firmamento sem a regência dos pássaros. Bateram asas para longe dali na surdina. Depois, foram as vacas que debandaram, mas com menos decência, abrindo caminho no peito malhado através das cercas farpadas que coordenam suas rotinas. Quando o lago que circunda a residência efervesceu sem explicação, até flutuar um colorido cardume mortiço na superfície, Breno já galopava atrás da boiada, cego e surdo às chagas que se abriam na terra, na água e no ar. Dia virou noite, num pulo, sem o crepúsculo, e o agouro permitiu que Breno testemunhasse mais um presságio maligno. À distância, um feixe de luz se agita entre as folhas do abacateiro que sombreia a casa e estende sua frondosa penumbra sobre a vida de Breno. Estremeceu ao concluir que o patrão escolheu o pior dia para empoleirar, de galho em galho, a árvore tão velha quanto ele próprio. Após alguns segundos sufocado em um silencioso desassossego, ele liberta o ar contido ao ver a luz da lanterna trepidar, vacilar e então rodopiar no ar, seguida do patrão em queda livre até o gramado. Fruta madura ao solo sem o néctar esparramado, só o amargo do sangue que esvoaça da boca. Breno sente a musculatura enrijecer, o coração descompassar e o suor do corpo se agarrar à camisa enquanto esforça-se para ultrapassar a derradeira encosta que dá acesso à residência.

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Toda a terra batida sobre os pés se levanta em um véu denso, a preocupação latente nos poros sujos e umedecidos. Sobe rápido ao bote, rema até a ilhota e, quando alcança o pobre homem contorcido no solo, ouve um chiado lamentoso na copa da árvore. — Diacho de gato — bradou para si, com o corpo molenga do patrão nos seus braços. Que esse bichano dengoso assista ao grande fogaréu que se aproxima de lá de cima. Desacordado, o patrão é carregado para a solitária casa, isolada pelo lago e cercada por um lindo vale de muitos aromas florais, mas que, naquela repentina noite, só se fazia sentido o perfume gasto de mata queimada. Breno confia no bucólico fosso natural para impedir as lambidas abrasantes na residência. Temia, apenas, que sufocassem com o cerco enfumaçado assim que o incêndio descesse o vale. As botas são deixadas na soleira e Breno caminha, com dificuldade e os dedos expostos pelas meias furadas, ao longo do salão. Muito cuidado para não pisar no tapete central, importado e com estampas, e ao circular o cômodo até alcançar o corredor no lado oposto. Dribla cômodas entalhadas, mobílias estofadas, vasos delicados e toda a parafernália que ocupa a casa vazia, tornando-a imune aos ecos da solidão. Ajeita o homem combalido entre travesseiros macios e lençóis que, de tão finos, esvoaçam fantasmagóricos até cobrirem seu corpo. Socorro não viria, não enquanto o fogo varresse a região como um castigo aos desavisados. Restava a espera, e o crepitar adjacente estalando nos ouvidos. Na ausência de estrelas no céu, pela janela se percebe as fagulhas flamejam cintilantes e sem rumo. Igual a Breno e o seu patrão, pequeninos pontos vagantes sem destino ou direção. Foram-se longos minutos até o patrão recobrar a consciência, dominado por um estado febril alucinado. — E o gado, André? — tremula a voz. Engasga e expectora manchas escarlates no lenço bordado com suas iniciais. Não se deu conta da confusão de nomes. — Tudo certo — assente o fiel capataz. Estender-se no assunto não ajudaria em nada.

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— Quando eu morrer isso tudo será seu, André. — O senhor ainda vai viver muito — tenta animá-lo, por mais que o enfermo pareça reviver outras conversas e insista em desenterrar o nome do falecido pai de Breno. — Use um lençol para não assustar a criança. Faça parecer um suicídio. — Não entendi, senhor. Novamente, a consciência abandona o patrão, deixando Breno sem respostas. Ele, então, deixa-o com seus sonhos delirantes. Circula a casa, fechando janelas para obstruir a passagem de fumaça, e vai à porta avaliar o que sobraria do rancho se o patrão não resistisse à noite. Cinzas, provavelmente. E o maldito abacateiro, com certeza. Ao redor do horizonte purpúreo, como se o próprio céu estivesse em chamas, a árvore se exibe soberana. O gato ainda em sonoro alarme e desespero sob a espessa folhagem. Melhor o fogo, ele pensa, do que o apocalíptico cenário de vinte anos atrás quando teve o primeiro contato com os presságios da natureza. Uma ventania incontrolável que levou a sua meninice junto de galinhas, telhas, peixes e ovelhas. Ainda é assombrado pela visão do pai pendente no galho mais grosso do abacateiro, o nó da corda firme no pescoço, impedindo-o de revoar. Um lençol branco cobrindo-o por completo. Um fantasma. Foi o primeiro pensamento do jovem Breno. Muito jovem para saber que o espectro suspenso do pai, na árvore, seria mais aterrorizante do que qualquer alma penada. Labaredas altas sibilam no olhar perdido em lacunas do passado. Regressa ao quarto do patrão e encontra-o desperto e fadigado. Vívido, e menos alucinado, mas prestes a desistir. Ponderou sob quais circunstâncias o corpo e a mente consideram-se prontos para abandonar a vida, como fazia o patrão. Como fizera seu pai. — Conseguiu resgatar o Amadeu? — ele questiona, débil e aflito. — O bichano está bem lá em cima. Melhor do que a gente nesse forno.

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O patrão olha-o com ternura. Remove o colar que envolve o peito oscilante e segura a chave presa ao cordão. Abre a gaveta ao lado da cama e seleciona, com muita dificuldade, alguns papéis. Documentos legais. — Se algo acontecer comigo o rancho fica para você, Breno. — Que nem você prometeu para o meu pai? — retruca com olhar de abandono, mãos rígidas no lugar. O capataz só observa o patrão se ajeitar no leito, como se o jogo de cama fosse tecido por espinhos, e não linho ou seda. — Isso tudo seria de vocês dois se... Caso aquela fatalidade nunca tivesse acontecido. — Você sabe por que ele fez o que fez? — Breno, eu não estou em condições... — contemporiza, mas é interrompido. — Faça parecer um suicídio. Foi o que você disse quando delirava. É verdade? Um gemido alto, suspiros prolongados. Segredos que roem por dentro, como larvas que se alimentam das frutas mais altas e antecipam o tombo da árvore. — Ele roubava de mim, Breno! O que ia pensar ao saber que seu pai é um ladrão? — Um ladrão, sim, mas vivo. Não esse fantasma que me acompanha todos os dias. — Fiz de tudo por vocês. E acolhi o seu corpinho mirrado quando ele morreu, para dar a vida que o seu pai nunca conseguiria! Do lado de fora, o fogo dança, esperneia e guincha por todo o vale. Ambos suam sob as roupas, de febre e cólera. — Por que não derrubou a árvore, pelo menos? — Para nunca esquecer o que fiz. — Não se preocupe, eu não vou deixá-lo esquecer — Breno resmunga e sai do quarto. Apanha o machado repousado em um toco de árvore. Descalço, com os dedos expostos, caminha em direção ao abacateiro com as línguas de fogo como

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as únicas e fervorosas testemunhas. Estoca a cepa uma, duas e dezenas de vezes. Com vigor, mecanicamente. O fogo aguarda, tem paciência, desfilando na margem oposta do fino lago que protege a casa enquanto o machado finca, lasca a madeira e sua lâmina crava o abacateiro mais uma vez. Balança e desequilibra-se como um bêbado até entortar na direção do lago. Um convite. Amadeu, agarrado ao galho como um bote salva-vida, mia com energia. Árvore grande, robusta, queixa-se com os estalos do seu tronco enquanto alcança o outro lado do lago. O fogaréu agradece e engole, faminto, as frutas, a madeira e as raízes, avançando para a ilhota através da ponte improvisada. Breno repara, na margem distante, Amadeu ainda vivo e em ágil escapulida. Talvez, os animais tenham muito a ensinar a respeito de sobrevivência. Desprovido do mesmo controle emocional, Breno olha para o lago efervescente e não considera nenhuma saída que poupe a sua vida daquele incandescente desfecho. As botas permanecem na soleira e ele caminha, resignado e com dificuldade, ao longo do salão apoiando-se no machado. Pisa no tapete, gotejando água e sangue das bolhas nas mãos até chegar ao corredor, seguido pelo curioso incêndio que se espalha. Quando volta ao quarto, o patrão se esvai em gritos roucos, os lençóis todos manchados de sangue pelo vão esforço em impedir Breno de fazer qualquer loucura. O manco caminhar é interrompido aos pés da cama, à espera da queimada que vai envolvê-los e abraçar as suas aflições e ambições até que eles também virem fagulhas cintilantes. Pequeninos pontos vagantes sem destino ou direção.

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Graciliana

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Quando Graciliana se casou não houve quem não duvidasse daquilo tudo... Ainda que pobretona e sem muito saber, era moça bonita, cheia de vida, graciosa, com sua saia rodada, a andar descalça pela ruelas da vila. E foi numa dessas ruelas que seu Tenório a viu e foi tomado por puro encantamento. Aquele velhote, fedido e desengonçado era dono de uma imensa plantação de laranjas e, a despeito de sua boa reputação e gorda conta bancária (na cidade vizinha), era, mesmo assim, uma pessoa desagradável, sempre sujo, engordurado, com aquele inseparável cigarro a lhe envolver numa nuvem malcheirosa. Aparentava muito mais do que os 60 anos que dizia ter. O verdadeiro motivo daquela união, nunca se soube, mas conheceram-se, noivaram e se casaram em menos de seis meses. Graciliana não falava sobre o casório com ninguém. Começou a andar bem vestida, sapatos no pé, usava batom e prendia os cabelos. Aos domingos, depois da missa, passeava com o marido, de braços dados, sem ares de tristeza mas sem nenhum sorriso de alegria. Os meses se passaram e algum tempo depois , nasceu Baltazar. Um dia chegou na cidade um moço...Queria ver umas terras, comprar um laranjal. Tinha parentes na capital que já produziam suco de frutas. Gostou quando viu aquela mulher andando altiva, balançando a bunda. Tudo foi rápido demais: não houve compra de terras, não teve mais casamento, nem pai nem mãe nem marido. Não houve casa montada, nem roupa na costureira, nem conta no armazém, nem samambaias na varanda, nem avencas sobre a mesa de jantar; nem roupas quarando ao sol. Não houve missa nem festa, não teve braços dados nem passeio, não houve mais senhora, nem conta na venda. Ficaram o sabonete na pia e o laço de fita. Um par de chinelos, debaixo da cama, uma medalha de São Judas Tadeu no casaquinho do filho!

Sobrou, dia e noite, o choro do pequeno Tazinho chamando “mamãe”!

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#F5 - Fluxo Revista edição 5  

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