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Goldie Roth é uma ladra treinada e hábil mentirosa. Junto com seu amigo Toadspit ela deve se tornar uma das Defensoras do Museu de Dunt. Mas seus pais estão doentes e Goldie não pode abandoná-los. Quando a irmã de Toadspit desaparece, Goldie é forçada a tomar uma decisão. Ela e Toadspit seguem as pistas deixadas pelos sequestradores e vão parar na vizinha cidade de Spoke. No caminho, Toadspit também é capturado, e Goldie terá de enfrentar sozinha as ameaças da cidade. Entre essas ameaças está o tradicional Festival das Mentiras, lugar em que cada palavra dita significa outra coisa e ninguém é confiável. Durante o Festival, Goldie descobre segredos que podem colocar em risco a sua vida e a de seus amigos. Ela vai precisar de um plano e de todo o seu talento para sobreviver e salvar a todos. Cidade de mentiras é o segundo volume de uma aventura que você não vai conseguir parar de ler! Um livro que mostra por que devemos lutar por aquilo em que acreditamos.


UMA MENSAGEM DO MUSEU

O

berro acordou Goldie Roth de um sono profundo. Ela se levantou de supetão, pensando por um instante que tinha retornado aos acontecimentos terríveis de seis meses antes, com a cidade de Jewel à beira da invasão e seu amigo Toadspit pronto para ser morto diante de seus olhos. Então ela ouviu a voz baixinha de Ma no quarto ao lado e percebeu que Pa tinha tido mais um pesadelo. Ela escorregou para fora da cama, jogou um penhoar em cima dos ombros e correu para o quarto dos pais. — Pa? — ela perguntou. — Está tudo bem com você?


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Pa lançou um sorriso fraco para ela do meio do emaranhado de lençóis. — Desculpe ter acordado você, queridinha — ele balbuciou. — O seu pai teve um sonho ruim — Ma disse. — Mas agora já passou. — E ela também sorriu, apesar de seus nós dos dedos estarem brancos e suas mãos tremerem. Goldie sentiu uma pontada no coração por vê-los tentando fingir que não havia nada de errado. Ela ajeitou os lençóis e prendeu-os embaixo dos ombros de Pa, desejando que houvesse algo mais que pudesse fazer. — Estava sonhando com a Casa do Arrependimento mais uma vez? — ela perguntou. Pa se contorceu. Ele e Ma se entreolharam e um mundo de dor e pesar passou por entre eles. Fazia pouco mais de dez meses desde que os dois tinham sido jogados no calabouço da Casa do Arrependimento. Eles nunca haviam contado a Goldie o que tinha acontecido com eles lá, mas ela era capaz de ver as cicatrizes que tinham ficado para trás. Pa sofria com pesadelos terríveis. Ma ficara com uma tosse que parecia capaz de arrancar seus pulmões. Os dois ainda estavam magros demais, tanto tempo depois de terem sido soltos, e apresentavam um ar de exaustão, como se algo os corroesse por dentro. Goldie queria que eles falassem sobre aquilo. Mas isso nunca acontecia. Em vez disso, eles suspiravam e mudavam de assunto. 2


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— Ch-chegou uma mensagem para você hoje, queridinha — Pa disse, fazendo esforço para se sentar ereto. — Onde foi que eu coloquei? Era do Museu de Dunt. Desta vez, foi Goldie que se contorceu, apesar de ela ter disfarçado tão bem que o pai nem percebeu. Lembranças tomaram conta dela. Toadspit, com o corpo todo coberto de lama, virando-se para ela e dando risada. Uma língua quente de cachorro passando por seu rosto e uma voz profunda que ribombava: “Você é tão corajosa quanto um cachorro brizzlehound...”. Com esforço, ela se arrastou de volta ao presente. Pa remexia nas coisas à procura de um pedaço de papel que estava na mesinha de cabeceira. — Aqui está. — A testa dele se franziu. — É de Herro Dan e Olga Ciavolga. Parece que eles querem que você seja a Quinta Defensora do museu! A Quinta Defensora do Museu de Dunt... O anseio tão conhecido cresceu dentro de Goldie de maneira repentina e com tanta força que ela mal conseguia respirar. Ela não disse nada, mas Pa deve ter percebido algum eco daquilo em seu rosto. — Você... Você quer ser a Quinta Defensora, querida? Porque... — Porque, se quiser — Ma interrompeu —, nós não vamos impedir. — Nós nem sonharíamos em impedir! — É só que... — É só que é uma responsabilidade tão grande — Pa falou. — Estamos preocupados que talvez seja demais para você. 3


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— E... — Ma apertou a mão de Goldie. — E você teria de passar tanto tempo longe de casa. — Ela começou a tossir. Goldie deu tapinhas leves nas costas dela e tentou não pensar no Museu de Dunt nem em quanto, ah, quanto ela queria ser a Quinta Defensora. — Claro que é possível Herro Dan e Olga Ciavolga realmente precisarem da sua ajuda — Pa disse, mordendo o lábio. — Se precisarem... — Se precisarem de você, então não deve hesitar — Ma falou. Ela tentou soltar a mão de Goldie, mas não foi capaz. — O seu pai e eu conversamos sobre isso hoje. — Conversamos, sim — Pa disse. — E nós dois concordamos. Se precisam de você, deve ir. Goldie mal conseguia suportar aquilo. Eles estavam fazendo o máximo para serem justos, mas ela sabia que eles realmente detestavam a ideia de ela se afastar de casa, ainda que fosse por um curto período. Por isso ela forçou cada restinho de anseio para longe de sua voz e disse: — Eles não precisam de mim de verdade. Eles têm Sinew e Toadspit para ajudar. Pa franziu a testa, querendo acreditar nela. — Tem certeza? — Não está dizendo isso por nossa causa, está? — Ma perguntou, sem parar de apertar a mão dela. — Não deve fazer isso. Nós queremos que você seja feliz. 4


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Uma língua quente de cachorro passou por seu rosto... Goldie sorriu. — Eu estou feliz — ela disse. E, como era uma mentirosa treinada, aquilo soou como se fosse sincero.

Ela ficou com os pais até eles voltarem a dormir. Então retornou para o seu quarto na ponta dos pés, vestiu a bata, a meia-calça de lã e uma jaqueta, e se esgueirou para fora de casa pela porta da frente. Na verdade, dez meses não eram assim tanto tempo. Mas, para Goldie, correndo pelo Old Quarter, que estava em silêncio, na direção da casa de Toadspit, parecia uma vida inteira. Dez meses antes, ela usava uma corrente de guarda de prata que a prendia aos pais ou a um Guardião Abençoado. Nunca tinha estado sozinha em lugar nenhum, e era quase tão indefesa quanto uma criancinha bem pequena. Mas então ela fugiu e encontrou refúgio no Museu de Dunt. Nos meses que passou lá, ela cresceu. Mais do que isso, tornou-se uma ótima ladra e uma mentirosa habilidosa. Ela aprendeu os Três Métodos de Ocultação, e a Primeira Canção, e como agir com coragem inabalável, mesmo quando tomada pelo medo. As lições alimentaram alguma necessidade muito profunda dentro dela, e o museu rapidamente passou a ser um lar para ela. A única coisa que faltava era Ma e Pa. Eles estavam 5


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trancados na Casa do Arrependimento, presos pelo Orientador, o líder dos Guardiões Abençoados. E por que tinham sido presos? Goldie fez a curva no Canal Gunboat. — Por minha causa — ela sussurrou. Na Jewel de seis meses antes, fugir era crime. O Orientador não conseguiu colocar as mãos em Goldie, mas foi a coisa mais fácil do mundo arrancar Ma e Pa da cama e arrastá-los perante o Tribunal das Sete Bênçãos. Ali, foram julgados e sentenciados por serem os pais de uma criança criminosa. “A culpa foi minha”, Goldie pensou. “Tudo o que aconteceu com eles foi por minha culpa.” Tinha chovido naquela noite, e as passagens do Canal Gunboat estavam escorregadias por causa da lama. Goldie parou na frente da casa de Toadspit, respirou fundo e jogou uma pedrinha na janela lá em cima. Então se esgueirou de volta para o meio das sombras e ficou esperando. Ela tinha mentido quando disse aos pais que o Museu de Dunt não precisava dela. O museu precisava dela, sim, para ajudar a guardar os segredos perigosos que repousavam entre suas paredes. Mas Ma e Pa também precisavam dela, e ela não podia abandoná-los. Ela apertou os dedos ao redor do broche esmaltado que usava na gola da camisa — o broche que tinha pertencido a sua tia Praise, desaparecida havia tanto tempo. Mas o passarinho azul com as asas abertas não lhe trouxe nenhum conforto. 6


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Pa achou que só tinha havido uma mensagem do Museu de Dunt. Estava enganado. Nos últimos meses, Goldie tinha recebido mais de uma dúzia de mensagens, cada uma delas perguntando quando ela iria assumir sua posição de Quinta Defensora. Naquela noite, ela iria responder. Nunca.

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OS LADRÕES DE CRIANÇA

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unca? — Toadspit perguntou em tom de descrença total. Goldie engoliu em seco. Ela sabia que aquilo seria difícil, mas foi ainda pior do que esperava. — Não. Nunca. Enquanto falava, sentiu um formigamento entre as escápulas. Deu uma olhada para trás e avistou uma pequena silhueta se esconder. Alguém os seguia. Toadspit não tinha reparado. — Mas você quer ser a Quinta Defensora — ele disse. — Eu sei que você quer! — Eu quero, mas...


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— Então, o que a impede? — Eu já disse! Ma e Pa... Toadspit a interrompeu. — Fora eu, não houve nenhum novo defensor nos últimos duzentos anos! Como é que você pode simplesmente jogar fora um convite desses? — Não estou simplesmente jogando fora... — Está sim! Olhe só para isto! — Toadspit sacudiu o braço esquerdo na frente dela. — Nada de algema, nada de corrente de guarda! Nós nos livramos delas! Nós supostamente somos livres, mas agora você... — ele parou de falar e olhou para ela com desgosto. — Isso é tão idiota! Magoada, Goldie também olhou feio para ele. — Você não entende! O rosto de Toadspit se fechou em uma expressão de desdém e Goldie ficou imaginando por que ela tinha se dado ao trabalho de acordá-lo. Fazia meses que eles não se falavam, e ela havia se esquecido de como ele era capaz de ser irritante. Ela devia ter ido direto para o museu. No fundo de sua mente, uma voz baixinha sussurrou: Mas ele tem razão. Você nasceu para ser a Quinta Defensora. É o seu destino. Goldie a ignorou, assim como ignorou Toadspit. Ela não podia abandonar Ma e Pa, e fim de papo. As duas crianças prosseguiram seu caminho em um silêncio irritado. Goldie não avistou ninguém nas ruas, a não ser a silhueta da sombra que continuava se esgueirando atrás deles. 9


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Mas, ao atravessarem a Ponte Old Arsenal e começarem a subir a colina na direção do museu, o silêncio foi rompido por passos pesados que seguiam pela rua na direção deles. Goldie hesitou, de repente se sentindo pouco à vontade. Havia algo ameaçador naqueles passos, e, se estivesse sozinha, teria se esgueirado para dentro da primeira porta que visse até que aquela pessoa tivesse passado. Mas a expressão de desdém de Toadspit era como um desafio. Ele está esperando que eu me esconda, ela se deu conta. Por isso, empinou o nariz e continuou caminhando. Os passos ficaram mais altos. Botas com sola de prego batiam nos paralelepípedos. À luz das lamparinas de gás, Goldie viu dois homens com casacos de lona encerada caminhando cambaleantes pelo meio da rua. Um deles era um sujeito grandalhão com cabelo loiro todo despenteado. O outro era menor, e seu rosto era fino como um anzol de pesca. Ao passarem pelas crianças, deram uma olhada nelas como um açougueiro que inspeciona um par de bezerros gordos. O medo lambeu a nuca de Goldie. Mas, depois do primeiro olhar intenso, o homem de rosto fino pareceu perder o interesse. Ele e seu companheiro atravessaram a ponte e desapareceram no meio da escuridão. Toadspit fez uma expressão de maior desprezo ainda. O medo de Goldie se transformou em irritação. Ela se virou para trás e chamou: — Pode aparecer agora, Bonnie. 10


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Ouviu-se um soluço de surpresa vindo da direção da ponte, então uma menininha de cabelo escuro surgiu sob a luz do poste. A barra do penhoar dela aparecia por baixo da bata e ela trazia na mão um arco longo e antiquado, e também uma aljava de flechas. Toadspit ficou olhando fixo para a irmãzinha. — O que você está fazendo aqui? O queixo de Bonnie se ergueu. — Eu vou ao museu com vocês. Estou seguindo os dois desde que saíram de casa, e você nem percebeu. — Claro que percebi. — Não percebeu. Se tivesse percebido, teria me mandado de volta — Bonnie sorriu. — Goldie quase me viu uma vez. Mas eu me escondi bem a tempo. — Perto do terminal — Goldie disse. — Quando você escorregou. Bonnie ficou com a cara no chão. Toadspit voltou seu olhar de desgosto para Goldie. — Você sabia que ela estava nos seguindo e nem me disse? Goldie deu de ombros, ainda irritada com ele. — Não vai acontecer nada de ruim com ela, não com a gente aqui. — Eu ficaria bem, mesmo se estivesse sozinha — Bonnie disse. Ela ergueu o arco. — Estou armada. — Você provavelmente iria acertar o próprio pé — Toadspit falou. — Onde foi que arrumou esse negócio? 11


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— Olga Ciavolga me deu. Ela disse que eu tinha talento para a coisa. Disse que eu poderia vir a ser campeã de arco e flecha um dia, igual à Princesa Frisia. Toadspit ficou com uma cara de quem não estava entendendo nada. — Você sabe, a princesa guerreira de Merne — Bonnie disse. — Tem um quadro dela no museu. Ela viveu há quinhentos anos e foi corajosa de verdade. Alguns assassinos tentaram matar o pai dela, o rei, com ar envenenado, e ela o salvou. E ela foi a melhor arqueira que qualquer pessoa já viu. Eu vou ser igual a ela. Ando treinando. Toadspit revirou os olhos. — Você é uma peste, Bonnie. Aposto que acordou Ma e Pa quando saiu. — Não acordei. — Vamos levar você para casa... — Não temos tempo — Goldie interrompeu. — Precisamos chegar ao museu. — E, se encontrarmos inimigos pelo caminho, posso atirar uma flecha neles — Bonnie disse. Toadspit soltou uma gargalhada de desdém. — Aposto que você não seria capaz de acertar nem a parede de uma casa. — Seria sim. Eu seria capaz de acertar... — Bonnie olhou ao redor — eu seria capaz de acertar aquele poste de madeira. Aquele com a lamparina a gás, do outro lado da ponte. Vocês me deixam ir junto se eu acertar? 12


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— Não... — Deixamos — Goldie respondeu. — Se acertar o poste, pode vir com a gente. Toadspit cerrou os dentes. — Parece que você vai para casa, então, não é mesmo, Bonniezinha? A irmã dele deu um sorriso torto. — Você só me chama disso quando acha que eu vou perder. — Parem com isso, os dois — Goldie disse. — Bonnie, ande logo. Bonnie pegou uma flecha da aljava, ajeitou com cuidado no arco e se virou de modo a ficar de lado para a lamparina a gás, com as pernas afastadas e a parte de trás da flecha alojada entre os dedos. Puxou o braço direito para trás até a mão encostar na bochecha. Ergueu o arco, então abaixou um pouco. Houve um momento de imobilidade total. Então os dedos dela estremeceram, a corda do arco fez um som de vibração e a flecha voou por cima da ponte para se fincar com firmeza no poste. Bonnie soltou um pequeno Hmm de satisfação e baixou o arco. Toadspit ficou olhando fixo. — Foi sorte. — Quer que eu faça de novo? Eu consigo, dez vezes seguidas. — Não — Goldie respondeu rápido. — Tudo bem, você pode vir com a gente. 13


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— Espere, preciso pegar a minha flecha — Bonnie disse e, antes que Goldie pudesse detê-la, a menina já estava correndo pela ponte. Toadspit deu um passo na direção dela. — Vou levar Bonnie para casa. — Não pode fazer isso — Goldie disse. — Você deu sua palavra. — Não. Você deu sua palavra. Eu nunca disse que ela podia nos acompanhar. — Não seja tão teimoso. Você sabe que vai ficar tudo bem com ela. — Vai mesmo? — a voz de Toadspit se elevou, irritada. — Fico feliz por você ter tanta certeza disso. Mas, bom, você não é responsável por ela, não é mesmo? — Não, mas... — Bom, eu sou. E eu estou dizendo que ela vai voltar para casa. — Ele berrou por cima do ombro. — Ouviu isso, Bonnie? Vai voltar para casa. — Mas por quê? — A essa altura, Goldie também estava berrando de frustração. Ela estava vendo que a noite ia chegando ao fim. Nesse ritmo, eles não conseguiriam chegar nem perto do museu, e isso significava que ela teria de deixar os pais sozinhos de novo, na noite seguinte ou na outra. — Porque ela é pequena demais — Toadspit respondeu. — Ela só tem dez anos. Goldie sacudiu a cabeça, descrente. 14


OS LADRÕES DE CRIANÇA

— Você só está tentando fazer as coisas acontecerem do seu jeito, como sempre. Bom, não fique achando que eu vou junto enquanto você a leva para casa. — Quem pediu para você vir junto? Eu não pedi. — Que bom, eu vou seguir em frente, então. — Muito bem! Eles ficaram se olhando feio durante mais um momento, então Goldie se virou e saiu colina acima pisando firme. Atrás de si, ouviu um barulho de pedra, como se alguém estivesse chutando o chão. Ha!, Goldie pensou. Se ele ainda não estava irritado, ficaria pior em breve. Ela desacelerou um pouco e esperou as reclamações de Bonnie começarem. Mas foi a voz de Toadspit que ela escutou, tão frágil quanto cristal no ar da noite. — G-Goldie? Ela se virou na direção dele. Toadspit estava parado do outro lado da ponte, olhando para alguma coisa no chão. De repente, a noite ficou mais fria. Com uma sensação de enjoo no estômago, Goldie desceu a colina correndo e atravessou a ponte. E ali, sob a luz nua da lamparina, ela viu a coisa para a qual Toadspit olhava fixo. No meio da rua, o arco de Bonnie estava abandonado. A aljava tinha sido jogada para o lado e as flechas estavam espalhadas a seu redor como trigo caído. Uma delas tinha mancha de sangue. Não havia sinal de Bonnie. 15


PARA AS DOCAS

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oadspit estava tão pálido que Goldie achou que ele fosse desmaiar. Sua própria pele parecia gelo, e ela precisou se forçar a examinar o chão ao redor daquela flecha terrível. — Não acho que o sangue seja de Bonnie — ela sussurrou e então apontou para as marcas reveladoras na lama. — Havia dois homens. Está vendo as marcas de bota de quando correram na direção dela? Eles a pegaram de surpresa. Olhe como as pegadas dela estão misturadas. Ela parou de falar, lembrando-se dos dois homens que tinham passado por eles. Devem ter voltado e visto Bonnie sair de seu esconderijo. Então esperaram até ela chegar perto o suficiente para que a


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pegassem... enquanto Goldie e Toadspit, que deviam estar cuidando dela, berravam um com o outro. Ela engoliu em seco e examinou o chão mais uma vez. — Acho que ela acertou um deles com a flecha. O sangue é dele. E, olhe, um deles a ergueu. Dá para ver que as pegadas dela param e as dele ficam mais fundas, como se estivesse carregando algo. Olhe, eles foram por aqui. Com a briga esquecida, eles saíram atrás da pista dos dois homens pela cidade escura. Para o alívio de Goldie, Toadspit voltara a se firmar sobre os pés, mas segurava o arco com força no punho fechado, e havia algo obscuro nele que ela nunca tinha visto antes. Perderam as pegadas das botas várias vezes. Apesar de toda sua habilidade, só eram capazes de seguir o que podiam enxergar, e a luz do luar e das lamparinas a gás nunca era suficiente. Às vezes as pegadas desapareciam totalmente, e eles tinham de procurar em todas as direções até encontrar uma mancha fresca de lama, ou uma pedrinha chutada fora do lugar. Era muito fácil cometer um erro. Chegaram a seguir a pessoa errada por quase três quarteirões e precisaram retraçar seus passos com rapidez. Depois disso, Goldie pegou emprestado o canivete de Toadspit e fez marcas em um graveto para mostrar o comprimento e a largura das pegadas de bota, para que eles não voltassem a se enganar. As crianças seguiram os rastros dos homens pelo lugar onde antes ficava o Grande Salão, passando pelas feiras cobertas e pela carcaça de pedra cinzenta da Casa do Arre17


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pendimento. Finalmente, viram galpões surgirem da escuridão e as barragens de ferro recém-reformadas que protegiam Jewel do mar. Acima das barragens erguiam-se mastros de navio. — As docas — Goldie sussurrou. Era a primeira coisa que ela dizia em mais de meia hora, e sua voz pareceu estranha a seus ouvidos. As pegadas das botas levaram as crianças a um antigo cais de madeira, onde havia barcos de pesca ancorados de ponta a ponta, com as redes estendidas para secar e baldes de lagosta em pilhas altas nos conveses. Uma névoa vinha se aproximando do sul. O fedor de algas e peixes tomava conta de tudo. Goldie ouvia a água batendo contra os pilares embaixo dela e o rangido lento dos cascos de madeira. Em algum lugar, uma corrente chacoalhou. Um gato malhado cinzento disparou à frente dela como uma nuvem de fumaça. A corrente chacoalhou mais uma vez, agora bem perto. Ouviu-se um assobio de gás e um motor ganhou vida. As crianças se retraíram para dentro das sombras e ficaram espiando o barco do outro lado. Era pequeno e atarracado, com um único mastro e uma casa de convés na parte de trás. Uma corda grosseira estava pendurada na lateral. O motor engasgou, incerto, então se normalizou. Os dedos de Toadspit se enfiaram na pele de Goldie. — São eles — ele sussurrou. — Tem que ser. Enquanto ele falava, o ronco do motor ficou mais profundo. A água fez redemoinho e bateu contra os pilares de 18


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madeira. O mastro tremeu e o barco começou a se afastar do cais. Não havia tempo para ficar se perguntando se aquele era mesmo o barco certo. Goldie e Toadspit dispararam pelo cais e se jogaram na distância que ia aumentando. Foi um salto longo e Goldie quase não conseguiu. Os dedos dela tocaram a rede de corda. Erraram. Tocaram de novo. Ela remexeu com a mão direita. A mão esquerda estava pendurada, de maneira desesperada. Seus pés se agitavam no ar... Então, bem quando ela achou que ia cair e ser engolida pela água fria e agitada, os dedos de seus pés encontraram a rede. Ela se agarrou a ela e pressionou o corpo todo contra a lateral do barco, tomando fôlego. Ao lado dela, Toadspit já subia pela rede. Goldie foi atrás dele com dificuldade, e os dois escorregaram por cima da amurada e se afundaram atrás da casa do convés, com o arco de Bonnie no meio deles. Em algum lugar próximo, um homem gritou: — Meia velocidade! O barco avançou e as luzes de Jewel desapareceram na neblina. À frente, tudo era escuridão.

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Cidade de Mentiras - Trilogia Os Defensores