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T e r i T e r ry

Jogos Mentais Tradução: Sandra Pina


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Chance

A terra tem seus limites, mas a estupidez humana ĂŠ infinita. Gustave Flaubert


Capítulo 1

Uma escola não deveria estar tão tranquila. Deslizo escada abaixo, Hex como uma sombra atrás de mim, imitando com cuidado meus passos lentos e exagerados. Qualquer barulho ou movimento súbito ativaria as câmeras, então eu me controlo para respirar lentamente, inspirar e expirar o mais silenciosamente possível, mas meu coração pulsa tão alto que tenho certeza de que vai acioná-las. No entanto, elas continuam imóveis. Passamos pelas salas dos alunos dos últimos anos, uma por uma. Estão silenciosas como túmulos; uma luz vermelha acima de cada porta avisa que estão ocupadas. Dou uma olhada para trás, para Hex: uma expressão tensa, e posso ver que ele está preocupado. Será que éramos tão azarados que este seria o único dia do ano em que todos os alunos estariam em suas salas? Mas, finalmente, uma vazia. Hex faz careta: é a sala de Jezzamine. Se eles rastrearem o hack até aqui, o castigo será pesado. Mas ele é tão bom quanto diz: mexe na tranca e, em segundos, está dentro e plugado. 11


Agora é comigo. Anda Luna, você consegue. Continuo avançando lentamente até o próximo corredor, e espero. Através da janela na porta, posso ver a luz verde da câmera. A segurança aqui é maior, as câmeras estão ligadas o tempo todo, não são ativadas apenas com som e movimento. Não poderei continuar se Hex não conseguir… E a luz verde se apaga. Sorrio e, no mesmo instante, me lembro de me mover lentamente até passar pela porta e ficar fora do alcance dos detectores do corredor. Com a porta fechada, corro até a próxima justamente quando a tranca faz um click, avisando estar aberta. Hex, você é brilhante. Como ele não tinha certeza se poderia mantê-la destrancada por muito tempo, dou uma olhada pelo escritório, procurando por algo para prender a porta, e acabo jogando um dos meus sapatos para impedir que ela se feche. Entro na sala. Então, este é o centro do mal. Parece muito com qualquer outro ppi, mas, conectada a este Ponto de Plug-In, está a própria Bag – Beatrice Annabel Goodwin OBE, Diretora de Aprendizado e Torturadora-Chefe de Alunos. Seu rosto, normalmente desdenhoso, agora não revela emoções; o corpo está aqui, no sofá do pip, e o resto numa assembleia virtual. Escolhemos o único momento da semana em que todos os alunos e professores regulares estariam lá, ocupados e incapazes de se desplugarem. Nervosa por estar tão perto dela, aceno freneticamente para o seu rosto: sem reação. Não seja idiota, Luna. Você está perdendo tempo. 12


Tiro as luvas e a tinta da mochila e começo a trabalhar. Quando termino, saio da sala. A luz da câmera ainda está desligada. Me abaixo para tirar o sapato da soleira; a porta faz um click e tranca. Eu hesito, olhando fixamente para o sapato em minha mão: é roxo, e eu mesma pintei borboletas neles. É o único par assim. Empurro-o para fora da vista, atrás de uma planta na antessala. Desta vez não haverá como fugir.

Rachel estranha quando sento ao lado dela. — Onde você estava? — Em lugar nenhum. Mas não consigo evitar o sorrisinho. Nosso inspetor, Anderson, ainda está caído sobre a mesa, dormindo, e nossa turma de desajustados Recusadores está em seu caos habitual. Ela balança a cabeça. — Esse olhar significa que vem problema por aí, e lugar nenhum significa algum lugar onde você não deveria estar. E cadê seu sapato? Olho para baixo: um sapato roxo de borboleta à esquerda, pé descalço à direita. — Acho que perdi. Boa ideia? Má ideia? O tempo dirá, mas, neste momento, meu estômago está dando nós. Eu realmente não pensei direito naquilo, não é? Hex passa discretamente pela porta da sala alguns minutos depois, como planejado, e senta nos fundos. Me viro e olho para 13


trás, como não deveria fazer. Ele está completamente despreocupado, mas porque ele não deixou um sapato como rastro. — Acho que você não tem um sapato extra na bolsa, né? — sussurro para Rachel. Ela balança a cabeça. — Mesmo se tivesse… — Ela dá de ombros, nem precisa terminar a frase. Rachel é uma ER: Recusadora por Exceção Religiosa. Sua igreja rejeita a tecnologia e a moda: seus sapatos pretos e pesados gritariam errado nos meus pés. — E seus sapatos de ginástica? — ela sugere. Posso ir até os armários e voltar antes de… A porta se abre. Não. Não posso. É a sra. Goodwin, mas não como a vemos normalmente. Seu rosto está sereno. Tão sereno quanto pode estar depois de uma maquiagem bem produzida: um rosto de palhaço, mas não um palhaço qualquer. Um daqueles de terror, com um enorme sorriso louco e um nariz vermelho contrastando com as bochechas brancas como giz. Mas, ainda melhor: há cobras descendo de seus cabelos, como se ela fosse uma Medusa maluca. De alguma forma, isso dá ao seu rosto um toque de maldade pura. Genial. Finalmente sua imagem está de acordo com seu interior. Quando Rachel levanta os olhos, abafa um suspiro alto, e sinto o olhar de Hex queimando na minha nuca. Nosso combinado era pichar a sala com alguns comentários sobre a escola. Mas pintura corporal semipermanente é uma forma muito mais poderosa de expor um ponto de vista, não é mesmo? Por baixo da mesa, com cuidado, tiro meu outro sapato e o escondo debaixo da mochila, fazendo o mesmo com meus pés. 14


Goodwin se volta e bate na mesa do professor com as duas mãos. Anderson, de um pulo, desperta de seu cochilo, começa a se desculpar e então olha para a diretora. Suas palavras somem. — O que é? — ela estala os dedos, mas o olhar dele permanece imóvel; a boca abrindo e fechando, como se não pudesse respirar. Como não responde imediatamente, ela sacode a cabeça e se afasta. Anderson está perplexo, talvez pensando que esteja num sonho induzido por pó de sono. Não que ele soubesse que havia pó de sono em seu chá. Embora ele cochile com frequência durante a manhã, depois de passar nossas tarefas para o dia, eu não podia correr riscos agora. Ela nos encara. O conhecido desprezo com um toque de complacência gentil transparece sob o rosto de palhaço. — Bom dia, classe. Como vocês perderam a Assembleia novamente, e não queremos que percam nada importante, aqui estou. Em pessoa. Não interessa quão ocupada eu seja, o aprendizado de cada aluno é fundamental para nós. Sua voz sibila com notícias da escola e de melhorias em equipamentos, enquanto olho discretamente para os outros na sala. Em nossa escola com mais de seiscentos alunos, a turma de Recusadores havia encolhido para cerca de vinte, cobrindo todas as faixas etárias. Outros foram intimados, ao longo do tempo, a aceitar a Educação Virtual. Alguns poucos, como Hex, estão aqui involuntariamente, excluídos por um curto período de tempo por causa de contravenções virtuais. O caso dele, por exemplo, foi hackear jogos para maiores de 15


dezoito e invadir a rede de senhas: a escola inteira entrou em mundos virtuais que, certamente, pais e professores não aprovariam. A maior parte é de ers, como Rachel, e agora que o choque inicial por causa da aparência de Goodwin passou, eles estão refeitos, olhando para o Palhaço Maligno com serenidade, da mesma forma que reagem a qualquer coisa interessante. Os pontos de perigo são as ems, seis delas apinhadas do outro lado da sala. As Exceções Médicas são imprevisíveis. A maioria encara Goodwin com olhos arregalados de medo e, pior, alguns dos mais novos sussurram e lutam para não rir. — Silêncio! — de repente ela grita, e todo o barulho cessa. — Insisto na total atenção de vocês. — Ela avança na sala, encarando um aluno de cada vez. Então, para diante da minha cadeira. — Luna, hoje você está parecendo feliz consigo mesma — diz, mexendo uma das sobrancelhas. Uma das cobras pintadas em sua testa racha com o movimento. Ela odeia todos os Recusadores, em especial a mim, porque, em suas próprias palavras, não tenho qualquer pretexto para ser uma — não há motivos religiosos ou médicos que me excluam da Educação Virtual. Não importa que esteja na Lei Internacional de Direitos da Criança da nnu que qualquer um pode dispensar Implantes Educacionais. Esses alunos podem optar por uma educação tradicional, não virtual. Ela nem mesmo pode ignorar as diretrizes das Novas Nações Unidas, embora faça questão de garantir que o padrão seja o mais baixo possível dentro da lei e nos atormente muito com isso. A mim em particular, pois está convencida 16


de que sou uma Recusadora apenas para irritá-la e para desperdiçar tempo e recursos. Seria uma boa razão, se fosse verdadeira. Goodwin não iria me maltratar na frente de tantas testemunhas, então fico calada e olho para ela tranquilamente. Tenho o cuidado de não parecer muito zangada nem muito alegre, duas expressões que ela não suporta ver no meu rosto. Finalmente, ela desvia o olhar e se volta para a turma. — A diretiva nnu-92 das Novas Nações Unidas exige que eu enfatize que a contínua recusa de vocês à oportunidade de Educação Virtual PareCo não os impede de participar dos testes. — Seus dentes rangem, como se pronunciar aquelas palavras lhe causasse dor física. — Todos os alunos do último ano foram inscritos pela escola, e os indicados para o Teste serão notificados por nós amanhã de manhã. Os dois garotos das primeiras cadeiras riem novamente; cobrem o rosto, tentando parar. Ela dá meia-volta, se inclina e coloca uma mão sobre a mesa de cada um. — O. Que. É. Isso? — ela pergunta, a voz se elevando. Um deles olha para a sala, buscando ajuda, e goodwin bate na mesa à frente dele. — Você, me responda! Ele engole em seco. — Você… Você está com uma coisa no seu ro-ros-rosto... — responde. — O quê? — Goodwin se afasta, limpando nervosamente alguma sujeira imaginária do rosto. 17


Anderson se levanta. Agora convencido, pelo que o garoto disse, de que não estava vendo coisas, pega um espelho no armário de material de ciências e entrega a goodwin. Primeiro acho que ela não vai olhar: vai estilhaçá-lo no chão ou devolver. Mas a curiosidade leva a melhor, e ela segura o espelho. A sala está tão silenciosa que, pela segunda vez hoje, posso ouvir meu coração batendo. Sem dizer nada, Goodwin deixa o espelho sobre a mesa e sai da sala. Todos soltam a respiração ao mesmo tempo quando a porta se fecha. O sinal do almoço toca segundos depois. Ela não vai conseguir chegar à sua sala a tempo: todo mundo vai sair para os corredores e vai ver. Anderson encara a turma. Aquilo é mesmo um quase-sorriso discreto por trás dos seus óculos? — Bom, acho que ninguém aqui sabe nada sobre aquilo, não é? — A turma permanece em silêncio. — Se não sabem, espero que em breve descubram alguma coisa a respeito. Agora, andem. Para o almoço.

Meus sapatos de ginástica não combinam com o vestido roxo que customizei, mas ser uma Recusadora tem suas vantagens: você pode usar o que quiser. Mesmo se não combinar. O refeitório dos alunos do último ano está lotado de garotos de dezessete anos usando jeans e camisetas vermelhas. Não há uniforme no ano do Teste, mas, fora os Hackers, que têm um 18


estilo muito próprio, de alguma forma o restante dos alunos está sempre vestido da mesma maneira. Eu costumava ficar intrigada com isso, até que Hex me contou que eles se encontram no Temporreal antes da escola. Por tradição, Recusadores têm seu próprio espaço no refeitório, do qual nenhum dos de jeans-e-camiseta-vermelha se aventura a chegar muito perto. Hex chega tarde, mas, em vez de ir logo se juntar aos seus amigos Hackers, como de costume, para perto de mim e de Rachel. Faz um sinal com o olho esquerdo cercado de tatuagens: teria acrescentado mais uma espiral preta? Essa foi rápida. — Então arte é uma das suas melhores matérias? — pergunta. Rachel se levanta. — Por algum motivo eu acho que não deveria escutar essa conversa. Ela sai para encher o copo de água e eu dou de ombros. — Você devia ter me contado — ele me censura. — Zangado? — Não. — E sorri. — Considerando que não foi virtual, foi brilhante. Sorrio de volta. Temos tido discussões exatamente sobre isso. Tão acostumado a passar a vida plugado, ele não entende o poder do toque pessoal no mundo real. Hex estava convencido de que os meios virtuais eram a única maneira de vingar a sua exclusão. — Mas ela vai tentar muito, muito mesmo, encontrar alguém para culpar — ele diz. 19


— Cobriu seus rastros? — Ah, sim. Ela não vai conseguir provar nada, mas isso não significa que não irá deduzir. Vai saber que alguém hackeou as câmeras e a porta, e aqui não tem muita gente capaz de fazer isso. — Modesto você, né? E se ela perceber a nova marca no seu olho? — Droga. Você notou? Achei que estava sutil. — Ele ri, claramente feliz por mais uma marca de Hacker, que funciona, para eles, como uma forma de se vangloriar por algo que não se pode confessar sem o risco de um processo. — Mas ela vai saber que foi mais de uma pessoa. E você, cobriu os seus rastros? Olho fixamente para ele, com um nó do tamanho de um sapato apertando desconfortavelmente o meu estômago. — O trato foi que, se um de nós for pego, o outro não diz nada, e eu jamais direi. Então, não há nada com o que se preocupar. Agora sai fora, antes que alguém perceba que você está se rebaixando. Rachel volta para seu lugar. Conversas ecoam ao meu redor: todas as turmas do último ano viram o rosto de Goodwin e não param de falar disso. Reviro meu almoço no prato, incapaz de pensar em comer. Será que meu plano vai funcionar? O almoço está quase acabando quando finalmente acontece. Rachel cutuca meu braço. Olho para ela: seu olhar está fixo na porta. As conversas vão minguando. Robson, chefe de segurança da escola, atravessa a sala e para atrás de mim: sua mão gorda segura meu ombro e me puxa da cadeira. 20

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Jogos mentais - capítulo 1  

Em um mundo futuro, viver entre o universo real e o virtual é cotidiano. Todos os dias, as pessoas se plugam a uma realidade virtual, criada...

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