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FOME NO MUNDO: SEJA PARTE DA SOLUÇÃO.

Faça parte do IV Fórum Inovação, Agricultura e Alimentos para o Futuro Sustentável. Uma iniciativa anual da FAO que integra a Semana Mundial da Alimentação. Junte-se a importantes nomes da Organização Mundial para Agricultura e Alimentos da ONU (FAO), da pesquisa, da agricultura, da indústria de alimentos, da saúde e representantes de governos num debate fundamental sobre as soluções eficazes e sustentáveis para o combate à fome no mundo. Mostre que você pode fazer parte da solução deste desafio mundial. Participe. Inscrições gratuitas. Vagas limitadas.

19 DE OUTUBRO 8H30 ÀS 13H AUDITÓRIO DO INSTITUTO DE TECNOLOGIA DO ALIMENTO (ITAL) AV. BRASIL, 2880 - CAMPINAS, SP INFORME-SE E INSCREVA-SE EM: FORUMAGRICULTURAEALIMENTOS.ORG.BR PLATAFORMA PLATAFORMA@ITAL.SP.GOV.BR TEL.: (19) 3743-1897

REALIZAÇÃO

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DEFESA VEGETAL

CO-REALIZAÇÃO

APOIO


O

Carta ao leitor

mundo, em constante mudança e evolução. Se considerarmos como natural os conflitos humanos analisados pela ótica da globalização, onde prevalecem os interesses de minorias em detrimento das necessidades das maiorias, a presente edição é um prato cheio. Ou, melhor dizendo, dá razão à antiga “lei do mais forte”. Assim, as diferenças de opiniões, e de interesses, entre o rural e o urbano, por exemplo, nos remetem para o Código Florestal, aprovado pelo Congresso Nacional na véspera do fechamento desta edição. Há gente, nos dois lados, ambientalistas e ruralistas, que se contentam com o que foi possível aprovar e proibir até agora, mas há gente que continua contra, e o que foi decidido agora em debate no Congresso poderá sofrer novos vetos da presidente Dilma Rousseff, tornando a definição jurídica do Código Florestal uma das leis mais polêmicas já debatidas no Legislativo brasileiro, cheia de idas e vindas. Nas opiniões dos colunistas Daniel Glat, Rogério Arioli, Décio Gazzoni e Luiz Hafers, o leitor poderá entender algumas das dificuldades naturais da agricultura brasileira em se tornar competitiva. Também podemos encontrar a mais fina ironia em alguns textos que inserimos na seção “Deu na imprensa”, ao lado de notícia sobre a “supersafra” de laranja, eis que sobram laranjas nos pomares dos citricultores enquanto falta suco nas escolas e em muitas casas brasileiras. As indústrias parecem preferir apenas a exportação, e se houver necessidade (ou interesse) de vender no mercado interno exigem promoção e incentivo de consumo, para concorrer com refrigerantes. Na matéria de capa, sobre as lavouras de grãos, com destaque ao algodão, inserimos uma nova análise sobre o uso dos bioestimulantes, uma novidade nas tecnologias que estão disponíveis aos agricultores. Essa novidade já havia sido apresentada pioneiramente aos leitores na edição 26, da então DBO Agrotecnologia, também em matéria de capa, sob o título “Bioestimulantes, você ainda vai usar muito essa tecnologia”. Em outra matéria, sobre o plantio de soja da próxima safra, mostramos os cuidados e perigos com a ferrugem da soja no Brasil Central. Homenageamos ainda, nesta edição, o profissional de agronomia, com texto de um de seus ícones, Fernando Penteado Cardoso, que traz lembranças notáveis sobre a missionária atividade do uso e conservação do solo. Se considerarmos a multiplicidade de opiniões registradas na presente edição, definitivamente o mundo nunca é o mesmo, está permanentemente em evolução. Aos que desejarem manifestar suas opiniões sugerimos enviar e-mail para redacao@agrodbo.com.br Richard Jakubaszko

é uma publicação mensal da DBO Editores Associados Ltda. Diretor Responsável Demétrio Costa Editor Executivo Richard Jakubaszko Editor José Augusto Bezerra Conselho Editorial Décio Gazzoni, Demétrio Costa, Evaristo Eduardo de Miranda, Hélio Casale, José Augusto Bezerra, Luiz Fernando Coelho de Souza e Richard Jakubaszko Redação/Colaboradores Daniel Glat, Décio Luiz Gazzoni, Ercilia Fernandes, Fábio Lamônica, Fernando Penteado Cardoso, Glauco Menegheti, Jefferson Bittencourt, Luiz Silveira, Luiz Suplicy Hafers, Marianna Peres, Mendes Ribeiro Filho e Rogério Arioli da Silva. Arte Editor Edgar Pera Editoração Edson Alves e Sergio Escudeiro Coordenação Gráfica Walter Simões Marketing Gerente: Rosana Minante Departamento Comercial Gerente: José Geraldo S. Caetano Vendas: Andrea Canal, Heliete Zanirato, Marlene Orlovas, Naira Barelli, Sérgio Castro e Vanda Motta Circulação Gerente: Edna Aguiar Impressão Log&Print Gráfica e Logística S.A. Capa: Foto Carlos Rudiney /Abrapa DBO Editores Associados Ltda Diretores: Daniel Bilk Costa, Odemar Costa e Demétrio Costa Rua Dona Germaine Burchard, 229 Perdizes, São Paulo, SP 05002-900 - Tel. (11) 3879-7099 redacao@agrodbo.com.br www.agrodbo.com.br

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Do Leitor Minas Gerais Hoje, das revistas técnicas sobre agropecuária, considero a Agro DBO a melhor. Os assuntos abordados são ótimos e trazem muita luz para téc­ nicos e agricultores. Meus sinceros cumprimentos. Harley Leopoldo Pereira Uberlândia Excelente revista. Veio para melho­ rar nos­sa agricultura. Divino Fortunato Pereira Filho Frutal

Alagoas Gostaria de poder irrigar 10 hecta­ res. O governo só atrapalha, ao invés de ajudar. Estamos a 10 quilômetros do rio São Francisco. O governo po­ deria muito bem fornecer água para irrigação. Humberto dos Anjos Olho D´Água das Flores Ótima revista, conteúdos interessan­ tes. E com essa cara nova ficou um show!. Diogo Augusto Ferreira Viçosa Espírito Santo Já era leitor da DBO Agrotecnologia e fiquei surpreso com a qualidade das matérias da Agro DBO. Gostaria de continuar recebendo a revista, pois sou professor do Instituto Federal do Espírito Santo e o conteúdo é objeto de consulta dos alunos nas minhas aulas. Otacílio José Passos Rangel Alegre Goiás Como todas as publicações do grupo DBO, a Agro DBO é uma re­ vista atualizada, abrangente, de lin­ guagem simples e técnica. Gustavo Patrício Carneiro Corumbaíba Boa publicação. Revista atual e moderna. Bom enfoque nos assuntos relacionados ao agronegócio, apre­ sentando de forma objetiva as novas tecnologias para o meio rural. Rodrigo Tilmann Viana Goiânia

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Paraná A cada ano a revista está mais completa, com assuntos atuais e per­ feita edição. Parabéns! Helayne Aparecida Maieves Curitiba Lendo a revista DBO Agrotecnologia n° 35 e vendo na página n° 15 a foto do trator Massey Ferguson, pude verificar que se trata de um modelo MF 235, ano 1960 ou 1961, quando ainda eram importados. Co­ nheço bem este trator porque fomos proprietário de um exemplar deste modelo e quando o vi, senti muita saudade. José Tarcio de Campos Curitiba, PR NR: A fotografia a que o leitor se refere (abaixo) integra a matéria intitulada “Comprem as batatas dos Nishikawa”, sobre a epopéia da família Nishikawa, produtores rurais na região do Alto Paranaíba, em Minas Gerais. Imigrantes japoneses de origem humilde, os Nishikawa reconstruíram a vida no Brasil plantando batata no município de Sorocaba (SP) e vendendo a produção em feiras livres da capital paulista. Depois, mudaram-se para o Paraná, cresceram, diversificaram as atividades e hoje cultivam soja, milho, café e hortaliças, além de batatas, na região

de São Gotardo (MG). O trator em questão está guardado num espécie de museu da família. Foi nele que Sílvio Nishikawa, um dos personagens principais da reportagem, aprendeu a dirigir, aos 10 anos de idade. A revista Agro DBO é a bíblia do produtor rural. É muito informativa e precisa. Márcio Antônio da Silva Mirador Das que recebo, considero esta re­ vista uma das melhores, por seu con­ teúdo diversificado. Pedro Gelson Tullio Ponta Grossa Muito interessantes, os artigos. São fáceis de ler, com excelente diagrama­ ção. Uso com frequência na escola. Paulo Roberto Marchesan Umuarama Revista muito interessante, com muitas informações técnicas que irão me auxiliar na minha vida profissio­ nal como agrônomo, Matheus Antônio Pavan Palotina Piauí Esclarecedora. Ótima opção para o técnico se atualizar. Rubens Vieira Cardoso Teresina Rio Grande do Norte A revista sempre publica artigos e informações importantes para o agrone­ gócio. Sou analista de mercado de pro­ dutos agrícolas da Conab/RN e especia­ lista em agronegócios pela UFPR – Uni­ versidade Federal do Paraná. A revista me atualiza e me auxilia na condução dos meus trabalhos na área agrícola. Ela é rica em artigos técnicos. Peço também disponibilizar via internet. Luiz Gonzaga Araújo e Costa Natal Rio Grande do Sul Recebo a DBO Agrotecnologia (agora, Agro DBO) desde 2010 e to­ das as edições sempre foram muito interessantes, com matérias de alto nível didático e prático. Marcelo Chiappetta Ijuí


É uma revista muito lida e apre­ ciada, pois sempre traz assuntos que atendem meus anseios. É diversifi­ cada e abrangente em seus temas. Benjamin Bassa Filho Espumoso Ótimo material de informação, e atual. Com essa roupagem moder­ na ficou mais eficiente e completa, facilitando a leitura e o desenvolvi­ mento de ideias. Paulo Roberto Abreu de Andrade Lagoa Vermelha Excelente material. Gosto muito de ler Richard Jakubaszko. Celso Tartari Sananduva Parabéns pela qualidade da re­ vista e das informações que nos são disponibilizadas. Vitélio Luiz Lago Agudo Santa Catarina Sou engenheiro agrônomo e presto assistência para o municí­ pio de Iporã do Oeste. Aprecio a qualidade da revista. As informa­ ções são atuais e nos ajudam na tomada de decisões. Parabéns pelo excelente trabalho colocado à nos­ sa disposição. Marcos Pohlmann Iporã do Oeste Muito boa publicação, com re­ portagens muito interessantes. Adroaldo Kuhn Xanxerê Sou engenheiro agrônomo e dou assistência para 6 mil hectares de lavouras, através de uma coope­

rativa. Gostaria de receber a revista, pois a achei muito interessante. Valdecir Bettanin Abelardo Luz São Paulo Gosto muito de ler a revista, porque ela abrange vários assun­ tos de nosso interesse. Continuem assim. Valdemir Aparecido Juon Santa Cruz das Palmeiras A revista vem crescendo a cada dia, apresentando artigos de fácil leitura e interesse para todos que vi­ vem da agricultura. Eduardo Monteiro de Campos Nogueira São Paulo As informações obtidas através da revista Agro DBO são muito po­ sitivas para a agricultura moderna. E as novidades que vocês divulgam são muito promissoras para nós, que tra­ balhamos na lavoura. Aurélio Tsutomu Irokawa Mirandópolis Parabéns pela Agro DBO que ini­ ciou excelente, com o artigo muito bom do colega Décio Gazzoni. Certamente as cidades emitem mais por habitan­ te, principalmente nos países de clima temperado e frio, onde necessitam de aquecimento no inverno. Nossa agri­ cultura está indo bem na procura pela maior eficiência de uso de recursos naturais e de insumos, mas não pode parar. O artigo sobre máquinas que atendem a demanda dos agricultores também está muito interessante, em es­ pecial no aspecto de máquinas poliva­ lente e na agricultura de precisão. Isso leva à demanda de maior capacitação

tecnológica dos operadores. Existem os cursos necessários? Outro item que soa bem e, espera-se, não fique só nas promessas, é a da revitalização da assis­ tência técnica. Mas temos que ter algum organismo que oriente o agricultor em onde investir em função de demandas. Vê-se que todos procuram produzir e depois vender, e, às vezes, por diversos motivos, as compras não ocorrem (em­ bargos por resíduos químicos, embar­ gos sanitários, embargos ambientais, embargos sociais, problemas econô­ micos dos compradores, supersafras e outros), problemas que poderiam ser parcialmente contornáveis. O gerenciamento mais comple­ xo de sistemas de produção de soja precoce e milho safrinha, e o manejo de insumos e de maquinas mostra a necessidade de maior capacitação do produtor, dos empregados e de uma boa assistência técnica, alimentada pela pesquisa científica regional e lo­ cal. O artigo sobre manejo de combate à erosão mostra que as causas continu­ am as mesmas atualmente, e as ações de controle em geral continuam não sendo realizadas de forma necessária e adequada (está-se eliminando inclusi­ ve os plantios em nível e as curvas de nível ou mesmo os terraços, até mes­ mo em áreas de plantio direto – cober­ tura morta quando existe reduz perda de solo, mas não de água) e ocorrem mais enchentes e assoreamentos de rios e de portos, inviabilizando o so­ nho de se promover o transporte flu­ vial, mais barato. Odo Primavesi São Paulo

AgroDBO se reserva o direito de editar/resumir as mensagens recebidas devido à falta de espaço.

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Sumário

22

Logística

34

Entrevista

36

Irrigação

44

História

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Soja

Opção lógica, prática e bem mais barata do que os silos tradicionais, a tecnologia dos silos-bag ganha espaço no campo.

Mix de político, agrônomo, produtor rural e ecologista, Xico Graziano não tem dúvidas: “agricultor de hoje será o ambientalista de amanhã”.

O Rio Grande do Sul adota programa de aquisição de equipamentos e construção de micro-açudes para combater a seca.

Agro DBO republica texto do Dr. Fernando Penteado Cardoso, através do qual homenageamos o autor e todos os agrônomos do país.

26

Doença capaz de devastar as lavouras, se não for controlada a tempo, a ferrugem asiática pode quebrar a safra 2012/2013.

Matéria de capa 55 Opinião

Cada vez mais frequente nas lavouras brasileiras, os bioestimulantes ativam os processos metabólicos das plantas, contribuindo assim para multiplicar a produtividade e melhorar a qualidade do produto final.

O cafeicultor Luiz Hafers alerta contra uma ameaça no horizonte: o imposto de exportação (confisco, como ocorre na Argentina?).

Artigos

8 – Daniel Glat diz que, nos EUA, seguro rural é tema de segurança nacional. 10 – Rogério Arioli Silva mostra que, aqui, só os credores têm segurança. 14 – Mendes Ribeiro Filho faz um balanço das conquistas do Programa ABC 47 – Décio Gazzoni defende a cana-de-açúcar dos ataques dos ambientalistas 66 – Fábio Lamonica trata das ações revisionais em operações de crédito

Seções Do leitor............................................................. 4 Ponto de vista.................................................. 8 Política...............................................................12 Notícias da terra............................................16 Marketing da terra........................................42 6 | Agro DBO – outubro 2012

Deu na imprensa..........................................56 Análise de mercado.....................................58 Novidade no campo....................................60 Biblioteca da terra.........................................62 Agenda.............................................................64


Ponto de vista

Força política e infraestrutura Nos Estados Unidos, o seguro rural é tratado como assunto de segurança nacional, sob responsabilidade do governo federal. Daniel Glat•

T

odo mês de agosto dezenas de excursões de produtores brasileiros desembarcam no meio oeste americano para visitar produtores locais, as grandes empresas do agro, o Farm Progress Show, a Bolsa de Chicago – (CBOT), etc... Tive a honra de ciceronear muitos desses grupos, durante os anos que servi como diretor internacional da Pioneer em Des Moines, no estado norte-americno de Iowa. A todos procurava mostrar que, “da porteira pra dentro”, não temos tanto que apren-

pra o Seguro Rural Federal (Federal Crop Insurance), administrado por uma empresa governamental FCIC - locada no USDA (equivalente ao nosso Ministério da Agricultura). Esse seguro é vendido por empresas credenciadas (16 em 2012), obrigadas a seguir rigorosamente os preços e condições definidas pelo FCIC. Tais empresas credenciadas devem demonstrar solidez financeira e sempre se utilizam do resseguro. O governo participa no custo do prêmio, assim como nas perdas e ganhos dessas segura-

O seguro rural americano cobre mais de 100 milhões de hectares nas mais diversas culturas

*O autor é engenheiro agrônomo, consultor e produtor rural no estado doTocantins

der com os produtores americanos; mas em termos de organização de classe e mobilização política eles estão 100 anos na nossa frente. Suas entidades representativas são fortes e amplamente apoiadas, e essa força política se reflete principalmente numa legislação que protege de verdade o produtor e a atividade agrícola. Esse ano muitos dos que lá estiveram se espantaram com a calma e serenidade dos produtores americanos, apesar de estarem passando pela maior seca dos últimos 50 anos. Isso se deve exclusivamente ao sólido e abrangente sistema de seguro rural americano, que cobre quase 90% da área de soja e milho, e deveria servir de exemplo para o Brasil! Seguro rural no Estados Unidos é tratado como assunto de segurança nacional e é responsabilidade do governo. A maioria absoluta dos produtores americanos com-

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doras. O baixo custo e a clareza de regras de funcionamento faz com que anualmente mais de um milhão de apólices do Seguro Rural Federal sejam vendidas no Estados Unidos, cobrindo mais de 100 milhões de hectares nas mais diversas culturas! Para a soja e milho, a modalidade mais utilizada é o Seguro de Renda, cuja porcentagem a ser coberta é baseada na média histórica de produtividade de cada produtor (APH); o preço futuro é segurado baseado no CBOT. Por ocasião da colheita, em caso de perdas, o produtor escolhe que preço utilizar, se o fixado no contrato, ou o da colheita, o quer for mais alto. A taxa paga pelos produtores varia entre anos e regiões, baseado em históricos climáticos e nos preços de grãos; em 2012, para 80% de cobertura, essa taxa variou na região do cinturão do milho de 9 a 15 US$ por acre, o que equivale a mais ou

menos R$ 40 a R$ 80 por hectare. Em caso de desastre climático como o desse ano, o sistema está preparado, os processos fluem com ligeireza e, principalmente, os fundos para pagamento estão adequadamente alocados tanto nas empresas seguradoras credenciadas como no governo federal. No Brasil, de modo geral, o seguro rural ainda engatinha. A modalidade mais conhecida, o Proagro, – (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) é mais um seguro para o banco que financia do que para o produtor. Há boas legislações para o setor, mas existem problemas técnicos e por não ser muito abrangente, o Proagro acaba sendo caro para o produtor e arriscado para as seguradoras. Em anos de forte seca no Brasil, produtores tem dificuldades para pagar suas dívidas, revendas não conseguem pagar fornecedores, cooperativas se desdobram, as economias das cidades agrícolas decaem e ficam todos na dependência da renegociação das dívidas. No EUA, sob a maior seca dos últimos 50 anos, os produtores estão calmos, as vendas de máquinas irão aumentar, e eles se preparam com tranquilidade para plantar a maior safra da história no ano que vem. Está na força política e na infraestrutura a grande superioridade da agricultura americana sobre a brasileira. NR: Vire a página e leia “Realidades opostas”, de Rogério Arioli Silva, sobre o mesmo assunto. Coincidentemente, ambos (Daniel e Rogério) partiram da mesma premissa - um artigo complementa o outro.


Artigo

Realidades diferentes Nos Estados Unidos, o seguro foi concebido para dar segurança aos produtores rurais; no Brasil, para dar segurança aos credores rurais. Rogério Arioli Silva*

P

rodutores que retornaram de viagem recente aos EUA são unânimes em relatar a inusitada situação que encontraram: lavouras comprometidas e produtores saudáveis. Apesar da significativa quebra na produção de grãos, onde se observam perdas de 20 a 50% nas lavouras de soja e milho, os “farmers“ norte-americanos apresentam um semblante tranquilo e sereno, sem maiores sobressaltos. Situação muito diferente acontece por aqui, ao sul do equador, onde produtores rurais demonstram seu desespero e apreensão quanto ao que lhes reserva o futuro, após quebra significativa da safra, notadamente no Sul e Nordeste brasileiros. Na região

reram em igual intensidade, porém em momentos diferentes. Aqueles que possuem condições de aplicar alta tecnologia em suas lavouras estão menos sujeitos aos riscos climáticos do que aqueles que, por falta de recursos técnicos ou econômicos, não possuem tais condições. Sementes melhoradas geneticamente, se cultivadas com a tecnologia preconizada, possuem melhores respostas quando as situações atípicas acontecem. Isto é comprovado ao observar-se a situação de pequenos produtores ainda carentes de acesso às tecnologias modernas de produção. Cria-se um círculo vicioso onde a falta de tecnologia não gera recursos e pela falta de recursos não se aplica tecnologia. O

“O semblante do agricultor americano mostra a segurança de quem produz com regras claras”

*O autor é engenheiro agrônomo e produtor rural em Mato Grosso

sul ainda são aguardadas as normas de renegociação de dívidas, na esperança de que sejam capazes de manter na atividade aqueles produtores afetados pelos reveses climáticos. No Nordeste, onde a calamidade é mais pungente, pequenos produtores amanhecem nas portas dos armazéns da Conab, aguardando os grãos que, ao chegarem, amenizarão a situação dos famélicos animais que ainda restam, em locais onde não chove há meses. Embora a escassez hídrica tenha sido a causa principal da quebra das safras brasileira e americana, seus efeitos sobre a situação dos produtores rurais são totalmente díspares, principalmente por dois fatores. O primeiro deles chama-se tecnologia, evidenciado principalmente nesta safra, onde os mesmos fatores ocor-

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próprio acesso à informação cada vez mais se tornou um insumo imprescindível ao sucesso da agricultura, e não há como negar que este acesso restringe-se aos produtores de maior porte, pelo interesse econômico das empresas privadas de pesquisa. O segundo ponto, talvez o mais contundente, chama-se previsibilidade. Neste aspecto, o nome do jogo é o já discutido e estigmatizado “seguro rural”. Nos EUA, o seguro foi concebido para dar segurança aos produtores rurais; no Brasil, para dar segurança aos credores rurais. Lá, o produtor paga em torno de U$ 30 por acre e tem a garantia de segurar 80% de sua safra pela média da produtividade dos últimos dez anos. Quem não paga, não leva, ou seja, corre o risco sozinho e... “c’est fini”, como di-

riam os mais antigos. Aqui se discute seguro agrícola há pelo menos vinte anos, sem que um modelo eficiente tenha prosperado. Os arremedos de seguros implementados até o momento no Brasil foram apenas mais um negócio oferecido pelos agentes financeiros na ânsia de aumentarem a rentabilidade de suas carteiras. Segundo estudo realizado pela MB Agro, na safra de 2011 apenas 18% da lavoura brasileira estava segurada, contra 80% da safra norte-americana. A exposição às intempéries climáticas é extremamente desigual o que, a exemplo da questão logística, torna a competitividade do produtor brasileiro, antes de tudo, um exercício de teimosia. Lá, o produtor trabalha com a tranquilidade de quem se permite investir no seu negócio. Aqui, todo e qualquer investimento traz consigo o receio de comprometimento da receita futura por eventos (climáticos ou econômicos) fora de controle. É algo como navegar em mares desconhecidos, portando um GPS de última geração ou um astrolábio (antigo instrumento utilizado nas primeiras navegações) desgastado pela maresia. Existe, portanto, uma incômoda diferença nos semblantes dos produtores afetados pela estiagem nos EUA e no Brasil. Os norte-americanos demonstram a tranquilidade e segurança de produzir com regras claras e definidas, onde o fruto do trabalho permanece à medida que o tempo passa. Os semblantes dos produtores brasileiros, no entanto, resumem as angústias e aflições de quem, como bem definiu o notável economista Roberto Campos (in memoriam), navega com a lanterna na popa.


Política

Novo código florestal

O

Senado aprovou (em 25/9) o texto que altera o Código Florestal. A aprovação do projeto de conversão da medida provisória do Código florestal, manteve algumas das regras vetadas no texto pela presidente Dilma Rousseff e alterou outras. Já a expectativa do relator, senador Jorge Vianna (PT-AC), é de que alguns pontos, ressuscitados pela comissão mista que examinou a matéria, sejam novamente vetados. O senador disse estar “seguro” que a presidente pode alterar o novo texto. “Ela pode sancionar a lei e ao mesmo tempo fazer reparos, alguns pequenos, mas significativos ajustes”, prevê. A principal discordância no texto - conforme o líder do governo, Eduardo Braga - é a redução da largura da faixa mínima de mata exigida nas margens dos rios, para médios produtores, que caiu de 20 para 15 metros. Para os grandes produtores, a exigência mínima de recomposição de mata ciliar caiu de 30 para 20 metros. Há expectativa de que a presidente deve recorrer novamente aos vetos, ao afirmar que não existe ne-

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nhum acordo político para manter na íntegra o texto do projeto aprovado. “Não há acordo aqui para que a presidente não vete, se ela chegar à conclusão de que vetar é necessário, não há nenhum compromisso dos pontos de vista da Presidência da República”, informou. Braga alega que a supressão de cinco metros de preservação pode comprometer o equilíbrio ambiental com prejuízo para o setor agrícola, além de causa um impacto “não recomendável” no meio-ambiente. Mesmo se desejassem os senadores não teriam como derrubar ou alterar os itens recuperados pela comissão mista. Estavam engessados pela falta de tempo, uma vez que a MP perderia a validade no próximo dia 8 de outubro, se não fosse aprovada. Outro ponto recuperado no projeto da MP, e rejeitado pelo governo, trata da recomposição de áreas de preservação permanentes (APPs) menos para imóveis maiores onde houver atividade consolidada anterior a 22 de julho de 2008, em relação ao previsto na MP original. O replan-

tio também poderá ser feito com árvores frutíferas. “O novo código não é o dos meus sonhos, mas é um código realista”, disse o senador Jorge Viana. Como exemplo, citou os dispositivos voltados para solucionar os problemas provocados por 40% da agropecuária brasileira, “trabalhadas em áreas que estão em desacordo com a legislação vigente”. “A lei votada agora ela é tão rígida quanto antes, e segue sendo uma referência para o mundo”, defende ele. Confirmando-se o veto, a presidente Dilma poderá recorrer a três artifícios para suprir as brechas deixadas pela supressão do texto: 1º - o uso novamente de uma MP, o que teria de aguardar o início da próxima legislatura, em fevereiro. 2º - o envio de um projeto de lei ao Congresso, o que estenderia o buraco negro por mais tempo, até ser aprovado nas duas Casas. 3º - um novo decreto, retomando os pontos vetados na forma desejada pelo governo.


1º Fórum Nacional de Agronegócios

O

estabelecimento do agronegócio sustentável é essencial para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do Brasil. Esta posição foi defendida pelos principais líderes do setor agropecuário nacional durante o 1º Fórum Nacional de Agronegócios, evento promovido pelo LIDE - Grupo de Líderes Empresariais, em Campinas (SP), em setembro último. Ao lado de Roberto Rodrigues e Alysson Paolinelli, ex-ministros da Agricultura, e João Doria Jr., presidente do LIDE, o ministro Mendes Ribeiro, recebeu com entusiasmo a chamada “Carta de Campinas”, que tem como foco apresentar estratégias para o desenvolvimento equilibrado do agronegócio brasileiro. Ribeiro comentou e destacou a iniciativa do Fórum: “é uma honra receber a Carta de Campinas, sabendo que não é apenas uma carta, mas também um desafio para todos nós”. Agro DBO reproduz abaixo o texto da Carta de Campinas”:

Carta de Campinas O Fórum Nacional de Agronegócios reafirma o papel essencial do agronegócio sustentável brasileiro no desenvolvimento econômico, social e ambiental do Brasil e de sua inserção internacional competitiva. O setor equivale a 23% do PIB nacional, responde por mais de um terço de nossas exportações e gera 37%

dos empregos no País. Atualmente, apenas 8,5% do território nacional, 72 milhões de hectares, são ocupados com agricultura, além de 175 milhões de hectares com pastagens. Portanto, menos de 30% de nosso território estão ocupados pela agropecuária, enquanto 61% dele ainda são cobertos por matas originais. O setor vem se desenvolvendo sustentavelmente. Nos últimos 20 anos, a área plantada com grãos cresceu 37%, e a produção deu um salto de 176%. O avanço é notável: temos hoje 52 milhões de hectares cultivados com grãos e, se a produtividade atual fosse a mesma de há 20 anos, precisaríamos de mais 53 milhões de hectares para produzir a safra colhida este ano. Isto não é uma promessa ou um compromisso: é uma evolução já conquistada, preservamos esta enorme área, maior que a de muitos países inteiros. E temos muitos outros bons exemplos, como o da agroenergia: a cadeia produtiva da cana-de-açúcar - matéria prima do etanol - emite apenas 11% do CO2 produzido pela gasolina, mitigando assim o aquecimento global. O Brasil pode e deve liderar um programa mundial de segurança alimentar e energética baseado em sua experiência exitosa, de forma a promover a Economia Verde. O Fórum Nacional de Agronegócios busca o estabelecimento de uma ampla estratégia com esse objetivo,

construindo um Código Agroambiental que estimule ainda mais o desenvolvimento equilibrado do agronegócio brasileiro. O Fórum propõe a análise de temas centrais como infraestrutura e logística no Brasil, política comercial externa, política interna de renda, tecnologia, e as questões ligadas à coordenação de ações dos três poderes e da sociedade em todos os níveis: nacional, estadual e municipal. Esta estratégia dará ao país o espaço que lhe está destinado entre as grandes Nações do Planeta. São Paulo, 22 de setembro de 2012

Propaganda custa caro à Monsanto A Monsanto foi condenada pela 4ª Turma do TRF da 4ª Região a pagar uma indenização de R$ 500.000,00 por danos morais causados aos consumidores por uma propaganda veiculada em 2004. O comercial para TV afirmava: Pai, o que é orgulho? Orgulho é o que sinto quando olho essa lavoura. Quando eu vejo a

importância dessa soja transgênica para a agricultura e a economia do Brasil. O orgulho é saber que a gente está protegendo o meio ambiente, usando o plantio direto com menos herbicida. O orgulho é poder ajudar o país a produzir mais alimentos e de qualidade. Entendeu o que é orgulho, filho?

Entendi, é o que sinto de você, pai. A Justiça entendeu que a propaganda foi veiculada quando a soja transgênica não estava legalizada no Brasil, sendo o comercial um incentivo ao contrabando e à atividade criminosa. (Site: www.fpagropecuaria.com.br outubro 2012 – Agro DBO | 13


Artigo

Crescer, multiplicar e preservar “Dos 851 milhões de hectares de extensão que o Brasil possui, 61% são preservados e apenas 33% da área é destinada à produção”. Mendes Ribeiro Filho *

A

Rio+20 passou, mas o nosso comprometimento quanto ao futuro do planeta, não. A preocupação com o meio ambiente é uma bandeira que o Brasil assumiu há tempos, especialmente relativo ao desenvolvimento sustentável. Nós, que já vínhamos fazendo nossa parte, estamos dando novos rumos para aumentarmos a produção de alimentos com o menor impacto possível ao meio ambiente. Os produtores rurais brasileiros há tempos praticam não apenas a preservação das ma-

de Carbono, o ABC, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Por meio dele, entre julho de 2011 e julho deste ano, foram destinados R$ 1,5 bilhão para o financiamento de atividades agropecuárias que diminuam a emissão de gases de efeito estufa, como o sistema de plantio direto na palha e a integração lavoura-pecuária-floresta. O objetivo é diminuir entre 125 e 133 milhões de toneladas de CO2 equivalentes até 2020. O ABC oferece linhas de crédito aos produtores que optarem por adotar práticas co-

A produção de grãos no país aumentou 173%, enquanto a área de cultivo cresceu apenas 52%.

*O autor é Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

tas e florestas, mas ampliam cada vez mais a disponibilidade de alimentos. Atualmente, 61% dos 851 milhões de hectares de extensão que o Brasil possui são preservados, sendo apenas 33% da área destinados à produção. Considerando o nosso maior bioma, a Amazônia, o índice de preservação é de 80%. Além disso, de 1991 a 2012 nossa produção de grãos aumentou 173%, enquanto a área de cultivo cresceu apenas 52%. Uma das formas de incentivar os produtores brasileiros a continuarem nesse ritmo produtivo é fomentar ações sustentáveis no campo. Dentro dessa visão se encaixa o Programa Agricultura de Baixa Emissão

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mo a recuperação de áreas e de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, correção e adubação de solos, plantio e manutenção de florestas comerciais, agricultura de precisão e recomposição de áreas de preservação permanente ou de reserva legal. Além dos ganhos comerciais com o uso de tecnologias modernas, ainda há as facilidades de financiamento, que contam com prazos de até 15 anos de pagamento (em alguns casos com mais de seis anos de carência) e taxas de juros de 5% ao ano. Na agência bancária, os agricultores terão mais informações sobre como obter esse tipo de financiamento. Um dos casos de

sucesso do Programa ABC está em Ipameri, Goiás. A fazenda Santa Brígida foi a primeira propriedade no Brasil a receber recursos do programa, obtendo empréstimo de R$ 780,3 mil reais. O local, além de reduzir a emissão de 2,6 mil toneladas de CO2 equivalentes por ano, gera lucros. Na safra 2011/12, foram produzidas 14,5 mil sacas de soja, 25,5 mil sacas de milho e 5,2 toneladas de silagem. O hectare de pastagem rende em torno de R$ 500, enquanto antes de adotar práticas sustentáveis não passava de R$ 100. Os agricultores que desejam implantar pela produção orgânica em suas propriedades também contam com recursos do programa. No Plano Agrícola e Pecuário 2012/13 estão disponíveis concessões de crédito rural para custeio, comercialização e investimento para este tipo de produção. Esse segmento também conta com tratamento diferenciado de subvenção ao prêmio o seguro rural, cerca de 20% superior ao já autorizado para as culturas seguradas. A busca constante pelo desenvolvimento e conservação da nossa biodiversidade e recursos naturais são desafios que o Brasil não teme. Garantir a comida na mesa do brasileiro e a sustentação das gerações futuras é o compromisso maior dos nossos produtores, que agora contam com ainda mais recursos para adotarem práticas ambientalmente benéficas e rentáveis.


Notícias da Terra Economia I

Balanço do agronegócio

Economia II

O campo em alta

O

A

s exportações do agronegócio brasileiro cresceram 1,8% entre janeiro e agosto deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo US$ 62,5 bilhões. Esse valor equivale a 39% do total das exportações nacionais em 2012. Os setores com maior faturamento foram: complexo soja (US$ 21,4 bilhões), carnes (US$ 10 bilhões), complexo sucroalcooleiro (US$ 7,8 bilhões), produtos florestais (US$ 6 bilhões) e café (US$ 4,1 bilhões). Juntos, responderam por 79,2% da pauta exportadora. Os que tiveram maior crescimento percentual nas vendas foram fibras e produtos têxteis (62,5%), animais vivos (53,4%, exceto pescados), complexo soja (20,3%), bebidas (17%), fumo e derivados (16,1%). O complexo soja continua liderando a pauta de exporta-

ções com 34,2% de participação, superando 2011 (29%). Entre setembro/11 e agosto/12, as exportações de produtos agropecuários brasileiros atingiram US$ 96 bilhões, crescimento de 8,8% em comparação às vendas nos doze meses imediatamente anteriores. A balança comercial do período registrou superávit de US$ 79,1 bilhões (alta de 10%), segundo dados do MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O comércio com a China, principal importador de produtos brasileiros, cresceu 46,1% nos últimos 12 meses, alcançando US$ 19,7 bilhões. Outros países que se destacaram no balanço de negócios com o Brasil foram Egito (+40,9%), Venezuela (+36,2%), Tailândia (+33,3%); e Coréia do Sul (+31,8%).

PIB – Produto Interno Bruto da agropecuária do Brasil cresceu no segundo trimestre de 2012 graças, principalmente, à safra recorde de milho e à colheita abundante de café, segundo dados do IBGE. No geral, a economia brasileira (incluindo todos os setores de atividade), cresceu 0,4 por cento no segundo trimestre deste ano, quando comparada com o primeiro trimestre, com destaque positivo para a agropecuária. Segregadamente, a agropecuária­ cresceu 4,9 por cento no segundo trimestre, em comparação com os três primeiros meses do ano, depois de encolher 5,9 por cento no primeiro trimestre ante o período anterior. Na comparação com o mesmo período de 2011, a alta foi de 1,7 por cento. Analistas já esperavam alguma recuperação no PIB no segundo trimestre, citando entre outras safras, a do milho, cuja produção deverá ter um recorde acima de 70 milhões de toneladas.

Economia III

Lavouras recordistas

O

VPB – Valor Bruto da Produção das principais lavouras do Brasil foi estimado em R$ 227,7 bilhões, 0,8% acima do índice registrado no mesmo mês de 2011. O valor alcançado é o maior da série construída desde 1997. Os dados, divulgados em meados de setembro, são calculados a partir dos levantamentos de sa16 | Agro DBO – outubro 2012

fra realizados no mês de agosto. Segundo o coordenador da Assessoria de Planejamento Estratégico do Mapa, José Garcia Gasques, três fatores principais influenciaram no resultado: as secas nas regiões sul e nordeste, a grande expansão da produção de milho e a estiagem nos Estados Unidos Entre os produ-

tos de melhor desempenho neste período, Gasques destaca o algodão (37,1%), o milho (28,4%), a soja (16,4%) e o feijão (9,4%). Os produtos de pior desempenho são a laranja (-50,7%), o tomate (-50,2%), a batata inglesa (-44,2%), a mandioca (-17,7%), o cacau (-15,7%), o trigo (-15,2%) e o arroz (-14,1%).


Notícias da Terra Fertilizantes

Empurrão na produtividade

A

Anda – Associação Nacional para Difusão de Adubos não deixa por menos: “se não fosse o pacote tecnológico de insumos aplicado na agropecuária brasileira, hoje o país teria de aumentar em 88 milhões de hectares as áreas cultivadas para obter o mesmo resultado alcançado atualmente”. Segundo cálculos da entidade, a produtividade saltou de 1,44 toneladas por hectare na década de 1970 para 4,24 toneladas por hectare na safra 2010/2011 – considerando as 16 principais culturas. De acordo com a Anda, o consumo de fertilizantes no país cresceu a uma taxa geométrica média anual de 5,8% entre os anos de 1989 e 2011. Com isso, o Brasil assumiu o posto de quarto maior mercado consumidor mundial de fertilizantes, embora ainda longe do consumo chinês (33% do total mundial), indiano (17%) e norte-americano (12%). A região conhecida como “Mapitoba”, que inclui parte dos territórios do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, teve crescimento geométrico médio anual superior a dois dígitos no consumo de fertilizantes. O campeão foi o Piauí, cujo crescimento médio anual de venda de alcançou a marca de 19%; no Maranhão o avanço médio geométrico no período chegou a 16,2% e em Tocantins em 15%. Apenas para ter um dado comparativo, a expansão brasileira no mesmo período foi de 5,8%. Estimativas da IFA – International Fertilizer Industry Association indicam que nos próximos 50 anos, a agricultura mundial terá de produzir mais que a soma de todo alimento cultivado nos últimos 10 mil anos.

Safra I

Previsão de recorde histórico

S

egundo estimativas da Conab, a safra 2011/2012 de grãos chegará a 165,9 milhões de toneladas, novo recorde de produção. Comparativamente à safra anterior, de 162,8 milhões de toneladas, o crescimento é de 1,9%. O milho, como era previsto, foi o destaque no 12º levantamento de safra, divulgado no mês passado, com crescimento de 73%, ou o equivalente a 16,4 milhões de toneladas sobre a última safra, alcançando 38,86 milhões de toneladas. A Conab apontou retração na soja (- 8,9 milhões de t) e no arroz

(- 2 milhões de t) devido às condições climáticas desfavoráveis nas fases de desenvolvimento das culturas na região sul do país, parte do Sudeste, Centro-Oeste, e Nordeste. A estimativa total de área plantada com grãos é de 50,86 milhões de hectares, com um crescimento de 2%, ou 982,9 mil hectares a mais que a da safra 2010/11, quando atingiu de 49,87 milhões de hectares. O próximo levantamento da safra de grãos deverá ser divulgado no dia 9 deste mês outubro e será o primeiro a abranger dados da safra 2012/2013.

Safra II

Resultados próximos

D

e acordo com o IBGE, a safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas deve alcançar 164,5 milhões de toneladas, 2,8% a mais do que o obtido no cicloo 2010/11. A área a ser colhida em 2012 (49,5 milhões de hectares) será 1,6% maior em relação a do ano passado. As três principais culturas (arroz, milho e soja), responsáveis por 91,3% do vo-

lume total de cereais, leguminosas e oleaginosas, ocupam 85,1% da área a ser colhida. A área destinada ao arroz diminuiu 13,4%, a da soja cresceu 3,8% e a do milho, 11,1%. No que diz respeito à produção, a do milho aumentou em 29,3%, mas a de arroz e de soja sofreram decréscimos de 14,9% e 12,0%, respectivamente, na comparação com 2011. outubro 2012 – Agro DBO | 17


Notícias da Terra Preservação

Cana I

A

A

Quem desmatou? soja ocupou até o ano passado apenas 0,41% das áreas desmatadas no bioma amazônico desde 2006, segundo relatório do quinto ano da Moratória da Soja, divulgado no mês passado -- a moratória é um acordo entre produtores, indústrias, exportadores e ONGs para que não sejam adquiridos grãos produzidos no bioma amazônico depois de 2006. A partir da análise de imagens de satélite do sistema Prodes, que monitora o desmatamento, a moratória identifica áreas potencialmente ocupadas com soja. Depois, essas áreas são sobrevoadas e visitadas por terra, para se constatar se o plantio é mesmo de soja. Na última safra, apenas 18.410 hectares de soja foram identificados dentre os 3,47 milhões de hectares desmatados em Mato Grosso, Pará e Rondônia. Isso significa que apenas 0,53% da área desmatada nos últimos cinco anos foi ocupada pela soja. Considerando o bioma Amazônia, foram 4,51 milhões de hectares desmatados, dos quais a área de soja representa apenas 0,41% do total. Os 58 municípios monitorados nos três estados citados representam 98% da área plantada com soja na Amazônia. Além da Abiove, participam da moratória a Anec – Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, o Ministério do Meio Ambiente, o Banco do Brasil e as organizações Conservação Internacional, Greenpeace, Ipam, TNC e WWF-Brasil.

18 | Agro DBO – outubro 2012

Previsão para baixo o rever projeções anteriores para a safra 2012/13, a Única – União da Indústria de Cana-de-Açúcar apontou moagem maior, mas queda na produção total de açúcar e etanol no Centro-Sul do país. A nova projeção indica moagem de 518,50 milhões de toneladas, 1,87% a mais do que as 509 milhões previstas em abril e 5,14% acima do volume processado na safra 2011/2012, de 493,16 milhões de toneladas. Segundo o CTC – Centro de Tecnologia Canavieira, órgão da Única, a expansão é consequência das chuvas não previstas que ocorreram nos

primeiros meses da safra, permitindo um acúmulo de biomassa superior ao projetado inicialmente. As novas estimativas da Unica apontam para uma produção de 32,70 milhões de toneladas de açúcar, 1,21% abaixo do previsto no início da safra. Mas a projeção total para a atual safra ainda será 4,46% superior às 31,30 milhões de toneladas produzidas na temporada 2011/2012. Já a projeção revisada para a produção de etanol soma 21,05 bilhões de litros, queda de 2,03% em relação ao total estimado inicialmente, mas 2,47% superior ao valor final da safra anterior.

Cana II

Queimada proibida

M

inas Gerais pretende e eliminar a queima de cana-de-açúcar até 2014. Representantes do governo, fornecedores, trabalhadores, indústria sucroalcooleira e comunidade ambientalista estão discutindo os temos da Deliberação Normativa (DN) que regulamentará o documento final, criando regras para cada unidade produtora atingir as metas. . A queimada é um procedimento tradicional nos canaviais brasileiros: facilita o corte manual, evita ferimentos e afugenta eventuais animais peço-

nhentosura. O decreto federal 2.661, de julho de 1998, determina a eliminação da queima da cana no ano de 2018. Pressionados, de um lado, pela necessidade de buscar fontes alternativas de energia (no caso, através do processamento da biomassa) e preocupada, do outro, com problemas de saúde relacionados à fumaça e à fuligem, além da questão da exploração de mão-de-obra temporária, os estados produtores de cana estão antecipando este prazo, como fez São Paulo em 2007 e, agora, Minas Gerais.


Notícias da Terra Conservação

Kayabis recebem milho de.

A

Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, sediada em Brasília (DF), devolveu ao povo kayabi sementes de milho tradicionais perdidas por manejo inadequado e desuso gradativo – com o passar do tempo, foram substituídas por variedades diversas e outros tipos de alimentos, na esteira dos processos de aculturação. Em 2010, a Embrapa recebeu uma carta dos kayabis solicitando ajuda para recuperar suas sementes ancestrais – parte da identidade da etnia. Oito anos antes, pesquisadores da instituição coletaram espécimes do milho kayabi quando mapeavam a situação agrícola das aldeias do Parque Nacio-

nal do Xingú e enviaram amostras à Embrapa Milho e Sorgo, de Sete Lagoas (MG), para estudos e conservação. Recebida a carta, as sementes xinguanas foram então localizadas, multiplicadas e, finalmente, devolvidas à tribo. “Essa ação é muito importante e representativa do ponto de vista científico, pois marca o fim de um ciclo (coleta de amostras – conservação – recuperação – devolução)”, explica o pesquisador Fábio Freitas, da unidade de Brasília. “Mostra também que mesmo em uma aldeia comprometida com a manutenção dos seus cultivos tradicionais, como é o caso da kayabi, fatores internos e externos podem levar a perda de produtos agrícolas.

Exposição

Dívidas

Realizada a cada dois anos na cidade de Hannover, na Alemanha, a Eurotier promove este ano a BioEnergy Decentral. A bioenergia vem ganhando cada vez mais importância no mundo. Na última edição, em 2010, mais de 550 expositores de diversos países apresentaram produtos relacionados à bioenergia. A Eurotier será realizada este ano de 13 a 16 de novembro. Para mais informações, acesse www.bioenergydocentral.com

O

Foco na energia

Parcelamento de débitos s produtores da região sul do país prejudicados pela estiagem podem renegociar as dívidas do crédito rural. O CMN – Conselho Monetário Nacional aprovou o parcelamento em até dez vezes dos débitos dos financiamentos de custeio para a safra 2011/2012. A primeira parcela vencerá um ano depois da assinatura da renegociação. De acordo com o Ministé­rio da Fazenda, débitos parcelados em

janeiro, poderão ser renegociados novamente. O CMN também autorizou a renegociação da linha especial de crédito para os produtores de laranja, setor em crise por causa dos preços baixos. As parcelas que seriam pagas em dezembro de 2012, janeiro e fevereiro de 2013 tiveram o vencimento adiado em um ano. A laranja foi incluída entre os produtos com garantia de preços mínimos do Ministério da Agricultura.

Feira

A vez das grandes máquinas

U

ma das maiores e mais importantes feiras do setor em todo o mundo, a Eima Internacional – Exposição Internacional de Máquinas para a Agricultura, abre seus portões este ano entre os dias 7 e 11 de novembro em Bolonha, na Itália. Equipamentos e tecnologias para o tratamento da terra, semeadura, adubo, irrigação e colheita são algumas das

propostas do salão dedicado à mecanização agrícola, organizado por Unacoma – Unione Nazionale Costruttori Macchine Agricole. Realizada a cada dois anos. a feira de Bolonha equipara-se a outras grandes feiras internacionais do setor, como a Farm Progress Show (Estados Unidos), Agritechnica Hannover (Alemanha) e a Agrishow (Brasil). outubro 2012 – Agro DBO | 19


Notícias da Terra Café I

Cientistas identificam o gene da seca

P

esquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro identificaram um gene do café arábica que, quando transferido para outra planta (Arabidopsis thaliana), torna-a tolerante à seca. O gene está sendo testado em outras plantas de interesse agronômico, como soja, milho, trigo, cana de açúcar, arroz e algodão. “A expectativa é que confira tolerância prolongada à estiagem também para essas outras culturas”, afima o pesquisador Eduardo Romano, da Embrapa, explicando que a transgenia tem o potencial de transferir genes entre espécies diferentes e expressar corretamente as características conferidas pelo gene. “Neste caso, mantendo a produtividade mesmo na ausência de condições favoráveis, como a escassez de água”, diz ele.

O otimismo com relação ao uso de genes modificados em todas as variedades testadas deverá ser comprovado com os resultados da pesquisa no campo, previsto para o próximo ano. “Se tudo ocorrer conforme esperado,

em cinco anos a agricultura brasileira terá mais um aliado para superar problemas climáticos, como a temperatura elevada e o déficit hídrico, que ameaçam a produtividade no campo”, adianta o pesquisador.

peso (incremento de 940,31% frente a Nova Iorque na data – 14/03), pago pela empresa Mocoway Enterprise Management International, da China. Esse montante correspondeu a US$ 2.526,55 pagos por cada uma das 18 sacas do sítio Colinas, de Carmo de Minas (MG). O lote rendeu

US$ 45.476,91 (R$ 82.176,78 – dólar a R$ 1,807) ao produtor Luiz Flávio Pereira de Castro, vencedor do concurso destinado exclusivamente aos cafés naturais do Brasil. O acesso ao regulamento do concurso e as inscrições podem ser feitos no site da BSCA (www.bsca.com.br).

Café 2

Inscrições abertas

U

m dos principais concursos de qualidade de café no Brasil, o “Cup of Excellence Natural Late Harvest”, tem as inscrições abertas até 4 de dezembro de 2012. Organizado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, da sigla em inglês). Em 2011, o lote vencedor foi arrematado por US$ 19,10 por libra

Picapes

Chineses de olhos abertos

P

olíticos e empresários de Ribeirão Preto vem suando camisas e paletós para convencer os chineses da GWM (Great Wall Motors, a quarta maior montadora de veículos daquele país) a construir uma fábrica no município. A GWM tem interesse em produzir picapes e veículos

20 | Agro DBO – outubro 2012

SUV no Brasil, para o mercado interno e exportação, mas não decidiu ainda onde se instalará. Está procurando um local com pelo menos 100 hectares. Eles visitaram quatro áreas e gostaram de uma próxima ao Distrito Empresarial e outra nas proximidades da Agrishow. Após Ribei-

rão Preto, a comitiva chinesa visitaria outros locais, como Guarulhos e São Bernardo do Campo, em São Paulo, e Joinville, em Santa Catarina. O anúncio da cidade escolhida para receber a planta brasileira deverá ser feito no final de outubro durante o Salão do Automóvel, em São Paulo.


Notícias da Terra Censo

Vinicultura

População rural

Reconhecimento tardio

D

O

ados da Pnad – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, divulgados no final de setembro pelo IBGE, mostram que população rural brasileira é de 29,37 milhões de pessoas, ou seja, 15% das 195,24 milhões de pessoas que moram no país. Os moradores entre 15 e 54 anos correspondem a cerca de 16 milhões de pessoas e abrangem, em termos percentuais, 54,8% da população rural. Os números foram compilados pelo coordenador da Assessoria de Planejamento Estratégico do Mapa, José Garcia Gasques. O estudo mostra ainda que a população ocupada em atividades agrícolas soma 14,7 milhões de indivíduos, a maioria empregados (28,4 %) e autônomos (29,6%). As pessoas envolvidas nas atividades primárias da agropecuária responderam por 4,7% do PIB – Produto Interno Bruto (PIB) da economia em 2011. “O setor compreendido pelo agronegócio abrange, além dessas atividades primárias, outras até chegar ao consumidor final, no mercado interno ou ao mercado internacional, e corresponde a 22,2 % do PIB da economia”, constata Gasques. Entre 2009 e 2011, houve uma redução de cerca de um milhão de pessoas ocupadas na agricultura, realocadas para outros setores, uma vez que o processo de crescimento econômico verificado na agricultura transfere atividades para outros segmentos da economia, como a agroindústria e serviços.

Inpi – Instituto Nacional de Propriedade Industrial concedeu aos vinhos e espumantes produzidos no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves (RS), o primeiro registro de Denominação de Origem (DO) do Brasil. A coordenadora de Incentivo à Indicação Geográfica de Produtos Agropecuários do Mapa, Beatriz Junqueira, explica que a DO é um ativo de propriedade intelectual: protege contra a concorrência desleal e serve como ferramenta de marketing. A DO confere o mesmo nível de proteção da Indicação de Procedência (IP). A diferença é que a DO embute características específicas decorrentes do meio geográfico, de fatores naturais como solo, clima e relevo, e hu-

manos. Já a IP diz respeito a uma região que se tornou famosa pela produção de dado produto. Os demais produtos nacionais com registro de DO no Brasil são o arroz do litoral norte gaúcho, o camarão da Costa Negra cearense e a própolis vermelha alagoana. Com IP, os produtos registrados até o momento são os queijos do Serro e da Serra da Canastra (MG); os cafés do Norte Pioneiro do Paraná, do Cerrado Mineiro e da Serra da Mantiqueira; o cacau de Linhares (ES); as cachaças de Salinas (MG) e Paraty (RJ); o couro acabado do Vale dos Sinos (RS); a carne da Campanha Meridional (RS); e a uva de mesa e manga do vale do São Francisco (BA e PE).

Uvas

Mais fruta no suco

O

suco de uva produzido no Brasil deve conter obrigatoriamente 50%, no mínimo, de polpa ou néctar da fruta. Os produtores e empresários tem 180 dias (a contar de 31/8, data da publicação no Diário Oficial da União) para adequação à determinação oficial do Mapa. e acordo com a legislação brasileira, a maioria dos sucos não pode conter água para pertencer a esta categoria, exceto

no caso de alguns frutos, como os tropicais do tipo ppitanga ou tamarindo. O néctar, segundo estudiosos, é uma bebida adoçada e diluída em água, pronta para consumir. Há ainda o chamado refresco da fruta, que é a bebida com menor concentração de fruta. Nos supermercados e mercearias do país são vendidos a bebida em pó, o chamado suco de saquinho, que é utilizado em água. outubro 2012 – Agro DBO | 21


Logística

Gargalos na armazenagem A tecnologia dos silos-bag aparece como uma solução estratégica e econômica na hora de estocar as safras brasileiras , cada vez maiores. Ercília Fernandes (¹) e Jefferson Bittencourt (²)

A

(¹)Jornalista; (²) Engenheiro agrônomo, gerente de operações do Geneslab

Argentina foi a primeira a testar a novidade na América do Sul. Hoje, os silos-bag são vistos espalhados por todo o país em meio às pastagens e lavouras e guardam nada menos que 60% de toda a safra de grãos produzida por nossos “hermanos”, que agora exportam a tecnologia para vários outros países. Brasil incluso. Por aqui, os

22 | Agro DBO – outubro 2012

silos horizontais feitos de plástico e que mais parecem uma grande salsicha, começaram a ser usados há 4 anos, timidamente e com alguma desconfiança. Mas a partir da supersafra do ano passado, a adesão de produtores, cooperativas, traders e indústrias vem crescendo exponencialmente. Embora não existam estatísticas oficiais, técnicos da área de armazenagem

calculam que pelo menos 6,6 milhões de toneladas, ou 4% da produção nacional, já tenham sido estocadas em silos-bag em todo o Brasil este ano. Tamanha procura pelos silos-bag tem explicações. Os principais são a precária capacidade logística para escoamento, através de caminhões e ferrovias e a falta de armazéns nas maiores e também nas no-


Os silos-bag

devem ficar em áreas planas não usadas para agricultura

vas regiões produtoras do país, como Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Segundo a Conab, a safra 2012/2013 deve ficar em torno dos 180 milhões de toneladas. O recomendável é que haja armazéns para, pelo menos, 15% a mais do que se produz, ou algo como 200 milhões de toneladas. Mas os pouco mais de 17 mil armazéns ativos cadastrados no Ministério da Agri-

cultura só comportam 133 milhões de toneladas. A maioria desses armazéns fica nas regiões sul e sudeste e vive abarrotada. No Paraná, segundo maior produtor brasileiro, estão sendo colhidas 10,3 milhões de toneladas, 26,6% da produção nacional de milho safrinha. Faltam armazéns públicos e privados para tanto grão em várias regiões. Como em Sertaneja, no norte do estado, onde a maior cerealista da região, Vilela & Vilela, chega a movimentar 600 mil toneladas de grãos por ano. Para resolver o problema, a cerealista utilizou uma área de 133 mil metros quadrados, onde foram instalados os silos-bag e acondicionadas perto de 40 mil toneladas de milho. Uma experiência que agradou. Segundo o cerealista Paulo Vilela, “a qualidade do milho que está sendo retirado dos silos-bag está excelente. A logística utilizada nos auxiliou bastante e já estamos pensando em utilizar o mesmo sistema nas próximas safras”.

Em Mato Grosso, maior produtor nacional de grãos, a situação é ainda mais crítica. O grupo argentino El Tejar (O Telhar), que atua no Brasil há 8 anos e já superou alguns dos mais tradicionais produtores de grãos do Centro-Oeste, teve que montar emergencialmente nesta safra uma estrutura, terceirizada com 46 silos bag, em Sapezal, para poder estocar quase 10 mil toneladas de milho produzidas a mais nas fazendas do grupo. Para Diógenes Novakowiski, da área de armazenagem e qualidade do El Tejar no Brasil, “não fossem os silos bag, seria muito difícil encontrar uma saída. Temos visto outras empresas aqui do MT estocando no chão, a céu aberto, correndo todos os riscos que, para nós, são impensáveis”. Feito com polietileno, um tipo de plástico bastante resistente, o silo-bag enfrenta bem as diferentes oscilações do clima brasileiro, como o calor intenso, seca, poeira, chuva e frio. Eles são práticos e podem ser instalados em pou-

Operação

de embolsamento dos grãos necessita apoio mecanizado

outubro 2012 – Agro DBO | 23


Logística Com o custo de um silo tradicional pode-se armazenar por até 40 anos no sistema silo-bag. Numa única bolsa, cabem 3 mil sacas.

Operação

mecanizada de extração de grãos dos silos-bag

co tempo, se comparados à um silo convencional. Algumas estruturas ficam prontas em poucas horas, porque a principal demanda é se ter um terreno plano e limpo. Por serem móveis e temporários, os silos

podem ocupar terrenos ociosos arrendados, ao invés de comprados. Vários estudos nas áreas de agronomia e engenharia agrícola de universidades brasileiras (como as da UFV-MG) comprovam que os

silos-bag são também um sistema de armazenagem segura: a qualidade dos grãos é garantida porque, depois que a bolsa é fechada, o oxigênio em seu interior é consumido rapidamente, deixando o ambiente rico em dióxido de carbono (CO²), o que inibe o desenvolvimento e a proliferação de pragas e insetos e a deterioração dos grãos. Mas um dos principais atrativos do silo-bag é a redução dos custos, nos seus vários segmentos. Segundo técnicos, para construir um armazém convencional, com capacidade para estocar 150 mil sacas, por exemplo, seriam necessários pelo menos R$ 3 milhões e muitos meses de espera. Com o custo de um silo tradicional é possível armazenar por até 40 anos no sistema silo-bag. Uma única bolsa tem capacidade para estocar 3 mil sacas, durante 18 meses. Em algumas regiões, o custo disso para o produtor é de apenas 0,50 centavos por saca armazenada, enquanto ele teria que desembolsar até R$ 2,00 pela mesma saca, caso houvesse armazém convencional disponível. Para o gerente comercial Tiago

Silos já usados só podem ser reciclados O “salsichão” do silo-bag é fabricado em diversos tamanhos, com capacidade de armazenagem que varia de 60 a 180 toneladas (o maior, de 100 m). Eles são feitos com 3 lâminas especiais de polietileno. Duas internas, totalmente pretas, impedindo a entrada da luz do sol ou qualquer outra claridade. Assim, o grão armazenado mantém cor e brilho. A capa externa é branca, com filtros que bloqueiam raios ultravioletas e infravermelhos, impedindo que o grão esquente pela ação do sol. Com todas essas qualidades, qual produtor não gostaria de usar um mesmo silo bag várias vezes? É, mas não dá. Segundo os técnicos, na operação de extração dos grãos, o silo é cortado pela máquina que faz a extração e sucção. Além disso, o plástico externo

24 | Agro DBO – outubro 2012

do silo bag tem uma vida útil de, no máximo, 18 meses. Depois disso, começa a ficar ressecado e pode partir. E mesmo depois de vazio, o silo bag pesa centenas de quilos. Um produtor sozinho não conseguiria dobrá-lo de forma que pudesse ser recolocado na máquina embolsadora. Por isso, depois de servir para estocar soja, milho, arroz, feijão, sorgo, trigo e silagem, produtores, cooperativas e indústrias estão dando outra destinação aos silos-bag. Quando não são enviados para empresas de reciclagem, os plásticos são cortados e viram lonas para cobrir maquinários, lenha ou pilhas de adubos e defensivos; são transformados em sacos para estocagem de cama de frango ou esterco e, ainda, servem para forrar canais de irrigação.


Graeff Fornari , que atende médios e grandes produtores usuários do sistema na BA, GO, MG, MS e MT, outra grande vantagem é que o sistema ajuda a driblar os altos custos de frete e as deficiências logísticas de regiões produtoras mais distantes “ permitindo facilmente dimensionar e flutuar a capacidade de armazenagem, de acordo com a necessidade imediata da safra. Em ano de supersafra, é possível aumentar a capacidade de armazenagem rapidamente. Ao contrário, quando há queda de produção, basta não adquirir os silos, evitando superdimensionamento dos armazéns”. Além disso, o agricultor tem também maior autonomia, podendo armazenar o excedente na propriedade e aguardar o melhor momento para vender. O silo-bag facilita também o trabalho de quem precisa armaze-

Movimentação

do plástico, após o uso, exige máquinas, devido ao peso.

nar com segregação pois permite que os grãos sejam separados em lotes menores, seja por diferença de qualidade, tipo ou grãos transgênicos e não transgênicos, evitando a contaminação. No caso do trigo, os lotes podem ser separados por qualidade já no recebi-

mento, o que facilita na hora da comercialização. Ecologicamente corretos, os silos-bag, depois do período de utilização, podem ser reciclados, transformados em lonas e outros materiais reutilizáveis, sem prejudicar o meio ambiente.

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Carlos Rudiney/Abrapa

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Algod達o vitaminado Cresce o uso de bioestimulantes nas lavouras brasileiras. acelerar o desenvolvimento das plantas, multiplicar a

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Agricultores aderem Ă s novas tecnologias para produtividade e melhorar a qualidade do produto. Luiz Silveira

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O

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Haroldo Cunha usa bioestimulantes e fito-hormônios na lavoura. À esq., soja sem e com Byozime, da Arysta Arysta/Divulgação

s produtores de algodão são reconhecidos pelo alto nível tecnológico de suas lavouras, inclusive as de soja e milho que, geralmente, também plantam em áreas vizinhas às da fibra. Em uma categoria relativamente nova de produtos, genericamente chamados de bioestimulantes, os cotonicultores confirmam a sua abertura às novas tecnologias. Aos poucos, o produtor Haroldo Cunha, de Turvelândia (GO), está acrescentando novos itens à lista básica de insumos formada por sementes, macronutrientes e defensivos. Os micronutrientes já entraram para ficar nas suas lavouras há mais tempo, mas produtos com novas características começaram a fazer parte das suas planilhas de custo. Em busca de algumas arrobas a mais de algodão por hectare, Cunha começou a testar uma gama de bioestimulantes e fito-hormônios para melhorar a nutrição, o desenvolvimento, a qualidade ou a defesa das plantas. São produtos de diferentes naturezas, como fito-hormônios, aminoácidos, indutores de resistência, condicionadores, fosfitos e inoculantes, apresentados tanto em forma líquida quanto granular. Muitas vezes, essas características são apresentadas em consórcio com nutrientes tradicionais. “No último ano, testei um produto baseado em fito-hormônios na fase de floração que aumentou o pegamento e rendeu 33 arrobas de algodão em caroço a mais do que nas áreas que não receberam a aplicação, no mesmo pivô”, diz Cunha. A produtividade desse pivô foi de 278 arrobas, mas subiu para 311 arrobas na pequena área que recebeu o FMC Utilize. Agora, o agricultor vai ampliar a área de teste do produto, mas não vai aplicá-lo em toda a lavoura ainda. “Preciso ver os efeitos de novo, porque é possível que outros fatores tenham influenciado nesse resultado”, explica. Como ocorre com a maioria dos insumos agrícolas, a indústria de diferentes fertilizantes especiais vem conquistando espaço no boca a boca. “O produtor vê o que o vizinho faz, vai testando aos pou-

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cos”, diz o diretor de fertilizantes foliares da Abisolo Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal, Geraldo Pozzan. Esse efeito boca a boca é ainda mais importante nesses segmentos de produto, que não contam com uma regulamentação clara, capaz de dar garantia de seus efeitos para os agricultores. “Minha visão é de que temos que testar tudo, porque tem muita enrolação nesse mercado”, alerta Cunha. Mesmo com as dúvidas e a desconfiança naturais dos produtores, as vendas das empresas associadas à Abisolo cresceram de 7% a 10% ao ano na última década, e devem manter o ritmo, segundo Pozzan. A julgar pelas vendas e pelas estratégias das indústrias desse setor, o uso desses insumos está mesmo ficando cada vez mais comum. “A alta no preço dos cereais eleva o nível de investimento em tecnologia, o que pode fazer o mercado crescer até 12% neste ano”, prevê Pozzan. É o que vai ocorrer na fazenda de Cunha, em Goiás. A relação entre cotação e uso de tecnologia é direta. Com a queda no preço do algodão, o produtor vai diminuir o uso de micronutrientes nessa lavoura, e aumentá-lo na soja. “Vou reduzir a área de algodão de 1,5 mil para 680 hectares, mas vou deixá-lo nas melhores terras, o que reduz a necessidade de complementação com micronutrientes”, conta ele. Mesmo assim, elementos que não estão presentes no solo, como os fito-hormônios, e o tratamento de sementes para melhorar o enraizamento, não serão abandonados. Na falta de estatísticas de vendas e de resultados de campo comprovados, uma prova empírica do potencial desses segmentos é a entrada de grandes multinacionais de defensivos e genética vegetal e outras empresas estrangeiras e nacionais no setor. A suíça Syngenta, por exemplo, entrou no segmento em 2011. A alemã Basf criou há menos de dois anos uma nova unidade global, chamada de Nutrição Funcional, apenas para pesquisar e desenvolver produtos com efeitos funcionais. Certamente, não


estão entrando para perder. A multinacional japonesa Arysta Lifescience tem investido na venda do Biozyme, um catalisador à base de extrato vegetal, associado a doses de micronutrientes. O produto era do portfólio do GBM - Grupo Bioquimico Mexicano, adquirido há 10 anos, quando a Arysta decidiu apostar nesse segmento. “A aquisição foi resultado de uma visão de que esse mercado seria muito competitivo, e ele vem crescendo 10% a 12% ao ano”, explica o gerente de produtos de nutrição da companhia, Flávio Irokawa. “O Brasil está à frente de países como Estados Unidos e Argentina na adoção dessas tecnologias, sendo, certamente, o maior mercado do mundo em volume de bioestimulantes e fito-hormônios.” Apesar do crescimento dos últimos anos, a indústria ainda se esforça para derrubar o estereótipo de que todos os fertilizantes líquidos são “água de batata”, como os produtores diziam pejorativamente. “Há mais de 500 empresas vendendo produtos de nutrição via folha no Brasil, e há produtos que não são de confiança e produtos que são usados incorretamente pelos agricultores”, afirma o engenheiro agrônomo Nivaldo Alves Pereira Filho, da Siap Consultoria, de Acreúna (GO). “A tendência é o agricultor usar produtos com os quais ele percebe que pode evitar danos (os defensivos), mas ele não acredita que precisa complementar as necessidades da planta.”

Arysta/Divulgação

A indústria de fertilizantes especiais investe muito em marketing, mas continua dependente do boca a boca para conquistar clientes

Outro exemplo de resultados com Byozime: raízes de milho sem (à esq.) e com aplicação do produto

Na fazenda de Haroldo Cunha, foi o consultor Pereira quem introduziu o uso de produtos especiais aplicados direto no sulco, inclusive durante o plantio, nas linhas do algodão. São produtos de nutrição que aumentam a liberação de potássio e fósforo lábil da argila do solo. Com os bons preços da soja, o agricultor vai aplicar esses produtos em toda a sua área da oleaginosa neste ano. “O conceito moderno não é aportar nutrien-

Regulamentação defasada Os bioestimulantes, fito-hormônios e agroquímicos com efeito fisiológico não são novidade apenas para os agricultores e agrônomos. Baseada em uma lei de 1980, a regulamentação dos insumos agrícolas no Brasil também está defasada quanto a esses novos produtos. “A última reforma das normas foi em 2004 e, apesar de os biofertilizantes estarem citados na lei como categoria, não há protocolo de análise nem lista de matérias-primas aceitas para registro até hoje”, explica o diretor de fertilizantes foliares da Abisolo, Gilberto Pozzan. A Abisolo tem trabalhado para que o Mapa altere a regulamentação, possivelmente criando novas categorias que se enquadrem com os tipos de produto que estão sendo oferecidos no mercado. “Se não há nenhum biofertilizante registrado até hoje no Mapa, é porque o ministério não acredita que eles funcionem; então o setor precisa fazer sua lição de casa e comprovar resultados”, defende Pozzan. Diferentemente dos biofertilizantes, como os fito-hormônios feitos à base de extratos vegetais e de algas, os bioestimulantes sintéticos se enquadram nas normas atuais como agrotóxicos, mesmo tendo um funcionamento diferente. Segundo Pozzan, se o produto alega proteção contra pragas e doenças, mesmo

que apenas ao induzir as defesas naturais da planta, devem ser registrados como defensivos. “O nosso sonho seria a criação de uma classificação especial para esses produtos, porque as exigências para o registro como defensivo têm um custo muito pesado, que inviabilizam sua aplicação”, opina. “Não há controle e muitas vezes nem se sabe exatamente o que se está comprando”, atesta o agricultor Haroldo Cunha, que é também presidente executivo do IBA - Instituto Brasileiro do Algodão. Outra dificuldade é que as normas de aplicação de defensivos proíbem que se misture qualquer tipo de produto com os agroquímicos para a aplicação na lavoura. Embora seja extremamente comum a prática de pulverizar simultaneamente dois tipos de defensivo, ou um fertilizante foliar com um defensivo, a regulação veda essa técnica essencial para dar viabilidade econômica a diversos fertilizantes especiais. Ao misturá-los aos defensivos, que teriam que ser pulverizados de qualquer maneira, os agricultores evitam o custo de uma nova entrada no campo com a máquina, correndo o risco de alterar a molécula do agroquimico e torná-lo ineficciente. Há necessidade de fazer controle do pH da calda.

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Capa O baixo aproveitamento do potencial genético das plantas pode estar ligado ao empobrecimento do solo nas regiões mais antigas

tes, mas garantir sua utilização. O diferencial é fazer o nutriente chegar na planta na hora e no local certos”, afirma o diretor comercial da indústria de fertilizantes especiais Trade Corp, Luiz Schmitt. Pereira compara a adoção dos produtos de nutrição vegetal com a do sal mineralizado e dos proteinados na pecuária, que melhoraram o aproveitamento dos ganhos genéticos das raças. O mesmo deve valer para a agricultura, especialmente considerando que a biotecnologia vegetal tem priorizado mais a resistência e a tolerância das plantas a pragas e doenças do que a eficiência da sua nutrição. Na pecuária, ao contrário, a melhora da taxa de conversão alimentar é um fator crucial nos processos de seleção. Por isso, a tecnologia de nutrição vegetal tem tentado acompanhar os avanços genéticos das plantas. Sabe-se, por exemplo, que a aplicação do glifosato gera um estresse temporário nas plantas tolerantes ao herbicida, porque ele interfere na absorção do nitrogênio. Uma solução oferecida pela Trade Corp, é o uso de produtos à base de manganês que não reagem com o glifosato, que pode ser aplicado em conjunto com o herbicida para impedir seu efeito negativo sobre a fisiologia da planta. Apesar disso, o diretor da companhia estima que apenas 40% da área de soja Roundup Ready do Brasil use manganês. “Estamos longe de expressar o máximo po30 | Agro DBO - outubro 2012

O potencial genético da canade-açúcar é de 380 toneladas por hectare, mas o Centro-Sul está colhendo apenas 75

tencial genético das culturas, e a nutrição e a fisiologia são essenciais para atingirmos esse patamar”, defende Schmitt. “O potencial da cana-de-açúcar é de 380 toneladas por hectare, mas o Centro-Sul está colhendo 75 toneladas”, exemplifica ele. Parte do grupo espanhol Sapec, a Trade Corp está há uma década no Brasil, mas foi nos últimos três anos que viu seus resultados crescerem na venda de fertilizantes especiais. Grande parte dos produtos da companhia (60%, segundo Schmitt) foi desenvolvida ou tropicalizada no Brasil. Hoje, 45% do faturamento vem de produtos lançados há menos de cinco anos. “Crescemos em média 45% ao ano nos últimos três anos e ainda não estamos em velocidade de cruzeiro; projetamos crescer 50% ao ano nos próximos três anos”, garante o executivo. Nesse período, a Trade Corp vai investir 10 milhões de euros no Brasil em pesquisa e desenvolvimento, com foco em produtos das três linhas de ação que mais têm crescido: potencialização de germinação, para uso em tratamento de sementes; efeito anti-estresses; e nutrição equilibrada para estimular as defesas naturais contra pragas e doenças. O baixo aproveitamento do potencial genético também pode estar relacionado ao empobrecimento do solo nas regiões agrícolas mais antigas, segundo Pozzan, da Abisolo. “Nas regiões tradicionais, muitos


Arquivo Basf

nutrientes foram extraídos do solo ao longo dos anos e agora eles precisam mais dos micronutrientes”, explica ele. Associando essa necessidade das regiões tradicionais ao fato de as áreas de expansão agrícola terem, em geral, solos mais pobres, o executivo traça um prognóstico positivo para o consumo de fertilizantes especiais. No caso específico do algodão, o uso dos micronutrientes boro, cobre e manganês é considerado essencial no Oeste Baiano, diz o agrônomo Vitor Pereira, da Círculo Verde Assessoria Agronômica. Mas para além desses minerais, ele está introduzindo, aos poucos, o bioestimulante Bion, da Syngenta, nas suas recomendações. “O produto rendeu de 5 a 20 arrobas a mais de algodão em caroço por hectare e já é usado em 20% das áreas que eu atendo, inclusive porque já há produtores encomendando por conta própria”, afirma o consultor, que gere uma área total de 20 mil hectares em diversos municípios da região. O Bion é um estimulante sintético e tem o efeito de induzir as defesas naturais das plantas. Mas, para ser vendido como tal, é registrado como defensivo agrícola. Esse, aliás, é outro entrave para o crescimento dos chamados indutores de resistência a pragas e doenças, já que os custos para registrar um defensivo são muito altos. A Basf tem uma linha de produtos que nasceu como defensivo e acabou se mostrando um estimulante fisiológico. Os produtos AgCelence, da com-

Algodão tratado sem produto com benefício AgCelence (na foto, à esq.) e com benefício (lado direito, de plantas mais altas).

panhia alemã, foram desenvolvidos e registrados a partir da descoberta de que um princípio ativo do fungicida Opera, a piraclostrobina, reduzia o nível de produção do hormônio de envelhecimento etileno e elevava o nível da enzima nitrato-redutase, envolvida na fotossíntese pela assimilação do nitrogênio. Dez anos depois, diversos outros produtos da Basf foram registrados como agrotóxicos com o princípio ativo, para diversas culturas, inclusive o algodão. “Hoje, 4,5 milhões de hectares de soja já utilizam a tecnologia AgCelence, não só na aplicação do fungicida contra a ferrugem asi-

Pacote tecnológico Registrando forte crescimento nos últimos anos, os setores de substratos para plantas, condicionadores de solo, fertilizantes orgânicos e organominerais ganharam uma entidade de representação própria no último mês de janeiro, a Inpas - Associação Brasileira de Insumos para Agricultura Sustentável. “São produtos que, além de conferir efeitos diretos na nutrição das culturas, promovem melhoria nas qualidades físicas e biológicas dos solos, principalmente em função da matéria orgânica incorporada, melhorando a estrutura física e promovendo aumento da capacidade de trocas catiônicas dos solos”, explicam o presidente e o vice-presidente da entidade, os engenheiros agrônomos Carlos Mendes e Edson Kenji Tsuzuki. Os executivos conferiram uma entrevista por escrito à AgroDBO, com a colaboração da engenheira agrônoma Susana Gazire, coordenadora executiva da Inpas. Embora os fertilizantes orgânicos e organominerais representem volumes menores que os fertilizantes minerais, o crescimento na sua adoção foi mais rápido na última década. Segundo dados da Inpas, o uso dos insumos de base orgânica (todos os representados pela entidade) atingiu 5,25 milhões de toneladas em 2011, mais que o dobro do

volume comercializado em 2001. As vendas de fertilizantes minerais, de acordo com dados da Anda - Associação Nacional para Difusão de Adubos, atingiram 28,3 milhões de toneladas em 2011, ante 17,1 milhões em 2001, um crescimento também significativo de 65%. “Os setores de insumos orgânicos apresentaram expansão mais incisiva nos últimos cinco anos graças ao surgimento de tecnologias e soluções para aplicação desse tipo de produto em grandes áreas de cultivo, até então a principal barreira ao crescimento da participação deste setor no mercado”, afirmam os executivos. A visão da Inpas, que trabalha para a criação de um plano de incentivo ao processamento de matéria orgânica para a produção de fertilizantes, é de que “o pacote tecnológico baseado apenas no tripé calagem, macronutrientes (NPK) e controle químico já se esgotou, inclusive para grandes culturas”. Um dos objetivos da entidade é fazer com que os insumos de base orgânica sejam compreendidos pelas políticas públicas como elementos importantes para o aumento sustentável da produtividade, de forma a receberem crédito semelhante ao hoje oferecido por linhas de crédito como a Agricultura de Baixo Carbono (ABC).

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Capa As empresas estão buscando o empilhamento tecnológico, que inclui controle, fisiologia, espaçamento, adubação e outros itens.

Arquivo Basf

ática, como também no tratamento de sementes”, conta o gerente de Desenvolvimento técnico de mercado da Basf no Brasil, Sérgio Zambon. Embora sejam registrados como um defensivo, como de fato são, os produtos da linha AgCelence podem ser usados também pelo ganho de produtividade gerado pelo efeito fisiológico da piraclostrobina. “Agora, toda a linha de pesquisa é voltada para algo a mais, além da proteção de cultivos”, afirma Zambon. Uma nova área de negócios foi aberta só para trabalhar nessa linha, batizada de Soluções Funcionais de Culturas - em tradução livre, “Functional Crop Care”. As primeiras patentes da nova divisão começarão a ser registradas em breve. Se o Bion, da Syngenta, um produto registrado como defensivo, está fazendo sucesso no algodão baiano, os fito-hormônios começam a ganhar espaço sem fazer muito alarde. A área de utilização ainda é pequena, de 5% a 7% dos algodoais do estado, na estimativa do consultor Vitor Pereira, “por causa dos resultados inconstantes”. Mas o retorno do investimento nos fito-hormônios tem sido mais certo em resposta a estresses de fato sofridos pelas plantas. Foi o que ocorreu na última safra na propriedade do cotonicultor Adelar Cappellesso, onde os fito-hormônios foram aplica-

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Lavoura de algodão tratada com produtos com benefícios AgCelence

dos para recuperar a lavoura após uma seca fora de época. Os produtos utilizados foram o Stimulate, da Stoller, e o Biozyme, da Arysta. “Nesse caso, os fito-hormônios garantiram uma produtividade adicional de cerca de cinco arrobas de algodão em caroço por hectare, o que deu um bom retorno sobre seu custo”, relata o agrônomo Vitor Pereira, responsável pela consultoria da propriedade. Um dos pioneiros do Oeste Baiano, Cappellesso diz que está em fase de adaptação, incluindo os produtos de efeito fisiológico no manejo. “Não é uma prática bem disseminada ainda, mas está avançando bem”, avalia. O agricultor acredita no potencial dos produtos que incrementam a nutrição das plantas na sua região, devido à falta de nutrientes no solo arenoso. “Nosso solo só serve para segurar a planta de pé, e isso quando não venta muito”, brinca ele. Cappellesso vai reduzir sua área de plantio de algodão para um quarto do que foi feito na safra passada, mas não pretende reduzir o nível tecnológico da lavoura. Abrindo espaço para a soja, que já está sendo vendida antecipadamente a R$ 56 a saca, o algodão cairá de 470 para 115 hectares. Apesar dos preços menos remuneradores da fibra, Cappellesso diz que o mais rentável é fazer os investimentos tecnológicos para a máxima expres-


são do potencial genético da lavoura, inclusive com fertilizantes especiais, se necessário. A necessidade dos solos também amplia a demanda por produtos que melhorem a nutrição das plantas no Mato Grosso, diz o consultor Enrique Rojas. “Os solos dos pastos não estão prontos para receber as lavouras, e essa deficiência precisa ser compensada”, afirma o agrônomo. A região do vale do Araguaia, no leste do estado, é onde mais tem ocorrido a conversão de pastagens em lavouras no país. Estima-se que há 3 milhões de hectares na região passíveis de conversão. Rojas atende diversos produtores, de Rondonópolis a Sinop, e diz que 50% a 60% de seus clientes já utilizam fito-hormônios ou outros insumos que melhorem a fisiologia das plantas. “Só os macronutrientes não são mais capazes de dar os ganhos de produtividade que se espera. Agora é preciso entrar no ajuste fino”, afirma. Como se pode perceber, as aplicações, matérias-primas e preços dos bioestimulantes sintéticos e orgânicos são extremamente variados. Em comum, todos trazem promessas de ganhos de produtividade. De uma a seis sacas de soja a mais, ou de cinco a 30 arrobas extras de algodão. O ceticismo dos agricultores, no entanto, ainda persiste, justificadamente. Haroldo Cunha e Vitor Pereira afirmam que já testaram diversos produtos que não deram retorno. A resposta pode estar no chamado empilhamento de tecnologias. “Não se trata apenas de jogar bioestimulantes, é preciso pensá-los em uma base completa de tecnologia que precisa ser seguida”, afirma o agrônomo Nivaldo Pereira Filho, da Siap Consultoria. Zambon, da Basf, diz que a companhia tem buscado trabalhar com esse raciocínio. Afinal, se somar-

Ausência de áreas novas para ampliação das lavouras de soja e de outras culturas amplia a demanda por produtos que melhorem a produtividade das plantas

mos todas as sacas extras prometidas pelos produtos que lhes oferecem, os agricultores poderiam estar colhendo mais de 100 sacas de soja por hectare sem maiores dificuldades. “As empresas estão buscando o empilhamento tecnológico, incluindo o controle e o efeito fisiológico, mas envolvendo também itens como espaçamento e adubação ideais”, relata o diretor da empresa alemã. De fato, ainda há grandes desafios no processo de popularização dos insumos com efeito estimulante, incluindo aí os fertilizantes de base orgânica e organominerais. Mas é certo que, cada vez mais, as grandes culturas aderem a esses recursos que, até poucos anos, eram restritos a cultivos intensivos, como hortaliças, frutas e flores. Muitas dessas barreiras, como a falta de regulação adequada, já eram relatadas na edição de julho-agosto de 2010 da Agro DBO (na época, DBO Agrotecnologia). Uma reportagem de capa apontava justamente que os biotestimulantes, apesar de pouco conhecidos, eram um caminho para o aumento da produtividade. Afinal, o desnível entre o que existe de tecnologia na prateleira e o que é realmente aplicado nessa área é enorme. Schmitt, diretor da Trade Corp, calcula que esse mercado poderia saltar de US$ 1 bilhão para US$ 8 bilhões em vendas por ano, apenas de todas as tecnologias disponíveis fossem aplicadas devidamente. A julgar pelos casos dos agricultores ouvidos nesta matéria, a tendência está se concretizando, apesar da dificuldade em separar o joio do trigo e saber, com segurança, qual produto vai dar qual resultado, em qual momento da safra. Com o desenvolvimento, a orientação e o uso corretos, a velha água de batata está virando água benta. outubro 2012 - Agro DBO | 33


Entrevista

“Sou agroambientalista” Xico Graziano consegue a façanha de ser produtor rural, engenheiro agrônomo e ambientalista ao mesmo tempo, e se orgulha disso.

H

á 35 anos Xico Graziano é agrônomo, e exerceu funções as mais diversas, tanto no plano federal como no estadual, em São Paulo. É produtor rural e ambientalista. Foi secretário de estado da Agricultura e, noutro momento, do Meio Ambiente. Escreve regularmente em jornais e é um dos diretores do Canal TerraViva, do Grupo Bandeirantes. Para entender a ambiguidade deste profissional em trafegar com leveza nas incompatíveis áreas do agro e do ambientalismo, Agro DBO entrevistou o homem, também político, que já se elegeu deputado federal pelo PSDB/SP, e foi assessor político do partido nas últimas eleições presidenciais. Agro DBO – O Senhor tem sido uma das vozes mais ativas na defesa ambiental, o que influencia nas decisões de governo ou legislativas para se estabelecer políticas públicas. Como avalia o resultado sobre o Código Florestal? Xico Graziano – Escrevi sobre isso nesses dias no Estadão. A solução encontrada faz um meio termo entre as posições do ambientalismo e as do ruralismo. Nem poderia ser diferente. A nossa sociedade é complexa, tem múltiplos interesses e precisamos entender como funcionam os mecanismos de decisão política. Minha avaliação é positiva, pois antes tínhamos uma lei florestal absurda, impossível de ser cumprida.

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Agro DBO – Hoje, a grande disputa nos países desenvolvidos está na produção de energia elétrica. Como eles não dispõem de rios para formar hidrelétricas, as alternativas seriam as usinas térmicas movidas por fósseis (carvão, petróleo e gás) ou usinas nucleares. As energias alternativas sustentáveis, eólica e solar, encontram-se em xeque, por serem caras e por não serem passíveis de se armazenar. No Brasil temos as hidrelétricas, combatidas pelos ambientalistas. Qual a sua aposta para o futuro em termos de fonte de energia elétrica? Xico Graziano – Não sou especialista nesse assunto, mas não temo em dizer que as energias renováveis serão a base da matriz. Vejo que a madeira, (na forma de pellets), por onde começou a história energética da Humanidade, está voltando no fornecimento de calor, e energia, de forma sustentável. A agricultura energética já é uma realidade. Porém, prevejo que formas alternativas de geração de energia, ainda desconhecidas ou pouco usuais, ainda serão desenvolvidas no futuro, até 2050. Agro DBO – O Senhor discordaria – ou concorda – de que os produtores de energia nuclear

são os grandes financiadores do ambientalismo? Xico Graziano – Nunca ouvi falar disso antes. Agro DBO – Qual prova científica, em sua opinião, é incontestável, no sentido de que haverá aquecimento (de caráter antropogênico) e mudanças climáticas? Existem cientistas respeitados que contestam o aquecimento, afirmam que deve haver resfriamento. Xico Graziano – Tenho acompanhado, com muito interesse, esse debate, que suponho esteja resolvido somente até o final dessa década; somente aí saberemos qual das correntes de cientistas tem mais razão. Por ora, trata-se de considerar os dois cenários como incertos. As provas científicas sobre o aquecimento global baseiam-se em tendências alimentadas por modelos cada vez mais precisos, mas ainda não comprovados. E os dois lados podem estar certos. Quer dizer, pode estar havendo uma tendência antrópica ao aquecimento, e por outro lado uma tendência física, planetária, para o resfriamento. Ninguém pode provar ainda nenhuma das duas hipóteses. Agro DBO – O Senhor admite que exista uso político e comercial das questões ambientais? Se sim, quais são? Por parte de quem? Xico Graziano – Numa sociedade democrática, é natural que as forças políticas procurem se organizar para tirar proveito de cada situação, seja ambiental ou socioeconômica. Errado está é gente da agricultura querer ficar de braços cruzados, como um bobo, achando que os outros irão,


Pode estar havendo uma tendência antrópica ao aquecimento, e por outro lado uma tendência física, planetária, para o resfriamento. por ele, defender a produção rural. Pura ingenuidade. Não tem que reclamar de nada, mas sim lutar para defender os interesses do campo. E aprender a utilizar as armas da comunicação de massa. Agro DBO – Por que a sociedade humana não debate a grande causa da poluição no planeta, o excesso populacional? O planeta suportará 9 bilhões de bocas e de vorazes consumidores? Xico Graziano – O ambientalismo, aqui e lá fora, nunca discutiu pra valer a relação entre a população e o meio ambiente. Trata-se de um defeito sério dos ecologistas. E, como ninguém teve a coragem de botar o dedo na ferida, temos a explosão populacional.

Agro DBO – Como o Senhor se sente, como agrônomo e homem com tradições no agro, com um pé em duas canoas, no agro e no ambientalismo, que são aparentemente inconciliáveis? Xico Graziano – Eu sou a prova viva de que são perfeitamente conciliáveis as duas posições, pois eu sou ambientalista e ruralista ao mesmo tempo. Sou um agroambientalista. Tenho 35 anos de profissão, como agrônomo e produtor rural, como escritor e como político nesse sentido. Na minha fazenda, todas as matas ciliares estão em recuperação e isso só valorizou minhas terras, não perdi nada com isso. Jamais queimei uma pastagem na vida, nem polui meu solo com venenos. Amo os pássaros e me deleito com a natureza, e

meus filhos me admiram por isso, e são eles todos bons ecologistas. Mas com o pé no chão. O que condeno é a sociedade, e os ambientalistas radicais, tratarem com desprezo, ou desdém, as pessoas da roça, como se o ruralismo fosse uma coisa do mal. E detesto ver gente brutamonte, fazendeiro rico às vezes, que agride a natureza sem compaixão pela vida silvestre, maltrata seu gado com chicote, destrói o solo. O agricultor será o ambientalista de amanhã, pois ele conhece a natureza melhor que ninguém. Somos nós, gente do campo, que devemos assumir a agenda ambiental, tomar como nossa causa, e desvendá-la corretamente, sem receber lição de moral de gente que nada entende da roça.

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Irrigação

Mais água, mais renda. Gaúchos adotam programa de aquisição de equipamentos de irrigação e construção de micro-açudes para enfrentar a seca Glauco Menegheti

Lavoura de arroz sob pivô-central. No Rio Grande do Sul, prevalece o sistema de irrigação por inundação

N

os últimos dez anos, de acordo com o Centro Estadual de Meteorologia da Fepagro – Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária, em sete houve enfrentamento de secas, que afetaram em cheio a agropecuária gaúcha. Na safra 2011/2012, a Farsul – Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul calculou os prejuízos da estiagem em R$ 14 bilhões. Não à toa, no primeiro semestre o PIB estadual encolheu 1,8%, influenciado pela queda do PIB agropecuário, que recuou 27%. “Normalmente, quando a agropecuária do Rio Grande do Sul vai mal, o PIB estadual fica abaixo do nacional”, diz o Secretário Adjunto da Agricultura, Cláudio Fioreze. E, apesar

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de os órgãos oficiais preverem que este ano será influenciado pelo El Niño, que apresenta chuvas regulares no verão, as precipitações insuficientes no inverno já preocupam irrigantes e arrozeiros, para quem a água é essencial. De acordo com a Emater, em meados de setembro os açudes estavam com 30% da capacidade normal. Com o trauma gerado e as perdas contabilizadas na última temporada, 36% na soja e 54% no milho, o mantra da irrigação passou a ser entoado não só no campo, mas nos gabinetes. O que se traduziu em política de estado, com o programa Mais Água, Mais Renda, com o qual governo se propõe a subvencionar, com orçamento de R$ 75 milhões ao ano,

equipamentos de irrigação e construção de micro-açudes. O número insuficiente de açudes e micro-açudes compromete os planos de intensificar a produção. De acordo com a Emater, 160 mil micro-açudes foram construídos no estado ao longo da história. A meta do Mais Água, Mais Renda é somar mais 30 mil até o final do governo (três anos), o que daria para irrigar 300 mil hectares – levando em conta que cada estrutura pode abastecer 10 hectares. Nas contas do governo estadual, na média, cada micro-açude vai custar R$ 10 mil e, o hectare irrigado, R$ 5 mil. Atualmente, o Rio Grande do Sul tem a irrigação como uma prática marginal, com exceção do arroz, que utiliza


Dificuldades Pode parecer pouco, mas existe uma justificativa. Em termos de infraestrutura, um dos gargalos que impedem o avanço da irrigação no Rio Grande do Sul é a péssima qualidade da energia no interior. A maior parte da rede é monofásica, enquanto projetos maiores do que os recomendados necessitam de energia trifásica. Esse é um dos motivos pelos quais a Emater não aconselha mais do que 3 hectares e sempre focados na produção de leite. “O problema da pecuária de leite é a falta de comida que escasseia no verão e inverno. Com os projetos, poderemos sair da média atual de 7 mil litros por hectare/ano para 22 mil litros por hectare/ano”, projeta Enoir Daniel. Por outro lado, o rendimento bruto por hectare com a cultura do milho é de R$ 4 mil, enquanto que com a atividade leiteira é possível obter um faturamento bruto de R$ 14 mil/ha.

Elio Marcolin

Plantação de arroz com as panículas em fase de maturação. O Rio Grande do Sul dispõe de um milhão de hectares inundados

Atento a essas contas, o MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores, com abrangência em todo estado, vai encaminhar, num mesmo pacote, 2 mil propriedades para obterem o crédito do Mais Água, Mais Renda. O benefício compreende o pagamento da primeira e última parcelas e o subsídio de cerca de 30% do valor do financiamento, com três anos de carência e sete anos para pagar. O restante do recurso deverá ser coberto pelo programa Mais Alimentos, que oferece taxa de juro de 2% ao ano e uma década para pagar. Segundo o diretor do MPA, Romário Rossetto, o recurso será utilizado para a aquisição de equipamentos de irrigação e a construção de micro-açudes para reservar água e produzir milho, soja, fruticultura e hortigranjeiros. “Pretendemos produzir alimentos e fornecê-los ao PAA – Programa de Aquisição de Alimentos e ao PNAE – Programa Nacional de Alimentação Es-

colar”, diz Rossetto. Elevar a produtividade, garantir a segurança alimentar das famílias e mercado para os produtos são os principais objetivos do MPA. O acordo também prevê o treinamento de 60 técnicos da Coopsat – Cooperativa de Prestação de Serviços de Assistência Técnica, ligada ao MPA, para acompanhar os 2 mil projetos de irrigação. Outro problema enfrentado é o do armazenamento de água. No Rio Grande do Sul não existe falta d’água, mas de infraestrutura para armazená-la no momento crítico do ano, que vai de dezembro a fevereiro. A média de precipitações situa-se entre 1.299 mm e 1.500 mm na região sul do estado e, ao norte, entre 1.500 mm e 1.800 mm. O volume é mais do que o dobro do disponível no Corn Belt (700 mm), o “cinturão do milho” dos Estados Unidos, onde se concentra o grosso da produção norte-americana de soja e milho, e da Espanha que, com 500 mm de Elio Marcolin

a técnica por inundação e ocupa 1 milhão de hectares no estado. São 80 mil hectares irrigados em culturas de sequeiro e 20 mil sob a agricultura familiar, abarcando fruticultura, olericultura e pastagem. Conforme o coordenador do Programa de Irrigação da Emater, José Enoir Daniel, a meta é irrigar 50 mil hectares em três anos, o que poderá beneficiar 25 mil propriedades. “Com isso, terminaria o problema de abastecimento de milho no estado”, pondera. Pelas criações expressivas de suínos e aves, o Rio Grande do Sul é importador líquido de cerca de 1 milhão de toneladas/ano. Mas a Emater, que participa do programa estadual na preparação de projetos para a agricultura familiar e assistência técnica, está focada na irrigação de pastagem e milho para silagem mirando a produção leiteira. “Recomendamos projetos de aspersão fixa, em um a três hectares, com os equipamentos enterrados ou montados superficialmente.”

Lavoura de arroz com as plantas em pleno enchimento de grãos. Meta do programa é irrigar 50 mil hectares em três anos

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Elio Marcolin

Irrigação

Área de arroz com lâmina de água contínua. Na metade sul do estado, a açudagem não funciona. O que dá certo é o barramento da água

média anual, consegue alimentar uma população de 50 milhões de habitantes e satisfazer gastronomicamente o mesmo número de turistas a cada ano. No momento, faltam obras de infraestrutura para garantir as reservas de água. E a burocracia tem atrapalhado um bocado. Duas barragens de vulto, a do Taquarembó e a de Jaguari, eram previstas para serem entregues em 2010, mas tiveram os projetos readequados pela falta de verba disponível para o término da empreitada. Isso levou à parada das obras em Taquarembó, no início de 2011, e

em março, no arroio Jaguari. Taquarembó foi projetada para irrigar até 12,7 mil hectares em Dom Pedrito, Lavras do Sul e Rosário do Sul; e a A Jaguari, 20 mil ha em Lavras do Sul, Rosário do Sul e São Gabriel. A primeira obra está 86% concluída. O aporte será de R$ 58 milhões da União, com contrapartida de R$ 14,5 milhões do governo estadual para finalizar os serviços de desmatamento da área de alague e conclusão do maciço de concreto. Para os canais, serão investidos R$ 2,9 milhões da União e R$ 730 mil do estado. Além disso, o Daer fará

Gargalo ambiental Os irrigantes gaúchos enfrentam também a burocracia na apro­ vação dos licenciamentos ambientais. Uma das questões que o Mais Água, Mais Renda veio amenizar. Até 100 hectares, a liberação da licença é automática, explica Paulo Lipe, coordenador do projeto. Mas para quem pretende montar um projeto que extrapole essa dimensão, terá que, no mínimo, esperar mais de um ano. Prevendo o aumento da demanda, o DRH – Departamen-

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to de Recursos Hídricos, órgão da Secretaria de Meio Ambiente, providenciou em maio a contratação emergencial de 20 técnicos. Com isso, no mês passado, o número de processos analisados, 1.215, foi cinco vezes maior do que a média obtida entre novembro de 2011 e abril de 2012. Já a emissão de outorgas cresceu 3,6 vezes, totalizando 345 no mês passado. O número de processos acumulados caiu de 4,8 mil para 2,7 mil.

a obra de recuperação de ponte sobre o arroio na ERS 630, em fase de estudos. Além da irrigação, a barragem garantirá o abastecimento dos 40 mil habitantes de Dom Pedrito. Para a barragem de Jaguari, 60% concluída, serão aplicados R$ 47 milhões da União e R$ 11,8 milhões do estado. E nos canais, o investimento será de R$ 3 milhões da União e de R$ 767 mil do estado. A partir da assinatura dos convênios, o governo gaúcho encaminhará as licitações das obras. Ambas as barragens vão atender somente lavouras de arroz. De acordo com o diretor de Irrigação da SOP – Secretaria de Obras, Paulo Paim, a lei que implantou uma política para o setor no estado, criada no governo anterior, previu a execução de um plano diretor que apontasse para onde caminharia a irrigação estadual. Ela nunca foi criada. Agora, finalmente, em parceria com o Ministério de Integração, o Rio Grande do Sul começa a delinear o documento. Já se sabe qual será o modelo adotado: o de acordos por região. “A metodologia será participativa”, afirma Paim. Segundo ele, a radiografia vai apontar se as regiões têm capacidade para suportar a demanda agrícola, se realmente há interesse por parte dos produtores neste investimento, entre outras questões. “Na metade sul do estado, a açudagem não funciona. O que dá certo é o chamado barramento. Esse tipo de informação precisa ser dominada em todas as regiões do estado.” Plano diretor Em setembro, foi feita a licitação, organizada pelo IICA – Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, para a escolha da empresa. Ela terá o prazo de sete meses para executar o levantamento sobre as necessidades hídricas de cada região. O custo para elaborar o plano diretor será de R$ 700 mil, dos quais 80%


Um dos gargalos que impedem o avanço da irrigação no Rio Grande do Sul é a péssima qualidade da energia no interior vão ser custeados pelo Ministério da Integração e 20% de contrapartida do estado. Ao ser perguntado sobre a necessidade de construção de açudes e barragens no estado, o diretor da SOP diz que esses números ainda não são conhecidos. O investimento médio neste tipo de projeto é de R$ 6 milhões por açude e R$ 200 milhões por barragem. Uma coisa é certa, segundo ele. O padrão das estiagens mudou. Se antes as secas castigavam a região sul do estado agora também atingem as regiões norte e noroeste, onde está o grosso da produção gaúcha de soja e milho, respectivamente a primeira e a terceira culturas mais importantes. A segunda é a do arroz; Pesquisas O Rio Grande do Sul é o estado que mais irriga no Brasil, mas por apenas um método, o de inundação – que é o menos sustentável do ponto de vista do gasto de água e de energia. Com o aumento do custo de energia e com a premissa da sustentabilidade se impondo, a pesquisa foi atrás de respostas para a melhorar a conversão de água. O Irga – Instituto Rio Grandense do Arroz é um dos que se destaca na pesquisa dedicada à orizicultura. “A irrigação é o terceiro item mais caro, depois da terra e dos insumos, representando 10% do total”, diz o engenheiro do Irga, Elio Marcolin. Ele explica que, graças à aposta na pesquisa é que a necessidade de manter a lâmina d’água caiu de 15 mil metros cúbicos (m³) por hectare para 11 mil m³/ha nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a produtividade teve aumento inversamente proporcional: de 4 mil/ha para 7 mil/ha. Como é tendência em outras culturas, as cultivares de arroz possuem porte mais baixo, o que facilita a redução do nível da

lâmina d’água. Marcolin é categórico ao afirmar que ainda assim é possível reduzir o volume de água empregado nas lavouras em 20% – com casos que chegam até a 50%. A lâmina é mantida na lavoura para evitar que as infestantes retornem e que seja necessário fazer mais uma aplicação de herbicida. Não é preciso pirotecnia científica: basta nivelar a área de plantio, ao custo de R$ 1 mil por hectare, a fim de ter o controle sobre a saída de água da plantação, manter a lâmi-

na em, no máximo, 5 centímetros, e elevar a altura das taipas entre 12 e 15 centímetros. “Com isso, a água pode passar de uma quadra a outra sem resultar em problema de erosão”, explica. Pesquisas do Irga indicam que a planta do arroz pode permanecer sem água quando o desenvolvimento esta entre seis e oito folhas. Outra constatação importante a que Marcolin chegou é que 45% da água é evaporada para a atmosfera, 5% é absorvida pelo solo e apenas 50% é

Irrigação por aspersão Vantagens

• Possibilidade de rotação

de cultura, controlando de forma natural as invasoras e qualificando o solo sem o uso de produtos químicos. • Uso menor de água. Em média, cerca de 50% do que é necessário no sistema convencional. • Facilidade na colheita, pois o solo é drenado mais facilmente. • Sistema de plantio direto sobre a palha da cultura em rotação. • Tranquilidade para enfrentar a estiagem.

Dificuldades

• Elevado custo de aquisição,

em média R$ 3,5 mil para cada hectare. • Preparo da área, removendo obstáculos como redes elétricas, estradas, valetas, pedras e tudo que estiver no raio de irrigação do pivô. • Perdas nos vértices (cantos onde o sistema não alcança). • Atoleiros nos trilhos do equipamento. • Escorrimento de água pela superfície do solo mais compactado, prejudicando o desenvolvimento do arroz naquele local.

A seca atinge também as regiões norte e noroeste do estado, onde está o grosso da produção gaúcha de milho e soja (foto)

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Irrigação A aspersão dispensa toda a estrutura necessária na irrigação por inundação, que inclui preparo do solo e necessidade de taipas

Fernando Arns

Werner Arns, produtor em Uruguaiana, usa aspersão na soja, no milho e, mais recentemente, no arroz, com ótimos resultados

realmente aproveitada pela planta. Num experimento realizado pelo Irga com as características descritas acima, chegou-se a uma produtividade de 12 mil quilos por hectare com lâmina de 5 centímetros e volume de 8,5 mil metros cúbicos. O que freia um novo salto de eficiência no gasto de energia e água é o fato de que 60% das áreas cultivadas com arroz no Rio Grande do Sul serem arrendadas. Com isso, poucos produtores se sentem estimulados a investir na terra. Preferem, ao invés disso, consumir mais água e mais energia, embutindo tais gastos nos custos variáveis. Há também no estado quem opte por tomar decisões mais ousadas, como a do produtor Werner Arns, proprietário da Fazenda Águas Claras, de Uruguaiana. Trata-se de um sistema inovador, que irriga arroz por aspersão. Na propriedade tem instalados três pi-

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vôs, com sistema de plantio direto na palha e rotação de culturas. No verão são irrigados 288 hectares de arroz e 255 hectares com soja, enquanto no inverno são 300 hectares, divididos em um terço cada para trigo, aveia e azevém – contando com a integração lavoura-pecuária. O produtor explica que a grande vantagem da irrigação por aspersão é a eficiência no uso da água, mão de obra e energia. Embora o sistema convencional tenha um uso da água de forma racional, o desenvolvido por Arns é ainda mais eficiente, pois utiliza quase a metade da água. E a produtividade é bastante próxima ao sistema convencioal: oscila entre 9 mil quilos por hectare a 9,8 mil quilos por hectare no arroz e entre 3 mil e 4 mil quilos na soja. Antes de adotar o sistema, alguns ensaios técnicos testando variedades de arroz foram realizados. “O resultado foi positivo, mas tínhamos ainda algumas dificuldades. Sem a lâmina de água, tivemos problemas com invasoras, que conseguimos controlar com herbicidas de arroz”, diz o agricultor. O sistema desenvolvido na Fazenda Águas Claras requer menos mão de obra e dispensa toda a estrutura necessária na irrigação por inundação, que inclui preparo de solo e necessidade de taipas. “Com uma produtividade semelhante ao sistema convencional, o resultado é uma rentabilidade maior do negócio”, garante. Superadas as dificuldades, Arns está realizando um grande sonho: o fim da monocultura do arroz que domina a região da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. “Hoje, a Fazenda Aguas Claras, é pioneira no plantio de soja na região e já atrai a atenção de muitos produtores e empresas interessadas no desenvolvimento de parcerias”, conclui o produtor. O resultado da diversificação implementada por

Arns, foi comprovada na safra passada na comercialização da colheita de soja com ótimos preços, enquanto no arroz estava com uma superoferta e preços baixos. Problemas A última safra deixou péssimas lembranças para muitos agricultores, mas, para Elicelio Batista Machado, foi a gota d’água. De 15 anos, em uma década ele enfrentou problemas de estiagem na propriedade de 60 hectares, cujos resultados divide com o tio. “Ficou difícil até para a subsistência no último ano”, confessa Machado. As lavouras de milho, batata e mandioca não vingaram e ele teve que fazer bicos para garantir a comida na mesa da família. Para se ter ideia da gravidade da falta de chuva, as duas cacimbas que abastecem a propriedade com água potável secaram por quatro meses. “Nunca tinha acontecido isso antes.” Foi preciso trazer ela de longe. O único açude, que ocupa 0,3 hectare, ficou com pouquíssima água, com nenhuma capacidade para irrigar. O resultado é que a família teve que, uma a uma, ir abandonando atividades antes usadas para diversificar. Primeiro foi a do arroz, há seis anos, depois foi a ovinocultura. Agora, estão matutando até sobre largar o milho. “Temos muito custo. O agrônomo da Emater vem aqui, diz para usar insumos, mas no final não conseguimos produzir nada ou muito pouco.” A última safra cheia que tiveram na região foi há sete anos. A saída passaria pela irrigação, mas, para isso, teriam que investir recursos de que não dispõem. “Ouvimos falar no rádio sobre o programa do governo estadual que subsidia equipamentos e a construção de micro-açudes, mas por enquanto não chegou nada aqui.”


Marketing da terra

Precisa fazer mais marketing, para agregar valor. Richard Jakubaszko

Banana do norte de Minas Gerais. Muito trabalho, boa divulgação, e bons resultados, mesmo com o baixo investimento dos produtores.

M

arketing é a ciência das diferenças. Se um produto ou serviço possui algum diferencial que seja perceptível pelo consumidor é possível fazer marketing e agregar valor. Mesmo entre commodities é possível fazer marketing, seja para estimular aumento de demanda, seja para fortalecer uma marca, e assim agregar valor. As indústrias e o setor de serviços fazem isso permanentemente, ao contrário do agronegócio, onde os

Norte do Rio Grande do Sul e o Sul de Santa Catarina produzem maçã de reconhecida qualidade.

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preços sobem e agregam valor apenas quando a demanda é maior do que a oferta, ou quando atacadistas especulam. Como o mercado não é regulado pela produção e oferta, e sim pela demanda, há que se estimular a demanda através do marketing. E estimular demanda significa tornar “desejável” aquilo que se quer vender. Estabelecida essa premissa, é interessante observar que os grãos andam em flagrante descompasso, pois milho e soja andam na “fal-

tura”, pela demanda maior que a oferta, enquanto arroz e feijão, café e algodão, estão se equilibrando em preços ora desestimulantes, ora levemente remuneradores, no entanto, sem oferecer lucros que encham os olhos. Da mesma forma as frutas, que observam queda na demanda do mercado externo, por causa da crise que afeta o Mercado Comum Europeu e muitos outros países. É o momento de se olhar não apenas o mercado internacional, mas o mercado interno, as oportunidades que se apresentam aos produtores no sentido de se incentivar a demanda. O que faz a Europa, neste momento, por exemplo? Incentiva o consumo e a demanda, através da Feira Internacional de Frutas e Hortaliças, conhecida como Fruit Attraction, que se realizará de 24 a 26 de outubro próximo, em Madri, Espanha, e inclui no evento um fórum de referência para os profissionais do setor de hortifruti internacional que queiram abrir novas oportunidades de negócio. Entre outras coisas, a feira reúne os principais responsáveis de compras, distribuição e importação, assim como representantes de quase uma centena de países. Além disso, possibilita que os profissionais possam ter, num único local e em apenas três dias, informações sobre tudo o que acontece e as tendências do segmento. Na sua última edição, no ano passado, a Fruit Attraction recebeu 18 mil visitantes, dos quais quase 20% eram estrangeiros. Profissionais com alto poder de decisão, que pertencem à cadeia de negócios, interligados


pelas atrações máximas, as frutas, e isso inclui compradores, traders, jornalistas, especialistas das indústrias de alimentos, e grandes chefs de cozinha. Tudo isso gera estímulos à demanda, gera negócios, da mesma forma que uma feira ou festa regional iria estimular o consumo, esta apenas em menor proporção do que uma feira de caráter internacional. Entretanto, uma feira é apenas um dos muitos mecanismos e ferramentas da ciência do marketing, à disposição dos produtores. Os produtores brasileiros (de frutas, hortaliças, de arroz e feijão, etc.) dispõem hoje de um mercado interno com alto potencial de consumo, pois estamos em tempos de pleno emprego na área urbana, mas os consumidores são estimulados apenas pelas indústrias de consumo, nas áreas de eletroeletrônicos, de moda, de veículos, e são para esses setores que os assediam que eles se voltam, com as carteiras abertas, cheias de dinheiro e de cartões de débito e de crédito. Não estaria na hora de se incentivar o consumo caseiro de alimentos, por exemplo, como uma boa feijoada, feita em casa? Há muitas razões para o consumo per capita de arroz e feijão ter caído, e não é apenas o conforto da mulher moderna, que trabalha fora, e não deseja ter muito trabalho em casa, preferindo a comodidade de fazer as refeições nos restaurantes ou de consumir alimentos industrializados. Entre essas razões está a ausência

de estímulos. Que se una a cadeia produtora e distribuidora para incentivar o consumo. E esse “conselho” é válido para as frutas e hortaliças, ou mesmo qualquer produto alimentar. Algumas das ferramentas do marketing disponíveis, como a IG (Indicação de Origem, ou Geográfica), podem demorar, porque envolvem burocracias, mas existem possibilidades mais imediatas, como promoções em parcerias com redes de supermercados, que geram demanda automaticamente. Que se produzam folhetos e material promocional com receitas culinárias inovadoras, ou mesmo antigas, mas já comprovadas, e que sempre deram bons resultados no curto prazo. Que se informe nesse material as vantagens do uso de cada um desses alimentos, especialmente na área da saúde, prevenindo ou curando

Indicação de Origem, proporcionada por cafés de alta qualidade, geram valor agregado e consumo garantido, no mercado interno e na exportação.

Especialmente os vinhos do Vale dos Vinhedos, que teve a 1ª IG oficialmente reconhecida no Brasil, já andam com a qualidade reconhecida.

É o momento de se olhar não apenas o mercado internacional, mas o mercado interno.

Feiras internacionais, atreladas a simpósios e fóruns dão resultados muito bons, geram vendas a médio e longo prazo.

doenças crônicas, ou de uma boa alimentação, balanceada e equilibrada, especialmente para crianças e idosos. Existe ainda a alternativa de se constituir pequenas indústrias alimentícias, em parcerias com pro-

dutores de cada região. Foi assim que começaram empresas do porte de Nestlé e Parmalat, hoje em dia multinacionais da área. Não há razões que justifiquem o “nada há para se fazer”, a omissão leva ao nada. outubro 2012 – Agro DBO | 43


História

Uma obsessão: a erosão.

N

este artigo, reminiscências de um agrônomo experiente, com 80 anos * de agronomia na prática, e uma obsessão: conservação de solos, legado maior dessa verdadeira legenda viva que é Fernando Penteado Cardoso, entre outras atividades, fundador e presidente da Manah S/A por mais de meio século. O presente texto é uma homenagem da revista Agro DBO ao Dr. Fernando Penteado Cardoso, pelos seus 98 anos completados em setembro último, em reconhecimento à sua luta, e a todos os agrônomos deste país, no dia do Engenheiro Agrônomo, atividade humana das mais tradicionais e, mais do que nunca, uma profissão do futuro. Fernando Penteado Cardoso * Certo dia, ao alinhar ideias para uma palestra em Rio Verde/GO, procurei relembrar o porquê do interesse persistente sobre conservação do solo durante minha carreira profissional. Então veio um lam-

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pejo de minha memória. Aos 14 anos, conheci, assombrado, o estrago causado pelas chuvas fortíssimas no verão de 1929, na fazenda da família em Descalvado/SP. Cafezais lavados, morros desmo-

ronados, voçorocas imensas, foram imagens indeléveis para um garoto que passava sempre férias junto às lidas com café e gado, ouvindo queixas de terra lavada, solo vidrado, cafezal decadente. Anos depois, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-ESALQ, escrevi meu primeiro artigo sobre erosão, enquanto ainda estudante. Acompanhava nos anos 30 as notícias das nuvens de poeira no “dust bowl” no meio-oeste dos EUA. Fascinava-me o trabalho técnico e a bandeira levantada por Hugh Bennett na América do Norte. Lia tudo que me chegava às mãos sobre conservação do solo. Já graduado, ainda nos anos 30, construía sulcos em nível com plaina rudimentar puxada por dois burros, marcava pomar de citrus alinhado em contorno para a família Siqueira, em Bragança Paulista (SP) e com colegas organizamos o Escritório Técnico Agrícola (ETA), responsável pelos pioneiros terraços de base larga, construídos em 1938 para Caio Ramos, Faz. Anhumas, em Campinas/SP. Seguiram-se 50 anos de fertilizantes, sempre em convívio com lavouras e lavradores, vivendo suas vitórias e insucessos: dentre estes, sempre a erosão. Quanto adubo ia por água abaixo! Organizaram-se memoráveis campanhas no País. Fundou-se o Departamento de Mecanização Agrícola (DEMA) para fazer terraços. Tentamos a Associação Brasileira de Conservação do Solo, de vida efêmera. Milhares de quilômetros de terraços foram construídos. A curva de nível entrou no subconsciente e as plantações vistas do alto, formavam um belo conjunto de linhas sinuosas. Mas os estragos da erosão persistiam. Os solos trabalhados e ex-


Outros grupos de “amigos da terra” lançaram-se ao plantio direto, exagerando suas virtudes, tornando-o até como ideologia, em vez de técnica postos perdiam porosidade e chuvas menores começaram e escorrer, erodindo os intervalos entre terraços, soterrando canais, saltando cordões, lavando e carregando a preciosa terra. Nesse quadro preocupante, um agrônomo Plínio B. Junqueira, produtor em São Joaquim (SP) me alarmou: “Desisti das roças devido à erosão, apesar dos terraços. Plantei cana pensando nos meus netos”. Eu mesmo, em Mogi-Mirim, arrendei para a cana, 1984 a 1988, sem qualquer escorrimento. Voltando para soja e milho à base do arado e grade, sofri extensa erosão em 1991, apesar dos terraços. Senti como que lanhada minha própria pele. A partir da década de 60, com o progresso da química agrícola, com seus herbicidas e reguladores de crescimento, novas ideias surgiram nos Estados Unidos, no sentido de manter o solo protegido por resíduos vegetais, deixando-as na superfície sem incorporar. Outros técnicos, mais ousados, evitavam a aração, abrindo novos caminhos de plantio direto – PD e / ou cultivo mínimo. No início dos anos 70, agricultores do Paraná, alarmados com a erosão, foram aos EUA para verificar as novas técnicas. Trouxeram o especialista Shirley Phillips, do Kentucky para assessorá-los. Outros grupos de “amigos da terra” lançaram-se ao plantio direto, exagerando suas virtudes, tornando-o até como ideologia, em vez de técnica. Os defensivos foram às vezes aceitos como panaceia. Houve erros e fracassos. Mas a persistência e observação de muitos técnicos e lavradores resultou, passo-a-passo, no sistema mais eficaz de proteção e melhoramento do solo. Constatei em Palmeira (PR) 10

t/ha de milho em solo que “não via ferro há 15 anos”. Registrei Municípios - Ponta Grossa (PR), Xanxerê (SC), com 95% das lavouras em plantio direto. Ouvi depoimentos de agricultores de Abelardo Luz (SC), desesperados pelo estrago da chuva em terra cultivada, enquanto vizinhos com plantio direto pouco ou nada sofreram. Registrei observação pitoresca de lavrador em Montividiu (GO) que “não mais perdia o sono por trovoadas à noite”, após a adoção do plantio direto. Desde muitos anos vimos acompanhando o assunto na Manah. Em nosso periódico “Manah dá... notícias”, criamos uma seção sobre “Plantando sem erosão”. Em 1980 traduzimos e publicamos artigo da revista Nature, relatando novos horizontes do cultivo com resíduos. Em 1982 resumimos trabalhos científicos na Áfri-

ca Equatorial sobre manejo de resíduos como alternativa para a rotação com descanso em capoeira (bush fallow). Propusemos ao diretor técnico da EMBRAPA a conversão do CPAC em um Centro de Pesquisa de Plantio com Resíduos. Patrocinamos por 4 anos observações e experiências em Morrinhos (GO) e motivamos nossa rede de vendas a perguntar aos clientes: “já ouviu falar em plantio direto?”. Convenci-me de que o manejo dos resíduos e, tanto quanto possível, o plantio direto, eram o futuro da agricultura. Os exemplos estavam ai pra quem quiser ver. Mais de 80% dos projetos submetidos ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos adotam voluntariamente o manejo de resíduos, para cumprir a proteção obrigatória do solo a partir de 1995, por Lei Federal.

O Brasil inovou o plantio direto para adaptá-lo 1aos trópicos

outubro 2012 – Agro DBO | 45


História ra conservação e melhoramento do solo: 1 - Restabelecer a porosidade e a permeabilidade da terra. 2 - Criar obstáculos ao escorrimento das águas. 3 - Reduzir as flutuações de temperatura superficial. 4 - Aproveitar mais a água da chuva ou de irrigação.

Fernando Penteado

Cardoso em 19/outubro/2011, ao completar 97 anos

Sem pretender entrar em pormenores, poderíamos assim resumir os objetivos a alcançar por métodos vegetativos pa-

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A agricultura com resíduos tornou-se viável com os herbicidas e reguladores de crescimento, que substituíram o controle do inço por cultivos mecânicos, que requeriam terra solta sem torrões. Os solos se formaram ao longo de milhares de anos pelo acúmulo superficial de resíduos. Sua estrutura e vida biológica se baseiam na deposição do material orgânico, camada sobre camada, por tempos imemoriais.

Não há o que temer em retornar às regras da natureza, agora que a ecologia se tornou preocupação mundial. Lancei por “carta aberta” um apelo veemente a todos os meus colegas da pesquisa, da divulgação, do assessoramento e da administração rural: “Estudem esse assunto sem preconceitos, com interesse e com senso de responsabilidade para o problema.” A agroquímica, a genética, a mecânica robotizada nos acenam com horizontes luminosos para os próximos anos. Cumpre nos prepararmos para as maravilhas agronômicas do futuro. Para tanto, é primordial ter um solo conservado e melhorado. * Carta Aberta aos Agrônomos - OESP, Supl. Agrícola, 14.4.1993 Editorado pelo autor em 15.9.12. **Engenheiro agrônomo Sênior, Esalq/USP, 1936.


Artigo

Cana e ambiente Ao contrário do que se diz, a cana-de-açucar colabora com a mitigação do efeito estufa, superando os impactos ambientais negativos Decio Luiz Gazzoni*

A

agrricultura e alterações no ambiente são gêmeos siameses, convivendo desde que o homem de Neanderthal pela primeira vez plantou uma roça. A cana-de-açúcar apresenta interações positivas e negativas com o ambiente, sendo o consumo de água, o uso de fertilizantes e a participação da cultura na dinâmica dos gases de efeito estufa os principais aspectos. Por ser a matéria prima do etanol, um combustível amigável ao ambiente, a cana gera a expectativa de colaborar com a mitigação do efei-

plantada e do volume de água consumido, diminuindo os impactos ambientais. Dentro da usina, o consumo de água se reduziu de 5,6 m3 para 1,8 m3, por tonelada de cana processada, nas duas últimas décadas. Por lei, as novas plantas industriais que se instalarem em São Paulo podem consumir, no máximo, 1 m3 de água por tonelada de cana processada. Em linha com a lei, a indústria Dedini dispõe de tecnologia que permite o fluxo de água em circuito fechado, reduzindo a zero a necessidade de água adicional nas usinas! A cana-

A cana utiliza menos água que a soja ou o café, em relação ao volume de biomassa produzido.

* O auto é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja

to estufa, superando os seus impactos negativos sobre o ambiente. Com plantações concentradas em áreas com boa distribuição de chuvas, embora apresente alta resposta à irrigação, a técnica é pouco utilizada. Os resultados demonstram que a cana utiliza menos água que outros cultivos, como soja ou café, em relação ao volume de biomassa produzido por unidade de área. A alta resposta da cana à irrigação foi demonstrada pelo pesquisador Marcos Landell (IAC, Ribeirão Preto), que desenvolveu uma variedade com produtividade superior a 300 t/ha, cultivada em condições ideais de suprimento de água e nutrientes. A vantagem desta alta produtividade é reduzir a expansão da área

-de-açúcar consome apenas 13% do adubo utilizado no Brasil. Os fertilizantes nitrogenados são altamente solúveis, sendo lixiviados para as camadas sub-superficiais do solo. O excesso de fósforo provoca a eutrofização, que é a proliferação de algas na água. Assim mesmo, as avaliações disponíveis indicam que estes problemas são de baixa magnitude no Brasil, comparativamente aos EUA, Europa ou Japão. Subprodutos contaminantes, como a vinhaça, não podem ser jogados em rios e são reaproveitados como fertilizantes, sendo submetidos a limites de aplicação para evitar contaminação do solo. Em 2008, com produção semelhante de etanol no Brasil e nos EUA, a cana brasileira con-

sumiu 910 mil toneladas de adubo, muito abaixo dos 2,8 milhões de toneladas empregados na produção do milho norte-americano destinado à produção de etanol. Contribuindo para reduzir as emissões, a Embrapa desenvolveu a tecnologia de bactérias simbiônticas, fixadoras de nitrogênio, que podem diminuir em até 50% o uso de adubos nitrogenados minerais na cana. Os fertilizantes nitrogenados liberam óxido nitroso (N2O), que é 300 vezes mais potente que o CO2 na contribuição para o efeito estufa. O CO2, também compõe a avaliação ambiental da cana, pois há mais carbono na camada superficial do solo do planeta do que na atmosfera. Isso faz com que qualquer atividade de manejo do solo seja uma potencial liberadora de CO2. A estrutura da planta de cana concentra a parte seca e mais rica em carbono na porção inferior e na raiz do vegetal, o que mantém o CO2 sob o solo. A colheita da cana crua, sem queima, pode aumentar o teor de carbono na terra. A legislação do estado de São Paulo prevê a extinção da colheita com fogo até 2031. Além de manter a palha no campo, a cana crua não libera o CO2 por queima da palhada residual. Finalmente, os dois principais produtos da cana, a sacarose e o etanol, contêm somente carbono, hidrogênio e oxigênio, ou seja, boa parte dos minerais contidos nos fertilizantes pode ser reciclada, permanecendo no campo, reduzindo a contaminação ambiental. outubro 2012 – Agro DBO | 47


Soja

Lavoura ameaçada Agricultores começam a plantar soja em clima de ambiguidade. De um lado, esperam bater recordes de produção; do outro, temem a incidência da ferrugem asiática, que pode quebrar a safra recém-iniciada. Marianna Peres

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H

Plantadeira do grupo André Maggi em ação em Mato Grosso

á pelo menos quatro anos seguidos, o município de Sapezal, no noroeste mato-grossense, vem dando a largada no plantio da safra brasileira de soja, e na safra 2012/13 foi novamente o “pole position”. Os primeiros hectares foram cobertos pelo grupo André Maggi no último dia 16 de setembro em duas fazendas da região, a Tucunaré e Água Quente. O estado de Mato Grosso, maior produtor nacional do grão, abriu a temporada com a expectativa de mais um recorde ao projetar colheita de 24,13 milhões de toneladas (t), 12,9% maior que o recorde anterior, sobre área também inédita, de 7,89 milhões de hectares (ha). O ciclo que pode colocar o Brasil no topo do mundo, ao superar os Estados Unidos, maior produtor e exportador mundial do grão, vem sendo tão festejado que, de maneira inédita na história da cultura, teve oficializado o seu plantio. O ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, deu a largada da nova safra nacional, no último dia 24, ao “pilotar” uma plantadeira da fazenda Agroverde, em Sorriso (MT), município que detém a maior área disponível de cultivo ao grão no mundo, e que desde o ano passado, por força de lei, passou a ser denominada “Capital Nacional do Agronegócio”. Ainda do alto da plantadeira, Mendes Ribeiro projetou mais um recorde à produção nacional que, segundo ele, deverá atingir 200 milhões de toneladas (t) de grãos e fibras, expectativa que, se confirmada, gerará incremento anual de 21% sobre as 165 milhões de t colhidas na safra 2011/12. A Aprosoja Brasil, promotora do evento, que deverá ser oficializado como marco da cultura no país a partir deste ano, prevê para a temporada 2012/13 uma produção de 83 milhões de t em 27,5 milhões de ha, números que podem garantir incremento de 14% e 10%, respectivamente, sobre o ciclo anterior. “Espero que o clima nos ajude a atingir as projeções. Passar os Estados Unidos,

maior produtor mundial de soja, dará mais visibilidade ao Brasil. Estaremos em um patamar diferenciado no mundo e isso será muito bom, inclusive para o estado, maior produtor nacional da oleaginosa”, acredita o presidente da Aprosoja Brasil, Glauber Silveira. As chuvas esparsas que caíram sobre o estado em setembro, com volumes inferiores aos 30 milímetros (mm) desejados, não fizeram o plantio deslanchar, como sonhavam os agricultores – “chuvas boas, na hora certa”, só devem ocorrer neste mês de outubro, segundo previsões feitas em setembro. De acordo com o primeiro levantamento sobre plantio divulgado pelo Imea - Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, a semeadura até 24/9 estava 0,7 pontos percentuais abaixo do registrado em igual período do ano passado. Apesar de ‘plantio no pó’ (gíria do campo que indica que não há umidade suficiente no solo), as plantadeiras entraram em ação em todo o estado, exceto na região nordeste – a nova fronteira agrícola de Mato Grosso – que deveria começar a plantar no finalzinho de setembro ou no início de outubro. Motivações A ‘corrida’ para antecipar o plantio da soja tem pelo menos duas fortes motivações no atual ciclo. A primeira é possibilitar o cultivo de uma segunda safra, neste caso, de milho, cuja demanda e preços asseguram boa rentabilidade para 2013 - para isso, será preciso colher a soja entre meados de janeiro e início de fevereiro, para garantir clima favorável ao pleno desenvolvimento do cereal. Em Mato Grosso, cerca de 30% da área inicialmente cultivada com soja, dá lugar ao milho. O estado entrou nesta safra recheado de recordes. Produção, área plantada, maior comercialização antecipada do grão já vista para o período. Mais de 61% do previsto para a colheita foi vendido antes mesmo do início do plantio. Conforme o Imea, o comprometioutubro 2012 – Agro DBO | 49


Soja A ferrugem asiática é uma das doenças mais severas que incidem sobre a soja, com danos variando entre 10% e 90% nas regiões onde foi relatada. regiões geográficas onde foi relatada. Os sintomas iniciais são pequenas lesões foliares, de coloração castanha a marrom-escura. Plantas fortemente infectadas apresentam desfolha precoce, que compromete a formação, o enchimento da vagem e o peso final do grão. Quanto mais cedo ocorrer a desfolha, menor será o tamanho do grão e, consequentemente, maior a perda de rendimento e de qualidade. Pontes verdes O vazio sanitário, que vai de 15 de junho a 15 de setembro, proíbe por 90 dias a existência de plantas vivas de soja (exceto às destinadas à pesquisa), para que neste período, que coincide com a estiagem no estado, o fungo não tenha do que se alimentar e não passe, portanto, de uma safra para outra sobre “pontes verdes”, representadas, no caso, pelas plantas guaxa, ou tiguera – as que nascem involuntariamente de grãos perdidos na lavoura ou no transporte de um lugar para outro. Conforme o mapa de risco de ferrugem para o estado, Wanderlei Dias Guerra

Concentração de soja guaxa na beira da estrada pôe em risco as lavouras da região

mento atingiu percentual sem precedentes graças à demanda externa e aos preços médios ofertados ao produtor, pelo menos 10% acima do travado em 2011. No mesmo período do ano passado, considerando o comportamento de todo mês de setembro, as vendas somaram 48% de uma projeção de 21,36 milhões t. Entretanto, o céu de brigadeiro reservado à soja – há pelo menos sete anos não se conjugavam tantas perspectivas positivas ao mesmo tempo – enfrenta a ameaça da ferrugem asiática, doença fúngica que pode devastar as lavouras e quebrar a safra recém-iniciada. A segunda motivação dos agricultores é a estratégia de fugir da provável explosão da doença, capaz de infestar as plantas na fase inicial de reprodução, ainda em estágio R1, que em geral é atingido após 40 a 45 dias após a semeadura. A ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é uma das doenças mais severas que incidem sobre a soja, com danos variando de 10% a 90% nas diversas

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elaborado pela CDSV - Comissão de Defesa Sanitária Vegetal da Superintendência Regional do Ministério da Agricultura para a Aprosoja/MT Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, nunca houve tanta soja guaxa com fungos viáveis da doença espalhados pelo estado. Quase todos os grandes municípios produtores apresentam a possibilidade de alto nível de infestação, especialmente Dom Aquino, Campo Verde, Primavera do Leste e Nova Mutum. A soja guaxa foi encontrada no perímetro urbano das cidades, nas margens de rodovias e em áreas próximas às lavouras, dentro das fazendas. “O que podemos dizer é que diferente das safras passadas, o fungo não vai chegar, ele está presente e pronto para explodir sobre as primeiras plantas”, alerta o o fitopatologista e pesquisador Daniel Cassetari Neto, da UFMT - Universidade Federal de Mato Grosso. Segundo o Coordenador da Comissão de Defesa Vegetal da SFA/MT - Superintendência Federal da Agricultura em Mato Grosso, Wanderlei Dias Guerra, estudos mostraram que, mesmo em plantas secas, mas em condições ideais de calor e umidade, o fungo se manteve viável por mais de 40 dias. Ou seja, vivo e pronto para desenvolver doenças assim que as novas lavouras emergirem do solo. A situação, considerada “muito crítica” por Dias Guerra, impôs de maneira inédita a destruição de três áreas de pesquisa que haviam sido autorizadas pela SFA/MT, contaminadas pelo fungo. “Foi um enorme prejuízo à pesquisa”, lamenta. O fungo da ferrugem é biotrópico, ou seja, precisa de planta viva para se multiplicar e é resistente ao clima. “Por isso, aquele fungo da safra passada se instalou, foi beneficiado pelo ambiente e pelas chuvas que caíram no estado até meados de junho, e conse-


guiu resistir à estiagem”. Análises feitas pela UFMT mostram que a planta morre, mas o fungo fica. Mais de 220 amostras foram coletas nas visitas in loco. “Se o esporo está ativo por mais de 40 dias gerando a doença, temos registros da presença dele nos ensaios após 60 dias, mas sem causar a doença”. Dos mais 217 locais visitados no estado, em 92% deles foram encontrados soja guaxa e em 79% das plantas vivas havia ferrugem. Em função disso, a recomendação da CDSV/MT, UFMT e Aprosoja/MT é que seja feita aplicação preventiva sobre a planta precoce, mesmo que não haja sintomas. Diante do que Dias Guerra observou durante o vazio sanitário e após o vazio, a safra 2012/13 terá fase crítica ainda em estágio inicial. “Considerando plantios em 20 de setembro, teremos um início de novembro muito crítico e os registros da doença deverão chegar tão precoces quanto à soja”. Segundo ele, em apenas uma folha de soja guaxa, foi encontrada quantidade suficiente de esporos da ferrugem asiática para contaminar todas as lavouras de Mato Grosso. “Reforçamos o pedido para que cada produtor, como nunca, monitore sua lavoura diariamente, faça aplicações de fungicidas na hora certa, na dose indicada e utilizando a tec em especial, nos baixeiros”. O problema, como explica o coordenador, é que até o dia 15 de junho, quando teve início do vazio sanitário, cabia ao produtor dessecar as plantas guaxas e muitos imaginavam que o prazo de 90 dias seria suficiente para eliminar o perigo. “Mas elas proliferaram, mantendo o fungo viável, ou seja, pronto para infestar novas plantas por mais de 40 dias, como comprovam ensaios em laboratório”. Dias Guerra faz questão de alertar. “Não estamos induzindo o produtor a cair na conversa de vendedor e sair comprando fungicidas sob pressão de especulação de mercado. O que queremos é que ele utilize o material que dispõe de forma correta, sob um nível maior de

atenção, para evitar a infestação da ferrugem durante esta safra”. Como explica o gerente técnico da Aprosoja/MT, Luiz Nery Ribas, a ameaça da ferrugem poderá se concretizar em uma realidade nefasta para a soja, a exemplo do ocorrido na temporada 2004/05, quando Primavera do Leste (231 quilômetros ao leste de Cuiabá) recebeu o título de ‘Capital Mundial da Ferrugem’. Nery lembra que, na ocasião, a doença foi confirmada em plantas no estágio VN, ou seja, 18 dias após o plantio, e cerca de 13 dias após a emersão da planta. “Esse ano, corremos o risco de ter novamente este título, desta vez, não apenas em Primavera do Leste, já que a situação é de alta infestação pelo estado afora”. Recomendações Diante desse cenário sombrio, a Fundação MT faz uma recomendação mais rigorosa para evitar a perda de controle sobre a doença: fazer três aplicações durante o desenvolvimento da soja precoce. “Infelizmente, o produtor não pode pensar em economizar fungicida. O segredo do sucesso nesta safra é o controle precoce. Serão R$ 20, R$ 30 a mais por aplicação, custo que não pesa diante do benefício que ele terá”, adverte o pesquisador da Fundação MT, Fabiano Siqueri.

Segundo ele, o produtor, mesmo que não tenha feito sua parte durante o vazio, agora sabe do grande risco que a doença representa para esta safra. “Se errar é porque não quis fazer o certo ou subestimou a ferrugem.Informações, ele recebeu de todos os cantos. Só a Fundação MT, com o projeto ‘Hora de Plantar’, percorreu quase 20 municípios e em todos os eventos o assunto foi tratado em espaços lotados”. O Indea/ MT - Instituto de Defesa Agropecuária ampliou em 28% o volume de autuações neste ano. “Infelizmente, durante a fiscalização encontramos nas propriedades visitadas um número maior de soja guaxa, que não foram destruídas após a notificação”, explica o coordenador de Defesa Sanitária Vegetal do órgão, Ronaldo Medeiros. No período do vazio sanitário, o Indea/MT fiscalizou 2.818 propriedades no estado. Em Mato Grosso, a ferrugem asiática é a doença que mais impõe perdas ao sojicultor. No entanto outros males estão espalhados pelas principais regiões produtoras do grão no Brasil, como o mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum, a mancha alvo (Corynespora cassiicola) e a mela da soja (Rhizoctonia solani). “Essas quatro doenças preocupam técnicos e agricultores e várias pes-

Wanderlei Dias Guerra examina plantas guaxas em área urbana, durante vistoria: risco de contaminação é muito alto

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Fundação MT/Divulgação

Soja

Lavoura experimental de soja Inox, desenvolvida pela TMG e Fundação MT

quisas estão em curso para testar produtos e métodos”. A fitopatologista e pesquisadora da Embrapa Soja, Claudine Seixas, destaca que, no caso do mofo branco, já existe fungicida registrado no país para o controle da doença. “Para evitar problemas fitossanitários, o correto é fazer a rotação de culturas, tratamento de sementes, usar sementes de qualidade, ter análise do solo e, principalmente, ter um histórico

da área. Saber, enfim, o que ocorreu em safras passadas para evitar a repetição do problema na próxima. Esse conhecimento é indispensável ao bom planejamento que o técnico responsável deve fazer”. A fitopalogista acredita que boa parte da disseminação de doenças e pragas pode estar relacionada ao grande volume de arrendamentos, que leva o arrendatário, na prática, a ter pouco conhecimento sobre o

solo que vai cultivar. “Quando se conhece a área se pode planejar e esse esboço leva ao combate simultâneo de doenças como mancha alvo e a ferrugem”. O mofo branco, por exemplo, não conta com cultivares resistentes, ao contrário da mancha alvo e da ferrugem. Para reduzir o risco de danos à cultura, as estratégias de manejo recomendadas no Brasil para a ferrugem são: a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada, a eliminação de plantas voluntárias de soja e a ausência de cultivo de soja na entressafra por meio do vazio sanitário, o monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura, a utilização de fungicidas no aparecimento dos sintomas ou preventivamente e a utilização de cultivares resistentes, quando disponíveis. O grupo André Maggi, que pertence à família do ex-governador de Mato Grosso e atual senador Blairo Maggi, tradicionalmente inicia o plantio logo após o fim do período de vazio sanitário. Mesmo sem condições ideais à semeadura, com o solo longe do nível recomendado de umidade, as plantadeiras voltaram à cena já no

Oferta da Inox aumenta nesta safra Sojicultores mato-grossenses, especialmente àqueles que tiveram problemas com a ferrugem no ano passado, procuraram mais cedo pela cultivar TMG 7188 RR, mais conhecida como soja Inox, variedade “made in” Mato Grosso, a única que embute a tecnologia de herbicidas mais a resistência à ferrugem, criada pela Fundação MT e a TMG – Tropical Melhoramento e Genética. A oferta da variedade, que entra na sua terceira safra comercial, aumentou 20% após uma safra (2011/12), com perdas de mais de 800 mil toneladas no estado, impostas por fatores climáticos e pela severidade da ferrugem asiática. Como explica Adalberto Basso,da TMG, a tecnologia não “faz milagre” e, mesmo sendo resistente, são necessárias até duas aplicações de fungicidas, metade do mínimo que se faz no estado em temporadas de forte incidência da doença. “E quando o cuidado não é respeitado, a tecnologia embutida no grão pode ser quebrada. O que muitos não prestam atenção é que, mes-

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mo focada na ferrugem, a cultivar ajuda a controlar outras doenças, como, por exemplo, a mancha-alvo”. E completa: “a Inox se mostra como uma grande ferramenta no controle da ferrugem, especialmente em um ano com populações recordes de soja guaxa repletas de fungos viáveis. O temor pela disseminação da doença mais cedo leva o produtor a tomar precauções. No ano passado, lavouras localizadas em Campo Novo do Parecis e Sinop conseguiram médias de produtividade dentro do esperado no estado, mesmo sob a forte incidência da doença. “Se não fosse a Inox, teria sido pior”. Basso não deu detalhes das médias de rendimento proporcionadas pela cultivar. A média estadual ficou em cerca de 52 sacas por hectare. A Inox é tida como orgulho mato-grossense. Além de inédita, chegou ao mercado em tempo recorde, menos da metade do período estimado para pesquisas deste segmento, cujos produtos podem levar até 15 anos para chegar ao mercado.


Para evitar a perda do controle da ferrugem, recomenda-se três aplicações de fungicida durante o desenvolvimento da soja precoce.

Planejamento O grupo André Maggi, que planta nos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal, Itiquira e Querência, vai cobrir nesta safra 141 mil ha de soja, 73 mil de milho e 25 mil de algodão - esta última será cultivada 100% como segunda safra. Dos 73 mil ha de milho, 10 mil serão de safra verão; o restante vai ocupar parte da área disponibilizada pela soja. Como destaca Valente, na safra passada a área destinada ao milho foi

de 52 mil ha, avanço anual de 40%. Dos 141 mil de soja, 15 mil abrigarão variedades de ciclo de 104/105 dias. Em Querência, as cultivares utilizadas são 100% convencionais. Em Itiquira, 100% RR, e em Campo Novo do Parecis e Sapezal, cada cultivar ocupará 50% das áreas. Para o executivo, as decisões sobre as safras estão embasadas em aspectos mais agronômicos do que de mercado. “Nosso planejamento nos permite evitar a incidência da ferrugem e o fato de optar pelo milho nos faz economizar fertilizantes, mesmo mantendo o solo ocupado com outra cultura”. Questionado sobre as condições pouco favoráveis ao plantio em setembro, Valente explicou que, nas fazendas de Sapezal e Campo Novo dos Parecis houve registros de precipitações de até 60 mm e toda a semente utilizada é tratada - teoricamente, resistem até 30 dias sem chuvas. “Precisamos de cerca 15 mm acumulados até a germinação e o restante vindo ao longo do tempo”.

Se para o grupo André Maggi optar por cultivares de ciclo mais curto é uma decisão mais agronômica, para o produtor Antônio Galvan, que vai cobrir 2,7 mil ha com soja na fazenda Dacar, no município de Vera, norte de Mato Grosso, a opção é uma questão de sobrevivência e totalmente alicerçada sobre aspectos econômicos. No ano passado, a ferrugem asiática foi severa no norte do estado e, entre inúmeros prejuízos na região, tirou pelo menos 17 mil a 18 mil sacas do produtor, ou pouco mais de R$ 900 mil. “Não devemos sofrer por antecipação, no entanto, estamos na iminência de uma infestação sem proporções. O volume encontrado de soja guaxa com esporos do fungo em áreas de domínio público – fora das propriedades – durante a vigência do vazio sanitário e após o fim dele é o maior já registrado e isso assusta”. Como relata, a infestação do ano passado que corroeu sua produtividade e seu lucro, teve pontos de alta severidade. “Tivemos ferrugem em áreas de pesquisa. Essa soja foi colhida e os fungos se

Exemplos de infestação de fungos da ferrugem asiática em plantas guaxas

Wanderlei Dias Guerra

dia 16 do mês passado. Como explica o diretor da Divisão Agro do grupo, Pedro Valente, a decisão de dar início ao plantio no primeiro dia após o vazio não recebeu influência do mercado. “Nossa decisão de plantar e quanto plantar, por exemplo, foi tomada no primeiro semestre deste ano e ratificada ainda em maio, momento em que pelo menos o milho não se mostrava atrativo em razão da supersafra atual e nem tínhamos as informações sobre as consequências da seca que assolou lavouras de milho e soja dos Estados Unidos”.

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Soja Contra problemas fitossanitários, deve-se fazer rotação de culturas, análise do solo, tratar sementes, usar as de boa qualidade e ter histórico da área.

Grupo AMaggi/Divulgação

Plantadeira inicia os trabalhos na região de Campo Novo dos Parecis

disseminaram no ar. Fora isso, outro fator que contribuiu muito foi que entre os meses de dezembro/11 e janeiro/12, aqui na região não tivemos dois dias seguidos de tempo limpo, aberto. Dia após dia se manteve encoberto, úmido, totalmente favorável à doença e atrapalhando o desenvolvimento da planta que precisa de luz. E quando chovia, a água lavava as folhas, retirando o fungicida. Isso tudo contribuiu de forma negativa”. Números do Imea sobre a safra passada, 2011/12, mostram que entre a projeção inicial e a colheita, o estado deixou de produzir cerca de 830 mil t de soja, o que pode ter gerado uma perda financeira de até R$ 1 bilhão à economia local. Galvan lembra que, no ano passado, a região norte como um todo, deve ter colhido até 15% menos que o esperado. “Só escapou quem plantou cedo e colheu cedo. Eu perdi cerca de 13% em razão da doença e do clima, mas em lavouras tardias o prejuízo foi de 60%”. O produtor, oriundo do Rio Grande do Sul e radicado há 26 anos em Sinop, a 503 quilômetros ao norte de Cuiabá, lembra que, na safra anterior, colheu média de 57 sacas/ha mas teve pontos de 38 sacas/ha. A região de Sinop tem histórico de produtividade de 55 a 57 sacas/ha, mas

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na safra passada não atingiu 50 sacas. “Meu rendimento, que era de cerca de 130 mil sacas, ficou com 18 mil sacas a menos. Para a região, o pior momento com a ferrugem ainda foi o do ciclo 2003/04 mas, para mim, foi a safra passada, sem dúvida”. Desconfiança Quando a Agro DBO entrevistou Galvan (no mês passado), a previsão dele era dar início ao plantio ainda no final de setembro, antecipando os trabalhos em relação ao ano anterior. “Vou ampliar em 10% o uso de precoce. Vou usar variedade RR de 100 dias, pela pressão da safrinha e também para fugir da ferrugem. Vou escalonar o plantio, para não concentrar a colheita no mesmo momento porque como sabemos a colheita se dá em um período de chuvas muito intensas e frequentes. A maior parte das variedades tem entre 100 e 120 dias de ciclo, evitando materiais de ciclo tardio, acima de 120 dias”. Na iminência da explosão da ferrugem, Galvan sabe da importância em realizar aplicações preventivas de fungicidas. “Se em um cenário positivo fazemos cerca de três aplicações, sabemos que teremos de fazer mais uma. Isso, sem sabermos ainda como será o comportamento

da doença”. Mesmo ciente da lição de casa, Galvan é um crítico inveterado da eficiência dos fungicidas que estão no mercado. “As moléculas utilizadas são as mesmas há mais dez anos. Precisamos de novidades”, reivindica. A fitopatologista da Embrapa Soja, Claudine Seixas, lembra que todo ano a Embrapa promove ensaios com todos os produtos disponíveis no mercado e em fase de registro para justamente avaliar a performance de cada um e todos os resultados são publicados nas Circulares Técnicas. “O que temos observado de maneira geral é que são eficientes e que as misturas de moléculas é que tem revelado os melhores resultados, ou seja, menor perda de produtividade e maior percentual de controle. E vale lembrar que os ensaios são conduzidos em condições que favorecem muito o fungo, cenário que levaria a índices de controle ainda maior”. A Circular número 15 é a mais recente sobre o assunto, traz resultados da safra 2011/12 e está aberta para o público. Como exemplos de resultados, os ensaios espalhados por todo o país, mostram que misturas com piraclostrobina + epoxiconazol + fluopyraxad garantiram controle de 75%, assim como as combinações de trifloxistrobina + protioconazol (75%) e de picoxistrobina + tebuconazol com controle de 74%. Nestes três exemplos a perda de produtividade foi de zero a no máximo 3%. “A utilização de triazóis isolados continua não sendo indicada. Embora as aplicações curativas possam diferenciar melhor os tratamentos, a orientação de controle é que as aplicações sejam realizadas preventivamente ou nos primeiros sintomas. Os fungicidas representam uma das ferramentas de manejo, devendo ser adotadas as demais estratégias para o controle eficiente da ferrugem”, finaliza Claudine.


Opinião

Agricultura em risco Luiz Hafers *

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ão foi suficiente o ótimo desempenho da agricultura brasileira para conquistar o respeito, admiração e simpatia dos brasileiros. Os urbanos continuam a criticar o campo. A agricultura dobrou a produtividade, dobrou a produção, usando menos áreas novas, e o Brasil tornou-se um dos países mais importantes na produção de alimentos. Desenvolveu práticas de sustentabilidade. Plantio direto, controle de erosão, rotação de culturas. O sistema econômico e comercial vigente no mundo está esgotado. Precisa de mudanças conceituais e não remendos circunstanciais como se ameaça agora. Tarifas versus câmbio é só uma parte do conflito. Temos que respeitar o comprador no que quer comprar e não como queremos vender. E querem intervenções maciças como propõe a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, na sigla em inglês) agora. Que está bom, não está. Mas nós agricultores não queremos pagar essa conta. Eis que apesar de todo o sucesso uma nova ameaça se apresenta: imposto de exportação. O governo desvaloriza a moeda, os lucros dos exportadores parecem crescer. São várias as explicações, “doença holandesa” é a mais sofisticada. Com o imposto de exportação pune-se o produtor *O autor é cafeicultor e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira

que supostamente seria beneficiado com a alta do câmbio. Não se fala na alta dos custos em dólar: fertilizantes, defensivos, máquinas importadas, combustíveis. Outro grupo, mais envergonhado, quer mesmo é cartório, deseja impor cotas ou limitações às exportações, para garantir o abastecimento do comércio interno. Coloca-se imposto, blinda-se o mercado externo e os processadores compram os produtos agrícolas baratos e os vendem na taxa do dólar cheio. Os argumentos são confusos. É verdade que as correções de preço não são nem automáticas, nem rápidas. Mas vão acontecer. Não é possível taxar quem é competente para socorrer quem não é tanto. Eu, como velho em café, sei o que é confisco, como chamávamos o imposto de exportação. Seguem-se então outras distorções: cotas, câmbio múltiplo, intervenção, artifícios. O resultado final é o desmonte de uma atividade crescente e competente. Dezenas de grandes projetos agrícolas se encontram em gestação. Resistirão ao confisco de preço? Algum projeto na Argentina? Não. A prática do imposto de exportação estagnou o desenvolvimento da produção, afugentou o investimento. É isso o que queremos? Atento, pois, a essa crescente pressão, que vai aumentar. Alguém vai querer controlar inflação através dessa medida. Outros, e os há muitos, querem punir a agricultura pelo seu sucesso. Não sou pessimista, mas estou preocupado.

“Que está bom, não está. Mas nós, agricultores, não queremos pagar essa conta.” outubro 2012 – Agro DBO | 55


Deu na imprensa

Waultraut e a carta do representante comercial dos Estados Unidos Milton Rego *

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* Engenheiro mecânico e economista, é diretor da New Holland e vice-presidente do setor de tratores da Anfavea

aultraut é o nome da simpática vaca da foto. Ela vive em Stockwald, perto do Lago de Walen, na Suíça. Está aproveitando os últimos dias de pasto antes de se recolher para o estábulo durante o inverno. Ela é ordenhada duas vezes por dia, sem estresse, com uma ordenhadeira mecânica que vai até o alto da montanha para ela não deixar de apreciar a paisagem. Algumas das suas primas no Brasil não têm uma sorte assim. Em Minas Gerais elas estão sendo abatidas porque os produtores de leite começam a ter prejuízo devido ao aumento dos custos da ração (não só a ração aumentou, mas principalmente o frete da ração). Mas Waultraut não se preocupa muito com a rentabilidade da produção de leite do seu rebanho. Como mostrou uma reportagem do Valor Econômico, mais da metade da receita do seu dono vem de subsídios do governo. Dentro da perspectiva da multifuncionalidade da agricultura, uma plantação de flores ao longo de vias para pedestres na área rural poderá receber subsídio de US$ 4 mil por hectare e US$ 1 mil para sua manutenção.

Se o agricultor também colocar bancos em certos trechos de seu terreno de produção, para uma pausa dos visitantes, o subsídio será de US$ 800 por banco. Se plantar árvores para render nozes aos pedestres, ganha mais algumas dezenas de dólares. Pela plantação de uma alameda de árvores na entrada da fazenda, à beira dos campos ou de rios, e garantir uma paisagem bucólica, o agricultor poderá receber US$ 200 a cada nova árvore plantada ou US$ 60 pelas já existentes. Já no Brasil, o orçamento total do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) é cerca de R$ 9 bi (aí incluído folha de pagamento, despesas correntes, CONAB, EMBRAPA, etc.) ou cerca de 4% do Va-

lor Bruto da Produção Agropecuária Brasileira. Aproveitei uma conversa com a expert de comunicação animal de Berna, Franziska Matti, para perguntar para Waultraut o que ela achava da carta do Representante Comercial dos Estados Unidos, para o Governo Brasileiro, sobre a reclamação do Governo Americano a respeito da elevação de alíquotas de importação de 100 produtos. Waultraut respondeu – pelo menos foi o que eu entendi do email da Franziska – que “o governo americano reclama demais, que faz mais medidas protecionistas do que todos os países e que esse afrouxamento monetário, praticado agora, está tirando a competitividade dos produtos lácteos com custos em francos suíços”. O mundo está ficando muito complicado para Waultraut… Obs: Participei de um fórum, e o moderador do debate começou perguntando se o Brasil consegue desatolar. Minha conclusão: ainda não. Blog do Milton Rego: www.blogdomiltonrego.com.br/

Deixem o Brasil produzir e preservar Homero Pereira *

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Brasil aumentou muito a sua produção rural preservando 60% do território. Nenhum país tem lições a nos dar, ainda mais os que financiam certas ONGs O Brasil está prestes a ter uma das leis mais importantes para o futuro do seu desenvolvimento socio-

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econômico. O novo texto do Código Florestal é resultado de anos e anos de trabalho no Congresso e preenche lacunas na legislação, com regras mais claras para o uso dos recursos naturais e garantias para a produção e a preservação ambiental. O produtor rural tem sentido no dia a dia de sua labuta o gosto amargo

da insegurança jurídica que ameaça a agropecuária, uma das principais atividades econômicas do país. A proposta dessa nova legislação ambiental reflete os intensos debates mantidos nas comissões da Câmara e do Senado em mais de 60 audiências públicas com a sociedade, com o governo e a academia.


É importante realçar aqui que o aumento da produção de alimentos decorre muito mais por ganhos de produtividade do que por aumento da área plantada. Basta examinar os dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para comprovar. Em 35 anos, (entre as safras 1976/77 e 2011/12), o aumento da área cultivada cresceu apenas 36,2%, de 37,3 para 50,8 milhões de hectares. A produção registrou crescimento de 253%, de 46,9 para 166 milhões de toneladas. Além disso, o agronegócio representa 37% das exportações, 37% dos empregos e 23% do PIB, mantendo mais de 60% do território preservado. Que nação deste planeta apresenta números tão positivos?

Esses números refletem o acerto da agricultura brasileira em investir no aumento da produtividade, na inovação, em pesquisas, em novas tecnologias e na adoção de sistema de produção ambientalmente corretos, além do emprego de técnicas de uso racional dos recursos hídricos e da adoção de práticas conservacionistas do solo. Neste aspecto, nenhum outro país do mundo tem lições a nos dar, principalmente aqueles que financiam as ONGs que andam por aí a nos ofender, promovendo campanhas contra o setor mais exitoso da nossa economia, que é o segmento produtivo rural. A aprovação do novo Código Florestal também é uma oportu-

nidade de mostrarmos ao mundo que o Brasil elaborou uma legislação moderna para fazer com que a produção agrícola e a preservação ambiental caminhem lado a lado, numa justa e perfeita harmonia. Por tudo isso, o Brasil precisa de uma legislação ambiental condizente com os avanços do nosso desenvolvimento agrícola sustentável. Não aprová-la agora representa um risco de retrocesso, com consequências desastrosas para toda a nação. Diante desse cenário, resta-nos um apelo: deixem o Brasil produzir e preservar. Link para o texto original: www1.folha.uol. com.br/fsp/opiniao/65455-deixem-o-brasil-produzir-e-preservar.shtml

* o autor é deputado federal (PSD-MT) e presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária.

Perda: 40 milhões de caixas de laranjas Mauro Zafalon *

O

governo faz o primeiro leilão Pepro (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural) de laranja amanhã e quer garantir um preço de R$ 10,10 por caixa ao produtor. O crédito para os leilões, que incluem um PEP (Prêmio de Escoamento de Produto), chegam a R$ 120 milhões. Voltados para produtores paulistas e mineiros, os leilões poderão atingir 4,5 milhões de caixas de 40,8 quilos. A laranja tem prêmio máximo de R$ 3,16 por caixa. «É uma forma de reduzir o sério problema enfrentado pelos produtores», diz Flávio Viegas, da Associtrus. O leilão favorecerá os pequenos e médios produtores, já que o limite de comercialização é de 20 mil caixas por produtor. O representante dos produtores diz que é louvável o esforço do governo, mas que os negócios com a indústria estão difíceis. Christian Lohbauer, presidente executivo da Citrus BR (associação das indústrias e exportadores), con-

corda que os leilões possam ajudar, mas «o setor vive um problema estrutural e preocupante». Os estoques estão elevados e as indústrias não têm como absorver toda a produção deste ano. Pode ser que, no término desta safra, 40 milhões de caixas de laranja deixem de ser colhidos, gerando prejuízo para toda a cadeia, segundo o executivo da Citrus BR. O grande problema do setor são os estoques elevados e a queda no consumo, segundo Lohbauer. Esse cenário pode continuar no próximo ano se a safra voltar a ter um volume grande, diz ele. A estimativa da entidade é de uma safra de 364 milhões de caixas. Grande parte dessa laranja vem da própria indústria, que tem o direito de ter a sua própria produção, como tem as usinas de açúcar e outros setores do agronegócio, diz ele. A saída para o setor é um programa de incentivo de consumo, o que está difícil de se concretizar este ano. «Talvez no próximo», diz.

Viegas não concorda com o diagnóstico de Lohbauer de que há estoques elevados e queda de consumo no setor de citricultura. Estoques O Brasil tem 660 mil toneladas de suco de laranja em estoque, incluindo o volume nas indústrias, nos portos internos e externos e na linha especial de crédito. Esse volume corresponde a sete meses de exportações, segundo Christian Lohbauer, da Citrus BR. Desse total, 351 mil toneladas não estão disponíveis para comercialização, devido à prorrogação por 24 meses da LEC (Linha de Crédito Especial). Outro número Flávio Viegas, da Associtrus, com base em números do Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), diz que os estoques nacionais são de 240 mil toneladas. O Usda considera os estoques dentro das indústrias.

* Jornalista, colunista de economia da Folha de São Paulo, em 27/09/2012

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Análise de mercado

Cotações em alta Arroz perde espaço para a soja em várias regiões do Brasil, mas pode recuperar áreas no sul do país se “El Nino” mostrar serviço.

O

panorama para o mercado de arroz no Brasil até meados de setembro foi o mais favorável, em termos de preços, desde 2004. No entanto, alguns fatores endógenos e exógenos poderão interferir negativamente na tomada de decisão para o plantio por parte dos produtores rurais. Em âmbito nacional, a principal causa para a redução de área plantada seria, particularmente, a falta de água para a irrigação no Rio Grande do Sul, que produz em torno de 65% do total no país. Nos demais estados da federação, o motivo para a queda no plantio de arroz é atribuído à ele-

vação dos preços da soja, que deverá impedir o aumento ou a manutenção da área, podendo até mesmo ocupar áreas de várzea no Rio Grande do Sul, onde normalmente o arroz é cultivado. Em Mato Grosso, a semeadura com arroz de sequeiro, utilizada normalmente como preparo do solo de áreas recém desmatadas para plantio de soja, vem reduzindo a cada ano a área cultivada com o cereal e aumentando ainda mais o espaço para a produção de soja, que no período de um ano teve alta de aproximadamente 100% no Brasil. Assim sendo, nas demais regiões produtoras de arroz de sequeiro a área deverá retrair.

Outra variável que deverá pesar a favor do acréscimo de área de arroz é o fator câmbio, que tem sido administrado pelo Banco Central para manter-se em torno de R$ 2,00 por dólar, mas que deverá favorecer principalmente o sojicultor, já que o mercado da oleaginosa tem mais liquidez e é mais garantido para a exportação do que o rizicultor. Mesmo assim, o Brasil vem se destacando nos últimos dois anos como o maior exportador do cereal extra-Ásia. Contudo, há expectativa de que o fenômeno El Niño volte a atuar na região trazendo mais chuvas, o que poderá facilitar a retomada de área plantada no sul do país. Até

TRIGO –

No início de setembro, as cotações seguiram em alta no mercado brasileiro devido à demanda firme e à baixa disponibilidade do produto. Em termos nominais, os preços alcançaram os maiores patamares desde agosto/2008 e, em termos reais, os maiores níveis desde novembro /2009. A produção nacional será menor, embora a qualidade deva ser superior à da safra passada, principalmente no Rio Grande do Sul. A safra mundial cairá mantendo a tendência altista.

*Em 18/9, o Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 627,91 por tonelada, mercado disponível, à vista (valor a prazo é descontado pela taxa NPR).

MILHO –

58 | Agro DBO – outubro 2012

Os preços recuaram no mercado brasileiro na primeira quinzena de setembro, devido à maior oferta interna e às oscilações nas cotações externas. No acumulado do ano, o Brasil exportou 6,3 milhões de toneladas, 37% acima do volume do mesmo período de 2011, gerando receita de US$ 1,7 bilhão. Mesmo assim, no ano, o preço médio recebido foi de US$ 267,73/t, 3,1% inferior ao valor médio dos primeiro oito meses de 2011.

*Em 18/9, o Indicador Esalq/BM&FBovespa registrou R$ 32,22, à vista, pela saca de 60 kg, descontado o prazo de pagamento pela taxa CDI/Cetip.

SOJA – A demanda firme e os baixos estoques do grão na virada de agosto para setembro sustentaram as cotações na Bolsa de Chicago (CME/ CBOT). No início de setembro, o contrato referência da oleaginosa ultrapassou a barreira dos 17 dólares por bushel. Depois, caiu, pressionado pelas chuvas no cinturão norte-americano, pela perspectiva de chuvas volumosas no Centro-Oeste do Brasil no início do plantio da safra 2012/13 e recuperação gradativa dos estoques mundiais.

*Em 18/9, o Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 83,40 pela saca de 60 kg, posto Paraná, descontado o prazo de pagamento da taxa NPR


Análise de mercado a metade do mês de setembro, as chuvas no Rio Grande do Sul estavam acima da média para o mês, o que poderia favorecer a recuperação dos reservatórios para a irrigação do arroz. É válido lembrar que já existe uma estrutura instalada para o cultivo do cereal e um mercado externo em expansão através das exportações. Mesmo assim, para o decorrer do ano é possível que haja um aumento da oferta, tanto por parte do governo federal, através da venda do produto proveniente dos estoques públicos, quanto via importações. Pelo lado do governo, através da Conab, já foram realizados quatro leilões de venda até meados de setembro, onde foram ofertados 130,6 mil toneladas, das quais 102,7 mil foram negociadas, volume correspondente a 78,7% do total. Entretanto, a entrada desse volume no mercado interno ainda não teve efeito negativo nos preços, que após alguns dias ainda continuam em elevação.

Por outro lado, o mercado brasileiro poderá voltar suas atenções para o cereal dos Estados Unidos, que está encerrando sua colheita entre o final de setembro e o início de outubro, e assim podendo ofertar um produto de melhor qualidade em comparação com alguns lotes leiloados pelo governo brasileiro, a preços competitivos. Também já há especulação a respeito da entrada no país de grão originário da Ásia, principalmente de países como Vietnã e Índia, que estão com preços menores em analogia aos demais exportadores. No mês passado, a média paga pelo cereal no Rio Grande do Sul esteve 50% acima do preço mínimo de R$ 25,80 por saca de 50 quilos de arroz em casca. Enquanto isso, no Mato Grosso a cotação média foi 90% maior do que o preço mínimo estipulado para o estado, de­ R$ 28,23 por saca de 60 quilos. Eduardo Aquiles, analista da CMA/Safras&Mercado.

arroz – De acordo com dados do Cepea – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, órgão da Esalq/USP, os preços do arroz em casca vêm subindo, com poucas oscilações para baixo, desde meados de março. Até 31 de agosto, a alta do Indicador Arroz em Casca Esalq/Bolsa Brasileira de Mercadorias-BM&FBovespa (58 grãos inteiros, Rio Grande do Sul) é de quase 40%, ou de 10 reais por saca. Nas duas primeiras semanas de setembro, o volume ofertado pelos orizicultores esteve abaixo da demanda das beneficiadoras. Nesse cenário, as cotações tendem a seguir em alta.

*Em 18/9, o Indicador Esalq/Bolsa Brasileira de MercadoriasBM&FBovespa registrou R$ 38,55 pela saca de 50 kg, tipo 1, posto indústria Rio Grande do Sul, à vista.

ALGODÃO – Entre 28/8 e 4/9, o Indicador

*Em 18/9, o Indicador Cepea/Esalq registrou 165,65 centavos de real por libra-peso.

Cepea/Esalq com pagamento em 8 dias teve elevação de 1,8%, fechando a R$ 1,6887 por libra-peso. A alta foi provocada pela menor disponibilidade do produto no mercado interno e pela baixa oferta de pluma de qualidade superior à disposição da indústria. No início da segunda quinzena de setembro, a indústria evitava negociar, apostando que o mercado seguiria em baixa até outubro.

CAFÉ – Desacorçoados com a qualidade dos

Fonte: Cepea – www.cepea.esalq.usp.br

*Em 18/9, o Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 386,85 pela saca de 60kg de bica corrida, tipo 6, bebida dura para melhor, valor descontado o prazo de pagamento pela taxa da NPR.

grãos, prejudicados pelas chuvas de junho e julho, muitos produtores ofertaram apenas cafés inferiores no início de setembro, como grãos riado/rio e cafés de varrição, na espera de melhores preços. Na segunda semana, contudo, as cotações do café arábica subiram com força no mercado brasileiro, impulsionadas pela alta verificada no mercado internacional. Na parcial do mês, a variação passou a ser positiva, em 2,7%.

AÇÚCAR – Com demanda fraca, as cotações

*Em 18/9, o Indicador Açúcar Cristal Cepea/Esalq registrou R$ 49,72 por saca de 50 kg, com impostos, sem frete.

do açúcar cristal caíram na primeira semana de setembro no mercado paulista. Na segunda, as cotações futuras do açúcar demerara voltaram a subir na Bolsa de Nova York (ICE Futures). Pressionados pelo incremento na moagem da cana-de-açúcar da temporada 2012/13, os preços seguiram em queda. A indústria manteve-se na moita, na expectativa de baixas mais expressivas para negociar em condições de vantagem.

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Novidades no campo Doenças do feijão Novidade da DuPont, o Oranis é um fungicida específico para tratamento preventivo das doenças antracnose e mancha angular, na cultura do feijão. “Trata-se, segundo o gerente de marketing da empresa, Luiz Wanderlei Braga, de um produto de alta tecnologia, que também traz como benefício o fato de não ser ‘lavado’ facilmente pelas chuvas. Este aspecto contribui para rentabilizar o investimento do agricultor na prevenção dessas doenças”. A antracnose, de ampla distribuição no Brasil, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, é causada pelo fungo Colletotrichum lindemuthianum. Além das perdas na lavoura, que podem chegar a 100 %, provoca depreciação dos grãos de feijão. A mancha angular afeta principalmente a parte aérea do feijoeiro. Nas condições ambientais favoráveis a seu desenvolvimento, essa doença provocada pelo fungo Phaeosisariopsis griseola ocasiona perdas de até 80% das lavouras.

Abóbora para decoração

Pepino japonês de fácil cultivo

Já pensou em cultivar abóbora na sacada de seu apartamento? A Embrapa Clima Temperado, sediada em Pelotas (RS), apresenta a BRS Linda, uma cultivar exclusivamente ornamental (não é comestível) apropriada para pequenas áreas. Segundo a pesquisadora Rosa Lia Barbieri, com boa incidência de sol e condições climáticas adequadas, a BRS Linda chega a produzir 20 frutos por planta. Com casca de cor única verde, amarela ou creme, ou bicolor, com listras verde escuro e verde claro, de tamanho pequeno (de 6 a 8 cm) e durável (cerca de 4 a 5 meses), pode ser cultivada em diferentes recipientes, como gamelas, cestas e vidros para enfeitar ambientes ou compor arranjos em floriculturas. O plantio na região sul do país vai até dezembro. Nas demais regiões, pode ser feito durante o ano inteiro. Os interessados podem adquirir as sementes na Embrapa Produtos e Mercados-Escritório de Capão do Leão (RS) – Fone: (53) 3275-929. E-mail: encpl.snt@embrapa.br

Lançamento da Isla na linha híbrido-japonês, o pepino híbrido Nagai é uma planta rústica, de fácil cultivo e alta tolerância ao calor. Quando maduro, adquire coloração verde brilhante. Os frutos são uniformes, de formato cilíndrico, medindo cerca de 22 cm de comprimento. No Brasil, o pepino do tipo japonês é cultivado principalmente nas regiões sul e sudeste, com produtividade média de 40 a 50 toneladas por hectare. A Isla comercializa as sementes do pepino híbrido Nagai em pacotes longa vida, latas e envelopes de 10 gramas. A aquisição pode ser realizada pela loja virtual (www.isla.com.br), pelo televendas 0800 709 5050 ou diretamente em supermercados e casas agropecuárias.

Na ponta dos dedos

A FMC lançou no mês passado um aplicativo para celular que permite identificar doenças e pragas nas lavouras, através do acervo de manuais técnicos produzidos pela empresa e parceiros. “O FMC Agrícola Brasil” está disponível gratuitamente na App Store e no Android Market”, informa a gerente de comunicação da FMC, Fernanda Teixeira. Segundo ela, o navegador pode acessar o acervo de imagens agrícolas da empresa, vídeos e materiais técnicos de produtos, coletâneas, a revista FMC Square e outros serviços. “Tudo isso com um simples toque de dedo”, destaca Fernanda. Na mesma linha, a Basf lançou o Digilab 2.0, serviço composto por um sistema portátil de assistência técnica e diagnóstico de doenças, pragas e plantas daninhas, que permite a identificação de sintomas iniciais em diferentes tipos de cultivo. O Digilab funciona por meio de um microscópio digital, capaz de aumentar a imagem em até 200 vezes, e um software com banco de dados e imagens das principais doenças nos cultivos agrícolas. A versão mobile do sistema pode ser acessada por usuários de smartphones com sistemas Android e iOS (Apple).

60 | Agro DBO – outubro 2012

Isla/Divulgação

Rosa Lía Barbieri


Novidades no campo Para a segunda safra

Tomate industrial

Agricultores, agrônomos, técnicos agrícolas e representantes das indústrias do setor reuniram-se em Morrinhos (GO), em setembro, para conferir o desempenho do tomate BRS Sena, primeiro híbrido nacional de tomate para processamento industrial, desenvolvido pela Embrapa Hortaliças, sediada em Brasília (DF). Ainda em fase de validação, a nova cultivar também foi apresentada no município mineiro de Manga/MG. O BRS Sena apresenta excelente cobertura foliar, capaz de proteger seus frutos firmes e cilíndricos da exposição solar. Com boa concentração da maturação e ótimo desempenho na colheita mecânica, mostra tolerância à geminivirose e resistência à murcha de fusário (raças 1 e 2), à pinta-bacteriana raça 0 e ao nematoidesdas-galhas (Meloidogyne incognita e M. javanica). Os índices de produtividade e os teores de sólidos solúveis (grau Brix) são outras características que o tornam vantajoso para cultivo comercial. Na região de Manga, por exemplo, uma área de 502 m2, cultivada no período compreendido entre 27/05 a 16/09, apresentou 119 t/ha e 6,7 de grau brix.

A Biomatrix lançou em setembro uma semente de milho geneticamente modificada, a BM 780 PRO, específica para a segunda safra. Suas características principais, segundo o engenheiro agrônomo e diretor superintendente da empresa, Cláudio Zago, são: alta produtividade de grãos, precocidade, tolerância às principais doenças foliares e de colmo, além de grãos duros laranja-avermelhados de alta densidade. “É uma semente precoce e que, nos testes realizados, se mostrou muito adaptada para as condições de produção da segunda safra no Cerrado Brasileiro”, disse. O lançamento, realizado em Sorriso (MT), marca a entrada mais agressiva da empresa na região do Cerrado com sementes de alta tecnologia e produtividade, anunciou o gerente de Marketing da Biomatrix, Anderson Rodrigues.

Nova safra, arroz novo.

A Agro Norte, sediada em Sinop (MT), está lançando duas variedades de arroz: a ANa 7007, com ciclo de 107 dias, e a ANa 8001. Destinadas a produtores do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do país, ambas têm porte baixo a médio, bom perfilhamento, selecionadas para alta tecnologia e produtividade em áreas novas, renovação de pastagem e em rotação com a cultura de soja. A ANa 7007, com potencial genético para atingir 7 ton./há, já foi comercializado em pequeno volume, e para a próxima safra, encontra-se em processo de multiplicação. A ANa 8001, com potencial genético para atingir 8 ton./há, será plantada nesta safra, em pequenas áreas e em várias fazendas, para a empresa confirmar a nível de produtor, suas características mostradas de forma superior ao nível de pesquisa. A expectativa da Agro Norte é comercializar as sementes deste material na safra 2013/2014 e, em volume maior, na safra 2014/2015.

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Biblioteca da Terra Pequenas frutas

Cultivo de amoreiras

O

último Informe Agropecuário da Epamig traz como tema “Pequenas frutas: tecnologias de produção”, destacando espécies de clima temperado como a amora-preta, a framboesa e o mirtilo. O objetivo é disseminar informações sobre o cultivo e produção dessas frutas exóticas, apreciadas pelo sabor e benefícios à saúde. Segundo a Epamig, o cultivo de tais frutas pode ser boa opção para a agricultura familiar, tanto na comercialização in natura quanto processadas. O Informe aborda também o melhoramento genético, a produção de amora-preta e framboesa em regiões de clima quente e de clima temperado, produção de mirtilo e de physalis, a manutenção da qualidade pós-colheita e o beneficiamento. Com 104 páginas, o Informe custa R$ 15,00. Os interessados podem adquiri-lo pelo telefax (31) 3489-5002 e através do e-mail publicacao@epamig.br.

G

eralmente plantada em escala comercial para alimentação das lagartas do bicho-da-seda (Bombyx mori L.), a amoreira também pode ser utilizada na criação de outros animais, na medicina alternativa, como alimento funcional (seus frutos são ricos em compostos fenólicos), na fruticultura, na arborização de ruas e praças e em áreas de reflorestamento. Como o próprio nome da publicação indica, o manual técnico “Alternativas de Uso da Amoreira (Morus spp)” vai além da sericicultura – ou sericultura, termo também usado para designar a criação do bicho-da-seda. Elaborado por pesquisadores da Apta - Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, aborda sistemas de implantação e manejo, custos de produção, otimização da cultura para fortalecimento do agronegócio, etc. A publicação custa R$ 20,00. A comercialização é feita pela Fundag - Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola, através do site www.fundag.br ou do e-mail consultoria@fundag.br

Agricultura irrigada

E

ditado pela UFV – Universidade Federal de Viçosa, o livro “Planejamento e Manejo de Água em Agricultura Irrigada” é destinado ao público acadêmico e científico, estudantes de graduação e pós-graduação de cursos relacionados às disciplinas de irrigação, relação água-solo-planta e agrometeorologia, extensionistas e agricultores com alto nível tecnológico. Os autores são os pesquisadores Daniel Fonseca Carvalho e Luiz Fernando Coutinho de Oliveira. Escrito numa linguagem de fácil entendimento,, aborda importantes aspectos relacionados à sustentabilidade da agricultura irrigada e ao uso racional dos recursos hídricos. Com 240 páginas, custa R$ 45,00. Os interessados podem comprá-lo através do site www. editoraufv.com.br ou pelo telefone (31) 3899-3139.

Dúvidas sobre milho

O

livro “Milho: o produtor pergunta, a Embrapa responde” foi lançado durante o 29º Congresso Nacional de Milho e Sorgo, realizado em Águas de Lindóia (SP). Os autores são 65 profissionais com diferentes especialidades. Com uma linguagem simples e direta, abrange as questões mais frequentes levantadas por agricultores sobre as tecnologias que compõem o sistema de produção de milho e as principais informações disponíveis sobre a cultura. Integrante da coleção “500 Perguntas 500 Respostas”, o livro está disponível para venda na Livraria Embrapa por R$15,00. Para adquiri-lo, ligue para (61) 34484236 ou contate o serviço de atendimento online através do e-mail vendas@sct.embrapa.br.

62 | Agro DBO – outubro 2012


Calendário de eventos

OUTUBRO

8

I Congresso Brasileiro de Patologia Pós-Colheita

De 8 a 11 – Hotel Jangadeiro Recife (PE) – E-mail: cbppc@ cbpatologiaposcolheita.com.br

8

II Simpósio Internacional de Sistema de Integração Lavoura-Pecuária De 8 a 12 – Hotel Sheraton Porto Alegre (RS) – Site: www. cemcerimonia.com.br – E-mail: icls2012cemcerimonia.com.br Fone: (51) 3362-2323

9

ABTCP/45º Congresso e Exposição Internacional de Celulose e Papel De 9 a 11 – Transamerica ExpoCenter São Paulo (SP) – www.abtcp2012. org.br –E-mail: abtcp@abtcp.org.br

10

Expotoledo 2012/12ª Exposição do Agronegócio de Toledo De 10 a 14 – Centro de Eventos Ismael Sperafico – Toledo (PR) Site: www.srtoledo.com.br E-mail: sociedaderuraldetoledo@terra.com.br

11

3ª Exposição Nacional de Híbridos de Orquídeas

De 11 a 14 – Parque de Feiras e Exposições Wanderley Agostinho Burmann Ijuí (RS) Site: www.expoijuifenadi.com.br E-mail: secretaria@aciijui.com.br

12

X Seminário de Atualização em Sensoriamento Remoto e Sistemas de Informações Geográficas Aplicadas

64 | Agro DBO – outubro 2012

à Engenharia Florestal De 12 a 18 – Museu Oscar Niemeyer Curitiba (PR) – Site: www.10seminarioflorestal.com.br

15

12ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol

De 15 a 16 – Hotel Grand Hyatt São Paulo (SP) E-mail:conferência@datagro.com.br

22

Canasul2012/Congresso da Cana de Mato Grosso do Sul

De 22 a 24 – Parque de Exposições João Humberto de Carvalho Dourados (MS) Fone: (67) 3411-7104 – E-mail: canasuldourados@hotmail.com

23

38º Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras

De 23 a 26 – Hotel Glória – Caxambu (MG) – Fone: (35) 3214-1411 www.fundacaoprocafe.com.br

23

5º Salão Internacional de Artesanato (Raízes Brasileiras)

De 23 a 17 – Pavilhão de Exposições ExpoBrasília – Brasília (DF) Site:www.salaodoartesanato.com.br

24

Fórum Brasil sobre Biomassa e Energia

De 24 a 26 – Viçosa (MG) Site: sif.org.br

24

Fruit Attraction/Feira Internacional do Setor de Frutas e Hortaliças

De 24 a 26 – Madri (Espanha) Site: www.fruitattraction.ifema.es

22 - 1º Workshop Internacional sobre Biotecnologia Aplicada a Plantas Lenhosas Tropicais - De 22 a 25 – Universidade Federal de Lavras (Ufla) Lavras (MG) - Site: www.ciba2012.com/ inicio.html Promovido pela Ufla e pelo instituto francês Cirad – Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento, em parceria com a Embrapa e outras instituições, o workshop é voltado a estudantes de graduação e pósgraduação, professores universitários, pesquisadores e profissionais que trabalham com espécies tropicais lenhosas. Cerca de 20 especialistas brasileiros e franceses vão apresentar pesquisas e debater avanços nas áreas de genômica, transformação genética e micropropagação em plantas lenhosas tropicais, como café, citros, cacau, eucalipto e seringueira, entre outras. O objetivo é incentivar a transferência de tecnologia, o intercâmbio e a realização de novos projetos de pesquisa entre as instituições envolvidas.

NOVEMBRO

8

Simpósio Internacional de Águas Residuárias na Agricultura De 8 a 9 – Fazenda Experimental Lageado – Botucatu (SP) Site: fepaf.org.br E-mail: eventos@fepaf.org.br

11

24ª Conferência Internacional sobre Ciência do Café (Asic 2012)

De 11 a 16 – San José (Costa Rica) Site: www.asic2012costarica.org

12

III Congresso Nacional de Feijão-Caupi (Conac)

De 12 a 14 – Mar Hotel Recife – Recife (PE) Site: www.conac2012.org/congresso

22

VII Ciclo de Palestras sobre Heveicultura Paulista

De 22 a 23 – Ipê Park Hotel São José do Rio Preto (SP) Site: www.apabor.org.br E-mail: apabor@apabor.org.br

28

6º CBTI/Congresso Brasileiro de Tomate Industrial/Feira de Produtos e Negócios

De 28 a 30 – Centro de Convenções Goiânia (GO) Site: www.tomatecongresso.com.br

28

20º Encafé/Encontro Nacional das Indústrias de Café

De 28/11 a 2/12 – Iberostar Bahia Salvador (BA) E-mail: encafe@abic.com.br


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outubro 2012 – Agro DBO | 65


Legislação

Ações revisionais Infelizmente, ainda há muitos casos de produtores obrigados a pagar encargos proibidos em transações de crédito rural. Fábio Lamonica Pereira*

O

judicário já se ma­ nifestou sobre diversos direitos que impactam diretamente o agro­ ne­ gócio. Tratando-se de opera­ções de crédito, há limitações estabelecidas, especialmente quanto a encargos fi­ nanceiros, as quais deveriam ser ob­ servadas pelos credores, o que nem sempre ocorre na prática. Para as CCRs – Cédulas de Crédito Rural, que são títulos que contém pro­ messa de pagamento em dinhei­ ro, por exemplo, os juros não podem ser superiores a 12% ao ano para o caso de normalida­ de. Em caso de mora, é permi­ tida a cobrança de juros remu­

tos mais recentes, os casos de exi­ gência de taxas de juros ilegais têm sido identificados com me­ nor frequência que no passado, uma vez que o cenário econômi­ co mudou radicalmente. Ainda assim, há muitos casos de produ­ tores que são praticamente obri­ gados a pagar encargos absoluta­ mente proibidos em transações de crédito rural, além de arcarem com a aquisição de diversos pro­ dutos que lhes são “empurrados” pelos credores. Identificada a ilegalidade, o mutuário tem a faculdade de requerer que os contratos sejam revistos judicialmente e os en­

Prazo para receber valores pagos indevidamente é de 10 anos, de acordo com o novo Código Civil

*O autor é advogado, especialista em Direito do Agronegócio

neratícios acrescidos de 1% ao ano. Por sua vez, a multa con­ tratual, ante a aplicação do Có­ digo de Defesa do Consumidor, é restrita a 2% sobre o valor em atraso. Também em caso de mo­ ra é proibida a cobrança do en­ cargo conhecido como “comis­ são de permanência”. As mesmas regras que deter­ minam a limitação de encargos para operações representadas por CCR têm sido igualmente apli­ cadas, subsidiariamente, às ope­ rações representadas por CPRs – Cédulas de Produto Rural, que são títulos que contém promes­ sa de entrega de produtos rurais com possibilidade de liquidação financeira em determinados ca­ sos (Cédula de Produto Rural Fi­ nanceira). Entretanto, em contra­

66 | Agro DBO – outubro 2012

cargos adequados ao limite es­ tabelecido em lei e pela inter­ pretação do próprio judiciário. Tal revisão é possível para os contratos vigentes e, até mes­ mo, em relação aos que já este­ jam liquidados. Feita a revisão e constatado que o produtor pa­ gou valores indevidos, ele te­ rá declarado o direito de rece­ ber a diferença com os acrésci­ mos legais. O prazo estipulado em lei, para que tal direito pos­ sa ser exercido, é contado a par­ tir da emissão da operação ou, dependendo da interpretação, a partir do respectivo vencimen­ to, o que se apresenta mais coe­ rente, sendo, pois, de vinte anos em se considerando o Código Civil anterior e de dez anos em se considerando o atual Código

Civil, que passou a vigorar em janeiro de 2003. Em resumo, como o atual­ código estabeleceu uma regra de transição para determinar os prazos de prescrição, para ope­ rações emitidas a partir de ja­ neiro de 1993 e até janeiro de 2003, o prazo para a propositu­ ra da ação expira em janeiro de 2013. Após janeiro de 2013 es­ tarão prescritas (não poderão mais ser propostas) as ações de revisão de operações de crédi­ to rural (assim como de outras linhas de crédito) que tenham sido emitidas entre janeiro de 1993 e janeiro de 2003. Após ja­ neiro de 2013, somente poderão ser propostas ações revisionais de cédulas emitidas a partir de janeiro de 2003, considerando que o prazo prescricional pas­ sará a ser de dez anos somente. Fica a ressalva acerca de ope­ rações emitidas no referido pe­ ríodo (1993 a 2003) que foram objeto de renegociação por meio de programas específicos como Pesa e Securitização e respecti­ vas resoluções de acordo com as quais o prazo de vencimento foi ajustado para até o ano de 2025. Com isso, resta a interpretação possível, porém não pacífica, de que o prazo prescricional ainda não começou a correr. Trata-se de um alerta para que aqueles que têm a possibilidade de bus­ car seus direitos não sejam sur­ preendidos com a chamada pres­ crição, que impedirá qualquer reclamação futura sobre eventu­ ais valores pagos indevidamente em favor de seus credores.


Revista Agro DBO - Ed 38 - Outubro/2012  

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