Do mito ao logos
Giulio Romano. 1526-1535. Sala dei Giganti/Palazzo del Te, Mântua, Itália. Foto: Pietro Baguzzi/AKG-Images/Latinstock
Os deuses olímpicos assistem à queda dos titãs, afresco de Giulio Romano, de 1526-1535. As narrativas míticas descritas pelos poetas Hesíodo e Homero marcaram o pensamento grego antes do nascimento da Filosofia.
Os mitos gregos antigos encontraram na origem dos deuses a explicação para o princípio do cosmo e da vida humana. Por exemplo, neles a criação dos seres humanos é contada como obra dos titãs, deuses nascidos no início dos tempos. O titã Epimeteu os teria feito a partir do barro. Seu irmão Prometeu, por compaixão, teria roubado o fogo do Olimpo, a morada dos deuses, e dado vida à nova criação, originando a espécie humana. A Filosofia não deixou de lidar com preocupações semelhantes, mas passou a elaborar respostas diferentes sobre a origem das coisas e dos seres, pois se orienta por um princípio bastante diferente daquele adotado pela narrativa mítica. O discurso filosófico dispensa explicações fantásticas e sobrenaturais porque é guiado inteiramente pelo logos. Logos é um termo traduzido frequentemente pelo vocábulo razão. Contudo, o logos filosófico possuía um alcance bem maior, significando a razão, como ordenação coerente da realidade; a linguagem, como meio de expressão dessa racionalidade; e, finalmente, o próprio pensamento, doravante erguido não mais sobre a base da mera autoridade, mas fundamentado em argumentação, portanto, passível de ser questionado. Independentemente do modo como cada filósofo procurou estruturar sua própria explicação, o fato essencial e distintivo é que, pela primeira vez na história do pensamento humano, o discurso acerca de nossas próprias origens e também acerca do funcionamento da natureza se orientava por um critério, a princípio, comum a todos. É a imposição dessa racionalidade, inerente ao discurso filosófico, que marca propriamente a distinção entre o discurso da tradição mítica e essa nova maneira de encadeamento das ideias, à qual se deu o nome de Filosofia. Dessa forma, a postura filosófica exigirá que o filósofo dê todas as explicações e demonstrações para que outros seres humanos, igualmente dotados de racionalidade, possam avaliar a importância e a validade da resposta apresentada. Enquanto os poetas e os sacerdotes antigos diziam anunciar a verdade trazida a eles pelos deuses e pelas musas, o filósofo necessita explicar racionalmente aquilo que considera a verdade. Em resumo, na passagem do mito à Filosofia, marca-se também uma transformação na concepção da função do ser humano de mero transmissor da verdade para aquele que ativamente a elabora ou desvela.
A narrativa mítica: um universo distante Judaico-cristão O cristianismo apropriou-se de alguns dos ensinamentos do judaísmo. Juntas, essas duas religiões influenciaram fortemente a cultura ocidental, mesmo em seu aspecto não religioso. Portanto, quando se faz referência a esse termo como uma tradição, ele é tomado em seu sentido cultural mais amplo, e não como um tipo de religião específica.
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Unidade 1
Quando estudamos o pensamento mítico, a Filosofia e a cultura gregas, é preciso considerar que há uma enorme diferença em relação à nossa maneira contemporânea de pensar. Devemos nos lembrar de que a religião grega, assim como a Filosofia, era pagã e não considerava as ideias de criação, revelação e de um Deus pessoal, absolutamente essenciais para a tradição judaico-cristã. Os mitos gregos foram elaborados sem a ideia de uma verdade revelada por um criador único do Universo e de tudo o mais, fazendo-os a partir do nada. Da mesma forma, a Filosofia clássica, ainda quando se utiliza de termos como deus ou demiurgo, não se assemelha ao modo judaico-cristão de conceber o mundo. Aquilo que, em geral, entendemos corriqueiramente por divindade não estava presente na narrativa mítica nem na Filosofia antiga. É necessário termos isso sempre bem claro para que não acabemos por impor ao mundo grego antigo elementos de compreensão próprios da nossa cultura ocidental. Assim, quem já nasceu no interior de uma cultura judaico-cristã, como é o caso de muitos de nós, precisa se esforçar para compreender o paganismo antigo.