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FÉ HOJE

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N0 40 - Dez/2013 - R$10

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de

Agostinho

Hipona


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Caros leitores e colaboradores em Cristo, É com grande alegria que lhes oferecemos esta edição especial da Revista Fé para Hoje. Recentemente li um artigo do jornal New York Times que falava sobre o recente movimento de retorno das igrejas estadunidenses à teologia histórica e reformada. Há poucos anos, não eram muitos os cristãos que conheciam essa expressão e seu significado. Isso também é verdade no Brasil. Mas hoje estamos testemunhando um despertamento global para essa fé histórica que foi esquecida na primeira metade do século passado. Nesta edição especial, voltaremos 1600 anos no tempo e olharemos um pouco da vida e teologia de um homem que Deus usou para nos ajudar a entender a Santa Escritura e cujo ensino influenciou a Reforma Protestante do século XVI - de onde tiramos essa expressão, "fé reformada". Agradecemos seu apoio ao nosso ministério e oramos ao Senhor para que esses artigos sejam usados para despertar sua mente e coração a uma maior paixão pela verdade bíblica, como vemos de forma tão efusiva na vida de Agostinho de Hipona.

J. Richard Denham III Diretor, Ministério Fiel

EDITOR-CHEFE Tiago J. Santos Filho TRADUÇÃO Francisco Wellington Ferreira REVISÃO

Marilene Paschoal

DIAGRAMAÇÃO

Rubner Durais

REALIZAÇÃO Editora Fiel | Dezembro de 2013 | no 40 IMAGEM DA CAPA

DIRETOR

James Richard Denham III

Caravaggio, St. Augustine (Whitfield Fine Art, London – Coleção Particular)


Sumário Editorial Tiago Santos..............................................3

1. Aurelius Augustinus, Bispo de Hipona Tom J. Nettles.......................................... 13

2. A vida e o ministério de Agostinho de Hipona Alderi S. Matos....................................... 19

3. Agostinho: Uma Vida de Graça e Palavras Michael A. G. Haykin.............................. 27

4. Agostinho e a Santíssima Trindade Franklin Ferreira................................... 33

5. “A peregrina cidade de Jerusalém”. Jerônimo, Agostinho e o Império. Gilson Santos............................................. 47

6. Tempo, História e Escatologia Hermisten Maia Pereira da Costa......... 55


Vittore Carpaccio, Vis達o de Santo Aggostinho (Scuola di San Giorgio degli Schiavoni)


Agostinho de Hipona T J. S F

Uma das grandes belezas e seguranças da teologia bíblica, histórica e ortodoxa é que falta-lhe originalidade. A boa teologia é derivada da Palavra de Deus nas Escrituras, a qual tem sua origem através da inspiração do Espírito Santo. A teologia que honra a Deus é aquela que submete-se à autoproclamada autoridade das Escrituras e que, portanto, mantém-se no limite daquilo que foi revelado por Deus e ensinado pelos profetas e apóstolos. Nesse sentido é que a teologia não é e nem deve ser original e é por isso que, desde o fechamento do cânon, a ortodoxia cristã atravessa os séculos, as culturas e os poderes deste mundo com uma impressionante unidade e coerência em suas dou4 | Revista F É P A R A H O J E

trinas mais basilares e importantes. Seus grandes dogmas são derivados da Bíblia. Isso não quer dizer, todavia, que a teologia não deva buscar profundidade e desenvolvimento. Em grande medida, o produto teológico que temos hoje à nossa disposição, é fruto do labor criativo, zeloso e meticuloso empreendido por estudiosos da Palavra de Deus, ao longo da história. Então, se por um lado, no núcleo do que a fé cristã afirma hoje, do que a igreja cristã crê, estão aquelas doutrinas que foram cridas e ensinadas desde os apóstolos, por outro, os séculos de história cristã serviram para o desenvolvimento, aprofundamento, refinamento e apuração dessas dou-


trinas. Não há grandes novidades, mas houveram grandes progressões.

A INFLUÊNCIA DE AGOSTINHO Um desses homens de Deus, dotado de uma mente criativa e intenso desejo de cavar mais profundamente na Palavra de Deus e que ajudou a pavimentar o caminho das grandes progressões do pensamento teológico foi o africano Agostinho de Tagaste (354-430), bispo de Hipona. Agostinho foi, provavelmente, o grande pensador cristão da Idade Média. Por quase dois mil anos sua produção teológica tem pautado os grandes debates do cristianismo e influenciado o pensamento e cultura do Ocidente. Do ponto de vista católico, Joseph Aloisius Ratzinger ratifica essa impressão, ao dizer: “Agostinho deixou uma marca profunda na vida cultural do Ocidente e de todo o mundo. Sua influência é vastíssima. (...) Raramente uma civilização encontrou um espírito tão grande, com ideias e formas que alimentariam gerações vindouras.”1 A Reforma Protestante do século XVI, fundamental ao avivamento da fé e espiritualidade cristã, até então adoecida mortalmente pelo desvio teológico, corrupção e misticismo, deve a Agostinho o cerne de suas principais proposições, particularmente em questões como o pecado original, a graça de Deus, a salvação e a predestinação, além do 1 Bento XVI. Os Padres da Igreja (Campinas, SP: Eclesiae, 2012) p. 183-184.

exemplo de seu vigoroso ministério pastoral. O teólogo luterano Richard Balge, citando um colega, disse que: “Se Agostinho de Hipona tivesse vivido no tempo da Reforma, ele teria se juntado a Martinho Lutero”.2 O teólogo presbiteriano B. B. Warfield, por sua vez, disse que “o sistema de doutrina ensinado por Calvino é somente o agostinianismo, conforme se vê em todos os demais reformadores. Pois, se a Reforma foi, do ponto de vista espiritual, um grande avivamento da religião, do ponto de vista teológico foi um grande reavivamento do agostinianismo”.3 E o erudito batista Timothy George, ao falar da influência do pensamento agostiniano na Reforma, disse que “a linha principal da Reforma Protestante pode ser vista como uma aguda agostinianização do cristianismo.”4

AGOSTINHO ESTÁ DO NOSSO LADO Os grandes representantes da Reforma do século XVI, Martinho Lutero, João Calvino, Martin Bucer, Philip Melanchton e tantos outros, encontraram na vigorosa teologia agostiniana fundamento tanto para o rompimento com o status quo da igreja romana como para afirmar a unidade do pensamento genuinamente 2 Richard D. Balge. Martin Luther, Agostinian (artigo publicado em http://www.wlsessays.net/files/BalgeAugustinian.pdf ), acessado em novembro de 2013. 3 Benjamin Breckinridge Warfield. John Calvin: the man and his work (The Methodist Review, Outubro de 1909). 4 Timothy George. Teologia dos Reformadores (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2004), p. 76. Revista FÉ PAR A H OJE | 5


cristão que remonta aos ensinos dos Pais da Igreja e dos Apóstolos. À guisa de ilustração, vejamos como o pensamento de Agostinho foi de grande importância para alguns dos reformadores mais destacados:

ças em seu entendimento sobre a justiça de Deus. Seu companheiro e colega reformador, o teólogo Philip Melancthon, via Lutero, no contexto da Reforma, como uma “voz intercambiável com a de Agostinho;

Agostinho foi, provavelmente, o grande pensador

cristão da Idade Média. Por quase dois mil anos sua produção teológica tem pautado os grandes debates do cristianismo e

influenciado o pensamento e cultura do Ocidente”

Martinho Lutero era um monge agostiniano e derivou dessa escola o tutano de sua própria teologia. A influência de Agostinho em Lutero, aliás, parece haver perpassado todas as fases de sua vida como teólogo. No prefácio da Theologia Germânica, obra do século XV redescoberta por Lutero e republicada por ele em 1516, ele reconhece o débito que tem com Agostinho, colocando seus escritos próximos dos escritos da própria Escritura. Em suas “conversas de mesa”, em 1532, Lutero disse: “No começo de minha carreira, como professor de teologia, eu não simplesmente lia Agostinho, mas devorava suas obras com voracidade”.5 No prefácio de seus Escritos Latinos, de 1545 – um ano antes de sua morte – Lutero faz referência à obra O Espírito e a letra, de Agostinho, e diz que há muitas semelhan5 Martinho Lutero. Luther Works, LI, xviii.

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uma voz que renovava o ensino primitivo da igreja”.6 Com João Calvino não foi diferente. A influência da teologia agostiniana também é bem evidente em toda sua carreira teológica.7 Ele mesmo disse que “ficaria feliz em confessar toda sua fé pelas palavras de Agostinho”8 e ainda fez uma famosa afirmação de aprovação, ao dizer: Augustinus totus noster est, isto é, que “Agostinho está do nosso lado”. O historiador Justo Gonzalez lembra que na principal obra de Calvino, as Institutas, “se manifesta um conhecimento profundo, não só das Escrituras, mas também de antigos 6 Peter Fraenkel. Testimonia Patrum: The Function of the Patristic Argument in the Theology of Philip Melanchthon (Genebra: Droz, 1961), p. 32. 7 Recomendo a leitura do artigo de S. J. Han: An Investigation into Calvin’s use of Augustine (http://www.ajol. info/index.php/actat/article/viewFile/52214/40840), Acessado em novembro de 2013. 8 Paul Helm. Apud em N. R. Needham, The Triumph of Grace (London: Grace Publication, 2000), p. 8.


escritores cristãos, particularmente Agostinho”.9 Na última edição das Institutas, de 1559, encontram-se mais de 400 citações de textos de Agostinho. Calvino confiava mais na teologia de Agostinho do que em sua exegese, como se vê em vários de seus comentários bíblicos, particularmente seu comentário em Romanos, no qual ele critica a abordagem alegórica que muitas vezes Agostinha emprestava ao texto, mas, o fato é que esse eminente pai da igreja é uma grande fonte de inspiração e influência da produção teológica e pastoral de Calvino.

das Almas, Bucer faz muitas referências ao trabalho pastoral e à teologia de Agostinho. Em seu comentário à epístola de Paulo em Romanos, de 1536, Bucer faz um grande esforço para aliar-se a Agostinho no tratamento que este faz dos textos do Antigo e Novo Testamento e até mesmo em suas noções sobre a justificação (declarada e transmitida). Ainda que Bucer estivesse pronto para discordar de Agostinho quando necessário, o fato é que ele viu em Agostinho uma voz de consonância com o corpo da reforma e alinhou-se à essa voz em algumas áreas vitais.

Augustinus totus noster est” – Calvino Martin Bucer, o reformador de Estrasburgo que teve papel vital na busca de unidade entre os demais reformadores, também apoiou-se em Agostinho para desenvolver muito de seu pensamento teológico. Num certo ponto, ele disse que tem “grande reverencia por Agostinho”.10 Em sua obra, Florilegium Patristicum, na qual reúne citações dos Pais da Igreja, encontram-se várias referencias às obras e pensamento de Agostinho. Também em sua obra sobre teologia pastoral, Sobre o Verdadeiro Cuidado 9 Justo Gonzalez. A Era dos Reformadores (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2004), p. 112. 10 Basil Hall. Martin Bucer: Reforming Church and Community, ed. D. F. Wright (Cambridge, UK: Cambridge Press, 1996), p. 150.

O período pós reforma também valeu-se do pensamento de Agostinho – seja diretamente, ou indiretamente pela influência dos próprios reformadores. Também as gerações sucessivas, todas elas têm sido, como notou Ratzinger, alimentadas pelas ideias e pensamentos deste gigante da fé. Ele é provavelmente o mais qualificado representante da igreja primitiva e permanece como uma das mentes mais importantes da história da fé cristã.

AS CONFISSÕES De tudo quanto Agostinho produziu, destaco aquela que muito provavelmente foi a sua principal obra: Revista FÉ PAR A H OJE | 7


As Confissões. Trata-se de sua autobiografia, escrita em treze livros no curso de três anos, entre os anos de 397 e 400. Há muito que se poderia falar sobre As Confissões e seus benefícios e virtudes. Eruditos e literatas, tanto da filosofia como da teologia, certamente já têm empreendido o papel de analisar as muitas riquezas dessa obra e extrair o sumo de seu rico conteúdo. Aqui queremos oferecer apenas um pequeno vislumbre dessa que permanece como uma das mais importantes obras literárias de todos os tempos. Nela Agostinho empreende uma profunda investigação da própria alma, da sua fé e de sua sincera bus-

Foi então que tuas perfeições invisíveis se manifestaram à minha inteligência por meio de tuas obras. Mas não pude fixar nelas meu olhar; minha fraqueza se recobrou, e voltei a meus hábitos, não levando comigo senão uma lembrança amorosa e, por assim dizer, o desejo do perfume do alimento saboroso que eu ainda não podia comer11. Buscava um meio que me desse força necessária para gozar de ti, e não a encontrei enquanto não me abracei ao Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que está sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos, que chama e diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida.12

Nas Conf issões Agostinho empreende

uma profunda investigação da própria alma, da sua fé e de sua sincera busca por Deus.”

ca por Deus. Ele abre seu coração e, numa conversa dirigida a Deus, confessa seus pecados, dramas, angústias d’alma, frustrações e também sua luta pela verdade e sua luta com o próprio Deus. Vemos, por exemplo, em As Confissões, uma verdadeira luta da mente e a sublime busca pela verdade, a qual Agostinho reconhece haver encontrado somente quando Jesus o encontrou: 8 | Revista F É P A R A H O J E

Também vemos a luta da carne, a qual ele chama de luta com a luxúria: “Admirava-me de já vos ter amor e de não amar um fantasma em vez de Vós. Era arrebatado para vós pela vossa beleza, e logo arrancado de vós pelo meu peso. Este peso eram os hábitos da luxúria”.13 Sua luta contra as tentações sexuais ainda é exempli-

11 Agostinho. Confissões (São Paulo, SP: Editora Nova Cultural, 1999), p. 185. 12 Ibidem. p. 192. 13 Ibidem. p. 190.


Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova,

tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora, a te procurar!” – Agostinho

ficada pela famosa oração: “Senhor, dá-me a castidade e a continência, mas ainda não”.14 Todavia, é preciso registrar, muitas vezes a culpa de Agostinho por conta de sua concupiscência tem levado muitos a acusarem-no de ter sido promíscuo. Mas talvez essa conclusão seja injusta, pois ele mesmo registra somente um caso amoroso, com uma concubina, mãe de seu filho Adeodato, mulher a quem muito amou, embora nunca tenha se casado com ela. Ele ainda conta como Deus o alcançou e salvou e como ele passou a perceber a mão providente de Deus nas diversas fases de sua vida, além de ter uma noção mais plena e gozosa da beleza de Deus, depois de sua conversão. As Confissões também são uma expressão de adoração e uma declaração de amor e devoção a Deus e nela ele exalta a Deus louvando-o pela criação. Num certo ponto, ele confessa: Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava à beleza das formas que criaste. Estavas comigo, e eu não estava em ti. Reti-

14 Ibidem. p. 214.

nham-me longe de ti aquilo que nem existiria se não existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama.15

De tudo o mais, um aspecto muito sublime de suas Confissões, que se alteia como um fator presente em toda narrativa, é a noção de que é Deus quem vem ao encontro do homem para alcançá-lo e salvá-lo. Talvez a expressão que melhor exemplifica essa realidade na experiência de Agostinho, seja a oração que ele repete algumas vezes no curso de suas confissões: “Dai-me o que ordenais, e ordenai-me o que quiserdes” (Da Quod Iubes et Iube Quod Vis). Esta oração causou arrepio no grande rival de Agostinho, Pelágio, que via nela uma afronta ao livre arbítrio do homem, o qual, Pelágio cria, nascia reto e tinha em si mesmo a capacidade de obedecer ou rejeitar a Deus. Mas Agostinho entendeu – e essa oração assim o demonstra – que so-

15 Ibidem. p. 285.

Revista FÉ PAR A H OJE | 9


mente a graça de Deus e o poder do Espírito, atuando no interior do homem, é que pode levá-lo ao próprio Deus. É Deus quem dá causa à fé, ao amor, à devoção e à obediência e é por isso que ele pede: concede-me o que ordenais, isto é, capacita-me, Senhor, para o que queres. Em outra obra sua, ele pergunta: “Que nos ordena Deus em primeiro lugar, e com mais insistência, senão que acreditemos nele? Ora, é precisamente esta graça que ele nos concede”.16

essa reação muitas vezes é exagerada e mais emocional do que justa. Muito do que é rejeitado é herança da cristandade, da fé cristã na história e de imenso proveito para os cristãos hoje. Faríamos bem em, ao contrário dessa tendência, resgatar e valorizar esse rico legado. Em Agostinho, particularmente, há muito que aprender – como fizeram também nossos pais reformadores e toda tradição cristã nesses últimos dezessete séculos.

Agostinho cavou nas Escrituras em busca da verdade; a Reforma fez o mesmo.” POR QUE LER AGOSTINHO? Em nossa breve tradição protestante no Brasil, a reação ao catolicismo romano tem, não raras vezes, rejeitado muito dos símbolos, tradição, produção teológica, proponentes da fé que são, normalmente, associados à Roma. Assim, não é incomum alguma desconfiança do leitor mais desavisado, porém sincero e zeloso, quando se fala no proveito que temos pela leitura e aprendizado com aqueles que estejam ligados à tradição romana. Mas

16 Agostinho. Confissões. Nota de J. Oliveira Santos, apud, De Bono Perseverantiae: Quid vero nobis primitus et maxime Deus iubet, nisi ut credamus in Eum? Et hoc ergo ipse dat (São Paulo, SP: Nova Cultural, 1999), p. 286.

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E há muito o que ler de Agostinho. Dentre os Pais da Igreja, seus escritos são os mais abundantes. A história de sua vida e sua obra foram catalogados pelo cuidadoso trabalho de seu biografo e contemporâneo Possídio, que escreveu a Vita Augustini e indexou nela o Indiculos, que elencava e reproduzia suas principais obras. São centenas de homilias e cartas ainda preservadas e várias obras filosóficas e teológicas que, conforme coloca Ratzinger, “são de importância fundamental, não só para o cristianismo, mas para a formação de toda cultura ocidental”.17 17 Ratzinger. Padres da Igreja, p. 201.


Em seus escritos, temos um tesouro de sabedoria que pode fazer muito bem ao povo de Deus, se lido com discernimento. É claro que Agostinho teve os seus limites e cometeu seus equívocos. Mas encontramos nele uma mente brilhante e um coração radiante, que ardia por amor a Deus, como pouco se vê em nossos tempos. Temos nele um esforço diligente para submeter todas as coisas à revelação. Suas Conf issões, aliás, são a grande prova disso. Foi somente quando a Escritura falou que sua obstinada busca pela verdade cessou. A partir desse

Em Agostinho, temos uma impressionante profundidade teológica, assertividade e firmeza doutrinária, intensa devoção a Deus, inquestionável respeito ao texto bíblico e genuína preocupação pastoral. Essas qualidades são um grande estímulo para o estudante de teologia, particularmente, mas também para todo cristão sincero que busca agradar a Deus e viver neste mundo vil e cheio de perigos - especialmente diante dos muitos desafios enfrentados pela fé cristã de nossos tempos, em que os valores deste mundo são difusos, em que há uma crise de

Em Agostinho, temos uma impressionante

profundidade teológica, assertividade e f irmeza

doutrinária, intensa devoção a Deus, inquestionável

respeito ao texto bíblico e genuína preocupação pastoral.” ponto, ele passa a ser um estudioso da verdade contida nas Escrituras. Conforme colocou Solano Portela, em uma conversa que tivemos sobre o bispo de Hipona, “Agostinho cavou nas Escrituras em busca da verdade; a Reforma fez o mesmo; Calvino continuou cavando e olhando com mais clareza as Escrituras; nós temos de fazer o mesmo. Igreja Reformada sempre se reformando é isso”.

conteúdo e substância de fé e onde os homens - e, surpreendentemente, até mesmo uma ala do cristianismo - suspeitam dos dogmas e afirmações da Palavra de Deus e da ortodoxia cristã. Em Agostinho temos a junção de vida vigorosa e doutrina robusta. Isso faz dele um campeão da fé. Mais uma vez, Ratzinger oferece um útil insight sobre a obra de Agostinho: Revista FÉ PAR A H OJE | 11


Em seus escritos [Agostinho] o encontramos vivo. Quando leio os escritos de Santo Agostinho, não tenho a impressão que se trata de um homem morto há mil e seiscentos anos, mas sinto-o como um homem de hoje: um amigo, um contemporâneo que me fala, que fala a nós com sua fé vigorosa e atual. Nele vemos a atualidade permanente de sua fé. Fé que vem de Cristo, Verbo Eterno encarnado, Filho de Deus e Filho do homem. E podemos ver que essa fé não é de ontem, mesmo tendo sido pregada ontem; é sempre de hoje, porque Cristo é realmente ontem, hoje e para sempre. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Assim nos enco-

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raja Agostinho a confiarmos neste Cristo sempre vivo e encontrar nele o caminho da vida.18

A presente edição da Revista Fé para Hoje celebra a vida e obra de Agostinho de Hipona e oferece ao prezado leitor uma pequena introdução ao pensamento deste servo de Deus. Com esta edição, queremos fazer coro com João Calvino e dizer: Agostinho está do nosso lado. Que saibamos aproveitar a sinceridade de sua jornada em busca da verdade, a criatividade de sua teologia, a beleza de sua devoção a Deus, o vigor de seu exemplo e testemunho, a firmeza de sua fé.

18 ibidem. p. 193.


Revista FÉ PAR A H OJE | 13

Mosaico (Catedral de Cefalù, Itália)


Aurelius Augustinus, Bispo de Hipona T J. N

No que diz respeito à combinação de doutrina e piedade, Agostinho teve poucos que se lhe igualaram na história do cristianismo. Seus escritos proveem informação sobre cada área de discussão na filosofia cristã, teologia sistemática, filosofia da história, polêmica, retórica e devoção. Embora algumas opiniões apoiem as doutrinas de oração intercessora e sacrifícios em favor dos mortos, o purgatório e a justificação transformacional, as suas poderosas doutrinas da graça, bem como da encarnação e do sacrifício de Cristo recebem desenvolvimento substancial e acurado nas confissões do cristianismo reformado. Depois da queda de Roma, o projeto milenar de reconstrução da civilização ocidental, 14 | Revista F É P A R A H O J E

no pensamento cristão e não no pensamento pagão, prosseguiu com base em conceitos agostinianos. A Reforma, no século XVI, redescobriu e edificou sobre elementos negligenciados do ensino de Agostinho sobre as doutrinas do pecado e da salvação. Agostinho nasceu em 354, em Tagaste, na província romana da Numídia, no Norte da África. Observações posteriores sobre a infância e a queda levaram Agostinho a comentar: “A inocência das crianças está na debilidade de seu corpo e não em qualquer qualidade em sua mente” (Conf issões 1.vii – as referências subsequentes das Confissões serão identificadas apenas pelos números do livro e do capítulo).


Seu pai, Patrício, era um pagão. Agostinho o lembrava como um homem rude, forte, irascível e infiel ao seu leito conjugal. Ele trabalhava muito, mas achava difícil subir como um africano no sistema romano de economia e política. Parece que Agostinho sentia pouca afeição por seu pai, embora este tenha se sacrificado para lhe dar educação. Patrício morreu antes de Agostinho completar 17 anos. Sua mãe, Mônica, era uma cristã zelosa. Extraordinariamente apegada a Agostinho e ao seu bem-estar, Mônica procurou a salvação de seu filho com energia incansável e oração constante. Ela pulou, literalmente, de alegria quando ouviu sobre a conversão de Agostinho e sua sujeição ao cristianismo ortodoxo. Logo depois, segura de que os dons e a devoção de Agostinho ardiam para a glória de Deus, Mônica soube que não viveria muito tempo. Ela morreu aos 56 anos de idade, quando Agostinho tinha 33 anos. Na opinião de Agostinho, ambos os pais deram ênfase indevida ao sucesso de seus estudos. Seu pai não tinha nenhuma motivação espiritual, apenas ambição vã pelo prosperidade do filho. Sua mãe acreditava que seus estudos não impediriam a sua conversão, mas que, de fato, a favoreceriam. Ela estava certa. Depois da educação fundamental em Tagaste, Agostinho estudou, de 365 a 369, literatura clássica em Madaura. Ele começou um amor vitalício pela linguagem que procurava a expressão apropriada da verdade. Seus

primeiros estudos mostraram quão perversamente os homens podem usar algo tão maravilhoso e intrinsecamente bom como a linguagem. Palavras e eloquência tão necessárias à persuasão e à exposição sofreram o abuso de definir e inculcar o erro e a vileza. Posteriormente, em suas Confissões, Agostinho observaria com que cuidado ávido os homens seguem as regras de letras e sílabas, enquanto negligenciam as regras permanentes da salvação eterna. Com a ajuda de um benfeitor rico chamado Romanianus, Agostinho foi para Cartago em 370, para ter estudos avançados em retórica. Ali, ele começou uma concubinagem com uma mulher, e isso durou por 13 anos. Um filho, Adeodato (“dado por Deus”), resultou da união deles. Ao pensar no desejo que o impeliu a essa união, Agostinho lembrou: “Da impura concupiscência da carne e da poderosa imaginação da puberdade, se elevaram névoas que encobriram e entenebreceram meu coração, para que eu não pudesse fazer distinção entre a luz clara do amor e o nevoeiro da lascívia” (2.ii). Em Cartago, ele conheceu a obra Hortensius, de Cícero. Isto transformou sua experiência anterior com a retórica em um uso inteligente da linguagem na busca da verdade. “A coisa que me deleitou na exortação de Cícero foi que eu deveria amar, buscar, ganhar, possuir e abraçar não esta ou aquela escola de filosofia, mas a própria sabedoria, o que quer que ela fosse” (3.iv). Esta nova resolução pela verdadeira sabedoria pôde produzir somente Revista FÉ PAR A H OJE | 15


um desejo protelado por pureza, como Agostinho orou: “Dá-me castidade e continência, mas não ainda” (8.vii). Por nove anos, ele procurou a verdade dentro da seita do maniqueísmo, fascinado pelo materialismo e pelo dualismo deles. Os maniqueístas lidavam com o problema do mal por combinarem pensamentos de Cristo, Buda e Zoroastro. Agostinho aceitou o que parecia ser uma abordagem sofisticada e científica do mal, ao mesmo tempo que endossava ostensivamente o treinamento que recebera na infância concernente ao ensino do reino de Cristo. Por fim, ele descobriu que esse

Suas reflexões sobre o dualismo maniqueísta resultou num dos seus mais profundos pontos teológicos a respeito do mal. Em sua obra Solilóquios, escrita logo depois de sua conversão, ele se referiu a Deus como aquele “que mostra, para os que nele buscam o refúgio daquilo que é realmente verdadeiro, que o mal é nada”. Visto que Deus criou todas as coisas, o mal não tem existência independente das coisas boas. O mal é a privação do bem. Quando todo o bem desaparece, nada existe. O mal é apenas ausência ou configuração errônea do bem. Não é uma substância independente que in-

A Reforma, no século XVI, redescobriu e edif icou sobre elementos negligenciados do ensino de Agostinho sobre as doutrinas do pecado e da salvação.” sincretismo fascinante não tinha nada em comum com sua busca pessoal pela unidade entre palavra e substância. Em vez disso, o maniqueísmo era “uma seita de homens que falavam absurdos pretenciosos, homens carnais e mundanos”. A conversa deles enredavam as almas “com um arranjo das sílabas dos nomes de Deus, o Pai, do Senhor Jesus Cristo e do Paracleto, o Espírito Santo, nosso Consolador. Estes nomes estavam sempre nos lábios deles, mas somente como sons e barulhos da língua” (3.vi). 16 | Revista F É P A R A H O J E

vade e contamina, mas tem de plagiar o bem de Deus e diminuir a sua glória. O mal não é removido pela erradicação de uma natureza contrária, como os maniqueístas pensavam, e sim pela purificação da própria coisa que é depravada. A verdade e a mentira, de acordo com Agostinho, habitam na mesma tensão, pois nada é falso, exceto pela imitação do verdadeiro. Depois de completar seus estudos, Agostinho ensinou retórica em Cartago. Ele achava a atmosfera pedagógica intolerável. Um grupo de alunos co-


nhecidos como “transtornadores” perturbavam toda a ordem, agiam como homens loucos que praticavam atos estúpidos e ultrajantes. Se não fossem protegidos pela “tradição”, poderiam ter sido punidos pela lei. A fim de escapar dessa atmosfera destrutiva, Agostinho foi para Roma em 383. Naquele ano, ele ouviu sobre um posto de ensino de retórica em Milão. Os termos eram atraentes; Agostinho solicitou esse posto e foi para lá em 384. Em Milão, ele conheceu Ambrósio, o grande pregador da igreja em Milão. Ele não achou a retórica de Ambrósio tão brilhante quanto a de Fausto, o mestre maniqueísta, mas logo aprendeu que o verdadeiro poder da pregação de Ambrósio estava na correspondência de sua linguagem com a realidade verdadeira e substancial. Agostinho ficou convencido de que o cristianismo era defensável contra os maniqueístas e se alistou novamente como um catecúmeno na igreja. Posteriormente, o neoplatonismo limpou a sua mente do dualismo dos maniqueístas, depois de um breve flerte com o ceticismo. Seu realinhamento com a Escritura começou a preencher os espaços vazios em seu desenvolvimento intelectual. As doutrinas cristãs da criação ex nihilo, da providência, da redenção realizada pelo Deus trino satisfizeram mais do que abundantemente os anseios tanto de seu coração quanto de sua mente. Agora, ele sabia que o homem feito à imagem de Deus não poderia achar descanso para a alma sem o amor, o

louvor e o conhecimento de Deus. Somente Deus é aquele que é “amado, intencionalmente ou não, por tudo que é capaz de amar”. Agostinho descobriu que Deus “nos move a deleitar-nos em louvar-Te; porque Tu nos formaste para Ti mesmo, e nossos corações não têm descanso enquanto não acham descanso em Ti” (1.1). Aos 31 anos de idade, Agostinho foi convertido com a leitura de Romanos 13.13-14. Em um jardim, ele ouviu crianças cantarem: “Pega e lê”. Quando ele pegou uma Bíblia, seus olhos caíram nas palavras desta passagem e levaram ao fim de um ciclo de insatisfação, convicção e busca que o dominou por mais de 15 anos. Ele foi batizado por Ambrósio em 25 de abril de 387. Agostinho desejava viver em reclusão, não possuindo nada, havendo abandonado sua busca anterior por prazer, beleza e honra, dando-se à contemplação de Deus por meio da Escritura. Ele evitou diligentemente estar numa posição em que alguma igreja que não tinha um bispo colocasse os olhos nele. Agostinho foi para Hipona em 391, com o propósito de estabelecer um monastério, porque a cidade tinha um bispo, Valério. No entanto, Valério dispôs as coisas de modo a ordenar Agostinho como sacerdote e, depois, como bispo, em 395. Agostinho gastou o restou de sua vida servindo às pessoas de sua paróquia, como pastor e pregador, e a toda a igreja, como um guia profundo da verdade cristã e da adoração pura. Revista FÉ PAR A H OJE | 17


Agostinho sabia que o homem feito à imagem de Deus não poderia achar descanso para a alma sem o amor, o louvor e o conhecimento de Deus.” Suas Conf issões, uma autobiografia espiritual, estabeleceu a agenda teológica à qual ele dedicou suas grandes habilidades de reflexão filosófica e teológica. Seus pontos de vista sobre Cristo, a Trindade, o pecado humano, o caráter do mal, a livre agência apesar da depravação da vontade caída, o poder e a necessidade da graça divina, a natureza dos sacramentos e a direção da história humana sob a providência de Deus em um mundo caído – todos estes acharam um ponto de partida nas Conf issões. Sua afirmação “Dá-me o que ordenas e ordena-me aquilo o que quiseres” (10.xxix) ofendeu Pelágio. A defesa resultante e permanente de Agostinho quanto à necessidade de graça levou a algumas das suas posições mais profundas e controversas. Este aspecto do pensamento de Agostinho inspirou o viver nobre e a teologia vigorosa em Anselmo, Tomás de Aquino, Lutero,

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Calvino, Jonathan Edwards e muitos outros. Ele articulou seus pontos de vista sobre a pessoa de Cristo tão clara e convincentemente, que antecipou a fórmula dos conceitos cristológicos e ortodoxos de Calcedônia. Sua admirável teodiceia mostrada em Cidade de Deus não somente revolucionou os pontos de vista ocidentais sobre a História, mas também criou uma dinâmica para a discussão das relações entre Estado e igreja que ainda produz frutos e desperta controvérsia. Embora sua defesa da perseguição dos donatistas tenha produzido muito fruto mau, suas opiniões poderosas sobre a unidade da igreja têm dado substância a muitos esforços evangélicos para a realização de vários tipos de unidade por meio de discussão e afirmação doutrinária. O monge Gottschalk afirmou 1.200 anos atrás o que ainda é verdadeiro hoje: Agostinho é, depois dos apóstolos, o mestre de toda a igreja.


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Sandro Botticelli, Santo Agostinho em seus estudos (IgrejaOgnissanti, Itรกlia)


A vida e o ministério de Agostinho de Hipona A S. M

Na mesma época em que se desenrolavam na igreja grega ou oriental as controvérsias cristológicas, viveu no Ocidente aquele que seria considerado o maior dos pais da igreja – Aurélio Agostinho. Por sua genialidade, produtividade e influência, ele é considerado o equivalente latino do brilhante Orígenes. Agostinho foi o último dos grandes escritores cristãos da antiguidade e o precursor da teologia medieval, tendo também influenciado profundamente a teologia protestante do século 16. Ele deu à teologia ocidental características que a destacaram da oriental e contribuíram para o rompimento final das duas tradições. 20 | Revista F É P A R A H O J E

O famoso bispo introduziu no pensamento cristão o conceito de “monergismo” (de monos = “um só” e ergon = “obra”), ou seja, que tanto na história humana como na salvação a atuação de Deus é plenamente soberana, em contraste com a posição “sinergista” aceita por vários séculos, com sua ênfase na cooperação das agências humana e divina. Essa posição de Agostinho nunca foi totalmente aceita pela sua igreja e foi rejeitada pela igreja oriental. Ainda assim, ele foi declarado um dos quatro doutores da igreja latina, ao lado de Ambrósio, Jerônimo e Gregório I. Por causa da sua autobiografia, as Confissões, a vida de Agostinho é a mais conhecida dentre todos os pais


da igreja. Ele nasceu em 354 em Tagaste, no norte da África (a moderna Argélia), não longe da grande cidade de Cartago (na atual Tunísia), e recebeu o nome de Aurelius Augustinus. Seu pai, Patrício, um funcionário público de classe média, era um pagão que só se converteu pouco antes de morrer, em 372. A mãe, Mônica, era uma cristã piedosa de forte personalidade. O jovem estudou em sua cidade natal e depois em Madaura e Cartago. Destacou-se na retórica latina, mas não conseguiu dominar a língua grega. Embora fosse um catecúmeno desde a infância, tinha paixão pelo teatro e somente disciplinou a sua sexualidade através da união com uma concubina (372-385), que lhe deu um filho, Adeodato, falecido por volta de 390. Desiludido com a Bíblia e fascinado pela filosofia através da leitura de uma obra do orador romano Cícero (Hortênsio), Agostinho voltou-se para o maniqueísmo, uma seita gnóstica, e depois para o ceticismo. Tornou-se professor de retórica em Tagaste e Cartago, e foi então para Roma (383) e Milão (384), sendo logo seguido por sua mãe, que estava interessada em seu progresso profissional e em seu retorno à igreja. Em Milão, o jovem retórico recebeu a influência da filosofia neoplatônica, que o convenceu da existência do Ser transcendente imaterial e lhe deu uma nova compreensão do problema do mal como corrupção ou ausência do bem. Impressionou-

-se com a eloquência erudita e com a pregação alegórica do grande bispo Ambrósio (c. 339-397), considerado o maior orador sacro da antiga igreja latina. Sua peregrinação culminou em agosto de 386 com a célebre experiência do jardim, narrada com detalhes nas Confissões. Enquanto conversava com o amigo Alípio sobre a mensagem do apóstolo Paulo, Agostinho sentiu-se tomado de profunda emoção. Afastando-se, ouviu uma criança cantar repetidamente tolle lege (“toma e lê”). Abrindo ao acaso a carta aos Romanos, leu os versos 13 e 14 do capítulo 13, convertendo-se afinal. Abandonando a carreira pública, abraçou a vida monástica e foi batizado por Ambrósio na páscoa de 387. Ao retornar a Tagaste, após a morte de Mônica em Óstia, perto de Roma, começou a escrever contra o maniqueísmo e formou uma comunidade contemplativa. Ao fazer uma visita a Hipona, hoje na Argélia, foi ordenado sacerdote quase à força (391). Tornou-se bispo coadjutor em 395 e, no ano seguinte, bispo de Hipona, cargo que exerceu até sua morte, em 430. Sendo agora um líder da igreja e defrontando-se com grandes desafios, sua perspectiva transformou-se de modo decisivo. Passou a ter uma visão mais radicalmente bíblica do ser humano e da história, em contraste com o seu anterior humanismo otimista neoplatônico. A teologia de Agostinho foi forjada e amadureceu no contexto de Revista FÉ PAR A H OJE | 21


três grandes controvérsias nas quais se envolveu, a começar da sua luta contra os maniqueístas. Estes eram seguidores do profeta persa Mani (c. 216-276), que foi martirizado pelos romanos. Criam em duas forças eternas e iguais, o bem e o mal, em luta perpétua. Assim como os gnósticos, atribuíam o mal à matéria, criada

mo) para explicar o mal. Este não é uma natureza ou substância, mas a corrupção da natureza boa criada por Deus ou uma privatio boni (ausência do bem). Ele usou dois argumentos: metafísico (toda natureza criada é inferior a Deus e passível de corrupção) e moral (o mal moral decorre do uso impróprio do livre-arbítrio).

Agostinho foi o último dos grandes escritores cristãos da antiguidade e o precursor da teologia medieval, tendo também influenciado profundamente a teologia protestante do século 16.” pelo princípio do mal, e o bem ao espírito, criado pelo Deus bom. A alma ou espírito do homem era uma centelha do poder benigno que havia sido roubada pelas forças malignas e aprisionada na matéria. Quando jovem, Agostinho se sentira atraído por essa filosofia religiosa, que parecia explicar melhor que o cristianismo algumas das questões mais importantes da existência. Mais tarde, decepcionou-se com o movimento, principalmente após uma conversa com Fausto, o filósofo maniqueu mais importante. Em sua principal obra contra o maniqueísmo, Da natureza do bem (c. 405), Agostinho argumentou que não é preciso admitir duas forças iguais e opostas no universo (dualis22 | Revista F É P A R A H O J E

Agostinho utilizou a filosofia (no caso o neoplatonismo) contra o maniqueísmo, adaptando-a à fé cristã, algo que vinha sendo feito desde a época de Clemente de Alexandria e Orígenes, por causa do entendimento de que toda verdade é verdade de Deus, venha de onde vier. Ao mesmo tempo, discordou do neoplatonismo quanto à natureza de Deus (pessoal em contraste com o Uno impessoal) e à criação do mundo (a partir do nada ou ex nihilo em contraste com a eternidade da matéria). Com a ajuda da filosofia, Agostinho demonstrou racionalmente a superioridade do cristianismo e forneceu padrões para o pensamento cristão sobre temas como Deus, a graça, a criação, o pecado, o livre arbítrio e o mal. Em-


pregou argumentos já conhecidos, porém de forma nova e atraente. A segunda grande controvérsia de que Agostinho participou foi contra os donatistas. Esse cisma na igreja católica do norte da África, que resultou na formação de uma poderosa igreja rival, havia surgido após a última perseguição contra os cristãos, no início do 4° século (303-311). Os líderes iniciais do movimento, entre os quais estava um bispo chamado Donato, afirmavam que os bispos que tinham cooperado com os perseguidores romanos não eram legítimos e que os homens que eles ha-

tinho salientou duas questões: a natureza da igreja e a validade dos sacramentos. A ênfase principal dos donatistas era a pureza da igreja: esta era considerada a congregação dos santos, tanto na terra como no céu, sendo sempre um pequeno remanescente fiel. Rejeitando essa eclesiologia, Agostinho argumentou que os donatistas é que eram impuros, por destruírem a unidade da igreja e caírem no pecado do cisma. Para ele, a igreja inclui todos os tipos de pessoas, contendo em si tanto o bem como o mal (o trigo e o joio) até a separação definitiva no último dia.

Com a ajuda da f ilosof ia, Agostinho demonstrou

racionalmente a superioridade do cristianismo e forneceu

padrões para o pensamento cristão sobre temas como Deus, a

graça, a criação, o pecado, o livre arbítrio e o mal.”

viam ordenado não eram sacerdotes cristãos. Os donatistas eram herdeiros da tradição rigorista ou moralista de O Pastor de Hermas e Tertuliano, e agora, na época de Agostinho, argumentavam que os bispos e sacerdotes católicos eram corruptos ou heréticos, e por isso os sacramentos que ministravam não eram válidos. Nessas alegações, apelavam inclusive aos escritos de Cipriano. Ao lutar contra os donatistas, em obras como Sobre o batismo, Agos-

Quanto aos sacramentos, ele insistiu que o batismo e a Eucaristia transmitem a graça de Deus ex opere operato, ou seja, “em virtude do próprio ato”, independentemente da condição moral e espiritual do oficiante. Os sacramentos provêm de Cristo e o seu poder e eficácia baseiam-se na santidade de Cristo, que não pode ser corrompida por ministros indignos “assim como a luz do sol não é corrompida ao brilhar através de um esgoto”. Portanto, um Revista FÉ PAR A H OJE | 23


sacramento é válido mesmo quando ministrado por um sacerdote imoral ou herético, contanto que tenha uma ordenação válida e esteja em comunhão com a igreja. Ele é mero instrumento da graça de Cristo. Sem dúvida, a controvérsia mais importante na qual se envolveu Agostinho, e aquela que trouxe consequências mais profundas para sua teologia, foi a que ele manteve contra o pelagianismo. Pelágio era um monge britânico que nasceu em meados do século 4°. Por volta de 405 ele foi para Roma e depois seguiu para o norte de África, mas não chegou a se encontrar com Agostinho. Foi então para a Palestina e escreveu dois livros sobre o pecado, o livre-arbítrio e a graça: Da natureza e Do livre-arbítrio. Embora criticado fortemente por Agostinho e seu amigo Jerônimo (†420), comentarista bíblico e tradutor da Vulgata Latina, ele foi inocentado por um sínodo reunido na Palestina em 415. Todavia, foi condenado como herege pelo bispo de Roma (417-418) e pelo Concílio de Éfeso (431). Pelágio era um cristão moralista que achava que a crença numa tendência natural para o pecado era um desestímulo para que os cristãos vivessem vidas virtuosas. Pelágio foi acusado de três heresias. Primeiro, negou o pecado original no sentido de culpa herdada, no que era acompanhado por muitos cristãos orientais. Dizia que as pessoas pecam porque nascem num mundo corrompido e são influen24 | Revista F É P A R A H O J E

ciadas pelos maus exemplos ao seu redor, mas que elas não têm uma tendência natural para pecar. Se elas pecam é porque decidem fazê-lo deliberadamente. Em segundo lugar, ele negou que a graça sobrenatural de Deus seja essencial para a salvação. Tudo de que os cristãos precisam é a iluminação dada pela Palavra de Deus e por sua própria consciência. Finalmente, afirmou a possibilidade, pelo menos teórica, de se viver uma vida sem pecado mediante o uso correto do livre-arbítrio. Todo ser humano se encontra na situação de Adão antes da queda, podendo optar por viver em perfeita obediência à lei de Deus. Reagindo contra os ensinos de Pelágio, Agostinho desenvolveu a sua própria soteriologia, que parte de duas convicções centrais: a total corrupção dos seres humanos após a queda e a absoluta soberania de Deus. Suas principais obras antipelagianas foram: Do Espírito e da letra (412), Da natureza e da graça (415), Da graça de Cristo e do pecado original (418), Da graça e do livre arbítrio (427) e Da predestinação dos santos (429). Ele também tratou dessas questões em outras obras, tais como o Enchiridion (421) e A cidade de Deus (c. 413-427). Apelando a ensinos do apóstolo Paulo, como Romanos 5.12-21, Agostinho afirmou que todos os seres humanos, inclusive os filhos dos cristãos, nascem culpados e totalmente corrompidos por causa do pe-


cado de Adão e da natureza pecaminosa herdada dele, estando sujeitos à condenação eterna. Eles fazem parte de uma “massa de perdição”. Essa situação só é desfeita pelo batismo (o sacramento da regeneração), pelo arrependimento e pela graça sacramental. A vida cristã virtuosa é inteiramente uma obra da graça de Deus e de modo algum um produto do esforço humano ou do livre-arbítrio, sem a graça capacitadora. Por causa da corrupção herdada, o ser humano não tem liberdade para não pecar (non posse non peccare).

turas humanas estão de tal modo corrompidas que, se Deus não lhes concedesse o dom da fé, nem sequer se voltariam para ele. Se fosse possível alcançar a retidão somente pela natureza e pelo livre-arbítrio, sem a graça sobrenatural, Cristo teria morrido em vão. Deus determina ou predestina de modo soberano tudo o que acontece. Em sua última obra, Da predestinação dos santos, Agostinho afirmou que Deus escolhe alguns indivíduos do meio da massa humana de perdição para receberem a dádiva da

A vida cristã virtuosa é inteiramente uma obra da graça de Deus e de modo algum um produto do esforço humano ou do livre-arbítrio, sem a graça capacitadora.” Para Agostinho, o livre-arbítrio era simplesmente fazer o que se deseja fazer, agir de acordo com a própria natureza, não incluindo a capacidade da escolha contrária, como era sustentado por Pelágio e seus seguidores. Assim, as pessoas são livres para pecar, mas não para não pecar: pecar é tudo o que elas querem fazer sem a graça interveniente de Deus. Portanto, a graça soberana de Deus é absolutamente necessária para qualquer decisão ou ação positiva do ser humano caído. As cria-

fé, e deixa os outros em sua merecida perdição. É aquilo que mais tarde seria descrito como “eleição incondicional” e “graça irresistível”. Agostinho não explicou satisfatoriamente certas questões difíceis levantas pela sua soteriologia (Deus é o autor do mal? Como conciliar a soberania de Deus e a responsabilidade humana? Por que Deus não salva a todos?), deixando-as na esfera dos mistérios. Para ele, a verdade fundamental é o fato de que Deus é a causa suprema de todas as coisas e Revista FÉ PAR A H OJE | 25


não há nada no universo que esteja fora do seu controle ou que possa frustrar a sua vontade. Além da doutrina da igreja e dos sacramentos e da doutrina da graça, outra contribuição fundamental do bispo de Hipona foi sua exposição da doutrina trinitária no valioso tratado De Trinitate (Sobre a Trindade). Partindo do fundamento lançado pelos pais capadócios, cuja teologia conheceu por meio de Hilário de Poitiers, Agostinho deu mais ênfase à unidade da essência divina do que à diversidade de pessoas. Enquanto os capadócios partem da diversidade de pessoas para ir em direção à unidade, ele usa o processo inverso. Prefere falar em relações ao invés de pessoas (a unidade divina acima da diversidade). Ao explicar a procedência do Espírito Santo, diz que ele é o vínculo de amor entre o Pai e o Filho, o que deu origem ao debate medieval sobre a cláusula Filioque (“e do Filho”), presente no Credo Niceno. Agostinho argumentou que todas as coisas, pelo fato de terem sido criadas pelo Deus triúno, levam a marca da Trindade. Assim sendo, deu uma contribuição inovadora ao introduzir o “modelo psicológico” da Trindade. Comparou a unidade de Deus com a unidade do ser humano e equiparou a Trindade a três faculdades internas da alma ou aspectos da personalidade humana: a memória, o entendimento e a

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vontade. Uma de suas últimas obras foi Retractationes ou Revisões (426427), nas quais arrolou seus escritos, corrigindo-se e defendendo-se em alguns pontos. Outros temas da teologia de Agostinho foram o conhecimento como iluminação da mente pelo Verbo de Deus; a existência e o ser de Deus; a criação, a natureza do tempo e a escatologia. Curiosamente, ele nunca explorou a fundo o campo da cristologia. Sua obra-prima foi A cidade de Deus, na qual fez uma grande síntese do pensamento cristão. Começou com uma apologia contra alegações de que, em última análise, o cristianismo havia sido responsável pelo saque de Roma pelos visigodos no ano 410. O livro acabou se tornando uma grande interpretação da história romana e cristã, analisada teológica e escatologicamente através dos complexos destinos terrenos de duas “cidades” criadas por amores conflitantes (amor próprio e amor a Deus). Segundo ele, o reino de Deus não se identificava com nenhuma civilização humana e não seria afetado pelo declínio do Império Romano. Ironicamente, Agostinho morreu quando a África romana sucumbia diante dos vândalos que cercavam Hipona. A civilização romana clássica estava desmoronando, mas havia surgido uma nova cultura cristã, que alcançaria seu maior esplendor na Idade Média.


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Sandro Botticelli, Santo Agostinho em seus estudos (Galeria Degli Uff izi)


Agostinho: Uma Vida de Graça e Palavras M A. G. H

Agostinho é uma pensador influente na história da igreja e na civilização ocidental. No que se refere ao campo da teologia, poderíamos dizer o que Cássio disse a respeito de César na peça Júlio César, de William Shakespeare: “Ele cavalga o mundo estreito como um colosso, e nós, homens pequeninos, andamos por baixo de suas pernas gigantescas”.1 Exceto os autores da Escritura, nenhum outro personagem teve, na Idade Média, impacto maior no pensamento cristão do que Agostinho.2 E, no que concerne à Reforma, es1 Ato I, Cena 2, linhas 135-137. 2 Quanto a este impacto de Agostinho, ver a coleção de ensaios em Irene Backus, ed., The Reception of the Church Fathers in the West. From the Carolingians to the Maurists (Leiden: E. J. Brill, 1997), vol. 1.

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tes dois personagens importantes, Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564), citaram Agostinho “mais frequentemente do que qualquer outro teólogo e viram a si mesmos como resgatadores da ênfase e do espírito de Agostinho para a condição da igreja em seu tempo”.3 Como Benjamin B. Warfield comentou acertadamente: “Quando aconteceu o grande avivamento do cristianismo que chamamos de Reforma... foi, em seu lado teológico, um avivamento do agostinianismo”.4 3 John E. Hare, “Augustine, Kant, and the Moral Gap”, em Gareth B. Matthews, ed., The Augustinian Tradition (Berkeley, California: University of California Press, 1999), p. 252. 4 Benjamin Breckinridge Warfield, “Augustine”, em sua obra Calvin and Augustine, ed. Samuel G. Craig


Como Gerald Bonner escreveu, Agostinho “continua a atrair grande número de alunos, que são fascinados por sua personalidade e suas ideias... e muitos deles, embora reconheçam as falhas nos ensinos de Agostinho, admitem que têm recebido muito discernimento e inspiração procedentes de seu pensamento”.5

PRIMEIROS ANOS, CONVERSÃO E CHAMADO AO MINISTÉRIO Os fatos dos primeiros anos da vida de Agostinho são bem conhecidos porque ele os registrou em suas famosas Confissões.6 Nascido em 13 de novembro de 354, no que era naquela época a província romana da Numídia, ele era filho de um oficial inferior, Patrício (morreu por volta de 371), e de sua esposa cristã, Mônica (331-387).7 Dentre os seus pais, (Philadelphia, Pennsylvania: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1956), p. 323. 5 “They Speak to Us across the Centuries: 7. Augustine”, The Expository Times, 109, No. 10 ( July 1998), p. 293. 6 A biografia padrão de Agostinho é aquela elaborada por Peter Brown – ver sua obra Augustine of Hippo: A Biography (rev. ed.; Berkeley: University of California Press, 2000). Dois outros estudos biográficos muito úteis são os de Henry Chadwick, Augustine: A Very Short Introduction (Oxford: Oxford University Press, 2001) e de Gary Wills, Saint Augustine (New York: Viking, 1999). Ver também o resumo de Robert A. Markus, “Life, Culture, and Controversies of Augustine”, em Allan D. Fitzgerald, ed., Augustine through the Ages. An Encyclopedia (Grand Rapids/Cambridge, UK: William B. Eerdmans Publ. Co., 1999), p. 498-504, bem como o breve e interessante estudo escrito por Karla Pollmann, St Augustine the Algerian (Göttingen: Duehrkohp & Radicke, 2003). 7 Sobre os seus pais, ver Allan D. Fitzgerald, “Patricius”, e Angelo di Berardino, “Monnica”, em Fitzgerald, ed., Augustine through the Ages, p. 621 e 570-571, respectivamente.

foi Mônica quem teve muito maior influência em sua vida. Logo depois de sua conversão, Agostinho comentou que as orações de sua mãe foram instrumentos para trazê-lo à fé viva em Cristo.8 O historiador Jaroslav Pelikan resumiu os anos anteriores à conversão de Agostinho, quando disse que ele “se moveu de uma preocupação para outra, de uma preocupação com o ego para doze anos como membro da obscura seita dos maniqueus, para vários tipos de neoplatonismo, para o cristianismo ortodoxo”.9 A conversão à fé cristã aconteceu no final do verão de 386, em um jardim, em Milão, onde Agostinho trabalhava como um retórico imperial, ou seja, um professor de oratória. O momento crítico veio por meio da leitura de um texto paulino, Romanos 13.13-14, a respeito do que Agostinho escreveu posteriormente: “A luz da confiança inundou meu coração e todas as trevas de dúvida foram dissipadas”.10 Em suas Confissões, Livro 9, Agostinho descreveu mais plenamente como ele entendeu, mais tarde, a obra salvadora de Deus em sua vida: Durante todos aqueles anos [de rebelião], onde estava o meu li8 The Happy Life 6. 9 “Writing as a Means of Grace”, em Jaroslav Pelikan et at., Spiritual Quests: the Art and Craft of Religious Writing (Boston: Houghton Miflin Co., 1988), p. 88. 10 Confessions 8.12 (trans. R. S. Pine-Coffin, Saint Augustine: Confessions [Harmondsworth, Middlesex: Penguin, 1961], p. 178). Revista FÉ PAR A H OJE | 29


vre-arbítrio? De que lugar secreto e oculto ele foi convocado num momento, para que eu pudesse curvar meu pescoço ao teu jugo suave e receber o teu fardo leve sobre os meus ombros, Cristo Jesus, meu Ajudador e Redentor? Quão doce foi para mim livrar-me daquelas alegrias infrutíferas que antes eu temia perder, mas agora me alegrei em rejeitar!

para sua cidade natal no Norte da África. Por volta de 391, ele decidiu se mudar para a cidade litorânea de Hipona, a uns 240 km de Tagaste, para fundar uma comunidade em que ele e outros poderiam dedicar-se à leitura das Escrituras. Mas as coisas não saíram como ele tencionava, como ele mesmo lembrou em um sermão que pregou em meados dos anos 420:

Exceto os autores da Escritura, nenhum outro personagem teve, na Idade Média, impacto maior no pensamento cristão do que Agostinho.” Tu as tiraste de mim, tu que és a verdadeira, a soberana alegria. Tu as tiraste de mim e tomaste o seu lugar, tu que és mais agradável do que todos os prazeres, embora não para a carne e o sangue, tu que excedes em brilho toda luz, mas estás escondido mais profundamente do que qualquer segredo em nosso coração, tu que excedes toda honra, embora não aos olhos dos homens, que veem toda honra em si mesmos.11 Na primavera de 387, num culto de vigília da Páscoa, no sábado à noite, Agostinho foi batizado por Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão. No ano seguinte, ele voltou

11 Confessions 9.1 (trans. Pine-Coffin, Confessions, p. 181).

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Um escravo não pode contradizer o seu Senhor. Vim para esta cidade para ver um amigo, que eu pensava ganharia para Deus, a fim de que vivesse conosco em um monastério. Sentia-me seguro, porque o lugar já tinha um bispo. Fui apanhado. Fui constituído um presbítero... e, a partir disso, me tornei o bispo de vocês.12 Esse tipo de procedimento não era incomum na igreja da antiguidade no Norte da África.13 Alguns que foram “ordenados” desta maneira aproveitaram, sem dúvida, a primei12 Sermon 355.2 (citado em Brown, Augustine of Hippo, p. 131). 13 Henry Chadwick, The Church in Ancient Society: From Galilee to Gregory the Great (Oxford/New York: Oxford University Press, 2001), p. 475.


A graça de Deus teve a supremacia.” – Agostinho ra oportunidade que tiveram para escapar das responsabilidades que lhes foram impostas. Mas Agostinho não agiu assim, porque ele viu nessa experiência não buscada uma chamada inesperada da parte de Deus para uma vocação como pregador do evangelho. Como ele mesmo disse, “um escravo não pode contradizer o seu Senhor”.

SUBMETENDO-SE À ESCRITURA Dois anos depois de haver-se tornado bispo de Hipona, o que aconteceu em 395, Agostinho teve uma experiência que Gerald Bonner julga ser a mais decisiva em sua vida, depois de sua conversão e batismo em 386/387. Simpliciano (falecido por volta de 400), um velho amigo de Milão, o qual sucedera Ambrósio como bispo da congregação naquela cidade, lhe fez um pedido de esclarecimento sobre o texto paulino de Romanos 9.10-29, que trata do amor eletivo de Deus para com Jacó e da rejeição de seu irmão, Esaú.14 Agos-

14 Quanto à interação de Agostinho com a epístola de Paulo aos Romanos, ver especialmente Pamela Bright, “Augustine”, em Jeffery P. Greenman e Timothy Larsen, eds., Reading Romans Through the Centuries: From the Early Church to Karl Barth (Grand Rapids: Brazos Press, 2005), p. 59-80). Ver também J. P. Burns, “The Interpretation of Romans in the Pelagian Controversy”, Augustinian Studies, 10 (1979), p. 43-54; W. S. Babcock,

tinho se dedicou ao estudo de Romanos e de outras epístolas de Paulo e foi levado a perceber que qualquer tentativa de elevar “a liberdade de escolha da vontade humana” estava, com base num ponto de vista bíblico, fundamentalmente mal orientada. Enquanto estudava o corpus paulino, “a graça de Deus teve a supremacia”, como ele disse. Em específico, foi sua meditação sobre 1 Coríntios 4.7 (“E que tens tu que não tenhas recebido?) que o levou à compreensão de que a graça de Deus sozinha é totalmente capaz de mover os pecadores em direção a Cristo. Tudo que o crente tem, inclusive a própria fé, deve ser entendido como um puro dom.15 Esta revolução em seu pensamento produziu fruto em sua explicação clássica da soberania da graça de Deus em sua própria vida, as Confissões (escrita entre 397 e 401), e também o preparou espiritualmente para sua luta posterior com os erros teológicos do pelagianismo. Esta submissão à Escritura aponta para outro elemento-chave da vida de Agostinho, ou seja, a sua “Augustine’s Interpretation of Romans (AD 394-396)”, Augustinian Studies, 10 (1979), p. 55-74; C. P. Bammel, “Augustine, Origen and the Exegesis of St. Paul”, Augustinianum, 32 (1992), p. 341-367. 15 Bright, “Augustine”, em Greenman e Larsen, eds., Reading Romans, p. 70-71. Revista FÉ PAR A H OJE | 31


A graça de Deus sozinha é totalmente capaz de mover os pecadores em direção a Cristo.” vocação como pregador do evangelho. Inúmeros relatos da vida de Agostinho traçam a sua carreira em relação às controvérsias das quais ele participou. Mas há algo muito inadequado nesta abordagem. A tarefa primária de Agostinho, no decorrer das décadas de seu ministério, foi o cuidado das almas que lhe foram confiadas. E uma expressão central desse cuidado eram os sermões que ele pregava. Ele pregava nos sábados e nos domingos, bem como todos os dias durante a quaresma e na semana após a Páscoa. Notarii, os seja, taquígrafos, anotavam o sermão em taquigrafia e, depois, o transcreveriam em escrita cursiva. Dos estimados 8.000 sermões que Agostinho pregou, 559 ainda exis-

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tem.16 Esta interação constante com as Escrituras alimentava seu pensamento como nenhuma outra mensagem podia fazê-lo.17 E, quando Agostinho morreu em Hipona, em 28 de agosto de 430, ele o fez lendo quatro dos salmos penitenciais de Davi, os quais ele havia copiado e colado nas paredes de seu quarto. 16 Stanley P. Rosemberg, “Interpreting Atonement in Augustine Preaching”, em Charles E. Hill e Frank A. James III, eds., The Glory of the Atonement: Biblical Historical & Practical Perspectives. Essays in Honor of Roger Nicole (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press: 2004), p. 227: Hubertus R. Drobner, “Studying Augustine: An overview of recent research”, em Robert Dodaro e George Lawless, eds., Augustine and His Critics. Essays in Honor of Gerald Bonner (London/New York: Routledge, 2000), p. 22-23. Quanto a uma lista da maioria dos sermões existentes, ver Éric Rebillard, “Sermones”, em Fitzgerald, ed., Augustine through the Ages, p. 774-789. 17 Bright, “Augustine”, em Greenman e Larsen, eds., Reading Romans, p. 80.


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Guercino, Santo Agostinho meditando sobre a Trindade (Museu do Prado, Madri)


Agostinho e a Santíssima Trindade F F

Estimulados pelos escritos de Karl Barth, o teólogo que mais explorou o mistério trinitário no século xx,1 várias obras importantes sobre a doutrina da Trindade foram escritas. Nas duas décadas finais do século xx Karl Rahner, Jürgen Moltmann, Leonardo Boff, Wolfhart Pannenberg, Colin Gunton e Millard Erickson, buscaram refletir e reaplicar a doutrina trinitária, produzindo um grande número de estudos dogmáticos, bíblicos e históricos.2 O alvo 1 Cf. especialmente Church Dogmatics, I/1 §8-12 (Peabody, MA: Hendrickson, 2010), p. 295-489, Esboço de uma dogmática (São Paulo: Fonte Editorial, 2006), p. 5358 e Geoffrey W. Bromiley, Introduction to the Theology of Karl Barth (Edinburgh: T&T Clark, 2001), p. 13-21. 2 Para a bibliografia, cf. J. Scott Horrell, “O Deus trino que se dá, a imago Dei e a natureza da igreja local”, Vox Scripturae v. 6 – n. 2 (Dezembro 1996), p. 243-244. Cf.

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deste ensaio é expor a compreensão da doutrina trinitariana como formulada por Agostinho de Hipona, que produziu uma obra seminal sobre este tema, A Trindade, com a qual todos estes escritores interagem.

AGOSTINHO E A TRINDADE Foi Agostinho quem deu à tradição ocidental a sua expressão madura e final acerca da Trindade. Não obstante ser Agostinho mais conhecido através de obras como as Confissões (sua autobiografia, publicada em 400) ou A Cidade de Deus (publicada em 426), provavelmente sua obra pritambém J. Scott Horrell, “Uma cosmovisão trinitariana”, Vox Scripturae v. 4 – n. 1 (Março de 1994), p. 55-77.


ma é o tratado conhecido por A Trindade, que ele demorou dezesseis anos para redigir – entre 400 e 416. Esta obra está dividida em duas partes, bem distintas. A primeira, com uma ênfase bíblica, vai do livro I ao VII. É a seção teológica propriamente dita. A segunda parte, do livro VIII ao XV apresenta um caráter especulativo psicológico e filosófico, no gênero analógico. Conforme suas palavras: “Sendo ainda muito jovem, iniciei a elaboração destes meus livros sobre a Trindade, que é o Deus sumo e verdadeiro. Agora, entrado em anos, trago-os a público”.3 De fato, A Trindade é a obra de sua maturidade. Agostinho pressupôs como uma verdade bíblica que existe um só Deus que é Trindade, e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são simultaneamente distintos e co-essenciais, numericamente um quanto à substância: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, isto é, a própria Trindade, una e suprema realidade, é a única Coisa a ser fruída [una quaedam summa res], bem comum de todos. Se é que pode ser chamada Coisa e não, de preferência, a causa de todas as coisas – se também puder ser chamada causa. Não é fácil encontrar um nome que possa convir a tanta grandeza e servir para denominar de maneira adequada a Trindade. A não ser que se diga que é um só Deus, de quem, por quem 3 “Carta 174” dirigida ao bispo Aurélio de Cartago, em 416. in: Santo Agostinho, A Trindade (São Paulo: Paulus, 1994), p. 19.

e para quem existem todas as coisas (Rm 11,36). Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um deles, Deus. E os três são um só Deus. Para si próprio, cada um deles é substância completa e, os três juntos, uma só substância. O Pai não é o Filho, nem o Espírito Santo. O Filho não é o Pai, nem o Espírito Santo. E o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho. O Pai é só Pai, o Filho unicamente Filho, e o Espírito Santo unicamente Espírito Santo. Os três possuem a mesma eternidade, a mesma imutabilidade, a mesma majestade, o mesmo poder. No Pai está a unidade, no Filho a igualdade e no Espírito Santo a harmonia entre a unidade e a igualdade. Esses três atributos todos são um só, por causa do Pai, todos são iguais por causa do Filho e todos são conexos por causa do Espírito Santo.4

Em nenhum lugar Agostinho tentou demonstrar biblicamente estas afirmações. “Trata-se de um dado da revelação que, para ele, as Escrituras proclamam quase a cada página, e que a ‘fé católica’ (fides catholica) transmite aos fiéis”.5 Em seu entendimento, Deus é incompreensível, mas não incognoscível, havendo duas vias de conhecimento de Deus: a via da eliminação, ou negação (apofática), que consiste em suprimir de Deus todos os defeitos das criaturas, 4 Santo Agostinho, A doutrina cristã (São Paulo: Paulus, 2002), 1.5, p. 46-47. 5 J. N. D. Kelly, Patrística: origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2009), p. 205. Cf. A Trindade 1-4, p. 23-189. Revista FÉ PAR A H OJE | 35


e a eminência (catafática), que consiste em atribuir a Deus, elevando-as ao infinito, todas as perfeições: “Todo aquele que refletir sobre Deus desse modo, embora não chegue a conhecer plenamente o que ele é, contudo – enquanto pode – como homem piedoso, evitará pensar dele, o que ele não é”.6 Como delineia J. N. D. Kelly, seu “imenso esforço teológico é uma tentativa de compreensão, sendo esse o exemplo supremo de seu princípio de que a fé deve preceder a compreensão (praecedit fides, sequitur intellectus)”.

Portanto, nesta obra, Agostinho, pressupondo a veracidade do testemunho bíblico sobre o ensino acerca do Deus trino e baseando-se nas decisões conciliares estabelecidas em Nicéia e Constantinopla, construiu o primeiro tratado verdadeiramente sistemático da doutrina da Trindade. São contínuas as orações cheias de amor e confiança que Agostinho dirige a Deus, no correr de sua tarefa de investigar o mistério da Trindade. E são um testemunho da dependência e ardente súplica, tão

Foi Agostinho quem deu à tradição ocidental a sua expressão madura e f inal acerca da Trindade” A fé busca, o entendimento encontra; por isso diz o profeta: Se não crerdes, não entendereis (Is 7.9). Doutro lado, o entendimento prossegue buscando aquele que a fé encontrou, pois, Deus olha do céu para os f ilhos dos homens, como é cantado no salmo sagrado: para ver se alguém que tenha inteligência e busque a Deus (Sl 13.2). Logo, é para isto que o homem deve ser inteligente: para buscar a Deus.7 6 A Trindade 5.2, p. 193. 7 A Trindade 15.2, p. 480-481.

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características da oração agostiniana. Constata-se assim estar toda obra teológica de Agostinho elaborada em clima de oração. Nele está unido a sapientia (“a sabedoria refere-se à contemplação”) e a scientia (“a ciência diz respeito à ação”), o esforço na busca de sabedoria espiritual.8 8 “Eis, a piedade é sabedoria; e apartar-se do mal é ciência” ( Jó 28.28). Esta oposição corresponde às duas funções da razão: uma superior, pela qual a alma se dedica à contemplação das realidades eternas; e outra inferior, pela qual a alma aplica-se ao conhecimento das realidades temporais. A Trindade 12.21b-23, p. 386-390.


1. A SANTÍSSIMA TRINDADE Seguiremos aqui os pontos básicos do resumo que J. N. D. Kelly fez da exposição da doutrina trinitária em Agostinho.9 Esta é inteiramente fundamentada nas Escrituras, porém, em contraste com a tradição oriental, que fez da pessoa do Pai o seu ponto de partida, Agostinho principia com a natureza divina em si mesma. É esta simples e imutável natureza ou essência que é Trindade.10 A unidade da Trindade é assim claramente asseverada, eliminando-se rigorosamente “o arianismo e o subordinacionismo da sua doutrina da Trindade”.11 Portanto, tudo o que é afirmado de Deus é afirmado igualmente de cada uma das três pessoas da deidade: “O Deus único e verdadeiro não é somente o Pai, mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.12 9 Cf. J. N. D. Kelly, op. cit., p. 205-210. Cf. também Justo L. González, Uma história do pensamento cristão. v. 1: do início até o Concílio de Calcedônia (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), p. 317-323. 10 Como diz J. N. D. Kelly, op. cit., p. 205: Ele “prefere ‘essência’ a ‘substância’, pois esta última implica um sujeito com atributos, enquanto, para Agostinho, Deus é idêntico a Seus atributos”: et haec trinitas unus est deus e trinitatem quae deus est, cf. Santo Agostinho, A Cidade de Deus v. II [Livros IX a XV] (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993), 11.10, p. 1011-1014. Para uma explicação dos termos-chave da doutrina trinitariana (principalmente “substância = natureza = essência: uma única” e “hipóstase = subsistência = pessoa: três realmente distintas”), cf. Leonardo Boff, A Trindade, a sociedade e a libertação (Petrópolis, Vozes: 1986), p. 111-126. 11 Henry Chadwick, A Igreja Primitiva (Lisboa: Ulisseia, 1967), p. 257. Cf. especialmente Millard J. Erickson, Who’s Tampering with the Trinity? An Assessment of the Subordination Debate (Grand Rapids, MI: Kregel, 2009), p. 153-159. Este livro é uma crítica muito bem elaborada contra a noção da subordinação eterna do Filho ao Pai, que tem sido revivida em certos setores da igreja evangélica norte-americana. 12 A Trindade 6.9, p. 227-229.

Como Kelly nota, diversas consequências se seguem desta ênfase na unidade da natureza divina. Primeiro, as pessoas da Trindade não são três indivíduos separados, antes “cada uma das pessoas divinas é idêntica às demais ou à própria substância divina”, e deve-se afirmar “que cada uma das pessoas habita nas outras ou é inerente às outras”. Como Agostinho escreveu: Creia o homem no Pai, no Filho e no Espírito Santo, como um só Deus, grande, onipotente, bom, justo, misericordioso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, e tudo o mais que dele se possa dizer digna e verdadeiramente, conforme a capacidade da inteligência humana. E quando ouvir dizer que o Pai é um só Deus, não separe o Filho e o Espírito Santo, porque com ele são um só Deus. Quando ouvir dizer que o Filho é um só Deus é mister entender assim, mas sem separá-lo do Pai e do Espírito Santo. E de tal modo diga que existe uma só essência, e não considere a essência de um ser maior ou melhor do que a do outro e diferente em algum aspecto. Contudo, não pense que o Pai é o Filho ou Espírito Santo ou qualquer coisa que uma pessoa em separado diga relação às outras, como por exemplo, o termo ‘Verbo’ aplica-se somente ao Filho, e Dom afirma-se somente a respeito do Espírito Santo.13 13 A Trindade 7.12, p. 256-257. Revista FÉ PAR A H OJE | 37


Segundo, “tudo o que pertence à natureza divina como tal” deve, numa linguagem exata, “ser expresso no singular, já que esta natureza é única”. Portanto, embora cada uma das três pessoas seja incriada, infinita, onipotente, eterna, não há três incriados, infinitos, onipotentes e eternos, mas apenas um.

cípio (unum principium)”16 e como as pessoas são inseparáveis, “assim também operam inseparavelmente”.17 Como exemplo disto, de acordo com Kelly, Agostinho argumenta que as teofanias, manifestações de Deus registradas no Antigo Testamento, não devem ser consideradas como manifestações exclusivamente

Toda obra teológica de Agostinho é elaborada em clima de oração.”

Terceiro, “a Trindade possui uma única e indivisível ação e uma única vontade”. Em outras palavras, sua operação é “inseparável”,15 isto é, em relação à ordem contingente as três pessoas atuam como “um único prin-

do Filho. Algumas vezes as teofanias podem ser atribuídas ao Filho, ou ao Espírito Santo, algumas vezes ao Pai, outras vezes a todas as três pessoas da deidade. Outras vezes ainda é impossível decidir a qual das três pessoas atribui-las.18 A dificuldade que esta teoria sugere é que ela parece ignorar os diversos papéis das três pessoas. A isto Agostinho responde que, embora seja verdade que o Filho, embora distinto do Pai, nasceu, sofreu e ressuscitou, “é igualmente verdade que o Pai cooperou com o Filho” na realização da encarnação, paixão e ressurreição. Era conveniente para o Filho, entretanto, “em virtude de sua relação com o Pai, manifestar-se e fazer-

14 A Trindade 8.1, p. 259; cf. também 6.9, p. 227-229; 5.10-16, p. 203-213. 15 A Trindade 2.9, p. 78.

16 A Trindade 5.15, p. 208-210. 17 A Trindade 1.7, p. 31; 2.3, p. 71-73. 18 A Trindade 2.14-34, p. 85-110; 3.4-27, p. 114-143.

Os diferentes nomes aplicados a cada uma das três pessoas na Trindade, traduzem relação recíproca, tais como: Pai e Filho, e o Dom de ambos, o Espírito Santo. Com efeito, não se pode dizer que o Pai é a Trindade, ou que o Filho é a Trindade, nem o Dom ser a Trindade. O que é dito, porém, de cada um dos três em relação a si mesmo, é dito não no plural, mas no singular, pois referente a uma única realidade: a própria Trindade.14

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-se visível”.19 Logo, já que cada uma das pessoas possui a natureza divina de uma maneira particular, é apropriado “atribuir a cada uma delas, na operação externa da Divindade, o papel que lhe é próprio em virtude de Sua origem”.20

2. A DISTINÇÃO DAS PESSOAS Segundo Agostinho, a distinção das pessoas se fundamenta nas “suas relações mútuas dentro da Divindade”. Embora consideradas enquanto substância divina, as pessoas sejam idênticas, o Pai se distingue enquanto Pai por gerar o Filho, e o Filho se distingue enquanto Filho por ser gerado. Com respeito às relações mútuas na Trindade, se aquele que gerou é principio do gerado, o Pai é principio em referencia ao Filho, porque o gerou. Entretanto não é uma investigação de pouca importância inquirir se o Pai é também principio com relação ao Espírito Santo, pois está escrito: procede do Pai. Se assim for, é principio não somente do que gera ou faz (o Filho), mas também da pessoa 19 A Trindade 2.9, p. 78-80; 2.18, p. 90-91. 20 A teologia cristã tem distinguido entre Trindade imanente e Trindade econômica. Trindade imanente é a Trindade considerada em si mesma, em sua eternidade e comunhão pericorética entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Trindade econômica é a Trindade enquanto se auto-revelou na história da humanidade e age em vista à nossa participação na comunhão trinitária. Cf. Karl Rarhner, “O Deus Trino, fundamento transcendente da história da salvação”, in: Johannes Feiner & Magnus Loehrer, Mysterium Salutis; compêndio de dogmática histórico-salvífica – a histórica salvífica antes de Cristo II/1 (Petrópolis: Vozes, 1972), p. 292-294, 342-344.

que ele dá (o Espírito). Isso lançaria uma possível luz sobre a questão que a muitos preocupa, sobre a possibilidade de dizer-se que o Espírito Santo também seja Filho, já que sai do Pai, como se lê no Evangelho ( Jo 15.26). Saiu do Pai, sim, mas não como nascido, mas como Dom, e por isso, não se pode dizer filho, já que não nasceu como o Unigênito e nem foi criado como nós, que nascemos para a adoção filial pela graça de Deus.21

O Espírito Santo, semelhantemente, distingue-se do Pai e do Filho enquanto “outorgado” por eles, sendo o “dom comum” (donum) de ambos, “uma espécie de comunhão de Pai e Filho (quaedam patris et filii communiio), ou, então, o amor que, juntos, Eles derramam em nossos corações”.22 Surge então a questão: “o que são, na verdade, os três”? Agostinho reconhece que tradicionalmente eles são designados como pessoas, mas ele fica descontente com o termo. Provavelmente a expressão lhe trazia a conotação de indivíduos separados. Mas ele consente em usar a expressão, por causa da necessidade de afirmar a distinção dos três contra o modalismo, e com um profundo sentido da inadequação da linguagem humana.23 Sua 21 A Trindade 5.15, p. 208-209; 5.6, p. 196-197; 5.8 p. 199-201. 22 A Trindade 5.12, p. 204-206; 5.15-17, p. 208-213; 8.1, p. 259-260. 23 Como diz João Calvino, Agostinho “em razão da pobreza da linguagem humana em matéria de tão alto importe, esta palavra hipóstase havia sido forçada pela necessidade, não para que se expressasse o que é, mas apenas para que não se passasse em silêncio o fato de que Revista FÉ PAR A H OJE | 39


teoria positiva, original e muito importante para a história subseqüente da doutrina da Trindade no ocidente, foi a de que “os três são relações reais

vel. Os três, ele passa a afirmar, são relações tão reais e eternas como o “gerar, ser gerado e proceder (ou ser outorgado)”, que fundamentam as relações dentro da Divindade.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo são assim

relações, “no sentido de que tudo aquilo que cada

um é, Ele é em relação a um dEles ou a ambos”

ou subsistentes”. Em outras palavras, toda distinção nas pessoas divinas consiste numa relação subsistente, mútua, entre elas. O motivo que levou Agostinho a esta colocação foi o dilema colocado pelos arianos.24 Estes, baseando-se no esquema aristotélico das categorias, afirmaram que as distinções na Divindade, se elas existissem, teriam que “ser classificadas sob a categoria de substância ou de acaso”. Na categoria do acaso não poderia sê-lo, porque em Deus não há nada acidental; se o fossem, porém, na categoria da substância, então a conclusão seria que existem três deuses. Agostinho nega ambas as alternativas, explicando que a categoria da relação é uma alternativa possísão três o Pai, o Filho e o Espírito”. Cf. As Institutas da Religião Cristã I.13.5, 18 (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), p. 126, 146-147. Calvino parece se distanciar das analogias psicológicas, apesar de praticamente repetir a abordagem de Agostinho a respeito da Trindade. 24 A Trindade 5.4, p. 194.

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Não há, pois, senão um bem simples e, conseqüentemente, senão um bem imutável – Deus. E este bem criou todos os bens que, não sendo simples, são, portanto, mutáveis. Digo, precisamente, criou, isto é, fez, e não gerou. É que o que é gerado de um ser simples é simples como ele e é o mesmo que aquele que o gerou. A estes dois seres chamamos Pai e Filho e um e outro com o seu Santo Espírito são um só Deus. A este Espírito do Pai e do Filho se chama nas Sagradas Escrituras Espírito Santo por uma espécie de apropriação deste nome. É, porem, distinto do Pai e do Filho, pois não é nem o Pai nem o Filho. Disse que é distinto mas não é outra coisa, porque também Ele é igualmente simples, igualmente imutável e co-eterno. E esta Trindade é um só Deus e não deixa de ser simples por ser Trindade. (...) É por isso que se chama simples a natureza que nada tem que possa per-


der; ou é simples a natureza em que aquele que tem se identifica com aquilo que tem. [Portanto] chama-se simples as perfeições que, por excelência e na verdade, constituem a natureza divina: porque nelas não é a substância uma coisa e a qualidade outra coisa. 25

O Pai, o Filho e o Espírito Santo são assim relações, “no sentido de que tudo aquilo que cada um é, Ele é em relação a um dEles ou a ambos”.26

3. A PROCESSÃO DO ESPÍRITO SANTO Agostinho também procurou explicar o que é a processão do Espírito Santo, ou “em que ela difere da geração do Filho”.27 Ele considerou como certo que o Espírito Santo é o amor mútuo do Pai e do Filho (communem qua invicem se diligunt pater et filius caritatem), o amor comum pelo qual o Pai e o Filho se amam mutuamente.28 Assim, Agostinho afirma que “o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho, mas somente o Espírito Santo do Pai e do Filho, igual ao Pai e ao Filho e pertencente à unidade da Trindade”.29 Desta maneira, em relação ao Espírito Santo, o Pai e o Filho formam um único princípio, o que é inevitável, 25 A Cidade de Deus 11.10, p. 1011-1012. 26 A Trindade 5-7, p. 191-258; Cf. também Santo Agostinho, Comentário aos Salmos 68 1.5 [Enarrationes in psalmos] Salmos 51-100 (São Paulo: Paulus, 1997), p. 435-437. 27 A Trindade 15.46, p. 546-550. 28 A Trindade 15.27-37, p. 521-534. Em 7.6, p. 244, o Espírito Santo é referido como “suma caridade, laço que une um ao outro [o Pai ao Filho], e nos submete a eles” (summa charitas, utrumque coniungens, nosque subiungens). 29 A Trindade 1.7, p. 31.

“pois a relação de ambos” para com o Espírito Santo “é idêntica e onde não há diferença de relação, a operação dEles é inseparável”. Agostinho, portanto, ensinou a doutrina da dupla processão do Espírito Santo do Pai e do Filho (filioque).30 Então, de acordo com Agostinho, o Pai é autor da processão do Espírito Santo porque Ele gerou o Filho, e ao gerá-lo tornou-o também fonte a partir do qual o Espírito procede e já que tudo o que o Filho tem, o tem do Pai, do Pai tem também que dEle proceda o Espírito Santo. Daqui, porém, não se deve concluir, ele nos adverte, que o Espírito Santo tenha duas fontes ou princípios.31 Pelo contrário, “a ação do Pai e do Filho” na processão do Espírito “é comum, assim como é a ação de todas as três pessoas na criação”. Além disso, não obstante a dupla processão, o Pai permanece “a fonte primordial”, na medida em que é dEle que deriva a capacidade do Espírito Santo de proceder do Filho.32 Entenda também que, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, para que 30 Para o papel de Agostinho na controvérsia filioque, cf. Alister E. McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica (São Paulo: Shedd, 2005), p. 395-398. 31 A Trindade 5.15, p. 208-210. 32 O que a teologia oriental (ortodoxa) nem sempre considerou é que os latinos, inclusive Agostinho, sempre conceberam o Pai como a fonte (Fons Trinitatis) ou origem especial (origo principalis) na Trindade. O Espírito Santo, como afirma Agostinho, procede do Pai principaliter; procede do Pai e do Filho communiter, por causa do dom que o Pai dá ao Filho. A maioria dos ortodoxos poderia aceitar tal formulação, mas, até que um concílio ecumênico agisse, tal idéia continuaria sendo mero “ensino teológico” (theologoumena). Cf. A Trindade 15.50, p. 553-555. Revista FÉ PAR A H OJE | 41


dele proceda o Espírito Santo, assim deu ao Filho para que dele também proceda o mesmo Espírito Santo; o qual procedeu de ambos, fora do tempo. E pelo fato de dizer-se que o Espírito Santo procede do Pai, deve-se entender que o Filho recebe-o do Pai, e então, o Espírito Santo procede também do Filho. Pois o que o Filho tem, recebe-o do Pai, e assim recebe do Pai para que dele proceda, o mesmo Espírito Santo.33

e em seu interior o Espírito Santo habita. O mesmo Espírito que une o Pai e o Filho, tornando-os um, também une os cristãos em uma só igreja”.34

4. A FORMULAÇÃO DAS “ANALOGIAS PSICOLÓGICAS” De acordo com J. N. D. Kelly, “o uso de analogias tiradas da estrutura da alma humana”, ainda que afirmada timidamente, é, provavelmen-

Quem poderá compreender a

Trindade onipotente? E quem não fala dela, ainda que não a compreenda?” – Agostinho

Portanto, o Espírito Santo é algo comum ao Pai e ao Filho. “O Pai é apenas o Pai do Filho, e o Filho apenas o Filho do Pai; o Espírito, entretanto, é o Espírito tanto do Pai como do Filho, unindo-os em um vínculo de amor”. Portanto, o Espírito Santo é o “elo que une, por um lado, o Pai e o Filho, e, por outro lado, Deus e os cristãos. O Espírito é um dom, dado por Deus, o qual une os cristãos a Deus e aos demais cristãos. O Espírito Santo forma os elos de união entre os cristãos, dos quais depende fundamentalmente a unidade da igreja. A igreja é o ‘templo do Espírito Santo’,

33 A Trindade 15.47, p. 549.

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te, “a contribuição mais original de Agostinho à teologia trinitária”.35 A função destas analogias não é demonstrar que Deus é Trindade, já afirmada nas Escrituras, mas aprofundar nosso entendimento do mistério da absoluta unidade e também da distinção real dos três. No sentido estrito, de acordo com Agostinho, 34 Alister E. McGrath, op. cit., p. 367-368. 35 Henry Chadwick, op. cit., p. 257. Cf. Millard Erickson, Introdução à teologia sistemática (São Paulo: Vida Nova, 2012), p. 138: “A maior contribuição de Agostinho para a compreensão da Trindade são suas analogias extraídas do campo da personalidade humana. Ele argumentou que, se a humanidade é feita à imagem de Deus, que é triúno, é razoável esperar encontrar, numa análise da natureza humana, um reflexo, mesmo que tênue, da triunidade de Deus.”


há vestígios da Trindade em todo o lugar, porque as criaturas, na medida em que existem, “existem por participar das idéias de Deus; portanto, tudo deve refletir”, embora de forma tênue, a Trindade que as criou.36 Para buscar a verdadeira imagem da Trindade, entretanto, o homem deve olhar primeiramente dentro de si, porque as Escrituras representa Deus dizendo: “Façamos [isto é, os três] o homem à nossa imagem e à nossa semelhança”. Portanto, mesmo o homem exterior, isto é, o homem considerado em sua natureza sensível, fornece “uma certa figura da Trindade” (quandam trinitatis effigiem).37 De acordo com Kelly, “o processo de percepção, por exemplo, revela três elementos distintos que são ao mesmo tempo intimamente ligados, dos quais o primeiro, em certo sentido, gera o segundo, enquanto que o terceiro mantém aos outros dois unidos”.38 Por exemplo, o objeto externo (res quam vivemus, a coisa que vemos), a representação sensível da mente (visio), e a intenção ou ato de focalizar a mente (intentio; voluntas; intentio voluntatis, a intenção da vontade). Quando o objeto externo é removido temos uma segunda trindade, que lhe é superior, pois é localizada inteiramente dentro da mente.39 Neste sentido, Agostinho fala da impressão da memória (memoria), a imagem interna da memória (visio interna), e 36 Santo Agostinho, A verdadeira religião 13 (São Paulo: Paulus, 2002), p. 39-40. 37 A Trindade 11.1, p. 335-336. 38 A Trindade 11.2-5, p. 337-342. 39 A Trindade 11.6, p. 343-345.

a intenção ou disposição da vontade (voluntas). Para a imagem real, entretanto, da Trindade, devemos olhar no homem interior, ou alma. Ao comentar a pergunta do Salmo, “por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?”, ele escreveu: “Entendemos, então, que temos algo onde se encontra a imagem de Deus, a saber, a mente, a razão. A mente invocava a luz de Deus e a verdade de Deus. Com ela entendemos o que é justo e o que é injusto, discernimos o verdadeiro do falso... Nosso intelecto, por conseguinte, fala a nossa alma”.40 Como Kelly afirma, frequentemente tem sido dito que a principal analogia trinitária do A Trinitate é a do amante (amans), do objeto amado (id quod amatur) e do amor que os une (amor).41 Porém a discussão de Agostinho desta trindade é bastante curta, e é apenas “uma transição” para aquela que ele considera sua mais importante analogia, a da “atividade da mente enquanto dirigida para si mesma ou, melhor ainda, para Deus”. Quem poderá compreender a Trindade onipotente? E quem não fala dela, ainda que não a compreenda? 40 Santo Agostinho, Comentário aos Salmos 42.6 [Enarrationes in psalmos]; Salmos 1-50 (São Paulo: Paulus, 1997), p. 718-719. 41 A Trindade 8.12-9.2, p. 260-289 e A Cidade de Deus v. II, 11.26. É interessante notar que na concepção barthiana-anselmiana a fé é amans, o entendimento da fé é id quod amatur e a teologia é amor. Cf. Karl Barth, Fé em busca de compreensão (São Paulo: Fonte Editorial, 2006), p. 14. Cf. também Anselmo de Cantuária, Monol. 67 e passim. Revista FÉ PAR A H OJE | 43


É rara a pessoa que, ao falar da Santíssima Trindade, saiba o que diz. Discute-se, debate-se, mas ninguém é capaz de contemplar essa visão, sem paz interior. Quisera meditassem os homens sobre três coisas que tem dentro de si mesmos, as três bem diferentes da Trindade. Indico-as, para que se exercitem, e assim experimentem e sintam quão longe estão desse mistério. Aludo à existência, ao conhecimento e à vontade. De fato existo, conheço e quero. Existo, sabendo e querendo; sei que existo e quero; quero existir e conhecer. Repare, quem puder, como é inseparável a vida nessas três faculdades: uma só vida, uma só inteligência, uma só essência. Como são inseparáveis os objetos dessa distinção. Distinção, no entanto, que existe! Cada um está diante de si mesmo. Estude-se, veja e responda-me. Contudo, mesmo que reflita e me responda, não julgue ter compreendido a essência deste Ser imutável que está acima de todas as criaturas, o Ser que imutavelmente existe, imutavelmente sabe e imutavelmente quer. Será porventura graças a essas três faculdades que há em Deus a Trindade, ou essa tríplice faculdade existe em cada uma das três pessoas, de modo a serem três em cada uma? Ou ambas as coisas se realizam de modo admirável, numa simplicidade múltipla, sendo a Trindade o seu próprio fim infinito, pela qual existe, se conhece e se basta imutavelmente, na grande abundância de sua Unidade? Quem poderia exprimir 44 | Revista F É P A R A H O J E

facilmente esse conceito? Quem teria palavras para o exprimir? Quem, de algum modo, ousaria pronunciar-se temerariamente a esse respeito?42

Esta última analogia fascinou Agostinho por toda a sua vida, as trindades resultantes sendo: a) a mente (mens), seu conhecimento de si mesma (notitia) e seu amor de si mesma (amor);43 b) a memória (memoria), ou, mais propriamente, “o conhecimento latente que a mente tem de si mesma”; o entendimento (intelligentia), isto é, “sua apreensão de si mesma à luz das razões eternas”; e a vontade (voluntas), ou amor de si mesma, “pela qual este processo de autoconhecimento é posto em atividade”;44 c) a mente, enquanto lembrando, conhecendo e amando ao próprio Deus.45 “É, contudo, a última das três analogias que Agostinho considera a mais satisfatória”. Agostinho considera que somente quando a mente focalizou a si mesma com todas as suas potências de lembrança, entendimento e amor em seu Deus é que a Sua imagem que ela traz em si, corrompida como está pelo pecado, pode ser plenamente restaurada. Embora se demorando nestas analogias, Agostinho não tem ilusões quanto às suas imensas limitações. Primeiro, “a imagem de Deus na mente do homem é, de qualquer 42 Santo Agostinho, Confissões 13.11 (São Paulo: Paulus, 1997), p. 412-413. 43 A Trindade 9.2-8, p. 287-296. 44 A Trindade 10.17-19, p. 330-334. 45 A Trindade 14.11-15.28, p. 453-557.


maneira, uma imagem remota e imperfeita”. Segundo, “embora a natureza racional do homem exiba as trindades acima mencionadas, (...) elas representam faculdades ou atributos que o ser humano possui, enquanto que a natureza divina é perfeitamente simples”. Terceiro, a memória, entendimento e vontade operam no homem separadamente, enquanto que as três pessoas divinas “pertencem-se mutuamente e Sua ação é perfeitamente una e indivi-

Aí se descobre a disposição da divina Providência, no tempo, em favor do gênero humano, para reforma-lo e restaura-lo, em vista da posse da vida eterna. Crendo nisso, a mente vai se purificando num modo de vida ajustado aos preceitos divinos. Isso a habilitará à percepção das realidades espirituais. Essas realidades não são nem do passado, nem do futuro, mas são sempre idênticas a si mesmas, imunes de qualquer mudança temporal. Trata-se do mesmo e único Deus

Ó minha fé, vai avante na tua conf issão. Diz ao Senhor teu Deus: santo, santo, santo é o Senhor meu Deus. Fomos batizados em teu nome, Pai, Filho e Espírito Santo” – Agostinho sível”. Finalmente, em Deus os três membros da Trindade são pessoas, mas o mesmo não ocorre na mente humana. Parafraseado o próprio Agostinho, a imagem da Trindade se encontra numa pessoa, mas a suprema Trindade é ela própria três pessoas: o que é um paradoxo, quando alguém reflete que, não obstante isso, os três são mais inseparavelmente um do que a trindade da mente.46 O fundamento para seguir esta religião [cristã] é a história e a profecia. 46 Para as críticas que são feitas a esta análise, cf. Alister E. McGrath, op. cit., p. 386-388.

Pai, Filho e Espírito Santo. Conhecida essa Trindade – o quanto é possível na vida presente – sem dúvida alguma a mente percebe que toda criatura intelectual, animal e corporal, recebe dessa mesma Trindade criadora: o ser para ser o que é; a sua forma; e a direção dentro da perfeita ordem universal. Não se entenda por aí, porém, que apenas parcela das criaturas é feita pelo Pai, outra pelo Filho e outra ainda pelo Espírito Santo. O certo é que todas e cada uma das naturezas individuais recebe a criação do Pai pelo Filho, no dom do Espírito Santo. Visto que todas as coisas, substância, essênRevista FÉ PAR A H OJE | 45


cia, natureza ou qualquer termo mais adequado, que se dê possui ao mesmo tempo estas três propriedades: é algo único, distingue-se por sua forma das demais coisas, e está dentro da ordem universal. 47

CONCLUSÃO: LOUVOR A DEUS Para encerrar, podemos resumir as contribuições de Agostinho à doutrina trinitariana: (a) Na explicação da Trindade, ele concebe a natureza divina, antes das pessoas, separadamente. Sua formula da Trindade é: uma só natureza subsistindo em três pessoas. Ao contrário, a dos gregos era: três pessoas tendo uma mesma natureza. Em Agostinho, a divindade única aparece logo. A igualdade das pessoas divinas também aparece com mais brilho. (b) Outro progresso da doutrina trinitariana de Agostinho é a insistência em fazer de todas as operações ad extra a obra indistinta das três pessoas, isto é, as operações exteriores são atribuídas ou apropriadas ao Pai, Filho e Espírito Santo.48 (c) Enfim, 47 A verdadeira religião 13, p. 48; A Trindade 15.43, p. 541-543. 48 As ações ad extra são as que a Trindade opera para fora do círculo trinitário, como a criação do universo, a revelação, a salvação. As ações ad intra são as ações intratrinitárias, dentro do círculo trinitário, como a geração do Filho e a espiração do Espírito Santo pelo Pai e o Filho.

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Agostinho lançou os fundamentos da teoria psicológica das processões, concernentes à origem do Filho e à do Espírito Santo. Agostinho, juntamente com os maiores teólogos que lograram vislumbrar as dimensões do mistério trinitário, costumavam terminar suas obras como orações ardorosas, de louvor e agradecimento, sempre conscientes de suas limitações: “Ó minha fé, vai avante na tua confissão. Diz ao Senhor teu Deus: santo, santo, santo é o Senhor meu Deus. Fomos batizados em teu nome, Pai, Filho e Espírito Santo”.49 O silêncio reverente da razão deixa o coração extravasar sua admiração. Deus está envolto em mistério “na luz inacessível” (1Tm 6.13-16): Portanto, quando chegarmos à tua presença, cessará o muito que dissemos, mas muito nos ficará por dizer e tu permanecerás só, tudo em todos (1Cor 15.28), e então eternamente cantaremos um só cântico, louvando-te em um só movimento, em ti estreitamente unidos. Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti nestes livros, de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há de meu, perdoa-me e perdoem-me os teus. AMÉM.50 49 Confissões 13.12, p. 413. 50 A Trindade, 15.28, p. 557.


Jose Garcia Hidalgo, Convers達o de Santo Agostinho (Museu do Prado, Madri)


“A peregrina cidade de Jerusalém”. Jerônimo, Agostinho e o Império. G S

Líderes de grande projeção, frequentemente com personalidades fortes e pitorescas, os primitivos “Pais da Igreja” ainda continuam a influenciar muita gente na atualidade. A “Era de Ouro” da Patrística deu-se no quarto e quinto séculos. O pregador João Crisóstomo (344407), o erudito Jerônimo (c. 342-420) e o teólogo Agostinho (354-430) são exemplos proeminentes, cujas vidas e obras, começando no quarto século e findando no quinto, revelam muito acerca do tempo em que viveram.1 No Ocidente, a influência destes dois últimos foi enorme. 1 N. R. Needham.  2000 Years of Christ´s Power; Part One: The Age of the Early Church Fathers. London: Grace Publications Trust, 2002, p. 230-262.

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Após uma longa peregrinação, e havendo acumulado uma inigualável erudição e conhecimento dos idiomas bíblicos, Jerônimo (Eusebius Hieronymous Sophronius)2  visitou Roma em 382, cidade na qual residiu, ministrou e que conhecia muito bem. O bispo Damásio (“papa” de 366 a 384) o fez seu secretário, e pediu-lhe que preparasse uma nova tradução latina da Bíblia. Em toda a Cristandade, Jerônimo era o homem melhor preparado para esta empreitada. A nova tradução da Bíblia para o latim consumiu boa parte de sua vida e foi o seu principal monumento. Já existiam 2 Para um acervo das obras de Jerônimo em Língua Inglesa, http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf206.toc.html


outras traduções das Escrituras naquela época, mas todas tinham sido feitas a partir da  Septuaginta, isto é, a tradução do Antigo Testamento do hebraico para o grego. Jerônimo se pôs ao trabalho, apesar de ser constantemente interrompido por sua enorme correspondência, suas constantes controvérsias e as calamidades que assolavam o mundo. Ele finalizou o seu trabalho em 405, levando, portanto, vinte e três anos para concluí-lo. A sua tradução foi inteiramente nova e arejada, utilizando como base o Novo Testamento Grego e o original hebraico do Antigo Testamento. A longo prazo, a versão de Jerônimo — conhecida como a Vulgata — se impôs em toda a igreja de fala latina, conquanto no princípio não tenha sido bem recebida.3 Quando decidiu ir embora de Roma para a  Terra Santa, Jerônimo dizia que estava indo de “Babilônia para Jerusalém”. A partir de 386 ele viveu o restante de seus dias num mosteiro em Belém, constantemente escrevendo e ensinando a outros monges. Em 410, Roma foi tomada e saqueada pelos Godos. Todo mundo estremeceu diante desta notícia. Quando Jerônimo a recebeu, escreveu perplexo em seu retiro em Belém: “Quem pode acreditar que Roma, construída pela conquista do mundo, tenha caído? Que a mãe de muitas nações se transformou num 3 O apelido Vulgata vem da palavra latina para “comum” — a Bíblia comum, isto é, aquela comumente utilizada.

túmulo?”4  Por esta época, Jerônimo sabia que não apenas ele se aproximava de seu fim, mas toda uma era. Ele morreu em Belém, doente e quase cego, em 30 de setembro de 420, havendo sobrevivido, ainda, cerca de dez anos à queda de Roma. Durante a Idade Média, a fama e influência de Jerônimo entre os cristãos ocidentais só foram superadas pelas de Agostinho de Hipona. Precipitada por uma série de eventos, a queda do Império Romano do Ocidente produziu um impacto de grandes proporções. Ainda que tenha formalmente continuado por outros sessenta anos ou mais, após 410 o Império efetivamente deixara de ser um poder militar e político. Quando Agostinho falecia, em 28 de agosto de 430, a sua cidade no norte da África já estava sob o poder do reino Vândalo. Logo após o saque de Roma, Agostinho tomara ciência de que muitos pagãos atribuíam as calamidades do Império aos cristãos. Os pagãos apontavam que o desastre romano foi no “período dos cristãos” e que Roma havia caído porque se tinha entregue ao cristianismo e abandonado “os antigos deuses que a tinham feito grande”. Para os pagãos, os cristãos tinham destruído a maior realização humana já concebida. A grande preocupação de Agostinho, entretanto, era acerca do modo 4 Justo L. Gonzales. A Era dos Gigantes. Uma História Ilustrada do Cristianismo, Vol. 2. São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 161-162. Revista FÉ PAR A H OJE | 49


como os cristãos reagiram àquele evento catastrófico. Em muitos cristãos, a queda de Roma produzira um desespero atônito e um temor de que o fim do mundo havia chegado. Quando Roma foi tomada pelos Visigodos, de seu mosteiro em Belém Jerônimo escrevia no prólogo de seu Comentário em Ezequiel: “Quando a mais esplendorosa luz do mundo foi apagada, quando a  própria cabeça do Império Romano foi decepada, o mundo inteiro pereceu em uma única cidade”.5  Em uma carta escrita naqueles dias, Jerônimo expressou a sua perplexidade diante da adversidade que os cidadãos de Roma atravessavam. Ele chegou mesmo a comparar o saque de Roma com a tomada de Jerusalém pelos exércitos de Babilônia. O Salmo 79.1-3 proveu-lhe uma descrição gráfica do horror de ambos: Ó Deus, as nações invadiram a tua herança, profanaram o teu santo templo, reduziram Jerusalém a um montão de ruínas. Deram os cadáveres dos teus servos por cibo às aves dos céus e a carne dos teus santos, às feras da terra. Derramaram como água o sangue deles ao redor de Jerusalém, e não houve quem lhes desse sepultura.6 5 J. N. D. Kelly. (trad.).  Jerome: his Life, Writings, and Controversies. New York: Harper & Row, 1975, p. 304,  apud Michael Haykin. Defence of The Truth; Contending for the Truth Yesterday and Today.  Darlington, England: Evangelical Press, 2004, p. 101. Cf. http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf206.vii.iv.x.html 6 Carta 127.12,  in: W. H. Freemantle.  The Principal Works of St. Jerome. Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, vol. 6. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans

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O que é admirável nesta passagem é que se fosse indagado a autores cristãos tais como Tertuliano (160-225) ou Cipriano (200-258) — os quais viveram antes da tolerância da Cristandade no quarto século — a qual cidade bíblica Roma seria melhor comparada, sua resposta inevitavelmente seria: “Babilônia!”. Tal como a antiga Babilônia, Roma era culpada de sangue e luxúria em sua dominação e poder, e era culpada da perseguição aos santos. E mesmo Jerônimo, tempos antes, comparara Roma à Babilônia no tocante ao aspecto moral. Porém, se o próprio Jerônimo pôde comparar Roma com Jerusalém indica que ocorrera uma inteira transformação na sua cosmovisão, em comparação com os tempos de Tertuliano ou Cipriano. Pela época de Agostinho e Jerônimo, a cidade de Roma, além de capital do Império, tornara-se o centro da Igreja no Ocidente. Roma era agora “a santa cidade, onde os santos estão sepultados, especialmente Pedro e Paulo”, e tal como Jerusalém, ela é amada de Deus. Assim, para Jerônimo a questão que necessariamente se levantava é a seguinte: “Como Deus podia permitir que um desastre deste houvesse ocorrido?” Desde que o Império era agora conduzido por professos cristãos, essa se tornava uma questão bastante inquietante. Publishing Co., 1979, p. 257, apud Haykin, op. cit. Para outros textos que mostram a reação de Jerônimo ao saque de Roma, veja Carta 123.16-17; 126.2; 128.4.  Para as cartas de Jerônimo,  http://www.newadvent.org/fathers/3001.htm


Se por um lado, cristãos como Jerônimo estavam chocados, aturdidos ou até desesperados, havia também aqueles cristãos que reagiam com uma alegria sadística ao novo saque de Roma. O ressentimento contra Roma também havia se assentado fortemente no coração de muitos na Cristandade. Contra a acusação dos pagãos, e diante do desespero de muitos cristãos, e no contexto da celebração ou indiferença de outros, a resposta

então, está vitalmente trabalhando na história. Agostinho, portanto, tem uma visão unificada daquilo a que chamamos de história; ela não é um pacote de querelas e eventos desconectados. Não obstante, Agostinho também está convencido de que é impossível traçar em detalhes a obra de Deus na história fora das Escrituras. Enquanto seria blasfemo negar que Deus está trabalhando no domínio da história, tal trabalho é amplamente oculto aos homens.

Cidade de Deus é um tratado sobre a providência de Deus é, na verdade, a primeira f ilosof ia cristã da história.” de Agostinho veio na sua monumental, penosa e volumosa  Cidade de Deus  (413-426). Talvez a maior de todas as suas obras, esse tratado sobre a providência de Deus é, na verdade, a primeira filosofia cristã da história. Para Agostinho, história é o estágio no qual o drama da redenção está sendo encenado. No princípio da história está a Queda e em sua conclusão o Julgamento Final. Entre estes dois eventos ocorre o mais crucial de todos os eventos — a entrada do Deus eterno no tempo como um homem, a encarnação do Senhor Jesus Cristo, e seu consequente ministério, morte e ressurreição. Deus,

Na  Cidade de Deus  encontra-se a afirmação de que nenhuma cidade terrestre pode se comparar com a Jerusalém Celestial, a cidade de Deus. A cidade terrestre tem sua ascensão e queda, mas a cidade de Deus permanece para sempre. Para Agostinho, a cidade terrestre pode assumir muitas formas ao longo do tempo. A Cidade do Homem está fundada sobre o amor a si mesmo, glorifica a si própria, e é contra Deus. Ela tem sua origem na rebelião de Satanás e dos outros anjos caídos. A cidade de Deus é invencível e continuará triunfando e realizando a vontade de Deus. Ela é guiada e amada por Deus, espeRevista FÉ PAR A H OJE | 51


cialmente marcada por humildade, e encontra sua glória mais elevada em Deus. Seu início está no céu, antes mesmo da existência do universo material. Na essência, homens e nações se levantam e caem, mas a cidade de Deus conquistará tudo. As diferentes naturezas das duas cidades podem ser vistas nas diferentes características dos seus dois primeiros habitantes:  Caim  e  Abel. Caim era um habitante da Cidade do Homem, cujo “desejo é contra ele” e que o “domina” (Gn 4.7). Ele então assassina o seu irmão, e deseja dominar sozinho, edificando sua

identificar as pessoas de acordo com ela. Deus antevê. Nós não. O pecador poderá ser o santo de amanhã, e vice-versa. Membros professos da Igreja na terra terminarão no inferno. Os de fora terminarão no paraíso. A Cidade de Deus, pela graça e poder de Deus, acabará substituindo os reinos terrestres na cidade celeste na ocasião da segunda vinda de Cristo. E até então, a Cidade de Deus será um reino espiritual oculto que existe sempre e onde quer que a vontade de Deus o queira. A separação definitiva ocorrerá quando, no juízo final, a Cidade de Deus entrará num

Reinos terrestres têm seu auge e seu declínio; mas está vindo aquele Homem de quem é dito: ‘E o seu reino jamais terá f im’.” – Agostinho própria cidade. Abel, por outro lado, “era um peregrino e estrangeiro no mundo”, pertencendo à Cidade de Deus. Ele foi predestinado pela graça, e escolhido pela graça, pela graça um peregrino daqui, e pela graça um cidadão de lá. Através do curso dessas duas cidades, quando elas se colocam lado a lado na história, Deus está trabalhando para livrar homens e mulheres da primeira cidade e torná-los parte da segunda. Embora a cidadania última seja na Cidade de Deus, não podemos, no momento, 52 | Revista F É P A R A H O J E

gozo eterno, e a Cidade do Homem será precipitada no inferno. Nenhuma sociedade terrena ou instituição humana pode, entretanto, ser plenamente identificada com qualquer dessas duas cidades, porque elas perpassam a humanidade inteira, no passado, presente e futuro. Agostinho, então, rejeita qualquer sorte de fusão do Reino de Deus com alguma sociedade humana em particular. Esta interpretação cristã da história, conforme defendida por Agostinho, foi um grande consolo para


muitos cristãos que viram o Império Romano no Ocidente esfacelar-se por causa das invasões dos vândalos. Como vimos, até mesmo cristãos estavam identificando o Império Romano cristianizado com o Reino de Deus. Isto era uma enorme tentação naqueles dias. Roma parecia, para os homens desse tempo, o princípio organizador de toda a história humana. Ao desaparecer, que sentido teria o mundo? Vários cristãos estavam contemplando o Império Romano como desempenhando um papel central na história da redenção. O próprio historiador Eusébio de Cesaréia (263-339) esposara tal opinião, quando se referiu à ascensão do imperador Constantino. Assim, desenvolvera-se uma teologia da história na qual aqueles “tempos cristãos” eram, por assim dizer, coextensivos com o Império, tanto quanto este era com a Cidade de Deus. Para Agostinho, nada disso era contemplado pelas Escrituras, bem como esta opinião falhava em articular a natureza peregrina do povo de Deus. A idéia central de Agostinho é: a Cidade de Deus não é afetada pelo declínio do Império Romano, porque esta cidade, em rigor, não é deste mundo. No caso particular de Roma e do Império, Deus lhes permitiu crescer como cresceram, inclusive para que servissem de meio para a propagação do evangelho. Esta função agora estava cumprida, e Deus fez com que Roma seguisse o destino de todos os reinos humanos, recebendo o justo castigo

por seus pecados e egoísmo. Roma nunca seria a cidade que satisfaria o coração humano. Somente a cidade de Deus poderia fazer isto. Virgílio (Públio Virgílio Marão, 70-19 a.C.) descreveu o plano dos deuses para tornar Roma uma imagem de justiça de ordem divina. Agostinho diz que Roma jamais se tornou isso, nem nunca poderia se tornar. Nenhuma instituição meramente humana pode. Somente a Cidade de Deus tem a ordem perfeita. O Cristianismo não oferece conforto ou sucesso nesta vida, mas paz interior e um destino eterno. Por isso, enquanto o descrente ama o que há no mundo, o cristão ama a Deus. Agostinho não apenas escreveu, mas pregou sobre isto. Em um sermão pregado em Cartago, durante o verão de 411, quando a lembrança do saque de Roma ainda permanecia bastante fresca em muitas mentes, Agostinho relembra aos seus ouvintes que nenhum reino terrestre é para sempre.7  O Senhor e Mestre Jesus Cristo já advertira que os reinos desta terra pereceriam. Agostinho relembrou as palavras de Cristo: “Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino” (Mt 24.7). E prosseguiu: “reinos terrestres têm seu auge e seu declínio; mas está vindo aquele Homem de quem é dito: ‘ E o seu reino jamais terá fim’.”

7 Sermão 105.9-11, in: Edmund Hill.  Sermons; The Works of Saint Augustine. Brooklyn, New York: New City Press, 1992, III/4, p. 94,  apud. Haykin,  op. cit.. Cf  http://www.ewtn.com/library/PATRISTC/PNI6-10.TXT. Para sermões de Agostinho,http://www.theworkofgod.org/ Library/Sermons/Agustine.htm Revista FÉ PAR A H OJE | 53


Para Agostinho, cada membro da Cidade de Deus tem, certamente, sua responsabilidade histórica. Ele é capaz de ser grato a Deus por Roma, e de orar pelos seus cidadãos que permaneciam em seu paganismo. “Que experimentem um nascimento espiritual, e que passem adiante conosco para a eternidade”. O fim virá. Apenas Deus e seu reino são eternos. Portanto, como os cristãos deveriam viver? Eles deveriam fixar a sua esperança firmemente em Deus. Tal esperança, contudo, não deveria fazer com que os cristãos se mantivessem insensíveis aos sofrimentos daqueles que os rodeiam. Os cristãos naquele contexto de crise não deveriam esquecer as necessidades dos outros. Agostinho conhecia o poder apologético das boas obras. Ele instou com os cristãos naquele momento, lembrando-lhes que, ao fazerem o que Cristo mandou, eles estariam respondendo muito convenientemente às blasfêmias dos pagãos. Ele mesmo, com seus quase setenta anos, foi capaz de viajar centenas de quilômetros visando à preservação da ordem política e ao bem-estar da Igreja.  Os cristãos daquele tempo viviam num cenário de incerteza e de falência. Para aqueles que viam o Império Romano como central nos propósitos de

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Deus, não é de admirar que o saque de Roma tenha sido encarado como um evento devastador para o Cristianismo. Falando aos cristãos do Império, entretanto, Agostinho pôde declarar que nada tem sido perdido. Uma porção da “peregrina cidade de Jerusalém” permanecia lá em Roma, e, embora houvessem sofrido perdas temporais, os cristãos não deveriam perder de vista os ganhos eternos. Agostinho era capaz de contemplar que o colapso da infra-estrutura política e social do Império não era simplesmente um evento histórico e nada mais. Ele ofereceu uma âncora com sua visão bíblica de que a história é oficina de Deus. Para o povo de Deus, aquele sofrimento tinha propósitos redentivos. Agostinho defendeu e expôs, portanto, a soberania do reinado de Cristo na história. O reino de Deus é eterno; seu triunfo é certo; e nada pode pará-lo! Compartilhar de tal triunfo é o grande privilégio que um ser humano pode desfrutar. E mesmo em sua morte, no contexto de uma ordem social destruída, Agostinho mantinha a firme esperança do reino celeste e da resplendente “Cidade de Deus”. Em meio aos seus últimos combates, ingentes e afirmativos, ele esperava “a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador”.


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Jusepe de Ribera, Saint Augustine of Hippo (Museu do Prado, Madri)


Tempo, História e Escatologia H M P  C

“[O tempo é] como vestígio da eternidade” 1 “E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei” 2 “Ai de mim, que nem ao menos sei o que ignoro!” 3

Agostinho

1 Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis, São Paulo: Paulus, 2005 (Coleção Patrística; 21), XIII.38. p. 625. 2 Agostinho, Confissões, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. VI), 1973, XI.14.17. p. 244. 3 Agostinho, Confissões, XI.25.32. p. 251.

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INTRODUÇÃO A concepção cristã de tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente todo o mundo Ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim era totalmente estranha às culturas pagãs. A questão da história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição. O Cristianismo é uma religião de história. Ele não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem. O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente compreendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo. A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo, não simplesmente nos seus ensinamentos. O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós ( Jo 1.14). Jesus Cristo é o clímax da Revelação; é a Palavra Final de Deus. Nele temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que Se fez homem na história.

1. TEMPO E ESCATOLOGIA EM AGOSTINHO Curiosamente, um dos sérios problemas da filosofia é a questão

do tempo. Agostinho (354-430) ‒ “o grande mestre da Idade Média cristã”4 ‒, soube como ninguém retratar este problema. Para Agostinho Deus é o eterno presente – na eternidade nada passa5 – que antecede o tempo por Ele criado: “Precedeis, porém, todo o passado, alteando-Vos sobre ele com a vossa eternidade sempre presente (Sl 102.27)”.6 Em outro lugar:“Os anos de Deus não são uma coisa e Deus mesmo outra; mas os anos de Deus são a eternidade de Deus; eternidade de Deus é a sua substância. Nada tem de mutável, nada de pretérito, como se já não fosse, nada de futuro como ainda não sendo. Ali só se encontra: É; não há: Foi e será, porque o que foi já não é, e o que será ainda não é, mas tudo que existe ali, apenas é”.7 Por isso, na eternidade, Deus nada fazia, visto que se Ele fizesse, seria criatura dEle: “Não temo afirmar que antes de criardes o céu e a terra não fazíeis coisa alguma. Pois, se tivésseis feito alguma coisa, que poderia ser senão criatura vossa?”.8 4 Jacques Le Goff, Tempo: In: Jacques Le Goff; JeanClaude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru, SP/São Paulo: Editora da Universidade Sagrado Coração/Imprensa Oficial do Estado, 2002, Vol. 2, p. 531. 5 Agostinho, Confissões, XI.11.13. p. 242. Ele insiste neste ponto: “Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade” (Agostinho, Confissões, XI.14.17. p. 244). Em outro lugar: “O que tem fim não é duradouro e todos os séculos termináveis, em comparação com a eternidade interminável, são, não direi pequenos, mas nada” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus, 2. ed. Petrópolis, RJ./São Paulo: Vozes/Federação Agostiniana Brasileira, 1990, (Parte II), XII.12. p. 74). 6 Agostinho, Confissões, XI.13.16. p. 243. 7 Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, (Sl 101), Vol. III, p. 37. 8 Agostinho, Confissões, XI.12.14. p. 242. Revista FÉ PAR A H OJE | 57


Jesus Cristo é o clímax da Revelação; é a Palavra Final de Deus. Nele temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que Se fez homem na história.” O tempo só pode ser avaliado a partir de sua finitude, olhando o seu passado ou desejando o seu futuro; o presente “para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito....”.9 No entanto, não podemos falar do “tempo passado” como “longo” ou “breve”, já que ele passou à condição de não-ser, não podendo mais ser caracterizado por estes acidentes. “Todos os dias do tempo vêm para não existirem mais. Toda hora, todo mês, todo ano: nada disso permanece. Antes de vir, será; quando vier, não será mais”.10 Como então nos referir a ele? “Não digamos pois: ‘o tempo passado foi longo’, porque não encontraremos aquilo que tivesse podido ser longo, visto que já não existe desde o instante que passou. Digamos antes: ‘aquele tempo presente foi longo’, porque só enquanto foi presente é que foi longo. (...) Onde existe portanto o tempo que podemos chamar longo? Será o futuro? Mas deste tempo não dizemos que é longo, porque ainda não existe. Dizemos: ‘será longo’. E quando será? Se esse tempo ainda agora está para vir, 9 Agostinho, Confissões, XI.14.17. p. 244. 10 Agostinho, Comentário aos Salmos, Vol. III, (Sl 101), p. 37.

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nem então será longo, porque ainda não existe nele aquilo que seja capaz de ser longo. Suponhamos que, ao menos, no futuro será longo. Mas só o poderá começar a ser no instante em que ele nasce desse futuro – que ainda não existe – e se torna tempo presente, porque só então possui capacidade de ser longo. Mas com as palavras que acima deixamos transcritas o tempo presente clama que não pode ser longo”.11 “A brevidade dos dias estende-se até o fim dos séculos. Brevidade porque a totalidade do tempo, não digo de hoje até o fim dos séculos, mas de Adão até o fim dos séculos, é uma exígua gota d’água, se comparada à eternidade”.12 Que fazer então, com a lembrança e com a esperança? Bem, Agostinho cria três formas de presente; diria que a lembrança é o presente das coisas passadas; o sonho é o presente das coisas futuras e o que vejo, aspiro, toco, provo e ouço, é o presente do presente.13 11 Agostinho, Confissões, XI.15.18 e XI.15.20. p. 244 e 245. Adiante acrescenta: “O futuro longo é apenas a longa expectação do futuro. Nem é longo o tempo passado porque não existe, mas o pretérito longo outra coisa não é senão a longa lembrança do passado” (Agostinho, Confissões, XI.28.37. p. 255). 12 Agostinho, Comentário aos Salmos, Vol. III, (Sl 101), p. 36. 13 Vejam-se: Agostinho, Confissões, XI.20.26. p. 248.


2. TEMPO E SOCIEDADE MEDIEVAL a. Tempo e mobilidade geográfica e social Dentro dos moldes de hoje, podemos dizer que na Idade Média havia uma sociedade estática, sem grande mobilidade social; onde as transformações eram lentas nos diversos setores da vida cultural, social, econômica e política. As maiores mudanças, ironicamente, eram causadas “por guerras, pragas e crises econômicas”.14 Cada pessoa estava de certa forma presa a um papel na ordem social, sem que houvesse perspectivas de mudança. A ingerência do “Estado” era enorme na vida privada, havendo leis contra todos os “males” imagináveis. Ao mesmo tempo, havia uma unidade cultural das elites, reconstruída pela Igreja

as classes iguais nos lugares mais diversificados da Europa, que permeou o período de 800 até 1400. Todavia, esta “estabilidade” seria “desestabilizada” gradativamente, especialmente a partir do século XIII; quando surge lenta, mas sistematicamente, uma nova classe social, que não pode ser enquadrada dentro do mundo hermético medieval. Nesta sociedade predominantemente agrícola, o poder e prestígio estavam associados à terra e, logicamente aos seus frutos. Dentro desta perspectiva, um homem tinha pouquíssimas chances de ascender socialmente, dificilmente podia mudar geograficamente de uma cidade ou de um país para outro. Aliás, as cidades medievais definidas por suas muralhas conferiam neste espaço fechado o senso fundamental de se-

O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida.” por intermédio do latim, língua falada por toda a classe culta - língua que se tornou em “instrumento de comunicação culta - e pela leitura dos mesmos poucos livros controlados pelo clero –, que permitia haver um modo de viver semelhante entre 14 Robert G. Clouse; Richard V. Pierard; Edwin M. Yamauchi, Dois Reinos – A Igreja e a Cultura interagindo ao longo dos séculos, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 207.

gurança para os seus habitantes mas, também, proporcionavam uma grande promiscuidade intelectual. Com poucas exceções, os servos deveriam permanecer onde nasciam. Amiúde, até mesmo para não parecer diferente dos outros, os homens não se sentiam livres para usarem as roupas que quisessem ou mesmo, para comer o que gostassem. Revista FÉ PAR A H OJE | 59


b. Tempo de fome e mobilidade social Já no final do Século XIII, torna-se evidente a insatisfação com este estado de coisas, surgindo, de modo mais frequente, movimentos em prol de uma maior liberdade, encontrando o seu apogeu no século XIV. Também, como decorrência destas insatisfações sociais, houve um êxodo rural cada vez mais intenso. Isto ocasionou uma falta de mão de obra rural, gerando um aumento dos salários e, consequentemente, dos custos de produção. Tudo isso foi agravado pela “Fome Europeia de 1315-1317”, quando muitos morreram de fome, e os ciclos da Peste Negra com suas manifestações diferentes (13381339; 1347-1351, 1360-1361, 13701376), que dizimou grande parte da população de toda Europa chegando a matar 30 a 40% da população de determinadas regiões, havendo indícios da taxa de mortandade entre de 10 e 50% da população em diversas cidades, sendo registrado o trágico recorde em Mântua (Itália): 77% (1630). Retornando ao nosso ponto, observamos que nos ideais de maior autonomia houve também exageros, como por exemplo, a revolta campesina na França. A pregação de John Ball (†c. 1381), o “Profeta do povo”, – enfatizando o princípio da igualdade social –, a de John Wycliff (c. 1330-1384) - a “Estrela d’Alva da Reforma” - e John Huss (c. 13691415) contribuíram de forma direta 60 | Revista F É P A R A H O J E

ou indireta, para a revolta dos camponeses da Inglaterra em 1381 e outros movimentos semelhantes. No século XIV, o inglês William Langland (c. 1332-c. 1400), “o poeta dos camponeses livres”, escreveu “Piers the Plowman” (“Pedro, o Lavrador”), que se constitui num documento precioso para a compreensão da história social do seu tempo. Nesses poemas, Langland descreve as condições dos pobres, a corrupção e os abusos do clero, bem como expressa a esperança dos camponeses de melhores condições de vida. A igreja, no entanto, era a mais severa dominadora, se opondo ao movimento cada vez mais forte de libertação dos servos. Todavia, com a diminuição da população, há uma inversão significativa: não adianta possuir terras se não há pessoas para cultivá-las. Logo, o trabalho do homem passou a ser mais valorizado do que antes das catástrofes descritas, resultando no aumento dos salários dos trabalhadores em geral. Estes foram tempos difíceis, como são todos os tempos para aqueles que enfrentam as angústias próprias de sua época, que, por vezes, são minimizadas ou romantizadas por olhares de outros tempos e continentes. O que contribui decisivamente para vencer tais circunstâncias é a nossa fé, a visão de história e, no caso cristão, a certeza do governo de Deus sobre todas as coisas. O tempo passa, por maiores que sejam as alegrias ou angústias.


CONSIDERAÇÕES FINAIS:

TEMPO E ESCATOLOGIA E A VIVÊNCIA DE NOSSA FÉ Gilson (1884-1978) ressaltando a importância de Agostinho, afirma que após ele, “a Idade Média passou a representar a história do mundo como um belo poema, cujo sentido é para nós inteligível e completo, contanto que conheçamos seu início e seu fim”.15 De fato, a perspectiva de Agostinho adquire um tom escatológico: “.... pois nada parece mais rápido do que tudo aquilo que já passou. Quando vier o dia do juízo, então os pecadores perceberão não ser longa a vida que passa”.16

A História revela Deus e seus propósitos (Rm 8.28-30; 13.12; At 1.6,7). Entendemos a escatologia como uma consumação “natural” do plano de Deus na sua historificação temporal. A Escatologia é precedida de uma história realizada; e a história aponta para uma escatologia decisiva. Desta forma, olhando pelo prisma da escatologia, podemos dizer que a história é escatológica, visto que para lá ela caminha de forma progressiva e realizante: A história consumar-se-á na não história, no atemporal e eterno. Por outro lado, a escatologia confere sentido à história; a fé da Igreja respalda-se num fato histórico e nutre-se da esperança que emana da promessa de Deus: “A esperança (...)

A História revela Deus e seus propósitos.” Deste modo, o tempo é o grande sinal de finitude e de mediatez. Assim, Idade Média são todos os tempos já que o tempo sempre será médio entre o antes e o depois ou, entre o tempo anterior e a eternidade, quando o tempo se extinguirá. “Na eternidade não há passado, como se algo ainda não existisse, mas apenas no presente, porque aquilo que é eterno existe sempre”.17 15 Étienne Gilson, O Espírito da Filosofia Medieval, São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 481. 16 Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulinas, 1997, (Patrística, 9/1), Vol. 1, (Sl 13), p. 70. 17 Agostinho, Comentário aos Salmos, Vol. 1, (Sl 2.7), p. 27.

[é] o alimento e força da fé”.18 E, quanto ao tempo, Calvino (1509-1564), que viveu ativamente um período de grande transformação na história medieval, valendo-se com reconhecimento das contribuições de Agostinho, afirmou com propriedade bíblica: “Os tempos estão nas mãos e à disposição de Deus, de modo que devemos crer que tudo é feito na ordem prefixada e no tempo predeterminado”.19 18 J. Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã,Campinas, SP./São Paulo: Luz para o Caminho e Casa Editora Presbiteriana, 1989, Vol. 3, III.2.43. 19 João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, Revista FÉ PAR A H OJE | 61


A escatologia confere sentido à história.” Hoje não é diferente: Deus continua dirigindo a história; Ele é o Senhor da eternidade, do tempo, da história e 1998, (Tt 1.3), p. 303.

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das circunstâncias. Caminhamos para a eternidade de onde procede a nossa criação e a meta de nossa existência. Deus nos guiará em segurança. Descansemos nEle. Amém.


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Revista Fé para Hoje Número 40, Ano 2013