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S ANSÃO

E A

SEDUÇÃO

DA

CULTURA

Fé para Hoje Fé para Hoje é um ministério da Editora FIEL. Como outros projetos da FIEL — as conferências e os livros — este novo passo de fé tem como propósito semear o glorioso Evangelho de Cristo, que é o poder de Deus para a salvação de almas perdidas. O conteúdo desta revista representa uma cuidadosa seleção de artigos, escritos por homens que têm mantido a fé que foi entregue aos santos. Nestas páginas, o leitor receberá encorajamento a fim de pregar fielmente a Palavra da cruz. Ainda que esta mensagem continue sendo loucura para este mundo, as páginas da história comprovam que ela é o poder de Deus para a salvação das ovelhas perdidas — “Minhas ovelhas ouvem a minha voz e me seguem”. Aquele que tem entrado na onda pragmática que procura fazer do evangelho algo desejável aos olhos do mundo, precisa ser lembrado que nem Paulo, nem o próprio Cristo, tentou popularizar a mensagem salvadora. Fé para Hoje é oferecida gratuitamente aos pastores e seminaristas.

Editora Fiel Caixa Postal 1601 12233-300 - São José dos Campos, SP www.editorafiel.com.br

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PRIORIDADES PASTORAIS

PRIORIDADES PASTORAIS Thomas K. Ascol

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m dos maiores desafios que enfrento em minha vida pastoral é manter um equilíbrio adequado em minhas prioridades. Todo pastor precisa desempenhar vários papéis, a fim de permanecer fiel à sua chamada. Ele tem de ser um estudante da Palavra de Deus e um homem de oração; ele tem de liderar sua igreja, trabalhar muito para pregar e ensinar a Palavra, de modo que suas ovelhas estejam continuamente sendo transformadas por ela na imagem de Cristo. O pastor tem de realizar a obra de evangelista e dedicar-se à obra de lidar individualmente com os membros da igreja. Tudo isso e muito mais está incluído na obra de servir a Cristo como um pastor de almas. Todo pastor é mais do que um pastor. Ele é primeiramente (e antes de tudo) um discípulo. Ele também é um esposo e, provavelmente, um pai. Além disso, o pastor pode assumir outros deveres relacionados ao seu ministério. De que maneira todos esses importantes papéis podem ser

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cumpridos, sem que o melhor do pastor seja sacrificado no altar daquilo que é bom? Mesmo nas melhores circunstâncias, esse é um desafio que nos causa temor. Uma das perguntas que sempre faço aos meus aconselhados é esta: “Em ordem de prioridades, para o que Deus chamou você?” Essa é uma pergunta esclarecedora, porque força a pessoa a avaliar sua vida com base naquilo que é mais importante. Ocasionalmente, faço essa pergunta a mim mesmo e descubro que ela me ajuda a lutar por equilíbrio em minha vida.

UM CRENTE Para o que Deus me chamou? Primeiramente, Ele me chamou para ser um sincero e dedicado seguidor de Cristo. Isso é tão elementar, que facilmente podemos esquecê-lo. O profissionalismo é um dos grandes perigos do ministério. Um pastor pode se tornar competente na reali-

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zação do seu trabalho. Assim como todas as demais profissões, certas habilidades podem ser desenvolvidas e aprimoradas no ministério do evangelho. Ele pode se tornar tão proficiente em seu ministério público, que os outros o considerarão bem-sucedido. Mas, quando a mentalidade do “profissionalismo” conquista um pastor, seu coração inevitavelmente começará a ser negligenciado. E o coração é a primeira ferramenta de todo pastor. Se você não está amando a Deus com todo o seu coração, porque tem negligenciado as responsabilidades básicas do discipulado, não importa o quanto você pode se tornar bem-sucedido profissionalmente. Na realidade, isso é uma vergonha. Spurgeon nos fala sobre um pastor que “pregava tão bem e vivia tão mal, que, ao subir ele ao púlpito, todos diziam que ele nunca deveria sair dali; e, quando ele saía do púlpito, todos declaravam que tal pastor nunca mais deveria retornar ao púlpito”. Essa divisão da vida em áreas distintas pode ser aceitável em outras profissões; no entanto, dificilmente ela pode ser harmonizada com o cristianismo vital e, menos ainda, com a fidelidade no ministério pastoral. Muitos homens bons têm tropeçado nesse primeiro nível da vida pastoral. Portanto, guarde o seu próprio coração. Leia a Palavra de Deus, antes e acima de tudo, como um crente. Um pastor precisa das mesmas coisas que ele declara que os outros necessitam. Ele deve seguir a sabedoria de Robert Murray M’Cheyne, o qual afirmou: “Deus abençoa muito mais a semelhança com Jesus do

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que os grandes talentos. Um pastor que vive em santidade é uma arma poderosa nas mãos de Deus”. O apóstolo Paulo advertiu aos presbíteros de Éfeso: “Atendei por vós”. Quando ele repetiu essa advertência a Timóteo, acrescentou que fazer isso é um ingrediente essencial para salvar “tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1 Tm 4.16). Os pastores têm de transformar em um assunto de prioridade e disciplina o ler, o meditar e o memorizar as Escrituras. Eles precisam também orar pela obra do Espírito Santo em suas próprias vidas. Qualquer outro procedimento pastoral, que corresponda a menos do que isso, será uma prática espiritual incorreta.

UM ESPOSO Depois de ser um crente, Deus me chamou para ser um esposo. Assim como muitos outros pastores, desfruto da bênção de ter uma esposa crente e leal. Minha esposa, Donna, e eu entendemos com muita seriedade nossos votos de casamento; isso significa que eu tenho de colocá-la e preservá-la acima de todas as demais pessoas. Depois do Senhor Jesus, ela é a minha maior prioridade. Ser um esposo é uma responsabilidade extraordinária. Jesus Cristo, em seu relacionamento com a igreja, tem de ser nosso modelo. Ser o cabeça de um lar é um grande desafio. Uma esposa piedosa tanto deseja quanto necessita da liderança piedosa de seu esposo. A chamada para ser um bom esposo inclui providenciar tal liderança. Cristo chama um homem para lutar contra os erros mor-

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tais da passividade autoprotetora e do autoritarismo autopreservador na maneira como ele se relaciona com sua esposa. A esposa do pastor pode ter o papel mais difícil a desempenhar em toda a igreja. Ela vê todos os erros e falhas de seu marido e, apesar disso, a cada semana, ela tem de receber, por intermédio dele, instrução da parte de Deus. A esposa do pastor vive em uma vitrine. Expectativas irreais dos crentes podem freqüentemente trazer estresse à vida da esposa do pastor. Comentários irrefletidos, que podem ou não ter o propósito de magoar, podem ferir profundamente a esposa do pastor. Se, além dessas e de outras pressões, ela sentir que seu esposo está negligenciando-a, o fardo pode se tornar muito pesado para ser suportado. O pastor, na função de esposo, tem a responsabilidade e o privilégio de assegurar à sua esposa que ela é mais importante do que qualquer outro dos seus relacionamentos ou das suas responsabilidades. O pastor é chamado para fortalecer, estimular e ajudar sua esposa a cumprir sua vocação como uma mulher de Deus. Minha esposa, Donna, precisa saber que ela é mais importante do que meu ministério como pastor. Quando esta mensagem é clara e regularmente transmitida, aqueles períodos inevitáveis de elevadas exigências da parte da igreja são mais facilmente atravessados.

UM PAI Em terceiro lugar, Deus nos chamou para ser pais. Donna e eu

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temos seis filhos. Portanto, adquiri muita experiência na prática da paternidade. Se as esposas dos pastores estão constantemente sendo observadas, muito mais os filhos deles se tornam passíveis de críticas. Com freqüência, eles são sacrificados “por amor ao ministério”. Quando eu era um jovem pastor, lembro-me de estar sentado em meu escritório, enquanto ouvia um pastor aposentado cujo ministério bem-sucedido era aclamado por todos. Ele me falou sobre muitas coisas maravilhosas que havia experimentado nas igrejas em que servira ao Senhor. Finalmente, ele acrescentou: “Eu paguei um preço elevado por meu ministério. Meus filhos não aprenderam o que deveriam ter aprendido de seu pai, e hoje eles abandonaram o Senhor e a igreja”. Enquanto ele chorava, eu pensava em suas palavras. Naquela época, meu único filho era simplesmente uma criança que estava aprendendo a andar. A atração de necessidades que nunca se acabam e de oportunidades para ministrar estava me tentando a negligenciar minha família por amor ao “meu ministério”. Deus, porém, me fez lembrar que, em termos de prioridade, Ele me chama para ser um pai, antes de me chamar para ser um pastor. Meus filhos precisam saber que, juntamente com minha esposa, eles são as pessoas mais importantes de minha vida. Minha igreja também precisa saber disso. Um pastor pode negligenciar seus filhos facilmente, ainda que sem intenção e motivado por um conceito errôneo de que ele tem de estar

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sempre pronto para ministrar a outras pessoas. Mesmo nos melhores momentos, haverá algumas separações na vida familiar de um pastor. A sua chamada envolve as 24 horas diárias. Se acontecer a morte ou um acidente trágico com um dos membros da igreja, antes do pastor sair para levar seu filho a uma pescaria, seus planos têm de ser necessariamente mudados. Ele deve estar pronto para esperar tais exigências. Por causa disso, todo pastor sempre enfrentará duas tentações. A primeira tentação é a de esperar que seus filhos simplesmente entendam as mudanças dos planos, da mesma maneira como seu pai a entende. Um pastor sabe que, às vezes, é necessário interromper certos planos, a fim de ministrar o evangelho a pessoas entristecidas. No entanto, dependendo da idade, tudo o que seu filho pode saber é que ele não precisava deixar de pescar, porque outra pessoa necessitava e recebeu o tempo e a atenção de seu pai. Quando surgirem tais ocasiões, o pastor precisa conversar com seu filho, mostrando-lhe simpatia e procurando compensá-lo de maneira intencional e razoável. A outra tentação é a de tornarse tão dominado pelo sentimento de culpa, por ter mudado seus planos, que o pastor chega a permitir que seu filho o manipule, levando a ações e decisões que, de outro modo, ele não seguiria propositadamente. Exercer a paternidade motivado por sentimento de culpa se tornou muito comum em nossa cultura, e infelizmente os pastores não estão imunes a isso. Os pastores têm de separar, em sua agenda, tempo para os filhos e cumpri-lo

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rigorosamente. Quando os planos que afetam nossos filhos tiverem de ser mudados, por causa de emergências do pastorado, precisamos ser diligentes em compensá-los.

UM PASTOR Deus me chamou também para ser um pastor. Esta é a minha chamada vocacional e ocupa a maior parte do meu tempo. Constantemente, eu me admiro do fato de que Deus me deu o privilégio de servi-Lo desta maneira. O ministério pastoral é a chamada vocacional mais sublime do mundo. Minhas responsabilidades pastorais têm precedência sobre quaisquer atividades que envolvam recreação ou não façam parte do ministério. Tudo o que está envolvido no pastorear o rebanho de Deus (e a Bíblia o descreve de maneira bastante compreensiva) constitui o meu dever. Neste ministério, a minha tarefa mais importante é trabalhar fielmente na pregação da Palavra e na oração. Todavia, essas duas atividades não devem ser realizadas simplesmente em um nível de profissionalismo. Pelo contrário, elas devem ser praticadas em meio à minha busca por santidade. Existe uma solidão inevitável que acompanha o pastorado. A maior parte do trabalho no ministério pastoral pode ser feita somente quando um homem está sozinho com seu Deus. Sem esse tempo de intimidade com Deus, o tempo gasto com as pessoas não terá muito valor. Em nossos dias, existem milhares de “recursos” disponíveis aos pastores, para capacitá-los a deixar de lado a árdua

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tarefa de estudar as Escrituras e orar. Sermões “poderosos” e programas “garantidos” são constantemente oferecidos aos pastores com intrépida fanfarrice. Um homem com um pouco de esperteza, com pouca integridade e muitos recursos financeiros pode se manter bem suprido com uma fonte inesgotável de tais recursos. Mas ele nega a sua chamada por viver à custa do trabalho de outros, ao invés de fazer a obra de seu próprio ministério.

UM AUXILIADOR Além dessas quatro chamadas, em minha vida, também estou envolvido em ajudar com outros esforços proveitosos. Meu trabalho no Founders Ministries (editando a revista Founders Journal, publicando livros, etc.) e meu envolvimento na associação de pastores de minha cidade são importantes. Mas, em termos de prioridade, todas essas coisas ficam em um nível inferior às quatro coisas que já mencionei. Guardando isso em meu coração, posso poupar-me de muitas dores e confusão.

MANTENDO O EQUILÍBRIO Como essas prioridades funcionam? Bem, aqueles que nos conhecem sabem que não praticamos sempre aquilo que escrevemos. Embora meu desejo e intenção sejam nunca me desviar dessas prioridades, muitas vezes já tive de corrigir minhas atitudes no transcorrer dos anos. Entretanto, esse é o valor de ter as prioridades definidas com clareza. Elas nos fornecem um mapa confiável para

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fazermos os devidos ajustes. Cada prioridade se fundamenta sobre a que a precede. Quero ser fiel em meu trabalho no Founders Ministries. Mas eu não o poderei ser, se realizar aquele ministério à custa de minhas responsabilidades pastorais na Igreja Batista da Graça. Além disso, eu posso ser um pastor fiel sem estar envolvido em outros ministérios. No entanto, não posso ser um ministro fiel, se negligenciar as prioridades de minha esposa e meus filhos. Na verdade, de acordo com 1 Timóteo 3.4-5, estou desqualificado para o ministério, se tal negligência qualificar minha vida. Também não poderei ser um pai fiel, se falho em relação à minha esposa. Pelo contrário, uma das melhores coisas que posso fazer por meus filhos é amar a mãe deles. E não posso ser um esposo fiel, se negligenciar meu relacionamento com Cristo. Todas as prioridades de minha vida podem funcionar com importância apropriada, à medida que eu me mantenho no lugar certo. Mas, quando uma prioridade inferior toma o lugar de uma mais importante, estou me predispondo a uma queda. É espiritualmente desastroso colocar a minha esposa acima do Senhor; ou meus filhos acima de minha esposa; ou meus deveres pastorais acima de qualquer dos outros três. Não é menosprezível para a igreja que, em minhas prioridades, o lugar dela vem depois de minha dedicação a Cristo e à minha família. Pelo contrário, a igreja recebe mais do que ela necessita de mim, quando eu ministro motivado por um compromisso cons-

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ciente com essas prioridades. Recordando freqüentemente essas prioridades de minha vida, serei mais capaz de estabelecer e manter um equilíbrio em minhas obrigações. Talvez a atitude de disciplina que facilita este equilíbrio é aprender a dizer não. Spurgeon declarou que, para um pastor, aprender a dizer não é muito mais importante do que aprender o latim! Não importa quantas coisas o pastor tente fazer, sempre

haverá mais a ser feito. Algumas coisas boas que tentam exigir a atenção do pastor têm de ser deixadas sem fazer, de modo que ele possa fazer aquilo que é melhor e mais excelente. Quando o pastor tem de fazer estas escolhas difíceis, deve fazê-lo baseado nas prioridades do seu chamado. Então, ele pode descansar seu coração sabendo que agiu com fé, fundamentado nas exigências que Deus tem feito para a sua vida.

UM COMPROMISSO

COM A

FAMÍLIA

A sociedade moderna lançou um ataque sem prece-

dentes contra a família. A maioria das questões controvertidas nos noticiários da atualidade – tais como homossexualismo, aborto, feminismo, divórcio, gangues de jovens, etc. – são ataques diretos à família. Os mais fortes laços de lealdade não se encontram mais na família. Poucas famílias funcionam como uma unidade. Essa fragmentação da família acabou por minar a moralidade e a estabilidade em toda a sociedade. A igreja não pode tolerar ou se acomodar a essa devastação. Ela precisa confrontar, corrigir e treinar suas famílias. Famílias fortes são a espinha dorsal da igreja. E famílias fortes produzem indivíduos fortes. Pagaremos um alto preço se não fizermos da família uma prioridade. Isto significa que temos de ajudar nosso povo a desenvolver relacionamentos conjugais sólidos e famílias consistentes, ensinando os maridos a amarem e liderarem suas esposas (Ef 5.25), as esposas a se submeterem a seus maridos (Ef 5.22), os filhos a obedecerem seus pais (Ef 6.1), e os pais a não irritarem seus filhos, e sim a criá-los no Senhor (Ef 6.4). John F. MacArthur

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PUREZA PASTORAL

PUREZA PASTORAL Conrad Mbewe

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odos conhecem bem o fato de que o futuro ministério pastoral e a pregação de alguém depende da maneira como ele mesmo se desenvolve nos anos posteriores. Isso explica a advertência de Paulo a Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1 Tm 4.16). Esse cuidado deveria durar por toda a vida; deveria assegurar um desenvolvimento adequado, ao invés de um desenvolvimento corrompido; deveria envolver todos os aspectos da vida, isto é, a vida espiritual, física, emocional, intelectual e doméstica. Um pregador não é um espírito destituído de seu corpo. Uma vez que o pregador seja afetado em suas faculdades físicas, todo o seu ser, inclusive o seu espírito, será também afetado. Portanto, é responsabilidade de todo pastor assegurar-se de que toda a sua humanidade redimida está

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passando por um desenvolvimento positivo que envolve toda a sua vida. No entanto, afeições descontroladas, ou seja, um coração deturpado é um dos maiores inimigos desse desenvolvimento completo. Se um pastor deseja exercer um ministério eficiente e próspero, ele terá de lidar regularmente com o assunto de sua própria santificação. Ele tem de seguir a pureza pastoral, em uma medida sempre crescente. Essa é a razão por que este assunto é tão vital. Temos de abordá-lo volvendo nossa atenção à incumbência que o apóstolo Paulo deu a Timóteo: “Exorto-te, perante Deus, que preserva a vida de todas as coisas, e perante Cristo Jesus, que diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão, que guardes o mandato imaculado, irrepreensível, até à manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo; a qual, em suas épocas determinadas, há de ser revelada pelo bendito e único Soberano,

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o Rei dos reis e Senhor dos Senhores; o único que possui a imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!” (1 Tm 6.13-16) Nossa primeira tarefa consiste em determinar o mandato que Timóteo foi encarregado de guardar “imaculado, irrepreensível, até à manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo”. Uma das normas elementares da interpretação bíblica deveria ser suficiente para nos ajudar nisso, ou seja, a norma do contexto. No contexto desses versículos, a preocupação do apóstolo Paulo se concentrava no fato de que Timóteo, como homem de Deus, tinha de ser notavelmente diferente dos outros por meio de uma piedade caracterizada por contentamento. Enquanto outras pessoas diligenciavam por obter ganhos financeiros, tendo-o como um objetivo de vida (1 Tm 6.9-10), Timóteo deveria seguir a piedade com um coração sincero (1 Tm 6.11-12). Paulo deixou claro que isso não era um aviso opcional, que Timóteo poderia aceitar ou rejeitar, e sim uma ordem que ele deveria obedecer até ao fim. Fazia parte de seus deveres como “homem de Deus”. Por conseguinte, o mandato é que Timóteo deveria seguir a piedade com um coração sincero. Embora os pastores do Novo Testamento não sejam sacerdotes de maneira tão exclusiva como os sacerdotes do Antigo Testamento, o papel deles na igreja lhes outorga responsabilidades igualmente privilegiadas. Por exemplo, os sacerdotes do Antigo Testamento tinham o encargo do

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templo, a fim de assegurarem que os padrões bíblicos fossem mantidos na adoração divina. Essa foi a razão por que, no livro de Malaquias, Deus pôs sobre os sacerdotes a culpa pelo declínio da espiritualidade. Essa era também uma responsabilidade dos pastores do Novo Testamento e a razão por que 1 Timóteo foi escrita por Paulo ao seu filho na fé. Paulo disse: “Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (1 Tm 3.14-15). É responsabilidade dos pastores garantir que a adoração esteja sendo realizada de uma maneira que honre a Deus. Por que estou estabelecendo esse paralelo? Simplesmente porque, assim como os sacerdotes do Antigo Testamento eram chamados à santidade, isso também é verdade no que se refere aos pastores do Novo Testamento. No Antigo Testamento, os sacerdotes vestiam uma coroa sagrada feita de ouro puro, e nela havia uma inscrição que dizia: “Santidade ao SENHOR” (ver Êx 39.30). Além disso, Deus se mostrava tão preocupado com a santidade, que não permitiu aos levitas que caíram na idolatria voltarem a servi-Lo, conforme faziam antes de servirem os ídolos. Através de Ezequiel, Deus afirmou: “Os levitas, porém, que se apartaram para longe de mim, quando Israel andava errado, que andavam transviados, desviados de mim, para irem atrás dos seus ídolos, bem levarão sobre si a sua iniqüidade. Contudo, eles servirão no meu santuário como

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guardas nas portas do templo e mi- do que as outras pessoas, eram connistros dele; eles imolarão o holo- vidados ao mais íntimo contato poscausto e o sacrifício para o povo e sível com o Deus de Israel. estarão perante este para lhe servir. Com certeza, se Deus era tão Porque lhe ministraram diante dos zeloso a respeito da santidade nos seus ídolos e serviram à casa de Israel dias em que, em sua maior parte, a de tropeço de maldade; por isso, le- adoração consistia de símbolos, e não vantando a mão, das próprias rejurei a respeito alidades, ele g deles, diz o SEtem de ser ainÉ responsabilidade NHOR Deus, que da mais zeloso eles levarão soa respeito da dos pastores garantir bre si a sua inisantidade em que a adoração esteja qüidade. Não se nossos dias. sendo realizada de chegarão a mim, Portanto, os para me servipastores têm de uma maneira que rem no sacerdóser homens de honre a Deus. cio, nem se chepiedade pessoal garão a nenhuelevada. Em 1 g ma de todas as Timóteo 4.7, minhas coisas sagradas, que são san- Paulo exortou um jovem pastor a tíssimas, mas levarão sobre si a sua exercitar-se na piedade. De maneira vergonha e as suas abominações que semelhante, em 2 Timóteo 2.20-22, cometeram. Contudo, eu os encarre- ele disse: “Numa grande casa não garei da guarda do templo, e de todo há somente utensílios de ouro e de o serviço, e de tudo o que se fizer prata; há também de madeira e de nele. Mas os sacerdotes levitas, os barro. Alguns, para honra; outros, filhos de Zadoque, que cumpriram as porém, para desonra. Assim, pois, prescrições do meu santuário, quan- se alguém a si mesmo se purificar do os filhos de Israel se extraviaram destes erros, será utensílio para honde mim, eles se chegarão a mim, para ra, santificado e útil ao seu possuime servirem, e estarão diante de dor, estando preparado para toda mim, para me oferecerem a gordura boa obra. Foge, outrossim, das paie o sangue, diz o SENHOR Deus. Eles xões da mocidade. Segue a justiça, entrarão no meu santuário, e se che- a fé, o amor e a paz com os que, de garão à minha mesa, para me servi- coração puro, invocam o Senhor”. rem, e cumprirão as minhas prescri- Qualquer pessoa que lê essas palações” (Ez 44.10-16). Os sacerdotes vras logo perceberá que o ofício do também eram chamados à inteireza pastor é principalmente uma chamade saúde; o que é simbolizado pelo da à santidade. Isso não acontece fato de que seriam excluídos do ser- apenas para ser aceito diante de viço no altar se tivessem qualquer de- Deus, mas também porque o minisfeito físico (Lv 21.17). Tudo isso era tério pastoral possui tal natureza, ou necessário porque os sacerdotes, mais seja, nosso poder espiritual está vin-

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culado ao nosso andar com Deus. Atanásio disse com muita exatidão: “Você não pode corrigir nos outros aquilo que em você mesmo se encontra errado”. Falar com um tom de urgência e de unção que não pode ser falsificado exige que cultivemos continuamente a nossa vida interior.

A NECESSIDADE DE GUARDAR O CORAÇÃO A primeira responsabilidade no seguir com diligência a piedade é guardar o nosso coração. O homem sábio falou muito bem, quando disse: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23). O coração do pastor é o âmago do seu ministério. Estejam certos disto: “A boca fala do que está cheio o coração”. Manter puros os olhos, o coração, o espírito e a consciência é o futuro do ministério de um servo de Cristo. Portanto, acautelem-se dos pecados do coração — orgulho, inveja, ciúme, cobiça, ira, lascívia e preguiça. Não nos admiremos de que a História os tenha apelidado de “os sete pecados mortais”! Muito tempo antes de uma pessoa arruinar de maneira visível a sua vida, ela permitiu que seu coração se tornasse uma habitação para o pecado. Novamente, dizemos: “Guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Essa é a grande batalha que você estará sempre enfrentando em sua vida e seu ministério. Todos nós podemos fugir do adultério e do roubo. Mas quantos ministros do evangelho têm reduzido os seus ministérios a

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espetáculos egocêntricos que não têm absolutamente nada relacionado com a glória de Deus? Quantos homens com ministérios antes poderosos foram destruídos, porque invejaram os ministérios de outros? Quantos pastores bons foram levados, pela inveja, a praticar aquilo que os chineses chamam de “matar uma mosca na testa de um amigo utilizando uma machadinha”? E o que podemos dizer a respeito daqueles olhos que não conseguem olhar uma pessoa do sexo oposto, sem pensar na cama? Quantos pastores estão agora trabalhando fora da vontade de Deus, porque almejaram um ministério mais lucrativo? A lista é interminável. Irmãos, esses são os pecados que matam a espiritualidade e o poder de nosso ministério, antes mesmo de quaisquer pecados se tornarem visíveis ao nosso povo. Não há dúvida de que, para manter seu ministério vivo e estimulado, ano após ano, você tem de treinar a si mesmo em uma vida de piedade.

ALCANÇANDO E MANTENDO A DEVOÇÃO

Uma pergunta importante precisa ser feita: como podemos seguir essa devoção sincera? Devemos nos lembrar que a verdadeira piedade nunca resulta simplesmente da resolução. Também precisa haver ação. Ora, enquanto os meios públicos da graça (tais como os cultos na igreja) podem trazer muitos benefícios para os outros crentes, os pastores têm de depender muito mais dos meios particulares da graça. Isso acontece porque, com freqüência, nós, os pasto-

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res, ficamos tão preocupados com os to. A razão por que muitos de nós detalhes dos cultos em nossas igre- falhamos em manter exercícios parjas, que perdemos de vista o benefí- ticulares disciplinados, para a nossa cio da exortação: “Aquietai-vos e alma, não é o ignorarmos sua imporsabei que eu sou Deus”. Por conse- tância, e sim a falta de perseverarguinte, para nós, a devoção sincera mos neles. Qualquer pessoa pode parterá de ser o fruto de uma alma que ticipar de uma corrida de cem mese retira para tros, porque g leitura bíblié uma disca, oração, Com certeza, se Deus era tão tância curta; meditação e o que zeloso a respeito da santidade tudo utiliza outros precisa é dar nos dias em que, em sua maior o melhor de meios particulares da parte, a adoração consistia de si e, antes graça. Semque perceba, símbolos, e não das próprias pre racionalijá alcançou a realidades, ele tem de ser ainda faixa de chezamos nossa ausência nesgada. A mamais zeloso a respeito da ses exercícios ratona, posantidade em nossos dias. que purifirém, é bem cam a alma, diferente. g utilizando Ela exige nossos deveres como desculpas. E, perseverança porque o percurso é com certeza, às vezes isso será inevi- muito longo. É na perseverança que tável. Mas, quando isso estiver acon- se encontra a dificuldade no ministétecendo semana após semana, você rio pastoral. Muitos pastores comeestará em declínio, matando a vida çam bem, mas falham no meio do interior de seu ministério. Deus nun- caminho, porque o percurso é lonca tencionou que fosse assim. Se o go. Essa era a preocupação de Paulo seu lugar de intimidade com Deus em relação a Timóteo. Ele desejava tem estado vazio por algum tempo, que Timóteo persistisse, continuasentão, retorne o mais rápido possível se, permanecesse na fé e na conduta aos seus exercícios devocionais! É no cristã. Por isso, Paulo lhe disse: lugar de oração secreta que as verda- “Combate o bom combate da fé. des do homem de Deus se entretecem Toma posse da vida eterna, para a nas fibras de seu próprio ser. Ali, os qual foste chamado e de que fizeste a assuntos concernentes à graça divina boa confissão perante muitas testemusão mantidos em frescor. É para a nhas. Exorto-te, perante Deus, que sua própria ruína que você abandona preserva a vida de todas as coisas, e o lugar secreto de oração. perante Cristo Jesus, que, diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão, que guardes o mandato imaculado, OS INIMIGOS DA DEVOÇÃO irrepreensível, até à manifestação de Sejamos honestos neste assun- nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tm

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6.12-14). Não basta dar alguns bons golpes no início do combate; você tem de permanecer na luta até ao fim. O mandato tem de ser guardado sem mácula e isento de coisas dignas de repreensão, “até à manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo”. Em outras palavras, até ao fim! No ministério pastoral, a tendência peculiar é a de nos tornarmos cansados e fatigados da devoção particular e dos padrões para a piedade pessoal, no meio do percurso. Pouco a pouco, começamos a andar por lugares que os anjos temem pisar. Você está mantendo a aparência exterior de seu ministério, mas há muito tempo perdeu, em seu íntimo, o poder e o amor que você tinha no início. Irmãos, isso não deve acontecer! Excluindo a fadiga causada pela luta contra a carne (ou seja, a natureza caída que ainda habita em nós), outra fonte de fadiga é a má influência daqueles para os quais olhamos na obra de Deus. Por isso, se você tem de seguir uma devoção sincera a Deus, no ministério, acautele-se das companhias que mantém em sua vida ministerial. A advertência do apóstolo Paulo se aplica tanto aos membros quanto aos líderes da igreja: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes”. O conselho de Paulo a Timóteo a respeito desta questão é vital — “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, de-

sobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo a forma de piedade, negandolhe, entretanto, o poder. Foge também destes” (2 Tm 3.1-5). No ministério pastoral, existem homens que se enquadram nessas descrições. Sempre que estamos na companhia deles, nos retiramos com o sentimento de frieza na alma, por causa da conversa e do comportamento deles. Fuja de tais homens. Faça isso, antes que o câncer deles afete você e se espalhe amplamente em sua alma!

CONCLUSÃO Muitos pastores têm permanecido pouco tempo no ministério, porque não colocaram a devida ênfase neste dever pessoal. Guarde o seu coração, porque ele é a fonte da vida. O apóstolo Paulo certamente percebeu a seriedade dessa advertência, pois a transformou em um mandato a ser cumprido “perante Deus, que preserva a vida de todas as coisas, e perante Cristo Jesus”. Todos nós devemos utilizar os meios disponíveis para realizar este mandato. Falhar em cumpri-lo equivale a falhar em todos os outros aspectos do ministério. Que Deus nos conceda graça para combatermos vitoriosamente o bom combate, desde agora até o dia de nossa morte. Amém!

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O MUNDO PASSA Horatius Bonar

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s coisas que vemos são temporais. O nosso mundo está perecendo, e não temos aqui qualquer morada permanente. Em poucos anos (e talvez sejam muito poucos), todas as coisas deste mundo serão mudadas. Em poucos anos (e talvez sejam muito poucos), o Senhor retornará, a última trombeta ressoará, e a grande sentença será pronunciada sobre cada um dos filhos dos homens. Existe um mundo que não passa. É sobremodo glorioso; chama-se a “herança dos santos na luz”. Ela resplandece com o amor de Deus e com o gozo dos céus. “O Cordeiro é a sua lâmpada.” Suas portas são constituídas de pérolas e estão sempre abertas. E, à medida que contamos aos homens sobre esta maravilhosa cidade, nós os convidamos a entrarem nela. O livro de Apocalipse nos fala sobre a história das vaidades da terra: “Então, um anjo forte levantou uma pedra como grande pedra de

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moinho e arrojou-a para dentro do mar, dizendo: Assim, com ímpeto, será arrojada Babilônia, a grande cidade, e nunca jamais será achada. E a voz de harpistas, de músicos, de tocadores de flautas e de clarins jamais em ti se ouvirá, nem artífice algum de qualquer arte jamais em ti se acharᔠ(Ap 18.21,22). Esse é o dia que está por vir sobre o mundo, e essa é a condenação que paira sobre a terra — uma condenação prevista nos desastres financeiros, que com freqüência produzem tristezas em muitos corações e desolação em muitos lares. Sabemos a respeito de um ministro do evangelho que faleceu há mais de duzentos anos. Ele viveu até quase aos oitenta anos. Viajou diversas vezes da América para a Inglaterra e vice-versa. Esse ministro faleceu em Boston, cheio de amor e de fé. Na noite anterior à sua morte, enquanto se encontrava silencioso na cama, sua filha lhe perguntou como ele estava.

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Ele levantou as suas mãos e, com seus lábios moribundos, disse: “Coisas que perecem, coisas que perecem!” Ele repetiu estas solenes palavras e, referindo-se ao mundo com todas as suas vaidades, nas quais os homens põem seus corações, afirmou: “Coisas que perecem!” “O mundo passa” — esta é a nossa mensagem. Assim como o sonho de uma noite. Deitamos na cama, para repousar, adormecemos e sonhamos. Acordamos pela manhã. E, vejam, desaparece tudo que em nosso sonho parecia tão agradável e tão permanente! Assim também o mundo passa rapidamente. Ó filho da mortalidade, você não tem um mundo mais glorioso do que este? Assim como a névoa da manhã. A noite traz a névoa sobre os montes; o vapor cobre os vales; o sol aparece, e tudo se vai — os vales e os montes estão visíveis novamente. Assim também o mundo passa, e não pode ser mais visto. Ó homem, você abraçará um mundo como este? Você se deitará sobre uma névoa e dirá: “Este é o meu lar”? Assim como uma sombra. Não existe nada mais irreal do que uma sombra. Ela não possui substância, essência. Ela é escura, é uma figura, possui mobilidade — isto é tudo! Assim também é o mundo. Ó homem, você correrá ansiosamente atrás de uma sombra? O que uma sombra pode fazer por você? Assim como uma onda do mar. Ela se levanta, cai e nunca mais aparece. Essa é a história de uma onda. Essa é a história do mundo. Ó ho-

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mem, você fará de uma onda o seu quinhão? Você não possui um travesseiro melhor do que esse, onde possa deitar a sua cabeça fatigada? Esse é um mundo infeliz para o coração do homem amar, para uma alma imortal com ele se encher! Assim como o arco-íris. O sol reflete as suas cores através de uma nuvem, e, por alguns minutos, tudo é lindíssimo. Mas, a nuvem se retira, e toda a beleza desaparece. Assim é o mundo. Com toda a sua beleza e sua glória; com todas as suas honras e seus prazeres; com toda a sua alegria e sua loucura; com toda a sua pompa e sua luxúria; com todas as suas orgias e suas desordens; com todas as suas esperanças e suas bajulações; com todo o seu amor e seus sorrisos; com todas as suas canções e seu esplendor; com todas as suas jóias e seu ouro, o mundo passa. E a nuvem que refletia o arco-íris não o reflete mais, de maneira alguma. Ó homem, é um mundo que passa como este que você tem por sua herança? Assim como uma flor. Bonitas, muito bonitas; cheirosas, muito cheirosas são as flores de verão. Mas elas murcham. Assim também desaparece o mundo de diante dos nossos olhos. Enquanto estamos contemplando-o e admirando-o, ele desaparece! Nenhum resquício permanece de todo o encanto; resta apenas um pequeno grão de poeira! Ó homem, você pode nutrir-se de flores? Você pode estar morrendo de amores por aquilo que dura apenas por uma hora? Você foi criado para a eternidade; somente as coisas eternas podem ser a sua herança ou o seu lugar de descanso. As coisas que desaparecem com o seu uso

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tão-somente zombam de suas aspirações e não podem satisfazê-lo; e, ainda que pudessem fazer isso, elas não permanecem. A mortalidade caracteriza tudo neste mundo; a imortalidade é inerente às coisas do mundo por vir — os novos céus e a nova terra, nos quais habita a justiça. Assim como um barco. Com todas as suas velas levantadas, e a brisa refrescante soprando, o barco se aproxima e se coloca ao alcance de nossos olhos, passa diante deles e, em seguida, desaparece. Assim também surge, passa e desaparece este mundo e tudo o que ele contém. Permanece somente algumas horas diante de nossos olhos; depois, vai embora! O imenso oceano sobre o qual o barco navegou com tanta calma ou com tantas intempéries, não deixa nenhum resquício de toda a vida, ou movimento, ou beleza que passavam sobre ele! Ó homem, este mundo que desaparece é o seu único lugar de habitação? Todos os seus tesouros, suas esperanças, suas alegrias se encontram neste mundo? Onde estarão essas coisas quando você descer à sepultura? Ou onde estará você quando essas coisas forem deixadas aqui e você não entrar no gozo de toda a herança que poderia ter durante toda a eternidade? Por melhor que seja, esta é uma herança infeliz, e a sua curta duração torna-a ainda mais infeliz. Ó homem, escolha a melhor parte, que não lhe será tirada! Assim como uma tenda no deserto! Aqueles que já viajaram pelas terras da Arábia sabem o que isto significa. No pôr-do-sol, uma pequena mancha branca parece surgir da terra árida. É a tenda de um viajante.

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Quando a manhã desponta, a tenda desaparece. A tenda e o seu habitante vão embora. O deserto continua tão solitário quanto antes. Assim é o mundo. Hoje ele se mostra; amanhã, ele desaparece. Ó homem, nascido de mulher, este é o seu lugar de permanência e o seu lar? Você dirá a respeito dele: “Este é o meu descanso”, quando lhe falamos que existe um descanso, um descanso eterno, para o povo de Deus? O MUNDO PASSA — esta é uma mensagem do céu. Toda a carne é erva; e toda a bondade, como a flor da erva. O MUNDO PASSA. Mas Deus vive para sempre. Ele existe de eternidade a eternidade. Ele é o Rei eterno e imortal. O MUNDO PASSA. Mas o homem é imortal. A eternidade se encontra diante de cada filho de Adão durante todos os dias de sua vida. O homem estará na luz ou nas trevas para sempre! Em gozo ou em tristeza para sempre! O MUNDO PASSA. E depois? Esta é uma pergunta que deve causar profundo interesse no homem. Se o mundo tem de passar, e o homem, viver para sempre, é muito importante que saibamos onde estaremos e o que seremos para sempre! Um médico famoso, procurando consolar um paciente desanimado, disse-lhe: “Trate a vida como um jogo”. Este foi um conselho ímpio, pois a vida não é um jogo, assim como o tempo não é um brinquedo de criança, para ser jogado fora. A vida neste mundo é o começo da vida que não termina; e o tempo é a porta da eternidade.

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E depois? Ó homem, você tem de assegurar-se de que possui um lar naquele mundo para o qual em breve você irá. Você não deve sair de sua tenda sem ter certeza da habitação na cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus. Quando você tiver feito isso, poderá descansar em paz no seu leito de morte. Até que você tenha feito isso, não poderá viver nem morrer em paz. Uma pessoa que teve uma vida mundana finalmente terá de morrer e, quando ele tiver que deixar este mundo, pronunciará estas palavras terríveis: “Estou morrendo, e não sei para onde estou indo”. Outra pessoa, em circunstância semelhante, clama: “Estou a apenas uma hora da eternidade, e tudo é trevas”. Ó homem, é tempo de acordar! “Como eu posso ter certeza?” — você pergunta. Há muito tempo Deus respondeu esta pergunta. E sua resposta está gravada para todas as épocas — “Crê no Senhor Jesus e serás salvo”. “Crê no Senhor Jesus! Eu sempre fiz isto” — você afirma. Se isto fosse realmente verdade, então, assim como o Senhor Jesus vive, assim também você seria um homem salvo. Mas a sua afirmação é realmente verdadeira? A sua vida tem sido a de uma pessoa salva? É certo que não. Tem sido uma vida completamente dedicada ao efêmero. Portanto, assim como o Senhor Deus de Israel vive, e assim como vive a sua alma, você ainda não creu e não está salvo. “Eu não tenho de fazer qualquer obra neste grande assunto de receber meu perdão?” Nenhuma. Que

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obra você pode realizar? Que obra excelente é capaz de conseguir o perdão e tornar você pronto para receber o favor divino? Que obra Deus ordenou que você realize, a fim de obter a salvação? Nenhuma. A Palavra de Deus é muitíssimo clara e fácil de ser entendida: “Ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rm 4.5). Existe apenas uma obra por meio da qual um homem pode ser salvo. Essa obra não é uma realização humana, e sim a obra do Filho de Deus. É uma obra completa — da qual nada pode ser retirado ou acrescentado —, apresentada por Ele mesmo a você, a fim de que você possa beneficiar-se dela e ser salvo. “Posso me beneficiar dessa obra tal como eu sou?” Sim. Deus a colocou diante de você. E recebê-la para si mesmo, como único fundamento de sua esperança eterna, é a única maneira de você honrá-la. Nós honramos ao Pai quando concordamos em ser salvos por intermédio da obra completa realizada por seu Filho. E honramos o Filho quando concordamos em apropriar-nos de sua obra completa no lugar de nossas próprias obras. E honramos o Espírito Santo, cujo ofício consiste em glorificar a Cristo, quando ouvimos o que Ele nos diz sobre aquela obra consumada “de uma vez por todas” na cruz. O perdão vem por meio de Jesus Cristo, homem, que é Filho de Deus e Filho do Homem! Essa é a nossa mensagem. O perdão por meio da única obra que remove os pecados, a qual o Senhor Jesus realizou em favor dos pecadores, na terra. O

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perdão para os piores, os mais ímpios e os mais distantes do Pai que se encontram neste mundo. O perdão do tipo mais amplo, mais profundo e mais completo; sem qualquer limite, exceção, possibilidade ou condição de ser revogado! O perdão gratuito e imerecido — tão gratuito quanto o amor de Deus, quanto o dom de seu Filho amado. O perdão espontâneo e irrestrito — oferecido com sinceridade e regozijo, assim como o perdão do pai que se lançou ao pescoço do filho pródigo! O perdão simplesmente por meio do crer em Jesus, pois através dEle “todo o que crê é justificado de todas as coisas” (At 13.39). A salvação poderia ser ainda mais gratuita? O perdão poderia estar ainda mais perto de nós? Deus poderia, de alguma outra maneira,

DEUS

É

demonstrar mais plenamente seu ardente desejo de que você não perca a sua alma e de que seja salvo — de que você não pereça, e sim de que viva? Na cruz, há salvação — em nenhum outro lugar. Nenhum falhar das esperanças deste mundo pode apagar a esperança que a cruz nos revela. Ela brilha mais intensamente no dia mau. No dia de perspectivas que nos abatem, de aflições intensas, de fardos pesados e de inquietações que nos oprimem — quando nossos amigos se retiram; quando as riquezas se desfazem, quando as enfermidades nos afligem, quando a pobreza nos bate à porta — então, a cruz resplandece e fala sobre uma luz que ultrapassa as trevas deste mundo, a luz dAquele que é a Luz do Mundo.

SOBERANO

O verdadeiro reconhecimento da soberania de Deus admitirá o perfeito direito que Deus tem de fazer conosco o que Ele bem quiser. Quem se curva perante o beneplácito do Deus onipotente reconhece que Ele tem o direito absoluto de fazer conosco conforme bem Lhe parecer. Se Deus resolve enviar a pobreza, a enfermidade, o luto, então, até mesmo quando o coração está sangrando por todos os poros, ainda assim tal pessoa dirá: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” Freqüentemente há luta, porque a mente carnal permanece no crente até o fim de sua peregrinação na terra. Mas, embora lhe haja um conflito no peito, aquele que realmente aceitou essa bendita verdade logo passará a ouvir aquela Voz falando, como no passado falou às turbulentas águas do lago de Genesaré: “Acalma-te, emudece!” E a tempestade que ruge em seu interior se aquietará, e a alma submissa elevará aos céus os olhos, lacrimosos mas confiantes, e dirá: “Seja feita a tua vontade”. A. W. Pink

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DIVERSIDADE

DE

J. C. Ryle

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Meditação em João 21.1-14

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evemos observar nesses versículos o diferente caráter dos discípulos de Cristo. Nesta ocasião profundamente interessante, vemos Pedro e João lado a lado no mesmo barco. E, uma vez mais, assim como no sepulcro, nós os observamos comportando-se de maneira diferente. Estando Jesus na praia, durante o ofuscado amanhecer do dia, João foi o primeiro a reconhecê-Lo, dizendo: “É o Senhor!”; mas Pedro foi o primeiro a lançar-se ao mar, esforçando-se para chegar perto do Senhor. Em resumo, João foi o primeiro a ver; Pedro, o primeiro a agir. O espírito gentil e amável de João foi mais rápido para discernir; porém, a natureza impulsiva de Pedro foi mais rápida para levá-lo à ação. Os dois eram verdadeiros discípulos, amavam o Senhor em suas vidas e mostraram-se fiéis a Ele até à morte; mas o temperamento natural deles não era o mesmo. Jamais esqueçamos esta lição prática. Enquanto vivermos, devemos utilizá-la com diligência ao formular opiniões a respeito de outros crentes. Não devemos condenar os outros como pessoas incrédulas e destituídas da graça divina, somente porque não têm as mesmas opiniões que nós temos no que se refere aos deveres cristãos e não expressam sentimentos iguais aos nossos. “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo” (1 Co 12.4). Os dons dos filhos de Deus não são outorgados exatamente na mesma proporção e medida. Alguns possuem maior medida de um dom; outros têm mais de outro dom. Alguns dons brilham com mais intensidade, quando utilizados em público; outros, em particular. Alguns crentes brilham mais em sua vida de passividade; outros, em uma vida de atividade; mas todos os membros da família de Deus, de acordo com seu dom e no devido tempo, glorificam a Deus. Marta era uma mulher agitada que se preocupava com muitos afazeres, enquanto sua irmã, Maria, assentava-se aos pés do Senhor, para ouvir sua Palavra (Lc 10.39-40). Todavia, chegou o dia em que Maria ficou abatida e prostrada por causa de muita tristeza, enquanto a fé exercida por Marta resplandeceu mais do que a de sua irmã (Jo 11.20-28). Ambas eram amadas por nosso Senhor. A única coisa realmente necessária é ter a graça do Espírito e amar a Cristo. Amemos a todos aqueles que possuem esta graça e amam o Senhor, embora não vejam as coisas com os nossos olhos. A igreja de Cristo precisa de todos os tipos de servos e instrumentos — facas e espadas, machados e martelos, formões e serrotes, Marta e Maria, Pedro e João. A nossa regra áurea deve ser: “A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 6.24).

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ERROS

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Sinclair Ferguson

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mbora tenha sido provocada pelas indulgências vendidas por Johannes Tetzel, a primeira proposição que Lutero ofereceu para debate público, em suas Noventa e Nove Teses, pôs o machado à raiz da árvore teológica da Idade Média. A primeira proposição afirmava: “Quando nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, disse: ‘Arrependei-vos’, Ele pretendia dizer que toda a vida do crente deve ser caracterizada por arrependimento”. Fundamentado no Novo Testamento Grego editado por Erasmo, Lutero chegou à compreensão de que a tradução penitentiam agite (“fazei penitência”), da Vulgata Latina, em Mateus 4.17, interpretava de maneira completamente errada o significado das palavras de Jesus. O evangelho não exige penitência, e sim uma mudança radical na maneira de pensar e uma profunda transformação de vida. Mais tarde, Lutero

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escreveria para Staupitz a respeito desta brilhante descoberta: “Eu me arrisco a dizer que estão errados aqueles indivíduos que tornam mais importante a ação proposta pelo latim do que a mudança de coração transmitida pelo grego”. Não é verdade que temos perdido de vista esta nota que era tão proeminente na teologia reformada? Faremos muito bem se resgatarmos o conceito teológico de Lutero. Por muitas razões importantes, os evangélicos precisam reconsiderar a centralidade do arrependimento em nossa maneira de pensar a respeito do evangelho, da igreja e da vida cristã. Uma de nossas grandes necessidades é a habilidade de perceber algumas das direções às quais o evangelicalismo está se encaminhando ou talvez, mais exatamente, se desintegrando. Precisamos desesperadamente da perspectiva que a His-

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tória da Igreja nos proporciona. Mesmo no período de minha própria vida crist㠗 no espaço de tempo entre a minha adolescência, na década de 1960, e os meus quarenta anos, na década de 1990 —, houve uma ampla mudança no evangelicalismo. Muitas “posições doutrinárias” que constituíam o ensino evangélico padrão, depois de somente três décadas, são consideradas como reacionárias ou mesmo antiquadas. Se levarmos em conta a perspectiva da História, encaramos a possibilidade alarmante de que trevas medievais podem estar se avultando no evangelicalismo. Seremos capazes de detectar, pelo menos como uma tendência, atividades no meio do evangelicalismo que se assemelham à vida da igreja medieval? A possibilidade de uma Nova Babilônia ou (mais exatamente, nas palavras de Lutero) do Cativeiro Pagão da Igreja se mostra mais perto do que podemos crer. Considere estas cinco características da igreja medieval que, em vários graus, estão evidentes no evangelicalismo contemporâneo.

1. ARREPENDIMENTO O arrependimento tem sido considerado, de maneira cada vez mais crescente, como um ato único, divorciado de uma restauração da piedade que se estende por toda a vida do crente. Existem razões complexas para isso — nem todas desta época — que não podem ser exploradas neste breve artigo. Entretanto, isto é evidente: considerar o arrependimento como um ato isolado e completo, no início

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da vida cristã, tem sido um dos princípios mais importantes do evangelicalismo moderno. Infelizmente, os crentes têm desprezado a teologia das igrejas que possuem uma confissão de fé histórica. Essa atitude tem produzido uma geração que olha para trás e vê a base da sua salvação em um ato único, separado de suas conseqüências. Assim, hoje, a chamada para “vir à frente” assumiu o lugar do antigo sacramento da penitência. Deste modo, o arrependimento tem sido divorciado da regeneração verdadeira, e a santificação está separada da justificação.

2. MISTICISMO O cânon da vida cristã tem sido procurado, de maneira crescente, em uma voz viva “inspirada pelo Espírito Santo”, na igreja, ao invés de ser buscado na voz do Espírito ouvida nas Escrituras. O que antes era apenas uma tendência mística se tornou um dilúvio. Mas qual a relação disso com a igreja da Idade Média? Apenas esta: toda a igreja medieval agia com base nesse mesmo princípio, embora eles o expressassem de maneira diferente — o Espírito Santo fala além das Escrituras; o crente não pode conhecer a orientação detalhada da parte de Deus, se tentar depender exclusivamente de sua própria Bíblia. E isso não é tudo. Uma vez que a doutrina da “voz viva” do Espírito Santo é introduzida, ela é seguida inevitavelmente como sendo o cânon da vida cristã. Este ponto de vista (a Palavra inspirada + uma voz viva = revelação divina) se encontrava no âmago

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do tatear na escuridão da igreja medieval em busca do poder do evangelho. Ora, no final do segundo milênio, estamos à beira — e talvez mais do que à beira — de sermos dominados por um fenômeno semelhante. Naquela época, o resultado foi uma fome por ouvir e entender a Palavra de Deus; e tudo foi realizado sob o pretexto de buscar aquilo que o Espírito Santo estava realmente dizendo à igreja. E o que podemos dizer sobre os nossos dias?

3. PODERES SAGRADOS A presença divina era trazida à igreja através de um indivíduo com poderes sagrados, depositados em sua pessoa e transmitidos por meios físicos. Hoje, o correspondente de tal indivíduo pode ser visto em todos os lugares onde as pessoas assistem televisão. Temos de reconhecer que não é Jesus que está sendo oferecido por meio das mãos de um sacerdote; é o Espírito Santo quem está sendo outorgado por meios físicos (aparentemente, à vontade), pela instrumentalidade de um novo sacerdote evangélico. A santidade não é mais confirmada pela beleza do fruto do Espírito, e sim pelos sinais que são predominantemente físicos. O que deveríamos achar alarmante a respeito do evangelicalismo contemporâneo é a amplitude com que somos impressionados pelo bom desempenho de tais sacerdotes, ao invés de sermos impressionados por sua piedade. Os reformadores estavam familiarizados com fenômenos semelhantes a este. Na verdade, uma

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das principais acusações feitas contra os reformadores pela Igreja Católica Romana era que eles não tinham realmente o evangelho, pois lhes faltava os milagres físicos.

4. ESPECTADORES A adoração a Deus é apresentada, cada vez mais, como um evento das capacidades sensoriais e visuais, e não como um acontecimento caracterizado por palavras, através do qual nos envolvemos em um profundo diálogo da alma com o Deus triúno. A atitude predominante do evangelicalismo contemporâneo consiste em focalizar a centralidade daquilo que “acontece” no espetáculo de adoração, ao invés de focalizar aquilo que se escuta na adoração. A estética, quer seja musical, quer seja artística, recebe prioridade acima da santidade. Mais e mais é visto, menos e menos é ouvido. Acontece uma festa dos sentidos, mas existe uma fome do ouvir. O profissionalismo na adoração se tornou um substituto barato e cheio de falhas para o genuíno acesso ao céu. A dramatização, ao invés da pregação da Palavra, se tornou o “Didaquê” da escolha. Houve um tempo em que apenas quatro palavras causariam arrepios em nossos avós: “Vamos adorar a Deus”. Isto não pode ser dito a respeito dos evangélicos contemporâneos. Agora, tem de haver cores, movimento, efeitos áudio-visuais, etc., pois, de modo contrário, Deus não pode ser conhecido, amado, adorado e crido.

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5. MAIOR SIGNIFICA MELHOR? O sucesso do ministério é medido pelas multidões e pelos templos enormes, ao invés de ser avaliado por meio da pregação da cruz e da qualidade da vida dos crentes. Foram os líderes da Igreja Medieval — bispos, arcebispos, cardeais e papas — que construíram as grandes igrejas, ostentando o lema Soli Deo Gloria. Tudo isso foi realizado em detrimento da proclamação do evangelho, da vida do corpo de Cristo como um todo, das necessidades dos pobres e da evangelização do mundo. Por conseguinte, as megaigrejas não constituem um fenômeno moderno, e sim um fenômeno da Idade Média. Felizmente, o tamanho ideal de uma igreja e a arquitetura eclesiástica específica são questões irrelevan-

A ESCOLHA

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tes. Essa não é realmente a principal preocupação neste artigo. Pelo contrário, nossa principal preocupação é a tendência quase endêmica do evangelicalismo contemporâneo em utilizar tamanho e números como um indicativo de sucesso do “meu ministério” — uma expressão que pode ser admiravelmente contraditória. Temos de suscitar a questão da realidade, da profundidade e da integridade na vida da igreja e do ministério cristão. O intenso desejo por “coisas maiores” nos torna vulneráveis na área material e financeira; e o que é pior: nos torna espiritualmente vulneráveis. Pois dificilmente poderemos declarar àqueles dos quais dependemos materialmente: “Quando o Senhor Jesus disse: ‘Arrependei-vos’, isto significava que toda a vida cristã é uma vida de arrependimento”.

TRÊS JOVENS

Qualquer que se não prostar e não a adorar [a estátua de ouro] será, no mesmo instante, lançado na fornalha de fogo ardente. Daniel 3.6

O mundo de hoje tem sua própria fornalha ardente à espera

daqueles que não se conformam em adorar seus ídolos. É a fornalha de ser desprezado, ridicularizado, escarnecido, repudiado e ignorado. Aqueles que temem a Deus e mantêm vidas puras são considerados “quadrados” e indiferentes, que não participam da vida e dos interesses dos outros ao seu redor. Para muitos jovens crentes, a pressão parace irresistível. Sentem-se forçados a uma escolha. Ou se identificam e vivem como os demais; ou assumem uma postura firme e perdem tudo. Esta foi a escolha apresentada a Sadraque, Mesaque e AbdeNego. Eles escolheram agradar a Deus, deixando as conseqüências nas mãos daquele que é todo sábio.

(Do livro “Ouse Ser Firme”, Stuart Olyott, pág. 42 - Ed. Fiel)

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BATALHANDO PELA FÉ

BATALHANDO PELA FÉ John Piper “Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo, a misericórdia, a paz e o amor vos sejam multiplicados. Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.” Judas 1-4

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epístola de Judas começa e termina com palavras muito confortadoras para os crentes. No versículo 1, Judas nos descreve como aqueles que são “chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo”. Os três verbos estão na voz passiva. Enfatizam a ação de Deus. Ele chama, ama e guarda. Somos chamados, amados e guardados. Judas se mostrou bastante zeloso em começar enfatizando a segurança do crente na eleição e no amor preservador da parte de Deus.

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No final da epístola, versículo 24, Judas afirmou: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante de sua glória, ao único Deus... glória”. Observe, no versículo 1, somos guardados por Deus em Jesus Cristo; e, no versículo 24, Deus é poderoso para guardar-nos de tropeços. Judas começou e terminou sua epístola assegurando os crentes de que Deus exercita sua onipotência em guardálos de desviarem-se da fé.

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O que devemos responder quando alguém nos perguntar por que estamos tão certos de que permaneceremos firmes na fé até ao fim e de que seremos salvos no Dia do Juízo? Devemos responder o seguinte: “Deus me chamou da incredulidade. Portanto, eu sei que Ele me ama com amor especial e eletivo. Por isso, sei que Ele me guardará de cair. Deus realizará em mim aquilo que é agradável diante dEle mesmo (Hb 13.21) e me apresentará com exultação diante do trono de sua glória”. Essa é a maneira como Judas começa e termina sua epístola. No entanto, no meio da epístola, Judas demonstra outra preocupação. A sua preocupação não é ajudar os crentes a sentirem-se contentes, e sim a serem vigilantes. Depois de lhes haver mostrado o amor eletivo de Deus, bem como o incomparável poder de Deus em preservar os crentes em segurança, Judas passa a mostrar-lhes o perigo que os cerca, exortando-os a batalhar pela fé. Versículo 3: “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. Em outras palavras, a vitória certa da igreja não significa que não temos de lutar para vencer. O simples fato de que nosso excelente General nos promete vitória nas praias do inimigo não significa que as tropas podem guardar suas armas no navio. A promessa de vitória pressupõe coragem na batalha.

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Quando Deus promete que sua igreja será protegida de derrotas, o propósito dEle não é que mantenhamos nossa espada na bainha, e sim que lancemos mão da espada do Espírito e olhemos confiantes para Ele, a fim de recebermos forças para vencer a batalha. Sempre que a promessa de segurança da parte de Deus é utilizada para justificar a nossa ausência no campo na batalha, podemos suspeitar que há um traidor entre os nossos soldados. Conforme podemos observar na epístola de Judas, o procedimento de Deus é proporcionar confiança ao seu povo, a confiança de que a sua fé será vitoriosa ao fim (vv. 1, 24), e, depois, enviá-los para lutar pela fé. O assunto central do pequeno livro de Judas é o versículo 3. Por isso, desejamos torná-lo o assunto de nossa mensagem: é dever de todo crente genuíno batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Procurarei desenvolver o significado desta doutrina utilizando quatro sentenças. 1. Existe uma fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. 2. Esta fé é digna de que batalhemos por ela. 3. Esta fé está sendo constantemente ameaçada por elementos de dentro da igreja. 4.Todo crente genuíno deve batalhar por esta fé. 1. Existe uma fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. Às vezes, a palavra “fé” é utilizada significando o sentimento de confiança

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em Cristo. Em outras vezes, como versículo 3 é a declaração de Judas acontece nesta passagem, ela foi uti- no sentido de que a fé “uma vez por lizada significando as verdades em todas foi entregue aos santos”. Isto que cremos a respeito dAquele em significa que ela se propagou a parquem confiamos. tir dos apóstolos. A fé não foi inPor um lado, é necessário ventada pela igreja. Foi revelada por enfatizar que o cristianismo é basica- Deus aos seus apóstolos e a seus commente um relacionamento com Jesus, panheiros mais achegados; em seguie não um da, ela foi g conjunto de ensinada às O simples fato de que nosso idéias sobre a igrejas copessoa de Jeexcelente General nos promete mo “todo o sus. A razão de vitória nas praias do inimigo não desígnio por que fazeDeus” (At significa que as tropas podem mos isso é es20.27). ta: ninguém Para nós, guardar suas armas no navio. será salvo uma das exg por crer em pressões maum conjunto de idéias. O diabo crê is importantes é “uma vez por tona maior parte das verdades do cris- das” (v. 3). Agora estamos há quatianismo. Precisamos enfatizar que, se dois mil anos depois que a fé foi se uma pessoa não tiver uma confi- inicialmente entregue à igreja e ança viva em Jesus, como Salvador e estamos cercados por milhares de Senhor, toda a ortodoxia do mundo pessoas e seitas que reivindicam ter não introduzirá tal pessoa no céu. uma nova palavra de revelação que Mas, se nossa ênfase no relaci- completa a Palavra de Deus para a onamento pessoal com Jesus nos leva humanidade. Maomé ofereceu aos a negar que existe um grupo de ver- seguidores o Alcorão; Joseph Smith, dades essenciais no cristianismo, co- o seu Livro de Mórmom; Sun Moon, metemos um grave erro. Existem o seu Princípio Divino. E todos os verdades sobre Deus, o Senhor Jesus, dias vocês encontram pessoas que o homem, a igreja e o mundo que consideram as tendências intelectusão essenciais à vida do cristianismo. ais contemporâneas como um subsSe tais verdades são corrompidas e tituto adequado para a Bíblia. distorcidas, o resultado não será apeMas observe com bastante cuinas idéias erradas e verdades mal apli- dado. Judas ensinou que a fé “uma cadas. A vida íntima de fé não é in- vez por todas foi entregue aos sandependente das afirmações doutriná- tos”. A revelação de Deus concerrias da fé. Quando as doutrinas estão nente ao conteúdo doutrinário de corrompidas, o coração se encontra nossa fé está completo. A igreja está na mesma condição. Existe um cor- edificada sobre o fundamento dos po de doutrinas que tem de ser pre- apóstolos e profetas (Ef 2.20). Qualservado. quer pessoa que surge e reivindica A maior evidência disso no ter uma nova revelação da parte de

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Deus, para acrescentá-la à fé que retirar nada desse corpo de doutrinas. “uma vez por todas foi entregue aos Ele foi uma vez por todas entregue santos”, está agindo contra as Escri- aos santos. turas. A razão por que temos a Bíblia 2. Esta fé é digna de que bataé que a igreja do terceiro e do quarto lhemos por ela. Lemos em Romanos século reconheceu que Deus falou 14 que um crente considera um dia “uma vez por todas” nesses escritos. superior aos demais e que outro crente O cânon foi concluído, e todas as rei- considera iguais todos os dias. Cada vindicações a respeito da verdade têm crente deve estar convicto em sua de ser avaliadas pelo padrão da fé que própria mente e não menosprezar nem “uma vez por todas foi entregue aos condenar seu irmão. Mas na epístola santos”. de Judas somos ensinados a batalhar Quando afirmamos a existência por aquilo em que cremos. de uma fé que “uma vez por todas O que eu posso deduzir é que foi entregue aos santos”, queremos existe um conjunto de doutrinas digdizer fé e não “fés”. Em nossos dias, no de que batalhemos por ele, bem é comum alguém falar sobre diver- como aplicações secundárias dessas sas teologias no Novo Testamento. doutrinas; e por causa dessas aplicaOs eruditos gosções não deveg tam de enfatizar mos contender a diversidade de uns com os ouA fé que hoje nutrimos opiniões entre os tros. foi preservada para autores do Novo Mas grave nós à custa do sangue Testamento e a isto em sua mendificuldade para te: existe uma de centenas de trazê-los todos a verdade digna reformadores. um entendimende que batalheg to coerente da mos por ela. realidade. Existe uma verOra, certamente existe alguma dade digna de morrermos por ela. diversidade entre um escritor inspi- Isso é muito difícil para a nossa culrado e outro do Novo Testamento. tura relativista entender. Talvez seMas eu rogo à nova geração de estu- jamos capazes de imaginar uma pesdiosos que pensem mais e melhor a soa morrendo por outra; todavia, respeito das implicações de Judas 3: muitos em nossos dias não conside“A fé que uma vez por todas foi en- ram qualquer verdade tão preciosa, tregue aos santos”. Embora possa que eles lutarão ou mesmo morrerão haver diversidade na maneira como por ela. entendemos esta fé, a ênfase recai Não foi sempre assim. A fé que sobre a unidade. Existe uma fé apos- hoje nutrimos foi preservada para nós tólica. Existe um corpo de doutrinas à custa do sangue de centenas de que sustentam uma à outra, chamado reformadores. De 1555 a 1558, a ra“fé”. Não devemos acrescentar ou inha Maria, a católica que reinou na

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Inglaterra, queimou na fogueira 288 reformadores protestantes — homens como John Rogers, John Hooper, Rowland Taylor, Robert Ferrar, John Bradford, Nicholas Ridley, Hugh Latimer e Thomas Cranmer. E por que eles foram queimados? Porque permaneceram firmes em favor de uma verdade — a verdade de que a presença real do corpo de Jesus não está na eucaristia, e sim no céu, à direita do Pai. Por essa verdade, eles suportaram o agonizante sofrimento de serem queimados vivos. O sangue dos mártires é um poderoso testemunho de que a fé “uma vez por todas” entregue aos santos é digna de batalharmos por ela. Existe evidência disso no versículo 3. Judas disse que desejava realmente escrever acerca da nossa comum salvação. “Quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé.” Quando a fé está em jogo, nossa salvação também está em jogo. Se a verdade está corrompida, a nossa salvação também está corrompida. Os apóstolos e reformadores se mostraram dispostos a morrer por causa da fé, porque se preocuparam com a preservação da mensagem de salvação — eles se preocuparam com pessoas e com a glória de Deus. Precisamos obter um sentimento completamente novo da preciosidade da doutrina bíblica. Como igreja, precisamos conhecer a profundidade, a beleza e o valor da verdade doutrinária. Existe uma fé digna de contendermos por ela.

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3. Esta fé está sendo constantemente ameaçada por elementos de dentro da igreja. Maria, a sanguinária, confessava ser cristã; ela não era bárbara. Os piores inimigos da doutrina cristã são aqueles que se declaram cristãos e não se apegam à fé que “uma vez por todas foi entregue aos santos”. Em sua última mensagem aos pastores da igreja de Éfeso, o apóstolo Paulo os advertiu dizendo: “Depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas, para arrastar os discípulos atrás deles” (At 20.29-30). Os lobos que pervertem a fé são pessoas que se declaram crentes. São pastores, líderes de igreja, professores de seminários e missionários. Em sua epístola, Judas apresenta no versículo 4 a razão por que a igreja precisava preparar-se para batalhar pela fé: “Certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo”. Assim, a ameaça à fé está vindo de indivíduos que agora se encontram no meio da igreja. Provavelmente, eles estão dizendo o seguinte: “Se nós somos salvos pela graça, não importa o que somos em nossa vida moral. Na verdade, quando um crente peca, isto serve tão-somente para magnificar a graça de Deus”. Deste modo, eles colocam a graça de Deus em oposição aos mandamentos

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de Cristo e, na prática, negam o se- para aqueles que são “chamados, nhorio de Jesus. amados em Deus Pai e guardados em Eles têm agido dessa maneira Jesus Cristo” (v. 1). Por conseguindesde o primeiro século. Paulo disse te, o dever de batalhar pela fé não que isso iria acontecer. Judas o viu pertence exclusivamente aos pastores se realizando, como um cumprimen- consagrados ao ministério da Palavra, to das predições de Paulo. Nos embora eles tenham uma responsabiversículos 17 e 19, Judas afirmou: lidade especial. Batalhar pela fé é o “Lembrai-vos das palavras anterior- dever de todo crente verdadeiro. mente proferidas pelos apóstolos de Os versículos 21 e 22 nos dinosso Senhor Jesus Cristo, os quais zem algo sobre as coisas que nos devos diziam: No último tempo, have- veriam preparar para batalharmos rá escarnecedores, andando segundo pela fé — “Vós, porém, amados, as suas ímpias paixões. São estes os edificando-vos na vossa fé santíssima, que promovem divisões, sensuais, orando no Espírito Santo, guardaique não têm o Espírito”. vos no amor de Deus, esperando a Embora as cartas de Paulo te- misericórdia de nosso Senhor Jesus nham-no feito derramar muitas lágri- Cristo, para a vida eterna”. E os mas (Fp 3.18), quase todas as cartas versículos 22 e 23 nos falam a resabordam assuntos relacionados a lu- peito de maneiras pelas quais podetas que estava mos envolverg travando com nos nessa bataPrecisamos obter um pessoas que delha. claravam ser A melhor sentimento completamente crentes. Portancoisa que podenovo da preciosidade da to, não devemos mos fazer para doutrina bíblica. ficar surpresos que sejamos uma com o fato de igreja eficaz em g que hoje muitas batalhar pela fé de nossas lutas em favor da fé se rea- é nos tornarmos uma igreja bem funlizam com crentes que ensinam e es- damentada na fé — “Edificando-vos crevem coisas que (pelo menos do na vossa fé santíssima”. Estudem! nosso ponto de vista) são contrárias à Meditem! Edifiquem! Cresçam! Há “fé que uma vez por todas foi entre- muitas verdades maravilhosas a gue aos santos”. aprendermos sobre Deus. E a melhor O Novo Testamento ensina com defesa da fé é conhecer tais verdades muita clareza que a fé será, por repe- e amá-las. tidas vezes, ameaçada por pessoas de A oração é uma parte indispendentro da igreja. sável do batalhar pela fé — “Orando no Espírito Santo”. A menos que pro4. Isso nos leva à admoestação curemos ter a mentalidade do Espírifinal: todo crente genuíno deve ba- to Santo, através da oração, não crestalhar por esta fé. A epístola de Judas ceremos em nossa assimilação da fé não foi escrita para um pastor, e sim e seremos soldados fracos.

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No que se refere à batalha propriamente dita, Judas instruiu: “E compadecei-vos de alguns que estão na dúvida; salvai-os, arrebatando-os do fogo; quanto a outros, sede também compassivos em temor, detestando até a roupa contaminada pela carne”. Pelo menos duas coisas são evidentes nessa instrução: 1) batalhar às vezes envolve um esforço intelectual para que seja mudada a maneira de pensar da outra pessoa — “Compadecei-vos de alguns que estão na dúvida”; 2) batalhar às vezes envolve repreensão moral — “Procurem aqueles que estão atolados no lamaçal onde foram apanhados por idéias perversas e resgatem-nos ao lugar de segurança, mesmo que odeiem o que eles estão fazendo”. Na realidade, essas coisas andam sempre juntas: um esforço para mudar a maneira de pensar e um empenho para mudar a moralidade. Batalhar pela fé nunca é simplesmente um exercício acadêmico, assim como nunca é apenas um exercício mental; visto que a fonte de todas as falsas doutrinas é o orgulho do coração humano e não a fraqueza de sua mente. Essa é a razão por que Judas nos

exorta a crescer, orar, permanecer no amor de Deus e depender de sua misericórdia, antes de afirmar qualquer coisa sobre a maneira como devemos batalhar pela fé. Viver a fé é o melhor argumento que os crentes têm em favor da fé. Por essa razão, o apóstolo Pedro disse: “Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15). A maneira como você luta é tão importante quanto o conteúdo de seus argumentos. Você pode vencer com sua lógica e perder com sua vida. Em resumo, 1. Existe uma fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. 2. Esta fé é digna de que batalhemos por ela. 3. A fé está, por repetidas vezes, sofrendo ameaças vindas da própria igreja, por meio de crentes que professam apenas verbalmente a fé. 4. É dever de todo crente batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.

É a doutrina da eleição que mais me impele a ser abundante nas boas obras. Ela me faz disposto a sofrer todas as coisas por amor aos eleitos. Ela me faz pregar com consolo, porque eu sei que a salvação não depende do livre arbítrio do homem, mas do Senhor que os torna dispostos no dia do Seu poder, e Ele pode me usar para trazer alguns dos eleitos ao lar, quando e onde Lhe aprouver. George Whitefield

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C. H. Spurgeon

“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” João 6.44

C

omo Deus traz homens a Cristo? Os pregadores arminianos geralmente dizem que Deus traz homens a Cristo por meio da pregação do evangelho. É verdade; a pregação do evangelho é o instrumento para trazer homens a Cristo, mas precisa haver algo mais que isso. A quem Cristo dirigiu essas palavras? Ora, às pessoas de Cafarnaum, onde Ele pregava com freqüência, onde Ele proferiu, com lamentação e tristeza, as maldições da lei, bem como os convites do evangelho. Naquela cidade, o Senhor Jesus havia realizado muitos sinais poderosos e diversos milagres. Na verdade, Ele ministrou aos moradores de Cafarnaum tantos ensinos e operou tantas confirmações miraculosas, a ponto de declarar que, se Tiro e Sidom houvessem sido abençoadas com tais privilégios, há muito teriam se arrependido em pano de saco e cinzas.

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Ora, se a pregação do próprio Cristo não foi proveitosa para tornar esses homens capazes de vir a Ele mesmo, não é possível que a pregação do evangelho fosse a única coisa idealizada por Deus para trazer os homens a Jesus. Não, queridos irmãos, vocês têm de observar novamente: o Senhor Jesus não disse que o homem não virá a Ele, se o ministro do evangelho não o trouxer; e sim que se o Pai não o trouxer. Ora, existe o ser trazido pelo evangelho e pelo pregador, sem ser trazido por Deus. É claro que Jesus estava falando de ser trazido por Deus, o Altíssimo — a primeira Pessoa da gloriosa Trindade —, enviando a terceira Pessoa, o Espírito Santo, para induzir homens a virem a Ele, Jesus. Alguém pode se levantar e dizer com escárnio: “Então, você acha que Cristo traz os homens a Ele mesmo, vendo que os homens não têm

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disposição para fazer isso?” Lembrome de haver conhecido um homem que disse: “Senhor, você pregou que Cristo apanha os homens pelos seus cabelos e os traz a Si mesmo”. Perguntei-lhe se podia lembrar o dia em que preguei um sermão contendo essa extraordinária doutrina. Se ele pudesse lembrar, eu ficaria grato. Mas aquele homem não pôde lembrar tal dia. Eu lhe disse que, embora Cristo não traga ninguém a Ele mesmo, puxando-o pelos cabelos, creio que Ele traz pessoas por meio do coração, fazendo-o de maneira quase tão poderosa quanto aquela ilustração poderia sugerir. Observem que no trazer do Pai não há qualquer compulsão. Cristo nunca obriga qualquer pessoa a vir a Ele contra a vontade dela mesma. Se alguém não quer ser salvo, Cristo não o salva contra a vontade dele mesmo. Então, de que maneira o Espírito Santo traz o homem a Cristo? Ora, Ele o faz tornando o homem disposto. É verdade que o Espírito Santo não usa a “persuasão moral”. Ele conhece um método mais fácil de alcançar o coração do homem. O Espírito Santo vai às fontes secretas do coração e, sabendo exatamente como, por meio de uma realização misteriosa, muda a direção da vontade humana, de modo que, assim como Ralph Erskine o apresentou de modo paradoxo, o homem é salvo “com pleno consentimento, contra a sua própria vontade”; ou seja, ele é salvo contra a sua velha vontade. Mas ele é salvo com pleno consentimento, pois Deus o tornou disposto no dia do seu poder. Não imaginem que qualquer

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pessoa irá ao céu esperneando e gritando, em todo o caminho, contra a mão que o traz a Cristo. Não imaginem que alguma pessoa será mergulhada no banho do sangue de Cristo, enquanto se esforça para fugir de seu Salvador. Oh! Não. É verdade que, antes de tudo, o homem não tem disposição de ser salvo. Quando o Espírito Santo coloca a sua influência sobre o coração, o teste se cumpre: “Leva-me após ti” (Ct 1.4). Seguimos, enquanto Ele nos atrai, felizes por obedecer à voz que antes desprezamos. Mas o âmago deste assunto se encontra na transformação da vontade. Como isso acontece, ninguém sabe. Esse é um daqueles mistérios que é percebido de maneira mais evidente através dos fatos; contudo, ninguém pode descrevê-lo, nenhum coração pode imaginá-lo. A maneira aparente em que o Espírito Santo age, nós podemos dizer-lhe. A primeira coisa que Ele faz, quando vem ao coração de uma pessoa, é esta: Ele a encontra nutrindo uma excelente opinião a respeito de si mesma. Ora, o homem diz: “Eu não quero vir a Cristo. Tenho uma justiça pessoal tão boa, que qualquer pessoa pode desejá-la. Sinto que eu posso chegar ao céu confiando em meus próprios direitos”. O Espírito Santo desnuda tal coração, fazendo-o ver o câncer repugnante que está devorando sua vida; descobre à pessoa todas as trevas e corrupção daquele recinto infernal, o coração humano; assim, a pessoa fica horrorizada. “Nunca pensei que eu fosse assim. Aqueles pecados que julgava insignificantes se acumularam e atingiram uma proporção imensa.

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Aquilo que eu julgava ser um montículo cresceu e se tornou uma montanha elevada; era apenas um arbusto, agora é um cedro do Líbano. Oh!”, diz a pessoa a si mesma, “tentarei reformar a minha vida; farei boas obras suficientes para limpar completamente estas obras mortas”. Então, o Espírito Santo lhe mostra que ela não pode fazer isso e remove todo o poder e a capacidade ilusória da pessoa, de modo que ela se prostra, em seus joelhos, clamando em agonia: “Oh! Pensei que poderia salvar a mim mesmo por meio de minhas boas obras, mas percebo que, Se minhas lágrimas jorrassem eternamente, Se meu zelo não conhecesse nenhum limite, Tudo que fizesse pelo pecado não o expiaria. Tu, Senhor, e somente Tu, podes salvar-me”. Depois que o coração afunda, o homem está pronto para entrar em desespero. E diz: “Nunca posso ser salvo. Nada me pode salvar”. Neste

momento, o Espírito Santo se aproxima e mostra ao pecador a cruz de Cristo, outorgando-lhe olhos ungidos com colírio celestial e declarando: “Olhe para aquela cruz, o Homem que ali morreu salva pecadores. Você sente que é um pecador; Ele morreu para salvá-lo”. Assim, o Espírito Santo capacita o coração a crer e a vir a Cristo. E, quando o homem vem a Cristo, pelo amável trazer do Espírito, encontra a “paz de Deus, que excede todo o entendimento” e guarda sua mente e seu coração em Cristo Jesus (Fp 4.7). Agora você percebe claramente que tudo isso pode ser feito sem qualquer compulsão. O homem é trazido com tanta voluntariedade como se não tivesse sido atraído. Ele vem a Cristo com todo o seu consentimento, como se nenhuma influência secreta houvesse agido em seu coração. Mas essa influência tem de ser exercida, pois, do contrário, nunca haveria (nem haverá) qualquer pessoa que poderia ou desejaria vir ao Senhor Jesus Cristo.

Esforcemo-nos para saber algo a respeito do amor

de Cristo. É um amor que, de fato, ultrapassa todo entendimento; é insondável e indescritível. É o amor no qual precisamos descansar completamente nossa alma, se desejamos ter paz no presente e glória na eternidade. Se achamos consolação em nosso amor para com Cristo, estamos edificando sobre um alicerce arenoso. Mas, se confiamos no amor de Cristo para conosco, estamos sobre uma rocha firme. J. C. Ryle

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Revista Fé para Hoje Número 16, Ano 2002