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A. W. Pink


Enriquecendo-se com a Bíblia Traduzido do original em inglês Profiting from the Word por Arthur Walkington Pink Publicado originalmente numa série de artigos do Jornal Studies in Scripture entre 1930 e 1932. Copyright©1979 Editora FIEL. 1ª Edição em Português: 1979 Reimpressões: 1988, 1996, 2002. 2ª Edição em Português: 2011 • Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária Proibida a reprodução deste livro por quaisquer meios, sem a permissão escrita dos editores, salvo em breves citações, com indicação da fonte. •

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Presidente: James Richard Denham III Presidente emérito: James Richard Denham Jr. Editor: Tiago J. Santos Filho Revisão: Francisco Wellington Ferreira Diagramação: Spress Capa: Rubner Durais ISBN: 978-85-8132-008-3


Sumário Apresentação............................................................. 7 1. As Escrituras e o Pecado...................................... 15 2. As Escrituras e Deus............................................ 31 3. As Escrituras e Cristo.......................................... 51 4. As Escrituras e a Oração...................................... 69 5. As Escrituras e as Boas Obras............................... 89 6. As Escrituras e a Obediência................................ 107 7. As Escrituras e o Mundo...................................... 125 8. As Escrituras e as Promessas................................. 141 9. As Escrituras e a Alegria....................................... 159 10. As Escrituras e o Amor........................................ 177 –5–


Apresentação Toda a Escritura é inspirada por Deus...

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o Brasil, houve um tempo em que o cristão era conhecido com “Bíblia” ou “aquela gente do livro de capa preta”. Embora esse apelido fosse empregado de forma depreciativa pelos de fora da igreja, assim como quando o próprio termo “cristão” foi cunhado pela primeira vez, em Antioquia ou “Puritanos”, na Inglaterra do século XVI, permanece o fato de que o apelido evidenciava a ênfase, os valores, as crenças daquele povo. De alguma maneira, o motivo de chacota era também o que tornava os cristãos distintos no mundo em que viviam. É uma pena que, em nossos dias, tal distinção já não seja tão evidente. –7–


Enriquecendo-se com a Bíblia Mas, enfim, se há algo que pode ser dito sobre o verdadeiro cristão é de que este ama a Bíblia, o livro dos livros. A Bíblia tem o peso da autoridade da Palavra divina. Esse é o argumento do apóstolo Paulo a Timóteo, quando disse que “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra.” (2 Tim 3.16,17) Paulo numa única sentença afirma de forma clara e inquestionável a autoridade absoluta das Escrituras. E, uma vez esclarecido que Deus é o autor da Bíblia, é que Paulo então passar a listar como podemos nos beneficiar dela. Por outro lado, podemos dizer que as Escrituras não serão nada proveitosas ou de muito pouco proveito em nossas vidas se antes não a reconhecermos como a Palavra de Deus. João Calvino desenvolveu bem esse raciocínio, ao comentar esse trecho das Escrituras: Para asseverar a autoridade da Palavra, Paulo ensina que ela [Palavra] é inspirada por Deus. Porque, se esse é o caso, então não há qualquer dúvida que os homens devem recebê-la com reverência. Eis aqui o princípio que distingue nossa religião de todas as demais, ou seja: sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes aceitar isto como um princípio

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Apresentação estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-prazer dos homens ou produzidos pelas mentes humanas como sua fonte, senão que foram ditados

pelo Espírito Santo1.

Deus quis se revelar a ao homem. E ele só pode ser achado através da revelação que fez de si mesmo, pelas Escrituras. O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Romanos, demonstra que a criação atesta os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e divindade, porém, somente por meio da Palavra é que Deus, o autor da criação, pode ser realmente conhecido. As Escrituras são pródigas em afirmar sua própria autoridade, poder e fonte divinas. O autor aos Hebreus chama a Palavra de “viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração”. (Hb. 4.12) O Salmo 119 é uma celebração da Lei do Senhor. Davi utiliza as mais belas técnicas da poesia hebraica para exaltar a Palavra, a Lei do Senhor2. Neste salmo, Davi vai enaltecer recorrentemente a Lei, santificando-a e afirmando sua capacidade transformar, vivificar, animar, sustentar, guiar, nu1 João Calvino. As Pastorais (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2009) pp 262 a 263. 2 O Salmo 119 é construído na forma de acróstico; neste tipo de composição, as linhas ou estrofes iniciam, cada uma, com letras em ordem alfabética. Essa técnica, a exemplo do paralelismo, auxilia na memorização do ensino.

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Enriquecendo-se com a Bíblia trir, fortalecer, iluminar, encorajar, ensinar, advertir, exortar, corrigir. O ponto é que Deus resolveu que tudo quanto devemos saber acerca de seu ser, seus atributos, seu caráter, sua grandeza, majestade, poder e glória; e tudo quanto deveríamos saber sobre a criação, sobre nós, os homens, nosso relacionamento original com ele, nossa queda em Adão, a realidade do pecado – e a ruptura humanamente irreparável que se estabeleceu entre ele e os homens; a salvação que ele prometeu desde o Gênesis por meio do Redentor, a sua aliança com o povo que ele escolheu para si, a vinda do cordeiro santo, o verbo eterno de Deus, que se fez homem, viveu entre nós, padeceu, morreu e ressuscitou, e ascendeu aos céus, está assentado à direita de Deus Pai e voltará para julgar os vivos e os mortos; o evangelho, o nascimento da igreja, a disseminação da fé apostólica, enfim, todas essas coisas que importam para a salvação do homem, sua nutrição, crescimento espiritual, cultivo da santidade, comunhão, ensino e edificação, Deus transmitiu por meio do livro dos livros, a Bíblia Sagrada! Ele usou homens e mulheres, camponeses, fazendeiros, pastores de ovelha, guerreiros, profetas, reis, príncipes, sacerdotes, prisioneiros, pescadores, cobradores de impostos, médico, e tantos outros, para, inspirados por seu santíssimo Espírito, produzir uma única Palavra, inerrante, infalível, perfeita, viva e salvadora. – 10 –


Apresentação E ele o fez sem desconsiderar o contexto cultural, político, histórico e social do momento em que cada livro foi escrito. Ele utilizou-se até mesmo das características, formação, estilo dos homens que chamou para compor o seu santo livro. Ele compôs os 66 livros da Bíblia num período de aproximadamente 1.500 anos, em lugares diversos, em pelo menos três idiomas diferentes (hebraico, aramaico e grego) e ainda valeu-se dos mais diversos estilos literários para tanto: textos discursivos; narrativos; sapienciais e seus subgêneros (como o provérbio, a parábola, o paralelismo); poesia; cronologias; epístolas, história, onomástica, etc. A Bíblia, todavia, tem enfrentado os mais brutais ataques ao longo dos séculos. Não são poucos os registros históricos que dão conta da ferocidade com que a Bíblia e seus portadores foram atacados, caluniados, vilipendiados, perseguidos, silenciados, aviltados, infamados e assassinados. Pior, contudo, que o ataque frontal e aberto que a Bíblia sofreu e sofre, foram as tentativas de desacreditá-la, diminuir sua relevância, esvaziá-la de seu poder. O desprezo pela Bíblia se tornou mais e mais forte com o advento do secularismo e, mais recentemente, pela negação de valores absolutos, a falta de sentido e a rejeição de uma verdade objetiva, universal e referencial que caracterizam o pós-modernismo, o qual Albert Mohler chama de “estado de espírito de nosso tempo” e que Franklin Ferreira chama de pós-cristianismo ou hiper-modernismo. Pior e mais letal ainda do que essa saraivada de chumbo pesado contra a Bíblia é o deconstrucionismo que a Bíblia – 11 –


Enriquecendo-se com a Bíblia sofreu dentro da própria comunidade cristã, mormente entre liberais e neo-ortodoxos e, mais recentemente, nos movimentos híper-pentecostais que suprimiram a autoridade e suficiência das Escrituras, substituindo-as ou equiparando-as a experiências místicas, novas revelações e autoridades que exageram o argumentum magister dixit. Mas a Bíblia tem permanecido contra todos esses vis ataques. John Blanchard, em seu livreto sobre a Bíblia, revela dados interessantes sobre a preservação das Escrituras, sua unidade, harmonia, atualidade e alcance de sua mensagem. Ele chama a atenção para o fato de a Bíblia ser o livro mais lido, distribuído e difundido de todos os tempos3. As traduções também impressionam. Blahchard diz: “Há 200 anos, a Bíblia, ou parte dela, estava disponível em apenas 68 idiomas; ao fim de 2002 este número havia subido para 2.2034”. Sendo revelação de Deus, ele mesmo se envolveu no projeto de proteção e preservação de sua Palavra. Deus estabeleceu que sua mensagem chegaria aos confins da Terra. Uma mensagem que ele considera imprescindível, necessária e vital. Por isso, devemos nos aproximar da Bíblia com 3 Somente de 1997 a 2002 quase 3 bilhões de Bíblias foram impressas e distribuídas pelas Sociedades Bíblicas Unidas. Em John Blanchard. Por que Acreditar na Bíblia (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2006)p. 5 4 John Blanchard. Por que Acreditar na Bíblia (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2006)p. 5.

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Apresentação reverência, temor, cuidado, atenção, dedicação, submissão, humildade e solicitude. Temos de amar a Bíblia. Assim fizeram os servos fieis do Senhor ao longo da história. Assim fizeram os pais da igreja e também os monges fiéis da idade média, que preservaram intacto e copiaram à exaustão e com rigorosa precisão o texto sagrado. Assim também fizeram os reformadores, que redescobriram a Bíblia e fizeram raiar a luz da aurora no horizonte tenebroso que assolava a Igreja quando bradaram com vigor e convicção: Sola Scriptura! Assim fizeram os puritanos. Talvez não tenha havido um período na historia da Igreja em que a Bíblia fosse tão lida, tão consumida, tão valorizada, tão estudada, tão reverenciada, tão venerada como no período dos puritanos. Eles amaram a Bíblia e ensinaram o camponês, o comerciante, o artesão, o mineiro, enfim, o povo a amar e valorizar as Escrituras. Desejo muito ver um despertamento para a Bíblia entre o povo de Deus em todo lugar e, especialmente, no Brasil. Todo verdadeiro avivamento foi precedido pela redescoberta da Bíblia e de sua autoridade, relevância e poder. É preciso que o cristão seja conhecido por seu amor e respeito à Bíblia. É preciso que o povo de Deus volte a ser conhecido pelos de fora como o povo do livro. Como “Bíblias”! O relançamento deste importante estudo de A. W. Pink é um convite ao povo de Deus de fala portuguesa a apreciar a mensagem da Bíblia, a entendê-la e aplicá-la em suas vidas. Este livro foi originalmente publicado na forma de artigos – 13 –


Enriquecendo-se com a Bíblia para o Jornal “Studies in Scriptures”, entre os anos de 1930 a 19325. De modo muito didático, Pink organizou os 10 capítulos em 7 pontos, precedidos por uma introdução ao capítulo. Cada capítulo trabalha um importante tema da teologia, onde o autor, com farta evidência bíblia, leva o leitor de volta à Palavra, para de lá extraírem sua instrução, exortação e correção nos caminhos de Deus. Pink faz desses seus estudos um pequeno manual, que visa ajudar o leitor a obter o maior proveito possível com a leitura das Escrituras. Mas essa ajuda é oferecida com uma palavra de alerta: Só o Espírito pode convencer o leitor da verdade, da justiça e do juízo. Só o Espírito pode aplicar as verdades da Escritura e torná-las mais desejáveis do que ouro e o destilar dos favos. Então o leitor sincero deverá pedir a Deus que mande seu Espírito soprar em seu coração e despertá-lo para provar e ver a bondade do Senhor, na Palavra. Que Deus abençoe aplique sua Palavra ao coração de cada leitor. Tiago J. Santos Filho Editor-Chefe

5 Texto online de Chapel Library, acessado na internet no site: http://www. chapellibrary.org/files/archive/pdf-english/pftw.pdf

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As Escrituras e o Pecado

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á sérias razões para crermos que, nestes últimos tempos, grande parte da leitura e do estudo da Bíblia não têm sido proveitosos para aqueles que com eles se têm ocupado. E, vamos mais longe, pois tememos que, em muitos casos, isso tem sido uma maldição, e não uma bênção. Estamos perfeitamente cientes de que esta é uma linguagem severa, mas não é mais forte do que a situação exige. Os dons de Deus podem ser submetidos a uso errôneo, e as misericórdias divinas podem ser alvo de abusos. O fato de que isso é realmente verdadeiro torna-se evidente nos frutos produzidos. Até o homem natural pode (e, com frequência, o faz) dedicar-se ao estudo das – 15 –


Enriquecendo-se com a Bíblia Escrituras com o mesmo entusiasmo e prazer com que se dedicaria ao estudo das ciências. Quando ele age assim, aumenta o seu cabedal de conhecimentos, mas também aumenta o seu orgulho. Assim como o químico atarefado em fazer experiências interessantes, o pesquisador intelectual da Palavra é invadido de satisfação, ao fazer ali alguma descoberta, mas a alegria deste não é mais espiritual do que a daquele. Além disso, assim como os sucessos de um químico acentuam geralmente o seu senso de importância própria, levando-o olhar com desdém os mais ignorantes do que ele mesmo, assim também, infelizmente, acontece com aqueles que investigam a numerologia, a tipologia, a profecia bíblica e outros temas semelhantes. O estudo da Palavra de Deus pode ser realizado com base em vários motivos. Alguns leem a Bíblia para satisfazer seu orgulho literário. Em certos círculos, tornou-se respeitável e popular a obtenção de um conhecimento geral do conteúdo da Bíblia, apenas porque a ignorância quanto à Bíblia é considerada uma falha na educação. Outros a leem para satisfazer seu senso de curiosidade, como o fariam com qualquer outro livro famoso. Ainda outros a leem para satisfazer seu orgulho sectarista. Estes consideram um dever estarem familiarizados com as crenças particulares de sua própria denominação, pelo que também – 16 –


As Escrituras e o Pecado buscam ansiosamente textos que provem e apoiem o que eles chamam de “nossas doutrinas”. Ainda há aqueles que leem a Bíblia com o propósito de argumentar eficazmente com aqueles que discordam de suas opiniões. Em toda essa atividade, não há qualquer pensamento sobre Deus, não há qualquer anelo pela edificação espiritual, e, por conseguinte, não há qualquer benefício genuíno para a alma. Então, de que maneira podemos nos beneficiar da Bíblia? A passagem de 2 Timóteo 3.16-17 não dá uma resposta clara para essa pergunta? O texto bíblico nos diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. Observemos o que é omitido: as Escrituras Sagradas não nos foram dadas para satisfazer nossa curiosidade intelectual ou nossas especulações carnais, e sim para capacitar-nos para toda boa obra, mediante o ensino, a reprovação e a correção. Ampliaremos isso com a ajuda de outros textos bíblicos. 1. Uma pessoa se beneficia espiritualmente quando a Palavra o convence de pecado. Este é o primeiro propósito das Escrituras: revelar a nossa depravação, desmascarar a nossa vileza, tornar co– 17 –


Enriquecendo-se com a Bíblia nhecida a nossa iniquidade. A vida moral de um homem pode ser irrepreensível, seu trato com os semelhantes pode ser sem faltas; mas, quando o Espírito Santo aplica a Palavra ao seu coração e à sua consciência, abrindo-lhe os olhos fechados pelo pecado, para que perceba a sua relação e a sua atitude para com Deus, ele exclama: “Ai de mim! Estou perdido” (Is 6.5). É desse modo que toda a alma verdadeiramente salva é levada a perceber a sua necessidade de Cristo. “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Lc 5.31). Contudo, somente quando o Espírito aplica a Palavra, com poder de Deus, a pessoa é levada a sentir-se enferma, enferma até à morte. Esta convicção, que impressiona o coração com o fato de que o pecado produziu tremenda devastação na constituição humana, não se restringe à experiência inicial que precede à conversão. Cada vez que Deus exalta a sua Palavra em meu coração, sou levado a perceber quão longe ando do padrão que Ele me apresenta, ou seja: “Tornai-vos santos também vós mesmos em todo vosso procedimento” (1 Pe 1.15). Aqui temos o primeiro teste a ser aplicado: quando leio sobre os tristes fracassos de diferentes personagens das Escrituras, isso me faz perceber quão parecido eu sou com eles? E, quando leio a vida bem-aventurada e perfeita como a de Cristo, isso me faz reconhecer quanto sou bastante diferente dele? – 18 –


As Escrituras e o Pecado 2. Uma pessoa se beneficia espiritualmente quando a Palavra o faz entristecer-se por causa do pecado. A respeito do ouvinte do tipo solo rochoso foi dito que “esse é o que ouve a palavra e a recebe logo, com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, sendo, antes, de pouca duração” (Mt 13.20- 21). Entretanto, a respeito daqueles que foram convencidos de pecado, sob a pregação de Pedro, está registrado que se sentiram compungidos em seu coração (ver At 2.37). O mesmo contraste se verifica hoje. Muitos ouvem um sermão floreado ou um discurso sobre a verdade dispensacional, que exibe a capacidade de oratória ou mostra a habilidade intelectual do orador, mas que, usualmente, não contém qualquer aplicação à consciência. Aquela exposição é recebida com aprovação, mas ninguém é humilhado diante de Deus, nem é levado, por ela, a andar mais perto dEle. Mas, quando um servo fiel do Senhor (que pela graça divina não busca obter reputação por “brilhantismo”) faz os ensinos bíblicos exercerem pressão sobre o caráter e a conduta, desvendando os tristes fracassos até dos melhores entre o povo de Deus, embora a multidão despreze o mensageiro, as pessoas verdadeiramente regeneradas se sentirão gratas pela mensagem que as leva a lamentar diante de Deus e a clamar: “Desventurado homem que – 19 –


Enriquecendo-se com a Bíblia sou!” (Rm 7.24). Isso acontece quando lemos pessoalmente a Palavra. E acontece quando o Espírito Santo a aplica de tal maneira, que somos levados a ver e a sentir nossa corrupção íntima, para que sejamos verdadeiramente abençoados. Que mensagem encontramos em Jeremias 31.19: “Na verdade, depois que me converti, arrependi-me; depois que fui instruído, bati no peito; fiquei envergonhado, confuso, porque levei o opróbrio da minha mocidade”! Querido leitor, você conhece esta experiência? O seu estudo da Palavra de Deus produz um coração quebrantado e leva-o a humilhar-se diante de Deus? Você é convencido de seus pecados, de tal modo que se arrepende diariamente diante de Deus? O cordeiro da Páscoa tinha de ser comido com “ervas amargas” (ver Êx 12.8). De modo semelhante, quando nos alimentamos realmente da Palavra, o Espírito Santo a torna “amarga” para nós, antes de torná-la doce ao nosso paladar. Notemos a ordem das coisas em Apocalipse 10.9: “Fui, pois, ao anjo, dizendo-lhe que me desse o livrinho. Ele, então, me falou: Toma-o e devora-o; certamente, ele será amargo ao teu estômago, mas, na tua boca, doce como mel”. Essa será sempre a ordem da experiência – primeiramente deve vir a lamentação, e somente depois vem o consolo (ver Mt 5.4): primeiro, a humilhação, depois, a exaltação (ver 1 Pe 5.6). – 20 –


As Escrituras e o Pecado 3. Uma pessoa se beneficia espiritualmente quando a Palavra o conduz à confissão de pecado. As Escrituras são úteis para a “repreensão” (ver 2 Tm 3.16). E a alma honesta está pronta a reconhecer suas próprias faltas. Mas sobre o homem natural a Bíblia diz: “Todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras” (Jo 3.20). “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador” – esse é o clamor do coração renovado. E cada vez que somos vivificados pela Palavra (ver Sl 119), recebemos nova revelação e convicção renovada de nossas transgressões aos olhos de Deus. “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13). Não há prosperidade nem frutificação espiritual (ver Sl 1.3) enquanto ocultamos, em nosso íntimo, as nossas culpas secretas. Somente quando elas são reconhecidas diante de Deus, em detalhes, gozamos da sua misericórdia. Não há paz real para a consciência, nem descanso para o coração, enquanto escondemos a carga do pecado não confessado. O alívio é-nos outorgado somente quando confessamos o pecado a Deus. Observemos bem a experiência de Davi: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos, pelos meus constantes ge– 21 –


Enriquecendo-se com a Bíblia midos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim; e o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Sl 32.3-4). Essa linguagem figurada, mas vigorosa, lhe parece compreensível? Ou a sua própria história espiritual a explica? Há muitos versículos nas Escrituras que nenhum comentário pode interpretar satisfatoriamente, mas a experiência pessoal pode fazê-lo. Verdadeiramente benditas são estas palavras: “Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado” (Sl 32.5). 4. Uma pessoa se beneficia da Palavra, espiritualmente falando, quando ela odeia profundamente o pecado . “Vós que amais o Senhor, detestai o mal; ele guarda as almas dos seus santos, livra-os da mão dos ímpios” (Sl 97.10). “Não podemos amar a Deus sem odiar aquilo que Ele odeia. Não somente devemos evitar o mal, recusando-nos a continuar nele, mas também devemos declarar guerra contra o mal, voltando-nos contra ele com indignação íntima” (C. H. Spurgeon). Um dos testes mais seguros que podemos aplicar à conversão professa é a atitude do coração para com o pecado. Onde quer que a – 22 –


As Escrituras e o Pecado santidade houver sido implantada, haverá necessariamente repulsa por tudo que é profano. E, se nosso repúdio ao mal for genuíno, seremos gratos quando a Palavra reprovar o mal que nem suspeitávamos. Essa foi também a experiência de Davi: “Por meio dos teus preceitos consigo entendimento; por isso detesto todo caminho de falsidade” (Sl 119.104). Observemos atentamente que não devemos apenas abster-nos do pecado, e sim “detestar”, não “alguns” ou “muitos” pecados, e sim “todo caminho de falsidade”, e não apenas “todo mal”, mas também “todo caminho de falsidade”. E o salmista continua: “Por isso, tenho por, em tudo, retos os teus preceitos todos e aborreço todo caminho de falsidade” (Sl 119.128). No entanto, no caso do ímpio, acontece exatamente o contrário: “De que te serve repetires os meus preceitos e teres nos lábios a minha aliança, uma vez que aborreces a disciplina e rejeitas as minhas palavras? “ (Sl 50.16-17). Em Provérbios 8.13, lemos: “O temor do Senhor consiste em aborrecer o mal; a soberba, a arrogância, o mau caminho e a boca perversa, eu os aborreço”. Ora, esse temor piedoso nos vem por meio da leitura da Palavra (ver Deuteronômio 17.18-19). Com razão, alguém disse: “Enquanto não odiarmos o pecado, não poderemos mortificá-lo; ninguém clamará contra o pecado, como os judeus clamaram contra o Cristo: Crucifica-o! Crucifica-o!, – 23 –


Enriquecendo-se com a Bíblia enquanto não abominar realmente o pecado como Cristo foi abominado” (Edward Reyner, 1635). 5. Uma pessoa se beneficia espiritualmente quando a Palavra a leva a abandonar o pecado. “Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor” (2 Tm 2.19). Quanto mais lemos a Palavra com o propósito definido de descobrir o que é agradável e o que é desagradável ao Senhor, mais a sua vontade se torna conhecida por nós. E, se o nosso coração for correto diante dEle, os nossos caminhos se harmonizarão muito mais com a vontade dEle; e andaremos “na verdade” (ver 2 Jo 4). No fim de 2 Coríntios 6, algumas promessas preciosas são dadas aqueles que se separarem dos incrédulos. Observemos nesta passagem a aplicação feita pelo Espírito Santo. O Senhor não diz: “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, consolemo-nos e nos entreguemos à complacência”, e sim: “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito” (2 Co 7.1). “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3). Esta é outra regra importante por meio da qual devemos nos examinar frequentemente: a leitura e o estudo da Palavra de Deus estão produzindo pureza em – 24 –


As Escrituras e o Pecado minha conduta? Desde os dias antigos, faz-se a pergunta: “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho?” E a resposta divina é: “Observando-o segundo a tua palavra” (Sl 119.9). Sim, não basta ler a Palavra, crer nela ou memorizá-la. É preciso haver a aplicação pessoal da Palavra ao nosso “caminho”. Quando “damos ouvidos” a exortações como às que estipulam: “Fugi da impureza” (1 Co 6.18), “Fugi da idolatria” (1 Co 10.14), “Foge destas coisas” – da cobiça por dinheiro (1 Tm 6.11), “Foge, outrossim, das paixões da mocidade” (2 Tm 2.22), somos levados a separar-nos do mal na prática, pois assim o pecado terá sido não somente confessado, mas também “deixado” (ver Pv 28.13). 6. Uma pessoa se beneficia espiritualmente quando a Palavra o fortalece contra o pecado. As Escrituras Sagradas nos foram dadas não somente com o propósito de revelar-nos a nossa pecaminosidade inata ou nos mostrar as muitas maneiras pelas quais carecemos “da glória de Deus” (ver Rm 3.23), mas também para nos ensinar como podemos obter livramento do pecado, como podemos ser livres de desagradar a Deus. “Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti” (Sl 119.11). E exige-se isto de cada um de nós: – 25 –


Enriquecendo-se com a Bíblia “Aceita, peço-te, a instrução que profere e põe as suas palavras no teu coração” (Jó 22.22). O que precisamos é, especificamente, os mandamentos, as advertências, as exortações da Bíblia, para que nos sejam como um tesouro particular. Devemos memorizá-los, meditar neles, orar a seu respeito e praticá-los. A única maneira eficaz de se evitar que um campo seja invadido por ervas daninhas é semear nele a boa semente: “Vence o mal com o bem” (Rm 12.21). Por conseguinte, quanto mais “ricamente” estiver habitando em nós a Palavra de Cristo (ver Cl 3.16), menos espaço haverá para o pecado em nosso coração e em nossa vida. Não basta admitirmos a veracidade das Escrituras. É necessário que elas sejam recebidas em nossas afeições. Uma verdade bastante solene é aquela pela qual o Espírito Santo define a base da apostasia: “Não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (2 Ts 2.10). “Se esta semente ficar apenas na língua ou na mente, para que seja apenas uma questão de palavras ou de especulação, não demorará muito para que desapareça. A semente que fica na superfície será apanhada pelas aves do céu. Portanto, que cada um a esconda no profundo do seu ser; que ela passe dos ouvidos à mente, da mente ao coração e penetre cada vez mais profundamente. Somente quando ela exerce um domínio soberano sobre o coração, é que a recebe– 26 –


As Escrituras e o Pecado mos na força do seu amor – quando ela é mais querida para nós do que nossas concupiscências mais amadas, então, nos apegamos a ela” (Thomas Manton). Não existe nada, além da Palavra de Deus recebida em nossos afetos, que nos preserve das contaminações deste mundo, que nos livre das tentações de Satanás, que seja um protetor tão eficaz contra o pecado. “No coração, tem ele a lei do seu Deus; os seus passos não vacilarão” (Sl 37.31). Enquanto a verdade estiver agindo em nosso íntimo, despertando nossa consciência e sendo realmente amada por nós, seremos preservados da queda. Quando José foi tentado pela esposa de Potifar, ele respondeu: “Como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gn 39.9). A Palavra de Deus estava no coração de José, por isso ele prevaleceu sobre os seus desejos. Esta é a santidade inefável, o grande poder de Deus, que é poderoso tanto para salvar como para destruir. Nenhum de nós sabe em que ocasião será tentado. Portanto, é necessário que estejamos preparados. “Quem há entre vós que ouça isto? Que atenda e ouça o que há de ser depois?” (Is 42.23). Sim, cumpre-nos antecipar o futuro e fortalecer-nos intimamente para ele, entesourando a Palavra em nosso coração, para as emergências futuras. – 27 –


Enriquecendo-se com a Bíblia 7. Uma pessoa se beneficia espiritualmente quando a Palavra leva-a a fazer aquilo que é o contrário do pecado. “O pecado é a transgressão da lei” (1 Jo 3.4). Deus diz: “Faça isto”, mas o pecado replica: “Não quero”. Deus diz: “Não faça isto”, e o pecado responde: “Farei”. Assim, o pecado é rebeldia contra Deus, é a determinação de seguirmos o nosso próprio caminho (ver Is 53.6). Isso nos capacita a entender que o pecado é um tipo de anarquia no campo espiritual; e pode ser compa­rado com o ato de sacudir uma bandeira vermelha no rosto de Deus. Ora, a atitude oposta ao pecado contra Deus é a submissão a Ele, assim como o contrário da iniquidade é a sujeição à lei. Portanto, fazer o contrário do pecado é andar na vereda da obediência. Esta é uma das grandes razões por que as Escrituras nos foram dadas: tornar conhecido o caminho pelo qual devemos andar e que agrada a Deus. As Escrituras são proveitosas não somente para repreensão e correção, mas também para a “instrução na justiça”. Neste ponto, achamos outra regra importante pela qual devemos examinar frequentemente a nós mesmos. Os meus pensamentos são formados, o meu coração é controlado, e a minha conduta e as minhas obras são reguladas pela Palavra de Deus? Eis o que o Senhor exige: – 28 –


As Escrituras e o Pecado “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1.22). E nestas palavras de Jesus temos a afirmação de como devemos expressar nossa gratidão e afetos para com Ele: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). Para isso precisamos da ajuda de Deus. Davi orou: “Guia-me pela vereda dos teus mandamentos, pois nela me com­prazo” (Sl 119.35). “Precisamos não somente de luz para reconhecer o nosso caminho, mas também de um coração bem disposto para andar nesse caminho. A orientação é necessária por causa da cegueira das nossa mente. E os impulsos eficazes da graça são necessários por causa da fraqueza de nosso coração. Não cumpriremos o nosso dever por meio dos conceitos da verdade, se não os abraçarmos e os seguirmos” (Manton). Notemos que o salmista falou sobre a “vereda dos teus mandamentos”. Ele não se referiu a algum caminho pessoal, autoescolhido, e sim a um caminho bem delineado. Não é uma vereda “pública”, e sim uma “vereda” particular. Oh! que tanto o escritor como o leitor se avaliem, honesta e diligentemente, na presença de Deus, por meio destes sete critérios! O estudo da Bíblia, querido leitor, tem feito de você uma pessoa mais humilde ou mais orgulhosa – orgulhosa do conhecimento que adquiriu? – 29 –


Enriquecendo-se com a Bíblia Esse estudo o eleva na estima de seus semelhantes ou o humilha na presença de Deus? Produz em sua experiência uma atitude de mais profunda repulsa e desprezo por si mesmo ou o torna mais complacente? Tem feito com que pessoas de seu convívio, as quais talvez você ensine, digam: “Gostaria de ter o seu conhecimento sobre a Bíblia”? Ou o tem levado a orar: “Senhor, dá-me a fé, a graça e a santidade que tens dado a meu irmão e professor”? “Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto” (1 Tm 4.15).

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Enriquecendo-se com a Bíblia  

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