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Domingo, 17 de março de 2013

Jornalistas, colaboradores e pessoas que viveram a história do Diário da Manhã foram convidados para relatar, em textos, suas experiências sobre os 33 anos de circulação do jornal. Muitos fizeram questão de ressaltar que o DM é fruto da saga do semanário Cinco de Março, que durante 25 anos lutou contra a corrupção, o jaguncismo e a ditadura militar em Goiás. Cinco de Março e Diário da Manhã somam 58 anos de idealismo dos jornalistas Consuelo Nasser e Batista Custódio em defesa da liberdade de imprensa. O editor-geral preferiu não participar da edição do conteúdo para que jornalistas e colaboradores manifestassem livremente sua visão e opinião. Arthur da Paz, Lorimá Dionísio - Mazinho e Welliton Carlos – Editores do Especial de 33 anos


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Diário da Manhã

ESPECIAL

GOIÂNIA, DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2013

MEMÓRIA

Um raio em manhã de céu limpo Nascido durante a ditadura, o Diário da Manhã clareou a liberdade e trouxe à tona o espírito democrático do então governador Ary Valadão FOTOS: ARQUIVO DM

Cartaz de lançamento do jornal Diário da Manhã em 1980

Carlos Alberto Santa Cruz Especial para

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Diário da Manhã

o começo dos anos 80 do século passado, a ditadura militar de 64 agonizava e, cá fora, a manhã de Thiago de Melo começava a rajar o horizonte de listrões vermelhos, da cor da liberdade; e o povo de Chico Buarque não andava mais falando de lado e olhando pro chão; as portas do exílio foram destrancadas e o comandante Luiz Carlos Prestes desceu no Galeão livre, leve e solto, seguido de Brizola e Arrais; as cadeias políticas foram quebradas. O voto voltou a valer. Foi nesse lusco fusco de liberdade que nasceu o jornal Diário da Manhã, uma clarinada de esperança na madrugada nova do Centro-Oeste, um raio fulgurante em manhã de céu azul. O jornal nasceu no governo de Ary Valadão, que não se incomodou nem um pouquinho com o surgimento do novo diário, que tinha o DNA da liberdade, do combate e da contestação, pois vinha dos jornalistas Batista Custódio e Consuelo Nasser, forjados e temperados nas oficinas do semanário Cinco de Março. E o Cinco de Março não foi apenas um jornal, era a voz dos que não tinham voz, foi um muro aonde o povo vinha escrever suas necessidades, o breviário onde os desconsolados vinham rezar sua oração, uma tocha acesa iluminando os caminhos dos que não tinham estradas, o dobrar dos sinos para os que ainda queriam crer. O jornal acordava Goiás todas as segundas-feiras apontando desmandos, corrupção e tirania nos governos e nos poderosos, nos momentos mais arreganhados da ditadura. A cada vez que empastelavam o semanário, ele vinha mais letal, e às segundas-feiras o povo se levantava mais cedo para disputar o jornal nas bancas, e os corruptos também, porque tinham o sono interrompido. Durante mais de 20 anos, Batista Custódio viveu e sobreviveu desafiando governos e desgovernos numa terra bárbara em que chacinavam-se jornalistas à luz do dia, em praça pública, e o mandante ainda se homiziava no Palácio das Esmeraldas. Batista não morreu e nem sequer foi espancado, como era moda naquele

tempo – um milagre. Foi preso, mas também queria o quê? Um dia, eu acompanhei o senador Benedito Vicente Ferreira ao cárcere do DI, onde Batista cumpria pena de oito meses por crime de opinião. O senador goiano estava acompanhado do também senador Eurico Rezende, líder do governo no Senado. Benedito me disse que o seu colega iria tirar Batista da cadeia. Lá chegamos e eu fiquei esperando, enquanto os dois senadores entraram para falar com o preso. Depois de quase uma hora de lá saíram e eu entrei. Batista me disse que acabara de se recusar a assinar um documento que o líder do governo federal lhe trouxera em troca de sua liberdade imediata. “Eu prefiro cumprir a pena até o fim, a ter que assinar um documento que desonra a minha biografia”– me disse Batista. Antes, durante e depois da sua prisão, Batista escrevia em roda pé da primeira página do Cinco de Março artigos que eram recortados e pregados nos murais das escolas, dos clubes e até das repartições públicas. Eram textos lancinantes na qualidade e na quantidade. Atingia todos os degraus do lirismo, da temeridade, do picaresco e da ironia. Nunca mais ninguém escreveu igual.

Nem ele mesmo. O Cinco de Março era um jornal feito a mão e com o coração. Além de Batista e Consuelo, lá estavam Jávier Godinho, o jornalista que mais escreveu em Goiás nos últimos 50 anos; Antônio José de Moura, Waldomiro Santos, Aroldo de Brito, Anatole Ramos, Jesus Freire, Sebastião Povoa, Geraldo Vale, Carmo Bernardes, Oscar Dias, Djalba Lima, Neiron Cruvinel, Paulo Gonçalves, José Morais e outros jornalistas brilhantes da imprensa goiana. Lá na retaguarda estavam Paulo Roberto Neves de Souza, Lourival Nunes, José Morais, Manoel Pescador, Cezar Borges, Luiz Antônio de Souza e Lázaro Custódio dos Santos, um homem inteiro, campeão da ponderação e da honestidade.

O DEMOCRATA O Diário da Manhã surgiu então sob as barbas do governo Ary Valadão, o último delegado da ditadura em Goiás, mas que, na prática, foi o governo mais democrata em toda a nossa história. Ary entendeu logo o salto de qualidade que Goiás dava em comunicação e foi coerente com a sua história de udenista progressista. Como deputado, muitas vezes bateu de frente com o regime militar: votou contra a cassação do

deputado Márcio Moreira Alves, a favor do divórcio do senador Nelson Carneiro, protestou no fechamento do Congresso e ajudou tirar da cadeia muito preso político (eu mesmo fui um deles). Em momento algum Ary fez embargo financeiro ao Diário da Manhã, negando-lhe anúncios. Ao contrário: tratou o novo diário em pé de igualdade com O Popular, embora o jornal tenha patrocinado a campanha do candidato da oposição ao governo de Goiás, Iris Rezende Machado, que veio a ser eleito com mais de 60 porcento dos votos. Na época, Batista Custódio e toda a equipe do jornal acreditavam que Iris era o salvador do Estado. E quem não acreditava? O Diário da Manhã surgiu do tamanho das grandes publicações nacionais, um jornal à altura do eixo Rio-São Paulo e que chegou a receber da Academia Brasileira de Letras o prêmio de “o terceiro melhor jornal do Brasil”. O Diário da Manhã era feito pelos chamados “monstros sagrados do jornalismo brasileiro”: Milton Coelho da Graça, Mino Carta, Aluísio Biondi, Cláudio Abramo e foi editado durante muito tempo por esse Quixote, alucinado pela sustentabilidade, Washington Novaes, que teima

Ary Valadão foi o governador que apoiou o lançamento do Diário da Manhã

em pedir ao capitalismo respeito ao meio ambiente. O capital só respeita o lucro. O capitalista tem o coração no estômago e o intestino no coração. Aquele foi o grande momento de Goiás, O Diário da Manhã foi um magnífico vendaval “nessa desgraçada e desoladora paisagem política de Goiás”, como definia Nasser. Nos anos 80, o jornal virou cartilha nas universidades, mural dos exilados políticos que retornavam à Pátria e a voz dos que foram silenciados durante toda a ditadura. No miolo da pátria, afinal um jornal cheirando as coisas novas, e que era mais lido nos gabinetes de Brasília do que os outros. Rara era a semana em que um deputado ou senador não subia à tribuna, escorando-se no Diário da Manhã, ora para ler matéria de alto interesse público, ora para ajudá-lo em sua oração. Por sorte ou por azar, eu acabei secretário de Comunicação do primeiro governo de Iris Rezende. Quem diria? Em pouco mais de um ano, o governo que o Diário da Manhã ajudara a eleger passou a olhar com desconfiança e restrição o comportamento do jornal. Eu saí da secretaria, e o governo retirou todos os anúncios do jornal, até editais. Chegou ao ponto de a

Celg interromper o fornecimento de energia às instalações do jornal, que só foi restabelecida por ordem do ministro do Interior do governo federal. O embargo financeiro do governo estadual foi tão brutal que um juiz governista e apressado, por motivo irrelevante decretou a falência do jornal e mandou fechá-lo, interrompendo o mais fascinante capítulo da história da imprensa goiana. Fechar jornal é delito mais grave do que fechar escolas. Alexandre, o bárbaro macedônio, às vésperas de dominar o mundo, às portas de Alexandria, ordenou aos seus exércitos: “destruam tudo, menos a casa de Píndaro, o poeta.” A casa de Píndaro era a biblioteca dos gregos e guardava todas as publicações da cultura helênica. Todos os grandes jornalistas da imprensa goiana ajudaram a fundar o Diário da Manhã, e eles apareceram neste painel exposto nos principais pontos da cidade e que hoje decora em tamanho menor, a redação do DM. A miniatura foi cedida pelo jornalista Ivan Mendonça, que também faz parte desta história, a história mais forte da imprensa goiana dos últimos 50 anos, só comparável à história do Cinco de Março que nasceu no chão da greve.

Editor Batista Custódio defendeu a candidatura de Iris Rezende


Diário da Manhã

ESPECIAL

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MENSAGEM

Parabéns ao Jornal do Leitor Inteligente FOTOS: ARQUIVO DM

Marconi Perillo Especial para Diário da Manhã

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umprimento o Diário da Manhã, este jornal ousado e vigoroso no trato da notícia e da opinião, características que o acompanham desde a fundação. Sob o comando do editor geral Batista Custódio, sempre atento e antenado com seu tempo, o DM rompeu barreiras para mostrar que a luta por um jornalismo comprometido com os anseios do seu público leitor é fundamental para seu fortalecimento como um meio de comunicação responsável. Admiro Batista Custódio por

sua capacidade de romper fronteiras e liderar mudanças. Com dedicação, o Diário da Manhã empresta uma valiosa ajuda ao aperfeiçoamento do jornalismo, em forma e conteúdo, tornando concretos dessa maneira avanços qualitativos muito importantes para a comunicação em Goiás. Que desse bojo emerjam novas conquistas. Cumprimento toda a equipe do Diário da Manhã, que demonstrou garra e competência na produção de um dos mais importantes veículos de comunicação do País e que nestes 33 anos se doou e se dedicou na concretização de um trabalho meritório. Tenho absoluta consciência da posição estratégica do DM na luta pela consolidação de um Estado forte, estruturado, social-

Tenho absoluta consciência da posição estratégica do DM na luta pela consolidação de um Estado forte, estruturado, socialmente justo, acolhedor e sintonizado com as grandes mudanças”

mente justo, acolhedor e sintonizado com as grandes mudanças. Nosso governo em nenhum momento se apartará da sua mais genuína essência democrática. A democracia jamais poderá prescindir de uma imprensa livre, vigorosa e atenta às ações de todos os agentes que compõem a sociedade. Manteremos os propósitos firmes, a confiança em alta e, sobretudo, a transparência, a fé e o

trabalho como alicerces para seguir adiante e vencer obstáculos. O Diário da Manhã é uma instituição que zela por esses princípios. Recebam, portanto, o Diário da Manhã e toda sua equipe, os nossos cumprimentos. E continuem firmes nesta jornada de grandes êxitos. (Marconi Perillo é governador do Estado de Goiás)

VIAGEM NO TEMPO

A história escrita por quem faz jornal

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ste caderno especial sobre os 33 anos de fundação do Diário da Manhã foi idealizado para reunir comentários, relatos, opiniões e histórias de pessoas que sempre estiveram ligadas ao jornal, sejam como leitor, colaborador ou profissional de imprensa. No dia 12 de março de 1980 o DM deu continuidade ao projeto de o Cinco de Março, também editado pelos jornalistas Batista Custódio e Consuelo Nasser, um semanário que ressaltava o jornalismo investigativo em defesa dos interesses do povo goiano. O Diário da Manhã passou por várias fases – desde o festivo lançamento, reconhecimento nacional pela sua qualidade, crises financeiras até ao fechamento por falência em 3 de outubro de 1984 e reabertura dois anos depois. Nessa trajetória o jornal foi feito por centenas de jornalistas, colaboradores e estagiários que buscaram a boa prática na escola de textos e reportagens da redação. Os abalos políticos e financeiros foram constantes por

causa da ousadia do jornal e todos eles superados pelo ideal e espírito de luta de Batista Custódio. Todavia, e apesar dos contratempos, o DM impera como mídia moderna e reflexiva. Foi a mais inovadora na Internet, a mais incisiva na participação democrática do leitor (criou conselhos editoriais populares) e a mais completa em termos de formação dos melhores profissionais do mercado. Pelo DM, e seu DNA Cinco de Março, passaram os melhores jornalistas do Brasil, ganhadores de prêmio Esso e regionais. Em todos os momentos, o DM foi uma central de notícias e ao mesmo tempo esfera pública de defesa do cidadão. Pelas páginas do jornal, e pelo site www.dm.com.br, passou a recente história de Goiás. Grandes tragédias, momentos de alegria, informações bombásticas, breaking news, entrevistas históricas, todos dados que interessam Goiás e o Brasil, chegaram aos leitores através da dedicação do DM.

(Os editores, Lorimá Dionísio - Mazinho e Welliton Carlos)

Primeira edição do Diário da Manhã, veiculada dia 10 de março de 1980, antecipando o lançamento oficial, ocorrido dois dias depois No grito do pequeno jornaleiro o povo se acostumou a ouvir as manchetes do novo jornal goiano


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Diário da Manhã

ESPECIAL

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HISTÓRIA

Uma redação do barulho O ambiente era alegre e muito responsável. A qualidade da edição era questão de honra para todos. O peso do trabalho era dividido e depois debatido no “ramal 51”, uma lanchonete nos fundos do prédio do DM, onde não faltava cerveja ARQUIVO DM

Isanulfo Cordeiro

CRUSH NAS PAREDES Toda Redação, sabe-se bem, tem de ser um local propício à criatividade. Pois para decorá-la o escolhido por Batista Custódio foi um arquiteto que na época (não sei se suas convicções persistem) adotava o pensamento e os trajes cor de jerimum do mestre indiano Bagwan Shree Rajneesh. O arquiteto mandou pintar de duas cores nossas paredes: laranja a metade inferior e verde a de cima. Parecia propaganda de Crush. Doía a cabeça só de olhar. O talento do arquiteto evidenciou-se quando nos entregou o banheiro masculino recém-reformado. Tinha dois vasos sanitários que, sem uma imprescindível divisória, esperavam que ocupantes lado a lado desfrutassem deles simultaneamente...

Especial para

Diário da Manhã

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oi difícil? Foi. Enfrentamos salários atrasados, instabilidade administrativa e trabalho além do volume razoável. Fortes batalhas. Mas, de 1980 a 1984, da fundação ao auge da crise do recém-nascido Diário da Manhã, período que vivi profundamente, preponderava entre nós, os jornalistas daqui, o pressentimento de que de Goiás sairia uma revolução no jornalismo brasileiro. Mais adiante depararíamos com o avassalador problema da sustentabilidade financeira do projeto. Mas, até então, trabalhamos e curtimos muito. Em 1985 retornei ao O Popular, de onde saíra em 1979, para mais 20 anos de desafios, projetos e conquistas junto a novos e antigos amigos. Mas o aniversariante de hoje é o Diário e, como em todos os anos, este jornal comemora justificadamente a data publicando depoimentos sobre sua história. Tudo de sério e profundo, parece-me, já foi contado. Então, ao atender ao convite gentil deste grande personagem da história que é Batista Custódio, conto aqui alguns casos interessantes vividos naquela Redação vibrante.

O RAMAL 51 Cada uma das editorias no Diário da Manhã, prédio grande na Avenida 24 de Outubro, quase em frente ao campo do Atlético e vizinho de um posto de gasolina do José Carlos Bretas, tinha seu telefone, um ramal de dois dígitos. Assim: editoria de Política, ramal 32; editoria do DM Revista, ramal 26: editoria de Esportes, ramal 18, e por aí vai. Como o trabalho nos ocupava o dia inteiro, o almoço e o jantar tinham de ser por ali mesmo. Quase sempre valíamo-nos de um boteco. Nos fundos, passado o corredor da garagem, o barzinho servia caldo de mocotó, algum tipo de carne, arroz e feijão. Às vezes tinha espetinhos; o que não podia faltar era cerveja bem gelada. Um lugar bom assim, refúgio verdadeiro, tinha de permanecer disfarçado dos clientes que teimavam em nos chamar no auge das horas sagradas das refeições ou de eventuais e benditos momentos de lazer: a esses a secretária e tutelar Carmem Lúcia res-

Registro fotográfico da redação do Diário da Manhã, na década de 1980 pondia que estávamos ocupados numa entrevista no “ramal 51”.

SIRON NA COPA Os jogos da Seleção Brasileira cobravam criatividade, matéria prima abundante. E convocado, nosso artista maior Siron Franco não negava fogo. Na Redação, em plena torcida que trabalhava e ao mesmo tempo gritava a cada lance de perigo no jogo, Siron dava suas pinceladas numa cartolina e propunha uma ideia para a capa do caderno especial contando tudo sobre a partida. A sugestão era aprovada ali mesmo, na Editoria de Arte, na hora, em meio à alegria coletiva que nos embriagava.

valor transcendental e científico. E o caderno especial que produzimos da passagem do Papa no Distrito Federal foi uma verdadeira bênção, um trabalho muitos pontos acima, de forma e conteúdo, do que fizeram Folha de S. Paulo, O Globo e outras publicações naquele momento, para nós, tão importantes quanto o DM. Na pauta, pais de planos Na Editoria de Economia, formatada inicialmente pelos craquíssimos professores da UFG convertidos em editores Sergio Paulo Moreyra e Servito Menezes, em seguida comandada por Marco Antônio Tavares Coelho

e depois por este escriba, só havia cobras motivadíssimos pela criatividade contagiante: Lauro Veiga Jardim Filho, Aymés Beatriz, Abadia Lima, Eliana Prudente e outros jornalistas também altamente cotados. Fazíamos belas reportagens locais e, aos correspondentes do Rio e São Paulo, encomendávamos entrevistas vibrantes inclusive com jovens scholars recémvindos de doutorados no exterior, a exemplo de Edmar Bacha, que um pouco mais adiante se notabilizariam transubstanciados que foram, muitos deles, em pais de planos econômicos como o Real.

GUGU COMANDA A FESTA A Redação era uma sala grande, sem divisórias, povoada estridentemente por algo em torno de uma centena de jornalistas e visitantes, todo mundo falando alto, batendo à máquina, telefones tocando, cigarros acesos, velhos ventiladores tentando em vão vencer o calor e Luiz Gugu Augusto da Paz saudando aos gritos qualquer um que entrasse pela porta da frente: “Ahú, potência sexual!”, para ouvir aplausos gerais de resposta a este bem-humorado cumprimento. Uma farra!

A CEDILHA ASSASSINA Num de meus primeiros trabalhos ali, pretendi ensinar ao leitor, em tempos watergateanos, como fazer um transmissor FM sem fio do tamanho de uma caixa de fósforos, com transistores, resistores etc. bem baratinhos encontráveis facilmente naquela loja especializada da Rua 3, no Centro. Com um passo a passo muito bem desenhado por Mariosan Gonçalves e o texto apropriado, batizei minha reportagem especial de A espionagem ao alcance de todos. Pois alguém da revisão cuidou de “consertar o erro”. E saiu lá, bem grande, ao lado de minha assinatura, o inesquecível título A espionagem ao alcançe de todos. Com cedilha e tudo.

CADERNO DO PAPA João Paulo II veio ao Brasil, e o Diário da Manhã, claro, tinha de fazer bonito. Convocamos nossa sucursal de Brasília que, inteira, devotou-se à tarefa de corpo e alma. E não era uma sucursal qualquer. Para dar uma ideia: seu diretor era ninguém menos que Pompeu de Souza, o inventor do lead, um dos criadores da revista Veja, sacrossanto e venerável guia espiritual de todos quantos jornalistas fossem, e seu secretário-geral, Jayme Sautchuk, que reencontro agora em março, para minha alegria, envolvido com questões relacionadas à transparência do céu de Cristalina e outras do mais alto

Siron Franco ilustrou o jornal durante a Copa de 1982

Marcos Antônio Coelho, ex-editor de Economia do DM

Salmo no Salerno sob a arquibancada do Atlético Clube Goianiense Nosso mítico colega paulista Cláudio Abramo (aquele da definição “jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter”) apareceu um dia para conhecer a experiência, comandada na época por Washington Novaes. Era sábado e, no rápido intervalo de que dispúnhamos para almoçar, nós o levamos ao Don Salerno, restaurante especializado mais em atender os trânsfugas da noite nos buracos das madrugadas. E não é que o refinado e genial Cláudio elogiou muito a meia carcaça de frango assado e arroz que lhe serviram numa daquelas mesas mal ajambradas debaixo das arquibancadas do campo do Atlético?

PALHEIRO PARA MALUF O inafastável (mesmo em Goiânia) Paulo Maluf entra na Redação para uma entrevista e de longe sente o cheiro do cigarro de

MORTE EM PAZ DO ASSASSINO

Jornalista Cláudio Abramo

À época, o presidenciável Paulo Maluf

palha que Jayro Rodrigues acabava de acender em sua mesa. Aproximase e diz, com a pronúncia que todos sabem imitar: – O prezado jornalista faz-me lembrar os palheiros do senhor meu pai... Me dá um?

E Jayro, com uma ponta de orgulho, puxa uma palha de milho, pica pacientemente um pedaço de fumo de rolo made in Mossâmedes e, sem qualquer preconceito ideológico, serve sorrindo um pito ao então candidato dos militares à Presidência da República.

José Renato de Assis, jovem repórter de muito valor, realiza uma pauta que lhe passei no DM Revista, que sempre trazia belas reportagens. A daquela vez, ilustrada por um cano de espingarda apontando para o rosto do leitor, exibia uma entrevista com o feroz assassino Ramiro, chamado pela imprensa na época de Bandido da Cartucheira. O título: Cara a cara com Ramiro. Um trabalho impactante, revelador, exclusivo, ousado. Claro que merecia repercussão. José Renato de Assis, incansável, volta à cadeia para nova reportagem com o facínora. E retorna à Redação desta vez triste, de mãos vazias. Contrariando toda a lógica da violência que cultivara matando gente a torto e a direito com disparos de cartucheira nas fazendas por onde errava em sua trajetória criminosa, Ramiro havia morrido só e pacificamente, como um passarinho,

enquanto dormia num catre da Casa de Prisão Provisória.

DIETA DE BABA E estas histórias do DM não podem acabar sem o toque do repórter Rosalvo Leomeu Gonçalves, redimido do sertão de Arraias para alcançar o sétimo círculo do paraíso – os ensinamentos de outro guru indiano da moda à época, o até mais tarde imortal Sai Baba (que Shiva o tenha!). Nós, os incréus, num lance de ousadia pagã, ousamos oferecer-lhe num sábado de chuva uma vigorosa feijoada no Ramal 51. Rosalvo Leomeu imediatamente recusa o convite: – Amigos, desconhecem vocês que eu sou ovo-lácteo-vegetariano? (Isanulfo Cordeiro – é jornalista e Assessor de Imprensa do governo Marconi Perillo)


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HISTÓRIA

O maior sucesso no aniversário do DM Futuro do jornal depende do amadurecimento profissional e da pena dos editores Sabrina Ritiely e de Arthur da Paz

Alfredo Nasser, líder inesquecível

Jávier Godinho Especial para

Diário da Manhã

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s 33 anos de fundação, que o Diário da Manhã está comemorando hoje, constituem o mesmo tempo de sua contribuição à História de Goiás. Em 12 de março de 1980, ele começou a ajudar a escrevê-la, esbanjando pioneirismo. Foi o primeiro diário em Goiás realmente diário, circulando nos sete dias da semana; o primeiro a funcionar com conselho de redação, o primeiro em cores, o primeiro com site na internet, o primeiro a informatizar totalmente a redação e o setor gráfico, o primeiro com todas suas páginas em cores. Depois dele, nunca mais a imprensa goiana foi a mesma. Todos os jornais tiveram que se modernizar e, os que não conseguiram, desapareceram. Além disso, a contratação pelo DM de grandes nomes do jornalismo paulista, carioca e brasiliense provocou uma revolução de qualidade entre nós. Em dezembro de 1979, este humilde escriba recebeu em casa a visita de Batista Custódio e Consuelo Nasser. Trabalháramos no Cinco de Março, de 1964 a 1970, nos árduos tempos da ditadura, sitiados entre a censura política e a repressão. O casal nos falou do novo projeto, ainda segredo comercial, e seus olhos faiscavam de entusiasmo. Batista já havia acertado com valores da grande imprensa do País e, em Goiás, selecionara profissionais para sua equipe. “O jornal terá expressão nacional e, em breve tempo, também internacional” – garantia ele, pensando enorme. Os dois nos deixaram lisonjeado com o convite para integrar sua equipe. A notícia do lançamento do Diário da Manhã logo ganhou as ruas e nos habituamos a ouvir colegas e empresários diagnosticando a ousadia: – Não passa de uma aventura... Em março de 1984, acertávamos nosso ingresso no DM, para suceder, com muita honra, nada menos do que a Washington Novaes, realmente uma das expressões do jornalismo brasileiro, extremamente ético e campeão de ecologia. Infelizmente, sete meses depois, o jornal era asfixiado financeiramente, até à falência, pelo governo do Estado, rugindo de ódios. Como nada é impossível àquele que tem fé, em 1986, Batista elidiu a falência e recriou o jornal, a partir do nada, transformando dezenas de estudantes de comunicação social em jornalistas de verdade, coisa que ele sempre soube fazer, com paixão e competência. Nas redações do País inteiro e mesmo no exterior, trabalham jornalistas que aprenderam o básico na sua modesta mas competentíssima escolinha, com sala de aulas no Cinco de Março, no Edição Extra e no Diário da Manhã. Em agosto de 1991, retornamos ao Diário da Manhã, reencontrando em Batista a fé de sempre. Ele respirava, comia e bebia redação e administração de jornal e sonhava sonhos onde o personagem principal era o filho Fábio. Em Fábio, como continuador de sua obra, Batista apostava todas as fichas, por isto sofreu tanto com sua morte prematura, em janeiro de 1999. Nem assim deixou de lutar ou perdeu a fé, apoiado por outros filhos, tendo à frente Julio Nasser. Hoje, seu futuro depende do amadurecimento profissional e da pena de Sabrina Ritiely e de Arthur da Paz. Fábio foi um capitulo à parte nessa história ensopada de lágrimas, mas também plena de fé e de esperança. No Cinco de Março, Batista, Consuelo, nós e outros jovens companheiros fomos terríveis panfletários, querendo consertar o mundo. Batendo, apanhando, sofrendo, errando e aprendendo, evoluímos lentamente. Tempos depois, no Diário da Manhã, no verdor dos anos talentosos e no ardor da juventude brigona, Fábio ironizava: – Hoje, eu sou Batista Custódio, o criador de casos de antigamente. Meu pai é meu tio Alfredo Nasser, querendo botar pano quente em tudo... Para o gentil leitor entender melhor, é preciso saber que outro grande e saudoso jornalista, Leonan Curado, escreveu no Jornal de Notícias que os anos fizeram de Alfredo Nasser guerreiro e monge ao mesmo tempo. Com sua pena incandescente, sua oratória e sua honradez, Nasser mantivera acesa a chama das oposições goianas contra os desmandos do ludoviquismo durante três décadas, quando tantos companheiros foram abatidos ou desertaram. Mesmo preservando intacto o ideal, Nasser – deputado estadual e federal, senador, ministro da Justiça e até, eventualmente, no parlamentarismo, primeiro ministro dói Brasil,. se dobrou aos anos, que transformaram o modesto barracão onde morava, na Rua 74, no Bairro Popular, em muro de lamentações e, ele, num sábio conciliador de amigos, conhecidos e desconhecidos. A dor amansou Batista e o transformou num longevo sobrevivente de reveses. Ele mudou

DM era um sonho de Fábio Nasser muito e para melhor. Perdeu a braveza, mas não a super fé, que o faz atualmente, na antevéspera dos 80 anos de idade, produzir cada edição do Diário da Manhã com o auxílio de apenas dois ou três colaboradores. É assim que ele levanta poeira e dá a volta por cima. Friedrich Nietzsche, que Fábio lia e comentava, errou quando escreveu que todos os grandes intelectuais são céticos. Batista é intelectual e, acima de tudo, acredita em Deus e em si mesmo. Com a internet e as redes sociais, o mundo metamorfoseado em aldeia global, acabou o monopólio da informação, mas a grande imprensa não desapareceu porque está sabendo se adaptar e conviver com as imposições dessa revolução, que varre e sacode os cinco continentes. No Cinco de Março, na Avenida Goiás com a Rua 61, então Bairro Popular, não havia porteiro, nem guarda, nem segurança. Entrava quem quisesse. Bastava subir a pequena escada à direita e ficava cara a cara com os jornalistas na redação, instalada sobre um jirau de madeira, com cinco ou seis mesinhas encimadas por velhas máquinas de escrever, e não mais do que meia dúzia de cadeiras de pernas bambas. Tudo era pobre, feio, improvisado e, milagrosamente, funcionava bem. Lá, os reclamantes, os filhos do povo, tinham sempre razão. Os espaços do semanário estiveram permanentemente abertos a jornalistas, escritores, poetas, artistas, professores, estudantes e profissionais de todas as tendências, que neles escreviam o que bem entendiam. Seus maiores repórteres eram os anônimos homens das ruas. Eles lhe levavam incessantemente denúncias, queixas, amarguras, protestos, aplausos, frustrações e esperanças. Sentindo-se ameaçados em qualquer circunstância, recorriam ao caminho que jamais lhes foi fechado: – Vou ao Cinco de Março. É óbvio que um veículo de comunicação social assim errou muitas vezes e fez muitos inimigos, que o perseguiram de todas as maneiras possíveis, e uns poucos não o perdoaram até hoje. Não aceitavam que, atuando como um feroz cão de guarda, ao lado de oprimidos indefesos, ele ajudasse muita gente, aliviasse muitas dores, evitasse muitos males, abortasse muitas tragédias e secasse muitas lágrimas. Até hoje acontece que alguém mais vivido nos pare na rua ou em outro lugar, iniciando o diálogo: – Li uma vez no Cinco de Março... E, incrível porém verdadeiro, discorre sobre uma reportagem ou artigo ali publicado há quase meio século. Foi com certeza recordando essa inusitada realidade que a inspiração providencial relampejou na cabeça de Batista Custódio e ele criou, no Diário da Manhã, o caderno “Opinião Pública”, que estampa todo tipo de manifestação dos leitores. “Envie seu artigo (com foto) para opiniaodmgmail.com” – eis o convite na capa do jornal, aproximando-o do homem da rua. Assim, se nos perguntassem o que consideramos mais importante no Diário da Manhã atual, que Batista Custódio edita praticamente sozinho, responderíamos, testemunha que somos desse passado heróicos e lendário: – O caderno “Opinião Pública”. É este o maior sucesso do DM no seu 33º aniversário. (Jávier Godinho é jornalista)

Sobre os ombros de Júlio Nasser, Batista depositou o peso da presidência do DM

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Diário da Manhã

ESPECIAL

HISTÓRIA

Três décadas de lutas, quedas e vitórias Batista viveu dias infernais: os “amigos” desapareceram, a família se desintegrou, os políticos que viviam à cata de espaço no jornal não atendiam aos seus telefonemas Suely Arantes

ARQUIVO DM

Especial para

Diário da Manhã

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Diário da Manhã chega aos 33 anos com corpinho de 70, envelhecido precocemente por uma trajetória de glórias, quedas, lutas e vitórias, tudo assim, junto e misturado. Mas qual é a boa história que não reúne esses ingredientes? O roteiro começa em 1980, quando o jornal nasceu da costela do semanário Cinco de Março, que Batista Custódio resolveu transformar em jornal diário com um projeto ousado sobre uma megaestrutura desenhados por seu idealismo. Muitos acharam que seria um sonho a mais de Batista e Consuelo Nasser. Não foi. O jornal nasceu sob o signo do sucesso e fez história no jornalismo goiano e ganhou o Brasil, chegando a ser considerado o quarto do País pela respeitada Academia Brasileira de Letras, onde recebeu o prêmio alusivo. Batista e Consuelo fizeram uma revolução na imprensa. Selecionaram os melhores jornalistas do Estado, como Carlos Alberto Sáfadi, Isanulfo Cordeiro, Jayro Rodrigues, Fleurymar de Souza, Carlos Alberto Santa Cruz, Marco Antônio da Silva Lemos, Lorimá Dionísio, Wilson Siveira , Sônia Penteado, Hélio Rocha, Jávier Godinho, entre outros. Não satisfeito, buscaram mais nomes consagrados nos jornalões do Rio, São Paulo e Minas. Assim se juntaram ao time goiano, profissionais da qualidade de Washington Novaes, Aloysio Biondi, Reinaldo Jardim, Eloí Callage, que ganharam dos enciumados (no bom sentido) colegas o bem-humorado apelido de “legião estrangeira”. Briancadeira à parte, os dois times conviviam harmoniosa e respeitosamente, tanto que o coleguismo virou amizade e eles mesmo riam muito da recepção, em princípio não muito cordial.

Lázaro Custódio, mais do que irmão na hora da crise. Samyr Helou, médico e companheiro O DM deu tão certo, que estava bom demais para continuar. Jornal forte nem sempre agrada a empresários e políticos, principalmente. Dizer que exite imprensa idependente de grupos econômicos e políticos, pelo menos pelas bandas aqui da América Latina, é utopia, infelizmente. Foi nessas águas revoltas que o DM embarcou e afundou. Salários altos pagos em dia, tiragem que alcançava todo o Estado, Distrito Federal e outras capitais brasileiras gerava custo operacional que aos poucos foi tornando-se inviável. Goiás, à época não contava ainda com empresas e indústrias de grande porte para anunciar seus produtos. O maior anunciante era o governo mesmo e ponto. Quando Iris Rezende assumiu o governo sucedendo a Ary Valadão, o DM tinha milhões para receber em notas empenhadas e não recebidas. Iris pagou algumas e foi rolando a dívida até Batista e Consuelo não conseguiram mais esperar. Eles tinham pressa, Iris não. Daí nasceu o desentendimento entre compadres e amigos até que virou briga feia, prejudicando centenas de funcionários, fornecedores, os donos do jornal e o próprio governo. Nesse cená-

rio não faltaram as traições, intrigas e mentiras. Poderia relembrar várias, mas vou citar uma das piores que presenciei: a história inventada por bajuladores do governador , que corromperam jornalistas de caráter frágil para se aliar a eles, com oferta de emprego no governo. Assim, fizeram malabarismo sabe-se lá de que jeito, mas tiveram acesso a um artigo que o Batista havia escrito (ainda não publicado) com críticas pesadas a Iris Rezende, mas ao seu governo, sem resvalar para o plano pessoal. Mas para ofender o homem pra valer tinha de haver ataques à família do governador. Se era isso que faltava, estava resolvido. O grupeto maldoso, de posse às laudas do artigo, “enxertou” um parágrafo escrito por eles,que atingia em cheio a honra de Iris Rezende no que há de mais sagrado para um pai, a honra de um filho. E lá foram eles, excitados entregar o artigo ao Iris, jurando ser o texto original. Iris perdeu o chão, claro. Só que no meio dos cizaneiros havia um jornalista que resolveu telefonar para o Lázaro Custódio, irmão de Batista, e comentou o fato, em tom até ameaçador. Apavorado, Lázaro chegou à redação

do DM pouco antes da meia-noite e aos berros pedia explicações ao irmão para tanta mesquinharia, citando o tal trecho fabricado pela turma oportunista. Batista, sem entender nada, me chamou e pediu que eu pegasse na minha gaveta os originais do tal artigo (havia deixado comigo porque na época eu era secretária de redação e responsável por decidir em que página e dia o artigo deveria ser publicado). O próprio Batista pediu para que segurasse a publicação até a próxima semana, na esperança de resolver a situação com o governo. Entreguei as quase dez laudas ao Lázaro, ele leu uma a uma, releu e não achou sequer uma linha que se referisse à família de Iris.” Tem alguma coisa errada”, disse Lázaro, completando: “O fulano de tal leu para mim uns comentários deploráveis sobre a família de Iris que estariam nesse artigo e não vejo nada disso. Onde está o erro, Batista?”, indagou todo desconcertado com a maneira agressiva que havia chamado atenção do Batista. “O erro, Lázaro, está nas mãos infectas de gente que até pouco tempo levava uma vida nababesca bancada com o gordo salário

Orlando Conde, fiel amigo em todas as horas que recebia do DM e me encheia de elogios e afagos tão falsos e interesseiros como osque hoje depositam aos pés do Iris”. Resultado da ópera bufa: o artigo verdadeiro não foi publicado, outros foram mas este não, sou testemunha do seu conteúdo (guardo comigo uma cópia do original até hoje). Porém, Iris, inflamadíssimo pelos puxa-sacos oportunistas (toda gente desse naipe é), prefeiriu acreditar que o tal artigo existiu e iniciou uma perseguição ao DM até que conseguiu fechá-lo. Batista viveu dias infernais. Os “amigos” desapareceram, a família se desintegrou, os políticos que viviam à cata de espaço no jornal não atendiam aos seus telefonemas, vendeu os poucos bens que lhe restaram e passou um ano com despensa vazia numa chácara emprestada por Mané de Oliveira. Sabe que ia lá visitá-lo? Valterli Guedes, Gabriel Nascente, Potenciano Monteiro (já falecido), Samyr Helou (também falecido) o Luis Carlos e eu. Sem contar o fiho Fábio Nasser que foi morar com o pai e o fiel Orlando Conde, um “faz-tudo”, que só abandonou Batista quando a morte lhe buscou. Não se pode omitir nun-

ca o nome de Ronaldo Caiado nessa história. Deputado federal e presidente da poderosa UDR, procurou Batista e garantiu: “Vou ajudar você a reabrir o DM”. A essas alturas, até o Batista duvidou. Pois Caiado, com sua lealdade e braveza que trouxe do berço, fez uma série de reuniões com os ruralistas, políticos, amigos e quase que como uma ordem convocou todos: “Cada um como puder, tem de ajudar o Batista a reabrir o jornal”. Entre eles, havia alguns que se afastaram do Batista, mas não tiveram coragem de contrariar Caiado. Aí começou o longo caminho de volta do Diário da Manhã, que competa 33 anos . Nessas três décadas, outras crises viriam. Mas isso é assunto para outra história pautada no idealismo, força, coragem e persistência para servir de exemplo para os jovens que estão chegando agora ao jornalismo, com a cabecinha cheia de ilusão. Há flores nessa seara? Sim, mas os espinhos não são poucos. Como em qualquer profissão, há alegrias, conquistas, decepções e glamour. Mas nada que a persistência carregada com os pés ficados no chão não vença. (Suely Arantes é jornalista)


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HISTÓRIA

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Tem café quente? A redação do Diário da Manhã continua grande, porém o número de profissionais diminuiu bastante Lorimá Dionísio Mazinho Especial para Diário da Manhã

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o entrar na sala do Batista, que havia me convocado para ajudar na edição especial sobre o aniversário de 33 anos do Diário da Manhã, senti falta do barulho de máquinas de escrever, das risadas e dos gritos de uma turma grande, alguns perguntando se tinha café nas garrafas térmicas, outros querendo saber o andamento de uma reportagem publicada na edição do dia e que estava sendo repercutida para o próximo número. A redação continua grande – uns 400 metros quadrados de área – mas poucos profissionais trabalhando, debruçados em seus computadores silenciosos. Foi-me indicada uma sala de serviço e nela encontrei um pôster com as fotos de 41 colaboradores e fundadores do DM. Eu estou entre eles e, rapidamente, contei nove mortos no quadro. Bateu-me um cansaço natural dos que se aposentam da agitação do jornalismo. Mesmo assim me recordei de outros com-

panheiros que não estavam entre os 41, mas que fizeram parte da redação e que alguns deles também já partiram para um plano que, pela minha formação cristã, espero ser melhor do que esse em que vivemos hoje. Nas lembranças me veio a imagem enorme do Américo Custódio, irmão do Batista e que era responsável pela parte gráfica do DM. O cara era forte e tinha um coração maior do que seu próprio peito. Falava macio e era querido por todos. Certa madrugada ele me ligou em casa, depois de tentar achar o Hélio Rocha – por volta das três da manhã – me pedindo para mexer na primeira página onde, segundo ele, Batista tinha inserido, depois que todo mundo tinha saído da redação, um pequeno editorial agressivo e que poderia azedar ainda mais a crise política e financeira que assolava o jornal. Fui e troquei o texto por uma notícia de agência. Recebi um puxão de orelhas do Batista quando cheguei para trabalhar à tarde, mas já sabendo que Américo tinha batido no peito e se responsabilizado pela modificação da primeira página. As discussões entre os irmãos sempre existiam, mas eles sempre foram solidários, se res-

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Batista e Américo sempre discutiam a edição do DM que seria impressa

peitavam e se amavam. Escrever sobre o Diário da Manhã exige da gente recordações de tempos bons e também de momentos difíceis. Prefiro me lembrar das alegrias, dos papos maravilhosos na redação e depois a turma reunida em mesas de botecos após o dever cumprido. Ao brinde dos copos de cerve-

ja seguiam-se os assuntos variados do jornal que circularia assim que o dia amanhecesse. A gente era feliz, muito feliz e não sabia. A minha profissão de jornalista foi forjada na Rádio Riviera, em O Popular, na TV Anhanguera, na assessoria de imprensa da extinta Goiastur, em vários jornais semanários, revistas, telejornalismos

da antiga TV Goyá, TV Serra Dourada, TV Goiânia, TV Brasil Central e radiojornalismo de algumas emissoras goianas. Do Diário da Manhã o convite foi feito pelo editor Carlos Alberto Sáfadi, com quem eu havia trabalhado em O Popular. Eu fui sabendo que estaria entre amigos e em um ambiente que seria construtivo para

minha profissão. E foi. Assimilei muita coisa que emanava da destacada inteligência de meus companheiros de jornal e, melhor, tive a honra de trabalhar ao lado deles – todos eles. Sendo coringa na redação, tive oportunidade de editar artigos de colaboradores do DM. Quando o professor Carlos Drummond de Andrade escrevia com excesso eu falava com ele pelo telefone e ele ditava o que poderia ser cortado no texto. No final ele perguntava se tinha “espaço para o desenho do Jorge Braga”, que o grande poeta fazia questão de ver ilustrando os seus contos. Essa convivência era gostosa e se tornou inesquecível. O Diário da Manhã está aí, cheio da mesma coragem e ousadia como foi idealizado por Batista Custódio e Consuelo Nasser, e cumprindo sua missão de moldar talentos. Faltam apenas os gritos e as farras dos bons tempos de redação cheia. O jornal continua vivo e forte, para a admiração de milhares de leitores e preocupação de algumas figuras que, ainda hoje, teimam em escrever páginas no capítulo da triste memória de nossa história contemporânea. (Lorimá Dionísio – Mazinho – é jornalista aposentado)


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DMTV

Uma televisão na internet Pioneira em Goiás, a tevê do Diário da Manhã, na internet, fez e faz escola. Com uma linguagem ágil, rápida e de fácil compreensão, seus programas chegaram, inclusive, a partilhar espaços em tevês fechadas, como o É o Bicho e Reator tícias’, um boletim apresentado de hora em hora, possibilitando o internauta a estar sintonizado com as últimas informações e acontecimentos e o ‘Na Balada’, com informações sobre os acontecimentos na noite goiana, programa voltado para o público teen.

Ulisses Aesse Especial para Diário da Manhã

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ideia aparentemente simples, tornou-se um exemplo a ser seguido no mercado de Comunicação online. O DMTV, televisão de internet do jornal Diário da Manhã, surgiu com o start do engenheiro Marcus Fleury, um apaixonado pela área de comunicação, radioamador, engenheiro de profissão e criador de alguns projetos que mais na frente deram origem a algumas rádios comunitárias em Goiás, como a de Nova Fátima. Com o afilhado Júlio Nasser, Marcus Fleury, pensando no conceito multimídia do Diário da Manhã, sugeriu, com o seu acompanhamento, a criação do DMTV. Depois de implantada, superados todos os impasses eletrônicos e de infraestrutura, o DMTV se tornou a única emissora de internet no Centro-Oeste e, também, uma pioneira em operação no Brasil. Criada, já no ar, com alguns exemplos de sucesso.

POLITIZANDO

PÚBLICO JOVEM De acordo com o presidente do Diário da Manhã, Júlio Nasser, a presença, ideia e experiência de Marcus Fleury, aliado ao seu conhecimento em TI, foram importantes para a manutenção do DMTV no ar e,também, o seu sucesso junto ao público. Para Júlio, o DMTV rompeu com a estrutura da tevê comum e fez presença positiva na internet a partir do momento em que usou a plataforma como meio de divulgação de suas mensagens e sua programação: tudo direcionado para um público jovem, com necessidade de leitura rápida, já que o tempo é curto, devido as suas atribulações e agendas. Júlio lembra que o DMTV contou com a presença de bons profissionais que alimentaram todo o conceito da televisão de internet do Diário da Manhã. Criando, assim, uma cultura de televisão online com a presença interativa de sua audiência, ou seja, dos internautas.

SÓ ESPORTES O DMTV foi ao ar pela primeira vez no ano de 2006. No início, a programação era voltada apenas para a cobertura esportiva, tanto que a primeira

Vista da redação do DMTV: moderna, prática e interativa transmissão foi a do Campeonato Goiano e posteriormente para a música. Com o tempo, multiplicou os seus focos, estendendo aos internautas uma variedade de programas voltados para todos os segmentos: do esporte à música; da culinária à política; da cultura à moda. Com uma programação mais plural, mais dinâmica, a tendência foi a de conquistar mais audiência e ao mesmo tempo fazer uma verdadeira televisão, mesmo com uma linguagem própria da web, na internet.

Pedro Fernandes, que chegou a disputar o prêmio da revista Dynamite, uma das principais do País; além de outros como ‘É o Bicho’, um programa apresentado pela jornalista Ítala Carvalho, sobre o mercado pet no

Brasil e em Goiás e o ‘Autorotação’, apresentado pelo jornalista Fernando Prado, sobre as novidades do setor automotivo. Várias outras atrações diversificaram a programação do DMTV, entre eles, o ‘DMTV No-

O debate político na internet é uma realidade, sem possibilidade de retrocesso, dizem especialistas e políticos ouvidos pelo Diário da Manhã. O DMTV, na verdade, foi o primeiro veículo de comunicação do Centro-Oeste a transmitir, ao vivo, por meio da web, as propostas de alguns candidatos em Goiás. Um dos exemplos foi o debate dos candidatos à Prefeitura de Aparecida de Goiânia, segunda maior cidade de Goiás. Além de louvar o ineditismo do jornalista Batista Custódio na época, os professores ouvidos pelo DM, chegaram a dizer que o modelo deve ser copiado por outros veículos. “O DMTV e o DM mais uma vez são pioneiros nesta atitude que fortalece a democracia brasileira”, disse o doutor em Marketing Político e professor da UFG, Luiz Signates. “Uma cidade como Aparecida, que não tem divulgação em mídia televisiva, só tem a ganhar com o debate promovido pelo DMTV”, completou o antropólogo e cientista político Wilson Ferreira da Cunha. Já o professor de Ciências Políticas Itami Campos, na véspera de realização do debate, ressaltou a tendência pela qual a internet atinge o eleitorado. “O próprio DM é lido em todo o mundo por meio da web. O modelo veio para ficar, que todos os candidatos o incorporarão.”

ELEIÇÕES NA WEB O DMTV também teve importante papel na cobertura das eleições em Goiás desde a sua criação. Com informações ágeis e comentários precisos, em tempo real, levou aos internautas informações sobre o desenrolar das votações. Com a coordenação de Alex Pereira,o atual diretor do DMTV, a emissora conseguiu aumentar a audiência durante os dias de cobertura e mostrou a face política, também, do DMTV, algo similar que já faz o Diário da Manhã, jornal, há bastante tempo. Com uma programação ativa, o DMTV mostrou e mostra que é possível realizar uma televisão presente e interativa junto ao seu público. Essa tendência, de oportunizar, debates e informações, em tempo real, fez e faz com que a emissora seja hoje uma das principais do País, embora enfrente hoje dificuldades financeiras para manter a sua boa programão no ar. O tempo dirá que o DMTV sempre fez e faz o certo, de olho no futuro.

Alex Pereira: política na web

NOVOS PROGRAMAS Ex-diretor do DMTV, Ulisses Aesse afirma que ‘a programação, na época, precisava de um grade. Para isso, foi necessário uma ampla reunião com o staff da emissora e uma definição de uma programação que atendesse a todos os setores da sociedade. Definida, o DMTV colocou uma programação com atrações como ‘Reator’, um programa de rock, apresentado por

Júlio Nasser: televisão para um público jovem e sem tempo

Ulisses Aesse: uma programação com a linguagem da internet

Conceito criado com a participação de grandes e bons profissionais O comentarista e consagrado narrador de futebol Januário de Oliveira chegou a bater um bolão num domingo do passado com o apresentador Milton Neves, durante um bate-papo. Neves elogiou o trabalho de Januário de Oliveira, que criou os bordões “tá lá um corpo estendido no chão”, “sinistro, muito sinistro”, “tá lá o que todo mundo queria”, “cruel, muito cruel”, além de tantos outros. Januário tem um currículo invejável: já atuou na TV Educativa, Rádio Globo (durante 20 anos) e junto com Luciano do Valle, na TV Bandeirantes. Januário foi um dos que prestigiaram a web tevê do Diário da Manhã, DMTV, onde fez comentários precisos, durante alguns programas e mostrou mais uma vez porque tem grande prestígio em todo o País. Mestre é mestre em qualquer lugar. Goiás, São Paulo ou em qualquer parte do mundo. O DMTV teve, também, as participações do cronista esportivo Valério Luiz e, também, Paulinho Azeitona. Os dois,

Engenheiro Marcus Fleury: o idelizador

Paulinho Azeitona: música e qualidade

Valério Luiz: esporte também na rede

num determinado momento da história da emissora, foram seus diretores, alicerçando o conceito de um canal online que respeitava e respeita a vocação musical e esportiva do internauta. Valé-

rio Luiz implantou o conceito de cobertura esportiva na emissora do DM. Já, Paulinho Azeitona, apresentador do programa Gynteen, na TBC, deu vez e voz à música, tornando a emissora mo-

derna e com uma qualidade musical, que conseguiu dobrar a audiência do DMTV. Na gestão de Valério Luiz, o maior incentivo à produção esportiva, revelou talentos. Hoje, na Televisão

Anhanguera, como narrador oficial dos jogos da emissora, o repórter, até então neófiio e iniciante, Vitor Roriz, disputava com o competente Fernando Prado os microfones da emissora. Contando sempre com o trabalho técnico do experiente Alex Clímaco, responsável por manter a emissora no ar no setor de Suporte. O trabalho era constantemente supervisionado pelo presidente do DM, Júlio Nasser, e, também, pelo criador da emissora, seo Marcus Fleury. Vale lembrar que Lincoln, o Leão da Serra, ex-craque do Goiás, também, ajudou nos comentários de vários jogos transmitidos pela emissora, um filão que o DMTV conseguiu criar escolas e bons profissionais, tanto que a programação era assistida por um público ávido por informações de Goiás e que se encontrava espalhado por quase duzentos países do mundo. Uma legião de internautas que ajudou no sucesso do DMTV e ainda hoje faz a emissora estar na história das tevês na web.


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ARTIGO

A velha chama não se extinguiu “Onde quer que exista alguém empenhado em esconder alguma coisa, isso será notícia. Todo o resto é propaganda” (George Orwell) Marco Antônio Lemos Especial para

Diário da Manhã

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h, o velho e sempre profético Orwell... Em 1984, ele nos oferece a face mais cruel, fria e insensível do totalitarismo, em que aqueles que detêm o poder absoluto – ou, se ainda não o têm, de tudo fazem para rapidamente alcançá-lo e consolidá-lo – empenham-se em manipular, ocultar, controlar, “ajustar”. No totalitarismo, não existe História nem há memória. Todo registro é de tal modo adulterado e maquiado que passa a não haver qualquer diferença entre passado, presente e futuro. O passado é permanentemente reciclado e ajustado às conveniências da atualidade, e, em termos efetivos, jamais houve mudança, porque “sempre foi assim”. Pelo instantâneo do momento atual, antigos inimigos viram aliados e velhos aliados são convertidos em inimigos. Melhor ainda, nada disso; se alguém ainda tiver dúvidas, bastará conferir os registros oficiais (os únicos disponíveis): descobrirá que os aliados e os inimigos de hoje o são desde sempre. O método de dominação consiste em suprimir ou demonizar qualquer heresia

ou dissidência, apagar ou modificar documentos, manipular e controlar os meios de informação. É de Antonio Gramsci e seu “intelectual orgânico” babarem de satisfação na gravata; nem se a coisa tivesse sido encomendada não seria tão perfeita. Desde o aparecimento de 1984, que se deu em 1948, a proposta de Orwell sempre foi tomada como mero exercício políticoalegórico. Como seria possível aquele mundo do Big Brother pudesse vir a existir, ainda mais no Brasil? Entretanto, especialmente a partir de 2003, ele vem se tornando assustadoramente mais próximo e factível. Já temos a novilíngua do politicamente correto. Ainda não chegamos ao Ministério da Verdade preconizado por Orwell, mas já temos, a pleno vapor, a “Comissão da Verdade”, cujos trabalhos não andam e investiga não se sabe bem o quê, mas já tem as conclusões prontas: a culpa, seja lá do que for, já sabemos, é da direita, dos militares, do imperialismo e das “dazelite”. PT, MST, UNE, sindicatos, minorias mobilizadas e ONGs já praticam o programa de “Dois minutos de ódio”, parte do dia em que os seguidores de Lula e Dilma, como em 1984, se reúnem para assistir a propagandas enaltecendo as conquistas do decênio petista e principalmente para exercitar e direcionar o ódio que

mal contêm contra os inimigos. Não existem “adversários”; apenas inimigos – e são assim considerados qualquer um que seus líderes assim considerarem, ou que não apóie com frenesi tudo que provier do governo. O Diário da Manhã completa 33 anos. Nasceu sob a égide da liberdade, do inconformismo da democracia e da pluralidade. Veio à luz guiado pela idéia voltairiana de, a despeito de eventualmente não concordar com as idéias de alguém, defender e assegurar-lhe sempre em suas páginas o direito desse alguém de dizê-las. Fico feliz em constatar que ainda agora, mais de três decênios após sua fundação, ele continua fiel aos princípios sobre os quais foi erigido. Por sinal, nesse aspecto aproveito para fazer um registro pessoal. Se existe alguém, no cenário público brasileiro, que sempre me despertou a mais viva idiossincrasia, este alguém foi o ex-ministro José Dirceu, condenado pelo STF à prisão por haver orquestrado e comandado o mensalão, trama urdida pela cúpula do PT para que o partido lograsse controlar a seu bel-prazer o Congresso e levasse a efeito o mais completo aparelhamento da estrutura estatal já vista desde o nacional-socialismo de Hitler e o comunismo de Stálin, numa invulgar experiência totalitária, com supressão de

qualquer oposição ou discordância. Os modelos mais próximos de regime desse tipo de aparelhamento são os atuais regimes cubano, vietnamita e o da Venezuela chavista. Ou ainda, em versão um pouco mitigada, o kirschnerismo na Argentina.

Foi aí que me lembrei das lições e do exemplo de Batista Custódio, de jamais negar espaço a quem quer que seja”

Sempre tive José Dirceu como o exemplo mais acabado de personalidade política nefasta. Suas inquestionáveis inteligência e tenacidade o transformaram em uma espécie de gênio a serviço do mal. Eu não precisei de que o Supremo confirmasse o mensalão. Os elementos coletados pela mídia e os debates na Câmaras que culminaram com a cassação do ex-ministro da Casa Civil sempre me foram mais que suficientes para me convencer, em termos políticos e fáticos, da realidade dessa compra de votos

e do aparelhamento da máquina estatal, bem como da responsabilidade de José Dirceu e da cúpula do PT no episódio. Portanto, quando me deparei com a condição de José Dirceu como colaborador do blog do Noblat e colunista regular do Diário da Manhã, quase surtei. Como era possível, eu me indagava, conceder-se espaço e prestígio a tal figura? Como, na mais absoluta contra-mão dos fatos e da Opinião Pública, deferia-se a Dirceu o direito de ocupar espaço na imprensa e na blogosfera, em desafio a realidades incontestáveis e sob o cinismo do raciocínio revelador de que estava “cada vez mais convencido de sua inocência”? Foi aí que me lembrei das lições e do exemplo de Batista Custódio, de jamais negar espaço a quem quer que seja, e garantindo esse auxílio tão mais efetivamente quanto mais em desgraça ou em estado de desamparo a pessoa estivesse. Foi então que me recordei do espírito que marcou a criação e a evolução do Diário da Manhã, o oferecimento de uma tribuna onde quem quer que se julgasse injustiçado pudesse ocupar, de forma livre e desimpedido. Foi aí que me dei conta do espírito que, em Londres, preside a existência do Speech Corner, no Hyde Park, uma área em que é lícito a qual-

quer ocupar e manifestar seu pensamento de forma livre, sem a mais remota possibilidade de que o poder público vir a tolhê-lo ou interferir nessa liberdade. Em suma: até José Dirceu, a despeito de ser o que efetivamente é, tem direito a se defender e a expor suas opiniões, por mais cínicas, mentirosas, falaciosas e maliciosas que possam ser. Concordei com Batista Custódio, embora com relutância. E também com Rui Barbosa: “as leis que não protegem meus adversários não podem me proteger”. É da democracia legítima, em nosso próprio interesse, permitir e até facilitar que rebotalhos éticos como o ex-ministro e ex-presidente do PT possam se manifestar livremente – ao contrário do que sucede com Yoani Sánchez em Cuba e a quaisquer oposicionistas em plagas bolivarianas ou em “democracias populares”, que Dirceu tão ardorosamente defende. E que seriam os primeiros a silenciá-lo caso optasse por dissidir ou aderir a qualquer posição contrária à ortodoxia totalitária que tanto ama e defende. Assim, meus parabéns a Batista, na certeza de que o espírito do Diário da Manhã não se extinguiu, trinta anos após. (Marco Antonio Lemos é jornalista, juiz de direito do Distrito Federal e fundador do Diário da Manhã)


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HOMENAGEM

Trinta e três idades “Produzir imprensa por trinta e três anos não é tarefa para anões, nem para mesquinhos, nem para deslumbrados.”

Getulio Targino Especial para Diário da Manhã

“O ser integral conhece sem ir, vê sem olhar e realiza sem fazer” Lao Tzu

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uvi de um amigo, no aniversário de outro, o seguinte: Vim porque é aniversário de oitenta anos. Se fosse de setenta e nove não viria. Vi nesta afirmação o enorme respeito de quem a fez pela idade provecta de oitenta anos, seu significado e sua simbologia. O Diário da Manhã já fez outros aniversários: de trinta, de trinta e um, de trinta e dois anos de vida... Mas o jornal completou trinta e três anos! Não compareci aos outros aniversários, mas este não poderia deixar de estar presente, de dizer minha pequena mas verdadeira e sincera palavra de congratulação. Trinta e três é um número emblemático, altamente simbológico, profundamente humano e divino. O divino Mestre com-

pletou sua tarefa aos trinta e três anos, mas para chegar a eles passou por duras provas: total esquecimento dos doze aos trinta anos, tentação no deserto, humilhação de um julgamento injusto, preterição do povaréu em favor de Barrabás, criminoso conhecido, até alcançar a morte dolorosa e humilhante reservada aos piores criminosos: a cruz. Mas pode exclamar: Tudo está consumado. E, afinal, ressurgiu. O Diário da Manhã, sob o comando deste inexplicável Batista Custódio, combativo e combatido, quieto e alvoroçado, cego e profundamente vidente, silencioso e loquaz, é o típico ser que vê sem olhar e realiza sem fazer. Empunhando uma bandeira democrática de informar a verdade e de formar opinião abalizada, o Diário da Manhã vem atravessando lagos calmos e mares tempestuosos, mas sempre navegando, sempre indo na direção do alvo pretendido, sempre caminhando para a frente na busca daquilo que entende verdadeiro, justo e aceitável. Produzir imprensa por trinta e três anos não é tarefa para anões, nem para mesquinhos, nem para deslumbrados. É

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Trinta e três é um número emblemático, altamente simbológico, profundamente humano e divino.”

trabalho penoso, para denodados e gente que desesperadamente agarra a esperança e não a deixa fugir nunca. Atravessou o Diário da Manhã e registrou momentos históricos importantíssimos, da cidade, do estado, do país e do mundo. Chegou até a era digital e adotou-a, de modo que o que se escreve no DM está na boca do mundo, ante a revolução da informática. Liberal, abre suas páginas a todos, abriga todas as tendências, dá-se ao luxo de ser um portal ao qual se pode ter acesso, atravessando-o para os confins do mundo. Mas algo que, pessoalmen-

Washington Novaes saiu da TV Globo para ser editor-geral do DM te, me toca profundamente é a sensibilidade desse jornalista para com o belo, a arte, a cultura em geral e, especialmente, a literatura. Há anos e anos vem o Diário da Manhã cedendo espaço aos escritores (articulistas, cronistas, ensaístas,) em cadernos como Opinião Pública e DM Revista, ou página inteira para a Oficina Poética, aos domingos. Especialmente à Academia Goiana de Letras tem o Diário da Manhã cedido espaço, seja nas notícias dos eventos, nas entrevistas com seus dirigen-

tes, seja na publicação de Suplementos Literários como o hoje tabloide Academia, Suplemento Literário da Academia Goiana de Letras. São fatos como este que tornam especialíssima esta data em que este importantíssimo veículo da imprensa goiana e brasileira completa trinta e três anos de atividade. E é por isto que, seja pessoalmente, seja em nome da Academia Goiana de Letras, seria impossível deixar de comparecer e de proclamar: Salve o trigésimo terceiro ani-

versário do Diário da Manhã. Goiás, orgulhoso, saúda o jornal e aplaude seu dirigente maior, jornalista Batista Custódio e todos aqueles que formam a denodada e competente equipe que lhe empresta apoio e sustentação. Valha-nos a graça divina. Parabéns Batista, parabéns Diário da Manhã!!! (Getulio Targino Lima é advogado, professor, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com)


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MEIO AMBIENTE

Em respeito às lutas sociais DM garante direito de resposta, faz jornalismo democrático e valoriza as causas ambientais ARQUIVO DM

Welliton Carlos Especial para Diário da Manhã

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Diário da Manhã presta enorme serviço público quando defende causas de interesse coletivo. Em plena era de denuncismos sem fundamento, o jornal no início da década de 2000, apresentou para a sociedade o editorial "Defesa da ética e da honra", em que o jornal comunicava seu interesse em não publicar denúncias infundadas ou documentadas. O impresso aplicava, de fato, pela primeira vez no país a regra que 'todos são inocentes até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória'. Apesar de democrata na divulgação das opiniões, o princípio da ‘Defesa da ética e da honra’ vedava o uso das páginas do jornal para a prática de calúnias e difamações. A prática sistemática desde o princípio legou maior responsabilidade, diminuindo o número de ações na justiça e de reparação de danos morais. Por sua vez, o jornal passou a publicar fatos consolidados, que receberam sentença condenatória. Os suspeitos receberam o direito de contar sua versão. A regra valia

Jornal travou luta contra a poluição do Rio Araguaia tanto para crimes comuns quanto para a política.

DRAGAS Outra campanha de peso do jornal tratou da defesa do Rio Araguaia. O Diário da Manhã travou duas lutas: contra a presença de usinas de dragas. No

caso das usinas, que destruíram o manancial, a sociedade civil saiu vitoriosa. Em 2009, após acirrado debate político, o governo federal anunciou sua postura em avaliar as licenças para a construção de usinas hidrelétricas. Mas existiam outras batalhas. O DM e uma rede de

sete ONGS começara, então, uma luta árdua pela retirada de dragas que contaminavam e destruíram cerca de 81 quilômetros de manancial. A campanha ganhou as ruas, a imprensa e os políticos. Os atuais senadores em exercício, Demóstenes Torres e

Marconi Perillo, além dos deputados federais e estaduais, bem como vereadores e prefeitos, começaram um debate público a respeito do problema. Cerca de 52 dragas que buscavam diamantes foram retirados do rio. Associação Goiana dos Municípios (AGM), a Ordem dos Advo-

gados do Brasil (OAB), Ministério do Trabalho, polícias Militar e Civil, sindicatos e inúmeras ONGs ambientais apoiaram a causa defendida pelo impresso. O ministro do Meio Ambiente em exercício, Carlos Minc, se declarou contrário a presença de dragas no rio, mas foi incapaz de rever a postura dos órgãos federais em relação à concessão de permissões que possibilitam a exploração no Araguaia. O tema foi veiculado em reportagens nacionais pelas emissoras de televisão e tomou corpo em debates do senado, que aprovou um projeto de Rio-Parque para região – fato que diminuiu a agressão de mineradoras no rio. A realidade das dragas no Rio Araguaia foi constatada por diversas expedições. O DM mostrou que as 52 dragas legalizadas por órgãos ambientais estavam matando os peixes do rio. A área de proteção ambiental do encantado (APA do Encantado) era a principal era a principal vítima das agressões. Frente à falta de ações da Secretaria do Meio Ambiente de Goiás, (Semarh), o Ibama do Mato Grosso do Sul, responsável pelas licenças ambientais, o Ibama de Goiás, Instituto Onça Pintada e outras organizações começaram uma campanha de preservação do rio. O DM apoiou a visita de ambientalistas, fiscais biólogos e geógrafos que monitoraram o problema.


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Diário da Manhã

ESPECIAL

MEMÓRIA

Um marco na História da Imprensa

Alicerce da Liberdade

ARQUIVO DM

Valterli Guedes Especial para Diário da Manhã

Q

uando foi fundado há exatos 33 anos, o Diário da Manhã de imediato passou a cumprir relevante papel na Imprensa brasileira. Moderníssimo, bem elaborado, independente, de pronto foi reconhecido como uma referência entre os jornais do País. Era tão bom trabalhar no DM que nós, os da editoria de política, ao encerrarmos nosso trabalho, aí pelas dez da noite, íamos para algum restaurante numa espécie de comemoração diária. E o assunto principal era justamente o trabalho daquele dia e o que faríamos no dia seguinte. Certa vez fui nas férias de 30 dias, para Fortaleza e, lá chegando, supus que ali aguentaria ficar o resto da vida. Boas praias, passeios de jangada, leitura despreocupada. Mas, aí pelo décimo quinto dia não mais suportei a saudade da redação do DM e antecipei o retornou. Quem ficou na vantagem foi o Batista Custódio. Aliás, merecidamente. Depois, aconteceram as dificuldades financeiras, perseguições, com reflexos até os dias atuais. Elas foram enfrentadas

Outdoors anunciavam mudança na imprensa goiana bravamente pelo Batista. Na sua obstinada luta pela recuperação, vi-o trabalhar de pé, com um telefone em cada ouvido. Foi nessa época que ouvi do Batista a seguinte confissão: “Quando a gente fica sem nada e quer fumar, o dinheiro de uma carteira de cigarros é muito dinheiro.” Alguns daqueles amigos a quem pedia ajuda, dos quais ouvia antes rasgados elogios, nessa hora aproveitaram para, antes da ajuda, tirar um sarro: “Primeiro quero lhe

dizer que você nunca foi empresário.” Para o Batista isso não era nenhuma ofensa, porque se existe uma profissão que nunca exerceu fascínio sobre ele, é a de empresário. Vendo-o naquela labuta, um dia lhe confessei e agora reafirmo: eu não suportaria sequer dez por cento do que ele suportou. Suportou e continua suportando. Já lhe disse: “Do carma, ninguém consegue fugir.” Batista Custódio prosseguiu e prosseguirá por muito tempo

ainda. Assim espero. Porque assim acho necessário a Goiás e ao Brasil. Sem os dois jornais que criou, inicialmente o Cinco de Março, que coincidentemente, neste dia em que boto estas mal traçadas no papel também faz aniversário, depois o DM, que chega à idade de Cristo sustentando a Bandeira das Liberdades, Goiás não teria, quanto à sua evolução, chegado onde chegou. Parabéns, Diário da Manhã; parabéns, Goiás; e, na

pessoa de Batista Custódio, parabéns e uma calorosa salva de palmas a toda a equipe deste grande Jornal. (Valterli Guedes é advogado, jornalista, sócio-diretor do escritório “Castro, Guedes e Willar – advogados e Consultores”; editor da revista “Hoje”, presidente da AGI – Associação Goiana de Imprensa” e articulista do “Diário da Manhã”. Foi secretário de Estado em Goiás (Governo Henrique Santillo))

O jornal Diário da Manhã tem papel fundamental na história do jornalismo goiano e do desenvolvimento do Estado. Nestes 33 anos, foi crucial para a disseminação da informação, contribuindo com o desenvolvimento regional. A data é um marco para o jornal e também para Goiás. Parabéns aos profissionais que passaram pelo jornal, aos que estão hoje e ao jornalista Batista Custódio pela busca constante por uma imprensa livre cujo maior interesse é servir de alicerce à população goiana.

Helenir Queiroz Empresária e presidente da Acieg


Diário da Manhã

ESPECIAL

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OPINIÃO

Sem imprensa livre não há democracia Maguito Vilela Especial para Diário da Manhã

S

alve os 33 anos de vida do Diário da Manhã e sua audaciosa luta pela liberdade de expressão sustentadora do Estado democrático de direito. Falar de imprensa livre em Goiás sem trazer a lume o pensamento refletido na luminosa tela mental do inigualável jornalista, poeta e escritor Batista Custódio é tentar escamotear a verdade. É totalmente impossível tentar descrever mesmo que resumida e palidamente, sua brilhante e vitoriosa saga de jornalista e de cidadão, sem nos ancorarmos nos princípios de religiosidade que ele esposa como normas norteadoras de sua irreparável conduta. Extraordinária é a força da indescritível intuição e da aguçada sensibilidade que conduzem os seus passos fazendo dele um ser humano diferenciado, ao mesmo tempo bravo, destemido, verdadeiro, sincero, leal e extremamente generoso. Hoje experiente e traquejado na arte de escrever bem e com acerto, sem a preocupação de querer agradar a todos, sobretudo aos poderosos, este líder de escol que já nasceu com a alma jornalista incrustada em sua indumentária física, mais do que um culto e talentoso escriba e empresário bem sucedido, é um conselheiro, um amigo,

um analista político de primeira linha e com ampla visão do mundo. A sua é uma história que se confunde com a história da verdadeira imprensa de Goiás. O sertanejo oriundo das barrancas do rio Bonito, é hoje um adepto fervoroso e cultor permanente da sábia e generosa lei universal da Evolução. Advindo do abençoado berço da respeitabilíssima e veneranda Igreja Católica Apostólica Romana, Batista Custódio revela-se consciente de que traz grafada em sua memória de épocas bastante recuadas, a marca indelével de muitas andanças pelos tempestuosos caminhos da vida imperecível. Poder-se-ia dizer sem medo de errar, com extrema humildade, serena coragem e com a mais absoluta convicção, que na presente existência física ele nasceu para desenvolver a sublime arte de escrever com proveito e como missionário da vida ajudar a redirecionar o caminho da humanidade. E escrevendo desta forma e sem a preocupação de querer agradar quem quer que seja, forjou na incansável luta do dia a dia, sua brilhante e irreparável trajetória profissional como autêntico e intrépido defensor dos oprimidos, dos pobres, dos excluídos, dos humildes, dos miseráveis e de todos aqueles que, segregados pela sorte jornadeiam pelos caminhos da vida num estado vegetativo de completo desvalimento moral. Da saga vitoriosa de sua lúcida inteligência, da sua invejável ins-

piração jornalística e dos encantos sublimados de sua alma livre e democrática, nasceram o bravo e destemido líder estudantil, o intransigente e obstinado defensor da democracia, o timoneiro da esperança e da fé, o algoz da ditadura militar e o arauto de liberdade. Foi mourejando neste universo denso, tempestuoso e desacreditado da notícia, da crítica impiedosa e da informação trazidas a lume pela grande mídia conservadora, que o Batista, jornalista arrojado, destemido e audacioso, conseguiu construir neste país e neste orbe de paradoxos e contradições, uma imprensa séria e responsável, que já se revelou capaz de contribuir com a construção da cidadania e de uma cultura de paz. Culto e inteligente este fervoroso defensor da liberdade de expressão e do Estado democrático de direito, lúcido escriba, vate e cantador da alma do povo, é um vivo orgulho do jornalismo goiano que nunca se sentiu aprisionado. Quando açoitado pelo bramir estridente das baionetas impiedosas do autoritarismo, algemado e trancafiado nos porões da ditadura militar, o inigualável jornalista goiano, reviveu simbolicamente na própria pele o drama de Sócrates que, embora atrás das grades e na iminência de ingerir o veneno fatal que o levaria à morte física quedando-se inerte, declarou-se inteiramente livre, consciente de que sua essência jamais seria o corpo perecível. Batista hoje reconhecidamente um espiritualista de escol, traz

consigo a plena consciência de que o ser humano é constituído de uma parceira dualidade, a argamassa celular e nela incrustada a alma, a essência da vida imperecível e plenamente livre, “livre como o vento, livre como os pássaros, livre como a garça voando no arrebol.” Quem assim pensa e age como o fizeram Sócrates e Batista, nunca se sentirá aprisionado mesmo com o cerceamento ou perca da liberdade de seu corpo físico. E foi com este espírito de liberdade plena que a lúcida inteligência deste notável jornalista, com mais de meio século de bons serviços à sociedade, vem orgulhando os goianos, encantando Goiás e enobrecendo o jornalismo brasileiro.

Escrevendo sem a preocupação de querer agradar quem quer seja, Batista forja sua brilhante trajetória profissional”

Através de sua pena destemida e generosa ultrapassou os estreitos limites das nossas fronteiras, varreu todos os rincões da pátria, universalizando o verbo da verdade e levando a mensagem cristalina da verdadeira imprensa livre e democrática,

ajudando a construir a cidadania, desejoso de implantar definitivamente na face escura do planeta, o reinado permanente dos nobres e valorosos princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Escudados nesta corajosa linha de pensamento de seu Editor Chefe foi que o jornal Cinco de Março e seu sucedâneo Diário da Manhã, transformaram-se em vanguardeiros da esperança e da fé, timoneiros da liberdade e arautos da democracia brasileira. O Diário da Manhã, fonte geradora e fomentadora desta luta sem tréguas e permanente em favor da cidadania, transformouse em uma indispensável ferramenta de gestão destinada a quebrar paradigmas. Ao fomentar a construção da cidadania plena, sugere que cada cidadão brasileiro ou não, ao sentir o despertar de sua própria consciência assuma livremente o comando de sua individualidade, resgate seus valores pessoais inalienáveis, assenhoreia-se de seus direitos e deveres, sem violentar a consciência de outrem. Esta é a ousada, vanguardeira, arrojada e sublime tarefa que o Cinco de Março e agora o Diário da Manhã, sob o pálio generoso e a batuta do intrépido, audacioso e destemido Batista Custódio, vem sustentando e compartindo com todos os segmentos da sociedade goiana. Prova incontestável desta irrefutável realidade foi a criação e implantação da coluna Opinião Pública, comandada pela jovem e competente jorna-

lista Sabrina Rittiely. Ali o Diário da Manhã em espaço livre laico e democrático, oferece a quem o desejar, oportunidade de expor abertamente seus pensamentos seus pensamentos e seus ideais. A Opinião Pública, transformouse no maior foro de debates do jornalismo goiano, freqüentado não raramente por brilhantes articulistas, poetas, prosadores, profissionais liberais, políticos, educadores, estudantes, renomados jornalistas, ilustres escritores e pela gente do povo, onde todos os assuntos de interesse público são comentados e exaustivamente debatidos. Ao ensejo do transcurso do aniversário dos 33 anos deste renomado jornal, criador e sustentador da imprensa livre em Goiás, com júbilo e alegria, ousamos em nome do generoso povo de Aparecida de Goiânia, a quem temos a honra de representar, render nossas sinceras homenagens. Ao fazê-lo, manifestando aqui o preito da nossa gratidão e do nosso reconhecimento ao laureado jornalista e amigo Batista Custódio, ao ilustre aniversariante Diário da Manhã, filho dileto e amado do seu coração e a todos os profissionais que abrilhantam com suas presenças aquela trincheira de luta, pelos relevantes e inestimáveis serviços prestados a Goiás e ao Brasil. Parabéns a todos. Felicidade sempre. Gratidão e paz. (Maguito Vilela é ex-governador do Estado e prefeito de Aparecida de Goiânia)


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Diário da Manhã

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ARTIGO

Trinta e três anos este mês ARQUIVO DM

Jayro Rodrigues Especial para

Diário da Manhã

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ano é 1981. Dia e mês, não me lembro. O local, a antiga sede do Diário da Manhã, na Av. 24 de Outubro nº 1240, Campinas. O horário, por volta de 9h30. Na imensa sala de redação do jornal, aquela hora ainda sem muita gente, o então senador Lázaro Barboza, do PMDB, tagarela amistosamente com alguns jornalistas (Ivan Mendonça, Luiz Augusto da Paz e Valterli Guedes, além deste escriba, Chefe de Redação). A alguns metros, apenas observando, Batista Cardoso, repórter esportivo, que, a caminho do Estádio Antônio Accioly, fizera uma pausa para tomar água, pois ainda curtia uma ressaca da noite anterior, num périplo que começara no Ramal 51 , um misto de boteco e restaurante, que ficava praticamente nos fundos do prédio do DM, e terminara não sei onde, na companhia de Isanulfo Cordeiro, Hélio Rocha e o saudoso Raimundo Filho. O fotógrafo Lailson Duarte, o Jacaré, procura poses do visitante para a ilustração da entrevista. Súbito, adentra o recinto o então editor de Política, Marco Antonio Lemos, de jeans, camisa aberta ao peito, exibindo um enorme cordão e crucifixo de prata. Junta-se ao grupo, cumprimenta o sena-

Redação do DM, onde aparecem Jayro Rodrigues (à máquina) e Carlos Alberto Sáfadi (costas) dor. Lázaro Barboza, de forma absolutamente inesperada, num gesto rápido, toma do crucifixo, beija-o e o larga incontinenti. Todos reagem aturdidos, momentaneamente paralisados pelo imprevisto. Com enorme e malicioso sorriso, Lázaro vira-se para o fotógrafo, ainda sem ação, e comenta: “ Mas que foto que você perdeu, hein, meu filho?...” Estourou uma gargalhada geral, e a entrevista prosseguiu. Narro esta história para que as novas gerações de jornalistas e comunicadores possam ter uma idéia do clima jocoso e participativo, da experiência diferente, trepidante, entusiástica que era fazer jornalismo no Diário da Manhã. Um jornal que, pelo lema adota-

do por Batista Custódio, só deveria ter “a ideologia do fato”. Aliás, muito embora a redação contasse com esquerdistas em sua maioria (coisa absolutamente normal, até porque, segundo a frase primorosa de Assis Chateaubriand, em conselho a Roberto Marinho, “não há como se fazer jornalismo sem comunista nem balé sem viado”), esse preceito era seguido à risca e se tocava o jornal num ritmo em clima de unidade em torno do objetivo de elaborar e entregar ao público o melhor possível. Havia uma unidade de ação no propósito de excelência jornalística, um clima de tolerância e de reciprocidade, apesar de eventuais desencontros políticos, ideológicos e filosóficos,

diferenças políticas. Repórteres e redatores concentravam-se na informação, tão ampla e imparcial quanto possível; as opiniões, livres e sem qualquer tipo de censura, ficavam para a parte editorial e para as inúmeras colunas pessoais que sempre foram uma marca registrada do DM. Por sinal, já passados mais de trinta anos, posso assegurar que nunca folheei uma publicação que apresentasse tamanha multiplicidade de opiniões, em todas as áreas: quem quer que tivesse algo a dizer, e assinasse, obtinha espaço no jornal. Convivíamos excelentemente bem, “reacionários” e “progressistas”, neoliberais, homo e heterossexuais, Opus Dei e Teologia

da Libertação, periquitos, vilanovenses e atleticanos, PDS, PMDB, trotskystas, “Partidão”, PC do B e até o PT, recém-criado, a gozar ainda de uma aura quase religiosa e messiânica de probidade ética e política, bem pré-mensalão. Basta assinalar, para registro da época, que caso a blogueira cubana Yoani Sánchez por lá aparecesse, naquela época, não despertaria quaisquer fúrias de militâncias ou hostilidades de grupos. Seria tratada como aquilo que efetivamente era, ou seja, como notícia. À direita e à esquerda, seria dissecada sob todos os ângulos e facetas que pudesse apresentar, da política à economia e do cabelão ao vestido, sem restrição, boicote ou oba-oba. Qualquer julgamento competiria ao leitor fazer. Recordo com muita saudade e nostalgia o período em que passei no Diário da Manhã, tanto pelo que pude (pudemos, todos) concretizar e pelo que aprendi, profissional e vivencialmente. Hoje, infelizmente, é um tempo em que se fala em “regulação da mídia”, com inequívocos propósitos de censura e amordaçamento. Aquela época, aquele projeto e os que o executaram compõem um farol de referência, na persistência da luta em favor da democracia e da liberdade de expressão, que nunca cessou e sempre se renova. Em 1980, na criação do Diário da Manhã, ainda vivíamos sob o regime militar, sob a opressão da censura e ainda nos recuperávamos dos traumas da sombra e dos ecos do AI-5, cuja revogação

era recente. Assim como é hoje, nosso desafio de então era manter acesa a chama dos ideais de liberdade e de informação. Nossa principal contribuição a tais causas foi o estímulo à liberdade de expressão, focados na idéia de que a liberdade é a essência da cultura ocidental, o princípio de seus triunfos; constitui mesmo o centro de sua irradiação. O valor da liberdade, nela contido o direito à informação e à livre expressão, assim como o da civilização ou da educação, consiste no fato de que, sem ela, a personalidade individual não pode concretizar todas as suas potencialidades, não pode viver, agir, fruir, criar conforme as inúmeras maneiras que permite cada momento da História. Participamos, no Diário da Manhã, de um processo que, ao inovar o exercício da imprensa em Goiás, pregou e ajudou a consolidar a liberdade e a cidadania e disseminou o inconformismo. Recordemos que nossa sociedade é humana, portanto falível e sujeita a erros e equívocos. Estes deixam de ser perigosos quando é permitido contradizê-los e denunciá-los livremente. (Jayro Rodrigues, próximo dos 73 anos, foi, ao lado de Carlos Alberto Sáfadi, um dos primeiros contratados por Batista Custódio para o lançamento de um jornal que viria a ser o Diário da Manhã. Hoje, é Superintendente de Comunicação da Casa Civil do Governo de Goiás)


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ARQUIVO DM

Missão da imprensa O Diário da Manhã registra o dia a dia dos acontecimentos significativos, comenta novas ideias, discute sua propriedade de adaptação ao meio, vergasta os erros, corrige e abranda os costumes. Goiás sempre foi berço da imprensa livre e corajosa Goiás tem uma história de imprensa livre

Olímpio Jayme Especial para

Diário da Manhã

N

este momento tão conturbado para os destinos do Brasil, com os governos em absoluto divórcio com os interesses e objetivos do País, com a corrupção predominando em todos os setores da vida publica nacional, um poder se levanta contra e em defesa das tradições de honradez e dig-

nidade do povo brasileiro, a IMPRENSA. Ela é uma arma dos fracos contra os desmandos dos fortes, e um bálsamo que alivia as dores dos humildes contra os desmandos das inconsequência governamental. Tão grandiosa e tão complexa é a missão social da imprensa que é preciso acompanhar a humanidade em todas as suas maravilhosas ocasiões de vida, para se poder definí-la . A ciência, as artes, a literatura, a política vivem em absoluta dependência da imprensa – veículo admirado que se apodera

de todas as idéias, de todo um sentir de uma época que os conduz pelas mais longínquas paragens do mundo, doutrinado a todos . O jornal é tormento dos maus governos, o sonho mau dos déspotas e, muitas vezes, o furacão que levanta colunas de homens contra o regime das violências, dos atentados, esmagando e construindo em seu lugar o reinado da Liberdade, do Direito e da Democracia. Quem pode medir o prestígio de um jornal quando é bem orientado, bem escrito e, sincera-

mente, inspirado em verdadeiros sentimentos de patriotismo? O jornal espelha por toda parte as grandezas de um País, seu florescimento, suas riquezas, sua civilização, mostrando como o administram, como o governam para atingir o grau de progresso e de cultura que maravilha a todos os outros; e no dia seguinte nos aponta as vicissitudes, as misérias que assolam um outro, que vê diminuída a sua população, desbravadas as suas riquezas, pela má direção de seu governo . O jornal registra dia a dia os

acontecimentos significativos, comenta as novas idéias, discute sua propriedade de adaptação ao meio, vergasta os erros, corrige e abranda os costumes. Goiás sempre foi berço da imprensa livre e corajosa, sendo respeitável sua tradição. E dentro da operosidade jornalística surgiu a figura de Batista Custódio, inegavelmente uma pena capacitada e de muita coragem, que enfrentou e tem enfrentado épocas tormentosas e governo despóticos, pagando caro pela sua bravura e idealismo. Foi sempre um tormento para a in-

sensatez e para o despotismo. Essa sua condição de jornalista bravo e corajoso vem desde a sua mocidade a frente do Cinco de Março e sua e sua voz continua sendo o eco de Alfredo Nasser em nossos dias. E hoje, quando se comemora o aniversário do operoso e bravo Diário da Manhã é necessário que Goiás reconheça a significação desse órgão de imprensa na vida do Estado, vergastando os erros e mostrando os acertos. (Olímpio Jayme é ex-deputado e advogado)


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TRA JETÓRIA

Viagem no tempo Homens de coragem e bravura, aliados à jornalista e advogada Consuelo Nasser, fizeram do semanário tribuna democrática que tirava o sono dos corruptos às segundas-feiras, o espírito que idealizou o Diário da Manhã João Neder Especial para

Diário da Manhã

M

arcando os 33 anos de existência do Diário da Manhã, justo é comemorar o feito extraordinário do jornalista Batista Custódio na sua luta intensa para a preservação do jornal que ele, Batista, idealizou e fez nascer para ser um marco na divulgação de Goiás para o Brasil, pena que nunca, nunca mesmo, esse clarão de idealismo tivesse iluminado os poderosos que governaram nosso Estado, pois, em sentido contràrio, mesmo após a abertura gradual para a redemocratização iniciada em 1.983, o Diário da Manhã foi brutalmente massacrado, asfixiado pelo poder econômico fantasiado de falência para garrotear a liberdade de pensamento que renascia em meio a tantas esperanças que se perderam no desencanto da tirania dos que juravam, em praça pública, amor pela liberdade de imprensa. Venho de longe, caminhando

sem cansaço, cultivando as lembranças de um apaixonado pelo jornalismo e vêm-me à memória, lances da história não tão recente, recordando o Jornal de Notícias desde os anos 1.950,do século passado, rememorando as agruras do Alfredo Nasser para fazer circular seu jornal, voz sonora e firma das Oposições Goianas de então, tendo a seu lado Desclieux Crispim, Sebastião de Abreu, José Luiz Bitencourt (pai), José Morais e tantos outros agora são apenas histórias. Veio depois o antigo Estado de Goiás que expressava as opiniões e o pensamento do Partido Comunista, mantido por Alberto Xavier, Abrão Isaac Neto, Moacir Berchó e outros, cujas oficinas foram violentamente transformadas em montes de caracteres esparramados pelo chão e seu humildes funcionários levados pela polícia política em uma bravata de extrema covardia. Mais adiante, surgiu pelas mãos de Clotário Mena Barreto o jornal Nova Capital, instalado na Rua 20, com o objetivo de divulgar o ideal da mudança da capital federal para o Planalto Central, com uma equipe liderada por Geraldo do Vale, Pimenta Neto e

José Leão, com duração de poucos anos; mais adiante, no tempo de novas eleições, aquele que era O Social, voltou a circular como Diário da Tarde, tendo alcançado grande tiragem quando teve como diretor Luiz Gonzaga de Barros Mascarenhas. Ainda com as idéias de novos tempos, veio à lume o Diário do Oeste, de Waldemar Gomes de Melo, com acentuadas inovações, mas não teve vida longa, mesmo sendo muito bem feito tanto na forma como no conteúdo, nele pontificando Javier Godinho entre outros tantos bons jornalistas. Mas o épico acontecimento que viria a ocorrer na noite de 5 de março de 1.959, na Praça do Bandeirante, deu nome a um semanário que fez história em Goiás – o Cinco de Março, nascido com a coragem emanada dos moços que enfretaram as polícias civil e militar, lutando os estudantes pela melhoria do ensino público em Goiânia. Homens de coragem e decisão, aliados a bravura de uma mulher, Consuelo Nasser, Batista Custódio, Waldemar Peres de Faria, Telmo de Faria e outros colaboradores, fizeram do semanário que às segundas-feiras tirava o sono dos

ARQUIVO DM

Consuelo Nasser, bravura nas páginas do Cinco de Março e DM corruptos de Goiás.. Nasceu dos ideias do Cinco de Março o nosso Diário da Manhã que, merce de Deus, tem sobrevivido graças a tenacidade do Batista Custódio que teima em não deixar cair o estandarte do jornal que caminha vencendo todas as dificuldades para consolidar-se como a mais autêntica tribuna democrática do pensamento plural dos goianos e dos brasileiros que se expressam livremente em suas páginas. Costuma-se associar-se o número 33 à idade em que Jesus

foi levado à cruz, padecendo o seu calvário de incompreensões, mas o fez para salvação de todos, bons e maus, mas é na ressurreição que a glória maior se projeta no tempo, em meio as saudades do Fábio Nasser, grande espirito com força criativa que fundou o Diário da Manhã acreditando no futuro que estamos vivendo, porque Fabio Nasser teve a visão do amanhã, mesmo na noite escura das trevas que silenciaram por doloroso tempo a voz do Diário da Manhã e lá, habitando entre os

Espíritos Iluminados, suas preces falam de amor, de paz, de saudade, cheias de carinho pelo pai Batista Custódio, que hoje pode comemorar os 33 anos do Diário da Manhã como o vitorioso, porque na cruz em que quiseram colocá-lo em tantas oportunidades, nasceram flores e até cravos, estes perfumados! Se olhar para traz, Batista, você verá que na verdade, você´e o Diário da Manhã, venceram. (João Neder é jornalista, escritor e promotor de Justiça aposentado)


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NA IMPRENSA GOIANA

O homem que abriu os novos caminhos Após o sucesso do corajoso semanário Cinco de Março, Batista Custódio consolida um moderno diário, um dos melhores veículos de comunicação do Centro-Oeste Eliezer Penna Especial para Diário da Manhã

A

fundação de um jornal não pode ser vista apenas como a criação de uma fazenda, a constituição de uma estrada ou levantamento de um edifício. Em um órgão de comunicação existem mais que a ampliação de fortunas, o aumento de recursos materiais. No objeto jornalístico, se junta o ideal do sonho e da esperança. O diretor de um jornal é também um pensador que deseja não a riqueza material, buscando sempre as coisas do pensamento, ampliando fatias de visão superior e sempre olhando o futuro maior. A comemoração hoje de 33º aniversário do Diário da Manhã é mais um passo à frente de quem está ampliando os caminhos do ideal buscado com sacrifícios e dificuldades em anos de tremendos esforços. Após o sucesso do corajoso semanário Cinco de Março, Batista Custódio consolida um moderno diário, um dos melhores veículos de comunicação do Centro Oeste. Não se diga que ele avançou com facilidade,

HUMBERTO SILVA / ARQUIVO DM

O diretor de um jornal é também um pensador que deseja não a riqueza material, buscando sempre as coisas do pensamento, ampliando fatias de visão superior e sempre olhando o futuro maior” ao contrário, para obter esses avanços ele precisou dominar os passos de inimigos terríveis de quem via nos sonhos da comunicação como adversários a serem derrotados. Não foram poucos os golpes criados pelos líderes dos negócios escussos, que temiam os amigos de verdade. Para criar dificuldades ao bravo empresário de palavras

Para Batista Custódio, jornalismo é sacerdócio

abertas, não deixava o autor de laços de passarinheiro, querendo destruir os sonhos do plantador de esperanças. Mas a seu lado vieram outros, bloqueando os passos do lutador urbano que veio da zona rural, oferecendolhe meses de prisão, como se a restrição da liberdade destruísse os que plantaram fibras. E tombaram a esposa, o filho, os irmãos e os parentes, mas não caiu o desejo inaudito de construir algo para o futuro, transformando as dores em rumos da verdade. Nessas batalhas, como nas guerras, há dores e lagrimas. No Dia Internacional da Mulher que acabamos de comemorar, Goiás homenageou Consuelo Nasser, a grande aliada de Batista, um nome brasileiro, defensora da liberdade dos seres humanos, professora de jornalismo e de lutas, exemplo de coragem permanente. O Diário da Manhã está aí, forte e independente. É um exemplo de Goiás para o Brasil. O produtor rural voou para o sonho do asfalto, mostrando que de velhas estradas sempre surgem novos caminhos. (Eliezer Penna é jornalista, ex-deputado, e fundador do Diário da Manhã)


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ARTIGO

Viva a liberdade Diário da Manhã continua com suas páginas abertas

A Associação Goiana de Imprensa (AGI), entidade mater dos Comunicadores em Goiás, interpretando o sentimento de seus integrantes, associa-se às manifestações de alegria pela passagem do 33º aniversário do Diário da Manhã. Desde sua 1ª Edição, em 12/03/1.980, o DM tem sido fiel intérprete dos acontecimentos de Goiás, do Brasil e do mundo, bem como um baluarte na defesa dos interesses coletivos. Desde então sob a liderança do grande jornalista Batista Custódio, suas páginas estiveram abertas ao contraditório, ao entrechoque das idéias, fundamentos da vida democrática. É o Jornal mais plural do Brasil. É praça pública na forma de Jornal.

João Soh Especial para Diário da Manhã

V

Ei! Psiu? ocê acha que o papel da mídia na atualidade é importante para a consolidação da democracia no Brasil? A televisão, as redes sociais, o rádio e a mídia impressa tem liberdade para noticiarem, denunciarem, criticarem e cobrarem posições dos governantes, empresários e da sociedade como um todo? Pois é. Estamos vivendo um momento único. Todos podem se expressar livremente. Mas nem sempre foi assim. Antes da década de 90 a TV, e o Rádio eram vigiados, censurados e não existia a internet. Cabia aos jornais mais ousados, sem atrelamento político e econômico, o papel de noticiar, denunciar as falcatruas e desmandos políticos e econômicos. E mais: discutir e propor avanços na frágil democracia brasileira.

PARABÉNS, DIÁRIO DA MANHÃ!

João Soh discute o design gráfico com editores e publicitários E foi com esse propósito que nasceu no inicio da década de 80, o Diário da Manhã, idealizado por Batista Custódio, Ele montou em Goiás uma redação composta pelos principais jornalistas do Brasil e, especialmente, de Goiás. Fez uma revolução na comunicação no Centro-Oeste. Denunciou desmandos, cobrou posicionamentos, propôs avanços e mobilizou a sociedade goiana para desafiar o status quo até então estabelecido a fim de construir uma nova realidade política e econômica, no Estado.

E foram muitas as conquistas. Incompreensões também. Forças reacionárias promoveram boicotes políticos e econômicos. Para asfixiarem o Jornal e forçarem um retrocesso em sua linha editorial. Batista Custódio resistiu. As consequências foram graves. Grande parte dos Jornalistas foram trabalhar nos maiores jornais brasileiros, tais como O Globo, Folha de São Paulo, O Estadão, Correio Braziliense, etc.

A semente plantada por Batista, porém resistiu e continuou a prosperar. A nossa econômia cresceu como nunca. Os políticos, apesar dos altos e baixos, estão evoluindo. A sociedade, bem, a sociedade pelo menos pode falar o que quiser. O Diário da Manhã, apesar das incompreensões persistirem, continua com suas páginas abertas. E viva a liberdade! (João Soh é jornalista e fundador do Diário da Manhã)

Cabe-nos, por tudo isso, manifestar à valorosa Equipe que elabora e entrega ao público, a cada dia, mais uma Edição do DM, nosso apoio, respeito e admiração, ao tempo em que formulamos sinceros votos de que prossiga nesta grande jornada, empunhando a bandeira da Liberdade. Goiânia, 12 de março de 2013 Valterli Guedes

Olinto Meirelles

Presidente

Pres. do Cons. Deliberativo

Olímpio Jayme

Hélio de Brito

Secretário Geral

Diretor Financeiro


Diário da Manhã

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VISÃO

O pioneirismo do Diário da Manhã Aniversário de jornal relembra que Batista Custódio já superou tantas adversidades e que vai resistir a outras pressões políticas Nilson Gomes Especial para Diário da Manhã

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Diário da Manhã foi fundado no dia 12 de março de 1980 e nunca saiu das trincheiras da imprensa livre. É um veículo de comunicação sem amarras comerciais nem políticas, que honra as melhores definições esperadas para uma tribuna. Seu editor-geral, Batista Custódio dos Santos, é um repórter por vocação, um escritor com talento dos clássicos, um partidário das liberdades, sobretudo a de expressão e a de opinião. Neste aniversário do jornal, ele merece os aplausos de 12 milhões de mãos, as mãos de todos os goianos, pois a população inteira é beneficiária das revoluções empreendidas por Batista Custódio. Todos os governos, em algum momento, tripudiaram sobre o Diário da Manhã. Não que Batista Custódio e sua equipe compartilhem da perseguição a alguém, mas pela dificuldade da classe política em compreender quem é livre. Conforme já escreveu Batista Custódio em um de seus muitos artigos memoráveis, a tradição dos governantes goianos é não somente a de exigir elo-

Júlio Nasser abriu as portas para informatização total do DM

Jornal em cores exigiu moderno parque gráfico gios. Eles querem escolher os adjetivos usados pelos sabujos. E a isso Batista Custódio não se submete. Batista escolhe a que julga ser a melhor opção em determinados pleitos, mas não coloca o jornal a serviço de seu preferido. O vigor intelectual de Batista Custódio apenas se aprimorou e cresceu nos últimos 60 anos. No inesquecível semanário Cinco de Março, no auge

da ditadura, Batista desafiou os generais e acabou preso. Seu semanário teve a gráfica empastelada por militares. Depois, já na democracia, o então governador se voltou contra o Diário da Manhã até falsificar a falência da empresa. Batista Custódio tinha dois jornais diários, três rádios, duas emissoras de televisão e o maior parque gráfico do Centro-Norte

brasileiro. De uma hora para outra, virou sem-teto. Mas não lhe doía a falta de lugar para residir. A dor era a falta de um lugar para publicar seus textos. O fechamento de suas empresas foi tão arbitrário que, décadas depois, a Justiça reconheceu que a falência havia sido fraudada pelos carrascos. Era tarde demais. Batista já havia sofrido os tropeços financeiros

advindos do fechamento. Foi tão traumático que custou a vida de seu filho Fábio Nasser. Uma coisa seu algozes jamais conseguiram: calar Batista Custódio. Ele se reergueu, reabriu o Diário da Manhã e continua forte. Seu poder não vem dos palácios, mas da população. Batista entrega seus jornais às ruas. O povo participa das edições, daí o pioneirismo:

O Diário da Manhãfoi o primeiro jornal a ter conselho de leitores. Foi o primeiro jornal realmente diário em Goiás, os demais saíam apenas cinco ou seis dias por semana. O Diário da Manhã foi o pioneiro em informática. Foi o primeiro jornal em cores. Foi o primeiro de circulação nacional. Foi o primeiro a contratar os maiores nomes do jornalismo em todo o Brasil. A Rádio 730 e o portal730.com.br parabenizam o Diário da Manhã, o editor Batista Custódio e toda a sua equipe. E pede ao velho guerreiro do jornalismo: Resista! Goiás precisa de sua sabedoria, de sua experiência, da força quase inexplicável que o faz superar tantas adversidades. Resista! Resista, pois o atual é só mais um governo. Você é o Batista Custódio. Ninguém se lembra quem era governador quando você, Batista, estreou no jornalismo, há 60 anos. Daqui a 60 anos ninguém mais se lembrará quem foi governador nesses tempos. E todos se lembrarão desse grande herói da resistência. Parabéns pelo aniversário do Diário da Manhã. E muito obrigado por ser um apóstolo da imprensa livre. (Nilson Gomes é jornalista)


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SOCIEDADE

História com começo, meio e sem fim Jornalista recorda quando foi convidado para fazer colunismo social: Batista Custódio observou atentamente o jovem e o intimou a escrever Luís Carlos Rodrigues Especial para

Diário da Manhã

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m 1974, no lançamento do livro ‘Espelho Fosco’, da jornalista Laila Navarrete, no salão do Hotel Bandeirante, o olhar insistente (não sabia), mas era analítico, de Batista Custódio, me deixou até um pouco desconcertado. Porém, logo com seu jeitão descontraído, de quem vai direto ao ponto, aproximou-se e me perguntou: Você não quer escrever uma coluna no Cinco de Março?, semanário editado por quem fazia tremer os que tinham motivos para não querer ser notícia. De pronto aceitei e iniciei assim no jornalismo, que me projetou na coluna social, seguimento do jornalismo como outro qualquer, apesar de alguns torcerem o nariz (geralmente os que não são notícia nessa área e/ou os que temem as garras impiedosas do Leão do Imposto de Renda). Mas nem tudo foram flores. No começo do Governo Irapuan Costa Júnior, o jornal sofreu reveses financeiros, perseguições políticas, não por parte de Irapuan, mas de seus asseclas, como sempre. Sem verba oficial e publicidade da iniciativa privada minguando, o salário pingava de vez em quando em forma de vale. Não me deixei abater, corri atrás de patrocínios de empresários amigos, promovi festas e assim fui conquistando clientes para inaugurações, organização de festas de debutantes, casamentos etc. Hoje seria ‘promoter’, mas naquela época não existia essa denominação sofisticada. Era fazedor de festa mesmo. E assim consegui sobreviver, sem esperar pelo contracheque no fim do mês. Seis anos depois, no Governo Ary Valadão, as vacas começaram a engordar e Batista Custódio, junto com Consuelo Nasser, fundou o Diário da Manhã, que já nasceu poderoso e com uma linha editorial completamente diferente do Cinco de Março. Ousado, Batista não só escalou o melhor time de jornalistas goianos como convocou profissionais conhecidos e respeitados nos grandes jornais do eixo RioSão Paulo. A união de talentos aliada ao faro jornalístico de Batista e Consuelo colocou o DM entre os quatro principais veículos do País. O que era para ser motivo de orgulho para o Estado, começou a incomodar. Tanto poder, para mentes medíocres, estaria enfraquecendo os que já eram fracos por natureza. Na mudança de governo, de Ary Valadão para Iris Rezende, o sonho de Batista começou a virar pesadelo e, no início, por volta de 1983 com restos a receber do governo anterior, surgiram as primeiras dificuldades financeiras. Iris pedia tempo para tomar pé da situação e quitar a dívida, bem volumosa, ressalte-se. O tempo passava e a solução ia junto. Até que um dia Consuelo se desesperou com salários atrasados, escassez de papel para rodar o jornal, funcionários descrentes e dificuldades se amontoando, resolveu ir ao encontro de Iris Rezende no Hangar do Estado, onde ele embarcaria para uma viagem ao exterior, já que no gabinete do governador sua agenda estava sem horários para assuntos desagradáveis como cobrança. Certamente Iris não gostou dessa invasão e muito menos Consuelo da cara de poucos amigos do governador. Insuflado por assessores bajuladores (sempre eles!), Iris iniciou um bate-boca com Consuelo, cujo temperamento forte não permitia engolir desaforos. Foi o começo do fim. De volta à redação do DM, Consuelo relatou o ocorrido ao Batista. E lá se foi a última gota de paciência do editor-geral. Sacou-se de sua arma naquele momento, uma velha Olivetti (que usa até hoje) e descarregou duas páginas contra o governo e alguns de seus auxiliares que, sem saber, forneciam munições para revelações de condutas nada ortodoxas. Não gostaram, logicamente. E veio o troco, em forma de perseguições de toda a sorte. O governo que já não pagava o que devia, fechou todas as portas da iniciativa

privada ao DM e até dos bancos em que Consuelo e Batista tentavam obter empréstimos. Empresários e gerentes de bancos eram ameaçados com devassa fiscal em seus empreendimentos. E quem peitaria o dono da caneta? Batista carregou o fardo até o começo de 1985. Viu a redação minguar, vários jornalistas pularam fora do barco, uns no primeiro momento; outros mais corajosos e leais permaneceram movidos pelo idealismo e a esperança de ver o jornal vencer um duelo de Davi e Golias. Outro grupo, em lua-de-mel com a volta da democracia que raiava no horizonte, resolveu tirar o atraso e vingar os anos de chumbo que os amordaçavam. O alvo foi o DM, primeiro que encontraram pela frente para despejar sua revolta em panelaços diários na porta do jornal. O barulho ensurdecedor do protesto impedia os que ainda queriam trabalhar e sonhar, tentando produzir o jornal para o dia seguinte, nem que fosse com seis páginas. Com mais de ano sem receber salários, filhos para criarem e dívidas acumuladas a turma do protesto estava sem razão? Não. Mas Batista e Consuelo também vivenciavam a mesma situação. Pagar com quê? Tirar dinheiro de onde? Meses antes, quando todas as portas se fechavam, uma a uma, Batista dispôs de seus bens pessoais. Vendeu o que tinha – lotes, chácaras, fazenda, prédios, máquinas da gráfica e até a própria casa. Passou morar de favor numa chácara, à época, no longínquo Parque Amazonas, cedida por um dos poucos amigos que lhe restara, o então deputado e comentarista esportivo Mané de Oliveira, esse mesmo que hoje enfrenta os piores dias de sua vida. E aí vem uma dúvida que tento driblá-la a qualquer custo, com ajuda da minha convicção religiosa: vale a pena ser bom nesta vida em que a lei do mais forte favorece os maus? A ganância sangra o idealismo? Mas vou continuar acreditando que sim. E vale a pena, sim. Tanto é que o DM foi fechado, sim. Mas semanas depois, a teimosia de Batista registrou uma nova firma em nome de terceiros, que lhe emprestaram o nome e com ela colocou em circulação o Edição Extra. Desaforo. Os mesmos algozes que cerraram as portas do DM descobriram que havia outro recurso para calar a voz de Batista. Requereram a falência da Unigraf, onde era impresso o Edição Extra, que assim teve sua circulação inviabilizada. Batista, Diário da Manhã e Edição Extra saíram de cena, como queriam. Porém, mais uma vez a persistência venceu. O DM voltou um ano depois, em 1986 e começou do zero. Até porque ninguém acreditava que duraria mais que um mês. E não foi fácil a travessia nas cinzas. Para convencer os incrédulos, o Batista criou uma “agência” de marketing. Sabe como funcionava? Varávamos a noite – o Batista, a Suely Arantes, o Fábio Nasser e eu colando cartazes em preto e branco nos postes de Goiânia e nos muros em que os donos permitiam anunciando a volta do DM. O cheiro forte da cola não nos incomodava tanto como desprezo de alguns que olhavam os cartazes e balançavam a cabeça negativamente, com sorrisos irônicos, como se dissessem: “Coitados, quanta ilusão!”. Não era. O DM voltou caminhando a passos lentos, quase parando, mas não parou e aí está até hoje, atravessando bons e maus momentos, mas sem se desviar uma linha sequer do jornalismo nascido no ventre do idealismo. Anos depois, em 2006, quando o jornal voltou ao ápice, na credibilidade, qualidade editorial e pagamento rigorosamente em dia, deixei o jornal na esteira de intrigas de colegas (?) que chegaram após as dificuldades para desfrutarem do pasto vasto e criarem suas vaquinhas gordas e reprodutoras. Três anos, em 2009, época em que o DM ensaiava nova crise, retornei a convite do Batista. E foi o próprio que me demitiu em 2010. Só queria dar o troco ao meu pedido de demissão, um ano antes. Portanto, hoje estamos quites e sem mágoas recíprocas, mas com admiração e respeito, de lá e de cá. (Luiz Carlos Rodrigues é colunista social)

Hoje seria “promoter”, mas naquela época não existia essa denominação sofisticada. Era fazedor de festa mesmo. E assim consegui sobreviver, sem esperar pelo contracheque no fim do mês”

Requereram a falência da Unigraf, onde era impresso o Edição Extra, que assim teve sua circulação inviabilizada. Batista, Diário da Manhã e Edição Extra saíram de cena, como queriam. Porém, a persistência venceu”

Cinco de Março: combativo, reservava espaço para o colunismo social, início da trajetória de Luís Carlos


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HOMENAGEM

O outro nome de Batista Custódio Delúbio Soares Especial para Diário da Manhã

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monumental André Maulraux, intelectual brilhante, ícone da resistência ao nazismo e ministro da Cultura no governo de De Gaulle, dizia que “o outro nome da França é liberdade”. Em Goiás o outro nome da liberdade é Batista Custódio. O foi quando o Cinco de Março era um facho de luz iluminando a escuridão nos anos sofridos da ditadura militar. E é, mais do que nunca, na luta renhida do Diário da Manhã, plural e democrático, nos dias de hoje. Não fosse o jornalista combativo, o ser humano invulgar, o guerreiro incansável, o intelectual erudito, a figura arrebatadora, com todas as suas circunstâncias e prenhe de contradições, alguns erros e um punhado de acertos, Batista Custódio já valeria muito pelo credo libertário que professa à exaustão, como uma bandeira de vida desfraldada aos ventos da história goiana em mais de meio século de militância e trabalho. Faço questão de avisar logo: esse não é um artigo imparcial. Nem poderia ser, já que sou admirador confesso de Batista Custódio. Comemoro mais um aniversário da fundação do DM como quem faz uma oração ou

reafirma um afeto. Como se esquecer da santa loucura de um obstinado que funda no coração do Brasil, no árido cerrado e ainda na vigência de uma ditadura implacável, um jornal com alta qualidade e nível nacional? Como não se lembrar do jornalista que combina seu caráter passional com inteligência clarividente? Como desconhecer um homem marcado tanto por vitórias quanto fatalidades, que teima em resistir e faz de sua vida um auto de fé na liberdade de opinião, num hino de louvor à pluralidade de pensamento? Como não gostar de um homem que provoca tanto admirações absolutas quanto inconfessáveis invejas? Lá pelos anos de chumbo do regime militar pós-64, quando a noite era mais noite, Batista Custódio, bem informado como sempre, é avisado de que o violento governador da época deliberara a eliminação física de alguns “inimigos” políticos, adversários ideológicos, líderes sindicais e “perigosos esquerdistas”. Dentre os quais minha singularíssima pessoa de jovem líder sindical dos professores. Antes mesmo de nos avisar do risco brutal que corríamos, irrompeu sua figura vulcânica no Palácio das Esmeraldas. Esbravejou, ameaçou e apequenou ainda mais a figura de um tiranete provinciano atônito diante da ira de um enfurecido e transtornadoBatista Custódio. É que o velho leão

ILUSTRAÇÃO: ARTHUR DA PAZ

das rotativas goianas, o guerreiro das redações, colocou-se como Homem, como pai, como amigo, como democrata. Com sua audácia e destemor salvou-nos, com certeza, a vida. Esse é o Batista Custódio, esse é o homem, o tipo humano generoso que oscila do grito ao soluço, do riso à lágrima em segundos, ao ritmo de um coração cansado, mas enorme. Não importa o que pense da política goiana ou quem ele, eventual ou sistematicamen-

te,vá apoiar. Não tem a menor relevância se nossos caminhos nem sempre se cruzem na hora em que as preferências políticas ou compromissos partidários nos afastem. A grandeza de Batista é ser um homem cheio de defeitos, mas nenhum deles maior do que seu amor à democracia e seu compromisso com a imprensa livre. Conseguiu fazer um jornal único, personalíssimo, espelho de sua cabeça aberta e revolucionária. De extremistas ideológi-

cos à direita e à esquerda, de quem nada tem a ver com ele ou com o que ele pensa, o Diário da Manhã abre espaço para o pensamento dissonante, as idéias que borbulham e polemizam, as opiniões mais conflitantes, as teses mais diversas. Uma trincheira segura e profunda da imprensa sem mordaças. Batista Custódio é a mais importante figura da imprensa goiana de seu tempo. Seu jornal não se fecha em preconceitos ideológicos ou dogmas estéreis.

Sua vida é feita de tinta, papel, notícias, horizontes e sonhos. Ao comemorar o aniversário do Diário da Manhã e homenagear a figura ímpar dogrande jornalista, o faço com admiração, gratidão e carinho a todos os que o fazem e, também, aos que por sua redação passaram ao longo dessas décadas. Recordo, particularmente, as figuras de Consuelo Nasser, Fábio Nasser e de Aloisio Biondi, com saudade, mas também com alegria por tê-los conhecido, privilégio imenso que carrego comigo. O Diário da Manhã sobreviveu a todos os golpes recebidos, às tentativas de intimidação e censura, aos boicotes econômicos, às concorrências desleais, às pressões políticas e aos sofrimentos e tragédias pessoais. E sobreviverá a Batista e a nós todos. Sua trajetória fecunda se confunde com a vida extraordinária de seu criador, misto de missão e de pirraça, mistura rara de coragem e obstinação, firme como um jequitibá frondoso, duro e indiferente à aridez da paisagem ou a mudança dos ventos. Salve Batista Custódio e seu talento. Longa vida ao Diário da Manhã. (Delúbio Soares é professor. http://delubio.com.br, Twitter: @delubiosoares, Facebook: http://fb.com/delubiosoares. E-mail: companheirodelubio@gmail.com)


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ANÁLISE

Em tempos de internet e redes sociais, o impresso migra para o opinativo Simone Tuzzo Especial para Diário da Manhã

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m tempos de internet e redes sociais o factual está cada vez mais marcado nas mídias eletrônicas e ao jornal impresso vale os caminhos da reflexão, opinião, crítica e análise do mundo. Ler o mundo e interpretá-lo nunca foi tão importante, pois o efêmero e a quantidade de informações existentes hoje colocam o leitor em condição de não assimilação de tanta informação. Em agosto de 2012 em um evento na ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, sobre Ficção, identidade e memória, os Professores Milly Buonanno da Universitá di Roma e Giovanni Bechelloni da Universitá di Firenze afirmavam que o fenômeno de mudanças na comunicação não é um privilégio somente do Brasil, mas algo que afeta as estruturas da mídia impressa e eletrônica do mundo inteiro. O jornalismo é uma ciência ligada à vida, porque aquilo que é notícia só é notícia porque tem algum potencial de transformar a realidade. Então o jornalismo não lida com o efêmero, o jornalismo lida com a transformação.

Vivemos uma era de transformação, onde a própria função do jornalismo é questionada. Não se trata aqui de mero senso comum em acreditar que, por exemplo, os jornais on line substituirão os jornais impressos... Isso me parece muito com os discursos sobre o desaparecimento do rádio a partir do advento da televisão. O rádio está conosco até hoje, sempre firme, porque soube se readequar às novas realidades sociais que surgiram com a chegada da TV. O jornal impresso possui seu público, sua função e sobre isso não há questionamentos, mas é claro que a cada nova mídia e a cada novo comportamento social as mídias precisam readequar as suas funções e os seus papéis, pois cada mídia tem o seu formato, a sua dinâmica e nenhuma mídia existe sozinha. Cada nova mídia modifica a anteriormente existente a ela. O interesse pela notícia sempre foi algo inerente ao ser humano. Antes que o jornal impresso existisse, o interesse pela notícia já era tão antigo quanto a linguagem escrita. Na antiga Roma, o governo do imperador César fundara o Acta Diurna, uma maneira oficial de noticiar os resultados das guerras, dos jogos, da igreja e das atividades políticas. Tempos depois na era feudal, os trovadores, que eram os poe-

tas do mundo europeu, entre os séculos IX e XII aproximadamente, também exerciam o papel de noticiadores de tudo o que acontecia. A partir do Renascimento comercial e do surgimento de práticas econômicas mercantilistas, há uma expansão na formação de Nações Estados na Europa e de um intercâmbio econômico sedento por informação. Ao longo dos séculos, porém, ter acesso a informações alheias tornou-se ainda mais importante. Conhecer tornou-se mais significante, ter ciência de fatos e acontecimentos passou a relacionar-se a vantagens e o trato dos meios comunicacionais enalteceu-se de maneira a destacarmos a mídia como um dos mais importantes organismos da sociedade moderna. Em virtude de toda essa magnitude e alcance, torna-se claro vislumbrar que a globalização sustenta-se sobre os pilares do capital e da informação, elementos que se inter-relacionam e criam entre si, muitas vezes, relação de dependência. É possível que a sensação de se saber de um fato absolutamente novo já não passe mais pela esfera poética do jornaleiro que gritava euforicamente “extra, extra!” pelas ruas, enquanto os leitores se deliciavam com os fatos quentinhos, saindo das panelas onde se cozinhavam os tipos

móveis metálicos. Hoje o factual está na TV, no rádio e na Internet e quem grita “extra, extra!” são as mídias eletrônicas. Mas porque então o jornal impresso continua a existir com tanta força? Essa pergunta inquietante nos leva a uma especulação sobre uma nova função do jornalismo impresso. Os produtores de notícia continuam a ter a sua tarefa de explicar aos leitores como se desenvolve o mundo, mas o que está por trás da notícia? O que as entrelinhas escondem? Falar da função do jornalista também remete a uma ligação direta com o Funcionalismo e a responsabilidade social do jornalismo. A notícia nós sabemos, mas a leitura de uma análise jornalística é algo que escolhemos a partir de uma seleção criteriosa entre os jornalistas. Em quem confiaremos para nos ajudar a interpretar a sociedade em que vivemos. Não só uma sociedade local, mas regional, nacional, mundial. O jornalista continua a ser e sempre será um formador de opinião, peça chave no mundo da mídia para interceder pelos leitores com relação aos fatos. A crítica e a análise transformam a notícia e recriam a verdade. Ajudam a fazer uma seleção de informações. Um dos grandes problemas da sociedade moderna é a

quantidade de informações. Nunca tivemos tanto acesso, nem por isso somos mais bem informados. Temos os dados, mas, muitas vezes não sabemos interpretar. Ler o mundo. É inegável o papel relevante da mídia na formação da opinião pública, pelo menos, para grande parte da população. Desde o surgimento da mídia de massa, analistas, estudiosos, pesquisadores se encarregam de estudar os fenômenos midiáticos de recepção e impacto que a TV, o Jornal Impresso, o rádio e, mais recentemente, a Internet desencadeiam na sociedade. Como não existe formação de opinião sem informação, a discussão sobre o papel da mídia é relevante para as reflexões da opinião pública e da cidadania. Para isso, inegável o olhar sobre o comportamento da mídia impressa, forma clássica de difusão de informação que, em tempos de internet e redes sociais coloca em questionamento o seu papel informativo. Não em um sentido pessimista de diminuição de sua importância, mas em um sentido de transformação de uma sociedade que não carece mais de informação, pelo contrário, nunca a informação foi tão exacerbada na sociedade, mas uma outra necessidade aflora, a da interpretação. Numa pesquisa realizada com

A mídia codificada A ideia é de que a produção de um jornal não termina quando ele é entregue nas bancas de jornais ou quando é enviado ao endereço de cada assinante. A mensagem não se finda na produção, ou seja, no emissor, mas sim no receptor. O formato é sempre de uma mídia que codifica a mensagem, no caso do Jornal Impresso, esta fonte é a escrita. A leitura é decodificadora da mensagem e tanto para a codificação quanto para a decodificação o pensamento ou raciocínio são fundamentais. Quando um jornal publica uma mensagem ele precisa ter certeza de que o leitor irá decodificá-la com facilidade, mantendo o sentido proposto pelo emissor. Ao criar um caderno onde os leitores podem se expressar, esse processo de “ouvir o leitor” se torna algo ampliado, onde ele não só pode questionar o que foi publicado, mas também criar o seu próprio olhar, recorte e construção da realidade a partir dos fatos cotidianos. No caso do DM, como os artigos opinativos são produções da sociedade e não dos jornalistas, a opinião passa a ser uma produção pelo olhar do receptor, nos mesmos moldes de interação cada vez mais difundidos pelas mídias digitais. Importante destacar que nesse processo de construção da realidade permeado pela mídia, a função do jornal impresso não se limita aos leitores de jornal, mas balizam outros veículos e são consumidos por protagonistas sociais que se inter relacionam com públicos diversos, atuando em uma esfera de construção de opinião pública. Na nova Galáxia de Bill Gates em que hoje vivemos o jornal impresso também se apresenta como uma mídia interligada com as mídias eletrônicas, seja pela colocação de seu conteúdo na internet, seja pelo que apresenta na construção dos discursos recriados nessa plataforma. Comumente a imprensa escrita assume a função de suporte para orientar o uso das outras mídias. Embora pareçam isolados uns dos outros, os meios de comunicação for-

mam uma complexa teia que os conecta, o que contribui relevantemente para a força e representatividade de seus produtos diante da sociedade receptora. A articulação entre os meios permite a legitimação da informação que divulgam. Poderíamos questionar se na sociedade moderna, com o advento de várias outras mídias eletrônicas e sociais, o Jornal Impresso ainda seria um veículo forte, de penetração e de sentido para as referências cotidianas. A nossa resposta seria: sim! Justamente pela sua natureza não efêmera, o impresso oferece dados e julgamentos que ajudam o consumidor da cultura de massa a tomar decisões cotidianas. Isso significa selecionar informações ou formar opinião sobre os protagonistas dos espetáculos sociais. Apesar de ser restrito ao público leitor de jornais, devemos lembrar que esses meios funcionam como mediadores entre as elites e a sociedade, principalmente através dos líderes de opinião, que influenciam os grupos minoritários onde estão integrados. Além disso, a imprensa constitui fonte de informação decisiva para alimentar os programas de rádio, permitindo assim que notícias sobre a Indústria Cultural sejam ampliadas para as camadas que não sabem ler ou que não cultivam a prática da leitura. Na sociedade moderna tudo aquilo que não está na mídia não existe. Nesse sentido os formadores de opinião, que podem ser, a princípio, qualquer pessoa que pertença à sociedade e que tenha uma liderança junto a um determinado grupo social, se caracterizam como determinantes no processo de transmissão de informação, pois eles serão capazes de adjetivar uma informação, modificando o seu caráter do informativo para o opinativo, muitas vezes, sem que os receptores percebam. Os formadores de opinião, ou seja, pessoas que têm a oportunidade de expressar publicamente o seu ponto de vista sobre algo ou membros da família como os pais se constituem líderes de opinião, além de artistas,

o Jornal Diário da Manhã, de Goiânia em 2012, sobre a ênfase do Jornal impresso a partir das novas mídias e das Redes Sociais, o Diretor, Jornalista Batista Custódio afirmou que: “O jornalismo informativo na mídia impressa é algo secundário hoje. Preciso na Redação de pessoas críticas, reflexivas e analíticas, que interpretem as notícias e saibam como transformá-las em textos opinativos, sem descaracterizá-las, mas, sobretudo, respeitando o leitor e acreditando na grandiosidade da interpretação como mais um dado informativo (Entrevista concedida à autora em 23/11/2012).” Para reafirmar o posicionamento do Jornal favorável ao gênero opinativo, foi criado o caderno Opinião Pública em janeiro de 2012, com artigos produzidos pela sociedade. Na época do lançamento do caderno, o Jornal Diário da Manhã divulgou o objetivo de abertura do jornal para que a sociedade pudesse expressar as suas ideias e opiniões sobre assuntos diversos, ampliando o espaço opinativo do Jornal, tendo em vista que o factual em tempos de mídia eletrônica passou a ser algo questionável na mídia impressa, dando espaço para um jornalismo analítico, interpretativo e opinativo, num processo, inclusive, de complementação dos assuntos pautados pelas mídias eletrônicas. professores, líderes religiosos, atletas, socialites ou líderes de classe, como empresários, advogados, médicos, ou líderes sindicais podem exercer influência sobre aquilo que uma pessoa ou um determinado grupo de pessoas pensa ou deva pensar. A opinião pública não é a expressão da massa, mas, a visão daqueles que podem ter expressão na massa. A partir das exposições da mídia, por exemplo, são extraídas da massa as ideias que ela conseguir articular, e recolocadas na mídia como reafirmação daquilo que grupos minoritários e articulados, inclusive no tocante à política, desejam que se acredite ser a opinião de toda a sociedade. Os gritantes silêncios da imprensa podem ser mais poderosos do que os gritos isolados de pessoas que não tem canais de propagação de suas ideias. Assim, ao longo da existência dos meios de comunicação de massa, o que vemos é sempre um conjunto de pessoas que se caracterizam como difusores de informação, criar conteúdos para consumo de uma sociedade e não o oposto. Os meios de comunicação de massa produzem informação, entretenimento, programação midiatizada e os diversos públicos e a massa os consomem. Na sociedade moderna, com a massificação dos meios eletrônicos, o questionamento é a função do jornal impresso, que na sua essência parte do gênero informativo, mas que se vê numa posição de repensar a sua função a partir desse gênero estar sendo cada vez mais apropriado às mídias eletrônicas e hoje migra, com força e propriedade para a análise, a reflexão, interpretação e opinião. O jornalista crítico, opinativo, reflexivo e analítico lê o mundo e refaz a História da Vida, e é esse o seu principal papel, hoje e sempre! (Simone Antoniaci Tuzzo é Doutora em Comunicação pela UFRJ. Professora Efetiva do Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás. simonetuzzo@hotmail.com)


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ARTIGO

Um símbolo de resistência Cinco de Março e Diário da Manhã estão personificados em Batista Custódio. Os dois veículos de comunicação são em essência e história uma coisa só: sinônimo de resistência da imprensa com base no Cerrado brasileiro Antônio Lisboa Especial para

Diário da Manhã

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história da imprensa em Goiás registra momentos de grandeza, marcada pela combatividade ao arbítrio, aos desmandos dos donos do poder. Nesse cenário onde despontam apenas alguns, os destemidos, está o jornal Cinco de Março, semanário que assinalou com tintas fortes sua trajetória no setor político e socioeconômico do Estado. O espírito combativo do jornal estava no germe de sua origem: surgiu no calor de motim estudantil, em 1959, como periódico de militantes políticos. Depois imprimiu força, ampliou seu raio de abrangência e tornou-se um jornal cujo fim era combater a corrupção de governantes e seus agentes públicos; mirar com seu fogo mordaz os abusos de poder das autoridades, o mau uso do dinheiro do contribuinte, os descaminhos

da política, enfim, focar as linhas tortas da sociedade. A época de maior efervescência do Cinco de Março foram os anos 1960. O poder de fogo do jornal queimava a consciência dos corruptos, tirava o sono dos maus políticos que tinham a ansiedade elevada ao infinito. A preocupação era: “o que o Cinco de Março vai publicar nessa segunda-feira?” A inquietação tornava-se para essa gente um inferno de Dante. José Rodrigues de Queiroz (o Zé Gordo), que se tornaria prefeito de Cristalina anos mais tarde (1976), sempre que vinha a Goiânia não deixava de visitar o amigo João Felipe, na redação do Cinco de Março. Felipe dizia a Queiroz: “Zé, de hoje para amanhã político não dorme em Goiás.” Ninguém sabia – mas poderia imaginar – o que sairia nas páginas do inquietante jornal. Sensacionalista, exemplar da chamada ‘imprensa marrom’, com linguagem popularesca, às vezes até chula, representante de um jornalismo sepultado no Brasil com Carlos Lacerda e seus possíveis discípulos. Assim certamente se referiam ao jornal

ocasionais inimigos, gente que gerações de jornalistas das mais tinha algo a esconder, cuja con- diversas colorações e natureza. sciência ardia como fornalha. O Cinco de Março e o Diário Que não se levem em conta o da Manhã também estão persorótulo, as cores superficiais da nificados em Batista Custódio embalagem, mas a sua essência. dos Santos. Eles são em essência O Cinco de Março cumpriu ple- e história uma única coisa, um namente o seu objetivo e, por notável símbolo de resistência da isso, entrou imprensa com para a história base no Cerracom as cores do brasileiro. do destemor, o Batista e “O espírito traço incoseus jornais, mum que dismesmo tendo combativo do tingue os bravisto a sombra jornal estava no vos dos covarda morte, pregerme de sua des. feriram empuO Cinco de nhar a espada origem: surgiu Março cresa exibir a cruz. no calor do motim ceu no conDesafiaram a ceito, estenditadura, os estudantil, deu tentácucoronéis do em 1959” los cuja ampoder e seus plitude não jagunços de cabia mais em primeira hora. um periódico Padeceu prique sairia uma vez por semana. são de oito meses durante o goAssim surgiu o Diário da verno de Otávio Lage, período de Manhã, com a mesma verve, o reflexão e grande fertilidade de mesmo espírito guerreiro. escrita para o editor geral do O Cinco de Março, como o Cinco de Março. Amargaram a Diário da Manhã, tornou-se o asfixia financeira e fecharam as vistoso laboratório de jornalis- portas sob pressão do governo mo do Centro-Oeste. Formaram Iris Rezende. Mas nem as grades

nem a absoluta falta de dinheiro calaram as vozes do Cinco de Março e do Diário da Manhã, apesar das inevitáveis sequelas que atingiram também a família e amigos mais próximos. No jornalismo, assim como no feminismo – uma das piores desgraças do século XXI, somente comparável ao crack – é comum confundir-se independência com liberdade. Independência tem a ver com a posse de autonomia, de quem rejeita qualquer tipo de sujeição, daquele que recusa compromisso afetivo, social. Já liberdade, é um conceito mais amplo que exprime a condição do sujeito não apenas consigo mesmo (no círculo íntimo, psicofísico), mas que encontra infinitas ramificações na esfera e nas condições exteriores. É mais que a ausência total de toda opressão, fala direto da autodeterminação, da capacidade do indivíduo agir, sem quaisquer limites. No jornalismo, a dependência do poder público acaba por criar freios ao direito da livre expressão. A história da comunicação no Brasil está repleta de exemplos de morte de veículos da mídia impressa ou eletrônica

pelo sufocamento de governos tacanhos, ditadores de diferentes estaturas e expressões. Impedir um jornalista de expressar-se é determinar a morte do peixe que se retira da água, é cortar o oxigênio pelo veneno da censura ou pela força bruta das armas. No terreno da comunicação pública, o pior tipo de morte, porém, é pela asfixia financeira porque torna-se asséptica e indolor para quem ordena, às vezes até com sorriso lúgubre e cínico. Como não permite a autodefesa, equivale ao mais covarde dos assassinatos de uma instituição sob um regime supostamente democrático. Batista e seu DM, mesmo tendo assistido a uma legião de seguidores em sua redação, são uma espécie de exército de um homem só. A figura do homem confunde-se com a do jornal ao encarnar um espírito combativo, teimoso, marcado pelo desassombro. Sem pensar que viver é um risco, contrariando o velho Guimarães Rosa. (Antônio Lisboa é jornalista formado na UFG, pós-graduado em Comunicação Pública na ESPM )


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ESPECIAL

MEMÓRIA

Por que os jornais existem? Ao longo da história, os jornais tornaram-se símbolo de liberdade: incendiaram as massas e informaram a população. Mas qual o papel do DM? ARQUIVO DM

Marcus Vinicius Especial para

Diário da Manhã

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s jornais são símbolos de liberdade de expressão desde que os revolucionários franceses Camilles Desmoulins em “Le vieux cordeliers” e Jean Paul Marat no L’Ami du peuple” (O Amigo do Povo), incendiaram as massas de Paris contra os desmandos da corte do rei Luís XVI. Em 12 de março de 1980, quando fundaram o Diário da Manhã, Batista Custódio e sua companheira, Consuelo Nasser, mantiveram-se fieis ao ideário da liberdade. Em pleno regime ditatorial o DM era porto seguro para jornalistas das mais variadas matizes ideológicas como o ex-preso político Antônio Carlos Fon. Em 1980 ele publicou no DM reportagem em que relatava o suplício do casal de guerrilheiros Márcio Beck e Maria Augusta Thomaz, assassinados numa fazenda em Rio Verde. Fon encontrou as ossadas e chegou à conclusão de que o casal foi morto numa operação comandada em 1973 pelo capitão Marcus Fleury. A matéria rendeu ao repórter e ao DM o Prêmio Esso de 1980. A

façanha foi rememorada no livro As quatro mortes de Maria Augusta Thomaz do jornalista Renato Dias, ele também ex-repórter e editor do DM. Nos dias de hoje, a liberdade de expressão ganha novos contornos quando as pessoas, através dos microblogs (twitter, facebook), tem a sensação de serem também jornalistas ou de fazerem notícia fiscalizando os poderes constituídos. Deste novo tempo o Diário da Manhã também é contemporâneo. É dos poucos jornais diários no país que compartilha todo o seu conteúdo na internet. É talvez o único a editar um caderno de artigos, o Opinião Pública, onde todos os segmentos sociais podem manifestar seus pontos de vista livremente. Nestes 33 anos de existência, dos quais participei de 13, iniciando como copidesque, repórter e depois editor, partilhei da convivência com homens e mulheres de talento como Batista Custodio, Aloysio Biondi, Lauro Veiga, Lorimá Dionisio (Mazinho), Valterli Guedes, Euler Belém, Joaquim Ferreira Júnior, Ton Alves, Carlos Brandão, Luis Augusto Pampinha, Gabiel Nascente, Almir, Consuelo Nasser, Daura Sabino, Sueli Arantes, Lisa França, Luciana Brites, Fabricia Hamu, Leticia Borges, Viviane Maia, Antonia de Castro,

Adevânia Silveira, Thais Lacerda, Tatiane Pimentel, Luiza Dias, Renata Melo, Larissa Mundin, Rosana Melo, Carla Borges, Ruthe Guedes, Amália, Cira Aires, Rose, Versanna Carvalho, Adriana Callaça, Daniel Cristino, Fábio Nasser, Realle Palazzo, Eduardo Robespierre, Rodrigo Hirose, Welliton Carlos, Ulisses Aesse, Adalberto Monteiro, Ivair Lima, Apolinário Rebelo, Luis Sinzenando Jayme, Divino Olávio, Almiro Marcos, Luciano Martins, Jarbas Rodrigues, Robson Macedo, Carlos Sena, Luis Fumanchu, Curumin, Darci, Juarez Lopes, Edson Costa, Carlos Costa, Atagiba “Nakagima”, Walmir Tereza, Alberto Maia, Humbero Silva, J. Euripedes, Eduardo Jacob, Marco Monteiro, Renato Dias, Wenceslau Pimentel, João Carvalho. Ressalto ainda entre aqueles que estagiaram no DM como Cleisla Garcia, Oloares Ferreira, Henrique Morgantini, Pablo Kossa, Luís Augusto Araújo e que hoje brilham na TV, no rádio e em assessorias de comunicação. O DM não é um jornal fácil de fazer. Tem problemas de ordem financeira, sofre pressões externas. Já foi fechado num governo, sofreu, e sofre, perseguições de outros, mas mantém-se de pé. Pródigo em revelar talentos, o DM também não teme abraçar novas tecnologias: foi o primeiro

Marcus Vinicius, quando trabalhava na redação do DM em Goiás em ter diagramação eletrônica e página na internet. Os 33 anos de fundação do DM devem ser comemorados por todos que participaram de sua história. Seus altos e baixos, suas dificuldades e vitorias são próprias de um veiculo que teima contra a maré do mercado midiatico atual, pois é “só” jornal, ou seja, não tem por trás um complexo de comunicação composto de rádios, canais de televisão, revistas e outros pro-

dutos como os que sustentam o oligopólio midiático de grupos como Globo, Folha, RBS, Diários Associados. O Brasil que caminha cada vez mais para a democracia deve discutir o papel dos meios de comunicação. A Lei dos Meios, demonizada pelos grandes grupos de mídia como a volta da censura, é nada mais, nada menos, que a oportunidade para oxigenar os espaços de opinião, garantindo que outros atores,

como, por exemplo, o DM e outros veículos, tenham espaço no mercado midiático. Parabéns ao DM e sua luta. Parabéns a todos (as) que fizeram e fazem parte de suas páginas. Sua existência, seus erros e acertos são parte indelével da história do jornalismo em Goiás. (Marcus Vinicius é jornalista e editor-geral do jornal Onze de Maio, que circula na Grande Goiânia)

Diário da Manhã: patrimônio de todos Jornal tem histórias em defesa da democracia: tornou-se ferramenta para oxigenar a sociedade Antônio Almeida Especial para

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Diário da Manhã

ascido com o nome de Cinco de Março, este veículo de comunicação tem uma bela e longa história em defesa do regime democrático e do direito à liberdade de expressão. Sofreu muitas perseguições e censura no período da ditadura, inclusive com prisões arbitrárias do seu editor chefe e fundador, jornalista Batista Custódio, mas resistiu e triunfou na luta pelo retorno do país ao Estado Democrático de Direito. Passados 33 anos de história, o Diário da Manhã consolidouse como um dos maiores e mais valiosos patrimônios da sociedade goiana, sendo a grande tribuna diária de expressão de vozes, idéias e opiniões, de todos os segmentos da sociedade, inclusive muitas delas contrárias a sua própria linha editorial. Se, como dizem os teóricos, o princípio democrático tem um elemento indissociável que é a liberdade de expressão, o Diário da Manhã é uma ferramenta fundamental que oxigena a sociedade, abrindo todas as suas páginas para as manifestações legítimas dos cidadãos. Com essa tão ampla expressão de opiniões, nós, leitores, do jornal físico ou digital, temos o privilégio de vivenciar a verdadeira democracia em nosso Estado, com repercussão em todo o País e o mundo, por meio do site do DM. A democracia depende de uma sociedade civil educada e bem informada, cujo acesso à

informação lhe permite participar tão plenamente quanto possível na vida pública da sua sociedade. Ao exercer diariamente o seu jornalismo livre e moderno, o Diário da Manhã proporciona a oxigenação dos debates e revitalização dos movimentos em favor da liberdade. São 33 anos de trajetória na trilha da modernidade. Ao longo desse período, o DM esteve sempre na âncora das inovações gráficas, editoriais e tecnológicas. Foi o primeiro jornal do Centro-Oeste brasileiro a funcionar com Conselho de Redação. O pioneiro com todas as páginas coloridas. O primeiro com site na internet. Pioneiro na imprensa regional a informatizar totalmente a sua redação, setor gráfico e também a criar um canal de TV, o DMTV. Teve a coragem e a ousadia de

se transformar na maior tribuna de Goiás, trazendo diariamente artigos de opinião de vozes dos mais diversos setores da sociedade. Um jornal extremamente democrático, moderno e plural, que acolhe todas as análises e promove a cada edição a festa da democracia, expondo opiniões sobre os mais diversos assuntos de interesse público. Goiás precisa muito do DM e do talento de todos os seus diretores, editores, repórteres e fotógrafos. Ao completar 33 anos, este jornal merece ser parabenizado e festejado todos os dias porque é um extraordinário pólo irradiador da liberdade e do desenvolvimento em nosso Estado. (Antônio Almeida é vice-presidente da Fieg e diretor-presidente da Editora Kelps.)

Redação lotada nos tempos da máquina de escrever


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HISTÓRIA

O Diário da Manhã e minha volta do exílio Tarzan de Castro Especial para Diário da Manhã

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m dezembro de 1.979 voltei do exílio na França com firme decisão de continuar engajado na luta contra a ditadura militar. Tive uma emocionante recepção em Goiânia, no aeroporto, centenas de amigos, familiares, políticos me aguardavam. Fui saudado pelo então senador Henrique Santillo, o mais importante líder na luta contra a ditadura em Goiás. O Estado passava por uma rica fase, os movimentos políticos, sociais estavam promovendo grandes mudanças na sociedade goiana, que culminariam com o fim da ditadura, as eleições diretas, primeiro para governadores e posteriormente para Presidente da República. Iniciei a militância no combativo MDB,em seguida PMDB. Poucos meses depois era fundado por Batista Custódio, o jornal Diário da Manhã, expressivo órgão da imprensa, que mudaria substancialmente a história jornalística de Goiás. O Diário da Manhã se caracterizou de imediato pela qualida-

ARQUIVO PESSOAL

de, surgiu com uma equipe de grandes jornalistas goianos e nacionais. Abriu seus espaços democraticamente para os profissionais, políticos e articulistas que não tinham espaço na imprensa local. Todas as tendências encontravam guarita e plenas condições de exporem suas idéias. Batista Custódio me deu oportunidade logo no início de me transformar em articulista do Diário da Manhã. Como tal, recebia uma remuneração que para o reinicio da vida no Brasil foi muito importante. Gosto de relembrar com prazer as dificuldades que enfrentei para a readaptação e o sustento da minha família, dentre as quais sempre cito a chance de colaborar com o Diário da Manhã, o convite, de imediato aceito do professor Eduardo Maticus, para lecionar história no colégio Professor Pardal nas unidades de Campinas e Vila Nova. De ônibus, corria alegre de um para o outro. Outro grande acontecimento foi quando o meu amigo Sebastião Tavares de Morais, o Pinóchio, passou uma lista entre os amigos e, com o dinheiro arrecadado, comprou uma brasilinha usada para facilitar o transporte entre uma e outra reunião política. Aí virou festa!

Tarzan observa sua imagem nos seus tempos de luta contra a ditadura

Espaço para criticar a ditadura Com os artigos políticos publicados no Diário da Manhã, criticando a ditadura, propondo a redemocratização do País e o desenvolvimento econômico em benefício da maioria, podia expor minhas idéias e divulgar meu nome, pois queria candidatar-me para um cargo eletivo. Em 1.983 fui eleito deputado estadual pelo PMDB. Numa histórica eleição o PMDB elegeu 22 governadores, a maioria de senadores e deputados federais. Aquela eleição foi a maior derrota do regime militar. Iris Rezende eleito governador de Goiás. Setores retrógrados do governo eleito, sem visão democrática, moveram uma campanha contra Batista Custódio, na verdade contra o Diário da Manhã. Não eram capazes de conviver com um órgão de imprensa que dava oportunidade e expressão para todas as correntes de opinião existentes na sociedade. A perseguição foi dura para fechar o jornal. Lembro-me: um dia o telefone tocou, atendi, era o Batista Custódio, que falou: “Tarzan, cortaram até a luz elétrica da minha casa, estou no escuro, à luz de velas com minha família. O

corte do jornal eu já sabia.” Então disse para o Batista: “Vou imediatamente para a CELG tomar providências.” Lá chegando fui direto para o gabinete do presidente, era o Marco Antônio Machado, me fiz anunciar e fui logo dizendo para a secretária que não aceitava o que estava fazendo com o Batista, exigia a religação imediata da energia elétrica de sua residência. Cansei de esperar para ser atendido pelo presidente, forcei a barra, recebi explicação que o corte foi feito por ordem superior que infelizmente o meu pedido não poderia ser atendido. Exaltado, mandei comunicar ao presidente que falasse com quem de direito, seja quem fosse que deu a ordem de corte, e mais, que eu não sairia do seu gabinete enquanto a energia da casa do Batista não fosse religada. Passaram longos minutos de tensão e silêncio até que me comunicaram que a luz fora religada. Estou contando esta história para ilustrar quanta pequenez e mesquinharia é possível acontecer na nossa província dos goiazes. Batista e Diário da Manhã se confundem com a luta

Abriu seus espaços democraticamente para os profissionais, políticos e articulistas que não tinham espaço na imprensa local”

contemporânea pela liberdade e Democracia nas terras goianas; são símbolos imortais desta resistência. Manter jornal de qualidade por tanto tempo nesta realidade, infelizmente ainda com muitos traços de atraso e arbítrio, não é fácil não. Parabéns Batista Custódio, Parabéns ao Diário da Manhã e toda sua equipe pelos 33 anos de vida. (Tarzan de Castro é ex-deputado estadual e federal, empresário, diretor da revista Hoje e articulista do Diário da Manhã)


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OPINIÃO

Do Cinco de Março ao Diário da Manhã “DM tem contribuído, efetivamente, para uma imprensa livre e melhor qualidade de cidadania no Estado de Goiás” ARQUIVO DM

Patrick Barcellos Especial para Diário da Manhã

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udo começou com o combativo Cinco de Março, na década de 60, um jornal semanário que caiu nas graças do povo, notadamente de Goiás e de Goiânia. Criado por Batista Custódio, então um estudante universitário, o Cinco de Março enfrentou a ditadura de cabeça erguida, tanto que Batista chegou a escrever artigos editoriais de dentro da cadeia. O semanário ocupou um espaço tão significativo na imprensa, que chegou a ter correspondente em Nova Yorque, o então senador Lázaro Barbosa. E, diante da demanda da sociedade goiana por mais um jornal diário, Batista Custódio deu adeus em lágrimas ao Cinco de Março para criar o Diário da Manhã , mas valeu a pena, porque o DM inaugurou um novo tempo na imprensa goiana, rompendo fronteiras, inclusive servindo de exemplo para jornais já conceituados em nível nacional. Por um bom tempo, superou a extinta Folha de Goiaz e o até então imbatível O Po-

apenas por esse projeto ousado, que é o Diário da Manhã, mas, sobretudo, pelo que fez e segue fazendo pelo engrandecimento da imprensa goiana. Formou grandes jornalistas, inclusive boa parte deles são editores, hoje, no seu principal concorrente, O Popular, que faz questão de chamar de coirmão. Batista Custódio é um homem que experimentou as principais experiências divinas nesse Planeta Terra, inclusive a experiência bíblica de Jó, ou seja, num momento estava no ápice do poder empresarial e jornalístico, e, de repente, estava sem praticamente nada, porque na verdade tinha tudo, que era fé e gente que confiava nele para se reerguer. Tanto que não demorou muito para voltar a fazer o melhor jornal de Goiás. Também sofreu muito com a perda do amado filho Fábio Nasser, que herdou dele e do avô materno – Alfredo Nasser, que dá nome ao Palácio do Legislativo goiano – a veia jornalística, mas espiritualista genuíno que é, entendeu logo os desígnios de Deus. De outra parte, orgulha-se de todos os filhos: Júlio Nasser, o herdeiro da veia empresarial da família; Imara Custódio, mulher sábia e de notória energia, por isso intrépida, daquelas pessoas que não rejeitam desafios, ainda que tenha uma grande batalha pela frente; os pequenos João do Sonho e Maria, que estão para Batista assim como José e Benjamin estavam para Jacó, ou seja, um amor ágape, o mais puro que Deus deixou para nós. Enfim,

Pai e filhos na direção do DM: Fábio Nasser, articulista; Júlio Nasser, presidente; Batista Custódio, editor-geral; Imara Custódio, diretora comercial pular. Mas também passou por momentos difíceis, chegando a fechar suas portas por algum tempo, ressurgindo em seguida como Fênix. O certo é que voltou com mais força, inovando ainda mais Batista sempre foi um pai de família exemplar, seja com os filhos de sangue, seja com os filhos do jornalismo. E, entre estes, os destaques hoje ficam para Ulisses Aesse e Sabrina Rityeli, mas também ama a todos, ao exemplo de Carlos Freitas, editor de Política. A verdade é que, em um tempo recorde, aprendi a admirar e respeitar Batista Custódio não apenas pelo profissional exemplar que é, mas também pelo ser humano de rara sabedoria que é. Inclusive, já tive o privilégio de conversar com ele por algumas vezes e, assim, usufruir, ser agraciado com suas palavras sábias de um homem que lê de tudo e sabe reter o que é bom. Sintome orgulhoso em estar ingressando nessa família DM, que tem contribuído efetivamente não somente para uma imprensa realmente livre, mas, sobretudo, pela cidadania, um Estado de Goiás cada vez melhor e uma Nação verdadeiramente soberana. Confesso que a trajetória de Batista Custódio, lenda viva do jornalismo, me inspira a cada vez mais pavimentar um caminho com vistas a conquistar um projeto eletivo, em 2014, e ingressar de vez na política com o único propósito de contribuir para o resgate da cidadania da nossa gente sofrida, que sequer tem um pedaço de pão para comer e, muito menos, um travesseiro para recostar a cabeça. Sou um dos poucos agraciados de Deus, nesse planeta, ao exemplo de Batista, porque recebi educação de qualidade, especialmente de

na sua linha editorial, adequando-se aos tempos modernos da comunicação, inclusive passando a editar o Caderno Opinião, que se transformou numa verdadeira tribuna popular, onde o cidadão, seja goiano ou não, meus amados pais, inclusive conquistando o diploma de bacharel em Direito. E, agora, como assessor especial do governador Marconi Perillo, tenho buscado ser um colaborador fiel naquilo que ele mais almeja, ou seja, fazer o melhor governo da vida dos goianos. Considero-me um jovem cheio de energia, sobretudo para aprender boas lições, como as que venho aprendendo com grandes homens, como Batista Custódio e Marconi Perillo. Comparo o fogo que tenho dentro de mim ao Araguaia, onde você olha por cima do Rio e ele está calmo, mas debaixo daquela calmaria, lá embaixo, é uma turbulência, uma efervescência do rebojo das águas. E esta é a vontade que tenho, cada dia mais, de buscar me credenciar para a disputa de um mandato eletivo com o firme propósito de fazer a verdadeira política e, assim, contribuir mais pelo desenvolvimento sustentável do Estado de Goiás e do Brasil, para que sirvam de exemplos cada vez mais para o Mundo. E, nesse sentido, tenho recebido apoios que jamais imaginaria receber, por isso sou muito grato a Deus. E creio firmemente que o Supremo Arquiteto do Universo está no controle de minha vida, porque desde já me considero um cidadão da Terra mais que vencedor. Some-se a mim, numa verdadeira simbiose, e venha você também ser um vencedor. (Patrick Barcellos é assessor especial do governador Marconi Perillo e articulista do DM)

tem seu espaço garantido para abordar o tema que desejar. Basta tão somente que os artigos tenha um mínimo de ética possível, ou seja, contribua de um modo ou outro para fortalecer os relacionamentos propos-

tos por Deus, seja através de avaliações positivas ou até mesmo de críticas construtivas. E, nesse diapasão, o DM comemorou 33 anos de fundação na última quarta-feira, 12, oportunidade em que, com cer-

teza, receberá homenagens as mais significativas possíveis. Particularmente, antecipo-me às comemorações, nas quais também estarei presente de corpo, alma e espírito, para cumprimentar Batista Custódio não


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ESPECIAL

HISTÓRIA

O profético olhar de Nasser ARQUIVO DM

Luiz Queiroz Especial para Diário da Manhã

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história política brasileira tem me causado especial fascínio. Gosto especialmente do capítulo que abrange desde a era Vargas à atuação de Juscelino Kubitschek. Neste estimulante conjunto de acontecimentos que compõem boa parte da República, aprecio ainda os relatos biográficos. Fascina-me ler a vida de homens como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart e de outras figuras que estiveram à generosa sombra do poder, como o jornalista Assis Chateaubriand. Nessa rica e densa teia que forma palco para a política brasileira, há um aspecto igualmente instigante. É o conjunto de textos com relatos e análise da política de Goiás. Esse é um capítulo ainda carente de obras mais completas e interessantes. Nas últimas décadas, tenho me dedicado ao estudo da trajetória de personagem políticas de Goiás, como Pedro Ludovico Teixeira, o fundador de Goiânia. Entre as figuras mais expressivas da história sócio-política de Goiás está Alfredo Nasser. Ministro da Justiça e Negócios Interiores do governo João Goulart e uma das vozes goianas no parlamento, Alfredo Nasser despon-

tou pela inteligência brilhante, a lucidez das análises que fazia e ainda pela eloqüência do discurso. Essa aguda percepção de sábio o, permitia, às vezes, antever o futuro, com acerto notável. Revirando velhas gavetas, recentemente deparei-me com uma entrevista a mim concedida em março de 1992 por Dante Ungarelli, um dos pioneiros de Goiânia. Na fala, Dante Ungarelli observa: “um dia eu estava na casa do professor Alfredo Nasser com Camargo Júnior, Wilmar Guimarães e Randal do Espírito Santo, quando lá chegou o jovem Batista Custódio. Indiferente a tudo, sentou-se e ficou observando a figura de Alfredo Nasser que lhe dedicava atenção, como se estivesse diante de alguém muito importante. Perguntei ao professor porque toda aquela deferência a um simples moço. Alfredo Nasser respondeu:” “Ah, Dante, você não imagina! Esse moço é inteligentíssimo, é o futuro da imprensa Goiana.” Olhei aquele rapaz, não acreditei. Para mim, Nasser estava cometendo um equivoco. Cheguei a discordar dele, mas, Nasser advertiu: “Você verá, Dante.” Os tempos mostraram-me. Vi que aquele moço era mesmo uma revelação que estava vindo pra ficar na empresa de Goiás e do Brasil, confidenciou-se Dante. A vida de Alfredo Nasser contém capítulos interessantes que denotam a vivacidade de um homem culto, de grande ideais.

Alfredo Nasser sabia distinguir o joio do trigo na política

O velho político goiano sabia distinguir o joio do trigo. À força de um simples olhar, separava o homem de valor de um canalha. Sua perspicácia permitia-lhe apontar com antecedência o que viria a ser um jornalista combativo, destemido, como Batista Custódio, à frente de o Cinco de Março e depois, do Diário da Manhã. A admiração de Alfredo Nasser por Batista Custódio está registrada no capítulo

“Conversa intima” do livro O Líder não Morreu pesquisa de Consuelo Nasser, transcrito de O Cinco de Março, em 9 de novembro de 1963. Alfredo Nasser assinala: “Batista Custódio é o comandante da equipe deste jornal. Filho, neto, bisneto, tataraneto de fazendeiros, traz ele nas veias o sangue de várias gerações de homens honrados. Por poucas pessoas me responsabilizo moralmente como por esse

rapaz que tem, numa vocação de apóstolo, a alma do panfletário. Seu pai foi meu companheiro na escola primária e sua família é ligada a minha há mais de cinqüenta anos. Quando ouço falar em imprensa marrom, compreendo até onde pode chegar a injustiça neste mundo.” Nasser prossegue: “Batista Custódio é um dos mais puros idealistas, um dos melhores espécimes humanos que já conhe-

ci. A sua bondade dói. O Cinco de Março tira-lhe dinheiro e não lhe devolve um tostão. Nem ele precisa disso. O seu erro é imaginar que este mundo tem conserto, que lutar contra a corrupção vale alguma coisa. Nas longas conversas que temos tido, procuro transmitir-lhe algo do que aprendi, um pouco do que me ficou das coisas que me feriram, um pouco do quanto o caminho a percorrer é longo e duro. Ele me ouve, silencioso, porque sabe que penso como ele. Bom, bravo, generoso, Batista Custódio tem me arrastado à sua luta, numa solidariedade que não negaria a nenhum órgão de imprensa, mas para ele é maior, por sua bondade, sua bravura, sua generosidade, seu puro idealismo, e seu caráter também. Seu verdadeiro, sólido, indobrável caráter.” O cenário político nacional tem figuras brilhantes como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Assis Chateaubriand o capítulo político de Goiás igualmente possui nomes consideráveis, como Pedro Ludovico Teixeira, Alfredo Nasser e Batista Custódio. Cada um na sua seara e em seu momento, eles compõem o ponto comum de uma história política que continua viva. Atualíssima e pulsante. (Luiz Alberto de Queiroz é advogado e escritor. Autor de vários livros, entre eles, O Velho Cacique, Marcas do Tempo e Olímpio Jayme: política de violência em tempos de chumbo)


Diário da Manhã

ESPECIAL

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HISTÓRIA

Diário de longa vida Goiânia já possuiu vários jornais diários e semanários. Poucos resistiram às pressões políticas e financeiras. O Diário da Manhã é símbolo de resistência Luiz de Aquino Especial para

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Diário da Manhã

uero ver a primeira página da primeira edição – aquela com data de 12 de março de 1980. Ou, se for possível, a de alguma das edições piloto que confeccionamos num período que antecedeu à chegada do Diário da Manhã às bancas de Goiânia e de várias cidades do interior, além dos pontos especiais que, nos maiores centros do país, vendiam jornais. Dirão alguns que estou nostálgico; que olho a vida pelo retrovisor; que devia, sim, falar de futuro... Ora! Não sou Nostradamus, nem sequer Mãe Diná; o futuro é um tempo tão sem medidas quanto o passado, mas ele só existirá se continuarmos construindo no presente. E isso só é possível se buscarmos no passado os feitos de nossas mentes, mãos e idéias. Aqueles tempos de Goiânia eram ricos – por isso, inesquecíveis. A cidade e sua vizinhança, longe de vir a ser a metrópole

Estarei certo nesta análise ante o tempo e a história? Acho que sim. Afinal, orgulha-me muito esta marca de 33 anos, em dedicação e aprendizado.”

emergente de agora, tinha uma vida socialmente ativa. Era o tempo, ainda, dos clubes, das raras casas noturnas e ainda ponteavam, aqui e ali, as festas familiares em casas de adolescentes, reunindo brotos (risos) e sobrenomes marcantes, gente que hoje já marca sua entrada em nova fase da vida – a do avonato.

“Por um tempo, calou-se a voz da liberdade, mas vovó dizia que não há mal que sempre dure. E o DM voltou em 1987”

Três jornais já eram história na jovem cidade. Jovem, mas forte o bastante para, naquele tempo, ser a caixa de ressonância da vida de Goiás, aquele Goiás com mais de setecentos mil quilômetros quadrados, incrustado num vão entre a Amazônia e o Nordeste, ladeando o Sudes-

tempos dolorosos, ora como feitos felizes de bons resultados. Minha alegria individual reside no fato de compartilharmos esses feitos com os de centenas de colegas, no espaço e no tempo, nesta mesma Goiânia de tantas alegrias e conquistas, desafios e resultados (uns bons, outros nem tanto). Regozijo-me com os companheiros, sejam colegas ou amigos, concorrentes na captação da notícia mais exata e na qualidade do texto informativo – nós fizemos um pouco desta história. Talvez seja estranho dizer “nós fizemos”, pois a história nunca se encerra. É como uma corrida de revezamento: nós recebemos o bastão e chegará o momento em que o entregaremos, mas correremos

te em seu poente, feito um eixo de rotação do Planeta Brasil. Era Goiás promessa de fartura e futuro. Eram eles, pela ordem cronológica de surgimento, a Folha de Goiás (em cuja marca se grafava Goiaz), O Popular e o Cinco de Março. Outro semanário, Jornal Opção, experimentava sua fase de diário, com grandes inovações de visual e conteúdo. Naquele clima humano, alguns homens crentes nas possibilidades econômicas desta terra sonharam maior: Batista Custódio, idealizador e proprietário do Cinco de Marco, e Carlos Alberto Sáfadi, então editor do Jornal Opção. Os sonhos deram-se as mãos, e desde o final de 1979 desenhava-se a forma e a proposta do “diário do Batista”, como se comentava à boca miúda nos meios jornalísticos, empresariais e políticos. Migrei do Cinco de Março para o Diário no final de janeiro; ou seja, a equipe estava, então, quase toda fechada. Foi o editor de política, Marco Antônio Silva Lemos, quem me capturou para o novo jornal. Deveria cobrir a Câmara Municipal – tinha, já, bom trânsito da Casa de Leis da capital. Festejamos os 21 anos do Cinco de Março e uma semana depois despontá-

para a torcida para acompanhar o andamento... Estarei certo nesta análise ante o tempo e a história? Acho que sim. Afinal, orgulhame muito esta marca de 33 anos, em dedicação e aprendizado, além de significar uma fase expressiva – cerca de metade da minha vida, eu que somando o tempo de trabalho em cada emprego, chego perto dos 150 anos... Em suma: informamos! E informamos aprendendo, e informamos ensinando. E agora, feito um médico da antiga, olho o tempo e aconselho: – Fala 33... (Luiz de Aquino é jornalista e escritor)

Várias edições de número zero foram produzidas para se chegar ao Diário da Manhã ideal vamos na cidade como o novo jornal! Um nome bonito e amplo, uma promessa de alto alcance, uma equipe de altíssimo nível profissional (dizem que, até hoje, nunca mais se constituiu, por aqui, nenhuma equipe tão bem dotada). E vieram outros, e alguns de nós mudamos de casa, voltamos depois ou simplesmente deixamos saudades. Em 1984, veio o tempo do fechamento, os ranços dos tempos de exceção dando mostras de que ainda existiam. Por um tempo, calou-se a voz da liberdade, mas vovó dizia que não há mal que sempre dure. E o DM voltou, em 1987. Em pouco, o jornal retomava seu fôlego e sua vocação de veículo inovador. A primeira medida atrevida, nessa fase, foi circular às segundas-feiras; a seguinte, adotar as cores (até então, jornal em cores era algo muito raro e em Goiás, nenhum noticiário investira nesse benefício. São lembranças, meras lembranças. Fatos que saltam da memória ora como marcas fortes de

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Diário da Manhã

ESPECIAL

PT E DM

Nasceram juntos, mas só um honrou a promessa ARQUIVO DM

Fleurymar de Souza

Washington Novaes analisava a linha editorial com a redação

Especial para

P

Diário da Manhã

or um capricho da história PT e Diário da Manhã surgiram num mesmo contexto, com saudáveis propósitos de lutar pela redemocratização do País. Trinta e três anos depois eles se encontram em campos diametralmente opostos. O jornal faz da liberdade de expressão seu maior patrimônio, reafirmando um princípio do qual nunca se desviou. O PT se apresentou ao eleitorado com a proposta de moralizar os costumes políticos e ser o fiador da transparência nos serviços públicos, ironicamente, advoga hoje o controle da mídia para não ver expostas suas contradições Vejo-me em l980 tomado por singular expectativa diante de dois iminentes fatos que guardariam, entre si, alguma identificação pela proximidade de seus respectivos propósitos de lutar por uma sociedade mais justa, pluralista e livre. Nasceriam naquele ano o Partido dos Trabalhadores (PT), e o jornal Diário da Manhã. Ambos prenunciando tempos no-

vos para a política e para o jornalismo. Seria o Diário da Manhã o vibrante veículo de comunicação à vocalizar o discurso redentor de um partido que surgia em reação aos vícios e deslizes das demais organizações partidárias. Ambos os projetos carregados

de simbolismo pelas emblemáticas figuras que estavam à frente dos empreendimentos, caros ao interesse do povo. Lula se apresentava como o farol a oferecer transparência à política e restaurar a credibilidade de seus agentes, através dos bons exemplos

que vinha proclamando. A retórica letal do PT erradicaria a corrupção nas atividades públicas para erguer o império da ética como marco regulatório da nova prática política. A pregação petista vocalizava o sentimento natural da maioria esmagadora do

povo e galvanizava a esperança de milhões de desiludidos. Batista Custódio trazia para o dia a dia da informação a rica experiência do revolucionário Cinco de Março, antípoda do jornalismo pasteurizado que sedimentara o conformismo vigente.

Ao Diário da Manhã caberia a missão de levar a liberdade de expressão ao paroxismo, rompendo as amarras no desafio a um Estado opressor. Se o PT embalava a esperança com novo padrão de comportamento político sob o signo da ética e da moralização dos costumes, o Diário da Manhã pontuaria a história da comunicação em Goiás por sua ousada proposta de ruptura com um tempo cronometrado pela censura, cujo corolário era a submissão da imprensa às ordens do dia emanadas dos quartéis. A expectativa de otimismo reunião a multidão. Nem o ambiente político seria mais o mesmo com a chegada do “asséptico” PT, nem o Diário da Manhã se prestaria ao alinhamento às regras de um jogo de cartas marcadas, pois se insurgiria contra o torniquete político regulador da comunicação. Hoje PT e Diário da Manhã comemoram 33 anos de existência. Infelizmente tenho sentimentos antagônicos em relação aos dois fatos. Ter participado da história do Diário da Manhã me dá orgulho. Ter a certeza de que qualquer cidadão pode ver publicada em suas páginas seu ponto de vista, sem censura, é motivo de júbilo para toda sociedade que se quer livre e assim se expressar.

Espaço democrático ampliado Ter depositado tanta esperança no PT, devido ao seu discurso moralizador, me condena hoje a cultivar frustrações. Fui eleitor de Lula, agora me penitencio pelo grave erro de avaliação. Se apostei no sonho, reajo determinado ao pesadelo que hoje incomoda milhões eleitores que também acreditaram nos propósitos preconizados pelo PT. O desvio de conduta da cúpula do partido – ela abandonou totalmente os princípios para adotar todos os vícios que promovem o rebaixamento da política – é de uma clareza meridiana. O Diário da Manhã, ao contrário, não só preservou sua filosofia original como ainda oferece à sociedade novas ferramentas de participação em seu projeto editorial. Abriu suas páginas para que qualquer cidadão ou cidadã, indiscriminadamente, tenha espaço para se pronunciar, seja com protesto, com aplauso, ou sugestões. É oportuno indagar: há outro jornal no Brasil que oferece ao público leitor oportunidade igual? Após 33 anos, vê-se que a coerência preservou e reforçou editorial e politicamente o projeto nascido em 1980, como janela de oportunidades para uma sociedade carentes de canais de expressão à altura dos novos tempos que se anunciavam. No vácuo de um ambiente político pontuado de incongruências e de vícios, os fundadores do PT enxergaram a oportunidade de sua afirmação pelo teor moralista do discurso, supostamente refratário às más intenções. Conquistada a chance de levar à prática o que sustentava a teoria, descobrese que tudo não passava de deslavado oportunismo. Lula e sua trupe lutaram pelo poder para dele se servir da forma mais espúria e fisiológica pos-

sível. Há 10 anos institui-se no governo a lógica perversa, amparada no maniqueísmo segundo o qual quem é contra os métodos petistas de governar é um potencial inimigo do Brasil. As alianças celebradas pelo PT, tendo Lula à frente das articulações, falam por si e desmentem a narrativa purificadora com que o partido se apresentou ao eleitorado. O Diário da Manhã ampliou os espaços para a livre manifestação do povo, preservou sua independência, cristalizando o idealismo de seu criador Batista Custódio. O jornal nos oferece um norte para que a sociedade se sinta livre e no pleno direito de se expressar em suas páginas, reafirmando sua liberdade. O PT nos oferece a viseira, ao tentar convencer a sociedade de que o “controle social” da mídia é garantia de mais democracia. No poder, o partido de Lula identifica em cada crítica à sua leniência com os velhos vícios o inimigo a ser abatido. A conclusão é a de que, controlando a imprensa livre, que aponta as sucessivas contradições, o PT livra o país de seu grande adversário, a oposição. Tenta impor a idéia de que é possível instituir a democracia de um só partido. Nas redes sociais é fácil identificar a proliferação de “analistas” a serviço dessa visão stalinista, que não suporta o contraditó-

“Após 33 anos, vê-se que a coerência preservou e reforçou editorial e politicamente o projeto nascido em 1980”

rio. Ao que tudo indica, o maior desafio do PT será submeter o idealizador do DM, editor geral Batista Custódio, a seus propósitos de monopolizar a opinião. Nem a ditadura conseguiu. Após 33 anos de existência, pôr o PT e o Diário da Manhã no foco de uma comparação sobre seus respectivos papéis na sociedade é uma boa oportunidade para se extrair conclusões óbvias, porém pedagógicas. Enquanto a coerência consagra um projeto editorial a trapaça política desmistifica pretensos salvadores da pátria. (Fleurymar de Souza é jornalista)


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COTIDIANO

Escola de jornalistas Diário da Manhã forma novos jornalistas a cada ano. Rotatividade de estudantes torna o impresso veículo democrático para se aprender a fazer jornalismo ARQUIVO DM

Welliton Carlos

Batista (à direita) discute com os jornalistas e estagiários a edição do dia seguinte. Um registro do dia 24 de abril de 1997

Especial para

O

Diário da Manhã

jornal Diário da Manhã é uma verdadeira escola de jornalistas. Pela redação do impresso circularam, além de profissionais, inúmeros aprendizes de diversas universidades e faculdades. Quase sempre os estudantes das faculdades miram no DM a oportunidade de aprender a escrever, produzir e editar um jornal. Jornalistas, hoje de destaque nacional, como Lilian Teles (TV Globo) começaram a fazer sucesso primeiro nas páginas do impresso. Hoje, existem jornalistas que começaram no Diário da Manhã em diversos órgãos de destaque, caso de O Globo, Estadão, Correio Braziliense, dentre outros. A principal característica do jornal, ao longo de 33 anos de história, foi abrir suas páginas para que os jovens pudessem se expressar. A convivência de profissionais mais experientes com a juventude sempre supriu a pouca prática das faculdades, que procuram oferecer na medida do Mesmo sem ter cursado faculdade de jornalismo, absolutamente tudo que aprendeu sobre a profissão, Jairo aprendeu na Redação do Diário da Manhã. Essa prática diária permite ao jornalista contribuir com a construção da realidade. O jornalista é hoje especializado na cobertura de polícia e aprendeu, dentro das rotinas produtivas do DM, a encontrar fontes e retirar delas informações de interesse público. Outros como Jairo não estão mais no impresso. Mas começaram da mesma forma. É o caso de Rodrigo Craveiro, que cobre o noticiário internacional do jornal Correio Braziliense. Formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ele saiu do DM e se destacou como um dos melhores repórteres de O Popular na década passada. É hoje um jornalista de destaque,

possível jornais laboratórios e estúdios aos estudantes. Outra característica do DM é que boa parte dos professores de jornalismo nas principais faculdades de Goiás trabalharam ou publicaram seus textos no impresso. Dentro do DM, estudantes com fluência em entrevistas que tratam de política internacional. Foi um dos primeiros a tratar da gravidade da doença de Hugo Chávez.

ESCRITOR Um desses jovens que passou pela Redação do DM é o escritor Ivair Lima, hoje mais acostumado às coisas da roça do que ao jornalismo. Em 1975, Lima, o velho Ivair, chegou na redação do extinto Cinco de Março levando um calhamaço de escritos. Queria publicar na coluna do cronista Phaulo Gonçalves, um dos jornalistas mais populares na década de 1980. Humorista, Phaulo disse que os textos de Lima estavam ótimos. Mas antes fez suspense: “Isso aqui...isso aqui...isso aqui está...uma...uma...está ótimo!”. Lima chegou na redação como Jairo e tantos outros jo-

ainda inexperientes aprendem a cumprir pautas e atuar em conjunto com as equipes de reportagem. Um desses estudantes, Jairo Menezes, por exemplo, que visitou o jornal certa vez para falar da política estudantil da escola em que estudava, o Liceu vens. Trouxe diferenças pessoais, claro: jamais quis ser editor ou ocupar cargo de chefia. Ivair Lima era um dínamo na redação. Ele atravessou décadas escrevendo reportagens e logo se tornou um dos melhores escritores de Goiás, com diversos livros publicados. Lima fez parte da escola dos grandes repórteres. Certa vez, foi enviado pelo editor até o interior de São Paulo, onde escreveu o relato dos usuários de Santo Daime sob a perspectiva deles. Lima bebeu literalmente Santo Daime para narrar ao leitor as sensações. Hoje, Lima mantém contato com o jornal apenas no interior de Goiás, onde tem uma propriedade e planta poesias e verduras. É lá também que escreve letras de blues e sambas para um outro amigo que conheceu na Redação do DM.

Jairo Menezes (ao centro), conduz a reunião de pauta, orientado por um dos fundadores do Diário da Manhã, Edson Costa

Academia de jornalistas premiados A escola fundada no Cinco de Março e posteriormente Diário da Manhã rendeu muitos prêmios de jornalismo, tanto nacionais quanto regionais. O Cinco de Março, por exemplo, foi o primeiro jornal goiano a levar o Prêmio Esso. Na edição de 8 de fevereiro de 1965, já na ditadura, o impresso abriu suas páginas para tratar da exploração de madeira nobre e toda uma série de agressões contra os índios. Na época, o fato dava um prejuízo de R$ 200 milhões de cruzeiros ao estado – mais ou menos o mesmo valor convertido para o real. A reportagem ajudou o órgão Serviço de Proteção aos Índios a se

tornar na Fundação nacional do Índio (Funai), ao dar a dimensão de que a antiga instituição não cumpria com seus objetivos. Recentemente, para se ter ideia, o DM ganhou dois dos principais prêmios de jornalismo do estado de Goiás. Na área de jornalismo econômico, os jornalistas Welliton Carlos e Jackeline Osório venceram o Prêmio Fieg de Jornalismo de 2012 com uma extensa reportagem sobre a mineração em Goiás e a jornalista Wanda Célia Oliveira venceu o Prêmio Agsep de Jornalismo ao tratar da educação no sistema de execuções penais de Goiás.

de Goiânia, é hoje um dos principais editores do jornal. Ainda menor, Jairo chegou por meio do convite de um colaborador, Antônio Carlos Volpone, especialista em ufologia, e hoje ajuda o jornal a chegar nas casas dos goianos. Apesar da pouca idade,

exerce decisões que interferem decisivamente na sociedade. É Jairo, por exemplo, que aplica a teoria dos valores-notícia no cotidiano da empresa. Cabe aos editores do DM selecionar os fatos relevantes da sociedade e dizer o que é ou não notí-

cia. É ele que vai realizar a reflexão quanto aos aspectos subjetivos, como quantidade de pessoas envolvidas, sujeitos hierárquicos, proximidade, escolher o número adequado de ’bad news’ e ‘good news’ e desenvolver uma estratégia de cobertura.


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ESPECIAL

DEPOIMENTO

A voz da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás A Aflag aceitou o convite do jornalista Batista Custódio para perpetuar nas páginas do DM as reflexões das mulheres imortais e talentosas de Goiás Heloisa Helena de Campos

ILUSTRAÇÃO: ELSON SOLTO

Especial para

O

Diário da Manhã

escritor francês Victor Hugo, em seu romance Notre Dame de Paris, descreve a Paris do século XV pelos sons dos sinos que, ao nascer do dia, soavam das suas numerosas igrejas, localizadas nos mais diversos pontos da cidade. A descrição é maravilhosa! Simbolizando diferenças sociais e questões políticas, Victor Hugoas sugere ao relatar os sons limpos dos sinos de prata, os sons roucos dos sinos de madeira, aqueles luminosos vindos dos carrilhões, os agudos das abadias, também os sinistros e martirizados da prisão da Bastilha. Este conjunto grandioso formado por tão diferentes sons é a cidade de Paris que canta. Em analogia ao significativo texto de Victor Hugo, destacamos a representatividade do jornal Diário da Manhã na vida da nossa Goiânia. Seu instrumento:

a palavra. O elemento maior da sua composição: o ideal do jornalista Batista Custódio, homem empreendedor e sagaz. Há trinta e três anos, ao nascer o dia, também o jornal Diário da Manhã desperta a cidade de Goiânia, informando, divulgando, comentando ou lamentando acontecimentos, por meio de notícias provenientes de di-

versos cenários: político, social, cultural, esportivo, em âmbito nacional e internacional. Então, se o tocar dos sinos representava a cidade de Paris a cantar, aqui e agora, dizemos: o jornal Diário da Manhã é a cidade de Goiânia que fala. A Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – AFLAG –, em 2009, recebeu um convite

para criar e assinar uma página, no caderno DM Revista. Lembro-me bem. Era um final da manhã de uma terçafeira, quando conversamos com o jornalista Batista Custódio. Claro que aceitamos e, em razão do convite ter sido feito em uma terça-feira, nossa página sai sempre à última terçafeira de cada mês.

Batizada com o nome de Arte & Cultura, esta página tornou-se de grande importância para a AFLAG, pois, além de ampliar sua visibilidade no cenário cultural de Goiânia, motiva sua contribuição nos mais diversos acontecimentos do nosso País. Como exemplo: a página sobre a RIO+20, cujos textos receberam elogios.

Discorrendo sobrevários assuntos e com variado formato, que vai da crônica ao poema, da reflexão ao estudo, a página Arte & Cultura da AFLAG presta homenagens, registra opiniões, desenvolve reflexões, pranteia fatos e feitos. Ainda mais. Por meio do jornal Diário da Manhã, a AFLAG preserva a memória das Acadêmicas, estendendo-lhes o poder da fala e do encantamento. Assim, nesta comemoração dos trinta e três anos de vida do jornal, com grande reconhecimento, a Academia Feminina de Letras e Artes agradece e registra o valor de porta-voz cultural e informativo do Diário da Manhã. Sem a página Arte & Cultura, a AFLAG sentir-se-ia reduzida em sua capacidade de falar e em sua condição de ser conhecida. Portanto, receba o nosso aplauso por mais um ano pleno de atividade no universo da imprensa escrita do Estado de Goiás. (Heloisa Helena de Campos Borges é presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – Aflag)


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ESPECIAL

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HISTÓRIA

Cinco de Março e DM, suportes para profissionais da imprensa ARQUIVO DM

Vicente Vecci Especial para Diário da Manhã

A

nossa curta passagem pela redação do hebdomadário Cinco de Março que marcou época no centrooeste, no final da década de 1969, foi suficiente para recebermos suporte para alçar vôo em novos horizontes. Já descrevemos em artigos anteriores os fatos e reportagens que marcaram a nossa presença na redação no veículo, intitulados Bons tempos aqueles do Cinco de Março e o histórico “O dia quem Íris Rezende foi cassado”, onde reportamos com exclusividade informações até então desconhecidas da mídia goiana. Fato que vivenciamos em Goiânia na época em que trabalhamos no veículo e apuramos depois em Brasília. A nossa carreira profissional teve início da cidade mineira de Ibiá, localizada na microrregião do Alto Paranaíba, vizinha à turística Araxá, terra da histórica dona Beja, na década de 60, onde fomos radialista da Rádio Difusora de Ibiá, prefixo ZYV 55 e, publicávamos o jornal mensal O Arauto. Totalmente tipográfico.

Lembranças de Vecci: escritores Carmo Bernardes e Anatole Ramos, além do ex-presidente da Associação Goiana de Imprensa, Walter Menezes Mas a bem da verdade, nosso aprimoramento profissional veio quando trabalhamos no semanário Cinco de Março, vindos de Minas para Goiânia no histórico Mineirão, um linha de trens que ligava a capital goiana á Belo horizonte, nas locomotivas, popularmente conhecidas como Maria Fumaça. I biá, na época tinha uma grande divisão da Rede Mineira de Viação, mais tarde RFFSA, sucateada pela ditadura militar para favorecer o complexo industrial do petróleo. Começamos o nosso traba-

lho no Cinco de Março, pela revisão gráfica juntamente com Stepan Nercessian, atualmente deputado Federal pela bancada do Rio de Janeiro, e Thales de Mileto Guimarães que também trabalhava com tradução da língua inglesa. Jávier Godinho era o redator-chefe que fazia o copy-desk dos textos linotipados e nós os revisávamos. Depois alcançamos à redação onde tivemos como colegas que já se destacavam no jornalismo goiano, entre outros, vale citar Batista Custódio, Waldomiro

Santos, Geraldo Vale, Antônio José de Moura, Neiron Cruvinel, Haroldo de Brito, Phaulo Gonçalves, Carlos Alberto Sta. Cruz, Walter Menezes, Anatole Ramos e Carmo Bernardes. Em Brasília já no início da década de 70, onde migramos e deixamos o jornalismo para trabalhar no SERPRO-Serviço Federal de Processamento dados, na primeira operação informatizada do imposto de renda. Depois voltávamos ao semanário, trabalhando na sucursal junto com Walter Menezes para im-

plantar o Jornal de Brasília. Malogrado por causa de uma prisão política de Batista Custódio, abrindo brecha para organização Jaime Câmara lançar esse diário que até hoje permanece com o mesmo título, porém de propriedade um grupo político. Vale dizer que Batista Custódio é precursor do Jornal de Brasília. Veio a seguir a cinematografia jornalística nacional, com a participação da equipe do cinejornal O Brasil em Notícias, editado em Brasília para uma rede

aproximada de 2.000 cinemas em todo o país, gravado por Cid Moreira no início. Filmávamos na bitola 35mm (cinema) e fazíamos redução para 16mm (TV). O vídeo não existia ainda,Éramos credenciados na Presidência da República e Congresso Nacional, onde ficamos até a posse do então presidente Collor, de final de governo de triste memória. (Vicente Vecci é editor do Jornal do Síndico, jornaldosindicobsb.com.br)


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BANDEIRAS

Um jornal de grandes campanhas Welliton Carlos Especial para Diário da Manhã

O

jornal Diário da Manhã, ao longo do tempo, tornou-se laboratório para grandes idéias em mídia. Mas o que mais aproximou o impresso da população foi sua capacidade de perceber os anseios da sociedade civil e torná-los campanhas. Ao longo de sua trajetória, o DM foi o veículo de comunicação de Goiás que mais realizou campanhas cidadãs. Estas campanhas consistiram ao longo do tempo em tratar de assuntos pertinentes com maior ênfase, dando destaque editorial aos pleitos comunitários. Uma das primeiras campanhas do Diário da Manhã ocorreu ainda em meados de 1985, quando o impresso abraçou a ideia da ferrovia Norte-Sul. Era um sonho apenas traçado no papel. Ninguém acreditava, mas o DM foi visionário. Apesar de quase 30 anos depois ainda não ser uma realidade, a ferrovia andou muito de lá para cá. Muitos governos ignoraram sua importância e outros tantos políticos, de Goiás até, se enriqueceram com os desvios de recursos públicos. Todavia, o Diário da Manhã seguiu com sua premissa: uma ferrovia que cortasse o Brasil poderia ser nova rota para o desenvolvimento de Goiás.

Pensando nisso, o DM concentrou todas as suas forças para a realização de um caderno especial e sequências de reportagens que explicassem como seria a ferrovia Norte-Sul. No caderno, por exemplo, o jornalista Fábio Nasser realizou uma viagem pelas cidades que receberiam a ferrovia e comentou como a população esperava o ‘trem’. Economistas, políticos e goianos ilustres analisavam as mudanças que ocorreriam com a Norte-Sul. O caderno contou com textos de jornalistas destacados de Goiás e do Brasil, além de obras de arte de artistas plásticos como Siron Franco. Ainda hoje, quase trinta anos depois, é o documento mais bem acabado da esfera civil sobre a proposta da Norte-Sul. Tornou-se mais do que um caderno, sendo considerado um imenso relatório das potencialidades da época. Em que pese o ufanismo do registro, que retrata uma forma de jornalismo da época, a veia romântica da empreitada fez do DM um jornal que sonha junto à população. Várias outras campanhas seguiram ao pleito da Norte-sul. O DM tornou-se ‘hit’ nas bancas sempre que carregava suas páginas com campanhas e movimentos. Foi assim com a campanha denominada Ética da Honra. O termo se referia ao fato do jornal negar a publicação de denúncias sem comprovação judicial (sentenças transitadas em julgado). Em seu primeiro momento, a

campanha chamou atenção para a ética jornalística: imprensa não é poder Judiciário. Daí não ter a obrigação de julgar as pessoas. O cuidado em não atacar a honra das pessoas é ainda hoje um dos calcanhares de Aquiles do jornalismo: as empresas jornalísticas difamam, injuriam e caluniam pessoas, pois os jornalistas assumem o papel de acusadores – papel este que deve ser desempenhado por pessoas concursadas e que ocupam cargo público nas promotorias. A “Ética da Honra”, desenvolvida em 2002, serviu para o DM isolar o jornalismo negativo do bom jornalismo. A campanha diminuiu sensivelmente o número de processos judiciais que envolviam o impresso. Também serviu para consolidar as noções de crimes contra a honra frente aos leitores.

POLÍCIA Outras campanhas foram lançadas pelo DM, caso do movimento contra a abordagem policial violenta. A partir da experiência do próprio editor do jornal, Batista Custódio, o DM passou a combater as ações violentas da Polícia Militar (PM), que em busca de assassinos e traficantes acabavam por abordar pessoas de bem e violentá-las, seja física seja emocionalmente. Idosos sem qualquer aparência de criminosos, caso do jornalista Batista Custódio, foram cruelmente agredidos. Ele preferiu expor em público o constrangimento.

A campanha da abordagem policial publicava todos os dias informações a respeito de como deve se portar o cidadão numa abordagem policial. E a primeira regra era não se identificar. Já que a Polícia Militar tem fortes suspeitas de que você é criminoso (pois se não tivesse, você não seria abordado) cabe a ela juntar as provas e assim atestar o que alega. Entretanto, o cidadão, se for abordado com educação e decência, pode, se quiser, fornecer documentos. Era uma forma de combater a forma desrespeitosa com que a polícia falava com o cidadão.

Em defesa do Encantado

Outra campanha importante do DM foi a defesa intransigente do Vale do Encantado, uma Área de Proteção Ambiental (APA) que começou como fazenda do jornalista Batista Custódio e aos poucos tornou-se um bem de todos que defendem a natureza. A área na região de Baliza (GO) apresenta trechos em que o rio Araguaia segue um trajeto por meio de cânions. Duas campanhas surgiram no local: a necessidade de tornar o vale como patrimônio da humanidade (ato que apenas as Nações Unidas pode realizar) e a campanha contra a mineração de diamantes na região. Na ocasião, meados da década de 2000, o jornal realizou intensas reportagens contra o Ibama, órgão federal que inexplicavelmente

MARCIO DI PIETRO / ARQUIVO DM

Ferrovia Norte-Sul, integra Goiás ao sistema ferroviário brasileiro permitia a exploração mineral, que matava peixes e destruía a flora da região. Dezenas de ONGs apoiaram a causa do jornal, que fez o assunto ser repercussão nacional com outros órgãos de imprensa. Outra campanha, também encabeçada pelo jornalista Batista Custódio, indignou-se com o projeto da Prefeitura de Goiânia cortar a ‘moreirinha’, uma árvore que serviu de repouso para Pedro Ludovico Teixeira pensar a construção de Goiânia. As narrativas orais da Capital informavam que a árvore da rua 24, no Centro, foi, de fato, o primeiro palácio do Poder Executivo em Goiânia. Em 2010, a Justiça de Goiás determinou que a Prefeitura de Goiânia encontrasse uma solução para a árvore, proibiu os moradores de cortarem a árvore e estipulou multa diária de R$ 1 mil para qualquer descumprimento da decisão. Tudo isso começou após a agressiva campanha do DM

contra a destruição do patrimônio histórico. Ao longo de sua história, simples telefonemas de leitores tornaram-se grandes histórias de vida e reportagens. Mais do que agentes públicos, os jornalistas tornaram-se confidentes da população, fazendo da mídia um efetivo espaço de debate público. Inúmeras leis foram antes debatidas nas páginas do Diário da Manhã, que sempre abriu espaço para todos os lados e versões. Seguidor das tradições do jornalismo impresso, em que o jornalismo era instrumento político, o DM deixou sempre suas portas abertas para quem desejasse manifestar seu voto e opção política. Todavia, os demais jornalistas e dirigentes também exerciam tal direito, visto que não se proíbe tal manifestação no Direito Eleitoral brasileiro. Daí o DM ser, sim, um instrumento de política e de exercício da cidadania, em busca dos direitos sociais.


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HISTÓRIA

Um jornal que nasceu profundo Jornal sempre buscou o equilíbrio editorial nos profissionais. Atendendo ao chamado da imparcialidade e profundidade de conteúdo Hélio Rocha Especial para Diário da Manhã

O

convite de Batista Custódio, de quem eu era vizinho, na Rua 3, Setor Bueno, para me incorporar à equipe que executaria o projeto inicial do Diário da Manhã, no começo da década de 1990, despertou-me o desafio da novidade. Era, então, editor-geral de O Popular. Quando cheguei, o projeto estava pré-montado, trabalho que teve como condutor o jornalista Carlos Alberto Sáfadi. Para não me esquecer de algum deles, nem sequer vou mencionar os demais nomes da equipe. Vivia-se o começo da reabertura política no País, com o início do processo de anistia e da volta de exilados políticos, entre os quais alguns goianos, como Aldo Arantes, Tarzan de Castro, Horieste Gomes, Hugo Alexandre Alves Costa e João Batista Zacariotti. O DM encontrou neste clima os canais para fazer um jornalismo corajoso, pró-abertura, embora sem nunca ter assumido posições radicais. O jornal recrutou um grande número de notá-

Carlos Alberto Sáfadi foi o primeiro editor-geral do DM veis jornalistas e escritores, boa parte com fama nacional, para escrever artigos – o que fez bastante sucesso. Certo dia, Batista Custódio me chamou para comentar que estava muito satisfeitos com to-

dos aqueles articulistas, mas sentia um certo desequilíbrio pelo fato de ser a absoluta maioria deles de tendência esquerdista. Pediu-me que sugerisse um nome de alguém também notável, mas com ideário de direita,

para equilibrar um pouco o espaço de opinião do jornal. Sugeri o nome de um intelectual muito polêmico, mas cuja cultura era respeitada até pelos intelectuais esquerdistas. Seu nome: José Guilherme Melquior. Foi ele

convidado e passou também a escrever para o DM. Outra característica daquela primeira fase do Diário da Manhã era a preocupação com a qualidade do texto. Tanto é assim que as principais reporta-

gens eram reescritas por um grupo de ótimos redatores e tinham um padrão bem definido. As matérias do DM tinham também a marca da profundidade. Não se admitia que fossem superficiais. Tinham também detalhismo, a fim de que o leitor ficasse completamente informado sobre o assunto. Assuntos de grande importância recebiam às vezes o tratamento especial de suplementos ou cadernos. Um exemplo disso, e do qual participei diretamente, foi o da cobertura da beatificação de José de Anchieta, que tive a oportunidade de fazer do Vaticano. Ainda bem que com o fuso-horário a meu favor, pois o equipamento para a transmissão era o velho telex. Aproveitando esta estada em Roma trouxe rico material fotográfico, conseguido junto ao Osservatore Romano, usado em um caderno especial que saiu no dia da chegada de João Paulo II ao Brasil, na primeira visita que ele fez ao País, em julho de 1980. Realçava muito o jornal também o tratamento visual que recebeu, com um grupo competente de programadores visuais, sendo os principais deles João Só e Wilson Silvestre. (Hélio Rocha é jornalista, escritor, ocupante da cadeira nº 7 da Academia Goiana de Letras)


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MEMÓRIA FOTOGRÁFICA

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O então governad or Iris Rezende fala Batista Custódio e com seu afilhado Fábio Nasser

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Diário da Manhã

ESPECIAL

GOIÂNIA, DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2013

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MERCADO DE TRABALHO

Modernização exige menos profissionais nas redações A crise entre os profissionais de imprensa começou com a informatização nas rádios, tevês e publicações. Compra-se uma máquina e vários jornalistas são dispensados ARQUIVO DM

Lorimá Dionísio Mazinho

Antes da tecnologia a redação precisava de dezenas de profissionais na produção de um jornal de qualidade, em dois turnos

Especial para

Q

Diário da Manhã

uando se fala nos bons tempos de redação cheia do Diário da Manhã tem que se lembrar que a produção daria de cada repórter era de duas a três matérias, coisa de três laudas e que, nas mãos dos editores, eram enxugadas ou ampliadas, respeitando as essências do material coletado. A editorial local, por exemplo, chegou a ter mais de 40 profissionais, isso sem contar os fotógrafos e motoristas. Dezenas de mesas e dezenas de máquinas de escrever. O barulho das teclas, a fumaça dos cigarros e as conversas em voz alta representavam o pulsar do coração do jornal. O Diário da Manhã, com a informatização, começou a perder gente em sua redação. Primeiro foram os compositores (que faziam a montagem

das páginas) e depois os diagramadores, que foram reduzidos com o tempo. A rapidez e a eficiência dos computadores provocaram cortes no número de editores e também fez reduzir os revisores, que são responsáveis, ainda hoje, pela

qualidade do produto que chega às mãos dos leitores. Todos os jornais fizeram economia de gente – leiam-se demissões – e o mercado de trabalho perdeu o que os administradores chamam de “gordura”. A situação ficou dramática para os profis-

sionais de imprensa, independentemente de seus talentos e capacidade de produção. Para se fazer um bom jornal hoje o número de jornalistas necessários não assusta quem se apresenta disposto a investir na área. Deve-se respeitar,

no entanto, o volume de informação histórica de alguns membros da equipe, além do talento de todos. O espírito de redação forma o ideal e dá cores à linha editorial da publicação. E essas duas qualidades conquistam leitores, forçam o

aumento da tiragem e da circulação e, finalmente, marcam a participação do jornal no mercado editorial. O Diário da Manhã de hoje é assim – redação pequena, coesa e cheia de alma, apesar de todas as dificuldades.


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Diário da Manhã

ESPECIAL

ATUALIDADE

Redação compacta com notícias fartas O DM atual funciona assim: com editorias integradas, pautadas pelo editor-geral Batista Custódio Ulisses Aesse

FOTOS: ANSELMO JARBAS

Especial para Diário da Manhã

U

m jornal feito com amor e raça. Assim é a atual redação do Diário da Manhã. Mais desnatada, pequena, enxuta, com poucos profissionais, a equipe coleta, comprime e formata as notícias que os leitores, fiéis leitores, do DM, acompanham e cobram todos os dias. Após uma grave crise financeira, e ainda com seus reflexos, o DM é uma redação compacta, com profissionais, às vezes, tendo que se desdobrar mais do que deveriam com o compromisso único e exclusivo de levar a informação até seus leitores. E mais: com o compromisso da transparência e da liberdade de informação. Editorias importantes como a de Cidades, hoje responsável pela cobertura dos principais fatos rotineiros que acontecem em todo o Estado, trabalha diminutamente com um repórter pela

Editoria DM.com.br, responsável pela edição online está fortemente conectada com o mundo manhã e três à tarde. Mas sua cobertura não perde nem um pouco para o principal jornal, que, com certeza, deve ter o triplo de profissionais, só na editoria similiar. A garra do DM ainda é a pedra de toque de sua cobertura. Há anos o DM enfrenta essa crise, mas não esquece que em primeiro lugar, está sempre, sem-

pre, o leitor. Por isso, seu compromisso com a informação e o respeito online com a oferta da notícia ao seu internauta. Uma editoria virtual dá a a eles todos os acontecimentos em primeira mão, full time, em tempo real. É o papel aliado à tela do computado ou dos smarthphones. O DM, no topo dos principa-

is veículos de informação do País, em especial, de Goiás, tem como seus aliados a própria sociedade, que faz do suplemente Opinião Pública, seu amplificador de voz. Aqui, nele, as opiniões se multiplicam para clarear o caminho a ser seguido na democracia. E o SM dá a sua contribuição. Diariamente, deze-

nas de opiniões são expressas no caderno, além de mais outras no corpo normal do jornal. É a sociedade fazendo parte do DM, as ruas passando pela redação do Diário da Manhã. Mesmo com uma equipe compacta, o DM não tem perdido o seu foco. Pelo contrário, a cada dia arregimenta novos leito-

res, preocupados com a liberdade de expressão e de opinião e faz do jornal o veículo mais democrático e acessível de Goiás. Se brincar, pelo volume de artigos publicados, do Brasil. Não duvidem. Essa é a formula da vitória. O DM funciona assim: com editorias integradas, pautadas internamente pelo editor-geral, Batista Custódio, e editores de áreas, com auxílio da chefia de Reportagens, e sempre com sugestões de seus leitores, que telefonam vivamente para a redação, com explosões de pautas e furos que abasteceram as páginas do jornal. Editorias como as de Cidade, Esportes, Política & Justiça, Mundo, DMRevista, Opinião Pública, auxiliada pela editoria de Fotografia, fazem do Diário da Manhã, nestes teus 33 anos de existência, um jornal vivo, participativo e com o compromisso de ajudar a escrever a história de Goiás, do Brasil e do mundo. Não há pedra ou obstáculo que vai conseguir deter esta determinação. Na chuva, no Sol, o Diário da Manhã no coração.

Atual editor de economia, César Moraes e a repórter Loizia Paiva discutem pauta


Diário da Manhã

ESPECIAL

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FALÊNCIA

Um oficial de Justiça e vários PMs armados N

Na fumaça da queda do DM, surgiu o temporário Edição Extra

o dia em que o Diário da Manhã foi fechado, com um oficial de justiça lacrando a redação, acompanhado por vários PMs armados, o tempo estava cinzento em 3 de outubro de 1984, com poucos jornalistas entre as muitas mesas vazias, apesar de que era começo de noite, horário de fechamento da edição. A editoria política selecionava os últimos assuntos e o editorial estava sendo redigido, com o texto condenando um ato de violência política praticada no interior, onde um carro de som de campanha de um candidato havia sido atingido por tiros de espingarda. Ninguém saiu do lugar, mas todos ficaram de boca aberta com a entrada ruidosa dos militares e também de alguns jornalistas de outros órgãos de imprensa. O “que é isso?” foi respondido pelo oficial de justiça, que exibia em mãos um mandado judicial: “O jornal está sendo fechado por falência e vocês vão desocupar as mesas, levando apenas objetos pessoais, mais nada, nem o papel que está na máquina de escrever!”. E o mesmo servidor da justiça deu ordens para que duplas de militares ficassem em cada porta que havia na re-

dação. O jornalista Batista Custódio estava em sua sala e lá recebeu o documento. Emocionado, depois de dar alguns telefonemas ele chegou ao meio da redação e pediu para que todos desocupassem o grande salão, em obediência ao oficial de justiça. Os poucos profissionais que ainda remavam para manter o barco do DM navegando em águas turbulentas foram abordados por jornalistas de O Popular, das emissoras de rádio e tevê para falar sobre o assunto. Ninguém disse nada por falta de informação sobre a falência. Lorimá Dionísio, o Mazinho, estava redigindo o editorial e disse achava “estranha a presença dos soldados no ambiente de trabalho. A única violência está no texto iniciado ali naquela máquina de escrever” – apontando para a mesa dele. A parte do texto foi reproduzida pelo O Popular, que fez cobertura do fato. Mazinho mesmo conta que a única confusão aconteceu quando ele se dirigiu ao sanitário da redação e foi barrado por dois PMs dizendo que “estava proibida a entrada naquela sala”. “Mas não é sala, é mictório, banheiro...” Depois do “um momento”, um dos

policiais entrou e viu uma situação estranha lá dentro, erro de quem reformou o ambiente da redação. Havia dois vasos sanitários, um ao lado do outro, sem nenhuma separação. Ninguém tinha explicação para aquilo, mas a vizinhança dos dois vasos serviu para ilustrar muitas piadinhas de redação, tipo: “Companheiro, você topa fazer necessidade fisiológica solidária em nosso maravilhoso reservado coletivo?” O que se seguiu depois do fechamento do Diário da Manhã foram um volume grande de solidariedade e uma tristeza contagiante dos que viam a esperança de trabalho escorrer pelo ralo do esgoto. Batista Custódio e Consuelo Nasser lançaram, na fumaça da queda do DM, o jornal Edição Extra, que teve vida curta com o fechamento da Unigraf, dona da máquina impressora. Quem se saiu bem na história foram os primeiros que se afastaram do Diário em crise: vários voltaram para O Popular, outros para semanários da Capital e muitos foram para as redações dos jornais em Brasília – Correio Braziliense e Jornal de Brasília –, simplesmente apresentados como egressos do Diário da Manhã, origem que ser-

via como excelente cartão de visita, reconhecidos pelos contratantes como “profissionais valorosos e competentes”. O resto todo mundo sabe: o Diário fora de circulação por quase dois anos. Batista Custódio viu barreiras caindo em sua luta para reabrir o jornal e o DM voltou. E não foi a Phoenix que retornou das cinzas ao convívio dos leitores. Foi o produto de mais um dos muitos sopros da liberdade de imprensa, que teima em contrariar os que patrocinam, em Goiás, a escuridão das idéias e dos ideais.

Pouco depois do fechamento do Diário da Manhã, no dia 3 de outubro de 1984, Fábio Nasser, aos 18 anos, se revoltou e escreveu um poema sobre o fato, um libelo à liberdade, que ele viu ser agredida por determinação de quem teme a força da verdade.

Fábio Nasser, ainda jovem, era a pura emoção

AS IDÉIAS SONHAM - Fábio Nasser “Fechou. Fechou o que? – indaga o povo. Fechou o sonho não feito. a cafua dos miseráveis. ideal boliviano. Fechou. Fechou o que? – pergunta o espectro. Fechou a história de um tempo. o sol de um povo. a câmara dos lutadores. Mas não chorem... Fecharam a matéria, mas não conseguiram fechar o ideal. Os líderes morrem, e a liberdade fica como idéia,

sem balas nem gente, par aa luta com um único soldado, com uma única metralhadora. Levanta-se a bandeira da resistência. Se por acaso nos matarem, um pingo de sangue irá ficar na terra e brotará rosa. Através do seu pólem que se espalhará pela Terra dará continuação à nossa quimera. Quando você acordar, olhe a sua rosa. Pois ela brotará onde ninguém espera.”


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ESPECIAL

Diário da Manhã


Caderno especial DM 33 Anos  

Jornalistas e colaboradores escrevem 40 páginas recheadas da história que mudou os rumos da imprensa goiana

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