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Jornal Ora-Pro-Nobis (Edição de Setembro de 2021)

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Geração prejudicada

Estudante e Mãe: uma jornada possível

“Estou tendo muitos alunos com depressão, ansiedade e até casos de mutilação.”, conta a professora Mônica Moraes. A falta de contato com os colegas e o maior tempo diante das telas também pode prejudicar a socialização, afetar a concentração e os relacionamentos interpessoais. Problemas a serem observados de perto por pais, professores e especialistas.

Entre os livros e os cuidados, a rotina e os desafios de quem é mãe e estudante e suas jornadas duplas ou triplas. Universitárias compartilham suas histórias e preconceitos ainda vivenciados no percurso de cuidar dos filhos e seguir o sonho de concluir o ensino superior. Projeto “Mães (R)Existem” da UFSJ auxiliam as jovens nesse processo.

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Anna Luiza Fernandes

Janaína Avelar Molinari

Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei | Turma A | Setembro de 2021

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Gabriela Moreira Lima

Orgulho Maduro

se é, também é sinônimo de resistência. Pamela Brasil, Pádua Soares e Wallace Rocha contam os dilemas enfrentados ao longo

da vida e que fazem suas histórias serem marcadas pela luta e liberdade de ser. Uma realidade que, desde muito cedo, não se

mostra tão simples em uma sociedade despreparada para acolher, intolerante e marcada por preconceitos. | PÁGINA 10

Criatividade para continuar

Bola (e vida) em jogo

Com o público confinado e o distanciamento social em meio à pandemia, profissionais da arte de São João del-Rei tiveram de contar com a criatividade para se adaptar às medidas sanitárias e continuar os trabalhos. Aprovada, em meio a esse contexto, está a Lei Aldir Blanc, criada com o objetivo de apoiar artistas e empresas do setor cultural.

“A vida de um atleta é extremamente difícil, ao contrário do que muitos pensam”, conta o jogador Gabriel Galhardo. As diferentes histórias de meninos e meninas do interior mineiro e os desafios enfrentados para entrarem no futebol profissional, conseguir investimentos e driblar a saudade da família e amigos.

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Gabriel Galhardo

Daniel Arantes

Em um dos países que mais mata pessoas LGBTQIA+, como o Brasil, sobreviver e exaltar o orgulho de ser quem

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CRÔNICA

EDITORIAL

Daniel Arantes

Gostava tanto de você ANDREZA SIQUEIRA

O novo normal jornalístico

Deborah Vieira

A expressão mais ouvida, desde o início da pandemia da COVID-19, possivelmente, é “o novo normal”. Qual será e quando poderemos voltar ao mais próximo que conhecemos do “normal”? Viajar, reencontrar as pessoas, nos reunir no presencial. Desconheço uma pessoa que não pense sobre esse tema e espere ansiosa por uma resposta. Contudo, enquanto veículo de jornalismo impresso pergunto: e o “novo normal” do jornalismo? Vivenciamos tempos difí-

ceis e sombrios. Somos agredidos em nossa profissão e na luta diária por informação de qualidade. Somos desacreditados pelos cientistas de Whatsapp, que sabem qual é a verdade por traz dos fatos. Somos reduzidos a 140 ou 280 caracteres e reclamam quando passamos disso. Afinal, em uma sociedade da liquidez ou quase vaporização, informar com menos parece ser melhor e mais atrativo. No entanto, ouso dizer que o “novo normal” do jornalismo,

independente do meio, adaptações ou caminhos que percorra, ainda passa por alguns pilares presentes no jornalismo tradicional. A apuração, em tempos desinformação, pode salvar vidas e, inclusive, ser a nossa força. O olhar sensível e atento para o outro e a sociedade a nossa volta deve ser o mesmo que motiva o jornalista a buscar a história, promover a cidadania e ser pilar da democracia. Nosso papel original é dar voz à notícia e às pessoas, provocando mudan-

ças sociais e de mentes, antes de visibilizar a nós mesmos. Que nunca percamos nossa sensibilidade, em meio à frieza dos caracteres; a apuração atenta, em tempos de fake news; e o afeto, que abraça e nos permite chegar ao outro. Talvez este último seja o nosso “novo normal” daqui para frente! E é por isso que o Jornal Ora-Pro-Nobis existe e resiste como parte da experiência dxs alunxs de Jornalismo da UFSJ. Boa leitura!

Subo as escadas. O dia está ensolarado e o clima ameno, nem calor nem frio, da maneira que gosto. Filosoficamente anotava quando as datas se passavam na virada do ano: o aniversário e outros dias marcados por incidentes dos quais tinha participado. De repente pensei nesta tarde, enquanto caminhava, que havia ainda outra data, mais importante do que aquelas... De dois em dois degraus, percorro o caminho que me leva ao ponto de ônibus e, como de costume, o ônibus estava atrasado. Ao adentrar no transporte público, coloco o celular no bolso, ao invés de reproduzir uma música aleatória para ouvir. O debate que se desenrolava aos meus olhos, me chama atenção, duas senhoras no banco da frente conversam sobre

a morte. “Tive uma vida extraordinária, por isso não tenho medo de morrer. Vivi altos e baixos, turbulência e paz, sucesso e sofrimento. Mas, não seria uma vida extraordinária se não fosse as pessoas que amo que e que me amam. Sem elas, a maravilha disso tudo teria me escapado.” A fala da senhora grisalha me faz estremecer, mal sabia eu, que em breve descobriria o significado do que foi dito. Não quero subir as escadas. Me falta o ar e a escadaria me parece insuportável. “Ainda estou tentando entender o porquê de tudo isso!”, penso. Gostaria de me encontrar novamente com aquela senhora e perguntá-la: o que sentir quando alguém falece jovem? Me apego à religião, aos propósitos de Deus, de

Você não está sozinho

Aproximadamente 550 mil brasileiros perderam a vida para o COVID-19. Segundo pesquisa realizada em julho de 2020, pela Proceeding of the National Academy of Sciences, a cada falecimento, 9 pessoas ficaram enlutadas, o que representa cerca de 4 milhões 950 mil pessoas de luto no Brasil.

certa forma, o culpando pela saudade eterna de uma pessoa querida. Mas, se refletir um pouco mais por este lado espiritual, a morte é apenas a mudança da vida terrena para a vida celeste. “Talvez estivesse perto de um anjo, um anjo que Deus me deu de presente e que sou privilegiada por tê-lo tido na minha vida.” Os degraus parecem trapacear os meus pés no outro dia em que percorro o caminho. O mesmo assunto circula meus pensamentos, não

posso evitar, afinal, o tema está nas rodas de conversas e nos noticiários. Existem pessoas que cuidam de outras pessoas, através de palavras de conforto, do bem-querer, de ações pautadas na gentileza. Quando elas partem deixam um vazio. “A dor da sua partida sem eu ter tido a chance de me despedir de você é enorme.” Aquela escada poderia ser uma rampa ou poderia ser um outro percurso, mas não há alternativa, não há outro jeito de encarar isto. Subo as escadas.

EXPEDIENTE Jornalista responsável: Deborah Luísa Vieira dos Santos (MTB/MG 21058) Editora de arte e diagramação: Laura Pereira Gonçalves, aluna do 5º período de Comunicação Social - Jornalismo. Repórteres: Ana Isa Fonseca, André Marcos Lima, Andreza Siqueira, Brenda Lucchesi, Daniel Arantes, Flávia Lifonsino, Gabriela Moraes, Gabriela Lima, Greycyelly Miranda, Isis Carvalho, João Carlos de Sousa, Lisley Helena Silva, Lívian Alves, Lucas Maximiano, Luisa Arvelos, Luisa de Lucena, Luiza Tomey, Mariana Eduarda Agreste, Nayara Ribeiro, Rayane Késsia, Victor Fontes. Fotógrafos: Daniel Arantes e Gabriela Lima. O Ora-Pro-Nobis, jornal laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), é o produto da disciplina de Jornalismo Impresso I e tem publicação semestral. Fale com a redação: jornal.orapronobis@gmail.com Foto: Unsplash


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4 EDUCAÇÃO

Alfabetização em tempos de ensino remoto Como a medida emergencial adotada devido à pandemia pode afetar o futuro da Educação Janaína Avelar Molinari

GREYCYELLY MIRANDA LÍVIAN ALVES LUIZA TOMEY

CONCENTRADO - Francisco realizando suas atividades de pintura em casa durante o ensino remoto.

comenta que no início houve muita insegurança sobre como e quando as aulas iriam voltar, mas que foram inseridos os Planos de Estudos Tutorados (PETs) para que os professores pudessem orientar os alunos. Também havia um grupo de Whatsapp por turma e cada escola tinha autonomia para organizar da forma que acreditasse ser mais adequada. O contato online é bem diferente do presencial, principalmente quando feito por Whatsapp para crianças que estão aprendendo a ler e escrever. De acordo com a professora Juliana, o horário da aula é reservado para que ela e os alunos interajam pelo aplicativo, por meio do envio de conteúdos e com respostas às dúvidas. No entanto, não é bem assim que acontece. Juliana explica que em sua turma existem várias realidades e que apenas 40% dos alunos conseguem participar assiduamen-

te das aulas na hora marcada. Outros participam fora desse horário, geralmente por dependerem do celular dos pais, que trabalham; enquanto o restante não participa em nenhum momento. Além disso, a professora tem vivenciado situações diversas: “Teve uma mãe que até me bloqueou e a escola teve que entrar em contato para ela me desbloquear. Ela não queria receber mensagens da escola. A gente tem que ficar insistindo com os pais quando os filhos não estão fazendo atividade.” Por outro lado, Janaina Avelar Molinari, funcionária terceirizada na UFSJ, é mãe de dois alunos, Francisco, de 5 anos, e João Lucas, de 8 anos, estudantes da rede pública. Janaína Molinari e o marido acompanham as aulas e auxiliam nas atividades. Ela reconhece que, devido às circunstâncias, alguns pais podem estar tendo mais dificuldade do que ela

em auxiliar os filhos: “A minha sorte é que estou trabalhando remotamente, tanto eu quanto meu marido. Então a gente tem essa flexibilidade de poder ajudar eles, porque tem muitas mães e pais que não têm isso”, afirma Janaína. A mãe também conta que as crianças estavam tendo aula aos sábados, às 7 horas, para completar os dias que foram perdidos no início das aulas remotas. Janaína afirma que as crianças não possuem autonomia suficiente para acordar e participar da aula por conta própria. “Com o João Lucas, eu tive dificuldade de acordar ele às 7 horas da manhã, pra poder fazer as atividades”. Ela afirma que acompanha o filho e faz questão que ele participe das aulas assiduamente, uma vez que “já é difícil colocar uma criança de 8 anos sentada na frente de um computador, de um celular, pra poder fazer a atividade.”

logia e didática são estudadas pelos professores em suas formações: "Toda essa realidade se modificou e, agora, a família precisa dar conta disso, dar conta de ter pelo menos um espaço pra ele ficar. Não que a família não dê conta de ver a importância que a escola tem, mas ela não dá conta de assistir [o aluno]”. O impacto a longo prazo desse ensino desassistido ainda não pode ser mensurado. Porém, é possível imaginar como todo o sistema de educação, principalmente as crianças em período de alfabetização, serão afetados nos anos futuros. Alessandra acredita que “Quando a família ainda acompanha, ela garante que a criança pelo menos faça o PET. Quando não, a criança fica à mercê. As turmas de tempo integral ajudavam as famílias que precisam trabalhar. A assistência da escola, para pelo menos um lugar pra

ficar, faz muita falta. Para alguns alunos, a merenda da escola era a única refeição diária.” Em 27 de julho deste ano, o prefeito Nivaldo de Andrade, por meio do Decreto Municipal nº 9.430, havia autorizado o retorno das aulas para agosto. As escolas têm, desde o início de 2021, uma espécie de checklist: um documento que precisa ter como referência todos os protocolos sanitários exigidos e com todo o planejamento para esse retorno gradativo. Esse planejamento inclui, além da questão sanitária, como ela vai se organizar na questão da higiene, da disponibilização de álcool gel, do distanciamento, entre outras medidas. As escolas devem organizar-se de acordo com a quantidade de alunos para melhor atendê-los. Atualmente, existe uma pressão para o retorno das aulas presenciais, o que tem gerado várias discussões a res-

peito do assunto. “As escolas [públicas] não têm estrutura. A Prefeitura não manda nem produtos de limpeza. Como a escola vai arcar com álcool em gel, termômetro, máscaras? Então, como a gente vai voltar? Os professores não querem voltar, têm medo”, explica a professora Juliana Alves. Sobre esse retorno, Janaína Molinari também não vê razão para a volta das aulas presenciais ainda este ano. “Se eles não aprenderam em um ano e seis meses parados, eles não vão aprender em quatro meses que vão voltar [às aulas] correndo. Acho que tem que estabilizar tudo, proteger, pra depois eles voltarem com segurança e a gente ficar com segurança também.” Como mãe, ela expõe sua preocupação: “eu prefiro eles aqui do que no risco na escola, se contaminando ou alguma coisa assim, porque, infelizmente, não acabou a pandemia.” Janaína Avelar Molinari

Em 8 de setembro é comemorado o Dia Internacional da Alfabetização. A data foi criada pela ONU com o intuito de estimular a educação de qualidade em todos os países, mas também é utilizada como forma de conscientização sobre a importância de boas condições de ensino para o desenvolvimento social e econômico de uma nação. A educação brasileira, assim como outras áreas sociais, não conseguiu se manter a mesma durante o período da pandemia. Em São João del-Rei-MG, o ensino fundamental I, principal responsável pela alfabetização das crianças, enfrenta várias dificuldades na implementação do modelo remoto na rede pública e gera incertezas sobre seu futuro. A COVID-19 trouxe situações antes não vivenciadas que precisavam de um tempo para adaptação e direcionamento. Juliana Muzzi Alves, professora da rede municipal de ensino, conta que ela e seus colegas de trabalho ficaram surpresos: "No final de maio [do ano passado], a gente recebeu um comunicado, falando que iríamos começar a ter aula pelo Whatsapp.” O que, segundo ela, a princípio não foi fácil: "Foi bem complicado, a gente queria algo a mais, mas era restrito. Era mandar a atividade e pronto”, conta a professora. A Analista Educacional da Secretaria de Estado de Educação de São João del-Rei, Alessandra Aparecida de Carvalho,

Segundo Alessandra Carvalho, o processo de alfabetização tem uma linha metodológica para ser trabalhada e existe uma barreira ao alfabetizar o próprio filho, uma vez que ele não reconhece o pai ou responsável como educador. Janaína confirma por experiência própria: “Ele mesmo [João Lucas], no começo, falou comigo: ‘Mãe, você não é professora. Você é a minha mãe.” Baseado nisso, ela conta que tentou se adaptar para trazer a melhor forma de ensino às crianças, mas que, mesmo assim, elas sentem a diferença: “Eu tive que adaptar, tive que comprar um quadro. Eu escrevo, eu explico, mas não é a mesma coisa. Ele entende, ele fala que entende, mas não é a mesma coisa.” Além disso, a analista educacional destaca a dificuldade dos pais de acompanhar os filhos nesse processo de ensino em casa, uma vez que metodo-

ROTINA DE ESTUDOS - João Lucas realizando suas atividades passadas remotamente.


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COMPORTAMENTO

Gabriela Moraes

Crianças e adolescentes sofrem as consequências da pandemia

Privados da socialização na escola e da interação presencial, crianças e adolescentes começam a apresentar mudanças de comportamento e transtornos psicológicos GABRIELA MORAES PEREIRA LUISA DE LUCENA COELHO Não é a primeira vez que o Brasil passa por uma crise sanitária, mas nenhuma delas trouxe consequências tão sérias quanto a Covid-19. A pandemia, que dura aproximadamente um ano e meio, vem dando vestígios das sequelas que irá deixar nos brasileiros, em especial, nos mais jovens. Além das perdas irreparáveis e dos problemas de saúde que podem ser acarretados pelo vírus, dificuldades de socialização podem ser observadas, princi-

palmente nas crianças e adolescentes que, pela primeira vez, estão há meses afastados do ambiente escolar. “Eu acho que é cedo pra dizer, eu tenho ouvido alguns especialistas falando, da área da educação, que a gente vai ter um prejuízo muito grande e isso é inegável”, afirma a psicóloga Sâmia Cardoso. Apesar de ainda não saber a extensão do problema, algumas alterações no comportamento dessas crianças e adolescentes já são visíveis. Mônica Moraes, professora da rede pública e coordenadora de uma escola da rede privada, lida

com turmas do ensino fundamental e relata que percebeu uma crescente no número de alunos com distúrbios psicológicos, principalmente, na faixa etária entre 14 e 15 anos:

“Estou tendo muitos alunos com depressão, ansiedade e até casos de mutilação. Alunos mentindo para os pais e não fazendo os deveres, não por maldade, mas como uma fuga.” Tanto Mônica quanto a psicóloga Sâmia, acreditam que,

quando as aulas presenciais voltarem, a concentração desses estudantes terá sido afetada, visto que muitos desenvolveram Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), durante o ensino remoto emergencial. Um dos agravantes para essa situação pode ser o aumento significativo do tempo nas telas. “A nova socialização deles é por vídeo do TikTok, curtidas em fotos. Agora, tenho vários alunos blogueiros e youtubers. Sair dessa realidade, tirar o pijama… vai ser difícil”, relata a professora Mônica.

ADOLESCÊNCIA E INTERNET - Adolescente navegando nas redes sociais.

“A socialização, que está muito prejudicada, a falta de atenção e a questão do uso do celular, aumentou muito. Então, hoje as crianças passam praticamente o tempo que elas não estão comendo, no celular. E aí têm vários prejuízos, não só no sentido desse déficit de atenção, que acaba interferindo também, mas a questão de postura, ganho de peso e acho que até os relacionamentos pessoais na própria casa”, afirma a psicóloga Sâmia Cardoso. Os próprios jovens admitem o excesso quando o assunto é internet. Esther Oliveira, 18 anos, estudante no 3º ano do Ensino Médio, relata que consome muito “conteúdo inútil” para passar o tempo. Além do TDAH, esse exagero no uso das redes sociais também resultou em um demasiado aumento nas com-

parações com terceiros, seja se tratando de aparência ou até na produtividade. “Me comparo demais. Tipo, eu vejo as pessoas ensinarem e explicarem coisas e penso ‘como você entende isso? Por que você é tão inteligente?’ Dá pra você ver várias pessoas sendo boas em coisas que você não tem nada a ver, aí eu fico muito mal.’’, desabafa Esther. Essas comparações seguem também ao falarem sobre ritos de passagem. Para a professora Mônica, alguns alunos têm vivido com uma sensação de perda constante, especialmente, aqueles do 8º e do 9º ano. “Incerteza com o Ensino Médio, provas externas, alunos antigos sofrendo, porque não vão fazer o moletom ou ter formatura’’, conta a professora. Esse sentimento se estende a quem está no

terceiro ano do Ensino Médio, como é o caso de Esther:

“Nossa, acho que eu perdi toda a parte legal. Minha formatura foi cancelada e isso me deixou muito triste, eu estava sonhando com a minha formatura [...]" "A experiência de ser veterana, ter contato com os calouros. Toda a parte legal de ser do IF acabou e agora só ficou a parte puxada.’’ Ao menos para os adolescentes é mais fácil entender o motivo de tudo isso, enquanto, para as crianças, essa é uma fase mais delicada. “A criança menor não consegue entender muito bem o que está se passando com ela. Isso não só na pandemia, mas, geralmente as crianças têm um

pouco mais de dificuldade de estar interpretando os sentimentos’’, afirma a psicóloga Sâmia. A professora Mônica usou o exemplo do próprio filho, de 3 anos: “Ele se revoltou comigo e com a minha mãe, porque, como nós obrigamos ele a assistir às aulas, ele assimilou que nós somos as culpadas por ele estar preso.” Miguel Cardoso, 9 anos, aluno do 4º ano do Ensino Fundamental da rede privada, disse não saber o que é a pandemia. Enquanto Miguel Chagas, de apenas 4 anos, quando questionado sobre os colegas, respondeu: “Ninguém estuda comigo. Mamãe estuda comigo”. Além disso, para as crianças, a situação psicológica não é muito diferente do que foi observado nos adolescentes. Tanto Mônica como Sâmia relatam que seus filhos e as crianças com quem trabalham estão mais distraídas e, em alguns casos, chegam até a apresentar quadros de ansiedade, com o agravante de não saberem interpretar as próprias emoções. Para a psicóloga, essa reação é normal em crianças dessa faixa etária: “O adulto tem essa facilidade de dizer ‘ah, eu estou cansado dessa pandemia, eu não aguento mais’, a criança menor não consegue muito entender o que está se passando com ela”. Se você convive com alguém dessa faixa etária esteja sempre atento e, ao notar sinais de ansiedade, depressão e estresse nas crianças e adolescentes, procure ajuda profissional. Caso não seja possível, a psicóloga Sâmia apresenta algumas dicas do que pode ser feito em casa: “Às vezes, não se pode pagar um psicólogo, mas eu indico muito relaxamentos, meditação na internet, tirar um momento do dia pra cuidar de si, dos medos e das angústias que estão surgindo, a gente precisa parar e respirar.”


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“Antes de ser mãe, eu sempre quis ser arquiteta”

Conta Flávia Freitas sobre os desafios de ser universitária e mãe ISIS CARVALHO SOUSA MARIANA EDUARDA A. SILVA

A atual sociedade não é preparada para dar suporte às mulheres, pois não há espaço para ser mulher e mãe ao mesmo tempo. A exemplo disso, têm-se aquelas que estão em busca de sua formação profissional, que, por si só, já não é fácil, e quando se é mãe, menos ainda. “Quando contava

que estava grávida, os professores me olhavam diferente. Como se fosse aquela pessoa que está ali temporariamente. Você está ali, mas vai ser mãe, não vai ser mais nada agora. E é muito difícil lutar contra isso, porque como é que você é mãe e outra coisa ao mesmo tempo? Ou você faz uma coisa muito bem ou você faz duas coisas mal feitas”, conta Anna. O dito popular “mulheres conseguem fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo”, não só estigmatiza o fato de que nós teríamos, supostamente, a obrigação de sem-

Arquivo Pessoal / Flávia Freitas

AMOR DE MÃE - Flávia Freitas e seu filho Luiz.

pre nos ocuparmos de várias tarefas, mas também reforça que, em momento algum, poderíamos, de fato, nos dedicar ao que realmente gostamos. Enquanto os homens seriam responsáveis apenas pelo sustento financeiro. Dados levantados pelo Laboratório Think Olga, em uma pesquisa sobre Mulheres em Tempos de Pandemia em 2021, evidenciam que as mulheres se dedicam a economia do cuidado – lavar, cuidar dos filhos, limpar a casa, fazer compras – em média mais de 61 horas por semana, enquanto os homens concentram-se no trabalho remunerado. Tais diferenças de gênero continuam sendo reafirmadas também na rotulação que a família cria em torno da gravidez. “A minha criação estigmatizou a gravidez como algo terrível, absurdo”, afirma Anna Luiza. E essa visão se dá porque antes, com mais rigor que atualmente, as mulheres não podiam cogitar se dedicar a alguma outra coisa, senão à vida doméstica. E, como hoje há certa liberdade quanto a escolha do nosso futuro, a maternidade é vista como algo privativo, pois ainda se tem a ideia de que não se pode ambicionar ser mãe e qualquer outra coisa ao mesmo tempo. Sendo assim, enquanto a sociedade pregar que cuidar é coisa de mulher, essas diferenças vão perpetuar e, talvez, um ponto de partida para a mudança, seria o de desconstruir essa percepção. Mas, mesmo com todos es-

a tarefa é complicada e humana. Por meio desses grupos e de amigos próximos, as mães se abrem e expõem que não tem sido nada fácil para elas: “Quando o bicho pega, peço ajuda de alguém: ‘Pelo amor de Deus, me dá 5 minutos pra eu poder ficar no banheiro pra eu respirar’. Eu não sei dizer exatamente como eu estou lidando, eu estou tentando. Eu diria isso: que eu estou tentando não pirar e não me cobrar muito”, relata Flávia Freitas. E a resposta talvez seja justamente essa: não se cobrar demais. Que por mais que se tente, por mais que se esforce, nem sempre as coisas saem da forma que planejamos. E, por se tratar da formação de outro ser humano, é natural essa autocobrança, entretanto, precisamos lembrar que essas mães são apenas seres humanos, que erram e acertam como qualquer um. Pois, antes de ser mãe, a Flávia é uma futura arquiteta. Antes de ser mãe, Anna é uma futura psicóloga. E antes de qualquer coisa, elas são humanas. E precisam e merecem ser tratadas como tal.

Projeto Estudantes-Mães (R)Existem O Projeto Estudantes-Mães (R)Existem é um projeto de Criação Artística que consiste em dar visibilidade, por meio da Arte, à causa de mulheres que se tornam mães enquanto estudantes do Ensino Médio e do Ensino Superior. A realidade dessas estudantes-mães aponta para uma luta e mobilização em prol de seus direitos. A intenção é colar fotos das mães-estudantes em áreas de intensa circulação urbana, com o objetivo de estimular a reflexão acadêmica e da comunidade externa. O projeto prevê ainda a realização de um documentário, a ser lançado até o fim de 2021, sobre a experiência da maternidade em meio às demandas da vida de estudante, seja no presencial ou no ensino remoto. Acompanhe o projeto: Instagram: @estudantesmaesrexistem Oficina de Autorretrato com Natália Chagas. Inscrições pelo link do perfil @estudantesmaesrexistem Canal Grupo Hipátia UFSJ, no Youtube, com Roda de Conversa “Maternidade e Carreira Acadêmica”. O projeto possui um grupo no WhatsApp, para integrar estudantes-mães da UFSJ, e visa ser um espaço de troca de experiências e apoio. Você é mãe? Entre em contato para poder participar!

Arquivo Pessoal / Anna Luiza Fernandes

O dia já começa após uma noite conturbada. A manhã passa em meio a brincadeiras, organizar a casa da melhor forma possível, preparar e dar o almoço, limpar as vasilhas. Na soneca da tarde, tentar adiantar os estudos e trabalhos. No entanto, quando as coisas começam a entrar nos trilhos, um choro anuncia que ele/ela acordou, o jeito é parar tudo e dar atenção. Já à noite, depois de preparar o jantar, cuidar de mais algumas tarefas da casa, dar banho e alimentar sua/seu pequena/o, é hora, então, de assistir às aulas - que passam quase despercebidas, enquanto vigia a criança que corre para todo lado. E ao final, se ela ainda não estiver dormindo, niná-la para poder, enfim, também dormir. E, assim, recomeçar todo o ciclo. Esse é um panorama do dia a dia de algumas mães estudantes. Anna Luiza Fernandes, com 22 anos, estudante de Psicologia e mãe de Elis, de 2 aninhos, conta que não é fácil conciliar suas três jornadas, mas que ser mãe é “Algo lindo. Que te empodera, te enriquece e te engrandece de diversas formas”, em suas palavras. Na pandemia, ela mostra como sua vida e a de tantas outras pessoas foi afetada e como o distanciamento social apenas agravou este cenário. “Sinceramente, me sinto adoecendo”, nos revela a mãe.

“Justamente por não ver ninguém. Eu tive de voltar e passar a ser mãe e dona de casa por 24h, sem tempo para mais nada, nem mesmo para mim.”

ses problemas, sempre há pessoas dispostas a ajudar. Flávia Freitas de Castro, 25 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo, é mãe de Luiz Augusto, de 3 aninhos. Ela nos relata a importância que uma rede de amigos e familiares proporciona durante a maternidade e também durante toda a vida. A exemplo disso, a estudante nos conta do projeto “Mães (R)Existem”, no qual ela e Anna Luiza fazem parte: “O projeto traz visibilidade para as mães e para os problemas que as mulheres enfrentam ao se tornar mãe e estudante”. E acrescenta que, mais do que o apoio mútuo, o projeto propulsiona a luta das mães estudantes. Dessa forma, mesmo que o ato de ser mãe ainda continue sendo algo difícil, ele pode ser amenizado com as mãos amigas à sua volta. “E, por incrível que pareça, a gente encontra muita empatia e solidariedade no caminho. Nem sempre, mas existe”, diz Flávia. Mesmo que ainda seja muito estigmatizado como “sagrado e puro”, as mães têm usado as redes sociais para mostrar relatos e partes de sua rotina que revelam como

Fonte: ASCOM/UFSJ

CIDADANIA

ESTUDO E MATERNIDADE - Anna Luiza Fernandes e sua filha Elis.


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mortes violentas no país, motivadas por homotransfobia. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), uma pessoa LGBT é assassinada a cada 19 horas no país.

A maturidade LGBTQIA+ Histórias de luta, amor e orgulho de ser quem se é

GABRIELA MOREIRA LIMA JOÃO CARLOS DE SOUSA Pamela Brasil percebeu, desde muito jovem, que sua vida não seria fácil. Obrigada a lutar por seu lugar no mundo, saiu de casa aos 14 anos ao conhecer o toque áspero e severo da rejeição. Forte nas suas convicções e valores e disposta a viver sua verdade, saiu de Piracicaba e foi morar em São Paulo capital. Arrumou um emprego, foi casada por 12 anos, até, novamente, sentir o impacto de uma sociedade prontamente inclinada a rejeitá-la. Perdeu seu trabalho quando decidiu abraçar sua essência. Neste momento, sua luta por seu lugar no mundo ganhou novas dimensões tornando-se também uma luta por sobrevivência. Sem emprego e sentindo o peso da falta de oportunidades, Pamela, assim como muitos exemplos de mulheres trans e

travestis Brasil afora, viu-se forçada a trabalhar nas ruas, na prostituição. A decisão nunca fora apenas uma opção, como mostra o levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra): 90% da população trans no país recorre à prostituição por diversos fatores sociais extremos, como a discriminação, a marginalização e a exclusão social, que se inicia dentro de casa, com a família. Hoje, não mais nas ruas, Pamela é técnica em enfermagem e trabalha como cuidadora de idosos, ostentando, com muita vivacidade, 55 anos de vida. Sua trajetória até aqui, carrega lutas e desafios desconhecidos por boa parte da população brasileira, que pode não se impressionar ou mesmo se sensibilizar com o percurso dela, mas, chegar aos 55, representa muito em nosso país. Ainda segundo a Antra, a expectativa de vida de mulheres trans e travestis no Brasil são de

35 anos, menos da metade da média do restante da população (75 anos). A força de superar e resistir, portanto, mostra-se implacável quando a própria liberdade está em jogo: "Sempre quis ser eu, não importa a opinião de ninguém, o que senti mesmo foi o afastamento dos meus familiares. Mas hoje, as pessoas estão aceitando mais, depois de tantas lutas pela visibilidade", diz ela, convicta de seu próprio lugar no mundo, conquistado em cima de muitas perdas e experiências hostis. Através da Pamela, conhecemos Antônio de Pádua Bueno Soares, 68 anos, ator, produtor, transformista e veterano do teatro. O artista é também conhecedor de vários famosos, como a atriz e humorista Nany People. Após trinta anos, esteve finalmente com a peça “O primo da Califórnia”, em cartaz por várias cidades de São Paulo, estrelando

o nome artístico e poderoso de Pádua Soares. Ao contrário de sua amiga, Pádua foi bem aceito por sua família ao se assumir gay aos dezesseis anos, ainda assim, não mantêm contato próximo com seus familiares: “Só sou sozinho por estar solteiro, mas sou bem próximo dos primos e meus amigos, bem mais que com minhas irmãs mais novas, porque os meus outros dois irmãos já são falecidos”. Também não chegou a se casar porque os dois grandes amores de sua vida faleceram em acidentes ainda jovens. Ele, agora, procura por algo que seja definitivo e não apenas momentâneo, mesmo não se sentindo só. O motivo da sua escolha é por temer com quem se relacionar, devido a casos de mortes já ocorridas por cônjuges de LGBTQIA+. De acordo com o Relatório Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+ no Brasil, de 2020, 237 LGBTQIA+ foram vítimas de Arquivo Pessoal / Pádua Soares

ATOR E TRANSFORMISTA - Pádua Soares trabalha como artista.

O envelhecer Wallace Rocha, educador social, ator e artista plástico, no alto de seus 55 anos, traz uma grande lição de seu passado: os valores que aprendeu com seus pais, em sua simples infância, como o caçula de 14 filhos. A decisão poderia destruir tudo que importava para ele em seu seio familiar, mas aquela verdade, silenciada no seu interior, era tudo que ele era e, seguro de sua escolha, assumiu todos os riscos que pudesse passar. "Meu pai jamais me interpelou e minha mãe me estranhava às vezes, mas eu mantive minha escolha e segui em frente", conta. Isso foi aos 21 anos, quando Wallace se assumiu gay e, para chegar ao pleno controle emocional de sua decisão, numa época mais difícil e mais distante, foi preciso uma boa dose de coragem e determinação. "Tentava entender o que eram aqueles desejos e uma amiga me abriu os olhos ao dizer que era pra eu acordar pra vida e que ninguém deixaria de me amar por conta de minhas escolhas. Este foi o momento que minha ficha caiu e passei a me entender não como um homem gay e, sim, como um ser humano que merece todo o respeito de quem quer que seja. Se não tenho este respeito, o problema está no outro e não em mim". Atualmente, numa união estável há 18 anos, a solidão não é uma preocupação a essa altura de sua vida e o educador social vê o processo de envelhecer como algo inevitável: "Todos deveriam pensar no envelhecer. A nossa união estável nos garante alguns direitos, porém, tivemos que incluir um testamento em que até o usufruto da casa

própria será meu, visto que a lei ainda não funciona em algumas cláusulas, pois conta de casamento entre homem e mulher. Enfim, o que construímos sem termos filhos fica com seus herdeiros diretos e indiretos”, alerta. O envelhecimento da comunidade LGBTQIA+ ainda é um tema pouco discutido, mas, conforme a terceira idade vai chegando, limitações e desafios, que vão além dos inerentes a essa fase, podem surgir, agravando uma vivência já muito prejudicada em nossa sociedade. O risco de solidão é maior e a falta de apoio de familiares, cônjuges e filhos, tornam-se preocupações na medida em que se chega a uma idade na qual se precisa de maiores cuidados. “Apenas como ponto de vista: Os gays de hoje não se preocupam com estas formalidades necessárias que só farão diferença na velhice. Acho que eles pensarão que a velhice não chegará para eles", reflete Wallace. Esse é um apontamento interessante: existem muitas ideias pré-concebidas sobre as temáticas da comunidade LGBTQIA+ e a velhice. Segundo dados do IBGE de 2015, existem em torno de 17 milhões de idosos LGBTQIA+ assumidos no Brasil, um número que possui uma grande margem de erro para mais, devido à especificação desse tipo de pesquisa, mas já aponta para um problema na questão da representatividade social: nenhuma política pública específica foi criada para atender às possíveis necessidades exclusivas dessa comunidade e nenhum esforço para entendê-las. Há uma falha no debate público e o apagamento da expressão de sexualidade e gênero nessa idade se torna uma constante, num precipitado encadeamento de arquétipos que reforçam esse apagamento, se intensificando no espectro de gênero, como os transexuais e travestis. A comissão dos Direitos da Pessoa Idosa reconheceu essa problemática em audiência pública, realizada

no dia 20 de maio deste ano, e trouxe ao debate as diferentes maneiras da falta de reconhecimento da sexualidade e identidade de gênero em pessoas da terceira idade. Para Wallace, o caminho é sempre o da resistência:

“Nossa luta é árdua e não podemos esmorecer! Eu admiro tudo o que está sendo feito e se para isto melhorar ainda mais temos que dar nossa cara a tapa, daremos as duas faces, mas jamais desistiremos!”.


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12 MODA

Estilo na pandemia

Arquivo Pessoal / Rhanyane Garcia

Inclusive roupas e outros acessórios. Também comecei a passar muito mais tempo nas redes sociais, sendo bombardeada por publicidades e afins, então sempre achava que precisava de mais um moletom ou uma roupa legal ‘pra quando a pandemia acabar’.”, relatou uma das entrevistadas. Um estudante que participou da entrevista, afirma que

“Mesmo na pandemia gosto muito de me arrumar em casa, então, ainda consegui manter um senso do que quero vestir. Mesmo assim, direto tenho vontade de repaginar meu armário inteiro”. O acesso constante à publicidade nas redes sociais, estratégias de mercado e os efeitos psicológicos causados pela mídia são alguns fatores responsáveis pela dissociação psicológica do indivíduo. Por isso, a necessidade de consumo é distorcida, bem como, a noção de identidade e estilo próprio. A peça mais importante do período de pandemia da Covid-19 é a máscara. Além de sua função de controlar a propagação do vírus, as máscaras foram vistas por muitos como um possível acessório fashion. Aproximadamente 25% dos estudantes entrevistados afir-

maram que a máscara funciona, sim, como um item de composição do estilo e que gostam de combiná-las com as roupas. É nesse sentido que Rhanyane comenta que “o mercado vê qualquer brecha para vender. Então, tivemos um monte de gente fazendo máscara estampada, às vezes nem era o tecido recomendado pela OMS. Eles usaram para unir essa brecha das máscaras para vender e para criar; com certeza foi uma aposta do mercado”. Algo também presente nas tendências da marca da estilista. Quando questionada sobre o significado das fotografias do editorial de sua marca, a empresária de moda explica: “Na verdade, eu fiz esse editorial exatamente pensando num aspecto de pandemia e sociedade, trazendo as referências. E logo depois,

Ferragamo Salvatore também levou isso pra semana de moda, em Paris, e o Louis Vuitton também apostou nessa mesma pegada, nes-

sa última semana de moda que teve. Então, sim, com certeza; a moda anda junto com a nossa sociedade e o tempo atual.” Arquivo Pessoal / Rhanyane Garcia

Como o conforto se tornou a principal tendência de moda

"Quanto mais ansiosa eu me sentia com relação à pandemia, mais eu comprava coisas on-line."

se adaptar às necessidades da pandemia e despertar um desejo de compra”. Quando questionados sobre consumo, os entrevistados da enquete falaram sobre a sua percepção de estilo e as transformações na sua forma de consumir moda. Apesar de quase metade (48%) relatarem uma diminuição do consumo de moda, há aqueles que passaram a comprar por outros motivos. “Aumentou [o consumo]! Não pelo uso, mas por uma ‘necessidade’ inconsciente de comprar.

INSPIRADA EM FERRAGAMO - Rhanyane fez o editorial “O Passado Póstero” pensando nas máscaras como um item fashion.

e estilo pessoal, uma enANA ISA FONSECA DE MOURA quete foi realizada entre os LISLEY HELENA SILVA CRUZ estudantes da Universidade Federal de São João del-Rei Moletom, chinelo, pija- (UFSJ). Nela, foram entrevisma: peças casuais que se tadas 62 pessoas, via formutornaram itens coringa para lário online. As informações qualquer ocasião na rotina contribuíram para uma meremota. Desde o início da lhor compreensão do que se pandemia, em março de 2020, tornou prioridade na hora de o estilo de vida de milhares de se vestir no cenário pandêpessoas, ao redor do mundo, mico. Cerca de 66% dos entrefoi impactado. Isso se refletiu nas relações pessoais, no tra- vistados afirma que deixou de balho, na vida social e, conse- se preocupar com a aparênquentemente, no jeito de se cia e com o modo de se vesexpressar, inclusive, através tir durante esse momento de distanciamento social, o qual da moda. Com o objetivo de analisar trouxe a possibilidade de traesses impactos no vestuário balho e estudo à distância.

“Sempre gostei de me vestir bem, mas com a pandemia isso mudou, não estou me preocupando muito com minha aparência”, comenta uma jovem durante a pesquisa. Ela, apesar de trabalhar presencialmente,

passou a optar também pelo conforto das peças. Essa escolha pelo conforto nas roupas foi comentada por mais da metade dos entrevistados, destes 35% passaram a priorizar esse fator, após o início da pandemia.

“A moda anda junto comentou “O consumidor final com a nossa sociedade mudou, então a gente teve que e o tempo atual” mudar um pouco o nicho. A A estudante de moda Rhanyane Garcia, 24 anos, também proprietária da marca rhanyA studios, acredita que a pandemia levou, sim, a um processo de transformações no mundo da moda. Sobre as mudanças no mercado, Rhanyane

questão do conforto aumentou com certeza, sendo 100% em qualquer criação”. Sobre o aumento do consumo, a especialista afirma que “o mercado está tentando sempre se adaptar também, assim como as pessoas. Se a gente está numa pandemia, ele vai

EDITORIAL - Rhanyane posa para a sua marca, rhanyA studios.


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Arquivo Cine Glória

CULTURA

O cinema acabou?

As mudanças de consumo do audiovisual na Pandemia e a força dos streams ANDREZA SIQUEIRA NAYARA RIBEIRO RAYANE KESSIA Não há como falar do século passado sem falar de cinema. O cinema foi para o século XX a maior mídia, fonte de conhecimento, divulgação, informação, lazer e entretenimento. Tanto na esfera política quanto na social, também foi influenciador e palco para grandes debates. Da década de 1980 ao início dos anos 2000, as videolocadoras fizeram o público passar um bom tempo escolhendo um filme. Para aqueles que não conseguiam ver os filmes no cinema, ir à locadora

e alugar uma obra específica, chegava a ser algo mágico. Por outro lado, quando alguém já o tinha alugado, era algo bem triste. Mas com a onda cibernética crescente será que a sétima arte se tornou ultrapassada? Cinema vs Streaming Afinal, o que é Streaming? É um formato de mídia digital o qual armazena o conteúdo em uma nuvem dentro do servidor e, deste modo, permite ao usuário usufruir de seus materiais, via transferência de dados pela internet, sem precisar fazer download e utilizar de espaço de armazenamento.

Como uma espécie de locadora virtual. As coisas mudaram quando a Netflix passou a ser a pioneira nos sistemas de stream, a qual chegou ao Brasil em meados de 2011. Desde então, motivadas pelo sucesso da empresa, diversas outras franquias iniciaram seu próprio serviço, sendo que em 2021 já existem mais de 15 opções no mercado. Devido ao surgimento dessas diversas plataformas na indústria audiovisual, o cinema, até então, não tinha sido diretamente afetado pelas novas formas de consumo de vídeo. Porém, passou a sofrer diversas perdas e agravamentos no mer-

cado por ter que parar o funcionamento ocasionado pelas restrições para a contenção do vírus da COVID-19. Esse cenário pandêmico foi a última fronteira para o crescimento substancial dessas plataformas, que já possuíam prestígio da população, e os números de consumo desse tipo de conteúdo aumentaram. De acordo com pesquisa da Kantar Ibope Media, deste ano, 58% dos usuários de internet apontaram maior uso de streaming pago, vídeos e TV online, durante o período de pandemia. E o aumento de tempo em cada estado do Brasil pode ser observado no seguinte infográfico: Fonte: Reprodução Kantar Ibope Media.

DEMANDA - Regiões metropolitanas brasileiras que se destacaram no consumo de vídeo. 16 de março de 2021.

NOSTALGIA - Cinema, um lugar mágico.

Contudo, como os estúdios de Hollywood já tinham diversos filmes prontos para a estreia, a Universal Pictures apareceu com uma nova estratégia e lançou o filme Trolls 2 direto nas plataformas, obtendo um resultado positivo. Em razão dessa experiência bem sucedida, o intuito da Universal era fazer lançamentos simultâneos no cinema e

Mas e aí? Cinema ainda cinema tem perdido públivale a pena? co com a nova era digital, mas, penso eu, que talvez Devido à grande varie- ele não esteja perdendo púdade de opções e questões blico, e sim, ampliando para como preço, acessibilidade e novas áreas”. conforto, as plataformas de “Uma sociedade, à medistreaming levam vantagem da que vai se fragmentando, em relação ao cinema. En- precisa de mais produtos tretanto, segundo o Doutor para atendê-la. Os recursos, em Comunicação e Cultura, os expedientes, as diversas João Barreto da Fonseca, “O maneiras de entretenimen-

nos serviços de streamings, mas isso logo foi cortado quando as indústrias de cinema ameaçaram não exibir seus filmes em 2021, caso eles insistissem com a ideia. Porém, a história não acaba por aí. Em dezembro de 2020, a Warner Bros. Pictures fez um comunicado que surpreendeu a indústria do entretenimento: publicou a no-

tícia de que iria lançar todo o seu catálogo de 2021 simultaneamente pelo streaming HBO Max e nos cinemas, isso logo após o lançamento de Mulher - Maravilha 1984 no mesmo formato, causando uma revolução que poderia mudar a forma clássica de se fazer cinema. A decisão teve grande repercussão entre os cineastas e as grandes em-

presas do ramo que fizeram duras críticas ao estúdio, mas agora a polêmica parece estar chegando ao fim. Segundo o Money Times, a Warner negociou a garantia do pagamento a seus parceiros independente da arrecadação de bilheteria, além de aumentar as chances de um bônus por desempenho dos filmes.

to precisam satisfazê-la. Em cidades complexas, os interesses são complexos”, explica o professor universitário. Mas apesar do momento vivido, João Barreto assegura: “O que vai garantir o cinema é esta questão do culto, de você observar um produto com a sua potencialidade máxima, da maneira em que

foi produzido. Só o cinema proporciona isso, pois produz a mesma esfera pública, a mesma memória coletiva.

Então, podemos dizer que nós experimentamos a obra cinematográfica com intensidade e as obras dos streams com a possibilidade de edição.”


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CULTURA

Arte na pandemia

Artistas de São João del-Rei buscam novas formas de levar arte e cultura na quarentena Daniel Arantes

REDUZINDO OS RISCOS - Projeto Circo na Roça no Caburu, Distrito de São João del-Rei, MG.

ANDRÉ MARCOS LIMA DANIEL ARANTES PEREIRA O distanciamento social adotado como medida para conter a pandemia da Covid-19, impôs restrições às aglomerações que impactaram severamente a classe artística e a produção cultural em todo o mundo. De modo inesperado, os artistas perderam contato com seu público que, por sua vez, confinado, amedrontado e, muitas vezes, enlutado, nunca precisou tanto do poder curativo da arte. Com as ruas, galerias e outros espaços tradicionais e presenciais inviabilizados, os artistas tiveram que buscar outras formas de divulgar sua produção artística e garantir seu sustento. As redes sociais foram o caminho natural para muitos artistas de São João del-Rei - MG, como Márcio Luiz Bacelar, músico e compositor dedicado ao vio-

lão de sete cordas, que passou a dar aulas virtuais e transmitir lives através do seu canal no Youtube. Durante os primeiros meses de pandemia, quando sua renda foi bastante afetada, Márcio recorreu ao auxílio emergencial do Governo Federal como autônomo. No entanto, o investimento, anterior à pandemia, em um notebook e a posterior aquisição de acessórios, como microfones e placa de áudio, já com recursos recebidos das aulas on-line, permitiram que o músico mergulhasse na vida virtual aprendendo a lidar com programas de áudio e aplicativos de reuniões virtuais, os quais antes ele não dominava. Atualmente, mais confortável para produzir seu trabalho com esses recursos, o músico acredita que muito do que foi levado para o ambiente virtual não deixará de ocupar esse espaço. “Estabilizando a pandemia eu acredito que vou

ter o trabalho on-line somado ao trabalho presencial”, afirma Márcio Bacelar, que tem projetos musicais engatilhados para tentar captar recursos em leis de incentivo à cultura, como a Lei Aldir Blanc. Além dos artistas autônomos, grupos artísticos como a trupe familiar itinerante “Circo Muamba” também tiveram sua vida profissional e financeira atingida pela pandemia. Acostumados a interação direta com a plateia em suas apresentações nas praças e espaços públicos, como no Largo das Forras em Tiradentes - MG, os artistas Luiza Soares e Márcio Terraza, que dão vida aos palhaços malabaristas “Chicória” e “Alecrim”, adaptaram suas apresentações para atender aos protocolos de biossegurança, assim que se iniciaram as flexibilizações das medidas sanitárias. Eles também acessaram os recursos do auxílio emergen-

cial no início da pandemia, no momento em que as praças e ruas estavam completamente fechadas, e concorreram a um dos editais da Lei Aldir Blanc, conseguindo a aprovação da proposta “Circo na roça”. Movidos pelo ideal de estender sua arte para lugares menos privilegiados, onde a arte circense e de rua não chega, o Circo Muamba levou o espetáculo de palhaçaria e malabarismo “Bafafá” a quinze comunidades rurais da região do Campo das Vertentes, no período de maio a julho deste ano. Os recursos da lei possibilitaram que os artistas reformassem a “Brunilda”, kombi que serve de palco e cenário ambulante para seus esquetes. A perua foi equipada com caixas de som, permitindo o distanciamento do público. Máscaras e álcool em gel foram adquiridos e distribuídos para a plateia durante as apresenta-

ções. “Mesmo que a gente não consiga ver o sorriso da pessoa, sabemos que está aí do outro lado”, ressalta Mauro Terraza, que teve que se acostumar com o público mascarado. Do mesmo modo, a “Adro Galeria”, no centro de São João del-Rei, espaço que congrega, através de uma associação independente, diversos artistas, dentre eles ceramistas, escritores, pintores, designers e fotógrafos, também acessou recursos da Lei Aldir Blanc. De acordo com Zandra Miranda, sócia fundadora e atual diretora da galeria, o acesso à Lei Aldir Blanc possibilitou que ainda em 2020, o espaço promovesse exibições como a exposição “Arte em circulação”, com obras visuais de artistas parceiros em outdoors nas ruas e avenidas da cidade. O recurso da lei permitiu ainda que a galeria abrisse edital para ilustradores, fotógrafos e designers da cidade, que culminou na exposição “Janelas Abertas”, a qual banners com as obras visuais dos artistas selecionados foram exi-

bidas nas janelas da fachada do casarão da galeria, durante as comemorações do seu terceiro aniversário. Atualmente, o espaço artístico vem promovendo e exibindo as obras de seus artistas parceiros nas páginas do Instagram e Facebook. Fechada para o público desde o início da pandemia, a “Adro Galeria” também realizou diversas ações sociais nas redes ao longo do período de distanciamento social, como, por exemplo, a iniciativa “Adro amiga”, na qual através do leilão e sorteio de peças artísticas, conseguiu recursos para doação de cestas básicas para famílias carentes do bairro Nossa Senhora das Mercês, em São João del-Rei. Os desafios impostos à classe artística promoveram criação de novos formatos de interação com público, exigiram novos conhecimentos e equipamentos, e intensificaram o uso das redes sociais. Provocaram e desafiaram o que há de mais potente em quem vive da arte: a criatividade. Várias

Lei Aldir Blanc de Emergência cultural A Lei Federal nº 14.017 de junho de 2020 foi batizada em homenagem ao compositor e escritor Aldir Blanc, morto vítima do coronavírus, em maio do mesmo ano. Proposta pela Deputada Federal Benedita da Silva (PT-RJ) e sancionada, com vetos, pelo presidente Bolsonaro (sem partido), tem como objetivo apoiar artistas, coletivos e empresas do setor cultural. Foram destinados 3 bilhões de reais na forma de renda emergencial, subsídio mensal para manutenção de espaços, editais e chamadas públicas, entre outros benefícios, alcançando potencialmente cerca de 700 mil trabalhadores, de acordo com a Agência Senado. Para saber mais sobre a lei acesse o Portal da Secretaria de Cultura Federal pelo QR Code ao lado ou pelo link: http://portalsnc.cultura. gov.br/auxiliocultura/

atividades cessaram completamente durante as restrições impostas pela pandemia, mas a arte, como forma vital de expressão das emoções humanas, não parou. O reconhecimento da importância da produção artística para a sociedade, através da criação de uma lei, como a Aldir Blanc, com o maior aporte de recursos financeiros para o setor, é uma grande conquista so-

cial. Entretanto, como ressaltou Luiza Soares, do Circo Muamba, “é preciso democratizar ainda mais o acesso a esse recurso”, uma vez que existem certas barreiras tecnológicas de acesso à internet e burocráticas, as quais dificultam que artistas de rua e outros profissionais da arte, que se encontram mais distante dos grandes centros e com menos acesso à informação, possam ter esse suporte


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Ganhar de virada ou perder de goleada As diferentes realidades de quem sonha em jogar futebol profissional Reprodução/Instagram

e que os jogos que você assiste na TV é somente a ponta do iceberg. Por trás daquilo, há muita dor, suor, e dedicação nos treinos, alimentação, academia. Assim, percebi que eu gostava apenas de jogar e não dos bastidores e preparações.”, conta o ipatinguense Sávio Veloso. A visão de quem está nos bastidores… Gilberto Fonseca, natural de São João del Rei e ex-goleiro campeão da série B pelo América Mineiro, hoje técnico do Boston City FC Brasil, analisa a chegada dos meninos nos times de base como uma jornada difícil. Muitas vezes, os pequenos clubes não possuem psicólogos à disposição dos atletas, o que faz com que os treinadores desenvolvam esse papel. Diálogos sobre como estão se sentindo, questões familiares e visão

atenta sobre os comportamentos de cada jovem, fazem parte do suporte dado aos garotos, além de acolhê-los com afeto e carinho. Gilberto relata a complexidade de contar ao jogador que ele não obteve os resultados esperados: “Essa é a parte mais difícil, principalmente para nós treinadores. Quando um jogador está em avaliação, quem dá o veredito final é o treinador. Aí, quando não passa, eu tenho o cuidado de chamar o garoto, explicar porque ele não passou na avaliação, porque ele não vai ficar no clube.” O ex-goleiro fala ainda que é necessário ter muito cuidado em como abordar o jogador iniciante, porque podem estar interrompendo o sonho do atleta de ser jogador profissional, jogar na Europa, na seleção e ganhar dinheiro com seu trabalho. Já para Willer Sousa, auxiliar de futebol em times de São João Del-Rei, a questão

emocional depende muito do momento e afeta todos os jovens atletas: “Por exemplo, o mais comum seria que os jogadores de ‘periferia’ cheguem ao clube como uma chance da vida, a realização de um sonho e também uma oportunidade de ajudar a família, então, talvez exista uma pressão psicológica e social maior evidentemente. Já os jogadores de bairro nobre ou de família influente já não chegam com essa pressão de ter que ajudar a família, mas também sofrem por uma pressão de ser chamado de ‘filhinho de papai’ ou então por um suposto beneficiamento apenas por ser bem sucedido financeiramente”. O auxiliar de futebol diz ainda que, apesar das diferenças sociais, a questão de se ter sucesso ou não, depende de como cada jogador lida com essa situação, independente da classe a qual pertence.

Quase todos os meninos têm o sonho de ser jogador de futebol na infância e, a grande maioria, têm contato com esse esporte desde cedo, seja nas aulas de educação física, no time da comunidade, nas escolinhas de um clube ou na rua de casa. O que não é igual para todos são as condições em que exercem essa atividade e como isso interfere na realização do sonho. Para João Gustavo, atleta de 19 anos, natural de Ouro Branco-MG, ao iniciar a carreira numa escolinha de sua cidade, as condições eram mínimas e ele também não se preocupava com campo, uniforme e chuteira. O joga-

dor atua pelo Figueirense de São João del-Rei e já teve passagens por times renomados como Fluminense, Red Bull Bragantino e Tupi, de Juiz de Fora-MG. Hoje, ele analisa as condições como favoráveis para a prática esportiva, mesmo em categorias sub-15 e sub-17. De acordo com João, uma das principais dificuldades a superar era lidar com a saudade e o fato de não estar aproveitando a adolescência como um garoto comum. “A saudade de casa, a distância, saudades dos meus amigos. Sempre me perguntava se era isso mesmo que eu queria”, conta o jogador. As dificuldades também fizeram parte da vida de Gabriel Galhardo, de 27 anos e

irmão do camisa 17 do Internacional, Thiago Galhardo. “Eram muitas pessoas para pouquíssimas vagas, a parte financeira também pesou quando me mudei para o Rio de Janeiro, com minha mãe e meu irmão. E, com apenas 14 anos, ter que conciliar o futebol e os estudos, saindo de casa às 5 da manhã e chegando apenas às 18h, todos os dias”, conta Galhardo, demonstrando toda a sua dedicação para ir em busca dos seus sonhos. Hoje, atuando pelo Athletic, de São João del-Rei, o jogador vê seus resultados com alegria e felicidade: “A vida de um atleta é extremamente difícil, ao contrário do que muitos pensam, mas me alegro ao olhar para o que passou e ver onde eu pude chegar.”

O outro lado do campo… Sávio Veloso, 21 anos, teve um suporte maior para alcançar seus objetivos. Com melhor aporte financeiro e apoiado pelos pais, o jovem de Ipatinga-MG conseguiu ultrapassar barreiras mais facilmente e teve a oportunidade de jogar por times universitários em países como Estados Unidos e Espanha. Apesar disso, o jovem desistiu da carreira por achar que o meio futebolístico é muito mais complexo do que as pessoas imaginam. “Não pretendo continuar, pois quando tive experiências semi-profissionais, vi que o futebol não é apenas diversão e, sim, uma profissão como qualquer uma,

Se a situação no futebol para os garotos é complicada, para elas é ainda pior. A campanha #PresasNos80, liderada pelas jogadoras da Seleção Feminina de Futebol, Formiga, Tamires e Bia Zaneratto, dão visibilidade ao problema e as desigualdades ainda existentes. O futebol delas foi regulamentado no país apenas em 1983 e as atletas chamam a atenção para o fato do investimento ser quase o mesmo daquela época. Uma realidade vivida desde os times da base. De acordo com Pretinho da Matta, dirigente do Ideal FC, time de Ipatinga-MG, os recursos para a categoria dependem muito da adesão de empresários no projeto, o que faltou para a equipe ipatinguense. “Como não aderiram por completo à ideia e pouco ajudaram, em certos momentos, algumas jogadoras precisaram ir para semáforos para angariar fundos.” Arquivo Pessoal / Luana Cardoso

ESPERANÇA EM JOGO - João Gustavo atuando pelo Red Bull Bragantino.

LUISA ARVELOS RESENDE VICTOR SOARES FONTES

#PresasNos80: O baixo investimento no futebol delas

ELAS EM CAMPO - Time feminino do MIX, de Coronel Xavier Chaves.


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ECONOMIA

Os novos tesouros das Minas Gerais Como a agricultura participa da história e economia do sul mineiro

Daniel da Silva Soares

FLÁVIA SIMAS LIFONSINO

Mini-dicionário da Agricultura Safra: período de plantio que se inicia em outubro e vai até dezembro, época em que as condições climáticas são mais favoráveis para o desenvolvimento das culturas. Safrinha: período de plantio após a Safra, de janeiro a abril. Nele, a produtividade era considerada menor, no entanto, pelo aumento de área, já é considerada como Segunda Safra. Citricultura: cultivo de frutas cítricas como laranja, limão, mexerica, cidra e lima. Cafeicultura: cultivo de café. Hortifruticultura: cultivo de hortaliças, legumes e frutas.

mineira por serem a base da economia de seus respectivos estados. Mas o que nos tornou referência nessa área? A atividade leiteira se deu devido ao baixo custo e facilidade de obtenção de lucros. Com a alta produção de leite, a comunidade local desenvolveu alimentos tendo o mesmo como matéria-prima para consumo próprio e comercialização e, assim, surgiram produtos artesanais. Isso inclui os diversos queijos mineiros, famosos até hoje, e considerados patrimônios da cultura brasileira. A prosperidade do comércio e da indústria leiteira impulsionaram o investimento na atividade agrícola, pois os grandes fazendeiros viram nessa área uma oportunidade de expandir seus negócios. A década de 1990 marcou a ascensão do cultivo de cereais nas terras sul mineiras, em que se destacava a produção de milho. Inicialmente, seu plantio era voltado para a silagem, mas, devido à grande procura do produto, as lavouras foram crescendo e o cultivo do grão tornou-se um dos grandes destaques do setor. Sua versatilidade propiciou o aumento da comercialização abrindo portas para o mercado internacional, o que levou a expansão de lucros, sendo o milho um dos principais grãos cultivados em Minas Gerais na atualidade. Com o rápido crescimento da agricultura nessa região e a necessidade de ampliar os negócios, as plantações de soja também ganha-

uma grande proporção contribuindo para o aumento de empregos e melhorando a situação econômica. Segundo a engenheira agrônoma, Yara Alves Santos Norremose, o Citrus é uma cultura muito forte em São Paulo, entretanto, devido a Doença de Greening, que provoca desfolha e morte das plantas, os produtores vieram para o Sul de Minas. Com o deslocamento de região, perceberam que as frutas tinham uma qualidade acima do padrão de mercado e isso atraiu mais investimento para a localidade. Um exemplo disso é a expansão da empresa rural Simonetti Citrus de São Paulo para a região sul mineira, mais precisamente, para os municípios de Cruzília, Minduri e São Vicente de Minas, onde essa cultura tem sido de grande importância para

a economia. Vale ressaltar que um dos sócios, Antônio Carlos Simonetti, é, inclusive, o presidente da Associação Brasileira de Citros de Mesa. O Sul de Minas possui diversas outras culturas agrícolas como a produção de hortifruticultura. No início, a mesma era voltada na maior parte para o cultivo de pequenos produtores e para a própria subsistência. No entanto, o cultivo atual contribui com a economia de forma mais abrangente, já que sua produção teve um aumento significativo nos últimos anos, segundo a engenheira agrônoma, Deborah de Jesus Santos. Outras culturas em expansão na região são a de cana-de-açúcar, trigo e feijão. Sendo a última de grande importância para os produtores mineiros, uma vez que possui

um custo de produção não muito alto e uma boa rentabilidade. Outro dado importante é o fato do estado se destacar como responsável por grande parte da produção de feijão no país. Além disso, com o aumento do investimento em tecnologia nas lavouras, estima-se que as mesmas irão crescer ainda mais nos próximos anos. O Agronegócio vem se desenvolvendo tecnológica e geograficamente, gerando empregos e contribuindo de forma significativa para a melhora da economia mineira e de todo o país. Grande parte da prosperidade desse setor no sul mineiro, deve-se ao seu solo rico em nutrientes e suas condições climáticas favoráveis ao plantio. O que demonstra como as Minas Gerais nunca deixarão de produzir seus tesouros. Yara Alves Santos Norremose

SOJA - Sítio Novo Horizonte, localizado no Município de Cruzília.

Quando se fala em Minas Gerais logo se lembra do leite e dos queijos artesanais, mas essa terra abençoada produz muitas outras delícias, devido ao seu solo fértil que propicia o desenvolvimento de diversas culturas agrícolas e movimenta a economia. Um grande exemplo disso é o café, considerado “ouro negro” entre os séculos XIX e XX, o grão é cultivado desde a época do Ciclo do Ouro e, posteriormente, foi um substituto à exploração das minas. O cafeeiro é uma planta de clima tropical e requer solos bem drenados e ricos em matéria orgânica para uma boa produtividade. A mecanização da área de cultivo também foi muito importante para a redução de custos e aumento da rentabilidade, explica o engenheiro agrônomo e técnico de campo do Sistema FAEMG/SENAR/INAES, Guilherme Ferreira Marques. Atualmente, Minas Gerais responde por metade da produção brasileira e abriga o município de maior produção nacional de café, Três Pontas. Além disso, o Sul de Minas sempre se destacou no cenário nacional por sua atividade leiteira. Afinal, quem nunca ouviu falar sobre a tão famosa República Café com Leite? Essa, ficou marcada pela disputa política entre São Paulo e Minas Gerais, na qual o coronelismo é quem ditava as regras. O café representava a oligarquia paulista e o leite a oligarquia

ram espaço, principalmente pelo custo-benefício, já que o investimento para a produção desse grão por hectare é aproximadamente R$1.000,00 a menos do que para a produção de milho safrinha. Já em relação ao milho safra, essa diferença pode chegar a uma economia de R$2.500,00 a R$3.000,00, segundo o produtor rural mineiro e consultor técnico de vendas da empresa Grão de Ouro Agronegócios, Daniel da Silva Soares. Vale ressaltar, que apesar da sojicultura já existir no Sul de Minas, supõe-se que somente após os anos 90 seu cultivo passou a ter destaque no meio agrícola, com um aumento significativo de área plantada na década seguinte. Recentemente, abriu-se espaço para os setores de citricultura, que tomaram

MILHO - Fazenda Fartura II Irmãos, localizada em Minduri


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SAÚDE

Protestar na Pandemia É possível participar de manifestações de forma segura?

CUIDADOS SANITÁRIOS - Higienização das mãos durante a manifestação.

com o governo federal, estadual e municipal, que atacam diretamente os direitos da população em diversos sentidos. "

"A ideia é mostrar essas políticas e convidar a população a se informar", ressalta Rafael. Durante toda a pandemia

COMENTÁRIOS - Usuários do Twitter opinam sobre os atos

foram discutidas formas pontuais de manifestação, como cartazes, “panelaços” e protestos virtuais. Além disso, houve diversos atos ao longo de 2020, como colocação de bandeiras, placas, dentre outras ações. Todas elas, sem grandes convocações para o movimento presencial, medida adotada, até aquele momento, com o intuito de evitar aglomerações. “Não se tem a preocupação de ‘validação’ dos atos do governo, pois desde o início da pandemia, os apoiadores

promoviam manifestações sem se preocupar com a saúde da população, sem os procedimentos básicos, como o distanciamento, o uso das máscaras e a higienização. Diferente destes, o ato promovido pela frente contrária ao governo se preocupa com a população e a saída às ruas foi o último estágio dessa movimentação”, acrescenta Rafael Santos. Em 2021, com o início da vacinação em janeiro e a instalação da “CPI da COVID”, em 27 de abril, pelo Senado

nho das medidas de segurança adotadas. Nathália complementa dizendo que houve ainda um estudo em relação à segurança de uma panfletagem durante o protesto, como forma de promover a segurança durante os atos. Na saída da manifestação, as pessoas são divididas em duas filas, cada uma de um lado da rua. Para a manutenção do distanciamento, é colocada uma corda com corações amarrados, às quais cada manifestante se posiciona mantendo a distância entre a pessoa da frente e as de trás. Além disso, foi distribuído um panfleto de orientação aos manifestantes e, a todo momento, às medidas de segurança eram cobradas no microfone. Durante todo o ato, voluntários se articulam de modo a fazer a higienização de cada um dos participantes. Geovanna Ferreira Carazza, estudante de Psicologia, foi uma dessas voluntárias. Ela nos conta que toda a equipe de higienização estava devidamente identificada com um uniforme e possuía uma forma de proteção extra com o face shield, uma proteção facial, que cobre o rosto completamente. Cada pessoa, de tempos em tempos, se dirigia aos manifestantes

Recomendações de Saúde e Segurança 1. Use máscara! Dê preferência a PFF2 ou a N95 (sem válvula). Caso não seja possível, utilize uma máscara cirúrgica e uma de pano por cima. 2. Use SEMPRE sua máscara cobrindo o nariz e a boca, não a retire para falar. 3. Não esqueça de higienizar as mãos e seus objetos. 4. Evite tocar na máscara, no rosto e nos olhos. 5. Fique a 2 metros de distância das pessoas 6. Não compartilhe objetos. 7. Evite se alimentar na rua. 8. Não faça aglomerações após o ato. 9. Tente não fumar durante o ato. 10. Ao chegar em casa, retire os sapatos, as roupas e tome banho. 11. No decorrer dos dias pós ato, procure evitar contato com as pessoas que sejam do grupo de risco e fique atento a possíveis sinais como tosse e febre. fazendo a higienização e cobrando o distanciamento.

“Como muitos manifestantes levaram suas máscaras, as que restaram eram distribuídas à população[...]" "Muitas vezes transeuntes que estavam sem ou mesmo aqueles que pediam, garantindo assim a segurança, não só dos manifestantes, quanto de todo mundo ao redor”, comenta Geovanna Carazza. No entanto, apesar de todas essas precauções, o

risco de contaminação ainda existe, de acordo com o médico infectologista Dr. Rodrigo Machado. Mesmo ocorrendo em lugares ao ar livre, o infectologista não recomenda participar de manifestações, porque, apesar do uso de máscaras e distanciamento, elas também são uma forma de aglomeração. “Havendo uma pessoa contaminada com a variante delta, que possui a taxa de contaminação 90% maior, o impacto é a disseminação em massa, com grande incidência de casos'', alerta o especialista. Daniel Arantes

Ao longo do primeiro semestre de 2021, movimentos sociais, centrais sindicais, políticos e ativistas do grupo “Fora Bolsonaro” convocaram protestos em todo país, contra o Presidente da República e suas ações. Mas tais movimentos, em meio à pandemia, provocam o seguinte dilema: Como fazer uma manifestação de forma segura, sem colocar a população em risco, devido a circulação do novo coronavírus? Muitos apoiadores do próprio movimento consideram esta ação perigosa ao expor os manifestantes à possibilidade de contaminação pela doença. Nas redes sociais, alguns usuários questionam os atos e seus impactos na mudança de postura do governo. Em São João del-Rei-MG, o movimento foi criado com apoio de partidos, entidades, sindicatos e movimentos sociais locais. Para Rafael Oliveira Santos, estudante de Jornalismo, o ato não é só para impactar o governo atual, mas é “uma forma de mostrar para o povo que existem pessoas que estão indignadas

Daniel Arantes

BRENDA LUCCHESI ROCHA LUCAS E. MAXIMIANO

Federal, entidades e movimentos sociais decidiram que seria a hora da população ir às ruas. Para a realização dos atos, os integrantes do movimento se dividiram em diferentes equipes, como comunicação, segurança e estrutura, agitação e propaganda, e a equipe de higienização. Esta última com o objetivo de garantir a segurança e saúde dos manifestantes. "Primeiramente, é feito uma estimativa, de quantas pessoas irão comparecer ao ato. A partir daí, o grupo responsável, juntamente com o sindicato, vai atrás de máscaras PFF2, que possui um poder de filtragem maior, e álcool em gel. Em segundo lugar, é decidido o local de concentração, optando por áreas abertas onde se possa manter um distanciamento entre os manifestantes”, conta Nathália Julie Soares Resende, estudante de Medicina e uma das organizadoras do evento. De acordo com Nathália, foi criada a “Comissão de cuidados sanitários”, com o intuito de evitar a contaminação tanto dos manifestantes, quanto da população local. A preocupação também se estende ao período posterior ao ato, sendo realizado um estudo averiguando o número de contaminação da cidade, de modo a avaliar o desempe-

ORGANIZAÇÃO - Manifestantes mantem distanciamento durante ato.


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A indignação vai às ruas

Ensaio Fotográfico "Manifestações de rua em meio à pandemia são um importante termômetro da indignação de parte da população. Acompanhar protestos pacíficos retratando momentos em que a revolta venceu o medo do vírus foi minha motivação para sair às ruas com a câmera na mão. Isso me possibilitou partilhar as cores e a criatividade dos protestos." Daniel Arantes


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