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meuselo ENVIE O MELHOR DA SUA HISTÓRIA

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Sele os momentos mais importantes da sua vida com os selos personalizados dos CTT.


DIRECTOR Sofia Arnaud DIRECTOR DE ARTE Hugo de Jesus COLABORAM NESTA EDIÇÃO Antonio Mexia, António Mota, António Rios de Amorim, António Saraiva, Bárbara Barroso, Bernardo Trindade, Carlos Moedas, Carlos Monjardino, Daniel Sá, Duarte Cordeiro, Fernando Gomes, Fernando Neves de Almeida, Francisco Seixas da Costa, João Vasconcelos, Jorge Magalhães Correia, Kátia Catulo, Paulo Pereira da Silva, Pedro Duarte, Pedro Mota Soares, Pedro Pereira, Zandre Campos

SUMÁRIO

TRADUÇÃO Outernational PUBLICIDADE Tel.:+351 21 012 06 00 IMPRESSÃO Soartes Artes Gráficas, Lda. PROPRIEDADE Cunha Vaz & Associados – Consultores em Comunicação, SA SEDE Av. dos Combatentes, n.º 43, 12.º 1600-042 Lisboa CRC LISBOA 13538-01 REGISTO ERC 124 353 DEPÓSITO LEGAL 320943/10 TIRAGEM 3500 Exemplares

R EV I ST A C O R P O R AT IV A D A CV & A

ESTATUTO EDITORIAL

5 EDITORIAL 10 ANÁLISE Regresso a 2003. O que mudou em 15 anos? 14 COMUNICAÇÃO SOCIAL Diogo Queiroz de Andrade e David Dinis, jornalistas 18 PORTUGAL, A EUROPA E O MUNDO EM 2033 Carlos Moedas, Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação; Paulo Pereira da Silva, Renova; Francisco Seixas da Costa, Embaixador; Carlos Monjardino, Fundação Oriente; Zandre Campos, ABO Capital; Antonio Mexia, EDP; António Mota, Mota-Engil; António Saraiva, CIP; Pedro Pereira, BCG; Jorge Magalhães Correia, Fidelidade; Fernando Gomes, Federação Portuguesa de Futebol; Bernardo Trindade, Ex-Secretário de Estado do Turismo; António Rios de Amorim, Corticeira Amorim; Pedro Mota Soares, Deputado CDS-PP; Fernando Neves de Almeida, Boyden Portugal; Daniel Sá, IPAM; Duarte Cordeiro, Câmara Municipal de Lisboa; Pedro Duarte, Microsoft; João Vasconcelos, Ex-Secretário de Estado e da Indústria

76 MEMÓRIA João Soares da Silva Rui Semedo 80 GERAÇÃO MILLENNIALS 88 RESPONSABILIDADE SOCIAL NA CV&A 90 ARTE Exposição “Saudade, China & Portugal” no Museu Colecção Berardo 94 OPINIÃO Olhar o Futuro

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EDITORIAL

A CAMINHO DO AMANHÃ

A ANTÓNIO CUNHA VAZ PRESIDENTE DA CV&A

penas quinze anos passaram sobre a criação da Cunha Vaz & Associados. E já vivemos tantos e tão enriquecedores momentos. Nesta Prémio, revista em papel reciclado, distribuída em 3.500 exemplares, procuramos levar o leitor a um “passeio”, necessariamente sumário, sobre os acontecimentos e as notícias que marcaram o ano em que “nascemos” mas, sobretudo, quisemos trazer a todos os que nos lerem a opinião de muitos daqueles que connosco percorreram estes anos de alegrias e tristezas, de vitórias e derrotas. Muitos dos que quiseram acompanhar os nossos primeiros passos continuam connosco. A esses agradecemos duplamente: acreditaram, quando estávamos a iniciar a caminhada e mantêm-se connosco, depois

de tanta oferta ter surgido no mercado. E a oferta teve, em alguns casos, origem na CV&A. Daqui saíram a BAN, dirigida pelo Armandino Geraldes, e a ALL comunicação, dirigida pelo José Aguiar e pelo Luís Lemos. Dois filhos que orgulham qualquer um. Desta casa saíram membros de governo, presidentes e administradores de institutos e empresas públicas, membros de gabinetes governamentais, directores-gerais e administradores de empresas de grande dimensão. Em nenhum caso trabalhámos com qualquer deles enquanto estiveram em funções públicas. A ética não existe apenas para a exigirmos a terceiros. Devemos dar o exemplo. Tudo isto só foi possível de construir com a ajuda de alguns colegas que ainda connosco estão desde o princípio, com outros que se juntaram, mas, também, com uns quantos

A fundação em 2003...

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F R A N C I S C O D E M E N D I A , A D M I N I S T R A D O R , D AV I D S E R O M E N H O , V. P. E C E O B R A S I L E R I C A R D O S A L V O , A D M I N I S T R A D O R

que saíram. Em especial, entre aqueles que estão sempre presentes, com o David Seromenho, vice-presidente e nosso CEO Brasil há oito anos a que se juntou depois o nosso sócio Luiz Fernando Moraes, com o José Pedro Luís, nosso CEO Moçambique durante quatro anos e que agora regressou para assumir funções de gestão de topo na empresa, com o Ricardo Salvo e com o Francisco de Mendia que, juntamente com o David, são sócios de corpo e alma. Todos os outros, directores, managers ou consultores, dos mais novos aos mais experientes, dão o seu contributo diário para a CV&A de 2033. A todos agradeço. Mas em lugar de falar só de nós decidimos ocupar a maioria das páginas da Prémio com opiniões de gente que conta. Pedimos a algumas pessoas que sabemos terem uma visão de futuro para o país, independentemente da idade, do sector de actividade ou da forma como quiseram apresentar a sua “visão de futuro”, que nos

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dissessem como serão Portugal, a Europa e o Mundo em 2033, sob pontos de vista mais conceptuais, filosóficos, políticos, sectoriais…. Quero agradecer a todos e esperar que na próxima revista tenhamos o contributo daqueles que agora não puderam escrever. A Prémio terá, em 2019, mais números no mercado e, tal como na presente edição, uma versão ‘online’. Na versão em papel deste número de Dezembro alguns artigos serão em duas línguas distintas. Português e Chinês, Português e Espanhol, Português e Inglês, Português e Francês. As razões são fáceis de adivinhar. O conteúdo da revista é fácil de percorrer. Temos jornalistas a falar de jornalismo e media no futuro, temos jornalistas a fazer a história sucinta de 2003 a 2018, prestando, assim, uma homenagem que entendemos necessária à liberdade de imprensa e ao bom jornalismo. Num tempo tão complicado, num tempo em que simultaneamente vivemos afectos, invejas, delações premiadas,

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encobrimentos, falsas morais, momentos humanamente dignos, neste tempo impõe-se mais que nunca um jornalismo digno, objectivo, de causas. E é porque temos desse jornalismo que muito está a mudar para melhor. O outro, bem, o outro serve para alimentar os velhos do restelo e os parasitas de sempre que, nada tendo de positivo a dar à sociedade, se limitam a lançar rumores, espalhar calúnias e esfregar as mãos quando vêem quem trabalha e constrói ser apoucado. Apenas aprendem quando a verdade vem à tona. E vem sempre. Essa gente que os nossos escritores de muitos tempos sempre identificaram acaba não sendo gente. Mas existe. Uma minoria ruidosa e ruinosa para quem quer construir um país melhor. É bom que deixemos de lhes alimentar o ego, lendo-os ou replicando as falsidades que escrevem ou dizem. No sector de actividade em que trabalhamos as coisas não são sempre fáceis. O mercado, já de si diminuto, viu nascer novos actores

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S E M L I B E R DA D E N ÃO S E V I V E . S O B R E V I V E -S E , V E G E TA - S E . D E P O I S H Á O S G R A U S D E L I B E R D A D E O U , C O M O A LG U N S Q U I S E R A M I M P O R - N O S N O PA S S A D O , A S L I B E R D A D E S . Q U E S Ã O F O R M A S D E N O S P E R M I T I R T E R M E I AS V I DAS . A CO M U N I C AÇ ÃO LIVRE É UM GARANTE DE LIBERDADE. COMPREM J O R N A I S , S U B S C R E VA M O S S I T E S O N L I N E . A P I R ATA R I A É U M C R I M E . T O D O S O S S E R E S H U M A N O S T Ê M D I R E I T O A S A L Á R I O . O S J O R N A L I S TA S S Ã O , PA R A Q U E M N Ã O S A I B A , S E R E S H U M A N O S . N Ã O P O D E M O S E X I G I R O Q U E N ÃO DA M O S .

que tiveram necessidade de deitar mãos à vida aquando da crise que abalou o sector. Algumas empresas de mercado sentiram dificuldades – como a nossa, muito por força do entusiasmo com que abraçámos a economia pujante, pré-crise –, outras ainda as sentem e os clientes nem sempre valorizam os diferentes níveis de serviço, desejosos que estão de apresentar bons números aos accionistas. Lembro-me sempre da velha máxima, que se aplica na íntegra à relação consultor Cliente: se pensa que é caro ter trabalhadores qualificados experimente ter apenas trabalhadores “baratos”. O sector tem culpas claras na matéria. Ninguém se une, ninguém constrói para todos, estão todos preocupados com o fim do mês e atentos à desgraça alheia. Pois, deixá-los estar. É triste ver o orçamento de cada uma das associações de sector no estrangeiro e o daquela que representa os consultores em comunicação em Portugal. Nós, defendemos um sector forte e com bons ‘players’. O

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exemplo mais claro é o da tão falada “lei do Lóbi”. Em todos os países evoluídos o lóbi é uma actividade legal, desenvolvida por profissionais habilitados, com códigos de conduta rígidos e sanções duras aplicadas a quem prevarica. Em Portugal quem da lei do lóbi trata não tem noção de quem o pratica na Europa ou nos Estados Unidos, no Canadá ou na Austrália. E vão consultando empresas de publicidade e de design para saber o que opinam. E darão luz a uma lei tonta, ultrapassada, aplicável a dois tipos de agentes de mercado: os que chamam lóbi às chamadas telefónicas que fazem para os secretariados de instituições e figuras gradas levando os clientes a reuniões e cobrando por isso, deixando em aberto a regulação da actividade daqueles que, vindo do passado, não perceberam, ainda, que o tempo é de competência e transparência na acção. Tantos e tantos casos se poderiam elencar de maus serviços e prevaricações. Já melhoraremos a forma de agir e, consequentemente, os

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serviços a prestar. Preocupam-nos duas ou três situações nacionais e outras tantas no mundo. O caminho da Europa, com líderes cada vez menos carismáticos e sem referências, as ditaduras camufladas de democracia, sejam elas de inspiração religiosa ou populista, de direita ou de esquerda, que vão nascendo um pouco por todo o lado, as crises humanitárias, migratórias, em especial de crianças e as faltas de políticas dos estados de acolhimento, que defendam estes estados de ameaças comuns ao mundo de hoje mas que aproveitem o que de melhor há nesses seres humanos para, mesmo que egoisticamente, termos mão de obra em países cuja taxa de natalidade não promete um futuro risonho. As realidades estranhas que se vivem desde o EUA à Rússia, da Síria a Myanmar, da Venezuela ao Sudão do Sul – apenas para enumerar alguns países. Vivemos, durante estes anos, momentos excepcionais de comunicação política,

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desportiva, comercial, de marketing, institucional e financeira. Produzimos relatórios e contas, relatórios de sustentabilidade, revistas, livros, concebemos marcas, desenhámos campanhas de publicidade, comprámos espaço, enfim, percorremos o caminho todo da comunicação. Tivemos a sorte de viver na comunicação financeira momentos únicos. A OPA da SONAE sobre a PT, sob a batuta de Paulo Azevedo, coadjuvado por Luís Reis e António Lobo Xavier, a colaboração na EDP, quer no tempo de João Talone, quer no tempo de António Mexia, a luta pela CIMPOR, ao lado de Francisco Lacerda, quando outros queriam apenas vender, sabe-se lá com que propósitos finais, A Mota Engil e o saber de António Mota e Jorge Coelho e, mais tarde, o Gonçalo Moura Martins, a Visabeira, de Fernando Nunes, o BCP de Jorge Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal e Carlos Santos Ferreira, a CGD, com Vítor Martins, Carlos Santos Ferreira, Fernando Faria de Oliveira e Paulo Macedo, a Fidelidade, com Jorge Magalhães Correia e, depois, os accionistas da Fosun, que ficaram clientes, outra vez o Francisco Lacerda

e a privatização dos CTT, a privatização da REN, da TAP, da PT/Altice, do Novo Banco, com António Ramalho, umas vezes dos lados de quem ganhou outras daquele de quem perdeu, o início da Baía de Luanda, do Banco Privado Atlântico, do Millennium Angola, mais recentemente a primeira oferta inicial de venda em bolsa (IPO) de Moçambique, com a HCB a protagonizar, enfim, tantas que me esqueci de muitas e peço desculpa por não as recordar. No domínio das fusões e aquisições também estivemos presentes. O Barclays, o Popular e o Banif bem como o Bankinter são clientes que também nos orgulham e que vimos transformar-se e adaptar-se ao futuro. Na comunicação política, dentro e fora de portas sempre demos cartas. Tivemos desilusões, euforias, sofremos perdas financeiras em alguns casos mas de Cabo Verde à Guiné, do Brasil a Portugal muito contribuímos para campanhas elucidativas e limpas. Outros foram premiados por ter feito jogo sujo. Mas preferimos assim. Na comunicação desportiva fomos prendados. Do Benfica, de Luís Filipe Vieira, ao Sporting de Godinho Lopes, e ao Sporting de Braga, de António Salvador, da

UEFA (Euro 2004 e Liga dos Campeões) à FPF, uma honra assistir à passagem a um modelo de profissionalismo ímpar, liderado por Fernando Gomes e Tiago Craveiro, passando pelo Basquetebol e pelo Rugby, a paixão do Carlos Alberto Amado da Silva, e terminando no Comité Olímpico, brilhantemente dirigido por José Manuel Constantino, colaborámos, com orgulho, desde a fundação da empresa na promoção do desporto amador e profissional. A comunicação comercial e de marketing trouxe até nós inúmeras marcas e muitas alegrias vividas com a Central de Cervejas, de Alberto da Ponte e Nuno Pinto de Magalhães, a Lactogal, com José Passinhas, a Renova de Paulo Pereira da Silva, a Delta, cujo fundador, Rui Nabeiro, é um símbolo de empreendedorismo que tem descendência à altura, o Lidl, que nos mostrou a distribuição de uma forma moderna e europeia, a Corticeira Amorim, enfim…. Tudo isto para cumprir 15 anos no ano em que se comemora o centenário do fim da primeira Grande Guerra. E, tal como nesta, o fim da tormenta é um prenúncio de Paz e progresso. Vamos a isso! l

A confirmação em 2018... E o futuro...

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ANÁLISE

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REGRESSO A 2003. O QUE MUDOU EM 15 ANOS? P ORTUGAL E O MUND O VIVEM HOJE GR ANDES TEMP OS DE MUDANÇA, QUER EM TERMOS ECONÓMICOS E DE NEGÓCIOS, QUER EM TERMOS SOCIAIS E P O L Í T I C O S . M A S C O M O E R A O M U N D O H Á 1 5 A N O S ? R E C U Á M O S AT É 2 0 0 3 E F O M O S R E L E M B R A R O Q U E M A R C AVA , N A A LT U R A , A A G E N D A N A C I O N A L E MUNDIAL.

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BÁRBARA BARROSO

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mundo mudou muito nos últimos 15 anos. Passou-se a tratar o online por tu, com a transformação digital a ser uma realidade transversal a vários setores. Novos negócios e empresas surgiram, outros tantos desapareceram. Há uma década e meia estava-se longe de imaginar o peso que a China viria a representar a nível mundial, e que Portugal seria ponto de interesse de várias ‘startups’ internacionais. Olhando em retrospetiva, o que marcou 2003? O que aconteceu em Portugal, e no mundo, naquela época? Há 15 anos o cenário não era muito animador para a economia portuguesa, que encolheu nesse ano 1,2%. O desemprego ultrapassava 6,4% da população ativa, e Manuela Ferreira Leite, na altura ministra das finanças do Governo liderado por Durão Barroso em coligação com o CDS-PP, lutava ferozmente para manter o défice dentro do limite dos 3%. Lá fora, também as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia mundial não eram animadoras. O FMI apontava para um crescimento lento das três grandes potências mundiais (EUA, Alemanha e Japão) e temia a dependência das economias europeias destes três grandes pilares. Nesse mesmo ano, o mundo estremeceu quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, numa missão apelidada de “Operação Liberdade do Iraque”. O Governo norte-americano liderado por George Bush, e apoiado pelo Reino Unido, Austrália e Polónia, alegava que o presidente iraquiano Saddam Hussein

mantinha um arsenal de armas químicas que ameaçavam a paz mundial. A operação durou 21 dias e chegou a temer-se o início de um novo conflito. Não se provou a existência do arsenal bélico e Saddam Hussein acabaria por de ser capturado nesse mesmo ano, com a imagem do líder iraquiano com um aspeto sujo a correr mundo. No Brasil, Lula era a nova esperança do país e fazia história pelo Partido dos Trabalhadores (PT) ao ser o primeiro operário, sem diploma universitário a chegar à presidência. Já em Portugal, a sociedade assistia ao desenrolar do escândalo da Casa Pia que envolvia várias figuras públicas. Enquanto que, no mundo dos negócios, as compras e vendas marcavam o dia a dia das grandes empresas. Exemplo disso mesmo verificou-se logo no arranque do ano quando o empresário Américo Amorim se tornou num dos maiores acionistas do Banco Popular Espanhol com a troca de 75% do Banco Nacional de Crédito Imobiliário (BNC) por quase 5% do Popular. No negócio do papel, discutia-se a segunda e terceira fases de reprivatização da Gescartão e da Portucel, uma operação que ainda fez correr muita tinta e que foi acompanhada por Carlos Tavares, ministro da economia na época. Na aviação assistia-se à constituição da sociedade gestora de participações sociais TAP SGPS, que passou a encabeçar as duas novas participadas - Serviços Portugueses de Handling e a TAP-Manutenção e Engenharia –, além da TAP, SA. A reestruturação do sector energético também foi um dos eventos que acompanhou a maior parte do ano.

Enquanto que a EDP assumia a liderança do negócio da energia, apostando cada vez mais no desenvolvimento do gás natural em Espanha, através da Hidroeléctrica del Cantábrico, o Estado Português estabelecia um acordo com os italianos da ENI. Neste acordo, ficou determinado que a EDP, ENI e REN tomariam o negócio do gás natural da Galp por aquisição ou cisão. A EDP (51%) e a ENI (49%) passavam assim a ser os únicos titulares da Galp, já sem os ativos regulados. A ENI, por seu lado, saía da área do petróleo, através da venda à Parpública da sua participação remanescente à Galp. Em dezembro, a REN, financiada pela Caixa Geral de Depósitos (CGD), compra 18,3% da Galp, por 420 milhões de euros. Esta foi um dos negócios que preencheu várias páginas da imprensa especializada. Na vizinha Espanha, uma oferta pública de aquisição (OPA) marcava o setor energético. A Gas Natural, que tinha como principais acionistas o La Caixa e a Repsol, lançou uma OPA hostil sobre a Iberdrola, na época a segunda maior companhia do setor. O veto por parte da Comissão Nacional de Energia à compra viria a ditar a retirada da oferta. Nos mercados, o ouro subia, o petróleo negociava em queda – sobretudo pressionado pela situação no Iraque –, e arrastava consigo também as bolsas. Se olharmos para o principal índice bolsista português, em 2003, encontramos várias diferenças. Comparativamente à atualidade há 12 empresas que já não fazem parte do PSI 20: BES, Brisa, BPI, Cimpor, Teixeira Duarte, Impresa, Sonaecom, Cofina, Novabase, Glintt, SAG e Ibersol. Umas deixaram o índice, outras deixaram a bolsa, e outras desapareceram mesmo.

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ANÁLISE

Passados 15 anos Esta viagem no tempo traz-nos para 2018. Um ano em que o Fundo Monetário aponta para um crescimento económico mundial de 3,7%. O impacto da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, o abrandamento da economia europeia e a crise em vários países, como é o caso da Venezuela, que vive a pior crise socioeconómica de todos os tempos, são algumas das razões que justificam a revisão do crescimento mundial em baixa (estimativa inicial era de 3,9%). A incerteza ao redor do orçamento italiano pode, também, penalizar o crescimento económico mundial de 2018. A Comissão Europeia rejeitou por duas vezes, o projeto de orçamento italiano para o próximo ano, que prevê um défice de 2,4% do PIB, por considerar que com esta proposta o país arrisca-se a ficar preso à divida que é cerca de 131% do PIB, a segunda maior dívida da zona euro, de acordo com o Eurostat. Esta incerteza já está a penalizar as bolsas europeias. O mercado da dívida também está a sofrer consequências pelo receio dos investidores, com os juros italianos sob pressão. A nível nacional, as previsões do Banco de Portugal apontam para que se registe, este ano, um crescimento do PIB português de 2,3%. No panorama político-económico, 2018 inicia-se com o ministro das finanças, Mário Centeno, a assumir a presidência do EuroGrupo, com a Bitcoin a perder mais de metade do seu valor máximo e com a prisão do presidente Lula da Silva, por corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato. Em Portugal, a Unicre presidida por Luís Flores, desiste de vender o negócio do cartão Unibanco, o crédito ao consumo e a gestão de cartões. Enquanto que a Fosun, Sonangol e EDP apresentam uma lista conjunta para os órgãos sociais do BCP, onde Miguel Maya sobe a CEO deste banco,

e Nuno Amado fica como chairman. Marcam ainda a agenda do ano, a venda do Banif ao grupo chinês Bison Capital Financial Holdings, a proposta de venda da SIVA à distribuidora alemã Porsche Holding, que deve ficar concluída, ainda, no final deste ano. No entanto, um dos acontecimentos mais discutido nos meios de comunicação nacionais, foi a OPA lançada sobre a totalidade do capital da EDP, pelo grupo China Three Gorges (o maior acionista da elétrica), com uma contrapartida de 3,26 euros por cada ação. Este processo ainda está longe de estar concluído, primeiro porque a EDP considerou baixo o valor oferecido e, segundo, porque Pequim fez

alterações à gestão do grupo China Three Gorges, o que pode indicar incerteza sobre o futuro da OPA à EDP. Para que OPA avance, a CTG necessita da aprovação de reguladores de mais de 20 países. Os novos media Ficou concluída este ano a venda do portefólio de 12 revistas do grupo Impresa - Activa, Caras, Caras Decoração, Courrier Internacional, Exame, Exame Informática, Jornal de Letras, TeleNovelas, TV Mais, Visão, Visão História e Visão Júnior - à Trust in News (TiN) de Luís Delgado. A

venda da TVI à Altice chegou também a agitar um pouco o mercado, mas a operação acabou por não acontecer com a Prisa a deixar cair o negócio. Isto depois da Autoridade da Concorrência (regulador) ter rejeitado os compromissos apresentados pela Altice para a compra da Media Capital. Em 2018, já não há muito espaço para o analógico e, nos media, o papel deu lugar ao digital. Muitos dos jornais que existiam em 2003 acabaram por fechar as suas portas ao longo destes anos, como por exemplo, o Independente, o Semanário Económico, A Capital, o 24 horas, Diário Económico, Primeiro de Janeiro, Comércio do Porto. Surgiram órgãos de comunicação plenamente digitais mais recentemente, como é o caso do Observador e do Jornal ECO, e mesmo o centenário Diário de Notícias abandonou a edição em papel diária para se focar no digital, saindo agora apenas uma vez por semana, tal como o Jornal Económico, um órgão de comunicação que nasceu a partir do OJE. Estes mais recentes juntaram-se ao Dinheiro Vivo, ao Jornal i e até à CMTV, três órgãos de comunicação que embora já tenham uma presença instalada, não existiam em 2003. Apesar de vários meios de comunicação terem desaparecido, 15 anos depois a taxa de alfabetização aumentou, há mais utilizadores de internet e Lisboa anda nas “bocas do mundo”, depois da World Travel Awards ter eleito a capital portuguesa como a melhor cidade destino da europa. Além disso, Portugal já ganhou estatuto de ‘hub’ preferencial para startups, e Lisboa vai ser a morada da Web Summit pelo menos durante mais 10 anos. Sabendo que o crescimento da inovação tem sido exponencial, será que daqui a 15 anos já será um robot a escrever este texto? Só o saberemos na edição de 2033. Até lá resta-nos acompanhar as mudanças no dia a dia. l (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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DIOGO QUEIROZ DE ANDRADE, JORNALISTA

DAVID DINIS, JORNALISTA

COMUNICAÇÃO SOCIAL 2033: o jornalismo que sobreviver Lembra-se como era em 2003? Ainda líamos o “O Independente”, o “Diário Económico”, “A Capital”, o “Comércio do Porto”, todos em papel. Os sites de informação eram poucos e pobres, pelo que se abriram ao “almoço grátis”. As redes sociais ainda não existiam e nós recorríamos ao “Messenger” para agilizar o contacto. As televisões e rádios tinham o dobro dos jornalistas. A crise ainda só nos começava a bater à porta, num aviso de que o país estava de tanga e numa réplica de que o défice não fazia um orçamento. Em 15 anos tudo mudou tanto que os jornalistas já só sabem falar de uma crise. Mas, olhando objectivamente, não foram só anos de perda. Houve também jornais que nasceram, ‘online’, e conseguiram lugar entre os leitores; as redes sociais trouxeram leitores, embora também dissabores; a tecnologia permitiu um acesso à informação que aumentou a nossa capacidade de acrescentar, escrutinar, desafiar. O pior é, porém, ver como o jornalismo de referência, com todas as transformações do mundo, se tornou num dos principais alvos de ataque dos críticos do sistema democrático, vulnerável aos poderes

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menos desejáveis. No meio deste furacão que transformou o mundo e transformou os media, perspectivar como vamos estar em 2033 é como adivinhar como estará a América depois de Donald Trump: é impossível ter certezas, mas… talvez dê para ter uma ideia. Vamos a isso? As más notícias É que não vão ser anos fáceis para a imprensa livre - ou para os media livres. Não vai ser fácil porque, como tudo indica, os próximos 15 anos vão ser um prolongamento natural do melhor e pior que tivemos nos últimos 15 (vá, nos últimos 10): acelerado progresso tecnológico, mudança nos hábitos de consumo, renovação profunda no modo como se faz jornalismo. Convém, portanto, deixar de lado as utopias e deixar-lhe o nosso pressuposto: a economia e sociedade continuarão a ser construídas com base em informação aberta, mas a escassez de recursos vai continuar a ser uma realidade. Dito de outra forma: os media não vão descobrir a poção para a rentabilidade segura e vão continuar a viver uma prolongada crise de produção. Não sendo uma utopia, a verdade é que

também não vai ser um cataclismo. Vão ser anos difíceis para fazer jornalismo, mas vão ser anos bem interessantes para o seguir. Porque o único caminho da salvação é fazê-lo cada vez melhor, aproveitando o que de bom a tecnologia tem para nos dar. Ainda vamos ter papel? Foi a pergunta para um milhão de dólares dos últimos 15 anos. E nos próximos 15? Em Maio deste ano, o jornal La Stampa fez 150 anos e juntou num palco os principais accionistas e directores dos maiores jornais do planeta. Mas foi preciso chegar a vez de Jeff Bezos, o gigante da tecnologia que a meio desta última década comprou um dos maiores jornais em papel do mundo, para chegarmos a uma resposta convincente: “Se há 10 anos nos perguntassem isso, todos diríamos que não. Hoje já ninguém tem a certeza”. Não tenha dúvida, porém, sobre a tendência que vai continuar: os jornais em papel vão, na melhor das hipóteses, tornar-se uma raridade (sobrarão poucos nos países maiores, talvez um ou dois nos mercados mais pequenos); já quanto aos media digitais, prepare-se para o milagre


da multiplicação. Vão ser mais do que muitos, porque é barato fazê-los assim, porque a mensagem se espalha com mais facilidade. Mas como muitos significa acrescentar confusão a um mundo já com informação a mais, conte que os novos optem por um caminho de diferenciação: especialização em temas específicos, de nicho, assumindo em muitos casos a sua missão como uma causa. Os temas de Ambiente e a luta contra as alterações climáticas são, provavelmente, o exemplo mais claro do que aí vem. Mas é precisamente o excesso de informação - no meio digital, nas redes sociais, nas plataformas que aí vêm - que vai garantir um espaço para os chamados “meios generalistas”. Se o mercado tem horror ao vazio, ele dará sempre lugar aos meios que ofereçam um olhar global sobre a actualidade, mas também mais credibilidade à informação. Mas atenção, porque não vão sobreviver todos, nem haverá muitas cadeiras para os novos. A fila dos ‘mainstream media’ terá sempre menos leitores, porque as mudanças tecnológicas vão generalizar a produção de notícias. Pelo que os obrigará a recentrar o seu papel (já lá vamos) e, sobretudo, a preservar muito melhor o valor das suas marcas. O factor determinante para a sobrevivência

será o da qualidade: no trabalho diário, no rigor, na transparência. Nos 15 anos que se seguem, os leitores antigos e as novas elites vão ser muito exigentes com o rigor da informação que lêem, vão exigir muito ‘fact-check’, vão ser pouco tolerantes à utilização de fontes em ‘off’ - a não ser quando isso tenha um valor real -, assim como à falta de transparência ou de humildade na relação com o leitor. Se o mundo vai estar mais complicado daqui a 15 anos, os leitores só vão querer ler os “velhos” jornais - seja ‘online’ ou em papel - se estes lhes facilitarem a leitura do mundo. Caso contrário, não faltarão “novos media” que farão sempre os mínimos. E esta é outra oportunidade para os meios de referência, que devem reforçar o seu papel de explicadores do mundo e de curadores do que é importante saber. Mas isso implica ganhar novas competências nas redacções, porque um mundo mais tecnológico e científico precisa de novas especializações. Voltemos, então, à pergunta para um milhão de dólares: jornal em papel para quê? Para satisfazer quem precisa do tacto; para organizar a informação de um dia por ordem de importância; mas sobretudo para obrigar os jornalistas a pensar duas, três, quatro vezes para

terem maior certeza sobre o que vão escrever, para garantir que vão acrescentar informação realmente importante e útil, para assegurar que não vão desistir da história no dia seguinte. Hoje, o jornal em papel ainda serve para isto. Daqui a 15 anos pode não ser preciso, se o melhor jornalismo souber passar essa seriedade do papel para o ‘online’. Conseguirá? A revolução é tecnológica (e assim é boa) Vale a pena manter o optimismo, porque a revolução tecnológica está só a meio caminho - e ela traz instrumentos para ajudar o melhor jornalismo. A boa notícia que está no horizonte é que a Inteligência Artificial (IA) está a caminho e vai ajudar muito mais do que imaginamos. Sim, a verdade é que vamos ter máquinas a escrever notícias. Segundo perspectiva o Wall Street Journal, talvez 90% das notícias. Na verdade já fazem algumas, até mesmo em meios de referência: no Financial Times e na Associated Press, só para citar dois exemplos, são programas de computador que fazem versões preliminares de notícias sobre a evolução das bolsas ou sobre a apresentação de resultados de empresas cotadas. Parece assustador? Depende sempre da perspectiva. Para nós, nos media, pode ser uma oportunidade imperdível,

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porque pode permitir aos jornalistas concentrarem o seu esforço naquilo em que podem realmente acrescentar valor. Se quiser, o principal efeito da IA é que a chamadas ‘breaking news’ passarão a ser feitas automaticamente. Para o leitor, nada se perde: hoje as notícias rápidas são iguais em todos os órgãos, fazem grande parte dos conteúdos que é obrigatório publicar em cada dia. São, portanto, uma necessidade e uma perda de tempo – e não é nelas que o jornalismo de qualidade se deve focar. Se as máquinas as escreverem, daqui a 15 anos teremos os jornalistas a fazer o que mais gostam (e que supostamente melhor sabem fazer): acrescentar contexto; fazer a curadoria e a edição da informação; torná-las mais dirigidas ao seu leitor (portanto, mais úteis); ser claro nas dúvidas e não temer as perguntas; exigir respostas e escrutinar os poderes. Hoje, por efeito da crise económica, são já poucos os jornais que têm meios para fazer isto em cada tema, em cada sector, em cada secção. Se a tecnologia libertar as redacções, só teremos de estar gratos. Tudo isto tem outra enorme vantagem para os jornalistas: se já não vão ter que fazer o básico e vão ser “obrigados” a acrescentar valor, muitos vão ser empurrados para uma especialização, para uma formação em vida que faz cada vez mais falta à profissão que abraçaram, à missão que desempenham.

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No mundo de amanhã, lembre-se, não vamos ter apenas computadores inteligentes. Vamos ter muitos, muitos mais dados à nossa disposição. Tantos e tão mais acessíveis que vão permitir cruzar informação automaticamente (de discursos, documentos, etc.) e deixar ao jornalista o papel mais desafiante: terá de ser capaz de cruzar informação e perceber a complexidade dos fenómenos. É aí que se vai fazer a diferença: maior foco na explicação e menos no que é novo. Muito mais concentrados em fazer ‘fack-checking’ permanente (por exemplo, aos discursos dos políticos) e menos em descrever os seus discursos. Muito mais aptos a dar profundidade à informação local, servindo o leitor e a comunidade onde este se insere. Muito mais ágeis a desmontar as notícias falsas, até porque estas se vão multiplicar e precisam de ser denunciadas. Muito mais imprescindível, portanto, no nosso quotidiano. Claro que as redacções vão ter de mudar, porque vão ter que incluir muitos mais especialistas que saibam tratar os dados e melhorar a experiência de utilização. Mas também vão ter que acentuar a sua marca de sempre, que é procurar relevância na afirmação dos valores cruciais da verdade, do escrutínio, da confrontação e exigência perante os actores - sejam eles políticos ou líderes de qualquer tipo, em qualquer sector. Tudo isto vai trazer consequências laterais, como a maior colaboração entre

meios internacionais, porque os temas serão cada vez mais transnacionais e porque esse é o caminho certo para dar valor à informação localizada e de acrescentar especialização e diferenciação ao jornalismo de amanhã. A ameaça e a oportunidade do jornalismo Hoje vivem-se tempos de demagogia e populismo em que a democracia está sob ameaça. São também tempos em que a desintermediação é uma realidade: o discurso passa sem filtro entre líderes e seguidores e isso tem consequências perigosas quando a mensagem é falsa – por tudo isto, são muitos os interessados em denegrir a imagem do jornalismo e conquistar um espaço público livre de escrutínio. Estas tendências vão reforçar-se nos próximos anos. E todas elas são ameaças ao jornalismo e ao seu papel na sociedade. Mas são também a confirmação da sua absoluta necessidade. O que estes últimos anos mostraram é que quando o jornalismo perdeu, falharam as instituições: nos EUA, em Inglaterra, na Polónia, na Hungria. Este diagnóstico exige a reconversão que já hoje é uma realidade mas que se vai reforçar nos próximos anos: vai haver uma tendência para o jornalismo de causas que reforce a identidade e o sentido de grupo nos leitores, mas vai também existir quem pugne pela objetividade acima da ideologia.


Mas o que vai mudar mais é a nossa relação com o digital: a fronteira vai esbater-se e tudo o que é virtual vai entrar no quotidiano de forma direta. A realidade que se vai impor daqui a década e meia será tão diferente do que temos hoje como foi a vida antes e depois da internet. Resumindo: a ubiquidade da informação digital vai estar à nossa volta e o mecanismo de interacção já não vai estar no bolso, mas sim na cara e no corpo. Vamos ter acesso em tempo real a camadas de informação e isso vai aumentar a realidade e transformar como a vivemos. Também isto vai exigir uma adaptação por parte dos média, que terão um longo caminho para percorrer. Profissionalizar a gestão Não há um modelo de negócio único que salve o jornalismo. Se é claro que o caminho é a qualidade, há formas diferentes de subsistência em função do mercado, dos leitores, da especialização e da capacidade dos média se reinventarem. Uma tendência já é, no entanto, clara: a publicidade está a morrer como forma de sustentação do jornalismo. Os média já não são o espaço publicitário por excelência e o preço do ‘display’ está a cair a pique, tornando insustentável qualquer plano de negócios que aposte de forma relevante nesta receita. Isto pode até ser uma boa notícia, porque vai melhorar de forma consistente a experiência

do utilizador e contribuir para uma clarificação mesmo a nível comercial. Existirão marcas socialmente responsáveis que continuarão a investir no jornalismo, mas não através do ‘display’. E o jornalismo terá de diversificar as fontes de receita, recolhendo parte do seu rendimento junto dos leitores que o escolhem. Sim, o jornalismo terá um custo que será diretamente suportado pelos leitores. E isto coloca uma outra questão, que é a absoluta necessidade da manutenção de um serviço público de informação de qualidade – para que o acesso à informação não seja um privilégio que exclui quem tem menos rendimentos. Provavelmente, nos próximos anos iremos também assistir de novo a uma concentração de meios. Mas a revolução que está por fazer é na gestão: em grande medida, esta continua a ser feita pela geração que se habituou ao modelo do papel e que não entende o digital – muito menos um digital como o que aí vem. Esta profissionalização da gestão terá de acontecer depressa, sob pena de pôr em causa mais uma vez a recuperação dos meios de comunicação social, que terão de se habituar ao novo paradigma. E é muito possível que, de uma forma ou de outra, o Estado também tenha aqui um papel, até porque o espectro da regulação chegou finalmente ao panorama digital. Mas tudo isto são detalhes a que a indústria se irá adaptar. O essencial não

está na tecnologia nem na regulação nem na origem das receitas. O essencial está na relevância. Os meios têm de ser relevantes para a comunidade em que se inserem e têm de ser úteis aos seus leitores – o que implica entender, sem cedências e de uma vez por todas, que o jornalismo é um serviço e não um produto. Esse serviço renova-se todos os dias e expressa-se através dos valores fundadores da profissão. É irrelevante que eles se expressem através de um vídeo, de um evento, de um ‘podcast’ ou de uma ‘app’ de realidade aumentada. Compete-nos a nós, profissionais da informação, ter a capacidade de adaptar o que sabemos fazer ao formato com que o leitor quer receber e consumir o nosso serviço. Assim, reconhecer o leitor e as suas necessidades é essencial para o futuro do jornalismo. É importante escutá-lo, entendê-lo e perceber que ele não é um número numa estatística de visitantes que só serve para medir ‘pageviews’ e ‘banners’ publicitários que rendem tostões. Um leitor é um ser humano com necessidades e interesses específicos, que se insere numa comunidade que tem valores. Daqui a quinze anos, este será o jornalismo que sobreviverá: o que souber adaptar-se, mantendo sólidos os seus princípios, servindo sempre as necessidades da sua comunidade. Vai ser melhor? Esperamos obviamente que sim. A nossa missão é ajudar a que assim seja. l 17


FALA QUEM SABE... N O I N Í C I O D O P R O J E C T O D E R E V I S TA D E A N I V E R S Á R I O C O N C E B E M O S A R E V I S TA Q U E A G O R A S E P U B L I C A P E N S A N D O T E R C O M O T R O N C O P R I N C I PA L U M C O N J U N T O D E P R E V I S Õ E S S O B R E O F U T U R O . PA S S A D O S Q U I N Z E A N O S S O B R E A N O S S A F U N D A Ç Ã O D E C I D I M O S T R A Z E R A O L E I T O R O M U N D O , C O M P O R T U G A L E A E U R O PA I N C L U Í D O S , CLARO, EM 2033. D O CONCEITO AO MACRO CONCRETO C O N V I D Á M O S PA U L O P E R E I R A D A S I L VA , F R A N C I S C O S E I X A S D A C O S TA , C A R L O S M O E D A S , C A R L O S M O N J A R D I N O E Z A N D R E C A M P O S PA R A N O S FA L A R E M D O T E M P O F U T U R O E D A S S U A S I M P L I C A Ç Õ E S E M P O R T U G A L , N A E U R O PA D A U N I Ã O , N A S REL AÇÕES COM A CHINA E COM ANGOL A. SECTORES QUE MOVEM O MUNDO NOVO D E S A F I Á M O S A N T Ó N I O M E X I A , A N T Ó N I O M O TA E A N T Ó N I O S A R A I VA PA R A N O S FA L A R E M D O S S E C T O R E S Q U E L I D E R A M E M P O R T U G A L , P E D R O P E R E I R A FA L O U - N O S D O FUTURO DA BANCA, JORGE MAGALHÃES CORREIA MOSTROU-NOS OS SEGUROS D O FUTURO, FERNANDO GOMES MOSTROU-NOS O CAMINHO DO TEMPO NO DESPORTO R E I , B E R N A R D O T R I N D A D E D Á - N O S U M A S U R P R E E N D E N T E E A LT R U Í S TA V I S Ã O D O T U R I S M O , A O PA R T I L H A R O S E U A R T I G O C O M C O N C O R R E N T E S , A N T Ó N I O R I O S A M O R I M FA L A D E U M A D A S M A R C A S D E P O R T U G A L , A C O R T I Ç A , P E D R O M O TA S O R E S M O S T R A -NOS OS SEUS CAMINHOS DE FUTURO QUE FERNAND O NEVES DE ALMEIDA PERFIL A PA R A O S R E C U R S O S H U M A N O S E D A N I E L S Á M O S T R A O C A M I N H O D A E D U C A Ç Ã O N U M PA Í S C O M A N ATA L I D A D E A C A I R . R E A L I D A D E S V I R T U A I S O U V I R T U A L I D A D E S PA L PÁV E I S ? D U A R T E C O R D E I R O , M E L H O R Q U E N I N G U É M , I N A U G U R A A S PÁ G I N A S D E F U T U R O PA L PÁV E L , M E N O S F I L O S Ó F I C O . U M A C I D A D E I N T E L I G E N T E À Q U A L S U C E D E A Q U A R TA R E V O L U Ç Ã O I N D U S T R I A L , D E P E D R O D U A R T E , E O F U T U R O O F I C I A L D E J O Ã O VA S C O N C E L O S , O S E N H O R S TA R T U P O U O S E N H O R W E B S U M M I T D E P O R T U G A L . ESPEREMOS QUE GOSTE.

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PORTUGAL A EUROPA E O MUNDO

EM 2033

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A EUROPA DAQUI A 15 ANOS

CARLOS MOEDAS, COMISSÁRIO EUROPEU PARA A INVESTIGAÇÃO, CIÊNCIA E INOVAÇÃO

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P

edir a um político para prever o futuro já é uma tarefa ingrata. Mais difícil ainda quando se trata do futuro da União Europeia (UE), se virmos o momento crítico que atravessa. A verdade é que poucos teriam apostado na continuação da Grécia na moeda única e muito menos teriam antecipado que o Reino Unido estaria de saída do projeto europeu. Mas este desafio de prever o futuro da UE tem a virtude de obrigar-nos a pensar e perspectivar o que queremos para o futuro, o nosso futuro comum. É particularmente oportuno fazermos esta reflexão nesta altura, porque em breve as eleições europeias de Maio de 2019 darão origem a um novo ciclo político que condicionará inevitavelmente o futuro. Antes de dar o salto para o futuro, é necessário olhar para o percurso da UE até hoje. Apesar de todas as crises passadas e presentes, a UE continua a ser o fenómeno político mais significativo e duradouro do pós-guerra. Tem assegurado paz a milhões de Europeus, tem sido porto de abrigo para muitos não Europeus, e continua hoje a ser um centro de valores e direitos fundamentais. Com este pano de fundo político, o projeto europeu trouxe ao continente europeu desenvolvimento, prosperidade, crescimento e um nível de bem-estar social elevado sem igual a nível mundial. É muito comum desprezarmos os sucessos da UE ou considerá-los como um dado adquirido. Hans Rosling retratou isso no seu livro “Factfullness” onde descreve a tendência natural e instintiva da Humanidade para o dramatismo. É irónico constatar que é de fora da União Europeia que nos apercebemos nitidamente das suas vantagens. A União Europeia enfrenta desafios tremendos, internos e externos e em simultâneo. Internamente, a saída da crise económica e financeira, os ataques terroristas e o Brexit. Externamente, a gestão de um fluxo de refugiados e de efeitos de alterações climáticas. Todos estes desafios fazem-nos temer pelo nosso bem-estar e pela estabilidade das nossas sociedades europeias. Todos estes desafios alimentam a narrativa de medo em que assenta os partidos extremistas e populistas, de direita e de esquerda, que enfraquecem o projeto Europeu. No entanto, a opor a essa percepção, a realidade é que nunca a União Europeia cresceu tanto economicamente e com níveis de desemprego tão baixos, como já não se verificavam há décadas. O mundo está a mudar, e com ele a posição da Europa no mundo. No futuro, o continente europeu vai ter menos população e vai ver a sua grande riqueza diluída a nível global. As projecções demográficas

para 2060 apontam para que a população da União Europeia constitua cerca de 4% da população mundial, contra quase 7% hoje. E será provavelmente a população mais idosa do mundo. Estima-se que em 2030 a Europa represente 20% do PIB mundial, contra 22% hoje e 26% em 2004. Isto revela grandes desafios para as nossas sociedades. No entanto, sabemos que vivemos hoje uma revolução digital que vai mudar a natureza da nossa economia, e que representa uma possível solução para mitigar os problemas demográficos, políticos, económicos e sociais. Já se começou a ver a integração do digital em muitos aspetos da nossa vida, como na saúde, educação, agricultura, serviços financeiros, e até na governação e na administração pública. Isto mostra a fusão entre o mundo físico e o mundo digital. Mas os efeitos tangíveis da inovação digital estão ainda numa fase inicial, com um grande potencial ainda por vir. Para mim, entendo que a tecnologia é a maior força transformadora do mundo, e consequentemente do projeto europeu, quando surtir efeitos em todos os sectores das nossas sociedades. A revolução digital nos próximos 15 anos vai requer adaptações da nossa parte pois vai alterar o nosso quotidiano. Certas profissões vão desaparecer e outras surgir, sendo importante preparar as pessoas para novos empregos. O Fórum Económico Mundial estima que 60% dos alunos que entram hoje no ensino primário exercerão profissões que ainda não existem. Apesar da rivalidade dos dois gigantes globais, os Estados Unidos e a China, e de outras potencias a emergir, acredito que a Europa está bem preparada do ponto de vista da ciência e do conhecimento para tirar partido das vantagens das novas tecnologias. Desenvolvimentos como o “blockchain” e a inteligência artificial representam o futuro, um futuro em que a Europa tem todas as condições para estar na linha da frente. A Europa deve intensificar a sua capacidade de transformar esses conhecimentos em novos produtos, novos serviços e novos mercados. No entanto, nesta corrida ao futuro, é fundamental a União Europeia honrar os valores da igualdade, da não discriminação, da inclusão, da dignidade humana, da liberdade e da democracia. Isto revê-se, por exemplo, no Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, que dá aos cidadãos europeus um maior controlo sobre os seus dados pessoais. O caminho certo, então, é usar a nossa cultura, os nossos valores, o que nos tem dado preponderância até agora para construir o futuro que queremos, como alternativa vincada aos nossos concorrentes globais. Estou optimista em relação ao futuro da Europa e ao papel central que a inovação e a tecnologia vão ter neste futuro. Acredito num futuro aberto para a Europa, uma Europa que se mantenha fiel aos seus valores para que continue a servir interesses comuns dos seus cidadãos, e ao mesmo tempo investir na inovação científica e tecnológica para que se mantenha competitiva a nível global. l

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EUROPE IN THE NEXT 15 YEARS

CARLOS MOEDAS, EUROPEAN COMMISSIONER FOR RESEARCH, INNOVATION AND SCIENCE

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A

sking a politician to predict the future is not an easy task. And it becomes even more difficult when the issue is the future of European Union (EU), considering the critical period we are going through. The truth is that few would have believed that Greece would remain in the single currency and fewer would have anticipated that the United Kingdom would be leaving the European project. But such challenge of foreseeing the future of the EU has the advantage of forcing us to think and to put into perspective what we want for the future, our common future. Now is the time to engage in this kind of reflection, considering that the European elections of May 2019 will lead to a new political cycle that will inevitably affect the future. Before leaping into the future we need to look back at the path followed by the EU to this day. Despite past and present crises the EU remains the most significant and enduring political phenomenon of the post-war period. It has secured peace for millions of Europeans, it has been a haven for many non-Europeans, and continues to be a center of fundamental values and rights. With this political backdrop, the European project has brought development, prosperity, growth and an unequaled high level of social welfare to the European continent. It is very common to dismiss the successes of the EU or to take them for granted. Hans Rosling portrayed this in his book “Factfullness” where he describes the natural and instinctive tendency of Humanity for drama. It is ironic when we realise that such adavnatages are more clearly acknowledged from outside the European Union. The European Union faces tremendous challenges, both internal and external. Internally, overcoming the economic and financial crisis, terrorist attacks and Brexit. Externally, managing the flow of refugees and the effects of climate change. All these challenges make us fear for our well-being and for the stability of our European societies. All these challenges fuel the narrative of fear adopted by the extremist and populist parties right and left that weakens the European project. However, and countering this perception, it is a fact that the European Union has never grown so much economically and enjoyed such low levels of unemployment, unprecedent when compared to the previous decades.

The world is changing, and with it Europe’s position in the world. In the future, the European continent will have less population and will see its wealth diluted globally. Demographic projections for 2060 hint at the fact that the population of the European Union will make up about 4% of the world’s population, against almost 7% today. It will probably become the most aged population in the world. It is estimated that by 2030 Europe will account for 20% of the world’s GDP, compared with 22% today and 26% in 2004. This presents major challenges for our societies. We are experiencing a digital revolution that will change the nature of our economy and represents a possible solution to mitigate demographic, political, economic and social problems. Digital integration is already there in many aspects of our lives from healthcare to education, agriculture, financial services, and even in governance and public administration. This is a clear sign of the merger between the physical world and the digital world. But the tangible effects of digital innovation are still at an early stage, with great potential to come. I believe technology is the greatest transforming force in the world, and therefore of the European project, when it becomes effective in all sectors of our societies. The digital revolution in the next 15 years will require adaptations on our part as it will change our daily lives. Certain professions will disappear and others will emerge and it is important to prepare people for new jobs. The World Economic Forum estimates that 60% of students starting primary school today will have professions that do not exist yet. Despite the rivalry between the two global giants, the United States and China, and between other emerging powers, I believe that Europe is well prepared in terms of science and knowledge to take full advantage of new technologies. Developments such as blockchain and artificial intelligence represent the future, a future where Europe has all it takes to be at the forefront. Europe must increase its ability to transform such knowledge into new products, new services and new markets. However, in this race for the future, it is vital for the European Union to honor the values of equality, non-discrimination, inclusion, human dignity, freedom and democracy. This is reflected, for example, in the General Regulation on Data Protection granting European citizens greater control over their personal data. The right path is therefore to use our culture, our values which gave us preponderance so far to build the future we want and to become a clear alternative to our global competitors. I am optimistic about the future of Europe and the central role that innovation and technology will play in this future. I believe in an open future for Europe, a Europe that stays true to its values so that it may continue to serve the common interests of its citizens while investing at the same time in scientific and technological innovation to remain competitive globally. l

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ORDEM DO TEMPO

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PAULO PEREIR A DA SILVA, CEO DA RENOVA

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Futuro das Ciências” é o título de um velho livro que comprei a um alfarrabista numa rua de Lausanne no final dos anos setenta. O jovem físico aprendiz que naquele tempo me habitava fez então o “voto” de nunca cair em elucubrações sobre o futuro, pois os ilustres académicos que escreveram o dito livro, sem surpresa, não acertaram uma única previsão. A amizade e grande estima pelo António Cunha Vaz faz-me quebrar aqui este voto juvenil e escrever estas linhas. O amigo e, espero benevolente leitor, não vai encontrar nas minhas palavras nenhum prognóstico sobre tecnologia, automação, robótica, energia, ‘data science’, computação quântica, nem sobre demografia, mobilidade, ética, moral, democracia, governação, embora esteja seguro que todos eles, entre muitos outros, vão evoluir e ter uma enorme influência nos próximos tempos. Quero somente a benevolência do leitor pelas ideias que aqui partilho, consciente de não ter sobre elas a profundidade necessária. Se falamos de futuro e de passado estamos a lidar com essa grande e difícil questão que é o “tempo”. Noção ligada essencialmente a acontecimentos e relações entre eles. À nossa

dimensão, humana, temos a consciência de um “sentido” para o tempo, provavelmente mais correcto se substituído por “ordem”: “Ordem do tempo”. Todo o conhecimento sobre “tempo”, que na opinião de alguns cientistas não é mais do que uma “ignorância”, poderá ter uma evolução com consequências no avanço da ciência. E é sobre esse avanço que tenho a esperança de que algum importante ‘break-through’ possa acontecer. Nos últimos anos não têm existido avanços teóricos de grande relevância como existiram no princípio do Séc. XX e que permitiram um mundo com o conhecemos hoje. A Física Teórica tem estado “perdida” numa matemática maravilhosamente complexa, mas sem conseguir os resultados que todos gostaríamos. Um avanço grande no conhecimento poderá trazer uma realidade não imaginada ainda. Chego assim ao cerne do que queria partilhar com o leitor amigo: a minha visão do futuro, a minha esperança, o meu desejo é o de que aconteça algo muito diferente daquilo que imaginamos. Se uma ideia gostaria de deixar aqui será a de “indeterminação”. Simplesmente não sei, não posso mesmo saber! Espero um futuro que surpreenda e que seja diferente da evolução a curto prazo que eventualmente vislumbro hoje. E essa surpresa poderá vir da alteração de uma posição actual demasiado antropocêntrica. Se no passado descobrimos que a terra não é o centro do universo, nem o sol, por vezes parece-me que actualmente nesse centro colocamos o “humano”. A devastação do nosso pequeno mas belo planeta, faz-nos pensar na necessidade de destronar os humanos, substituindo-os pela “criação”, naquela perspectiva porventura “bíblica” de domínio no sentido do “cuidar” da natureza. Vislumbro, assim, um “pós antropocentrismo”. Evolução de alguma forma também ligada a uma abolição da fronteira entre o humano e o não humano. Noutras palavras acho que a fronteira entre o corpo humano e a “tecnologia” se vai esbater e, porque não, eventualmente desaparecer. Podemos até sonhar, com a total desmaterialização do corpo humano construindo um novo “ser” que seria, imagine o leitor amigo, eterno! l

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FRANCISCO SEIXAS DA COSTA, EMBAIXADOR

O LUGAR DE PORTUGAL

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F

oi Harold Macmillan, primeiro-ministro britânico, quem, um dia, perguntado sobre o que mais temia em política, respondeu: “Events, dear boy, events!”. O futuro tem sempre mais imaginação do que os homens. A vida ensina-nos que acontecimentos que venham a surgir, de cujo desencadear não somos necessariamente o sujeito, sobrepõem-se à mais bem desenhada estratégia. Isto é válido tanto para a existência das pessoas como para a dos países. Como será Portugal daqui a quinze anos? Responder à questão de saber onde e como estaremos então, na Europa e no mundo, implica ter de assumir que essa Europa e esse mundo irão, entretanto, mudar, queiramos ou não, eventualmente em sentidos inesperados. A nós, resta-nos ter a capacidade para procurar preservar, no quadro dessa mudança, em que só limitadamente podemos influir, aquilo que consigamos projetar como sendo os nossos legítimos interesses - os essenciais, de cuidar de um Estado com quase 900 anos, e os conjunturais, os de uma sociedade por cujo bem-estar, no presente, as gerações atuais são responsáveis. É uma ironia pensar que, num mundo cada vez mais interdependente, acaba por ser na redução das dependências e no reforço dos fatores autónomos de decisão que reside, afinal, a nossa reserva de força para enfrentar os riscos do futuro. É verdade, mas não só. Somos também responsáveis pela contribuição que pudermos dar, enquanto país, para tornar mais funcionais as instituições e o corpo de princípios e de entendimentos que estruturam a sociedade internacional, nos quais repousa a esperança de um futuro de diálogo e de bem-estar, bases indispensáveis para a paz e segurança globais. Quanto mais esse quadro estiver estabilizado, com maior facilidade conseguiremos nele preservar os nossos interesses. Devemos ser assim, simultaneamente, ambiciosos e realistas. Comecemos pelo realismo. Sei que não será simpático ler a verdade que vem a seguir: nada indica que, daqui a quinze anos, Portugal

deixe de ser o país mais pobre da Europa ocidental, que há muito é. O nosso atraso relativo, em matéria de riqueza e competitividade, não conseguirá ser colmatado nesse período. Mas um país antigo como o nosso é um corredor de fundo e, se olharmos para o fantástico salto - em desenvolvimento, bem-estar e mentalidades – que o país conseguiu dar nas últimas décadas, facilmente concluiremos que permanece na nossa mão a possibilidade de acelerar a qualidade do nosso futuro. Devemos ter a ambição e a coragem de fazer o básico trabalho de casa: tentar atenuar o peso constrangente do endividamento e assumir uma postura sensata no equilíbrio da despesa pública, na consciência de que o tempo europeu das “vacas gordas”, que nos facultava meios que não decorriam da criação de riqueza própria, está a acabar. Seria importante conseguir consensualizar internamente algumas prioridades nas principais políticas públicas, estabilizando as que, mais imediatamente, possam contribuir para a qualificação do capital humano e para a criação de condições, legislativas e não só, para potenciar a produção sustentável de riqueza. Mas, de igual forma, impõe-se também melhorar as que, em primeira linha, protegem os setores sociais mais vulneráveis, evitando o degradar da esperança, o potenciar da perceção de inseguranças e, daí, as derivas para o desespero político. No plano externo, há uma prioridade óbvia: reduzir drasticamente a nossa dependência energética, aliás já inserida num processo de transição, para o qual têm vindo a ser dados passos importantes, consentâneos com um quadro responsável de prioridades ambientais que o país já fez suas. Para uma economia aberta, que assenta grande parte do seu desenvolvimento no potenciar das relações económicas externas, torna-se ainda vital poder manter, atuante e regulado, todo o quadro multilateral em que atualmente nos inserimos - quer à escala europeia, quer no plano global. Nada indica que a Europa que aí vem não consiga assegurar, no essencial, o seu atual papel no cenário comercial internacional - e isso, a confirmar-se, serão boas notícias para Portugal, porque sempre ganhamos com o crescimento e a projeção europeia. Nesse mesmo contexto se joga, igualmente, a proteção da nossa diáspora, em que a expressão institucional da Europa tem um papel importante, quer na preservação da livre circulação no seu seio, quer na proteção à escala global de que ela se torna garante. Este “chapéu” de garantias, de que o nosso país beneficia, não parece, contudo, tão estável no quadro da segurança internacional, por virtude das inesperadas tensões que o nosso principal aliado decidiu introduzir no quadro internacional, indutoras de interrogações que a todos preocupam. Não falei da CPLP, da língua e da cultura? Não, porque nada de particularmente novo me parece que, nesses domínios, deva acontecer na quinzena de anos que aí vem. Somos, nos dias democráticos de hoje, um país marcado por uma serena imagem de previsibilidade na sua atitude internacional, valor cada vez mais importante no mercado político global. Assumimonos como um Estado potenciador do diálogo, “produtor” de segurança, construtor de pontes. Daqui a quinze anos, se o futuro nos não trair, esse continuará a ser o lugar de Portugal. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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FRANCISCO SEIXAS DA COSTA, AMBASSADEUR

LA PLACE DU PORTUGAL

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C

’est Harold Macmillan, Premier ministre britannique, qui, un jour, alors qu’on lui demandait ce qu’il redoutait le plus en politique, répondit : “Les événements, mon cher garçon, les événements !” L’avenir a toujours plus d’imagination que les hommes. La vie nous enseigne que les événements qui surviennent et dont nous ne sommes pas nécessairement le sujet se superposent à la stratégie la mieux élaborée. Cela vaut à la fois pour l’existence des individus et pour celle des pays. À quoi ressemblera le Portugal dans 15 ans ? Répondre à la question de savoir où et comment nous serons alors en Europe et dans le monde implique de supposer que cette Europe et ce monde vont toutefois changer, qu’on le veuille ou non, éventuellement de manière inattendue. Il nous revient d’avoir la capacité de préserver, dans le cadre de ce changement, sur lequel nous ne pouvons influer que de manière limitée, ce que nous pourrons projeter comme étant nos intérêts légitimes - intérêts essentiels, qui consistent à prendre soin d’un état âgé de presque 900 ans et les intérêts conjoncturels, ceux d’une société dont les générations actuelles sont responsables du bien-être à venir. Il est ironique de penser que, dans un monde toujours plus interdépendant, c’est dans la réduction de nos dépendances et dans le renforcement des facteurs décisionnels autonomes que réside, au fond, notre réserve de force pour faire face aux risques de l’avenir. C’est vrai, mais pas seulement. Nous sommes également responsables de la contribution que nous pouvons apporter, en tant que pays, afin de rendre les institutions plus fonctionnelles ainsi que l’ensemble des principes et des conceptions qui structurent la société internationale, sur lesquels repose l’espoir d’un avenir de dialogue et de bien-être, bases indispensables pour la paix et la sécurité mondiales. Plus ce cadre sera stabilisé, plus il sera facile de parvenir à y préserver nos intérêts. Nous devons être à la fois ambitieux et réalistes. Commençons par le réalisme. Je sais que ce ne sera pas agréable de lire la vérité qui s’ensuit : rien n’indique que, au cours des quinze prochaines années,

le Portugal cessera d’être le pays le plus pauvre d’Europe occidentale, ce qu’il est depuis longtemps. Notre retard relatif en termes de richesse et de compétitivité ne pourra pas être colmaté durant cette période. Mais un pays ancien que le nôtre est un coureur de fond se démarque et si nous examinons le fantastique bond en avant - développement, bien-être et mentalités - que le pays a réussi à réaliser au cours de ces dernières décennies, nous en conclurons aisément que nous avons aujourd’hui en main la possibilité d’accélérer la qualité de notre avenir. Il nous faut avoir l’ambition et le courage de nettoyer devant notre porte : essayer d’atténuer le poids contraignant de l’endettement et adopter une position judicieuse sur l’équilibre des dépenses publiques, car nous savons que l’époque européenne des “vaches grasses” qui nous donnait des moyens qui ne résultaient pas de la création de richesses, est révolue. Il serait important de parvenir de rendre, internement, consensuelles certaines priorités des principales politiques publiques, stabilisant celles qui, plus immédiatement, peuvent contribuer à la qualification du capital humain et à la création des conditions législatives et autres afin de promouvoir la production durable de richesses. Cependant, il est également nécessaire d’améliorer celles qui, avant tout, protègent les secteurs sociaux les plus vulnérables, et d’éviter la désespérance et la perception d’insécurité et, de là, les dérives résultant du désespoir politique. Sur le plan externe, il existe une priorité évidente : réduire drastiquement notre dépendance énergétique, d’ailleurs déjà prise en compte dans un processus de transition, pour lequel des pas importants ont été accomplis, conformément à un cadre responsable de priorités environnementales déjà définies par le pays. Pour favoriser une économie ouverte, qui repose fortement sur le développement des relations économiques extérieures, il devient vital de pouvoir conserver l’ensemble du cadre multilatéral dans lequel nous nous insérons actuellement - tant au niveau européen que mondial. Rien n’indique que l’Europe qui se fera ne sera pas en mesure de garantir, pour l’essentiel, son rôle actuel au sein du commerce international - ce qui, si cela se confirme, sera une bonne chose pour le Portugal, car nous avons toujours bénéficié de la croissance et des prévisions européennes. Dans ce même contexte, se joue la protection de notre diaspora, où l’expression institutionnelle de l’Europe joue un rôle important, à la fois dans la préservation de la libre circulation en son sein et dans la protection globale dont elle est garante. Ce “parapluie” de garanties dont bénéficie notre pays ne semble toutefois pas aussi stable dans le contexte de la sécurité internationale, en raison des tensions inattendues que notre principal allié a décidé d’introduire sur la scène internationale, suscitant ainsi des interrogations qui nous préoccupent tous. Ai-je mentionné la CPLP, la langue et la culture? Non, car rien de particulièrement nouveau ne me semble devoir advenir, dans ces régions, dans les 15 ans à venir. Nous sommes, à l’époque de la démocratie actuelle, un pays marqué par une sereine image de prévisibilité dans son attitude internationale, valeur de plus en plus importante sur le marché politique mondial. Nous nous considérons comme un facilitateur de dialogue, un “producteur” de sécurité et un constructeur de ponts. Dans 15 ans, si l’avenir ne nous trahit pas, ce sera la place du Portugal. l 29


O FUTURO DAS RELAÇÕES

PORTUGAL-CHINA

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CARLOS MONJARDINO, PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA FUNDAÇÃO ORIENTE

A

evolução das relações entre Portugal e a China na próxima década e meia deve ser avaliada à luz da situação política, económica e tecnológica que caracteriza o mundo de hoje. Situação que, por sua vez, reflecte o quadro geo-político e institucional internacional saído do pósguerra – a partir de 1945 – que tem vindo a absorver pressões de complexidade crescente. A “grande recessão” com origem na crise financeira que, a partir de 2007/2008, assolou os mercados norte-americanos, enfraqueceu as economias ocidentais mais desenvolvidas, com um duplo efeito: a nível político interno, favoreceu o crescimento de forças populistas e nacionalistas, hostis à construção europeia; a nível internacional, enfraqueceu as economias ocidentais desenvolvidas o que, por sua vez, “abriu caminho” à emersão da China como uma potência que, a prazo, constitui uma ameaça à hegemonia política, económica e militar dos E.U.A. Como reacção e com o objectivo declarado de conter a expansão da influência chinesa – para além de querer inverter o processo de desindustrialização da economia, provocado pelo movimento de deslocalização – a Administração Trump tem vindo a pôr em causa o quadro político/institucional e jurídico/regulamentar internacional que favoreceu a globalização da economia mundial. Quadro que foi concebido e implantado com o suporte e a liderança norte-americana. Acresce que esta evolução tem-se vindo a verificar num contexto marcado por grandes transformações e avanços tecnológicos com impactos de grande complexidade, tanto a nível político, como económico e financeiro. Neste quadro não é naturalmente tarefa simples procurar avaliar e antecipar o que virá a ser o futuro das relações entre Portugal e a China. Mesmo que se trate de um futuro relativamente próximo como o que é sugerido para esta reflexão: década e meia.

Se, por um lado, mantemos tradicionalmente com a República Popular da China relações políticas favoráveis à intensificação do intercâmbio comercial e financeiro – em particular depois das negociações que conduziram à nossa saída do Território de Macau – por outro, a nossa economia encontra-se integrada e é parte do espaço económico do Euro. Deste modo, o futuro das nossas relações políticas e económicas e financeiras com o exterior não deixa de estar condicionado pela evolução do movimento de integração da Europa do Euro. À nossa economia interessa atrair capitais e investimentos chineses, desde que tal não signifique a perda de controle de actividades e sectores estratégicos. Assim como é do nosso interesse intensificar a presença das nossas empresas no enorme mercado chinês – exportando directamente ou através de parcerias e da associação com empresários e/ou investidores locais. Por seu lado, a China – tanto as autoridades políticas, como grupos e empresários chineses – têm mostrado interesse em investir na nossa economia e em desenvolver as relações políticas, económicas, financeiras e culturais. Como resultado deste interesse mútuo temos na última década assistido já a um fluxo importante de investimentos chineses na nossa economia. Investimento que, nos últimos anos, se tem dirigido para múltiplos sectores: em particular, energia, transportes, serviços financeiros, seguros, saúde, imobiliário e hotelaria. Por outro lado, tem vindo a crescer e a desenvolver-se o relacionamento de empresas portuguesas com os mercados e com os investidores e empresários chineses, o que constitui uma plataforma importante para o futuro. Permaneço por isso convencido que, apesar da complexidade, dos riscos e das incertezas que ameaçam a estabilidade dos mercados e as relações comerciais e financeiras mundiais, estas irão continuar a desenvolver-se. A ser assim, o nosso País pode tirar partido do seu bom relacionamento com a República Popular da China para – nos próximos 15 anos – consolidar e intensificar as relações com este grande País, com importantes vantagens para a nossa economia. Uma última observação para referir que, na sua área de intervenção, e de acordo com a sua missão estatutária – em especial no que se refere ao intercâmbio cultural e artístico – a Fundação Oriente irá prosseguir o seu apoio à consolidação e ao desenvolvimento das relações entre Portugal e a China. l 31


葡中关系的未来

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CARLOS MONJARDINO,东方基金会董事会主席

葡中关系在未来十五年的发展变化,必须根据当今世界所特有 的政治格局,经济形势与技术发展来加以预测。反过来说,当 今的政治,经济与技术现状都反映了二战后形成的地缘政治框 架与国际制度框架,而这一框架自1945年至今,一直承受着纷 繁复杂的压力。 2007/2008年起,金融危机带来的“经济大萧条”打击了北美 市场,削弱了西方发达经济体的实力,带来双重影响:从国内 政治层面看,它推动了民粹主义和民族主义势力的增强,使欧 洲一体化遭受冲击;而在国际层面,它在削弱西方发达经济体 的同时,反而为中国“开辟了道路”,使其最终成为对美国政 治、经济和军事霸权构成威胁的大国。作为对此的反应,并基 于遏制中国影响力进一步扩大的既定目标 - 特朗普政府除了希 望扭转由工业生产转移造成的经济去工业化以外- 还一直对推 动世界经济全球化的国际政治体制框架,法律管理框架提出质 疑。而该框架是在美国的支持和领导下构想和实施的。 此外,葡中关系一直是在以重大变革和技术进步为标志的背景 下发展,除了政治层面影响,还受到金融、贸易等多方面的、 错综复杂的影响。 在此背景之下,评估和预测葡萄牙与中国未来关系的发展自然 不会是一项简单的任务。即使我们所说的未来是相对较近的将 来,正如我们为此设定的概念:十五年。 一方面,如果我们与中国保持传统的政治关系,将有利于加 强双方经贸交流 - 特别是那些指引我们走出澳门局限的贸易交 流;另一方面,我们的经济是一体化的,是欧元经济区的一部

分。这样的话,未来我们与其余国家的政治、金融和贸易关系 的发展仍然会受到欧洲一体化运动演变的制约。我国的经济 潜力吸引了中国的资金投入,引起中国企业的投资兴趣,但这 并不意味着我们对自己的战略行动和战略部门失去控制。而且 加强我国企业在中国这一超级市场的地位,加大对中国直接出 口,以及通过贸易伙伴关系与当地企业家及投资者取得联系也 是我们的兴趣所在。 从中国的角度来看 - 无论是政治当局,还是中国的集团和企业 家 - 都表现出对葡萄牙经济投资的兴趣,表达出对双方政治、 经济、金融和文化关系持续发展的意愿。 基于双方的共同利益,我们在过去十年中已经见证了中国对葡 萄牙经济投资的蓬勃发展。近年来,投资更涵盖了多个部门: 尤其在能源,运输,金融服务,保险,卫生,房地产和酒店领 域。此外,葡萄牙企业与中国市场,投资者和企业家之间的关 系不断发展,为未来双方关系的进一步发展搭建了重要平台。 因此,我坚信,尽管现阶段的复杂性,风险性和不确定性威胁 着经济市场的稳定性以及全球金融贸易关系,但两国间的关系 会继续发展。只有如此,我国才可以利用与中国的良好关系, 在接下来的十五年继续巩固和加强双方关系,为我国经济发展 赢得巨大优势。 最后一点需要注意的是,东方基金会在其所有参与的领域-尤其 是在文化和艺术交流方面,都将牢记使命,继续支持葡萄牙与 中国关系的巩固与发展 l

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O FUTURO DE ANGOLA: CINCO ÁREAS DE DIVERSIFICAÇÃO

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ZANDRE CAMPOS, PRESIDENTE EXECUTIVO DA ABO CAPITAL

A

o fim de quase três décadas marcadas por corrupção política e guerra civil, as mudanças em Angola vieram para ficar e o país tem agora um futuro brilhante pela frente. O país operou grandes melhorias a nivel das infraestruturas e das tecnologias e continuou a fortalecer os laços com os seus aliados, beneficiando deste modo o seu comércio internacional e intercontinental. Em 10 anos apenas, Angola tornar-se-á num centro de negócios, num grande exportador e dará cartas em termos de oportunidades de investimento. São muitas as iniciativas que tiveram um impacto directo na economia de Angola, como é o caso da revisão da Lei de Investimento Privado de Angola, que apoia os esforços de diversificação do país em termos de oportunidades de emprego e de comércio. No passado, a Lei do Investimento Privado obrigava os investidores estrangeiros a associarem-se a cidadãos angolanos, empresas de capitais públicos ou empresas angolanas que tinha de ter uma participação de, pelo menos, 35% no capital social dessas empresas estrangeiras. A revisão deixou cair esse requisito. A lei exige agora também que os investidores privados empreguem trabalhadores angolanos com oportunidades de formação, salários e condições sociais favoráveis, sem discriminação. Os sectores comerciais prioritários ao abrigo deste projecto de lei incluem alimentação e agricultura; hotelaria, turismo e lazer; construção; infraestruturas de telecomunicações e tecnologias de informação; energia e água; e ensino. Estes sectores contribuem em grande medida para o crescimento dos negócios, da investigação e do comércio, algo que é crucial para Angola tendo em conta que é um dos poucos países africanos com apenas duas grandes fontes de exportações. Angola reforçou ainda as relações com a China, uma aliança formada há mais de 30 anos e que se tem revelado vantajosa para ambas as partes, vendo assegurada um financiamento de 2 mil milhões de dólares por parte do Banco de Desenvolvimento da China, um passo positivo na implementação de grandes projectos necessários para o país e que atrairá investidores de vários sectores. Angola deverá contar assim com uma aplicação lenta e controlada destes fundos e fortes benefícios a longo prazo. Outros países, como é o caso de Israel, investiram também no crescimento de Angola, nomeadamente no sector agrícola, um sector crucial para a estratégia de desenvolvimento do país. Estas iniciativas combinadas estão a contribuir para a geração de fortes oportunidades de investimento nos próximos anos. Estamos a assistir a uma retoma da produção petrolífera de Angola, que, juntamente com os metais, representam cerca de 90% das exportações totais do continente. Angola é o segundo maior fornecedor de petróleo na África Subsaariana, logo a seguir à Nigéria, mas recuperará o primeiro lugar no futuro

próximo. Recentemente, Angola e a Total, uma das maiores empresas de petróleo e gás do mundo, inauguraram um novo campo petrólífero em mar algo perto de Luanda, no valor de 16 mil milhões de dólares, a maior operação ‘offshore’ lançada em Angola. Em Maio, Angola aprovou o Decreto Presidencial No. 7/18, a primeira lei que visa regulamentar a prospecção, pesquisa, avaliação, desenvolvimento, produção e venda de gás natural em Angola. Apesar dos grandes esforços envidados no sentido de impulsionar a produção de petróleo e de gás em Angola, a diversificação deve assumir premência no plano estratégico do país no sentido de um maior crescimento económico. O Presidente João Lourenço tomou posse em Setembro de 2017, e num ano apenas, os cidadãos, empresas e investidores angolanos sentiram o impacto significativo da sua estratégia de reforma que visa combater a corrupção do seu antecessor José Eduardo dos Santos, melhorar as liberdades civis e abrir a economia. Com base nessas melhorias, a diversificação é agora mais viável do que nunca. Minas, turismo, tecnologia, agricultura e a saúde são cinco das áreas nas quais estou convencido que Angola vai continuar a singrar. Turismo De acordo com o relatório Travel & Tourism Economic Impact 2018 do World Travel and Tourism Council, esta indústria gerou 110.500 empregos directos no sector hoteleiro em Angola no ano passado e onde se incluem hotéis, organizações de viagens, companhias aéreas e outras empresas de serviços de transporte. Este número deverá aumentar para 147.000 até 2028. A melhoria da infraestrutura terá um impacto positivo nas despesas com viagens de lazer, tendo gerado aproximadamente 70% do PIB de viagens e turismo no ano passado, de acordo com o relatório. O maior problema que Angola enfrenta em matéria de turismo é a promoção. Com mais de 1.600 quilómetros de costa e praias deslumbrantes, está aqui uma grande oportunidade para expandir ainda mais esse sector. Hotéis, transporte e entretenimento não só criam mais emprego como incentivam também viagens internacionais e intercontinentais, o que, em última análise, equivale à geração de receitas. Tecnologia África registou uma das maiores taxas de crescimento nos últimos cinco anos, graças aos desenvolvimentos globais proporcionados pela Internet, tecnologia móvel e a construção do Sistema de Cabo do Atlântico Sul (SACS). O financiamento adequado permitiu

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desenvolvimentos significativos em termos de conectividade global e de velocidade de transferência de dados. No mês passado, o novo cabo submarino da SACS transportou tráfego directo através do Atlântico Sul, ligando directamente a América do Sul à África Subsaariana pela primeira vez. Este cabo está ligado também ao cabo MONET da Google no Brasil, permitindo assim um acesso mais directo da Internet africana aos Estados Unidos sem passar pela Europa. E são de esperar mais desenvolvimentos neste sector no seu todo, incluindo ao nível da tecnologia móvel. Durante a sua visita à China, o Presidente Lourenço visitou o Centro de Pesquisas Tecnológicas da Huawei, o segundo maior fabricante de telemóveis do mundo e que investiu 60 milhões de dólares em Angola nos últimos 20 anos. O financiamento contínuo de projetos de telecomunicações abrirá ainda mais a nossa economia e poderá ter um impacto profundo nas relações internacionais. Minas Angola é o quinto maior produtor mundial de diamantes e estamos em vias de nos situar entre os três primeiros. Em grande parte do mundo, as tendência ao nível dos diamantes estão a diminuir uma vez que as minas estão a ficar demasiado antigas. No entanto, ainda há muito para descobrir em Angola. O presidente Lourenço afirmou que pretende duplicar a produção de diamantes em Angola e atrair mais investimentos ao gerar um maior fluxo de diamantes para esse centro de negociação global que é Antuérpia, conhecido pelo seu compromisso com a transparência. Recentemente, a Lucapa Diamond Company fez uma série de grandes descobertas em África, incluindo um diamante rosa de 46 quilates da mina de Lulo, em Angola, mas grande parte do país ainda está por explorar devido à guerra civil. Há também uma boa oportunidade para explorar minério de ferro e cobre, tendo em conta que Angola faz fronteira com a República Democrática do Congo e a Zâmbia, os principais produtores de cobre de África. Agricultura As capacidades agrícolas e de processamento de África ainda estão pouco desenvolvidas, algo que estará ligado à baixa percentagem de importação de maquinaria pesada e equipamento de transporte deste continente, bem como aos padrões das alterações climáticas. No entanto, os avanços tecnológicos, do equipamento motorizado à biotecnologia, como é o caso da modificação de sementes, contribuíram amplamente para o crescimento mundial da agricultura. A fome é um grande problema, não apenas em África, mas também noutros países, como a China e o Médio Oriente. Dada a abundância de terras em Angola e uma vez que tem uma das maiores reservas de água, o objectivo consiste, não só em satisfazer as necessidades de Angola, mas também produzir para o continente. Na frente comercial, espera-se que a Zona de Comércio Livre da África Continental impulsione as economias africanas, harmonizando a liberalização do comércio intercontinental, removendo as tarifas sobre 90% das mercadorias quando esta política entrar em vigor. O presidente Lourenço prometeu colocar a agricultura no centro da sua estratégia de diversificação, uma vez que se trata de um sector com alta intensidade de produção, incentivando também empresários privados a investirem em agropecuária. 36

Por outro lado, o Banco Mundial aprovou um empréstimo de 130 milhões de dólares para apoiar o governo angolano a desenvolver a agricultura comercial. Os fundos continuarão a contribuir para o aumento da produtividade e para fortalecer os corredores agrícolas que ligam as terras altas do centro do país a Luanda. Saúde Entre 2004 e 2014, Angola gastou apenas uma média de 4% do seu PIB em saúde, de acordo com o Banco Mundial. Os investimentos no sector de saúde de Angola são vitais para melhorar as tecnologias da saúde, as infraestruturas e ensino na era do pós-guerra civil. Organizações como a Sphera Global Health Care, por exemplo, estão a contribuir para esse crescimento, juntando hospitais, clínicas, médicos e tecnologias de alto nível cuidadosamente seleccionados. Com os pacientes a exigirem mais, incluindo melhores profissionais e informações mais completas, as tecnologias de comunicação neste mercado, como a videoconferência, a telemedicina, as plataformas virtuais e as aplicações de saúde móvel ajudam a responder a essas exigências. Além de melhorar a comunicação, essas tecnologias também garantem a prestação de cuidados de saúde de qualidade e reduzem deslocações desnecessárias a hospitais ou clínicas. Estes avanços contínuos irão transformar drasticamente o sistema de saúde de Angola, oferecendo a mais pessoas os cuidados de que necessitam. Ensino Uma das coisas mais importantes que podemos fazer como país e como continente é investir no nosso povo. Para que a Angola continue a crescer e estar na vanguarda do sucesso de África, precisamos de uma força de trabalho instruída e de pessoas com as devidas aptidões nas suas áreas de estudo, produtivas e inovadoras. Um sistema de ensino primário e secundário sólido gera oportunidades económicas. O Presidente Lourenço está a trabalhar em prol do ensino em inglês, bastante importante na sociedade actual, onde grande parte do mundo tem o inglês como primeira ou segunda língua. Mais escolas, mais programas e mais currículos em língua estrangeira são as respostas a esta demanda de excelência. Com tudo isto em mente, Angola tornar-se-á muito importante para África. A prosperidade e as contribuições sociais de Angola farão de África o lugar certo. E com a dedicação suplementar do Presidente Lourenço no sentido da diversificação da economia, fortalecimento dos laços com os aliados e as fortes oportunidades de investimento, Angola terá tudo para se tornar num actor chave nas áreas da agricultura, tecnologia, cuidados de saúde e turismo. Ao investir recursos nestes sectores, Angola passará a ser um importante centro exportador e de negócios, embora continue a afectar o tempo e os fundos necessários para acompanhar a oferta e a procura das suas actuais exportações e continue a diversificar-se. l


THE FUTURE OF ANGOLA: FIVE AREAS OF DIVERSIFICATION

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ZANDRE CAMPOS, CEO ABO CAPITAL

A

fter nearly three decades of political corruption and civil war, Angola is seeing change for good and it truly has a bright future. The country has already made vast improvements in its infrastructure and technology developments, and it has continued to strengthen its ties with allies, benefitting intercontinental and international trade. In just 10 years, Angola will be a hub for businesses, a major exporter, and a game changer for investment opportunities. Several initiatives have already made a direct impact on Angola’s economy, such as the revision to Angola’s Private Investment Law, which supports the country’s diversification efforts in job opportunities and trade. In the past, the Private Investment Law had required foreign investors to partner with Angolan citizens, public capital companies, or Angolan companies, and hold at least a 35-percent stake in the share capital of the companies. The revision removed this requirement. The law now also requires private investors to employ Angolan workers and to provide them with favorable training, salaries, and social conditions, without discrimination. The priority trade sectors under this bill include food and agriculture; the hotel business, tourism and leisure; construction; telecommunications and information technology infrastructure; energy and water; and education. These sectors are greatly contributing to the growth of businesses, research, and trade, which is crucial for Angola, as it is one of few African countries with just two main exports. Additionally, Angola strengthened its mutually beneficial relationship with China, an alliance that formed more than 30 years ago, and the country secured $2 billion in financing from the China Development Bank, which was a positive step toward implementing major necessary projects and attracting investors across a number of sectors. Angola should expect to see slow and controlled spending of the funds and great long-term benefits. Other countries, like Israel, have also invested in Angola’s growth, particularly the agricultural sector, which is crucial for the country’s development strategy. All of these initiatives combined are helping to foster strong investment opportunities for years to come. We are seeing a revival of Angola’s oil production, which along with metal, accounts for approximately 90 percent of the continent’s total exports. Angola is the second largest supplier of oil in sub-Saharan Africa behind Nigeria, but it will regain the top spot in the near future. Just recently, Angola and Total, one of the world’s largest oil and gas companies, inaugurated a new deep-sea oil field near Luanda worth $16 billion, the largest offshore operation launched in Angola. In May, Angola passed Presidential Decree No. 7/18, the first law aimed at regulating the prospection, research, evaluation, development, production, and sale of natural gas in Angola.

Although these are great steps toward boosting the production of oil and gas in Angola, it’s important to keep diversification at the forefront of the country’s strategic plan for economic growth. President João Lourenço was sworn into office in September 2017, and in just one year, Angolan citizens, businesses and investors have already experienced the significant impact of his reform strategy that aims to tackle corruption from his predecessor Jose Eduardo dos Santos, improve civil liberties, and open the economy. Based on these improvements, diversification is now more achievable than ever before. Five areas where I believe Angola will continue to thrive include mining, tourism, technology, agriculture, and health care. Tourism According to the World Travel and Tourism Council’s Travel & Tourism Economic Impact 2018 report, the industry generated 110,500 direct hospitality jobs in Angola last year, which includes hotels, travel organizations, airlines, and other transportation services companies. The number is expected to increase to 147,000 by 2028. Improved infrastructure has the potential to positively impact leisure travel spending, which generated approximately 70 percent of direct travel and tourism GDP last year, according to the report. The biggest problem Angola faces with its tourism industry is promotion. With more than 1,000 miles of beautiful beach coastline, there is a big opportunity to build this sector out even further. Hotels, transportation, and entertainment not only create more jobs, but encourages more intercontinental and international travel, which ultimately equates to revenue generation. Technology Africa has seen one of the highest growth rates over the past five years, with global Internet developments, mobile technology, and the construction of the South Atlantic Cable System (SACS). Proper funding has already contributed to small milestones in global connectivity and data transfer speeds. Just last month, SACS’s new submarine cable carried live traffic across the South Atlantic, directly connecting South America to Sub-Saharan Africa for the first time. The cable also connects to Google’s MONET cable in Brazil, which enables the African Internet a more direct path to the United States without first passing through Europe. We should expect to see more developments in this sector as a whole, including mobile technology. During 39


his visit to China, President Lourenço toured the Technological Research Center of Huawei, the second largest mobile phone manufacturer in the world, which has invested $60 million in Angola over the past 20 years. Continued funding for telecommunications projects will further open our economy and can have a profound impact on international relations. Mining Angola is the world’s fifth-largest producer of diamonds, and we are on track to becoming top three. In much of the world, diamond trends are decreasing because mines are becoming too old, however, there is still much to discover in Angola. President Lourenço said he will aim to double diamond production in Angola and attract more investment by creating more diamond flow to the global trading center of Antwerp, which is known for its commitment to transparency. Just recently, Lucapa Diamond Company made several big discoveries in Africa, including a 46-carat pink diamond from the Lulo mine in Angola, but much of the country has yet to be explored due to the civil war. There is also an opportunity to explore for iron ore and copper, as Angola borders Democratic Republic of Congo and Zambia, Africa’s top copper producers. Agriculture Africa’s farming and processing capabilities are still underdeveloped, and this may be due to the continent’s low import percentage of heavy machinery and transport equipment, as well as climate change patterns. However, technological advancements, from motorized equipment to biotechnology like seed modification, have widely contributed to the worldwide growth of agriculture. Starvation is a big issue, not just in Africa, but in other countries too, like China and the Middle East. With Angola’s abundance of land and some of the biggest water reserves, there is a huge objective to not only fulfill the needs of Angola, but to produce for the continent. On the trade front, The African Continental Free Trade Area is expected to boost African economies by harmonizing intercontinental trade liberalization, removing tariffs on 90 percent of goods once the policy is in effect. President Lourenço pledged to place agriculture at the core of his diversification strategy, as it is a sector with high manufacturing intensity, and he also encouraged private entrepreneurs to invest in agrolivestock farming. Additionally, this past year, the World Bank approved a USD $130 million loan to support the Angolan government to develop commercial agriculture. The funds will continue to increase productivity and strengthen agricultural corridors linking the central highlands to Luanda. 40

Health Care From 2004 – 2014, Angola had only spent an average of 4% of its GDP on health, according to the World Bank. Today, investments toward Angola’s health care sector are vital for improving health technology, infrastructure, and education in a post-civil war era. Organizations like Sphera Global Health Care, for example, are contributing to this growth by bringing together carefully selected high-level hospitals, clinics, doctors and technologies. As patients demand more, including the best professionals and the most thorough information, communication technologies in this market, such as video conferencing, telemedicine, virtual platforms, apps, and mobile-health, help meet those demands. In addition to improving communication, these technologies also guarantee the delivery of quality healthcare and reduce unnecessary hospital or clinical visits. These continued advances will drastically transform Angola’s health system in providing more people with the care that they need. Education One of the most important things we can do as a country and as a continent is to invest in our people. In order for Africa to continue growing at the forefront of Africa’s success, we need an educated workforce and individuals who are skilled in their fields of study, productive, and innovative. A solid primary and secondary education system leads to economic opportunity. President Lourenço is working toward English language education, which is important in today’s society where much of the word speaks English as a first or second language. More schools, more programs, and more language curriculum are the answers to excellence. With all of this in mind, Angola will become very big for Africa. Angola’s prosperity and societal contributions will make Africa the place to be. And with President Lourenço’s supplemented dedication to diversifying the economy, strengthening ties with allies, and strong investment opportunities, we should expect to see Angola becoming a key player in agriculture, tech, health care, and tourism. By investing resources in these sectors, Angola will be a major exporter and business hub as long as it continues to allocate the time and the funds needed to keep up with supply and demand of its current exports and continues to diversify. l


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ANTÓNIO MEXIA, CEO DA EDP

O FUTURO DO SETOR DA ENERGIA 42


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alar do futuro do setor da Energia é falar de constante mudança, a um ritmo cada vez mais exponencial. Na última década o setor mudou mais do que nos 50 anos anteriores e, nos próximos anos, a mudança será ainda sem dúvida mais expressiva. Podemos perspetivar esta mudança olhando essencialmente para uma revolução que será feita em três dimensões: Descarbonização, Descentralização e Digitalização. Estes são os motores desta mudança. E o propósito desta mudança será o cliente, que cada vez mais estará no centro de tudo e nomeadamente no centro da evolução do setor da energia. Começando pela Descarbonização, hoje as alterações climáticas são inegáveis e a necessidade de redução das emissões de carbono é urgente. A descarbonização do mundo passará obrigatoriamente por uma eletrificação massiva dos nossos consumos, a todos os níveis, num planeta em que ainda mais de mil milhões de pessoas ainda vivem sem eletricidade. Isto implica uma alteração profunda daquilo que é o modelo económico atual que está assente em combustíveis fósseis. A transição para uma economia “elétrica” será assente em energia Renováveis e naquilo tem sido a forte aposta na eficiência energética. Por outro lado, a Descentralização da produção e a cada vez maior capacidade de armazenamento que decorre dos avanços da tecnologia, estão a transformar por completo o negócio deste setor. Neste novo contexto o cliente passa de mero consumidor para produtor e gestor da sua própria energia. E tudo isto, graças aquilo que tem sido uma cada vez maior inovação neste setor, será assente num sistema totalmente eletrificado e resiliente. A Digitalização, que tem tido fortes implicações em todos os sectores e

que tem criado disrupções profundas nos modelos de negócio mais tradicionais, é a peça que ligará todas estas componentes, permitindo mais eficiência quer do lado da oferta quer da procura. Caminhamos, assim, para uma internet da energia, em que tudo estará ligado e à distância de um clique. Mais uma vez, é o cliente que será beneficiado com este avanço, permitindo gerir toda a informação relacionada com os seus consumos de energia de uma forma cada vez mais eficaz. O futuro confronta-nos assim com um cliente mais informado, mais tecnológico, mais exigente e mais independente. Por isso, o futuro por muitas incógnitas que ainda tenha, irá seguramente implicar que as escolhas neste setor sejam tomadas de forma coletiva e numa sociedade que irá exigir a total transparência na forma como atuam as empresas de energia. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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ANTÓNIO MEXIA, CEO EDP

THE FUTURE OF THE ENERGY SECTOR 44


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alking about the future of the Energy sector means talking about constant change at an increasing exponential pace. This sector has changed more in the last decade than in the previous 50 years and such changes will become clearer in the coming years. We can envisage these changes essentially by looking at a revolution that will focus on three dimensions: Decarbonisation, Decentralization and Digitization. These are the engines of this change. And the reason for this change will be the customer who will increasingly be the core of everything and particularly at the heart of the evolution of the energy sector. Beginning with decarbonization, climate change is undeniable today and the need to reduce carbon emissions is urgent. Decarbonization of the world will inevitably require massive electrification of consumption at all levels in this planet where more than a billion people are still living without electricity. This requires a profound change in the current economic model based on fossil fuels. Transition to an “electric� economy will be based on renewable energy with a clear focus on energy efficiency. On the other hand, Decentralization of production and the growing storage capacity as a result of recent advances in technology are changing the business of this sector entirely. Within this new context, the customer will move from mere consumer to producer and manager of his own energy. And all this, thanks to the increasing rate of innovation in this sector, based on a fully electrified and resilient system. Digitalisation, which has had strong implications in all sectors and has

generated major disruptions in more traditional business models will bind together all these components, allowing more efficiency both on the supply side and the demand side. We are heading, therefore, towards an internet of energy where everything will be connected at the touch of a button. Once again it’s the customer who will ultimately benefit from this advances and be offered the possibility to manage all information related to energy consumption in an increasingly efficient manner. The future thus confronts us with a more savvy, technological, demanding and independent customer. Therefore, and despite all the uncertainties that will still be there, this means that choices in this sector will have to be made collectively in a society that will require full transparency as regards energy companies operations. l

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É um dia maravilhoso quando salvamos um recém-nascido

A pequena Priscilla não teria sobrevivido ao parto sem o recurso a uma cesariana. A sua família vive numa aldeia remota, numa zona montanhosa do Peru e, para ter acesso a uma unidade de saúde onde a filha pudesse nascer em segurança, a sua mãe, Celia, teve de permanecer na "Casa das Mães", uma instituição na região de Yaurisque. A "Casa”, onde as mães se sentem verdadeiramente acolhidas, permite-lhes viver perto da única clínica local e beneficiar de acompanhamento regular de saúde para si e para os seus bebés.

Todas as VIDAS contam

Torne-se Amigo da UNICEF e ajude-nos a salvar recém-nascidos como a Priscilla

www.unicef.pt


para todas as crianรงas

Priscilla, 7 dias de vida


INFRAESTRUTURAS O FUTURO DA ENGENHARIA NO SETOR DAS INFRAESTRUTURAS

ANTÓNIO MOTA, PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA MOTA-ENGIL

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efletir sobre o futuro é sempre um desafio face à velocidade crescente de evolução da Sociedade, mas é uma necessidade que as empresas e os seus gestores têm de fazer em permanência. Na Engenharia, vivemos hoje desafios que se estendem desde as escolas, como centros de formação, às empresas como entidades integradoras de um mercado de trabalho em mudança. No setor específico das infraestruturas, o desafio não é menor. As empresas competem num mercado global de projetos de dimensão média superior e de maior complexidade, exigindo-se uma maior participação no ciclo de vida dos projetos, integrando desde a conceção, à construção, operação e manutenção das infraestruturas, colocando-se ainda a exigência de montagem das soluções de financiamento dos projetos. Nesta mudança de paradigma a que assistimos, as empresas de Engenharia e Construção são hoje radicalmente diferentes do que eram até há 20 ou 30 anos atrás, integrando novos saberes, complementares e mais abrangentes, a que as universidades portuguesas tiveram e souberam acompanhar. Vivendo esta transformação por dentro, como empresário e gestor, tenho o privilégio de acompanhar de forma próxima a

evolução que se verifica nas organizações empresariais para que, no caso das empresas portuguesas, consigamos dar a devida resposta para sermos aquilo que a história já provou podermos ser – os melhores entre os melhores. Na Mota-Engil, vivemos o presente preparando o futuro, tendo promovido nos últimos três anos os maiores programas de estágio de sempre. Hoje, temos o foco na formação de jovens engenheiros orientados para carreiras internacionais para trabalharem onde for necessário, estando preparados e motivados para atuar a nível global com os mesmos standards de elevada qualidade. Esta alteração do mundo como horizonte de atuação foi algo para o qual o grupo há muito se preparou através de uma estratégia de internacionalização para competir à escala global com uma cultura muito própria, orientada para valores de trabalho, profunda dedicação e orientação para o cliente. Só assim conseguiremos continuar a afirmar a Marca Mota-Engil e criar laços de confiança que são o pilar de evolução e de sustentabilidade de qualquer empresa. Isto sem nunca perder as suas referências fundacionais, interlaçadas com a ambição e irreverência para continuar a construir o futuro. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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AS EMPRESAS PORTUGUESAS DAQUI A 15 ANOS

ANTÓNIO SAR AIVA, PRESIDENTE DA CIP – CONFEDERAÇÃO EMPRESARIAL DE PORTUGAL

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entro de quinze anos, a generalidade das empresas portuguesas terá passado pela fase da sua consciencialização para as oportunidades abertas pelas novas tecnologias (nomeadamente digitais), tê-las-á desenvolvido e adaptado à sua realidade, em paralelo com os seus recursos humanos, e estaremos em pleno na fase da massificação da adoção dessas tecnologias pelos agentes económicos. Cada vez mais empresas terão integrado nos seus processos de produção e nos próprios produtos toda uma panóplia de componentes com capacidade digital em conexão com outros componentes e computadores. A combinação destes componentes com a análise avançada de uma enorme quantidade de dados terá reduzido o consumo de energia e matérias-primas e proporcionado cadeias de produção mais flexíveis, uma produção mais eficiente e uma resposta cada vez mais automatizada e sincronizada face às solicitações dos mercados. 50

Estes desenvolvimentos terão permitido a criação de novas formas de identificar grupos específicos e, consequentemente, a diferenciação do ‘marketing’ aplicado e a diferenciação dos produtos, respondendo às tendências dos consumidores, ávidos por adquirirem produtos únicos. As empresas da indústria transformadora estarão cada vez menos limitadas a atividades de produção, comprando, produzindo, vendendo e exportando cada vez mais serviços, por forma a proporcionar ao cliente soluções personalizadas. De uma era de produção em massa indiferenciada estaremos a passar para uma era de personalização e especialização. Cada vez mais empresas estarão a “misturar tecnologias” como a impressão 3D, as tecnologias móveis, o ‘cloud computing’, a realidade aumentada, etc. Com a utilização mais intensiva das tecnologias da informação, comunicação e localização, bem como da robótica, muitas funções que hoje estão presentes nas empresas ter-se-ão tornado


dispensáveis ou obsoletas, ao mesmo tempo que terão surgido outras, com um nível de exigência superior em termos de conhecimentos e competências. As empresas industriais terão cada vez mais as suas atividades alicerçadas na economia circular. Este desenvolvimento terá introduzido transformações importantes no ciclo de vida dos produtos. As empresas terão reinventado novos métodos de criação de bens para reincorporar matérias já fora de uso e relançar na economia aquilo que, ainda hoje, é desperdício. Terá surgido um mercado funcional para matérias-primas secundárias, à escala europeia, com legislação harmonizada. Além disso, as empresas estarão libertas de uma série de condicionalismos que hoje levam ao desperdício de recursos e ocupam boa parte do precioso tempo dos seus gestores, preocupados em ultrapassar problemas laterais colocados por uma inadequada intervenção do Estado na sua atividade quotidiana. As empresas estarão preocupadas sobretudo em concorrer cada vez mais com base em aumentos da produtividade, através de uma forte aposta na inovação, na organização e na capacidade de gestão. Terão diversificado as suas exportações, explorando as múltiplas oportunidades de negócio que se abrem nas economias emergentes. Apesar de integrado na Europa, Portugal estará menos dependente dos mercados de economias maduras, mas pouco dinâmicas. Não sei quais serão os setores que mais peso terão ganho na nossa estrutura produtiva e na estrutura das nossas exportações. Mas a canalização dos recursos disponíveis para investimentos indutores de exportações ou substituição competitiva de importações terão determinado o reforço do peso dos setores produtores de bens e serviços transacionáveis na economia. Será este o futuro das empresas dentro de quinze anos? Certamente que não o posso afirmar. Dizia um especialista em prospetiva que toda a forma de predição do futuro é uma impostura, porque o futuro não está escrito, é necessário construí-lo. Um cem número de fatores, internos e externos, mais ou menos controláveis, poderão retardar ou mesmo travar os desenvolvimentos positivos subjacente a este cenário. Alguns, poderão conduzir a bloqueios indesejáveis, a desequilíbrios potencialmente perigosos ou a retrocessos.

O exercício a que brevemente me dediquei baseia-se em tendências, muitas das quais creio serem inelutáveis. Terei esquecido outras, por exemplo a emergência de novos modelos de negócio, nomeadamente de economia partilhada, acompanhando novos hábitos de consumo. Mas essas são apenas tendências que hoje é possível detetar. Seguramente seremos surpreendidos por novas tendências, que decerto nos abrirão novas oportunidades e novas ameaças. Além disso, este exercício parte do pressuposto de que, coletivamente, seremos capazes de aproveitar essas oportunidades e superar essas ameaças. Como em qualquer processo de progresso tecnológico, confrontamo-nos com riscos que têm de ser acautelados. Destacaria os que se podem verificar ao nível dos mercados de trabalho, devido à intensificação dos movimentos entre setores e atividades. Isso requer um forte investimento em qualificação. De facto, a falta de recursos humanos qualificados poderá constituir uma das principais barreiras à inovação digital nos próximos anos. Requer também mercados de trabalho flexíveis, que favoreçam a adaptabilidade das empresas a mercados em constante mutação e à adoção de novos processos de aprovisionamento, de produção e de comercialização. Seja no domínio da qualificação, seja no que respeita às questões laborais, só uma visão de futuro pode transformar em oportunidade para as empresas o desafio da (r)evolução tecnológica. Para vencer este desafio, é também indispensável que as empresas apostem decisivamente na inovação. Mas para inovar é preciso investir. Só através do investimento será possível incorporar inovação nos produtos e nos processos. Para sustentar elevadas taxas de investimento empresarial, falta-nos vencer os obstáculos que persistem, sobretudo em termos de capitalização das empresas e acesso ao financiamento, mas também em termos do enquadramento fiscal e do ambiente de negócios. A mudança, mesmo quando nos traz progresso, implica sempre capacidade de antecipação e de adaptação e nem todas as empresas, nem todos os trabalhadores, terão a mesma capacidade de antecipação e de adaptação. Para minimizar os riscos, importa, por isso, capacitar as empresas e os seus gestores e trabalhadores para a mudança. Capacitar empresas para os investimentos que este desafio implica. Capacitar os gestores e trabalhadores em termos de qualificações. O futuro está em aberto. Será moldado por inúmeras tendências, mas dependerá menos de tendências passadas e mais do hoje formos (ou não) capazes de fazer, desde já, para o construir. A mudança não é uma opção, é inerente ao próprio futuro, e as empresas foram e serão sempre motor da mudança. Capacitemo-nos, pois, todos, para liderar a mudança e construir o futuro. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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O FUTURO DO SECTOR BANCÁRIO: PROFUNDA TRANSFORMAÇÃO

PEDRO PEREIRA, PARTNER & MANAGING DIRECTOR DA BCG

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sector bancário deverá enfrentar ao longo dos próximos anos um período de profunda pressão e necessidade de transformação, despoletado por uma mudança chave nas necessidades e exigências dos seus clientes, que cada vez mais procurarão soluções e serviços personalizados, ubíquos e de fácil acesso em diferentes canais; um aumento das exigências regulatórias e de ‘compliance’, sobretudo na relação com clientes; a manutenção de um cenário de taxas de juro que limitará a rentabilidade e um aumento progressivo da concorrência de ‘players’ regionais ou de novos competidores/entrantes não tradicionais (ex. fintechs, e-/retailers,…). Os clientes bancários têm hoje como ambição ter uma experiência, junto do seu banco, similar aquela que lhes é proporcionada pelos nativos e/ou gigantes digitais – em qualquer lado, a qualquer momento, à distância de “1-click”

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e entregue de forma simples, intuitiva e customizada às suas necessidades. A abertura do sector estimulada pela nova diretiva PSD2 (Payment Services Directive) deverá viabilizar e agilizar a entrada de novas entidades e propostas de valor, de natureza diferente, ao longo da cadeia de valor, que geram riscos importantes de desintermediação, mas também oportunidades relevantes de parceria e cooperação que devem ser aproveitadas. O futuro dos bancos está nas suas mãos e dependerá da sua capacidade de se ajustarem ao novo paradigma, revendo o seu propósito de presença no mercado e nível enfoque nas necessidades reais do cliente. Este novo contexto de mercado, exigirá aos bancos a definição de uma visão mais disruptiva para a transformação do seu modelo de negócio, assegurando a combinação de soluções digitais para rapidez e conveniência com o toque “humano” para momentos da verdade, a incorporação de tecnologia e analítica nos processos para assegurar um serviço homogéneo


e personalizado em qualquer canal a um custo eficiente e a criação de novas propostas de valor, que sirvam e cuidem o cliente para lá das suas necessidades bancárias, tornando-os assim mais relevantes no quotidianos dos seus clientes. Os bancos terão de evoluir para modelos de distribuição omnicanal, combinando diferentes formatos de rede física e agências com um conjunto de canais remotos e/ou digitais que garantam uma experiência integrada e personalizada aos clientes e um ‘cost-to-serve’ mais reduzido. Entre os canais digitais, a convergência esperada para o canal Mobile, torná-lo-á a “nova porta de entrada” no banco e elemento central para da experiência e navegação do cliente dentro dos canais do banco. As jornadas, experiência e interação do cliente com banco serão totalmente digitais, permanecendo sempre um elemento humano presente, que garantirá a entrega experiência “figital” – combinando elementos físicos e digitais – que se traduza num caminho simples, intuitivo e sem descontinuidades. Esta experiência terá por base uma máquina operativa mais ‘smart’, que alavanque em novas tecnologias disponíveis (ex. robotização, automatização, inteligência artificial, …), para entrega de um serviço mais robusto, mais eficiente e presente junto do cliente. A exploração de todo o potencial dos dados, residentes no Banco e enriquecidos junto de fontes externas permitirá, à semelhança do já realizado em outros segmentos da indústria de retalho, desenvolver ofertas mais personalizadas de produtos

e serviços que passarão a ser apresentadas ao cliente de acordo com as suas características específicas, no contexto e momento certo a através de diferentes canais. Para tirar todo o potencial desses dados, os bancos terão de reforçar as suas equipas e competências em ‘advanced analytics’. A transformação do negócio ‘core’ dos bancos requererá uma progressiva mutação da identidade dos bancos em empresas com maior pendor tecnológico, incorporando de forma progressiva das novas capacidades e ‘skills’ e adoção em escala de novas formas de trabalho mais ágeis, colaborativas e analíticas, baseadas em plataformas mais flexíveis e modulares, que garantam à necessária capacidade de resposta no contexto de transformação do negócio, sobretudo digital. Finalmente, a criação de novos modelos de negócio, que extravasem a oferta tradicional bancária, através de novas propostas de valor digitais, desenvolvidas com base em ecossistemas, e na identificação de parceiros relevantes (ex. Fintechs, re/e-tailers, …), poderão assegurar aos bancos uma real fonte de diferenciação que garanta uma relação mais relevante com cliente, uma maior frequência de contato, um melhor conhecimento dos clientes e geração fontes de valor adicionais. O sector bancário enfrenta assim, provavelmente, um dos períodos de maior disrupção da sua história, que requererá uma transformação profunda dos seus agentes, mas que gerará também um conjunto alargado de oportunidades e cada vez mais acessível a todos os tipos de bancos e entidades. l 53


JORGE MAGALHÃES CORREIA, CHAIRMAN & CEO DA

FIDELIDADE

OS DESAFIOS PARA A INDÚSTRIA SEGURADORA

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indústria seguradora, tradicionalmente conservadora e estável, enfrentará nos próximos 10-15 anos uma profunda transformação, cujos primeiros passos se encontram já em marcha. Essa transformação estará ancorada em quatro grandes mudanças ou desafios: consumidores cada vez mais exigentes, inovação tecnológica e digital, entrada de novos ‘players’ e uma evolução regulatória cada vez mais exigente. O mercado global tornar-se-á cada vez mais digital, mais ligado e mais personalizado. Este novo paradigma digital, influenciado, em grande medida, por gigantes tecnológicos como Google, Facebook e Amazon, redefine e ancora as expetativas dos consumidores que utilizam este tipo de serviços de forma diária. Com efeito, a exigência dos consumidores face às demais instituições com que interagem – incluindo as companhias de seguros – aumentará radicalmente em termos de simplicidade, rapidez, conveniência, personalização de acordo com as preferências e comportamentos individuais, interatividade colaborativa e remota e adaptabilidade em ‘real-time’. A inovação tecnológica e digital será também um dos grandes vetores de revolução na indústria seguradora. Por um lado, a crescente disponibilização de informação, seja através de redes sociais, seja através de sensores e dispositivos que recolherão cada vez mais dados – como andamos, como conduzimos, como comemos, como dormimos, etc. – permitirá às seguradoras um muito melhor conhecimento dos clientes – com evidentes repercussões na qualidade da avaliação do seu risco – e uma maior frequência de contacto e disponibilização de serviços de valor acrescentado. Ao conhecerem melhor os seus clientes, as seguradoras poderão prestar-lhes um serviço mais completo, criando “ecossistemas” de produtos e soluções ubíquos que enderecem a totalidade das necessidades dos clientes num determinado âmbito. Por outro lado, a tecnologia também despoletará uma transferência das fontes de risco em alguns campos da atividade seguradora bem como o surgimento de novas formas e tipos de risco (ex.: ciber risco). O exemplo provavelmente mais badalado é o do seguro automóvel com a

emergência dos carros autónomos ou altamente autónomos, que se esperam vir a ter um peso material no parque daqui a 10-15 anos, e que transferirão a raiz do risco de acidente do elemento humano para o elemento tecnológico, que poderá residir no fabricante da viatura ou no fornecedor do ‘software’. Esta transferência de risco irá transformar radicalmente o paradigma do seguro automóvel que tem vigorado até hoje… mas não se cingirá a este ramo, seguramente. Por último, mas não menos importante, a tecnologia potenciará fortemente a otimização de modelos de negócio, tanto no ‘front-end’, como na operativa e processos de ‘middle’ e ‘back-office’ (robotização de processos; otimização da subscrição, gestão de sinistros ou fraude com base em analítica e ‘machine learning’; agilização na resposta e no tratamento de reclamações, etc.). Aliada a esta disrupção tecnológica e digital, tornar-se-á cada vez mais intenso o surgimento de novos ‘players’ na indústria seguradora, de índole marcadamente tecnológica – as denominadas ‘insurtechs’, que ameaçam as companhias de seguros incumbentes com propostas de valor inovadoras e novas formas de interação com clientes. As próprias gigantes tecnológicas começam a perfilar-se como potenciais ‘players’ de seguros, tendo como potenciais vantagens competitivas uma capacidade de processamento de dados em tempo real e uma quantidade de dados armazenados inigualáveis. Por último, as exigências regulatórias tenderão a aumentar, em linha com um aumento do nível de escrutínio e regulação aplicado ao setor financeiro e, inevitavelmente, pela necessidade de acompanhar o crescimento da complexidade e diversidade de modelos de negócio e respetivos participantes. Em suma, nos próximos 10-15 anos antevejo desafios enormes para a indústria seguradora, que seguramente terá também implicações adicionais no palco competitivo, não só pela entrada de novos ‘players’, como referido acima, mas também pela própria reorganização e consolidação de seguradoras tradicionais, cuja sobrevivência de forma individual nalguns casos se tornará insustentável. Não tenho dúvidas que em 20302035 o setor de seguros terá uma paisagem e figurino muito diferente daquele que apresenta hoje em dia. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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O FUTEBOL E O TEMPO

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FERNANDO GOMES, PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL

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onvidado a escrever sobre o futuro do mundo do desporto e ainda mais particularmente do futebol recordo um adágio popular que nos diz que quem aprende com os seus próprios erros é inteligente; quem aprende com os erros dos outros é sábio. Como Presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) olho para o futuro com o otimismo de quem sabe que a inovação será uma peça chave nos próximos anos e com a clara consciência de que o imobilismo redundará na irrelevância. Gestor de uma atividade que não se resume às suas fronteiras, arriscaria deixar algumas pistas sobre as áreas em que prevejo verdadeiras mudanças de paradigma que todos teremos de saber acompanhar. Na performance desportiva teremos uma cada vez maior predominância da área médica. Se o futebolista dos dias de hoje não tem nada a ver com o de há quarenta anos isso também se deve à evolução da medicina desportiva, à prevenção e tratamento de lesões, à melhoria de índices físicos do atleta que é a base da pirâmide no desporto. Considero que a sustentabilidade ambiental será igualmente um dos pontos no qual assentará o desenvolvimento desportivo. Estádios de fibra de carbono que permitem transmutações espaciais; infraestruturas desportivas com menor pegada ambiental que permitirão a sua edificação no centro das cidades; utilização massiva do relvado sintético na formação são apenas algumas das mudanças que têm permitido, à volta de todo o mundo e em Portugal, uma maior aproximação do futebol a um espetador que é, cada vez mais, o centro da atividade desportiva e o verdadeiro decisor em relação aos caminhos que o futebol terá

de trilhar. A tecnologia será outro dos vetores essenciais de um futuro já tão próximo. A introdução do vídeo árbitro como instrumento de credibilidade, que já tinha sido iniciado no rugby e no ténis, será decisivo no futebol. A diminuição do erro centrará o desporto na sua própria atividade, não dando margem de manobra a uma discussão estéril sobre arbitragem que nenhum bem trouxe à nossa modalidade e que, pior, não alargou a sua base de adeptos. Não serão estas as únicas mudanças tecnológicas de fundo. Terei, até porque é um caminho que já está a ser feito na FPF, de dar um enfoque especial aos e-sports que caminham para ser tão populares como os desportos realistas. A sua base de adeptos é indiscutivelmente alargada e tem demonstrado uma enorme resiliência e capacidade de se afirmar nos mercados de entretenimento. Quando o desporto e os e-sports se juntarem as federações quebrarão, nas próximas décadas, todos os recordes históricos de praticantes. Sabendo que nenhuma mudança será tão drástica como aquela que se está a operar no domínio dos direitos televisivos e comerciais do desporto, considero que estas mudanças de paradigma tecnológico também se refletirão nas transmissões televisivas e, consequentemente, no financiamento do desporto. Prevejo que inevitavelmente as cadeias de televisão perderão algum espaço à medida que federações, ligas, jogadores e fans aprofundarem o seu caminho de produtores de conteúdos sem mediação de jornalistas ou até comentadores. As grandes plataformas ‘online’, como o google, Facebook ou os canais pay per view poderão ser grandes detentores de direitos nos melhores produtos televisivos desportivos. Os fãs terão acesso a conteúdos por multiplataformas e poderão até escolher e personalizar as perspetivas através das quais assistem ao futebol. Teremos um futebol mais dirigido ao adepto que é também cliente e principal alvo do marketing e comunicação desportivos Parece-me que o futuro continuará, no entanto, no futebol e no desporto, assente em valores milenares. Todas as perspetivas do futuro não terão acolhimento se não assentarem na credibilidade, honestidade, boa gestão e talento. Tem a palavra o tempo. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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O TURISMO DAQUI A 15 ANOS

P OR OCASIÃO D OS 15 ANOS DA C V&A, FUI DESAFIAD O PELO AMIGO E C O N T E R R Â N E O A N T Ó N I O C U N H A VA Z , PA R A U M E S C R I T O , E S C R I T O E S T E Q U E S E I N T I T U L A P O R S U A S U G E S TÃ O : C O M O S E R Á O T U R I S M O D A Q U I A 1 5 A N O S ? . . .

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BERNARDO TRINDADE, EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DO TURISMO

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eria relativamente fácil formular um conjunto de hipóteses, porquanto me vinculavam apenas a mim. Seria, contudo, relativamente imprudente apontar um único caminho num mundo consumido pela espuma dos dias e demitido de uma reflexão mais profunda. Finalmente seria terrivel desenhar uma única solução para uma atividade que é hoje e cada vez mais um mosaico de outras atividades: do ponto de vista setorial, espacial e temporal. Partindo deste pressuposto, e por se tratar de um aniversário de uma agência de comunicação de um amigo que muito estimamos, desafiei, um conjunto de outros amigos, que criam diariamente valor na área do turismo, para que eles, de modo próprio, dessem o seu contributo. Esta decisão resultou no reconhecimento de que hoje o turismo é uma causa nacional, provavelmente a razão primeira da nossa recuperação coletiva, com a consciência de que este sucesso não é atribuível a uma única região, ou a um único grupo, ou até a uma única pessoa: é hoje uma causa nacional, motivo de orgulho para todos os que apresentam e promovem Portugal pelo mundo fora. Por todos aqueles que procuram converter uma visita de 2 dias numa relação perene de 20 ou mais anos com o nosso país. Assim, calcorreei Portugal de lés-a-lés, comecei pelos Açores, e pela Marta Bensaude. Diz-nos ela que o turismo será acima de tudo uma forma de socializar o mundo numa era digital e de realidade virtual. Da Madeira, o António Trindade, CEO do PortoBay, fala-nos de uma evolução do turismo de um ‘happening’ para uma ‘commodity’, no fundo numa passagem de um acontecimento fortuito para um hábito. Possível com mais informação e partilha. O Gonçalo Rebelo de Almeida do Vila Galé profetiza o turismo como o permanente motor da economia portuguesa, onde a comunicação será fundamentalmente digital e acessível a todos. Sinaliza ainda que o turismo será sempre o garante da harmonia e interligação entre os países e encontro de culturas. A Cristina Siza Vieira, Vice-Presidente executiva da AHP, assevera que o turismo pode ser o grande eixo económico e

social na Europa daqui a 15 anos se a Europa continuar ligada num projeto comum. O Raul Martins, Presidente da AHP e do Grupo Altis, entende que o turismo daqui a 15 anos estará mais estratificado e com acesso condicionado a um maior número de locais. O Frederico Costa, responsável pelas Pousadas de Portugal, assustado pelo facto de em menos de 60 anos o Reino Unido e a França passarem de 2º e 3º economias mundiais para 6º e 7º respetivamente, diz: vamos ser engolidos pelos chineses. Toca a assegurar ligações aéreas diretas. O José Teotónio, CEO do Grupo Pestana, refere que o turismo será uma indústria muito mais sustentável e com uma contribuição fundamental para a compreensão entre povos, sendo por isso uma indústria decisiva para a paz. Finalmente, e porque quero contribuir para esta reflexão conjunta, dizer que espero um setor cada vez mais transparente nos próximos 15 anos: não só os prestadores de serviços turísticos serão mais escrutinados, mas integraremos nessa equação de escrutínio os próprios clientes. Os clientes terão ‘rating’, e a partir desse ‘rating’ ser-lhes-á aplicada uma tarifa. Como é que se consegue? Com atribuição de classificação por valores éticos e comportamentais que resultam da experiência junto dos prestadores. Exemplo: vou a um restaurante caro pois tenho muito dinheiro, e convencido desse “poder” incomodo a restante clientela; esse comportamento dará lugar a uma classificação. Ou: hospedo-me num hotel, e insulto os empregados com ou sem razão aparente, e com isso perturbo o seu normal funcionamento. Esse comportamento dará lugar a uma classificação. E assim sucessivamente em qualquer experiência de serviço. Em suma, vejo o turismo cada vez mais contribuinte de bem-estar económico, social e ambiental, mas simultaneamente capaz de constituir-se como um veículo de adequação de comportamentos coletivos numa sociedade não poucas vezes egoísta e individualizada. Por fim, e não no fim, desejar a todos os colaboradores da CV&A, ao António Cunha Vaz, os maiores sucessos nas realizações que vai continuar a empreender. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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TURISMO EN LOS PRÓXIMOS 15 AÑOS

C O N M O T I V O D E 1 5 A Ñ O S D E C V & A , M I A M I G O Y PA I S A N O A N T Ó N I O C U N H A VA Z M E D E S A F I Ó A E S C R I B I R U N T E M A Q U E , A S U G E R E N C I A S U YA , SE TITULARA: ¿CÓMO SERÁ EL TURISMO DENTRO DE 15 AÑOS? ...

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BERNARDO TRINDADE, EX SECRETARIO DE ESTADO DE TURISMO

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abría sido relativamente fácil elaborar una serie de hipótesis que solo me comprometieran a mí. Pero también habría sido una imprudencia exponer una única visión del asunto, apremiado por la superficialidad de estos tiempos y privado de una reflexión más profunda. Y además, sería terrible señalar un único camino para una actividad que, hoy por hoy y cada vez más, constituye un compendio de otras actividades: desde el punto de vista sectorial, espacial y temporal. Partiendo de esta premisa, y por tratarse del aniversario de una agencia de comunicación de un amigo muy apreciado por todos, desafié a un grupo de amigos que añaden valor cada día al sector del turismo a que aportaran su propia visión sobre el tema. Esta decisión fue fruto de la convicción de que el turismo es hoy un asunto de interés nacional, probablemente la base fundamental de nuestra prosperidad colectiva, consciente de que ese éxito no se debe a una sola región, ni a un único grupo, ni siquiera a una sola persona: es hoy un asunto nacional, un motivo de orgullo para todos los que dan a conocer y promocionan a Portugal por todo el mundo. Para todos los que desean que una visita de dos días se convierta en un vínculo de 20 o más años con nuestro país. Por eso crucé todo Portugal de cabo a rabo, empezando por las Azores y por Marta Bensaude. Ella nos cuenta que el turismo será, ante todo, una forma de socializar el mundo en una era digital y de realidad virtual. Desde Madeira, António Trindade, CEO de PortoBay, nos habla de la evolución del turismo desde una “experiencia” hasta un “producto”; lo que, en el fondo, significa el paso de ser un acontecimiento casual a un ser hábito. Esto es gracias a un mayor posibilidad de acceder a la información y de compartirla. Gonçalo Rebelo de Almeida de Vila Galé augura que el turismo será el permanente motor de la economía portuguesa, donde la comunicación será fundamentalmente digital y accesible para todos. También señala que el turismo siempre será el garante de la armonía y los lazos entre los países y del encuentro de culturas. Cristina Siza Vieira, vicepresidenta ejecutiva de AHP, dice que el sector turístico puede ser el principal eje económico y social

de Europa en los próximos 15 años, si Europa permanece unida en un proyecto común. Raul Martins, presidente de AHP y Altis Group, cree que el turismo en 15 años será más compartimentado y con una entrada limitada a un mayor número de lugares. Frederico Costa, jefe de Pousadas de Portugal, alertado por el hecho de que en menos de 60 años, el Reino Unido y Francia se han movido de las economías del 2° y 3° mundo al puesto 6° y 7° respectivamente, advierte: vamos a ser absorbidos por los chinos. Tenemos que asegurar unas conexiones aéreas con vuelos directos. José Teotónio, CEO de Pestana Group, dice que el turismo será una industria mucho más sostenible y que contribuirá de manera esencial al entendimiento entre los pueblos, erigiéndose así en una industria decisiva para la paz. Finalmente, deseo contribuir a esta reflexión conjunta diciendo que yo espero que el turismo se convierta en un sector cada vez más transparente en los próximos 15 años: no solo los proveedores de servicios turísticos estarán más vigilados, sino que también integraremos en esa ecuación de escrutinio a los propios usuarios. Los clientes estarán sometidos a una valoración, y a partir de ese “rating” se les aplicará una tarifa. ¿Cómo se logrará eso esto? Dándoles una calificación según sus valores éticos y su comportamiento como clientes en su relación con los proveedores. Ejemplo: voy a un restaurante caro porque tengo mucho dinero y, convencido de este “poder”, molesto al resto de los comensales; ese comportamiento dará lugar a una calificación. O bien: me alojo en un hotel e insulto a los empleados, con o sin razón aparente, y con eso perturbo su normal funcionamiento. Este comportamiento será calificado. Y así sucesivamente, en cualquier experiencia de servicio. En resumen, lo que veo es que el turismo contribuye cada vez más al bienestar económico, social y ambiental y, al mismo tiempo, es capaz de erigirse como una vía para adecuar los comportamientos colectivos de una sociedad no pocas veces egoísta e individualista. Por último, quiero desear a todos los colaboradores de CV&A y António Cunha Vaz los mayores éxitos en todos los proyectos que continúen emprendiendo. l

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CORTIÇA O MONTADO COMO GARANTE DO FUTURO DA CORTIÇA

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ais uma revolução está prestes a acontecer no setor da cortiça. O Projeto de Intervenção Florestal, liderado pela Corticeira Amorim, vai alterar a médio prazo o panorama da floresta de sobro nacional. Tempos mais curtos de extração de cortiça e o adensamento das áreas florestais de sobro são apenas algumas das linhas de atuação deste Projeto que, desde há algum tempo, vem sendo desenvolvido na empresa e que se considera absolutamente estratégico para a robustez da floresta e para a sustentabilidade de todo o setor. A ambição de elevar o perfil da cortiça - enquanto matéria-prima que agrega cultura, sustentabilidade e performance técnica tem contribuído decisivamente para a divulgação mundial deste material. Tal aspiração impulsiona uma visão abrangente do mundo e das novas oportunidades que dele podem surgir. A cortiça é um material cujas características intrínsecas o tornam verdadeiramente singular. Tendo como missão “acrescentar valor à cortiça, de forma diferenciada e inovadora, em perfeita harmonia com a Natureza”, a Corticeira Amorim, principalmente a partir do séc. XXI, tem investido como nenhum outro ‘player’ na qualidade das suas soluções e, através de I&D e Inovação, no desenvolvimento de produtos inesperados, de grande valor acrescentado para o mercado, a base para a reinvenção de um recurso natural excecional. A liderança atual do setor da cortiça assenta, desta forma, num investimento muito sólido em inovação, que tem permitido à Corticeira Amorim fornecer soluções de ponta para algumas das indústrias mais exigentes do mundo, a partir de uma matéria-prima 100% natural e 100% reciclável. Cientes, mais do que nunca, do valor que a cortiça aporta às diferentes indústrias, o desafio agora é o de nos focarmos na floresta, fazendo um percurso semelhante ao do conhecimento científico do material. I&D e Inovação, parcerias com centros de saber e organizações diversas, permitir-nos-ão, a prazo, garantir também a competitividade do sobreiro, uma espécie florestal que se apresenta pouco atrativa para o proprietário florestal, se avaliada no curto prazo. E, foi com o propósito de contribuir para a vitalidade da

floresta de sobreiros e de assegurar a qualidade dos produtos dela derivados, que iniciamos em 2013 um ambicioso Projeto de Intervenção Florestal, que tem como principal finalidade procurar soluções para os principais desafios enfrentados por esta floresta. Esta é uma iniciativa ampla, que engloba diversas áreas de atuação estratégicas, agregadas em quatro vetores: desenvolvimento de sistemas de irrigação melhorados, sequenciação do genoma do sobreiro, melhoramento do sobreiro e combate a pragas e doenças. No âmbito do projeto, têm sido promovidos vários projetos de investigação, com especial enfoque na micro irrigação de sobreiros que visa acelerar o crescimento inicial da árvore, reduzindo o tempo para o início da extração da cortiça – de 25 para 10 anos – e assegurando, simultaneamente, maiores taxas de sucesso das plantações. Em 2017, a primeira plantação estruturada de 50 hectares de sobreiros foi apresentada no contexto do Projeto de Intervenção Florestal, numa iniciativa feita com o total envolvimento científico da Universidade de Évora. De agora para a frente, e depois do sucesso das experiências anteriores, a Corticeira Amorim vai liderar a implementação das novas plantações de sobreiros, que se espera alterem, de forma positiva, a mancha da floresta nacional. Numa floresta onde tudo acontece a longo prazo, o futuro da Corticeira Amorim prepara-se hoje e é nossa convicção que este projeto, já iniciado, será decisivo para a sustentabilidade de toda uma fileira, que dá a Portugal a liderança mundial. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

ANTÓNIO RIOS DE AMORIM, PRESIDENTE E CEO DA CORTICEIRA AMORIM

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PORTUGAL O FUTURO DEIXOU DE SER O QUE ERA

PEDRO MOTA SOARES, DEPUTADO CDS-PP

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s previsões que ficam para a história são as que falham desastrosamente. Como a de Robert Metcalfe, inventor da Ethernet, que dizia em 1995 que a internet iria colapsar em 1996, ou o futuro risonho da família Jetson, nos desenhos animados, no qual, por esta altura, todos teríamos

carros voadores. As previsões falham quase sempre de duas formas. A primeira porque não incorporam o potencial de transformação à sua frente – “disruptivo”, como agora se diz. Exemplo: William Orton, presidente da Western Union afirmava que o telefone tinha demasiados constrangimentos para ser uma forma de comunicação. A segunda, porque dá demasiada importância a uma possibilidade, projetando um futuro em que um só fator faz toda a diferença. Outro exemplo, o do fundador da companhia de aspiradores Lewyt que previa, em 1955, que numa década estes eletrodomésticos seriam alimentados a energia nuclear. Tudo isto se reduz na Lei de Roy Amara: sobrestimamos o efeito duma tecnologia no curto prazo e subestimamos o seu efeito a longo termo. E constatamos isto mesmo quando olhamos para o que o mundo mudou nos últimos 15 anos. Começava a Guerra do Iraque e, apesar dos ataques do 11 de Setembro, não se duvidava da supremacia política, militar e económica dos EUA. Na Europa o alargamento prosseguia, com vários países a celebrar a sua entrada na União Europeia. Hoje, entre a China e o Brexit, tudo parece tão distante. Em 2003, o mundo não tinha Facebook, que só seria lançado no ano seguinte, nem sequer o IPhone, que só apareceria quatro anos mais tarde. Não existia YouTube e a Netflix ainda enviava os DVD por encomenda postal. Sem Uber ou sequer GoogleMaps, a forma como comunicávamos, nos relacionávamos, víamos um filme ou as notícias parece agora que foi a um século de distância. Se o futuro nos parece estar a acelerar, é porque está mesmo a acelerar. Durante grande parte da história da Humanidade a experiência foi local e linear e hoje é global e exponencial. Como

explica Ray Kurzweil, não se trata de mais um degrau igual ao anterior, mas de uma multiplicação. Quando o genoma humano começou a ser sequenciado, os peritos previam que iria demorar milhares de anos a ser concluído, mas foi terminado há 15 anos. A previsão considerou tudo menos a aceleração da mudança e a evolução dos próprios processos. Tudo isto torna uma previsão a 15 anos quase impossível. Podemos apenas falar do que é provável ou possível. Se o modo como nos relacionamos e a relação com o consumo mudou, é provável que o modo como trabalhamos, aprendemos e vivemos também tenha de mudar. A capacidade de adaptação, de ligar questões diferentes para encontrar soluções radicalmente novas, vai ser essencial para uma pessoa, empresa ou país. É mesmo “a” competência estratégica essencial. Não se pode travar administrativamente o futuro. Portugal tem alguns trunfos para os próximos 15 anos. Uma dimensão média e uma posição moderada capitalizável na atração do turismo, captação de investimento e traduzida em vários sucessos diplomáticos – como a eleição para o Conselho de Segurança da ONU, a Presidência da Comissão Europeia ou a eleição do Secretário-geral da ONU. Este ‘goodwill’ tem de ser aproveitado, num mundo com cada vez maior tensão e apreensão sobre o futuro. Outro trunfo é a possibilidade de reformas ágeis, um fenómeno chamado ‘leapfroging’, em que os saltos tecnológicos permitem recuperar atrasos de competitividade – como foi o caso dos serviços multibanco ou da via verde, em que Portugal liderou na inovação. Essencial é mesmo a preparação e reação à mudança. Antigamente, a mudança demorava uma ou muitas gerações a acontecer. Hoje, muitas mudanças vão acontecer no espaço da nossa geração. O ministro do Petróleo Saudita alertou numa cimeira da OPEP: “A idade da pedra não acabou por falta de pedras, e a idade do petróleo vai acabar muito antes do ficarmos sem petróleo”. A descoberta do Bronze fez a humanidade sair da idade da Pedra, da mesma forma que novas fontes de energia vão disromper a idade do petróleo. A questão que se nos coloca para os próximos 15 anos é mesmo essa: Estamos preparados para abraçar a mudança? l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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O RECRUTAMENTO NOS PRÓXIMOS 15 ANOS

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FERNANDO NEVES DE ALMEIDA, COUNTRY MANAGING PARTNER DA BOYDEN PORTUGAL

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ara assinalar os 15 anos da CV&A foi-me solicitado escrever um artigo que fizesse uma tentativa de projetar o que será a evolução do recrutamento e seleção ao nível de executivos nos próximos 15 anos. Para o fazer, vou permitir-me olhar para os últimos 15 e perceber como evoluiu e tentar, com base nisso, fazer algum tipo de “futurologia”. O recrutamento de executivos, como qualquer tipo de atividade de recrutamento, pode dividir-se em duas áreas distintas: identificação de potenciais candidatos (vulgarmente conhecido como recrutamento) e a escolha, dentro dessa amostra, do(s) candidato(s) mais adequado(s) (que se designa por seleção). Ao nível do recrutamento, as redes sociais, em geral, fizeram mudar o panorama nos últimos 15 anos. Hoje, a identificação de pessoas tornou-se muito mais proativa do que reativa. Mais digital do que analógica. Mais produtiva, por assim dizer. Em menos horas/homem identificam-se mais candidatos. Quero acreditar que nos próximos anos, mais ferramentas digitais irão surgir que tornarão o processo mais fácil, rápido e barato. Também não se deve deixar de considerar que a própria natureza do trabalho pode evoluir nesse período. Porventura mais funções serão desempenhadas por prestadores de serviços independentes (ou pequenas associações de prestadores) o que mudará, aos poucos, a natureza da contratação laboral como a conhecemos. Assim, em muitos casos, não se estará à procura de “empregados”, mas sim de pessoas que desempenhem determinada função, com a sua permanência ligada a resultados. É provável que a segurança venha a estar mais ligada ao desempenho do que a vínculos contratuais como hoje os conhecemos. Nestes casos, estaremos, por certo, mais à procura do que a pessoa fez, do que aquilo que a pessoa é. Ou seja, os critérios de recrutamento ou busca de candidatos será outro. No que respeita ao processo de seleção, embora não creio que haja muitas alterações nos métodos em si, acredito que

exista alguma alteração naquilo que se avalia. Por um lado, as ‘soft skills’ irão ter um maior lugar de destaque. Por outro, as competências ligadas à utilização do digital, também. Cada vez mais as ‘soft skills’ são procuradas a todos os níveis de recrutamento. Talvez porque cada vez haja mais pessoas tecnicamente bem preparadas e formadas, que torna a amostra maior, permitindo ser mais seletivo na avaliação das competências interpessoais. Outra projeção que se pode tentar fazer é relativamente à forma de recrutar. Tem-se vindo a notar um aumento da procura de serviços profissionais para o recrutamento e seleção de pessoas. Com a sofisticação e maior formação dos participantes no mundo empresarial, a procura por serviços profissionais tende a aumentar. No caso específico do R&S, os gestores e empresários cada vez estão mais conscientes do custo de oportunidade de recrutar mal. Assim, admito que nos próximos 15 anos o mercado de serviços profissionais nesta área cresça em Portugal e iremos, com certeza, ver algumas incursões no sector público, a exemplo do que se passa em países mais evoluídos economicamente do que o nosso. Cada vez mais a investigação na área da gestão e do comportamento organizacional vem mostrando que escolher bem as pessoas é um dos fatores de diferenciação sustentável das organizações. E escolher bem, não é escolher os mais inteligentes; é escolher os que melhor se adaptam ao funcionamento da organização e do meio. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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O FUTURO DO ENSINO PARA OS PRÓXIMOS 15 ANOS

DANIEL SÁ, DIRETOR EXECUTIVO DO IPAM – THE MARKETING SCHOOL

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mpressionante como desde os tempos mais antigos não assistimos a nenhuma revolução significativa na forma de ensinar e aprender. Ao longo dos vários séculos a economia, indústria, agricultura, sociedade, política, saúde, cultura, tecnologia e tantas outras áreas sofreram diferentes revoluções que alteraram com muito significado os destinos do mundo e das pessoas. Apesar de todas as inovações, e de algumas experiências arrojadas, o ensino continua a basear-se num modelo altamente conservador onde tipicamente alguém transmite os seus conhecimentos a um grupo de aprendizes num formato tipificado para se avaliar no final a eficácia dessa aprendizagem. Ora o mundo mudou. Muito. Demasiado nos últimos anos. Rápido. Muito rápido. As fronteiras, os países, as guerras, a medicina, o trabalho, as empresas, as famílias, as amizades, os relacionamentos, as políticas, a mobilidade, a habitação, a segurança ou a tecnologia. Claramente que vivemos hoje de uma forma diferente dos nossos pais. Que também eles já viveram de uma forma muito diferente dos nossos avós. Turmas, testes, aulas, horários, notas são conceitos que acredito terão novos significados nos próximos 15 anos. Diversos especialistas e instituições de diferentes áreas apontam várias tendências no futuro do ensino. Certezas e menos certezas são indicadas como tendências nos próximos 10, 20 ou 50 anos com a tecnologia destacada como o principal motor destas mudanças. Acho que vamos ver muito mais do que isso. Personalized learning, Project-based learning, Blended learning, Disruptive School, Growth Mindset, Digital Literacy, Teaching Empathy, Emotional Learning, Brain Based Learning, Adaptive Learning Algorithms, Alternatives to Letter Grades, Gamification ou Mobile learning são algumas das tendências identificadas para alterar o ensino nos próximos anos. A única coisa que podemos ter a certeza sobre o futuro, dada a velocidade com que a tecnologia evolui, é que muito em breve o mundo será muito diferente do que é hoje. Enquanto todas essas mudanças ocorrem, os sistemas de educação ainda continuam muito parecidos ao que eram no passado: massificados, segmentados e com sistemas de avaliações que privilegiam a capacidade dos estudantes para memorizar. Dentro das várias tendências apontadas para o futuro da educação estou certo que algumas se vão concretizar nos próximos 15 anos. Os espaços. As salas de aula vão assumir novas funções: ao invés de serem destinadas apenas para o ensino teórico terão cada vez mais como objetivo a experiência prática. A aprendizagem teórica será gradualmente transferida para plataformas digitais e a formação prática em sala de aula assumirá maior importância

com o apoio de professores, mentores e tutores. Aprendizagem personalizada. Os estudantes vão aprender com novas ferramentas que se adaptem às suas próprias capacidades, desejos e motivações, podendo acontecer em tempo e locais diferentes. Isso significa genericamente que os alunos de elevado potencial serão desafiados com projetos mais difíceis e complexos e alunos com mais dificuldades terão a oportunidade de praticar mais, até que atinjam um nível adequado. Esta metodologia fará com que os professores tenham uma maior capacidade de entender e adaptar as necessidades individuais de cada aluno. Livre escolha. A maioria dos estudantes terá a liberdade de modificar o seu processo de aprendizagem, escolhendo as áreas que desejam aprender com base nas suas próprias preferências e poderão selecionar diferentes dispositivos, programas, professores, escolas e técnicas que julgarem necessários para personalizar o seu processo de aprendizagem. Aplicabilidade prática. O conhecimento não ficará apenas na dimensão teórica, já que o estudante será desafiado a colocar em prática através de projetos e experiências diversificadas para que adquiram o domínio da técnica e também pratiquem organização, trabalho em equipa ou liderança. Avaliação. A forma como o sistema tradicional de perguntas e respostas funciona, não é eficaz, pois muitos alunos apenas memorizam conteúdos para os esquecer no dia seguinte após a avaliação. Este sistema não avalia adequadamente o que realmente o aluno é capaz de fazer com aquele conteúdo na prática, por isso, a tendência é que as avaliações passem a assentar na realização de projetos reais, com os alunos colocando os seus conhecimentos em situações desafiadoras. Da minha parte, enquanto profissional com mais de 15 anos no ensino superior, espero ansiosamente que o futuro chegue rápido. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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SER UMA CIDADE INTELIGENTE

DUARTE CORDEIRO, VICE-PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

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tema das cidades inteligentes é hoje um dos mais relevantes quando pensamos no futuro e em inovação. Uma das grandes tendências futuras é o aumento da população urbana, que nos colocará enormes desafios em termos de sustentabilidade económica, ambiental e social. A ONU estima que em 2030 cerca de 60% da população viva em contexto urbano. A esta tendência devemos acrescentar o problema crescente das alterações climáticas que implicarão mudanças na gestão dos recursos e na adaptação do território. As cidades, mas também sectores ligados à investigação e às empresas, têm a expectativa que a inovação tecnológica permita gerir melhor estas mudanças e encontre soluções para alguns problemas que sentiremos em contexto urbano. Hoje, ser uma ‘smartcity’ significa ter a capacidade de utilizar tecnologia e informação para melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos, reforçar a resiliência do território e aumentar a competitividade da sua economia. Várias cidades têm desenvolvido e testado projetos tecnológicos e a evolução tem sido exponencial. Em Lisboa, temos estruturado o tema das cidades inteligentes em alguns pilares. Um dos pilares diz respeito à informação. Uma cidade tem de ter acesso a informação relativa ao seu funcionamento e tem de saber gerir os dados que resultam dessas leituras. Para o fazer tem de decidir quais são as áreas e os dados que lhe permitem ter uma avaliação do estado da cidade em tempo real. Para além disso, tem de integrar os dados dessas várias áreas num único ‘software’ para poder ter uma leitura de conjunto, uma análise descritiva, poder antecipar situações, uma análise preditiva, e dessa informação poder adoptar decisões ou estratégias, uma análise prescritiva. A analítica dos dados é


determinante para que da informação resultem melhorias na forma como a operação é gerida e os problemas são antecipados. A este nível, Lisboa tem em curso a implementação de uma Plataforma de Gestão de Dados Urbanos, num contrato com a multinacional NEC, e o Centro Operacional Integrado (COI), que será uma sala de controlo que nos permitirá ver, em tempo real, todos os aspetos críticos da vida da cidade. Para além desta observação e analítica, o COI terá uma segunda missão que implica assumir a gestão da cidade em momentos críticos, permitindo decisões mais rápidas e informadas. Outro dos pilares diz respeito aos dados abertos (Open Data). Lisboa criou o Portal de Dados Abertos com mais de 300 conjuntos de dados, sejam da cidade ou de parceiros com quem temos protocolos. Esta ferramenta alavanca a investigação e a inovação permitindo que novas soluções e estudos nasçam a partir dos dados abertos. Para demonstrar a potencialidade dos dados e para estimular a inovação temos em curso programas de inovação aberta, como o “Smart Open Lisboa”, em parceria com a Beta-i e com o envolvimento de organizações como o Turismo de Portugal, a Cisco, a NOS, a SCML ou a Axians, e vamos criar o Laboratório de Dados Urbanos de Lisboa, em parceria com as universidades de Lisboa. Mas uma estratégia inteligente numa cidade estaria incompleta sem o pilar da participação. A tecnologia que introduzimos e a informação que dispomos pode ser determinante para melhorar a eficiência de uma cidade, para estimular a inovação e a investigação, mas também deve promover a participação e aproximar as soluções das pessoas. Quando as soluções que introduzimos conseguem ter uma dimensão participativa o potencial transformador é muito superior. Quando criámos a obrigatoriedade para os bares ou discotecas da cidade, que

pretendem ter música a partir das 23 horas, instalarem um limitador de ruído nos seus sistemas de som, calibrados por um exame acústico, com leitura ‘online’ e em tempo real, queríamos no imediato garantir a monitorização do ruído mas também aumentar a eficácia da fiscalização da polícia municipal e da divisão do ambiente. Se começarmos a enviar mensagens de texto para os proprietários dos bares e discotecas quando o ruído ultrapassa o limite definido, antes da polícia municipal lá passar, estamos a dar a oportunidade de participação dos proprietários para que o seu comportamento mude. Quando instalamos sensores de estacionamento na cidade e integramos com a app Epark da EMEL queremos assegurar que fiscalizamos os veículos estacionados em lugares não pagos, mas tornando essa informação disponível conseguiremos diminuir as segundas filas e o consumo de energia dos carros que estão em marcha lenta à procura de lugar. Libertar informação e dar a oportunidade de participar permite que os cidadãos percebam a importância da tecnologia na melhoria da sua qualidade de vida. A estratégia que Lisboa segue não inviabiliza aprendizagens, colaborações e partilhas com outras cidades, beneficiando do que têm feito. Lisboa faz parte de um consórcio europeu com Londres e Milão, chamado ‘Sharing Cities’, onde participam várias entidades portuguesas nossas parceiras, como o IST, a EDP-D, o CEiiA, a EMEL, a Altice Labs, a Lisboa E-Nova e a Reabilita, cujo objetivo é testar tecnologia para depois escalar e ganhar dimensão internacional. O projeto dos sensores de estacionamento é um bom exemplo. Lisboa tem vindo a preparar-se para o futuro e tem visto o seu caminho ser reconhecido ao ter sido selecionada como Capital Europeia Verde em 2020 e figurar entre as finalistas da Capital Europeia da Inovação em 2018. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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4ª REVOLUÇÃO INDUSTRIAL UM MUNDO NOVO

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PEDRO DUARTE, DIRETOR DA MICROSOFT

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unca a humanidade evoluiu tanto em tão pouco tempo. Apelidam estes tempos de quarta revolução industrial, porque, na verdade, tem similitudes com outros momentos de disrupção vivenciados nos últimos séculos. Fortemente impulsionados por avanços tecnológicos (a máquina a vapor, a eletricidade, os computadores…), estes saltos civilizacionais reconfiguraram a forma como vivíamos, como trabalhávamos e como nos relacionávamos. Contudo, há caraterísticas singulares nesta nova era. Identifico, essencialmente, duas. A velocidade exponencial com que se está a impor e a escalabilidade com que está a alastrar. Em poucos anos as mudanças são brutais, prevendo-se que o ritmo de transformação nas nossas vidas, pessoais, relacionais ou profissionais, não abrande. E a abrangência é globalmente holística! Sente-se, simultaneamente, em todas as regiões do mundo, impactando todos os setores das sociedades e das economias. É uma revolução que alguns apelidam de tecnológica. O que se compreende na medida em que é impulsionada pela inteligência artificial, pelo cloud computing, pela Internet of Things ou pelo blockchain. Mas é importante que se perceba que a verdadeira revolução não é tecnológica. Esta é, tão-só, o ‘enabler’ ou o combustível destas mudanças. A verdadeira revolução está na sociedade em rede, profundamente conectada e interligada, que estamos a consolidar. Onde estamos mais próximos de tudo e de todos, à distância de um clique. Este novo Mundo está a gerar oportunidades inimagináveis. O recurso a estas novas tecnologias tem permitido gigantescos avanços na área da saúde, seja na prevenção, diagnóstico ou terapia. Novos resultados no combate efetivo às alterações climáticas. Novas soluções na luta contra a pobreza e a fome globais. Novos recursos na economia, em áreas tão diversificadas que vão da produção agrícola ao comércio ‘online’, não excluindo qualquer área de negócio ou qualquer empresa, independentemente da sua dimensão. Novas respostas na investigação científica e novas dimensões na mobilidade e vida

urbana. Novos modelos no sistema financeiro e novos investimentos nas indústrias com capacidade de inovação. Novas formas mais eficientes de educar e formar e um novo acesso revigorado à fruição cultural. E, talvez o mais importante, um modo de vida reinventado que proporciona mais oportunidades de realização pessoal e uma maior equilíbrio e bem-estar para uma vida de qualidade por parte de cada indivíduo. Como sempre se verifica nestes processos de mudança, há novas ameaças que igualmente emergem. A este respeito, elencaria essencialmente três: em primeiro lugar, a transformação no mundo de trabalho que imporá uma forte vaga de requalificação dos recursos humanos. As novas dinâmicas promoverão a criação de inúmeras novas tarefas e novos empregos, mas não se ignora que há um processo de transição que tem de ser enfrentado com audácia e eficácia. Em segundo lugar, o risco de incremento de desigualdades no seio das sociedades. Os previsíveis aumentos na produtividade serão municiadores de riqueza, mas a concentração dos benefícios é um risco real que urge contornar. Por último, e não menos importante, dever-se-á olhar com acuidade para as potenciais ameaças relacionadas com a segurança e com a privacidade. Os novos meios ao dispor de indivíduos, organizações e Estados criam vulnerabilidades que poderão exponenciar riscos que ponham em causa a paz, tranquilidade e dignidade de todos nós. Novas respostas à escala global terão de ser encontradas no curto prazo. É certo que não devemos ignorar os riscos e a necessidade de atuar para os evitar. Contudo, o nosso foco deve estar nas oportunidades. Em particular para um País como Portugal, este tempo de mudança pode significar o salto de desenvolvimento e de sustentabilidade de que tanto carecemos. A transformação do paradigma económico pode colocar-nos na linha da frente dos Países mais desenvolvidos do globo, económica e socialmente. Temos os recursos necessários. Falta-nos um compromisso político alargado que dê prioridade a este desígnio e que execute medidas de choque na modernização do nosso sistema de ensino e formação, na promoção da inovação nas empresas e na criação de um ambiente favorável ao investimento. Todos devemos sentir-nos convocados para esta causa nacional. l

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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FUTURO OFICIAL

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JOÃO VASCONCELOS, EX-SECRETÁRIO DE ESTADO E DA INDÚSTRIA

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maginar o mundo daqui a 15 anos é uma tarefa que tem tanto de aliciante como de risco. Quando olhamos para atrás apercebemo-nos que há 15 anos estava a ser fundado o Facebook, que hoje tem biliões de utilizadores, o Google tinha apenas cinco anos e estava a começar a sua expansão e ainda faltavam cinco anos para o lançamento do Iphone, do Airbnb e da Uber e quase 10 anos para o lançamento do Ipad e da Tesla. Tudo tecnologias que usamos várias vezes ao dia, que alteraram a maneira como nos relacionamos e como produzimos. O exercício de imaginar o que vai existir mesmo daqui a cinco anos é arriscado. Podemos, sem dúvidas, apontar algumas pistas. As novas gerações vão lidar com computadores e com ‘software’ como outras lidaram com o automóvel, o telefone e com a televisão, não existirão fronteiras entre telemóvel, o ‘tablet’, o PC ou a TV. O ensino generalizado da programação e a inteligência artificial, por essa altura, vão permitir à humanidade criar e orientar máquinas e ‘softwares’ para a resolução de inúmeras tarefas perigosas, sujas e monótonas até então realizadas pelo ser humano. A noção de propriedade será muito diferente, provavelmente ninguém comprará um carro, uma bicicleta ou uma mota, mas pagará minutos de utilização de cada coisa de acordo com a sua necessidade naquele momento e naquele local. Garantidamente os carros autónomos serão comuns, fazendo com que uma viagem longa seja um óptimo momento de convívio familiar, de consumo de bens culturais e o momento privilegiado para realizar compras. A diminuição dos acidentes rodoviários será muito acentuada trazendo enormes benefícios para as comunidades. Gerações de idosos ou de adolescentes afastados da mobilidade independente poderão ter uma vida mais participativa, no caso dos idosos o

aumento da mobilidade vai trazer melhor acesso ao apoio social e médico bem como maior relacionamento com a família. Os camiões autónomos serão comuns e praticamente todo o sector de logística será autónomo e controlado por algoritmos, em Lisboa bastarão duas torres de drones para realizar qualquer entrega em menos de um minuto depois da sua compra. Sim, vamos comprar vegetais e praticamente tudo o que temos no frigorífico na hora, com imensas vantagens no consumo energético, tempo e desperdício alimentar. A impressão 3D e a realidade virtual farão parte de qualquer casa e todo o dinheiro será digital, terminando assim com grande parte da economia paralela. A segurança terá avanços gigantes com a disseminação da videovigilância inteligente ligada a bases de dados com capacidades extraordinárias de processar informação de maneira a prevenir comportamentos perigosos e a criminalidade mais comum. O ensino será muito diferente, será dada maior atenção às características individuais e ao seu potenciamento em detrimento da memorização e acontecerá ao longo de toda a vida activa. Os consumidores serão mais exigentes, acompanhando toda a concepção e produção do que adquirem e a preocupação ambiental será uma norma. Não existirá lugar para empresas e lideranças sem preocupações sociais, as empresas terão um papel muito para além da obtenção de lucro e a filantropia será algo muito frequente. O resultado da maior introdução de tecnologia na história será a valorização histórica de tudo o que só um Humano pode criar. Com a digitalização do comércio, da indústria, das relações pessoais, cada vez existirão mais momentos de relacionamento entre Humanos, os máximos históricos de participantes em concertos, feiras, museus, eventos são a prova disso. Tudo o que transmitir um sentimento só será produzido pelo Homem e vai ter um valor e importância inéditos. A prática de desporto e a preocupação por estilos de vida saudável serão práticas comuns. Muitas mais coisas acontecerão que não fazemos ideia. O que aqui vos escrevo é o Futuro Oficial, aquele que todos acreditamos que existirá, aquele que desejamos e para o qual a maioria vai trabalhar. Mas tenham uma certeza, o Futuro Possível será muito diferente, muitos sectores desaparecerão e muitos outros serão criados, na maior parte dos casos só muito tempo depois nos apercebemos dessas mudanças. Uma das poucas certezas que temos é que pela primeira vez na nossa história, Portugal está preparado para fazer parte desta mudança, o nosso ensino, os nosso empreendedores, etc.. Os exemplos da Farfetch, Vision-Box, Feedzai, Outsystems, Talkdesk e tantos outros mostram que pela primeira vez numa revolução industrial, Portugal tem empresas relevantes em termos mundiais. A Web Summit e as dezenas de investimentos estrangeiros nestas áreas, como o Hub Digital da Mercedes, da Google, da Amazon, da VW, Zalando, Pipedrive, entre outros, provam que Portugal tem tudo o que esta economia valoriza. Basta continuarmos a ser nós próprios e o nosso lugar de destaque na economia do Século XXI está assegurado. l

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MEMÓRIA

PORQUE O FUTURO SÓ SE CONSTRÓI COM BONS ALICERCES… O F U T U R O , PA R A A C V & A , C O N S T R Ó I - S E A S S E N T E E M A L I C E R C E S D E D I G N I DA D E , Q U E R E S U LT A M N A S E R I E D A D E D E P R O C E D I M E N T O S Q U E , P O R S U A V E Z , N O S FA Z E M T E R E X I G Ê N C I A N A F O R M A C O M O D E S E M P E N H A M O S A N O S S A F U N Ç ÃO : P R O F I S S I O N A L I S M O , N U M A PA L AV R A . E , P O R FA L A R D E F U T U R O , P O R FA L A R D O Q U E E S TÁ P O R V I R , N Ã O P O D E M O S D E I X A R D E FA L A R N A S N O S S A S O R I G E N S . M E L H O R Q U E N Ó S M E S M O S FA L A E ESCREVE QUEM SABE, PORQUE CONHECE COMO POUCOS DOIS DOS HOMENS QUE M A I S N O S M A R C A R A M E , I N F E L I Z M E N T E , J Á N Ã O E S TÃ O E N T R E N Ó S . C A R L O S OSÓRIO DE CASTRO E FERNANDO FIGUEIREDO RIBEIRO ESCREVEM OS DOIS TEXTOS S E G U I N T E S , E M F O R M A D E H O M E N A G E M A D O I S A M I G O S , R E S P E C T I VA M E N T E , J O Ã O S O A R E S DA S I LVA E R U I S E M E D O . E M A M B O S O S C A S O S O T E M P O Q U E PA S S A N ÃO A PA G A , E M M O M E N T O A L G U M , A F A LT A Q U E M E F A Z E M . T A M B É M P E L A I N T E G R I D A D E E P R O F I S S I O N A L I S M O , M A S SOBRETUD O PEL A AMIZADE. DAS REUNIÕES PROFISSIONAIS AOS MOMENTOS QUE S E M P R E PA R T I L H Á M O S J U N T O S , E M P O R T U G A L E N O E S T R A N G E I R O , R E S P E I TA N D O A F U N Ç ÃO D E C A DA U M , M A S PA R T I L H A N D O AQ U I L O Q U E S Ó S E PA R T I L H A C O M Q U E M S E R E S P E I TA . D I R I A M E S M O Q U E , N O C A S O D E S T E S D O I S A M I G O S , O T E M P O , S I M P L E S M E N T E , N ÃO PA S S A . PA R O U . NÃO ESQUECEMOS OUTROS, QUE JÁ NOS DEIXARAM E COM OS QUAIS TIVEMOS O G O S T O D E C O L A B O R A R E E S TA B E L E C E R L A Ç O S D E A M I Z A D E , C O M O A L B E R T O DA PONTE, AMÉRICO AMORIM, BELMIRO DE AZEVEDO OU HORÁCIO ROQUE. MAS CHEGA DE INTRODUÇÃO. DEIXO-VOS COM OS TEXTOS DE HOMENAGEM AO J O Ã O E A O R U I . S E I Q U E N Ã O S Ã O T E X T O S N O R M A I S M A S E S TA É U M A R E V I S TA ESPECIAL: DE ANIVERSÁRIO E, NORMALMENTE, INTERNA.

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João Soares da Silva 1953-2018

IN MEMORIAM J OÃO S OA R E S DA S I LVA

Pediram-me para, neste momento tão doloroso, dizer umas breves palavras sobre o João Soares da Silva, como colega de escritório e como amigo chegado. Quem me conhece sabe que não sou dado a solenidades. Mas ser escolhido para falar do João, é, ao mesmo tempo, um orgulho que não posso deixar de confessar, e um leve consolo nesta tristeza que me acompanhará para sempre. Posso dizer que fui realmente “um dos dele”; e, insisto, recordar o João em público, entre a sua Família, os seus amigos e os seus colegas, funciona como um leve bálsamo para esta sofrida solidão que sinto desde esse domingo fatídico. Enquanto profissional do mesmo ofício, não posso deixar de começar por aquilo que é mais óbvio: o João possuía um rol impressionante de qualidades, que fizeram dele um dos maiores advogados portugueses de sempre — qualidades essas de que logo me apercebi na única vez que o defrontei, e que a longa experiência de trabalho conjunto viria depois a confirmar em abundância. (Entre parêntesis, fica a nota de que, nessa singular ocasião, o João levou a melhor; e suspeito que, lá onde estiver — pela minha parte, sei bem onde está —, ele esboça nesta altura um sorriso entre o trocista e o divertido, tantas foram as vezes em que trazia o episódio à baila, só pelo prazer carinhoso de arreliar…). O João Soares da Silva não deu unicamente à nossa sociedade de advogados o seu nome: imprimiu-lhe qualidade, fibra, carácter e honradez. Certamente a sociedade promoverá, mais tarde, uma merecida e detalhada homenagem. Hoje, contudo, não cabem aqui senão uns traços a lápis grosso de alguns dos seus principais atributos. Em primeiro lugar, a inteligência. Não a que se expressa em lampejos imprudentes, ou na exibição de tiradas de grande efeito, mas antes a que enforma laboriosos e obsessivos processos de ponderação de todos os lados do mais pequeno problema; quaisquer riscos, por mínimos que fossem, eram advertidos de modo exaustivo, e para eles congeminava as necessárias cautelas, sempre com enorme subtileza e astúcia. Depois, logo a seguir, a criatividade. Seria tão redutor classificar o João como um “mouro de trabalho”...! Ele era isso, de facto, e exigia que o fossem também aqueles que com ele trabalhavam; mas, enquanto profissional, era sobretudo um arquitecto de construções geniais. Trabalhadores incansáveis mas apagados, há-os de sobra; tão pouco são em pequeno número os inspirados indolentes; o João, todavia, conjugava as duas virtudes (o empenhamento e o brilho) de modo superlativo, o que levava a que se destacasse mesmo dentro do núcleo restrito daqueles que as possuem a ambas. E que dizer do seu perfeccionismo? Mítico, infindável, exasperante; o bom, para o João, era realmente inimigo do óptimo, e com menos que o óptimo não se bastava: nada estava “feito”, para o João, até que

estivesse “perfeito”. Sobressaíam igualmente uma inesgotável paciência e tenacidade. Em vão porfiaria quem o quisesse vencer pelo cansaço. Lutador infatigável, com uma obstinação que para nós, os comuns mortais, raiava o sobre-humano, não dava nenhuma guerra por perdida, nunca concedia mesmo em aspectos que qualquer outro daria de barato, sempre lhe ocorria um golpe de asa que permitia plantar a semente da dúvida; e a essa incomparável perseverança ficaram a dever-se muitas das suas vitórias. De outra banda, a sua elegância - no trato pessoal, sempre cortez e cuidadoso; mas elegância também na escrita, que se lia, se lê e se lerá com proveito e prazer. Uma escrita torturada, mil vezes castigada e recomeçada, até que exprimisse com fidelidade o seu pensamento. Rigorosa, detalhada e tecnicamente perfeita, como se espera de um grande profissional; mas simultaneamente requintada, com o sentido literário e de gosto que se encontra nos bons escritores. Como sócio, recordá-lo-emos como um artífice de equilíbrios, permanentemente mergulhado na sua teia de Penélope, procurando ligar o passado e o futuro, a cultura, os valores e o progresso, o brilho e a consistência, o rigor e o sucesso. Todas estas enormes e raras virtudes empalidecem, porém, quando penso no João como o meu Amigo, como a pessoa boa com quem partilhei tantos momentos inesquecíveis. No fim da vida, reduzidos a um punhado de pó, interrogo-me muitas vezes sobre a bitola por que se mede adequadamente a valia da nossa existência. Pelos feitos que alegadamente nos libertam da morte, como dizia o Poeta? Creio antes que o maior testemunho da grandeza de uma vida nos é dado pela comoção, dor e tristeza daqueles que ficam. E, olhando à minha volta, essa grandeza está espelhada violentamente nos rostos de todos: nos que trabalharam com ele; nos que com ele saborearam longamente os vinhos de que mais gostava, nos que partilharam as suas viagens, os seus lugares, a sua casa, os seus quadros. Nos que o acompanhavam naquela sua enorme paixão pela Galiza, onde quis obstinadamente deitar o seu último olhar! Essa grandeza está, enfim, de um modo especial, nos olhos da Maria Inês, que para ele foi sempre tudo, que esteve sempre com ele em tudo, nas suas glórias e nas suas angústias. Olhando à volta, na verdade, vejo bem quanto valeu a sua vida, João! Choro-o, abertamente, sem procurar disfarçar; e como eu choram-no tantos outros, com uma saudade imensa, amputados irremediavelmente do privilégio e da benção que foi para nós a vida vivida a seu lado! l Lisboa, 8 de Agosto de 2018 Carlos Osório de Castro

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ui, meu Amigo,

Pediu-me o António Cunha Vaz que escrevesse umas palavras sobre um nosso grande Amigo comum – o Rui Semedo. É difícil escrever sobre um Amigo próximo que nos deixou cedo, demasiado cedo! Mesmo com o distanciamento que estes mais de 3 anos nos poderiam dar, é difícil não nos emocionarmos com a recordação de quem tanto nos tocou. Conheci o Rui há mais de 20 anos quando éramos ambos quadros do Banco Comercial Português. Ambos crescemos profissionalmente à medida que a instituição progrediu. A dada altura, cada um seguiu o seu caminho por diferentes entidades, mas o contacto manteve-se e tornámo-nos amigos próximos. Foi uma amizade recíproca e desinteressada como o são todas as verdadeiras. Ao escrever sobre o Rui poderia falar do grande profissional, do banqueiro, da sua integridade de carácter, do homem de família e do orgulho que tinha no que em conjunto construiu com a Concha, sua mulher ou do amigo de quem tenho uma enorme saudade. Achei no entanto, que ninguém melhor do que o próprio para se definir. Assim, mais do que meu, este texto é do próprio Rui. Deixovos, por isso, algo escrito por ele a pedido de um jornal e publicado no Verão de 2009: “Discreto, sou eu Isto é uma espécie de testemunho sobre a qualidade de ser discreto. Começo por afirmar que cultivo a discrição porque não consigo encontrar vantagens no contrário. É claro que, na base da visão prática do comportamento estão os seus fundamentos. Na minha estátua interior está inscrita essa marca. Conseguir encontrar no meu espaço reservado muita da compensação que outros só encontrarão fora deles mesmos. A natureza humana tem destas coisas e eu, olhando para a linha difusa que divide os campos, vejo-me muito mais do lado daqueles que caminham sem levantar muita poeira, que preferem observar com distanciamento, que desvalorizam a espuma porque adivinham que a essência está abaixo da superfície, enfim, do lado dos que praticam o comedimento e fogem à banalização, mantendo o ego sob apertado controlo. Sem dúvida que somos hoje escravos da imagem, do efémero e da velocidade. Viver neste estado de permanente transe, sem abdicar da consistência e do equilíbrio, é um desafio do quotidiano. Resistir à pressão para ir, para aparecer, para opinar, transformou-se num complexo exercício, difícil de resolver quando o palco tanto atrai. Parece que nada terá valor se não for acompanhado pela exposição, Curioso como a montra, feita para mostrar, pode esconder. Ser discreto é o contrário de ser exuberante ou ostensivo, mas não é, necessariamente, o oposto de ser vaidoso. É, isso sim, a recusa absoluta à vaidade sem fundamento, ao aplauso sem desempenho, à condecoração sem obra e à participação sem mérito. Os mais

discretos também gostam do aplauso, mas tem que ter por detrás uma razão efectiva, porque o aplauso não é um fim, mas a consequência natural do que se faz e não se dissolve no imediato. Se no plano pessoal a qualidade de ser discreto é um traço de carácter que, contrariado artificialmente, só descaracteriza e alarga o ‘gap’ entre o que se é e o que se parece, já no plano profissional a discrição é uma básica regra de conduta. Dependendo do que fazemos, assim devemos ajustar o nível de discrição. Se há atributos que decisivamente associo ao ser discreto, são eles a simplicidade e a sensatez. São simples as coisas e só o teatro lhes dá muitas vezes uma falsa aparência. A construção apressada de figuras, de estrelas, de elites, é apenas o resultado de um processo que afasta, que exclui, que desmobiliza e que dá em nada. Quanto mais pequeno o meio social em que nos movemos mais artificiais são as barreiras, menos simples as relações e mais perversos os resultados. Tudo é mais simples do que o fumo faz crer e é a sensatez que melhor nos revela as virtudes da discrição. Talvez contrariando a discrição que tento cultivar, acedi, com gosto, a fazer, para fora, esta pequena reflexão. Até porque a discrição é o que dela fazemos.” O Rui era assim, discreto na maneira de ser e de agir, homem de família e muito amigo dos seus amigos. Era esta a sua forma de estar que tanto cativava os amigos que fez ao longo da vida. Até sempre Rui. Obrigado por seres meu Amigo. l Fernando Figueiredo Ribeiro

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O FUTURO É DAQUI A 15 ANOS E ELES JÁ COMEÇARAM A CONSTRUI-LO

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KÁTIA CATULO

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o atravessar a Ponte Vasco da Gama, João Pedro Cunha entra na cidade das sirenes e das buzinadelas e deixa para trás a vila de Samouco, encostada ao Tejo e suspensa no tempo. A travessia une as margens do rio, entre Lisboa e Alcochete, mas também separa duas dimensões. Como se uma fosse o futuro e outra o passado. E ele precisa das duas para acelerar e desacelerar todos os dias. Ter tudo à mão, lojas, serviços, alguém que faz ou alguém que sabe quem faz. Cinemas e restaurantes abertos até tarde. Entrar numa estação de metro e sair num outro ponto da cidade sem perder tempo nem paciência. É o que ele vai buscar, em Lisboa, para estudar ou divertir-se com amigos. Ao final do dia ou da semana, João Pedro interrompe a rotina e regressa de autocarro até ao lugar onde os vizinhos conversam sem pressa, os miúdos jogam à bola nos becos e pracetas e os moradores dizem bom dia ao se cruzarem com conhecidos e desconhecidos. Tem alguma piada esta ideia de que o futuro vai e volta todos os dias sem grandes sobressaltos na vida de um estudante de 26 anos. Mas também pode embater de frente como quando Leonor Ramada espatifou o descapotável,

C I N C O U N I V E R S I TÁ R I O S A E S T U D A R E M L I S B O A , P O R T O E C O I M B R A A B R I R A M O P O R TA L D O T E M P O . S A LTA R A M AT É 2 0 3 3 E V O LTA R A M PA R A C O N TA R O Q U E S E R Á D I F E R E N T E . O S AVA N Ç O S N A S C I Ê N C I A S E A S N A S T E C N O LO G I A S I R ÃO P R OV O C A R T R A N S F O R M AÇÕ E S R Á P I DAS . O S T R A N S P O RT E S M OV E R-S E -ÃO A P E N AS A E N E R G I A S L I M PA S , O S E M P R E G O S S E R Ã O M A I S COMPETITIVOS E OS HÁBITOS DE CONSUMO VÃ O A J U S TA R - S E À E S C A S S E Z D E R E C U R S O S . A S M U D A N Ç A S S O C I A I S , E S S A S , S Ã O L E N TA S E I M P R E V I S Í V E I S . T U D O D E P E N D E D O S PA S S O S Q U E AG O R A S E DÃO.

oferecido pelos pais, contra um carro da polícia. Foi um aparato e tanto, mas tornou-se num daqueles momentos decisivos que provocam reviravoltas no estilo de vida. Agora, aliás, desde Janeiro, ela usa as Giras, bicicletas da rede partilhada da Câmara de Lisboa. “Acabaram-se os encargos, as dores de cabeça para estacionar e a culpa por usar um meio de transporte poluente”, reconhece a aluna de 23 anos. E ainda tem o bónus de sair do Príncipe Real e pôr-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 15 minutos, gastando somente 25 euros por mês. Pedalar nos altos e baixos de Lisboa é o presente dela e será, muito provavelmente, o futuro das cidades portuguesas, tal como já acontece em larga escala em Amesterdão, Berlim ou Paris. Bicicletas e carros partilhados são o que mais sentido vão fazer dentro de uma década ou menos: “O que hoje é uma mera tendência, tornar-se-á num hábito banal dos meios urbanos. “Haverá cada vez mais pessoas pouco interessadas em ter carro próprio e a usá-lo como se de um ‘status’ se tratasse”. Quem vive, estuda ou trabalha nas cidades, fica estafado só de pensar em estacionamento, gasolina e filas de trânsito. Ísis Bernard, de 22 anos, mora

no Intendente, bem no centro de Lisboa, e usa o metro para fugir disso tudo. Em meia-hora está na Faculdade de Direito, na Cidade Universitária. “É o transporte ideal e será aquele que mais vai crescer, ligando em 10 ou 15 anos, todos os pontos da cidade e da periferia.” Bem-vindos a 2033 Daqui a 10 ou 15 anos, Leonor, João Pedro e Ísis terão deixado os dias da faculdade lá atrás. Vão ter empregos, renda da casa para pagar e, quem sabe, filhos a estudar na escola. É o que, regra geral, se espera deles, como também se espera que os transportes, o trabalho e as tecnologias, no fundo, os modos de vida, tenham mudado. A questão é saber de que forma e como vão afectar as cidades e a vida dos que agora estão na universidade e se preparam para entrar nesse futuro. É praticamente impossível não querer adivinhar que mudanças uma década ou década e meia vão trazer. É uma tentação repetida tanto nos livros como nos filmes com robôs ou extraterrestres a subjugarem os humanos, cientistas a manipularem os nossos genes ou catástrofes naturais a engolirem o planeta. Dispensamos, por agora, a ficção da literatura e do cinema. Leonor Ramada, Ísis Bernard, e João Pedro Cunha 81


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cumprem tão bem ou melhor esse papel, assim como Francisco Costa e André Santos. Todos alunos universitários a estudar em Lisboa, Porto ou Coimbra. São eles os anfitriões que nos abrem a porta e nos deixam espreitar o futuro, tal como o imaginam. Apertem, então, os cintos e desliguem os equipamentos electrónicos. Vamos entrar já de seguida em 2033. Nem será preciso avançar assim tanto para criar cenários espectaculares de ficção científica. Muita gente, nos dias de hoje, trabalha como se estivesse no futuro. Francisco Costa, estudante do 2.º ano de Biologia da Universidade de Coimbra está habituado a essas futurologias. Em qualquer centro de investigação, não é difícil dar de caras com alguém entretido a reprogramar a função das células, cortando uma sequência genética e acrescentando outras para manipular a cor dos olhos ou eliminar a propensão para algumas doenças. “É algo numa fase inicial”, explica o aluno de 20 anos. Biologia celular e molecular tem mil e uma possibilidades, principalmente nos ramos da genética e epigenética. Em 15 anos, ou até menos, ele estará encafuado num laboratório a alterar o foro genético de animais e plantas em busca de respostas para problemas ainda sem solução no presente: “Combater doenças genéticas à nascença, manipular o cultivo de plantas para aumentar a produção sem ameaçar outras espécies ou descobrir diagnósticos através de fármacos dirigidos a órgãos ou células específicas do corpo.” Experiências que se começam a ensaiar em plantas e bactérias e que fazem parte dos planos de Francisco. Mas há quem já tenha mergulhado de cabeça no futuro sem esperar sequer pelo fim do curso. Não foi ao acaso que João Pedro escolheu Engenharia Mecânica do Instituto Superior Técnico de Lisboa. É daquelas áreas que encontra respostas aos desafios ainda antes deles existirem. Ou seja, antevê o futuro. Ou, melhor, dita o futuro. “Tenho a plena noção de que as peças com 82

as quais trabalho vão ter um uso banal dentro de alguns anos.” Como é o caso do projecto em que está envolvido, uma impressora 3D, que ao usar fibra de vidro torna o plástico leve e resistente ao ponto de ganhar infinitas aplicações, do doméstico ao industrial. Trata-se de uma impressora híbrida, tal como ele que, no futuro, tanto se vê a dar aulas, como a trabalhar em empresas especializadas ou, quem sabe, a fazer um doutoramento: “Agora que conclui o mestrado no ramo de sistemas, tenho de decidir o que quero fazer daqui para frente.” Qualquer que seja o passo seguinte, não irá provocar grandes dilemas. João Pedro sempre quis experimentar muita coisa, eletrónica, computadores, informática ou programação, acabando por juntar tudo isso na Engenharia Mecânica. Todas as decisões tomadas no passado foram para que hoje, aos 26 anos, pudesse estar exatamente onde está: seguiu o curso mais genérico e também mais versátil para ter um leque diversificado de escolhas. Uma coisa ligada à outra Isso de cada qual puxar a brasa à sua profissão tem muito que se lhe diga. Todos recorrem ao maior peso dos argumentos para tentar demonstrar que o seu curso é o que tem o futuro mais promissor. Veja-se o caso da economia. Já se começou a perceber que a sua utilidade não é somente descobrir fórmulas para obter lucros e vantagens materiais. Apesar disso, ainda se dá demasiada importância aos números, às exportações, as quedas e recuperações na bolsa. “É do que as pessoas se lembram quando se fala de economia”, diz André Santos, aluno de 18 anos, a estudar na Universidade do Porto. A tendência, porém, será olhar para os outros ganhos. O futuro também é daquela economia que tem em conta uma multiplicidade de factores para o crescimento sustentável das sociedades. “Essa análise fria e calculista tem vindo a desaparecer porque cada vez mais se acredita que uma coisa está ligada à

outra e que são sobretudo os benefícios sociais e ambientais que suportam o desenvolvimento económico.” Não é de agora esse conceito, que já se vai vendo, por exemplo, no investimento em energias limpas ou na tentativa de usar maior uma racionalidade para com os desperdícios: “Hoje estamos mais conscientes, mas daqui a 15 anos, estaremos também mais predispostos a partir para a acção.” Fazer previsões, por mais sustentadas, é sempre um exercício arriscado tanto para um futuro economista de 18 anos a viver em Gondomar como para uma estudante de Direito com 22 anos a morar em Lisboa. Ísis terminou o curso em Setembro, mas ainda está às apalpadelas sem saber o que vai acontecer a seguir. Se o portal do ano 2033 se abrisse agora, ela não cairia na tentação de ver o que os últimos 15 anos fizeram à sua vida. Usaria antes esse superpoder para voltar ao dia em que acabou o secundário: “Em vez de correr atrás do futuro, iria viajar antes de me atirar para um curso com a ideia um pouco utópica de que o Direito é o caminho mais direto para a justiça.” Mas, aos 17 anos, é-se muito novo para se fazer opções que condicionam o resto da vida: “Precisamos de ver o mundo antes de tomar decisões tão importantes. Saio agora com um canudo que, no essencial, me ensinou a decorar códigos e leis.” Não deve ser apenas um capricho dela, já que Leonor seguiu a vertente de Filosofia do curso Artes e Humanidades e, ao fim de quatro anos, começou também a pensar o que podia fazer com isso: “Ou vais para a academia ou estás tramada.” E ela não tem vontade nenhuma em fechar-se num círculo em que escreve e publica ensaios que nunca vão sair desse círculo. “A Filosofia devia ser acessível a todos e com muito mais aplicações.” Mas ainda não é, nem tão cedo será.

O caminho até à eureka Felizmente, não há muitos enganos cometidos no passado que não possam ser corrigidos no presente. Ísis decidiu


fazer o que já devia ter feito. Dentro de poucos meses, vai trabalhar numa rede de armazéns, em Paris. O plano é juntar dinheiro suficiente para ficar uma temporada pelo Brasil sem se preocupar muito com a viagem de regresso. Irá à procura daquilo que ela quer para o futuro. Algo ligado à meditação, ao yoga, às filosofias alternativas, algo que tenha a ver com a espiritualidade, com o bem-estar físico e emocional: “Quero aprender mais sobre estas novas escolas que articulam conhecimentos milenares com avanços científicos feitos nas áreas da Psicologia.” Mesmo que, entretanto, venha mais uma vez a descobrir que o caminho dela é outro, não faz mal: “Sou muito trabalhadora e as oportunidades irão surgir.” Do que ela gosta mesmo é de viajar, de não ter casa própria nem poiso certo e encarar a vida como algo sempre em mudança: “Ser livre, com dinheiro suficiente para o conforto mínimo, aprender mais sobre o mundo e sobre mim própria é o que quero para o meu futuro.” Não saber o que se quer pode ser um drama, mas não dura para sempre. Na

recta final do curso, os amigos de Leonor tinham tudo planeado. Uns licenciaram-se em Gestão, outros em Engenharias ou Direito e ela ficou à deriva. Pode até ter demorado um pouco mais, mas também achou o trilho dela: “Vou tirar um outro curso, desta vez, Psicologia, talvez me especialize em Psicoterapia.” O que está por detrás dessa decisão será fazer o que nunca conseguiria com a Filosofia: “Quero chegar às pessoas de uma forma mais imediata, contribuir para que cada um desenvolva a sua própria individualidade, mas também se torne parte de uma comunidade que precisa ganhar consciência e voz colectiva.” Pode até parecer que Leonor e Ísis tenham agora de recomeçar do zero, mas tanto elas como Francisco, João Pedro e André sabem que o futuro não aparece do nada. É, pelo contrário, um processo lento, que começa algures no passado. O caminho que eles têm pela frente não é muito diferente do das descobertas científicas, revoluções sociais ou tecnológicas. “Não há epifanias ou um momento particular em que uma lâmpada se acende e alguém grita: eureka!”, avisa Francisco. Há, antes, um

percurso de avanços, recuos e erros até se chegar a algum lado. “As sondas no espaço, os smartphones de última geração ou a inteligência artificial podem até criar a ilusão de que tudo acontece como uma vertigem”, diz André Santos. Mas é ao nos afastarmos dessa vertigem, que damos conta de que o mundo não é e também não será “radicalmente” diferente em 2033: “O sistema económico, embora mais virado para os aspectos sociais e ambientais, continuará a ser o capitalismo. A União Europeia, apesar das cisões, vai manter-se com as gerações seguintes a sentirem-se mais europeias. A Índia e a China poderão estar perto de se tornarem nas principais potências, mas o Ocidente continuará a ditar as regras geopolíticas.” Tudo diferente, mas tudo na mesma O ensino poderia ser a metáfora perfeita para mostrar que tudo muda para ficar tudo na mesma. A escola está bem diferente daquela que João Pedro conheceu no secundário: “Acho que foi nessa altura, que se introduziu o cartão eletrónico para acabar com as moedas e as notas.” O sistema tornou-se, entretanto, trivial, tal como o quadro branco, que substituiu o quadro verde, que por sua vez substituiu a ardósia: “Agora, são os ‘tablets’ que começam a surgir para aliviar o peso das mochilas e acabar com o papel e, num futuro não muito distante, serão as videoconferências entre pais e professores ou notas consultadas online em vez das velhas cadernetas.” São mudanças atrás de mudanças e, mesmo assim, insuficientes para mudar um modelo de ensino que, do básico ao superior, é o mesmo de há décadas, critica Leonor: “Chegamos a um exame e debitamos o que sabemos sobre corrente x ou o autor y.” Como se o conhecimento fosse um arquivo organizado por temas sem ligação entre eles: “Uma boa prova poderia consistir numa única pergunta que obrigasse os alunos a pensar e a articular o que aprenderam em várias disciplinas.” 83


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Francisco O futuro das ciências, de um país ou de uma pessoa não surge do nada: “É antes um percurso de avanços, e recuos até se chegar a algum lado”, diz Francisco. Francisco Costa Idade: 20 Residência: Luso, Mealhada Curso: Biologia O que está a fazer em 2033: “Vejo-me a trabalhar num país escandinavo. Nesses países, investe-se a sério na investigação”.

Ísis A crise dos refugiados é um problema distante para a maioria das pessoas, diz Ísis Bernard, acreditando que daqui a 15 anos será pior. Ísis Bernard Idade: 22 Residência: Lisboa Curso: Direito O que está a fazer em 2033: “Algo ligado à meditação, ao yoga, às filosofias alternativas, algo que tenha a ver com espiritualidade”.

João Pedro O que quer que o futuro nos traga é irrelevante, a tendência será para nos adaptarmos às mudanças, defende João Pedro. João Pedro Cunha Idade: 26 Residência: Alcochete Curso: Engenharia Mecânica O que está a fazer em 2033: “A dar aulas e a fazer investigação ou então a trabalhar numa empresa especializada”.

Leonor Uma década e meia é o suficiente para se perceber que a bicicleta compensa mais do que o carro, que é usado hoje como um estatuto social, prevê Leonor. Leonor Ramada Idade: 23 Residência: Lisboa Curso: Arte e Humanidades/Filosofia O que está a fazer em 2033: “Provavelmente terei um consultório de Psicologia, onde poderei fazer Psicoterapia”.

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André As transformações rápidas provocadas pelas tecnologias não são profundas o suficiente para originar revoluções sociais, avisa André Santos. André Santos Idade: 18 anos Residência: Gondomar Curso: Economia O que está a fazer em 2033: “Ainda não sei, tenho ainda muito caminho a fazer antes de tomar uma decisão”.


A G E R AÇ ÃO M I L L E N N I A L S É U M CO N C E I TO E M S O C I O LO G I A Q U E S E R E F E R E , S E G U N D O A LG U N S A U T O R E S , C O M O D O N TA P S C O T T, À C O R T E D O S NASCIDOS APÓS 2000 E, SEGUNDO OUTROS, DO I N Í C I O D A D É C A D A D E 1 9 8 0 AT É M E A D O S D A D É C A D A D E 1 9 9 0 , S E N D O S U C E D I DA P E L A G E R AÇ ÃO Z .

O grande desafio da escola do futuro será, portanto, encontrar um método de avaliação mais eficaz, defende André Santos: “Os exames avaliam numa hora e meia uma imensidão de matérias que não provam o que o aluno sabe, apenas a sua maior ou menor capacidade de decorar.” O salto será quando se conseguir ensinar também o que não vem nos manuais escolares, defende Ísis Bernard: “A partilha, a autonomia intelectual e emocional.” O que tem faltado, explica ela, é a capacidade da escola para desenvolver nos alunos o espírito crítico, a imaginação, o sentido de responsabilidade, essas coisas que, no fundo, dão um sentido à vida: “Há por aí muita neura porque se vive o dia-a-dia sem propósitos e sem autoestima. Em Direito, por exemplo, é muito importante esse lado humanista, mas é o menos valorizado no curso.” Sobreviver aos robôs Todos estes conceitos que custam a entrar nas escolas podem ser, à primeira vista, inúteis e sem aplicação prática, mas Leonor está convencida de que vão ser as ferramentas para sobreviver num futuro dominado pelos carros que se conduzem sozinhos, máquinas que recolhem o lixo das cidades sem intervenção humana ou androides a atender os hóspedes na receção de um hotel. A evolução das tecnologias tem a virtude de empurrar para os robôs as tarefas pesadas, perigosas ou repetitivas: “Mas

com o fim dos trabalhos braçais, seremos obrigados a puxar ainda mais pela criatividade e inteligência emocional se quisermos chegar mais longe nos nossos empregos.” O que, tendo o seu lado positivo, também têm consequências imprevisíveis: “Será que a competitividade não se tornará ainda mais desenfreada?” – pergunta ela. Do que Leonor tem medo é dessa competição desprovida de qualquer sentido de humanidade. Tal e qual os robôs que, na sua origem, até são bem-intencionados na tentativa de tornar o mundo organizado, produtivo e eficaz: “Se olharmos apenas para o lucro, os efeitos vão ser perversos.” Alguém tem de começar desde já a pensar no lado ético e legislativo das tecnologias: “A Filosofia teria de assumir aqui um papel maior, mas o problema é que, por enquanto, está tudo a marimbar-se para a Filosofia.” E, pelo rumo que as coisas tomam, não se adivinham inversões nesta marcha tecnológica: “Estamos mais fascinados com a inteligência artificial do que chocados com o facto de mais de metade da população mundial não ter acesso a saneamento básico ou água potável. Há qualquer coisa de absurdo nisso.” Essas são talvez as contradições que levam Ísis Bernard a não conseguir encarar o futuro com um optimismo desassombrado: “Olho à minha volta e vejo muita gente centrada na sua vida e sem sentido de comunidade.” As

mudanças climáticas, os refugiados que procuram escapar à guerra e à miséria, as desigualdades sociais são problemas distantes para boa parte das pessoas que tiveram a sorte de nascer no lado certo do mundo: “Daqui a 15 anos vai ser ainda pior.” Os infortúnios dos outros, no entanto, acabam mais tarde ou mais cedo por virem ter connosco, avisa Francisco Costa: “O Ocidente, isto é, os países ricos, representam já 20% da população mundial e se vierem a receber, nas próximas décadas, 25% dos habitantes que estão na parte pobre do planeta, já será de mais.” Mas nem os naufrágios nem controlos fronteiriços irão travar as ondas migratórias. A pressão sobre a Europa e Estados Unidos será cada vez maior, mas será justamente isso que conduzirá à mudança: “O problema deixará de ser algures num canto distante do mundo para passar a ser global, obrigando os países desenvolvidos a tomarem medidas para corrigirem as desigualdades sociais e económicas dos países em desenvolvimento”, prevê o aluno de Biologia. Dar a volta de uma ou várias maneiras Têm alguma lógica as profecias de Francisco, pelo menos, assentam como uma luva na teoria do equilíbrio, de que João Pedro é adepto convicto: “Ninguém sabe o futuro, mas também é irrelevante porque a tendência é sempre para nos adaptarmos às 85


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mudanças.” Isso tanto vale para uma única pessoa como para um povo inteiro. Nós, humanos, somos como peças de puzzles mutantes: “Quando sentimos que não nos encaixamos num lugar, saímos à procura de um novo lugar que nos deixe confortáveis.” O ângulo bom das coisas más é que a tese do equilíbrio se aplica a tudo, dos grandes aos pequenos desafios da próxima década, sejam eles os transportes, os empregos, as crises sociais ou os hábitos alimentares: “Sabemos hoje, por exemplo, que os recursos são escassos e nossos consumos insustentáveis.” O crescimento populacional será maior do que a produção de carne, peixe ou produtos agrícolas: “Comer insectos, bifes de laboratório ou alimentos transgénicos podem vir a ser decisões que tomaremos aos poucos, provavelmente com incentivos aos produtores ou à investigação, um pouco como já acontece com as energias renováveis.” Qualquer que seja o obstáculo, haverá sempre uma ou muitas maneiras de dar à volta. Mas, atenção, a tendência para encontrar o equilíbrio não é garantia de um futuro sem conflitos, sem pobreza e com justiça para todos, adverte André Santos. Mas lá porque o mundo ideal é um fim inatingível, não significa que cada geração não tenha de fazer melhor do que a geração anterior: “O nosso empenho é meio caminho para quem vier a seguir fazer o mesmo ou mais do que nós”, acredita o estudante da Universidade do Porto.

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Fazer barulho até que alguém oiça A geração dos que agora saem das faculdades é aliás a mais bem informada e preparada para lidar com os desafios do futuro, defende Francisco: “Um mundo melhor não está unicamente dependente das decisões tomadas ao nível estratosférico, de governos e de cimeiras entre potências mundiais, mas sobretudo nas nossas decisões individuais que afectam as decisões dos outros e, por fim, produzem mudanças.” Hoje, mais do nunca, há uma maior consciência de que as escolhas de cada um têm consequências na vida de todos. Não é só uma frase bonita e que fica sempre bem quando se fala sobre o futuro. Se estivermos minimamente atentos, reparamos que o dia-a-dia está cheio de prenúncios, levando Francisco a acreditar que não é preciso muito para a mudança acontecer. Aconteceu, por exemplo, no final do ano letivo anterior. Duas alunas da Universidade de Coimbra insurgiram-se contra o excesso de palhinhas usadas nas festas académicas.

O protesto delas ficou a zumbir na cabeça de Francisco, perseguindo-o como uma mosca que nem durante as férias o largou: “Fiquei a pensar nisso e quando voltei à minha terra, na Mealhada, encontrei uma solução.” Juntou um molhe de canas-da-índia, que crescem ao desbarato nas bermas das estradas, e transformou-as num monte de palhinhas biodegradáveis. O plástico foi banido para sempre da queima das fitas de Coimbra. Duas raparigas fizeram barulho e um rapaz ouviu. É o que basta para dar um passo em frente. l


ARTE & CULTURA PARTILHAM-SE. O NB Cultura tem por missão refletir o compromisso do NOVO BANCO em preservar, promover e partilhar com a sociedade portuguesa o seu relevante património cultural e artístico. As Coleções geridas pelo NB Cultura reúnem a Coleção de Fotografia Contemporânea, a Coleção de Pintura, a Coleção de Numismática e a Biblioteca de Estudos Humanísticos.

Saiba mais em nbcultura.pt

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MUSEUS DE PORTUGAL

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RESPONSABILIDADE SOCIAL NA CV&A

A

CV&A, desde a sua fundação, vem desenvolvendo projectos que ligam a empresa à sociedade em que se insere. Temos para nós que a sociedade em que nos inserimos, aquela de onde tiramos os resultados necessários para pagar salários, benefícios diversos para os trabalhadores e dividendos para os accionistas merece o nosso respeito. Receber, mesmo que isso implique o nosso esforço de todos os dias, só é possível quando alguém nos reconhece. E, cremos nós, as acções que cada um pratica, mais dia, menos dia, têm reflexo na nossa vida. Já fomos um grande patrocinador da Acreditar, apoiando crianças vítimas de cancro, já fomos um bom patrocinador do hospital de Santa Maria, oferecendo equipamento audiovisual para a ala pediátrica, já fomos um bom patrocinador da Raríssimas, aquando da criação da Casa dos Marcos, apoiámos a revista Cais, apoiámos o Comité Olímpico Português, projectos de conservação da vida marinha em São Tomé e Príncipe, enfim, temos vindo a contribuir, dentro do que podemos face à dimensão que temos para que a sociedade sinta que a CV&A reconhece e está grata pelas oportunidades que o mercado lhe oferece. Mais recentemente surgiu a oportunidade de estarmos presentes num projecto de dimensão nacional. Quando o Museu Nacional de

Arte Antiga lançou a campanha para angariação de fundos para a aquisição do quadro de Domingos Sequeira, “A Adoração dos Magos”, a CV&A colocou-se ao lado dos maiores patrocinadores institucionais e ajudou à concretização da operação. Depois da Fundação Aga Kahn, a CV&A encontrou forma de colaborar com o Museu Nacional de Arte Antiga contribuindo com um patrocínio que colocou a nossa empresa ao lado da Caixa Geral de Depósitos, do BPI e da EDP. Dadas as diferenças de dimensão para estes gigantes nacionais, orgulha-nos esta atitude que sempre temos de saber que

devemos dar ao país parte daquilo que ele nos dá. E como a entrega à sociedade não acaba nunca, decidimos dedicar uma parte desta revista a uma nova dimensão da cultura. Ou melhor, a uma nova dimensão do intercâmbio cultural. A exposição “Saudade, China & Portugal recentemente inaugura pela fundação Fosun no Museu Berardo espelha bem como a interacção entre diferentes mundos nos torna a todos mais ricos. Num futuro próximo voltaremos com mais profundidade ao tema cultura e ao seu papel na construção de um futuro melhor. l

“A D O R A Ç Ã O D O S M A G O S ” , D E D O M I N G O S S E Q U E I R A

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ARTE

JENNY JINYUAN WANG, PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO FOSUN

EXPOSIÇÃO “ S A U D A D E , C H I N A & P O R T U G A L” NO MUSEU COLECÇÃO BERARDO

C

omecei a organizar esta exposição, em grande escala, de arte contemporânea Chinesa e Portuguesa, em Dezembro de 2017. O motivo pelo qual me lembro da altura com tanta precisão prende-se com o facto de ter coincidido com o regresso da minha filha dos Estados Unidos. Enquanto estava a folhear livros numa livraria em Xinhua, Xangai, deparou-se com o livro “As montanhas de Portugal”, que posteriormente veio parar às minhas mãos. Nesse momento, tive um rasgo de inspiração - talvez este livro tenha alguns tópicos para utilizar numa exposição. Talvez este livro possa revelar-nos uma nova perspectiva do passado e presente desta distante nação Europeia, com uma longa, complexa e dinâmica história. A minha intuição estava correta. O livro mencionava repetidamente a palavra portuguesa “Saudade”. Esta palavra é o orgulho inigualável da língua portuguesa, desde a antiguidade até aos tempos

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modernos. Diz-se que durante o período das Descobertas, Saudade expressava um desejo doce e quase desesperado de regresso a casa, aos amigos e amantes, enquanto navegavam nos vastos mares. Mais tarde, Saudade refereria-se a um sentimento que se sente em relação a algo ou alguém que se amou uma vez, apenas para o perder. É simultaneamente doce e triste. Quando os portugueses falam uns com os outros sobre a Saudade, olham uns para o outros e sorriem, sabendo que se trata de uma palavra especial, enraizada na cultura portuguesa. No entanto, os chineses, a cerca de 15 mil quilómetros de distância, têm uma compreensão tácita desse sentimento, porque a Saudade é uma expressão universal baseada no amor. Cinco meses depois, decidimos intitular a exposição de Zhinanzhen (em português “Bússola”). Uma bússola é um objecto, Saudade é um sentimento. Estes parecem completamente não relacionados, mas, por favor, permitam-me explicar a distância entre o objecto e o sentimento. A bússola é uma das quatro grandes

invenções da China Antiga. Tem sido utilizada na navegação marítima desde a Dinastia Song do Norte. 500 anos depois, Zheng He partiu para o oeste e, em toda parte, a sua chegada estimulou a cultura e o comércio local, criando uma rota de seda marítima que viria a beneficiar gerações posteriores. Mais tarde, assistímos à ascensão da Época das Descobertas em Portugal, na qual a nação lutou pela hegemonia em alto mar, inigualável na sua capacidade. No contexto da cultura chinesa, a bússola simboliza os benefícios da ciência - encontrar o caminho quando se está perdido e ter esperança em momentos de apuros. O mundo continua em rotação, e a vida continua, com o belo sentimento da Saudade, guiado pela bússola. Esta exposição de arte Chinesa e Portuguesa reúne obras de doze artistas contemporâneos, abrangendo pintura, mídia mista, instalação, vídeo e muitas outras formas expressivas. O curador divide inteligentemente o espaço da exposição em diferentes secções. Esses


F O T O : R I TA C A R M O

espaços relativamente independentes permitem que artistas das duas nações entrem em diálogo entre si. Vivemos numa era globalizada: a economia, as humanidades, as artes e até mesmo a “Saudade - Bússola” estão em conformidade com esse modelo. O simples bater de asa de uma borboleta pode provocar um tsunami numa outra parte do globo. Com o progresso tecnológico nos transportes e na informação, é mais fácil para o povo chinês apreciar a boa comida, o vinho e o clima de Portugal, ou para os portugueses usufruirem das grandes montanhas e rios da China e os estilos de vida que mudam rapidamente. Como Portugal é um país fulcral na estratégia de investimento global da Fosun, estamos muito satisfeitos por verificar que os nossos esforços nas áreas seguradora, banca e saúde têm dado frutos. O nosso conceito de investimento de “saúde, felicidade e riqueza” está a ajudar as pessoas, de ambos os países, a terem uma vida melhor e mais longa. Esta exposição de arte contemporânea Chinesa e Portuguesa é organizada pela Fundação Fosun e corresponde à nossa missão de estar atento à actualidade, defender as artes públicas, apoiar os artistas contemporâneos chineses e satisfazer a procura através de uma aprendizagem estética. l

“ VA L K Y R I E M A R I N A R I N A L D I ” , D E J O A N A VA S C O N C E L O S

“Saudade, China & Portugal – Arte Contemporânea” com curadoria de Yuko Hasegawa e apresentação no Museu Colecção Berardo. É uma produção da Fundação Fosun que reúne 16 artistas da China e de Portugal. O denominador comum das obras é uma reflexão sobre os conceitos de diversidade, festividade e ambiguidade, bem como a íntima relação destes com o sentimento da Saudade. Inclui obras de artistas como Vasco Araújo, Pedro Valdez Cardoso, José Pedro Croft, Leng Guangmin, Tao Hui, Luísa Jacinto, Liu Jianhua, Rui Moreira, Cheng Ran, André Sousa, Joana Vasconcelos, Guan Xiao, Sun Xun, Shi Yong, Xia Yu e Liang Yuanwei. Em exposição até 6 de Janeiro de 2019.

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ART

JENNY JINYUAN WANG, PRESIDENT FOSUN FOUNDATION

EXHIBITION “ S A U D A D E , C H I N A & P O R T U G A L” AT THE BERARDO MUSEUM

I

began to organize this largescale exhibition of Chinese and Portuguese contemporary art in December 2017. The reason I remember the time so is that my daughter was back home from America on her break. She was browsing books in a Xinhua bookstore in Shanghai when she settled on The High Mountains of Portugal, which thereby happened to fall into my hands. I had a flash of inspiration—perhaps this book held some thread that we might use for an exhibition. Perhaps the past and present of this distant European nation, with its long, complex, and dynamic history, might, through this book, reveal to us a novel perspective. My intuition was correct. The book repeatedly mentioned the Portuguese word “Saudade”. This word is the unrivalled pride of the Portuguese language, from antiquity to the modern day. It is said that during the Age of Exploration, “Saudade” expressed one’s sweet and almost desperate longing

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for home, for friends and lovers, while drifting endlessly on the vast seas. Later, “Saudade” has come to refer to the sentiment you feel towards something or someone you once loved overwhelmingly, only to have lost them. It is both sweet and sorrowful to the core. When the Portuguese speak to one other of “Saudade”, they look at each other and smile, knowing that this is a special word rooted in Portuguese culture. Yet in truth, Chinese people some 15,000 kilometers away also have a tacit understanding of this feeling, because Saudade is a universal expression based on love. Five months later, we decided to name the exhibition’s Chinese title Zhinanzhen (Compass in English). A compass is an object and “Saudade” is an emotion. They seem completely unrelated, but please allow me to explain the distance between objects and emotions. Compass is one of the four greatest inventions of ancient China. It has been used prominently in maritime navigation since the earlier Song Dynasty. 500 years later, Zheng He

sailed westward, and everywhere he went his arrival would spur local culture and trade, creating a maritime silk road that came to benefit later generations. Later, we see the rise of the Age of Exploration in Portugal, in which the nation strove for hegemony on the high seas, peerless in their ability. In the context of Chinese culture, the compass symbolizes the benefits of science—finding your way when lost, and seeing hope in dire straits. The world continues its rotation, and life marches on, setting off once more with the beautiful emotion of “Saudade”, guided by the compass. This exhibition of Chinese and Portuguese art brings together works by dozens of contemporary artists from both countries, spanning painting, mixed media, installation, video, and many other expressive forms. The curator cleverly divides the exhibition space into different sections. These relatively independent spaces allow artists from the two nations to enter into a dialogue with one another. Perhaps the themes of this artist’s


F O T O : R I TA C A R M O

paintings happen to overlap with that artist’s filmic expression, or a shot in this artist’s video has a spiritual resonance with that artist’s brushwork. We live in a globalized era: the economy, the humanities, the arts, and even “Saudade - Compass” all conform to this model. The happenstance flapping of a butterfly’s wing might incite a tsunami on another part of the globe. With progress in information and transportation technologies, it is no longer difficult for Chinese people to appreciate the fine food, wine, and climate of Portugal, or for the Portuguese to experience China’s great mountains and rivers and fast-changing lifestyles. As Portugal is an important component of Fosun’s global investment strategy, we are happy to see that the group’s many years of painstaking efforts there in the banking, insurance, and health care sectors have gradually borne fruit. The company’s investment concept of “health, happiness, and wealth” is helping people in both countries live better and longer. This exhibition of Chinese and Portuguese contemporary art is chiefly organized by the Fosun Foundation. It adheres to our mission to keep our finger on the pulse of the era, advocate for public arts, support Chinese contemporary artists, and satisfy public demand for aesthetic learning. l

“ VA L K Y R I E M A R I N A R I N A L D I ” , J O A N A VA S C O N C E L O S

“Saudade, China & Portugal - Contemporary Art” curated by Yuko Hasegawa and presented at the Berardo Collection Museum. It is a production of the Fosun Foundation that brings together 16 artists from China and Portugal. The common denominator of the works is a reflection on the concepts of diversity, festivity and ambiguity, as well as their intimate relationship with the sensation of Saudade. It includes works by artists such as Vasco Araújo, Pedro Valdez Cardoso, José Pedro Croft, Leng Guangmin, Tao Hui, Luísa Jacinto, Liu Jianhua, Rui Moreira, Cheng Ran, André Sousa, Joana Vasconcelos, Guan Xiao, Sun Xun, Shi Yong, Xia Yu and Liang Yuanwei. On exhibition until 6 January 2019.”

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OPINIÃO

FRANCISCO DE MENDIA, ADMINISTRADOR DA CV&A

OLHAR O FUTURO

É

o tema de capa. Quem sabe, ou melhor, muitos dos que pensam o futuro escreveram nesta edição da Prémio. Nestas mesmas páginas foi dito que não se constrói o futuro sem alicerces sólidos e respeito pela memória. Decidimos, pois, encerrar a revista com o presente. À data do fecho desta edição o presente estava recheado de novidades, em Portugal, na Europa e no Mundo. Na Argentina, cimeira dos G20, Trump não vai encontrar Putin, diz ele, por causa da Crimeia. Xi Jin Ping vai encontrar Trump por causa das guerras comerciais. Maduro, reconhece, estranhamente, que há crise na Venezuela e anuncia aumentos de reformas para “os nossos amados reformados e as nossas amadas reformadas” sem que estes tenham onde gastar o que quer que ganhem, no Brasil Bolsonaro afirma-se e começa a tomar o pulso ao país, com a esperança de milhões a suplantar a descrença de muitos, a Alemanha prepara-se para o pós-Merkl, o Reino Unido anunciou o Brexit, assinou com a Comissão Europeia e, estranhamente, é a Europa da União que vem dizer que o Brexit pode não acontecer se não for aprovado no parlamento britânico. Deveriam ser os britânicos a dizê-lo, mas… As crises humanitárias agudizam-se. Nunca, e em tempo de paz, tanta miséria, perseguição e humilhação de seres humanos teve lugar. Do Lémen, à Síria, da Venezuela ao Bangladesh e a Myanmar, apenas para falar das situações mais mediáticas, crianças, velhos e mulheres sofrem horrores às mãos de gente que não é gente. Em Portugal, as notícias são muitas. As visitas internacionais avolumam-se e o país ganha uma dimensão única. Depois de João Lourenço, o Presidente Angolano que volta a trazer

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Angola a Portugal dez anos depois da vinda do seu antecessor, continuando o processo de normalização das relações entre os dois países termina a visita convidando o seu homólogo português a visitar aquele país africano. João Lourenço deu um sinal de que Angola está a mudar, do qual poucos falaram: pela primeira vez, um líder africano reconhece ter havido uma purga de cidadãos por desalinhamento com a linha oficial do partido nos idos de 1977. De louvar. Assim se constrói a democracia. O Presidente Chinês seguiu-se ao Presidente Angolano e trouxe muitos pontos em agenda. O mais importante de todos é um presidente da China vir a Portugal. É bom que daqui se retirem as ilações necessárias: não podemos andar a brincar com investidores estrangeiros que estiveram connosco quando precisámos apenas em nome de politiquices de ocasião. Seguir-se-á a vinda do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia e, se bem notaram, três dos grandes estiveram em Portugal no espaço de duas semanas. A boa notícia, mesmo antes do fecho, foi a de que Portugal vai pagar ao FMI a última tranche do empréstimo contraído durante o programa da Troika. É bom, coincide com a aprovação do Orçamento de Estado, com o início de um ano eleitoral, que se deseja que tenha uma oposição forte, com ideias, que não ande a reboque e a limitar-se a fazer comentários tentando, antes, apresentar ideias. Dia 30 de Novembro, uma notícia triste, morreu George Bush, o Presidente americano que assistiu à queda do muro de Berlim e ao fim da União Soviética. 2019 é o primeiro ano deste futuro que iniciamos e que terminará em 2033. Gostava de, em breve, falar do mundo no seu todo e especialmente no que respeita às condições de vida dos mais desfavorecidos com mais alegria. Aos Cristãos, desejo uma quadra festiva feliz. l


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Revista PRÉMIO | Edição Novembro 2018  

Edição especial comemorativa dos 15 anos da CV&A

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