Revista PRÉMIO | Edição Junho 2022

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CULTURA

© Lev Shevchenko

EM TEMPO DE GUERRA

ENTREVISTA

ENTREVISTA

LEGADO

CULTURA

OPINIÃO

FILIPE ZAU

INNA OHNIVETS

VÍTOR RAMALHO

ANTÓNIO CACHOLA

JOAQUIM MIRANDA SARMENTO

MINISTRO DA CULTURA, TURISMO E AMBIENTE DE ANGOLA

EMBAIXADORA DA UCRÂNIA EM PORTUGAL

SECRETÁRIO-GERAL DA UCCLA

COLECCIONADOR DE ARTE PORTUGUESA

PROFESSOR ISEG | UNIVERSIDADE DE LISBOA 1


M O D ER N M ECH A N I CA L

O P E N G E A R R E S E C PA R A I B A C H - 6 9 2 3 -T U B K E D I Ç ÂO L I M I TA DA ( 5 0 ) •

Movimento automático C.301 com design inovador “open gear” e visualisação retrógrada de segundos •

Mostrador em gilloché feito à mão com design sofisticado em 3D composto por 42 peças •

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Caixa em aço de 44mm


Há imagens que valem por mil palavras, mas outras valem mais ainda. A que trazemos na capa desta edição da Prémio é um bom exemplo. Talvez por isso, e pelo contexto em que foi feita, se tenha tornado viral e corrido mundo, à velocidade a que as redes sociais, mais do que os “velhos” media, nos habituaram a contar estórias e criar narrativas colectivas, mas foi também publicada nos mais diversos jornais e revistas, e exibida em estações de televisão. Lev Shevchenko, investigador de arquitectura e urbanismo ucraniano, o autor da fotografia, fica na história da invasão da Rússia à Ucrânia, na madrugada de 24 de Fevereiro. Oito dias após o início desta guerra sem sentido, postou, no seu perfil de Instagram (https://www.instagram. com/lev.schevchenko/), e num outro sobre arquitectura (https://www. instagram.com/panelky.ukraine/), esta fotografia da janela de um edifício residencial, mas imediações do seu próprio apartamento, protegida por dezenas de livros. A força da imagem representa, de algum modo, a força das palavras, porque as palavras que podem salvar vidas e confere uma nova força a estas obras que, dispostas desta forma, pretendiam proteger, dos estilhaços e da brutalidade de uma guerra sem fim à vista, quem vive dentro desta casa. Lev Shevchenko tornou-se num herói acidental, sem rosto. Seguramente, preferiria não o ter sido, porque ninguém quer ser herói assim. Mas fica do lado bom da história, gerando uma onda de solidariedade que correu – e ainda corre - o Planeta. Contactado pela PRÉMIO, o arquitecto aceitou ceder a imagem para esta capa, que pretende ficar, também ela, do lado de quem tem a certeza da bondade de uma causa que é hoje de todos nós: a libertação de um povo e de um país soberano, cuja história se cruza, afinal, com a vida de todos nós.

F O T O C A P A : Lev Shevchenko DIRECTOR António Cunha Vaz DIRECTOR A EXECUTIVA Sofia Arnaud DIRECTOR DE ARTE Miguel Mascarenhas REDACÇÃO Ana Valado, Bruno Rosa, Belén Rodrigo, Larissa Göldner, Nélson Soares, Pedro Cativelos e Ricardo David Lopes COL ABORAM NESTA EDIÇÃO A.Ribeiro dos Santos, Afonso Cerqueira, Alexandra Carita, Alejandro Zaccour, Ana Ventura, António Mateus, Bruno Horta, Camilo Lourenço, Catarina Brites Soares, Catarina da Ponte, Carla Fernanda Martins Costelha Lopes, Diogo

Belford Henriques, Edson Athaíde, Elisabete Felismino, Filipe Fonseca, Flávia Brito, Francisco Ribeiro Telles, Henrique Raposo, Joana Mortágua, João Vaz de Almada, Joaquim Miranda Sarmento, Mafalda Belfort Henriques, Maria João Rodrigues de Araújo, Mário Augusto, Nuno Encarnação, Nuno Miguel Guedes, Pedro Sampaio Nunes, Quingila Hebo, Raquel Ribeiro, Ricardo Santos Ferreira e Sara Antónia Matos

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PROPRIETÁRIO E EDITOR Cunha Vaz & Associados – Consultores em Comunicação, SA NIF 506 567 559

SEDE DO EDITOR E DE REDACÇÃO Av. da Liberdade, 144 a 150, 6º Dto. 1250-146 Lisboa

ESTATUTO EDITORIAL

CRC LISBOA 13538-01

PERIODICIDADE Trimestral

www.revistapremio.pt/estatuto

R E V I S TA D A C V & A

TIRAGEM 3500 Exemplares

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SUMÁRIO

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EDITORIAL ACTUALIDADE ANTÓNIO MATEUS, JORNALISTA UCRÂNIA: DIÁRIO DE REPÓRTER NA GUERRA ENTREVISTA A INNA OHNIVETS, EMBAIXADORA DA UCRÂNIA EM PORTUGAL “A UCRÂNIA PERTENCE AO MUNDO OCIDENTAL, NÃO AO MUNDO RUSSO” HENRIQUE RAPOSO, COLUNISTA CANCELAR OU NÃO CANCELAR? ESSA NÃO É A QUESTÃO JOAQUIM MIRANDA SARMENTO, PROFESSOR NO ISEG/UNIVERSIDADE DE LISBOA INFLAÇÃO, E AGORA? CAMILO LOURENÇO, JORNALISTA O FUTURO DO PAÍS NÃO É RISONHO ALEJANDRO ZACCOUR, EMBAIXADOR DA COLÔMBIA EM PORTUGAL CAMINHO A ZERO PEDRO SAMPAIO NUNES, EX-DIRECTOR DA COMISSÃO EUROPEIA DAS NOVAS TECNOLOGIAS DE ENERGIA E DAS ENERGIAS CONVENCIONAIS | EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DA CIÊNCIA E INOCVAÇÃO | CONSULTOR PRECISAMOS URGENTEMENTE DE UMA NOVA POLÍTICA EUROPEIA DE ENERGIA FRANCISCO RIBEIRO TELLES, EMBAIXADOR | COORDENADOR PARA AS COMEMORAÇÕES DO BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL: UM PROCESSO SINGULAR MARIA JOÃO RODRIGUES DE ARAÚJO, PRESIDENTE DE PORTUGAL-UK 650

E FELLOW NA FACULDADE DE MÚSICA DA UNIVERSIDADE DE OXFORD PORTUGAL-UK 650: COMEMORAÇÕES DOS 650 ANOS DA ALIANÇA LUSO-BRITÂNICA 34 BIENAL DE SÃO PAULO: LIVROS NA BAGAGEM PORTUGUESA LEGADOS 36 ENTREVISTA A VÍTOR RAMALHO, SECRETÁRIO-GERAL DA UCCLA A IMPORTÂNCIA DO LEGADO 42 ENTREVISTA A MÁRIO ASSIS FERREIRA, VICE-PRESIDENTE DA ESTORIL-SOL VIDA E TRABALHOS DE MÁRIO ASSIS FERREIRA ESPECIAL CULTURA ENTREVISTAS 50 FILIPE ZAU, MINISTRO DA CULTURA, TURISMO E AMBIENTE DE ANGOLA “COMO ANGOLANOS, TEREMOS OBRIGATORIAMENTE DE SABER PROMOVER E DIFUNDIR A NOSSA CULTURA” 56 GRAÇA FONSECA, EX-MINISTRA DA CULTURA “O CONTRIBUTO DO SECTOR CULTURAL E CRIATIVO PARA A ECONOMIA É ENORME” 64 JOSÉ EDUARDO AGUALUSA “NENHUM LIVRO NASCE DA MESMA MANEIRA. EM TODO O CASO O MAIS IMPORTANTE É SEMPRE ENCONTRAR A VOZ CERTA PARA CONTAR AQUELA HISTÓRIA” 68 MIA COUTO “MAIS IMPORTANTE DO QUE O EXERCÍCIO DA ESCRITA, NO CASO DE MOÇAMBIQUE, É A DISPONIBILIDADE PARA A CONVERSA”


72 RUI MASSENA “A ARTE É UM PASSAPORTE PARA SE ENTENDER A VIDA” TESTEMUNHOS 76 JOANA MORTÁGUA, DEPUTADA DO BE O MEU FADO 77 NUNO ENCARNAÇÃO, EX-DEPUTADO DO PSD “A MINHA LIGAÇÃO AO FADO DE COIMBRA TERÁ SEGURAMENTE A MINHA IDADE” CINEMA 78 MÁRIO AUGUSTO O GRANDE DESAFIO DO CINEMA PUBLICIDADE E CULTURA 83 EDSON ATHAÍDE, PUBLICITÁRIO O FEIJÃO E O SONHO CIRCO 86 MOMO. O MUSEU NA LOUSÃ ONDE O CIRCO DEIXOU DE SER ITINERANTE PARA AFIRMAR A SUA HISTÓRIA PERFL 90 PAULA REGO 92 ANTÓNIO AVELAR DE PINHO 96 CESÁRIA ÉVORA 98 EUNICE MUÑOZ 100 GERMANO DE ALMEIDA 102 GONÇALO M. TAVARES 104 HERMAN JOSÉ 106 ISABELA FIGUEIREDO 108 JOANA CARNEIRO 110 LOURDES CASTRO 112 LUÍS FERNANDO 114 LUÍS OSÓRIO 116 MARIA AURORA 120 RUI VELOSO 122 RUY DE CARVALHO 124 VITORINO NEMÉSIO E NATÁLIA CORREIA INSTITUIÇÕES 126 CENTRO CULTURAL DE BELÉM CCB: UMA “CIDADE ABERTA” PARA O MUNDO 130 CULTURGEST “NA CULTURGEST CONTINUAMOS À PROCURA DE INOVAR, DE OUTRAS MANEIRAS DE CONTAR HISTÓRIAS, DE NOS LIGARMOS AO PÚBLICO” 134 ENSA ARTE “AQUI A ARTE E OS ARTISTAS ESTÃO NUM PORTO SEGURO” 138 FUNDAÇÃO CUPERTINO DE MIRANDA “A QUALIDADE NEM SEMPRE É PERCEBIDA POR TODOS” 142 FUNDAÇÃO D. LUÍS

“ACHAMOS QUE TEMOS COISAS QUE VALEM A PENA MOSTRAR” 148 MAAT MAAT FAZ SEIS ANOS E QUER MANTER “PROGRAMAÇÃO DE QUALIDADE” 151 NOVOBANCO CULTURA PARTILHAR ARTE E CULTURA COM OS PORTUGUESES 154 WOW UM QUARTEIRÃO DE EXPERIÊNCIAS COM O VINHO A PRETEXTO GALERIAS 158 GALERIA 111 AQUELE QUARTEIRÃO DO CAMPO GRANDE 164 GALERIA NUNO CENTENO DE PORTUGAL PARA O MUNDO 168 MAFALDA BELFORT HENRIQUES, CONSULTORA DE ARTE UMA “VIAGEM” PELA ARCOLISBOA AS MINHAS COLECÇÕES 170 ANTÓNIO CACHOLA “DECIDI QUE A MINHA COLECÇÃO IRIA SER DE ARTISTAS PORTUGUESES” 176 FERNANDO FIGUEIREDO RIBEIRO “O CONTACTO COM OS ARTISTAS ENRIQUECE-ME” 179 JOÃO ESTEVES DE OLIVEIRA “A ARTE É UM SONHO TORNADO REALIDADE” A PRÉMIO NO MUNDO ANGOLA 182 LUANDA, CIDADE DE CULTURA BRASIL 186 BRUNO ROSA, PRÉMIO PORTUGAL ESTÁ NA MODA NO BRASIL ESPANHA 188 BELÉN RODRIGO, PRÉMIO LA CÁPSULA DEL TIEMPO DE LA CULTURA MACAU 190 “MACAU É UM PALCO DE EMOÇÕES” MOÇAMBIQUE 194 PEDRO CATIVELOS, DIRECTOR EXECUTIVO DA MEDIA4DEVELOPMENT A ECONOMIA CRIATIVA NUM MERCADO POR CRIAR 196 O MUNDO MUSEOLÓGICO DE MAPUTO A NÃO PERDER EXPOSIÇÕES 200 UM ROTEIRO PELAS MELHORES EXPOSIÇÕES DE ARTE NA EUROPA 203 O RECONHECIMENTO DO RENASCIMENTO PORTUGUÊS MÚSICA E FESTIVAIS 206 OS FESTIVAIS DE MÚSICA ESTÃO DE VOLTA NO VERÃO DE 2022 CONFERÊNCIA 210 OCEANOS - FRENTE MAR

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EDITORIAL

ANTÓNIO CUNHA VAZ, PRESIDENTE DA CV&A

EDITORIAL ANO 19

C

aros leitores, espero que à hora que nos estejam a ler tirem prazer desta revista. Este editorial é escrito a 10 de Junho, dia de Portugal. Viva Portugal! Pensava começar este editorial em jeito de comemoração, pois cumpriu-se a 7 de Junho o décimo nono ano de vida da Cunha Vaz & Associados. Começo-o, em tom de homenagem: Morreu Paula Rego. E, quem sabe, este dia é, também, para comemorar Paula Rego e os portugueses que “…se vão da lei da morte libertando”. Paula Rego e tantos outros portugueses não morrem. Mas, como alguém já dizia, é preciso coragem para

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assumir que “… até entre os portugueses há traidores.” Não confundamos uns e outros e tenhamos coragem para dizer que Portugal se faz com aqueles que, como dizia Luís Vaz de Camões, “… da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca dantes navegados, Passaram para além da Taprobana…” Estava decidido que o conteúdo da Revista, que seria sobre a cultura na lusofonia, incluiria A Casa das Histórias de Paula Rego. E, a título de homenagem, a Prémio traz agora um perfil da artista plástica ao qual junto o meu agradecimento a Deus, pela sua existência e à Câmara de Cascais por ter acolhido semelhante projecto. Um País que não investe na cultura é um reality show! A

revista PRÉMIO trata-a, pois, no universo da lusofonia. Um universo de Paz e esperança na construção de um mundo melhor. Começamos a nossa contribuição para a construção desse mundo pela Capa. Uma fotografia cujos direitos adquirimos a alguém que soube usar a cultura – os livros, ao caso – para se proteger da guerra. Depois, bem, depois foi a qualidade de quem está em Paz consigo mesmo que nos fez escolher os articulistas que escrevem sobre a Ucrânia, sobre a Bienal de São Paulo, sobre a Independência do Brasil, sobre os 600 anos do Tratado Luso-britânico sobre a publicidade e a economia, sobre arte – em entrevistas ou perfis – e mais não direi, sob pena de estragar o prazer de lerem as nossas páginas. Porque


EDITORIAL

merece tratamento mais detalhado deixámos para o próximo número o tema que traz a Lisboa, entre 26 e 29 de Junho, vários Chefes de Estado e membros de governos, bem como os mais ilustres nomes das áreas científica, jurídica e económica e que são os Oceanos. Apenas esperamos que os decisores não façam ao Mar o mesmo que fazem à Terra. Esta revista é para ir sendo lida. Não é um órgão noticioso. Tem, por isso, uma pequena parte de actualidade no meio das suas mais de duzentas páginas. Não há outra em Portugal com esta qualidade. E a actualidade, como alguém diria, “nunca esteve tão em dia”! Não quereremos nunca fazer uma revista de cultura bacoca. Não somos replicadores de figuras de estilo. Se bem que a aliteração, a anáfora, a Metáfora, a catacrese, a metonímia e meso a sinédoque sejam nossas amigas. A perífrase ou a antonomásia a sinestesia; ou a apóstrofe, a antítese, a hipérbole, a prosopopéia ou a personificação para não falar da ironia e do eufemismo, da gradação ou do climax, do pleonasmo, da redundância ou da elipse fazem parte do nosso livro de estilo, mas são utilizadas com parcimónia. Enfim, queremos que se divirta a ler-nos. Como sempre e com a ética de procedimentos que nos caracteriza não trazemos odes aos nossos clientes nem servimos de meio

“ TREINE ENQUANTO ELES DORMEM, ESTUDE ENQUANTO ELES SE DIVERTEM, P E R S I S TA E N Q UA N T O E L E S D E S C A N S A M , E E N TÃO , V I VA O Q U E E L E S S O N H A M .”

para atacar clientes de terceiros. Falando de nós e sobre este ano, distribuímos 10% dos lucros de 2021 aos trabalhadores. Na exacta proporção daquilo que a administração entende ter sido a sua contribuição para os resultados da empresa. Na Cunha Vaz & Associados cumprimos um velho ‘slogan’ de uma agência de ‘rent-a-car’: “We Try Harder”! Sabemos que o que não se faz não aparece feito. Entregamos! E, sim, nós conseguimos! E, digo com orgulho, que este décimo nono aniversário se cumpriu muito bem! Com pujança e sobriedade, como se impõe. Mais um ano a liderar o mercado, mais um ano com resultados excelentes graças ao trabalho, mesmo em pandemia, de uma equipa dedicada e competente. Reforçámos os quadros em Portugal, em Angola e em Moçambique e continuamos a pretender crescer, com moderação e sem perder de vista que o objectivo é o serviço aos clientes.

Não posso deixar de agradecer a todos quantos colaboraram, quer concedendo-nos entrevistas, quer permitindo que os “perfilássemos”. São eles a razão de existirmos e ganharmos forças para mais uma caminhada até ao vigésimo aniversário. Enquanto isso, a nossa intervenção em projectos de índole social, quer com contribuições financeiras, quer com a prestação de serviços ‘pro bono’ ganha cada vez mais expressão. E a máxima que seguimos é a mesma desde o primeiro dia: “Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham.” l 7


ACTUALIDADE

ANTÓNIO MATEUS, JORNALISTA

UCRÂNIA: DIÁRIO DE REPÓRTER NA GUERRA DIA 1 - “Zhurnalisty! (jornalistas) - “Portuhalʹsʹki zhurnalisty (jornalistas portugueses). Alex explica quem somos ao militar ucraniano que espreitava para o interior do carro, depois de este lhe ter pedido os documentos de identificação - pessoais e da viatura - e perguntado para onde nos dirigíamos. - “Bashtanka”! (nome da localidade, situada entre Mykolaiev, a cidade-tampão do avanço russo na frente sul, e Kherson, já ocupada pelas forças invasoras), explicara antes o nosso condutor, provocando uma mini-conferência entre os militares e polícias que vigiavam de kalashnikovs empunhadas o bloqueio de estrada, o enésimo por nós cruzados desde a saída de Odessa, mais de duas horas antes. A resposta atraiu a comparência de um graduado. - “Ziydy z dorohy! Potyahnutysya do krayu!” (Saiam da estrada! Encoste na

Nota: Estes são apenas quatro relatos em texto das 26 reportagens assinadas pelo autor ao longo 29 dias de destacamento na cobertura da Ucrânia. 8

berma!) – ditou o oficial, apontando para a fila, onde já se encontravam a aguardar diversas outras viaturas e respectivos ocupantes. Ali, após escutar que eu e o Rodrigo Lobo (o repórter de imagem da RTP com que fui destacado para o sul da Ucrânia) eramos jornalistas portugueses pediu-nos os passaportes e depois as credenciais emitidas pelo ministério da defesa ucraniano, que fotografou com telemóvel e enviou para verificação, pelos serviços de segurança do estado. Paciência. Em quantidades generosas. Um dos muitos requisitos para se trabalhar como jornalista num cenário de guerra. Neste, ainda mais, por a desconfiança dos militares, polícias e serviços secretos ser multiplicada pelas evidências de infiltração de espiões e de informadores na identificação de alvos para a artilharia russa. -“Bez vyshchoho dozvolu ne mozhna khodyty na Bashtanka! Ts’oho razu tse zona boyovykh diy!” (Sem autorização superior não podem ir para Bashtanka. Nesta altura é zona de guerra!”) – vincou o graduado. O Alex ainda argumenta que foramos autorizados pelo porta-voz das forças armadas ucranianas em Mykolaiev, o tenente-coronel

Dmytro Pletenchuk, a seguir para a vila recém-bombardeada, mas nem isso dilui a desconfiança do graduado. A nossa ‘fixer’, Maria Gorbunova, entra em acção, liga para o Dmytro e, quando este a atende, explica-lhe o nó em que nos encontrávamos. Põe-no a falar ao telemóvel com o chefe do controlo e os traços carrancudos da expressão deste dão lugar, em menos de um minuto, a um quase esboço de sorriso. -“ Mozhe sliduvaty. Vse harazd!” (Podem seguir. Está tudo ok!) – indica ao Alex, enquanto acena com a mão ao subalterno, para sair da frente do carro. De novo na estrada, com uma preocupação acrescida. A meia-hora perdida nesta verificação aperta ainda mais a margem disponível para reportagem, nas proximidades da zona quente, para quem terá depois de fazer mais de 200 quilómetros em sentido inverso, chegar a Odessa a tempo do recolher obrigatório e editar a peça do dia para o Telejornal (RTP1) que ainda terá de ser legendada. Mas as décadas de jornalismo que lá levo (39 anos), um terço das quais em cenários complicados, repõem-me o foco onde ele deve estar, particularmente nestas alturas;


ACTUALIDADE na atenção aos sinais de perigo, nem sempre óbvios. Alex puxa pela mecânica do seu Daewoo Nexia. Os 107 cavalos de potência ainda parecem em plena forma apesar dos 10 anos de registo do veículo, que acelera na estrada serpenteante entre terras agrícolas férteis, riqueza natural de um dos maiores produtores europeus de cereais. A estrada bifurca-se junto a mais um bloqueio. Por detrás dos sacos de areia de resguardo da unidade militar ergue-se o sinal rodoviário, para a esquerda Bashtanka, em frente, Kherson e ao lado deste segmento, a poucas dezenas do posto de controlo, os destroços de dois veículos militares. Novamente as mesmas perguntas, as mesmas verificações, a mesma paciência. A insegurança tornada rotina. Agora multiplicada pela proximidade da frente de combate. Desaperto o colete à prova de bala para “pescar” a bolsa da credencial de jornalista e o gesto atrai os olhares dos dois homens fardados, com ar cansado, que verificam os intrusos. - “Vse dobre!” (Tudo bem!) Viramos à esquerda, atravessamos uma ponte curta e deparamos com o primeiro sinal de impacto da artilharia russa; à nossa frente, ergue-se a ruína calcinada de um edifício que até há dias albergava uma farmácia, a “Аптека АНЦ (nome do qual só já restam o “A” e o “H”) mas o que me chama a atenção é a figura ladrilhada a mosaicos coloridos, de um astronauta junto a um foguetão. Aproximo-me do lado esquerdo do edifício e percebo finalmente o motivo pelo qual aquela figura me parecia familiar; é uma representação de Iuri Gagarin, o cosmonauta soviético que em 1961 se tornou o primeiro ser humano a viajar no espaço (uma área que me fascina desde menino). As voltas que a vida dá; o míssil russo destruiu a fachada de homenagem à figura que há seis décadas colocara Moscovo na liderança da corrida ao

Espaço, em dias de guerra fria. Com a mesma “cegueira” com que outros projéteis atingiram, no mesmo bombardeamento, o hospital de Bashtanka, a meio da tarde. - “Estava a decorrer uma cirurgia quando se ouviu uma explosão. A onda provocou o arrancamento de janelas e portas em toda esta ala. Felizmente não houve mortes. A operação era a amputação da mão de um civil” – conta-nos Alena Vasilievna, directora-clínica do hospital. Na mesa do bloco operatório encontrava-se um civil ferido dias antes, também pela artilharia russa. Só por um acaso a explosão não provocou fatalidades; - “Durante a guerra esta clínica funciona até às 15h00…a explosão ocorreu depois das 15h00” – explica a responsável clínica, apontando o edifício cuja esquina foi deixada em ruínas pelo projéctil. “Se tivesse ocorrido mais cedo, durante as consultas, teria provocado um massacre”. A força da explosão é evidente em toda a estrutura do edifício, do último hospital situado antes da linha da frente. O bloco operatório, montado noutra ala, escapou ao bombardeamento, mas as salas de consultas e de radiologia foram destroçadas, um cenário cada vez mais frequente naquela localidade e que não poupa nem os serviços de emergência. O testemunho é de Svitlana Sokol, paramédica principal do hospital, que nos descreve um dos mais recentes incidentes vividos por pessoal seu, quando uma das ambulâncias foi atingida ao acorrer a vítimas de ataque anterior, numa zona rural próxima: “Estávamos a sair de Bashtanka quando houve novo bombardeamento”, explica. “Encontrámos uma família inteira ferida… crianças, incluindo um bebé de um ano. E até animais atingidos por estilhaços. A própria ambulância o acabou por ser”. Próximo da paramédica, uma ponta de chapa vermelha retorcida

destaca-se entre blocos de cimento pulverizados. É o que resta da porta da caldeira de aquecimento do edifício atingido pelo míssil. Eu e o Rodrigo subimos por umas escadas traseiras e deparamos com os efeitos do embate e explosão do projéctil. Choca-me, particularmente, o cenário da sala identificada à entrada como de realização de mamografias; os equipamentos de radiologia destruídos, projectados contra uma parede, junto com restos de molduras das janelas, arrancadas pelo sopro, os pavimentos pejados de estilhaços de vidros e de destroços das mais variadas coisas, entre os quais caminhamos com cuidado. Presentes, na minha memória recente - dias antes de viajar para a Ucrânia - os protestos veementes do embaixador da Rússia junto do Conselho de Segurança das Nações Unidas, Vassiy Nebenzia, ao ser confrontado com evidências como as por nós testemunhadas no terreno. Uma posição secundada pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova; “Claro que isso é mentira!” – garantira ela, em Moscovo, sobre o que ocorria a milhares de quilómetros dali. Saímos do hospital e regressamos ao centro de Bashtanka. Paramos junto a um supermercado com todas as janelas protegidas por telas de contraplacado e sacos de areia. Os coletes à prova de bala com os dizeres “Press” atraem a atenção de patrulhas de militares, que nos interpelam armados de AK-47. Pedem-nos pela enésima vez as credenciais e os passaportes, que são novamente fotografados com telemóveis para verificação por alguém do outro “lado da linha”. Ficam ali a rodear-nos até receberem luz verde para o fazer, tornando-nos enquanto isso o centro de olhares de desconfiança de transeuntes. Um deles, sai do supermercado - quando já foram libertados da retenção temporária - e aceita falar para a câmara da RTP; enquanto aguardo indicação do Rodrigo Lobo para começar a entrevista 9


FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELO AUTOR

ACTUALIDADE

ALEX, O NOSSO CONDUTOR NO SUL DA UCR ÂNIA

O A U T O R E M R E P O R TA G E M E M B A S H TA N K A

oiço “rosiysʹkoho telebachennya”! (televisão russa!). Não percebo de imediato aquilo que me soa a qualquer coisa russo, proferido em tom hostil. Pergunto ao Alex o que as pessoas estão a dizer e ele traduz. Alerta-me que estão a confundir a sigla da RTP com as de uma qualquer televisão russa e logo numa localidade sob bombardeamento. O nosso condutor explica-lhes, lesto, que somos portugueses. De uma televisão portuguesa. E a agitação, até ali em crescendo, desvanece-se tão rápido como começara. Mas fica o alerta; aquele “cubo” do microfone é desaconselhável em zonas sob flagelo russo. “Arriscaram-se a levar um tiro de um “sniper” ou um “azar” com alguém desesperado com as atrocidades que russos estão a fazer aos nossos civis” – avisa-nos um militar ucraniano, com a hostilidade inicial entretanto amenizada. Volto a meter conversa com o nosso potencial entrevistado. Mas tenho de aguardar pela ajuda preciosa da nossa ‘fixer’, que, entretanto, tentava serenar a dona do supermercado, determinada em correr connosco para longe dali. - “Ela está a dizer que pomos a loja dela em perigo se filmarmos aqui! 10

Que os russos podem bombardear o supermercado como já fizeram noutros locais de Bashtanka!” – explica-me a Maria. - “Diz-lhe se faz favor que vamos sair já! É só entrevistar este senhor….” – riposto, aproximando-me do homem, de meia-idade, que começa a prender, com um elástico e ganchos, os sacos de compras à traseira de uma motorizada, cujo bom estado de conservação elogio. Explico-lhe que partilho o gosto por motas, já o meu avô materno as usava para viajar numa terra distante, chamada Alentejo. Ele sorri com o som do nome. Desalbarda o silêncio e a troco do meu apresentar, como António, firmado com um estender de mão, oferece-me a sua e diz-me chamar-se Yaroslav. Yaroslav Michailov, residente em Bashtanka. Tagarelamos um pouco, sem registo de câmara, e outro tanto, ‘on-therecord’. Guardo dele estas palavras, antes de voltarmos à estrada, para fora daquela tensão: “Ninguém podia pensar que isto poderia acontecer. Mas apesar disso era previsível. Esta história começou em 2014… e continuou pouco a pouco, mas pensávamos que passaria”. Longe disso, a guerra tornou-se rotina diária.

DIA 2 É uma chuva tardia a que torna ainda mais desafiante a condução entre Odessa e Mykolaiev. E o arrancar de “converseta” ao Alex, para ajudar a passar os quilómetros. O domínio da língua inglesa pelo nosso condutor é tão rudimentar quanto sereno, disponível e competente ele se revela cada vez mais, à medida em que solicitamos, de dia para dia, os seus serviços. Alex nasceu há 36 anos em Lugansk, na região de Donbas que vive praticamente em guerra desde Março de 2014, o que levou o vendedor de carros, a pegar na mulher e no filho, então com três anos, e a mudarem-se para uma zona mais calma, escolha que acabou por recair em Odessa, a quarta maior cidade da Ucrânia. Oito anos depois, a guerra de que fugiu parece ter vindo ter com ele. Mesmo que paradoxalmente, no papel de condutor de jornalistas estrangeiros, destacados para a respectiva cobertura, acabe por servir agora de sustento à família. - “É assustador quando os teus planos um dia se desmoronam, quando não sabes o que será o teu dia de amanhã!” – reconhece. “Mas estamos a ficar mais fortes, acreditamos na vitória, amamos e acreditamos no


ACTUALIDADE nosso país e continuamos a viver e a trabalhar seja como for!”. - “Seja como for!”…dou comigo a remoer estas palavras e como elas se encaixam em tanto do que testemunhamos na determinação de quem resiste à nossa volta à invasão do seu país. Vlad, o nosso ‘fixer’ nesta nova saída até Mykolaiev, assinala-nos que chegámos ao local onde nos aguarda um veterano da guerra, que lutou no Afeganistão pelas forças soviéticas e comanda agora um sector de defesa da cidade, contra o assalto russo. Vlad tem bons contactos num dos circuitos mais impenetráveis do actual cenário de conflito na Ucrânia; o da defesa e segurança. E o seu contributo é-nos precioso. Mesmo que depois estique a corda tentando, sem sucesso, interferir nas nossas opções editoriais de abordagem das matérias recolhidas. Alex estaciona o carro no interior de um recinto que fico a saber tratar-se do hospital militar da cidade. Continua a chover. Seguimos os três, eu, o Rodrigo e o Alex, com o material de filmagem, atrás de Vlad que contorna um edifício e se dirige para um grupo de militares, trajados de camuflados. O nosso fixer faz as apresentações. A maioria do grupo de militares recua, ficam só três deles, próximo de nós; um com uma câmara fotográfica,

outro, o mais alto de todos, um pouco mais atrás, com um meio sorriso e o terceiro – notoriamente o primeiro, na hierarquia – olha-me fixamente e assim se manterá até ao meu sinal de que terminara a entrevista. Oleg, de nome de guerra, “Tro”. Ainda não decidira se sempre iria “falar aos jornalistas”. Queria saber quem éramos, ao que vínhamos. E, especialmente, “sentir-nos”. Essa coisa diria telúrica, senão animal, que aprendi na vida a reconhecer em pessoas que passaram parte das suas a lutar pela sobrevivência. Sei que tenho de lhe dar parte da minha zona de conforto para ele me aceitar na sua e faço-o, tateando cada passo, como quem caminha medindo a solidez do chão e avaliando a do interlocutor, pela dignidade com que defende a sua e valorize a abertura concedida. Foi assim que fiquei a saber que ele é um veterano da guerra do Afeganistão, onde lutou pelos soviéticos contra os mujahidin, e agora um baluarte na resistência ucraniana em Mykolaeiv contra as forças invasoras de Moscovo. Uma abertura concedida após lhe ter dito que sou filho e neto de oficiais, completei o liceu no Colégio Militar e entendo por dentro os conceitos e preconceitos relativos ao vestir da farda de um país.

- “Estamos a tentar normalizar a situação de todas as formas que conseguimos. A nossa presença ajuda as pessoas a acalmarem-se”, explica-me “Tro”, sobre a façanha de terem conseguido fazer recuar a ofensiva russa, que chegou a posicionar blindados na cidade. “Não conseguimos, no entanto, parar todos os mísseis que voam sobre nós, mas estamos a fazer tudo o que podemos para segurança da cidade”. Mas para quem já vestiu a farda do outro lado, o que testemunha agora é um choque. - “Veja o que está a acontecer em Mariupol. Quase a destruíram por completo. Não se pode acreditar neles. Estão a mentir a toda gente, incluindo a si mesmos. Estão-vos a mentir!” – insiste, de cara subitamente crispada. “Quando eu estava no Afeganistão com os sovietes, nunca esperei que isto fosse acontecer; estão a mostrar agora um lado completamente desumano. Não há nada de humano neles nem nas suas acções.” - “…isso foi um inferno…” – ainda tento adicionar. - “Não tanto um inferno como aqui!” Um inferno que nas palavras de Oleg não poupa nem os mais frágeis; - “Estão a atingir e a destruir de propósito a população civil. Estão a mentir. Não há nada de sagrado para eles. Sou um veterano do

H O S P I T A L B O M B A R D E A D O E M B A S H TA N K A

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ACTUALIDADE Afeganistão, sei o que é a guerra. Do que se trata. E o que eles estão aqui a fazer não se trata de guerra. Apenas actos de escumalha. Estão a matar as nossas mulheres, as nossas crianças, os civis, idosos.” A factura de uma guerra…onde o derrotado, à partida…é o humanismo. DIA 3 A “dica” fora de Anna Zamazeeva, a presidente do Conselho Regional de Mykholaiev, que sobrevivera por um acaso ao bombardeamento por míssil russo do edifício onde funcionava este órgão, causa de 37 mortes e dezenas de feridos. A artilharia russa atingira o hospital da cidade provocando dezenas de feridos. Alex chega facilmente ao local utilizando o “google-maps” e estaciona o carro próximo do portão de entrada e saída de ambulâncias. Na fachada não há sinais de guerra, mas ao caminharmos junto à empena do edifício são notórias as janelas protegidas com sacos de areia e, depois destas, sinais de impacto de projécteis. Desta vez as baterias anti-aéreas interceptaram um míssil quando ele se aproximava do edifício, mas os respectivos destroços provocaram estragos consideráveis na ala de pediatria e um ferido grave. Maria, a nossa ‘fixer’, pede permissão para fazermos reportagem do ocorrido e a resposta imediata é negativa. Ela insiste, sublinha ter sido Zamazeeva quem nos identificara o ocorrido. A médica que nos barrara o caminho pede-nos para conferenciar, à parte, com um colega. Passados uns minutos regressam os dois. Diz que não quer ser identificada, nem ser entrevistada, mas apresenta o Chefe da Unidade de Cuidados Intensivos pediátricos que aceita fazê-lo. Andrey Krasyukov, de seu nome, é a simpatia em pessoa. Apresenta-se, sorridente. Pergunta-nos quem somos, ao que vimos, como chegámos até ali e, finalmente, se o queremos entrevistar dentro ou fora do edifício. Rodrigo escolhe o interior, para ilustrar em imagem a actividade 12

clínica, mesmo sendo o cenário, como verificaríamos, sombrio. Mas “é como é. É neste ambiente que o corpo clínico trabalha e os pacientes são atendidos” – penso eu, alinhando sempre com as opções de filmagem do meu companheiro, profissional de uma sensibilidade e talento raros nesta matéria. - “Isto tornou-se normal para nós. Ouvimos as explosões. Vemos os feridos. Tornou-se para nós a normalidade, nestes mais de dois meses de guerra. É isto o que nós vemos” - assume o responsável clínico. Os bombardeamentos diários testam ao limite a resistência da equipa médica. - “É muito duro de ver…trazem crianças que já morreram….e não podemos fazer nada. Vemos meninos que foram feridos, muitos deles seriamente. Todos são ajudados pelo nosso pessoal e continuaremos a fazê-lo aqui. (…) Sim eles estão a bombardear, as bombas continuam a cair, mas fazemos este trabalho porque são crianças”. Uma enfermeira interpela Andrey. Ele escuta-a, pede-nos um minuto, segue-a, os dois cruzam uma porta e nós ficamos ali a aguardar no corredor. Tentando estorvar o mínimo possível a mobilidade dos passantes. - “Venham comigo!” – ressurge o médico, assomando na ombreira por onde se sumira. “Há aqui um jovem que quer falar convosco!”. Rodrigo vai à frente, como sempre fazemos, para eu não lhe “estragar os planos (de filmagem)” com a minha presença nos mesmos. Mas o médico pede que tiremos primeiro os casacos e os coletes à prova de bala e nos resguardemos com batas antes de entrarmos na sala. Rapidamente percebemos porquê. Deitado, numa cama, vestido apenas com cuecas, com a perna direita puxada por um esticador preso ao pé, um penso largo na canela do mesmo membro, e uma costura de cirurgia recente agrafada desde o esterno ao umbigo, encontra-se um jovem adolescente, de cor macilenta.

Kirill tem 16 anos. Caminhava no passeio, fronteiro ao hospital, quando o míssil explodiu, deixando-lhe o pé direito quase arrancado da perna e, alojado no peito, um estilhaço do projéctil. Por “milagre” e rapidez e talento na intervenção médica, sobreviveu. - “Regressava a casa quando um dos projéteis caiu à minha frente. Depois disso começou tudo a abanar… perdi uma perna… bem…caí, tentei pôr-me de pé, mas não consegui” – explicanos o jovem, que pedira para falar connosco, após saber que estava uma equipa de jornalistas estrangeiros no hospital. Na sua cama, dos Cuidados Intensivos, frente a uma janela, toda ela resguardada com sacos de areia, pede-nos que não deixemos este sofrimento anónimo; “Obrigado por virem aqui, arriscar as vossas vidas. Informarem o mundo e ajudarem a perceber o que agora se passa no meu país”. DIA 4 O silêncio no interior do carro traduz a tensão em que nos encontramos ao aproximar-nos da linha da frente de combates. A passagem nos controlos de estrada torna-se impossível a menos que sejamos acompanhados por elementos da Defesa Territorial ucraniana. Após dias de contactos, Maria conseguira-nos um. Garantiu-nos. Mas, no dia da reportagem, as horas foram-se passando e, com elas, a janela de oportunidade a minguar. Sentados, à espera, que o porta-voz das Forças Armadas ucranianas em Mykolaiev, o tenente-coronel Dmytro Pletenchuk, e o Yuri, o tal elemento da Defesa Territorial angariado pela Maria, parassem de marinar os respectivos neurónios em testosterona, numa luta de galos sobre qual deles mandava mais e em quê. Três horas depois do previsto lá seguimos finalmente em direcção a Zeleniy Guy, a 10 quilómetros da zona já ocupada pelos russos, de onde nos chegam relatos de escolas e zonas residenciais bombardeadas e carros de civis emboscados a tiro.


ACTUALIDADE

ESCOL A BOMBARDEADA EM ZELENIY GUY

Um cenário que se confirma à medida que nos aproximamos dessa vila rural. O Yuri e um outro militar, seguem fardados de camuflado e AK-47s a tiracolo, numa carrinha à frente do nosso carro, abrindo caminho nos postos de controlo. Pouco antes da bifurcação à esquerda, da estrada para a vila, vislumbra-se um carro civil, de cor cinzenta, perfurado por tiros, portas abertas e roupas espalhadas nas proximidades. Yuri explica-nos que todos os ocupantes tinham sido mortos numa emboscada por militares russos. Uma violência que se acentua a partir dali. Viramos à esquerda na tal bifurcação, passamos três controlos de estrada abandonados, atrás deles dois blindados ucranianos calcinados e, logo depois, o nosso guia faz-nos sinal de paragem. Apeia-se e segue a pé para dentro de uma propriedade, de muros baixos. Escutam-se estrondos de artilharia. Ele continua a caminhar, impávido. Aponta para a frente, onde se vislumbra um edifício enorme de três pisos, com o centro pulverizado pelo que aparenta ser o impacto de um explosivo poderoso. Yuri precisa que o edifício era uma escola preparatória; a Escola Zelenogai. A potência de um dos mísseis era tal que abriu uma cratera

onde ele próprio cabe em pé. E reduziu a escombros as salas de aula, com materiais escolares misturados agora no chão com destroços das paredes e lajes dos pisos superiores a ameaçarem ruir. - “Houve aqui um bombardeamento de larga escala! Numa escola onde as crianças locais estudavam”, sublinha, mostrando, através de uma das fendas nas paredes, o interior de uma sala de aulas onde se vêem restos de livros e materiais escolares misturados no chão com destroços de janelas, cadeiras e revestimentos arrancados. Um bombardeamento a que não escapou nem a creche na rua paralela à da escola preparatória. E onde faço o directo para o Jornal da Tarde, junto às paredes destroçadas pela artilharia russa, enquanto se intensificam os estrondos dos combates próximos. A uma dezena de metros, do outro lado da rua, um dos poucos residentes que ali permanecem, descreve-nos o que aconteceu. Explica porque ficou para trás. Com os sete cães de vizinhos entretanto desaparecidos e que com ele agora vegetam nos escombros da vila. “Como é sobrevivi? Sobrevivi com os cães numa cave. Quando eles bombardeavam nós íamos para lá!” – relata Alexander, com os dois olhos enevoados por cataratas. “Já estamos habituados. Já conseguimos

distinguir de onde e para onde é que eles disparam”. Com a artilharia próxima a fazer-se sentir, Yuri dá-nos sinal de saída rápida da vila. Guia-nos através dos campos verdes onde o trigo começa a nascer, misturado com projéteis por explodir….e, mais adiante, destroços de helicópteros de combate russos, abatidos pela artilharia ucraniana. A poucos metros dali, improvisou-se uma campa; – “Este é o local onde o piloto russo deste helicóptero foi sepultado” – indica Yuri, junto a um gorro militar russo, depositado sobre uma estaca, marcante do local onde fora enterrado o corpo do invasor. De um lado da estrada… fixa-se a morte… do outro… o paradoxo da retoma da vida. A centenas de metros dos destroços do helicóptero russo, do outro lado da estrada em terra batida, uma alfaia agrícola levanta poeiras, no amanho das terras, sob o olhar de um segundo lavrador. Aproximamo-nos dele. Volodymir de seu nome, fico a saber, aceita falar para a nossa reportagem. Ajudar-nos a perceber, onde vai ele, vão eles, buscar aquela resiliência: - “Como dizer…vamo-nos aguentando…eles bombardeiam, nós semeamos. Eles bombardeiam outra vez, nós semeamos outra vez, para termos algo para comer”. l 13


E N T R E V I S TA INNA OHNIVETS, EMBAIXADORA DA UCRÂNIA

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FOTOS: FERNANDO PIÇARRA

EM PORTUGAL


ACTUALIDADE

“A U C R Â N I A P E R T E N C E AO MUNDO OCIDENTAL, NÃO AO MUNDO RUSSO” Q UA N D O E S TA E D I Ç ÃO DA P R É M I O E S T I V E R A S E R D I S T R I B U Í DA , C U M P R E M - S E 1 0 0 D I A S D E S D E O I N Í C I O DA I N VA S Ã O G E N E R A L I Z A DA DA U C R Â N I A P E L A R Ú S S I A , M A S N Ã O DA G U E R R A , Q U E COMEÇOU MAIS CEDO, EM 2014, COM A ANEXAÇÃO DA PENÍNSUL A DA CRIMEIA PEL A FEDER AÇÃO RUSSA, E PELO INÍCIO DO CONFLITO DO DONBASS. POR ISSO, A EVOLUÇÃO DO CONFLITO MARCOU T O D O O T E M P O Q U E I N N A O H N I V E T S L E VA C O M O E M B A I X A D O R A DA U C R Â N I A E M P O R T U G A L , E L A Q U E C H E G O U A L I S B OA N O F I N A L D E 2 0 1 5 . E M E N T R E V I S TA , E X P L I C A O S E F E I TO S DA G U E R R A D E L A R G A E S C A L A P R O V O C A D A P E L A I N VA S Ã O R U S S A D A U C R Â N I A , TA M B É M N A C U LT U R A , FA L A D A R E S P O S TA P O R T U G U E S A E S O B R E A I N T E G R AÇ ÃO D E U M A C O M U N I DA D E D E M I G R A N T E S Q U E É J Á A S E G U N DA M A I O R E M P O RT U G A L . O F U T U R O , E S S E Q U E R C O N S T R U Í D O A O L H A R PA R A A E U R O PA E N ÃO PA R A O L E S T E .

Quando veio para Portugal, no final de 2015, já existia um conflito real entre a Rússia e a Ucrânia, porque um ano antes, em 2014, a Crimeia foi anexada pela Rússia e tiveram início os conflitos na região do Donbass. A guerra com a Rússia fez sempre parte da sua agenda como embaixadora em Portugal, foi sempre uma prioridade na relação com as autoridades portuguesas? Quando cheguei a Portugal, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia continuava e eu precisava de falar com o Governo português sobre este tema. E posso dizer que este tema foi prioritário para o governo ucraniano, porque nessa altura precisávamos do apoio internacional para resolver, por meios pacíficos, o conflito militar e, também, para abordar o problema da desocupação da Crimeia. Claro que quando a Rússia desencadeou uma guerra em grande escala [contra a Ucrânia], no dia 24 de Fevereiro deste ano, a situação agravou-se e podemos ver um apoio

RICARDO SANTOS FERREIRA

fortíssimo à Ucrânia e todos os povos percebem muito bem que o povo ucraniano sofre muito com a invasão russa, que é injusta e sangrenta. E também podemos ver as atrocidades das tropas russas na região de Kyiv e de Chernihiv e outras. Durante muito tempo, o povo ucraniano sofreu com os bombardeamentos do regime de Moscovo. Foi visível. O que mudou na reacção dos agentes internacionais? Uma coisa foi o que aconteceu em 2014 e que se manteve até agora, outra diferente, na reacção, é a invasão em Fevereiro deste ano. Como vê esta mudança? Antes era

mais difícil explicar que existia já uma situação de conflito? Durante estes oito anos da guerra na Ucrânia, a Rússia utilizou as expressões “guerra civil” ou “conflito interno entre ucranianos” para tentar enganar a comunidade internacional, enquanto a Ucrânia fazia todos os esforços para mostrar a situação real. Durante este período, durante estes oito anos, as tropas russas mataram mais de 14 mil ucranianos. Posso dizer que o Governo português sempre apoiou a posição ucraniana e que também outros parceiros europeus sempre estiveram com a Ucrânia, e, por isso, introduziram as sanções contra a Rússia; mas alguns governantes, de diferentes países, também defenderam – ao longo do tempo – ser necessário alterar a situação e abandonar as sanções. Na realidade, era necessário estabelecer sanções mais fortes, mais severas contra a Rússia. A Rússia usou esta situação, porque podia comunicar como outros países 15


ACTUALIDADE

OS UCRANIANOS PA R T I L H A M O S VA L O R E S D E M O C R ÁT I C O S C O M O S PA Í S E S O C I D E N TA I S E , P O R I S S O , E S TÃO I N S C R I TA S N A NOSSA CONSTITUIÇÃO AS POSIÇÕES SOBRE A ADESÃO, NO FUTURO, À UNIÃO E U R O P E I A E À N ATO.

ocidentais e não sofrer muito com as sanções económicas, e, por isso, a Rússia, e concretamente [Vladimir] Putin, [presidente da Rússia], decidiu que é possível tomar mais uma parte da Ucrânia e, também, ameaçar o mundo ocidental. Agora, quando a Ucrânia não permitiu à Rússia capturar o país durante três dias, como Putin planeou, e quando registamos avanços na linha da fronteira com os russos, e quando temos resultados positivos com a libertação de diversas regiões ucranianas dos invasores russos, podemos mostrar a todo o mundo a nossa força e mostrar que podemos conter o regime autoritário da Rússia. A invasão russa acabou com a discussão sobre se a Ucrânia teria maior apetência para se virar para a Rússia ou para a Europa Ocidental? Esta guerra acabou com as dúvidas? Os ucranianos partilham os valores democráticos com os países ocidentais e, por isso, estão inscritas na nossa Constituição as posições sobre a adesão, no futuro, à União Europeia e à NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte, NATO, na sigla em inglês]. Isto significa que o povo ucraniano já decidiu sobre este assunto, já decidiu onde está a Ucrânia, se no mundo ocidental, se no “mundo russo”. Esta guerra desencadeada pela Rússia mostrou que o “mundo russo” é o mundo dos assassinos, um mundo de atrocidades e de crimes de guerra, e 16

é claro que não queremos viver neste mundo terrível; gostaríamos de viver no mundo da democracia e da liberdade, porque, para os ucranianos, a liberdade é um valor principal. O futuro passa pela Europa? Este tema da perspectiva europeia da Ucrânia é muito importante para nós. A Ucrânia tem as aspirações europeias e quer adquirir o estatuto de candidato à adesão à União Europeia já em Junho deste ano, agora. Segundo dados de uma sondagem realizada no final de Março – a 30 e 31, [ já depois do início da guerra em larga escala] – uma pesquisa feita pela Rating [uma empresa ucraniana de sondagens e pesquisa, independente], cerca 91% dos ucranianos apoiam a adesão da Ucrânia à União Europeia. E, de acordo com os estudos de opinião dos residentes na União Europeia, realizadas no âmbito do Eurobarómetro [instrumento oficial de estudos de opinião na UE], divulgados a 5 de Maio deste ano, 66% dos cidadãos dos Estados-membros da União Europeia concordam que a Ucrânia deve aderir à União Europeia. Aproveitando esta oportunidade, gostaria de expressar, em nome do povo ucraniano, a profunda gratidão ao povo português, uma vez que o mais alto nível de apoio à perspectiva da Ucrânia integrar a União Europeia foi registado em Portugal – 87% dos portugueses que participaram neste inquérito apoiaram o futuro europeu da

Ucrânia. E isso significa que temos em Portugal os amigos verdadeiros e muito sinceros. A Ucrânia espera uma avaliação positiva por parte da Comissão Europeia do seu pedido de adesão à União Europeia. Posso dizer que esta é uma questão vital para o nosso país e que é muito simbólica, porque ao concordar com a nossa posição e com o nosso pedido de adesão, a União Europeia vai mostrar à Rússia que a Ucrânia pertence ao mundo ocidental, não ao “mundo russo”. Olhando para o esforço de guerra, como vive e procura participar nesse esforço, estando em Portugal, longe da Ucrânia, onde se desenrolam as batalhas, no terreno? Como se torna possível participar? Os ucranianos precisam do apoio dos outros povos do mundo ocidental e, nomeadamente, do apoio dos portugueses. Nesta situação, para sermos fortes, para os ucranianos se sentirem fortes, isso significa ter armas, e, por isso, pedimos armas, pedimos armamento ao Governo português. Posso dizer que temos tido este apoio, que temos tido acesso a armamento; foi concretizado o fornecimento de armamento por muitos países europeus e, também, por Portugal, e isso vai ajudar-nos a salvar muitas vidas de ucranianos. Além do armamento, tem havido resposta das autoridades portuguesas,


ACTUALIDADE por exemplo, com financiamento e com o exercício da capacidade de influência na União Europeia? As autoridades portuguesas têm apoiado muito a Ucrânia, não só com o fornecimento de armamento, mas também com ajuda humanitária e, por exemplo, com apoio em produtos alimentares. E não é só o Governo, porque também tenho de agradecer às câmaras municipais, por exemplo, de Lisboa, de Cascais, de Braga e de outras cidades que participaram muito activamente na assistência humanitária aos ucranianos. Foram realizadas também as reuniões no formato videoconferência, com presidentes das câmaras municipais, por exemplo, de Cascais e de Espinho, para poderem falar sobre a ajuda possível a cidades ucranianas, como Irpin e Bucha, que sofreram muito com a invasão russa. No futuro, também será possível às câmaras portuguesas participarem na reconstrução das cidades ucranianas. Gostaria também de destacar o apoio na questão de acolhimento dos refugiados ucranianos, porque mais de 36 mil ucranianos vieram para Portugal, pedindo o estatuto de protecção temporária. E o Governo português concretizou o programa para os refugiados ucranianos, que permite, por exemplo, a possibilidade de acederem, gratuitamente, a serviços de adaptação linguística, tratamento, comunicação e educação das crianças e apoio na procura de emprego. O Ministério da Educação de Portugal criou, também, um projecto especial na televisão, na RTP, para permitir às crianças ucranianas estudarem a língua portuguesa. Pela nossa parte, também temos interesse, no futuro, em concretizar este projecto na Ucrânia, porque os ucranianos que vivem na Ucrânia também gostariam de estudar a língua portuguesa, a língua de Camões, que é uma língua muito, muito bonita. A comunidade ucraniana já tinha uma presença relevante em Portugal, mas passou a ser a segunda maior, com a guerra. Essa integração tem sido fácil? O histórico de migração é relevante nesse processo?

A comunidade ucraniana está integrada em Portugal há mais de 20 anos e posso dizer que, para os ucranianos, Portugal é uma segunda pátria, e, por isso, os membros da comunidade vivem em Portugal com muito gosto. As crianças ucranianas frequentam as escolas portuguesas. Aqui, os ucranianos procuram, também, preservar as suas tradições, porque temos uma cultura muito, muito rica, e, por isso em Portugal, há muitos anos que funcionam os centros ucranianos para crianças. Dou um exemplo: recentemente, fui convidada por uma escola que funciona em Cascais, para um evento em que esteve também um representante da Fundação Calouste Gulbenkian, o Dr. Pedro Calado, um evento cultural em que tive a oportunidade de comunicar com as crianças ucranianas que são alunos desta escola. Nesta

escola funcionam aulas de dança, onde as crianças ucranianas têm a oportunidade de praticar as danças ucranianas e, também, as portuguesas. A escola, agora, tem mais de 250 alunos, juntamente com as crianças que chegaram a Portugal, vindas da Ucrânia, e isso significa que existe um grande interesse dos ucranianos para estabelecerem contactos com os refugiados ucranianos que chegaram recentemente, para ajudá-los, para também criarem novos projectos, para realizarem novos eventos juntamente com a comunidade portuguesa. Referiu a cultura. O que sabemos é que a cultura, numa situação e guerra, é também vítima, não só pela destruição de obras, mas também pelo condicionamento de histórias e tradições. Tem sido possível proteger a cultura na Ucrânia? 17


ACTUALIDADE A guerra tem tido um custo cultural significativo. Posso dizer que, dado o bombardeamento contínuo das cidades ucranianas pelas tropas russas, todos os tesouros culturais e patrimoniais da Ucrânia correm risco. Por exemplo, o memorial do holocausto de Drobytsky Yar, próximo de Kharkiv, que visa, expressamente, fazer com que não se esqueçam os horrores do holocausto, na II Guerra Mundial, que é um sinal das vítimas desta tragédia humana, foi atacado por mísseis russos nos primeiros dias da invasão da Ucrânia pela Rússia. Posso dizer que enfrentamos a situação de muitos monumentos históricos ou edifícios culturais e patrimoniais terem sido destruídos, infelizmente. Depois da libertação do território, da parte do território da Ucrânia [em que a presença de tropas russas era forte], nomeadamente das regiões de Kyiv, de Chernihiv e de Sumy, e, mais recentemente, da região de Kharkiv, como a situação [de conflito] melhorou, podemos já começar a restaurar estes territórios. Claro que, sem o fim da guerra, não é possível estarmos concentrados neste processo. Por isso, vamos precisar de negociar e de pedir a ajuda da comunidade internacional na resolução desta questão, porque, parar a guerra não depende da Ucrânia. Depende da Rússia e do regime autoritário de Putin pôr fim a esta guerra contra a Ucrânia. Preservar o nosso património cultural

é uma questão muito importante para todos os ucranianos. Os imigrantes também têm um papel a desempenhar e também trazem a cultura consigo. Podem manter viva a tradição com a promoção de eventos como aquele que referiu. Também têm um papel a desempenhar, nesta situação de guerra? Claro, os ucranianos que vieram para Portugal e os ucranianos imigrantes que vivem há muitos anos em Portugal também estão envolvidos na preservação da cultura ucraniana e, juntamente com a nossa embaixada, realizaram e têm a intenção de continuar a promover eventos culturais para mostrar a nossa cultura, que é muito rica, e também para a apresentar a nossa história, que é vasta. A guerra também se faz através da cultura e nós temos visto exemplos de tentativa de implantação de narrativas por parte da Rússia nesse sentido. Como é que se combate isto, a história alternativa que é contada? O “mundo russo”, no regime autoritário de Putin, é o instrumento principal para espalhar a agressão. Putin declarou que a Ucrânia é uma parte do “mundo russo” e que, por isso, o território ucraniano tem de ser integrado. No entanto, na realidade, o que pretende é, mais exactamente, restaurar a União Soviética. Podemos ver que, no sul da Ucrânia, numa parte do território

ucraniano capturado pelos russos foi construído um monumento a Vladimir Lenine, fundador da União Soviética, e isso significa que Putin sonha com a restauração do Império Russo, com a União Soviética. Putin diz que o povo ucraniano e o russo são o mesmo povo. Também pudemos ouvir comentários de alguns dos líderes europeus, como do presidente de França, Emanuelle Macron, a dizer que os povos russo e ucraniano são irmãos, mas posso dizer que não são; não somos irmãos, somos vizinhos, e, infelizmente, temos um vizinho muito agressivo, um vizinho que quer capturar o nosso território, que quer matar-nos e anunciar que esta terra é sua. Por isso, lutamos pela nossa independência e pela preservação da nossa soberania. Em relação ao tema da cultura, a cultura ucraniana tem diferenças relativamente à cultura russa. Temos a nossa língua, a língua ucraniana, que tem semelhanças com a língua russa, mas é absolutamente diferente; também é semelhante com a língua polaca ou com a língua bielorrussa, mas não deixa de ser diferente. Isso é normal, porque somos vizinhos e temos uma história muito longa do desenvolvimento dos nossos povos. Outro dos elementos do “mundo russo” é a Igreja Ortodoxa. Putin declarou que os ucranianos são ortodoxos e, por isso, têm de pertencer ao “mundo russo”, porque isso também

A P R O V E I TA N D O E S TA O P O RT U N I DA D E , G O S TA R I A D E E X P R E S S A R , E M N O M E D O P O V O U C R A N I A N O , A P R O F U N DA G R AT I DÃO AO P O V O P O RT U G U Ê S , U M A V E Z Q U E O M A I S A LTO N Í V E L D E A P O I O À P E R S P E C T I VA DA U C R Â N I A I N T E G R A R A U N I ÃO E U R O P E I A F O I R E G I S TA D O E M P O RT U G A L – 8 7 % D O S P O RT U G U E S E S Q U E PA RT I C I PA R A M N E S T E I N Q U É R I TO A P O I A R A M O F U T U R O E U R O P E U DA U C R Â N I A .

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ACTUALIDADE

PERFIL INNA OHNIVETS Inna Ohnivets é embaixadora extraordinária e plenipotenciária da Ucrânia na República Portuguesa desde 2015. Casada, mãe, chegou no final desse ano para a sua segunda experiência como chefe de uma missão diplomática, depois de ter sido cônsul-geral e embaixadora na República Eslovaca, entre 2003 e 2010. “O primeiro ano foi bastante complicado, por se estar num país estrangeiro”, diz, mas a adaptação a Lisboa e a Portugal foi rápida. “Tenho muitos amigos, tenho colegas, e a oportunidade também de desenvolver uma cooperação muito activa em Portugal”, conta. Nascida em Zhovti Vody, na região central de Dnipropetrovsk, há 59 anos, formou-se no Instituto Estatal Pedagógico das Línguas Estrangeiras de Kyiv, foi professora de espanhol e de inglês, e declara-se uma apaixonada pela língua portuguesa, que fala fluentemente. “Gosto muito de Portugal, da língua portuguesa”, afirma. É, também, jurista, licenciada na Universidade Estatal de Kyiv de Tarás Shevchenko, e é nessa capacidade que faz a maior parte do seu percurso profissional, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde assumiu diferentes funções. Directa na comunicação, pragmática, cabe-lhe a missão de ser embaixadora num período difícil, de guerra. Por isso, o futuro que se coloca passa por aqui, por este posto, e pela defesa da Ucrânia. “É uma grande honra”, sublinha.

não é verdade, porque na Ucrânia temos diferentes religiões, temos muçulmanos e católicos, católicos ortodoxos, judeus, por isso temos uma cultura multinacional e muito rica, muito democrática. Não pertencemos ao “mundo russo” e não queremos viver neste mundo inventado por Putin. Falou das câmaras municipais e no apoio que estas têm dado. A questão das associações pró-russas que interagiam com os refugiados ucranianos está já ultrapassada? Têm mantido contactos com as autoridades para encontrarem soluções? Nesta altura, estamos à espera dos resultados da investigação e sobre a situação em Setúbal. Em Portugal funcionam diferentes associações e entre estas associações estão as sucessoras de Leste, onde estão imigrantes de diferentes nacionalidades, russos, moldavos, ucranianos, entre outras, mas nesta situação, quando, infelizmente, estamos em estado de guerra com a Rússia, alertámos sobre esta situação de russos estarem envolvidos no acolhimento de refugiados ucranianos e informámos [as autoridades].

Mantive conversações com o Governo português, reuniões com diferentes representantes, mas gostaríamos, também, de ter o apoio e a compreensão da parte do Governo português nesta questão. Referiu estar já a preparar a recuperação do país e a necessidade de agregar apoios internacionais para responder à tarefa. Já estamos nessa etapa, já está a ter conversas com o Governo português por causa disso? Para já, já temos conversas com os representantes do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal e, também, com câmaras municipais. Posso dizer que a Câmara Municipal de Cascais já iniciou projectos neste sentido e que, agora, vamos começar a preparar projectos para as cidades [ucranianas] que têm geminação [com cidades portuguesas] e vamos solicitar apoio, também, por parte de outras cidades. Temos a cidade de Braga, geminada com Ivano-Frankivsk, a cidade do Porto tem uma relação aprofundada com Kharkiv, e Lisboa está geminada com Kyiv. Por isso, temos uma base para estabelecer um contacto mais directo entre as cidades, para se desenvolver

esta cooperação ao nível das câmaras municipais. Uma última pergunta, sobre si e o seu futuro. Está há quase sete anos em Portugal. Vai continuar, regressar a casa, partir para uma nova missão de representação? Pensa no futuro, tanto quanto se pode fazê-lo, nesta conjuntura? A minha intenção é continuar a apoiar a Ucrânia e isso significa que vou usar todas as possibilidades para divulgar informação e esclarecer as questões a quem gostaria de saber mais, neste caso, os portugueses. Actualmente, trabalho aqui, nesta posição, como embaixadora da Ucrânia, o que, na minha opinião, também é um desafio, um desafio real, porque é bastante difícil exercer funções diplomáticas num período de guerra. Mas também é uma grande honra, porque o presidente ucraniano acredita em mim e eu vou fazer tudo o possível para ajudar a minha pátria. Aqui, sinto solidariedade, um apoio muito forte da parte dos portugueses pela situação que se vive na Ucrânia e é muito importante ter este apoio, neste momento tão trágico para a minha pátria. l 19


ACTUALIDADE

HENRIQUE RAPOSO, COLUNISTA

CANCELAR OU NÃO CANCELAR? E S S A N Ã O É A Q U E S TÃ O

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magine-se uma faculdade onde os alunos são personificações de nações ou impérios. E agora imagine-se também uma disciplina sobre totalitarismo, qualquer coisa como “Introdução ao Totalitarismo I e II”. Pois bem, claro que em 2022 a melhor aluna desta cadeira seria a Rússia, que está bastante próxima dos 100% do fascismo. É aliás incrível como as pessoas que passaram as últimas décadas a gritar “fascismo” por tudo e por nada são agora incapazes de reconhecer um verdadeiro fascista quando ele se senta no colo da Europa. Mas o meu interesse aqui não está na proximidade de Moscovo em relação aos 100%, está no afastamento do Ocidente em relação aos 0%. O Ocidente já foi um péssimo aluno nas matérias de totalitarismo, mas hoje em dia talvez seja um aluno mediano. Paradoxalmente, a invasão da Ucrânia apanha o Ocidente no seu momento menos livre desde 1945. A “guerra ao terror”, a “guerra à covid” e essa enorme guerra à liberdade que é o politicamente correto criaram nos últimos vinte anos uma psique ocidental que sacrifica a liberdade no Moloch da segurança. Criou-se a ideia de que é possível ou desejável viver sem riscos. Estamos a fabricar uma obsessão distópica baseada no risco zero, na segurança máxima contra o terrorismo, contra um vírus, contra piadas ou pensamentos considerados ofensivos. E esta terceira variante da

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distopia, o politicamente correto, é sem dúvida um fenómeno totalitário que cresce como uma hera à volta da árvore ocidental, sufocando-a através da cultura do cancelamento. Sem surpresa, este fanatismo apareceu nas primeiras reações ocidentais à invasão russa: artistas e atletas russos foram banidos dos certames internacionais; cantoras líricas e maestros russos foram demitidos ou forçados a uma caminhada de vergonha só por serem russos. E chegou-se ao cúmulo que parece uma piada: várias faculdades sugeriam o cancelamento de grandes escritores russos como Dostoiévski só porque eram russos. Não percebem estas pessoas que estão a fazer precisamente aquilo que os fascistas faziam e fazem, queimar livros? Putin queima livros ocidentais. Nós não podemos queimar livros russos, mesmo aqueles que nos causam urticária. Gogol, por exemplo, irrita-me com a presunção de superioridade moral e mística da Mãe Rússia. “Tarass-Bulba” (E-primatur) é uma romantização da Grande Rússia que engloba russos e ucranianos no mesmo espaço mental do excepcionalismo russo. Os russos, os eslavos, os ortodoxos, diz Gogol, sentem as emoções de forma especial, são uma espécie humana à parte. É fácil visualizar os ideólogos de Putin a usar Gogol como legitimação do atual colonialismo. Mas cancelá-lo ajuda exatamente no quê? Até é pouco inteligente, pois retira-nos uma peça necessária à compreensão deste pan-

eslavismo. Se Gogol faz uma defesa acéfala do imperialismo russo, Tolstoi em “Hadji-Murat” (Cavalo de Ferro) já tem um olhar crítico sobre esse imperialismo. Portanto, faz ainda menos sentido cancelar este russo em particular, porque “Hadji-Murat” é só pode ser um livro proibido na psique de Putin. E, para terminar, é só patético pensarmos no cancelamento de Tchékhov, o russo anti-russo. Como escreveu Vasselli Grossman, outro russo anti-russo, Tchékhov “carregou aos ombros a democracia russa que não chegou a acontecer; o caminho de Tchékhov é o caminho da liberdade russa”; Tchékhov “disse como ninguém tinha dito antes dele, nem o próprio Tolstoi: antes de mais somos humanos (...) o mais importante é que as pessoas são pessoas, só depois é que são prelados, russos, lojistas, tártaros, operários”. Num certo sentido, Tchékhov era ocidental e defendia um humanismo concreto e assente no indivíduo, o que contrariava o corpo político russo, esse espaço onde “o homem é implacavelmente sacrificado ao humanismo abstrato”, o Homem Novo do comunismo de Gorki, o Homem Russo do sangue sagrado de Gogol. Do passado e do presente, russos como Tchékov e Tolstoi são os nossos maiores aliados. Cancelá-los só porque são russos seria a suprema confirmação de que o Ocidente quer mesmo entrar no quadro de honra da Introdução ao Totalitarismo. l (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


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PARCEIROS FUNDADORES

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ACTUALIDADE

JOAQUIM MIRANDA SARMENTO, PROFESSOR NO ISEG/UNIVERSIDADE DE LISBOA

INFLAÇÃO, E AGORA?

O

s últimos dois meses foram marcados pela discussão da inflação e do aumento dos preços. Criou-se a perceção de comunicação que: 1) a inflação é um fenómeno que teve origem no início da invasão da Ucrânia pela Rússia e que, por isso, 2) a inflação resulta do aumento dos preços na energia e nos bens alimentares e 3) uma inflação de 4% ou 5% não é uma inflação elevada. Ora, isso não corresponde à realidade. Primeiro, o processo inflacionista nos EUA e na Europa iniciou-se no verão de 2021. E resulta de dois fatores: 1) uma forte expansão da massa monetária, por via quer da política monetária da Reserva Federal Americana (Fed) e do Banco Central Europeu (BCE), quer dos estímulos à economia devido à pandemia da Covid-19; 2) um choque simultâneo da procura e da oferta, dado que (lado da procura) a saída dos confinamentos e a elevada poupança

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desses períodos levou a um aumento substancial do consumo (apelido “revenge spending”), mas (lado da oferta) a Covid-19 levou a uma disrupção nas cadeias de produção e distribuição. Segundo, a inflação não resulta sobretudo do choque de preços dos bens energéticos e alimentares. Basta atender a três indicadores: 1) As expetativas de inflação na zona Euro e nos EUA já rondavam os 5% na véspera do conflito iniciar e passado dois meses mantêm-se próximos (ligeiramente superior) a esse valor; 2) A inflação registada em fevereiro na zona Euro foi de 5.9% e em Portugal de 4.2%; 3) A inflação “core” (subjacente, isto é, sem energia e bens alimentares) em abril foi de 3.9% na zona Euro e em Portugal foi de 5%. Terceiro, uma inflação durante alguns anos, mesmo que a 4%-5%, não deixará de ser uma inflação elevada (recorde-se que o objetivo da Fed e do BCE é 2%). Os leitores com mais memória recordaram a inflação nos anos 70 e início dos anos 80. Na altura, a inflação nas economias

avançadas rondou os 10%/15% e em Portugal os 20%/30%. Mas é importante compreender que nos últimos 10 anos, desde a crise financeira e a alteração da política monetária dos Bancos Centrais, que nos “habituámos” a viver com inflação (e taxas de juro) em torno de zero. É aquilo a que os economistas chamam “inércia da inflação”. Os agentes económicos ajustaram as suas expetativas racionais a esse “normal”. Uma inflação durante vários anos em torno de 4%/5% significará um novo patamar de preços e juros, que obrigaram a fortes correções económicas. Porque nos devemos preocupar com a inflação? Primeiro, porque tem fortes impactos na eficiência económica e pode afetar o produto total (a criação de riqueza). Tem também um impacto significativo na eficiência, dado que distorce os preços e os sinais dos preços. Numa economia com baixa inflação, as alterações dos preços são percetíveis pelos consumidores, que alteram o seu perfil de consumo (se um bem aumenta muito o seu preço, (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


ACTUALIDADE

mudam para bens complementares – se o preço de uma carne sobe muito, mudam para outras carnes, ajustando o mercado – chama-se a isto variação dos preços relativos). Se a inflação é elevada, este efeito reduzse substancialmente. Segundo, a literatura económica apresenta fortes evidencias que a relação positiva entre inflação e crescimento do produto ocorre num curto prazo, havendo um efeito negativo no médio prazo. Terceiro, porque implica perda de poder de compra, sobretudo em quem recebe salários e pensões. A subida dos salários no setor privado varia muito entre setores de atividade, mas dificilmente acompanha o ritmo e a velocidade da subida dos preços. No setor público, quer os salários, quer a atualização das pensões, é feita sempre com base na inflação ocorrida no ano anterior. Isso gera naturalmente perdas de poder de compra, se a inflação for elevada durante alguns anos. Adicionalmente, as famílias perdem poder de compra por duas vias: por um lado o cabaz de bens e serviços

está mais caro, e por outro, a subida das taxas de juro leva a que as famílias com créditos (sobretudo à habitação) vejam a prestação da sua casa subir. Quarto, provoca alterações na repartição do rendimento. A inflação prejudica os aforradores (dado que mesmo que as taxas de juro subam, será sempre um efeito com desfasamento) e beneficia os devedores (apesar do efeito referido das taxas de juro, com o aumento dos preços e o aumento dos salários, o valor da dívida, em termos nominais, reduz-se). Também o valor real dos ativos tende a reduzir-se. Quinto, gera desequilíbrios nas Finanças Públicas. Num primeiro momento leva a um efeito “ilusório” de aumento da receita fiscal (a receita de IVA sobe por via dos preços, a receita do IRS e da TSU sobe por via da subida dos salários), mas depois tem efeitos muito negativos. Leva a uma redução da atividade económica, o que, naturalmente, reduz a receita fiscal e contributiva. E, sobretudo, cria uma enorme pressão na despesa pública. Como referido, um aumento

da inflação leva a uma subida dos juros (agravado neste caso pelo fim da política monetária do BCE de compra de dívida pública, que vai agravar os juros e os spreads), fazendo aumentar essa componente da despesa do Estado. Leva também a um aumento da despesa com pensões e prestações sociais, bem como a uma pressão para aumentos salariais na função pública. E naturalmente, leva a um aumento da despesa com a aquisição de bens e serviços necessários para o funcionamento dos organismos públicos. Em síntese, se os próximos anos se confirmar um nível de inflação bastante acima dos 2%, podemos esperar um período económico com menor poder de compra, seja por via dos preços, seja por via das prestações ao banco. As empresas terão um ambiente competitivo mais incerto e ineficiente. O Estado terá pressões do lado da despesa. A atuação dos Bancos Centrais é assim fundamental para permitir um retorno a um nível de inflação baixo, próximo dos 2%. l 23


ACTUALIDADE

CAMILO LOURENÇO, JORNALISTA

O F U T U R O D O PA Í S NÃO É RISONHO

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o olharmos para trás na nossa vida é frequente encontrarmos momentos de grande crescimento e outros de estagnação. Com os países acontece o mesmo. Quando se olha para o Portugal nos primeiros 22 anos deste século, a grande surpresa é constatar o quão pouco evoluímos. Medido pelo PIB, o crescimento neste período pouco supera (em média) os 0,6%. É muito pouco se compararmos com períodos anteriores. Por exemplo, entre 1986 e 1992 a economia cresceu em média 5,3%. Mas as comparações agridoces não ficam por aqui. De 1986 a 1995 viveu-se um período de profundas reformas. Ora não é arriscado dizer que uma coisa levou à outra. Isto é, foram as reformas que propiciaram o crescimento económico muito acima da média da União Europeia, que tornou os portugueses mais “ricos”. Feita esta comparação histórica, avancemos na análise. O que está na base da estagnação do primeiro quartel deste século? A ausência das tais reformas transformadoras

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(prefiro este termo a “estruturais”). As únicas que tiveram lugar neste período (e foram significativas, por terem produzido resultados magníficos!) ocorreram durante os 4 anos em que Portugal esteve intervencionado pelos credores externos. Parte delas foram revertidas nos últimos 7 anos e as que não foram… foi precisamente pelo facto de a Comissão Europeia não o ter permitido. Pergunta: o que sucedeu para que Portugal tenha abandonado o espírito reformista para se tornar num país conservador (sim, conservador é o termo certo para designar uma sociedade que não quer ouvir falar em reformas…)? A alteração da estrutura demográfica e a prevalência de uma classe política que não quer “aventuras”. Por “aventuras” leia-se a ausência de risco. Olhemos para a estrutura demográfica. A população portuguesa envelheceu. E quem envelhece… receia o risco. Quem quer, aos 50 ou 60 anos, tomar decisões que podem por em risco a sua reforma? Como costumam dizer os analistas Joaquim Aguiar e Jorge Marrão nas suas

intevenções semanais no programa “Think Tank”, do canal “A Cor do Dinheiro”, uma população envelhecida foge das “guerras”; do combate pela mudança. Vejamos: Portugal tem atualmente cerca de 3,8 milhões de reformados. Se a estes somarmos pelo menos meio milhão a beneficiar de outras prestações sociais, temos um quadro aterrador: quem quer arriscar mudanças sabendo que isso pode prejudicar, pelo menos no curto prazo, o seu bem-estar? A alteração demográfica é, por isso, o principal óbice a mudanças de fundo na sociedade portuguesa. É por isso que a classe política dos últimos 7 anos, que percebeu bem este desafio, se tem revelado tão conservadora: alguém está a ver um primeiro-ministro que vendeu o fim da austeridade ter a coragem de dizer aos cidadãos que o país precisa de reformas… e que essas reformas, nos primeiros 3 a 4 anos, vão provocar dor? É este conservadorismo da sociedade que faz temer pelos próximos 10 anos: com o PS no poder, cavalgando a onda da “distribuição” de rendimentos, que incentivo têm os partidos da (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


ACTUALIDADE

oposição para apresentar uma agenda alternativa e reformista? Nenhum! Por exemplo, todos sabemos que o sistema de pensões não é sustentável. E ao contrário do que diz o governo, está pior do que há 6 anos. Não é porque o fundo de estabilização financeira da Segurança Social melhorou a sua performance que o sistema de pensões, em termos estruturais, está mais equilibrado. Precisamente porque não resolve o problema de fundo: o facto de as despesas com pensões superarem as receitas a partir da década de 30… Ora isso obriga a Segurança Social a pensar em alternativas: como financiar, de forma estrutural, as pensões? A resposta imediata é “mais impostos” (ou via subida de

impostos já existentes). Só que isso cria um problema: como mostrou a OCDE há poucas semanas, Portugal é o 10º país da organização em que a tributação do trabalho é mais elevada. Um trabalhador português entrega 41,8% do seu salário ao Estado, sob a forma de impostos e contribuições para a Segurança Social. Como agravar essa carga (fiscal) sem penalizar a performance da economia, nomeadamente as empesas… já de si sobrecarregadas com uma tributação que atinge 32 a 33% dos seus lucros? Por outras palavras, estamos a criar uma sociedade excessivamente dependente de prestações sociais, ou ‘handouts’, que só podemos pagar com impostos. Mas a carga

fiscal já é demasiadamente elevada. Voltando às reformas, recordo-me que há 20 anos alguns analistas diziam que o país mudaria no dia em que as novas gerações, mais pragmáticas e libertas do socialismo, chegassem ao poder. Ou seja, a partir de 2015 assistiríamos a uma mudança. Percebemos agora que houve um erro de análise: a grande maioria desses “reformistas” abandonaram, ou estão a abandonar, o país. Principal razão? A inexistência de empresas novas (com raríssimas exceções) dispostas a oferecer remunerações compatíveis com o seu talento… e o facto de esses jovens serem violentamente tributados em Portugal. Por outras palavras, estamos a assistir à emigração da geração que poderia mudar o país: saem os reformistas e ficam os conservadores. Se a tudo isto somarmos o facto de a estrutura de poder estar dominada por pessoas muito marcadas pela filosofia socialista dos anos 70 (basta olhar para idade de quem está no poder e no seu trajeto dentro dos partidos…), percebe-se que o futuro de Portugal não é risonho. Até porque qualquer tentativa de reforma do ‘status quo’ é incompatível com decisões difíceis. Tomemos o seguinte exemplo: admitamos que perante um agravamento do equilíbrio da Segurança Social, um futuro governo se vê confrontado com a possibilidade de ter de congelar pensões… ou subir impostos. Qual acha o leitor que vai ser a escolha? Obviamente a segunda. É legítimo, mas isso obriga a mudar o raciocínio: para se implementar qualquer mudança, quem estiver no poder vai ter de prometer a quem beneficia das prestações sociais que elas se vão manter. Ora na prática isso significa que a carga fiscal sobre a economia se vai manter muito elevada pelo menos durante uma década. Quer pior cenário do que este? l 25


ACTUALIDADE

ALEJANDRO ZACCOUR, EMBAIXADOR DA COLÔMBIA EM PORTUGAL

CAMINHO A ZERO

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as discussões sobre aquecimento global, a expressão mais repetida e consensual é a de que “não há planeta B”. Esta afirmação, séria, tem sido o “leitmotiv” do governo colombiano, liderado pelo Presidente Iván Duque que, na última Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, anunciou a sua Estratégia Climática de Longo Prazo para a Colômbia – “E2050”. Iván Duque soube interpretar o espírito e metas do Acordo de Paris, tomando ações que visam a sua materialização. Hoje, o combate ao aquecimento global na Colômbia é mais do que palavras, são medidas concretas com impacto à escala global. Aqui, convém notar que a Colômbia é um dos três países com maior biodiversidade do planeta, detém parte da Amazónia e conta com dois oceanos: Atlântico e Pacífico. As metas do Presidente Iván Duque são claras e desafiantes: alcançar a neutralidade carbónica até 2050, reduzir a emissão de gases com efeito de estufa em 51%, acelerar a transição energética do país e promover o hidrogénio verde e azul como fontes de energia dos meios de transporte, cuja regulamentação

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já está em curso e prevê-se, a curto prazo, implementar projetos piloto. No que concerne à transição energética, vale a pena salientar que Portugal tem sido um parceiro estratégico e o setor privado que opera nas renováveis tem respondido às metas do governo colombiano. Neste mandato foi possível superar os 3.000 megawatts de potência instalada e, no curto prazo, alcançaremos os 10.000 MW. Mas não só. O governo tem-se empenhado igualmente no combate à desflorestação, à exploração mineira ilegal e na eliminação de zonas de cultivos de uso ilícito. Até dezembro de 2021, com o apoio das Forças Armadas, foram plantadas mais de 120 milhões de árvores autóctones e a meta é alcançar os 180 milhões em agosto deste ano. Uma mobilização em prol do meio ambiente, sem precedentes. O desenho e implementação destas políticas colocaram a Colômbia como país líder em estratégias de longo prazo. Estas, beneficiam o meio ambiente e o planeta, estimulam o empreendedorismo e melhoram a economia, como bem salientou, a este propósito, o Presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Mauricio Claver-Carone. Neste contexto, o Presidente Iván

Duque participou, também, no “One Ocean Summit” organizado pelo governo francês, em Brest, no qual anunciou que 30% do território marítimo colombiano será declarado reserva marinha. Numa iniciativa conjunta com os governos do Equador, Costa Rica e Panamá, foi possível criar a maior área marinha protegida do mundo, cujo objetivo, como frisou o Presidente, é “a conservação inequívoca dos recursos naturais que pertencem a todos os colombianos e à Humanidade” e “garantir a sobrevivência de mais de 40% das espécies marinhas em todo o mundo”. Um esforço que é de todos e que depende do trabalho em equipa de mais de 50 países, conforme foi acordado na Aliança Mundial 30x30. Hoje, podemos afirmar que as áreas protegidas na Colômbia, tanto marítimas como terrestres, duplicaram. São uma realidade. O Presidente Iván Duque chegará brevemente a Lisboa para participar na Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos, coorganizada por Portugal, Quénia e ONU. Será uma excelente oportunidade para refletir e definir novas metas e ações concretas na luta pela preservação do nosso planeta e garantir um futuro sustentável, rumo às zero emissões. l (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


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ACTUALIDADE

PEDRO SAMPAIO NUNES, EX-DIRECTOR DA COMISSÃO EUROPEIA DAS NOVAS TECNOLOGIAS DE ENERGIA E DAS ENERGIAS CONVENCIONAIS | EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DA C I Ê N C I A E I N OVAÇ ÃO | CO N S U LTO R

PRECISAMOS URGENTEMENTE D E U M A N O VA P O L Í T I C A EUROPEIA DE ENERGIA

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Comissão Europeia apresentou no passado dia 18 de maio a sua proposta REPowerEU, um plano que pretende reduzir rapidamente a dependência dos combustíveis fósseis russos e acelerar a transição ecológica. Nesta proposta a Comissão mostra infelizmente que nada aprendeu com a crise atual, e propõe na prática, substituir a nossa dependência da Rússia, por uma dependência mais total e mais irreversível da China. Salva-se o apelo a uma maior eficiência energética, onde cada unidade de energia no consumo, evita a produção de três unidades de energia primária na produção. De resto, estamos em pleno reino da fantasia e do 28

politicamente correto, que nos trouxe até à atual tragédia. Com os preços mais altos de energia do Mundo, sejam em combustíveis líquidos, pela enorme punção fiscal a que são sujeitos, seja na eletricidade ou no gás natural, a Europa, gigante económico com pés energéticos de barro, tem que fazer algo de drástico e eficaz para alterar esta situação, que ameaça a sua competitividade industrial e o nível de vida dos seus cidadãos. Mas não seguramente o que consta da proposta da Comissão, em que esperemos que o bom senso do Parlamento e do Conselho Europeu, coloquem no bom caminho. Essa situação vem já de trás, não deriva da guerra da Ucrânia, mas foi muito agravada pelo conflito que

estamos a assistir. A política europeia de energia formatou-se muito condicionada pela agenda climática, uma vez que a União pretendeu assumir um papel de liderança no combate climático, e sobretudo na chamada economia “verde” a que iria dar origem. No entanto, vejamos os factos: a União Europeia é responsável por 8 % das emissões globais de gases de efeitos de estufa. Há 20 anos era responsável por 14%. A China era responsável há 20 anos pelos mesmos 14% das emissões, hoje é responsável por 28%! Os Estados Unidos eram responsáveis por 24%, hoje são por 14%. Assim, a União Europeia desceu 6 pontos percentuais, mas à custa de ter hoje os custos mais elevados (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


ACTUALIDADE de energia do Mundo, enquanto os Estados Unidos desceram 10 pontos e têm os preços mais baixos quer nos combustíveis líquidos (menos 40%), quer no gás natural (1/5 do valor europeu) e na eletricidade (cerca de metade do valor europeu). No mesmo período, a Europa aumentou a sua dependência energética de 56% para 60%, os Estados Unidos passaram a ser independentes e exportadores líquidos de energia a partir de 2020! Para piorar este panorama, aquele que é hoje o maior poluidor do globo, a China, domina largamente todas as tecnologias ditas “verdes”, com a maior potência instalada em fotovoltaica e eólica (204 GW de cada em 2018, mais do que toda a União Europeia e os Estados Unidos juntos), baterias e carros elétricos (mais do que a UE e os US juntos). Tem já 33 centrais nucleares e está a construir 21, destinadas no futuro a substituir as centrais a carvão. Tem planeadas e propostas mais 178! Quer isto dizer que apesar dos sacrifícios impostos à economia europeia, a liderança da “economia verde”, e das matérias-primas de que necessitam, está nas mãos dos que mais poluem. A abordagem ideológica e dogmática foi suplantada pela abordagem pragmática. A política voluntarista da “Energiewende” que inspirou e condicionou a política europeia de energia (e a nossa), revelou-se um enorme fracasso, tal como denunciava o “Economist” em 2015 e o Tribunal de Contas alemão no ano passado. 600 mil milhões de euros desperdiçados em subsídios, têm como resultado as emissões 6 vezes superiores às da França ou às da Suécia. Isto deve-se à intermitência e falta de densidade energética das energias renováveis, que não têm atualmente tecnologia eficaz para as resolver, e que esse fato empurrou o sistema elétrico alemão e europeu, para uma dependência crescente do gás

natural russo e para os custos mais elevados do Mundo, à medida que a potência firme vai cedendo lugar a potência intermitente nos sistemas elétricos. Na realidade as centrais fotovoltaicas funcionam em Portugal apenas em média 20% das 8760 horas do ano em que é necessário manter as luzes acesas, e na Alemanha apenas metade disso. As eólicas cerca de 25% das horas do ano, em horas de produção equivalente. Funcionam de fato mais horas, mas com potência limitada, pelo que este é o máximo que se pode extrair de energia útil daquelas centrais. Portugal ainda dispõe de energia hídrica, o que dá mais 10% nos anos secos e 40% nos anos húmidos, e uma possibilidade de armazenar, com uma perda de 30% da energia usada, em bombagem hidráulica. Ora essas horas não se justapõem como seria o ideal, mas sobrepõem-se largamente. Pelo que no pior dos casos (o que vivemos o ano passado) temos 35% do tempo energia limpa, mas temos que fechar o restante das necessidades com gás natural e/ou importações. No melhor dos caos, poderíamos almejar ter 85% das necessidades anuais satisfeitas com renováveis, mas teríamos sempre que importar ou usar as centrais de ciclo combinado a gás natural cada vez mais caro para satisfazer o consumo. As tecnologias de armazenamento existentes apenas permitem deslocar a produção (com as perdas associadas), mas não acrescentam horas, e não existe ainda tecnologia competitiva para o fazer. O hidrogénio verde é uma fuga para a frente para tentar sair deste impasse e usá-lo como forma de armazenar os inevitáveis excedentes, quando se ultrapassa a “barreira do som” das percentagens críticas de injeção de energias intermitentes nos sistemas elétricos, que correspondem em termos gerais à potencia de consumo no vazio,

porque criam necessariamente nas horas de produção plena excedentes. Ora o hidrogénio é uma molécula perigosa, de transporte e armazenagem complexa e de produção ainda muito cara, que exige mais energia para ser produzida do que aquela que vai proporcionar ao consumo. Estamos de novo no experimentalismo que nos conduzirá a mais elefantes brancos e mais ineficiências, enquanto os nossos concorrentes, beneficiando dos nossos erros, vão tomando conta, uma a uma, das tecnologias críticas para o nosso desenvolvimento futuro. E controlando as matérias-primas necessárias para as produzir. Mantendo os seus custos baixos e a sua estrutura produtiva competitiva. Tudo porque recusamos ideologicamente e sem base científica, duas tecnologias provadas, seguras e competitivas: A energia nuclear e a fracturação hidráulica (“fracking”). Como recusámos os biocombustíveis. Sendo que a energia nuclear é a única eficaz para satisfazer a base do diagrama (“baseload”), que conjugada com a eficiência energética e renováveis, poderá diminuir de forma drástica e rápida as emissões, aumentar a nossa segurança de abastecimento e diminuir os custos do sistema energético. Com um registo histórico de segurança muito superior a qualquer das outras formas de energia por unidade de energia produzida. Como mostram os exemplos da França, Suécia, Suíça e Finlândia, esses sim exemplos a copiar, e mostram pela negativa a Alemanha, a Dinamarca e Espanha, esses a evitar. Veremos como irão responder os responsáveis políticos a esta mudança necessária e urgente de rumo e de política. Se olham de frente os fatos, ou se se deixam de novo condicionar pelo politicamente correto, mas tecnicamente incorreto. l 29


ACTUALIDADE

FRANCISCO RIBEIRO TELLES, EMBAIXADOR COORDENADOR PARA AS COMEMORAÇÕES DO BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL: UM PROCESSO SINGULAR

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ste ano comemora-se o segundo centenário da Independência do Brasil. Na sua origem, esteve um acontecimento excecional e único, pela sua audácia e amplitude: o abandono do familiar território europeu, berço da nacionalidade e situado no continente-sede do poder internacional da época, em favor de uma periférica colónia tropical, situada no outro lado do Atlântico, por parte de milhares de pessoas que representavam a quase totalidade das instituições do governo, da cultura e da nobreza portuguesas. O Rei de Portugal tornou-se único monarca europeu a residir no Novo Mundo e soube, com habilidade política, responder aos desafios que abalaram o reino: a invasão de Napoleão, os interesses dos aliados britânicos no Brasil, os revolucionários liberais em Portugal e o separatismo dos súditos 30

brasileiros. Pouco tempo depois da mudança da família real para o Brasil, a colónia era elevada à condição de parte Reino Unido de Portugal e do Brasil e Algarves, no que constituiu uma experiência inovadora, num mundo em que ainda não se falava de parcerias estratégicas. Foi um dos impérios mais vastos do mundo, juntando territórios nos quatro continentes e que deixou marcas indeléveis nos destinos dos dois países. Também a unidade territorial da América portuguesa após o ocaso do sistema colonial, em contraste com a fragmentação ocorrida na América espanhola, conferiu à independência do Brasil um caráter de absoluta originalidade, alicerçado na

consolidação de um idioma comum. Hoje, o português é uma das línguas mais dinâmicas do mundo e a sua relevância geopolítica e económica é inquestionável. A contribuição do Brasil para esta riqueza é inestimável, sendo que quase 4/5 dos atuais falantes da língua portuguesa se encontram em solo brasileiro. Por todas estas razões, Portugal não podia deixar de se associar à efeméride do segundo centenário da Independência do Brasil. Assim, o Governo português e diversas outras instituições públicas e privadas (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


ACTUALIDADE

“ PA S S A D O S E S T E S 2 0 0 A N O S , D E V E M O S ORGULHAR-NOS DA LIGAÇÃO ÚNICA QUE C O N S T R U Í M O S . A S N O S S A S REL AÇÕES TÊM VINDO A PAUTAR-SE P O R R E C O R R E N T E S CICLOS DE APROFUNDAMENTO E DE R E D E S C O B E R TA M Ú T U A , P R O TA G O N I Z A D O S P O R S U C E S S I VA S G E R A Ç Õ E S D E PORTUGUESES E DE BRASILEIROS QUE SE SENTEM GENUINAMENTE EM CASA E M Q U A L Q U E R D O S D O I S P A Í S E S .”

delinearam um conjunto de iniciativas assentes em quatro pilares temáticos: o político-institucional; a economia e o desenvolvimento empresarial; a ciência, tecnologia, inovação; e a cultura. As celebrações decorrem ao longo deste ano e têm como objetivo promover, nos dois lados do oceano, as mais diversas manifestações que evidenciem a convergência de interesses, a criatividade e diversidade de pensamento e o nosso intercâmbio científico, tecnológico e cultural, para além de contribuírem para o estreitamento das relações económicas entre o Brasil e Portugal. No final de contas, a comemoração do bicentenário da independência do Brasil constitui uma singela ocasião para dar a conhecer a longa e complexa evolução que a nossa memória coletiva condensa num só dia – o 7 de setembro de 1822 –, mas cujos desdobramentos alicerçam um sólido edifício em permanente construção por duas nações irmãs. Ambos os países mudaram enormemente nas últimas décadas, essencialmente no sentido de uma crescente aproximação. Os nossos estudantes, investigadores, académicos e cientistas estudam e trabalham nos dois países, o

intercâmbio de artistas, escritores, desportistas, atores e intelectuais é intenso e contínuo, e também os nossos empresários constroem todos os dias uma rede abrangente de parceiros que contribuem para estreitar os vínculos entre as sociedades civis. No mundo, os caminhos paralelos que Portugal e o Brasil vão trilhando são complementares e convergentes em múltiplos domínios. Somos Estados de direito democrático, com instituições sólidas e reconhecidos internacionalmente como defensores da paz, do diálogo e da cooperação internacional. No seio da Organização das Nações Unidas, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e da Conferência Ibero-Americana, promovemos juntos a defesa de princípios humanistas e democráticos e advogamos, cada um pelo seu lado, a aproximação entre as organizações regionais a que pertencemos, como sejam o

Mercosul e a União Europeia. Passados estes 200 anos, devemos orgulhar-nos da ligação única que construímos. As nossas relações têm vindo a pautar-se por recorrentes ciclos de aprofundamento e de redescoberta mútua, protagonizados por sucessivas gerações de portugueses e de brasileiros que se sentem genuinamente em casa em qualquer dos dois países. Em conclusão, a história cumpriuse e hoje revisitamo-la com toda a serenidade. Do que se trata agora é de intensificar o diálogo entre olhares portugueses e brasileiros, atualizar permanentemente as imagens recíprocas e projetar para o futuro o valor estratégico dos vínculos seculares que unem os dois países. l 31


ACTUALIDADE

MARIA JOÃO RODRIGUES DE ARAÚJO, PRESIDENTE DE P ORTUGAL-UK 650 E FELLOW NA FACULDADE DE MÚSICA DA UNIVERSIDADE DE OXFORD

P ORTUGAL-UK 650: COMEMOR AÇÕES DOS 650 ANOS DA A L I A N Ç A L U S O - B R I TÂ N I C A

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m 2022 e 2023 celebram-se os 650 anos da Aliança LusoBritânica, a mais antiga aliança diplomática do mundo em vigor. O início da formalização da Aliança, baseada na amizade perpétua entre as duas nações, ocorreu com a assinatura do Tratado de Tagilde a 10 de julho de 1372 (no município de Vizela, distrito de Braga) e a sua concretização com a assinatura do “Tratado de Paz, Amizade e Aliança”, a 16 de junho 1373, em Londres. Esta Aliança foi, posteriormente, reforçada pelo tratado de Windsor de 1386 e por outros tratados ao longo da história. Portugal-UK 650 é a iniciativa responsável pelas comemorações dos 650 anos da Aliança Luso-Britânica em Portugal e no Reino Unido. Portugal-UK 650 engloba mais de 100 instituições parceiras, e conta com o apoio institucional das autoridades civis, militares e religiosas de ambos os países. O lançamento de Portugal-UK 650 decorreu no Palácio 32

de São James em Londres, com um evento na Queen’s Chapel, que foi a Capela privada da Rainha D. Catarina de Bragança, esposa do rei Charles II do Reino Unido. Este evento, com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, foi oficializado pelo Sub-Dean da Capela Real de Sua Majestade e contou com a presença de autoridades dos dois países. Portugal-UK 650 pretende celebrar e dar a conhecer a história comum, escrever novos capítulos de amizade, cooperação e comércio, desenvolver investigação científica sobre a Aliança, e promover os valores do Tratado fundacional da Aliança no mundo atual – paz, amizade, verdade, fidelidade, constância, solidariedade, sinceridade e amabilidade - “... haverá daqui em diante uma verdadeira, fiel, constante, mútua e perpétua paz e amizade, união e aliança e liga de sincero afeto” (Artigo I, Tratado da Aliança, Londres 16 junho 1373) – apelando à responsabilidade e compromisso de cada um.

Para além da celebração das datas de maior importância - os 650 anos do Tratado de Tagilde (10 de julho de 2022) e do Tratado de Londres (16 de junho de 2023) - engloba outras iniciativas, até 2023, em parceria com mais de 100 instituições portuguesas e britânicas, no âmbito da investigação, educação, cultura, comércio, de cooperação e sociais. O programa de atividades, que pode ser consultado no site https:// portugal-uk650.com, é vasto, variado, inclusivo, com atividades para todas a idades e é descentralizado com eventos distribuídos por 30 localidades de Portugal e do Reino Unido, tendo já sido realizadas, à data, mais de 50 atividades. O apogeu das comemorações para este ano são os 650 anos do Tratado de Tagilde que se comemoram a 10 de julho de 2022. Iniciam-se com o Congresso interdisciplinar “A Aliança Luso-britânica: Balanço do passado e perspectivas de futuro” que decorrerá na Universidade do Minho, em Braga, de 6 a 9 de julho. O Congresso é (Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


ACTUALIDADE

“A N O S S A S Ó L I D A , P E R P É T U A E VERDADEIR A ALIANÇA OFERECE UM EXEMPLO FRISANTE DE FIDELIDADE AT R AV É S D O S S É C U L O S .” SM RAINHA ISABEL II

organizado em parceria com o Jusgov e a Escola de Direito da Universidade do Minho, tendo como instituições parceiras a Universidade de Oxford, a Universidade de Coimbra (CHS), a Universidade de Évora (CICP), a Universidade Católica (IEP) e a Universidade de Lisboa (Iuris). O evento tem entrada gratuita e conta com oradores de vários países dos continentes europeu e americano, tendo já sido realizado um ciclo de ‘webinars’ preparatórios sobre os principais temas da conferência. No dia 9 de julho será exibido, ao ar livre, o espetáculo do projeto “Dança na Perpetuidade” concebido pelo English National Ballet. Um projeto baseado nos valores do Tratado Luso-Britânico, que decorre em ambos os países, envolvendo a comunidade, doze escolas de dança e vários artistas. Na noite desse mesmo dia, terá lugar uma Gala no Theatro Circo com atuação do English National Ballet. No dia seguinte, dia 10 de julho, haverá uma Missa na Sé Catedral de Braga cantada pelo Coro do Queen’s College da Universidade

de Oxford; uma recreação da assinatura do Tratado em Tagilde, e um concerto em Vizela, na Praça da República. Em Vizela terão ainda lugar dois torneios medievais de Justa, com participação de “cavaleiros” britânicos. Estes eventos são abertos ao público em geral. Para além destas atividades salienta-se na área da investigação, o projeto “A Aliança Luso-Britânica: balanço do passado e perspetivas de futuro” que envolve 19 investigadores de sete universidades portuguesas e britânicas. Na área cultural, os projetos de colaboração envolvendo intuições tais como o Barbican Centre e o Guidhall School of Music and Drama e os concursos de curtasmetragens, poesia e desenho. Na área da educação, os 32 recursos educativos bilingues, que podem ser descarregados pelo ‘website’ e que já estão a ser usados por milhares de crianças e jovens portugueses e britânicos. O British Council criou 16 recursos educativos para alunos desde a pré-primária até ao secundário e o Jubilee Centre for

Character and Virtue da Universidade de Birmingham criou 16 recursos educativos sobre os valores do Tratado, nomeadamente, sobre a Amizade. Nas edições comemorativas os destaques são o prato “Aliança 650”, criado pela Vista Alegre e o postal da República dos CTT que inclui imagens do manuscrito e selo do tratado de Tagilde. Convido todos os leitores a participarem nestas celebrações e aconselho a seguirem as redes sociais para estarem a par de todas as novidades: facebook @PT.UK.650 e instagram @ portugal_uk650 O meu desejo é que ao celebrarmos os 650 anos “de perpétua paz, amizade e aliança” entre os dois países, não só sejamos um exemplo e referência para outras nações, mas também que cada participante se sinta inspirado a ser embaixador dos valores que estão na base desta Aliança, promovendo uma cultura de paz e amizade na sua comunidade e no mundo inteiro, tão necessitado de paz, neste momento. l 33


ACTUALIDADE

Bienal de São Paulo: Livros na bagagem portuguesa Portugal vai estar representado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo “Portugal País Convidado” 2022, entre 2 e 10 de Julho próximos, com um espaço próprio, uma iniciativa que conta com o envolvimento da AICEP. Uma frase de Valter Hugo Mãe dá o mote para a participação portuguesa – “É urgente viver encantado”. Um mote que expressa o reencontro e a partilha entre autores de língua portuguesa e o público brasileiro. Portugal terá um ‘stand’ de 500 m2 que inclui um auditório, uma livraria, um espaço infantojuvenil e uma zona multiusos. A jornalista e escritora Isabel Lucas é a curadora da

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programação de Portugal. Os escritores, ilustradores e ‘chefs’ que integram a comitiva portuguesa estarão em diálogo com autores brasileiros, num programa que contribuirá para promover o conhecimento e o interesse pela literatura portuguesa, e também por Portugal enquanto destino literário, cultural e turístico, de acordo com uma nota da AICEP. Antes, entre 29 de Junho e 1 de Julho, decorre a “Rodada de Negócios”, onde 10 editores portugueses convidados pela Câmara Brasileira do Livro estarão presentes. O sector Editorial e Livreiro tem vindo a ser alvo de atenção especial

da AICEP, no âmbito do apoio à promoção e internacionalização dos agentes económicos nacionais, com a implementação de acções como os “Encontros de Editores”, onde editores estrangeiros convidados a visitarem Portugal mantêm encontros com editores portugueses. Pretendese potenciar a tradução de obras em língua portuguesa e contribuir para o aumento da visibilidade de novos autores no mercado, explica a AICEP. Organizada pela Câmara Brasileira do Livro, a Bienal reúne as principais editoras, livrarias e distribuidoras de livros do Brasil, tendo uma programação cultural abrangente (ver caixa ao lado).


ACTUALIDADE

Portugal Inova Para além de todo o envolvimento da AICEP na organização desta participação, será ainda organizada a acção “Portugal Inova”, com foco na Indústria Gráfica dos dois países, que

decorrerá durante a Bienal no Pavilhão de Portugal. O “Portugal Inova” é uma acção que tem vindo a ser organizada no Brasil pela Delegação da AICEP em São Paulo e que pretende, através de conversas interactivas,

disponibilizar ao mercado brasileiro informação relacionada com a oferta portuguesa (empresas, bens e serviços), destacando a componente de inovação transversal a todos os seus sectores. l

P R O G R A M AÇ ÃO C U LT U R A L E M TO R N O DOS SEGUINTES EIXOS: •

SAL ÃO DE IDEIAS - DEDICAD O A TEMAS CONTEMP OR ÂNEOS;

ARENA CULTUR AL - APRESE NTAÇÃO DE ‘BESTSELLERS’ E REALIZAÇÃO DE SESSÕES DE AUTÓGR AFOS;

COZINHAND O COM PAL AVR AS - PROJECTO QUE ASSOCIA GASTRONOMIA E LITER ATUR A ;

ESPAÇO INFANTIL;

PAP O DE MERCAD O – ESPAÇO DEDICAD O A DISCUSSÕES SOBRE A COMP ONENTE ECONÓMICA E EMPRESARIAL D O SECTOR.

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LEGADOS

FOTOS: FERNANDO PIÇARRA

VITOR RAMALHO: A IMP ORTÂNCIA DO LEGADO

E N T R E V I S TA VITOR RAMALHO, SECRETÁRIO-GER AL DA UCCLA

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LEGADOS

D I Z C O M U M S O R R I S O N O S L Á B I O S E O S O L H O S A B R I L H A R : “ O R G U L H O - M E M U I T O D E P O R O N D E PA S S E I T E R D E I X A D O M A R C A . E P O S S O D I Z E R - L H O P O R Q U E V O U FA Z E R 74 A N O S E N Ã O T E N H O R I G O R O S A M E N T E N A DA M A I S A A P R E S E N TA R S E N Ã O A Q U I L O Q U E E U F I Z N A V I DA”. E A V I DA É R E C H E A DA D E C A R G O S E AT I T U D E S D E V E R DA D E I R O S E R V I Ç O P Ú B L I C O . V I T O R R A M A L H O T E M D E FA C T O R A Z Õ E S PA R A S E O R G U L H A R : D E S D E O S S E U S C A R G O S P O L Í T I C O S AT É A O S E U C O N T R I B U T O PA R A A PA Z E M M O Ç A M B I Q U E E E M A N G O L A , PA S S A N D O P E L A R E E S T R U T U R A Ç Ã O DA I N AT E L M U I TA S M A R C A S M O S T R A M O S E U L E G A D O . A G O R A C O M O P R E S I D E N T E N A U C C L A É U M D I N A M I Z A D O R C U LT U R A L I N C A N S ÁV E L . A LT U R A D E FA Z E R U M A E N T R E V I S TA S O B R E I S S O E M U I T O M A I S .

O seu trajecto profissional é longo e rico, já o sabemos. Mas gostaria de começar esta conversa por si. As suas motivações, aspirações. Enfim, o que o levou a esta vocação para o serviço público, no fundo. Nasci em Angola, no planalto central, numa terra que se chama Caála, nome dado pelos nativos. O seu nome foi registado pelo governo de então como Robert Williams, um engenheiro inglês que teve um papel muito importante na planificação e execução do caminho de ferro de Benguela. A mudança do nome nunca vingou. Essa terra foi sempre de pequenas dimensões, mas singularmente foi sempre um local onde houve muitas personalidades de referência de Angola. Nasceu lá um dos primeiros presidentes da Calouste Gulbenkian, o dr. Vítor Sá Machado; a actriz e encenadora Cucha Carvalheiro e os seus três irmãos; o cineasta José Fonseca e Costa e o seu irmão. Também o Raul Indipwo, dos Duo Ouro Negro lá viveu muitos anos e também um homem que durante 1 ano foi chefe de Estado-Maior general das forças armadas depois da independência, António França, mas mais conhecido pelo seu nome de guerra, o general Ndalo. Outra corretora conhecida, a Judite Correia também é de lá… Aquela terra pequena acabou, pelo seu bairrismo e pela singularidade das pessoas mais velhas, por ter uma expressão solidária muito forte. Ainda hoje há uma tradição em que as pessoas da terra têm um almoço anual onde

NUNO MIGUEL GUEDES

já vão os netos e filhos dos antigos residentes. E quando deixou essa surpreendente Caála? Na altura em que era jovem não havia universidades nas colónias portuguesas, pelo que quem quisesse e pudesse prosseguir os estudos tinha de vir obrigatoriamente para Portugal. Foi o que me aconteceu e vim para a Faculdade de Direito de Lisboa. Foi em 1965, numa altura em que as pessoas jovens como eu eram obrigatoriamente chamadas a prestar o serviço militar, durante dois anos e nalguns casos por quatro anos. A situação que nessa altura se vivia era propiciadora a que os jovens procurassem expressões utópicas para o novo ciclo que se estava a abrir ao nível mundial. Concretamente, foi na altura em que ocorreu o Maio de ’68, um verdadeiro tsunami ao nível do choque de mentalidades, na música, nos costumes, por aí fora… A nível internacional o quadro era este, tal como nos Estados Unidos também se vivia grandes choques devido à guerra do Vietname.

Isso não nos deixava indiferentes. Aqui em Portugal, devido ao facto da mobilização obrigatória e da própria guerra houve lugar a uma crescente contestação da juventude e agravado pela circunstância do próprio país ter uma contradição no seu desenvolvimento. O ambiente era propício ao interesse pela causa colectiva, pelo espoletar de uma situação de tipo novo, internacional e nacional. E levava também a gerar as tais concepções utópicas próprias da juventude. Recorde que não existia democracia, que a igualdade de género era negada com as mulheres a serem proibidas de terem acesso a cargos públicos, como por exemplo serem diplomatas ou magistradas ou até de saírem do país sem autorização do marido… Nas faculdades não havia partidos. A influência do Partido Comunista era significativa até um determinado período. Esta época de que lhe falo coincidiu com o conflito sino-soviético, uma ruptura nas concepções comunistas e que foi protagonizado por Mao-Tsé-Tung e a linha da ex-União Soviética. Jovens como eu acabaram por não estarem de acordo com o excessivo burocratismo e conservadorismo dos colegas que pertenciam ao PC e por também não estarmos de acordo com o regime enveredámos por outras posturas mais utópicas de extrema-esquerda, para ser claro. Muitas figuras de referência que hoje vemos associadas ao PSD ou ao PS tiveram essa génese. Foi o meu caso. Toda esta amálgama de mudança e de possibilidade de um 37


LEGADOS

É PRECISO QUE SE DIGA: EM DIFERENTES GRAUS, O REGIME ANTERIOR OPRIMIU OS POVOS COLONIZADOS E O POVO PORTUGUÊS. O 25 DE ABRIL FEZ-SE CONTRA O REGIME ANTERIOR E CONTRA A GUERRA.

mundo novo começou a interessar-nos por estas coisas da política. Foi nessa altura que também se iniciou o seu interesse pelos países de língua oficial portuguesa? Exacto. A circunstância de ter nascido em Angola fez com que tivesse passado a privar com vários colegas de faculdade também angolanos. Um deles foi o único cardeal de Angola, Alexandre do Nascimento, hoje com 95 anos. Foi uma das pessoas com quem privei de tal maneira que ficámos com uma amizade para a vida. Outra personalidade que também foi padre mas acabou por deixar o sacerdócio foi um homem cujo nome é uma 38

referência em Angola: Joaquim Pinto de Andrade. Era irmão de Mário Pinto de Andrade que foi o primeiro presidente do MPLA, um intelectual. O convívio com estas pessoas e outras juntamente com o que já era natural em termos da relação com a terra fez com que, já a exercer advocacia, me interessasse pela realidade dos países de língua oficial portuguesa. Interesse a que levou que tivesse um contributo importante em acontecimentos fulcrais para os novos países que surgiram das antigas colónias. Quando se dá a queda do mundo bipolar a realidade altera-se de forma evidente: criou-se uma atmosfera

em que os regimes autoritários, de esquerda ou de direita, foram quase inexoravelmente obrigados a realizarem eleições democráticas. Por isso seria natural que os países de língua oficial portuguesa fizessem o mesmo com a consequente introdução da democracia. Aí, de facto eu terei dado um contributo quando em 1991, com mais quatro colegas angolanos, resolvemos lançar a ideia – fruto das relações de afecto e de interesses entre os dois povos – de promover um grande congresso chamado dos quadros angolanos no exterior. Como as condições gerais eram bastante favoráveis – por várias razões: de afecto e também de sinais de um período de estabilização em


LEGADOS Angola – essa inciativa ganhou uma força incrível. A minha convicção é que sendo na altura o dr. Durão Barroso o secretário de estado se tenha apercebido da dimensão de tudo isto. Movi influências porque tinha o poder de o fazer junto dos partidos beligerantes e da diplomacia dos países que intervinham em Angola começar a criar condições para que se desse [o tratado de paz de] Bicesse. E isto é de tal maneira evidente que Bicesse ocorre no dia em que o congresso começou. Juntámos mais de 2.5OO pessoas e com representantes ao mais alto nível desde a UNITA, FNLA, a Igreja, etc. Dali saíram estudos muito importantes para tudo o que tem a ver com o potencial desenvolvimento económico de Angola, comunicados pelos participantes e todos posteriormente publicados. Entretanto havia também a sua actividade enquanto advogado que começou por estar muito ligada à área laboral e sindical. É verdade. Quando me licenciei comecei a trabalhar nesse mundo laboral ao nível de várias associações sindicais. Provavelmente devido à minha maneira de ser, apesar da conflitualidade que sempre existiu entre a UGT e a Intersindical, fui advogado de sindicatos ligados às duas estruturas, procurando sempre manter as melhores relações entre ambas as centrais sindicais [risos]. Foi nessa altura que enveredou pela política portuguesa? Sim. Comecei a ser uma pessoa conhecida no mundo socio-laboral. Um dos sindicatos em que trabalhava – que tinha uma enorme mobilização de associados – era o sindicato dos trabalhadores de escritório e serviços, o SITESE que ainda hoje existe. Esse sindicato propiciou a dinâmica de criação da UGT, porque tinha à sua frente um homem que infelizmente faleceu prematuramente, o António Janeiro. Ele era uma referência no Partido Socialista. Era um homem muito sóbrio, um sindicalista na verdadeira acepção da palavra,

dedicando-se exclusivamente àquela causa. E uma personalidade que acabou mesmo por influenciar o próprio Partido Socialista na sua base trabalhadora. Foi discreto mas um pilar do PS. Foi ele que quando se constitui o governo do Bloco Central me desafiou para ser Secretário de Estado do Trabalho. Tinha com ele uma relação íntima, forte. Mas tive que dar esta resposta: “É impossível eu entrar para um governo porque tenho uma concepção da política que não passa por nenhum governo.”. Pressionoume amigável mas intensamente e sempre recusei até ao dia em que a nomeação estava iminente e lhe indiquei vários nomes. Um desses nomes que indiquei estava no meu escritório e foi ele o nomeado. Por razões várias que não cabem aqui saiu do governo seis meses depois. Nessa altura o Janeiro veio a minha casa e disse “Não tens saída agora. E eu não tenho coragem de ir dizer ao Mário Soares que não aceitas.” E novamente passámos uma noite a pensar noutro nome até que às 3 da manhã me disse: “Logo, às 5 da tarde, o Mário Soares está à tua espera. Vai lá tu dizer que não aceitas”. Assim fiz. Entrei no gabinete, ele estava de pé e fiz uma coisa que só um homem experiente e conhecedor do ser humano faria. Pediu para me sentar e começou a discar um número ao telefone até que parou e disse: “Estou a ligar para o ministro do Trabalho e só me falta um número. E vou dizer-lhe o quê? Aceita ou não?”. E a minha reacção imediata foi “Aceito.” [risos] Numa altura em que a situação social não era fácil… Exactamente. Estamos em 1984, com a segunda intervenção do FMI. Quando chego ao ministério, ali à Praça de Londres, estava uma manifestação que enchia a praça a gritar “Ramalho, queremos trabalho!”. E exigiam uma reunião no próprio dia – que foi feita! Com uma inflacção de 30% e salários em atraso nenhuma entidade empregadora queria aumentar salários. Era difícil arranjar uma maneira de pacificação social. Mas

consegui, através de várias ‘démarches’ e a estratégia de preparação de uma portaria de regulamentação de trabalho que acabou por ser utilizada a contento de todos. Houve também a difícil questão da reabilitação da Lisnave, onde deu também um contributo importante. A Lisnave entrou numa situação muito difícil por causa da crise internacional. A primeira intervenção na Lisnave fui eu que a fiz – digolhe sem vaidade – no conselho de ministros onde me pediram para estar presente em 30 de Agosto de 1984. Foi a primeira solução que teve. Mais tarde, quando fui secretário de Estado-adjunto do ministro da Economia acompanhei toda a situação com uma equipa técnica durante um ano e meio. E por causa da entrevista fui perguntar como está a Lisnave, ao que me responderam que está bem, com resultados divididos pelos trabalhadores apesar da crise. Esta experiência que tive deu como resultado a publicação de vários diplomas enquadradores da resolução das empresas em crise. E como chegou à presidência da UCCLA? Quando o meu predecessor - o engenheiro Miguel Anacoreta Correia, também muito ligado ao mundo de África – achou que devia cessar o cargo o então presidente da câmara de Lisboa, o dr. António Costa, propôs o meu nome. Foi a última vez que isto aconteceu, já que hoje em dia é a assembleia geral que nomeia o presidente. O Miguel Anacoreta Correia também foi importante neste processo por achar que a UCCLA precisa de alguém que tenha uma relação afectiva com África e compreenda as pessoas. Na altura estava sem nenhuma actividade e fui eleito normalmente pelo meu percurso e história. Quando para aqui vim – como aliás por todos os cargos onde passei – tive a preocupação de deixar uma marca e tive muito orgulho por ter feito uma coisa que é histórica: reeditei todas as obras da colecção chamada Autores Ultramarinos. São 22 pequenos livros. 39


LEGADOS Pedi a uma professora universitária de São Tomé e Príncipe que dá aulas aqui na Clássica de Lisboa – a dra. Inocência Mata – para fazer a história desses livros. Reeditei ainda os dois únicos volumes de antologias poéticas de Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Reeditei também “A Mensagem” e fiz ainda uma exposição da Casa dos Estudantes do Império na Câmara Municipal de Lisboa convidando para estarem presentes várias personalidades – os primeiros presidentes, etc. E houve seminário, colóquios, uma série de acções à volta da Casa dos Estudantes. Portugal foi o único país em que a formação de todos os dirigentes a seguir às independências se formataram enquanto estudantes na ligação que tiveram à Casa dos Estudantes Do Império. Num país colonizador e sob uma ditadura geraram-se condições para a formação política desses homens. Eu tinha a noção disso porque já os conhecia: Manuel Pinto da Costa, presidente de São Tomé e Principe; Pedro Pires, ex-presidente de Cabo Verde; França Van Dunen que foi primeiro-ministro de Angola e por aí fora. Na literatura, também muitos nomes, como o de Pepetela, por exemplo. E não teve críticas? Como lhe disse foi uma marca

histórica. Mas houve quem me dissesse “vais fazer uma coisa sobre a colonização?”. E eu dizia “não, é o contrário!” Os partidos angolanos, quando querem fazer a sua história, vão à Casa dos Estudantes do Império. E eu orgulho-me por ter contribuído para isso. E isto é irrepetível porque muita parte dessa gente mais velha já morreu. Francamente, acho eu, isto deveria ser ensinado nas escolas porque a história tem que repescar aquilo que é comum e não está a fazê-lo. Posso dizer-lhe uma coisa? Depois do trabalho que deixei em duas instituições como a Inatel, que reformulei profundamente e que ainda funciona nos moldes que criei; e também na vice-presidência da Cruz Vermelha, onde procedi a um levantamento para a desminagem de Angola… tenho orgulho sabe em quê? Em estar de cara levantada porque não me foi dada possibilidade de renovar os mandatos depois de tudo o que fiz. Porque é que acha que isso aconteceu? Pela circunstância de as pessoas pensarem que não penso pela minha cabeça e que era um pau mandado do dr. Mário Soares, que nunca fui. Fomos grandes amigos, isso sim. E tornei-me mesmo seu grande amigo quando lhe disse que não fazia uma coisa que ele me pediu. Digo-o pela primeira vez.

...NÃO COMPREENDO NEM ACEITO QUALQUER E XPRESSÃO Q U E N E G U E A H I S T Ó R I A – E S TA E AS OUTR AS. A HISTÓRIA NÃO S E A PA G A .

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Permita-me então que regresse à UCCLA e à questão da Casa dos Estudantes. Vivemos, como sabe, num clima cultural bastante avesso a iniciativas como essa que teve: acusações imediatas de neocolonialismo etc. Reconheceu alguma crítica desse tipo, dirigida a si ou à instituição? Não. Mas isso também depende da postura que um dirigente tem relativamente a questões dessa natureza. Eu não tenho nenhum complexo. É preciso que se diga: em diferentes graus o regime anterior oprimiu, em diferentes graus, os povos colonizados e o povo português. O 25 de Abril fez-se contra o regime anterior e contra a guerra. De alguma maneira, Portugal ao reconquistar a liberdade foi também um acto de solidariedade comum. Não há que ter complexos nenhuns. É por isso que não compreendo nem aceito qualquer expressão que negue a história – esta e as outras. A história não se apaga. Não tenho nenhum problema desses e mesmo aos amigos angolanos, moçambicanos e outros sempre lhes falo nesta linguagem: nenhum problema. É da condição humana que os homens, se querem ser tratados por igual, não reneguem a história. Há ainda outra questão: perante o que hoje está a acontecer no mundo


LEGADOS

J U N TÁ M O S M A I S D E 2 . 5 O O P E S S O A S E C O M R E P R E S E N TA N T E S A O M A I S A LT O N Í V E L D E S D E A U N I TA , F N L A , A IGRE JA, ETC. DALI SAÍR AM ESTUD OS M U I T O I M P O R TA N T E S PA R A T U D O O QUE TEM A VER COM O POTENCIAL D E S E N V O LV I M E N TO E C O N Ó M I C O DE ANGOLA, COMUNICADOS P E L O S PA R T I C I PA N T E S E T O D O S POSTERIORMENTE PUBLICADOS.

é fácil e óbvio perceber que a situação mundial se irá alterar. E o que representa o mundo de expressão portuguesa é essencial para a afirmação de Portugal. Temos a nossa diáspora e temos a língua portuguesa. Como dizia o Amílcar Cabral “mais do que falarmos em português nós pensamos em português”. Por outro lado, hipotecámos instrumentos fundamentais e estruturais para sermos interlocutores importantes numa futura relação triangular entre a Europa, África e a América Latina. Quer no sector público quer no privado fomos perdendo formas de investir nesses países. Sinto isso até mesmo aqui na UCCLA. Como? A UCCLA tem a participação das quotas dos seus associados. E também tem empresas apoiantes cuja participação em termos de quotização é relativamente reduzida. No entanto, e de acordo com o que lhe disse, muitas dessas empresas, tuteladas pelo Estado, anunciam que vão sair e algumas já saíram mesmo. A TAP, a Caixa Geral de Depósitos, a própria GALP… Isto não faz sentido nenhum porque a própria UCCLA concorreu para que essas empresas estivessem beneficiadas nas cidades

associadas. Se juntar a isso o corte de gerações que naturalmente acontece… Os jovens de hoje não tiveram a vivência que eu tive, o 25 de Abril tem quase 5o anos. Se não há no ensino a preocupação de transmitir a alma do que somos, resultado de um entrecruzar de culturas, isso a pouco e pouco ir-se-á diluir e iremos perder influência. Há aqui algo que tem de ser repensado porque é uma questão política fundamental para o próprio estado. Quem lhe diz isto é o homem que realizou esta coisa da Casa dos Estudantes do Império e que viu que o estado não pegou nisto. O estado devia incrementar a difusão destes livros nas escolas! É um património único e comum. É a nossa mais-valia de afirmação junto da União Europeia. Entretanto a UCCLA continua a ter um papel cultural importante, ainda hoje. Sim. Fazemos inúmeras coisas. Todos os anos temos uma candidatura ao prémio literário da UCCLA, a que só podem concorrer todos os que escrevem em português, sem obra publicada. O prémio é a publicação dessa obra. Concorreram a este prémio no máximo 9OO autores e este ano, por causa da pandemia, cerca de 3OO, que foi o número mais baixo. E gente de todo o mundo.

Ainda há três anos o prémio foi entregue a um paraguaio que vive no Brasil e escreve em português. Também todos os anos fazemos um encontro de escritores de língua portuguesa, onde estão todos os países. de língua portuguesa sem excepção. É escolhido um tema, levamos um ou dois escritores de cada país e esse tema é debatido nas universidades, com os jovens. Para ter uma ideia, de prémios Camões já foi o Mia Couto várias vezes, o Germano de Almeida, o Pepetela… Fazemos ainda exposições, por ordem alfabética dos países e em alternância com a Casa da América Latina. Seleccionamos obras de grande qualidade dos artistas plásticos de cada um desses países. Publicamos também livros. E é engraçado: outra coisa que me orgulho… Sabe quem é também nosso associado? Olivença. E Olivença celebra o 10 de Junho! A pedido levei lá o Manuel Alegre, que foi lá homenageado. Outra cidade que não é de língua oficial portuguesa mas que pela natureza das coisas tinha que fazer parte: Santiago de Compostela, na Galiza. Temos iniciativas em conjunto. E ainda há debates e apresentações de autores todos os meses. Se há aposta e dinâmica é na parte cultural. l 41


LEGADOS

VIDA E TRABALHOS DE MÁRIO ASSIS FERREIRA AO S 7 8 A N O S D E I DA D E M Á R I O A S S I S F E R R E I R A PA R E C E E M PA Z C O M A V I DA . S U S P E I TA - S E , AT É : G R ATO . E A V I DA D O E X- P R E S I D E N T E D O C O N S E L H O D E A D M I N I S T R AÇ ÃO DA E S TO R I L S O L É R I C A E I N T E N S A A VÁ R I O S N Í V E I S . D E S D E O S E U P E R C U R S O P E S S O A L AT É A O S E U T R A B A L H O C O M O A G E N T E C U LT U R A L E M N O M E D A E S T O R I L S O L M U I T O H Á Q U E C O N TA R . TA LV E Z U M D I A E M L I V R O , Q U E M S A B E ? E S TA C O N V E R S A E N TÃO É U M P R E FÁC I O Q U E S E M P R E S A B E R Á A P O U C O .

FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELO ESTORIL SOL

NUNO MIGUEL GUEDES

Pego, para início de conversa, numa frase sua e que já a vi publicada em vários lugares: “Não acredito na sorte. O que existe é a ausência do azar”. Quer explicar? Quando digo que não acredito na sorte é porque penso que a vida não é uma rotina, qual somatório de dias ao sabor de um indulgente acaso a que geralmente chamamos sorte. E quando afirmo que só acredito na ausência de azar é porque essa ausência exige um “trabalho dos diabos”, um permanente esforço para alcançar um objectivo, um diligente empenho no cumprir de uma missão. Pois a vida é uma batalha que nos impõe o ensejo de afirmação, o propósito de Ser, a chancela com que, afinal, assinamos a tela que retrata a nossa vida. Da sua riquíssima vida lembro de um período mais difícil, talvez onde essa ausência de azar estivesse menos presente, que foi o de 1974. Disse que aprendeu muito com essa fase da sua vida. Um homem está sempre a aprender 42

e 1974 não foi excepção. Nesse dia, − melhor diria, nessa noite – de 25 de Abril, uma vez mais se demonstrou que a ausência de azar exige exemplo e, não raro, alguma contenção. Era jurista na Direcção Geral das Contribuições e Impostos e, em função de vários pareceres que escrevi e foram publicados na revista “Ciência e Técnica Fiscal”, o então Ministro das Finanças, Manuel Cotta Dias, convidou-me para seu Chefe de Gabinete, função que acumulei no Gabinete do Secretário de Estado do Orçamento, Victor Coelho. Por razões de independência política e convicção pessoal, recusei-me a ser formalmente nomeado para essas funções, o que determinou ter sido simplesmente requisitado para as exercer em comissão de serviço. Trabalhava até altas horas da madrugada e, cerca das 4 da manhã do dia 25 de Abril, fui dos primeiros a saber, através de um telefonema recebido do Rádio Clube Português,

que a revolução estava em curso. Telefonei ao então Ministro e dele recebi o pedido para me manter no Ministério das Finanças até que as tropas chegassem e a elas facultar o que me pedissem. Chegaram às 9 da manhã e foi ameno o ambiente em que lhes prestei todas as informações que me foram requeridas. Pelo facto de ser sobejamente conhecido no Ministério das Finanças e ser bem patente a minha independência política relativamente ao regime vigente, continuei a merecer um generalizado reconhecimento, a tal ponto que não apenas mantive as minhas funções de jurista naquele Ministério, como fui designado, conjuntamente com o então Presidente do Banco do Fomento, para organizar e lançar o primeiro empréstimo público da revolução, designado por “Títulos do Tesouro para a Reconstrução Nacional”. Tive “a ausência de azar” dessa emissão de dívida pública ter sido um êxito, pois esgotou-se no próprio dia do lançamento!


E N T R E V I S TA

LEGADOS

MÁRIO ASSIS FERREIRA, VICE-PRESIDENTE DA E S TO R I L-S O L

Entretanto chega a sua ligação com o casino. Como foi? Em meados de 1975 parti para o Brasil onde vivi uma experiência empresarial extremamente aliciante, até porque consegui conciliá-la com vivências culturais e intervenções políticas das quais guardo as mais gratas recordações Regressei a Portugal, em 1983, para exercer advocacia e trabalhei com um notável advogado, o Miguel Galvão Teles, infelizmente já falecido. Fomos ambos contactados pelo Stanley Ho que pretendia adquirir uma posição minoritária de 40% na Estoril Sol da qual era vendedor um dos membros da Família Teles. Gastaria muitas páginas a descrever até que ponto foi acidentada essa aquisição e em que medida surgiram subsequentes traumas na relação com os demais accionistas. Tentando sintetizar, diria que em função do meu empenho na busca de soluções, Stanley Ho me convidou para o representar na Administração da Estoril Sol. E, tendo assumido essas funções, bastou um ano para que, de minoritário, Stanley Ho passasse a ser accionista maioritário com pleno controle da gestão. Foi assim que fui designado como principal responsável do Casino Estoril e encarregado de proceder à sua profunda reformulação estrutural e conceptual. Não sabia nada de casinos e tive que aprender, ao longo de seis meses, todos os detalhes da operação e, bem assim, intuir quais as expectativas e apetências que seria necessário despertar num “público-alvo” para o Casino Estoril se transformar em pólo de atracção. Quadruplicámos todas as áreas e reformulámos a totalidade dos espaços do Casino, de acordo com um projecto que encomendei ao Atelier de Arquitectura de Fenando Jorge Correia. 43


LEGADOS

SEMPRE ME CONVENCI DE QUE “ TUDO O Q U E E S TÁ B E M É P O R Q U E E S TÁ O B S O L E T O ”. O Q U E M E O B R I G AVA , E M C A DA O B J E C T I V O V E N C I D O , A PA R T I R PA R A U M A N O VA E TA PA C R I AT I VA E M B U S C A D E U M A D I F E R E N Ç A Q U E A L I M E N TA S S E A SURPRESA E O INTERESSE DO PÚBLICO QUE PRETENDIA ALCANÇAR.

Eram os idos de 1987 e, três anos depois, já o Casino Estoril passava a ocupar o primeiro lugar, em áreas de acesso ao público e em receitas, no ‘ranking’ dos casinos europeus! O jogo e o casino, por extensão, não está ostracizado? Ainda sente algum preconceito por parte da sociedade quanto a ser um profissional que trabalha neste mundo ou isso de alguma ter-se-á diluído? E porquê? Talvez assim fosse quando cheguei ao Casino Estoril, em 1987. O Casino Estoril era uma espécie de “sala de jogos com serviços anexos” onde os clientes entravam quase exclusivamente para jogar, algo receosos de serem reconhecidos como dependentes de um vício que pudesse fazer perigar o património familiar. Não surpreende, por isso, que nessa fase inicial pudesse sentir algum tipo, não digo de ostracização mas de reserva, face a um gestor que trabalhava num mundo eivado de anquilosados preconceitos de uma sociedade que interpretava o jogo como sinónimo de pecado… Mas foi curto, curtíssimo, esse período de retracção social. Assim que, em tempo ‘record’, o Casino Estoril se transformou num centro multidisciplinar de actividades culturais, sociais, de entretenimento, de grandes eventos artísticos, de convívio social, onde o jogo era apenas 44

o prolongamento de um clima de lazer e diversão, tudo mudou, em termos de percepção social e política, relativamente ao meu papel de gestor. A partir de então, passei a ser visto como um empresário de turismo, cultor de rigorosos princípios éticos, acérrimo defensor da inovação e promotor da Cultura. Uma reputação que, felizmente, ainda hoje persiste e me esforço por merecer. A cultura e o jogo, o casino. Parceiros improváveis ou nem por isso? Cultura, jogo e casino não são parceiros improváveis a menos que se tenha uma visão penosamente redutora do que seja um casino. Bem ao contrário, só um conceito multidisciplinar de casino permite transformá lo num centro de atracção turística, de apelo social e de difusão cultural, anulando ou mitigando preconceitos sobre o “pecado” do jogo. Quando isto se consegue, não são precisos outros argumentos. Por isso, justiça me seja feita, nunca invoquei o jogo como factor de atracção do público aos Casinos da Estoril Sol! O Casino Estoril, sob a sua administração, apostou bastante numa vertente cultural, de tal forma que terá sido um dos principais investidores não-estatais na cultura. Porquê essa opção e como foi recebida? Cumpre-me sublinhar que o trabalho

feito não foi obra de um homem só. Para além do apoio do meu Accionista, Stanley Ho, e da solidariedade dos meus Colegas de administração, tive o privilégio de me rodear de um grupo de colaboradores que representavam o que de melhor existia em Portugal – e até no estrangeiro −, nos domínios da Arte, de Espectáculo, da Literatura e da Cultura. Dividimo-nos em várias frentes nas quais, buscámos, incessantemente, alcançar a perfeição possível. No domínio do espectáculo, em que é justo recordar o papel de Júlio César, passámos a levar à cena dezenas de espectáculos diários num renovado “Salão Preto e Prata”, muitos deles com quase uma centena de artistas e figurantes, tais como, a título de exemplo, “Viva Mozart”, “Dali”, “Os Heróis e o Mar”, “Lisboa em Pessoa”, alguns deles exportados para subsequente exibição em Madrid, no Teatro Calderón. No domínio da música, trouxemos ao Casino Estoril cerca de 200 nomes míticos do “music-hall” internacional tais como, a título de exemplo, Ray Charles, Gilbert Bécaud, Charles Aznavour, Shirley Bassey, Dionne Warwick, Diana Ross, Nina Simone, Roberta Flack, B.B. King, Júlio Iglésias, Peppino di Capri, Zucchero, Liza Minnelli, James Brown, Woody Allen, os cantores líricos José Carreras e Monserrat Caballé, o mimo Marcel Marceau, Tony Bennett, Lionel Richie, Paul Anka, Diana Krall, Roberto Carlos e, praticamente, todas as primeiras figuras da música brasileira. E, se espaço houvesse, muitos outros nomes de similar prestígio poderiam ser mencionados… Em simultâneo, cultivámos o apoio à música e aos artistas portugueses pois que, a par do lançamento de novos valores, criámos o ciclo dos “Grandes Concertos do Casino” em que, ao longo dos anos, trouxemos todos os maiores nomes da música nacional. Em homenagem ao Fado e a Carlos Zel, criámos o ciclo das “Quartas Feiras de Fado” onde actuaram os mais destacados fadistas do panorama nacional. E ainda houve espaço para o Teatro, o


LEGADOS Jazz e o Ballet com sucessivos ciclos de espectáculos no Teatro Auditório do Casino. No domínio das Artes Plásticas, ampliámos e renovámos os espaços da nossa Galeria de Arte onde passaram a exibir-se os mais reputados pintores e escultores nacionais e estrangeiros. No âmbito da Literatura e Cultura, para além do já existente “Prémio Fernando Namora”, criámos dois novos prémios: o “Prémio Revelação Agustina Bessa Luís” e o “Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural”, uma merecida homenagem aos dois primeiros Presidentes do Júri dos nossos Prémios Literários, presidência essa que com grande mérito foi assumida, desde o desaparecimento de Vasco Graça Moura, por Guilherme d’ Oliveira Martins. E ainda nos sobrou tempo e vontade para, ao longo de três anos, ter recriado “As Conferências do Casino”, justa homenagem à iniciativa com a mesma designação que, nos finais do séc. XIX foi levada a cabo, entre outros ilustres escritores, por nomes como Eça de Queiroz, Antero de Quental e Teófilo Braga. Finalmente, importa destacar o lançamento, em 2000, da nossa revista “Egoísta” que até hoje, ao longo de 22 anos de publicação, se transformou numa icónica “revista de culto” e logrou ser galardoada com mais prémios nacionais e internacionais do que o número de edições produzidas. Penso, enfim, que não se poderia exigir mais à Estoril Sol, enquanto entidade

MÁRIO ASSIS FERREIRA E TONY BENNETT

privada, pelo zelo empenhado nessa missão convictamente cumprida em prol da Cultura! Ainda falando da Egoísta. Como aconteceu essa aposta? E erraria se dissesse que é um projecto que lhe está muito próximo? A “Egoísta” foi, de facto, uma das mais aliciantes apostas que, no âmbito da Cultura, foi possível concretizar. Eram os idos de 1999 e um colega meu, Vasco Fraga, que era amigo da Patrícia Reis, entrou no meu gabinete,

S E M P R E H AV E R Á Q U E C O N TA B I L I Z A R A S O M B R A DA I N V E J A , A L G O L AT E N T E NO SER HUMANO E QUE EU, PORVENTURA DISPLICENTE NESSA M AT É R I A , I N T E R P R E T O C O M O “A A D M I R A Ç Ã O S E M E S P E R A N Ç A”…

mostrou-me um protótipo de uma revista ainda sem título e disse-me: “este é um projecto da Patrícia Reis, com o grafismo do Henrique Cayatte. Vê-o bem pois aposto que não vais resistir!” Ele ganhou a aposta, pois eu – como diria Oscar Wilde −, “resisto a tudo menos às tentações”… De facto, senti que aquele projecto era irresistível e preenchia tudo o que eu poderia sonhar para uma revista temática, dedicada à cultura e com um cunho marcadamente diferencial. Tinha um grafismo exuberante; várias páginas exibiam cortes que acentuavam o destaque das imagens quer na página anterior, quer na página seguinte; tinha um papel algo rugoso que dava prazer folhear; os textos eram impressos com o ‘lettering’ de uma máquina Olivetti dos anos 50; e, ao percorrê-la, tinha aquele odor a tinta tipográfica que nos transportava à memória de leituras passadas… Mas, sobretudo, tinha – e continua a ter −, a riqueza e a profundidade do conteúdo de cada texto, qualidade essa assegurada por uma plêiade de escritores, jornalistas e pensadores que lhe conferem uma distintiva “marca de água”! 45


LEGADOS

M Á R I O A S S I S F E R R E I R A E R AY C H A R L E S

MÁRIO ASSIS FERREIRA E LIZA MINNELLI

E assim nasceu a Egoísta, simbolicamente em 2000 como que a celebrar o novo milénio… Já lá vão 73 edições normais, 10 especiais e, a coroar o seu êxito, 95 prémios nacionais e internacionais! Por isso, respondendo à última parte da sua pergunta, não erra ao dizer que este é um projecto que me está muito próximo, que me alimenta o espírito e me permite extravasar reflexões em cada editorial que escrevo. Mas, em abono da verdade, o grande mérito na concepção de cada edição dessa “revista de culto” pertence à sua editora, Patrícia Reis, cuja imaginação e criatividade permanecem

inesgotáveis ao longo de 22 anos de publicação. Com tantas histórias que presenciou e viveu, uma conversa consigo – excelente contador de histórias – pecaria por defeito se não lhe perguntasse por algum episódio que tenha presenciado ou vivido no exercício da sua profissão. Um homem é ele próprio e a sua circunstância. No meu caso, por génese ou circunstância, vivi a vida na busca da diferença, com sede de inovação, raramente satisfeito por cada êxito alcançado.

Sempre me convenci de que “tudo o que está bem é porque está obsoleto”. O que me obrigava, em cada objectivo vencido, a partir para uma nova etapa criativa em busca de uma diferença que alimentasse a surpresa e o interesse do público que pretendia alcançar. Alguém com estas características tem que assumir que sempre corre riscos, sendo indispensável que exercite sistematicamente um cálculo mental em que percentualize, face a cada opção, para que lado tomba a balança entre os riscos e benefícios que essa iniciativa diferencial comporta. E, entre esses riscos, sempre haverá que contabilizar a sombra da inveja,

P R O J E C T O D A R E V I S TA E G O Í S TA

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LEGADOS

MÁRIO ASSIS FERREIRA E WOODY ALLEN

MÁRIO ASSIS FERREIRA E SHIRLEY BASSEY

algo latente no ser humano e que eu, porventura displicente nessa matéria, interpreto como “a admiração sem esperança”… Por isso, como não acredito na sorte, empenho-me no esforço que exige a ausência do azar, razão porque, regra geral, foi bem mais positivo o saldo de iniciativas bem-sucedidas, do que surpresas desagradáveis. Não caberia nesta entrevista a enunciação exaustiva de episódios, uns caricatos, outros surrealistas, que mereciam ser contados ao longo dos 37 anos de vida profissional que dediquei à Estoril Sol. Limito-me, por isso, a seleccionar dois, entre os positivos e negativos. Um dos mais positivos foi a inauguração do Casino Lisboa, em 2006, culminando um processo de negociações com o Estado com múltiplos e inesperados percalços mas que, em exercício de

persistência, sempre foram vencidos. Quanto a episódios de má memória, recordaria o “fiasco” do Elton John, aliás bem conhecido do público pela ampla divulgação, à época, nos ‘media’. Limito-me, em esforço de síntese, a recordar que essa “criatura”, meia hora antes de subir ao palco do Salão Preto e Prata – e com o ‘cachet’ já pago – resolveu fugir no seu avião privado para Londres, face às ameaças do marido, envenenado de ciúmes por um telefonema recebido de um membro do ‘staff’ do Elton John que, no seu camarim, se havia envolvido em fogosa – e ruidosa − relação amorosa com um massagista cubano que o seu agente em Portugal havia contratado, supostamente para o massajar… Tive que subir ao palco e dar uma explicação cabal ao público. A sinceridade e coragem sempre compensam: uma vez de apupos e

P O R E S T R A N H O Q U E PA R E Ç A , ALGO ME DIZ QUE NOVOS DESAFIOS IR ÃO SURGIR A QUE EU – COMO JÁ É HÁBITO – NÃO SABEREI RESISTIR!…

assobios, o público compreendeu o insólito da situação e aplaudiu-me de pé!… A pergunta clássica: o que faz falta fazer a um homem que já fez tanto? Eis uma pergunta aparentemente simples mas de difícil resposta. A resposta óbvia seria que, após ter pedido a suspensão das minhas funções executivas enquanto presidente do Conselho de Administração da Estoril Sol, ao completar os 70 anos e tendo agora 78 anos, já chegou o tempo para descansar e fruir da melhor maneira o resto de vida que me sobra. Mas a verdade é que continuo sem sentir a idade e, além da saúde física, os neurónios persistem em funcionar… Claro que terei mais tempo livre, para ler, para escrever, para me cultivar. Sou um amante da cultura e reconheço, como disse Fernando Pessoa, que “cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito”. E eu, para conhecer muito, terei, ainda, que viajar mais, conhecer mais, aprofundar o convívio com amigos, cimentar relações familiares, afectivas e intelectuais. Será isso que me chega para este resto de vida? Por estranho que pareça, algo me diz que novos desafios irão surgir a que eu – como já é hábito – não saberei resistir!… l

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FOTOS: FERNANDO PIÇARRA

especial cultura

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O AUTO R N O RTE -A M E R I CA N O R AY BR AD B U RY D ISSE QU E N ÃO E R A PR E CISO QU E IM AR LIVRO S PA R A D E S TRU I R U M A CU LT U R A, QU E BASTAVA CON SE GU IR QU E AS PE SSOAS DEIX ASS E M D E O S L E R . N ES T E AN O FI CÁ M O S A CO N H E CE R O E STU D O DA F U N DAÇÃO GU L B E N K IAN , QU E N OS MO S T R A Q U E 61 % D O S P O RTU G U E S ES N ÃO L E R AM U M L IVRO SE QU E R N O AN O PASSAD O; E VIMO S TA M B É M L I V RO S A S E R E M PROIB ID OS, TAN TO N A RÚ SSIA COM O P OR SE R E M RUSS O S . O U S E JA , O P I O R DA S D UA S HIP ÓTE SE S AVAN ÇADAS P OR B R AD B U RY. N O S ÚLTI M O S D O I S A N O S , A P R É MIO TE M TR AZID O FACTOS E OPIN IÕE S SOB R E A PAN DEMI A , S O BR E O S O FR I M E N TO H UM AN O, E TAM B É M SOB R E PROJE CTOS D E E SPE R AN ÇA E IN OVAÇÃO - D E Q U E M E M O N G O U E M PR E SAS TE N TA M U DAR A PÁGIN A E U LTR APASSAR O S PRO B L E M A S . O R EF ER ID O E S TU D O D O I N S TI TU TO D E CIÊ N CIAS SOCIAIS COM A F U N DAÇÃO CALOU STE GULB EN K I A N , M O S TR A A I N DA Q U E SÓ 2 8 % F R E QU E N TA M U SE U S E 6% FOR AM A CO N C ERTO S D E M Ú S I CA E RU D I TA . N ES T E N Ú M E RO, P O R E S TA S R A ZÕ E S E D E P OIS D E D OIS AN OS D E PAN D E M IA, QU ISE M OS DAR ES PAÇO AO Q U E TA M BÉ M N ÃO P OD E F ICAR PAR A TR ÁS, A CU LTU R A . Q UIS EMOS DA R D E S TAQ U E A E S TE T E M A, E VID E N CIAN D O ALGU M AS PE R SON AL IDAD E S, IN S T IT UIÇÕ E S E A LG U M A S “A RTE S ” N AS SUAS M AIS VAR IADAS E X PR E SSÕE S. DA C ULT UR A E RU D I TA À P O P U L A R , DA S IN STITU IÇÕE S ÀS COL E CÇÕE S PARTICU L AR E S, DAS R EF ER ÊN CI A S CU LTU R A I S N A P U B L I CIDAD E AOS “CAN CE L AM E N TOS” P OR CAU SA DA GUER R A N A U CR Â N I A . E P O RQ UE D E V E S E R CO N S E N S UA L QU E ATÉ O IM ATE R IAL N A CU LTU R A P OD E E D E VE SE R VIVID O, P E D I M O S A D O I S P O L Í TI CO S - D E L AD OS OP OSTOS D O E SPE CTRO PARTIDÁR IO PAR A N O S DA R E M O S E U TE S TE M U N H O SOB R E COM O - E , M AIS AIN DA, P ORQU E - VIVE M O FAD O, N O SS O PATR I M Ó N I O I M ATE R IAL .

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E S P E C I A L C U LT U R A

E N T R E V I S TA

“Como angolanos, teremos obrigatoriamente de saber promover e difundir a nossa Cultura” A C U LT U R A , O T U R I S M O E O A M B I E N T E C O M P L E M E N TA M - S E E T Ê M U M C O N T R I B U T O F U N DA M E N TA L PA R A A D I V E R S I F I C A Ç Ã O DA E C O N O M I A E PA R A A A F I R M A Ç Ã O DA S O B E R A N I A E I D E N T I DA D E A N G O L A N A S , D E F E N D E F I L I P E Z A U . E M E N T R E V I S TA , O G O V E R N A N T E A N T E C I PA A S VA N TA G E N S DA E X T E N S Ã O D O F U N D O D O A M B I E N T E À S R E S TA N T E S Á R E A S S O B T U T E L A D O M I N I S T É R I O , R E F O R Ç A N D O A C A PA C I DA D E D E I N T E R V E N Ç Ã O D O E S TA D O N A R E C U P E R A Ç Ã O E P R O M O Ç Ã O D E PAT R I M Ó N I O E I N F R A - E S T R U T U R A S , E D E S TA C A O PA P E L D O S G O V E R N O S P R O V I N C I A I S , S O C I E DA D E C I V I L E P R I VA D O S N O D E S E N V O LV I M E N T O DA C U LT U R A . O M I N I S T R O , Q U E A N T E S D E I N T E G R A R O E X E C U T I V O F O I A C A D É M I C O , P O E TA , I N T É R P R E T E , M Ú S I C O , V Ê C O M B O N S O L H O S A C R I A Ç Ã O , A P R A Z O , D E U M M U S E U DA FA M Í L I A . E R E V E L A Q U E H Á U M L I V R O Q U E O A C O M PA N H A E A V I A G E M D E S O N H O … Q U E A I N DA NÃO EFECTUOU.

É Ministro da Cultura, Turismo e Ambiente, uma “responsabilidade muito grande”, como indicou o Presidente da República na sua tomada de posse. Qual das pastas lhe consome mais tempo e energia? As três áreas, de igual modo, são de capital relevância, independentemente das especificidades e estratégias de acção a serem implementadas por cada uma delas. Em Dezembro de 2021 anunciou a extensão do Fundo do Ambiente para integrar também a Cultura e o Turismo. Em que ponto está este processo e de que forma poderá apoiar mais estes três sectores? A partir Fundo do Ambiente, a primeira ideia era proporcionar meios capazes de desbloquear projectos das áreas da Cultura e do Turismo, visando a sua implementação. Desde modo, procuraria também evitar o desejo de migração de técnicos da Cultura e do Turismo para a área do Ambiente, o que provocava instabilidade laboral dentro de um mesmo Ministério.

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RICARDO DAVID LOPES

Todavia, já está definida e orientada uma nova política nacional sobre a gestão dos fundos, o que levou à alteração da ideia inicial. Qual poderá ser a dotação deste Fundo e como é alimentado? Até ao momento, a arrecadação provém, sobretudo, da área do Ambiente, a partir de taxas e de doações internas e externas, e destinase, principalmente, a financiar projectos de formação e de educação ambiental, estudos de investigação científica e tecnológica, publicações e demais acções direccionadas para o alcance dos objectivos do desenvolvimento sustentável. Uma percentagem maior dessa arrecadação é destinada ao Ministério das

Finanças e uma outra parte segue para o Fundo do Ambiente. Contudo, há também contributos directos para a diversificação da economia, provenientes da área da Cultura, associados à arrecadação de receitas provenientes das várias manifestações culturais e artísticas, principalmente dos grandes eventos culturais, da venda do artesanato e de obras de arte. Em que medida há complementaridade e interdisciplinaridade entre estas três áreas? Numa lógica de complementaridade, visando a interdisciplinaridade e a diversificação da economia, há projectos que podem ser desenvolvidos em simultâneo. Hoje, o Turismo tende a ser cada vez mais ecológico, nomeadamente, junto de praias, parques e reservas naturais, e isso implica na procura de uma estreita ligação não apenas com o Ambiente, mas também com a Cultura. As rotas turísticas envolvem, por exemplo, visitas a museus, a comunidades


F O T O G E N T I L M E N T E C E D I DA S P E L O G A B I N E T E D E C O M U N I C AÇ ÃO D O M I N I S T É R I O DA C U LT U R A , T U R I S M O E A M B I E N T E D E A N G O L A

E N T R E V I S TA

FILIPE ZAU,

M I N I S T R O DA C U LT U R A ,

TURISMO E AMBIENTE

DE ANGOLA

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E S P E C I A L C U LT U R A minoritárias, a locais de interesse histórico e patrimonial, como também envolvem a participação em espectáculos musicais, teatrais e dança. Para além dos aspectos específicos ligados a cada uma destas três áreas, no contexto de uma economia circular e do desenvolvimento comunitário, há um núcleo comum de projectos a serem concebidos e implementados. Não só envolvendo a Cultura, o Turismo e o Ambiente, como ainda outros sectores da vida económica e social, como, por exemplo, a agricultura familiar e a educação para o desenvolvimento endógeno e sustentável. Quais os contributos mais directos da Cultura e do Ambiente para a diversificação da economia, hoje? Como podem ser potenciados? A Cultura também funciona como uma indústria e, se pensarmos no fomento das indústrias culturais e criativas - como a literatura, os concertos (musicais, teatrais e de dança), o audiovisual, as exposições (de fotografia e artes plásticas), a moda, a gastronomia…) - temos, de imediato, o reconhecimento do seu relevante contributo em prol da diversificação da economia. Também, ao procurarmos as fontes das nossas tradições africanas, procuramos alcançar um desenvolvimento endógeno, sem perder de vista o progresso e a modernização, bem como o imperioso desejo de abertura às comunidades. O que é importante na abordagem endógena encontra-se na origem, na inspiração da construção e da organização do desenvolvimento, devendo esta ser centrada no homem, o qual, por este facto, deve constituir a sua finalidade. Na actual conjuntura económica mundial, o desenvolvimento depende menos das riquezas naturais do que da qualificação profissional e cultural dos seus cidadãos, como o caso do Japão o vem comprovando. Ou seja, um país sem matérias-primas, fortemente enraizado nas suas tradições culturais, mas altamente industrializado. Na minha opinião, a Cultura, associada à Educação/Formação, deverá

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E N T R E V I S TA proporcionar às actuais e futuras gerações um conhecimento de tipo novo: um conhecimento isento de abordagens teóricas, muitas vezes desviadas das realidades sócio-culturais às quais deveriam dar resposta; um conhecimento que não resulte do desfasamento entre os sistemas educativos e as realidades económicas locais; um conhecimento que não gere desemprego como, não raras vezes, acontece em África. E o Ambiente? No que respeita ao Ambiente, a sua degradação tem concorrido para que seja cada vez maior o número de pessoas em situação de fome e extrema pobreza. O mero crescimento da economia já não é entendido como desenvolvimento, se a componente sustentabilidade estiver ausente. Hoje, torna-se necessário manter o sentido da conservação na utilização de bens naturais/culturais, para que as gerações futuras deles possam beneficiar. Daí que os projectos direccionados para a diversificação da economia, em Angola, pelos compromissos internacionais já assumidos em matéria de sustentabilidade ambiental, passem, naturalmente, a estar subordinados à avaliação dos impactos ambientais, que poderão, ou não, produzir. Luanda foi recentemente a “Capital da Cultura da CPLP”. Quais foram os principais momentos deste evento? A 3.ª edição da “Capital da Cultura”, na cidade de Luanda, obedeceu ao cumprimento de um vasto programa cultural que decorreu de 29 de Abril a 5 de Maio (Dia Internacional da Língua Portuguesa) e foi organizado pelos Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), pelos seus membros Observadores Associados e Observadores Consultivos, bem como por organizações da Sociedade civil. No contexto da Presidência “pró-tempori” de Angola na CPLP, que, de acordo com os princípios estabelecidos, só terminará em Julho de 2023, realizou-se a semana alusiva a “Luanda, Capital da Cultura”

com actividades musicais, teatrais e de dança, declamação de poesia, apresentação de filmes e tertúlias. No fundo, um conjunto de actividades culturais, que nos permitiram conhecer melhor quem somos na Comunidade em que estamos inseridos. A “Capital da Cultura” está integrada na presidência rotativa de Angola na CPLP. Que outros momentos irão ter lugar, neste âmbito, que se cruzem com as áreas de tutela? De acordo com os princípios de horizontalidade que regem a CPLP, as decisões decorrem da concertação político-diplomática entre os Estados-membros e não apenas da opinião do país que detém a presidência “pró-tempori”. Assim sendo, o Grupo de Peritos Nacionais e os Pontos Focais de Cooperação, em articulação com o Secretariado Executivo da CPLP, irão dar o mote para as acções futuras a serem desenvolvidas. Durante a “Capital a Cultura” os ministros da Cultura da CPLP reuniram. Quais as principais novidades que saíram deste encontro? No dia 4 de Maio de 2022, realizou-se a XII Reunião Sectorial dos Ministros da Cultura da CPLP, que aprovou o Plano Estratégico de Cooperação Cultural Multilateral da CPLP (2022–2026) e o respectivo Plano de Acção para 2022-2024, que contêm projectos e actividades nos seguintes eixos estratégicos: indústrias culturais e economia criativa na CPLP; diversidade das expressões culturais na CPLP; cooperação com outras organizações internacionais no domínio da Cultura; património cultural e memória histórica da CPLP; instrumentos digitais de divulgação das actividades da CPLP; e capacitação e fortalecimento institucional, através da formação de recursos humanos. O País assume também a liderança do Conselho de Ministros do Turismo da CPLP. Em que se traduz, em acções


FOTO: ADOBE STOCK

concretas, o reforço da cooperação entre países nesta área e quais os próximos passos? Ainda no âmbito da Presidência “pró-tempori” de Angola na CPLP realizou-se, sob o lema “A contribuição do turismo para a recuperação sócio-económica sustentável da CPLP no pós-Covid. Desafios e oportunidades”, a reunião sectorial dos Ministros do Turismo da CPLP, em Luanda, no dia 3 de Maio de 2022. O reconhecimento unânime de que a pandemia prevalente da Covid-19 tem trazido imensas dificuldades, quer para os agentes culturais, quer para o sector hoteleiro, restauração e agentes turísticos, constituiu um facto observado em todos os Estadosmembros. Consequentemente, esta trágica pandemia tem concorrido para o aumento do índice de desemprego, para uma maior dificuldade de entrada de divisas e para a ausência de promoção da valorização de activos culturais, ambientais e paisagísticos na Comunidade. Todavia, de entre várias acções visando o reforço da cooperação multissectorial, salientou-se a importância que a sustentabilidade do turismo tem em áreas como a conservação da diversidade e preservação das áreas naturais, no aumento do conhecimento sobre ecossistemas e no incremento do respeito pelas práticas tradicionais e prestação de serviços a elas associados. Reforçou-se, deste modo, o impacto do turismo na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e dos respectivos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Um outro aspecto de elevada importância relaciona-se com o lixo marinho, que resulta em perda de diversidade e põe em risco a sustentabilidade do turismo e da Economia Azul. Cada vez mais o Turismo manifesta a sua relação indissociável com o Ambiente e a Cultura de onde se destaca também a necessidade de se levar por diante um conjunto de acções de capacitação, capazes de reforçar a cooperação

entre as Reservas da Biosfera da CPLP, com destaque para a criação de um roteiro de turismo sustentável em Reservas da Biosfera da Comunidade. Quais as prioridades genéricas de Angola no turismo interno e externo? Tal como anteriormente tive a oportunidade de afirmar, o Turismo em Angola é determinante para a diversificação da economia, já que, após um longo período de décadas de guerra civil, o País dispõe hoje de estabilidade política, com um calendário de eleições democráticas e multipartidárias em cumprimento, o que cria as condições indispensáveis para o investimento estrangeiro. Angola tem uma costa atlântica de 1.650 Km de extensão, um mar rico em peixe e mariscos, sítios históricos, parques ambientais e reservas com bastante biodiversidade, paisagens deslumbrantes e comunidades minoritárias. Contudo, há carência de água potável e de energia em muitos locais aprazíveis, onde se podem edificar centros hoteleiros, ‘resorts’ ou restaurantes, para além de uma necessidade gritante de formação de recursos humanos. Neste momento, está em estudo uma estratégia de instalação de unidades dessalinização junto à costa marítima, com uma primeira experiência bem-sucedida na aldeia do Buraco, na ilha do Mussulo, que se pretende alargar à zona turística

de Cabo Ledo e à província do Namibe. Está também em estudo a possibilidade de se instalar no País fábricas de transformação de resíduos de plástico, para se adquirirem combustíveis a baixo custo, envolvendo a população na sua recolha. Com mais fácil acesso a água potável e a combustíveis, viabilizase a produção de energia a baixo custo e resolve-se uma parte considerável dos problemas de saneamento. Com a formação de gestores hoteleiros e a capacitação de pessoal em contacto permanente com os turistas, estaremos a criar os pré-requisitos indispensáveis para o fomento de um turismo interno e menos oneroso, em relação aos preços actualmente utilizados. Depois deste arranque, com o concurso de outros departamentos ministeriais, da cooperação internacional, do empresariado nacional e estrangeiro, criar-se-ão outras condições de partida para se dinamizar o turismo externo, de modo que este venha a ser capaz de concorrer com outros países da região. O funcionamento do novo aeroporto em Luanda, o melhoramento das vias de acesso terrestre, o transporte marítimo e fluvial, a maior frequência de ligações aéreas, a sinalização e a criação de roteiros turísticos, bem como uma maior facilitação de vistos de entrada para estrangeiros que queiram efetivamente fazer turismo, são alguns dos aspectos que teremos de equacionar para que o turismo externo

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se processe com a eficiência que todos desejamos. O aumento do turismo, quer interno, quer externo, irá ajudar muito Angola a criar mais empregos para a juventude, com reflexos na diminuição das taxas de precariedade no nosso País. Pintura e artes plásticas, literatura, música e dança são, porventura, as áreas culturais onde Angola mais se destaca, incluindo em termos internacionais. Qual o papel que deve ter o Ministério na promoção da cultura angolana no exterior? A identidade de um povo é, sem dúvida alguma, o seu principal garante de soberania e é, no caso de Angola, através da rica diversidade cultural deste povo multicultural e plurilingue que melhor poderemos expressar, valorizar e validar a sua imagem no exterior, quer a partir de dentro, quer das diferentes diásporas angolanas espalhadas pelo mundo. Porém, o nosso sentido de pertença não deve levar-nos a insularizarmonos no individualismo, caso contrário, perdemos o sentido de alteridade que, na actual conjuntura da globalização, se faz hoje necessário. Como angolanos, teremos obrigatoriamente de saber promover e difundir a nossa Cultura: no nosso próprio País, como um dos fins de uma educação para o desenvolvimento; em África, porque pertencemos a este continente; e no mundo do qual fazemos parte.

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Teremos, por outro lado, de ver o mundo, África e Angola através dos nossos próprios olhos, em Angola ou juntos das nossas comunidades, contribuindo para tal a criação de Centros de Cultura no exterior e de conselheiros culturais junto das nossas missões diplomáticas. Angola, sobretudo, em Luanda, tem já alguma oferta de ‘ateliers’ e galerias de arte, muitos de iniciativa privada. Como tem acompanhado o apoio do sector privado aos agentes culturais e à promoção cultural nacional? Vejo todas essas iniciativas, como outras de outros parceiros sociais, sejam eles do sector privado, de agremiações ou até mesmo de Organizações Não Governamentais, como da maior importância para a promoção e difusão da nossa Cultura, quer no País, quer no exterior. Se o Estado não pode fazer tudo sozinho, só uma indissociável aliança entre o Estado e a Sociedade Civil nos poderá levar ao cumprimento dos propósitos preconizados. Muitos agentes culturais queixam-se que o principal problema da Cultura é a falta de apoios públicos. Revê-se nesta perspectiva? Na realidade, a ideia de procurar estender o Fundo do Ambiente à Cultura e ao Turismo tinha como alvo angariar fundos para estas duas áreas, carentes de meios

financeiros, mas, com a reformulação dos fundos e a nova concepção de financiamento de projectos, através da criação de outros novos fundos, acredito que estas dificuldades poderão ser definitivamente ultrapassadas. O Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente vai trabalhar também com o Ministério das Finanças, tendo em vista uma recuperação de salas de espetáculos já reconhecidas pelo seu interesse cultural e patrimonial, bem como das obras destinadas à criação do Palácio da Música e do Teatro na antiga Assembleia Nacional e do Centro Cultural do Huambo. No meu entender, e pelo que já me foi possível perceber, o maior problema dos agentes culturais está na falta de espaços disponíveis para o exercício da sua actividade. Quais as áreas da Cultura onde sente que há maior necessidade de apoios públicos? E quais as áreas que recebem já mais apoios? De uma maneira geral, todas as áreas carecem de apoios públicos. Entretanto, quero destacar, entre outras, a necessidade de requalificação de museus, Casas de Cultura, de criação de uma escola de música, bem como de formação de capital humano. Ultimamente, no quadro da cooperação bilateral com a França e com a Alemanha, temos levado por diante acções de formação e de capacitação direccionadas para o funcionamento dos museus. Qual o papel dos governos provinciais no apoio à Cultura, em geral, nas províncias, e como é que é feita a articulação com o Ministério? O papel dos governos provinciais tem sido preponderante no desenvolvimento das culturas locais e não só. Já a articulação com o Ministério é feita através dos Conselhos Consultivos, de visitas ao terreno e por orientação metodológica. Quais os museus onde tem havido intervenções, no sentido da sua melhoria e/ou requalificação? Foram intervencionados o Museu Regional do Dundo, na província da Lunda Norte, e o Museu Nacional de


O papel e importância da família e da mulher são elementos essenciais do próprio imaginário colectivo angolano. Para quando um Museu da Família? Quero reiterar a grande importância da mulher em África, pelo seu papel na sustentabilidade familiar e no desenvolvimento da sociedade. Educar uma mulher é educar uma família. De acordo com o investigador senegalês Cheik Anta Diop, a falta de horizontalidade na relação entre homem e mulher não faz parte da tradição africana e, como tal, a mesma não deverá ser vista, na África subsaariana, como uma questão meramente cultural. Para uma melhor compreensão da História, há a necessidade de se considerar, segundo Diop, um berço indo-europeu (Norte) e outro berço negro-egípcio, ou negro africano (Sul). “A história da humanidade continuará confusa enquanto não admitirmos dois berços primitivos que modelaram os instintos, o temperamento, os costumes e as concepções morais das duas fracções da humanidade que se encontraram depois de uma longa separação realizada na pré-história”, afirmava Cheik Anta Diop. no seu livro, editado em 1955, “Nações negras e cultura: da antiguidade negro-egípcia aos problemas da África de hoje”. O berço meridional, segundo Diop, é caracterizado por uma descendência matrilinear que atingiu a Etiópia, a Líbia, o Egipto e a chamada “África Negra”. Os impérios do Gana e do Mali adoptaram esta tradição, tal como confirmam os escritos do tunisino Ibn Khaldum (1332-1406), considerado um dos maiores historiadores de todos os tempos, criador da história

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Antropologia, em Luanda. E quais aqueles que prevê que venham a ocorrer intervenções? Temos a previsão de requalificar outros museus nacionais, locais e regionais, nomeadamente, na província do Zaire, o Museu do Reino do Congo, já que Mbanza Congo foi qualificada, pela UNESCO, desde 8 de Julho de 2017, como Património Mundial da Humanidade.

científica. Este sistema não deverá ser considerado como um triunfo da mulher sobre o homem. “É, antes, um dualismo harmonioso, uma convenção aceite pelos dois sexos, para edificar uma sociedade sedentária onde cada um se realiza plenamente”. Este regime matrilinear é muito frequente na África subsaariana e foi adoptado logo de início. Na tradicional organização social africana, a família é matriarcal, com descendência uterina; o estado territorial apresenta um sistema específico de castas; a mulher, na vida doméstica, é considerada emancipada. Cheik Anta Diop acrescenta ainda que a tradição feminina real e o carácter agrário da maioria das economias, aspectos sempre ligados entre si, apoiam a sua tese; isto é, a existência de uma linhagem matrilinear em toda a África Negra. Todavia, se em alguns povos se detectam formas mitigadas do regime patriarcal, tal se deve à influência do Islamismo e do Catolicismo. Já o etnólogo José Redinha, no seu livro “Etnias e Culturas de Angola”, refere que alguns dos grupos sociais em Angola que hoje apresentam uma estrutura social patrilinear poderiam ter antes uma estrutura matrilinear, como é o caso dos Lunda e dos Cokwe que, segundo ele, “guardam ao mesmo tempo traços vivos do antigo regime social de matriarcado da África Central”, por onde passou uma corrente de povos bantu antes de entrarem no espaço geográfico

conhecido hoje por Angola. Por estas razões, acho interessante a criação de um Museu da Família. Porém, deixo, por enquanto, a iniciativa ao Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher. É um académico, mas também escritor, intérprete, compositor. Ainda lhe sobra tempo, enquanto ministro, para criar novas obras? Há mais vontade do que tempo. O lado emocional ficou mais adormecido que o lado racional, após ter sido nomeado ministro. Assim, procuro priorizar os assuntos relacionados com a actual missão política. Ainda assim, em que está a trabalhar actualmente? Poesia? Do ponto de vista criativo, não estou, de momento, nem a escrever, nem a compor musicalmente nada. Fiz, no mês passado, o lançamento de um lítero-musical, de minha autoria e do Filipe Mukenga, intitulado “Canto Terceiro da Sereia, o Encanto”. Qual é o livro da sua vida? E o filme? Um livro que até agora uso como referência obrigatória é “Na casa de meu pai”, do filosofo ganês Kwame Anthony Appiah. Quanto a filmes, “West Side Story”. Qual a viagem de sonho que lhe falta concretizar? Talvez ao Japão. l

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“O contributo do sector cultural e criativo para a economia é enorme” S A I D O M I N I S T É R I O D A C U LT U R A C O M A N O Ç Ã O D O T R A B A L H O F E I T O . A C R E D I T A Q U E D E U F O R M A À S R E F O R M A S M A I S U R G E N T E S , D O E S TAT U T O P R O F I S S I O N A L D O A R T I S TA A T O DA A P O L Í T I C A DA A R T E C O N T E M P O R Â N E A , PA S S A N D O P E L A R E D E P O R T U G U E S A D E T E AT R O S E C I N E T E AT R O S . C O N S I D E R A Q U E A C U LT U R A É F U N D A M E N T A L P A R A A Q U I L O Q U E É A C O M P E T I T I V I D A D E E C O N Ó M I C A D O P A Í S E PA R A A C O E S Ã O E C O N Ó M I C A E S O C I A L . D E P O I S D E Q U A S E Q U AT R O A N O S À F R E N T E DA PA S TA , G R A Ç A F O N S E C A O L H A PA R A O S E C T O R C O M O U T R O S O L H O S . M A I S AT E N TA E N Q U A N T O C I DA DÃ , T E M O D E S E J O D E Q U E O S P O R T U G U E S E S T E N H A M C O N S C I Ê N C I A DAQ U E L E S Q U E T R A B A L H A M PA R A Q U E A C U LT U R A E X I S T A .

Com que estado de espírito deixou o Ministério da Cultura, saiu aliviada, com o sentido do dever cumprido, a contragosto, satisfeita? Saí por decisão própria. Acho que estes lugares ganham com novos protagonistas, as políticas públicas ganham com novos protagonistas. Saí com a consciência de que devia haver uma mudança, com a consciência plena de que era o momento para o fazer. E com a noção do trabalho feito também. Nunca saímos com a sensação de termos feito tudo o que queríamos fazer. No entanto, deixámos feito um conjunto de reformas, o estatuto profissional do artista, a rede portuguesa de cineteatros, toda a política da arte contemporânea, o novo modelo de apoio sustentado. Era um conjunto de reformas que para nós era muito importante que ficassem aprovadas, consolidadas, os concursos abertos e a decorrer. Deixámos isso estruturado e de uma forma, julgo eu, diferente do que encontrámos. Sendo que tudo se fez durante um tempo em

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ALEXANDRA CARITA

que também tivemos que acorrer a necessidades absolutamente imediatas. No fundo, o que tentei sempre fazer foi olhar para o passado para perceber quais eram as reformas necessárias para o futuro, mas nunca deixar de dar resposta no tempo presente. Qual foi o seu maior cavalo de batalha? Terá sido o estatuto profissional do artista? Diria que houve vários. Mas sim, o estatuto profissional do artista foi um cavalo de batalha. É daquelas reformas que sabemos sempre que se não tivéssemos feito teríamos mantido uma situação que já há muitos anos podia ter sido alterada. Tínhamos mesmo que a fazer, portanto. Foi difícil, atravessou a pandemia,

e decidimos abrir um processo complicado que foi trazer muitos interlocutores e muitas associações para a mesa de trabalhos. Foi arriscado, mas não estou de todo arrependida. Aprendi em políticas públicas uma coisa fundamental, a melhor garantia que temos de que aquilo que estamos a fazer agora manterse-á no futuro independentemente dos ciclos políticos ou das pessoas, é conseguirmos que externamente ao Governo hajam entidades e pessoas que absorvam a importância do que está a acontecer. São elas os guardadores para o futuro daquilo que


E N T R E V I S TA GRAÇA FONSECA,

FOTOS: VITOR GORDO

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NO FUNDO, O QUE TENTEI S E M P R E FA Z E R F O I O L H A R PA R A O PA S S A D O PA R A P E R C E B E R QUAIS ER AM AS REFORMAS N E C E S S Á R I A S PA R A O F U T U R O , M A S N U N C A D E I X A R D E DA R R E S P O S TA N O T E M P O P R E S E N T E .

foi feito. Por isso, procurei sempre a participação de todos. Com os riscos inerentes, claro, não é possível que todos estejam contentes, mas isso faz parte. Outro cavalo de batalha muito importante foi a arte contemporânea. Chamar-lhe-ia mesmo a sua bandeira, ou até a vitória da Colecção de Arte Contemporânea do Estado. Foi um bocadinho, sim. A Arte Contemporânea e a colecção foi daquelas áreas que quando comecei a fazer uma avaliação aos campos que necessitavam de uma intervenção mais profunda e mais estruturada, até “de um abanão”, vamos dizer assim, era claramente uma delas. Há anos que havia a questão do inventário, não se conseguia determinar onde é que estavam as obras que há não sei quantos anos se dizia que estavam em local incerto quando não estavam ou tinham desaparecido. Quando cheguei pedi o processo integral, são dezenas de dossiês que estão lá no Ministério da Cultura, e fui ver até aos primórdios do processo. É muito impressionante porque percebe-se que a evolução ao longo de décadas, começa numa altura em que ainda não havia tecnologia, tudo se anotava à mão com os cartões que existiam para classificar cada obra, e que à medida que as ferramentas foram evoluindo, que as técnicas foram aparecendo, que as possibilidades foram surgindo não acompanhou os tempos e não acompanhou a possibilidade do que era possível fazer. Foi importante fazer o inventário com verificação, o que nos permitiu perceber que muitas das obras cujos paradeiros não estavam identificados estavam em museus. Depois, remeter para o Ministério Público aqueles casos que nós, Ministério da Cultura, não tínhamos qualquer condição de fazer averiguações a esse nível, mas também não podíamos deixar que não fosse averiguado, se é que isso ainda

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é possível fazer, para saber o que aconteceu ao longo dos anos para que as obras desaparecessem. Depois então, preparar o futuro. Passámos do ponto zero de aquisições públicas para o caminhar para um milhão de euros em aquisições por ano. Era esse o nosso compromisso. Além disso, deixámos uma dinâmica de uma Comissão de Aquisições que é independente do Governo e da Direção-Geral das Artes e que todos os anos tem esta tarefa de, não só ir colocando obras na colecção dos artistas dos hiatos temporais que existem, uma vez que não houve aquisições durante muitos anos, mas também ir preparando para o futuro o acervo e ir comprando obras dos artistas mais novos. E isso vai ficar. Foi um cavalo de batalha que chegou ao seu destino. Qual foi a sua grande decepção? O facto de as obras no Museu Nacional de Arte Antiga não terem começado, as vagas nos museus não terem sido preenchidas… sentiu-se desiludida por não ter conseguido avançar com estes dossiês? Não por uma razão: conseguimos com o PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) deixar isso preparado para o futuro. Uma das coisas que sempre me fez muita confusão, e se calhar foi pelo facto de ter sido autarca em Lisboa e conhecer bem a realidade dos equipamentos culturais e sociais da cidade, foi aquilo que foram anos e anos de não investimento nesses equipamentos. Sei que isto suscita questões a Norte, mas a verdade é que se nós olharmos para a evolução do que tem sido o investimento público ao longo dos anos, fundamentalmente focado nos programas comunitários de apoios e o compararmos com o que foi feito nesse âmbito a Sul, há uma disparidade enorme em relação ao que foi feito e bem na região Norte. Para mim era importante que para o futuro os museus e


os monumentos da cidade de Lisboa, que não sofreram intervenções pelo menos desde o 25 de Abril, tivessem uma intervenção estruturada. Porque é que o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) não avança na ampliação e, por exemplo, o Museu Nacional de Arqueologia avança? Porque o PRR tem um prazo de execução muito curto, quatro anos, e a diferença era que o Museu de Arqueologia já tinha um projecto de arquitectura pronto, ou seja, uma etapa já foi ultrapassada. No caso do MNAA esse projecto não existia e tinha que ser feito. De qualquer maneira, a intervenção pensada para o MNAA vai permitir responder a inúmeras questões com que o museu se bate há anos, nomeadamente em relação a toda a parte de infraestrutura interna e reorganização de espaços expositivos. Não é a ampliação de que há muito se fala, porque a ampliação na nossa avaliação ultrapassava o período temporal que o Estado tem para executar aquele projecto. Agora, não posso dizer que tive decepções. Mas quem exerce funções políticas, e já as exerço há mais de 20 anos, sabe sempre que há coisas que correm extraordinariamente bem e há outras que correm menos bem. Isso faz parte. Penso que, de alguma maneira, conseguimos deixar marcas nas diferentes áreas. Temos que arranjar forma de preparar isto para o futuro, com os investimentos, com programas como o emprego científico nos museus, como a arte contemporânea de que já falámos, como o estatuto profissional do artista. Fazer ver que o sector da Cultura não funciona só à volta dos financiamentos e dos apoios às artes. O público em geral acha que

o Ministério da Cultura só serve para apoiar o teatro, a dança, o cinema e por aí fora. Sim. Acho que há uma dimensão importante, e voltando à sua pergunta da decepção. Não é uma decepção mas é o caminho onde eu gostava de ter avançado mais. A importância da Cultura para aquilo que é a competitividade económica do país e para a coesão económica e social. Acredito profundamente que o sector cultural e criativo tem um potencial enorme naquilo que é o modelo de competitividade do país e da atratividade que temos como país. A atractividade para o talento, para o investimento, para turismo, como factor de coesão territorial. Isso é um caminho que iniciámos, o de procurar cada vez mais que as empresas tenham também um papel mais ativo neste sector, mais condições para mecenato através de regimes de benefícios fiscais, estar cada vez mais presente em certos fóruns e certas discussões que falam precisamente sobre o papel de determinadas áreas para a economia. Isso foi fundamental. Vou dar um exemplo, a questão do fundo de turismo e do cinema, a Portuguese Film Comission, são instrumentos fundamentais e vários países os utilizam de forma altamente competitiva hoje em dia, para conseguir colocar o país como destino de grandes produções e de filmagens. Isso é algo que no início enfrentou alguma resistência, mas hoje em dia é relativamente consensual que o mecanismo “cash rebate” tenha sido e seja algo importante para atrair produções cinematográficas e que dê trabalho a técnicos, a profissionais, a atores, a realizadores, a produtores, ou seja, que, na verdade, faça com que toda a área do cinema mexa. E isso é talvez uma das áreas em que eu diria

PA S S Á M O S D O P O N T O Z E R O D E AQ U I S I Ç Õ E S P Ú B L I C A S PA R A O C A M I N H A R PA R A U M M I L H ÃO D E E U R O S E M AQ U I S I Ç Õ E S POR ANO. ERA ESSE O NOSSO COMPROMISSO.

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que Portugal deve investir. E as pessoas percebem isso. Como percebem e perceberam bem, durante a pandemia, que quando encerra um monumento nacional, toda a economia à volta para. Em Lisboa não é tão notório, como é evidente, mas se formos à Batalha percebemos bem o impacto que tem para toda a economia à volta encerrar aquele mosteiro. É preciso fazer este caminho, é preciso perceber que o contributo que o sector cultural e criativo tem para a economia é enorme. O mítico 1% do Orçamento de Estado para a Cultura é uma meta legítima de se exigir? Sim, totalmente legítima. Uma questão é o investimento público na área da Cultura tem que crescer progressivamente, tendo partido de uma base extraordinariamente baixa. Todos os anos tem crescido e todos os anos tem que crescer. Isso é importante do ponto de vista relativo, porque queremos mais investimento e sabemos para quê. Quando defendemos uma posição de maior investimento, compete-nos também dizer onde

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é que o vamos colocar. Isso para mim era muito evidente. Sabia que queria aumentar a cotação da DGArtes, era fundamental e aumentámos muito a sua cotação, para além dos concursos ainda foi criada a Rede de Teatros e Cineteatros, e foi aberto um concurso à parte para as Artes Visuais, que não existia. Depois, para além do aumento de investimento, a questão do 1% não é apenas simbólica, é também importante pelo que significa do ponto de vista de políticas públicas, daquilo que é a afectação orçamental do dinheiro dos contribuintes para determinada área. Mais do que simbólico é importante que se destine o dinheiro dos contribuintes a uma área que depois de alguma maneira o devolve à nossa vida. Agora, quando se fala do 1% está a falar-se de um valor face a um bolo de 100%, o que acontece é que se o bolo crescer, mesmo que desça muito o investimento na Cultura a percentagem também diminui, ou seja, em anos em que houve um investimento enorme na área da saúde, o global do OE cresceu muito e ao crescer muito naturalmente que aquilo que é afecto às


AS PESSOAS TÊM QUE TER C O N S C I Ê N C I A D O PA P E L Q U E A C U LT U R A T E M N A S S U A S V I DA S . DA M O S I S S O POR ADQUIRIDO OU NÃO PENSAMOS SOBRE O TEMA.

diferentes áreas, neste caso à Cultura, mesmo que tenha duplicado, pode ter menos percentualmente do que no ano anterior. Isto eu sei que nem sempre é fácil de explicar. Dito isto, acho que é importante todos os anos haver aumento de investimento na Cultura. Acho que é importante termos uma meta que é de todos, o 1%, representando esse 1% mais ou menos aquilo que naquele ano for o montante global do OE. Sentiu alguma vez o tapete a fugir-lhe debaixo dos pés? Estou a lembrar-me por exemplo, durante a pandemia, quando se falava muito dos subsídios e dos apoios que eram urgentes e que parecia que o dinheiro não vinha… Sim. O tempo das necessidades imediatas das pessoas em especial num tempo como aquele não é o mesmo tempo dos processos internos de uma direcção-geral ou dos circuitos orçamentais e financeiros de um governo. E este desajustamento dos tempos, dos tempos burocráticos e dos tempos das pessoas, foi uma realidade, tenho perfeita noção disso. Isso é algo que para quem está do lado público é angustiante muitas vezes, porque queremos de alguma maneira saltar etapas, mas não é possível. Sei que as pessoas não percebem e percebo que não o percebam, não é fácil de explicar. Mas o tapete não fugiu debaixo dos pés. Em tempos difíceis temos que fazer exatamente o oposto que é ter os pés bem assentes na terra e perceber que, aconteça o que acontecer, temos de sair dali com uma solução e com uma resposta. Ainda falando desse período da pandemia que pôs a descoberto uma grande fragilidade económica e de carácter social do sector da Cultura. Estava à espera de encontrar esse tecido profissional tão debilitado?

De alguma maneira sim. Durante seis anos fui vereadora em Lisboa e a experiência que temos quando estamos numa câmara municipal, especialmente numa como esta, ensina-nos imenso para o futuro, porque a proximidade que temos com a realidade dá-nos um conhecimento muito particular sobre as realidades sociais. Tinha a noção de que é um sector com fragilidades estruturais. Repare que durante a pandemia surgiram muitas associações novas. Houve uma resposta de estruturação e de organização que considero muito importante do ponto de vista de futuro. É diferente haver um diálogo entre o Governo e duas, três, cinco associações ou entre o Governo e 150 pessoas. A verdade é que anteriormente era um diálogo com 150 pessoas. Por outro lado, como diz, a questão da fragilidade individual era menos conhecida. Eu conhecia bastante bem a fragilidade económica, mas a pessoal e individual foi uma surpresa para muita gente. Sabíamos que no sector da Cultura há uma cobertura pela Segurança Social muito baixa. Os estudos com que trabalhámos demonstram isso muito bem, ao longo dos anos, pessoas com carreiras profissionais muito longas com carreiras contributivas muito curtas. Isto é algo que caracteriza o sector. Não é só em Portugal, na verdade é algo transversal à Europa. Mas no caso de Portugal a diferença é enorme, o que faz com que as pessoas tenham uma desproteção social muito elevada. Se isso em situações normais já é mau, em momentos de crise piora muito. Sabemos que quando as pessoas chegam a uma idade mais avançada entram numa situação de desprotecção social crítica, mas ao observarmos a situação de pessoas mais novas, no activo, e que tinham tido muito trabalho houve de facto um nível de surpresa muito elevado.

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PA R A M I M E R A I M P O R TA N T E Q U E PA R A O F U T U R O O S M U S E U S E O S M O N U M E N T O S DA C I DA D E DE LISBOA, QUE NÃO SOFRER AM INTERVENÇÕES PELO MENOS DESDE O 25 DE ABRIL, TIVESSEM UMA I N T E R V E N Ç Ã O E S T R U T U R A DA .

Houve um alerta para a sociedade em geral sobre a condição dos profissionais da Cultura. Também acho. As pessoas têm que ter consciência do papel que a Cultura tem nas suas vidas. Damos isso por adquirido ou não pensamos sobre o tema. Quando vamos ao cinema, quando lemos um livro ou quando ouvimos música nem pensamos que há artistas por trás, técnicos… Ter essa consciência é importante. Por detrás de um livro estão inúmeras pessoas, está quem escreve, quem edita, quem vende, quem revê, quem traduz… De alguma maneira, acho que as pessoas olharam para o sector de uma forma um pouco diferente daquela com que olhavam antes. O que é que aprendeu com os profissionais da Cultura? Muita coisa. Durante aqueles três anos e meio viajei imenso pelo país, visitei praticamente todas as zonas de Portugal e várias estruturas e acho que há uma coisa muito interessante que é o facto de que em cada local onde vamos encontramos sempre um grupo ou uma associação, um colectivo que na área da Cultura e daquilo que é o trabalho artístico é feito com uma extraordinária dedicação e ligação ao local. Encontrei projectos extraordinários sobre os quais em Lisboa nunca ninguém ouviu falar, que nunca saíram nos jornais nem nunca sairão, mas que são muito reveladores de como os profissionais do sector se entregam à sua arte e a forma como, no fundo, dão àquelas comunidades grande parte de si. Isso é algo que aprendi e que levo comigo. São pessoas com uma total entrega a tornar muitos daqueles territórios melhores para as pessoas que lá vivem e para quem queira ir lá. Acho que há

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uma dimensão de entrega ao outro e de entrega daquilo que somos e fazemos que não existe nos outros sectores. Em relação àquilo que gostava de ter finalizado, mas para o que não houve tempo inclui-se a compra da Colecção Ellipse e da Colecção Berardo? Sim. Demos passos nesse sentido e espero que agora em 2022 se desenvolva. Em relação à Colecção Ellipse as coisas foram sendo construídas, uma parte diz respeito ao Ministério da Cultura, outra ao Ministério das Finanças e uma terceira parte que envolve o veículo jurídico que lhe está inerente. Estou convencida que se resolverá em breve, espero. A Colecção Berardo tem toda uma outra complexidade, porque já é uma questão judicial, tem um arresto judicial, tem bancos envolvidos. Mas o caminho que fizemos foi o caminho para que em 2022, até mesmo pela própria duração do protocolo, tudo se irá resolver. Mas em 2022 já não sou eu a ministra da Cultura. Fui abrindo caminho. Depois desta experiência governativa olha de uma forma diferente para o sector da Cultura. Como caracteriza o sector? Acho que é importante que haja uma maior presença e consciência do papel da Cultura naquilo que é o modelo que queremos para o país. Friso a importância da estruturação, uma área em que há já um caminho que foi feito, mas que é importante continuar. Tenho uma consciência diferente do que tinha antes. Vilhes as caras e conheci as pessoas. Olho para a Cultura de uma forma mais atenta. E gostava que as pessoas em Portugal tivessem também um pouco este olhar. l

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“Nenhum livro nasce da mesma maneira. Em todo o caso, o mais importante é sempre encontrar a voz certa para contar aquela história”

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA ACABA DE RECEBER O GRANDE PRÉMIO DE CRÓNICA E DISPERSOS LITERÁRIOS, ATRIBUÍDO PELA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES, COM O LIVRO “O MAIS BELO FIM DO MUNDO”, QUE REÚNE CRÓNICAS, CONTOS E NOTAS DIARÍSTICAS, ESCRITOS ENTRE 2018 E 2021 NA REVISTA VISÃO, NA GRANTA E NO JORNAL BRASILEIRO O GLOBO. EM ENTREVISTA À PRÉMIO, O ESCRITOR ANGOLANO FALA DO SEU NOVO PROJECTO LITERÁRIO, UMA ESPÉCIE DE BIOGRAFIA QUE DIZ SER TAMBÉM UM ENSAIO SOBRE A HISTÓRIA RECENTE DE ANGOLA.

A Literatura é um espaço de reflexão? A literatura deve ser, em primeiro lugar, um território de reflexão e de debate. A mim começou por me ajudar a compreender Angola, e o meu lugar dentro do país. Escreve todos os dias? Sim. Escrevo o meu diário, por vezes crónicas, outras vezes contos. Isso quando não estou a escrever um romance. Acontece escrever ao mesmo tempo contos, romance, crónicas e o diário.

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A Ilha de Moçambique, onde vive actualmente, já foi também o “chão” de Luís de Camões, Bocage e de António Gonzaga. Que impressões gostaria de trocar com estes escritores se pudesse coincidir no tempo por alguns momentos? Obviamente, gostaria de os ouvir falar sobre o tempo em que viveram. E gostaria de saber o que pensariam sobre alguns aspectos do nosso tempo — não sobre os avanços tecnológicos, mas sobre questões como o fim da escravatura ou a emancipação feminina.

“Toda a literatura é política e de intervenção, em particular em países, como Angola em que a maior parte das pessoas não tem maneira de se fazer ouvir”. É frequente abordarem-no no sentido de ser “mensageiro” de questões desta natureza? Tenta fazer esse papel? Sim, por vezes acontece leitores pedirem-me que escreva sobre determinadas questões. Ouço toda a gente. Até me acontece encontrar leitores que me contam estórias que acham que poderiam dar um bom romance.


FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELO ESCRITOR

E N T R E V I S TA JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, ESCRITOR

CATARINA DA PONTE

Recentemente inaugurou, na Guarda, a exposição de poesia e fotografia “Gramática do Instante e do Infinito” sobre a Ilha de Moçambique. O Lugar de contemplação, criação e exposição da fotografia tem semelhanças com o exercício da escrita? Tem algumas, sobretudo se o propósito com a fotografia for o de contar uma história, que é o que acontece com essa exposição. Também é possível tentar contar uma história com uma única imagem. Olhar

para os fotografados enquanto personagens. O que o fez aceitar este desafio da curadora Lucia Bertazzo? Sempre gostei muito de fotografar. A partir do momento em que me instalei na Ilha de Moçambique comecei a fotografar mais. Além disso, tinha uma história para contar e a Lucia percebeu isso. Viveu em Lisboa, Luanda, Rio de Janeiro e Berlim e, actualmente, na Ilha de Moçambique, qual o

legado que cada um destes sítios lhe deixou, enquanto pessoa e escritor (se é que podemos dissociar estes dois corpos). Todas essas cidades são lugares de encontro – territórios que se abriram a outros e a vivências diferentes. É o que mais me interessa neles. Que referências literárias contribuíram para a sua construção enquanto escritor? Desde Eça de Queirós a Bruce Chatwin, passando por [ Jorge Luís] Borges e [Gabriel] García

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E N T R E V I S TA

“[AS MINHAS HISTÓRIAS] PODEM NASCER DE UMA NOTÍCIA NUM JORNAL, D E U M A F R A S E O U V I DA N A R U A , D E U M S O N H O . N E N H U M L I V R O N A S C E DA M E S M A M A N E I R A .”

Márquez. Gosto de escritores que saibam contar uma boa história, com paixão e deslumbramento, e usando todos os recursos da língua. “Escrevo para saber”. As suas histórias nascem a par de personagens e cenários? Podem nascer de uma notícia num jornal, de uma frase ouvida na rua, de um sonho. Nenhum livro nasce da mesma maneira. Em todo o caso, o mais importante é sempre encontrar a voz certa para contar aquela história. Isso é muito mais importante do que a própria história. O livro “Os Vivos e os Outros” (vencedor do Prémio PEN Clube Português 2021) é uma profecia ou uma coincidência do contexto pandémico? O livro ficou pronto alguns meses antes do início da pandemia. Trata de questões que já me interessavam ou preocupavam antes, e que me continuam a interessar. Sobretudo, do poder da palavra. Como vê a literatura africana, sobretudo a emergente? Com muito optimismo. Os países africanos são muito diversos entre

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si, com uma extraordinária riqueza de culturas e de formas diferentes de olhar o mundo. A própria carência tem forçado as populações africanas a exercitar a criatividade. Não surpreende que, tendo os instrumentos adequados, África surpreenda no mundo das artes, das artes plásticas à literatura. O que está a escrever neste momento? Uma espécie de romance não

ficcional – uma biografia, que é também um ensaio sobre a história recente de Angola, vista a partir do coração da nação ovimbundo. O seu último livro é sobre sonhos e sobre sonhadores. Com o que é que ainda sonha José Eduardo Agualusa Alves da Cunha? Tenho os mesmos sonhos das misses: sonho com a paz mundial. l

P E R G U N TA S R Á P I D A S , R E S P O S TA S P R O N TA S Do que se alimenta um escritor? Escritores alimentam-se de tudo aquilo que os cerca, da luz à escuridão. O amor tem o contorno da Ilha de Moçambique? O amor transcende geografias. Que livro gostaria de ter lido antes de começar a viver? O meu diário. O “Mais Belo Fim do Mundo”, lançado no final do ano passado, junta crónicas e textos de ficção sobre os tempos que vivemos entre 2018 e 2021. Como seria o mais belo fim do mundo, se o pudéssemos e quiséssemos realmente desejar? “O mais belo fim do mundo” é a Ilha de Moçambique.


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“Mais importante do que o exercício da escrita, no caso de Moçambique, é a disponibilidade para a conversa”

DEPOIS DO LIVRO, “O CAÇADOR DE ELEFANTES INVISÍVEIS”, UMA COLETÂNEA DE CONTOS PUBLICADA HÁ MENOS DE UM ANO (EM OUTUBRO DE 2021), MIA COUTO REGRESSA AO ROMANCE HISTÓRICO, NUMA NARRATIVA QUE RECUA AO PERÍODO QUE ANTECEDEU A PARTICIPAÇÃO DE PORTUGAL NA PRIMEIRA GUERRA (1914). EM ENTREVISTA À PRÉMIO, O ESCRITOR E BIÓLOGO MOÇAMBICANO, PRÉMIO CRAVEIRINHA NO ANO EM QUE SE COMEMOROU O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO POETA, FALA-NOS DESTE SEU NOVO PROJECTO LITERÁRIO, RECORDA COMO FOI FICAR SEM O “CHÃO” DO SEU ÚLTIMO ROMANCE DEPOIS DA PASSAGEM DO CICLONE IDAI E DA NECESSIDADE DE CONSTRUIR UM ESPAÇO DE PARTILHA COM O “ESCUTADOR” PARA QUE AS HISTÓRIAS VALHAM A PENA CONTAR.

Ainda se lembra o que queria ser quando era criança? Dizem os meus pais que comecei por querer ser um gato. Havia-os às dezenas na nossa varanda, vinham comer restos que a minha mãe guardava para eles. Eu misturavame com os bichos, deitado no meio deles, sem dar conta de uma qualquer fronteira entre o humano e o não-humano. Vem daí o nome, este Mia, que inventei para mim mesmo. Depois, e disso já me lembro, quis ser bombeiro. Salvar gente. Talvez não fosse apenas uma motivação altruísta. Havia no combate ao fogo uma narrativa que correspondia ao ambiente cristão

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em que cresci. O fogo é a própria matéria do inferno. O escritor Ken Robinson diz que “a escola mata a criatividade”. O Mia também já referiu que o preocupa o facto dos mais novos não terem a capacidade de criarem as suas próprias histórias, mais até do que não as lerem. Considera que a prática da escrita e, talvez, da biologia têm-lhe permitido alimentar a espontaneidade e este olhar poético e renovado sobre a vida? Uma das grandes lições que aprendi na escola foi a não estar onde estava o meu corpo. Foram anos de apuramento da distração, como

uma falsa ausência. A directora da escola primária inscreveu na minha caderneta a mesma avaliação durante os quatro anos: “O aluno nunca faltou, mas nunca chegou a estar presente”. É claro que esse ambiente cinzento correspondia a um modelo de escola que me parece estar superado. Muita água correu debaixo dessa ponte. Hoje a escola é, em geral, mais luminosa e mais habilitada a alimentar a inquietação e o espanto do encontro com a vida e com os outros. Mas é preciso recordar que, para milhões de crianças do nosso mundo o problema não é o modelo da escola. É não haver escola nenhuma. Em Moçambique, isso ainda sucede em


FOTO GENTILMENTE CEDIDAS PELO ESCRITOR

E N T R E V I S TA MIA COUTO, ESCRITOR

CATARINA DA PONTE

dimensões dramáticas. Há regiões que, por causa da guerra, a escola está suspensa para milhares de crianças. E ainda predomina, entre as famílias rurais, a ideia de que as raparigas rendem mais se ficarem em casa. A maior parte das meninas não chega à terceira classe. Quase tudo e quase nada são bons pretextos para encetar uma página em branco? Não existe página em branco. O que está em branco, o que está em falta, apenas existe dentro de nós. No meu caso, eu preciso inventar alguém que, do outro lado da página, me escuta. Preciso de inventar esse

escutador para sentir que vale a pena partilhar uma história e praticar essa veleidade que é pensar que vale a pena criar esse espaço de partilha. Moçambique tem sido, desde sempre, palco de vários eventos climáticos extremos, o mais devastador foi em 2019 com o ciclone Idai que deixou o país destruído. Nessa altura, temeu ter ficado sem o chão e sem o imaginário das suas histórias de infância? O meu último romance [“Mapeador de Ausências”, 2020] está centrado na minha infância, uma infância convertida num lugar inventado.

Esse lugar é a minha pequena cidade, a cidade da Beira, no centro de Moçambique. Chamo-lhe “pequena” do mesmo modo que olho para os meus filhos como se coubessem ainda no meu colo. A cidade onde nasci e vivi até aos dezassete anos cresceu imenso e já pouco corresponde a essa imagem que dela guardo. Desde 1972 que vivo em Maputo. Enquanto escrevia o romance passei a visitar mais frequentemente a minha cidade. Já estava no final do livro quando sucedeu o ciclone. Dias depois sobrevoei a cidade e chorei no avião vendo submerso aquilo que era o chão da minha infância. Pensei

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TENTEI DIZER O QUE SABIA SEMPRE C O M V E R DA D E , C O M C L A R E Z A , DA F O R M A M A I S P O S I T I VA E S E M T R A N S M I T I R M E D O , PÂ N I C O O U A N S I E DA D E .

que algo de mim naufragara, se afundara sem remédio. Pode-se ser órfão de uma terra? perguntava-me antes de aterrar. Na visita seguinte, já os beirenses estavam reerguendo a cidade. Agora usa-se um termo insuportável: “resiliência”. Mas o que estava ali acontecendo, essa capacidade de enfrentar os fins de mundo, foi vital para que eu me entendesse a mim mesmo e, assim, entender como iria fechar o meu romance. Ainda sobre a sua “terra”, onde a tradição oral é marcadamente mais forte do que a escrita. Além das palavras que colecciona nas ruas, que outras sensibilidades gosta de guardar para depois transformar em palavras? Mais importante do que o exercício da escrita, no caso de Moçambique, é a disponibilidade para a conversa. Essa conversa é uma espécie de alimento vital para manter vivas as redes sociais de afeto e de partilha. Há uma espécie de re-fabricação permanente de uma família alargada. As pessoas param na rua, contam histórias e falam de coisas íntimas sem se conhecerem. Não persiste felizmente uma noção rígida da fronteira entre o que é do domínio privado e o que é do domínio público. Sempre que posso ando a pé pela cidade e demoro horas a dar a volta ao quarteirão porque em qualquer canto há alguém que está desejoso de falar e escutar. Mantenho assim a ilusão de viver numa pequena aldeia.

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Tem um processo de escrita curioso, o que escreve por último, torna-se muitas vezes o início do livro e vice-versa. Sente que na vida, e nas suas relações, alguns inícios também são provisórios? Uma das lições mais importante que Moçambique nos dá é a ausência de medo ao que é provisório, ao que é incerto e imprevisível. Há muita gente por esse mundo fora em apoio psicológico porque vive num ambiente em que a ausência de certeza traz a angústia da insegurança. Prevalece em Moçambique uma espécie de sabedoria que aceita o caos e o mistério como algo que não são sinónimos de uma ameaça cósmica. Na narrativa africana não há princípio nem fim. O grande mistério da criação do Universo não se coloca: o mundo sempre existiu. E os mortos nunca morrem. Estarão vivos enquanto houver vida. É importante as línguas serem plásticas? Começo pelo mais óbvio: as línguas são sempre plásticas e não há nenhuma que seja mais que as outras. Os idiomas são construções históricas, com percursos antigos e horizontes futuros imprevisíveis. Todos eles são construções plásticas porque são a voz da nossa criatividade. Dou-lhe um exemplo: no Sul de Moçambique existe um verbo muito curioso: “magaivar”. Significa desenrascar, improvisar

soluções engenhosas. De onde vem o verbo? De uma série televisiva chamada MacGyver em que um agente americano resolve os mais intricados problemas inventando soluções com materiais que estão à mão de semear. O verbo pegou porque corresponde a uma cultura profundamente instalada. Há séculos que os moçambicanos sobrevivem à custa da sua inventividade. A maior parte das pessoas que usa este verbo nunca viu a série e desconhece completamente a etimologia desse neologismo. A palavra foi adoptada pela vida. Já ninguém se lembra do personagem de uma série que passou quando a televisão existia apenas em alguns bairros de Maputo. Sobreviveu o que era preciso. E ainda bem porque esse MacGyver era apenas mais um agente secreto ao serviço dos interesses norte-americanos. Como caracteriza a produção literária africana na contemporaneidade? Não tenho competência para falar da produção africana que é uma área muito vasta. Mas vivemos um momento bom e o ano passado comprovou essa pujança: os maiores prémios internacionais de literatura foram quase todos ganhos por africanos. Incluindo o nosso prémio Camões que foi atribuído à minha amiga Paulina Chiziane. Não se trata apenas de reparar uma injustiça histórica que pesou sobre uma parte da humanidade que foi invisibilizada


e que parece só ter direito a existir nos momentos de guerra e desastres naturais. Trata-se de fazer justiça a um território culturalmente riquíssimo, onde mora a maior diversidade cultural e linguística do planeta, onde moram histórias de resistência e de incorporação de patrimónios de sabedoria profundamente heterogéneos. Faz questão de lançar sempre primeiro os seus livros em Moçambique? Sim. Esse é o princípio. Os meus livros são de um tempo e de um lugar. É uma questão de respeito. A era digital, nomeadamente as redes sociais, são aliadas ou inimigas da veiculação da literatura e da língua portuguesa? São as duas coisas. Ajudam a ver o mundo de forma global e instantânea. As redes de informação fornecem uma ideia falsa de proximidade e transmitem uma visão redutora e empobrecida da realidade. Mas eu sou optimista. Essas ferramentas digitais não são,

em si mesmas, boas ou más. Tudo depende de nós. “Conto histórias para dar voz aos meus fantasmas”. Com a idade, os fantasmas multiplicam-se? E a escrita, contem-se ou expande? No meu caso, e só posso falar de mim, sucedeu o seguinte: fui aprendendo a arte da contenção. E percebo que a beleza não resulta de uma construção. Mas de uma revelação. A beleza acontece e é esse fazer acontecer que deve desafiar o artista. Aprendi também a não querer dizer tudo, a não escrever numa página o que pode ser sugerido numa única frase. Entretanto, perdi a espontaneidade da adolescência. Às vezes, tenho saudade dessa ousadia. O que se segue ao “Caçador de Elefantes Invisíveis”? e ao “Mapeador de Ausências”? Estou a preparar um novo romance que se passa em 1914 na fronteira do rio Rovuma, no período que antecedeu a

participação de Portugal da Primeira Guerra. Estou ainda a recolher informação histórica. Há muita informação sobre esse período e eu diria que essa abundância de fontes está neste momento a atrapalhar-me. Foi recentemente galardoado com o Prémio de Literatura José Craveirinha, precisamente no ano em que se celebra o centenário de nascimento do poeta que dá nome a este galardão. Tem um significado especial para si receber este prémio? Conheci pessoalmente José Craveirinha e disfrutei de um bom tempo de conversas longas sobre o que podiam ser o papel da poesia numa nação ainda por nascer. Receber o prémio no ano em que se comemora o seu centenário não é para mim uma mera coincidência. Mas é um reencontro com esse homem extraordinário que me ajudou a ver um país por entre ruínas e a manter um sonho de uma casa que também é feita de palavras. l

P E R G U N TA S R Á P I D A S , R E S P O S TA S P R O N TA S O prato que lhe sabe a vida? Uma matapa de camarão, um prato de Moçambique O livro em cima da sua mesinha de cabeceira? O Livro do Desassossego. Uma paisagem sonora? Muda o tempo inteiro. Neste momento, estou habitado por uma canção do italiano Fabrizio de Andre, intitulado “Ho visto Nina volare” Três personagens com quem gostasse de partilhar uma conversa de final de tarde num alpendre? Sancho Pança, o médico Watson (parceiro de

Sherlock Holmes) e Rami (a mulher que, no romance de Paulina Chiziane) se junta às quatro amantes do marido. O livro que ainda não escreveu? Todos. Mesmo os que já escrevi, sinto que me falta escrevê-los. O maior sonho? Não sei escolher. Os sonhos é que me escolhem. Uma frase, uma palavra, espontânea? Confesso: espontânea, não me ocorre. A escolha levaria um tempo infinito.

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“A arte é um passaporte para se entender a vida”

MAESTRO, COMPOSITOR, RUI MASSENA É UM NOME INCONTORNÁVEL NO MUNDO DA MÚSICA EM PORTUGAL. COM 22 ANOS DE CARREIRA, E DEPOIS DE TER APRESENTADO VÁRIOS PROJECTOS A SOLO, DIZ-SE PRONTO PARA VOLTAR À DIRECÇÃO DE ORQUESTRA. “AINDA VAI CHEGAR O MEU MOMENTO DE ASSUMIR NOVAMENTE UM PROJECTO DE DIRECÇÃO DE ORQUESTRAS”, PARA ISSO NÃO EXCLUI UMA IDA PARA O ESTRANGEIRO, AGORA QUE OS FILHOS JÁ ESTÃO CRESCIDOS. RUI MASSENA DIZ QUE ACIMA DE TUDO QUER CONTINUAR A DESAFIAR-SE E A VIVER, LONGE DA AMARGURA QUE MUITAS VEZES ACOMPANHA OS MÚSICOS.

Como é que vem para a música e para o piano? A educadora do jardim de infância disse aos meus pais que eu tinha talento para a música e que me deviam colocar a estudar música. Foi o que os meus pais fizeram, primeiro com um compositor de Gaia, César Morais, estudava piano e educação musical em casa dele e, passado dois anos, fui para a Academia de Música de Vilar do Paraíso. Tem memória de ser criança e gostar de tocar? Médio, porque acho que as crianças não gostam do estudo da mecânica da música. A música

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tem uma gramática delicada, o solfejo e tudo o que diz respeito à formação musical é duro de aprender, é uma linguagem nova e o instrumento sobre o ponto de vista cognitivo e motor é também exigente. Como é uma linguagem exigente as crianças rejeitam-no a não ser que tenham um talento excepcional. Que era o seu caso… Aprendi piano não sei como, só me lembro de algumas coisas me chatearem… Além da dificuldade, o piano é também um instrumento muito solitário. Tem toda a razão, mas eu também

tocava viola com os meus amigos… é verdade que o piano é mais individualista, mas esse sacerdócio eu nunca o quis aceitar. Daí ter ido para a direcção de orquestra. É um pouco isso, escolho a direcção de orquestra porque, aos 15 anos, começo a dirigir uns coros e umas orquestras feitas por mim e percebo que aquilo que gosto mesmo é de fazer música em conjunto. Costumo dizer que não sou um pianista, sou pianista para tocar as minhas coisas, não para interpretar os grandes clássicos. O que gosto mesmo, a minha vocação, é gerir pessoas.


FOTO: ISABEL PINTO

E N T R E V I S TA RUI MASSENA, MAESTRO, COMPOSITOR

ELISABETE FELISMINO

A fuga ao tal individualismo… Eu não adoro o processo de estar um dia inteiro a estudar piano sozinho, no entanto, posso estar um dia inteiro com pessoas a fazer música. Por isso é que a determinada altura, lanço um projecto que se chama “solo” e que é o meu grande desafio: como é que consigo estar horas a estudar e a programar um projecto em que vou para o palco sozinho? Encarei esse desafio como uma possibilidade de comunicação com o público sem distracções no palco. Quando é que se dá o clique e percebe que tem futuro na música?

Tinha por aí uns 16/ 17 anos, é por essa altura que começo a perceber que era disso que vivia. De esse respirar das pessoas que tinham uma sensibilidade diferente, que gostavam de coisas diferentes dos outros, que não ouviam a mesma música que os outros ouviam na escola e que gostavam de dançar em conjunto, quando faziam festas, que cantavam os parabéns a “vozes”… era um mundo diferente. Mas nessa idade ainda há o risco de “isto pode não correr bem”… Acho que não, talvez hoje a sociedade seja mais medida ou mais mensurada e os números e as

estatísticas afetem a nossa mente colectiva, mas não creio que naquela idade, nem eu nem os meus paisporque os pais são decisivos no ensino das artes- pensássemos nisso. Os seus pais têm alguma ligação com a música? Gostam imenso de música, o meu avô materno tocava guitarra portuguesa, o meu pai aprendeu piano para me ajudar a estudar. Apesar de no país haver a ideia de que para seres alguém tinhas que ser engenheiro ou advogado, os meus pais – felizmente – tinham uma cabeça aberta e quase que me empurravam para a música.

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Como é que surge depois a direcção de orquestra? Surge no meio de tudo isto, uma vez numa festa no coliseu do Porto em que eu estava a dirigir uma orquestra e um coro, o director da academia, entregou-me simbolicamente, pelo bom trabalho desenvolvido, uma batuta. Tentei dirigir com a batuta, mas não conseguia, então achei que tinha de aprender. Peguei na batuta e fui aprender a dirigir. Qual foi a primeira orquestra que dirigiu? Foi a orquestra académica metropolitana de Lisboa, até aí olhava para a música como um instrumento para juntar as pessoas, mas nessa altura começo a olhar a música, até por necessidade de estudos, como um fim em si mesmo. Entretanto vai para a Madeira… Acabo o meu curso e vou para a Madeira, em 2000, já depois dos meus aperfeiçoamentos estarem concluídos. Na Madeira começo verdadeiramente, com 27 anos, a vida profissional. Estava a caminho de Chicago, tinha já a inscrição para ir estudar e surgiu essa oportunidade. Tive uma vida maravilhosa durante todos aqueles anos na Madeira. A orquestra foi fantástica, foram anos incríveis. Estive lá até 2012, mas a partir de 2010 acumulei com a Capital Europeia da Cultura de Guimarães. Aqueles anos na Madeira, até à entrada da Troika foram fantásticos. Como é que vem para Guimarães? A Cristina Azevedo, da Fundação Cidade Guimarães, vai à Madeira assiste a dois concertos e convidame para programar a área da música na Capital Europeia da Cultura. E quando é que aparece a Casa da Música? Durante o período em que estou como titular da Orquestra Clássica

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da Madeira, dirijo as orquestras nacionais. Aliás, nesse período, dirigi, em 14 países diferentes, à volta de 40 orquestras. Entre 2000 e 2014 desenvolvi a minha actividade em muitas orquestras. Entretanto, começa a compor a solo. Decidi começar a criar porque depois de todos estes anos sentia que alguma coisa não estava bem. Não estava suficientemente feliz só a dirigir orquestras. O acto de dirigir orquestras é muito complicado e tem muito a ver com a necessidade de chegar às pessoas, antes de chegarmos à música. Decidi então que ia criar um projecto para mim, enquanto autor, que não tinha nada a ver com as grandes composições da história da música. Aquele ano de 2015 foi providencial porque eu não estava bem e quis cumprir este sonho de criar um projecto baseado nas minhas composições em que a palavra-chave é tranquilidade. Hoje o Rui Massena é mais maestro ou mais compositor? Sou a conjugação de todas estas valências. Felizmente lancei quatro discos, entre 2015 e 2022, três álbuns e um EP e dei concertos tanto em Portugal como fora, tenho tido a oportunidade, quer de voltar ao piano, quer de voltar à gravação em orquestra, ou seja, dirijo a minha própria música e quando estou em palco, como toco com músicos acabo por beneficiar de toda a minha ‘expertise’ enquanto maestro. Ainda agora fiz um concerto no Casino do Estoril e vou fazer na Casa da Música, em que necessito em absoluto de ter esta formação, uma vez que tanto dirijo, como toco. É muito engraçado, acho que música hoje e, sobretudo, no pós-pandemia, me ajudou a decidir que sou tudo isto. Logo a seguir à pandemia disse que tinha descoberto que não era

só piano, o que é que isso quer dizer? Para a minha música sou exactamente tudo isto: sou a pessoa que dirigiu estas orquestras todas, que faz o Rock in Rio, que faz as experiências com os Expensive Soul, com os Da Weasel, que fundou uma orquestra em Guimarães e que foi programador. É muito engraçado que depois da pandemia, de um ato de sobrevivência, de um naufrágio colectivo, aceitei que tinha de pôr em jogo isso tudo, sem barreiras, sem preconceitos porque de facto olho para trás e já lá vão 22 anos, e percebo que é exactamente isto a minha identidade. Mas não está zangado com a direcção de orquestras? Não, não estou zangado. Aliás, acho que ainda vai chegar o meu momento de assumir novamente um projecto de direcção de orquestras, só que ainda não chegou. Até porque já não me interessa estar à frente de um projecto qualquer. De que é precisa neste momento? Preciso de ter um projecto sustentado, que me ofereça condições de melhoria e de expansão. Depois dos projectos por onde passei e das dificuldades que conheci, já sei onde tem de começar um projecto para aceitar a direcção de orquestra, até já sei que dificuldades é que não pode ter. Para me mobilizar e para fazer as coisas em bom nível artístico posso aceitar um projecto fora do país e cheguei a ponderar fortemente essa possibilidade, mas achei que a minha estabilidade afetiva, e acompanhar o crescimento dos meus filhos, era insubstituível. Mas agora já estou noutra fase, os meus filhos já estão crescidos, começam a ganhar a sua própria vida, pelo que já estou mais disponível para abraçar outras realidades.


Diria que o seu regresso à direcção de orquestra passará mais pelo estrangeiro do que por Portugal? Não forçosamente, imagine que há um projecto em Portugal que me desafia e me cativa para crescer, eventualmente, aceitaria. Qual é que é o grande projecto que lhe falta? Falta expandir o meu projecto, conseguir colocar na minha música tudo aquilo que sou, conseguir criar uma unidade total. Estou sempre a descobrir-me. Por exemplo, neste momento estou a fazer música para um filme com um grande realizador espanhol, Jaime Echavarria, é um grande desejo que tenho, vou fazer música épica para um documentário, estou a fazer música para um jogo de consolas, um projecto espectacular para uma empresa portuguesa com ambição mundial, estou a construir o meu novo álbum, estou em concertos com 15 músicos no palco, faço conferências, vou entrar novamente num júri de um concurso de televisão, entender que tudo isto junto sou eu! No fundo, a minha ambição passa por ir aperfeiçoando os meus modelos e ir chegando a mim, sempre mantendo a curiosidade. Acho que a minha grande ambição é essa. Qual o projecto que até hoje mais o marcou? Olho para a minha vida sempre com um grau de exploração grande. Na Madeira senti que a orquestra se expandiu artisticamente. O projecto da orquestra da Madeira foi um projeto muito bonito, qualquer pessoa num café conhece a orquestra clássica da Madeira. Guimarães foi um projecto muito engraçado porque 95% da programação foi portuguesa, o projecto da minha música também já leva 7 anos e também já está estruturado, o mesmo acontece com a minha ligação à comunicação,

já faço conferências há 12 anos. Obviamente que o projecto do Rock in Rio me marcou, foi um concerto absolutamente incrível. Foi um desafio que a Roberta Medina me colocou e foi também um quebrar de preconceitos: música instrumental para milhares de pessoas. Mas como diz a Roberta, “quando se dá coisas boas às pessoas, as pessoas vão e gostam”. O Rock in Rio, os Da Weasel, entre outros, são projectos que estão menos ligados às elites, mais populares… São projectos que aproximam o instrumento da orquestra das pessoas e sobretudo que ajudam as pessoas a perceber a riqueza que uma orquestra tem. São projectos que fazem daquele instrumentoa orquestra- um instrumento absolutamente fantástico. Eu adoro Mozart, Beethoven, adoro todas as épocas da história da música, da mesma forma que gosto de olhar para aquele instrumento e perceber como é que ele se pode modificar. Gosto que haja muita gente a gostar das coisas que gosto. E lida bem com a fama? Lido muito bem. Sou abordado na rua, sempre fui muito bem tratado, é algo muito natural, porque nunca deixei de fazer nada por ser mais conhecido ou menos conhecido. Escolhi o palco quando tinha cinco anos, aos 15 já era um miúdo conhecido, quem vive com o palco, não se distancia do palco. Como é que encara o facto de vender mais fora de Portugal do que no seu país? Os países têm a escala que têm, portanto se me pergunta se quero ser mais ouvido em Portugal? Quero, claro que sim. Mas também quero ser cada vez mais ouvido no mundo porque isso legitima aquilo que faço. Eu acho que tenho de ir fazendo as minhas coisas para construir o meu país.

O que é isso significa? Significa que vou fazendo o meu papel, sendo suficientemente corajoso para aceitar críticas em relação ao que faço. Se uma pessoa desconstrói e recria o papel que as pessoas têm do maestro corre sempre o risco de ser criticado. Quanto mais pessoas disfrutarem das grandes obras da literatura orquestral, quanto mais pessoas conhecerem a orquestra, quanto mais natural for a ligação das pessoas aos músicos e à arte, em Portugal, melhor o meu país vai entender outras coisas que não a arte. A arte é um passaporte para se entender a vida. A minha contribuição é dizer que sou um apaixonado pelo olhar artístico, pelo olhar diferente, pela criatividade e se as pessoas usarem essa ferramenta na vida vão perceber que os seus básicos são outra coisa. No fundo, é ambicionar uma vida mais rica em Portugal. No fundo, é tornar as áreas da criatividade uma indústria e uma economia relativamente estável e sólida, bemencarada, bem entendida e vista como essencial ao desenvolvimento colectivo. Como é que se vê daqui a 10 /20 anos? Não sou pessoa de fazer muitos planos, o meu plano diário é tentar tocar, compor qualquer coisa, ter esperança de continuar a ter trabalho e navegar naquilo que me vai surgindo. Aceitar os desafios. Gostava de chegar daqui a 10/15 anos com o meu projeto de composição bem estruturado e bem desenvolvido. Gostava também de ter, com mais regularidade, concertos pelo mundo fora e sobretudo, manterme “vivo” e não viver na amargura que muitas pessoas desta área vivem, manter-me curioso, com alegria naquilo que faço. Manterme curioso e alegre com vontade de viver a vida. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

TESTEMUNHOS

JOANA MORTÁGUA, DEPUTADA DO BE

O M E U FA D O

H

á muitas maneiras de contar uma história mas esta começa sempre no mesmo sítio: comecei a ouvir fados na casa do meu avô, homem de tradições, das quais escolhi herdar só algumas. Foi lá que cresci a tempo parcial e onde às vezes ia espreitar os discos de fado que não era frequente ouvir em minha casa. Lembro-me bem do momento em que, sem querer, aprendi de cor o “Rapaz da Camisola Verde” do Frei Hermano da Câmara. Não há nenhuma razão para uma sonoridade nos dizer mais do que outras. Se a tradição tem um papel, estou certa de que será pequeno, ou os nossos gostos musicais seriam de um infinito e mortal tédio. A verdade é que aquele tipo de música em particular, não só não me aborrecia, como parecia reinventarse com o passar do tempo, o que sempre foi visto com muita estranheza pela maioria das pessoas da minha idade. Esse matamorfismo fez com que o fado passasse a ser – para mim – uma constante procura de identidades: musicais, culturais, históricas, de

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classe, entrecruzada com o mistério que só encontra quem se põe a fundo nas coisas. Uma estrutura melódica aparentemente simples, de leitura instintivamente popular, à qual se sobrepõem vozes que não têm de ser extraordinárias, com técnicas muito próprias e poemas passados de mão em mão: não há nada de óbvio no fado. Claro que há muitas formas de gostar de fado. Há quem prefira salas de concerto, mas a minha é nas casas de fado, como aquela onde um dia ouvi cantar a Celeste Rodrigues, consciente de que era a terceira geração da minha família a ter esse privilégio. Antes de casar, também o meu avô corria as casas de fado para a ouvir, como hoje eu vou com a minha avó ouvir a guitarra do seu bisneto, Gaspar Varela. Continuidades, nem toda a gente precisa delas ou as encontra no mesmo lugar. É por isso que, ao contrário do que outros legitimamente fizeram, o que descobri no fado tem pouco de conservador. Está lá a canção popular, maldita por ser pobre. Está lá também a canção republicana, operária, proibida. Está lá sobretudo a Amália e os nossos poetas, e não há mistério maior do que esse. Quanto ao “Rapaz da Camisola Verde”, só muitos anos mais tarde viria a cruzar-me com o poema completo, e uma estrofe particularmente significativa: “Ali ficou... E eu cínico, deixei-o Entregue à noite, aos homens, ao pecado... Ali ficou de camisola verde, Negra madeixa ao vento, boina maruja ao lado…” Porque não há nada do fado que seja óbvio. E tradições… cada uma escolhe as quer. l


NUNO ENCARNAÇÃO, EX-DEPUTADO DO PSD

“A M I N H A L I G A Ç Ã O AO FA D O D E C O I M B R A T E R Á S E G U R A M E N T E A M I N H A I DA D E ”

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esde criança que me recordo, de acordar aos domingos de manhã na nossa casa em Coimbra, ao som dos discos de vinil que o meu pai colocava a tocar. Eram invariavelmente discos de Fado de Coimbra, álbuns do Luiz Goes que giravam vezes sem conta semana após semana. Não tardei a decorar todas as letras, a memorizar as pausas e os tempos de cada uma das suas canções. A par dos álbuns deste enorme cantor, ouvia ainda as guitarradas de António Portugal, de Artur e Carlos Paredes e outros tantos temas clássicos de Coimbra. Aos 7 anos, decidi frequentar as aulas de Guitarra de Coimbra no Chiado, mas a experiência não foi bem sucedida. Anos mais tarde, aprendi a tocar viola para acompanhar Fado de Coimbra e algumas guitarradas que se tocavam nas tertúlias noturnas de Coimbra. Aos 15 anos, formava o meu primeiro grupo de Fados de Coimbra com alguns amigos do liceu. Aos 17 anos entrei, em Engenharia Eletrotécnica em Coimbra, e no final desse primeiro ano, integrei o Grupo de Fados Capas Negras (ao qual ainda hoje pertenço), juntamente com o António José Moreira na Guitarra e o Luís Alvelos e o Eduardo Filipe no canto. Optei por fazer toda a minha vida académica em Coimbra, na Universidade da minha Cidade, porque era ali que o Fado de Coimbra “residia” e eu jamais abdicaria de o ter tão próximo. Terei feito cerca de 600 atuações, enquanto viola do Grupo de Fados Capas Negras e em diversas atuações com outros Grupos de Coimbra enquanto músico convidado. Fiz viagens de norte a sul, conheci cada recanto de Portugal, fiz digressões pelo estrangeiro, participei em diversos programas de televisão e de rádio, gravando ainda três cd´s. Tive ainda a felicidade de tocar e aprender com vários

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

mestres do Fado de Coimbra. Recordo com saudade o convívio e as atuações que tive com António Portugal, António Bernardino, Luiz Goes ou Durval Moreirinhas, entre tantos outros. Os ensaios eram momentos de convívio, mas locais de exigente trabalho com os demais músicos. As atuações eram momentos de grande entrega, de grande exigência e rigor, sempre com o propósito de partilhar parte da cultura musical da nossa cidade de Coimbra. A Sé Velha em Coimbra, acolhia as Serenatas das Queimas das Fitas de Coimbra. Aquele, sempre foi o palco maior do Fado de Coimbra. Recordo que preparávamos durante dias a fio, em absolutas maratonas de ensaios, as peças mais difíceis que nos lembrávamos de levar. O respeito por aquele “palco” assim nos obrigava. O Fado de Coimbra e a canção de Coimbra, sempre teve um papel maior na cultura do nosso País. Se no início muito cantou os amores de um homem por uma mulher, noutras fases, deu origem a vários e importantes poemas e músicas de intervenção. As letras de Manuel Alegre, Adriano Correia de Oliveira ou Zeca Afonso foram provavelmente as mais conhecidas e as mais eficazes nas mensagens que estes géneros musicais nunca abdicaram de passar. É com gosto que recordo e partilho a minha vida na música, nesta vossa publicação. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

CINEMA

O GRANDE DESAFIO DO CINEMA

H O J E A A R T E D O C I N E M A , D I Z E M O S “ E N T E N D I D O S ”, E S TÁ A PA S S A R P O R U M A T R A N S F O R M AÇ ÃO COMO NUNCA VIVEU. O MARKETING E A COMUNICAÇÃO, ESFORÇAM-SE POR CHAMAR DE NOVO O P Ú B L I C O A U M A S A L A D E P R O J E Ç ÃO . M A S O D E S A F I O D E R E I N V E N TA R E S S A C O M U N I C AÇ ÃO N ÃO S E C O M PA R A AO Q U E H Á 9 5 A N O S AT R Á S S E PA S S O U Q UA N D O D E U M M O M E N TO PA R A O O U T RO A S E ST R E L A S CO M E Ç A R A M A FA L A R . F O I Q UA N D O S E P E RC E B E U Q U E E R A P R E C I S O C O M U N I C A R N O VA S F O R M A S D E V E R C I N E M A , A P E T R E C H A R A S S A L A S C O M S I S T E M A S D E S O M E M A I S D I F Í C I L A I N DA , E N S I N A R A S E S T R E L A S A FA L A R PA R A O M I C R O F O N E . P O D E PA R E C E R ESTR ANHO, MAS NEM TODAS, OU POUCAS SOBREVIVER AM A ESSA REVOLUÇÃO QUE É HOJE V I S TA C O M O U M D E S A F I O D E C O M U N I C AÇ ÃO . N O F I N A L G A N H O U O C L I E N T E , A F I N A L O C I N E M A É FEITO PELO ENTUSIASMO DE QUEM SE DEIXA SEDUZIR. O QUE AQUI PROPONHO É UMA HISTÓRIA DE COMO O SONORO CHEGOU AO CINEMA.

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(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


MÁRIO AUGUSTO

F

oi há 95 anos, a 27 de outubro de 1927 que estreou o filme “O Cantor de Jazz”, nesse dia Hollywood, que até aquele dia andava a torcer o nariz ao sonoro, não imaginava ainda a grande revolução que ali começava. As fábricas de sonhos da Califórnia empregavam na altura mais de 50 mil profissionais que produziam uma boa parte dos filmes que se viam em todo o mundo. As estrelas do mudo ganhavam milhões, mas em menos de dois anos o sonho passou a pesadelo. A maioria das vedetas desse tempo viveram o drama da mudança, muitas desapareceriam esquecidas e abandonadas pelos estúdios onde já só queriam produzir os sonoros e as

“O CREPÚSCULO DOS DEUSES”

estrelas falavam mal. Os filmes sonoros, ou os “talkies”, como lhe chamavam os americanos, chegaram como um verdadeiro terramoto que arrasou com a carreira de muitos atores e atrizes pela sua dificuldade de adaptação às novas técnicas, especialmente a incapacidade de decorarem textos e interpretá-los, algumas dessas estrelas foram logo esquecidas. Eram os novos tempos que implicavam outro tipo de representação, menos empolgada perante a câmera; foi o caso de John Gilbert (considerado um dos maiores galãs do cinema mudo) chegou a receber das suas fãs mais de duas mil cartas por dia, ficou conhecido como grande herói romântico e amante de Greta Garbo e Marlene Dietrich.

Os espectadores imaginavam-lhe uma voz completamente diferente da que realmente tinha, e o ator caiu em desgraça. Morreu ainda novo de ataque cardíaco, em 1936, alcoólico e na bancarrota. Um notável retrato dessas vedetas abandonadas seria levado ao cinema por Billy Wilder, já em 1950, no filme “Sunset Boulevard” - O Crepúsculo dos Deuses”. Uma velha rainha do cinema mudo que protagoniza uma história bizarra de loucura e paixão, vivendo o saudosismo da glória perdida nos tempos áureos do início de Hollywood. Gloria Swanson, consagrada atriz do mudo, desenvolve neste filme, um retrato cruel, mas subtil sobre a indústria do cinema, mostrando um lado mais negro e desesperado de Hollywood.

“O CANTOR DE JAZZ”

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E S P E C I A L C U LT U R A

CINEMA

“O G R A N D E D I TA D O R” “A N N A C H R I S T I E ”

Gloria Swanson (atriz que chegou a viver largas temporadas em Sintra, onde possuía uma casa em Almoçageme) também ela tinha quase desaparecido na transição para o sonoro. Algumas das suas palavras, ao interpretar Norma Desmond (a personagem de “O Crepúsculo dos Deuses”), eram amargas e pareciam despertar os velhos fantasmas: “Ainda sou uma grande estrela, os filmes é que ficaram pequenos. Em tempos, o cinema tinha os olhos do mundo inteiro, mas isso não lhes chegava, quiseram também ter os ouvidos. Então abriram as bocarras e começaram a falar sem parar…”. Chaplin foi dos raros casos que conseguiu manter a popularidade, recusando por muito tempo os diálogos nas suas produções. Realizou o seu primeiro filme sonoro “O grande ditador” em 1940, já treze anos depois da estreia de “Jazz singer”. Nessa altura referiu numa entrevista: - “Podeis dizer que eu detesto o sonoro. Vem dar cabo da mais antiga arte do mundo; a arte da pantomima. Esses filmes aniquilam a

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grande beleza do silêncio”. Era o silêncio das imagens que os mais fundamentalistas defendiam como: - “Uma magia poética própria do cinema. O diálogo mata a poesia” – Diziam eles. Os estúdios, ainda tentaram recuperar algumas das suas figuras mais consagradas ao lançar uma campanha com o slogan “Oiça as estrelas a falar”. Eram cenas exibidas antes da projeção dos filmes, sequencias sonoras com as caras mais conhecidas que até então eram mudas e exageradamente expressivas na representação. Ao revelarem a voz, muitas delas surpreendiam a plateia, que reagia até com sonoras gargalhadas. Quase da noite para o dia, toda uma geração de nomes bem conhecidos do cinema seria afastada do ‘ecrã’. Poucos sobreviveram ao som, Greta Garbo, com a sua voz grave, foi uma das que conseguiu fazer a transição. Para o filme “Anna Christie” os estúdios MGM fizeram uma grande campanha com o slogan “Garbo Fala” e a sua voz convenceu o novo público.

A necessidade de Inovar O cinema norte-americano naqueles anos 20 estava a atravessar uma crise grave. As receitas de bilheteira baixaram drasticamente, o prestígio de muitas estrelas diminuiu com grandes escândalos, e surgiram na imprensa recorrentes críticas à opulência e à extravagante vida de Hollywood. Os estúdios, num aparente beco sem saída, perceberam que era preciso evoluir, mas os gestores dos estúdios, sempre muito conservadores, pareciam não saber como dar a volta ao problema. Essa “modernice” do som, se bem que interessante, era talvez uma moda passageira, defendiam alguns para quem o bom cinema era silencioso. Os grandes estúdios, todos – ou quase todos – recusavam a novidade tecnológica, até porque essa opção representava um investimento elevado para criar soluções técnicas adequadas ao registo e reprodução dos diálogos. Em meados de 1926, chegou a notícia a Hollywood de que os engenheiros


As críticas foram mornas, mas o público adorou a inovação. Jack Warner disse aos jornais da época: “A novidade do cinema sonoro não desaparecerá. O que passou foi a novidade dos filmes mudos.”

“DON JUAN“

“ S E R E N ATA À C H U VA”

nos laboratórios das duas maiores empresas de eletricidade dos Estados Unidos – a Western Electric e a General Electric, tinham conseguido finalmente sincronizar som com a imagem, isto ao fim de quase dez anos de experiências e estudos. A notícia foi pouco valorizada e as primeiras abordagens aos magnatas dos estúdios até correram mal com alguns sinais de rejeição. Apenas na “Warner Brothers.” decidiram arriscar. Um dos responsáveis viria mais tarde a confessar que só aceitaram a solução proposta porque não tinham mesmo outra alternativa. Os estúdios estavam numa situação financeira muito difícil depois de uns fracassos de público e estrelas bastante caras, um quadro de gestão tão negro que uma das hipóteses era declararem falência e fecharem portas. Na irmandade Warner, nem todos acreditavam na importância desse passo gigante. Harry Warner votou de vencido e terá dito na reunião onde a decisão final foi tomada: “Não percebo quem poderá estar

interessado em ouvir esses atores a falar”. A ideia inicial era usar o som para passar a música, os ambientes e efeitos sonoros. A voz no início não era para registar. Os Warner sem alternativa arriscaram com cautela e discrição. Quando foram abordados para experimentar o novo sistema, denominado “Vitaphone”, e que era a mais fiável de todas as experiências feitas até então, foi-lhes proposta a aquisição da respetiva patente. Aceitaram pagar e aproveitaram para acrescentar som a um filme que já estava em produção, “Don Juan”, com John Barrymore (bisavô de Drew Barrymore) e Mary Astor. Pelo sim, pelo não, fizeram duas versões, uma delas sem som. Na exibição da versão sonora, a música era executada ao vivo pela orquestra do New York Philarmonic Auditorium. A 6 de agosto de 1926, no Warner Theatre de Nova Iorque, passou a existir oficialmente um filme totalmente sonoro, muito embora a música dessa vez tenha sido tocada ao vivo.

Finalmente falam! A primeira sessão oficial do cinema sonoro decorreu a 27 de outubro de 1927. Com “O Cantor de Jazz” que confirmou que os filmes tinham conquistado o uso da palavra. Mas é curioso que essa fita, cinematograficamente banal, é mais um filme cantado do que falado. O principal intérprete, Al Jolson, era um consagrado artista de variedades. Perante o êxito popular do filme, todos os agentes do negócio já aplaudiram, perceberam finalmente que tinham à sua disposição um meio de voltar a atrair multidões às salas de cinema. Já as velhas estrelas, naturalmente assustadas com o desemprego que pairava, criaram um ódio de estimação pelo sonoro. A atriz Clara Bow, uma vez, ao perceber que havia uma grande correria dos bombeiros nos estúdios da “Universal”, gritou aos quatro ventos: “Só espero que seja o departamento de som que está a arder”. Nos primeiros tempos a preocupação era rodar fitas em que a história permitisse uma estreia simultânea com duas versões, uma muda e outra sonora porque o aparecimento do som trouxe aos estúdios um problema com os mercados internacionais. Uma grande fatia do negócio era assegurada no mercado externo e tornava-se complicado impor aos distribuidores de outros países, onde não se falava inglês, filmes em que as plateias não perceberiam nada dos diálogos. Inicialmente, a solução encontrada por um engenheiro serviu para tentar salvar algumas das estrelas do mudo: as suas vozes eram dobradas por outros atores e atrizes com melhores dotes vocais, especialmente nas cantorias. É claro que isto provocou algum mal-estar nos “donos” das

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E S P E C I A L C U LT U R A vozes, pois falavam bem, mas não encantavam ninguém, uma vez que não eram eles que apareciam na tela a brilhar, eram uma espécie de duplos de voz. Em 1929, dois anos depois da estreia de “O Cantor de Jazz”, Hollywood produziu cerca de 500 filmes, e metade deles já eram sonoros. A “United Artists”, apesar de ser liderada pelas glórias do mudo, anunciava nessa altura que a partir de 1930 todas as suas produções seriam faladas. Há registos muito curiosos dos comentários das estrelas que se sentiram ultrapassadas como o de Mary Pickford, que terá dito: “Acrescentar som aos filmes é como pôr bâton nos lábios da Vénus de Milo”. Chaplin, sempre radical na sua relação com o sonoro, dizia: “O cinema precisa tanto de som como as sinfonias de Beethoven precisam de letras”. Mas já era irreversível, os filmes falados chegaram de vez. Curiosamente, a nova técnica representou nos seus primórdios um indiscutível retrocesso no plano artístico, pois havia muitos problemas que decorriam das dificuldades de registo do som. O microfone passou a ser um apetrecho odiado, uma arma que eliminava os que não se adaptavam. Baseado nas muitas histórias de bastidores e nas anedotas que se contavam com o advento do som, em 1953 Gene Kelly e Stanley Donen, realizaram um dos melhores filmes de sempre em que a dramática transição para o sonoro, é mostrada em tom de comédia musical. “Singing in the Rain – Serenata à Chuva” leva-nos a perceber entre música, sorrisos e coregrafias inesquecíveis, o quanto sofreram as deusas do mudo e o ódio que tinham às novas tecnologias, especialmente microfones. Com o argumento de “Serenata à Chuva” percebem-se também as dificuldades de mobilidade que o novo cinema trazia. A captação do som era para os técnicos um

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CINEMA tomento e um desafio constante. As câmeras faziam muito barulho enquanto filmavam, por isso passaram a ter que estar fechadas em cabinas estanques e insonorizadas. Todas essas condicionantes técnicas vieram atrofiar a criatividade e a adaptação demorou tempo a conseguir-se, os novos equipamentos, só chegariam anos depois para aligeirar todo o processo de filmagem. Os estúdios eram fábricas de sonhos cada vez mais caros de produzir e com uma boa dose de risco. Foi a maior e mais radical revolução na indústria do cinema. Inventaram-se novas estrelas, repensou-se o sonho que ainda hoje continua a evoluir sempre fiel ao princípio de contar uma história que emociona, diverte e nos toca e encanta. O último filme da época do mudo produzido nos EUA estreou a 7 de abril de 1930 e intitulava-se “O Pobre Milionário”. É claro que foi um fracasso de bilheteira, mas ficou na história por ser a fita que marcou o definitivo virar de página. Afinal onde se experimentou o sonoro Em França onde o cinema começou, que desde essa primeira apresentação do Cinematógrafo dos Lumière em 1894, que se foram testando diversas formas de registo do som sincronizado com imagens. Há referências a um tal Lengaste Baron que patenteou em Paris um sistema de aparelhos que permitia registar e reproduzir simultaneamente imagens e som. Baron ainda produziu várias fitas, mas, desiludido com a falta investidores para a sua ideia, acabou por desistir. Há uma outra tentativa de patentear, já em 1905, outro equipamento com um longo, mas sugestivo nome: “O registo elétrico de som sobre a película do mesmo filme”. Os inventores acabaram por desistir da ideia, mas foi pena, porque eles estavam no bom caminho… quando

muito, adiantados no tempo, porque, 22 anos depois, foi esse mesmo princípio que os engenheiros americanos da “Western Electric” seguiriam para encontrar a solução que finalmente iria sincronizar som e imagem. Já em 1900, fez furor na Exposição Universal de Paris o “Phono-CinémaThéâtre”, pequenos filmes onde se viam e ouviam cantar as grandes estrelas da época dos espetáculos de Paris como Sarah Bernhardt. Com mais ou menos sincronismo, juntava-se ao projetor um fonógrafo (bisavô do gira-discos). Em França, com essa mesma técnica, foram produzidas diversas sequências de filme em que os cantores da época ficaram registados para sempre. Uns telediscos à moda antiga… No Verão de 1908, Leon Gaumont alugou um cinema em Paris, e durante várias semanas projetou, com enorme êxito, o seu cinema sonoro com recurso ao Cronógrafo. Gaumont ainda registou a técnica, mas como comercialmente não obteve o retorno que esperava acabou por desistir. Experiências francesas que anteciparam muito o cinema sonoro, mas a primeira guerra interrompeu sem recuperação essa evolução tecnológica. Hoje a evolução do cinema é tão complexa que não se pensa sequer na falta que pode fazer, um ruído, um diálogo num filme. O que hoje se discute é a pureza do som numa imagem, criam-se envolventes sonoras que está para lá do entendimento perceção do sono aparelho auditivo. Quando se fala do registo sonoro de um filme, ouvimos siglas e marcas que nos despertam imagens só de ouvir, THX, DTS, Atmos, Dolby, são mais do que siglas, são a porta sonora para o nosso envolvimento com as imagens. Há 95 anos o desafio técnico e de marketing de comunicação era tão simplesmente pô-los a falar, coisa muito difícil para aquele tempo. l


E S P E C I A L C U LT U R A

P U B L I C I D A D E E C U LT U R A

EDSON ATHAÍDE *, PUBLICITÁRIO

O FEIJÃO E O SONHO

O

título deste artigo remete diretamente a dois universos supostamente antagônicos: a realidade e a fantasia ou, se preferirmos, o racional do abstrato. O feijão é o alimento, que é plantado, que vem da terra, que comemos, que tem preço, peso, espaço físico. O sonho, bem, o sonho é isto mesmo: o onírico, o que não tem pés nem cabeça, não tem fim e nem começo, como argumenta o dicionário: utopia, devaneio sem fundamento, quimera vã que dura pouco. “Razão e coração”, diria o meu Tio Olavo, a lembrar que as complementaridades dos opostos costumam seduzir. Quem fala feijão, poderia dizer batata, carro, computador, roupa, avião. A economia é feijão, o mercado é feijão, o estado é feijão, o marketing é feijão. Quem fala de sonho, poderia dizer cinema, teatro, literatura. A

* Texto escrito na língua de origem do autor

moda é sonho, a música é sonho, a arte é sonho, a cultura é sonho, a criatividade publicitária é sonho. “O Feijão e o Sonho” é o título de um romance de 1938 escrito por Orígenes Lessa, um grande autor brasileiro que foi também publicitário. O livro contava as agruras de um escritor que sonhava muito, mas ganhava pouco, negligenciando as necessidades da família, restando à sua esposa o papel de ser o feijão, lutando para que o alimento não faltasse à mesa. Lembro-me sempre desse livro e de Lessa quando me pedem para dissertar sobre o que há de arte na publicidade. Há muita. Sempre houve. Sempre haverá. O que não torna a publicidade em arte ‘per si’. Não é. Nunca será. “A publicidade é conversa de vendedor por escrito”, resumiu um dos fundadores da publicidade moderna. Mas, para que essa conversa de vendas seja persuasiva, precisa de ser bem escrita. E aí que entra a arte. E aí que

entram tipos como Orígenes Lessa, Fernando Pessoa, Ary dos Santos, Luís Fernando Veríssimo e tantos outros autores que tiveram passagens pela publicidade. Mas também não podemos esquecer de pintores, escultores, cineastas que foram ou são publicitários. Caso não saiba, Spike Lee é dono de uma agência. Assim como o ator Ryan Reynolds. Scorsese realizou vários anúncios. David Fincher ainda realiza. No final do século XIX, os donos dos cabarés parisinos solicitavam aos artistas que criassem cartazes exaltando as virtudes e os excessos das farras que promoviam. Toulouse-Lautrec pagou muitas das suas contas de vinho e absinto a fazer cartazes. As latas de sopa de tomate de Andy Warhol ilustram bem a relação quase incestuosa entre as Belas Artes e a cultura publicitária. A Campbell Soup Company não poderia sonhar com uma estratégia de marketing melhor do que a criada por Warhol para eternizar na mente da sociedade americana um produto tão banal quanto aquele.

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E S P E C I A L C U LT U R A

P U B L I C I D A D E E C U LT U R A

C A M PA N H A PA R A A S B AT E D E I R A S KITCHENAID. A PUBLICIDADE ADORA “ R O U B A R ” AO S G R A N D E S A R T I S TA S .

FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELO AUTOR

Q UA N D O A P U B L I C I DA D E I M I TA A A R T E Q U E I M I TA A V I DA . A B E N E T T O N N ÃO S E C O N T E N TAVA C O M FA Z E R P U B L I C I DA D E C O M E R C I A L . O F O T Ó G R A F O O L I V I E R I T O S C A N I , R E S P O N S ÁV E L P E L A S C A M PA N H A S DA M A R C A N O S A N O S 9 0 , E S TAVA SEMPRE A PISAR AS RISCAS E A FAZER HISTÓRIA .

A M E R I C A N WAY O F L I F E . O I L U S T R A D O R N O R M A N R O C K W E L L U S O U A S UA A RT E N ÃO A P E N A S PA R A R E P R O D U Z I R , M A S P R I N C I PA L M E N T E C R I A R A F O R M A COMO OS AMERICANOS SE VIAM NO COMEÇO DO SÉCULO XX. MUITO DO SEU TRABALHO FOI EM PUBLICIDADE.

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J O S E P H C A R O F F : O H O M E M D E T O D O S O S C A R TA Z E S . P O R D É C A D A S J O S E P H C R I O U C A R TA Z E S PA R A H O L LY W O O D E L O G O S PA R A G R A N D E S E M P R E S A S . A G R A N D I O S I DA D E DA S UA O B R A C O N T R A S TA C O M O D E S C O N H E C I M E N T O D O S E U N O M E .


C I G A R R O S S I L K C U T. E R A P U B L I C I D A D E ? ERA ARTE? ERA AMBAS AS COISAS. ESSA C A M PA N H A I N G L E S A D O S A N O S 9 0 P R I M AVA P O R C A R TA Z E S A R T I S T I C A M E N T E IRREPREENSÍVEIS.

KELOPTIC. COMO PA R Ó D I A O U CO M O REFERÊNCIA, OS GRANDE A R T I S TA S E S TÃO S E M P R E A DAR AS CARAS NA PUBLICIDADE. QUAL TERÁ S I D O O C A C H E T D O VA N GOGH?

P O S T E R S L I T O G R Á F I C O S , J U L E S C H É R E T, 1 8 8 9 , F R A N Ç A . O S D O N O S DA N O I T E PA R I S I N A T R O C AVA M B E B I DA P O R A R T E .

Entre as muitas frases definitivas que Andy Warhol cunhou está a que diz: “Quando pensa sobre isso, as lojas de departamento são como museus”. ‘Touché’. Keith Haring emprestou os seus talentos para cartazes da vodka Absolut e para os cigarros Lucky Strike. Assim como os pintores Edward Hooper e René Magritte também emprestaram. O genial ilustrador Norman Rockwell foi mais longe: vivia basicamente de vender os seus traços para marcas comerciais (e foi assim que ajudou a dar forma ao Pai Natal, num clássico anúncio para a Coca-Cola). Porém, ser um artista genial não garante uma carreira publicitária de sucesso. Salman Rushdie, por exemplo, tentou ser ‘copywriter’ mas chumbou no teste. Scott Fitzgerald foi um redator publicitário mediano.

O grande poeta brasileiro Paulo Leminsky criou anúncios menores. O nosso Alexandre O’Neil criou ‘slogans’ memoráveis (“Há mar e mar, há ir e voltar”), mas nada comparado com a sua obra literária. Artistas e publicitários até podem sentar à mesma mesa, mas não são as mesmas pessoas necessariamente. O que me faz recordar uma lenda (talvez verdadeira) sobre um evento que teria acontecido ao nosso Orígenes Lessa lá do começo do texto. Impressionado pelo sucesso de uma campanha para a Fechadura Brasil, o responsável pelo marketing do sabonete Gessy teria procurado a agência onde trabalha Lessa e feito um pedido: - Sabe aquele ‘slogan’ que diz “Fechadura Brasil. Fecha e Dura”? Quero algo tão sonoro quanto para o Gessy.

Orígenes achou que tinha percebido a tarefa e pôs-se a trabalhar. Na semana seguinte apresentou algumas opções que foram chumbadas no ato. Humildemente, continuou a trabalhar em alternativas durante meses, sem nunca encontrar algo que satisfizesse plenamente o cliente. Até que um dia, durante uma reunião exclamou: - Já sei o que poderia ser o nosso “Fechadura Brasil. Fecha e dura”! Todos se entreolharam e ficaram em silêncio à espera do momento de pura arte e genialidade que iria acontecer. - “Sabonete Gessy. Sabo e nete!”, disse Orígenes antes de curvar-se a dar uma gostosa gargalhada. A conta foi tirada da agência. Os bons artistas enquanto publicitários são assim. Perdem o cliente, mas não perdem a piada. l

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CIRCO

FOTOS: MARGARIDA REBELO

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Momo. O museu na Lousã onde o circo deixou de ser itinerante para afirmar a sua história

FL ÁVIA BRITO

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Nos arredores da vila da Lousã, na antiga escola primária da Foz do Arouce, nasceu, em 2019, o Momo. Este museu do circo é o concretizar do sonho de um palhaço alemão, que se apaixonou por aquela região, e que, ao lado de uma atriz portuguesa, criou um espaço de vida e memória que procura dignificar as artes circenses – um património, para Detlef Schaff e Eva Cabral, muitas vezes, marginalizado. Palhaços, ilusionistas, malabaristas… aqui só não se recordam “os homens cinzentos.” Na antiga escola, encontram-se agora peças que chegaram um pouco de todo o mundo. Os objetos que ajudam a contar a história desta arte já estavam a ser colecionados por Detlef Schaff,

fundador da Companhia Marimbondo, há mais de 30 anos, e muitos foram doados. Chapéus, instrumentos musicais, bolas, rodas de equilíbrio, roupas e documentos diversos ocupam as várias salas de exposição deste museu, que pretende ser um local de memória, mas também um “um projeto vivo” promotor da disseminação das artes. “Momo foi a Deusa da Sátira na Grécia”, conta Detlef, sobre um dos motivos que levou à escolha daquele nome. “Da sátira e da poesia, não é verdade? Tinha uma particularidade, porque dizia tudo o que lhe passava pela cabeça”, interrompe Eva Cabral. “Os romanos pegaram nesta Momo, que era uma mulher, misturaram com outro deus que já havia – parece assim uma história transgénero da

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


atualidade – e transformaram esta mulher num homem”, acrescenta, referindo-se à figura da mitológica que personifica a sátira e o sarcasmo e que, na atualidade, é coroada como rei do Carnaval em diversos locais, como o Brasil e Nova Orleães. Também o livro Momo, do escritor alemão Michael Ende, foi uma referência. “É a história de uma miúda, que é órfã, e que vive nas ruínas de um anfiteatro, em Roma. Ela tem duas qualidades muito grandes: sabe ouvir muito bem as pessoas, e tem muita paciência, e imagina muitas histórias e brincadeiras”, desvenda-nos o compatriota, sobre A História Interminável (título na versão portuguesa). A alegoria literária, de 1973 – “mais atual agora”, comenta a atriz – aborda o poder o ilimitável da imaginação, mas também a falta de tempo na sociedade moderna. “Um dia, ela descobre que as pessoas já não vêm, já ninguém quer falar, já ninguém quer desabafar. E descobre que, na cidade, uns homens muito esquisitos que são ‘os homens cinzentos’ tentam

convencer as pessoas a pôr o tempo livre numa caixa económica do tempo”, para trocá-lo por dinheiro, revela o companheiro. Mas há ainda uma terceira razão para a eleição do nome, que se prende com uma expressão portuguesa que caiu em desuso. “Momices” que significa “fazer disparates, palhaçadas, trapalhadas”, esclarece Eva, lisboeta formada em artes performativas. Discreto por fora, colorido por dentro. Entramos no Momo, acompanhados pelos anfitriões da companhia Marimbondo, que nos contam que “há registos de circo desde o Antigo Egito, desde a Mesopotâmia”. “Foi andando historicamente – os saltimbancos na Idade Média, os fulanos das cordas bambas no século XVII – até que há cerca de 252 anos, um senhor inglês, que era cavaleiro militar e se chamava Philip Astley, teve a sorte de acabarem as guerras”, relata Eva, sobre aquele que é considerado o pai do circo como o conhecemos hoje. “Ele estava um bocadinho sem ter o que fazer e percebeu que as pessoas gostavam de ver números

com gente a cavalo. Então montou o primeiro hipódromo.” A pista, hoje facilmente identificável, tem as dimensões estabelecidas ainda nessa altura: “São 13 metros de diâmetro, e o circo, ainda hoje, respeita isso porque tem a ver com o volteio dos cavalos. Aliás, no início do século XX, dizíamos em Portugal “vamos ver os cavalinhos”, que era ir ao circo”, refere. Mais tarde, para quebrar a seriedade das apresentações, o ex-militar inglês introduziu acrobacias e palhaços, num espetáculo que acontecia originalmente em luxuosos teatros. “A tenda é uma invenção americana”, nota Detlef, relembrando que, na altura, em que não havia luz elétrica, os teatros “incendiavam a toda a hora.” “O circo é um mundo” O primeiro e único Museu do Circo em Portugal faz homenagem ao país que o acolhe, com fatos da família Cardinali, Chen ou dos Batatoon, numa sala dedicada ao circo português. “Portugal, apesar de ser um país muito pequenininho, tem neste momento, de circos tradicionais – portanto, aqueles de tenda ou das famílias – cerca de 30

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CIRCO

D E T L E F S C H A F F E E VA C A B R A L , D A C O M PA N H I A M A R I M B O N D O

a funcionar, o que é uma monteira de circos para o país que a gente tem”, comenta Eva. “Isto era antes de Covid, agora não sei. Muitos deles vão seguramente à falência”, ressalva. Do circo tradicional ao contemporâneo, lembrando companhias e artistas que se destacaram em países dos cinco continentes, os 450 m2 da antiga escola primária revelaram-se pequenos para tantos séculos de história. “O circo é um mundo, e é um mundo muito grande. Precisaríamos, para o expor, decentemente acho que trinta museus iguais a este ou assim. Portanto aqui, no fundo, o que queremos dar é uma pequena ideia do que é que se passa e das contextualizações, porque acho que a maior parte das pessoas não sabe. De todo”, diz Eva, na cafetaria do museu, dedicada a Grock, o palhaço suíço que, “por volta de 1920, foi o artista mais bem pago da altura” e que “recebia em ouro a meio do espetáculo.” Mas escolher o que incluir não foi o único desafio. A ideia de criar um Museu do Circo, naquele concelho, já fervilhava há mais de uma década na cabeça de Detlef. “Já propus isto há 15 anos para a Lousã.

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A recetividade foi grande, como podem imaginar, senão não teria demorado mais de 15 anos para a realização”, ironiza. O palhaço, músico, ator e malabarista, mudou-se para Portugal há quarenta anos, onde fundou “o grupo itinerante de animação e teatro infantil mais antigo” do país. Chegou a ser convidado para abrir o museu em Évora, no espaço de uma associação cultural, mas a sua vontade sempre foi que o equipamento se erguesse na Lousã, no distrito de Coimbra. O alemão conta que, quando chegou ao país, tinha três contactos. “Queria já, na altura, fazer uma horta com ervas medicinais e aromáticas. Só que Melides, que era giro, à beira mar, me parecia muito seco e, depois, no Zêzere, encontrei um espaço, mas as partilhas eram ainda mais complicadas que hoje, então nunca consegui nada”, relembra. “Depois tinha um amigo aqui, que é da minha terra. Fiquei em casa dele um mês e, quando encontrei a minha, fiquei por cá. E olha, é belo!” Detlef ficou até hoje e partilha, há vários anos, com Eva, as tarefas que importa assegurar para garantir a continuidade da Companhia Marimbondo, instalada há quase três décadas na aldeia de Vale

de Sancho. “Para mim e para a companhia do circo foi genial, porque estamos no centro. Em duas horas estou em Lisboa, em duas horas estou no Porto. A única coisa de que estou longe é do Algarve. Mas lá não se passa nada”, brinca. O Momo foi inaugurado, em fevereiro de 2019, ao abrigo de um protocolo da Câmara Municipal da Lousã, que vincula a companhia de circo à organização dos festivais de Malabaristas e de Marionetas que o concelho tem acolhido nos últimos anos. “Lutámos também nestes anos contra os homens cinzentos que andam por aí a envenenar a nossa vida”, dizia Detlef, à data, aos meios de comunicação social. Com uma programação cultural relacionada com as artes circenses e não só, o espaço recebeu, no primeiro ano, cerca de 2 000 pessoas, 600 das quais alunos das escolas da Lousã. O museu conta com dois palcos, um interior e outro exterior, uma pequena biblioteca com livros para consulta, um ecrã de cinema ao ar livre e, claro, uma tenda na rua, para que ninguém se esqueça que o circo chegou à Lousã. l Nota: Este texto foi realizado para o site Gerador (https://gerador.eu/) e publicado a 6 de Agosto de 2021.


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E S P E C I A L C U LT U R A

PERFIL

paula rego

História de uma pintora extravagante

DIOGO BELFORD

Pode-se conhecer a história de quem nos mostrou tantas histórias? E será isso relevante ou o importante é que são as nossas histórias? Se as obras são sempre influenciadas pela vida dos autores, no caso de Paula Rego o seu trabalho é povoado pelas suas memórias, reais ou fantasiadas, pelas estórias da sua família, pelos livros ou contos que leu. E, sobretudo, por uma visão quase infantil na clareza e na brutalidade – ao mesmo tempo honesta e fantasista. Podemos falar, e sobretudo ler, sobre a pop art que a influenciou nos anos sessenta, no feminismo nas décadas seguintes, numa pintura do poder (e da opressão) no quotidiano ou,

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ainda, tentar – com mais força que destreza – inserir o seu trabalho nos grandes movimentos da história da arte, referindo o ressurgimento da pintura e as alegorias do figurativo. Mas Paula Rego sempre se mostrou desarmadamente anti-intelectual. O seu trabalho pode ter sido tudo isso e, ao mesmo tempo, um prazer pessoal, um escape e exorcismo que colocava em pastel o que não era suposto dizer. O seu trabalho (ou as “histórias” que contava através das séries) pode gerar resistência ao primeiro olhar - pela crueza desenhada ou a ironia desavergonhada. Por vezes foi até polémica, apesar de quase sempre por culpa e vontade d’outros. Mas,

como afirmou Bruno Bettelheim em relação aos contos de fadas: “A criança compreende intuitivamente que estas histórias, apesar de irreais, não são inverdades”. Esta superioridade infantil, de inventar e apreender uma história para compreender a realidade, pode não estar longe dos quadros de Paula Rego. Como explicou a própria artista “[Com as histórias] pode-se castigar quem não se gosta e elogiar quem se gosta. E depois inventa-se uma história para explicar tudo”. Talvez isto não seja assim tão diferente da motivação dos quadros de Bosch ou de El Greco. A universalidade de Paula Rego é que mesmo nas pinturas que


possam ter sido realizadas como uma vingança pessoal contra uma qualquer injustiça (e há tantas), podemos identificar a nossa história, os nossos medos, o nosso espanto. A de cada um, em cada caso, a do país e das mulheres, a dos filhos como a dos pais. E são histórias tão extravagantes onde, como escreveu Elena Crippa, curadora das colecções de arte moderna e contemporânea britânica da Tate Britain, “não existe apenas dor ou raiva, mas também uma atitude maliciosa e subversiva que se delicia com o humor negro e as alusões atrevidas.” As alusões, aliás, de Paula Rego

vão da publicidade – no período da técnica de ‘assemblage’ – às ilustrações e personagens dos contos infantis, passando pela iconografia religiosa (como na Ciclo da Vida da Virgem Maria, realizado por pedido de Jorge Sampaio e oferecido pela autora para a capela do Palácio de Belém). E com estas referências, a pintora entra, provoca, transforma e continua a nossa história de arte. O título deste artigo – História de uma pintora extravagante – é um desavergonhado roubo do que encima um livro, do Prof. Fernando Marías, sobre El Greco. É, assim e mudando o género, uma homenagem à

pintora portuguesa, que também viveu longe de onde nasceu, também pintou o que muitos não perceberam e também usou o dramatismo das cores para (nos) expressar. A notícia da morte de Paula Rego chegou-nos no dia de fecho desta revista PRÉMIO. É essa a razão pela qual Rui Brito, da sua Galeria 111, ou Salvato Teles de Menezes, a propósito da Casa das Histórias – Paula Rego, falam da pintora no presente, em entrevistas que ocorreram antes da sua morte. A sua última exposição em Portugal, no ano passado e exactamente na Galeria 111, tinha o título “Saudades”. l

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PERFIL

António Avelar de Pinho

Um percurso “Bem Bom” a marcar gerações

António Avelar de Pinho marcou e encantou gerações com a sua música, letras, livros e produções musicais, mas nem por isso assumiu um estatuto de estrela ou vedeta. Poucos sabem, mas há o seu “dedo” em obras das Doce, Rui Veloso, Lara Li, Gabriela Schaaf, José Cid, Heróis do Mar, Dina, Rão Kyao, Táxi, Rita Guerra ou Tonicha, entre outros, em rábulas de Herman José, no famoso Fungagá da Bicharada, de José Barata Moura, ou no Avô Cantigas. Nasceu no Entroncamento, a 27 de Maio de 1947, onde fez o ensino primário, até ter sido enviado para o Colégio Militar, em Lisboa, de que não gostou.

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RICARDO DAVID LOPES

Também passou pelo Instituto Superior Técnico, onde não terminou engenharia, mas nem por isso deixou de ‘projectar’ e construir obras com bases sólidas no imaginário colectivo português. O seu percurso artístico começa oficialmente em 1968, quando, com João Carvalho, José Parracho, Luís Linhares, Júlio Patrocínio e Antunes da Silva, funda a banda Filarmónica

Fraude, que lançou um único LP, Epopeia, no ano seguinte, e fica para a história como o primeiro disco de ‘rock’ luso com letras que Avelar de Pinho escreveu – anos antes do “Chico Fininho”, de Rui Veloso, cujo primeiro álbum produziu – “Ar de Rock”. Com Nuno Rodrigues, funda, em 1973, a Banda do Casaco, de que também foi vocalista ocasional, a par de compositor e produtor, e onde permanece até ao início dos anos 80, quando, já a trabalhar na Valentim de Carvalho, de novo em equipa com Nuno Rodrigues, no Departamento Nacional de Artistas e Repertório, escreve ou produz para António Mourão, Concha, Gabriela Schaaf, José Campos e Sousa, Lara


Li, entre outros. Produziu ainda “Amor Perfeito”, de Luz Sá da Bandeira. Antes disso, ainda na Banda do Casaco, em 1977, e sempre com o “parceiro perfeito”, Nuno Rodrigues, escreve e coproduz o disco do programa infantil “Fungagá da Bicharada”, emitido pela RTP, cujos apresentadores eram Júlio Isidro e José Barata-Moura. O homem dos festivais Mas António Manuel Flor Avelar de Pinho fica também para a história da música portuguesa pela sua intervenção em obras do Festival da Canção. Com Nuno Rodrigues, escreveu canções como “Eu só quero” (Gabriela Schaaf, segunda

ANTÓNIO AVEL AR DE PINHO COM R ÃO KYAO

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PERFIL

ANTÓNIO AVEL AR DE PINHO COM ELTON JOHN

A N T Ó N I O AV E L A R D E P I N H O C O M O “AV Ô C A N T I G A S ”

classificada em 1979), e “Alibabá, Um homem das Arábias” (Doce, quarto lugar em 1981). Em 1982, a canção Bem Bom, das Doce, de que foi um dos autores, vence o Festival em “casa” e fica em 13.º na Eurovisão. Dura pouco na Valentim de Carvalho: ao fim de um ano, sai e lança-se, como ‘free lancer’, na produção de “Ar de Rock”, de Rui Veloso e Carlos Tê, incluindo o famoso “Chico Fininho”. Mas é nessa altura que é convidado, com Nuno Rodrigues, para lanchar em casa de Amália, que os convida para lhe escreverem música – havia ficado bem impressionada com a Banda do Casaco –, o que acabou por não acontecer, por razões de saúde da fadista. Acaba por aceitar um convite para trabalhar na Polygram (hoje, Universal), onde fica 10 anos e

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marca, como produtor e autor, as carreiras de artistas como Carlos Alberto Vidal (com quem Pinho viria a criar o Avô Cantigas, em 1982, para o “Passeio dos Alegres”, da RTP, apresentado por Júlio Isidro), Doce, Da Vinci, Dina, Dino Meira, Herman José, José Cid, Rão Kyao, Rita Guerra, Tonicha, entre outros Foi também empresário de Carlos Paredes e produziu para Rão Kyao, durante anos, e ainda na década de 80 escreve para programas de TV, incluindo o famoso e hilariante “O Tal Canal”, de Herman José. Acaba por fundar, em 1990, a Companhia das Ideias, que lança programas de televisão, como o Top Mais (que revelou Catarina Furtado), a série policial “Claxon” e o programa infanto-juvenil “Vitaminas”. Mais tarde, com o músico Pedro de Freitas Branco, foi o autor da série

juvenil “Os Super 4”, com perto de duas dezenas de livros publicados, o mais recente, escrito apenas por Pinho. Em 2020, lança “Formiga Duma Figa” – que era para se ter chamado AQUI ENTRE NÓS: “NetosFilhosPaisAvós” –, um livro de 51 textos que são letras de canções para crianças, com ilustrações de João Vaz de Carvalho. Ao Público diz, então, ter pensado neste livro para “quatro gerações” e assume ter feito, por isso mesmo, um esforço para usar o novo Acordo Ortográfico. Foi, explicou, de alguma forma uma cedência, para não excluir ninguém: “Se não o fizesse, os mais novos poderiam tropeçar nalgumas palavras e até cair. Não ficaria de bem comigo se alguém caísse por minha causa.” Que se saiba, ninguém caiu! l


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PERFIL

Cesária Évora

A Diva nem alegre nem triste que levou a “morna” ao mundo

Representava de alguma forma “a noção de ser cabo-verdiano”, nas palavras de José Carlos Fonseca, presidente de Cabo Verde à data da morte de Cesária Évora, no dia 17 de Dezembro de 2011, aos 70 anos de idade. Cize, como também era conhecida, cedo foi aclamada como a Rainha da Morna no Mindelo, onde nasceu e deu os primeiros passos como intérprete. Cantou com o irmão na praça principal da cidade onde cresceu, e foi ganhando notoriedade. Aos 16 anos, cantou em bares e eventos, onde encantava as audiências, maiores ou menores, na capital

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RICARDO DAVID LOPES

de São Vicente, a ilha onde passeava e cantava descalça, uma tradição que manteve e que viria a dar nome a um álbum, em 1988. Pela vida da que viria a ser chamada precisamente como Diva dos Pés Descalços, passaram então nomes como o do compositor cabo-verdiano B. Leza, ou do igualmente compositor Gregório Gonçalves, e aos 20 anos, actuando para a “Congelo” (companhia de pescas de origem portuguesa), começou a ser remunerada pela sua arte.

A independência do arquipélago, em 1975, leva-a a abandonar os palcos e, mais tarde, o seu país, em 1985, após ter sido escolhida pela Organização das Mulheres de Cabo Verde como uma de quatro cantoras a figurar no álbum “Mudjer”. Bana, cantor e empresário cabo-verdiano radicado em Portugal chamou-a a este país, onde Cesária voltou aos palcos e conheceu José da Silva, outro cabo-verdiano radicado em França e que seria o seu agente ao longo de toda a carreira. Levou-a a actuar em Paris, onde gravou “La Diva aux pieds nus”. Seguiu-se “Miss Perfumado”, em 1992, que consagra o início,


aos 47 anos de idade, de uma carreira internacional ímpar e reconhecida, ao longo da qual gravaria 24 álbuns e faria dezenas de duetos com músicos de Angola ao Brasil, passando por Cabo Verde, Cuba, Espanha, EUA, França, Grécia, Itália, Mali, México, Polónia, Senegal e Sérvia. Em 2004, a cabo-verdiana mais conhecida do mundo arrecada o “Grammy de Melhor Álbum World Music Contemporânea” com “Voz d’Amor” e mais tarde, em 2007, a ministra da Cultura francesa Christine Albanel, entrega à cantora as insígnias da Legião de Honra. Em Cabo Verde, recebeu o prémio

carreira na gala dos “Cabo Verde Music Awards”, em 2011, mas a “embaixadora da morna”, como também fica para a história, já havia sido agraciada com as mais altas condecorações. Em Portugal, em 1996, recebe a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique; em França, por duas vezes recebeu o galardão “Les Victoires de la Musique” para Melhor Álbum de “World Music” (em 2000, pelo álbum “Café Atlântico” e, em 2004, pelo álbum “Voz d’Amor” – o mesmo que lhe deu o Grammy. Em 2010, no Rio de Janeiro, Lula da Silva condecorou-a com a medalha de Ordem do Mérito Cultural 2010.

A título póstumo, foi homenageada com uma estátua no Aeroporto de São Vicente, que a partir de Março de 2012, passa a designar-se Aeroporto Internacional Cesária Évora. Morreu três meses após anunciar o fim da carreira, na sua terra natal, na sequência de complicações respiratórias e cardíacas graves. Terá dito um dia: “Posso não ser muito alegre, mas triste também não sou. A alegria e a tristeza são vizinhas. Não sou de vestir máscaras, nem nada disso, mas gosto de ver as pessoas a dançar”. Assim continuaremos a fazer, Cize. l

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PERFIL

eunice muñoz

“A vida é uma coisa maravilhosa”

Nascida no seio de uma família de artistas, o palco era o destino inevitável de Eunice Muñoz. O que ninguém podia prever é que a menina de 5 anos que deu os primeiros passos em cima das tábuas do teatro desmontável dos pais, a Trupe Carmo, viria a ser uma das grandes actrizes portuguesas de sempre e, certamente, a maior do século XX. Em 1941, com apenas 13 anos, estreou-se no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, numa produção da Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro, que, reconhecendo ali um talento prodigioso, rapidamente arranjou forma de a integrar no grupo.

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A. RIBEIRO DOS SANTOS

Quando, aos 15, interpretou a jovem Maria de “Frei Luís de Sousa”, de Garrett, a sua reputação ficou selada, tanto para o público como para a crítica. Desses tempos iniciais, formativos, Eunice Muñoz disse a Vítor Pavão dos Santos – numa longa entrevista publicada pela editora Bicho do Mato, no livro “Acima de Tudo Amar a Vida” – que Amélia Rey Colaço e mestre Ribeirinho foram as figuras que mais a marcaram, pelo que tinham para lhe ensinar. Ainda assim, e mesmo já a trabalhar como

profissional, foi para a Escola de Teatro do Conservatório Nacional, de onde saiu com a classificação final de 18 valores. O cinema chega a seguir. Em 1946, aparece pela primeira vez no grande écrã, no filme “Camões”, de Leitão de Barros. Ao longo da carreira fará mais de uma dezena de incursões na sétima arte, mas o filme de estreia foi desde logo um marco, valendo-lhe o prémio de melhor actriz cinematográfica do ano. Os aplausos chegavam abundantemente, de todos os lados, mas a vida profissional não foi isenta de percalços. Na década de 50, decidida a experimentar outra via, Eunice abandonou o teatro,


estudou secretariado, trabalhou numa fábrica. Quatro anos de que diz nunca se ter arrependido, já que lhe permitiram conhecer “outra gente”, que não, apenas, os colegas de representação. A conselho do marido, regressa para um triunfo absoluto com “Joana D’Arc”, em 1955, no Teatro Avenida. É um momento de viragem. “Só então comecei a levar a profissão a sério”, disse, na mesma entrevista. E chegou a televisão. Primeiro o teatro televisivo e muitos anos depois as novelas, que ajudaram a expandir ainda mais a popularidade que Eunice já tinha granjeado junto do público. Na extensa carreira,

fez de tudo: da alta comédia ao drama, passando pela tragédia e pelo boulevard, género que adorava e dizia ser “o mais difícil de todos”. Nunca escolheu nenhuma peça – os papéis iam ter com ela e Eunice sabia fazê-los brilhar. Apenas uma manifestou interesse em fazer: a “Sarah Bernhardt”, que tinha visto em Paris e pela qual se apaixonou. Casou três vezes, teve seis filhos. No final da vida, cumulada de prémios e de distinções, deixou o País em suspenso quando sofreu uma queda no Teatro D. Maria II, durante os ensaios de uma peça de Tennessee Williams. Partiu os pulsos, magoou a cervical. No ano seguinte, foi-lhe diagnosticado um tumor na tiróide,

que lhe roubou parcialmente um dos maiores atributos: a voz. Mesmo assim, continuou a trabalhar e num momento enternecedor protagonizou, ao lado da neta e também actriz Lídia Muñoz, uma peça sem palavras, “A Margem do Tempo”. “Se tiver de partir, partirei”, disse, quase no fim da entrevista a Vítor Pavão dos Santos. “Tenho lá em cima muitos colegas, posso fazer uma companhia fantástica, e pronto! E parto a pensar e a sentir que a vida é uma coisa maravilhosa”. Eunice deixou-nos no dia 15 de Abril deste ano. Comovido, o País assinalou um dia de luto nacional em memória da diva. l

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germano de almeida

O Prémio Camões que nunca quis ser escritor

CATARINA DA PONTE

Germano de Almeida nasceu a 31 de Julho de 1945, em Sal-Rei, Ilha da Boavista, em Cabo Verde. Advogado de profissão, ex-procurador Geral da República e ex-deputado do seu país, tornou-se escritor – ou antes “contador de estóreas” (expressão que prefere) – já perto dos 40 anos, sendo actualmente um dos autores mais consagrados da literatura lusófona e dos mais lidos e traduzidos de Cabo Verde. Em 2018, foi distinguido com o Prémio Camões, tornando-se o segundo escritor cabo-verdiano a vencer o mais importante galardão de literatura de língua portuguesa, depois do poeta Arménio Vieira, em 2009. Em Outubro do ano passado, lançou o seu último romance “A Confissão e a Culpa” (no 14º Festival Literário Escritaria, de Penafiel), encerrando a Trilogia do Mindelo, um conjunto de três livros, dos quais fazem também parte os títulos, “O Último Mugido” (2020) e “O Fiel Defunto” (2018). Publicadas em Portugal sob a chancela da editorial Caminho, as obras centramse no assassinato do escritor ficcional,

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Miguel Lopes Macieira, retratando a essência do povo do Mindelo, cidade que se localiza na ilha de São Vicente, onde o autor vive há mais de 45 anos. É, aliás, no fervilhar da vida cultural desta cidade que adoptou e que o adoptou, que vai buscar muita da inspiração espelhada na sua extensa obra. Apesar de uma certa displicência com que sempre falou de si e da sua obra, rejeitando o título de escritor e reclamando o de “contador de estóreas”, num artigo do Jornal de Letras, publicado em Junho de 2018, Ana Cordeiro, especialista da sua obra e de literatura cabo-verdiana, alerta para o facto de: “os seus romances, todos, sem excepção, poderem ser objecto de diversas e complexas leituras. Seja do ponto de vista sociológico, jurídico, literário, linguístico, antropológico ou qualquer outro, há sempre uma nova camada a descobrir, um novo ângulo a ser explorado”. Veste-se quase sempre de branco, tem 1,95 metros de altura, um sorriso permanente nos lábios e um sentido

de humor e ironia aguçados. Viveu até aos 18 anos na ilha da Boa Vista, a terceira maior de Cabo Verde, de onde saiu rumo à capital portuguesa para se licenciar em Direito, na Universidade Clássica de Lisboa, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Estava em Lisboa, a frequentar o terceiro ano da licenciatura, quando se deu o 25 de Abril de 1974. Regressou, dois anos depois, já com o canudo na mão e com a independência de Cabo Verde (proclamada a 5 de Julho de 1975). Em 1979, inicia a sua profissão de advogado e começa a trabalhar no Gabinete de Estudos do Ministério da Justiça, na Praia (Ilha de Santiago). Pouco tempo depois assume o lugar de Procurador-Regional também nessa cidade, altura em que nessas mesmas funções é transferido para Mindelo. Deu os primeiros passos como escritor no início da década de 1980. Em 1981, com 36 anos, edita o seu primeiro livro, “O Dia das calças Roladas”, onde narra a contestação popular contra a reforma agrária no final do mês de Agosto desse mesmo ano. As suas


primeiras histórias são escritas sob o pseudónimo de Romualdo Cruz e publicadas na revista Ponto & Vírgula (existente entre 1983 e 1987), a qual co-fundou com o artista plástico Leão Lopes e com o psicólogo Rui Figueiredo. Aquelas histórias foram, posteriormente, publicadas em 1994 com o título “A Ilha Fantástica”, que, juntamente com “A Família Trago” (1998), recriam os anos de infância e o ambiente social e familiar que o autor viveu na ilha da Boa Vista. Ainda no plano cultural foi co-proprietário da Ilhéu editora (1989) e do jornal mensal Agaviva (entre 1991 e 1992) criado após a vitória eleitoral do MpD (Movimento para a Democracia). Anos depois, aos 44 anos, publica o seu primeiro romance, “O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo” (1989), considerado um clássico da

literatura cabo-verdiana e lusófona. Escrito em 15 dias, a obra narra a história de um dos mais ricos comerciantes de Cabo Verde que consegue enriquecer a vender milhares de guarda-chuva, numa terra onde a seca é permanente. Elogiado pela crítica, o livro foi adaptado ao cinema pelo realizador Francisco Manso em 1996 e contou com um elenco de brasileiros, portugueses e cabo-verdianos e, com a participação especial da “rainha da morna”, Cesária Évora. Conquistou o 1.º Prémio do Festival de Cinema Latino-Americano de Gramado, no Brasil, em 1997, e os prémios para o Melhor Filme e Melhor Actor no 8º Festival Internacional Cinematográfico de Assunción, no Paraguai. Sucederam-se-lhe os títulos “O Meu Poeta”, 1990, “Estórias de

Dentro de Casa”, 1996, “A Morte do Meu Poeta”, 1998, “As Memórias de Um Espírito”, 2001 e “O Mar na Lajinha”, 2004, que formam o que os especialistas consideram o ciclo mindelense da obra do autor. Da sua extensa obra, distinguem-se, ainda, os livros “A morte do meu poeta” (1998); “A Família Trago” (1998); “Estórias contadas” (1998); “Estórias de dentro de Casa”; “Dona Pura e os Camaradas de Abril” (1999); “As memórias de um espírito” (2001); “Cabo Verde – Viagem pela história das ilhas” (2003); “O mar na Lajinha” (2004); “Eva” (2006); “A morte do ouvidor” (2010); “De Monte Cara vê-se o mundo”, entre outras. As suas obras encontram-se publicadas no Brasil, França, Espanha, Itália, Alemanha, Suécia, Holanda, Noruega e Dinamarca, Cuba, Estados Unidos, Bulgária e Suíça. Recebeu duas condecorações de Portugal, o grau de Comendador da Ordem do Mérito (1997), e o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (2019). l

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PERFIL

Gonçalo M. Tavares

O escritor-cartógrafo

CATARINA DA PONTE

Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970, em Luanda. Publicou a sua primeira obra, “O Livro da dança”, em 2001, na Assírio & Alvim, com 31 anos. É considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea ocidental. Em apenas duas décadas, publicou mais de 40 títulos em diferentes géneros literários – poesia, epopeia, romance, teatro, conto, ensaio, tabelas literárias, fragmento, aforismo –, está presente em cerca de 50 países e é traduzido em quase 40 línguas. O seu romance “Jerusalém”, publicado em 2005, mas escrito em 1997, faz parte do guia cronológico dos mais importantes romances de todos os tempos,”1001 livros para ler antes de morrer”. Foi, também, este o livro que lhe valeu a atribuição do Prémio José Saramago, em 2005, sobre o qual o nobel da literatura portuguesa disse “’Jerusalém’ é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito

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de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”. Saramago chegou mesmo a apontá-lo como o próximo nobel da literatura portuguesa. Não tem recordações de Luanda porque chegou a Portugal com dois anos. A sua infância e juventude, passadas em Aveiro, foram marcadas por duas grandes paixões que a escrita veio deixar no passado. O futebol e a matemática. Chegou a ser avançado do Atlético Clube de Portugal e, mais tarde, do Beira Mar. Aos 18 anos achou que nenhuma destas áreas o iria fazer tão feliz como a Literatura. Passava largas horas na biblioteca do pai, que lhe mostrou as primeiras obras clássicas da literatura universal, a ler “compulsivamente”, num ritmo de 4 a 5 horas diárias. Percebeu que a leitura é um bom início para a reflexão, uma espécie de prefácio dos pensamentos e que

lhe dava um enorme prazer. Quando decidiu que o seu caminho passaria pela escrita, tomou a decisão de não publicar nenhum livro antes dos 30 anos. Escrever e publicar são, para o autor, verbos e mundos muito distintos. Nesta equação, a escrita leva 13 anos de avanço à publicação do seu primeiro livro. Gonçalo M. Tavares é o escritor dos mundos imaginários, da desconstrução do real e da proposta de mundos alternativos. Não se identifica com nenhum género literário porque entende que estas categorizações são inimigas da criatividade. “Escrevo textos”, afirma em várias entrevistas. Aliás, costuma dar nomes a géneros literários e organizá-los em séries, numa espécie de cartografia autoral. Os seus títulos encontram-se organizados em cerca de 14 séries: “Investigações”, “O Reino”, “O Bairro”, “Teatro”, “Bloom Books”, “Poesia”, “Arquivos”,


“Estudos Clássicos”, “Canções”, “Enciclopédia”, “Cidades”, “Epopeia”, “Short Movies”, “Atlas”. Gosta também de juntar a imagem às letras, criando obras híbridas como o “Atlas do Corpo e da Imaginação”. Além de escritor, M. Tavares tem uma faceta menos conhecida que é a de professor universitário no mestrado de Reabilitação Psicomotora na Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, direccionada a futuros professores com alunos com necessidades específicas. Talvez por lidar com esta realidade, recorde como um dos momentos mais marcantes da sua vida, a subida ao palco D. Maria II do grupo Crinavel (colectivo artístico com jovens com deficiência intelectual), em 2016, para interpretar o seu romance homónimo “Uma menina está

perdida no seu século à procura do pai”, juntamente com actores da Companhia. Além desta, a sua obra tem sido levada a palco inúmeras vezes e em diferentes países. Já se transformou em performances, óperas, peças de teatro e até em canções. É “caleidoscópica” e “fragmentária”, na definição de Alberto Manguel (romancista e editor argentino). Entre vários galardões nacionais e internacionais, a sua obra foi distinguida com o Prémio Ler Millennium BCP 2004, o Prémio Literário José Saramago 2005, o Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França), e foi por várias vezes

finalista do Prix Médicis e Prix Femina. “Uma Viagem à Índia” recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. No seu último livro, “Diário da Peste” (2021), Gonçalo M. Tavares reúne uma série de textos que publicou diariamente no jornal Expresso (online) durante o período mais duro da pandemia, entre Março e Junho de 2020. Foi um livro revolucionário para o autor, porque contrariou o seu ‘modus operandi’ de só publicar vários anos depois de escrever os seus livros. Nas Conversas Confinadas – rubrica publicada diariamente no Facebook e Instagram da Junta de Freguesia de Alvalade –, em 2020, confessou que este foi um dos livros mais importantes da sua vida. l

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PERFIL

herman josé

O Senhor Feliz das Inesquecíveis Personagens

Nasceu a 19 de Março de 1954, em Lisboa. Sem ele, o humor em Portugal não seria o que é hoje. Pratica, desde os anos 80, um humor culto, inovador e vernacular, ocupando um lugar ímpar no universo artístico nacional. Imortalizou várias personagens que continuam a fazer parte do imaginário colectivo há quase meio século. O Senhor Feliz (1975), Tony Silva (1982), José Estebes (1983), Serafim Saudade (1985), Diácono Remédios (1997), Super Tia (1997/98), Nelo (2000), Melga (1997) e a recente influencer “Tia Lecas” (2021), são apenas alguns dos “bonecos” que têm resistido ao tempo e ao esquecimento. Nasceram ao “ritmo” da sociedade portuguesa em programas de humor, concursos, ‘talk-shows’ e espectáculos ao vivo. Ao longo de 48 anos de carreira, o “pai” do humor português tem colocado o seu talento, a sua criatividade e a sua inesgotável capacidade de trabalho ao serviço da escrita humorística, da representação, da realização e da música. Os seus espectáculos conseguem cativar todos os estratos socioculturais e resultam em todos os palcos, dos mais populares aos mais eruditos. Construiu um

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CATARINA DA PONTE

reportório intergeracional, tanto em Portugal como na diáspora portuguesa. Considera que o humor são as cócegas da inteligência. É apreciador do humor do lendário comediante norte-americano, Don Rickles e da actriz, comediante e apresentadora norte-americana, Joan Rivers, conhecida como a “rainha da comédia americana” (ambos já falecidos). É também um grande fã do cineasta e actor norte-americano, Woody Allen. O humor e a capacidade de improviso fazem parte da vida de Herman José desde a infância, sobretudo como ferramentas desbloqueadoras de situações complicadas. Aos quatro anos, já protagonizava os filmes do pai (cineasta amador), que lhe deu a conhecer a parte mais técnica do audiovisual ao introduzi-los nas filmagens com a Super 8. Fazia também espectáculos de humor e música para as visitas lá de casa e chegou a ganhar cachês de cinco escudos, que uma amiga da mãe lhe oferecia após cada

actuação. Com 18 anos, em 1972, faz a sua primeira aparição em televisão num programa juvenil, como baixista de um trio chamado “Soft”. Dois anos depois, em Outubro de 1974, sobe ao palco do já inexistente Teatro ABC (no Parque Mayer, em Lisboa), estreando-se na peça “Uma no Cravo, Outra na Ditadura” ao lado de nomes como Ivone Silva, Nicolau Breyner, José de Castro, João Lagarto. Em 1977 lança o disco “Saca o Saca-Rolhas”, e, no ano seguinte, decide sair da capital e percorrer o país com o seu espetáculo “One Man Show”. Em 1978, junta-se a Raul Solnado e Rita Ribeiro no elenco da peça “Felizardo e Companhia, Modas e Confecções”. O seu primeiro grande êxito a solo deu-se com a interpretação da personagem Tony Silva, no programa da RTP, “Passeio dos Alegres”, em 1981. Em 1982 foi disco de ouro com o tema “Canção do Beijinho”. Nesse mesmo ano, estreia-se na Rádio Comercial com o programa “Rebéubéu Pardais ao Ninho”. Escreveu, protagonizou e dirigiu os programas da RTP “Tal Canal” (1983), que foi eleito, em 2007, o melhor programa de televisão dos últimos 50 anos, numa votação promovida pelo jornal Diário de Notícias e pela Time Out. Seguiuse o “Hermanias” (1985) e “Humor de Perdição” (1987). Este último ficou


VERA MARMELO

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para a história da televisão por se ter tornado no primeiro caso de censura explícita após o 25 de Abril. Em causa estava a sua “entrevista histórica” (uma rubrica do programa) à Rainha Santa Isabel que foi considerada um atentado aos valores históricos. O seu regresso à televisão deu-se em 1989, com o programa “Casino Royal”. Em 1990, começou a apresentar o concurso “Roda da Sorte” e, entre 1992 e 1996, apresentou o programa “Parabéns”, onde inaugura um espaço ‘talk-show’, por onde passam figuras como Ramalho Eanes, Mário Soares, Amália Rodrigues, Carlos Lopes, João Moura, Armando Baptista-Bastos, Paulo de Carvalho, Tony Bennett, Roger Moore, Cher, Kylie Minogue, Omar Sharif, Joan Collins, Isabel Pantoja e Lola Flores. Em 1994, deu-se a estreia de um concurso diário da sua

autoria, “Com a Verdade M’Enganas”. Em 1997, fez, uma vez mais para a RTP, o programa “Herman Enciclopédia”, “Herman 98” (1998) e “Herman 99” (1999). Foi neste programa que recebeu o Prémio Nobel da Paz, Ramos Horta, o primeiro a que o timorense aceitou ir. No ano seguinte, mudou-se para a estação de televisão SIC, onde se estreou com o programa “HermanSIC”, em 2000, ao qual levou personalidades internacionais de renome como Mónica Naranjo, Anastasia, Sting, Julio Iglesias, Enrique Iglesias, Lionel Ritchie, Ute Lemper, Gloria Estefan, No Doubt, Shania Twain, Djavan, Mark Knopfler, Jamie Cullum, Norah Jones, David Copperfield, Tom Jones, Sandy & Junior entre muitos outros. Foi também neste ano que protagonizou o filme televisivo “O

Lampião da Estrela”. Em 2007 estreia um programa de ficção humorística “Hora H” e, um ano depois, lança a versão portuguesa de “Chamar a Música”. Volta, nesse mesmo ano, a apresentar a “Roda da Sorte”, na SIC. Em 2009, aceita o convite de José Eduardo Moniz e muda-se para a TVI, onde apresenta o ‘talent-show‘ “Nasci P’ra Cantar”. Nesse ano, lança também o álbum “Adeus, vou ali já venho” e retoma em força a sua actividade ‘on the road’, com o espectáculo “Homem dos Sete Instrumentos”. Em 2010, regressa à “sua” casa, a RTP, de onde partira 11 anos antes, e apresenta o “Herman 2010”, “Herman 2011”, “Herman 2012” e “Herman 2013”. Em 2014, comemora os seus 40 anos de carreira, sobe o mote “40 Anos, Sempre A Bombar”, título que deu origem também a uma canção comemorativa que lançou para assinalar a efeméride. Em 2015, regressa ao humor com as personagens Nelo e Idália (do Herman SIC). Em 2016, estreia o programa “Cá Por Casa”, um ‘talk show’, que continua até hoje a passar no pequeno ecrã às quartas-feiras à noite na RTP 1. Pelo caminho, foi empresário (proprietário do restaurante Café-Café e dono de um dos teatros mais emblemáticos de Lisboa, o Tivoli), mas é nos palcos que se sente feliz e realizado. l

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PERFIL

Isabela Figueiredo

A escritora da nova narrativa do passado colonial

Nasceu em 1963, em Lourenço Marques (actual Maputo), capital de Moçambique. Reconhecida como uma das principais autoras da literatura lusófona na actualidade, foi nomeada para o Prémio Femina Estrangeiro 2021 – um dos mais importantes galardões literários franceses – com o livro “Caderno das Memórias Coloniais”, lançado em 2009, pela editora Angelus Novus e reeditado, em 2015, pela Editorial Caminho, com o texto original revisto e aumentado pela escritora, e prefácios de Paulina Chiziane e José Gil. Para este filósofo português “nenhum livro restitui, melhor do que este, a verdade nua e brutal

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CATARINA DA PONTE

do colonialismo português em Moçambique”. Podemos lê-la no seu blogue Novo Mundo Perfeito (antes Mundo Perfeito), que esteve na génese do livro, pois foi neste espaço digital que começou a escrever os seus primeiros textos sobre a infância em Moçambique, sobre o racismo dos colonos portugueses e sobre o pai. Actualmente, realiza ‘workshops’ de escrita criativa e participa em seminários e conferências sobre as suas principais áreas de interesse: estratégias de poder, de exclusão/ inclusão, colonialismo dos territórios,

géneros, corpo, culturas e espécies. Colabora pontualmente com a imprensa, nomeadamente com o jornal Público e encontra-se a preparar o seu quarto livro sobre animais e trabalho. A sua história de vida é indissociável da sua obra literária. Em “Caderno das Memórias Coloniais”, Figueiredo fala, não só, do passado colonial de Portugal, mas também, da sua visão sobre o pai, um electricista português radicado em Moçambique, que desprezava e explorava os nativos. Quando publicou este livro, a escritora disse ao seu editor da altura, Osvaldo Silvestre (da Angelus Novus), que estava consciente que ia abrir uma caixa de pandora ao contar uma


nova narrativa dos retornados: “Eu tenho medo de ir aos lançamentos. Tenho medo de ser atacada, de que me façam mal...”, confessa numa entrevista que deu ao Jornal Expresso, em 2017. Um ano após a sua publicação, a obra foi eleita como uma das obras mais relevantes da década pela escritora Maria da Conceição Caleiro e pelo ensaísta Gustavo Rubim no especial publicado pela revista de cultura Ípsilon (suplemento de artes do jornal Público). Isabela Figueiredo veio para Portugal sozinha, com quase 13 anos, logo após a independência de Moçambique, em 1975, para viver em casa da avó. Foi testemunha do 25

de Abril e da descolonização. Esteve afastada dos seus pais 10 anos. Fez o possível para que não percebessem que era retornada, agarrou-se aos livros e aos estudos. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e especializou-se em Estudos sobre as Mulheres, na Universidade Aberta. Nomeia sempre como seu grande mestre o professor Abel Barros Baptista, que lhe “abriu a mente”. Publicou os seus primeiros textos, em 1983, com 20 anos, no DN Jovem, o extinto suplemento do Diário de Notícias. Foi jornalista do Diário de Notícias, entre 1989

e 1994, e professora de português no ensino secundário, entre 1985 e 2014. Em 1988 lança o livro “Conto É Como Quem Diz” novela que recebeu o primeiro prémio da Mostra Portuguesa de Artes e Ideias e em 2016, publica “A Gorda”, livro vencedor do Prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues, baseado na sua história pessoal para abordar temas como identidade, género, sexo, padrões estéticos e relações sociais. Em 2018, fez parte da delegação de autores de língua portuguesa na Feira do Livro de Leipzig. Mais tarde nesse ano esteve em Berlim um mês com a Bolsa de Residência Literária do Camões Berlim. l

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PERFIL

joana carneiro

“O importante é criar beleza”

A. RIBEIRO DOS SANTOS

No auge da vida e da carreira, Joana Carneiro é, aos 45 anos, reconhecida internacionalmente como maestrina e a mãe orgulhosa de quatro filhos – três dos quais trigémeos – que teve no espaço de 15 meses, já depois dos 40 anos. Filha do ex-ministro da Educação, Roberto Carneiro, e sobrinha materna do fundador do CDS, Adelino Amaro da Costa, que morreu no acidente de Camarate ao lado de Sá Carneiro, o talento para a música está-lhe nos genes: o avô paterno, que era chinês, foi maestro da “Big Band” da Base das Lajes, na ilha Terceira, e um dos fundadores do Hot Clube de Portugal, ao lado de

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Luís Villas Boas. Nascida em Lisboa a 30 de Setembro de 1976, no seio de uma família numerosa (tem oito irmãos), e orgulhosa das raízes asiáticas (costuma festejar com os seus a chegada do novo Ano Chinês), admite que a música lhe foi incutida desde a mais tenra infância e que sempre fez parte do seu quotidiano. Em criança, aprendeu a tocar viola de arco e piano. Um dia viu o maestro norte-americano Leonard Bernstein dirigir uma orquestra na gravação da banda sonora do filme “West Side Story”. Foi um momento determinante na sua vida e uma das

razões pelas quais decidiu seguir a direcção de orquestra. Confessa que, muitas vezes, ao regressar da escola, punha a cassete VHS que os pais tinham gravado dessa actuação, para se deixar arrebatar. Estudou na Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa, fez mestrado na Northwestern University e estudos de doutoramento na Universidade do Michigan, ambas nos Estados Unidos da América. Também estudou composição, mas costuma dizer que não é uma criadora, mas antes “uma recriadora” das obras de outrem. Entre os


seus compositores predilectos, admira Bach, Haydn e Mozart, mas “estatisticamente” tende a dirigir mais frequentemente obras de Stravinsky, Beethoven, Brahms e algum Schumann. Uma das suas imagens de marca é o gosto assumido pela composição contemporânea: adora dirigir peças musicais de John Adams (n. 1947); James McMillan (n. 1959); Luís Tinoco (n. 1969) e António Pinho Vargas (n. 1951). Consciente de que o mundo da música erudita é “muito competitivo”, e de que “há muitos mais maestros do que orquestras

para dirigir”, Joana Carneiro não explica a razão do seu sucesso, mas é admirada por ter um estilo de direcção muito próprio, expressivo, em que usa o rosto e o corpo para comunicar com os instrumentistas. Com uma carreira brilhante, tanto a nível nacional como internacional, foi maestrina assistente da Filarmónica de Los Angeles, directora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, maestrina convidada principal na Orquestra Metropolitana de Lisboa e maestrina convidada na Orquestra Gulbenkian. Em Setembro de 2013, foi anunciada

como a nova maestrina portuguesa principal da Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos. Desde que foi mãe, Joana Carneiro diz que houve uma espécie de recomeço na sua vida, com o marido (que é médico cirurgião) e os quatro filhos no centro das suas prioridades. Tanto assim que, quando tem de viajar em trabalho, o seu marido e filhos muitas vezes acompanham-na. Uma frase que a apresente? Talvez aquela que proferiu em entrevista na RTP, em jeito de definição do seu trabalho: “O essencial é criar beleza!” l

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PERFIL

Lourdes castro

“Não morremos, transformamo-nos”

AFONSO CERQUEIRA

Nascida no Funchal, em 1930, Lourdes Castro cresceu com uma “infância com muito espaço. Ao pé do mar. Com calhau, com vinha, com cana-de-açúcar que a gente chupava. Assim de correr à vontade” – como contou ao Expresso na sua última entrevista, realizada também na Madeira, onde morreu no passado ano. Foi também na sua ilha, no Club Funchalense, que fez a sua primeira exposição (1955), quando já estudava na Escola de Belas-Artes, em Lisboa. É desse curso, que não terminou, a famosa a história dos seus estudos de nus, pintados a verde e azul, que um professor reprovou – escrevendo, a giz, a palavra “excluído” sobre os trabalhos. A recusa pelo cânone vigente foi assumida pela artista, deixando e incorporando a rejeição nas obras

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e dando-lhes mesmo esse título, com a mesma confiança do “salon des refusés” (1863) e a ironia dos pintores do Fauvismo – de que foi, aliás, devedora de inspiração –, que adoptaram o epíteto maldoso como bandeira do seu movimento. Com René Bertholo parte para Munique, em 1957, e finalmente Paris, no ano seguinte. Num minúsculo “chambre de bonne” no sétimo andar da Rue des Saints-Pères, fundam a revista KWY (1958-1963) – as três letras que não existiam no alfabeto português - com Christo, Jan Voss, João Vieira e José Escada, Gonçalo Duarte e Costa Pinheiro. Com este grupo informal, mas que deixou referências e influência, Lourdes e René foram começando exposições e conhecendo os artistas. É desta altura a carta que Maria Helena Vieira da Silva escreve a Artur Nobre de Gusmão, referindo-se a

Lourdes Castro assim: “Ela alia a um carácter extremamente honesto e recto, fortes qualidades de dedicação, coragem e até heroísmo na sua via quotidiana. E especialmente é dotada de real e tangível talento artístico. Poucos jovens pintores portugueses em Paris nos têm inspirado tanta confiança e esperanças.” Nos anos sessenta começa a diversificar os meios de expressão, da serigrafia à tela, o plexiglass e até o pano. Aliás, começa a produzir e a expor arte nos diversos meios pois, como a própria afirmou, nunca se reduziu `pintura apenas. As suas famosas sombras evoluem também, das “sombras deitadas” ao teatro de sombras (com Manuel Zimbro). Sejam objectos ou movimentos do quotidiano, as sombras simplificam e generalizam, abrem-se a ser reconhecidas e transmutadas no


essencial. Como que reciclando o quotidiano para criar novos significados, aproximando-se dos Nouveaux Réalistes. E, no teatro das sombras, que realizou desde 1966, representava as interacções e acções conotadas com o feminino. Em 1970, na sua exposição na Galeria 111, João Vieira e Manuel Pires filmam esse teatro e apresentam o filme” Lourdes Castro- Sombras: Efeitos de Luz e Cor”, filmado no teatro Laura Alves. Quase todos os textos evocativos da pintora madeirense comentam, e bem, ou dão voltas ao mote das suas sombras. São o lado mais identificativo da sua obra mais conhecida, e sobre elas explicou Lourdes Castro: “A sombra é isso: tem tudo o que tem o objecto, mas o mínimo possível para ser reconhecido”. A sombra tem ainda esse lado etéreo e transcendente, como no conhecido

“Anjo de Berlim” (com Manuel Zimbro) cuja reprodução ampliada o Cardeal D. José Tolentino (outro madeirense) colocou atrás do altar da Capela do Rato. O anjo foi feito para colocar na janela, em Berlim onde é costume as famílias decorarem os prédios na altura do Natal. E onde o casal Lourdes Castro e Manuel Zimbro decidiram criar, e iluminar, assim a sua casa. Tudo isto no explica o Cardeal-poeta, no artigo Santa Lourdes Castro: “a Lourdes ensina a ver o natural e a natureza como nunca o vimos. Não é por acaso que, como ela gosta de dizer sorrindo, é ‘alguém que se ocupa da sombra’. A sombra funciona como uma espécie de educação para aquilo que as nossas práticas tornam invisível. A arte de Lourdes Castro devolve-nos o esplendor do real sem ocultações, nem parcialidades: um real até ao

fim, onde a sombra é transcrita e valorizada.” Foi da sua casa, na Madeira, que a natureza, as flores e o seu jardim passaram para a sua obra, culminando no “Grande herbário de sombras” ou nas ilustrações do livro “A História da minha flor”. Como na primeira linha do poema “Los justos” -” cultiva su jardin, como quería Voltaire” – sobre as pessoas que, sem sabermos, estão a salvar o mundo, Lourdes Castro tratou, cultivou e mondou o jardim, no Funchal, que criou com Manuel Zimbro. E, provavelmente sem o saber, salva-nos. Foi nesse mesmo jardim que nos disse, através da referida última entrevista que deu a João Pacheco (Expresso) que “não morremos, transformamo-nos. Podemos virar terra, mas não desaparecemos”. l

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PERFIL

Luís fernando

Militante da palavra em Angola

CATARINA DA PONTE

Nasceu no primeiro dia de Outubro de 1961, na aldeia de Tomessa, província do Uíge, em Angola. Militante da palavra, Luís Fernando é escritor, jornalista e, desde 2017, que ocupa também o cargo de secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e Imprensa do Presidente da República de Angola, João Lourenço. Iniciou a sua carreira como jornalista aos 17 anos na, então, Emissora Provincial do Uíge da Rádio Nacional de Angola, em 1978. Trabalhou mais de 15 anos na Rádio Nacional de Angola, ocupando na emissora

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pública angolana vários cargos, nomeadamente o de sub-chefe de Redacção, Re-Writer, correspondente em Havana e Director de Informação. Foi, também, Director Geral do Jornal de Angola, durante 12 anos. Dirigiu o semanário angolano “O PAÍS” (hoje, publicação diária) entre 2008 e 2013. Foi Administrador Executivo do grupo Media Nova, detentor da TV Zimbo, Rádio Mais, EXAME Angola e O PAÍS. Além destes, colaborou em vários órgãos de comunicação social, tanto em Angola como no estrangeiro e venceu, em 2011, o Prémio Maboque de Jornalismo. Aos 38 anos decide colocar a palavra

ao serviço da literatura e, em 1999, publica o seu primeiro livro, “Noventa Palavras” (onde reuniu um conjunto de crónicas, reportagens e entrevistas), dando início a uma sólida carreira literária. Três anos depois publica o seu primeiro romance, “A Saúde do Morto” (2002). A estes, sucederam-se “Antes do Quarto” (2004); “João Kyomba em Nova Iorque” (2005); “Clandestinos no Paraíso”; “A Cidade e as Duas Órfãs Malditas” (2008); “Um Ano de Vida” (2010); “Dois Anos de Vida” (2012); “Três Anos de Vida” (2014) e “Letras na Brasa” (2015). Participou, em conjunto com 14 outros autores, na antologia de contos “Estórias


Além do Tempo” (2014), da Texto Editores, organizada por Domingas de Almeida, sob orientação de Adriano Botelho de Vasconcelos. Em co-autoria com o escritor português Eduardo Águaboa escreveu o livro “Taras de Luanda” (2015), onde reuniu 70 crónicas evocativas de ambientes, sensações, mitos, ritos, pessoas, hábitos, costumes, cheiros, alegrias, danças e outros tantos elementos que compõem a alma da cidade de Luanda. Foi admitido, em 2009, como membro da UEA, União de Escritores Angolanos, depois de dez anos a publicar com

regularidade e em 2016 é homenageado pelo núcleo da Brigada Jovem de Literatura (BJL) de Malanje pela importância do conjunto da sua obra literária. Na ocasião, Francisco Ngola, Secretário Provincial da BJL, disse ser intenção da instituição “exaltar e reconhecer a figura de Luís Fernando pelo seu contributo no desenvolvimento da literatura angolana”. No final do ano passado, em Dezembro de 2021, o Jornal de Angola anuncia que o escritor angolano coloca à disposição do público um núcleo de nove obras literárias, três das quais inéditas

– “Andanças”, “O Padre no Hotel” e “Vozes na Pedra” – e 6 crónicas, “Quatro anos de vida”, “Cinco anos de vida”, “Seis anos de vida”, “Sete anos de vida”, “Oito anos de vida” e “nove anos de Vida”, publicadas pela Mayamba. Nas palavras de Celso Malavoloneke (sociólogo e ex-secretário de Estado do Ministério da Comunicação Social), que procedeu à apresentação das obras, “o autor faz da vida uma brincadeira para que se perceba a dimensão de uma alma, com contemplação do belo, exaltação do lado bom da vida para que as tragédias se mantenham distantes”. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

PERFIL

luís osório

O homem que ainda escreve bilhetes-postais Nasceu a 15 de Setembro de 1971 em Lisboa. É habitualmente apresentado como escritor e jornalista, mas nunca se reviu neste último papel, mesmo quando dirigia jornais. Tem milhares de seguidores no Facebook, onde vai publicando os seus “postais do dia” sobre figuras e temas controversos da sociedade contemporânea com a frontalidade e humanidade que o caracterizam. A ele e à sua escrita. Desde Março que estes bilhetes-postais podem ser também ouvidos, de segunda a sexta-feira, no programa “Postal do dia”, da TSF. É assumidamente um homem de Esquerda. Não chegou a terminar a sua licenciatura em História na Universidade Lusíada, primeiro por questões financeiras e depois por razões de compatibilidade de horário com o seu trabalho. É a prova de que o sucesso profissional não depende de um canudo, mas sim da matéria de que somos feitos. Foi criado pela mãe, pela avó materna, Joaquina, a quem chegou a apelidar de “mulher da sua vida e a mais importante

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CATARINA DA PONTE

da sua vida” e pelas tias Cristina e Teresa (homossexuais, mas nas quais reconhece “a relação perfeita de casal”). É um homem de sincronicidades. O funeral da avó Joaquina celebrou-se no dia em que completou 29 anos. Foi neste dia, a 13 de Setembro de 2000, que deixou de responder pelo seu segundo nome, Miguel, e passou a ser o Luís, o Luís Osório que conhecemos hoje. Começou a trabalhar relativamente cedo no universo televisivo. Aos 18 anos, ainda a terminar o 12.º, fez parte da equipa do programa juvenil da RTP “Lentes de Contacto” (1990). A partir daí o seu caminho passou sempre pela comunicação. Na imprensa escrita, dirigiu os jornais “A Capital”, entre 2004 e 2005, tornando-se o mais jovem director de sempre de um órgão de comunicação social em Portugal.

Tinha 33 anos. Dirigiu, anos mais tarde, o jornal “i” (2014-2015) e o “Sol” (2015), onde já tinha sido colunista. Foi director de informação das rádios do Grupo Media Capital, entre as quais o Rádio Clube Português (2005-2009). Passou, ainda, por Jornais como “O Jornal”, que viria a dar origem à revista “Visão”, o “Diário de Notícias” o “DNA” (1997) e o “Expresso”. No jornalismo televisivo, foi comentador político na SIC e apresentou com Daniel Sampaio e Ana Drago o “Conversa Privada”, na RTP2, em 2000, e foi o entrevistador do programa documental “Portugal de…” (2010). Foi, ainda, autor de programas vanguardistas que marcaram a história da televisão portuguesa como o “Zapping” e o “Portugalmente” (1998) e que lhe valeram três nomeações para os globos de ouro pela sua autoria. Neste último programa, tornou-se célebre a entrevista que realizou ao seu pai, José Manuel Osório – investigador do fado, militante comunista, seropositivo – na qual falaram sobre a experiência de se ser doente com SIDA numa altura em que este tema era tabu. Pelo caminho, participou em comissões


VERA MARMELO

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governamentais, coordenou a comunicação política da campanha de Fernando Nobre à Presidência da República e realizou o documentário “A Casa”. Aos 35 anos apeteceu-lhe experimentar as artes do palco e encenou a peça “Vagabundos de Nós”, com texto de Daniel Sampaio, que esteve em cena no teatro Maria Matos, em Lisboa. Deixou o mundo das televisões e dos jornais para se tornar um Consultor Empresarial – ou um “Consultor de pessoas”, expressão que prefere, encontrando caminhos ao lado de quem comanda empresas – e para se dedicar à escrita, de livros e nas redes sociais. Em Maio do ano

passado, lançou o seu 8.º livro, “Ficheiros Secretos – Histórias nunca contadas da política e da sociedade portuguesas” (Ed. Contraponto), onde revela mais de 50 segredos sobre grandes figuras da nossa história contemporânea, de Cunhal a Soares, de Balsemão a Cavaco, de Amália a Saramago. Este, sucedeu-se a “Mãe promete-me que lês” (Guerra & Paz, 2018) e a mais seis títulos publicados. Ao longo da vida foi agraciado com vários prémios, nomeadamente o Gazeta Revelação e o Prémio Inovação Manuel Pinto Azevedo e chegou a ser nomeado, em 1998, como jornalista do ano pela Casa da

Imprensa, pelos trabalhos no DNA, suplemento do DN. O jornal “Expresso” distinguiu-o como uma das 100 figuras vivas mais importantes da história da televisão portuguesa (2002). Hoje, com 50 anos, além de uma legião de admiradores, ganhou também alguns inimigos pela franqueza e incómodo das suas palavras, mas o seu maior ganho continua a ser o seu exercício da liberdade, sobretudo de pensamento, e os postais do dia que vai escrevendo ao lado da Ana, sua mulher, e dos seus filhos André, Miguel, Afonso, Benedita e de Leonor e João (os dois últimos, filhos do coração). l

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E S P E C I A L C U LT U R A

PERFIL

maria aurora

Homem, Maria Aurora Carvalho

CARLA FERNANDA MARTINS COSTELHA LOPES

Jornalista, professora, escritora e produtora cultural. De seu nome completo Maria Aurora Augusta Figueiredo Carvalho Homem, foi uma das mais marcantes e populares figuras da cultura madeirense do seu tempo, uma voz crítica dos costumes e dos acontecimentos da época e uma incansável promotora do livro e da leitura. Filha de Amadeu de Carvalho Homem, secretário da Câmara Municipal de Sátão, e de Cidalina Figueiredo Carvalho Homem, professora primária, viveu a sua primeira infância numa aldeia nos arredores da vila natal até que, em 1949, após a morte do avô, médico localmente conceituado, a família se mudou para Trancoso e, mais tarde, em 1952, para São Pedro do Sul, por motivos profissionais dos pais. Nos seus primeiros doze anos de vida, a família residiu numa quinta na Abrunhosa do Ladário. Foi na casa de uma típica família abastada da Beira Alta, regularmente visitada por bispos, padres e outros ilustres homens da terra, que iniciou a

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sua escolaridade com um professor particular. Frequentou depois o Colégio Português de Viseu e, mais tarde, o Liceu Nacional daquela cidade, onde viria a ser presidente da Juventude Escolar Católica. Após a conclusão do liceu, ponderou prosseguir estudos na área do Direito, mas acabou por ingressar em Românicas na Universidade de Coimbra, onde militou na Juventude Universitária Católica. Ainda na universidade, venceu o primeiro prémio de conto “Via Latina” em 1959, forjando assim um elo com a escrita que se revelaria duradouro. No decorrer das suas viagens, conheceu o madeirense Humberto Morna Gomes, com quem viria a casar em 1960, estabelecendo-se, desta feita, o seu vínculo à ilha. Após um período de residência na Alemanha, veio para Lisboa, onde trabalhou no Banco de Angola e, seguidamente, para a Emissora Nacional, apresentando programas radiofónicos da sua autoria ou escritos por outros. Na segunda metade dos anos sessenta, iniciou a sua colaboração com a RTP como apresentadora do programa infantil

“Girassol”, que lhe valeu, em 1969, o prémio de melhor apresentadora de televisão da Casa da Imprensa. Seguiram-se “As férias terminaram”, “Dói-dói” e “Minuto Zero”. Na década de setenta, envereda, sem deixar de animar programas para a Emissora Nacional, pelo jornalismo profissional em A Capital, e depois no Diário de Lisboa. Chegou a colaborar, ainda, com as revistas Flama e Gente, tendo também sido redatora-chefe do jornal A Nossa Terra de Cascais. O ano de 1974 constitui uma viragem marcante na vida de Maria Aurora Carvalho Homem, já que seria esse o ano da mudança da família para a ilha da Madeira, numa tentativa, que viria a revelar-se frustrada, de salvar o casamento. No ano seguinte, não evita o divórcio, mas decide ficar na Madeira com os três filhos, Nuno Morna, Maria Manuela Morna Gomes e Ângela Morna Gomes. Nesse período, inicia a sua vida profissional no Funchal como professora de português e francês no Liceu Nacional. Na comunicação social, passa a colaborar com o Diário de Notícias da Madeira (DNM), através

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


da rubrica “Rodízio” em que debate temas controversos como o ensino no pós-25 de abril e a condição da mulher portuguesa. Faz rádio no emissor regional da Emissora Nacional (futura RDPM), participando no “Suplemento do domingo”, realizado por Gualdino Avelino Rodrigues, de duas horas semanais, que incluía o programa por ela conduzido: “Quem somos, quem seremos amanhã”. Torna-se numa das figuras da boémia literária dos estabelecimentos noturnos da zona velha do Funchal (1975-1985). Na década de oitenta, diversifica as suas atividades. Passa a exercer funções de assessoria para o Serviço de Atividades Culturais da Câmara Municipal do Funchal (CMF), no âmbito das quais organizou recitais de poesia (ao longo desse decénio) e

a Feira do Livro até ao ano de 2006. Sob a sua coordenação e a direção de Fernando Nascimento, é lançada a revista Margem, publicação associada a temáticas culturais, literárias e artísticas da ilha da Madeira (19811983). Pertence, por uns tempos, ao Teatro Experimental do Funchal. Organiza, em 1982, o primeiro Festival de Cantares da Madeira. Prossegue a sua colaboração com a RDPM em vários programas, entre os quais se destacam: “Teia de Palavras”, “Vamos Fazer de Conta”, “Rádio da Minha Rua”, “Terra, Mar, Gente”, “Viva a Festa”, “Conversas sobre Palavras” e, já na década de 90, “Discurso Direto” e “Na Crista da Onda”. Como será seu apanágio, sempre que pode, apoia a produção literária na região, com intervenções públicas, incentivos ou

prefácios. Rodeia-se de pessoas ligadas à criação e à comunicação, ao ensino e à investigação, ao empresariado e à política. Em 1984, chega à televisão regional com o programa “A Terra e o Povo”, uma série de 11 episódios que lhe permitirá percorrer a ilha, fazendo a divulgação das tradições locais. Este é o primeiro dos programas que viriam a reputá-la como incansável mediadora da cultura do arquipélago da Madeira. Na senda dessa experiência bemsucedida, apresenta, em 1988, o programa “Arraiais Madeirenses”. A partir desse mesmo ano, vai estar no ar, até meados da década 90, “Letra Dura e Arte Fina”, um programa de entrevistas e pequenas reportagens que proporciona alguma visibilidade aos criadores das artes e letras

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E S P E C I A L C U LT U R A residentes na ilha, com a colaboração de Ana Margarida Falcão. Esse magazine cultural chega a ser retransmitido em diferido pela RTP2 e RTPI. Em 2002, há de conduzir um outro programa do género, “Pé de Página”. Após um curso de guionismo, ensaia-se na ficção televisiva, em 1991, para a RTPM, com a série “Página Quatro”, inspirado no quotidiano da redação de um jornal e realizado por João Paulo Valente. Em 1993, escreve o guião teledramático de cinco episódios, “Homens de Passagem”, realizado por António Plácido e exibido na RTPM, cujo enredo permitiria dar a conhecer diferentes ambiências do arquipélago madeirense. Embora se tratasse de uma experiência marcante para os atores e técnicos nela envolvidos, esta produção regional revelou, em abono da verdade, algumas limitações. O ano de 1997 assinala a estreia do seu primeiro programa televisivo dedicado à diáspora madeirense, “Recados das Ilhas” (em parceria com a RTPI), que estaria no ar durante dois anos. Entretanto, em 1999, apresenta o documentário “A Madeira e os Descobrimentos”. Em junho de 1999, desloca-se aos EUA para fazer uma transmissão de “Recados das Ilhas” a partir de Rhode Island, causando forte impacto no seio da comunidade portuguesa aí residente. Com a entrada dos Açores, o programa passa a chamar-se “Atlântida”, indo para o ar a 6 de novembro de 1999. Através de contactos telefónicos em direto, a apresentadora aproxima os telespetadores, longe da sua terra natal e das suas famílias, estreitando laços, reavivando memórias e emoções. A crescente popularidade do formato televisivo e de Maria Aurora viriam a motivar a sua deslocação ao Canadá, à Venezuela, ao Reino Unido e à África do Sul, a fim de contactar diretamente com as comunidades portuguesas e daí transmitir o programa, focando as coletividades e as diversas atividades

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PERFIL culturais por elas desenvolvidas nos países onde se estabeleceram. Em novembro de 2004, no âmbito das celebrações do 5.º aniversário do “Atlântida”, a RTPM promoveu um espetáculo de homenagem a Maria Aurora. A 6 de novembro de 2009, para assinalar os dez anos do programa, foi para o ar um “Atlântida” especial, emitido em direto para a RTPM, a RTPA e a RTPI. A par do programa “Atlântida”, Maria Aurora faz várias emissões especiais, em diretos, desde festas religiosas, tais como a S.ª do Monte, o Sr. Bom Jesus da Ponta Delgada ou a S.ª do Livramento, até à Noite do Mercado. Em 2005, lança “Nome: Mulher”, um programa de debate composto por um painel exclusivamente feminino (com Ana Margarida Falcão, Violante Matos, Ilse Berardo e Diana Esteves Cardoso); assume-se como um programa reivindicativo, que pretende dar voz pública às mulheres num espaço ainda fortemente dominado por painéis masculinos. Em 2007, inaugura a série documental “Ilha dos Amores”, em que revisita grandes histórias de amor associadas à Madeira. Em 20072008, apresenta o programa mensal de auditório “Funchal, 500 anos – teu nome sabe-me a Funcho”, com o propósito de revelar a identidade das dez freguesias do concelho. Em 2009, com o programa “Espaço Cidadania”, aborda a vida de organizações cívicas e culturais e, com a emissão “Cá Nada”, debate com Thierry Santos regionalismos linguísticos da Madeira. Fragilizada por uma doença prolongada, seria a 20 de março de 2010 que apresentaria pela última vez o programa “Atlântida”. Porém, o sucesso do formato era já tal, que o programa ainda hoje vai para o ar quinzenalmente, alternando com os Açores, continuando a ligar a diáspora às ilhas. Mas a comunicação social em geral, e a televisão em particular, não é o seu único campo de intervenção. Na passagem dos anos 80 para 90, diversifica as suas atividades: exercício de cidadania, promoção cultural e escrita literária.

Em 1989, vai fazer parte, com José António Gonçalves, José de SainzTrueva, Carlos Nogueira Fino e Irene Lucília, entre outros, da comissão instaladora da Associação de Escritores da Madeira. Nessa altura, Maria Aurora, Irene Lucília, José de Sainz-Trueva, Carlos Nogueira Fino, Nelson Veríssimo e Ana Margarida Falcão passam a reunir-se regularmente em jantares na casa de uns e de outros. Nestas tertúlias, comenta-se a vida cultural madeirense e discutem-se alguns projetos dos seus membros. Poemas e contos da sua lavra irão constar de várias coletâneas de literatura. Em 2001, o grupo de amigos viria a incompatibilizar-se com a direção da Associação, então presidida por José António Gonçalves, e consequentemente a afastar-se dela. No âmbito da sua colaboração com o Departamento de Cultura da CMF, dá início, nos anos 90, à segunda série da revista Margem (1995-2011), institui o prémio literário Edmundo Bettencourt (1995-2010) e organiza várias edições do Colóquio Internacional do Funchal (1997-2006). Nesse enquadramento, coordenou ainda, entre 2001 e 2007, a coleção “Autores da Madeira”, da editora portuense Campo das Letras, entretanto extinta, totalizando catorze títulos, entre antologia, poesia, ensaio, crónica e ficção. No primeiro semestre de 2005, volta a colaborar com o DNM, publicando crónicas na coluna intitulada “Marca de água”. Nesse mesmo ano, inicia com o jovem editor Manuel Reis uma parceria que perdurará até à sua morte e um pouco mais para lá. A partir daí, toda a sua obra virá a lume com a chancela da Ausência, da 7 dias 6 noites ou da Exodus. Ainda em 2005, cria condições para lançar a associação cultural Fantocheiros da Madeira e contribui com textos teatrais da sua autoria (inéditos) para o seu repertório: “Uma Aventura nas Desertas”, “Uma Estrelinha Dorminhoca”, “Pai Natal a toda a Velocidade” e “À Descoberta da Madeira”. No que diz respeito à sua atividade literária, estreia-se em 1982 com um livro de poesia. Mas é nas décadas de


1990 e de 2000 que a sua obra se evidenciará, com a edição de variados títulos de géneros diferentes: letras de canções dispersas em publicações, antologias de poesia, de conto, de crónica e o livro para a infância constituem veículos privilegiados da sua escrita. Na poesia, dá a estampa “Raízes do Silêncio” e “Ilha a Duas Vozes”, em parceria com João Carlos Abreu. Em 1994, sai do prelo Cintilações, um álbum de aguarelas de João Lemos Gomes e textos poéticos de Maria Aurora, oferecendo ao leitor uma experiência sensorial proveniente da fruição simultânea da imagem e da palavra numa simbiose intencional ainda que subjetiva do olhar/sentir de cada um. Esta obra seria seguida por “Uma Voz de Muda Espera: Monografia Sentimental”, um vaguear saudoso pelas memórias dos lugares e das gentes de São Pedro do Sul, onde passou parte da adolescência. Em 2003, estreia-se na poesia de cariz erótico com o opúsculo “12 Textos de Desejo”. Seguir-se-lhe-ão “Antes que a Noite Caia”, com ilustrações de Luísa Spínola, e “Discurso Amoroso”, com desenhos de Francisco Simões. A sua produção contística também é muito apreciada. Publica “A Santa do Calhau”, “Para Ouvir Albinoni”, e, finalmente, “Leila”. Na sua veia narrativa, oscila entre a crítica de costumes e a experiência de vida, investindo no campo sensorial e no mundo dos afetos. A sua voz tem um grande poder sugestivo: cria, com poucas palavras, perfis, ambientes e situações, cenas curtas, quase cinematográficas e de desfecho irónico. A escrita de Maria Aurora Homem surge de um intrincado entrelaçar de leitura, experiências e observações em que os lugares reais se cruzam com os da memória afetiva, resultando numa mescla de reminiscência e imaginação, cujo rasto deixa perscrutar as mentalidades do período retratado, fazendo por vezes eco da vida da autora, desde a infância até à idade adulta, num tom confessional. Em

cenários que se estendem da Beira Alta até à Madeira, passando pela Holanda ou por Marrocos, e apesar das dissonâncias espácio-temporais, o leitor é confrontado com uma variação do mesmo tema: a ilustração de vidas no feminino. Maria Aurora presta testemunho da vida das mulheres e verte, com rara sensibilidade, para as suas composições o sentir-se mulher, contribuindo para a construção de uma identidade feminina centrada na autodescoberta do corpo e do desejo. Na crónica, destaca-se “Discurs(ilha) ndo”, uma recolha de textos publicados no DNM, nos anos 90, que cobre uma vasta temática, desde a atualidade até às tradições locais ou mesmo sentimentos mais íntimos, pondo, com frequência, a tónica no incómodo tom interventivo/reivindicativo que a caracterizou e com o qual granjeou admiradores, mas também algumas inimizades. No que se refere à ficção infantil – dirigida ao grupo de leitores situados, sensivelmente, entre os sete e os doze anos – lança, em 1989, “Vamos Cantar Histórias…”, com a chancela da CMF. Nele se destaca o eixo temático do diálogo com o diferente e o marginal e a relação interartes: escrita, pautas musicais e desenho. Sai do prelo, em 1991, “Juju, a Tartaruga”, com ilustração de Maurício Fernandes. Dando início, em 2005, a uma parceria com o jovem editor Manuel Reis, reedita “Juju, a Tartaruga” e, nesse mesmo ano, publica “Loma, o Lobo Marinho”. Em 2007, saem do prelo “Zina, a Baleia Azul” e “Maria e a Estrela-do-Mar”. Todos versam sobre a vida selvagem marinha e a condição total da natureza. Ainda nesta linha da preservação do ambiente e da defesa da biodiversidade do arquipélago da Madeira surgem, em 2008, “A Fada Ofélia” e o “Véu da Noiva” e, em 2010, “A Fada Íris e a Floresta Mágica”. Tendo a história da Madeira por fundo, publica em 2008 “A Cidade do Funcho: A Primeira Viagem de João Gonçalves da Câmara”. As paisagens da Madeira estão em foco em “Pedro Pesquito e a Câmara dos Lobos” e

“Marta, Xispas e a Gruta Misteriosa”. Numa tónica diferente, mas sem se afastar do património natural, histórico e cultural da Madeira, publica dois títulos relacionados com as tradições associadas às celebrações natalícias na ilha, “Uma Escadinha para o Menino Jesus” e “O Anjo Tobias e a Rochinha do Natal”. Finalmente, numa edição póstuma, foi dado a lume em 2011 o livro “Maria e o Surf: Surfando no Jardim do Mar”, com texto não inteiramente concluído, que apela, por um lado, à importância de regras de ouro para uma boa relação entre pais e filhos e, por outro, ao incentivo de hábitos de cidadania. Boa parte desta bibliografia tem como ilustrador João Nelson Pestana Henriques. Alguns desses livros serão recomendados pelo Plano Nacional de Leitura. Para além da sua crescente popularidade junto de várias comunidades portuguesas, também as entidades oficiais, locais e nacionais, reconheceriam o diversificado trabalho de Maria Aurora Carvalho Homem. Em 1988, recebe a menção honrosa Leacock e vê-se laureada com o prémio Baltazar Dias, atribuído pelo GRM e pela CMF pelo seu programa “Letra Dura & Arte Fina”. A 8 de junho de 2007, o presidente da República confere-lhe o grau de comendador da ordem do Infante D. Henrique. A CMF atribui-lhe a medalha de mérito municipal (grau ouro), a título póstumo, em 21 de agosto de 2010. Em 2014, por iniciativa da edilidade funchalense, foi homenageada no decorrer da Feira do Livro do Funchal através da colocação de uma placa com um poema da sua autoria no jardim municipal do Funchal; foi ainda instituído o Prémio Municipal Maria Aurora – Igualdade de Género, atribuído pela primeira vez em 2015. l Texto sobre Maria Aurora Homem, da autoria da Dra Carla Fernanda Martins Costelha Lopes (vinculada à Secretaria Regional de Educação, Ciência e Tecnologia), escrito para integrar o Dicionário Enciclopédico da Madeira (DEM).

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PERFIL

rui veloso

40 anos de músicas que sabemos de cor

CATARINA DA PONTE

Nasceu a 30 de Julho de 1957, em Lisboa, mas cresceu na cidade “de quem vem e atravessa o rio, junto à Serra do Pilar”, a invicta, para a qual foi viver com três semanas de vida. Hoje, vive rodeado de natureza e de guitarras em Sintra, onde também tem o seu estúdio. Sexagenário com mais de 40 anos de carreira, continua a inspirar gerações de públicos e os seus concertos são sempre um importante acontecimento no panorama musical português, mesmo tendo lançado o seu último álbum de originais, “A espuma das canções”, há 17 anos. Editado em 2005, este disco, cujos 15 temas foram escritos pelo escritor e letrista Carlos Tê, marcou o fim da parceria de 25 anos entre os dois músicos, que imortalizaram lado a lado temas

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como “Chico Fininho”, “Máquina Zero”, “Porto Sentido”, entre tantos outros que sabemos de cor. Terminado este consórcio, ficou “difícil” encontrar letras para cantar, confessou Rui Veloso em 2020 no ‘poadcast’ Posto Emissor, da BLITZ. fechou o ano de 2021 com um espetáculo no Campo Pequeno, em Lisboa, onde celebrou os mais de 40 anos de carreira, partilhando o palco com músicos como Miguel Araújo, Paulo Flores, Manecas Costa, Maro e Dany da Silva. No primeiro semestre de 2022 realizou uma série de concertos intimistas, de norte a sul do país, acompanhado pelos guitarristas Alexandre Mania e Eduardo Espinho. Considerado por muitos como o pai do rock português, Rui Veloso considerase hoje mais um músico de jazz, do que um autor de rock. Começou a interessar-se pela música com seis

anos, ouvia muita rádio e tocava a harmónica do pai, mas foi com a guitarra, que aprendeu a dedilhar de forma auto-didacta, e a interpretar os grandes mestres do blues, que descobriu a sua paixão pela música. A aventura mais a sério começou aos 22 anos, na cave da casa dos pais, com a sua banda de garagem Magara Blues. A história, já várias vezes contada, diz que foi a mãe de Rui Veloso que, em 1979, levou à editora Valentim de Carvalho uma maqueta com temas em inglês e em português. Um ano depois, edita o seu primeiro álbum, “Ar de Rock”, que veio a mudar o rumo da música portuguesa. Com letras em português assinadas por Carlos Tê e António Pinho, o disco incluía temas como “Chico Fininho”, “Sei de uma Camponesa”, “Bairros do oriente” que, ainda hoje, fazem parte do imaginário


colectivo português. O ´single´ “Chico Fininho” tornou-se disco de platina, enquanto o álbum foi considerado o melhor do ano. É também premiado com um “Sete de Ouro” e como Revelação do Ano. Ainda neste ano, Rui Veloso atua nos concertos de Steve Harley e dos Police. Além do já mencionado “Ar de Rock”, de 1980, fazem parte da discografia de Rui Veloso, emblemáticos álbuns como: “Fora de moda” (1982), “Guardador de Margens” (1983), “Rui Veloso” (1986), “Mingos & Os Samurais” (1990) – que recebe sete discos de platina e ultrapassa todos os recordes de vendas de discos em Portugal. Os anos de 1990 foram de “ouro” Para Rui Veloso, começou a década a partilhar palco com um dos seus ídolos musicais, B.B King – o rei do

Blues norte-americano que tanto admirava, no Casino do Estoril. Um ano depois atua na primeira parte do concerto de Paul Simon, no estádio José Alvalade, com uma audiência de mais de 50.000 pessoas. O novo álbum, “Auto da Pimenta”, é galardoado com dupla platina. No ano seguinte, grava nos Estados Unidos, com Nuno Bettencourt, o tema “Maubere”, a favor da causa de TimorLeste. O seu disco, “Lado Lunar”, editado em novembro de 1995, constitui igualmente um grande êxito, tendo sido premiado com um novo disco de platina. Em março de 1996 volta a partilhar palco com B. B. King, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, recebendo a clamor do público e da crítica especializada. Em 1998, edita “Avenidas”. O disco incluía os temas “Todo O Tempo do Mundo”, “Jura” e o

belíssimo “Ninguém Escreve à Alice”. O ano de 2000 marcou a edição da compilação “O Melhor de Rui Veloso”, uma colecção dos principais êxitos do cantor e da coletânea de homenagem Ar de Rock - Tributo 20 Anos Depois, à qual estiveram ligados Jorge Palma, Xutos & Pontapés, Santos & Pecadores, Clã, Da Weasel, Belle Chase Hotel, Paralamas do Sucesso, Ala dos Namorados, Nuno Bettencourt, Barão Vermelho, Lúcia Moniz, Mão Morta e Danças Ocultas. O cantor português apenas regressou em 2003, em formato acústico. A carreira de Rui Veloso fez-se também sempre com grandes momentos ao vivo e os seus temas têm o dom de acompanhar gerações, será difícil encontrar alguém que não saiba de cor o refrão de “Não Há Estrelas No Céu” ou “O Anel de Rubi”. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

PERFIL

ruy de carvalho

“As palmas são o melhor prémio”

A. RIBEIRO DOS SANTOS

Amado pelo público, respeitado pelos colegas e admirado por todos. Aos 95 anos, Ruy de Carvalho já não consegue enumerar todos os prémios e distinções que acumulou ao longo de uma vida dedicada à representação, mas continua, humilde como sempre, disponível para fazer “o que quiserem que faça”. Não faz tenção de parar e garante que continuará a pisar os palcos e a ser presença no pequeno ecrã enquanto houver convites para tal. E eles não têm faltado. A voz, a presença, a sensibilidade deste intérprete são garantia de qualidade

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para cada projecto e do interesse do público, que cada vez o aplaude com mais entusiasmo. Nascido em Lisboa, a 1 de março de 1927, Ruy de Carvalho estreouse no teatro ainda como amador, com apenas 15 anos, no Grupo da Mocidade Portuguesa, numa encenação de mestre Ribeirinho, que Portugal recorda como uma figura querida da época de ouro do cinema nacional. Foi um início auspicioso, e gostou tanto da experiência que foi para o Conservatório Nacional e em 1950 terminou, com 18 valores, o Curso de Teatro/Formação de Actores.

Mas antes do fim do curso, já tinha feito a estreia profissional, no palco do Teatro Nacional D. Maria II. O mesmo palco onde se consagrou, em 2007, quando completou 60 anos de carreira e encarnou o protagonista do clássico “Rei Lear”, de Shakespeare. Ao longo de 80 anos tem feito de tudo na representação: teatro, televisão, teatro radiofónico, cinema. Em 1955, e após nove anos de namoro, casou com a primeira e única namorada, o grande amor da sua vida, Ruth, com quem esteve casado até à morte desta, em 2007. Uma mulher que o completava,


VERA MARMELO

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como frequentemente explica em entrevistas, e que um dia espera reencontrar, numa outra dimensão. Homem de família convicto, Ruy de Carvalho costuma dizer que “a família deve ser sempre uma peça fundamental na vida de qualquer pessoa”. Com Ruth teve dois filhos – Paula, jornalista, e João, actor. Vieram depois os netos, entre os quais Henrique de Carvalho, uma grande promessa do teatro português e que partilha com o avô traços fisionómicos distintivos. Já teve vários sustos de saúde, mas conseguiu ultrapassar todos,

incluindo um tumor maligno na próstata e dois na bexiga. Mesmo assim, diz que não tem medo da morte, mas também não tem pressa para partir e em todas as entrevistas que dá garante que vive “intensamente”. A morte, essa, chegará quando tiver de ser, e nem um dia mais cedo. Até lá, enquanto o corpo permitir e a memória – que o orgulha – se aguentar, continuará a trabalhar, com o mesmo empenho de sempre. Definir o que faz com que um actor se distinga de todos os outros não é fácil. Ruy de

Carvalho diz que “é preciso ter jeito”. Uma qualidade que sabe possuir. O resto, fazem-no o trabalho, o esforço, a dedicação. De cada vez que lhe atribuem um papel, grande ou pequeno, estuda-o profundamente, até à exaustão. E fá-lo com espírito de missão. Como explicou em entrevista ao programa “Alta Definição”, da SIC, o que mais deseja é sentir-se útil à sociedade. “Ser actor é um serviço, e as palmas são o melhor prémio.” l

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PERFIL

vitorino nemésio e natália correia

Vitorino Nemésio e Natália Correia – açorianos, escritores e algo mais

URBANO BETTENCOURT

Vitorino Nemésio (1901-1978) e Natália Correia (1923-1993): dois (de muitos) autores que tiveram de sair da ilha para cumprir-se como cidadãos e como escritores também. Provenientes de diferentes ilhas (Terceira, S. Miguel, respectivamente), eles atestam o sentido de fuga e dispersão inscrito na história açoriana como um signo, uma sina concretizada em rumos divergentes; neste caso, para Leste, um destino minoritário, porque o grande pólo de atracção ( para grandes camadas do povo açoriano) sempre ficou a Oeste: primeiro o Brasil (desde muito cedo) e depois os Estados Unidos da América, especialmente as “Califórnias perdidas de abundância” (Pedro da Silveira), que se tornaram a figuração material da Terra da Promissão. Não admira, pois, que no imaginário literário açoriano, a Atlântida ocupe um espaço residual – autores e leitores sabem que a felicidade há-de encontrar-se para diante e no futuro (mesmo que algumas personagens só atinjam o paraíso americano

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depois de atravessar o seu inferno). Definitivamente desenraizado, Nemésio construiu uma obra em que a ilha à distância (“Ah, ovo que deixei, bicado e quente, / Vazio de mim, no mar, / E que ainda hoje deve boiar, ardente / Ilha…”) se tornou o núcleo central de boa parte da sua escrita, enquanto objecto evocado ou metáfora no âmbito da reflexão sobre a condição humana em geral. No campo da lírica intimista (e já mesmo no seu livro escrito em francês), da narrativa ficcional, da crónica e do ensaio, os Açores entraram na sua obra como realidade territorial e social sucessivamente retomada e reformulada. Sem que isso colidisse com o seu estatuto de intelectual e escritor atento à literatura e à cultura do mundo por onde andou (especialmente Europa e Brasil) e que na sua obra encontraram acolhimento e “resposta” escrita. Em 1932, e em dois textos diferentes mas com o mesmo título, Nemésio cunhou o termo “Açorianidade”, com que quis sintetizar um particular modo de ser do homem açoriano, da sua visão do mundo, moldado pelo tempo e pelo

espaço (a história e a geografia), num contexto geral de distância e isolamento atlântico. Independentemente dos muitos textos e ocasiões em que pôde explanar a sua noção de açorianidade, há duas obras em que, de modo mais directo ou menos directo, Nemésio deixou elementos para a compreensão do conceito e daquilo a que podemos chamar o seu “pensamento insular”: “Corsário das Ilhas” (1956), um excelente livro de “revisitação” fluida e divagante dos Açores, e “Mau Tempo no Canal” (1944). “Mau Tempo no Canal” é o romance da açorianidade enquanto experiência do universo insular em articulação com o mundo exterior. Sobre a moldura do tempo de finais da Primeira Grande Guerra Nemésio constrói uma história de amores contrariados, em que entretece o retrato da cidade da Horta em 1918 com a história política, social e geológica das ilhas. Memória e facto, realidade e símbolo, texto literário e documento funcional, cultura erudita e popular cruzam-se numa obra compósita que é um romance de espaço (centrado nas ilhas do


Faial, Pico e S. Jorge, com reenvios a outras e um epílogo na Terceira) e da sua influência sobre o homem, mas é igualmente o romance de uma personagem – Margarida Dulmo, uma personagem de excepção, tão próxima do seu contexto social (uma aristocracia decadente e hipotecada já aos descendentes de uma linhagem de comerciantes ingleses instalados na ilha um século antes, ambas hipotecadas, finalmente, ao pequeno industrial de S. Jorge, barão queijeiro por obra e graça dos serviços eleitorais prestados ao liberalismo), mas ao mesmo tempo suficientemente afastada dele para poder observá-lo de forma lúcida e criticá-lo. Em Margarida Dulmo, Nemésio polariza a tensão (o conflito) entre o apego, o amor à terra e o desejo de partida e de viagem. E essa polaridade marca, afinal, uma parte substancial da expressão poética de Natália Correia. É muito provável que a escritora tenha sido vítima da figura pública, da ‘persona’ que ela mesma criou e cultivou, transbordante e excessiva. E

que a sua intervenção cívica, anterior e posterior a Abril de 1974, tenha por vezes relegado para um plano de penumbra uma obra extensa e diversificada, da poesia ao romance, à novela e ao texto dramático, da crónica ao ensaio. E, no entanto, importa referir que o combate de Natália pela democracia e pela liberdade passou muito por algumas das suas obras, ao desafiar os poderes instituídos, num tom não raro oscilando entre o do tribuno e o do profeta, e ao denunciar noutros casos o mal do mundo como causa do seu nascimento poético: “Eu nasci de haver /os bairros da lata…”. Esse olhar sobre o mundo não se limitará ao universo português e às imagens da Europa e dos seus mitos, mas projectar-se-á sobre América, na crónica de viagem que, por contraste, lhe permitiu descobrir a sua identidade (Descobri que era europeia,1951). Numa dimensão mais pessoal e subjectiva, a voz poética de Natália sublinhará a relação com a “ilha ao longe”, a ilha matricial, tão presente e íntima no seu último livro, “Sonetos

Românticos” (1990), enquanto evocação e transfiguração simbólica em “centro místico” de onde se arranca em busca de uma nova espiritualidade – enunciada já num livro como “O Dilúvio e a Pomba” (1979) em que a açorianidade ganha sentido com o reenvio à espiritualidade popular em torno do Espírito Santo. E justifica-se assim a deriva poética entre o espaço originário e o território de exílio: “… sempre a chegar a Lisboa / e sempre a ficar na ilha.” Essa ilha exclusiva, matéria íntima (“em rigor só a há uma ilha, a minha, meu mistério…”) constituirá sempre um reduto último contra o desenraizamento e a experiência da Babilónia urbana. Duas vozes pessoais e não replicáveis, Nemésio e Natália concretizam um modo literário de ser açoriano em que a experiência do mundo não perdeu de vista a ilha, lugar de representações e objecto de sucessivas e renovadas reformulações. l (A obra poética de Natália Correia encontra-se reunida em “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, 2 vols.)

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INSTITUIÇÕES

CCB: uma “Cidade Aberta” para o mundo UM GRANDE COMPLEXO ARQUITECTÓNICO E UMA DAS MAIORES OBRAS PÚBLICAS DO ESTADO PORTUGUÊS DO SÉCULO XX, QUE TEM COMO OBJECTIVO A DIVULGAÇÃO DA CULTURA NAS MAIS VARIADAS EXPRESSÕES ARTÍSTICAS E O ACOLHIMENTO DOS MAIORES EVENTOS INTERNACIONAIS. ESTE FOI O DESÍGNIO INICIAL E ESSE SERÁ O DESÍGNIO DE SEMPRE DO CENTRO CULTURAL DE BELÉM (CCB).

ANA VAL ADO

A 21 de Março de 1993 foi inaugurado na capital portuguesa um projecto que marcou uma nova forma de “olhar” para a cultura. Numa época em que a oferta na área da cultura era escassa nasce o Centro Cultural de Belém (CCB), na época contestado por muitos devido à sua localização, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, monumento do século XVI classificado como Património Mundial pela UNESCO, e às linhas “despojadas e monolíticas” escolhidas para o edifício. “Na segunda metade dos anos 1980, Lisboa, exceptuando a Fundação Calouste Gulbenkian, não tinha um centro cultural, nem um centro de congressos, de escala e dimensão internacional, à medida de

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uma capital europeia. À visão e ao empenho do então ministro Luís Valente de Oliveira se deve a ideia e o desígnio prioritário do governo, no desenvolvimento do projecto e da construção deste Centro Cultural de Belém”, conta Elísio Summavielle, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Centro Cultural de Belém (FCCB). Acrescentando que: “A presidência europeia de 1992 foi a meta estabelecida para a sua abertura, cujos preparativos, com o concurso internacional de arquitectura e a posterior construção do imóvel, se iniciaram em 1986.” O CCB marca o início de uma nova era cultural na cidade e no país, de abertura e cosmopolitismo, de valorização da cultura. “Esse processo de internacionalização evoluiu muito a partir de então, com a Lisboa-94 (Capital Europeia

da Cultura), com a Expo-98, e com tudo o que veio a acontecer depois. A presença do CCB fez esse novo mapa”, refere. A esmagadora maioria das opiniões críticas e negativas relativas ao projecto do CCB esvaíram-se ao longo do tempo. Conforme relembra Elísio Summavielle: “Pessoalmente, tive o privilégio de acompanhar de perto a preparação do concurso de arquitectura, e o sequente processo, enquanto exercia funções técnicas no então IPPC (Instituto Português do Património Cultural). Nunca partilhei as opiniões negativas dominantes relativamente ao lugar e ao projecto vencedor, antes pelo contrário, assim que tive conhecimento do desenho de Vittorio Gregotti (com Manuel Salgado), percebi que se tratava de uma arquitectura de excelência, resultante de um


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perfeito entendimento do lugar onde se implantou. Hoje, o CCB está legalmente protegido, está classificado como Monumento de Interesse Público, e não tenho qualquer dúvida em afirmar que será decerto o melhor projecto público construído após a revolução de 25 de Abril.” Conhecendo o edifício em toda a sua dimensão, nos seus 100 mil metros quadrados, pode repararse que se trata de uma pequena cidade, ortogonal, quase pombalina no conceito, com uma via principal e ruas laterais de confluência. “O Mestre Gregotti referiu-o uma vez, numa entrevista, como ‘Cidade Aberta’, e o CCB é isso de facto: um ponto de confluência de todas as artes, de toda a cultura, da inovação, dos grandes eventos culturais, políticos e corporativos, enfim, um lugar de excelência

para todas as manifestações de modernidade”, refere orgulhoso o Presidente, que este ano inicia o seu terceiro mandato à frente da instituição. Em 2007, o Centro de Exposições do CCB encerrou para acolher o Museu Colecção Berardo, com as peças cedidas ao Estado pelo coleccionador e empresário José Berardo. “Este Centro de Exposições é o maior espaço expositivo do país, e tem capacidade para acolher não só a Colecção Berardo, como também outras importantes colecções de arte contemporânea do país”, sublinha o responsável. Na opinião de Summavielle, Portugal já tem uma importante rede de equipamentos culturais, modernos e modernizados, que interessa agora alimentar e potenciar com os recursos

disponíveis. Além do apoio estatal, o decisivo e crescente investimento que o poder local tem feito na área da cultura nas últimas décadas tem sido decisivo. “Assim, se somarmos o investimento estatal e o investimento local é possível compreender a manifesta vitalidade da cultura no nosso país. É preciso saber articular e conjugar politicamente esses dois factores de financiamento, de promover um necessário esforço de optimização da oferta, visando a justa visibilidade futura de uma rede existente, e com grande potencial”, evidencia. Depois de ter acolhido em 1992 a primeira Presidência Portuguesa do então Conselho das Comunidades Europeias, o CCB voltou a instalar a Presidência Europeia de 2021 no Centro de Congressos e Reuniões do CCB. “Este contrato, preparado

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e assinado anteriormente ao período da pandemia, foi decisivo para que houvesse um mínimo de sustentabilidade na Fundação CCB, e dos seus cerca de 150 colaboradores, num período particularmente crítico das nossas vidas, de enormes sacrifícios”. Para o próximo ano, o CCB comemora 30 anos, marcados de grandes momentos e da maior pluralidade de acontecimentos culturais. “Houve uma nova área em que apostámos no período ‘prépandemia’, e que não era marca

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habitual na vida do CCB, mas que veio a revelar bastante sucesso na afluência de público – o cinema”, adianta o responsável. “Iniciámos o projecto Belém Cinema partindo da enorme nostalgia que o público tem das grandes salas de cinema que, infelizmente, desapareceram do mapa. O sumptuoso Grande Auditório do CCB, com o seu excelente equipamento de projeção, é um lugar privilegiado para sentirmos a magia do cinema, e esgotou por diversas vezes a sua lotação com a passagem periódica de alguns grandes clássicos, e isto acontece em contraciclo do que infelizmente vai sucedendo nas pequenas salas da cidade”. Relativamente ao futuro, está

prevista a construção de um hotel de luxo e de uma área comercial no CCB durante os próximos anos, o que se tornará muito importante para a sustentabilidade futura desta Fundação, para que ela possa viver com maior desafogo financeiro e menos dependente dos dinheiros públicos. No entanto, depois de uma pandemia mundial, e agora com a Guerra da Ucrânia, com todos as consequências nefastas para a economia, o então presidente do CCB vai prudentemente aguardar que os cenários negativos se dissipem no quadro de uma maior estabilidade empresarial para que a FCCB obtenha o melhor sucesso nesta operação.

C C R : U M E S PAÇ O D E E L E I Ç ÃO N A C I DA D E D E L I S B OA O Centro de Congressos e Reuniões (CCR) faz parte de um complexo único, que é o Centro Cultural de Belém, uma “Cidade Aberta” com ruas, praças, jardins, salas e auditórios. De acordo com Madalena Reis, vogal do Conselho de Administração do CCB, este espaço está vocacionado para todo o tipo de eventos e já se afirmou como um espaço de eleição na cidade de Lisboa. “A atividade que desenvolve é fundamental para o apoio financeiro do projecto cultural do CCB”, acrescenta. A sua localização privilegiada permite que qualquer janela ou terraço do CCB seja um autêntico “cartão postal” do melhor que Lisboa oferece. “O CCR foi pensado de raiz para oferecer diferentes tipologias de salas, ‘foyers’ e auditórios, capazes de se articular e complementar entre si, para acolher todo o tipo de eventos e reuniões. Além de um rigoroso trabalho de manutenção e renovação dos espaços e do edifício, o CCB tem apostado sempre em instalar e oferecer soluções digitais que deem conforto aos clientes e proporcionem uma boa experiência durante o evento, nomeadamente através eventos híbridos, eventos 100% digitais e com a componente ‘streaming’. A preocupação ambiental está presente nas tecnologias e na eficiência energética que utilizamos nos nossos eventos, minimizando a pegada ecológica”, explica a responsável pelo CCR. Questionada pelos principais marcos ao longo destes quase 30 anos de existência, Madalena Reis conta que: “O Centro de Congressos e Reuniões foi inaugurado com a Presidência

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Portuguesa da União Europeia em 1992, e em 2021 voltou a acolher a PPUE, o que atesta a qualidade do espaço e a adaptabilidade das equipas e das soluções técnicas, para acolher eventos desta envergadura à data de hoje.” Salientando também muitos eventos que merecem destaque ao longo de quase 30 anos, como o lançamento mundial do Alfa Romeo 156, várias edições do Rally Lisboa Dakar ou o encontro da Cultura com Sua Santidade o Papa Bento XVI. Mas há tantos outros eventos de grande, pequena e média dimensão que trouxeram até ao CCB empresas e marcas como a Google, Porsche, JWThomson, Santander, Apifarma, Linklaters, Delta, Red Bull ou a NOS Lusomundo, que muito nos honram e que trazem ao CCB eventos”. Quanto a projectos futuros para o CCR, a vogal do Conselho de Administração do CCB refere que o CCB tem tido uma aposta forte na componente digital, e há três anos lançou o programa de transformação digital intitulado “CCB Cidade Digital”, transversal a toda a instituição, e com um impacto muito positivo no Centro de Congressos e Reuniões, pois dotou-o de mais meios e soluções que vão ao encontro das necessidades dos clientes e apresentam propostas de vanguarda. Mafalda Reis conclui que: “No futuro continuaremos a apostar nesta frente de trabalho, e também nas áreas de Sustentabilidade (ESG) pois queremos continuar a implementar soluções de eficiência energética, na renovação e adequação das salas, melhorias nas acessibilidades, e também incorporação de um projecto de responsabilidade social, a Cafetaria Único, que abrirá ao público em Junho deste ano.”


À CONVERSA COM...

E L Í S I O S U M M AV I E L L E , P R E S I D E N T E D O C O N S E L H O D E

©GONCALO BORGES DIAS

A D M I N I S T R AÇ ÃO DA FCC B

Este ano assume o terceiro mandato à frente do CCB. Que balanço faz dos dois mandatos anteriores? Quais os principais desafios e conquistas? Na verdade, até há poucas semanas já tinha dado por findo o meu ciclo na FCCB. Por um lado, sou favorável a uma limitação de mandatos para os dirigentes das instituições, e a bem dessas mesmas instituições. Por outro lado, em dois mandatos sinto ter cumprido os meus objectivos iniciais, a obtenção de um importante reequilíbrio financeiro e de estabilidade interna na Fundação, face à realidade tão complicada que encontrei em 2016, e sem que tenha sido necessário pedir mais ao Estado do que aquilo que contratualmente o Estado oferece à Fundação. Conseguimos atingir excelentes patamares de público nos nossos espectáculos, e de clientes corporativos em 2019. Também foi obtido sucesso no processo de legitimação e legalização dos terrenos do CCB, de modo a que se abrissem as portas à conclusão do seu projecto inicial. Só que, a vida tem destas coisas, ao contrário do que tinha planeado para mim próprio, fui surpreendido pelo facto do novo ministro da Cultura ser quem é, e me ter honrado com o convite para continuar por mais três anos as minhas funções. E tratando-se de alguém que muito prezo e admiro, não consegui recusar o convite. Como sempre fiz nestes 42 anos de serviço público que já levo comigo, darei sempre o melhor que saiba e que possa fazer. Assim eu tenha a saúde necessária, porque desafios nunca faltarão nesta casa. E assim o mundo e o país permitam que o tempo futuro venha a propiciar que o CCB obtenha o lugar que merece no universo destas organizações. Aqui estamos sempre em construção, o CCB é uma cidade maravilhosa.

Falou-nos da conclusão do projecto inicial do CCB. Sabemos que está prevista a construção de um hotel de luxo e de uma área comercial. Quer falar-nos um bocadinho deste projecto? Os três anos do meu primeiro mandato foram exercidos, também, com o objectivo estratégico de se conseguir concluir o projecto inicial do CCB, dos arquitectos Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, com a construção dos módulos 4 e 5 (hotel e centro de comércio e serviços). A concretização desse objectivo, e os proventos futuros que dele virão, serão muito importantes para a sustentabilidade futura desta Fundação, para que ela possa viver com maior desafogo financeiro e menos dependente dos dinheiros públicos. Foram necessários esses três primeiros anos, uma verdadeira “via sacra”, para que a complexa questão dos terrenos ficasse finalmente resolvida. Logo a seguir, em finais de 2018, lançámos o procedimento internacional para a subsessão do direito de superfície dos terrenos, com vista à construção e exploração dos referidos módulos. Só que a nefasta realidade da pandemia Covid veio a acontecer em plena fase de negociação contratual com o candidato do concurso, e depois, obvia e compreensivelmente, essa conjuntura tão negativa fez com que a negociação não chegasse a bom termo, com a desistência do consórcio candidato. Acresce agora um novo facto, e partindo do princípio de que a crise pandémica está a terminar, que se traduz nos efeitos sentidos pela guerra na Ucrânia, na economia, nos preços e na construção. Será prudente, e preferível agora, aguardar por mais um período de tempo que os cenários negativos se dissipem no quadro de uma maior estabilidade empresarial, para que a FCCB retome esse seu desígnio maior e obtenha o melhor sucesso nessa operação. Como é que os efeitos da pandemia se reflectiramnaalteraçãodoshábitos culturais do público?

Foram momentos dramáticos que atra- vessámos, que muito condicionaram (e ainda condicionam) a vida do CCB, mas que todos desejamos superar futuramente. É óbvio que é muito desagradável para qualquer pessoa assistir a um espectáculo com máscara, e mesmo no período pós confinamento sofremos um decréscimo significativo de público nos nossos espectáculos. Por outro lado, tivemos a oportunidade de iniciar a oferta de espectáculos em ‘streaming’, no âmbito do projecto que vamos desenvolvendo, a que chamamos “Cidade Digital”, e essa foi uma aposta positiva, importante, de continuidade. Mas sejamos optimistas, o regresso a uma normalidade que todos desejamos ardentemente, irá certamente fazer aumentar os números de público, e fazer- nos retomar os índices francamente positivos de 2019. Como classifica a oferta cultural do nosso país relativamente a países estrangeiros? O que Portugal está a fazer de bem e de mal nesta área? Não comungo de um coro ‘mainstream’ choroso e negativo, relativamente à nossa realidade cultural. A nossa democracia construiu uma geração de artistas de excepção, em todas as áreas, uma geração formada em escolas e universidades que não existiamnopaísantesdademocracia. Temos músicos de excelência, que brilham nas grandes orquestras de todo o mundo, temos grandes actores, encenadores, coreógrafos, cineastas, artistas plásticos. Creio que o essencial agora é, sobretudo, uma questão de organização efectiva do sector, de rigor, de compromisso, e de trabalho em rede, que possa acabar com esse lado tão culturalmente negativo, por vezes dominante, essa tristonha realidade dos “quintalinhos”, das invejas, e dos conflituantes grupos de interesse. O dinheiro será sempre necessário, mas não resolve muito do essencial das coisas. l

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“Na Culturgest continuamos à procura de inovar, de outras maneiras de contar histórias, de nos ligarmos ao público” A MEIO DO SEGUNDO MANDATO COMO DIRECTOR ARTÍSTICO E ADMINISTRADOR DA CULTURGEST, FUNDAÇÃO DA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS, MARK DEPUTTER, 61 ANOS, CONTINUA A COLOCAR A CRIAÇÃO CONTEMPORÂNEA NO CENTRO DA MISSÃO INSTITUIÇÃO, HÁ QUASE 30 ANOS A MUDAR O TECIDO ARTÍSTICO DA CIDADE DE LISBOA. COM UM ORÇAMENTO ANUAL DE CERCA DE 4,5 MILHÕES DE EUROS, O DESAFIO É CONTINUAR A ALARGAR E DIVERSIFICAR OS PÚBLICOS.

Está na Culturgest desde 2018, no segundo mandato. Como olha para os últimos quatro anos? A Culturgest foi criada em 1993, na altura em que se construiu a sede da Caixa Geral de Depósitos. A direcção da Caixa, sobretudo por impulso do Doutor Emílio Rui Vilar, decidiu instalar dentro do edifício um centro de artes. Desde o início é muito claro o que se quer deste centro. Quando a Culturgest é criada como um centro de arte contemporânea, com um foco nas linguagens de criação contemporânea, é logo imaginado como um espaço multidisciplinar. Tem um perfil bastante definido, nestes 28, quase 30 anos, uma marca consolidada...

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E uma identidade. Sim, uma identidade, um perfil muito claros. Fui convidado, na altura da minha candidatura, para continuar este perfil. Alguns dos objectivos foram, por um lado mantê-lo, por outro ir à procura de um público mais alargado. Por que é que isso foi um objetivo? Quando a Culturgest foi criada, as linguagens de criação contemporânea eram bastante minoritárias. Na altura, foi um apoio importante a iniciativas artísticas que se começavam a formar. Por exemplo, a Culturgest teve um papel importante na história da nova dança portuguesa, ao apoiar uma série de coreógrafos.

O mesmo nas exposições: a Culturgest, aliás, é uma das poucas galerias completamente dedicadas à arte contemporânea em Lisboa. Há outras mais pequenas, que também têm esse papel, mas menor dimensão. E menor visibilidade. Essa ideia de visibilidade, juntado ao facto de que estas linguagens se foram consolidando e uma série de artistas começaram a criar o seu próprio público, a Culturgest, com a visibilidade que tem, com as infraestruturas que tem (uma sala grande, galerias relativamente grande), e com a história que já tem, está no ponto em que podemos realmente trabalhar no aumento dos públicos.


VERA MARMELO

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E N T R E V I S TA MARK DEPUTTER, DIRECTOR ARTÍSTICO E ADMINISTRADOR DA C U LT U R G E S T

RAQUEL RIBEIRO

Que públicos são esses e como se chega até eles? A Culturgest, estando associada a um banco e num espaço bastante imponente, pode afastar públicos que não estejam habituados à linguagem, à dimensão. Absolutamente. De facto, o edifício assusta um pouco. Foi construído para ser imponente e tem um impacto grande. Sempre pensei que deveríamos utilizar esta grandeza e esta escala a nosso favor e não tentar esconder isso. Uma das coisas que decidi logo foi apostar em iniciativas de grande dimensão. Quando há muita gente, como no Indie ou no Doclisboa, esta grandeza tornase uma qualidade: as pessoas

encontram-se, há uma atmosfera festiva. Temos também melhorado o próprio ambiente: criámos um novo visual, estamos a trabalhar nos espaços. Temos uma livraria muito boa que é pouco conhecida. Vamos trazê-la para a entrada da Culturgest, um espaço amplo, para ter ali a oferta de uma cafetaria também. Outras iniciativas para facilitar o acesso das pessoas foram os espetáculos ao ar livre: lançamos o festival Inside Out no verão passado e é algo que vamos continuar. Também criamos o Dia Estudante, com entrada gratuita, especificamente pensado para o público universitário porque há imensos estudantes em Lisboa que nem sempre conhecem o

caminho para os centros culturais. Desenhamos um plano de comunicação baseado no digital: temos um novo ‘website’ e uma comunicação digital com muito conteúdo editorial, microsites sobre projectos, vídeos, ‘podcasts’, uma revista sonora ‘online’, visitas guiadas virtuais. Por fim, temos feito muito trabalho no acesso da população de origem africana que vive em Lisboa, que é importante, e colaborações com associações, organizações e investigadores. Públicos muitas vezes excluídos geográfica ou culturalmente de instituições no centro da cidade. Precisamente. E também fazemos o mesmo pela acessibilidade

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VERA MARMELO

PEDRO ROCHA

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de pessoas com deficiência. O edifício estava planeado para as receber, segundo normas legais, mas de 1993. Ao longo dos anos as expectativas e as exigências mudaram e continuamos a trabalhar no desenvolvimento desse trabalho. É director artístico mas também administrador. Como é que as duas funções se articulam? É uma relação que vai nas duas direcções, é uma sinergia. De um lado, para a Caixa a Culturgest é uma entidade importante porque dá corpo à ideia de responsabilidade social. Quando a Culturgest foi criada, ainda era algo inovador pensar que um banco poderia investir na cultura desta forma. Hoje é geralmente aceite e até esperado que grandes instituições e grandes empresas tenham uma política de responsabilidade social. Por outro lado, a Caixa faz com

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que a Culturgest continue a funcionar. O nosso Conselho de Administração é composto por mim e pessoas da Caixa. Em termos de programação há uma liberdade total, porque não há interferência. Isto é algo que a Caixa manteve sempre desde o início. Obviamente, há uma série de expectativas em termos de retorno. A Caixa vê com bons olhos o nosso objectivo de alargar públicos e há uma série de expectativas na gestão, em diminuir despesas fixas, que temos conseguido ao longo dos últimos cinco anos, sem diminuir as atividades. Com quase 30 anos, qual é hoje o papel da instituição na cidade? A oferta cultural de Lisboa tem vários ‘players’, instituições pequenas, grandes, específicas, abrangentes, em termos de programação, mais ou menos ‘mainstream’. Quando pensamos o papel de um centro cultural é sempre importante olhar para o seu contexto. A Culturgest

faz bem, acho, em manter a sua especificidade, a sua oferta dentro da ideia da contemporaneidade e poder ser o lugar onde fazemos um ‘mainstreaming’ de propostas artísticas, de linguagens artísticas que, à partida, não são assim tão conhecidas pelo público, de boa qualidade e que que podem ser desfrutadas por um público muito maior. Desde a crise, muitos dos nossos criadores, por razões financeiras, tiveram que fazer durante anos peças muito pequenas, com dois, quatro intérpretes, sem cenário. Ter esta infraestrutura disponível e também mais meios dá-nos a possibilidade de investir nestes criadores portugueses, dar-lhes a possibilidade de criar para palcos maiores, para públicos maiores. A ideia é continuar a ser uma plataforma onde se podem apoiar formas com mais visibilidade, não deixando de apostar em propostas de criação contemporânea, que procuram inovar, procuram novas linguagens, outras maneiras de contar histórias, de se ligar ao público. l


Um bairro vibrante e cosmopolita, onde a arte é a peça central.

Venha conhecer o sítio onde se vive cultura. Prata Riverside Village. No coração de Marvila, vive o Prata Riverside Village, um bairro cosmopolita e vibrante, onde a tradição casa com a modernidade. Um bairro com lojas de arte, galerias, ateliers de trabalho e exposições, mas também com jardins interiores, espaços verdes e de lazer. Um bairro com uma luz única e uma ligação ímpar ao Tejo, onde pode desfrutar da nova marginal ribeirinha. Um bairro onde a própria arquitetura é uma obra de arte, com o único projeto de Renzo Piano em Portugal. Venha viver o bairro da arte. Esperamos pela sua visita.

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Aqui, a Arte e os Artistas estão num porto seguro A IDEIA COMEÇOU A GERMINAR EM 1991, POR CAUSA DO DESAFIO LANÇADO POR SETE PINTORES ANGOLANOS QUE TINHAM, UM ANO ANTES, EXPOSTO OBRAS SUAS, DANDO CORES VIVAS AO 12.º ANIVERSÁRIO DA ENSA. A COMPANHIA DE SEGUROS ANGOLANA TEM, NO SEU ADN, UM GENE QUE A FAZ GOSTAR DE ACARINHAR AS ARTES PLÁSTICAS E OS ARTISTAS. CRIAR UM PRÉMIO ANUAL PARA HOMENAGEÁ-LOS FOI UM PASSO NATURAL. E ASSIM NASCEU O ENSA ARTE, QUE VEM CRESCENDO ATÉ HOJE, MESMO COM OS PERCALÇOS DO CAMINHO, PROMOVENDO O MELHOR DAS ARTES PLÁSTICAS EM ANGOLA E MUITOS TALENTOS.

Começou por ser uma ideia de sete pintores angolanos, em 1990, e hoje é muito mais do que um prémio de artes plásticas: é uma instituição, uma homenagem à angolanidade e um ponto de encontro de experiências e tendências, que promove e desenvolve as artes e os artistas nacionais, projectando o seu nome e criatividade no País e no exterior. É tudo isto o Prémio ENSA Arte, mas mais ainda: ao longo dos anos, a iniciativa da companhia de seguros líder em Angola permitiu a constituição de um acervo com cerca 225 obras que, um dia, mais ou menos breve, serão expostas num espaço com a dignidade que é devida à mostra das grandes colecções de arte. À PRÉMIO, Augusto Tito Mateus, assessor de Direcção da ENSA Seguros de Angola e um dos rostos mais conhecidos do ENSA Arte,

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RICARDO DAVID LOPES

explica que este é, ainda hoje, o único concurso de artes plásticas existente em Angola de nível nacional, uma iniciativa levada a cabo anualmente, por ocasião do aniversário da companha de seguros, a 15 de Abril. A pandemia de Covid-19 obrigou a que, no ano passado, decorresse ‘online’, após um ano de interrupção – pelo mesmo motivo. Antes, apenas a Guerra Civil colocara um parenteses na causa. “A iniciativa deste prémio surgiu de uma exposição de sete pintores angolanos, em 1990 – Viteix, Henrique Abranches, Augusto Ferreira, Jorge Gumbe, António Ole, Telmo

Vaz Pereira e José Zan Andrade, comissariada por Viteix, no âmbito das comemorações do 12.º aniversário da ENSA”, recorda Augusto Tito Mateus. Foi então que surgiu “a ideia de instituir um prémio que traduzisse a vontade da empresa de contribuir para a elevação da consciência e da cultura nacionais e que incentivasse a criatividade dos artistas angolanos que, mesmo em condições adversas, continuaram, ao longo dos últimos anos, a desenvolver a sua actividade, prossegue o responsável. E foi assim que foi instituído o Prémio ENSA de Pintura, em 1990, cuja primeira edição teve lugar em Abril de 1991. Foi vencedor o renomado pintor Vitor Teixeira (Viteix), com a obra “Banda Jazistica”, que lhe valeu ainda uma deslocação a Londres, a convite da Jardine Insurance Brokers. Nesta primeira edição, foi vencedor do segundo prémio o pintor Kyel (“3987”).


FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PEL A ENSA GRANDE PRÉMIO PINTURA 1º CLASSIFICADO SIMÃO ANDRÉ SEBASTIÃO | PERDIDOS

Com o advento da Guerra Civil, o projecto ficou suspenso, entre 1992 e 1995, sendo retomado em 1996, já como ENSA Arte, com novo regulamento e com abertura para integrar outras disciplinas, na altura, a escultura, que se mantém até hoje. “De então para cá, o ENSA Arte foi evoluindo em termos de regulamento e de artistas, e começam a criar-se as diferentes categorias: o Grande Prémio (primeiro e segundo lugares), o Prémio Juventude – que fez “surgir” nomes como Fineza Teta, ou Hildebrando de Melo, entre muitos outros, que começaram a ganhar notoriedade graças a esta iniciativa”. E foi também então que a ENSA começou a enriquecer o seu acervo,

com as obras premiadas a reverterem a favor da Companhia, juntando-se a outras que, por um motivo ou por outro, não tendo sido premiadas, a empresa adquiriu. Caminhar de mãos dadas “A ENSA sempre deu a mão e fez o seu trabalho com os artistas, ouvindo-os, ajudando-os, na ausência de uma Lei do Mecenato. A ENSA sempre integrou esta perspectiva na sua gestão”, refere Tito Mateus, que dá conta das “tonalidades” deste apoio às artes e a quem as produz e cria. “Não se trata de apoio directo. É uma questão de Responsabilidade Social que a empresa vem assumindo para com as artes e os artistas plásticos, premiando as obras e os seus

autores, não apenas do ponto de vista monetário, mas ainda com a oferta de ‘kits’ de pintura e escultura, com materiais que nem sempre abundaram ou abundam, ainda hoje, em Angola”, prossegue o assessor. No fundo, resume-se assim: “É uma questão de incentivar”. E o caminho, garante Tito Mateus, foi feito ladoa-lado, de mão dada com os artistas plásticos, que foram sendo ouvidos – não tivessem sido eles quem, afinal, lançou o desafio, já lá vão mais de 30 anos. “As melhorias nos regulamentos, por exemplo, foram sendo introduzidas ouvindo os artistas, as suas preocupações, aspirações, contributos”, afirma. O número de obras candidatas tem, em regra, vindo a subir de ano para ano, mais na pintura, diz o responsável, dando mais trabalho ao júri que, no mês de Janeiro, dá início à selecção das que ficam, anónimas - isto é, sem que os seus próprios elementos saibam de quem são - para análise. “A profissionalização do júri tem sido notória e decisiva para a qualidade e afirmação do ENSA Arte, com a inclusão de elementos de elevado valor, de áreas distintas”, destaca Tito Mateus. A lista de membros, ao longo dos anos, é extensa, pelo que seria sempre injusto excluir alguém pessoalmente, mas dela fizeram

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E S P E C I A L C U LT U R A

INSTITUIÇÕES

G R A N D E P R É M I O D E E S C U LT U R A 1.º CLASSIFICADO GRANDE PRÉMIO DE PINTURA 1.º CLASSIFICADO

ou fazem parte ilustres escritores, antropólogos, artistas plásticos, académicos, historiadores, críticos de arte, jornalistas, dramaturgos, actores, argumentistas, poetas, curadores, etc. Ser notado Ganhar o Grande Prémio é, naturalmente, o sonho de todos. Mas, mesmo os que não levam troféus para casa, só por participarem, acabam por ser, de alguma forma, vencedores. “A simples participação traz-lhes notoriedade, reputação, as suas obras ganham projecção, são valorizadas. E os artistas podem ser agenciados, o que irá abrir-lhes portas”, sublinha Tito Mateus. O ENSA Arte ajudou a catapultar para a ribalta, dentro e fora de Angola, nomes que, hoje, poucos desconhecem. “O Cristiano Mangovo, que está agora em Inglaterra, vendia no Deskontão [supermercado no Nova Vida, arredores de Luanda]”, recorda o responsável que, por várias vezes tem representado a seguradora no júri. “Na altura, ninguém dava muito pelas obras do Mangovo, os seus preços eram módicos… hoje, vende em libras”. Também Guilherme Mampuya ganhou nome por via do ENSA Arte. “Ele vendia na Praça do Artesanato, foi

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primeiro prémio em 2006, e hoje é um artista de renome internacional”, conta. Evolução e inovação são os “nomes do meio” do ENSA Arte, que hoje se assume como “uma instituição”. Em 2010, deu-se início a uma parceria, que perdura até hoje, com a Alliance Française, que tem levado a residências artísticas em França muitos talentos angolanos – que voltam do país europeu mais “ricos” em saber, com mais mundo, mas também, ou sobretudo, com experiências e vivências que os marcam para sempre. O escultor António Toko, os pintores Cristiano Mangovo, Ricardo Kapuca e José Girão dos Santos, o fotógrafo Luís Damião são exemplos de angolanos que esta parceria já levou a França. Miguel Beleza foi o vencedor de 2022 nesta categoria (ver caixa). Mas o ENSA-Arte também tem ganho asas por outras vias. Talvez o caso mais emblemático de projecção de obras angolanas no exterior tenha ocorrido aquando da 55.ª Bienal de Artes Visuais de Veneza, em 2013, uma exposição constituída por 25 artistas angolanos sob o lema “Angola em Movimento”.

O ENSA Arte levou obras, que ficaram expostas durante seis meses, juntamente com trabalhos de Edson Chagas. O grande prémio para uma representação nacional foi para Angola, pelo projecto “Luanda, Cidade Enciclopédica”, com 23 fotografias do artista, que antes havia sido fotojornalista. Depois, obras do ENSA Arte expostas em Veneza andaram numa espécie de ‘tournée’. Em 2014, seguiram para Roma, para o Museu Pigorini, com o tema “Agenda Angola”; na capital italiana também foram expostas peças na Sede da FAO. E, depois, Portugal, com a exposição “Ao Encontro das Artes Plásticas”, no Palácio Marquês de Pombal, em Lisboa. A companhia de seguros levou ainda a cabo o ciclo de palestras intitulado “A arte, o artista e a sociedade”, no SIEXPO – Salão Internacional de Exposições de Arte do Museu Nacional de História Natural, em Luanda, em Agosto de 2008, enquadrado nas comemorações do 30.º aniversário da empresa e no âmbito do Prémio ENSA Arte, de que resultou ainda um livro com as comunicações dos palestrantes. E, mais tarde, viria a ser editada e lançada a obra “Colecção ENSA ARTE”. Em Angola, admite Augusto Tito Mateus, não há ainda uma sala de exposições à altura da dimensão do acervo da seguradora. A criação de uma Fundação é uma das ideias do Plano Estratégico da empresa, que se mantém em curso, estando as suas mais de 200 obras já catalogadas e avaliadas. Um dia, mais tarde ou mais cedo, a Fundação será uma realidade, assegura o responsável. Em 2015, também houve exposição de parte do acervo em alusão aos 40 anos da independência no Centro Cultural Brasil Angola, em 2020, no âmbito dos 45 Anos de Independência, no evento “Arte Contemporânea Angolana – Acervo ENSA Arte – 30 anos de mecenato para a arte contemporâneoa angolana”, no Arquivo Nacional de Angola.


UM EVENTO ESPECIAL A XVI Edição do Prémio ENSA Arte, que decorreu no Palácio de Ferro em Luanda, em Maio passado, ficou marcada pela qualidade (habitual) das obras selecionadas, mas também desta vez pelo significativo reforço dos valores dos prémios monetários atribuídos aos artistas, com aumentos acima dos 50% face à última edição. A concurso, nesta edição que assinalou o 31.º aniversário da ENSA, foram 213 obras de obras, das quais 163 de pintura, 41 esculturas e nove cerâmicas. Carlos Duarte, Presidente do Conselho de Administração da ENSA, reafirmou compromisso da Companhia com a promoção das artes e dos artistas plásticos angolanos. Com esta edição do Prémio ENSA Arte, que contou uma vez mais com o apoio do Ministério da Cultura da República de Angola e da Alliance Française, “cumpre-se mais uma etapa da história da ENSA, que não está só dedicada à sua actividade principal. A ENSA dedica-se também às causas que unem os angolanos e lhes abre o mundo. O ENSA Arte é um dos maiores exemplos”. O gestor destacou o acervo que a Companhia foi construindo ao longo do tempo, reafirmando esperar que “em breve possa ser exposto em permanência ao público em geral”.

PCA DA ENSA, CARLOS DUARTE

O júri desta edição, comissariada por Miguel Gonçalves, foi composto por Florence Duaze-Bonnet, directora da Alliance Française de Luanda (presidente do júri), Adriano Mixinge, historiador e crítico de arte (secretário do júri), Paulo Mendes, crítico de arte internacional e artista plástico, João Domingos Mabuaka (Mayembe) e Mário Tendinha, artistas plásticos, e Augusto Tito Mateus, representante da ENSA. l

G R A N D E P R É M I O - E S C U LT U R A 1º CLASSIFICADO VIRGÍLIO JOÃO MANUEL PINHEIRO “ S A G R A D A E S P E R A N Ç A”

MENÇÃO HONROSA - PINTURA PAU LO F E R N A N D O K U D I S S U C A “A M B I C I O N E I AT É À M E N O P A U S A”

MENÇÃO HONROSA - PINTURA A D R I A N O J OÃO LU Í S G A S PA R “MUANA PUÓ”

M E N Ç Ã O H O N R O S A - E S C U LT U R A VA L E R I A N O K A P O K O “O TEMPORIZADOR HUMANO”

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E S P E C I A L C U LT U R A

INSTITUIÇÕES

“A qualidade nem sempre é percebida por todos” A FUNDAÇÃO CUPERTINO DE MIRANDA, SEDIADA EM FAMALICÃO, TEM UM PAPEL FUNDAMENTAL NA REGIÃO. CRIADA QUASE HÁ 60 ANOS, POR ARTHUR CUPERTINO DE MIRANDA, ALBERGA A MAIOR COLECÇÃO DE SURREALISTAS EM PORTUGAL. PEDRO ÁLVARES RIBEIRO, QUE PRESIDE À INSTITUIÇÃO HÁ 15 ANOS NÃO TEM DÚVIDAS EM AFIRMAR QUE “A FUNDAÇÃO TEM UM CAMINHO MUITO PROMISSOR” PELA FRENTE. REJEITA A IDEIA QUE AS FUNDAÇÕES DEVAM SER POPULISTAS, MAS RECONHECE QUE A PROXIMIDADE COM A POPULAÇÃO É IMPORTANTE.

E N T R E V I S TA PEDRO ÁLVARES RIBEIRO, PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO

ELISABETE FELISMINO

CUPERTINO MIRANDA

Qual é o âmbito exacto da Fundação? A Fundação, segundo o seu fundador, Arthur Cupertino de Miranda devia ser um tempo de arte, cultura e bondade. Quer explicar cada uma dessas vertentes? A Fundação tem a maior colecção de arte surrealista em Portugal, estamos a falar de 3 mil obras, mil das quais adquiridas nos últimos dez anos. Temos também o maior espólio de obras de arte do Mário Cesariny, do Júlio e do Fernando Lemos. Vamos inaugurar com o apoio do Centro Português de Fotografia, no dia 2 de Junho, uma exposição de Fernando

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Lemos, com as fotografias que fez dos grandes escritores portugueses. É um livro que editamos e que agrega o maior conjunto de retratos dos grandes escritores portugueses, desde a Sophia de Mello Breyner ao José Cardoso Pires, Jorge Sena, Mário Cesariny e que são obras absolutamente extraordinárias. Para além disso também temos as bibliotecas pessoais do Mário Cesariny e do Artur Cruzeiro Seixas. De resto, têm actualmente uma exposição do Cruzeiro Seixas em Paris… É com muito gosto que celebramos o centenário de Cruzeiro Seixas, e


FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PEL A FUNDAÇÃO CUPERTINO MIR ANDA

SEDE DA FUNDAÇÃO CUPERTINO DE MIRANDA C O M AU T O R E T R AT O D E F E R N A N D O L E M O S

temos uma exposição em Paris, inaugurada em meados de Maio, na sede da Unesco, que é um local da máxima relevância cultural no Mundo. A exposição tem obras extraordinárias nomeadamente um Picasso de 1958, e dois painéis extraordinários de Miró. Há uma grande ligação da Fundação com os pares internacionais… Sim, para além da exposição de Paris, temos também uma exposição na Tate Modern em Londres que se chama Surrealism Beyond em que está representada

AU T O R E T R AT O D E F E R N A N D O L E M O S

uma obra extraordinária de Cruzeiro Seixas, do Fernando Lemos e do Fernando Azevedo. Esta exposição está patente até ao final de Agosto e esteve anteriormente no Metropolitan, em Nova Iorque. Temos também esta vertente da promoção dos artistas nacionais… Como é que fazem esse relacionamento com as grandes instituições mundiais? Com muito trabalho e conseguindo que as pessoas quando visitam Portugal visitem a Fundação, vejam a colecção e percebam a importância

dos Surrealistas portugueses, que nem sempre foi valorizada. Para além do surrealismo têm ainda duas outras áreas de intervenção… Sim, temos mais duas áreas: música e literatura. Na música, lançamos um grupo, há mais de dez anos, que são os Cupertinos, cujo primeiro CD ganhou o prémio mais importante da música do mundo, o Gramophone Classical Music Awards em 2019, na categoria de música antiga. Temos uma parceria com a Universidade de Coimbra e recuperamos obras da polifonia portuguesa do sec. XVI e XVII.

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Falta-nos falar da 3ª dimensão da Fundação, a literatura. Na literatura encomendamos a três grandes intelectuais portugueses, António Feijó, Miguel Tamen e João Figueiredo, o Cânone sobre os grandes nomes da literatura portuguesa dos últimos séculos. Ao fim de sete anos, temos aqui uma verdadeira obra-prima de critica literária. Lançamos também recentemente um espaço museológico, aqui na Fundação, que se chama Torre Literária. Em que consiste? A Torre Literária é um espaço que apresenta de uma forma, que pensamos diferente, a literatura portuguesa dos últimos 8 séculos. Contamos com o apoio extraordinário do grande cineasta Manoel de Oliveira, que colocamos ao nível dos grandes escritores portugueses, com os filmes dele a servirem de fonte de inspiração, as fotografias do Fernando Lemos e o grande arquitecto da escola do Porto, João Mendes Ribeiro, que nos ajudou com toda a sua experiência de cenografia. Qual a área que tem mais peso? Gostaria de dizer que as três têm o mesmo peso, mas o surrealismo tem um lugar muito importante. Qual o orçamento da Fundação? O orçamento da Fundação varia todos os anos, a sustentabilidade é uma preocupação e uma prioridade. Posso dizer que com os nossos capitais próprios, de 20 milhões de euros, conseguimos cumprir a nossa missão. Estamos próximos, ainda não estamos lá, mas estamos a trabalhar no sentido da sustentabilidade. A proximidade da Cupertino de Miranda, como grandes polos culturais, e estou por exemplo, a pensar em Serralves, é benéfica. Há sinergias que se aproveitam? A relação é bastante positiva e nós procuramos incrementá-la. No

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INSTITUIÇÕES

estrangeiro a cooperação entre instituições é muito valorizada, em Portugal nem sempre foi assim, mas penso que estamos no bom caminho. Em que ponto é que a economia e a cultura se tocam, pergunto isto porque Famalicão é um dos polos exportadores de Portugal com algumas das maiores empresas nacionais? É uma pergunta interessante, Famalicão é um dos concelhos com maior capacidade exportadora do país, onde temos empresas fortemente inovadoras, muitas das quais mecenas da Fundação. Temos aqui um apoio e uma dinâmica muito importantes e um campo de aprendizagem para a inovação muito relevante. Espero que esta relação entre a economia e a cultura seja interessante para ambas as partes. Como vê a Fundação Cupertino de Miranda daqui a 10 anos? A Fundação tem um futuro muito promissor porque a sustentabilidade é uma realidade cada vez mais presente. Temos uma dinâmica muito forte no surrealismo, na literatura e na música e, por isso, a internacionalização é cada vez mais uma realidade. Por exemplo, no caso da música vamos agora participar num dos festivais mais importantes de música clássica da Alemanha, com os Cupertinos e, na literatura estamos a trabalhar intensamente para dar a conhecer a obra do Mário Cesariny em termos internacionais. O nosso trabalho em Portugal é essencial, mas dar a conhecer a nível internacional a importância destes criadores é muito importante.

Há quem defenda que as Fundações deviam ser menos elitistas, eventualmente ter até uma programação mais populista de modo a captar mais público, concorda? Não é uma palavra que aprecie muito, prefiro falar em qualidade e, a qualidade nem sempre é percebida por todos. Por exemplo, faz todo o sentido trabalhar a polifonia, uma realidade que só algumas pessoas é que apreciam, mas faz parte do nosso património. Há actividades que são apreciadas por apenas alguns segmentos da população, mas que são muito importantes porque evidenciam a riqueza e a diversidade da cultura do povo. Dito isto, é importante para uma instituição como uma Fundação procurar estar próxima das pessoas e, posso dizer que esta campanha que lançamos “Deixe a sua marca” ajudounos bastante nessa área. “Deixe a sua marca” é a campanha de requalificação do painel de azulejos das torres da Fundação? Efectivamente as pessoas têm ainda a ilusão que as Fundações são um mundo elitista, eventualmente menos aberto, e por isso foi muito importante darmos oportunidade a que a população, por dez euros, possa ficar para sempre com o seu nome na torre da Fundação, sendo em simultâneo uma forma de colaborar na recuperação de um património histórico, e ainda por cima, temos a sorte de poder contar com o apoio do criador da obra, Charters de Almeida. l


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E S P E C I A L C U LT U R A

INSTITUIÇÕES

“Achamos que temos coisas que valem a pena mostrar” SALVATO TELES DE MENEZES É O HOMEM QUE ESTÁ AO COMANDO DA FUNDAÇÃO D. LUÍS I, ENTIDADE GESTORA DA CULTURA EM CASCAIS HÁ QUASE 30 ANOS. EM ENTREVISTA À PRÉMIO, O EX-PROFESSOR, ESCRITOR E TRADUTOR, FAZ QUESTÃO DE MENCIONAR QUE SÓ COM UMA ESTRATÉGIA TURÍSTICOCULTURAL CONCERTADA COM CARLOS CARREIRAS (PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE CASCAIS), SE TEM CONSEGUIDO UMA AFIRMAÇÃO CRESCENTE DE CASCAIS ENQUANTO REFERÊNCIA CULTURAL. FALA-NOS, AINDA, DO PROJECTO DA NOVA VILA DAS ARTES E DA PRÓXIMA GRANDE EXPOSIÇÃO DEDICADA A GOYA, NO CENTRO CULTURAL DE CASCAIS.

O Professor Salvato Teles é actualmente Presidente da Fundação D. Luís I, mas já desempenhou muitos outros papéis ao longo da vida: professor, ensaísta, escritor, tradutor, cinéfilo. Qual a “cola” que une tudo isto? O que cola tudo é a minha ideia de que não há áreas estanques na nossa actividade de gestores culturais. Os gestores culturais, não sei se feliz ou infelizmente, têm obrigação de dominar várias áreas para poder responder às múltiplas questões que se lhes colocam em termos da gestão. Não é que a gestão cultural seja uma transcendência – não é – é uma gestão como as outras que existem, mas tem algumas especificidades. A bagagem da sua experiência profissional contribuiu, portanto, para “preencher” estas características da gestão cultural que refere?

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CATARINA DA PONTE

Sim, foi um processo evolutivo e, ao longo do tempo, vamos adquirindo essas competências que depois nos permitem, efectivamente, conduzir da melhor maneira possível esse desidrato último que é sermos capazes de fazer com que as entidades culturais que estão sobre a nossa gestão tenham um comportamento adequado às disponibilidades financeiras e humanas que temos. Portanto, esta conjugação de factores distintos é que compõem, no fundo, a verdadeira actividade de um gestor cultural. O que é preciso é ter um espírito aberto à aquisição dessas novas competências ao longo da vida. Para mim foi assim.

Actualmente considera-se apenas um gestor cultural? Sim, até poderei ter sido um intelectual razoável, há quem diga que sim, mas há bastante tempo que estou dedicado a estas tarefas – que algumas pessoas julgam mais banais – de gerir a Fundação D. Luís I, tendo atribuições muito vastas, que se traduzem numa gestão com alguma complexidade. Costumo dizer que mantenho esse lado porque, como sabe, continuo a traduzir coisas, mas agora o núcleo central da minha actividade é, efectivamente, a gestão da Fundação D. Luís I. Conseguiu transformar estes seus interesses noutros formatos na Fundação D. Luís, por exemplo, com as residências literárias ou os ciclos de cinema que aqui promovem, contribuindo para uma actuação mais ampla e transdisciplinar da Fundação?


FOTOS: FERNADO PIÇARRA

E N T R E V I S TA SALVATO TELES DE MENEZES, PRESIDNETE DA FUNDAÇÃO D. LUÍS I

Essa pergunta é muito pertinente porque, de facto, ao longo do tempo todos os presidentes tiveram uma relação muito próxima e de grande apoio para com a Fundação, mas só com o actual Presidente, Carlos Carreiras, é que a Fundação adquiriu essa dimensão mais vasta da sua intervenção, e que permitiu, efectivamente, que nós pudéssemos aproveitar essas experiências anteriores para introduzirmos algumas soluções que estariam inicialmente fora das cogitações de quem criou a Fundação. Foi a sua percepção de que este instrumento estava a ser subutilizado, que nos permitiu alargar significativamente o âmbito da nossa intervenção. Por exemplo, para além das Residências Literárias nós temos também uma Cátedra com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que tem como concelho científico alguns dos mais importantes intelectuais portugueses contemporâneos. Há uma estratégia concertada com o Turismo Cultural de Cascais? Sim, numa terra como Cascais, a

cultura não deve estar de costas voltadas para o turismo, até porque quando avaliamos os visitantes nos equipamentos culturais que gerimos, sabemos com exactidão quantos são os habitantes de Cascais, quantos são os das zonas limítrofes e quantos são os visitantes estrangeiros. Não terá de memória os números exactos, mas em termos de percentagem como se distribuem estes visitantes? Posso dizer que, actualmente, 40% dos visitantes são turistas estrangeiros, nós temos até um protocolo com a Associação Turística de Cascais que dá ´vouchers´ aos turistas instalados nos hotéis, para que possam usá-los nos nossos equipamentos culturais. Mais, já se fez um inquérito, no qual se percebeu que os turistas que vêm a Cascais, quando inquiridos sobre as coisas que gostariam de cá encontrar, um dos aspectos que referem com mais frequência é a oferta cultural. Claro que aqui há dois equipamentos muito importantes, que são as locomotivas: o Centro Cultural de Cascais –através das grandes

exposições de fotografia internacionais com grandes nomes da fotografia desde o Bert Stern, ao Sam Shaw à Vivian Maier – e a Casa das Histórias Paula Rego, como é óbvio. O Centro cultural de Cascais dedicase exclusivamente à fotografia? Não exclusivamente, mas há um grande espaço temporal que é dedicado a grandes exposições de fotografia. São normalmente duas a três por ano, portanto, estamos a falar de um arco temporal de nove meses. Cada uma tem três meses, mas como o Centro Cultural tem vários espaços podemos conjugar outro tipo de exposições com as de fotografia. Porquê essa opção das exposições fotográficas? Primeiro, pela minha própria relação com a fotografia, que vem do meu gosto pelo cinema, mas para além disso, hoje em dia, a fotografia afirma-se como uma das grandes manifestações artísticas do nosso tempo e nós temos as condições ideais para receber este tipo de exposições.

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E S P E C I A L C U LT U R A

INSTITUIÇÕES

ANUNCIAÇÃO, SÉRIE VIRGEM MARIA, 2002, PA S T E L S O B R E PA P E L | PAU L A R E G O CORTESIA DA GALERIA 111

A Fundação D. Luís I gere o Bairro dos Museus, que inclui todos os equipamentos culturais que estão na área geográfica de Cascais: a Casa das Histórias Paula Rego, o Museu Condes de Castro Guimarães, a Casa de Santa Maria, o Museu do Mar, a Casa Sommer. Qual a estratégia cultural para este bairro dos museus? Actualmente, é possível obter uma entrada para todos os equipamentos durante dois dias por um preço extremamente acessível. Aliás, as isenções em termos de ética são muitas mesmo. Portanto, nunca ninguém deixou de visitar os museus de Cascais por qualquer questão ligada com bilhetes ou com entradas. Qual o valor de entrada nos museus de Cascais? O visitante paga 5 euros e quem é munícipe paga metade, dois euros e meio. A introdução da bilhética também serviu para que as pessoas percebessem que as coisas que lhe são

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propostas, são efectivamente coisas boas, dignas de serem visitadas e que demoraram tempo e deram trabalho a organizar. Algumas pessoas têm ideia que isto é só pegar nos quadros, pendurar nas paredes e está feito. Toda a dimensão de preparação de uma exposição é altamente complexa, tem responsabilidades grandes que vem desde o transporte aos seguros, à montagem, aos textos que são escritos. Tudo isso tem que ser preparado. Com que antecedência desenham a programação das exposições? Normalmente decidimos as exposições com dois anos de antecedência. Às vezes podemos fazer algum ajuste, mas o plano é conseguir fazer com uma antecipação de dois anos. No caso das grandes exposições de fotografia, temos que negociar os contractos com advogados norte-americanos e a interpretação dos advogados das entidades americanas não é coincidente com a nossa interpretação,

é preciso encontrar um equilíbrio. No caso das exposições de Paulo Rego, as obras que vêm de Inglaterra têm que ser preparadas com muita antecedência porque o Brexit alterou de forma radical o modo como nós preparávamos as exposições com origem em Inglaterra. A equipa é constituída por quantas pessoas? Na Fundação somos sete pessoas. Depois, a Casa das Histórias tem mais pessoas, porque tem uma gestão diferente, que advém do processo de extinção da Fundação Paula Rego que passou a ficar sobre a alçada total da Fundação D. Luís [em 2009]. A própria Paula Rego e a família estão envolvidas na gestão, há uma comissão paritária, na qual está o filho [o realizador Nick Willing] a representar a família e eu como representante da Câmara Municipal de Cascais. Tudo tem de ser acordado. Não se pode fazer nada se ele disser que não e nem se pode fazer nada se eu disser que não.


Até hoje, nunca aconteceu dizermos que não um ao outro. Que fundos recebe a Fundação D. Luís I para o exercício da sua actividade? É preciso explicar que a Fundação, embora tenha sido reclassificada como Fundação Pública de Direito Privado, foi constituída pela Câmara Municipal de Cascais e sete privados. Portanto, temos financiamento directo da Câmara Municipal de Cascais, que tem vindo a diminuir ao longo dos tempos, mas que é o suficiente. Porque é que o apoio tem vindo a diminuir? Tem diminuído de acordo com as nossas necessidades. Nós temos uma relação tão próxima, que sabemos exactamente quais são as verbas que a Câmara disponibiliza e vamos ajustando com os apoios privados ao plano geral que definimos ano a ano. Como programamos com dois anos de antecedência, quando fazemos o orçamento previsional anual, sabemos exatamente os custos. Isto funciona de uma forma harmónica, por isso nunca houve quaisquer falhas no financiamento, nem nunca gastámos mais do que aquilo que temos, que eu acho que é um dos princípios fundamentais da boa gestão estritamente financeira. Portanto, a Fundação é uma emanação da Câmara Municipal de Cascais, mas permitiu

fazer uma coisa que em Portugal não é muito habitual. Foi das primeiras fundações a ter essa intenção de captar o interesse de entidades privadas e até de particulares para um apoio à cultura. Pode nomear algumas empresas que apoiam a Fundação? Vou dizer só uma, as outras se quiserem que digam, mas há uma relação muito próxima com a sociedade do Estoril Sol, desde o início da Fundação que este Grupo nos apoia. Até porque o Casino de Estoril, sempre teve uma relação especial com a cultura, quer através da acção do Mário Assis Ferreira, quer através da acção do António Vieira Coelho, portanto, ambos – um como Presidente do Concelho de Administração, outro como Administrador Executivo – sempre se preocuparam em fazer do Casino um polo dinamizador cultural. Têm uma revista excelente, têm uma galeria, portanto tudo isso concorre para este entrosamento. Não é só o apoio financeiro que nos dão. Existe, efectivamente, uma colaboração. Fazemos actividades culturais quer no auditório do Casino, quer no Salão Preto e Prata. Temos também vários apoiantes da Fundação privados. Uma espécie de Amigos da Fundação?

Exactamente, são amigos da Fundação. Aliás, estamos em fase de constituição do Grupo de amigos da Fundação Luís I para dar a justa visibilidade àqueles que nos apoiam. Na realidade, esses amigos já existem, mas estamos a formalizar essa amizade com a criação de um grupo formal, com a eleição de um presidente. Fale-nos um pouco do novo ´cluster´ dedicado às artes performativas que será, em breve, instalado no Edifício Cruzeiro? Mais uma vez, trata-se de uma ideia do Carlos Carreiras, que tem uma visão estratégica própria para Cascais, na qual a cultura é um pilar. Portanto, quando ele negociou o Edifício Cruzeiro, que pertencia ao BPI, pensou de imediato que seria um espaço bom para a cultura. A ideia é fazer uma Vila das Artes, que se distinga do Bairro dos Museus onde estão as Artes Plásticas e onde fazemos os eventos ligados à literatura, dedicado às Artes Performativas. Portanto, vamos lá ter o teatro, o TEC (Teatro Experimental de Cascais) com a sua escola, o Conservatório de Música, a Orquestra Sinfónica e a OCCO (Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (OCCO). Também lá vai ficar uma grande Biblioteca, dedicada às Artes Performativas, o Cinema, o Auditório que será utilizado para as diversas

NUMA TERRA COMO CASCAIS A C U LT U R A N ÃO D E V E E S TA R D E C O S TA S V O LTA DA S PA R A O TURISMO.

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E S P E C I A L C U LT U R A manifestações e vamos ter lá também Dança, com a companhia de Paulo Ribeiro, que se vai lá instalar. As artes performativas estarão ali todas cobertas: música, teatro, cinema e dança. À semelhança do Bairro das Artes, está previsto na Vila das Artes a promoção de eventos com equipamentos culturais à volta? Sim, o Teatro Mirita Casemiro vai ser recuperado, também por decisão municipal, depois há o tal protocolo com o Casino para utilizarmos o Salão Preto e Prata e o Auditório. Existe também o Auditório da Sra. Boa Nova que ficará integrado na Vila, bem como o Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria, que é uma das casas mais bonitas de Cascais e que nós queremos potenciar (onde estão os acervos de Lopes Graça e de Michel Giacometti). Quando está prevista a inauguração deste projecto? Até ao final deste ano. Estamos já numa fase bastante avançada de resolução do trabalho. A parte exterior mantém-se intacta, só o interior é que foi adaptado às valências que lhe mencionei. Foi um trabalho, desenvolvido pelo arquitecto Miguel Arruda, que julgo que quando as pessoas puderem visitar o edifício vão ficar impressionadas.

INSTITUIÇÕES

Há público suficiente para uma Vila das Artes e para o Bairro dos Museus? A formação dos públicos culturais deve ser feita na escola primaria, é por isso que eu acho que a educação e a cultura têm que estar muito próximas e têm que ser trabalhadas em conjunto. Aliás, em alguns países, como na Holanda, existe o Ministério da Cultura e da Educação. Em Portugal já temos o Plano Nacional das Artes. Exacto, esta ideia de integração de cultura e educação é absolutamente fundamental para a criação do gosto pela arte. Nós aqui temos também um trabalho de serviço educativo exepcional. O projecto que a equipa tem desenvolvido com as escolas e com os pais é notável. Daqui a quanto tempo é que acha que teremos estes públicos da cultura e da arte formados? Isso demorara uns anos largos, mas algum dia tínhamos de começar. Quanto mais depressa começarmos, mais rapidamente chegaremos lá. Nós sentimos que neste momento, através deste trabalho que tem sido desenvolvido com o Serviço Educativo, estamos no bom caminho.

Qual a exposição mais desafiante que realizou no Centro Cultural de Cascais? Posso dar o exemplo da exposição de Picasso, nos anos de 1990, na qual apresentámos no Centro Cultural de Cascais toda a sua obra gráfica. Tínhamos um protocolo com uma grande entidade espanhola que era proprietária dessas coleções e tudo o que tinham era prova de artista. Essa deu muito trabalho, não tanto em termos de logística, mas a discussão para a formulação do protocolo foi muito exigente. No entanto, aquela que foi a mais dura de negociar e que foi a exposição que mais visitantes teve, à volta de 80 000 durante um mês e meio, foi a da Marilyn Monroe, do Bert Stern. Já conseguem ter um perfil do vosso público, no sentido de conseguirem perceber que formatos de exposição (fotografia, cinema, pintura) conseguem cativar mais audiência? Sim, temos. Hoje em dia a fotografia já adquiriu aqui um público fiel. Não há menos de 15 a 20 mil visitantes para cada uma dessas exposições de fotografia. Mas é ainda assim inferior ao restante público ou já é superior? Em termos de exposições, são aquelas que são as mais visitadas. Também há

C A S C A I S E S TÁ E N T R E O S TRÊS PRIMEIROS LUGARES EM T E R M O S D E O F E R TA C U LT U R A L .

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excepcional que surja, analisaremos. Mas para já vamos avançar com a Vila das Artes, é uma tarefa que vai ser árdua.

F U N D A Ç Ã O D . L U Í S I – C E N T R O C U LT U R A L D E C A S C A I S

exposições de pintura com muito êxito. Estou confiante que esta que acabou de inaugurar, no dia 4 de Junho, de um dos maiores pintores contemporâneos espanhóis, do Juan Genovés, vai ser um sucesso. Quem faz a curadoria das exposições do Centro Cultural de Cascais? Depende, em muitos casos a curadoria é feita pelos serviços da Fundação, outras vezes, como por exemplo, no caso desta, a curadora foi escolhida pela própria família com quem nós negociamos a vinda da exposição. Têm uma relação muito próxima com Espanha não têm? Sim, mal seria, estamos no sítio onde viveu o rei de Espanha, mas não é só isso, trabalhamos muito com a Fundação da Infanta Margarida que se chama Fundação Duques de Soria. Já organizámos vários congressos importantíssimos com os maiores especialistas de arquitectura e medicina, e estamos já a preparar outro que tem que ver com o resultado, em termos sociais, políticos, económicos e culturais, desta calamidade pela qual passámos, chamada Pandemia SARS-CoV-2. Quer sugerir duas ou três exposições futuras?

A próxima é já uma grande exposição que vai inaugurar em Outubro, dedicada aos anos 70 da obra de Paula Rego, julgo que com algumas obras que nunca foram expostas antes, o que também diz muito sobre a maneira como a família de Paula Rego olha para a Casa das Histórias. As pessoas julgavam que era a Câmara de Cascais que queria acabar com a Casa das Histórias ou que era a família que estava muito zangada. Entendemonos maravilhosamente bem, não há nenhum problema e quando temos algum assunto a discutir, seja de ordem administrativa ou financeira, encontramos sempre as soluções adequadas para o resolver. E exposições que ainda estejam no segredo dos deuses? Vou-lhe dar uma novidade. No próximo ano vamos ter aqui no Centro Cultural de Cascais uma grande exposição da obra gráfica do Goya, que será acompanhada por 13 telas, também de sua autoria. Qual é o foco de acção da Fundação D. Luís nos próximos tempos? A minha ideia neste momento, que coincide também com a ideia do presidente e do senhor vice-presidente, é a de consolidar aquilo que nós temos e se houver alguma coisa de

Sente que a Fundação é uma bandeira cultural de Portugal? Neste momento nós temos essa ideia que, de facto, com a presença das nossas peças e das actividades que desenvolvemos em conjunto com outras entidades estrangeiras, temos uma presença bastante significativa. Não digo que somos nós que representamos Portugal, porque nem queremos, isso é uma coisa que cabe ao Estado, o Estado é que representa Portugal. O que digo é que, em temos da afirmação da cultura e da intervenção cultural, quando vamos ao estrangeiro levamos aquilo que é nosso – aquilo que é da Fundação D. Luís I e aquilo que é da Câmara Municipal de Cascais – que são entidades portuguesas. Queremos fazer a nossa própria afirmação e não é por qualquer orgulho pateta porque achamos que temos coisas que valem a pena mostrar. Mas a melhor maneira de promover qualquer coisa, não é de uma forma directa, é de uma forma indirecta. Pode concretizar melhor essa ideia? Sim. Podemos comprar uns anúncios nos grandes jornais e televisões internacionais, mas se estiver em Nova Iorque uma grande exposição da Paula Rego, e agora imagine, com o tema do aborto, que a Paula Rego tratou magistralmente na sua obra, por exemplo. Que impacto isso causaria? imagine uma grande exposição de Paula Rego lá, quem sabe? E também temos outra coisa que acho interessante, que é a disponibilidade para acolher as coisas boas dos outros e recebê-las bem, como elas merecem e com respeito. Esse respeito mútuo também foi algo que se conquistou.. Sim, os nossos artistas hoje são olhados no mundo de uma maneira completamente diferente, em especial a Paula Rego. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

INSTITUIÇÕES

MAAT faz seis anos e quer manter “programação de qualidade” INAUGURADO EM 5 DE OUTUBRO DE 2016, O MUSEU DE ARTE, ARQUITECTURA E TECNOLOGIA TORNOU-SE UMA DAS INSTITUIÇÕES CULTURAIS MAIS VISITADAS DE LISBOA. OS RESPONSÁVEIS DESCREVEM-NO COMO ESPAÇO “INCLUSIVO”, ATENTO ÀS “DISCUSSÕES CONTEMPORÂNEAS”.

BRUNO HORTA

Duas exposições inauguradas em Março — a individual “Prisma”, de Vhils, e a colectiva “Interferências: Culturas Urbanas Emergentes”, ambas programadas pelo novo director artístico, João Pinharanda — mostram como o Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT) vai a caminho do sexto aniversário de olhos postos no futuro e a explorar temas de forte impacto social e cultural. As duas propostas podem ser vistas até 5 de Setembro e representam a vida urbana sob diferentes perspectivas. Do quotidiano de grandes metrópoles registado em vídeo de grande formato, no caso de Vhils, até à diversidade cultural e identitária da Grande

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Lisboa, no caso da exposição colectiva, destacando-se aí nomes como os de Mónica de Miranda, Rodrigo Ribeiro Saturnino, Unidigrazz ou Fidel Évora. “Um museu inclusivo, como desejamos que este seja, é um museu que articula a sua programação com as discussões contemporâneas e que está atento às necessidades e valores dos seus públicos”, resume fonte oficial do museu, sublinhando que o futuro próximo passa por “manter uma programação de qualidade” e afirmar o MAAT como “espaço de divulgação da arte contemporânea, capaz de atrair diferentes públicos” e de “promover as relações como outras disciplinas”. O MAAT é gerido pela Fundação EDP, instituição sem fins lucrativos criada em 2004 pela EDP - Energias de

Portugal. Foi inaugurado em 5 de Outubro de 2016 e logo nos primeiros meses tornou-se de um dos espaços culturais mais procurados da capital. A situação privilegiada frente ao Tejo e junto à Avenida de Brasília, já na zona de Belém, mais o edifício projectado pelo ateliê da arquitecta britânica Amanda Levete – aliás, presente na inauguração – cativaram o interesse do grande público, que tem feito daquele um espaço de passeio e de encontro com a arte (e cenário de muitas ‘selfies’). A meta inicial de 250 mil visitantes por ano foi superada, face às 400 mil pessoas em 2016. Houve 375 mil visitas em 2017 e 330 mil em 2018 e em 2019, informa a instituição. Os dois anos da pandemia fizeram recuar


PAU LO A L E X A N D R E CO E L H O

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as cifras, devido ao encerramento por vários meses e à retracção do público na reabertura, mas segundo fonte oficial a procura pré-pandemia está já a regressar em 2022. Quanto ao orçamento anual anunciado, que era de dois milhões de euros em 2016, continua a ser “generoso para o contexto actual” e permite “uma programação variada e consentânea com a ambição” do MAAT”, qualificam os responsáveis. Edifício novo sem entrada monumental O edifício de Amanda Levete juntou-se ao imponente Museu da Electricidade, ou Central Tejo, que remonta a 1914. Em volta veio a surgir o “campus” da Fundação

EDP, espaço verde com assinatura do arquitecto paisagista libanês Vladimir Djurovic. Uma área total de 38 mil metros quadrados, um novo pólo cultural em Lisboa, a reforçar também a atractividade de Belém como zona turística e de lazer. A fachada coberta por peças de cerâmica branca, a cobertura em pedra de lioz e as formas dinâmicas do novo edifício tornaram-no um marco. “Este edifício não poderia existir em mais lado nenhum”, declarou Amanda Levete em 2016. “O telhado é um fórum, um miradouro para o rio, e também permite que nos voltemos de costas para o rio e apreciemos a zona antiga de Lisboa. É algo que muitas pessoas talvez nunca tenham experimentado, porque na

zona ribeirinha não há miradouros”, sublinhou a arquitecta. Sobre a relação com a verticalidade da Central Tejo, de tijolos laranja e feição industrial, a arquitecta comentava há seis anos: “É um edifício muito bonito, com uma presença imponente. Tive de responder com outro edifício que tivesse presença, mas que não desafiasse aquele, daí a altura reduzida. O espaço em redor flui até ao museu. Não quisemos criar uma entrada monumental, quisemos fluidez de circulação.” O novo edifício do MAAT acabaria por conquistar mais de 30 prémios e nomeações, como o Design Prize 2017, atribuído pelas revistas “Designboom” e “Abitare” e patrocinado da cidade de Milão,

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BRUNO LOPES

INSTITUIÇÕES

e um dos Iconic Awards 2017, do German Design Council. No mesmo ano esteve nomeado como finalista do Mies van der Rohe, um dos mais reconhecidos prémios europeus de arquitectura. No balanço de quase seis anos de actividade, fonte da Fundação EDP destaca que o MAAT “cumpriu os objectivos que presidiram à sua criação”, tendo conseguido combinar exposições para “um público mais especializado” com outras destinadas a “menos conhecedor do contexto artístico contemporâneo”. Até agora, foram cerca de 90 as exposições, com trabalhos de mais de 230 artistas portugueses e de quase 500 artistas estrangeiros. “O MAAT soube cultivar uma relação de proximidade com a comunidade artística nacional e abrir as suas portas a artistas de outros países”, defende a Fundação EDP. “Simultaneamente, assumiu-se como um espaço de reflexão sobre as grandes questões do nosso tempo, juntando artistas visuais, arquitectos, ‘designers’, filósofos, cientistas num diálogo multidisciplinar e frutuoso.” “Cruzamento, contaminação, diálogo” O museu representou um investimento de cerca de 20 milhões de euros e veio consolidar um trabalho de longa data da Fundação EDP como mecenas da criação e da arte contemporânea. É disso exemplo

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a Colecção de Arte Portuguesa Fundação EDP, onde hoje constam quase três centenas de artistas. E são disso exemplo o Grande Prémio Fundação EDP Arte, que distinguiu Lourdes de Castro e Mário Cesariny, entre outros, e o Prémio Novos Artistas Fundação EDP, entregue a criadores como Joana Vasconcelos, a dupla Paiva e Gusmão ou Claire de Santa Coloma. Estas iniciativas, que abriram caminho ao MAAT, foram estabelecidas há pouco mais de duas décadas e desde o início tiveram a colaboração do crítico e programador cultural João Pinharanda – de regresso à primeira linha desde que assumiu funções como director artístico, em Janeiro deste ano. A actuação de Pinharanda passa por “reforçar a componente dedicada à produção artística contemporânea nacional e internacional” e por “manter especial atenção às questões da arquitectura, do urbanismo e do ‘design’”. Ao mesmo tempo, pretende que aquelas áreas sejam pensadas como pontos de partida para propostas mais abrangentes, ao encontro de “cruzamento, contaminação, diálogo, reflexão e expansão”. E como resolver os desafios que se colocam desde o início perante as diferenças entre os dois edifícios do MAAT? Os dois primeiros directores artísticos, Pedro Gadanho e Beatrice Leanza, procuraram soluções. João

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PEDRO PINA

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Pinharanda, segundo fonte da Fundação EDP, entende que “são as exposições que encontram os seus espaços de apresentação”. “A Central Tejo tem espaços especialmente adequados a exposições mais clássicas, mas também a pequenos projectos e a exposições que dialoguem com o património de arqueologia industrial que alberga e que é único. O edifício novo, esse, tem salas especialmente desafiantes pedindo-nos uma velocidade ou agilidade visual e de deslocação espacial que deve estimular intensamente quem neles expõe.” A mesma fonte explicou que o MAAT tem “especificidades que não se repetem nem em Lisboa nem no país”, como seja a localização frente ao estuário do Tejo, a tradição histórica ligada ao passado industrial e a questão arquitectónica. Além disso, há “uma colecção de arte contemporânea perfeitamente definida no contexto das restantes e um conjunto de prémios de arte únicos no país, de que resultam exposições bienais”. Ou seja, “tem uma missão que não se sobrepõe à de outros locais de exposições em Lisboa ou no Porto”. Logo, concluem os responsáveis: “A atitude que devemos ter perante instituições que trabalham áreas disciplinares próximas das nossas tem que ser de autonomia, colaboração, estímulo, complementaridade.” l


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Partilhar Arte e Cultura com os portugueses “ARTE E CULTURA PARTILHAM-SE” É O ‘SLOGAN’ DO PROJECTO NOVOBANCO CULTURA QUE JÁ ESTÁ PRESENTE EM TODAS AS REGIÕES DO PAÍS, COM DESTAQUE NAS LOCALIDADES DO INTERIOR. ESTE PROJECTO, COM QUATRO ANOS DE EXISTÊNCIA, TEVE COMO OBJECTIVO LEVAR A ARTE E A CULTURA A TODOS OS PÚBICOS, ATRAVÉS DA INTEGRAÇÃO DO ESPÓLIO DE PINTURA DO NOVOBANCO NO CIRCUITO DAS EXPOSIÇÕES PERMANENTES DOS MAIS EMBLEMÁTICOS MUSEUS DO PAÍS, OU MESMO NA CRIAÇÃO DE RAIZ DE ESPAÇOS DEDICADOS À ARTE CONTEMPORÂNEA, COMO SÃO OS EXEMPLOS DE REGUENGOS DE MONSARAZ OU DA GUARDA. ACTUALMENTE ESTÃO INCORPORADAS 93 OBRAS EM 36 MUSEUS DE 17 REGIÕES.

Partilhar Arte e Cultura com o público através da descentralização do património cultural do novobanco é o grande objectivo do projecto novobanco Cultura, Arte e Cultura Partilham-se, já com quatro anos de existência. A colecção de pintura do novobanco foi constituída em 2017 a partir de um conjunto disperso de obras, de origens e épocas diversas, provenientes de várias salas da administração do Banco e de agências de norte a sul do país. Foram reunidas mais de uma centena de obras de pintores portugueses e estrangeiros do século XVI ao século XX, com um núcleo significativo de pintura portuguesa do século XIX. Na opinião do então CEO do

ANA VAL ADO

novobanco, António Ramalho, abrir o banco ao exterior para que as pessoas pudessem conhecer o seu património cultural não era suficiente, era preciso descentralizá-lo de forma a disponibilizá-lo aos mais diversos públicos, através de parcerias com museus, de norte a sul do país, continente e ilhas, com particular enfoque para as instituições situadas fora dos grandes centros urbanos. Nas suas palavras: “Este roteiro espalhado pelo país não é mais do que um compromisso de devolução à sociedade de algo que é de todos, o património cultural”. O projecto novobanco Cultura

arrancou em Janeiro de 2018, enquadrado num protocolo com o Ministério da Cultura, e hoje em dia são já 36 Museus de quase todas as regiões do país, que contam com 93 das obras da Colecção de Pintura do novobanco, desta forma acessíveis ao público através da sua integração nos circuitos expositivos permanentes de cada museu. Segundo Paulo Tomé, Coordenador de Comunicação e Marca do novobanco: “Este projecto é uma iniciativa pioneira, não só pela componente de descentralização, mas também pela atenção dada à relação das obras com as narrativas dos Museus ou a relação dos artistas com a região, para que cada incorporação seja uma mais-valia e um contributo útil para os acervos”.

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INSTITUIÇÕES

F O T O S G E N T I L M E N T E C E D I DA S P E L O N O V O B A N C O C U LT U R A

E S P E C I A L C U LT U R A

BERND E HILLA BECHER W A T E R T O W E R S 1 9 6 3 - ­1 9 8 8 , 2 0 0 5

Acrescentando que: “Muitas das vezes, contribuímos com várias obras, de modo a impulsionar a constituição de um novo núcleo de arte no Museu. Foi o caso dos Museus de Reguengos de Monsaraz, Guarda, Barrancos, Mirandela, Olhão, entre outros”. Mas o inverso também acontece, algumas instituições têm dado conhecimento do seu interesse em uma ou mais peças específicas, no sentido de completar o seu espólio. “É o caso da vista anterior ao terramoto de 1755 intitulada “Entrada solene em Lisboa”, do Núncio Apostólico Monsenhor Giorgio Cornaro, que foi incorporada no circuito expositivo permanente do Museu

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dos Coches, em Lisboa”, conclui Paulo Tomé. Neste momento, para além de alguns Museus emblemáticos de Lisboa, como o Museu Nacional dos Coches, Museu Nacional de Arte Antiga ou Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, já podem ser vistas obras da Colecção de Pintura do novobanco em museus de Castelo Branco, Guarda, Guimarães, Setúbal, Caldas da Rainha, Figueiró dos Vinhos, Lisboa, Viseu, Torres Novas, Óbidos, Faro, Beja, Évora, Portalegre, Crato, Chaves, Vila Franca de Xira, Aveiro, Lamego, Braga, Leiria, Ourique, Lousã, Viana do Castelo, Mirandela, Olhão, Barrancos, Barcelos,

Reguengos de Monsaraz, Covilhã e também Madeira e Açores (Ponta Delgada e Angra do Heroísmo). No âmbito deste projecto de partilha com a sociedade do seu património artístico e cultural, até ao final deste ano, está prevista a incorporação de mais algumas obras da Colecção de Pintura em museus. De referir que todas as obras estão também disponíveis ao público numa plataforma ‘online’ (https:// novobancocultura.pt/acervos/ pintura/), onde é possível encontrar um texto informativo sobre cada uma das peças, bem como um roteiro que percorre todos os museus, de norte a sul do país, onde se encontram obras desta colecção.


F O T O S : N O V O B A N C O C U LT U R A E D UA D O V I A N A | PA I S AG E M D E S I N T R A , 1 92 5

Fotografia, Livros e Numismática Para além da Colecção de Pintura Contemporânea, o novobanco integra mais três colecções: fotografia, livros e numismática, que não estão incluídas no programa de descentralização, mas fazem parte do acervo visitável do novobanco, na Praça Marquês de Pombal, em Lisboa. Também podem ser vistas no site novobancocultura.pt e através de várias exposições nacionais e internacionais, casos do MAAT e ou Museu do Dinheiro. A Colecção de Fotografia Contemporânea do novobanco tem hoje para cima de mil obras de mais de 300 artistas de 38 nacionalidades, incluindo portugueses, representando uma ampla gama de gerações e origens. Tudo começou em 2004, com a aquisição de um conjunto de obras de Cindy Sherman, “Untitled” (2004); Thomas Struth, “Shanghai Panorama” (2002); Jeff Wall, “A Woman with a Covered Tray” (2003);

S E M T I T U L O | V I E I R A - D A - S I L VA

e Candida Höfer, “Rijksmuseum Amsterdam II” (2003). Actualmente a colecção de Fotografia no novobanco, premiada e reconhecida internacionalmente, é uma das mais importantes colecções de fotografia da Europa e entre as 80 melhores colecções corporativas do mundo que integra os artistas portugueses e internacionais de referência. Em 2011 recebeu a galardão do “Prémio Colecção Corporativa” da ARCOMadrid, em 2014 entra no ‘ranking’ das 100 melhores colecções internacionais do mundo, passando, em 2015, para o núcleo ainda mais restrito das 80 melhores colecções corporativas do mundo pela Global Corporate Collection. Em 2018 é premiada no Parlamento Europeu com o International Corporate Art Awards: “For the Outdtanding Photography Collection of 21st century living”. A Biblioteca de Estudos Humanísticos é outra colecção sob a tutela do novobanco Cultura, que conta no seu acervo com cerca

de 1100 livros antigos – títulos impressos no século XVI como “Utopia”, de Thomas Moore, e outras obras raras como uma edição de “Os Lusíadas”, comentada por Manoel Correa, em 1613, e ainda cartas régias de D. Afonso V e D. Manuel, entre muitas outras. A biblioteca privada do professor e investigador da cultura portuguesa e europeia José Vitorino de Pina Martins, também integra este espólio desde a sua aquisição, em 2008, estão hoje à fruição do publico e dos investigadores na Biblioteca da Universidade de Letras da Universidade de Lisboa. Também na Numismática, o novobanco marca pontos, sendo mesmo reconhecida como a mais relevante coleção de moedas nacionais. Adquirida a Carlos Marques da Costa, em 2007, é composta por cerca de 13 mil moedas, cunhadas em território que é ou foi português, desde um período pré-nacional até à implantação da República. l

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Um quarteirão de experiências com o vinho a pretexto DE FRENTE PARA O PORTO, O WOW – WORLD OF WINE ESTÁ A REVOLUCIONAR A ZONA HISTÓRICA DE VILA NOVA DE GAIA, COM UM CONCEITO DE “QUARTEIRÃO CULTURAL” QUE SURPREENDE PELA DIMENSÃO, OUSADIA E DIVERSIDADE DE OPÇÕES. O PROJECTO TEM A VISÃO DE ADRIAN BRIDGE, QUE JÁ TINHA IMAGINADO O YEATMAN, ONDE ANTES SÓ HAVIA CAVES DO VINHO DO PORTO.

Um projecto como o WOW World of Wine era difícil de imaginar para quem visitasse a zona histórica de Gaia há 20 anos. Então, a área coberta de velhos armazéns do Vinho do Porto era um espaço urbano apagado, com escassa agitação turística e muito menos “tendência” do que o vizinho e moderno Cais de Gaia. A história posterior é mais conhecida: o ‘boom’ turístico do Porto, o crescimento exponencial de visitas às caves e a abertura do Yeatman vieram revolucionar a paisagem física e cultural da cidade que olha a Invicta de frente. A curiosidade e a ironia desta transformação é que ela, apesar de potenciar costumes, produtos e património bem portugueses, foi idealizada por um cidadão inglês. Adrian Bridge, CEO do grupo Fladgate Partnership, viu

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NÉLSON SOARES

um potencial turístico na margem do sul do Douro que estava por explorar e arriscou: abriu o Yeatman em 2010, numa altura em que não havia hotelaria de luxo na zona; 10 anos depois, ousou lançar a ideia de um “quarteirão cultural” – o conceito através do qual o WOW se define – reabilitando um conjunto de edifícios mais ou menos devolutos, nas imediações do hotel. “Ele [Adrian Bridge] é a prova de que as coisas acontecem, se formos perseverantes”, considera Ana Maria Loureço, relações-públicas do espaço, recordando o arrojo que representou lançar um hotel ‘premium’ em

Vila Nova de Gaia “quando não se passava nada” do outro lado do Douro. “A verdade, é que depois disso abriram outros hotéis cinco estrelas, a cobrarem os mesmos preços e o turismo no segmento luxo é uma realidade do lado de cá”, reforça. O CEO da Fladgate Partnership, na perspectiva da responsável pela comunicação do WOW, tem a virtude de extrair o potencial das coisas e saber desenvolvê-lo. “Olha e vê histórias que merecem ser contadas, nas quais nós, portugueses, não vemos grande mérito”, sugere, assumindo que essa foi a visão conceptual que conduziu ao ambicioso conteúdo do WOW: produtos com afinidade ao vinho – como a cortiça, o vidro ou o chocolate – e práticas com tradição regional, como a produção têxtil. É este o ‘corpus’ dos museus (ver caixa) que constituem a espinha dorsal deste monumento de experiências.


FOTOS: GALERIA DE IMAGENS WOW NUNO CENTENO

“Começámos como World of Wine, mas hoje somos cada vez mais o efeito WOW, porque há uma coisa nova que se revela em cada esquina”, descreve Ana Maria Lourenço, que, imbuída do mesmo espírito do CEO, acredita estar perante um conceito “único no mundo” e que o próprio “Cité du Vin”, em Bordéus, – muitas vezes invocado como semelhante – só é comparável em parte a este espaço instalado no coração das caves do Vinho do Porto. “O nosso museu The Wine Experience não lhe fica nada a dever e, mesmo assim, estamos a falar de apenas um museu. Nós temos mais seis, além dos restaurantes e de todas as outras experiências”, refuta a relações-públicas. A perspectiva não é imodesta, porque o WOW faz justiça à onomatopeia e é um espanto dos pés à cabeça, com uma diversidade de escolha que vai da simples contemplação

da vista sobre a Ribeira do Porto, no elegante bar Angel’s Share; às artes plásticas, pastelaria, moda ou escola de vinhos. Tudo com uma abordagem contemporânea, notável harmonia visual e sempre à procura de proporcionar a melhor experiência ao público. “O nosso objectivo é que as pessoas tirem um dia para virem ao WOW. Queremos um turismo de longo prazo, onde as pessoas venham cá mais tempo e mais vezes. [O projecto] está feito para que os visitantes venham cá passar um dia inteiro”, revela a responsável, destacando a qualidade dos museus e o facto de serem espaços “super divertidos, com muita informação e bastante interactivos”. Pela proximidade ao Yeatman, seria expectável que o World of Wine fosse um espaço de acesso mais restrito. A verdade é que o ‘cultural district’ tem um acesso bastante democrático,

tendo sido possível constatar na visita que fizemos ao espaço uma grande diversidade de públicos, desde alunos em visita de estudo, colegas de trabalho em reunião ou os inevitáveis turistas estrangeiros. A relações-públicas assume que a ideia é “recusar o preconceito de que, para vir o WOW, têm de ter muito dinheiro ou virem com uma roupa formal”. “Se nem toda a gente pode ir jantar ao restaurante de carne maturada [1828], quase toda a gente pode ir ao T&C comer uma francesinha, que está ao preço da baixa do Porto. Ou toda a gente pode ir comer um gelado ao Suspiro, ou beber um copo de vinho no nosso bar”, exemplifica Ana Maria Lourenço, que assegura existir no WOW a pretensão de “ser para toda a gente”: “não só pela dimensão que temos, mas também porque há conceitos para todos os gostos”.

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E S P E C I A L C U LT U R A

INSTITUIÇÕES

MUSEUS TEMÁTICOS P I N K PA L AC E “É o filho mais novo” do WOW – porque foi o último museu a abrir – e é “super instagramável”, nas palavras de Ana Maria Loureço. Inteiramente dedicado ao Rosé, procura desmentir os mitos associados a este tipo de vinho, como por exemplo a ideia de ser um produto de menor qualidade ou tratar-se de uma mistura de castas brancas e tintas. Com ambiente extravagante e um cenário onde a piscina de bolas marca a diferença, é a opção mais ‘pop’ de todo o quarteirão. FASHION & FABRIC MUSEUM À partida, incluir os têxteis e a moda num contexto de vinho não seria a decisão mais lógica. Mas sendo o WOW um centro cultural e estando inserido na região do Porto e Norte do país, a indústria têxtil já não parece uma opção tão desenquadrada. Foi com essa premissa que Adrian Bridge quis contar a história de sucesso das roupas e do calçado português, mostrando ao mundo que o nosso país em nada fica a dever aos centros tradicionais da moda mundial. PLANET CORK Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo, sendo responsável por cerca de 50% da produção global. Neste museu que celebra este sucesso, a ligação umbilical com o vinho é inevitável. Mas há muito mais para mostrar, desde o montado português às mais variadas aplicações de cortiça – por exemplo, na indústria aeroespacial. No final do museu, a loja é imperdível, com produtos sustentáveis como raquetes de padel ou objectos decorativos. BRIDGE COLLECTION “Não é um museu das pontes…vem mesmo do nome do CEO”, adverte Ana Maria Loureço. De facto, a associação não é imediata, mas a explicação para o título é simples: Adrian Bridge tem uma das maiores colecções privadas de copos do mundo. Um trabalho que começou por acaso e que se tornou numa paixão séria, reunindo objectos que acompanham a história da humanidade. O culto da bebida e os rituais de celebração e convívio são o subtexto deste espaço. T H E C H O C O L AT E S TO RY O chocolate, sendo uma das harmonias mais interessantes para o vinho, não podia faltar. E a experiência é completa, começando na origem do cacau e a sua introdução na Europa – consta que os portugueses não acharam graça ao fruto e os espanhóis aproveitaram – e acabando literalmente numa barra de chocolate. Isto porque o museu tem integrada uma pequena fábrica, com marca própria [vinte vinte] que representa a localização geográfica do cacau no globo. PORTO REGION ACROSS THE AGES As origens históricas de um território propenso ao comércio. As guerras e as invasões que cercaram a cidade. O liberalismo, a industrialização e os transportes. A história e alma portuense estão reflectidas neste museu, que convida os visitantes a reconhecerem episódios e até expressões populares que fazem parte do dia a dia da população local. Não é o único museu sobre a cidade e sobre a região, mas tem frescura e novidade para apresentar.

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Mesmos os museus, com preços de entrada na casa dos 20€, são vistos pela responsável como opções em que o investimento compensa. “Cada museu tem cerca de hora e meia de visita. São enormes e não conheço ainda ninguém que, no final, não diga que valeu a pena o esforço”, revela, consentindo que “um preço destes pode assustar” o público português, até porque “não costuma dar este valor para visitar um museu”. Ainda assim, há ‘packs’ familiares que permitem um ajuste proporcional do preço. Coerência e idealismo Há um certo ambiente idealista em todo o complexo do WOW. Um sentido de coerência e fidelidade conceptual que começou logo num projecto de reabilitação com mais de 20 mil metros quadrados, mas que respeitou, de forma quase sagrada, a arquitectura envolvente. “Quem olha do Porto para Gaia não vê onde estamos, porque os edifícios estão totalmente integrados no centro histórico. Ninguém acha que está aqui um edifício desenquadrado face ao resto”, sublinha Ana Maria Lourenço. A verdade é que o rigor urbanístico surpreende e faz adivinhar a complexidade de uma obra que preservou alçados e coberturas de edifícios seculares, escondendo toda a infra-estrutura técnica que um complexo moderno exige. “Praticamente nada foi alterado e a única construção nova que foi feita foi a praça. Em termos de engenharia foi um desafio, porque tudo teve de ser feito por baixo do que estava já construído”, confirma a responsável de comunicação. Além do arrojo do projecto de reabilitação, há também uma intenção de auto-suficiência que se manifesta em exemplos como o chocolate de marca própria ou a inexistência de restaurantes concessionados. “A nossa ideia sempre foi de autonomia. Não queremos ter aqui um restaurante de uma cadeia qualquer internacional a fazer uma coisa que não se incluísse no conceito do WOW. Assim, podemos ter as coisas que achamos que fazem sentido para nós”, explica Ana Maria Lourenço, que não esconde tratar-se de uma “máquina pesada”, com cerca de 350 funcionários, mas que tem a felicidade de “estar integrada num grupo forte, que assegura conforto e estabilidade num projecto desta dimensão”.


Foi essa prerrogativa que fez, também, com que o WOW desafiasse a lógica e tivesse aberto portas em plena crise pandémica, quando outros operadores as fechavam. “2020 não foi um ano feliz [para abrir], mas o comboio já estava em andamento. Tínhamos cinco anos de projecto e três anos de obra. Ou mantínhamos isto fechado, à espera de algo indeterminado, ou abríamos e assumíamos as consequências”, fundamenta a relações-públicas, que sublinha, por outro lado, a vantagem de terem podido afinar procedimentos e fazer “pequenas mudanças” numa altura em que havia pouco público. “Teve prós e contras”, um dos quais é terem ficado aquém das expectativas iniciais em termos de afluência, reconhece. Pesada ou não, a máquina está agora próxima de funcionar em pleno. O WOW parece já ter conquistado a população nortenha e os turistas que visitam o Porto, mas de acordo com a responsável, “falta chegar mais às pessoas de Lisboa” e activar as ligações internacionais. “Estamos a estabelecer elos de ligação com hotéis e a criar ‘packs’ e benefícios para turistas. O trabalho de promoção do destino – que estávamos a fazer antes da pandemia – está a voltar a acontecer e isso é claramente importante para nós”.

Experiência do vinho Na tarde em que a PRÉMIO visitou o WOW, foi possível olhar em pormenor o “The Wine Experience”, principal museu do quarteirão cultural e que serve de antecâmara às experiências vínicas disponíveis. A narrativa da exposição está construída de forma a compreender a produção de vinho em toda a sua latitude, começando por explicar os factores climatéricos e os diferentes tipos de solo existente. Várias projecções – umas totalmente multimédia, outras híbridas – permitem compreender alguns fenómenos naturais, como a maturação da vinha ao longo do ano ou a fermentação que acontece no interior das barricas de carvalho. Com grande volume informativo e sempre com uma intenção interactiva, o visitante é convidado a responder a questões, conhecer as principais castas brancas e tintas numa magnífica galeria de ilustrações e é transportado para o Alto Douro Vinhateiro à boleia de uma antiga carrinha Bedford. “É muito importante que as pessoas compreendam todo este processo de trabalho quando bebem um vinho”, explicou-nos a relações-públicas, justificando o nível de detalhe da apresentação. Ana Maria Lourenço referiu que “nem tudo é multimédia” nos espaços de exposição, mas o facto de

fazerem “bastante uso dos conteúdos digitais” tem por objectivo “criar um ritmo interessante à visita”. É nesse sentido que surge um pequeno auditório onde são apresentadas em vídeo todas as regiões vitivinícolas portuguesas. Para trás ficou a nobre arte da tanoaria – ofício em vias de extinção, segundo a responsável – e as diferentes “torras” de que a madeira é objecto, conferindo diferentes tons e aromas ao vinho. Seguiu-se a parte final da visita, onde um pequeno bairro faz uma volta completa a Portugal, mostrando não apenas as vinhas, mas também os produtos, costumes e até a música característica de todas as regiões do país. Finalmente, o percurso desemboca numa área de experiências – designada por “desafio dos sentidos” – onde primeiro explicam e depois testam a capacidade de o visitante identificar as múltiplas combinações aromáticas que o vinho proporciona. Ainda deu para conhecer parte do “Chocolate Story” e a fábrica que está incluída no museu; a loja do “Planet Cork” cheia de produtos surpreendentes feitos em cortiça e a famosa escada dos azulejos – provavelmente o espaço mais fotografado de todo o complexo. Mas o WOW é um mundo a descobrir e facilmente se conclui que uma tarde não chega para satisfazer a curiosidade. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

GALERIAS

Aquele quarteirão do Campo Grande

ANA VAL ADO

O que antigamente era conhecida como “Aquela esquina do Campo Grande”, como refere Jorge Silva Melo num texto, publicado no Magazine Artes, quando a galeria fez quarenta anos, e que Maria Arlete Alves da Silva, mulher de Manuel de Brito, fundador da Galeria 111, inseriu no livro comemorativo dos 50 Anos da Galeria, é hoje um quarteirão inteiro. Um quarteirão onde se “respira” arte contemporânea portuguesa e também estrangeira nas suas mais diversas linguagens, sejam pinturas, desenhos, esculturas ou instalações. A antiga Galeria 111, que começou como uma livraria de apoio às faculdades que ali existem, foi crescendo e expandindo-se para vários espaços adjacentes no mesmo quarteirão, sem deixar para trás os já existentes, dando-lhes sempre uma finalidade com vista à promoção da cultura e arte contemporâneas. A mudança mais recente deu-se há cerca de dois anos, altura em que a Galeria 111 voltou para o espaço da rua Dr. João Soares, que já tinha funcionado como galeria de 2000 a 2015, com um novo conceito, ocupando uma área de 1000 metros quadrados, composto pelo espaço expositivo e com acesso ao armazém. À frente deste espaço está Rui Brito, filho do fundador e coleccionador Manuel de Brito, que com a ajuda da sua mãe deram continuidade não só ao negócio e à paixão do seu pai, mas também à sua colecção de arte frequentemente vezes por instituições portuguesas e estrangeiras para as mais importantes mostras realizadas em Portugal e no estrangeiro. A PRÉMIO foi fazer uma visita à Galeria 111, guiada por Rui Brito, que nos mostrou este novo espaço, onde fomos surpreendidos por algumas peças insólitas que não estamos habituados a ver num espaço como este, como uma mesa de matraquilhos ou um saco de boxe, e não, não estamos a falar de instalações, são objectos que fazem parte da rotina de Rui Brito e que servem também como o próprio refere para “desconstruir a ideia que as pessoas ainda têm de uma Galeria de Arte”. Com regularidade o perito em História de Arte e amante de aviões, escolhe uma pintura como pano de fundo, veste as luvas de boxe e pratica o seu desporto favorito, Muay Thai (boxe tailandês), outras vezes convida amigos, artistas e clientes para animadas e descontraídas tertúlias. Para além deste espaço, fomos surpreendidos por um arquivo imenso num primeiro andar do Campo Grande, muito visitado por estudantes universitários ou especialistas na área para realização de trabalhos e pesquisas. Aqui, por exemplo, podemos encontrar toda a correspondência trocada ao longo de mais de 50 anos entre a Galeria 111 e os artistas que por ela passaram. O espaço onde se encontrava anteriormente a Galeria está a ser renovado para acolher alguns núcleos da colecção Manuel de Brito. Depois de um percurso pelos vários espaços, o anfitrião Rui Brito recebeu-nos na sua sala de tertúlias ao fundo do armazém para uma conversa intimista.

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FOTOS: FERNANDO PIÇARRA

E N T R E V I S TA RUI BRITO, DIRECTOR DA GALERIA 111

“ O A L M O Ç O D O T R O L H A” D E J Ú L I O P O M A R É U M A D A S O B R A S M A I S E M B L E M Á T I C A S D A C O L E C Ç Ã O M A N U E L D E B R I T O

É actualmente o director da Galeria 111, uma das mais antigas galerias de arte do país, fundada pelo seu pai, Manuel de Brito, em 1964. Conte-nos como começou esta paixão pelo mundo da arte? A minha paixão foi inevitável. Cresci no meio da Galeria, hoje com 58 anos e eu com 44 anos, entre artistas e obras de arte. Para além de um grande carinho pelas pessoas e pelas artes, fui desenvolvendo também uma grande sensibilidade estética, que só mais tarde dei conta quando comecei a estudar História de Arte na Faculdade de Letras. Nessa altura foi a primeira vez que tive a noção que o facto de ter nascido no meio em que nasci e dos meus pais sempre me terem levado a exposições e museus, desde pequeno, me proporcionou ter um conhecimento empírico desta realidade. Quando estava à conversa com os meus colegas, mesmo os mais estudiosos e aplicados, apercebi-me que o conhecimento teórico estava lá, mas perante uma obra de arte não sabiam explicar porque era boa ou má, se estava bem

executada ou não. E eu tinha esse lado mais intuitivo. Durante a sua infância, privou com os mais conceituados artistas nacionais, tendo já referido que as paredes do seu quarto em criança que, em vez de ‘posters’ da Disney, estavam repletas de quadros de famosos pintores portugueses. Quer partilhar alguma história curiosa que lhe tenha ficado na memória? Sempre tive uma relação muito próxima com os artistas, com os quais em muitos casos privo desde criança. Acho que essa cumplicidade com os artistas nos destaca em relação a outros projectos. O meu pai sempre teve uma relação muito próxima com os artistas que frequentavam a nossa casa num ambiente muito familiar. E quando eu nasci os artistas de forma natural começaram a oferecer-me as suas obras e foi, nessa altura, que comecei a minha própria coleção. A primeira história de que tive conhecimento foi uma oferta de um quadro de Júlio Pomar do ano do meu nascimento

(1977), uma colagem muito curiosa de um orangotango. O facto de estar sempre presente na galeria, nos ‘ateliers’, criou uma relação de muita proximidade com os vários artistas, algumas dessas relações ainda se mantêm como é o caso da Paula Rego, de quem sou extremamente próximo. De facto, tive a sorte de ter muitas ofertas de artistas, algumas com dedicatórias, e o meu quarto começou a ser forrado por esses gestos de generosidade e que para mim não têm valor comercial. Qual era o grande objectivo da Galeria 111 na altura da sua fundação, numa época em que o colecionismo ou o investimento em arte ainda não tinham grande expressão em Portugal? A Galeria 111 inicia-se de uma forma um pouco amadora, por paixão. O meu pai instalou-se na Cidade Universitária como livreiro, com a particularidade de vender livros proibidos pelo regime, o que rapidamente captou a atenção de políticos, de criativos, etc.. O

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E S P E C I A L C U LT U R A

meu pai sendo um ‘self-made man’ começou a ter contacto com um conjunto de pessoas, nomeadamente das artes, que o desafiaram a fazer algumas exposições de jovens artistas,. O meu pai gostou da ideia e, na última sala da livraria, começou a fazer exposições de artistas que nunca tinham exposto. Estou a lembrar-me, por exemplo, de António Palolo, atualmente um dos grandes artistas da história de arte portuguesa, que expôs pela primeira vez com 17 anos aqui na Galeria. Este projeto não tinha pretensão de ser extremamente bem-sucedido, mas naturalmente isso veio a acontecer e a Galeria foi ganhando peso, a arte foi ganhando visibilidade e o meu pai começou a desenvolver, de certa forma, o mercado de arte em Portugal. Que nomes passaram pelos primeiros anos da Galeria? Os primeiros artistas a exporem na Galeria foram Joaquim Bravo, Álvaro Lapa, Palolo e depois houve muitos outros, como a Paula Rego, a Menez em fases iniciais das suas carreiras. A Galeria foi crescendo e a paixão pela arte também. A livraria, a seguir ao 25 de Abril de 1974, deixou de ser tão estimulante.

GALERIAS

Como é crescer ao lado do “desenvolvimento artístico” de Paula Rego, por exemplo, acompanhando a sua evolução enquanto artista? Eu falo muitas vezes da Paula Rego porque se calhar é a pessoa que eu mais admiro nas artes. Porque é uma pessoa que eu acompanhei muito de próximo, tenho muitas histórias com ela, ela tinha uma paciência infinita e um lado infantil muito grande. Para ter uma noção, a Paula trazia-me brinquedos de Londres para me oferecer e depois tinha a paciência de me explicar como eu podia colocar essas brincadeiras em prática. Por exemplo, nos anos 80, quando ainda não existia muita coisa em Portugal, a Paula Rego trouxe de Londres umas moscas varejeiras de plástico e depois sentou-se comigo e disse-me com um ar muito sério: “Olha Rui, quando os teus pais tiveram um jantar muito importante lá em casa e quando a tua mãe estiver a servir a sopa, tu sem ninguém perceber colocas estas moscas dentro da sopa”. Era a própria a incentivar estas brincadeiras, é o lado perverso dela, que muita gente acha que é maldade, mas é o seu lado infantil. A Paula Rego pintou-me num

quadro de 1988. Numa entrevista perguntaram-lhe onde ia buscar inspiração, e ela explicou: “Por exemplo, neste quadro é o Rui no quintal dele a brincar com o gato e depois apareceu um gafanhoto”. A Paula para mim é um grande exemplo de força, foi tendo várias dificuldades ao longo da vida e conseguiu sempre impor a sua arte, ir mudando de estilo, nunca esteve presa a uma fórmula e sempre esteve preocupada com aquilo que a rodeava, a temas sensíveis como por exemplo a questão do referendo da legalização do aborto. A Paula pega em temas e faz justiça à sua maneira, pintando. Ao mesmo tempo é uma pessoa que, além de ser muito generosa, nunca mudou a sua maneira de estar independentemente do sucesso que alcançou. Eu uso muito a Paula Rego como um exemplo. Neste momento é um dos destaques na Bienal de Veneza, estive lá há umas semanas e constatei que de facto toda a gente está rendida ao seu trabalho e a Paula nunca deixou de ser a Paula. Gosto muito do seu trabalho, acho que a percebo muito bem, mesmo o seu lado mais “macabro”. E actualmente, quais os artistas mais marcantes que a galeria representa, portugueses e estrangeiros?

P E R G U N TA S R Á P I D A S A R U I B R I T O :

Qual o maior ensinamento que reteve do seu pai? Os valores, a palavra, a maneira de estar e tratar as pessoas, a honra e o compromisso. Valores que preso muito. Que artista gostaria que o retratasse? Já tive alguns artista a retratarem-me por iniciativa própria, mas não tenho essa necessidade. Uma obra que gostaria de ter? Paula Rego, War, 2003 A exposição que lhe falta ver? A Retrospectiva de Paula Rego, em Málaga

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Que desejos para a Galeria 111? Gostava que o projecto se tornasse mais internacional, crescendo com as parcerias estrangeiras, e apresentar cada vez mais boas e inesquecíveis experiências sensoriais a quem nos visita. Que conselhos a um jovem artista que está a dar os primeiros passos neste mundo? Manter a humildade, os pés bem assentes na terra, ver muita coisa, visitar muitas exposições, museus e galerias e nunca se deixar deslumbrar por algum momento mais bem-sucedido.


Nós mudámos para este espaço há dois anos e estamos numa fase de visualização de portefólios de artistas. Por exemplo, o Pedro A.H. Paixão é um dos artistas que tem tido maior procura e maior destaque da critica, tem sido um dos artistas com mais sucesso, o Rui Ferreira, o Pedro Vaz, o Alexandre Conefrey, alguns de gerações diferentes, porque gosto de trabalhar com essa transversalidade. Internacionalmente alguns dos projectos que estavam para ser feitos ficaram um bocadinho em ‘stand by’. Há um grande interesse do estrangeiro no nosso país e muitas galerias questionam se fará sentido abrir espaços em Portugal, algumas têm vindo a abrir, galerias francesas, italianas, mas o mercado não é assim tão grande e acho que faz mais sentido fazer parcerias com galerias estrangeiras e convidá-las a fazer uma exposição na Galeria onde mostram o seu portefólio de artistas. A meu ver faz mais sentido esse tipo de colaboração. E o inverso acontece? Temos feito no Brasil, na Alemanha, mas é algo que está a ser trabalhado e vai acontecer cada vez mais. Portugal está claramente no mapa. Toda a gente fala de Portugal, temos cada vez mais visitantes franceses, americanos, muita gente a comprar casa no nosso país e a adquirir obras de artistas portugueses. Quer explicar-nos a existência de um saco de boxe e uma mesa de matraquilhos numa Galeria de Arte? O objectivo é “desconstruir” a ideia tradicional que as pessoas têm de um espaço como este? Permite descontração e confiança. Algumas pessoas entram dão um murro no saco de boxe e eu digo “cuidado isso é uma obra de arte”. As pessoas ficam assustadas. O novo espaço da galeria, com cerca de 1000 metros quadrados e 17 lugares de estacionamento, tem um escritório aberto onde estou a

U M S A C O D E B O X E TA I L A N D Ê S E U M A M E S A D E M A T R A Q U I L H O S T O R N A M O N O V O E S P A Ç O D A GALERIA 111 POUCO CONVENCIONAL

trabalhar, o que me permite ter um contacto direto com quem nos visita. Muita gente que entra numa Galeria de Arte está à espera de um espaço frio, silencioso, associado a alguma “snobeira” e eu, naturalmente, pelos valores que herdei, sempre gostei de me dar com toda a gente, não me acho melhor que ninguém, nem admito que ninguém me trate mal. Nestes últimos dois anos, eu tenho sido incansável a passar essa energia. Recebemos muitas visitas de escolas, que trazem cá as suas crianças e mais tarde essas crianças trazem os pais e avós, por terem gostado do espaço e da forma como foram recebidas. A minha ideia é “desconstruir” o espaço da Galeria como um espaço elitista. Estou muito orgulhoso do que fiz aqui e acho que essa energia passa.

Está a trabalhar na Galeria há quanto tempo? Comecei numa fase inicial aos 15 ou 16 anos a trabalhar em ‘part-time’, ao sábado, a atender clientes para ganhar uns “trocos”. Estudava aqui ao lado no Colégio Moderno, quando saía das aulas ficava aqui neste ambiente de Galeria, sempre foi uma coisa muito descontraída. Por ser o filho mais novo nunca senti a pressão de seguir o negócio. O meu pai teve um filho, do primeiro casamento, que nunca se interessou por arte, a minha irmã também seguiu a área de Relações Internacionais e foi cedo para fora de Portugal e eu comecei a sentir alguma pressão. Sempre soube que gostava da área, mas nos primeiros anos segui as áreas

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D O S S I E R C U LT U R A

GALERIAS

O MAIOR INVESTIMENTO É ADQUIRIR UMA OBRA QUE G O S TA M O S E A S S O C I A R ISSO A UM PREÇO JUSTO.

mais económicas. Acabei por entrar em Gestão na universidade, mudei para Direito, depois para Economia, pertenci a associações académicas e acabei por trocar quatro vezes de curso. Um dia parei para pensar e decidi que o que gostava mesmo era de Arte. Dada a proximidade da nossa família à Faculdade de Letras, o meu pai enquanto livreiro e galerista e a minha mãe licenciada em Germânicas por esta instituição, acabei por fazer a licenciatura em História de Arte. Foi importante sobretudo numa fase inicial para me legitimar junto de alguns clientes. Em homenagem a Manuel de Brito foi inaugurado o Centro de Arte Manuel de Brito (CAMB), no Palácio dos Anjos, em Oeiras, em 2006, sendo um prolongamento da Galeria e onde estava grande parte da coleção privada. O CAMB acabou por sair deste espaço por não renovação do protocolo com a Câmara de Oeiras. Está em cima da mesa a procura de um novo espaço ou uma nova parceria? O palácio Anjos era um espaço que se adequava muito bem à coleção, mas que teve que ser abandonado por falta de interesse de parte a parte. Apesar de estarmos a pensar reformular o espaço da antiga Galeria para construção de um pequeno Centro de Arte, o espaço é muito limitado. No entanto não queremos

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deixar o espaço porque é histórico e achamos que faz sentido ter aqui um pequeno polo da coleção. O Palácio dos Anjos foi um projecto que infelizmente o meu pai não viu terminado porque faleceu um ano antes de abrir. Temos tido vários contactos para avançar com novas parcerias com Câmaras Municipais, mas estamos um bocadinho “escaldados” com esta experiência. Para já não está nada assente. Temos uma parceria com a Faculdade de Letras e gostaríamos de fazer algo com a Universidade de Lisboa, por exemplo. Uma curiosidade que muita gente desconhece é que o Pavilhão de Portugal na Expo pertence à Universidade de Lisboa. As parcerias académicas são algo que nos interessa mais neste momento. Depois acabamos sempre por estar ligados a museus. A colecção tem atualmente cerca de 2000 obras, muito focada na pintura, escultura e desenho. Após o falecimento do seu pai, em 2005, foram adquiridas novas obras para o espólio da coleção? Sim, continuamos sempre a adquirir peças. Mesmo antes de inaugurar o Centro de Arte Manuel de Brito, em Algés, eu e a minha mãe, que no fundo gerimos a colecção, adquirimos cerca de 200 peças. Fizemos uma avaliação ao espólio e achámos que alguns núcleos estavam muito curtos

e adquirimos algumas obras para reforçar determinadas áreas. Para além disso, comprámos, já após a morte do meu pai, uma obra de Júlio Pomar, se calhar a mais importante do neorrealismo português “O Almoço do Trolha”, que o artista começou a pintar em 1946, com 20 anos, foi preso pela polícia política e só foi concluída em 1950. Esta era uma obra que a meu pai queria muito, pela proximidade que tinha ao artista e também por ser talvez a sua obra mais emblemática. O quadro estava numa colecção particular e o seu detentor nunca o quis vender. Após a sua morte os herdeiros levaram a obra a leilão e eu adquiri-a e hoje faz para da coleção Manuel de Brito. Foi uma homenagem ao meu pai. Considera que o modelo das feiras de Arte está esgotado? Como estes certames se podem reinventar? Se por um lado as feiras são um modelo muito útil e prático, para dar conhecimento das obras e para “abrir portas” a uma série de contactos, por outro tornam-se muito dispendiosas. Ao mesmo tempo realizam-se feiras por todo o mundo. Eu frequento muitas, mais como coleccionador do que como galerista, e sinto realmente que o modelo está a esgotar-se. As feiras muito grandes como a Art Basel podem ter


alguma importância, mas na minha opinião as feiras “satélite”, mais pequenas, mais direcionadas e mais acolhedoras estão a ganhar espaço e adeptos. Nos últimos anos assistimos a uma mudança de paradigma, com o mundo da arte a tornar-se cada vez mais digital. Este factor tem afetado negativamente a actividade das galerias de arte no geral, em termos de vendas e de visitas? Com os tempos de pandemia muitas galerias viraram-se para o digital e tornaram as suas feiras digitais, mas não é a mesma coisa. É preciso conhecer bem os artistas e as suas obras e, principalmente, ter confiança nas galerias. Sendo nós uma casa com 58 anos, com prestígio no mercado, os nossos clientes adquirem-nos as obras sem as ver, sabem que não especulamos preços, ou seja, confiam em nós. Em toda a história da galeria nunca vendemos um falso. As pessoas depois do confinamento estavam com “sede” de ver exposições. Nestes dois últimos anos tivemos os melhores anos em termos de visitas. A nossa última exposição acolheu em mês e meio cerca de 1000 visitantes, o que é muito bom para uma galeria. Sempre tivemos muito público, pelo interesse histórico de mais de 50 anos de atividade, mas também atraídos pelo Instagram, uma plataforma que nos traz muito público, que procura artistas mais baratos, mais caros, mais emergentes ou mais consagrados. Durante a pandemia não tivemos uma crise económica. Crise está a acontecer agora. Na altura da pandemia os mercados abanaram um bocado e as pessoas não sabiam muito bem onde colocar os seus ativos e muita gente procurou obras de artistas consagrados como maneira de alocar o seu dinheiro de forma segura. São o caso de artistas como a Vieira da Silva, a Paula Rego, o Júlio Pomar e outros autores de valores elevados.

Por outro lado, existe o factor estético, as pessoas começaram a valorizar mais as suas casas, porque estavam fechadas entre quatro paredes. As rentabilidades são elevadas? Depende do artista e de muitos outros fatores. Por exemplo, o meu pai comprou na década de 80 uma obra da Paula Rego por 300 euros que hoje vale 500 mil euros. A Paula Rego tem obras transaccionadas na ordem dos 3 milhões de euros e, apesar de já estar num patamar muito elevado, o facto do reconhecimento internacional da artista ainda lhe dá alguma margem de subida. É preciso saber comprar, neste momento podem existir artistas mais jovens com um potencial imenso de crescimento. Mas é preciso cuidado e ser bem aconselhado, pois existem alguns artistas, que por estarem associados a determinados curadores ou por entrarem em exposições onde não têm mérito para estar, mas onde o ‘lobby’ da arte os posicionou, não têm consistência e acabam por cair. O maior investimento é adquirir uma obra que gostamos e associar isso a um preço justo. A Galeria 111 esteve presente na ARCO Lisboa, entre 19 e 22 de Maio. Pode destacar-nos algumas das peças que lá estiveram representadas? A feira decorreu na Cordoaria, um espaço que acaba por ser limitado, daí termos optado por apresentar três artistas. Fazia sentido a Paula Rego, por estar representada na Bienal de Veneza, por ter tido uma grande retrospectiva o ano passado na Tate Britain e por ser uma artista muito acarinhada pelo público português, achámos que deveria estar presente numa primeira participação da Galeria 111 na ARCO Lisboa. Os outros artistas foram o Pedro A.H. Paixão, artista que inaugurou este novo espaço da galeria e que tem tido uma forte procura, e o Rui Ferreira, de uma geração próxima da minha,

que também desenvolve um trabalho muito interessante. Vão participar em mais feiras este ano? Eventualmente vamos participar numa feira só com desenhos na Sociedade Nacional de Belas Artes, o Drawing Room Lisboa. Este é um ano de afinações, até por todo o contexto internacional que tão bem conhecemos. Para o ano estamos a prever fazer mais feiras internacionais, vamos ver como a situação da guerra evolui. Que exposições vão estar patentes na Galeria 111 durante os próximos meses? A exposição que agora terminou deu-me muito gozo fazer, até porque tocou em temas muito sensíveis da actualidade, como o colonialismo, a guerra e as ditaduras. Uma exposição planeada há uma série de tempo e que de repente parece que foi feita de propósito para a Guerra da Ucrânia. Denominada “Besta”, esta exposição colectiva integrou trabalhos de Alexandre Conefrey, Pedro A.H. Paixão, Rui Chafes e Rui Moreira. Agora está a decorrer a exposição “Espelho” de Adriana Molder, até 3 de Setembro. Depois segue-se uma exposição de escultura de Miguel Ângelo Rocha, um artista que se vai estrear na Galeria 111. Já trabalha no mundo da arte há algum tempo. Qual é a sua percepção do estado da arte em Portugal? Neste momento estamos a ser muito impulsionados pelos estrangeiros que vieram para Portugal, sobretudo os franceses e belgas muito interessados em arte e com óptimas colecções e estão a acolher bastante bem os artistas portugueses. Na minha opinião o mercado de arte em Portugal está saudável e bem sustentado, apesar de existirem altos e baixos. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

GALERIAS

GALERIA

De Portugal para o Mundo A GALERIA NUNO CENTENO É UM ‘EX-LIBRIS’ DA CIDADE DO PORTO. SITUADA LONGE DO QUARTEIRÃO DAS ARTES, NUM EDIFÍCIO EMBLEMÁTICO DA CIDADE, A GALERIA É HOJE UM PONTO INCONTORNÁVEL DA ARTE CONTEMPORÂNEA. NUNO CENTENO, QUE COLECCIONA PRÉMIOS INTERNACIONAIS, COMO O QUE O COLOCOU NO LOTE DOS MELHORES 10 GALERISTAS EUROPEUS PELO ARNET OU A DISTINÇÃO DA APOLLO 40 UNDER 40 DA APOLLO INTERNATIONAL ART MAGAZINE, CUJO OBJECTIVO É CELEBRAR A PRÓXIMA GERAÇÃO DE INOVADORES E INSPIRADORES LÍDERES EMPREENDEDORES DO MUNDO DA ARTE, DIZ QUE “TRABALHA DO PORTO PARA O MUNDO” E NÃO TEM DÚVIDAS EM AFIRMAR QUE HOJE A GALERIA E O PORTO “JÁ FAZEM PARTE DO MAPA INTERNACIONAL DAS ARTES”. “QUANDO VIAJO, DE UMA MANEIRA GERAL EU SEI QUEM SÃO OS OUTROS E OS OUTROS SABEM QUEM SOU”.

“Queria um espaço que fosse representativo da cidade do Porto”, é desta forma simples que Nuno Centeno justifica a escolha do emblemático edifício da Cooperativa dos Pedreiros para instalar a “sua” galeria desde 2018. O espaço, com 1100 metros quadrados, transporta-nos para o “mundo da arte”, as paredes “brutalistas” e “meio toscas”, remetem-nos para os ‘lofts’ industriais que nos acostumamos a ver no Soho em Nova Iorque, ou em Berlim…mas a vista impressionante sobre a cidade rapidamente nos recorda que estamos no Porto. A Cooperativa dos Pedreiros, que está ligada a alguns dos mais emblemáticos edificados da cidade como a rotunda da Boavista, a mítica estação de S. Bento ou o edifício dos Paços do Concelho,

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ELISABETE FELISMINO

é agora o albergue de um espaço dedicado à arte contemporânea, a Galeria Nuno Centeno. Nuno Centeno, filho do reconhecido artista plástico Sobral Centeno, desde cedo percebeu que o seu destino estava traçado, mas como costuma dizer “as coisas a mim vão-me acontecendo”. Com 21 anos embarca para o Rio de Janeiro para ser artista…mas sai de lá galerista. “Como estava sozinho no Brasil, acabei por me dedicar à arte 24 horas por dia. Os meus dias eram passados entre estudar arte, ir a inaugurações, fazer algum desporto e andar no meio, conhecer pessoas…aprendi muito até porque os brasileiros têm muita

liberdade criativa e artística”, diz o galerista. Eclético por natureza, Nuno depara-se com um problema. Gostava de todas as formas de arte e percebe que a “única forma de agregar tudo isso e estar no meio artístico era viver a arte através dos outros”. Foi assim que nasceu o galerista Nuno Centeno. Em 2007, quando regressa a Portugal, é o pai que o apoia a abrir o primeiro espaço, a Reflexus. “Basicamente era uma micro sala de 20 metros quadrados, forrados a pladur, num prédio tipicamente português, em frente ao Palácio de Cristal”. O funcionamento era também simples. “Comecei a convidar artistas locais muito novos e fomos crescendo juntos, quando dei por mim, o que idealizara como um espaço de projectos torna-se uma galeria, estava a representar artistas…foi um processo muito espontâneo”, recorda


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FILIPE BRAGA

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FILIPE BRAGA

DR NUNO CENTENO

Nuno Centeno. A galeria foi-se “tornando super cool”, porque “apesar do mercado de arte ser muito forte na altura, era também muito estanque”. Com 27 anos, Nuno Centeno percebe que “tem liberdade para fazer o que os outros não podiam até porque não tinha a preocupação comercial”. “Tínhamos apenas a necessidade de fazer coisas fixes, de ser cool”. É com esse espírito que Nuno parte para Londres, em 2009. Juntamente com dois amigos começa a fazer uma exposição por mês, num micro ‘atelier’ de um deles, por trás da Whitechapel Gallerry. O projecto foi um sucesso, durou cerca de dois anos, mas o galerista só esteve envolvido durante um ano, e consistia em convidar todos os meses um artista português da nova geração, com alguma visibilidade em Portugal, a expor em Londres. Mas o chamariz de Portugal fala mais

forte. Nuno regressa ao Porto, desloca a galeria para a Rua Miguel Bombarda (a rua das artes no Porto) e passa a chamar-lhe Galeria Nuno Centeno. “A partir daí começa a existir uma consciência maior, tinha mais confiança para abrir um espaço com o meu nome. E há um momento muito interessante, os artistas que escolho para trazer a Portugal muitos deles não eram ainda conhecidos, mas estavam a um passo de se tornarem artistas muito grandes”. “Foi uma viragem incrível para muitos deles. Passaram a ser representados pelas maiores galerias do mundo e é aí que a galeria também começa a crescer”, recorda. A tal simbiose no mundo da arte: “os artistas crescem, a galeria cresce, a galeria cresce e os artistas crescem”. Seguem-se anos de muito trabalho e de grande reconhecimento. “Começa a saga de 10, 11 anos de feiras

internacionais ( Frieze London e Nova Iorque, Miami Art Basel, ARCO Madrid, entre outras) que só pararam na pandemia”. De resto, em 2018 a Galeria é distinguida com o prémio do melhor ‘stand’ da feira internacional Frieze em Nova Iorque. Nuno Centeno depara-se agora com um ‘statement’. “Este é um projecto muito bonito, eu acho, e muito específico porque é um projecto pessoal, é um projecto de vida, não é só um projecto comercial- que também o é, até porque temos contas brutais para pagar- é um projecto, é a Galeria que vai sendo aquilo que eu sou ao longo da vida”. “Sou muito eclético, gosto de rock, gosto de jazz, gosto de música brasileira e eletrónica e na arte é exatamente igual e à medida que vou crescendo vou ajustando o programa”, afirma Nuno. Agora “o que estou a tentar é

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E S P E C I A L C U LT U R A encontrar um balanço entre o meu projecto que é esta galeria e conciliar a família”. Até porque admite “o mundo da arte é extremamente agressivo, da mesma forma que é mundo da música e o mundo da moda”. E sobretudo é um mundo em que se “fala muito de liberdade, mas onde acabas por estar preso a um conjunto de regras que não estão escritas no papel, são códigos e regras que existem…é um mundo muito impenetrável do qual tenho o privilégio de fazer parte”. Nuno Centeno diz mesmo que “para se estar no mundo da arte, há uma altura na tua vida em que só podes viver e respirar aquilo que fazes e depois ao fim de alguns anos, se te conseguires posicionar, consegues libertar-te um pouco”. “É um pouco nessa fase que estou”, frisa o galerista. A “fuga” do quarteirão das artes Nuno Centeno justifica a escolha do espaço e a transferência da Rua Miguel Bombarda, onde de facto nasceu a Galeria que transporta o seu nome, com as limitações da rua. “É uma rua muito bonita, cresci ali, mas é uma rua com limitações em termos de espaço, precisava de um espaço maior e queria sair do conceito de loja”. Quase por acidente, encontra a Cooperativa dos Pedreiros, apaixona-se pelo espaço e começa logo ali a visualizar o futuro. Reconhece que as inaugurações em simultâneo da Miguel Bombarda tem alguma vantagem a nível da dinâmica, mas não a nível comercial. Hoje, adianta, tem o seu próprio público. “As pessoas vêm aqui para vir à Galeria, vem aqui para ter um momento cultural, para ter uma experiência com a cidade”. “Geralmente veem mais do que uma exposição, às vezes até quatro, têm projectos integrados com arquitectura, às vezes vídeo arte, projectos mais experimentais e depois há ainda esta coisa incrível que é a vista para a cidade, portanto temos mais para dar do que só a experiência artística”. De resto, acrescenta: “cada vez mais

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GALERIAS

estamos a convidar artistas que vêm de áreas diferentes, do cinema experimental, arquitetura, design”. Apesar de não estar no quarteirão das artes o entendimento com os pares é “muito bom”. O mesmo se passa com os agentes culturais da cidade, nomeadamente com a Fundação de Serralves, onde faz parte inclusive do Conselho de Fundadores. Quanto ao futuro, Nuno vê a galeria a caminhar para um modelo mais profissional e mais livre. “Caminha sempre de uma forma íntima e pequena, não quero que a galeria seja grande em termos de estrutura, quero que seja grande em termos de visibilidade, de ‘branding’ e de programa”. E, sobretudo vê a galeria Nuno Centeno a caminhar para “uma experimentação, a de cruzar artistas contemporâneos nas várias ramificações que podem ir do design, à arquitetura, à música, ao fashion design”. Nuno Centeno tem ainda um desejo quase secreto. “Questiono a possibilidade de no futuro vir a ter uma galeria/espaço cultural sem uma preocupação de representação de artistas, é algo que gostava de experimentar. Ou seja, uma galeria que não tivesse a necessidade de representar um artista, uma galeria que pudesse fazer livremente exposições de artistas”. Uma opção que reconhece “traria mais liberdade e que tem muito a ver com este meu lado de estar sempre à procura de algo mais, de não saber estar quieto”. Seria, acrescenta “uma experiência que poderia abrir a porta para um trabalho mais emocional com os artistas, penso que é algo que pode vir a ser muito interessante no futuro”. Para Nuno Centeno, Portugal está na moda no que respeita à arte contemporânea e a prova disso é

a maior facilidade com que hoje se trazem artistas para Portugal. “Portugal está na moda, claro que está. Há uma tendência de estrangeiros a quererem mudar-se para Portugal e, de um modo geral, os artistas têm interesse ou curiosidade em fazer uma apresentação ou uma exposição no nosso país”. Apesar de não ser uma galeria de “muitos clientes, mas sim com bons clientes”, Nuno admite que “nos últimos tempos temos tido cada vez mais clientes, costumo dizer que aparecem do nada, mas a verdade é que isso é o culminar de muito trabalho. Nos últimos 15 anos não tive vida própria e foi preciso vir uma pandemia para que isso se alterasse”. Aliás, sobre a pandemia, altura em que a Galeria Nuno Centeno chegou a fazer quatro exposições virtuais ao mesmo tempo, o galerista admite que foi um “período positivo, fui obrigado a parar e tive tempo para pensar”. Com alma de artista, o galerista reconhece que hoje é empresário, mas salienta que “evito pensar como tal, tento ser muito pragmático, muito simples a fazer a gestão da galeria”. E como estamos a falar de uma estrutura “familiar torna-se mais simples”. “Somos uma galeria sólida em Portugal com visibilidade para o mundo”, e é assim que “queremos continuar a ser”. Depois da exposição de Carolina Pimenta “This side of Nowhere”, que decorreu até 28 de Maio, actualmente pode ser vista, até 16 de Julho, a exposição de Ângelo de Sousa, Philippe Van Snick e Sobral Centeno. l


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E S P E C I A L C U LT U R A

GALERIAS

MAFALDA BELFORT HENRIQUES, CO N S U LTO R A D E A RT E

Uma “viagem” pela ARCOlisboa

A

5.ª edição da ARCOlisboa, que decorreu entre 19 e 22 de maio, com obras de 14 países, recebeu 11 mil visitantes, com efeitos muito positivos para quem expôs e quem visitou Comecemos pela secção Opening, composta por galerias com menos de sete anos. Na galeria No.No, duas peças da Ana Pérez-Quiroga: a frase-escultura em néon, de vermelho impulso, de promessa física e os objectos do quotidiano amado, encapsulados em cobre, inicia-se a narrativa do espaço habitado. Em frente, o trabalho de Lucía Bayón, pela Intersticio, que continua com o quotidiano, mas usa a função de objetos como motivos-padrão. Os baixos-relevos de peças de vestuário são exemplo da investigação sobre repetição e serialidade de gestos, ritmos e materiais. A Foco, através do trabalho da Mia Dudek, retrata a urbanização brutal contra o corpo frágil, a condição humana. As fotografias de prédios de habitação social em Lisboa, vinculadas a peças de espuma de betão pigmentado, em diálogo com as imagens de cogumelos, que transmitem o crescimento gradual quase diário, como se ocupasse todos os espaços do dia, todos os poros da vida sem lugar para outro. Aqui, o ritmo do quotidiano – ao contrário

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da sensualidade do trabalho da Ana Perez-Quiroga, da leveza de Lucía Bayón - é de harmonia sufocante. Atravessando para a área principal, a Marra/Nosco trouxe três peças do brasileiro Túlio Pinto, que explora a fragilidade, a transparência do vidro com o peso e densidade opaca de estruturas de metal. O trabalho, em aparente oposição, reflete a dualidade humana, ideogramas da fragilidade que tudo suporta. Mónica de Miranda esteve representada na Sabrina Amrani e Carlos Carvalho, com as suas reconhecíveis fotografias repartidas e uma série de imagens bordadas de extraordinária delicadeza. Logo ao lado, a ironia de Isabel Cordovil, na galeria Uma Lulik, com a sua escova de dentes como símbolo do fim de uma relação e o iluminador trabalho de Paulo Lisboa. A Vera Cortês trouxe duas peças de Alexandre Farto, a “construção pictórica” de Carlos Bunga, o trabalho de Gabriela Albergaria com os seus jardins mágicos, elaborados como sistema feito de hierarquias visuais (adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa, para o Núcleo de Arte Contemporânea). Passando pela 3+1, com as pinturas de Tiago Baptista e a sua estrutura esqueleto, o ritmo da frente e verso personalizável, vemos ao fundo a parede com as peças de Marina González Guerreiro, na Rosa Santos. Séries de pias batismais em cerâmica

esmaltada, com sentido inverso: a graça que é recebida pela bênção, aqui aparece como oferta, com chá e flores secas, noutra com arroz, símbolos de abundância. Como se, em vez de retirar algo que nos é dado culturalmente, é aqui proposto como uma oferenda de emoções, um ritual íntimo de entrega. Aqui há África Atrás, a This is not a white cube, primeira galeria africana em Portugal e parte da secção África em Foco, com os seus Discursos de Decolonialidade. A permeabilidade de discurso é notável entre todos, sejam as meninas de Dagmar, a escultura feita de tiras de borracha de Patrick Bongoy, as memórias do quotidiano de René Tavares, as personagens deformadas de Cristiano Mangovo e as cores vibrantes de Francisco Vidal. O discurso é claro e as consequências devidamente questionadas. Em frente, um ‘stand’ onde o olhar conhecedor, que tudo simplifica, nos leva a um encontro. Foi ao ver as séries de pintura Outskirts e Reliquiae, de Rui Calçada Bastos, que Bruno Múrias percebeu a ligação com o trabalho fotográfico Against the Day, de António Júlio Duarte. Ou seja, este encontro que agora nos é tão claro, foi uma coincidência no imaginário dos dois artistas. No outro corredor, na Zielinsky,

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


© BRUNO LOPES CORTESIA DA GALERIA BRUNO MÚRIAS

PEÇA DE GABRIELA ALBERGARIA C O R T E S I A D A A R T I S TA E D A G A L E R I A V E R A C O R T Ê S

© CYRIL MOUMEN TULIO PINTO, COMPLICITY #35, 2022 C O R T E S I A D O A R T I S TA E D A G A L E R I A M A R R A / N O S C O

@ GORO STUDIO PEÇA DE MARINA GONZÁLEZ GUERREIRO CORTESIA DA GALERÍA ROSA SANTOS

Guillermo García Cruz introduz o conceito de Glitch, termo usado em programação para quando existe um erro temporário, uma interrupção de momentos. Ao contrário do bug, o glitch não destrói o sistema. As obras refletem o glitch como pausa do quotidiano, e esta falha, como as grandes guerras, o muro de Berlim, a pandemia, cria mudanças de paradigmas estabelecidos. Voltando para trás, na Francisco Fino, as três obras de Vasco Araújo no corredor e a ironía poética de Adrien Missika. A 31 project, parte da África em Foco, trouxe o trabalho de Aviwe Platjie,

auto-didata com uma técnica nas diferentes texturas muito interessante. Existe aqui uma partilha de momentos: a conversa entre amigos, a intimidade do espaço doméstico, como uma pausa no tempo, leve e sonhadora. A Galeria 111, fundada em 1964 por Manuel de Brito, conta com um percurso reconhecido ao longo de cinco décadas. Sob a direcção de Rui Brito e Maria Arlete Alves da Silva, o trabalho da 111 é um dos pilares do panorama da arte contemporânea portuguesa. O respiro expositivo permitiu admirar o trabalho de Pedro Paixão do

lado direito, adquirido pela CML, os desenhos da Paula Rêgo e as pinturas de Rui Miguel Leitão Ferreira. Histórias do dia-a-dia, paixão, protesto e resiliência são a base de todos os contos, da necessidade de narrar todos os quotidianos. Mas a urgência em estar fisicamente presente, depois de dois anos digitais, teve como resultado a elevada qualidade dos trabalhos expostos e revelou a força de adaptação das galerias, mas principalmente o olhar leve de futuro deste evento organizado pela IFEMA Madrid e CML. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

AS MINHAS COLECÇÕES

ANTÓNIO CACHOLA

“Decidi que a minha coleção iria ser de artistas portugueses” N E S TA B R E V E E N T R E V I S TA , G O S TA R Í A M O S D E S A B E R U M P O U C O M A I S D A P E S S O A Q U E E S TÁ P O R D E T R Á S D A C O N S T I T U I Ç Ã O D E S TA C O L E Ç Ã O . A N T E S D A S E X P O S I Ç Õ E S F I C A R E M A C E S S Í V E I S A O S V I S I TA N T E S , H Á T O D O U M T R A B A L H O D E R E L A Ç Õ E S E A R T I C U L A Ç Õ E S E N T R E A G E N T E S D O M E I O , M U I TA S V E Z E S I N V I S Í V E I S , Q U E E N V O LV E M L I N H A S D E T R A B A L H O E P R O G R A M A S A R T Í S T I C O S , E S T R AT É G I A S E PA I X Õ E S , B E M C O M O O P Ç Õ E S E É T I C A S D E A Q U I S I Ç Ã O . VA M O S C O N H E C E R A L G U M A S D E S TA S M O T I VA Ç Õ E S E M C O N V E R S A C O M A N T Ó N I O C A C H O L A .

SARA ANTÓNIA MATOS, CURADORA

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Para quem nos lê e não está familiarizado com o que significa ser colecionador, pode dizer-nos qual a sua área de trabalho profissional, como chegou ao campo da arte e começou a colecionar? Sou economista de formação e tenho desenvolvido, desde sempre, a minha vida profissional no contexto empresarial, com contactos muito próximos com as mais importantes áreas funcionais nas empresas, nomeadamente as áreas financeiras, recursos humanos, marketing, comercial, direção-geral, entre outras. Atualmente, sou administrador não executivo da Delta Cafés. De forma geral, creio que foram as viagens, que tive oportunidade de fazer ainda muito jovem, que me permitiram descobrir e aproximar-me, enquanto visitante, do fazer artístico e de diversas instituições museológicas.

Consigo, claramente, identificar dois momentos que foram responsáveis pela forma como cheguei ao campo da arte e comecei a colecionar. O primeiro: as edições dos encontros de arte que aconteceram no Alentejo, concretamente em Campo Maior, durante a década de 1980, com a presença de artistas como Julião Sarmento, Ana Vidigal, Pedro Cabrita Reis, Ilda David, Xana, entre muitos outros. O segundo, foi o surgimento do MEIAC (Museu Ibero Americano de Arte Contemporânea), na década de 1990, que eu acompanhei de muito perto. Posso dizer que comecei a colecionar por prazer, porém, desde cedo se insinuou também uma grande vontade de ver a coleção dar origem a um museu. A primeira exposição pública da minha coleção aconteceu em 1999, precisamente no MEIAC, e o protocolo para a criação do Museu

(Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)


DR

inaugurações, visitar e conversar com os artistas nos seus ‘ateliers’ é uma condição necessária para mim enquanto colecionador e uma prática recorrente que definiu o modo como a coleção foi criada. Gosto de perguntar aos artistas como, e com que obras, gostariam de se ver representados na coleção e isso sempre fez diferença. É também indispensável falar com curadores cujas conversas nos permitem ter aproximações diferentes às peças e ao trabalho dos artistas, ouvir outros colecionadores, acompanhar o trabalho dos críticos de arte, perceber como os galeristas gerem a presença dos seus artistas na respetiva galeria. É tudo isto, entre outras coisas, que eu tento fazer para me manter convenientemente informado enquanto colecionador. Ou seja, uma coleção é formada por um conjunto de obras, mas igualmente por um conjunto, ainda maior, de conversas.

de Arte Contemporânea de Elvas foi assinado em abril de 2001, entre o Ministério da Cultura, a Câmara Municipal de Elvas e eu enquanto colecionador. Que tipo de disponibilidades

e compromissos requer um colecionador? Desde que coleciona, passou a ir regularmente a inaugurações e ‘ateliers’ de artistas? Informa-se, estuda sobre arte? No meu caso, a disponibilidade tem sido total e o meu compromisso permanente. Participar nas

Com consciência de que a arte é global, pode dizer-se que a sua coleção pôs um foco particular em artistas portugueses. Por que razão usou este critério para aquisição? Isso foi um modo de estimular o meio artístico português e um compromisso de fomento para com o sistema? O meu critério foi desde o início muito claro. Decidi que a minha coleção iria ser de artistas portugueses, podendo estes viver e trabalhar dentro ou fora do país, que tivessem começado a expor pública e regularmente depois de 1980. A limitação da nacionalidade e a fixação de uma data foram fundamentais para estabelecer uma coleção com algum significado histórico, e também para a atualidade. Claro que o facto de os recursos financeiros serem sempre escassos, também obriga à existência de critérios. Escolhi os anos de 1980 para início da coleção porque esses anos corresponderam a uma década paradigmática no que à viragem para a arte contemporânea diz respeito, no caso português. Foi

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E S P E C I A L C U LT U R A nessa altura que começaram a surgir no país museus e centros de arte que se vieram a mostrar decisivos para o futuro da arte contemporânea em Portugal. Ao concentrar a minha atenção nos artistas portugueses, que sempre considerei de extraordinária capacidade criativa e que sem qualquer margem para dúvida estão ao nível dos artistas estrangeiros, tenho consciência que, de uma forma natural, passei também a estimular o meio artístico português. Essa vontade de agir positivamente num meio que é, infelizmente, precário é uma característica intrínseca da coleção. Procura seguir os artistas ao longo dos seus percursos, adquirindo várias obras durante os seus trajetos, ou dá primazia à pluralidade e diversidade de representação, optando por integrar na coleção obras de novos e diferentes artistas? Para responder à sua pergunta vou citar Delfim Sardo num texto que escreveu sobre a coleção com o título “Um fino termómetro social” publicado em Coleção António Cachola Vol. 2012: “[...] normalmente as coleções dividem-se em duas categorias, as coleções intensivas e as extensivas, ou seja, as coleções que se dedicam a um número restrito de artistas e acompanham o desenvolvimento dos seus percursos, e as coleções que efetuam cortes sincrónicos num leque amplo de artistas. A coleção Cachola foi desenvolvendo uma estratégia mista, quer alargando o espectro de artistas que foram sendo adquiridos, quer acompanhando os desenvolvimentos da arte praticada por artistas portugueses, com uma particular atenção às situações emergentes; simultaneamente, no entanto, foi efetuando aquisições e acompanhando o percurso de alguns artistas de forma intensiva.” Esta estratégia mista continua a guiar a coleção. Quando as coleções atingem determinada dimensão, começam elas próprias a exigir a integração de outras obras, seja para encetar diálogos necessários, seja

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AS MINHAS COLECÇÕES para dar continuidade a reflexões já presentes, ou ainda para inscrever novas saliências visuais e/ou temáticas. Usando a expressão e a metodologia desenvolvida pelo historiador Aby Warburg não posso deixar de dizer que há também uma lógica de “boa vizinhança” que permeia a coleção. Pode dizer-se que na última década, tem dado especial atenção à diversidade geracional e de género dos artistas que compõem a sua coleção, bem como questões geopolíticas? No que diz respeito à diversidade geracional posso dizer que sempre estive muito atento e a coleção sempre refletiu de forma equilibrada a coexistência de várias gerações. Por exemplo, no final dos anos 1990, ao mesmo tempo que adquiria obras de artistas como José Pedro Croft ou Pedro Calapez adquiri também o primeiro vídeo de João Onofre, uma edição de um exemplar, ainda em VHS. Em relação à diversidade de género, nos últimos anos temos tido uma atitude cada vez mais responsável e consequente, continuando a corrigir a situação inicial de desequilíbrio entre o número de homens e de mulheres. Nesse sentido, podemos dizer que hoje, sem sombra de dúvida, damos especial atenção à diversidade de género dos artistas que compõem a coleção. Contudo, importa dizer que não temos mérito nenhum nesta ação pois é uma obrigação ética que queremos ver refletida não só na diversidade de género, como étnica, de orientação sexual, entre outras. A preocupação com questões geopolíticas advém, por um lado, desta diversificação em curso, mas também de uma tendência que se reconhece nos filões temáticos explorados pelos artistas no geral. Considera que, ao investir nas artes plásticas e mostrar a importância destas no seio social, está a exercer uma função política?

De alguma maneira, a minha coleção sendo privada tem hoje características de coleção pública. Na realidade, considero que ao investir nas artes, estou a incorporar valor naquela que tem sido, ao longo dos anos, uma verdadeira parceria público-privada de sucesso para a comunidade: a ligação entre a minha coleção e o município de Elvas que deu origem ao Museu de Arte Contemporânea de Elvas-Coleção António Cachola. Nesse sentido, posso afirmar que a inscrição de uma nova discursividade na vida e no espaço públicos envolve sempre uma ação política. Fazê-lo com a apresentação de uma diversidade de vozes como as que têm os artistas contemporâneos reforça ainda mais essa ação. Nas diversas etapas de aquisição e de crescimento da sua coleção tem sido aconselhado por especialistas do meio, familiares ou outros (por exemplo, curadores) ou segue de facto a sua intuição pessoal? Podemos dizer que o aconselhamento tem estado sempre presente. Fazer uma coleção implica escolher e este ato pode e deve ser alvo de múltiplas influências, embora no final seja sempre subjetivo. Na fase inicial da colecção, tive um apoio muito importante do curador João Pinharanda na escolha dos artistas e na seleção das suas obras. O Museu de Arte Contemporânea de Elvas abriu em julho de 2007 e, nessa altura, convidei o João Pinharanda para responsável da programação do museu, onde ficou durante três anos. A nossa proximidade, resultante dessa situação, permitiu que, nesse período, ele tivesse continuado a aconselhar-me no processo de crescimento da coleção. Por outro lado, a minha filha, Ana Cristina, tem sido e é hoje tão responsável pela coleção quanto eu, tanto ao nível macro de pensar a coleção no seu todo, nas suas exigências e deveres, como ao nível micro de aquisição das obras. Que obras de


J OA N A VA S C O N C E L O S / M AC E

JORGE MOLDER / MACE

F E R N A N DA F R AG AT E I R O / M AC E

V I S TA D E E X P O S I Ç ÃO / M AC E

A Coleção António Cachola começou a ser construída no início da década de 1990 e reflete os últimos 25 anos da criação artística visual realizada por artistas portugueses, que começaram a expor pública e regularmente a partir da década de 1980. A coleção propõe uma cartografia dinâmica do sistema da arte português e resulta de um movimento constante de aproximação do colecionador a artistas e instituições. Desde o início, uma vontade pessoal de colecionar foi acompanhada pela determinação em conferir uma dimensão pública à coleção e, assim, em 2007, nasce em Elvas, cidade património mundial da Unesco, o Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE), instituição com tutela municipal que acolhe em depósito a Coleção António Cachola. (…) Sem limites técnicos ou temáticos, a Coleção António Cachola está em contínuo crescimento e é composta por mais de oitocentas e cinquenta obras de cerca de uma centena e meia de artistas. [Apresentação da Coleção António Cachola; site da coleção-MACE]

arte deverão ser essas? Na minha opinião, a coleção que já existe e as expetativas dos públicos face a ela, são determinantes para as novas escolhas. Procuro continuamente integrar na coleção obras que querem conversar com outras

e ainda não têm a companhia adequada. A opinião dos galeristas e, acima de tudo, a cumplicidade dos artistas quando faço uma aquisição devem estar sempre presentes. Isto tem sido recorrente no processo de crescimento da coleção.

Que papel podem desempenhar os colecionadores, sobretudo quando o sistema comercial está em fases de maior estagnação, crises financeiras ou momentos de incerteza? Oportunidades e riscos existem sempre, tanto em momentos de

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E S P E C I A L C U LT U R A crise como em momentos de euforia. Mesmo sabendo que os recursos financeiros são sempre escassos, principalmente em situações de grandes constrangimentos orçamentais, os colecionadores devem dar um contributo positivo para ajudar a minorar os problemas em contextos especialmente difíceis. Por exemplo, este ano o Museu de Arte Contemporânea de Elvas comemora 15 anos e estamos, sem dúvida, num momento de crise a nível global e de uma crise com várias faces, pandémica, climática, bélica, social e financeira. Como se pode comemorar neste contexto? Foi a pergunta que se colocou. E a resposta chegou no formato de um programa colaborativo e de descentralização da arte contemporânea em Portugal. Colaborar ativamente e de forma responsável é, sem dúvida, uma postura a adotar em momentos de crise. Acabou de referir as comemorações dos 15 anos do Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Em que consiste esse programa colaborativo? Com que objetivos e intenções? “15 anos de Mace - Aqui Somos Rede” é o ponto de partida para a celebração dos 15 anos do Museu de arte Contemporânea de Elvas. Desenvolvemos um programa de comemorações dos 15 anos da minha coleção no MACE para mostrar o trabalho feito, afirmar como nos posicionamos no presente e, acima de tudo, perspetivar o futuro da arte contemporânea no nosso país. Vemos esse futuro de forma colaborativa e cooperante. Por isso, e tendo em conta a conjuntura atual, convidámos 24 entidades (desde coleções privadas a instituições sem fins lucrativos) a mostrarem os seus projetos em Elvas, durante um mês, entre 15 de julho e 15 de agosto. A presença em Elvas destas entidades, com projetos expositivos inéditos, irá mostrar como o trabalho em rede é essencial para o futuro da arte. Também por isso, o fim-

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AS MINHAS COLECÇÕES de-semana inaugural (15, 16 e 17 de julho) apresenta-se como uma festa da arte contemporânea. Os objetivos passam por celebrar, em conjunto, os 15 anos do Museu de Arte Contemporânea de Elvas, e a cidade que o acolhe, através da cooperação interinstitucional. Neste âmbito, torna-se indispensável dar a conhecer a cidade de Elvas através de um circuito de arte contemporânea que promove o património, auxilia a regeneração urbana através da utilização de espaços sem uso corrente e estimula o envolvimento da comunidade artística e associativa da cidade. Procura ainda fomentar-se a diversidade artística num modelo de acessibilidade e proximidade com diversos tipos de públicos locais, nacionais e internacionais.

um problema que facilmente seria resolvido se entidades públicas e privadas pensassem em termos de complementaridade das suas políticas.

Já deu a entender a importância que dá à articulação entre entidades públicas e privadas. Para melhorar ou fomentar o desenvolvimento do sistema artístico, que tipo de articulações devem existir entre entidades públicas e privadas? Articulações de complementaridade. Quando críticos de arte, diretores de museus, curadores e jornalistas estrangeiros, especializados em arte, mas também os públicos nãoespecializados, na sua amplitude e diversidade de interesses, visitam Lisboa e perguntam onde podem ver exposições de arte contemporânea com artistas portugueses, não temos uma resposta positiva, porque esse lugar não existe. Isso leva-me a dizer que, se as entidades públicas responsáveis disponibilizassem um espaço adequado na cidade, tenho a certeza de que os colecionadores privados, que são muitos, estariam disponíveis para emprestarem peças de artistas portugueses para integrar essas exposições. Desse modo, na capital do país, estariam acessíveis exposições extraordinárias de artistas portugueses, que poderiam ser vistas em qualquer altura do ano, colmatando a falha ou ausência atual. Dei este exemplo porque considero

Já recebeu prémios a propósito da sua coleção. Que importância tem um reconhecimento para um colecionador? Os prémios são por natureza muito estimulantes para quem os recebe. No caso do Prémio “A” ao Colecionismo Privado da Fundación ARCO, em 2016, foi com enorme satisfação e com grande honra que o recebi. Em primeiro lugar por ter vindo da instituição que veio e depois pelo facto de ter sido a primeira vez que este prémio foi atribuído a uma coleção em Portugal. Um reconhecimento deste tipo vem necessariamente associado a um reforçado estímulo para continuar a colecionar, agora com muito mais visibilidade, mas também com maior responsabilidade.

Três conselhos que daria a um potencial colecionador, alguém com vontade de iniciar uma coleção? Se me permite, a um potencial colecionador, não darei três, mas sim um conselho que considero fundamental: comece a comprar porque é na continuidade da vivência dos processos de compra que se vão encontrar os melhores conselhos para as nossas aquisições e, acima de tudo, descobrir a paixão e a emoção que nos pode transformar de compradores de arte em colecionadores.

Diria que é um colecionador: estratega, apaixonado, compulsivo, investidor nato ou de tudo um pouco? Sou certamente um colecionador apaixonado, mas acima de tudo, comprometido com as obras e os artistas da coleção, existindo um sentimento de dever na criação de projetos expositivos que permitam à generalidade das pessoas usufruir das criações. l


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E S P E C I A L C U LT U R A

AS MINHAS COLECÇÕES

FERNANDO FIGUEIREDO RIBEIRO

“O contacto com os artistas enriquece-me” N A PA S S A D A D É C A D A , A Q U I L O Q U E C O M E Ç O U C O M U M E N C A N T O I N E S P E R A D O S A I U D A E S F E R A P R I VA D A PA R A D A R O R I G E M À C O L E C Ç Ã O F I G U E I R E D O R I B E I R O . S Ã O C E R C A D E 2 8 0 0 O B R A S , R E P R E S E N TAT I VA S D O S Ú LT I M O S 5 0 A N O S , Q U E E N C O N T R A R A M O L H A R P Ú B L I C O N O Q U A R T E L D A ARTE CONTEMPORÂNEA DE ABRANTES. FERNANDO FIGUEIREDO RIBEIRO ESTEVE SEMPRE LIGADO À Á R E A F I N A N C E I R A , M A S , PA R A S I , A A R T E N U N C A F O I U M I N V E S T I M E N T O .

ANA VENTURA

Gostava de convidá-lo a recordar um belo dia em que, com 21 anos, desceu à cave da Livraria Barata, em Lisboa, para ver uma exposição. Confesso que não fui lá para ver a exposição: estava na faculdade, fui ver uns livros e vi que havia uma exposição no piso de baixo. Assim que se desciam as escadas, estava o quadro que comprei, iluminado de uma maneira fantástica. Isto foi num período em que a bolsa estava num “boom” fantástico, tinha um grupo de amigos com quem investia e, de facto, ganhámos algum dinheiro. Encantei-me com um quadro e comprei-o – foi um impulso mas a colecção não começou aí. Mas foi nesse dia que teve a certeza que nunca mais viveria sem arte? Não, nesse dia compreendi, talvez, que gostava de arte contemporânea – mas nem isso posso dizer porque não era um visitante assíduo de galerias. Fui fazendo o percurso normal: pouco

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depois, comecei a trabalhar e fiz-me sócio do Centro Português de Serigrafia – pagava uma quota e, de três em três meses, escolhia uma serigrafia de entre um conjunto que tinham. Rapidamente percebi que aquilo não me preenchia porque ter uma coisa que é um múltiplo de 200 é ter fotocópias de qualidade superior, não é ter uma obra. Preferia ter poucos originais a muitas serigrafias: comecei a comprar. Mas só nos tornamos coleccionadores quando começamos a armazenar. Quando já não tem sítio em casa para colocar as obras? E isso só me aconteceu na segunda metade dos anos 1990. Parece-lhe que, por ter vivido em Londres, encara a arte portuguesa de outra forma? Sempre achei que a arte contemporânea portuguesa tinha muita qualidade quando comparada com o que via lá fora. Porque é que fui para a arte


FOTOS: FERNANDO TEIXEIRA

portuguesa? Para já, porque era a arte de cá; depois, porque nunca achei que tivesse disponibilidade financeira suficiente para fazer uma colecção – uma coisa é fazer uma colecção internacional e outra é ter um conjunto de artistas estrangeiros. Eu gosto de conhecer os artistas: tenho vários artistas consagrados na colecção, mas também tenho muitos artistas novos.

A esse lado da descoberta de novos artistas, acresce uma certa dose de risco. Mas eu nunca considerei a minha colecção como um investimento. Tenho mais de 300 artistas e nem sei o valor da colecção: se calhar, vale mais como conjunto do que a soma das partes mas é uma colecção feita a gosto e acho que é razoavelmente

representativa da arte contemporânea portuguesa dos anos 1970 para a frente. Tem ideia de quantas obras tem? E qual o seu alcance temporal? Tenho peças anteriores a 1970 mas não definem a colecção. Eu tenho um Cesariny de 1948, tenho um Almada de 30 (até mais do que um), também tenho coisas do Vespeira dos anos

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E S P E C I A L C U LT U R A

AS MINHAS COLECÇÕES professora doutorada em Museologia e Coleccionismo Privado e é também curadora. A dada altura, ela trabalhou comigo na inventariação da colecção e eu lancei-lhe esta ideia de tornarmos a colecção pública. Decidi, então, falar com duas dúzias de municípios e os contactos que fizemos tinham um único critério: quis que ficassem até uma hora e meia de distância de Lisboa – o que dá para ir de manhã, ver as obras e voltar para almoçar, ou ir a seguir ao almoço e voltar para jantar em Lisboa. Fui a uma primeira reunião em Abrantes em Dezembro de 2015 e assinámos o contrato a 4 de Junho de 2016: foi muitíssimo rápido. A ligação estabelecida será por 10 anos, passível de ser renovada.

60 – fazem parte da colecção, são peças que são boas, algumas até marcantes dos seus períodos, mas não posso dizer que a colecção venha desde a data da obra mais antiga. Actualmente, a colecção terá à volta de 3000 peças – o número de peças é elevado porque, de alguns artistas, pode ter 30 ou 50 peças, num ou noutro caso pode ter 80. São núcleos de artistas que acompanhei. O contacto com o artista é importante? Os artistas dão-me mais do que eu lhes proporciono: eu só lhes proporciono dinheiro. A mim, eles proporcionam algo que perdura ao longo da minha vida. Sempre trabalhei no sector financeiro e eles pensam de uma maneira diferente. Podemos falar de outras perspectivas além do que é o meu dia-a-dia e, por esse ponto de vista, o contacto com os artistas enriquece-me. Começou no desenho e na pintura. A colecção tem, basicamente, quatro técnicas: pintura, desenho, escultura e fotografia. Tenho alguns vídeos mas não sou o maior fã da videoarte por uma razão: apesar de ter muita arte, não consigo estar um quarto de hora a ver uma obra de arte. Vejo mais do que 15 minutos mas não são seguidos.

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E o seu olhar manteve-se sempre com a perspectiva original da obra caseira, em termos de escala? A minha colecção tem três regras: o gosto, tenho que gostar das peças; as dimensões, têm que ter uma dimensão caseira no sentido de serem obras com as quais poderia viver; e as técnicas. Em meados da década passada, decidiu tornar pública a sua colecção. Conhecia a Adelaide Duarte, que é

Há pouco disse que não consegue estar 15 minutos seguidos a olhar para uma obra de arte mas consegue estar 90 minutos a ver outra arte que o encanta – os jogos do Benfica. A minha vida tem prioridades: não há exposição que se sobreponha a um jogo do Benfica no Estádio da Luz. Não deixo de ver arte por causa do Benfica mas, quando os dois mundos colidem, o Benfica vem primeiro. l


E S P E C I A L C U LT U R A

AS MINHAS COLECÇÕES

JOÃO ESTEVES DE OLIVEIRA

“A arte é um sonho tornado realidade” AO LONGO DE PERTO DE DUAS DÉCADAS, DEU A CAR A E O NOME P OR UMA GALERIA ÚNICA: U M E S PA Ç O D E D I C A D O A T R A B A L H O S S O B R E PA P E L . D E A PA I X O N A D O P O R A R T E , J O Ã O E S T E V E S DE OLIVEIRA DESCOBRIU-SE COLECCIONADOR E OFERECEU AO PÚBLICO A SUA LEITURA COMO G A L E R I S TA . A G A L E R I A E S T E V E S D E O L I V E I R A P O D E T E R F E C H A D O P O R TA S , M A S A A R T E N U N C A VA I D E I X A R D E O C U PA R O S S E U S S O N H O S – N E M O S E U O L H A R .

ANA VENTURA

O mote para a abertura da sua galeria foi um desejo muito claro de ter um espaço dedicado apenas a trabalhos sobre papel, não foi? Gostava muito de uma galeria, a “Works On Paper”, e acabei por copiar a ideia: de facto, só tinha trabalhos sobre papel, que é uma das minhas paixões. A minha colecção tem pinturas e óleos sobre tela, mas há muito trabalho sobre papel, modernistas do princípio do século XX e contemporâneos. Porém, antes do galerista, houve o apaixonado por arte que se descobriu coleccionador. Sim, sim – e houve a coincidência dessas duas situações, do coleccionador e do galerista, porque o coleccionador foi sempre comprando na própria galeria. Foi o seu melhor cliente? Talvez isso seja um exagero porque tinha bons clientes – mas é verdade que dava as minhas picadelas.

A primeira obra que comprou foi um trabalho em papel de Jorge Pinheiro – tinha pouco mais de 25 anos. Exactamente. Não a tenho comigo: foi a minha filha mais velha quem ficou com esse Jorge Pinheiro, que é uma maravilha. Depois, em Paris, viu-se a gastar um ordenado quase na totalidade com um Júlio Pomar. O “L’Etonement”, uma coisa espectacular. Estive quase 10 anos em Paris, a trabalhar na banca, na sucursal do BPA que depois se tornou BCP, e uma das boas coisas que esse tempo me trouxe foi a relação de proximidade com o Júlio Pomar. Nessa altura, comprei vários Pomares. Diz que acha que nunca fez muitas asneiras, que sempre teve algum “olho”. Isso é presunção da minha parte – ou, por outra, não é presunção porque é verdade, mas não o devia dizer. Tenho

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AS MINHAS COLECÇÕES

FOTOS: FERNANDO TEIXEIRA

E S P E C I A L C U LT U R A

um conjunto de coisas boas... e foram raros os disparates. Se é que os houve.

Reis, um António Sena, um Sonia Dalaunay, três António Carneiro, um Eduardo Malta, um Rui Chafes...

de caracterização. A obra mais antiga será da década de 1920 e estende-se até à actualidade.

Tem ideia de quantas obras tem? Perto de duas centenas: uma boa parte está representada no livro “Moderno e Contemporâneo: a colecção de João Esteves de Oliveira” [publicado em 2019, com João Pinharanda], onde já faltam os mais recentes: dois Amadeos, um Léger, um Pomar, um Graça Morais, um Cecília Costa, um Pedro Cabrita

Há traços que definam a sua colecção? É uma colecção de pintura, de esmagadora maioria de autores portugueses, modernistas e contemporâneos, e com uma componente importante de trabalho sobre papel. Não sei se poderei dizer que é dominante, mas a percentagem é, de facto, justificação para esse tipo

Tem alguma que possa dizer que é a sua preferida? Não... Não posso dizer que seja um desgosto, mas uma asneira grande que fiz foi ter vendido uma coisa muito importante que tinha da Paula Rego, o “Jenufa”. Não resisti ao namoro que foi feito por uma equipa da Sotheby’s: convenceram-me a pôr o quadro em leilão, foi vendido – e

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bem vendido –, em Londres, mas é uma coisa que não me perdoo. Era uma peça grande da colecção que nenhuma outra vai substituir. Quando abriu a galeria, passou a partilhar com o público a alegria que sente com estas obras. Decidi abrir a galeria na altura em que acabei a minha vida na banca e ainda bem que o fiz porque foi algo que me deu muito gozo, que me deu proveito e que me fez acrescentar muita coisa na colecção. As pessoas estranharam a dedicação exclusiva da galeria – mas também foi isso que a distinguiu. Foi um dos trunfos e uma das razões do sucesso, passe a imodéstia. Aquando da exposição “Álvaro Siza. O Desenho”, o próprio arquitecto chamou a atenção para a intimidade única que se encontra num esquisso – foi isso que o atraiu nessa ideia de especialização em trabalho sobre papel? Para já, tenho uma paixão grande por trabalho sobre papel; por outro lado, para ter autores de primeira linha, o trabalho sobre papel é mais acessível do que a pintura propriamente dita... Acho que o sucesso era

mais facilmente alcançável (ou provavelmente alcançável) do que se tivesse uma galeria com papel, pintura, escultura, uma galeria de arte sem um foco limitado. Sendo que o trabalho de um coleccionador é muito diferente do trabalho de um galerista. O grande desafio, quando preparava uma exposição, era escolher nomes já respeitáveis ou que acreditava que viriam a

ser respeitáveis. Por outro lado, também procurava ter autores ou artistas cujo trabalho me interessava, que gostaria de ter na minha colecção – e que acabei por ter, como é óbvio. Não deixava acabar uma exposição sem ficar com um ou dois. Conheci alguns artistas através da galeria, mas poucos: a maior parte dos que por lá passaram já eram artistas da minha predilecção que, felizmente, aceitaram os meus convites. Continua a ser surpreendido pelas obras que tem ou já as conhece tão bem que elas não lhe guardam segredos? A verdade é que já as trato por tu, não há segredos entre nós. A arte é a vida no seu supremo estado ou é “apenas” algo que nos faz sonhar? Com certeza que é uma forma de nos fazer sonhar e há muita coisa que eu gostaria de ter... Não será a forma suprema da vida porque ela está aqui. Não é algo inatingível, é um sonho tornado realidade, um sonho que fui capaz de concretizar. Como é evidente, gostava de ir mais além, mas o que tenho já satisfaz a minha paixão. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

A PRÉMIO NO MUNDO

LUANDA, CIDADE DE CULTUR A A C A P I TA L A N G O L A N A É R I C A E M E S PA Ç O S C U LT U R A I S , PA R A A L É M DA S M A R AV I L H O S A S P R A I A S , DA D E L I C I O S A G A S T R O N O M I A , E DA M Í T I C A A L E G R I A E H O S P I TA L I DA D E D O S E U P O V O. H Á I N Ú M E R A S O P Ç Õ E S PA R A P R E E N C H E R A AG E N DA E M L UA N DA . TO M E N OTA D E U M R OT E I R O Q U E PROMETE TORNAR OS SEUS DIAS NA CIDADE AINDA MAIS

QUINGILA HEBO

N

o centro de Luanda, onde estão concentrados os grandes hotéis que todos os dias acolhem centenas de turistas, ainda que muitos em viagens de negócios, fica o Museu Nacional de História Natural, um dos mais importantes da cidade. Viajar em negócios não invalida, nos tempos livres, por reduzidos que possam ser, passear e conhecer as gentes, os locais e as mostras de cultura. No Museu Nacional

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de História Natural, passamos em revista as espécies raras da flora e da fauna angolana. Visitar este espaço, em pleno Largo do Kinaxixe, é ter também acesso a “cartões de visita” das províncias do País, pois aqui estão expostas as principais atracções naturais que Angola oferece. O Museu Nacional de História Natural de Angola foi inaugurado em 1938, como Museu de Angola, contando, inicialmente, com secções de Etnografia, História, Zoologia, Botânica, Geologia,

FOTO: LEANDRO DE ALMEIDA

C H E I O S . E , S E T I V E R T E M P O , D Ê U M S A LT O À S P R O V Í N C I A S .

Economia e Arte. Mas há mais, para ver. E não fica assim tão longe. Luanda acolhe também um relevante acervo no Museu Nacional de História Militar. Situado no alto da Colina de São Miguel, no mesmo perímetro onde fica situado o Palácio da Presidência da República, na Cidade Alta, o Museu Nacional de História Militar expõe meios e equipamentos militares, entre eles viaturas pertencentes aos três principais partidos políticos angolanos, muitos deles abandonados (e depois recuperados) durante a Guerra Civil, em combate.


FOTO: LEANDRO DE ALMEIDA

ANGOLA

Novembro de 1976, foi a primeira instituição museológica criada após a independência de Angola, ocorrida um ano antes. O Museu tem hoje um cunho mais científico, mas ao mesmo tempo cultural e educativo, vocacionado para a recolha, investigação, conservação, valorização e divulgação do património cultural angolano. É composto por 14 salas, distribuídas por dois andares que acolhem peças tradicionais, designadamente utensílios agrícolas, de caça e pesca, fundição de ferro, instrumentos musicais, joias, peças de pano feitas de casca de árvore e fotografias dos povos khoisan, da zona Sul do País (Cunene, Namibe e Huíla). O espaço oferece ainda oportunidade para conhecer diversos instrumentos tradicionais e para ouvir uma demonstração do uso

FOTO: LEANDRO DE ALMEIDA

M U S E U D E H I S T Ó R I A M I L I TA R , I N S TA L A D O N A A N T I G A F O R TA L E Z A D E S ÃO M I G U E L D E L UA N DA

PA L ÁC I O D E F E R R O , F O I R E A B I L I TA D O E T R A N S F O R M A D O , E M 2 0 1 5 , E M C A S A DA S B E L A S - A R T E S , AC O L H E N D O I M P O R TA N T E S E X P O S I Ç Õ E S , I N C L U I N D O D E E S C U LT U R A , PINTURA E FOTOGRAFIA

O espaço, em cujo exterior pode usufruir de uma notável panorâmica sobre Luanda, inclui um restaurante, na parte exterior, com uma deslumbrante vista para o mar. Reaberto ao público há oito anos, foi antes conhecido como Museu Central das Forças Armadas, instalado em 1978. Actualmente, encontra-se em boas condições, com o acervo recuperado. Abaixo da Colina de São Miguel, na zona dos Coqueiros, bem ao lado do Estádio dos Coqueiros (que também merece uma visita), fica o Museu Nacional de Antropologia. Fundado em 13 de

FOTO: WIKIPÉDIA

M U S E U DA M O E DA , C O N TA A H I S T Ó R I A D O N O S S O D I N H E I R O D E S D E O Z I M B O AT É AO K WA N Z A .

183 MUSEU NACIONAL DE ANTROPOLOGIA, LUANDA


E S P E C I A L C U LT U R A

A PRÉMIO NO MUNDO

ANGOLA

FOTO: WIKIPÉDIA

museus preservam bens materiais e imateriais da cultura angolana.

O M U S E U R E G I O N A L D O D U N D O É U M D O S P R I N C I PA I S D E S T I N O S D E C I E N T I S TA S E T U R I S TA S I N T E R E S S A D O S E M C O N H E C E R A H I S T Ó R I A E A C U LT U R A DA R E G I ÃO LESTE DE ANGOLA

da marimba. A grande atracção do Museu é a Sala das Máscaras, que apresenta os símbolos dos rituais dos povos bantu. Um novo ex-libris A curta distância, em plena Marginal de Luanda, encontramos o Museu da Moeda, que conta a história do dinheiro desde o zimbo até ao kwanza. Este Museu, inaugurado em Maio de 2016, expõe notáveis colecções de numismática e de notafilia do Banco Nacional de Angola, alguns objectos de enquadramento e dispositivos audiovisuais que ajudam a compreender melhor o passado da moeda angolana. A museografia assenta em núcleos temáticos que focam os pré-monetários e outros meios de pagamento, histórias de moedas singulares, a iconografia do dinheiro, a evolução da banca, ilustrações de notas, os elementos de segurança e testemunhos pessoais sobre o papel do dinheiro na vida do cidadão angolano. Lá dentro, somos levados a uma viagem pelo tempo, com importantes e obrigatórias paragens. Começando no Nzimbu, pequena concha ou búzio, extraída das praias da Ilha de Luanda.

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Do Museu da Moeda para o Palácio de Ferro, a distância é mínima. Este edifício foi reabilitado e transformado, em 2015, em casa das belas-artes, acolhendo importantes exposições, incluindo de escultura, pintura e fotografia. Até Junho, estiveram patentes as obras que foram a concurso na 16.ª edição do ENSA ARTE. Na zona do Cruzeiro, vamos visitar a Casa-Museu Óscar Ribas, que preserva, desde 2015, a vida e obra do escritor, etnógrafo e ensaísta. A Casa-Museu é composta por nove salas de exposições, sendo uma delas dedicada à vida e obra do autor. As restantes mostram os bens que Óscar Ribas foi adquirindo ao longo da vida, incluindo relógios, máquinas fotográficas e máquinas de escrever. Acolhe ainda uma biblioteca recheada de obras que pertenceram ao escritor, a par de livros centenários, algumas obras escritas em braile - o autor cegou ainda jovem - e revistas datadas da era colonial. Além dos bens pessoais, a Casa acolhe ainda móveis antigos, trazidos de Portugal pelos bisavós paternos de Óscar Ribas. Luanda guarda estes encantos culturais e históricos que podem proporcionar um óptimo dia de passeio na capital angolana. Estes

Angola para lá de Luanda Mas, de museus, não é tudo. Há dois incontornáveis fora de Luanda: Dundo e Mbanza Congo. O espaço onde fica localizado o Museu dos Reis do Kongo foi uma residência real construída em 1903 na capital da província do Zaire, Mbanza Congo. O espaço permaneceu encerrado durante anos devido ao conflito armado, mas foi reaberto em 2007, depois de beneficiar de obras de restauro e ampliação, passando a designar-se Museu dos Reis do Kongo. O edifício está classificado como Património Cultural Nacional. Conta com 92 peças expostas e 16 em regime de reserva, o acervo está repartido por quatro principais grupos. O primeiro corresponde às peças que retratam aspetos históricos, geográficos e políticos, concretamente retratos, mapas sobre o território que abarcava o Reino do Kongo e respectivos reis que passaram pelo trono, bem como o carimbo. O segundo espelha a organização sócio-económica do Reino do Kongo, nomeadamente o testemunho do domínio da tecnologia de fundição de metais, entre os quais, o ferro. O terceiro grupo inclui peças que testemunham cultos ancestrais, como música e comunicação à distância, enquanto o quarto retrata a abertura do Reino do Kongo ao mundo ocidental. Na região Leste de Angola, concretamente na província da Lunda-Norte, encontramos o Museu do Dundo, que possui uma colecção etnográfica das áreas geográficas da Lunda-Norte, Lunda-Sul e dos povos vizinhos. O acervo é composto por esculturas, máscaras, esteiras e cadeiras, elaborados com técnicas, estilos e matérias-primas tradicionais. O Museu regional do Dundo é um dos principais destinos de cientistas e turistas interessados em conhecer a história e a cultura da região Leste de Angola, e é considerado um dos mais importantes patrimónios culturais em África. l


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BRASIL

A PRÉMIO NO MUNDO

E S P E C I A L C U LT U R A

B R U N O R O S A*, PRÉMIO

PORTUGAL ESTÁ NA MODA NO BRASIL

D

esde que começou a pandemia da Covid-19, em março de 2020, Portugal ganhou novo papel entre os brasileiros. Lisboa, Porto e outras cidades lusitanas entraram de vez no roteiro de quem mora no Brasil não apenas como opção de férias, mas, o mais importante, como destino de moradia permanente. Em 2021, segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), foram contabilizados pouco mais de 209 mil brasileiros morando legalmente em Portugal. É um aumento de 13,6% em relação ao ano anterior. Segundo estimativas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e de consultorias, esse número já está oscilando entre 300 mil e 400 mil pessoas. Por trás desse novo êxodo está a cada vez mais intensa aproximação cultural e gastronômica entre os dois países, laços construídos

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há mais de 500 anos. Não por acaso os brasileiros hoje formam a maior comunidade imigrante em território português. A crise econômica no Brasil também vem servindo de mola propulsora nesse novo movimento migratório. De olho nesse movimento, Portugal, naturalmente, está mais do que nunca na moda em todo o Brasil. Comecemos pela área cultural. É por isso, por exemplo, que a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o mais importante evento do setor literário do país, terá Portugal como convidado de honra. O evento está previsto para ocorrer entre os dias 2 e 10 de julho na capital paulista. O evento é realizado pela Câmara Brasileira do Livro e reúne as principais editoras, livrarias e distribuidoras de livros no país. O

tema da participação portuguesa no evento remete a uma frase célebre do português Valter Hugo Mãe: “É urgente viver encantado”. Por isso, opções não faltarão para quem quiser mergulhar no mundo lusitano, já retratado por Luís de Camões e Fernando Pessoa: em uma extensa programação cultural, haverá espaços dedicados a temas contemporâneos, apresentações de ‘best sellers’, realização de sessões de autógrafos, iniciativas unindo gastronomia e literatura, além de momentos especiais para o universo infanto-juvenil.

* Texto escrito na língua de origem do autor


“ PA R T E D E S S E E S PA Ç O VA I C O N TA R C O M U M A L I V R A R I A Q U E VA I R E U N I R 21 ESCRITORES DE PORTUGAL, DE PA Í S E S A F R I C A N O S Q U E T Ê M A LÍNGUA PORTUGUESA COMO A O F I C I A L , A L É M D O T I M O R - L E S T E .” Tudo isso em um espaço exclusivo dedicado a Portugal com 500 metros quadrados. Parte desse espaço vai contar com uma livraria que vai reunir 21 escritores de Portugal, de países africanos que têm a língua portuguesa como a oficial, além do Timor-Leste. Alguém duvida que será um dos locais mais cobiçados e disputados de todo o evento? É como bem disse o Instituto Camões, que classificou o evento deste ano como uma espécie de “reencontro” entre os autores da língua portuguesa. Há ainda nesse ano atípico ano de 2022 as celebrações dos 100 anos da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, com Artur Sacadura Cabral e Carlos Gago Coutinho a bordo do célebre hidroavião “Lusitânia”. A data, um marco na aviação civil mundial, será celebrado em conjunto entre Portugal e Brasil, com uma série de eventos culturais. Mas o ano de 2022, com o pior da pandemia ficando para trás, ao que

tudo indica, contará ainda com novos eventos como o Rock in Rio, marcado para setembro no Rio de Janeiro e que vai reunir empresas portuguesas e órgãos do setor de turismo. Será mais um evento a se somar aos já feitos neste ano, como a 16ª edição brasileira do Portugal United, que passou por São Paulo, Florianópolis, Goiânia, Brasília e Rio de Janeiro com ‘workshops’ para apresentar o destino Portugal a representantes do setor turístico. Todos esses eventos ocorrem em um momento de celebração com a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, no segundo semestre de 2021. O Complexo da Estação da Luz, tido como património histórico de São Paulo, estava fechado desde 2015 após um incêndio. Assim, o local

já se tornou hoje um símbolo de todo esse atual movimento, de celebração da cultura portuguesa entre os dois lados do Atlântico, tornando cada vez mais apertados os laços entre Brasil e Portugal. Até dezembro uma série de novos eventos deve ocorrer para celebrar a cultura e gastronomia portuguesa no Brasil. Depois de 500 anos do descobrimento do Brasil por Portugal, as relações entre os dois países nunca estiveram tão próximas, com cada vez mais brasileiros querendo redescobrir Portugal. l

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E S P E C I A L C U LT U R A

E S PA N H A

A PRÉMIO NO MUNDO

BELÉN RODRIGO*, PRÉMIO

LA CÁPSULA DEL TIEMPO D E L A C U LT U R A

L

a Caja de las Letras es uno de los rincones más fascinantes que esconde la capital española, donde se guarda una parte del legado de grandes nombres de la literatura como Gabriel García Márquez, Miguel Delibes, Buero Vallejo o Miguel Hernández. Es algo insólito e inesperado dentro de un edificio emblemático de Madrid, conocido como Las Cariátides, que está situado en la céntrica calle de Alcalá. Se trata de una cámara acorazada donde particulares y empresas alquilaban sus cajas para guardar joyas, títulos y otros objetos de gran valor cuando este edificio era la sede en España del Banco Español del Río de la Plata (sucursal de la entidad bancaria argentina), inaugurada el 29 de abril de 1918. Más tarde, albergó sucursales de otras entidades

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bancarias como el Banco Central o el Banco Santander y tras varios años cerrado pasó a ser, en el 2007, sede del Instituto Cervantes. Fue entonces cuando se dio una nueva vida y un uso bien diferente a las 1.767 cajas que forman esta enorme caja fuerte blindada. Aunque la esencia sigue siendo la misma: guardar algo de gran valor. Eso sí, ahora ese valor es totalmente intangible porque hablamos de simbólicos legados que son memoria viva de la cultura iberoamericana. Desde el 2007 todos los ganadores del Premio Cervantes entregan su legado un día o dos antes de recoger el galardón, el 23 de abril, y la caja tiene una fecha concreta

de apertura, aunque hay algunas excepciones. Desde entonces, son más de 60 legados los que se guardan en este espacio que pertenecen a destacados nombres del cine, el arte, la música, la danza, el teatro o la ciencia. El 15 de febrero de 2007 el escritor Francisco Ayala, fallecido dos años después, fue el encargado de inaugurar este espacio donde depositó una carta manuscrita y un legado personal en la caja número 1.032, cuyo contenido no quiso desvelar y permanecerá guardado hasta

* Texto escrito na língua de origem do autor


el año 2057, fecha elegida por el autor. En la caja 1.683 está el manuscrito del discurso que pronunció Miguel Delibes al recoger el Premio Cervantes en 1993, y se abrirá en el 2031. El compositor Luis de Pablo guardó durante unos años una partitura jamás interpretada que se tocó por primera vez el día de su muerte, el año pasado, cumpliendo así su deseo. El cineasta Luis García Berlanga, por su parte, guardó en su caja un guion inédito titulado ‘Viva Rusia’, con el que se completaba una saga cinematográfica. Su contenido se reveló el año pasado y fueron sus nietos los encargados de abrir el arca en el centenario de su nacimiento. El hispanista británico John Elliott depositó hace unos años en la Caja de las Letras un reloj que compró en Suiza a los 16 años de edad, tras publicar su primer libro, un cuento infantil. La bióloga molecular Margarita Salas cedió su primer cuaderno de protocolo, con sus anotaciones personales, que le fue devuelto cuando su cofre se abrió en 2018. Y el escritor chileno Jorge Edwards legó una carta de amor nunca entregada, cuya destinataria se dará a conocer en 2035. La actriz Ana Belén donó las obras completas de Federico García Lorca con las que conoció al autor cuando era niña y se recuperarán en 2050. Algunos de los legados aquí guardados son In Memoriam, dejados por familiares y organizaciones cercanas a estos autores. Por ejemplo, la pipa de Buero Vallejo fue la herencia entregada por su esposa, Victoria Rodríguez, después de la muerte

“ E L PA S A D O 2 5 D E A B R I L J O S É SARAMAGO SE CONVIRTIÓ EN EL PRIMER ESCRITOR P O R T U G U É S E N E S TA R P R E S E N T E E N E S TA C Á P S U L A DEL TIEMP O CONGEL ADA ENTRE E L PA S A D O Y E L F U T U R O .”

del dramaturgo, y se guarda en la caja 1.516. En la 1.483 se conserva un arca con la tierra de la casa natal de Gabriel García Márquez, que nunca se abrirá. Los otros legados de estas características son el primer poemario de Miguel Hernández, unas postales manuscritas del cantor argentino Atahualpa Yupanqui y algunos dibujos de la también argentina Alejandra Pizarnik. El pasado 25 de abril José Saramago se convirtió en el primer escritor portugués en estar presente en esta cápsula del tiempo congelada entre el pasado y el futuro. Unos meses antes lo hacía la brasileña Nélida Piñón, primera autora en la lengua de Camões que entraba en este rincón cultural. Pilar del Río, viuda del Premio Nobel y presidenta de la Fundación José Saramago, fue la encargada de explicar el contenido del legado. Una obra del Padre António Vieira, las pruebas de imprenta de la obra de teatro de Saramago “¿Qué haré con este libro?” (donde narra las peripecias de Luís de Camões para publicar Os Lusíadas), “El año de la

muerte de Ricardo Reis”, un texto del Nobel sobre Fernando Pessoa y conferencias, artículos y reflexiones sobre sus maestros, Cervantes y Borges, y sobre sus amigos Alberti, García Márquez y Donoso, entre otros. Además, una dedicatoria a Julio Cortázar: “Si es cronopio, se llamará Julio”. Junto a todos estos libros y textos, también se incluyó una agenda de 2002 y una libreta de direcciones de 1986 rellenada a mano por el autor. Por último, una tarjeta en blanco, un lápiz y un sobre con el sello de Saramago “por si alguno de los habitantes de esta caja quiere comunicarse”. Es también un legado In Memoriam, sin fecha prevista de apertura. Este proyecto estaba pensado inicialmente para acoger a grandes nombres de la cultura hispanoamericana. Pero Nélida Piñón y José Saramago han abierto la puerta de esta cámara al mundo lusófono. En el caso del escritor portugués, como explicaba Marcelo Rebelo Sousa, “representa el pago de una deuda con España que Saramago no hizo en vida”. Una deuda por toda la influencia recibida. l

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A PRÉMIO NO MUNDO

MACAU

FOTOS: ADOBE STOCK

E S P E C I A L C U LT U R A

“MACAU É UM PALCO DE EMOÇÕES” O C R U Z A M E N T O E N T R E A S C U LT U R A S O R I E N TA L E O C I D E N TA L É O Q U E D I S T I N G U E A C I D A D E . A F U S Ã O T R A D U Z - S E N A A R Q U I T E C T U R A , O F E R TA C U LT U R A L , M A S TA M B É M N A G A S T R O N O M I A E N A L Í N G U A . A L É M D O S M O N U M E N T O S E O U T R O S P O N T O S H I S T Ó R I C O S , S Ã O VÁ R I O S O S E V E N T O S Q U E FA Z E M D A R E G I Ã O U M D E S T I N O T U R Í S T I C O .

CATARINA BRITES SOARES

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A

Macau dos edifícios altos e dos neóns que recebe de primeiras os que chegam no lusco-fusco esconde a dos traços que a tornam única e que se resumem na fusão entre Ocidente e Oriente, como gosta de ser conhecida. “Macau sempre soube manter uma atmosfera única que a torna muito

diferente das regiões vizinhas. É hoje, como ao longo dos séculos, uma harmoniosa mistura entre as culturas chinesa e portuguesa, vivida de forma pacífica pelas suas gentes”, lê-se no ‘website’ dos Serviços de Turismo, no texto que apresenta o território. A simbiose é visível na arquitectura, sobretudo do centro, mas também na agenda cultural.


JARDIM DE LOU LIM IOC

A pandemia e a progressiva integração na China continental fazem com que o enfoque seja cada vez mais numa oferta e artistas chineses, ainda que se procure manter alguma ligação ao exterior e à cultura lusófona, fruto da presença portuguesa. “Macau é único pela sua génese”, realça Miguel de Senna Fernandes, advogado e encenador do grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau. “A presença secular dos portugueses e de outros povos que por causa dos portugueses se estabeleceram aqui fez com que Macau tivesse nascido de forma peculiar e muito diferente de outras terras chinesas, e de Hong Kong”, acrescenta o também presidente da Associação dos Macaenses. Pisar o centro seria suficiente para intuir o passado de 500 anos de coexistência. A calçada

portuguesa, a toponímia nas duas línguas oficiais da região – português e chinês; a arquitectura – pelo menos das fachadas – são algumas marcas do legado histórico. O Largo do Senado, o coração da cidade, concentra grande parte dessa identidade que se vai esbatendo com a nova construção. Há outras manifestações culturais sintomáticas da convivência. O patuá é um desses exemplos, salienta Senna Fernandes. “Este crioulo, de base portuguesa, nasceu por causa desse ambiente de coexistência. A gastronomia é outro exemplo de miscigenação. Muitos peritos dizem que foi a primeira cozinha de fusão”, afirma, sem desconsiderar o centro histórico. “Macau tem de ser visto como um todo, precisamente por esta origem. Mas mais uma vez, chamo atenção

para um espaço na China com monumentos e outros resquícios de cultura não chinesa.” Só no centro há duas igrejas - a de S. Domingos e a Sé – onde continuam a celebrar-se missas. Perto estão as Ruínas de S. Paulo – o monumento mais emblemático da cidade – que a poucos passos de distância tem o Museu de Macau, circundado por uma muralha e canhões, e com uma vista panorâmica da cidade. Há outras vistas que merecem a pena, como a da Igreja da Penha que bem perto tem o Templo de A-Má – deusa a quem se deve o nome da cidade em português. Os templos, como as igrejas, são vários e encontram-se quase em cada esquina. Momentos altos Na zona do Largo da Barra, onde está o de A-Má, teve por exemplo

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E S P E C I A L C U LT U R A

A PRÉMIO NO MUNDO

MACAU

TEMPLO DE A-MÁ

lugar a primeira exposição em Macau do português Alexandre Farto. “Destroços” era uma reflexão sobre o meio urbano de Macau e particularidades, num confronto com a realidade de outras cidades. Antes, o artista mais conhecido por Vhils já tinha deixado assinatura num mural com uma imagem de Camilo Pessanha nos jardins do Consulado de Portugal da região, onde o poeta viveu e morreu. Pelas Oficinas Navais passa também o Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Fundado pelo jornal Ponto Final, afirma-se como o primeiro e maior encontro de literatos da China e dos Países de Língua Portuguesa. Escritores, editores, tradutores, jornalistas, músicos, cineastas e artistas plásticos de distintas partes

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compõem o cartaz do evento. No mesmo local, a fechar o Outono, tem lugar o “This is My City”, que também junta artistas lusófonos e chineses. Concertos, debates, ‘workshops’, performances, teatro, cinema e exposições preenchem o programa de um festival que tem vindo a crescer pelas mãos da associação cultural +853. Com o mesmo propósito de agregar culturas é organizado todos os anos o Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa, mais conhecido como Festival da Lusofonia. Além de concertos noutras partes da cidade, é na Taipa, do outro lado das pontes e nas Casas Museu, que tem lugar um dos eventos mais acarinhados da cidade. A área ao

ar livre - de frente para o Cotai, onde estão concentrados grande parte dos casinos – é ocupada por barraquinhas com artesanato e gastronomia típica da Lusofonia e da China. Todos os anos marcam presença artistas de todos os países de língua portuguesa como aconteceu com o angolano Paulo Flores e os portugueses Orelha Negra. De lés a lés No âmbito da música, há outro nome incontornável. Vincent Cheang tem talvez o espaço mais alternativo da cidade. O LMA – Live Music Association, no 11.º andar de um edifício ainda mais alto, acolhe concertos de bandas de vários estilos de Macau e de fora. O promotor cultural confessa que gostava que Macau


tivesse mais diversidade já que a maioria dos festivais de música é organizada pelo Governo e casinos. Apesar ser a música a sua área, é de outra área o evento local que escolhe como o ponto alto. “O Grande Prémio é o momento mais especial para quem, como eu, adora carros”, diz. Há outros momentos que todos os anos se repetem como o Salão de Outono, que tem lugar na Casa Garden, junto ao Jardim Camões. A exposição, que resulta da parceria entre a Fundação Oriente e a associação Art for All, reúne trabalhos de artistas locais – mais e menos consagrados. O Festival Internacional de Artes procura dar visibilidade às

diversas expressões artísticas. Até à pandemia e da cidade se fechar ao exterior como acontece desde 2020, vários nomes importantes de fora enriqueciam o programa que abarca teatro, bailado, música, performance, dança clássica e contemporânea e tem como palco alguns dos espaços referência da cidade como o Centro Cultural, o Museu de Macau, o Teatro D. Pedro V e o Edifício do Antigo Tribunal. Ainda que a música faça parte deste, tem outro momento exclusivamente dedicado a ela. A cantautora americana Laurie Anderson e o pianista/ compositor de jazz Billy Childs foram alguns dos nomes que já passaram pelo Festival Internacional de Música.

A par dos que nunca falham no calendário anual, há outros momentos que vão tendo lugar em diferentes sítios num esforço de levar a cultura além dos espaços convencionais como sucede com a Casa do Mandarim – residência tradicional chinesa de Zheng Guanying, importante figura literária chinesa – que acolhe concertos da Orquestra de Macau. “Macau é um palco de emoções: da cidade real à das ilusões… os casinos, são como catedrais onde convergem as famílias e turistas”, refere Lúcia Lemos. A coordenadora da Creative Macau, centro de indústrias criativas, sublinha que “é indispensável ver é a cidade de lés a lés”. l

R U Í N A S D E S . PAU LO

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E S P E C I A L C U LT U R A

A PRÉMIO NO MUNDO

MOÇAMBIQUE

PEDRO CATIVELOS, DIRECTOR EXECUTIVO DA MEDIA4DEVELOPMENT

A E C O N O M I A C R I AT I VA N U M MERCADO POR CRIAR

A

ntes da pandemia, as indústrias criativas geravam anualmente, de forma agregada, a nível global, 8,5 biliões de dólares e geravam emprego para 144 milhões de pessoas. Se fossem um país, seriam a terceira economia mundial, só atrás dos EUA e da China. Após a pandemia, a tendência é crescer ainda mais, se lá colocarmos o advento dos NFT, o crescimento do mercado dos conteúdos nas plataformas de ‘streaming’ ou a exploração do metaverso, por exemplo, impelidos pela revolução digital que muitos de nós subscrevemos nos últimos dois anos e meio. Ajuda a perceber estes números, identificar de forma mais precisa o que é conceptualmente, a indústria criativa. Para as Nações Unidas, é o conjunto de “actividades do conhecimento e produção de bens tangíveis,

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intelectuais e artísticos, com conteúdo criativo e valor económico”. Na linguagem sectorial da economia, é composta por três grupos: um artístico, que congrega música, teatro, dança, literatura, cinema e artes plásticas, um outro, em que estão a arquitectura, o design (moda, gráfico, comunicação, produto e de equipamento) e um terceiro, no domínio das novas tecnologias, que engloba a criação de ‘software’, jogos, e serviços digitais (de ‘streaming’). Se olharmos a estes vários segmentos, percebemos a imensidão de assimetrias que há entre eles, a todos os níveis, diferenças que o são também se as olharmos sob o prisma dos mercados, ou países, onde são concebidas. Não é igual ser um artista num qualquer país da CPLP ou nos EUA, claro. Toda esta formulação, que já não é assim tão recente, nasceu na metade dos anos de 1990, e foi inicialmente difundida

pelo governo do Reino Unido, procurando encontrar uma resposta à necessidade de mudar os termos do debate sobre o valor real das artes e da cultura, e agregar a elas as novas fórmulas que então ganhavam terreno, como as múltiplas vertentes em que o design evoluía e os novos caminhos que se anteviam com a explosão da internet e a previsão de um suposto mundo digital virtual que viria a tornar-se real. Este conceito de indústria criativa concretiza então a visão mais ampla das artes convencionais, libertando-as da prisão dos subsídios a que muitas delas foram votadas, por exemplo em países europeus, e agrupando-as sob o guarda-chuva da exploração comercial. O momento-chave de toda essa nova visão aconteceu com a produção do primeiro “Mapa das indústrias Criativas”, em 1998, decisivo por ter sido o primeiro exercício sistemático de medição das indústrias criativas em todo o


mundo, projectado para colectar dados sobre essas indústrias. Descobriu-se então que, à época, elas eram responsáveis por um impacto brutal na economia, responsáveis pela criação de um milhão de postos de trabalho e contribuindo com 4% PIB da Grã-Bretanha, representando uma receita anual de 10 mil milhões de dólares em exportações. Hoje, esse valor multiplicou-se várias vezes e as várias indústrias criativas já re-presentam quase 12% do PIB britânico. Hoje, e com um forte ‘input’ das novas tecnologias, os mercados culturais estão abertos, tal como as grandes praças financeiras, a todos os que lhe agreguem valor, com produtos, conteúdos ou criações que agitem o primordial mecanismo da oferta e da procura. E são mais ou menos valorizados, de acordo com esse jogo de equilíbrios. Haverá todo um universo de contextualizações e de singularidades a este respeito. Olhando à superfície, e numa visão mais macro, percebemos que a cultura, como crescemos a chamar-lhe, está em plena mudança (a várias velocidades) e a ser olhada à luz do mercado, despindo a roupagem do que tradicionalmente se chamava Cultura, olhada como parente pobre da economia, mas que, por sua vez, e por uma certa politização de muitos dos seus agentes, também encarava os mecanismos do mercado (capitalista), de forma desconfiada e subversiva aos seus valores de livre criação (muitas vezes sem qualquer vínculo com o mercado, o consumidor ou a aceitação da sua criação), dependendo a sua existência, por isso mesmo, de subsídios à criação. Creio que é pacífico perceber que o desenvolvimento da Cultura, enquanto tal, não beneficiou nada

“DO LADO DOS CRIADORES, PA R E C E - M E TA M B É M F U N DA M E N TA L Q U E C O M E C E M A OLHAR O MUNDO, DE FORMA M A I S C R I AT I VA , TA L C O M O O F A Z E M , E B E M , N A S S U A S O B R A S .”

desta relação mútua de distante desconfiança. Nos vários países da CPLP (Moçambique incluído), o Orçamento Geral dos vários Estados, não lhe atribui mais de 1%. Há, de facto, uma visão, muitas vezes politizada da cultura. De parte a parte. Quem orçamenta, olha-a como gasto. Quem a implementa (artistas), olha-a como bem essencial, mas imaterial e por vezes divorciada de um mundo real no qual receita, despesa, lucro e sustentabilidade são termos que não entram nas contas. Iria mais por uma terceira via. Correndo o risco de ser utópico, até por isso não acontecer em muitas outras áreas, o papel dos Estados da maioria dos países de língua portuguesa, até por, em conjunto, terem um mercado comum que ultrapassa os 300 milhões de pessoas (consumidores), deveria ser o de criar as condições para que estas actividades (ou indústrias), possam ser exercidas com condições de serem geradoras de receita para os seus intervenientes, e de riqueza para as suas contas. Para lá da afirmação de uma identidade global baseada nessa nova dinâmica, potencialmente

geradora de ganhos directos e indirectos para os seus vários intervenientes. Claro que será sempre difícil encarar, de igual forma, um criador de ‘software’ e um artista plástico, por exemplo. No entanto, se os imaginarmos a trabalhar em conjunto, à luz, por exemplo, do recente fenómeno dos NFT, em que são feitas aquisições milionárias de obras artísticas (várias de africanos) com base nos ‘tokens’ criptográficos, podemos perceber que há um trabalho a ser feito aqui. Os Estados podem, e devem criar as condições de facilitação do trânsito dos criadores dentro do espaço da CPLP, fomentar as ligações entre eles, apostar na digitalização dos seus modelos e olhar este gigantesco plano geográfico global como um campo de oportunidades para todos, a todos os níveis, e não apenas como um lugar de diplomacia estéril com pouca ligação com as várias indústrias (criativas incluídas) e agentes económicos (culturais também). Do lado dos criadores, parece-me também fundamental que comecem a olhar o mundo, de forma mais criativa, tal como o fazem, e bem, nas suas obras. l

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A PRÉMIO NO MUNDO

E S P E C I A L C U LT U R A

MOÇAMBIQUE

O MUNDO MUSEOLÓGICO DE MAPUTO O P E S O D O S M U S E U S N A C A P I TA L M O Ç A M B I C A N A N ÃO É PROPRIAMENTE O MESMO DAS GRANDES CIDADES EUROPEIAS, O N D E T U D O E S TÁ R E G I S TA D O H Á S É C U L O S . C O N T U D O , PA R A QUEM

QUER

CONHECER

UM

POUCO

MAIS

DA

HISTÓRIA,

D A S A R T E S , D A C U LT U R A , D A FA U N A E D A F L O R A D O PA Í S , R E C O M E N DA - S E V I VA M E N T E .

JOÃO VAZ DE ALMADA

M U S E U D E H I S TÓ R I A N AT U R A L

Museu de História Natural O edifício é imponente e domina a Praça Travessia do Zambeze, na zona da Ponta Vermelha. O estilo rococó, terminando as suas colunas com motivos marítimos, não engana: trata-se do estilo manuelino e, neste caso, por ser relativamente recente, há que acrescentar o neo (novo). Aliás, em Moçambique, só há dois exemplos desta arquitectura: o arco do jardim do Tunduro e Museu da História Natural. A importância deste Museu é revelada na boca dos maputenses que a ele se referem simplesmente como o “Museu”,

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como se não houvesse outro. Efectivamente, o Museu de História Natural é largamente o mais visitado da cidade. Criado em 1913 com o nome de Museu Provincial, ocupou primeiro as dependências da Escola 5 de Outubro e, três anos mais tarde, passou para a Vila Jóia – actual edifício do Tribunal Supremo – por decisão de Álvaro de Castro, à época Governador-Geral de Moçambique. Finalmente, em 1932, foi transferido para a actual localização tomando o nome exactamente de Álvaro de Castro. Depois da independência passou a designar-se Museu de História

Natural. Uma águia de gesso pintada, de asas abertas, num pedestal, domina o átrio exterior. A dar as boas-vindas, ladeando a ombreira da porta, dois antílopes. Lá dentro, fica um autêntico reino animal, com destaque para a savana africana. Ao centro, um grupo de leões lança-se na caça a um búfalo e nem falta o sangue no dorso deste enorme herbívoro. Num segundo plano, uma leoa toma de assalto o pescoço de uma zebra. Mais atrás, estão os grandes herbívoros: girafas, pala-palas, elefantes. Pelo meio, há a simulação de pequenos riachos. Lateralmente, a toda a roda, vão


FOTO: ADOBE STOCK

surgindo mais cenas da vida da savana, com leopardos, babuínos, rinocerontes, hipopótamos e mais uma profusão de antílopes. Subindo as escadas, à direita, fica a zona dedicada à fauna aquática. Tubarão de sete guelras, garoupas, bogas, barracudas, peixe-serra, e pinturas nas paredes simulam os vários mares dentro do majestoso oceano Índico. Andando na galeria em redor, fica-se a saber a história da evolução dos vertebrados, destacando-se os mamíferos,

Uma colecção ímpar no mundo A luminosidade de um dos topos do primeiro piso chama particularmente a atenção do visitante. É lá que fica a famosa colecção de fetos de elefante. Aqui estão retratados 14 períodos de 22 meses de gestação do elefante. O período longo justifica-se, por um lado, pelo facto de se tratar de um animal muito grande e por outro lado pela condição de herbívoro, o que determina a necessidade de um desenvolvimento completo ao nascer para poder acompanhar o andamento dos pais. A existência desta colecção deve-se ao facto de, por altura da Primeira Guerra Mundial, os serviços de agricultura coloniais terem resolvido limpar a

área do Sul de Maputo para projectos agrícolas. Para o efeito, foi organizada uma brigada de caçadores chefiada por um fiscal de caça de nome Carreira. Os animais, crias, machos e fêmeas foram indiscriminadamente abatidos. Na referida limpeza foram mortos dois mil elefantes, a espécie mais abundante na região. Felizmente que Carreia teve a feliz inspiração de guardar em formalina os fetos que foram encontrados. Actualmente, seria impossível fazer semelhante matança. E o mais curioso é que os terrenos acabariam, contudo, por não ter qualquer aproveitamento agrícola. E deste lamentável acontecimento ficou esta colecção única no mundo.

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E S P E C I A L C U LT U R A

A PRÉMIO NO MUNDO

MOÇAMBIQUE

MUSEU NACIONAL DE ARTE

os répteis, os batráquios, os peixes e as espécies extintas. Uma sala simétrica à das espécies marinhas, alberga répteis e insectos. Nestes últimos, metodicamente colocados em gavetas, sobressaem as borboletas. Espalmadas em alfinetes, encontram-se minuciosamente catalogadas e possuem nomes impronunciáveis. Museu Nacional de Arte Instalado num edifício de linhas simples, modernistas, foi construído para servir de sede da Associação Indo-Portuguesa, tendo sido inaugurado em Julho de 1964. Após a independência, em 1975, o edifício passou para a posse do Estado. É o espaço por excelência onde estão concentradas as obras dos maiores artistas plásticos moçambicanos e dos que viveram e trabalharam em Moçambique dos anos 50 até hoje, principalmente nos campos da pintura, escultura, desenho, gravura e cerâmica. A sua colecção integra ainda obras de arte que pertenceram a várias instituições coloniais, algumas delas de artistas de renome. O museu dispõe de uma exposição permanente que ocupa duas salas e organiza com regularidade

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exposições temporárias na sua área de especialidade. Em permanência podem-se comtemplar obras dos grandes Malangatana, Chichorro, Naguib, Bertina Lopes, Mucavele, Chissano, Vitor Sousa, Shikhani, Gemuce, e…muitos mais. Museu da Moeda Conhecido igualmente por “Casa Amarela” devido à sua cor exterior, o edifício data de 1878, sendo considerado o mais antigo de alvenaria edificado em Maputo. A arquitectura é indo-portuguesa, tendo sido propriedade de um comerciante indiano que o vendeu ao governo português pela quantia de 750 libras esterlinas. Como museu, foi inaugurado por ocasião das comemorações do 1º aniversário do “Metical”, a moeda nacional moçambicana, a 15 de Junho de 1981. Estão expostas cerca de 4300 moedas, peças monetiformes, notas e medalhas, sendo 1000 referentes a Moçambique. Mas há também moedas-mercadoria (argolas ou manilhas, enxadas, andas, aspas e cruzetas, entre outras) que circularam em África e em Moçambique. Entre as moedas-mercadoria expostas, pode apreciar-se o antepassado do metical. A 4,83gr de ouro em

pó chamava-se o metical, termo de origem árabe. Era no interior de penas de aves iguais à que está exposta que o metical era transportado depois de se tapar a extremidade com cera de abelha. Várias salas do museu mostram, segundo um critério geográfico, moedas de diferentes partes do mundo, havendo ainda uma sala dedicada às medalhas. Museu de Geologia A imponência do edifício e a sua imaculada alvura não passam despercebidas na avenida mais extensa de Maputo, a 24 de Julho. Instalado na chamada “Vila Margarida”, uma construção do início do século XX, adaptada em 1992 para o actual propósito, no seu acervo contam-se 5853 amostras. As que despertam maior interesse são as pedras preciosas, as semipreciosas e os minerais industriais. A exposição distribui-se por várias salas, iniciando-se com o desenvolvimento da história da terra e alguns fósseis de Moçambique, incluindo uma maquete da geologia de Moçambique em relevo apresentada na escala 1 : 500 000; amostras de minerais; informação sobre a distribuição espacial dos minerais de Moçambique e o seu potencial económico; modelos


FOTO: JERÓNIMO MUIANGA

FOTO: JERÓNIMO MUIANGA

MUSEU NACIONAL DE GEOLOGIA

MUSEU DO MAR

“ C O M U M E S PA Ç O EXTERIOR E OUTRO INTERIOR, O MUSEU [DO MAR] PRETENDE SER UM REPOSITÓRIO D E U M A DA S P R I N C I PA I S A C T I V I DA D E S DA P O P U L A Ç Ã O MOÇAMBICANA: A P E S C A .“

didácticos de cristais e sua geometria; jóias feitas a partir de pedras preciosas e semipreciosas de Moçambique; entre outras informações e amostras dos recursos geológicos do país. Entre as peças, destaca-se um exemplar de rubelite, com 50 centímetros de altura, constituído por quatro colunas de cor violeta, extraído em 1956 na exploração dos pegmatitos de metais raros em Nahia, na província da Zambézia. Considerado um dos maiores cristais existentes no mundo, uma parte dele encontra-se num dos museus da Smithsonian Institution nos Estados Unidos da América. Museu do Mar Inaugurado em Novembro de 2014, o Museu do Mar – primeiro teve a designação de Museu das Pescas – é o mais recente espaço museológico da cidade de Maputo. Projectado por José Forjaz, o mais conceituado arquitecto

moçambicano da actualidade, o edifício, localizado num dos topos da Praça 25 de Junho, na baixa da cidade, tem a forma de um barco, “navegando” mesmo junto do porto de pesca. Com um espaço exterior e outro interior, o Museu pretende ser um repositório de uma das principais actividades da população moçambicana: a pesca. No primeiro andar, o do espaço museológico propriamente dito, estão expostos painéis que explicam a construção das embarcações artesanais e actividades conexas; armadilhas construídas em palha para a captura de peixe; materiais de mergulho artesanais (barbatanas, óculos, respiradores, arpões, entre outros). Outra das atracções do Museu é o património imaterial da actividade de pesca, que inclui os testemunhos, uma colecção de músicas de pescadores e costumes apresentados em formato audiovisual. l

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A NÃO PERDER - EXPOSIÇÕES FOTO: ADOBE STOCK

E S P E C I A L C U LT U R A

Um roteiro pelas melhores exposições de arte na Europa APÓS

DOIS

ANOS

DE

P R I VAÇ ÃO

DE

V I S I TA S

A

EXPOSIÇÕES

DE

ARTE,

MUSEUS,

F U N D A Ç Õ E S E G A L E R I A S D E T O D A E U R O P A V O L T A M A “A B R I R ” P O R T A S P A R A A C O L H E R O M E L H O R Q U E A A R T E E A C U LT U R A T Ê M PA R A M O S T R A R AO S S E U S P Ú B L I C O S , E X P R I M I N D O - S E N A S S UA S M A I S VA R I A DA S F O R M A S . A P R É M I O S U G E R E - L H E U M R O T E I R O P E L A S M E L H O R E S E X P O S I Ç Õ E S D E A R T E Q U E E S TÃO O U VÃO AC O N T E C E R E M T R Ê S DA S P R I N C I PA I S C I DA D E S E U RO P E I A S : M A D R I D, PA R I S E LO N D R E S .

mad rid FUNDACIÓN C ASA DE MÉ XICO

FR IDA K AHLO: ASAS PA R A VOAR Patente desde o passado dia 7 de Maio e até 30 de Novembro, a Fundación Casa de México está a acolher uma selecção de 31 obras originais e 91 fotografias de Frida Kahlo, uma das artistas mexicanas mais famosas do mundo. Uma exposição centrada na artista e na sua obra, e não na sua ‘persona’.

FUNDACIÓN CASA DE MÉXICO

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MUSEU DO PRADO

A E SS Ê N C IA D E U M Q UA D RO. UM A E X P O S IÇ ÃO O L FAC TIVA Até ao próximo dia 3 de Julho, a sala 83 do edifício Edificio Villanueva, no Museu do Prado, é palco de uma exposição inovadora onde se pode cheirar dez fragrâncias, enquanto se aprecia a pintura alegórica “Sense of Smell”, de Jan Brueghel e Peter Paul Rubens. Esta pintura, criada entre 1617 e 1618, é uma das peças pintadas por estes dois artistas flamengos e faz parte da série “Os Sentidos”, retratando figuras alegóricas representando cada um dos sentidos.

FUNDACIÓN MARÍA CRISTINA M A S AV E U P E T E R S O N

COLECÇÃO MASAVEU: PINTUR A E SPAN HOL A D O SÉCULO XIX. DE GOYA AO MODER NISMO A Fundación María Cristina Masaveu Peterson abriu a sua nova sede no bairro de Chamberí, a um passo do Paseo del Arte. Até 22 de Janeiro de 2023 poderá ver neste espaço a sua primeira exposição, composta por uma selecção de 117 quadros das suas vastas colecções de pinturas espanholas do século XIX (Goya, Madrazo, Fortuny...). O percurso vai de Francisco de Goya ao modernismo e ao pós-modernismo catalão, destacando a riqueza e variedade das pinturas da colecção.

paris M U S É E D ’ O R S AY

CENTRO POMPIDOU

G AUD I

LE RESTE EST OMB RE

O Musée d’Orsay está a dedicar uma grande exposição a Gaudi, a primeira em França há 50 anos. A decorrer desde Abril, esta mostra vai prolongar-se até 17 de Julho de 2022, mostrando a extraordinária criatividade deste artista único. Mestre da Arte Nova e observador atento da natureza, Gaudi foi também responsável por uma das maiores realizações arquitectónicas da Europa, a Sagrada Família em Barcelona. Aos visitantes da exposição é dada uma visão do processo criativo do artista, do seu domínio do espaço e da cor e dos seus muitos projectos.

No âmbito da temporada França-Portugal 2022, o Centro Pompidou está a acolher, entre 8 de Junho e 22 de Agosto, uma exposição dedicada aos artistas portugueses Pedro Costa, Rui Chafes e Paulo Nozolino, que toma a forma de um diálogo entre filme, escultura e fotografia. Concebido como uma apresentação imersiva, o certame está organizado em torno de imagens de “As filhas do Fogo” (2019) por Pedro Costa, “As Tuas Mãos” (1985-2015), uma série de esculturas de Rui Chafes, e a dupla projecção do “Minino Macho” de Pedro Costa, “Minino Fêmea” (2005) e o tríptico “Sem Título”, 2008-2010-2012 de Paulo Nozolino. Convidado a passear por um espaço labiríntico mergulhado na escuridão, o público obtém uma visão única da exposição colectiva destes três artistas. M U S É E D E L’ O R A N G E R I E

A DECOR AÇÃO IMPRESSIONISTA - N A FONTE D OS NEN ÚFAR ES

CL AUDE MONET (1840-1926), CRISÂNTEMOS, 1897 CO L E CÇ ÃO PA RT I C U L A R

O Musée de l’Orangerie tem patente até 11 de Julho um acervo que apresenta um aspecto invulgar do trabalho de alguns impressionistas com a a sua incursão nas artes decorativas. Alguns dos maiores artistas - Mary Cassatt, Paul Cézanne, Edgar Degas, Edouard Manet, Claude Monet, Berthe Morisot, Camille Pissarro e Auguste Renoir - experimentaram a pintura decorativa, transformando objectos do quotidiano em obras de arte.

©FREDRIK NILSEN STUDIO / FREDRIK NILSEN

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A NÃO PERDER - EXPOSIÇÕES

lond res N AT I O N A L G A L L E RY

R AFAEL

IMAGEM CORTESIA MUSEO NACIONAL THYSSEN-BORNEMISZA, MADRID

“ S ÃO J OÃO B A P T I S TA A P R E G A R ”, R A FA E L , 1 5 0 5 © T H E N A T I O N A L G A L L E R Y, L O N D R E S

Curta mas prolífica, a carreira de Rafael viu-o tornar-se um dos pintores mais premiados da sua geração. Trabalhando em muitos meios e géneros, o artista do Alto Renascimento é colocado em destaque na National Gallery até ao final do mês de Julho. A mostra reúne obras de todo o mundo.

N AT I O N A L G A L L E RY

LU C IA N F R EU D : NOVA S PERSPECTIVAS NA NATIO NA L G ALLERY De 1 de Outubro até 22 de Janeiro 2023, pode ver como o estilo de pintura de Lucian Freud evoluiu de um estilo linear para representações mais lúdicas, mostrando mais características de carácter. A exposição da National Gallery lança uma nova luz sobre as obras de assinatura do pintor nascido em Berlim, desde as grandes telas a retratos íntimos que se estendem por sete décadas da sua carreira. R E F L E X ÃO C O M D UA S C R I A N Ç A S ( AU T O - R E T R AT O ) LUCIAN FREUD, 1965 © THE LUCIAN FREUD ARCHIVE / BRIDGEMAN IMAGES

TAT E M O D E R N

O E Y E XH IB ITION : CÉZAN NE N A TATE MODERN

PAU L C É Z A N N E . O C E S TO DA S M AÇ Ã S , C . 1 8 93 . I N S T I T U TO D E A RT E DE CHICAGO, HELEN BIRCH BARTLETT MEMORIAL COLLECTION. I M AG E M C O R T E S I A TAT E M O D E R N

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A partir de 5 de Outubro e até 12 de Março de 2023, a Tate Modern vai apresentar uma exposição única de pintura, aguarelas e desenhos de Paul Cézanne (1839-1906). Famosamente referido como “o maior de todos nós” por Claude Monet, Cézanne continua a ser uma figura central na pintura moderna. Criado num mundo em rápida evolução, as suas obras concentram-se no local e no quotidiano, concentrando-se nas próprias experiências pessoais do artista para dar sentido ao caos e à incerteza da vida moderna. A exposição EY: Cézanne reunirá cerca de 80 obras cuidadosamente seleccionadas de colecções da Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, dando ao público britânico a sua primeira oportunidade em mais de 25 anos de explorar a amplitude da carreira de Cézanne.


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A NÃO PERDER - EXPOSIÇÕES

C R I S T Ó VÃ O D E F I G U E I R E D O , “ P A R T I D A D A S R E L Í Q U I A S D E S A N TA A U TA D E C O L Ó N I A” , M N A A © D G P C / A D F, L U Í S A O L I V E I R A / J O S É P A U L O R U A S

M E S T R E DA LO U R I N H Ã , “ SA N T I AG O E H E R M Ó G E N E ” 1 5 2 0 / 1 5 2 5 © D G P C / A D F, L U Í S A O L I V E I R A / J O S É PAU L O R UA S

O reconhecimento do Renascimento Português D E 1 0 D E J U N H O A 1 0 D E S E T E M B R O , O L O U V R E A C O L H E 1 5 D O S M A I S R E L E VA N T E S T R A B A L H O S DA RENASCENÇA P ORTUGUESA, CEDID OS PELO MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA. “ L’A G E D ’ O R D E L A R E N A I S S A N C E P O R T U G A I S E ” É O T Í T U L O D A E X P O S I Ç Ã O Q U E P R E S TA H O M E N A G E M A U M A P I N T U R A Q U E “ M E R E C E S E R C O N H E C I D A” E Q U E VA I B E N E F I C I A R D A P R O J E C Ç Ã O D E U M D O S M U S E U S M A I S V I S I TA D O S D O M U N D O . A M O S T R A E S TÁ I N S E R I D A N A T E M P O R A D A C R U Z A D A P O R T U G A L- F R A N Ç A .

Não obstante as ligações históricas e culturais entre os dois países, a pintura portuguesa raramente está presente ou até identificada em museus franceses. Quem assinala a omissão é o próprio Museu do Louvre, na introdução de “L’Age

NÉLSON SOARES

d’Or de la Renaissance Portugaise”, assumindo que a arte nacional “merece ser melhor conhecida” pelo público francês, em particular

esta exposição que apresenta, no Dia de Portugal, algumas das mais emblemáticas pinturas da renascença nacional, na Ala Richelieu do emblemático museu parisiense. A iniciativa está incluída na

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E S P E C I A L C U LT U R A

A NÃO PERDER - EXPOSIÇÕES

F R E I C A R L O S , “O B O M PA S TO R”, L I S B OA , M N A A © D G P C / A D F, J O S É P A U L O R U A S

programação da Temporada Cruzada Portugal-França 2022, evento de diplomacia cultural, e apresenta uma sequência de 15 trabalhos de autores como Nuno Gonçalves (1450-1492), Jorge Afonso (1504-1540), Cristóvão de Figueiredo (1515-1554) ou Gregório Lopes (1513-1550), cedidos pelo Museu Nacional de Arte Antiga, no âmbito deste protocolo. Mas não se trata de uma formalidade para o Louvre, antes de uma homenagem a uma pintura “refinada e maravilhosamente executada”, bem como a uma escola portuguesa que “opera uma síntese muito original entre as invenções pictóricas da Renascença italiana e as inovações flamengas”, inspirada em pintores como Jan Van Eyck, que se

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fixou no nosso país entre 1428 e 1429. De resto, o museu francês recorda a afirmação desta variante renascentista portuguesa, a partir de meados do século XV, potenciada com o investimento que D. Manuel I (1495-1521) e D. João III (1521-1557) realizaram nos seus reinados, rodeando-se de pintores da corte e fazendo inúmeras encomendas de retábulos. Até à crise de sucessão de 1580, assinala o Louvre, o renascimento português encontravase em franca expansão e com uma qualidade comparável às melhores escolas europeias do seu tempo. Lisboa metrópole do séc. XVI A curadoria da exposição “L’Age

d’Or de la Renaissance Portugaise” invoca, neste contexto, o momento “particularmente inovador na história da pintura europeia”, quando alguns pintores de origem flamenga, como Francisco Henriques ou o Mestre da Lourinhã, importaram para Portugal “o domínio de uma técnica muito refinada de pintura a óleo”, com enlevo particular por paisagens e pelos efeitos decorativos de tecidos e materiais preciosos. Esta tendência foi evoluindo com Jorge Afonso – designado por D. Manuel I como pintor régio, em 1508 – e com um conjunto de artistas que se formou à sua volta, assimilando as técnicas e dando resposta às solicitações da corte.


M E S T R E P O RT U G U Ê S D E S CO N H E C I D O, “O I N F E R N O ”, L I S B OA M N A A © D G P C / A D F, L U Í S A O L I V E I R A / J O S É P A U L O R U A S

Jorge Afonso, Nuno Gonçalves – apresentado pelo Louvre como “o primeiro grande pintor português – e os restantes autores reunidos nesta súmula renascentista beneficiaram, ao longo do século XVI, do ambiente multicultural que se vivia em Lisboa. A “capital do vasto império português”, refere a apresentação da exposição, florescia com as “riquezas e descobertas do Novo Mundo” e contemplava os apoios de uma corte com vocação para o mecenato. Com curadoria de Charlotte Chastel-Rousseau, conservadora do Departamento de Pintura do Museu do Louvre; e Joaquim

J O R G E A F O N S O , “A D O R A Ç Ã O D O S P A S T O R E S ” , L I S B O A M N A A © D G P C / A D F, L U Í S A O L I V E I R A

Oliveira Caetano, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, “L’Age d’Or de la Renaissance Portugaise” é a reconciliação de Paris e da Europa artística com um período virtuoso da pintura portuguesa. Como recorda a organização, as últimas exposições sobre o

Renascimento português na capital francesa datam de 1987 (“Soleil et ombres : l’art portugais du XIXe siècle”, no museu do Petit Palais) e 2001 (“Rouge et or. Trésors du Portugal baroque”, no museu Jacquemart-André). Estava na hora de retomar a história. l

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A NÃO PERDER - FESTIVAIS

FOTO: ADOBE STOCK

E S P E C I A L C U LT U R A

Os festivais de música estão de volta no Verão de 2022 O V E R ÃO E S TÁ A C H E G A R E O S M A I S D I V E RT I D O S F E S T I VA I S D E M Ú S I C A TA M B É M . A P R É M I O DÁ - L H E C O N TA D E A LG U N S D O S F E S T I VA I S E S PA L H A D O S P E LO M U N D O ONDE NÃO PODE DEIXAR DE MARCAR PRESENÇA.

N

LARISSA GÖLDNER

os últimos dois anos, várias festas e festivais de música foram cancelados em todo o mundo devido à pandemia. Com a chegado do Verão na Europa e já com muitos vacinados – mas ainda com algumas precauções – os mais populares e divertidos festivais de músicas estão de volta. Existem

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para todas as idades, géneros e gostos, alguns com ‘shows’ de comédia, teatro e outros onde até é possível acampar num encontro “único” com a natureza. Provavelmente não conseguirá ir a todos, mas deixamos-lhe desde já alguns dos festivais que estão a acontecer este ano para que reserve já a data na sua agenda e para que não deixe esgotar os bilhetes.


MOGA Caparica - Lisboa, Portugal 1 a 5 de Junho A 20 minutos de Lisboa, através da ponte 25 de Abril, o MOGA é um festival de música electrónica inspirado nas vibrações do Atlântico, que reúne em diferentes locais da Costa da Caparica pessoas de todo o mundo através da dança, arte e bem-estar. O festival nasceu em Essaouira, na costa sudoeste de Marrocos, onde continua a realizar-se. Estreou-se em Portugal o ano passado, e esta é a sua segunda edição. Aproveite o sol da Caparica com aulas de yoga, ‘brunches’ e festas na praia e no mar. Entre os artistas convidados podemos destacar nomes como Amine K, Audiofly, Carlita, Dam Swindle, Magupi, Parallels, Shugi ou Yokoo.

Primavera Sound Barcelona – Espanha 2 a 4 de Junho / 9 a 11 de Junho Tudo começa em Barcelona e termina em Barcelona. Onze dias distribuídos entre o Parc Del Fórum, diferentes espaços da cidade e a praia de San Adriá de Besos, mais de 500 apresentações para, finalmente, celebrar o vigésimo aniversario do Primavera Sound. A banda virtual Gorilaz (cujo membros não são músicos reais, mas sim personagens animadoas) é uma das grandes atracções desse ano no evento.

Glastonbury - Inglaterra 22 a 26 de Junho O maior festival do Reino Unido, que remonta ao ano de 1970, música, travessuras e muita diversão. A música varia entre o pop, reggae, rock, dubset, metal, folk e techno. São 100 palcos com vários artistas e muitas atracções, reunindo numa fazenda na região de Somerset.

Rock in Rio Lisboa - Portugal 18-19 e 25-26 de Junho A 9ª edição do Rock in Rio Lisboa está agendada para os dias 18,19,25 e 26 de Junho deste ano, com o recinto do festival a transformar-se numa verdadeira “Cidade do Rock” com mais de 12 horas de entretenimento por dia e novos conteúdos. Além do “Palco Mundo”, por onde passarão artistas como Muse, Duran Duran, Black Eyed Peas, Anitta, Ivete Sangalo, entre outros, o festival apresenta um novo conceito, o “Galp Music Valley”, cujos primeiros nomes já estão confirmados : Linda Martini, Nem Matogrosso, The Black Mamba… Além de tudo isto, os visitantes podem também usufruir dos vários espaços verdes existentes, uma zona de restauração e, ainda, desafiar-se em experiências mais radicais como andar de slide ou experimentar a roda gigantes.

NOS Alive - Lisboa, Portugal 06 a 09 de Julho Um dos maiores e mais populares festivais de Portugal. O NOS Alive tem vindo a organizar consistentemente alinhamentos inovadores desde 2007, misturando grandes nomes de todos os tempos com novos talentos. O Nos Alive regressa em 2022 ao Passeio Marítimo de Algés com grandes nomes do mundo da música, entre os quais The Strokes, Florence, Metallica, Imagine Dragons, Da Weasel, entre muitos outros. Actualmente é o evento anual que mais estrangeiros traz a Portugal. Em 2014 o festival contou com 15 mil estrangeiros, provenientes de 48 nacionalidades, ao longo dos três dias de evento. F E S T I VA L M O G A

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E S P E C I A L C U LT U R A

A NÃO PERDER - FESTIVAIS

Lovebox - Finsbury Parque, Londres, Inglaterra

Latitude Festival – Suffolk, Inglaterra

16 de Julho

21 a 24 de Julho

Lovebox é uma das festas de Verão mais coloridas que já decorreu em diferentes locais incluindo Clapham Common. Actualmente acontece no Finsbury Park, no norte de Londres. O festival recém-expandido apresenta alguns dos melhores músicos de pop, hip hop, RnB, rap, além de incríveis apresentações de house e dance music e Djs durante o fim-de-semana.

Situado nos arredores do Henham Park, o Latitude Festival cria memórias inesquecíveis há mais de 15 anos. Este festival oferece um fim de semana diferente e tranquilo, com uma programação de pop aventureiro e rock alternativo. O festival não envolve somente música, mas também possui palcos para apresentações de poesia, literatura, ciência e teatro, o que o torna numa experiência cultural riquíssima. O Latitude é conhecido por ser um festival propício para crianças e por quebrar as barreiras do ‘design’ e da inovação tecnológica.

ROCK IN RIO LISBOA

F E S T I VA L L O V E B O X

SPLENDOUR IN THE GRASS BYRON BAY, AUSTRÁLIA 22 A 24 JULHO Depois de quase 20 anos, o Splendor in the Grass está a tornar-se uma espécie de instituição australiana. Um festival de música que acontece anualmente e que regularmente faz com que cerca de 30 mil pessoas viagem para o North Byron Highlands para três dias de boa música, arte e ‘camping’. Pode contar ainda com palestras, comédia e alguma reflexão filosófica.

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Tomorrowland – Boom, Bélgica

BURNING MAN - DESERTO DE BLACK ROCK, NEVADA, EUA

15 a 17 / 22 a 24 / 29 a 31 de Julho

28 de agosto a 5 de setembro

O festival belga, com sede na cidade apropriadamente chamada de Boom, atrai os maiores DJs e produtores de música electrónica do mundo há mais de dez anos. Um evento repleto de EDM, house, techno, hardstyle, drum and bass, trance e muito mais ao longo de dezenas de palcos, muitos deles com curadoria de algumas das maiores marcas e artistas do circuito. Mais de 700 artistas foram confirmados para tocar no festival, que volta este ano pela primeira vez desde 2019. O evento de 2022 será a 16ª edição e será centrado no tema “The Reflection of Love”.

Uma vez por ano, dezenas de milhares de pessoas reúnem-se no deserto de Black Rock, em Nevada, para criar a Black Rock City, uma metrópole temporária dedicada à comunidade, arte, autoexpressão, diferenças culturais, partilha de conhecimento e muito mais. Burning Man não é um festival. É uma cidade onde quase tudo o que acontece é criado inteiramente pelos seus cidadãos, que são participantes activos da experiência. O tema deste ano do Burning Man 2022 é “Waking Dreams”.

F E S T I VA L T O M O R R O W L A N D - B O O M

BST Hyde Park - Londres, Inglaterra 24 de Junho a 10 de Julho British Summer Time Hyde Park ou BST Hyde Park para a maioria é uma série de concertos em Londres realizada a cada Verão dentro do Royal Park da capital inglesa. Distribuídos por vários fins de semana, o BST Hyde Park apresentou alguns dos principais artistas do mundo ao longo dos anos, incluindo Lionel Richie, Celine Dion e Stevie Wonder. Este ano a abertura do festival contará com Elton John. Sábado, dia 25 de Junho e domingo, 3 de Julho, recebe a icónica banda The Rolling Stones, que completará 60 anos e que presenteará os fãs com um ‘set list’ repleto de clássicos como “Satisfaction”,”Paint It Black”, “Tumbling Dice”, “Sympathy for the Devil” e “Gimme Shelter”. Domingo 26 de Junho, os lendários roqueiros Eagles chegam ao Reino Unido para comemorarem 50 anos. Aqui vai poder ouvir-se sucessos como “Take It Easy”, “Life in the Fast Lane” e, claro, “Hotel California”. Uma celebração inesquecível no Hyde Park!

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A NÃO PERDER - CONFERÊNCIA

FRENTE MAR A S E G U N DA C O N F E R Ê N C I A D O S O C E A N O S DA O R G A N I Z A Ç Ã O DA S N A Ç Õ E S U N I DA S VA I R E U N I R E M L I S B OA A C O M U N I DA D E I N T E R N AC I O N A L PA R A U M C O N J U N TO D E D E B AT E S S O B R E P O L U I Ç ÃO M A R I N H A , C O N S E R VA Ç Ã O D E E C O S S I S T E M A S O U P E S C A S U S T E N TÁV E L .

JOAQUIM BAPTISTA

A

segunda Conferência dos Oceanos das Nações Unidas (UNOC), realiza-se em Lisboa entre 27 de Junho e 1 de Julho de 2022 e tem como tema geral “Reforçar a acção dos oceanos com base na ciência e na inovação para a implementação do Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 14: avaliação, parcerias e soluções”. Mobilizar o apoio global para implementar, criar, conservar e utilizar, de uma forma sustentável, os mares, oceanos e os recursos marinhos é o objectivo deste evento, organizado pelos Governos de Portugal e do Quénia. Depois de terem agido de forma menos própria sobre as áreas não marinhas do Planeta durante anos, a descoberta das riquezas dos oceanos e do potencial ainda por descobrir levou a que também a sustentabilidade de mares e oceanos se tornasse uma preocupação.

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Em conjunto com o Quénia, Portugal organiza esta cimeira que não se realizava desde 2020 e tem particulares responsabilidades na sua condução pois é, como se sabe, detentor de uma zona económica exclusiva várias vezes mais vasta que o seu território. A nível global, nacional, regional e local, a protecção e conservação dos mares e oceanos é vista como o único meio de assegurar e proteger o bem-estar da Humanidade. Longe vão os tempos em que navegadores portugueses davam a conhecer novos mundos ao velho mundo, em que mercadores e armadas com intuito expansionista cruzavam mares e oceanos, mas deixavam intactos os seus recursos. A ânsia por liderar a economia do mar, na forma mais primária, tem levado à destruição daquela que é, no Planeta, a última fronteira e, quem sabe, a única capaz de lhe assegurar um futuro sustentável. Não cabe apenas aos governos e organizações internacionais por eles participadas contribuir para que a vida marinha seja preservada e para que a humanidade possa encontrar “num mundo azul” vem gerido o caminho para a sobrevivência. A participação da sociedade civil é de extrema relevância e é bom recordar que se registaram para participar na

TIAGO PITTA E CUNHA, MEMBRO DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO E DIRECTOR DA COMISSÃO EXECUTIVA DA FUNDAÇÃO OCEANO AZUL | VENCEDOR DO PRÉMIO PESSOA 2021

Conferência inúmeras organizações não governamentais, instituições académicas, representantes da comunidade científica, do sector privado e de organizações filantrópicas. É nesta expectativa que deixamos o alerta a todos os leitores. Por Mares nunca dantes navegados demos novos mundos ao velho mundo, trouxemos especiarias da Índia e levámos armas ao Japão, levámos um Rinoceronte à Itália e um Imperador ao Brasil. Vamos agora aproveitar uma frente mar a perder de vista para contribuir para um país e um Planeta sustentáveis (no próximo número os Oceanos serão tema a debater em profundidade). l


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