Corte Seco - Terceira edição (Volume II)

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Carta ao leitor Prezado Ricardo Salmito, Muito bom receber notícias suas. Foram tantos os desacertos deste ano, que são em momentos como esse que a gente volta a se encher de esperança. Certo dia, numa dessas lives que passamos a acompanhar sem muito critério, alguém falou que está se sentindo pessimista no atacado e otimista no varejo. A princípio, me identifico com a afirmação. Afinal, onde buscar as relações que façam verdadeiramente sentido? Meu entusiasmo parece cada vez mais encontrar ressonância nos pequenos retalhos da vida, no varejo de coisas aparentemente desimportantes. Nesse sentido, a leitura de um livro ou a descoberta de um filme podem se transformar em verdadeiros faróis de refúgio, grandes companheiros nos momentos de desesperança e solidão. Para mim sempre funciona, cruzando os caminhos do cinema e da literatura posso garantir um pouco de sanidade. E acho que isso está longe de ser escapismo, especialmente pela minha afeição aos documentários e narrativas estranhas, aquelas que de tão surreais tomam emprestado elementos da nossa realidade. Filmes e livros são como aqueles nossos amigos mais surpreendentes, capazes de apresentar mundos e compartilhar sonhos. O primeiro volume da terceira edição da Corte Seco me apresentou muitas coisas incríveis. Obrigado pelo presente! Quero retribuir te encaminhando um segundo número da revista igualmente

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especial. Destaco a entrevista concedida pelo cineasta e roteirista Jorge Furtado, reflexões críticas sobre o universo dos mangás, textos sobre adaptações cinematográficas de HQ HQ’s, ’s, romances, contos e obras de não ficção. Ainda destaco mais duas contribuições que apresentam exemplos de como o cinema e a televisão podem ampliar o gosto pela leitura e contribuir para a formação de novos leitores. Me despeço aqui te confidenciando uma coisa. Sonhei com a cura definitiva do vírus brasileiro, aquele que impregnou a política. Em breve vamos recuperar a alegria, na irrupção de uma força poderosa que voltará a sacudir nossos corações e mentes. No sonho, essa revolução começa dentro de uma sala de cinema. Após uma sessão, os espectadores saíam contagiados com os nossos belos filmes e recuperavam a incontornável alma encantadora das ruas. O cinema brasileiro iniciando um processo de grandes transformações, reascendendo o movimento dos corpos e reorganizando as pulsações de nossas falas, desejos e escutas. Enfim, essa minha viagem pode ter sido só um sonho. Mas eu queria deixar registrado, seja nessa carta, ou nas páginas de uma revista. Boa leitura! Rodrigo Capistrano


EXPEDIENTE Edição 3 novembro 2020

SUMÁRIO

Redação Breno Árleth Brenda Mércia Gabriela Gonçalves Joyce Ellen

Letícia Lima Natália Alves Paulo Junior Paulo Rossi

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o papel do cinema na formação de novos leitores

Ricardo Salmito Rodrigo Capistrano Wesley Guilherme

entrevista com jorge furtado

EDITORes-chefes Paulo rossi Júlia Marques

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Do preto e branco às cores

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Dor, perda e melancolia: os conflitos do eu em O Corvo, de James O’Barr

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UMA PARADA NA ESTAÇÃO CARANDIRU

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Bom Sucesso e o encanto literário

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A Espuma dos Dias: um clássico moderno surrealista pouco conhecido

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Benjamin Button e o Curioso Caso do Tempo

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Quem não reage, rasteja

Revisão Paulo Rossi

Diagramação e Projeto Gráfico júlia marques

ILUSTRAÇÕES Ewerton Moraes Juan Barreto

Letícia Lima Thaiane Fernandes

comissão editorial Júlia Marques Paulo Junior Vitória Guimarães Natália Alves Paulo Rossi Wesley Vasconcelos

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Do preto e branco às cores A representação feminina nos animes em comparação aos mangás Por Natália Alves

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explosão da cultura geek possibilitou que milhões de pessoas pudessem escrever e criar personagens das mais variadas

formas, mas também – e principalmente – carregados de estereótipos e problemáticas que, aos poucos, foram modificadas. A popularidade do feminismo encontra-se também dentro do mundo geek, onde personagens objetificadas e fetichizadas são pauta de diversas discussões entre os consumidores da literatura e audiovisual nerd. Contudo, muitas mídias analisadas fogem do “padrão ocidental”, como por exemplo os mangás (quadrinhos japoneses) e animes, pois os mesmos são reflexo de uma construção social, onde as mulheres são carregadas de

4 ILUSTRAÇÃO: THAIANE FERNANDES


estereótipos e idealizações não convencionais ao que estamos acostumados no ocidente. A indústria de mangás é uma das mais lucrativas no mundo, pois na cultura oriental os mangás são considerados produtos de massa, não se limitando a um nicho específico, como é o caso de quadrinhos ocidentais. Portanto, a criação de mangás precisa atender aos mais variados públicos, estando diretamente ligada a indústria de animes, que trabalha – em sua maioria – com as histórias escritas em tais quadrinhos. Contudo, algumas expectativas e idealizações no mundo dos mangás atravessam a vivência de mulheres, que se sentem ridicularizadas e erotizadas em diversas dessas produções.

Fan Service A idealização de alguns mangakás sobre as mulheres é algo que beira a deturpação, na maioria das vezes. É uma indústria que, para satisfazer os fetiches de quem consome tais mídias, não mede esforços para criar a imagem da “mulher perfeita”: corpo padrão, atos submissos e nenhuma personalidade. É comum ouvir a palavra fan service no meio de toda essa (des) construção de personagens, pois é um dos pontos que a indústria desenvolvedora de mangás e animes mais atende. O Fan service é

um termo que vem do inglês, que significa “serviço para fã”, e que teve sua origem no universo de animes e mangás, onde escritores criam elementos para que os fãs consumam mais suas obras, escrevendo histórias que estejam à altura das expectativas dos mesmos. Em teoria – e em diversas produções – o fan service não é algo ruim. Porém, muitas vezes é feito sob a perspectiva masculina de como a mulher deve ser representada no audiovisual e na literatura. Em diversas histórias é comum que um personagem masculino esteja sempre objetificando a personagem feminina, onde todas as suas interações levam a insinuações sexuais desnecessárias para a construção do enredo. As conotações sexuais em mangás são imensas, mas quando são levadas ao audiovisual se tornam ainda maiores. Há diversos mangás que não possuem tais características deturpadoras da feminilidade, mas que quando são adaptadas para o audiovisual (anime) são modificados para satisfazer o desejo do público consumidor. Uma personagem que, no mangá, tem seus traços mais infantilizados, no anime é colocada como uma mulher fetichizada, para que o público consuma tal mídia e que o trabalho seja lucrativo. O fan service não é para agradar a massa de um modo geral, e sim um nicho específico, que é, por fim, o público que mais consome tais produtos.

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“Algumas expectativas e idealizações no mundo dos mangás atravessam a vivência de mulheres, que se sentem ridicularizadas e erotizadas em diversas dessas produções.” produções.”

Hentais e a banalização do estupro A vasta produção de mangás e animes do mercado japonês não chega totalmente ao ocidente, existindo apenas categorias e gêneros específicos comercializados, principalmente no Brasil. Um dos gêneros polêmicos de mangás e animes é o Hentai, que depois de muitas discussões judiciais dentro do Japão sobre sua distribuição com e sem censura, ainda é colocado em pauta vista as suas produções extremamente perturbadoras. No Japão, a palavra Hentai tem como significado tarado ou pervetido, mas no ocidente é usada para designar os animes ou mangás pornográficos. Alguns hentais são feitos para satisfazer fetiches bizarros, e até mesmo criminosos. Cenas de sexo com menores de idade, ou até mesmo animes onde mulheres são estupradas, são comuns na indústria de animes hentai. Em 1907 o Japão censurou qualquer tipo de mídia que contenha exibição de

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órgãos sexuais, mas apesar disso a indústria de Hentais é uma das que mais cresce no mundo. O universo dos hentais é um submundo ainda bastante obscuro no ocidente. No Brasil existe uma grande censura sobre essas mídias, mas o consumo anda em constante crescimento. O estupro é um dos grandes enredos dentro das histórias do gênero hentai, onde mulheres são submetidas a fetiches perturbadores, existindo dentro disso o mito da “inocência sexy”, fazendo o consumidor acreditar que o que se passa não é algo errado. Os defensores do hentai acreditam que esse tipo de pornografia não é nociva, pois não explora seres humanos reais. A questão é que tudo o que é explorado na pornografia real é representado nos mangás, principalmente a erotização e fetichização de mulheres. A violação do corpo feminino é sempre o ponto principal dessas mídias, colocando em pauta que, mesmo nos dias de hoje, o corpo feminino é produto a ser comercializado e violentado.

Mulheres mangakás A cultura machista ainda é bastante presente nas adaptações animadas do Japão, como também em sua literatura, mas algumas mulheres estão quebrando essas barreiras todos os dias. Algumas das maiores obras de mangás japonesas são escritas por


mulheres, que lutaram para que suas histórias tivessem notoriedade em uma sociedade misógina. Atualmente, alguns estúdios de anime estão empregando cada vez mais pessoas do sexo feminino, mesmo sob repressão de certa parte do público masculino, que alega que “mulheres não sabem construir histórias”. Diversas mulheres mangakás viveram por muito tempo no anonimato, para que suas obras fossem comercializadas. Hiromu Arakawa, criadora de Fullmetal Alchemist (2001), um dos animes e mangás mais famosos do Japão, é um exemplo de resistência dentro dessa indústria. Hiromu é seu pseudônimo masculino, pois a mesma temia que sua obra não fizesse sucesso, por ser escrita por uma mulher. Sua obra é uma das mais famosas ao redor do mundo, tendo adaptação em anime e também em live-action. A representatividade feminina em obras orientais é discutida de diversas perspectivas, levando em consideração as diferenças culturais entre oriente e ocidente, mas é importante pautar que, em produções feitas por mulheres, a representação feminina é sempre colocada como forte, e não sexualizada. A liberdade de criação possibilita mulheres a escreverem suas histórias e se pautarem sob suas perspectivas, quebrando padrões que já persistem há tempos.

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Dor, perda e melancolia

vestígio

os conflitos do eu em O Corvo, de James O’Barr

Por Letícia Lima

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orvos não esquecem rostos humanos. Essa percepção favorece a ação das aves através da associação feita entre a feição humana e o comportamento que aquela pessoa apresenta enquanto observada pelo animal. Caso o indivíduo represente uma ameaça, o corvo, ao trazer à tona a memória despertada pela expressão, se recordará. Eric Draven, ou O Corvo, protagonista da HQ de James O’Barr publicada em 1989, com adaptação em filme datada de 1994, dirigida por Alex Proyas, lembrou-se com clareza e carregou dentro de si as dolorosas memórias causadas por T-Bird, Tom Tom, Top Dollar, Funboy e Tin Tin. Esses, responsáveis não

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somente por sua morte, mas também pelo assassinato e violação de sua companheira, Shelly, tornam-se alvos do ódio, desespero e violência de Draven em seu retorno à vida sob o espírito da ave. Aqui, o “espírito” do corvo é apresentado a partir de uma perspectiva mítica. O pássaro atua como aquele que transporta as almas para o mundo dos mortos, mas, às vezes, algo mau ocorre e uma imensa tristeza consome a alma conduzida, impedindo seu descanso. A ave, então, promove seu retorno ao mundo dos vivos, na intenção de reparar o que gerou a inquietação ao ser. Ambos


– filme e HQ – partem desse ponto para a construção de Draven como o anti-herói, porém diferem significativamente em termos de locais e contextos nos quais os crimes acontecem, participação e núcleos de personagens ao longo do enredo ou mesmo na sequência em que ocorrem as mortes causadas por Eric. No entanto, convergem no momento em que ilustram como o Corvo, em seu âmago, age e sente em sua volta a vida a partir do contato com a perda. Na véspera do Halloween, apresentada como a Noite do Diabo pelo filme, um grupo de criminosos ateia fogo em pontos distribuídos pela cidade de Detroit. É em meio a esse contexto que os crimes acontecem a Eric e Shelly, cometidos no apartamento em que residiam. As investigações não progridem, até que, um ano depois, Draven regressa à vida, como o Corvo, na intenção de reparar o dano causado, matando, um a um, cada envolvido no delito. Engajado no ato de fazer justiça com as próprias mãos, o protagonista inicia a trajetória que o tornará cada vez mais tomado por um impulso destrutivo, levando-o também à própria desolação. Abre-se, aqui, uma lacuna para a discussão em relação ao comportamento do personagem em sua tomada de decisões ao lidar com a situação – a série de mortes estabelecida por ele realmente seria o atributo que permitiria que sua alma repousasse em paz?

“Os atos do Corvo externam o conjunto de emoções que assolaram o criador da produção por anos. anos.” Em sua “segunda vida”, Draven é assombrado por uma série de flashbacks que remetem, especialmente, tanto ao seu cotidiano feliz e tranquilo ao lado de Shelly, como, em contraposição, às memórias do fatídico momento que antecedeu os últimos minutos de sua vida. O espectador da narrativa é exposto a uma torrente de sentimentos que, de um lado, apresentam um Eric melancólico e obstinado e, por outro, revelam como o personagem se posiciona no limiar da sanidade. Enquanto a película se encarrega da construção mais nítida de uma atmosfera de mistério, exemplificada na maneira que o Corvo surge e desaparece em suas interações com os demais, a carga emotiva é mais evidente na abordagem da HQ. O pesar do protagonista, constituído pela mistura de saudade, amargura, tristeza, perda e raiva, é acrescido dos sentimentos de culpa e impotência pela violenta perda de Shelly. Eric é exibido em uma roupagem mais “crua”, chegando mesmo a se mutilar nos momentos em que sua mente não consegue suportar o largo emaranhado de

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dores, e, aqui, suas expressões e atos são expostos de modo mais gráfico. É como se, no ímpeto do momento, Draven se apoderasse do controle da narrativa e a desenvolvesse a próprio punho. Essa reação explosiva é um reflexo do fator que motivou o desenvolvimento da história por James O’Barr. Embora, a princípio, o autor não tenha esclarecido com exatidão qual base tomara para a construção de sua obra, a edição definitiva da HQ – lançada nacionalmente em 2018 – possui prefácios que trazem à tona o tópico. O’Barr lidou com a morte de sua noiva, Beverly, em um atropelamento, causado por um motorista alcoolizado. Assim como Draven, ele se visualizou como culpado pela situação; em seu caso, por não ter ido buscála devido à falta de pagamento de impostos de seu carro. James despejou toda a raiva e dor em papel e nanquim, na tentativa de tirar de si a autodestruição que ali se instalara. Os atos do Corvo externam o conjunto de emoções que assolaram o criador da produção por anos. Eric teve seu nome escolhido em função de O Fantasma da Ópera, e, conforme pontuado pelo próprio autor, por

sua autotransformação em um monstro após o falecimento de Beverly. Shelly, por sua vez, foi assim nomeada em referência a Mary Shelley, escritora que também trata da figura do monstro em seu romance gótico Frankenstein. Nesse ponto, pode-se fazer um paralelo com o conceito de self do psicólogo Carl Rogers no que diz respeito à experiência de si, entendendo o “eu” não da maneira existente na realidade, mas como é percebido pelo próprio indivíduo. Trazendo para a perspectiva da obra, é como Draven faz a leitura de si mesmo, suas relações, atributos e características que constituem sua identidade e como essa percepção envolve as experiências vivenciadas pelo personagem. Porém, é necessário que o indivíduo confirme sua noção de “eu” para que possa aceitar a si mesmo e prosseguir em sua autorrealização. Eric é desenhado por si como um uma figura monstruosa em virtude da culpa, fechando os olhos para o que realmente foi antes da reviravolta que tomou sua vida, mas só alcançaria a redenção libertandose de seu sofrer, no momento que compreendesse que deveria perdoar a si mesmo. Ilustrando esse momento, O’Barr, na HQ, valese de uma metáfora personificada na figura de um cavalo. A primeira aparição do cavalo selvagem figura no início da HQ, após um breve prólogo. O animal corria por um amplo campo gramado, observado por Draven no interior de um vagão de trem, porém acaba por colidir junto a uma cerca de arame farpado, com o fio a rasgar-lhe a carne, enquanto debatia-se, em vão,


para desvencilhar-se de seu destino. Eric testemunha, atônito, a situação. O’Barr esclarece esse momento como a representação da culpa do protagonista em função de sua incapacidade de ajudar Shelly, visualizando-se preso, incapaz de agir. Nesse flashback, o personagem é acompanhado por um corvo, que desempenha o papel de uma espécie de conselheiro: a ave busca trazer Draven de volta ao presente nos momentos em que ele se perde em meio às lembranças dolorosas. A alegoria do cavalo torna a surgir após o Corvo ceifar a vida do último de seus alvos. Em seguida, a ave questiona o propósito de Eric que, mesmo após toda a violência e vingança empenhadas, permanece mergulhado em sua tristeza, externada através da ambientação em uma floresta escura, com lápides distribuídas aqui e ali. O pássaro, por fim, expõe que, perdoando a si, o anti-herói finalmente poderia seguir adiante. Assim, o protagonista, para livrar o cavalo de seu sofrer, o executa. Esse é o momento em que a dor é igualmente morta, embora Draven tenha levado um tempo considerável até enxergar a situação por essa ótica. O corvo, enquanto ave, possui uma atuação diferente no filme. Perdendo sua fala, intervém como um guia na busca de Eric por aqueles que se constituíram como motivadores de sua vingança, além de representar o elo que o conecta entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Dessa maneira, o dano sofrido pelo pássaro também afetaria Draven; o animal funciona como uma extensão

do protagonista. Com isso em mente, a figura da ave pode ser lida de acordo com representações dentro dos contextos de prenúncio de morte e violência, como abordado pela mitologia celta, assim como um mensageiro a serviço de outro ser, formando um vínculo, como apresentado pela mitologia nórdica. Percebe-se que a morte acaba se apresentando sob diferentes perspectivas ao longo de O Corvo e, infelizmente, o caso de Beverly não seria a única morte real conectada ao contexto da obra. Durante as filmagens da adaptação de 1994, Brandon Lee, ator que ofereceu a icônica interpretação de Eric Draven, morre em consequência de um tiro acidental desferido em uma das cenas. As gravações são interrompidas e posteriormente retomadas, mediante autorização da família do autor, com algumas adaptações no roteiro e mesmo na trilha sonora (uma das músicas – Only Dying, do Stone Temple Pilots –, foi substituída). Uma infeliz coincidência é perceber que, assim como O’Barr, e Draven, Lee teve seu noivado interrompido pela presença da morte. Mais

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uma vez, a atmosfera de perda volta a pairar sobre O Corvo. É quase como se a obra carregasse consigo a tragédia. O Corvo é especialmente lembrado por suas mortes, especialmente as reais. Lidar com o fim da vida é tarefa árdua, a exemplo do desenrolar das ações na obra, mas trazendo o tema para uma concepção mais atual, há um interesse em mudar a maneira de encarar tal acontecimento. É o caso do Death Positive, movimento que gira em torno de como a cultura ocidental se coloca à parte da discussão sobre a morte e como falar sobre o tema é importante, na intenção de oferecer suporte às pessoas que estejam envolvidas na vivência desse momento. Não somente a morte, mas a perda, tão presente na produção, o tom melancólico e o gosto pela ambientação noturna são pontos que demonstram como elementos inseridos dentro das narrativas pertencentes à literatura gótica são adotados pela obra. Seja em uma das falas de Eric, remetendo ao poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, ou na solidão em que o personagem imerge, forma-se um ambiente em que uma ação passada reverbera no presente, resultando em um viés de perturbação.

O gótico dentro de O Corvo À medida que uma ação ocorrida no passado influi no presente do enredo – sendo essa configuração uma das principais

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características do gótico na literatura – tem-se a criação de uma atmosfera desencadeadora de desespero, inquietação e pesar. It can’t rain all the time, frase que se repete ao longo do filme, pode ser compreendida como uma materialização dessa atmosfera: chove em boa parte das cenas, mas a chuva – a angústia – não durará para sempre. Essa estrutura – passado x presente – pode ser associada com as perspectivas do horror e do terror, também integrantes dos aspectos abordados por tal estilo literário. Está a cargo do terror a sensação de apreensão diante de algo que ainda está por vir. O ponto pode ser exemplificado conforme Draven segue em sua matança e a menção de suas ações pelos criminosos (que ainda não foram executados) gera certa inquietação, mesmo que o próprio Eric não esteja presente entre eles. O horror, por sua vez, se preocupa em gerar repulsa, expondo aspectos cruéis, como o crime que desencadeia todo o enredo da obra. O gótico também lida com personagens densos, enfatizando questões internas do indivíduo, como ocorre com Eric, carregando um fardo até atingir sua própria redenção. Acompanhar o Corvo em sua trajetória é como enxergar o céu de uma noite escura que abre espaço, aqui e acolá, para a presença de estrelas fugidias. A penumbra rodeia, aflige e angustia, mas os pequenos lampejos de luz ali permanecem, ainda que oscilantes, ainda que efêmeros, mas presentes, aguardando o momento em que possam ser percebidos diante da imensidão do lúgubre.

REFERÊNCIAS BOTTING, Fred. Gothic. New Fetter Lane: Routledge, 1996. LELAND, John. The Positive Death Movement Comes to Life, 2018. Disponível em: <https:// www.nytimes.com/2018/06/22/nyregion/thepositive-death-movement-comes-to-life.html>. Acesso em: 18 mai. de 2020. MAIA, Camila Moreira; GERMANO, Idilva Maria Pires; MOURA JR, James Ferreira. Um diálogo sobre o conceito de self entre a abordagem centrada na pessoa e psicologia narrativa. Revista NUFEN, São Paulo, vol.1, n.2, p. 33-54, 2009. NIJHUIS, Michelle. Friend or Foe? Crows Never Forget a Face, It Seems, 2008. Disponível em: <https://www.nytimes. com/2008/08/26/science/26crow.html>. Acesso em: 17 mai. de 2020. REVOLVER MAGAZINE. 14 things you didn’t know about ‘The Crow’ soundtrack. 2018. Disponível em: <https://www.revolvermag.com/ music/14-things-you-didnt-know-about-crowsoundtrack>. Acesso em: 17 mai. de 2020.

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UMA PARADA NA ESTAÇÃO CARANDIRU Por Joyce Ellen Em 1989, o médico Drauzio Varella iniciava um trabalho voluntário de prevenção a AIDS no que já foi considerado um dos maiores presídios da América Latina: a Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru. Drauzio, em sua primeira visita ao presídio, se deparou com um cenário de enorme precariedade, o que o levou a fazer trabalho voluntário por dez anos, decidido de que aquelas pessoas precisavam de sua ajuda. Durante sua longa estadia na Casa de Detenção, o Dr. Varella ouviu relatos de diversos prisioneiros. Com todos esses relatos, em 1999 ele lança Estação Carandiru, best-seller que ganhou o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de não ficção, em 2000. Brigas, assassinatos, roubos, traição; em um lugar que abrigava mais de 7200 pessoas, não faltaram relatos para Drauzio ouvir. E o que torna esses relatos – bastante ricos em detalhes – mais importantes é a normalidade,

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o realismo com que são contados. Drauzio, em nenhum momento, se põe em posição de julgar aquelas pessoas. Pelo contrário, ele ri, faz perguntas, se mostra surpreendido com as improbabilidades dos acontecimentos, escuta todos com humildade e trata com igualdade e atenção. Isso o faz ganhar a confiança de uma grande parte dos prisioneiros, o que resulta em histórias de vida surpreendentes. Em 2003, com grandes nomes no elenco, e o argentino Héctor Babenco na direção, Estação Carandiru vira filme. Intitulado simplesmente como Carandiru, o filme se desenvolve com o mesmo realismo e riqueza de detalhes que o livro. Sendo uma adaptação bastante fiel, Carandiru traz uma boa parte das histórias contadas na obra de Drauzio, algumas delas sendo uma junção das experiências de várias pessoas, apresentadas em um personagem só. O filme mistura drama e um certo ar cômico, que se dá pela forma como os personagens relatam suas vivências: a maioria deles sempre com um sorriso no rosto, por mais trágicas que sejam suas histórias. Arquitetado de uma maneira que mostra a realidade cruel, e precária, vivida pelos presos, o filme já se inicia com uma cena de desentendimento entre eles. Com a chegada do personagem que representa Drauzio Varella, conhecido apenas como “médico” ou “doutor”, e interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos, temos uma

“Cabe a nós julgar essas pessoas, e não sentir o mínimo de piedade pela situação em que vivem?” vivem?” apresentação do Carandiru. Dividido em pavilhões, o presídio tem suas próprias regras e códigos de conduta, que se desenvolvem separadamente a leis estatais e a Constituição. Logo em sua sequência inicial, podemos ver que os presos ali dentro regem suas próprias leis, tentando dar o mínimo de “ordem” a prisão. Diante de um sistema que não supre o mínimo de saúde e higiene, Drauzio inicia seu trabalho com a ajuda de alguns prisioneiros. Em determinada cena do filme, nos deparamos com uma fala de um desses ajudantes, que nos dá um choque de realidade sobre a vida daquelas pessoas: “doutor, pra quem já injetou cocaína no escuro e com agulha sem ponta, tirar sangue com esse material aqui é até covardia da parte nossa”. E é esse cenário que vemos ao longo de todo o filme; pessoas que fora da cadeia sofrem diariamente com o vício em drogas, e quando chegam lá dentro a situação piora ainda mais. Isso sem contar com os que desenvolveram seu vício dentro da prisão, tentando fugir da dura realidade que enfrentam todo dia. Temos como exemplo o personagem Ezequiel,

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interpretado por Lázaro Ramos, que é coagido a assumir a culpa de um assassinato em troca de crack, e aceita sem relutar. O longa se desenrola mostrando o cotidiano dos presidiários dentro do Carandiru, e consequentemente presenciamos suas rotinas sendo cruzadas com a do médico. A partir disso, acompanhamos os relatos contados pelos presos através de flashbacks, o que nos aproxima ainda mais deles, nos fazendo criar até certa afeição. A maioria das histórias mostradas

nos flashbacks são os motivos que os levaram ao Carandiru, e ouvir tudo sob a perspectiva deles nos faz enxergar as coisas com um olhar diferente. Em algum momento de todas essas histórias, não é difícil entrarmos em um embate: todos ali dentro são criminosos; roubaram, assassinaram, estupraram (nesses casos os presos lá dentro acabam “fazendo justiça” com as próprias mãos). Não importa qual, mas todos cometeram algum crime. E ao mesmo tempo em que temos isso em mente, observamos uma realidade bastante dura e cruel. Algumas celas abrigando quase 30 pessoas, nenhuma condição de higiene ou saúde básicas, abuso de autoridade, e um sistema que deixa claro que “bandido bom é bandido morto”. Tudo isso nos coloca em um embate moral, embate esse que o próprio Drauzio relata ter sentido: cabe a nós julgar essas pessoas, e não sentir o mínimo de piedade pela situação em que vivem? É errado pensar que são só pessoas, independente do crime, e que aquela situação não é digna para nenhum ser humano? A resposta para isso vai da consciência de cada um, mas é inevitável o pensamento de que ninguém merece passar por situações como aquelas. Dito tudo isso, acredito que todos sabemos o final dessa história, ou melhor, dessas histórias. Em 2 de outubro de 1992, uma rebelião se iniciou e 111 detentos foram mortos pela Polícia Militar de São Paulo. No filme, intercalado com as cenas do massacre, vemos depoimentos dos detentos sobre


aquela chacina. O motivo para iniciarem uma rebelião ninguém sabe ao certo, mas o que fez aquelas pessoas continuarem foi o cansaço de viverem em um ambiente completamente precário e abandonado pelo Estado. Uma rebelião iniciada em um pavilhão que abrigava em sua maioria réus primários e pessoas acentuadamente jovens; uma rebelião que foi iniciada sem armas de fogo, e que podia ser contida pacificamente. Mas tudo acabou em um banho de sangue. Situação que Babenco faz questão de mostrar com clareza no longa, um filme que em seu segundo ato mostra um Carandiru em dia de faxina para receber visitas; e em seus últimos momentos vemos essa cena se repetir. Porém, dessa vez a água limpa o sangue que a Polícia Militar espalhou. Carandiru se encerra com um depoimento escrito por Drauzio Varella sobre o massacre, e é esse depoimento que parece guiar a obra de Hector Babenco: “no dia 2 de outubro de 1992, morreram 111 homens na Casa de Detenção de São Paulo. Não houve mortos entre os policiais militares. Só podem contar o que aconteceu Deus, a polícia e os presos, eu ouvi apenas os presos”.

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Destaque

O PAPEL DO CINEMA NA FORMAÇÃO DE NOVOS LEITORES Por Brenda Mércia

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teórico e crítico italiano Ricciotto Canudo e passou a fazer parte do hall da arte pós-moderna.

Esta primeira sessão foi exibida no Grand Café, Café, em Paris, e o filme consistia apenas numa captação de imagens de uma estação de trem e de um fluxo de passageiros. A estética e a transformação da realidade e do “banal” em figuras de expressão artística impactaram de tal forma toda a produção posterior e o mundo das obras imagéticas que em 1912 o cinema foi elevado à designação de sétima arte pelo

A partir desta cronologia, pode-se aferir que a influência da literatura (aqui mencionada como poesia) no cinema foi um movimento natural, uma vez que todas as formas artísticas conversam entre si em consonância. Compreendendo esse processo, podemos observar um fenômeno interessante: o surgimento de novos leitores com as novas produções cinematográficas. As adaptações são a forma mais comum de reencontrarmos ou conhecermos um livro nas telas dos cinemas. Esta não é uma prática atual, desde os clássicos até novas obras literárias já passaram por releituras através dos olhares de cineastas renomados.

urante o período iluminista, toda forma de arte encaixavase num grande grupo denominado Belas Artes, Artes, que consistiam em seis outras subcategorias: pintura, escultura, música, arquitetura, dança e poesia. Porém, no final do século XIX, os irmãos Louis e August Lumière revolucionaram para sempre esse conceito de arte com a primeira exibição cinematográfica, em 1895.

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Existem três formas de adaptar uma obra ao cinema: transposição (na qual a versão da tela se aproxima das fontes literárias, com pouca de interferência dos produtores e diretores); comentário (onde o original é propositalmente ou inconscientemente alterado devido às intenções do cineasta) e analogia (uma obra de arte completamente diferente porque é a livre interpretação por parte dos produtores, apenas usando o livro como ponto de partida para uma releitura de um tema). Aqui o uso da palavra “releitura” se faz fundamental para que entendamos que os enquadramentos que a indústria audiovisual apresenta destas obras é, por si só, único, o que faz com que o produto seja completamente independente daquele que o originou. É importante ressaltar ainda que quando o nosso primeiro contato foi com o livro e assistimos à sua “forma” audiovisual, é comum um sentimento de que o conteúdo e seus personagens estão desconectados do original. Porém essa comparação é desleal, uma vez que, como citado anteriormente, cada produto é uma experiência sensorial única, feitas a partir de visões distintas.

são relevantes e de extrema influência para estes novos leitores fazerem a transição do audiovisual para as páginas. Estes filmes baseados em obras literárias são uma janela para aqueles que não possuem o hábito da leitura. Por exemplo, segundo a pesquisa divulgada na 4ª edição Retratos da Leitura no Brasil,, desenvolvida em março de 2016, pelo Instituto Pró-Livro, Brasil o brasileiro lê em média 2,43 livros, menor que a média mundial (que é de 4,96 livros).

Uma explicação plausível para esta percepção é nostalgia presente em todos nós que elucida todas as experiências anteriores àquilo: o primeiro contato sempre é o melhor contato segundo este raciocínio. Entretanto, tais adaptações

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“As adaptações são a forma mais comum de reencontrarmos ou conhecermos um livro nas telas dos cinemas.” cinemas.”

jovens começam a avaliar suas impressões justamente a partir das diferenças que observam entre as duas formas de arte, livro e filme. Eles se permitem avaliar o que acharam bom ou não, o que encaixou melhor em uma linguagem e não na outra, alcançando o que é, afinal, um dos objetivos primordiais da literatura como forma de cultura e saber.”

No artigo ADAPTAÇÕES DE LIVROS PARA O CINEMA E SUA INFLUÊNCIA NA FORMAÇÃO DE LEITORES da autora Mariana Marcon Benicá ela explana essa transição do filme para o livro: “Podemos observar que a leitura da literatura de massa é bastante comum, principalmente dos livros que são transmutados para a linguagem cinematográfica. Muitos deles citam como livros lidos os de Percy Jackson, Harry Potter, Crepúsculo, Divergente, Jogos Vorazes, Vorazes, por exemplo. Os jovens dizem que o fato de terem visto o filme gerou uma curiosidade, fazendo com que eles tivessem vontade e fossem buscar estes livros, procurando conhecer elementos que porventura tenham faltado nos filmes, comprovando que nem sempre eles fazem com que o jovem “desista” de buscar o livro; ao contrário, muitas vezes é ele o responsável por essa busca, já que o conhecimento das diferenças existentes suscita dúvidas e provoca a leitura.

Com alguns outros títulos acontecem casos semelhantes a Como Eu Era Antes de Você, Você, que terminou o ano de 2015 em 10° lugar entre os mais vendidos de ficção com 34.033 mil cópias, mas com a adaptação para o cinema em 2016, a obra foi para o primeiríssimo lugar batendo 352.330 mil cópias e ainda trouxe a continuação Depois de você em segunda colocação com 228.073 unidades vendidas. Esse é um caso clássico em que o cinema impulsiona a corrida às livrarias para ter contato com a obra literária e, nesse caso, também a continuação do livro, fazendo a autora dominar os dois primeiros lugares de 2016 , bem como ocorreu com Extraordinário com 50.837 mil vendas até o final de 2017.

Também podemos observar que através da leitura vamos adquirindo uma capacidade avaliativa mais crítica. Muitos

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É importante também enfatizar as outras maneiras em que os livros são retratados em longas e curtas, além de adaptações. Um momento icônico e triste da história da humanidade foi durante o período de ascensão do nazifascismo na Europa: a queima de centenas de livros em praça pública.


Em suma, o dia 10 de maio de 1933 marcou o auge da perseguição dos nazistas aos intelectuais, principalmente aos escritores. Em toda a Alemanha, principalmente nas cidades universitárias, montanhas de livros (ou suas cinzas) se acumulavam nas praças. Hitler e seus comparsas pretendiam executar uma “limpeza” da literatura. Tudo o que fosse crítico ou desviasse dos padrões impostos pelo regime nazista foi destruído. Centenas de milhares de livros foram queimados no auge de uma campanha iniciada pelo diretório nacional de estudantes. A opinião pública e a intelectualidade alemãs ofereceram pouca resistência à queima. Editoras e distribuidoras reagiram com oportunismo, enquanto a burguesia tomou distância, passando a responsabilidade aos universitários. Também os outros países acompanharam a destruição de forma distanciada, chegando a minimizar a queima como resultado do “fanatismo estudantil”.

alunos e pais sobre a importância da leitura e da existência dos livros na sociedade para a evolução do pensamento crítico. Como disse o poeta Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” Uma coisa admirável em várias obras cinematográficas é a representação da paixão pela leitura e literatura. Quando refletimos sobre a influência transformadora dos livros nos voltamos para Sociedade dos Poetas Mortos [em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno (Robin Williams) se torna o novo professor de literatura,

Este momento se assemelha, infelizmente, ao momento que não apenas o Brasil, mas outros países do globo estão vivendo. Regimes totalitários atacam todas as formas de arte, mas principalmente a literatura, como tentaram recolher livros em escolas no Brasil esse ano ou tentaram taxá-los ainda mais. Alguns filmes retratam esse acontecimento como Fahrenheit 451 e Jojo Rabbit. Rabbit. É importante que professores conscientizem

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mas logo seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos criam um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a Sociedade dos Poetas Mortos] Mortos] e para A Sociedade Literária e a Casca de Batata [Juliet Ashton (Lily James) é uma escritora na Londres de 1946 que decide visitar Guernsey, uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, depois que ela recebe uma carta de um fazendeiro contando sobre como um clube do livro local foi fundado durante a guerra. Lá ela constrói profundos relacionamentos

com os moradores da ilha e decide escrever um livro sobre as experiências deles na guerra]. A imagem da literatura como algo que agrega, como algo essencial traz uma percepção de memória afetiva e cria um vínculo com aqueles que assistem estas histórias. Contamos histórias para que elas não se percam no tempo. Contamos histórias para criar algo que vá além da nossa natureza. Ao ver narrativas tão belas nos sentimos tocados e inspirados a nos entregar ao amor pelos livros, apesar de que o acesso à leitura ainda é uma realidade muito distante para várias pessoas em todas as partes do mundo (o direito aos livros, inegavelmente, permanece sendo um capital cultural que gera as pequenas e grandes hierarquias dentro das sociedades). A partir desta análise, podemos afirmar que os livros estão presentes de forma onipresente nos filmes, seja de maneira perceptível ou não. Para cada problema, quase sempre a arte se mostra como resposta. Caminhemos assim.

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Coluna

Bom Sucesso e o encanto literário Por Paulo Junior

P

ensar a televisão brasileira é pensar sobre telenovela, inegavelmente elas são indissociáveis. Quando a televisão chegou

ao Brasil, em 1950, uma das primeiras produções de entretenimento a migrar para sua tela foi a novela, logicamente ganhando as adaptações necessárias ao novo formato. Com o passar do tempo o produto, que já era popular no rádio, tornou-se um verdadeiro fenômeno, a ponto de algumas tramas atingirem 100% de audiência, fato que ocorreu três vezes na história. Este feito aconteceu nos capítulos finais de Selva de Pedra, Roque Santeiro e Vale Tudo. As telenovelas sempre beberam muito de fontes literárias, a literatura costumeiramente serviu, e serve, de motivação inicial para dezenas de produções. Desde adaptações diretas, como Gabriela, que ganhou duas versões, até Tieta. Porém, além da adaptação do produto

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literário, ele normalmente vem sendo utilizado como motivação para sinopses, casos de O Cravo e a Rosa, Chocolate com Pimenta e O Outro Lado do Paraíso. Acrescenta-se, que até mesmo os produtos inteiramente originais, ou seja, que não afirmam inspiração ligada à literatura, trazem em seu contexto o arcabouço literário. Intrinsecamente ligadas, é impossível produzir uma novela sem lambuzar-se dos feitos que couberam tão bem ao livro. A telenovela é a condensação em tela de um bojo infinito de sentimentos e sensações. Na tela da TV cabe o suspense, o humor, a briga, o afeto, o amor... cabe muito, cabe tudo que coube anteriormente ao livro, à literatura, às páginas que o compuseram. Não é possível, nem honesto, imaginar a vivência e sobrevivência desse formato sem assumir a necessidade literária. A novela é um livro que se abre em múltiplos capítulos. Capítulos diários, interpretados, encenados, mas capítulos. Eles integram um livro de páginas diferentes e com uma leitura diferenciada. Mas ali, em cada cena, há uma página, uma história que poderia estar exposta no papel, que também poderia ser lida no alpendre de casa, no sofá, durante a viagem de ônibus. No livro, cada página conta algo que transcende a mente, transcende o instante e a página que o suporta, o livro permite imaginar a encenação daquele momento, permite imaginá-lo novela.

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Diante de tudo isso faltou durante muito tempo na televisão brasileira um produto que trouxesse a literatura como pano de suas histórias, faltava uma novela que entendesse que além de assumir o modelo literário é preciso enaltecê-lo, fazê-lo parte indispensável do todo. Faltava o olhar para os livros que encantam no hoje e encantaram no passado. Bom Sucesso, novela de 2019, certamente assume um pouco esse papel. A telenovela, assinada por Rosane Svartman e Paulo Halm, traz nuances importantes e guardada as proporções devidas ofereceu perspectivas singulares a um horário por vezes subvalorizado, o horário das 19h. O texto arrojado e a seleção acertada dos atores proporcionaram uma novela prazerosa. O enredo está marcado pelos personagens de Antônio Fagundes e Grazi Massafera. Alberto (Antônio Fagundes) é um senhor de terceira idade, proprietário de uma editora conhecida e com um acervo altamente vasto, a Prado Monteiro, porém, a editora encontra-se em grave crise econômica, motivada pela queda no número de vendas. Alberto é bastante ranzinza, situação piorada por ser portador de uma doença que lhe colocou em cadeira de rodas e que não dispunha de perspectiva de cura. Já Paloma (Grazi Massafera) encarna características de uma típica mulher batalhadora; mãe solteira, cria os filhos sozinha, dividindo-se cotidianamente entre o trabalho, os filhos e amor pelo samba.


Graças a uma troca de exames o caminho dos dois se cruza. Inicialmente o ar que surge nessa aproximação é de repulsa, Alberto e Paloma se detestam, se vêem como opostos. São página limpa, preservada e página rabiscada, colorida pelos marcadores multicores. Alberto é orgulhoso, imperativo, lembra Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito, por sua vez, Paloma é doce, aguerrida, gentil e forte, assim, ela é um pouco Macabéa, Capitu, um pouco Ceci. Paloma é literalmente múltipla e singelamente singular. Ao passar dos capítulos a repulsa vai se transformando, os afetos começam caudalosamente a surgir, assim, instala-se processualmente uma leveza ímpar imposta sob a tela. Alberto e Paloma vão construindo em bases sólidas uma amizade com ares de literatura, há parceria, discussões, embates, separações. É um reeditar de As Vantagens de Ser Invisível, uma versão nacional e, talvez, ainda mais bela. A protagonista passa a trabalhar para o milionário, que apaixonado por literatura, tem esta temática como passaporte inicial da maioria de suas conversas. Os diálogos com Paloma sempre perpassam por clássicos, dos poemas à prosa. Aos poucos o empresário vai despertado na cuidadora, e amiga, o gosto pelo hábito da leitura. Alberto indica sequencialmente obras, lê conjuntamente com ela. Tudo se constitui de modo natural, cabe ao texto da novela, cabe ao momento em cena. Nada fica desconexo, há um entrelace e um desenlace, quando preciso, porém, tudo guiado por um primor literário há muito ausente.

Nitidamente os autores assumem os livros, a literatura, como um real personagem. Ela é condutora da história, das suas nuances e transformações, mas também é a própria história. Bom Sucesso não existiria sem esse diálogo claro, sem essa interface tão benfazeja. A novela se costura passo a passo em seus 155 capítulos, brinca com a realidade dos personagens e os transporta para o interior das obras citadas. Por vezes a tela abre espaço para o livro encenado, os personagens da história insurgem nos livros. Em sonho, pensamento aprofundado, tudo era interpretado como uma possibilidade de cruzar enredos, o da telenovela e o das obras literárias. E o espectador? O espectador esteve durante seis meses extasiado. Mesmo havendo um foco direcionado para uma crescente literária nas vozes de Paloma e Alberto, outros personagens encarnam essa necessidade. Marcos (Rômulo Estrela) é constantemente levado aos livros, assim como Nana (Fabíola Nascimento). E especialmente Sofia (Valentina Vieira), neta do dono da Prado Monteiro. A interface literária emoldura boa parte das cenas, além de cruzar com a maioria dos personagens. Essa moldura é quase sempre responsável por definir o norte da trama, seja a formação de um ambiente de tensão ou a construção de uma ala de afeto e carinho. A trama acerta profundamente ao trazer de volta e de modo tão ligeiro, prático e bonito, uma temática subutilizada, primordialmente

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em tempos de contestação do livro, tempos de afirmações vagas e desprovidas de conhecimento ou de desejo de saber. A telenovela em destaque veio em um momento de necessidade para o assunto, necessidade de dizer que é normal, e necessário, que haja muita coisa escrita nos livros. Bom Sucesso põe enfoque sobre a batalha das editoras para sobreviver, independente de seus tamanhos. A trama é certeira ao introduzir e guiar seu enredo a partir de uma editora que luta para manterse no mercado, luta para seguir produzindo e distribuindo obras de relevância e ressonância. Acerta ao jogar luz sobre os jogos de interesse que produzem máculas duras no mercado, marcas que se aprofundam e, também, dificultam a sobrevivência. Em Bom Sucesso a história tem entre seus estartes o desejo de investidores de comprar o prédio da editora para usar a área para especulação. No cotidiano, deseja-se fechar os livros, desedificar a criticidade e em seguida especular narrativas. Neste traço, uma telenovela que enaltece a sagacidade literária é indispensável. Logicamente a trama não contou unicamente com pontos de sucesso, em seu processo houveram alguns erros objetivos de roteiro que precisam ser pautados. Mesmo realizando uma árdua e bela incursão pelo arcabouço literário, a trama não fugiu a alguns clichês, como as sucessivas enganações das quais Marcos (Rômulo Estrela) foi vítima, por vezes o mocinho foi passado para trás sem nenhuma dificuldade.

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Uma crescente na pegada violenta também fica entre as marcas densas da novela, excessivamente surgiram cenas de sequestro, assassinato, entre outras, esse fator chegou a afastar o público em determinado momento, no entanto, logo foi fisgado novamente. No entanto, uma das maiores falhas da novela reside no pouco adensamento nas questões sociais que marcavam a vida dos moradores da comunidade de Bom Sucesso. As tramas de parte dos personagens foram postas em segundo plano e trabalhadas de modo raso, impedindo, neste aspecto, uma maior incursão reflexiva. Certamente se houvesse havido essa percepção o espaço de enrolação da novela seria inteiramente dirimido. Entretanto, nenhuma falha é capaz de atenuar o sucesso, a necessidade e a relevância desse produto. Bom Sucesso mudou tacitamente a percepção do espectador sobre o mundo da literatura. Em 155 capítulos a trama recheou-se de mais de 50 obras literárias, elas foram lidas, relidas, interpretadas. Aos poucos foram encantando e despertado em quem assistia um certo gosto, uma vontade de ler. Foram muitos títulos, poemas e molduras literárias pesquisadas. Segundo o Google algumas narrativas menos conhecidas chegaram a observar um crescimento de buscas da ordem de 5000%, exemplo de A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne e A Morte da Porta Estandarte, de Aníbal Machado. Por sua vez, títulos como Dom Casmurro, de Machado de Assis, saltaram 125%.


Em um país em que 44% da população afirma não ler, assistir a uma novela que é levada pela literatura é, no mínimo, algo de excelência. Assim, durante seis meses o espectador do horário das 19h deparou-se com Machado de Assis, Eça de Queiroz, Jorge Amado, Clarice Lispector... Em seis meses o público embarcou em uma história que eram várias, foi Gabriela, Alice no pais das maravilhas, foi Emília brincando no sítio do pica-pau amarelo, foi o Dom Quixote de Cervantes. Em tempos de silêncio incômodo e de gritos de insensatez, é preciso que mais novelas se entreguem ao belo literário, e ao seu lado questionador. Bom Sucesso foi capaz de produzir um lastro plural, abraçou o espectador e lhe ofereceu descobertas. Há os que já liam e há outros que passaram a ler, que passaram a rememorar os livros abertos. Bom Sucesso demonstra a necessidade de um entretenimento

ciente do seu posicionamento e da capacidade de fala. A Novela não é um produto menor, jamais será, Bom Sucesso, entre tantas coisas, demonstra isso. Por fim, peço licença a escrita em terceira pessoa, pois aqui preciso colocar objetivamente a minha voz. Assisti Bom Sucesso como quem descobre um livro novo, como quem se encanta com um poema recitado pela primeira vez. Assisti a novela como se lesse um livro, como quem ama e desama o personagem. Assisti Bom Sucesso como quem seca as lágrimas nas páginas finais. Como quem lê um poema e chora. Bom Sucesso abre um lastro belo, mostra literatura e escancara encanto. Bom Sucesso fez-se livro, literatura, descoberta e, então, fez-se novela.

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Aum clássico Espuma dos Dias moderno surrealista pouco conhecido

Por Gabriela Gonçalves “Colin largou o pente e, armando-se do cortador de unha, aparou obliquamente os cantos das pálpebras foscas, conferindo mistério a seu olhar”. É com essa estranha descrição, ainda no começo da obra, que o leitor adentra no mundo fantástico de A Espuma dos Dias, do autor francês Boris Vian. Assim como no livro, o filme segue a mesma linha fantástica e surreal, e nos presenteia com uma belíssima poesia contemporânea sobre o amor. Na história, seis amigos bons-vivants – Colin, Chick, Chloé, Nicolas, Alise e Isis – “vivem, flertam, futricam, filosofam, fazem jogos de palavras e comparações surrealistas” em uma Paris viva e frenética. Quando seu melhor amigo Chick se apaixona por Alise, Colin sente a necessidade de se apaixonar também. É aí que ele encontra e se apaixona por Chloé. É esse romance que move o enredo a partir de então. Cada vez mais apaixonados, eles resolvem se casar. Na lua

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de mel, o pior acontece. Chloé está doente, uma doença rara. No seu pulmão cresce um nenúfar de quase um metro. O tratamento consiste em ser rodeada por flores para “assustar” o inimigo. A história, então, ganha um novo ritmo e todos os personagens acabam sendo afetados. No livro, o leitor depara-se com várias passagens e acontecimentos um pouco estranhos. Temos um pianoquetel que produz bebidas a partir das notas das músicas que estão sendo tocadas, enguia que se esconde dentro de tubulações e gosta de abacaxi, entre outros. Tudo isso confere o tom surreal da obra. Mas há muita coisa por trás desse toque surreal. O movimento surrealista nasceu por volta de 1924, como uma conversão do movimento anterior, o dadaísmo. André Breton, desiludido com os rumos do movimento dadaísta, resolve buscar uma nova forma para se expressar artisticamente. Surge, então, o Primeiro Manifesto do Surrealismo. Nele, Breton procurava unir a maneira de pensar do dadaísmo com os conceitos do inconsciente de Freud. Assim como vários outros movimentos de arte moderna, o surrealismo também surgia como uma afronta à sociedade. A intenção era que, ao se explorar o nosso inconsciente, os nossos segredos mais obscenos fossem revelados e, a partir daí, a realidade seria confrontada gerando desassossego. Em suma o objetivo de Breton era, através de palavras e imagens chocantes, expor a perversão das nossas próprias mentes.

Hoje em dia, o surrealismo é o movimento que mais vem perdurando na história da arte. Segundo o editor de artes da BBC, Will Gompertz, isso ocorre porque a palavra “surreal” virou um termo guarda-chuva para tudo que é estranho, misterioso e esquisito. Assim, escritores, diretores de cinema, entre outros, acabam sendo reconhecidos por utilizar de uma assinatura surrealista. Os diretores David Lynch e Tim Burton são grandes exemplos disso. Através de ângulos, falta de uma narrativa linear, simbolismos e a dificuldade de distinguir o que é real do sonho, os filmes surrealistas foram ganhando espaço no mundo da 7ª arte e inspirando muitas pessoas. O diretor espanhol Luis Buñuel é, talvez, o maior expoente do cinema surreal. Ele chegou a trabalhar com Salvador Dalí no desenvolvimento do filme O Cão Andaluz e A Idade de Ouro. Esses filmes fazem uso dos símbolos do inconsciente e diversas interpretações possíveis, não seguindo lógicas comerciais ou convencionais. Em 2013, o diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças – filme que também tem viés surrealista), resolveu adaptar para o cinema o livro do Boris Vian. O filme funciona brilhantemente ao transpor para a tela as ideias surreais do livro. Quem assiste ao filme sem ter lido o livro, pode encontrar uma proposta mais experimental e sem muito sentido. Para quem

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“O livro e o filme tendem a se complementar e a experiência completa permite vários dias de reflexões sobre a vida, o amor e a morte.” morte.” já leu, o filme é um reencontro com a história, dessa vez com imagens vivas e “reais”. Contando com as atuações de Audrey Tautou (Amélie Poulain), Romain Duris (Todo o Dinheiro do Mundo) e Omar Sy (Os Intocáveis), a película consegue ser uma bela adaptação do livro. A história começa no clímax da felicidade dos amigos e das suas vidas, Gondry, então, trabalha com uma câmera mais rápida e com cenários cheios de vida e cores para transmitir essa sensação de felicidade juvenil. As cenas na cozinha entre Colin e Nicolas são extremamente estranhas, bizarras, mas super divertidas de se ver. A utilização da animação em stop motion confere um tom lúdico e irreal. Um destaque especial para a montagem onde Colin e Chloé se conhecem e se apaixonam um pelo outro. Tudo na cena é simbólico ao modo que nós mesmos reagimos em situações parecidas. Falas confusas e sem sentido, o mundo ao redor em desfoque. A descrição desse momento funciona melhor no filme do que no livro.

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Na medida que a história avança e a doença de Chloé se intensifica, toda a mágica inicial cede lugar a um mundo triste e sem vida. As coisas começam a ficar desbotadas e os próprios ambientes sentem a interferência. A casa iluminada de Colin aos poucos é apresentada sem luz alguma e começa a diminuir em tamanho, tornando-se sufocante para o próprio dono. Tudo definha, até mesmo os personagens que se sentem velhos e cansados. No livro, quando descobrem a doença de Chloé, a narrativa começa a se tornar angustiante e sufocante. O autor consegue transmitir o desespero de Colin ao tentar de tudo para salvar sua esposa. No filme, é Romain Duris que se encarrega de mostrar esses sentimentos para o público. E ele faz isso de maneira esplêndida, a sua atuação realmente deixa o espectador com pena por toda desventura que vem sofrendo. Como deu para perceber, não é uma história feliz. Todos os elementos surreais utilizados no começo para criar uma atmosfera de sonho perfeito, agora se voltam contra eles mesmos e criam um pesadelo terrível. O ato final do filme é o que mais perturba e desconforta a quem assiste. A sucessão de tragédias é aflitiva e inquietante, você sente que precisa sair daquele lugar, que você precisa acordar. Se no filme essa parte já causa angústia, no livro é um dos momentos mais fortes da narrativa. No final, Gondry prefere mostrar o que acontece com o protagonista de maneira mais literal, enquanto Vian prefere


ser mais subliminar no seu texto e nos delicia com uma descrição perfeita sobre os sentimentos de Colin e sobre a morte. Boris Vian escreveu A Espuma dos Dias em 1946. Um ano depois da II Guerra Mundial. O mundo ainda estava abalado pelas mortes de tantas pessoas, principalmente dos jovens no conflito. Além disso, o capitalismo industrial se desenvolvia cada vez mais e modificava a relação humana com o trabalho. É por causa de todo esse background que o livro acaba tendo uma pegada mais crítica a respeito da sociedade sob o disfarce de um romance. Entendendo o contexto da época e os próprios objetivos do movimento surrealista, o texto de Vian é certeiro e pertinente. A adaptação de Michel Gondry talvez não consiga abarcar toda a potência das entrelinhas pensada pelo autor, mesmo assim, não deixa de ser um filme maravilhosamente belo de se assistir e que te tira da zona de conforto ao apresentar um romance nada convencional. Há várias interpretações e esse é o grande trunfo do cinema e da arte em geral, permitir o diálogo e o encontro de diferentes visões. A Espuma dos Dias é uma obra que não é muito comentada no meio literário e nem no meio cinematográfico, mas ela merece ser conhecida por todos. O livro e o filme tendem a se complementar e a experiência completa permite vários dias de reflexões sobre a vida, o amor e a morte.

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ENTREVISTA

do texto à imagem A imaginação de jorge furtado Por Paulo Junior, Paulo Rossi e Ricardo Salmito

T

alvez de pronto você diga que não o conhece, mas se forem citados títulos como ‘Meu tio matou um cara’, ‘Era uma vez dois verões’ ou o clássico ‘Ilha das Flores’, você irá notar-se conhecedor do trabalho deste cineasta. Jorge Furtado tem 61 anos e é um consagrado roteirista e diretor brasileiro, tem trabalhos importantes no cinema e na televisão. Recentemente, em tempos de pandemia, foi responsável por criar e auxiliar na execução da aclamada série ‘Amor e Sorte’, transmitida na Rede Globo. Jorge conversou com a Corte Seco Revista de Audiovisual em Julho, através das mídias de videoconferência, falou um pouco sobre sua carreira, obras, dos seus métodos criativos e de

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trabalho. Aborda densamente, também, a proximidade entre o audiovisual e a literatura.

corte seco Houve uma Vez Dois Verões foi seu primeiro longa. De lá pra cá, o que você tem percebido da sua própria produção? jorge furtado Houve uma Vez Dois Verões foi feito dezoito anos depois do meu primeiro programa de TV e dezesseis anos depois do meu primeiro curta, então, hoje eu vendo jovens recém-saídos da Faculdade dizendo “vou fazer o meu longa” penso “gente, que coragem”, eu tinha feito dez curtas e cinquenta programas de televisão antes desse meu primeiro longa, que é um longa careta no sentido narrativo tradicional, a história só vai pra frente, não tem um flashback, três atos marcados na régua. De lá pra cá, eu fiz acho que dez longas, não sei, fiz logo em seguida O Homem Que Copiava, fiz Saneamento Básico, O Mercado de Notícias, Quem é Primavera das Neves, Real Beleza, Rasga Coração, Meu tio matou um cara, e a ordem eu até sei, assim mais ou menos dos longas, de TV eu confundo, tenho feito muitas séries e eu nunca separei o meu trabalho em TV e cinema, sempre foi o meu trabalho, eu comecei com TV, depois cinema, e faço as duas coisas todo tempo. Tô fazendo séries agora, tô escrevendo, acabei de fazer com o Guel Arraes, o ano passado, início do ano adaptamos Grande Sertão Veredas para o cinema, o Guel devia estar

filmando se não fosse essa pandemia, o primeiro filme que vai sair depois, quando abrir, provavelmente vai ser esse. Eu tenho feito muita coisa.

corte seco O já clássico Ilha das Flores é uma referência para todo mundo, se tornou ao mesmo tempo uma peça pedagógica e inventiva enquanto narrativa… jorge furtado Meus filhos chegavam da escola e diziam “pai, vi de novo Ilha das Flores na escola”, na aula de biologia, de História. No Dia do Índio me ligaram, “nós vamos passar Ilha das Flores”, e eu, “gente, no Dia do Índio?”. Então, o Ilha de alguma maneira antecipou o Youtube, é o primeiro filme feito para o Youtube antes do Youtube. O Ilha passa no rádio, resiste, tem texto o tempo inteiro, tem muitas camadas ao mesmo tempo, ele antecipou um pouquinho aquela palavra azul que a gente clica e vai para um outro texto em 3D, o hipertexto, um pouquinho antes da internet. Por isso que ele funciona tão bem, ele é muito rápido e muito objetivo, básico, baratíssimo, qualquer um pode fazer em casa o filme, e hoje com o Google não precisava nem sair daqui para fazê-lo, podia fazer o Ilha sentado aqui nessa cadeira. Na época ainda tinha que ir pra rua. Mas enfim, e o assunto dele é um assunto muito forte que é a mais-valia no fim das contas, é o como é que tem gente que vive com a sobra da sobra da sobra, que governo é esse, que sistema político econômico é esse que alguém vive com uma

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pequeníssima parte da renda de outra pessoa? Enfim, esse assunto está em vigor totalmente ainda, a única coisa bem datada do Ilha é Goiânia, Césio 137, aquilo ali era um assunto que tinha acontecido há um ano, mas o resto qualquer criança do colégio faz. É um filme que funciona muito em sala de aula para falar de muitos assuntos, agora realmente, Dia do Índio eu não sei como é que fizeram.

corte seco Te assusta de certa forma que a gente ainda esteja trabalhando e pensando hoje as mesmas questões enquanto Brasil? jorge furtado Eu acho que o que me assusta não é isso, tem algumas questões que, por exemplo, poderíamos ter já resolvido. Ilha das Flores narra uma realidade muito terrível que continua em muitos lugares. Mas as histórias são meio eternas, cíclicas, clássicas, as grandes questões da humanidade são eternas. Shakespeare é atual, a arte não é substitutiva, ao contrário da tecnologia - ninguém usa mais fax -, a arte vai só acumulando novas camadas. Então, os filmes se falam de um assunto vital, real, vão ser meio que eternos, eu acho. Mas os assuntos específicos, me assusta mais que a gente tá andando para trás, o Brasil recuou muitíssimo, nós estamos vivendo hoje um momento assim que coisas que eu fiz nos anos 80, 90, hoje eu não poderia fazer de maneira nenhuma, porque seriam muito progressistas, entendeu? Então nós andamos muito para

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trás, e em muitos sentidos, o Brasil historicamente eu vejo que está em um momento parecido com o de 37, 38, 39, quando o Getúlio deu o auto golpe, virou uma ditadura. É bem aquele momento: racismo, intolerância, “nauê” na rua, foi o momento em que o Getúlio vacilou entre o fascismo e o dinheiro americano, e acabou optando pelo dinheiro americano. O Brasil está naquele momento: muito reacionário em vários sentidos, uma elite separada do povo, antagonismos absurdos, fake news. Então o momento realmente não é fácil, assim, a gente está no meio de um furacão e desentendendo durante, mas tem que pensar o que precisa ser representado agora, o que precisa ser feito agora, porque o Ilha foi no momento, O Dia em que Dorival Encarou a Guarda era o momento pré-diretas, o Barbosa era momento Sarney, momento totalmente “o Brasil deu errado, é isso aí mesmo”. Então cada filme tem um seu momento, e a gente tem que pensar o que é importante falar agora, o que que a gente precisa falar agora, nesse momento.

corte seco Quais são os cineastas que você tem visto ou procura ver e acha que são relevantes, interessantes ou que te influenciam? jorge furtado Pela idade e pela falta de tempo eu vejo muito clássico, revejo muita coisa. Tô sempre pesquisando muita coisa que está acontecendo, menos no cinema. Tenho visto muita série, trabalho com isso, filme tenho visto muita coisa


antiga, tem filmes que são meio como lareira pra mim. Alguns filmes como Poderoso Chefão, qualquer um do Billy Wilder, 12 homens e uma sentença vejo e revejo, sou muito fã do Billy Wilder, e ele diz que tudo o que aprendeu foi com o Lubitsch. Leio as entrevistas do Paris Review, tem entrevistas incríveis inclusive com o Billy Wilder. Eu sempre penso o que o Billy Wilder faria?

corte seco Conta um pouco sobre o seu processo criativo... jorge furtado O meu processo criativo é sentar às 07:30 da manhã e começar a trabalhar e terminar as 19h da noite, faço isso todos os dias. Quando não estou lendo, estou escrevendo. Leio bastante, escrevo coisas que servem, um texto social, às vezes uma anotação qualquer, e sempre estou em vários projetos, inclusive alguns estão em andamento. Quando

trabalho com outras pessoas eu sempre marco horário, hoje falei com 3 jovens roteiristas sobre a série deles. Trabalho o dia inteiro, felizmente o trabalho de diretor e roteirista tudo o que a gente faz é trabalho, ver série é trabalho, por exemplo.

corte seco Você fez Saneamento Básico, bem crítico em política cultural pensando em cinema... jorge furtado O filme foi inspirado em um programa chamado Revelando os Brasis, bastante interessante que produziu vídeos e filmes em cidades de até 30 mil habitantes. Eu estava em Santa Maria quando lançaram esse programa, e o pessoal de Santa Maria com “20 milhões” de habitantes, louco pra fazer cinema, pensou que precisávamos nos mudar pra cidade precária e pequena ao lado, porque os caras não querem fazer cinema, eles queriam fazer esgoto. E assim comecei a

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“No Dia do Índio me ligaram, ‘nós vamos passar Ilha das Flores’ Flores’, e eu, ‘gente, no Dia do Índio?’” Índio?’” notar a história do Saneamento, mas o filme é uma declaração ao cinema total, ele é assim: “precisamos de saneamento básico sim, e precisamos de cinema também”.

corte seco Em O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, um curta seu, o tema central é o racismo. Na sua perspectiva, as observações a partir do curta seguem completamente intactas, mesmo 30 anos depois? E se você fosse refilmar esse filme hoje, quais mudanças constituiria no roteiro? jorge furtado Dorival é um filme baseado em um livro, é o trecho de um romance, de uma história que segundo o Tabajara Ruas aconteceu de verdade, e eu sempre fiquei pensando “no dia que esse cara entrar no cinema e ver o filme vai ser a história dele”, mas era uma história real e fala de racismo, fala da função social da revolta. Isso era um assunto pra nós. É um negro que luta por seu direito, sofre, apanha, mas consegue. E não só consegue alcançar o que ele quer, mas transforma outro cara, que é o sargento, de alguma maneira. O filme desde a história original do Tabajara é sobre isso. De lá para cá eu fiz

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outro filme com protagonista negro, O homem que copiava, e muitas coisas na TV, a última delas foi Mister Brau, que é um projeto meu com a Thaís e o Lázaro, é uma comédia sobre racismo no horário nobre da Globo. Mas também fiz Cidade dos Homens, fiz várias séries que tiveram protagonistas negros, acho que isso é um assunto fundamental. O Brasil tem 52% de uma maioria negra e não se reconhece como um país negro, os EUA tem 13% e já se reconhecem negros, já tiveram negros presidentes, muitos governadores, senadores que são muito representados na sociedade, e o Brasil é muito mais racista que os Estados Unidos, não tem nem comparação, se bem que lá tem algumas coisas explicitas, terríveis, mas aqui também e a gente tem que falar sobre esse assunto, esse assunto é fundamental.

corte seco Como você avalia o cinema nacional nesse momento, os rumos criativos que está tomando? jorge furtado O cinema brasileiro enfrenta tuas pestes, a primeira peste Bolsonaro e a segunda Coronavírus, o cinema brasileiro vinha aumentando a produção, chegou a produzir 200 filmes no ano, muita diversidade, mas baixo público. Público médio, sessões de filmes blockbusters faziam 1 milhão, e os outros lá nos 10.000, 8.000, lá embaixo, muito embaixo. Alguns desses filmes, muitos deles, acabam alcançando o seu público na televisão, pois depois passam na tv, nas


plataformas. Por mais que os filmes não sejam vistos, mas havia o excesso de produção para a sala de cinema em relação ao público que estava frequentando as salas de cinema. Com a pandemia e com o governo que é contra a cultura (não é uma questão para mim quem será o secretário da cultura, esse é o governo da “in-cultura”, então, seja quem for, pouco importa), o cinema tem que ser repensado de qualquer maneira no Brasil, e também quando sair os filmes de que maneira faremos, tem que repensar tudo, é um momento de reconstrução de todo um país e da nossa Arte também. É claro que muita coisa já está sendo feita, tem que fazer uma dramaturgia da pandemia não só como assunto, mas como forma de realização também, e eu estou fazendo isso, e muita gente está fazendo isso. As formas de produção determinam a estética tanto quanto qualquer outra coisa. Temos pessoas trabalhando em casa cada uma com a sua câmera, temos um governo fascista, tem um maluco na presidência dos Estados Unidos, isso é o que temos. O que a gente pode fazer? Um vídeo, um clipe, um meme, um gif, é o que temos.

nesse embate geracional nacional que vinha ocorrendo de maneira mais exacerbada em 2013/14, e agora vem ganhando nuances cada vez mais potentes?

jorge furtado Sim, totalmente, Rasga Coração é uma peça que foi escrita em 1974, eu a vi em 1978 em São Paulo, fiquei pasmo com a peça que retratava já no final o começo da reabertura política, e ele já retratava a crise da esquerda, dessa nova conspiração. Ele um comunista desde a adolescência, filho de pais comunistas, faz uma crítica a esquerda naquele momento. Quando vi essa peça fiquei chocado naquele momento, e 20 anos depois eu e o Guel pensamos “vamos adaptar”, a gente

corte seco Uma das suas produções mais recentes é Rasga Coração, que trabalha muitas das acepções políticas que apresentam um denso embate geracional, embate observado no cotidiano da política brasileira. Rasga Coração se enquadra

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adaptou várias peças para a tv e eu reli Rasga Coração, que é uma peça maravilhosa, mas na época você tinha um governo de esquerda com aprovação nas alturas, não vi sentido em adaptar. Em 2013 quando eu vi a galera indo pra rua com pautas inteiramente novas, um governo no poder de esquerda, democraticamente eleito, com uma mulher, e a juventude na rua protestando com muitas causas justas contra o governo, eu pensei “cadê o Rasga Coração?” e não precisamos adaptar quase nada, nós voltamos ao ponto que exatamente estávamos, a esquerda não tem a velha questão de luta de classes, a maisvalia que é fundamental, não tem todas as respostas mais. Não podemos esperar que a respostas do sec. XXI sejam dadas por um cara que morreu no sec. XIX, e essas pautas novas estavam em 2013, que é andar de saia, que é andar de unha pintada, que é usar batom como na peça – ele queria ir de cabelo cumprido pra escola, essa foi a adaptação que a gente fez. Na peça do Viana não diz que os personagens do Camargo velho e do Camargo jovem são brancos, mas também não diz que eles são pretos, não diz nada, mas no nosso filme eles são pretos, pois na ocupação das escolas em 2013, que eu visitei algumas, o papel dos negros, das mulheres e dos gays, foi “comandar”, algo que foi imediatamente depois instrumentalizado pela direita que tomou as ruas e enfim, as pessoas já tinham perdido a vergonha de dizer que eram de direita e “bandido

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bom é bandido morto”, e campanhas onde o governador do Rio de Janeiro diz na campanha que vai colocar torres com snipers atirando na cabeça acontecem (essa expressão que ele usou em campanha, o candidato que louvou torturadores na tribuna, disse aos pais que procuravam os desaparecidos no Araguaia que quem desenterra osso é cachorro). Então, se esse cara foi eleito ele significa uma parcela significativa do Brasil que foi muito mal informado ou tem tendências fascistas, ou o que é pior, ambas as coisas.

corte seco Existe um marcador no Brasil ligado a dificuldade na continuidade de séries, são poucos exemplos que fogem à regra. Não temos muitos casos como A Grande Família ou Mister Brau. Por que, na sua perspectiva, existe essa dificuldade para continuidade e consumo de outros modos narrativos? jorge furtado É uma questão, eu acho, econômica, basicamente uma questão econômica. Porque, assim, posso falar de cada um dos casos, fiz muita série assim, porque continua e porque não continua. O Mister Brau teve três temporadas, foi muito bem de audiência nas três temporadas, mas tu tens um elenco estelar ali que dá tanta audiência, ou mais e por mais tempo, numa novela. Então, ele durou três temporadas, que foi ótimo, talvez o assunto acho que não, mas a estrutura dos personagens a gente já tinha explorado

bastante, já tinham filhos, já tinha crescido a família. Talvez três temporadas tenha sido o tamanho justo. Doce de Mãe, que foi uma série que deu o Emmy pra Fernanda e ganhou o Emmy também, ela só teve uma temporada, acho que porque ela não é uma série de apelo popular tão grande, o horário dela, acho que ela não foi exibida em um horário muito adequado. E ela tem um elenco estelar total, não consigo nunca mais juntar aquelas pessoas, Fernanda Montenegro, Marco Ricca, Drica Moraes, Mateus Nachtergaele, Daniel Oliveira, Mariana Lima e Louise Cardoso, é muita gente, são vários atores muito grandes. Então, eles economicamente rendem mais em vários outros projetos. A Grande Família é um caso de 15 ou 16 temporadas, Os Normais também teve 6, algumas tiveram 3, 4, o Comédia da vida privada teve duas temporadas. Mas é sempre uma questão de custo benefício, quanto dá de audiência, quanto custa por episódio, que elenco está pretendendo. Vocês vão perceber, se vocês gostarem de série, que existe uma síndrome da terceira temporada. Porque é o seguinte, os atores quando assinam contrato, eles assinam pelas duas primeiras temporadas. Assinam pela primeira e com acréscimo razoável se tiver uma segunda, a terceira não, não está negociada nesse momento. Então, se a série é um sucesso incrível, na primeira e na segunda temporada, os atores podem dizer “eu quero x mais”, aí eles morrem, ou não. Ou eles ganham cachê ou eles morrem.

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Porque o audiovisual na TV, séries, ele é uma indústria real, competitiva, relação de quanto comprou, quanto pagou; muito

mais que o cinema que é uma coisa um pouco mais artística, no ponto bom e no mal sentido.

eu trabalho em contato com eles. Então, eu busco escrever da forma mais precisa possível, quando eu estou escrevendo pra eu mesmo dirigir, acho que não, a essa altura eu já misturei as duas coisas, às vezes eu deixava meio anotadas as coisas, eu mesmo vou entender isso. Mas como eu tenho que mandar pra produção, acabo fazendo pra mim do mesmo jeito. Tento escrever o roteiro da forma mais... que deixe o diretor, equipe da maneira mais livre possível, e induzindo algumas coisas que o roteiro pode, e deve fazer. O roteiro tem só uma única regra, sempre: tudo que tu escreves nele tem que ser visível ou audível. É só essa a regra de roteiro. Tudo que tu escreves no roteiro, e não há nenhuma exceção a essa regra, tem que ser visível ou audível. Tu não podes escrever “acordei e lembrei da minha infância”. A não ser que o cara esteja falando sozinho. Na rubrica não pode. Tu não podes escrever “vemos o cachorro”. Porque tudo vemos, então vemos não pode escrever. Então é isso, escrever de um jeito visual e auditivo. O jeito que o diretor e o ator vão ler e criar a imagem do jeito deles, imaginar. Mas tu escreves induzindo, tentando criar imagens por escrito.

corte seco Como você também é roteirista, roteirizou

corte seco Geralmente coincide o que tu pensas, ou os

diversos filmes. Como é essa tua relação, quando você escreve e outra pessoa dirige? jorge furtado Já escrevi muito para outros diretores, faço isso frequentemente. Quando escrevo para outros diretores

diretores levam para outros lugares? jorge furtado Normalmente coincide, eu trabalho muito com os mesmos diretores, gente que eu conheço, falo e vou acompanhando. Às vezes eu me surpreendo positivamente, as

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vezes negativamente, de dizer que “ah, eu tinha pensado de outro jeito, ou não imaginei aquilo assim”. Normalmente os diretores com quem eu trabalho acho que melhoram muita coisa. Eu já sei que eles vão melhorar. Então já escrevo mais ou menos isso e sei que eles vão melhorar. Guel, Monique, Fernando Meirelles, Carolina, Mauro Mendonça, Maurício Farias e um monte de gente pra quem eu já escrevi, a Patrícia Petrosa e a Flávia Lacerda que dirigiam Brau, o Andrucha que dirige o Sob Pressão. Quando eu vi a primeira temporada do Sob Pressão, que eu escrevi e criei junto a série, quando eu vi a realização eu fiquei pasmo, é incrivelmente bem feito. Primeira vez que eu vi o Fernando Meirelles dirigir um negócio que eu escrevi eu tomei um susto, o cara dirige bem pra burro, olha o que ele fez, era uma ceninha. E atores, também, que muitas vezes te surpreendem, a própria Dona Picucha, a Fernanda Montenegro, de Doce de Mãe, a gente escreveu a série pra ela, totalmente pra ela todo tempo, mas ela fazia uns negócios e a gente ficava “é muito mais legal do que o que a gente escreveu”.

corte seco Sobre adaptação, você sente alguma diferença em como se dão os processos de adaptação de livros e peças teatrais? jorge furtado Pensando aqui agora em que peças eu já adaptei. Adaptei agora o Rasga Coração, que foi minha primeira adaptação de um longa no cinema, pra cinema eu nunca tinha

feito, pra TV muitas. Adaptei Mambembe, junto com Guel e com Pedro Cardoso lá no começo, era uma peça também, adaptei algumas coisas de teatro, mas muito mais de literatura, entre textos de contos e literatura, Veríssimo muito, Millor, Domingos Oliveira. Muita coisa de teatro com a Janina Fisher. O teatro tem as falas, essa é a grande diferença, o teatro já está pensado para ser dito, então ele já vem com falas, muitas são utilizadas, algumas não, porque são teatrais demais, são feitas para o teatro. O próprio Rasga Coração tem momentos, o original, que são impossíveis no cinema, incabíveis na televisão, aceitáveis no teatro até alguns momentos e outros maravilhosos. É uma maravilha a peça. Mas nem todos os diálogos que cabem lá cabem cá. Agora se tu vai adaptar Grande Sertão Veredas, por exemplo, que nós fizemos ano passado, aí tu diz assim “só um pouquinho, eu tenho uma prosa poética aqui que é a viga de aço dessa história, e isso aqui eu não posso mexer, isso aqui é o que tem que ter, essa fala Riobaldo, essa

“Quando escrevo para outros diretores eu trabalho em contato com eles. Então, eu busco escrever da forma mais precisa possível.” possível.” CORTE SECO 41


tem que ter”. O que a gente pode mexer no mais? Tudo, posso mexer em tudo, com o menor desrespeito possível, porque é uma obra que tu admiras muito. Grande Sertão é o maior livro já escrito, maior romance da língua portuguesa. Um grande amigo me disse que essas empreitadas são do tipo que ou se volta coberto de glórias ou é melhor nem voltar. Mas foi uma tarefa que a gente enfrentou, eu e Guel, durante um ano e meio de trabalho diário. Veremos o resultado disso. Cada livro depende, Agosto, do Rubem Fonseca, é um livro muito cinematográfico, muito, já tinha coisas muito prontas. O Rubem escrevia muita imagem, muito cinema, foi roteirista. Já o Memorial de Maria Moura, da Rachel de Queiroz, a gente inventou, eu, (Carlos) Gerbase, Glênio Póvoas, Renato Campão, inventamos praticamente tudo daquele livro ali, quem leu o livro e viu a série vai levar um susto, porque a gente começa igual e depois muda totalmente a história. Porque o livro não tem história nenhuma, ele tem três capítulos iniciais com alguma ação e depois ele tem vinte capítulos de descrição de ambiente, cenário, sem história praticamente nenhuma. Então, como a Globo tinha comprado pra minissérie, e desconfio que o Manga comprou sem ler o livro, ele pediu pra gente inventar, e a gente inventou muito. O Verissimo, os contos do Verissimo, o A Comédia da Vida Privada, a gente juntava e aquilo ali era uma maravilha, pescar num aquário. Você pega os diálogos do

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Verissimo, é um dos melhores dialogistas que existe. Então tem muita coisa boa pra contar. O Nelson Rodrigues também tem diálogos muito bons. Millor, dialogista especular, eu adaptei o Vidigal dele.

corte seco Tanto você quanto Guel possuem uma grande capacidade para dirigir os atores... jorge furtado Eu acho que um dos maiores talentos que um diretor de cinema tem que ter é o de reconhecer o talento alheio, essa é uma função do cineasta. Você tem que ver o câmera e dizer, esse cara é bom, esse traveling, esse produtor e esses atores. Então, no meu caso, é convidar os atores, é achar que “esse ator é perfeito pra fazer isso, ele é bom pra fazer isso”. Eu não sei chegar para o cara e dizer agora “tu faz, faz aquilo”. Eu não tenho essa técnica. Eu faço roteiro e penso quem poderia fazer esses dois velhos italianos brigando o tempo inteiro, “Paulo José e Tônico Pereira, óbvio”. Tu bota os dois pra brigar e liga a câmera. Então é chamar o ator, é convidar o ator certo. Claro que às vezes tu tens que apostar; o Lázaro quando eu o chamei pra fazer O Homem que Copiava, eu vi ele em um teste, ele não tinha feito nada, tinha feito Madame Satã, mas não tinham montado o filme ainda. Eu o vi em um teste e disse, “esse cara é um baita ator, é perfeito pra fazer o André”. E aí tem umas coisas assim também, que não é só de conhecer o trabalho, é de reconhecer o cara. Porque, assim, eu sei que tem


diretor que faz isso, que tira do ator que não sabe fazer, eu não acho que eu sou assim não. O Fernando Meirelles fez Cidade de Deus, que é um espanto, porque tem assim 200 personagens ali e o único ator profissional é o Mateus Nachtergaele, acho que é o único que se encaixaria ali sem gritar, e todo mundo tá bem no filme, é um bando de ator bom, surgiram vários, todos fizeram muito bem e nenhum deles era ator. É um talento incrível de criação daquele grupo que já tinha o Nós do Morro, tinha o trabalho da Kátia Lund ali, tinha várias coisas, então é um talento incrível. O que não é o meu caso, eu chamo o (Marco) Nanini.

corte seco Existe sempre uma cisão, um embate entre as duas obras, o produto original e a sua adaptação. Um embate que geralmente está externo às duas produções. Como você interpreta a adaptação, como uma extensão da obra literária ou como uma nova obra? jorge furtado Eu percebo como uma outra obra, é outra obra. Os filmes do Domingos de Oliveira são os filmes do Domingos de Oliveira, basta vê-los, eles estão aí, e as peças dele estão escritas, publicadas. A nossa série, Todas as Mulheres do Mundo, é outra obra, ela mistura aquilo, pedaços daquilo misturados com outra coisa. A série Agosto é diferente do livro Agosto, são coisas diferentes. Acho que nós que somos leitores, que gostamos muito de livro, a gente tende a se decepcionar com a

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adaptação dos livros que a gente gosta e conhece e se entende. “Ah, o meu livro é muito mais legal”, claro, tu imaginaste tudo do jeito que tu querias, da forma que tu querias; no filme alguém imaginou por ti. Mas eu acho que há boas adaptações literárias para o cinema e para o audiovisual, acho que é possível adaptar se tu reconsiderar que é outra coisa, não é exatamente a mesma coisa. Nós fizemos O Alienista, eu e o Guel, pra série Brava Gente. O Alienista é um dos meus contos preferidos do maior escritor da língua portuguesa, que é o Machado de Assis. E como é que tu vais adaptar isso pra TV em 25 minutos e com três intervalos no meio? Bom, tu vai no miolo da coisa, o que tem ali que dá pra contar em meia hora, dá pra contar que o cara ... que a loucura é uma coisa relativa, digamos assim. O cara é doido, são doidos, depois ele troca, são vários personagens. Então, tu sintetizas o que é melhor naquela comédia, que é uma comédia hilária, e manda em vinte minutos. Se a pessoa sair dali pra ler o conto, ótimo, tomara, isso que eu torço que aconteça. Como aconteceu, por exemplo, com Memorial de Maria Moura, ele virou um best seller.

corte seco Como você vê os autores brasileiros neste quesito de adaptação, eles são receosos...? jorge furtado Os roteiristas dizem uma frase terrível que é a seguinte: “ autor bom é autor morto, de preferência há mais de 60 anos, porque eles não precisam ver nada”. Mas enfim, esse é

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um problema que os autores tem que resolver, ou eles podem não vender, dizer “não, eu não quero que adapte”, o Gabriel García Márquez nunca vendeu Cem anos de solidão, que agora vai ser feito, mas enquanto ele estava vivo tentaram filmar mil vezes. Diziam “eu quero filmar Cem anos de solidão” e ele disse “qual parte?” Até porque realmente fazer um filme com aquilo ali não é fácil, uma série talvez funcione muito bem. Isso é uma coisa que a gente não falou sobre as séries, e do cinema também, que as séries podem ser muito mais profundas que o cinema, porque elas são muito maiores. Tu tens de convivência com a família Soprano 50 horas, nem um filme do Bergman, por mais incrível que seja, te dá mais de uma hora e meia de convivência com ninguém. Então, as sérias têm essa potência que é o tamanho. Mas voltando à questão de adaptação, por exemplo, tenho um conto que eu escrevi que é o Frontal com Fanta, ele foi filmado pela Carolina Jabor no filme que se chama Boa sorte, uma adaptação com um roteiro que eu mesmo fiz com o Pedro, meu filho, fizemos juntos e eu gosto muito da direção da Carol, sem dúvida. Assim, acho que ela filmou muito melhor do que eu filmaria. É o contrário, eu fico assim “poxa, que incrível que ela conseguiu fazer isso com aquele conto”. Eu mesmo já adaptei coisas que eu tinha escrito, eu tive todo tipo de experiência nessa coisa de adaptação, ser adaptado, trabalhar com o autor do lado, sem o autor do lado, com o autor


vivo, com o autor morto. Enfim, cada um é diferente, cada uma é uma e os autores tem que saber, tem autor que não quer, não aceita nenhuma mudança. Já aconteceu de a gente procurar contos, assim, a viúva dizer “mas não pode mexer em nenhuma palavra que ele escreveu”. Então devolve e abraços, não tem a menor chance de fazer isso. Então depende, cada caso é um caso. O Hitchcock dizia que livro ruim é que dá filme bom, ele só filmava livro ruim, mas não é verdade, Moby Dick é um grande livro e um grande filme, Macbeth virou pelo menos dois grandes filmes, Hamlet. Tem adaptações como O Nome da Rosa que eu gosto, adaptação muito difícil, mas eu acho boa, não sei se tem um novo agora. Mas enfim, eu gosto.

corte seco Você falou, a partir de uma citação do Hitchcock, que livro ruim é que pode gerar um bom filme. Os livros do também gaúcho João Gilberto Noll sempre fornecem uma visualidade muito grande. Isso é um problema para adaptação? jorge furtado Eu acho que depende do ritmo e da importância, porque se tu pegar o João Gilberto Noll, ele escreve, assim, tem observações digamos que proustianas, de detalhar, prestar muita atenção em alguma coisa e observar muito claramente alguma coisa, longamente alguma coisa e isso às vezes isso não funciona tanto no cinema como uma coisa visual. Os filme policiais americanos que são totalmente

“Eu acho que um dos maiores talentos que um diretor de cinema tem que ter é o de reconhecer o talento alheio, essa é uma função do cineasta.” cineasta.” visuais e totalmente cinematográficos, não têm muita reflexão, ninguém pensa muito, sente muito, lembra muito; todo mundo dá porrada e fala e atira e corre e pula e beija, e é isso aí as tramas de aventuras visuais. Então, elas são cinematográficas. Machado de Assis às vezes é melhor deixar em paz, porque o essencial não é visível: escreve a relação Bentinho e Capitu descendo a escada, “as pernas são pessoas”, pensam por si mesmas, aí como é que vai filmar isso? Isso daí é literatura da melhor qualidade, mas é literatura, não tem como filmar as pernas que também são pessoas, vai fazer o quê? Uma animação e as pernas viram gente? Então, alguns livros não dão necessariamente bons filmes, mas outros dão.

corte seco Há uma interpretação de que para realizar esse processo de adaptação para o cinema e para produções televisivas, devido a variação de público, existem

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especificidades no processo de adaptação para cada uma dessas plataformas. Queria que você falasse um pouco dessas especificidades. Se elas existem e quais são... jorge furtado Tu tem que pensar assim: “ se eu tô fazendo uma coisa pra tv aberta, pra passar ali na Globo, lá na novela com 40 milhões, 30 milhões de pessoas, esse é o tipo de linguagem que eu posso usar que enfim... se eu estou falando de uma coisa pra passar no Globoplay, para assinantes, maiores de idade, que pagaram e tão clicando, é outro tipo de linguagem”. Eu concordo que a TV aberta tenha regras específicas a respeito de várias coisas, inclusive na classificação etária, algumas coisas não são pra passar de tarde, é pra passar de noite. E no caso do cabo não, aí tu vês o que tu assistes, quem quiser assiste, quem não quiser que não assiste, com limites. Tu tem que pensar também em que lugar, porque muita gente fala que o cinema brasileiro tem muito palavrão, por exemplo, não sei se vocês já viram uma série que eu gosto muito que se chama Fleabag, uma série de uma americana Experimentem ver Fleabag dublado em português, é um negócio engraçado pela quantidade de palavrões, escatologia que tem, é um negócio chocante, realmente chocante, é que quando a gente vê o cinema americano o cara diz fuck you, e a gente coloca “dane-se”; gente, traduz, dubla, pra ver como fica. Aquela quantidade de palavrões, de escatologias,

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de coisas absurdas que a gente vê nas séries americanas, se for pensar Sex and the City tem duas mulheres transando e ejaculando uma no rosto da outra, isso em close, vai fazer isso na TV brasileira, impossível. Então, são linguagens muito diferentes, depende do canal. A comédia americana às vezes tem escatologias inaceitáveis, Quem vai ficar com Mary? é um filme americano pop, com censura eu acho de 12 anos, 14 anos, sei lá, que tem cenas de escatologias que são inaceitáveis no cabo brasileiro, mas lá eles aceitam, e aqui por outro lado a gente aceita outras coisas. Cada cultura tem um pouco da sua especificidade.

corte seco O que ultrapassa a adaptação, nessa relação audiovisual e literatura, o que está além da adaptação? jorge furtado Quando tu escreves, vamos pegar o início de Metamorfose do Kafka: “uma certa manhã uma noite de sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se transformado em um inseto gigantesco….” Essa primeira frase é um começo, opa, isso é que é começo. Onde e como é esse quarto? Em que cama que ele está? Ele está coberto...que tipo de inseto? O chão é de madeira? Tem tapete? Tem linóleo? Tem janela aberta? Tem sol entrando pela janela? A porta tá trancada? Tem mesa? Tem cadeira? Nada disso interessa para o romance, não precisa disso. Mas eu diretor vou responder todas essas perguntas no primeiro dia, no primeiro take. Então, eu imagino horrores de


coisas pelo leitor, pelo espectador. Eu disse essa frase lá na jornada de Passo Fundo, e até hoje os professores citam, que é: “Leitura cria imaginação, cinema cria imagem.” O cinema cria imagem, a leitura cria imaginação; quando tu lês, tu imaginas, fica imaginando, cria imagem na tua cabeça, fica imaginando coisas, e eu que sou cineasta, eu imagino por vocês, eu crio imagem por vocês. Então, é muito diferente, o quê que está além da adaptação são coisas que o Kafka não botou nessa cena, mas eu vou botar, eu vou botar o linóleo, vou botar a cortina, vou botar coisas, talvez eu erre, talvez ele detestasse o linóleo que eu botei ali, talvez ele achasse incrível “olha que incrível esse linóleo, nunca pensei nisso”... Então, ele tem uma imaginação e eu outra. Isso está além, eu estou inventando coisas que o livro não tem, o livro não diz isso, mas poderia ter dito, poderia ter acontecido. Outro começo

incrível é Cem Anos de Solidão: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Buendía recordaria a tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o genro.” Essa é a primeira frase de Cem Anos de Solidão, ela é pura literatura, ela é infilmável: Muitos anos depois de quê? Que pelotão de fuzilamento? Mas que tarde remota? Conhecer o genro aonde? Não tem nada, é totalmente vago, ela é pura literatura. Se eu for filmar isso, gente, eu vou ter que fazer essa cena como é que é, claro que depois lá na frente ele descreve esse momento, quando ele foi conhecer o genro, mas o filme, o livro começa no meio da ação, já começa no meio da pancadaria literária; o filme não, ele quer apresentar os personagens de outra maneira. Então, têm muita coisa que o cinema faz além da literatura...a música, o movimento, as árvores, o chão, o figurino, tudo aquilo que não estava, quem era esse pelotão

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“Cinema e Literatura sempre andaram um do lado do outro, eu vi um argentino uma vez que disse que a tarefa da literatura hoje é criar livros infilmáveis, e a nossa tarefa enquanto cineastas é filmá-los” filmá-los” de fuzilamento? Como é que eles estão? Tudo isso eu vou inventar, o cinema vai muito além da literatura em muitas áreas, mas, ele é, e isso é o curioso, muito poderoso porque junta música, teatro, cinema, literatura, dança tudo em uma coisa só. Mas a literatura tem o poder que o cinema não têm, que a palavra tem, que é de afirmar negativos, só a palavra pode afirmar uma negação, a imagem não pode dizer “eu não sou”.

corte seco Jorge, você tendo essa vertente de escritor também, pra ti esse diálogo do cinema levar à literatura e a literatura levar ao cinema de maneira densa, prazerosa, visível... o que fazer para tentar amplificar essa troca? E você faz parte da Casa de Cinema de Porto Alegre que estreia muito em breve Aos Olhos de Ernesto, onde você atua como roteirista. O que será de Aos Olhos de Ernesto?

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jorge furtado Aos Olhos de Ernesto é um filme dirigido pela Ana Luíza Azevedo, que é minha parceira e sócia há muito tempo; a gente fez Barbosa, Quem é Primavera das Neves, Doce de Mãe, e é uma história que ela quer filmar há muito tempo e que me chamou para fazer o roteiro o ano passado só; que é a história de um cara do Uruguai que vai ficando cego, e o filho quer que ele more junto com ele, mas ele não quer, quer a liberdade dele e recebe cartas de uma correspondente do Uruguai, só que não consegue mais ler essas cartas, então precisa de alguém que leia essas cartas pra ele, e aí acaba se envolvendo e contratando uma menina que é uma guardadora de cães que aparece. E a história do filme é basicamente a relação desse cara que está velho, ficando cego, não desistiu de amar ainda e adora poesia e literatura e essa menina que nunca conheceu o amor e não desistiu ainda de encontrá-lo um dia e se interessa por essas histórias e pela história desse cara. E essa relação dos dois faz um time super bonito, e os dois atores, o Jorge Bolani, que faz o Ernesto, e a Gabriela Poester, que faz a Bia, estão muito bem no filme, tem momentos de poesia muito legais, tem momentos de slam, que ele vai pra rua pra fazer um slam, e ela leva ele, tem um movimento de slam muito bom aqui em Porto Alegre. Então, é um filme muito bonito eu acho, que fala sobre a necessidade da poesia enquanto a gente está vivo, acho que é um filme que pode encontrar o seu público,


as reações agora na pré-estreia foram boas, ele ganhou o prêmio da crítica do Festival de São Paulo e está sendo lançado curiosamente no Japão.

corte seco Como tu avalia essa troca de culturas? jorge furtado Assim, isso sempre existiu. Cinema e Literatura sempre andaram um do lado do outro, eu vi um argentino uma vez que disse que a tarefa da literatura hoje é criar livros infilmáveis, e a nossa tarefa enquanto cineastas é filmá-los, dar um jeito de filmar. Então, essa disputa sempre existiu, essa parceria e disputa sempre existiu e vai continuar, os escritores inventam grandes estórias, os cineastas precisam de boas estórias, e as vezes elas podem ser filmadas e as vezes não, às vezes elas são melhores como livros.


Ensaio

Benjamin Button e o Curioso Caso do Tempo Por Wesley Guilherme “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e, gradualmente, chegar aos 18.” (Mark Twain) Optei por começar com uma frase de Mark Twain. Que inspirou Fitzgerald a escrever, em 1922, um conto chamado O Curioso Caso de Benjamin Button. Button. Que, por sua vez, inspirou sua adaptação em um filme de mesmo nome, 86 anos depois. E, por fim, inspirou este ensaio. “Nascido sob circunstâncias incomuns”, a partir de inspirações inspiradas em outras inspirações, a reflexão aqui proposta surgiu, faça bom uso. Mas vamos por partes, de início, é importante dar nome aos bois. O Curioso Caso de Benjamin Button é um conto escrito por F. Scott Fitzgerald, publicado em 1922, adaptado às telonas em


2008, sob a direção de David Fincher (Clube da Luta – 1999) e roteiro de Eric Roth (Forrest Gump – 1994) e Robin Swicord (Little Women – 1994). 1994). O longa ainda conta com um elenco de peso, além do casal protagonista, composto por Brad Pitt (Clube da Luta – 1999; Era Uma Vez em... Hollywood – 2019) e Cate Blanchett (Blue Jasmine – 2013; Carol – 2015), 2015), também se fazem presentes nomes como Taraji P. Henson (Estrelas Além do Tempo – 2016), 2016), Tilda Swinton (Orlando, a mulher imortal – 1992; Suspiria – 2018) e Mahershala Ali (Moonlight – 2016). 2016). Com relação aos prêmios, obteve 46 indicações em diversas premiações, conquistando metade delas. Só no Oscar Oscar,, foi indicado em 13 categorias, sendo considerado o favorito da edição de 2009, disputando a estatueta em duas das três maiores categorias, com Pitt indicado como Melhor Ator e a disputa pela de Melhor Filme.. Direção, Fotografia, Atriz Coadjuvante (com Henson indicada), Filme Adaptação de Roteiro, Trilha Sonora, Edição, Mixagem de Som, Figurino foram outras categorias das quais o filme disputou. Além dessas citadas, disputou a estatueta pela Direção de Arte, Maquiagem e Efeitos Especiais, Especiais, das quais saiu vencedor. A trama, no livro e na adaptação, parte do mesmo ponto: conta a história de um homem, chamado Benjamin Button, que nasceu fazendo o caminho contrário, ou seja, veio ao mundo velho, passou a vida rejuvenescendo, e morreu como um bebê. No grosso, e de

“O tempo é um grande escultor, e a marca do artesanato é a subjetividade, e de formas diferentes, vamos sendo moldados por eles.” eles.” forma direta, eis a trama extremamente resumida em seu ponto principal. O ensaio terminaria aqui, caso eu pretendesse, além de fugir totalmente da estrutura, explicar para alguém apressado e impaciente, como não é o caso, não é dessa vez que terei de me ater aos reducionismos, e que esse momento nunca chegue. Para explicar as semelhanças entre obra inspiradora e inspiração concretizada, vou me debruçar sobre as diferenças, a primeira delas se trata de algo peculiar: o curioso caso da adaptação mais detalhada que a obra original. Enquanto o livro não chega às 100 páginas, o filme se aproxima das três horas de duração. Como disse no parágrafo anterior, é daquela base que ambos partem, mas as semelhanças mais explícitas ali acabam. Os caminhos trilhados são completamente diferentes, o que não é um ponto negativo, longe disso, são duas obras intrigantes, semelhantes e diferentes em suas subjetividades. A obra de Fitzgerald é um conto, e como o próprio nome diz, e aqui peço perdão pela obviedade, conta uma história. Contudo,

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mesmo a fazendo com primazia, não há espaço para desenvolver os personagens. Restringindo-se aos acontecimentos, detalhando alguns timidamente e pondo os leitores para pensar possíveis desdobramentos. Às vezes se utilizando de artifícios fantasiosos que o gênero permite, como o fato de Benjamin ter nascido adulto (em tamanho), fruto de um parto normal (Sra. Button passa bem). Outro ponto interessante é que ele não nasce velho apenas por fora, e vai adquirindo maturidade com o tempo, pelo contrário, ele já nasce com a maturidade e hábitos de um idoso e vai desaprendendo a viver com o tempo. A história do livro abre espaço para interpretações diversas, vejo muito como uma narrativa que divide a vida de Benjamin em três momentos, rejeição – aceitação – rejeição novamente. Começa sendo rejeitado pela família, que inventa parentescos diversos e histórias mirabolantes para esconder a verdade absurda. Depois, passa a coincidir a idade cronológica com o aspecto físico, e é um longo período de felicidade, ascenção social, realização amorosa e tudo mais. O livro se encerra em rejeição novamente, quando o aspecto biológico de um jovem não coincide com a idade de velho, não consegue se manter no meio social e acaba renegado pela família. Agora, depois de uma breve resenha da obra literária, onde a arte das palavras moldou uma história fértil, que floresce em solos

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criativos e se abre para novas ideias e encaminhamentos, vamos tratar do tema deste ensaio: o tempo, e de que forma ele transita pela narrativa audiovisual. Antes de tudo, acho pertinente falar um pouco sobre o filme, afinal, não posso só dizer que possuem diferenças sem mostrá-las, acabaria me descredibilizando se resolvesse afirmar determinadas coisas sem me preocupar em prová-las. Então, a análise sobre o tempo vai se construindo em paralelo à narrativa do filme ou viceversa, caso queiram assistí-lo depois, podem perceber o que aqui elenco, mesmo que seja para discordar de mim. O filme tem uma marca extremamente positiva, por ser uma adaptação de um conto, conserva um elemento primordial dos textos desse gênero: contar histórias. E no decorrer do longa, várias histórias são contadas e o entrelaçamento dessas histórias, a linha que as costura acaba por ser peçachave para a construção da narrativa principal: a história de Benjamin. O que o livro não conseguiu fazer em desenvolver os personagens, o filme conseguiu. Outro ponto é a estrutura da narrativa, especialmente quem narra e como é narrada. O filme começa pelo fim. Assim como seu personagem principal, a história é contada inicialmente por uma personagem que já está no fim da vida, num leito de hospital, em

“Somos obras subjetivas em nossas miudezas, o estranho seria se todos tivéssemos a mesma sensação ao passar pela mesma situação. ” Nova Orleans. Ela é Daisy Fuller, interpretada por Blanchett, que traz uma história onde o tempo é o personagem principal, e narra como a possibilidade de ele correr ao contrário poderia reconfortar o coração dos pais que perderam filhos na guerra, trazendo-os de volta. A história de Benjamin começa, de fato, quando sua vida já tem findado, e uma personagem (que não detalharei sobre para evitar esse spoiler) abre seu diário, único bem deixado por ele, e começa a contar sua história. Com os efeitos sonoros para dar a ideia de imersão, a voz de Pitt passa conduzir a narrativa. O diário foi escrito por Benjamin com essa intenção, contar sua história. Mais precisamente, com as seguintes palavras: “Gostaria de contar minha história enquanto ainda me lembro dela. Meu nome é Benjamin, Benjamin Button, e eu nasci sob circunstâncias incomuns...” O dualismo nascimento-morte é, talvez, o personagem mais presente na história. É interessante se pensar na forma como

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começa, é uma história de vida narrada por alguém a partir do fio da memória, o que acaba sendo muito livre, mesmo seguindo uma sequência mais lógica. O tempo é fluido, com uma ou outra referência à idade ou ao ano em que estão. A memória é guiada através dos acontecimentos e episódios pelos quais Benjamin passou. Seu nascimento resultou na morte de sua mãe. Enquanto o país se unia em comemoração pelo fim da primeira guerra mundial, a família Button abandonava seu herdeiro em um asilo, para que ali encerre seus dias. Diferente do livro, Benjamin nasce bebê, só que com todas as doenças que geralmente acometem os idosos, é cego devido à catarata, a pele perdeu a elasticidade, muitas rugas, calvo, enfim, um bebê velho. Queenie, interpretada brilhantemente por Taraji P. Henson, é a grande responsável pelo funcionamento do asilo, e não pode ter filhos (pelo menos não sem uma forcinha do cara lá de cima). É ela que o encontra e o adota, apresentando-o como seu sobrinho,

“Esse passado sedento trilha um caminho em direção à um futuro fim. O futuro nasceu como passado e o passado morre enquanto futuro.” futuro.”

fruto de uma aventura infeliz de uma irmã. Ao explicar o porquê de Benjamin ser do jeito que é, ela gera o primeiro alívio cômico do longa, dizendo: “A criança quem sofreu/se deu mal. Nasceu branca”. Além disso, traz outro pensamento interessante: ao médico, quando este diz que o bebê não iria durar, que já nasceu às portas da morte, fruto de um misto de desejo e instinto materno fortes, ela prediz: “Este bebê é um milagre. Só não é o tipo de milagre que se espera ver.” E, de fato, foi. Em suas circunstâncias incomuns que o acompanharam até o fim da vida, Benjamin viveu intensamente e vivenciou muitas coisas. O amor e a melancolia dançavam conforme o ritmo da música de sua vida, tocada majestosamente pelo tempo. Daisy, inclusive, era neta de uma das senhoras que viviam no asilo, onde Benjamin cresceu. Viveu o frio da Rússia e os horrores da guerra, viajou o mundo em um rebocador, teve experiências sexuais diversas, descobriu sobre si mesmo, enfim, uma vida recheada do que o tempo melhor sabe fazer: reviravoltas. Crescer num asilo é outro ponto interessante para alguém como nosso jovem Button, cercado de pessoas que, além de estarem


O filme é recheado de questionamentos e reflexões que nos arrepiam, nos fazem pensar ou que fazem moradas em nossas mentes e na própria forma como administramos nossas memórias. Não é curioso que as pessoas que menos nos lembramos são as que mais nos marcam? E seria essa grande sucessão de perguntas a responsável por todo esse caso ser curioso? Pensemos. Mas é sobre o tempo que pretendo falar aqui. Então voltemos. É interessante como o filme apresenta a evolução de Benjamin. As doenças, que deveriam se intensificar com o passar do tempo, se suavizam, e cada fase de sua vida possui um personagem, com uma história paralela, para moldar determinados pontos da história central. Algumas se iniciam e terminam em poucos minutos, outras duram mais, uma delas começa em um ponto,

aparenta acabar e é retomada logo à frente. E tem outra, que quando menos esperamos... “Eu já te contei que fui atingido por um raio sete vezes?” O filme, além de ser uma grande memória narrada, possui memórias dentro das memórias, e tudo contribui para a complexidade do personagem e do ambiente que se constrói. A história de Benjamin o ultrapassa, é maior que ele, ao mesmo tempo que o compõe. E todo novo componente traz um acontecido aqui, que impacta lá na frente. O reencontro com o pai é um deles, ambos se conhecem, e acontece uma remissão do Sr.

FOTO: DIVULGAÇÃO (AS PEQUENAS MARGARIDAS)

no fim de suas vidas, já eram veteranos nessa aventura que o tempo nos proporciona por tempo indeterminado. Uma infância e adolescência marcadas pelo contato constante com diversas pessoas que exalavam sabedoria até na forma de se vestir, com histórias para contar e com vontade de contá-las, podem ter sido eles e o ambiente em si, os responsáveis por moldar a melancolia que acompanhou Benjamin por toda a vida. Além de que a morte era uma visita frequente ao asilo.

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em prática. É muito parecido com experiências nossas, depois que algo impactante nos acontece, lembramos de algo que nos impactou, ou nos lembraremos desse acontecimento quando novamente o destino nos impactar. Confuso? Não, curioso.

Button. E a remissão é bem presente, mais precisamente, na humanização dos personagens, com suas histórias expostas, memórias de um passado que o marcou e que, ao vir à tona, marca a narrativa. Durante a guerra, o capitão tatuador traz um pensamento que reverbera, anos e minutos depois, em outra cena-chave, que proporciona, por sua vez, um momento que se replica em outro, com o mesmo meio para um outro fim.

As obras, e o próprio simbolismo ao redor de Benjamin me trazem diversas reflexões. Nós estamos numa posição futura em relação ao passado que lembramos, ou estamos vivendo um presente infinito? Afinal, o passado lembrado, enquanto memória e enquanto durar essa rememoração, está no presente. E o pensamento acerca de um futuro que pode ou não chegar, também precisa estar no presente para ser pensado, pois o gerúndio existe no presente, o “pensando” está acontecendo. Não estamos nós imersos em um único tempo verbal? Que se apoia em dois outros?

“Você pode ficar irado como um cão raivoso da forma como as coisas acontecem... pode praguejar e amaldiçoar o destino... mas quando chega perto do fim... tem que aceitar.”

Benjamin é uma memória ambulante, é um futuro preterizado ou um passado futurístico, mas será mesmo que anda ao contrário? Ele exibe externamente o futuro inevitável da velhice, de início, ao passo que tem o passado sedento da infância. Passado esse sedento por experiências, que viram memórias e que, por sua vez, se transformam e constituem um passado lembrável.

Benjamin é um aprendiz e tanto. E o que toca nele em algum momento reverbera mais adiante, onde ele põe o ensinamento

Esse passado sedento trilha um caminho em direção à um futuro fim. O futuro nasceu como passado e o passado morre enquanto

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futuro. Ou as crianças não são um futuro personificado? Envolto em expectativas de ações que ainda acontecerão: as primeiras palavras, os primeiros dentinhos, os primeiros passos, primeiro dia na escola... expectativas. Benjamin, utilizando a arte das palavras, é uma antítese vivente. O passado dentro do futuro e o futuro dentro do passado. O fim dentro do começo. O começo no fim. Enfim, muitas filosofias sobre essa figura emblemática. “Bem... Ficaria triste por você ter que ver morrer todo mundo que você ama. É uma responsabilidade e tanto. Benjamin, nós estamos destinados a perder as pessoas que amamos. Do contrário, como saberíamos o quanto são importantes para nós?” Essa é uma das passagens mais impactantes no filme, para mim, pelo menos. Sobre os aprendizados de Benjamin, a dona dessa reflexão foi a responsável por ensiná-lo uma das mais belas músicas da trilha do filme, que, conforme ele avança conhecendo pessoas, ou quando volta para casa, ou até mesmo no final do filme e de sua história, o acompanha. Uma tímida melodia tocada em piano, que entra como uma ferramenta articuladora da memória, presente ao fundo. Pense bem, você tem músicas que o acompanham assim? Veja suas músicas preferidas (há mais tempo), por que elas são

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consideradas preferidas por você? O filme da nossa vida tem trilha sonora? Conhecemos a nossa? Devemos conhecê-la? O tempo muda a gente, o tempo nos leva para novos ambientes que nos mudam e a maturidade vai se maturando e também atua nos mudando, ou o verbo mudar deveria ser moldar? Diversas experiências de Benjamin são retratadas, em parte para complexificar o personagem, em parte para aproximá-lo de nós, que assistimos sua história. “É engraçado voltar para casa. Tudo têm a mesma cara, o mesmo cheiro. Nada muda. Nos damos conta de que quem mudou, fomos nós.” O tempo é um grande escultor, e a marca do artesanato é a subjetividade, e de formas diferentes, vamos sendo moldados por eles. Quem nunca saiu da casa dos pais, um dia vai, e um dia vai passar por essa experiência, de sair como morador, como filho do lar, e voltar, a depender do período, como visita. Muito muda em nós, e não precisamos necessariamente ter essa percepção ou experimentar essa sensação. Somos obras subjetivas em nossas miudezas, o estranho seria se todos tivéssemos a mesma sensação ao passar pela mesma situação. Disse acima que uma das citações que trouxe foi uma das mais marcantes, mas essa abaixo é minha preferida. Contém spoiler,

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mas o filme tem quase três horas, muito acontece, e esse nem é o principal acontecimento do filme. Enfim, vamos lá: “Às vezes estamos em rota de colisão e não sabemos. Seja por acidente ou por destino, não há nada que possamos fazer. [...] E se apenas uma coisa acontecesse de forma diferente, se o cadarço não tivesse quebrado, ou se o caminhão de transporte tivesse sido mais rápido, ou se a encomenda tivesse sido embrulhada pela mulher que não tivesse terminado com o namorado, ou se o homem tivesse ligado o despertador, ou se o taxista não tivesse parado para tomar o café, ou se a mulher tivesse lembrado de pegar o casaco e tivesse pego o táxi primeiro, Daisy e a amiga tinham atravessado a rua e o táxi tinha passado por elas. Mas a vida, sendo como é, é uma série de vidas e incidentes interligados, sem interferência de ninguém. Aquele táxi surgiu e o motorista estava momentaneamente distraído e aquele táxi atropelou Daisy, e quebrou sua perna, acabando com sua carreira de dançarina.”

O filme se chama O Curioso Caso de Benjamin Button. Button. Por que não o magnífico? O excêntrico? O trágico, belo, maravilhoso, fantástico ou qualquer outro adjetivo? Porque a curiosidade dá sede. Sede essa de conhecimento, que a gente só sacia pensando e descobrindo, perguntando e conseguindo as respostas. Não poderia ter um termo melhor do que curiosidade, curiosidade faz a gente questionar e se questionar. Curiosidade faz pensar. E essa foi minha proposta, abrir portas de questionamentos sobre o tempo. Possibilitar leituras e releituras sobre esse filme que muito me agrada. Fazer nascer em quem ler, sentimentos de concordâncias ou discordâncias. Falar sobre o tempo é inspirador e um desafio. Por onde começar? O que falar? O que não falar? E aí, tecendo com o fio da memória, aqui acaba meu tempo. Espero que gostem, ou não. Melhor: espero que as reflexões te inspirem a refletir. “Já te contei que fui atingido por um raio sete vezes?”

O tempo interage com a experiência, com o destino, a memória, a vida, o amor e a morte. E ele é subjetivo, vivenciamos e percebemos sua passagem de formas diferentes, que dependem muito da forma como fomos ensinados sobre o tempo e do contexto social no qual estamos inseridos.

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“Quem não reage FOTO: DIVULGAÇÃO

rasteja” Por Breno Árleth

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a Boleia do caminhão limpa fossa Big Jato (nome do filme), flui a primeira adaptação de uma obra literária para o cinema do polêmico diretor pernambucano Cláudio Assis. Inspirado no romance homônimo do escritor cearense Xico Sá, Big Jato narra parte da infância de Francisco, garoto apaixonado pela leitura e poesia e que, diariamente, acompanha o pai no árduo trabalho de limpar tudo aquilo que a humanidade rejeita, mas produz aos montes: as próprias fezes. Francisco (Rafael Nicácio) é um jovem no auge do florescer das primeiras paixões. Um rapaz que aos poucos, com a prática de

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apresentação paciente dos personagens recorrente nos filmes de Cláudio Assis, é descoberto como um discípulo da poesia e mais um desafeto da matemática. Esse gosto pela leitura e escrita é mal visto pelo pai, que só enxerga futuro promissor para os filhos nas profissões forjadas nos números e nos cálculos. O pai, também chamado Francisco, é interpretado por Matheus Nachtergaele, que traz no personagem a representação de um sujeito ignorante e de formulações próprias e arrogantes sobre o mundo e o comportamento das pessoas. Diariamente, na cabine do caminhão, ele tenta transferir ao filho suas visões sobre a vida,


principalmente o desprezo por todas as formas de trabalho, cujo esforço não é o suficiente para alagar o corpo de suor. Maior do que esse desprezo, só sua entrega à cachaça, após o difícil ofício de dar fim à bosta humana, e o ódio à vadiagem alheia. É, inclusive, a vagabundagem ponto de divergência entre ele e o irmão gêmeo Nelson, também representado por Matheus. Autêntico boêmio, Nelson é o oposto do seu “mano”, ridiculariza quem se mata de trabalhar e valoriza o hereditário jeitinho brasileiro de usar a esperteza para driblar as normas e ganhar a vida em cima do esforço dos desatentos. As únicas semelhanças com o seu gêmeo são as religiosas visitas ao cabaré e a paixão pelos Os Beatles, que este genuíno vagabundo apresentou àquele verdadeiro trabalhador. Nelson é um grande incentivador do encanto pelas letras que carrega Francisco (o filho). Fato que é reafirmado pelo simbólico momento em que o tio presenteia o sobrinho com uma máquina de datilografia. Em parte, o garoto também é estimulado por um amigo inusitado, Príncipe Ribamar da Beira Fresca (Jards Macalé), um caricato morador de Peixe de Pedra tido como louco - de louco nada tem -, amante da poesia e eterno pretendente da Princesa Isabel, para quem escreve poéticas cartas.

“Provavelmente, nenhum outro filme que venha a ser produzido depois dele conseguirá conciliar tão bem amor, poesia e merda para retratar a infância de um adolescente metido a poeta. poeta. ” Com um personagem de aparições sempre marcadas por uma profunda sabedoria sobre o alvorecer dos sentimentos de quem ama, em Big Jato, Jards mais uma vez nos proporciona uma belíssima interpretação. A sua dedicação ao papel só é comparável à de Matheus Nachtergaele aos dois personagens que interpreta com maestria. Aliás, a devoção deste a ambos resulta em duas figuras tão singulares que, por vezes, não lembraremos serem os dois papéis representados pelo mesmo homem. Fato que, em alguma medida, toma emprestado o protagonismo de Rafael Nicácio, um tanto tímido em cenas que exigiam maior soltura do espírito artístico e familiaridade com o momento. Também não pode passar despercebida a atuação de Marcélia Cartaxo. Mãe de um Francisco e esposa de outro, interpreta uma revendedora de cosméticos, mulher religiosa e infeliz no casamento, cansada do trabalho fedorento e da pinga diária do marido. Seu papel evolui com certa sutileza ao longo do filme,

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mas não decepciona nas situações que demandam a experiência e competência da atriz. Do ponto de vista estético, Big Jato exibe uma harmonia de forma e cores singular e convincente. A fotografia de Marcelo Durst é linda, e quem discordar estará reclamando de barriga cheia. Os ângulos e enquadramentos usados não sugerem escolhas, e sim acertos. Quando necessário nos tornam íntimos à cena, como os que nela estão, assim como nos distanciam em situações que sugerem uma observação afastada. A pacata cidade de Peixe de Pedra, onde o filme é ambientado, é apresentada com movimentos monótonos, despreocupados tal como o cotidiano da grande maioria das cidades similares. No interior das casas, encontramos elementos que cumprem, rigorosamente, a alusão às moradas do sertanejo nordestino. A direção de arte, portanto, não exagera nem se mostra ausente, mas precisa. O roteiro, também, não decepciona. Embora incorpore muitos trechos do romance - o que não é de se estranhar em uma adaptação - não há uma tentativa de fidelizar uma obra à outra, buscando uma reprodução fiel à fonte inspiradora. A narrativa ganha independência e roupagem originais na sétima arte, sem perder os elementos do enredo que lhe unem à nascente da história.

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“Quem não reage rasteja”. A frase escrita na traseira do caminhão limpa fossa não foi em vão. De fato, Big Jato reage, não permitindo que rastejemos à frente da tela por ausência de um bom filme. Para além do clichê que direi a seguir, é uma obra de arte e merece ser contemplado como tal. Provavelmente, nenhum outro filme que venha a ser produzido depois dele conseguirá conciliar tão bem amor, poesia e merda para retratar a infância de um adolescente metido a poeta.


O cinema Por Carla Yasmin, 11 anos O cinema é legal como um filme sobre o Natal A neve vai surgindo e a o papai Noel vai subindo No cinema tem de tudo: paquera, pipoca. No cinema tem filme de comédia para todo mundo sorrindo e se divertindo. Tem filme de terror e todo mundo com medo e horror E o cinema é muito bom.

o coletivo camaradas Carla Yasmin faz parte da Roda de Poesia no Gesso, do Coletivo Camaradas, projeto que incentiva a leitura infantil e a poesia, atuando na comunidade do Gesso, em Crato, Ceará.

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Prรณ-reitoria de Cultura

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