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Opereta

Maria

Isaac

em três actos

Libreto: Dr. José Gomes de Sá Música: Domingos Gomes de Pinho

Recolha e Formatação: José Luís Sepúlveda Partituras e Orquestração: Prof. João Oliveira da Silva


Opereta Maria

Ilustração da Capa: Isaac Romero Gonzalez.

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Agradecimento Com este trabalho, queremos homenagear os doutos Mestres Dr. José de Sá e Prof. Domingos Pinho, para que o espírito de Maria ’permaneça vivo vivo na memória de todos os poveiros, de sangue e de raça.

• ao João Albano Ribeiro o pela cedência das das memórias do seu pai, Albano da Silva Ribeiro • • • • •

à Biblioteca Rocha Peixoto ao Armando Marques ao Alberto Eiras ao Fernando Linhares de Castro ao Jacinto Sá o pelos contributos dados

• À Dra. Emília Godinho o pelo seu testemunho • Ao Dulcídio Marques o pelo seu testemunho e materiais cedidos • à Lina Maria o pela cedência da gravação da opereta em vídeo • Ao Isaac Romero o pela dedicada elaboração da capa e restantes ilustrações neste trabalho • À Direcção da Universidade Sénior da Póvoa de Varzim o pelo incentivo e apoio na divulgação deste trabalho

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Duas Palavras Num exemplo de grande generosidade, os professores e alunos da Universidade Sénior, José Luís Sepúlveda e João Oliveira da Silva, acabam de reconstituir a Opereta Maria, um marco da história do teatro na Póvoa de Varzim, que se encontrava esfrangalhado, a caminho de se perder para semsempre. Aos dois alunos, pelo seu empenhamento e qualidade conseguida, expressamos os nossos parabéns e agradecimentos. Pretendemos que, em primeiro lugar, o produto desta tarefa árdua, mas bem sucedida, sirva de homenagem aos autores autores da Opereta – Dr. José Gomes de Sá, libreto e Professor Domingos Gomes de Pinho, música – pela excelência do serviço que, num passado recente, desinteressadamente, presprestaram à Póvoa de Varzim. qualidade, ade, literáA relevância que atribuímos a esta obra advém da sua qualid literária e musical, por todos reconhecida como uma interpretação especialmente feliz das tradições dos camponeses poveiros, mas resulta também do sucesso das suas muitas encenações, sempre promovidas para angariação de fundos a favor de causas de elevado elevado alcance social. Os autores, encenadores, artistas e os poveiros em geral souberam conjugar o interesse cultural da Opereta com verdadeiras manifestações de solidariedade, facto que nos apraz enaltecer. Este é o primeiro trabalho do género produzido no âmbito da UniverUniversidade Sénior da Póvoa de Varzim. Vamos fazer com que cumpra os seus legítimos desígnios, inerentes à sua criação e actual reconstituição: a divulgadivulgação junto da comunidade poveira e, esperamos bem que sim, a promoção de futuras encenações. Estamos convictos de que outras iniciativas de índole cultural surgirão, quereerealizadas com o patrocínio da Universidade Sénior, já que também quer hão--de ser, com cermos que tal faça parte integrante da sua vocação. Todas hão certeza, acarinhadas e estimuladas pela respectiva Direcção e, obviamente, pelo Rotary Club da Póvoa de Varzim. Em nome da Direcção da Universidade Universidade Sénior da Póvoa de Varzim reitero as felicitações e os agradecimentos ao Sepúlveda e ao João Silva. Serafim Afonso, Coordenador e Director Pedagógico

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Nota de Abertura O teatro popular poveiro encontraencontra-se desde há muito bem enraizado junto da nossa população, tendotendo-se desenvolvido sobretudo no decorrer do século XX. Para esse desenvolvimento concorreu o génio artístico de muitos poveipoveicoraaros e outros que o eram por adopção, fazendo da Póvoa a sua terra de cor ção. PraaEra o caso do Dr. José Gomes de Sá, poveiro convicto, nascido na Pr ça do Almada 16, 16, ali à vista do Eça de Queirós, e que dedicou à sua terra muitos muitos dos seus melhores dias. Entre os diversos trabalhos desenvolvidos nesta área, atingiu lugar de realce a Opereta Maria, que o Dr. José de Sá escreveu e que Domingos Pinho, professor do ensino primário com dotes musicais de excepção, musimusicou com inspiração inspiração e mestria, tendo transformado esta obra numa referência para a nossa terra. A opereta foi levada à cena muitas vezes e o êxito alcançado foi sempre grande (v. No Rasto de Maria). Recordo o ano de 1969, em que o saudoso Albano da Silva Ribeiro, que trabalhava na Carris, no Porto, a ensaiou de nov novo para ser apresentada diversas vezes no Teatro Garrett. Do grupo de trabalho fazia parte uma pequenapequena-grande orquestra, que ora nos provocava provocava sensações de consternação ou tristeza, ora de alegria esfusiante, esfusiante, con conforme o decorrer das cenas. O TeaTeatro, afinal, é isso, um misto de sentimentos que, arrancados do papel e transtransformados formados por pessoas de génio, génio, nos envolvem envolvem e nos fazem fazem exprimir uma amálgama de emoções que muitas vezes não conseguimos controlar. Tive, então, o privilégio de acompanhar a azáfama dos ensaios e dos preparativos para esse evento que a todos os participantes empolgava e entuentusiasmava. E, embora a minha participação participação tivesse sido modesta - apenas como figurante - vivi também, também, intensamente, intensamente, esses momentos lindos e inesinesquecíveis que agora recordo. recordo. As Famílias Pinheiro Marques e Cadilhe estavam bem representadas no elenco. O António Marques magala), a Bina (mãe), Marques (regedor), o Dulcídio (magala a Lurdes (Rosa) a Angelina Pinheiro (ceguinha),. Depois, a Gina (Maria), a Ana Maria (criada), o Antero (médico). Era ver o Bernardino Fiel (pai), o saudoso Isidro Ferreira Ferreira (abade), o Zé Goiana (criado), enfim, tantos que de certeza omitiria sempre algum se tentasse recordárecordá-los todos (ver rubrica Alguns Elencos, onde estão descritos mais actores). O Humberto Fernandes (baratinha) foi o contraponto. O Abade José Gonçalves e a sua equipa trabatrabalhavam com grande azáfama no restauro de velhos cenários ali existentes alguns deles. deles. da autoria do Isaac Romero que, modestamente, quando o abordei, descartou os merecidos louros. E foi graças ao empenho do grande número de voluntários que por ali andava que se con conseguiu montar toda aquela engrenagem com competência e celeridade celeridade, eleridade, imperativo do momento. momento. 7


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Esta memória poveira de coisas lindas que muitos tiveram o privilégio de viver, ora como actores, figurantes ou assistentes, não poderia um dia cair no esquecimento. Daí que, em parceria com o João Silva, professor professor de edueducação musical, assumimos o encargo de compilar esta esta obra literária e musical que os doutos professores nos legaram. ServimoServimo-nos para isso dos pergaminhos guardados nas nas memórias de Albano da Silva Ribeiro, carinhosamente conservados pelo seu filho João Albano, a quem agradecemos a disponibilização disponibilização dos dos materiais que possuía, possuía, para que pudessem ser coligidos coligidos. ligidos. Mas, no decorrer de todo este trabalho, deudeu-me particular prazer seguir as pegadas desse eminente músico chamado Domingos Pinho, cuja memória iria ficar esquecida. Descobrir a trajectória dos seus passos, lentamente, até à construção de um perfil bibliográfico, que teimosamente teimosamente insistia em permapermanecer obscuro na voragem do tempo, tempo, foi, na verdade, um grande desafio. As buscas efectuadas, o número elevado de pessoas e entidades consultadas, passando por bibliotecas públicas da Póvoa, Vila do Conde e Porto, SocieSociedade Portuguesa de Autores, Ministério da Educação, Centros de Memória, Conservatório de Música, sei lá…, toda esta odisseia foi, sem dúvida, um grande desafio. Como corolário, a descoberta de um homem simples, que nunca procurou glória, que insistia em permanecer no anonimato, mas cuja cuja memória, memória, apesar de tudo, se encontra gravada gravada bem fundo no coração coração de tantanta gente como o músico de Maria. Um agradecimento especial ao professor João Oliveira da Silva que, que, com zelo e devoção inexcedíveis inexcedíveis recuperou as partituras através de cópias quase imperceptíveis, imperceptíveis, muitas delas incompletas e que, que, depois de muito esforço, esforço, conseguimos reunir. reunir. Ao analisarem este este trabalho, trabalho, com facilidade poderão aquilatar do grau de generosidade que foi dedicado à reconstituição das partituras. partituras. Obrigado, João Silva. À Universidade Sénior da Póvoa, o nosso agradecimento agradecimento pelo incent incentivo que nos deu no decorrer das das pesquisas e da elaboração do trabalho que à mesma oferecemos com carinho. José Luís Sepúlveda

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Breve resenha sobre a Opereta Deus quer, o homem sonha e a obra nasce. Estas palavras de Fernando Pessoa Pessoa soam soam adequadas ao trabalho que acabamos de produzir: reconstituir o libreto e as partituras da Opereta Maria que vibram vibram desde há muito muito no coração da gesta poveira. A opereta é um género de música derivada da ÓpeÓpeescriirara-Bufa, do género ligeiro, onde os versos cantados alternam com os escr tos e a representação cénica, sendo de maior importância o Libreto que deve fornecer a excelência dos textos e poemas, para serem desenvolvidos e musicados pelo compositor. AtribuiAtribui-se geralmente geralmente a paternidade da opereta opereta a Jacques Jacques Offenbach e Francis Hérve. Em França, França, afirma também a sua vitalidade com Ch Lecoq Lecoq, Edmond Audran, Varney e outros que escreveram escreveram peças que se situam entre a opereta e a ópera -cómica, mas também designadas designadas por operetas. A Escola de Viena brilh brilha particularmente com a dinastia dos Strauss e Franz Leh Lehar. As valsas mundialmente conhecidas destes compositores fizefizeBelle-Époque, onde o charme langoroso rodopiava pelas ram as delícias da Bellesalas dos palácios da aristocracia aristocracia. As operetas de Franz Leh Lehar, assim como as da família Strauss rivalizaram rivalizaram com as de Offenbach e Lecoq. Lecoq. Johann Strauss II (1825(1825-1899) ficou mundialmente conhecido pelas suas valsas e operetas (Danúbio Azul, Ondas do Danúbio e mais cerca de quaquatrocentas composições, assim como das operetas La ChouveChouve-Souris – 1874; 1874; Cagliostro – 1875; 1875; Le Fichu de la Reine – 1880; 1880; Le Baron Tzigane – 1885), 1885), que coroaram a Escola de Viena e são ainda hoje referência de conconcertos de fim de ano das orquestras vienenses, vienenses, dirigidas por grandes maesmaestros da actualidade. Entre nós, na Póvoa de Varzim, tivemos também a nossa época áurea a partir dos anos trinta, trinta, do século vinte, com as operetas Maria, da autoria do Dr. José de Sá e musicada pelo professor Domingos Pinho; Os Poveiros Poveiros, Rosa, Na Berlinda, também da autoria do Dr. José Sá, Sá, estas com com músicas do professor Alberto Gomes. Mas recentemente, Um Tio Rico, da autoria de José Azevedo e música de António José Gomes, o Antoninho Marta, que alcançou também assinaassinalável êxito. Todas estas obras cénicas foram interpretadas por um grupo de grandes amadores de teatro, cujos componentes se suplantavam a si mesmo na nobre Arte de Talma e que faz faziam corar de inveja os mais conceituados profissionais da época. É oportuno lembrar os nomes de alguns destes ilusilustres amadores: João Fernandes (O Baratinha), Ernesto Pinto, Isidro FerreiFerreira, Laurentino Monteiro, Maria das Dores (Janela) Elvira Pontes, Jaim Jaime Trabulo Monteiro, Monteiro, Dulcídio Marques, Albano Ribeiro… e tantos outros cujos nomes não podemos podemos recordar neste reduzido espaço. 9


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Foi para que não caísse no esquecimento que, a par com José SepúlveSepúlveda, me dediquei de alma e coração à recolha de escritos para reconstituireconstituição de de Maria, e da memória de autor e compositor. Na componente de que me incumbi, incumbi, a música, fui confrontado com um sem número de difidificuldades, visto não existir uma partitura de maestro para organização de orquestra à minha disposição. disposição. Muitos pensariam ter em seu poder os eleelementos necessários mas esses não passavam de uma parte guia, guia, somente com melodia e respectivas deixas para entrada. Encontramos por acaso, no espólio de Albano Ribeiro, uma fotocópia da partitura de piano, piano, com alguns trechos quase impossíveis impossíveis de decifrar, com muitas rasuras e imperceptibilidades. Encontramos também Sax-Tenor, igualmente muito rasutambém uma parte de de Saxrasudecifrar cifrar rada e em mau estado de leitura que obrigou a muito trabalho para de o seu verdadeiro con Contra-Baixo, outra ainda de conteúdo. Uma outra, de ContraPrimeiro Violino, Violino, apresentavamapresentavam-se em bom estado de conservação. conservação. Foi com esses parcos elementos que me lancei à recuperação das das partipartituras, meses e meses de trabalho dedicado. Colocar este trabalho em pauta, pauta, para orquestra, orquestra, deu que pensar. Vinte e cinco trechos musicais, onde nada mais havia do que os elementos elementos descridescritos. tos. ValeuValeu-me o gosto e a dedicação, dedicação, com uma boa dose de boa boa vontade, vontade, para a concretização do sonho. Na década de cinquenta fiz parte da orquestra que actuou em duas representações no velho Garrett. Recordo ainda a composição da orquesorquestra: quatro violinos, dois clarinetes, trompete, trombone, saxax-tenor, enor, violonvioloncelo, contracontra-baixo, piano e precursão. precursão. Vozes: soprano solista, tenor solista e coro. No final foi possível concluir uma orquestração o mais aproximado pospossível da original, muitas vezes com recurso à memória, tendo acrescentado um oboé e um fagote para dar mais relevo e beleza aos timbres desta orquestração. Este desafio encheuencheu-me de força e coragem e provouprovou-me que, quando com espírito de boa vontade, vontade, muito se pode fazer em prol da nossa cultura popular. popular. Mas, Mas, permitiu também reavivar a memória dos poveiros e amigos, amigos, levandolevando-os a recordar o que de bom temos no legado daqueles daqueles que por aqui passaram e cuja memória não esqueceremos. Desempoeirar as prateleiras das nossas estantes é um dever dever que cabe a todos nós e àquelas que na nossa terra se aconchegam e a tomam por adopção. Maria é uma menina muito completa no seu estilo: tem alma, solenidasolenidade, de, religiosidade, é servil, mordente na crítica, gosta de parodiar, gulosa, compassiva, gosta de se divertir e não esquece as romarias, romarias, cuja alegria lhe corre nas veias. veias. Ama e é grata. grata. São estes os seus imortais predicados. Talvez um dia surja surja de novo em palco, palco, engalanada, no seu melhor traje, para que poveiros e amigos possam admirar a sua beleza, como aconteceu 10


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nos áureos anos do teatro poveiro, para memória da sua gente e glória da nossa terra. Amar o berço onde nascemos é amaramar-nos a nós próprios, é respeitar todos aqueles com quem vivemos no diadia-a-dia e que fazem fazem parte da nossa vida. João Oliveira da Silva Prof. De Educação Musical

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O meu encontro com Maria Foi amor à primeira vista. Assim classifico o meu querer tanto a esta obra, tão simples, despretensiosa, tão cheia de beleza. De mãos dadas com o meu tio João, rumei ao Teatro Garrett, onde ele, segundo indaguei na simplicidade dos meus cinco anos, ia para o ensaio de um teatro muito lindo que eu iria gostar muito de ver – dizia. Ao chegar (ainda sinto o cheiro muito peculiar daquela sala), notei que o ambiente era de grande animação. AcomodeiAcomodei-me numa poltrona, bem na frente, na plateia, de olhos bem abertos e ouvidos bem atentos. Alguém muimuito importante impôs silêncio. OuviramOuviram-se as afinações da orquestra. LembroLembrome de me ter posto de pé, porque a poltrona da frente não me deixava ver bem. Os primeiros acordes da Ouverture aumentaram o meu interesse até ao lento religioso da Meditação, tão profundamente marcante para mim. Ainda hoje hoje a trauteio. O pano abriuabriu-se lentamente e… foi um sonho lindo que, tomando conconta de mim, me envolveu durante os três actos que, com saudade, recordo. Não me lembro se saí do teatro com o tio João. Sei que num salto me pus em casa, o número onze da Rua do Paredão, tão feliz estava, desejoso de contar à minha mãe o que tinha vivido. Subi as escadas a gritar ofegante: - Ó

mãe, que bonito! Lamentavelmente, os meus cinco anos impediramimpediram-me de assistir à estreia, vává-se lá saber porquê! Sete anos decorridos, já com com doze anos, conheci o Alguém muito importante que impusera silêncio, para iniciar aquele ensaio, em 1937 – o meu querido e saudoso amigo Dr. José de Sá. Com ele continuei, na reposireposição da Opereta Maria, no ano de 1944, onde incorporei o papel do rapaz que entrava no primeiro acto e chamava: Ó senhor Doutor, venha já ver a tia Rita do Eirado (…) que está mesmo a expedir. No terceiro acto, personifipersonifiquei também o guia da ceguinha: trazer-lhe a luz dos ceguinha: (…) Quem sabe, pode trazer-

olhos (…). Já a viver em Braga, em 1961, encenei pela primeira vez a Opereta. Fiz o papel de José. Depois, passei a ser o Magala para o resto da minha vida. Nem sempre pude acompanhar a Maria… mas vivi-a por aí maltratada, mal vestida, sem o brilho que que outrora ostentava, sem a harmonia harmonia afinada afinada que a emoldurava. Senti uma tristeza profunda quando, de rosto triste, a vi, tão diferente da Maria que conheci, que dei a conhecer. Desenraizada do seu público, nem o José inspirava a sua Súplica, o seu Dueto de Amor, o seu 13


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Brinde. Chorei ao vêvê-la, nesses nesses palcos! Afinal, para onde quer que eu fosse, logrei leválevá-la comigo, como parte da família. família. QueroQuero-te muito, Maria e, por isso, imaginei pedirpedir-te de volta, esperaresperarte, te, recuperar aquele final feliz! Foi esse o regresso que ansiosamente preparei. No coração coração da cidade Invicta, abriramabriram-se as portas do Clube Fenianos Portuenses e o Salão Nobre engalanouengalanou-se para a receber. O autor já não a viu mas, o seu filho, Américo Sá, em sua representação, homenageouhomenageou-o com o Brinde que a Maria sempre mereceu. Dulcídio Marques, o Magala P.S. – Guardo religiosamente o Guia original da Orquestra, oferecido pelo Sr. José Malhão, impulsi impulsioonador da obra do Dr. José de Sá que, quando mo entregou, me pediu: Não deixes morrer a Maria.

Nota dos Autores: Não quisemos nem pudemos deixar de incluir neste trabalho este testemunho vivo e apaixonaapaixonaque, durante uma parte da sua vida, levou a Opereta a muitos lugares, dando a do do Cido que, conhecer em toda a parte o carinho, Maria.. carinho, quase diria, a devoção que acalentava pela sua Maria

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Recordando o Dr. José Sá Após ter leccionado em Chaves, fui colocada, por concurso, na então Escola Industrial e Comercial da Póvoa de Varzim. E ainda bem, porque tive prooo privilégio de conhecer o Dr. José Sá, meu querido Director que, ao pr porcionarporcionar-me um tão bom ambiente de trabalho, me deixou marcas que nunca se apagaram na minha longa caminhada de ensino. Aprendi a ensinar, a educar, a formar, a abrir caminhos, rasgar horizonhorizonpudessem dessem construir tes, clarificar ideias e lançar alicerces para que os alunos pu um futuro promissor que lhes garantisse estabilidade na vida. Penso que todos concordam com o nosso Camilo quando afirma que

há uma coisa mais aviltadora que o desprezo – o esquecimento. O Dr. José Sá jamais será esquecido. Era um homem cativador, cativador, cheio de firmeza e carácter, lutando pelo ideal do seu pensamento - Mais e Melhor - para a sua escola e para a sua terra natal. O edifício ondea Escola funcionava, hoje o Bairro dos Pescadores, era velho e com muitas carências. A saída e entrada das das aulas era feito ao toque de uma sineta já rachada de tanto uso. As condições de trabalho eram muito precárias e o Dr. José Sá, apesar de tantos dissabores e desilusões, nunca baixou os braços, conseguindo concretizar um dos seus grandes sonhos – uma nova nova Escola. imagiiRecordo um episódio que retrata bem o espírito de iniciativa e imag nação do Dr. José Sá. Como a velhinha sineta ia ser substituída por toque eléctrico, lembroulembrou-se de organizar, juntamente com os alunos, um cartejo a que deu o nome de Cortejo da Sineta, compondo uma letra adequada que foi musicada pelo também saudoso professor Antoninho Marta. Foi um sucesso! percorreesucesso! Nele participaram professores, alunos e empregados que percorr ram algumas das ruas da vila, hoje cidade, entoando o Hino à Sineta. Nos intervalos intervalos das aulas e na improvisada sala dos professores, na velha escola, o Dr. José Sá atraíaatraía-nos com as suas anedotas e conversas. Era um prazer ouviouvi-lo. Porém, era enigmático o seu bom humor às segundassegundas-feiras, dependendo do resultado do seu glorioso Futebol Futebol Clube do Porto. Por imperativo legal, ao fim de trinta e cinco anos de missão cumprida, o Dr. José Sá teve que se retirar, deixando a todos os que privaram com ele um enorme vazio. ForamForam-lhes prestadas várias homenagens, consistindo a última num banquete uete que teve lugar no ginásio da nossa Escola, organizado pelo profesbanq professor P. João Marques e Dr. Joaquim Godinho, tendo participado cerca de duzentos e cinquenta pessoas. Foi ali posto em destaque o seu apego à EscoEscola e o amor dedicado à terra que o viu nascer. nascer. Com lágrimas nos olhos, o Dr. José Sá agradeceu todas as manifestações de carinho e amizade, dizendo que partia triste por ser obrigado a abandonar o cargo que exerceu com todo o 15


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afinco e abnegação, quee abnegação, mas contente por ter conseguido erguer uma Escola qu muito honra o ensino e a Póvoa. DeixouDeixou-nos o homem, mas a sua obra perdurará além do tempo. Emília Godinho Godinho Professora, e exex-colega do Dr. José Sá

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Autor do Libreto José Gomes de Sá nasceu às cinco da tarde do dia 30 de Dezem Dezembro de 1895, 1895, na casa que hoje tem o n.º 16, na Praça do Almada, Póvoa de Varzim, tendo sido baptizado no dia sete de Janeiro de 1896, na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição (actual IgreIgreja Matriz). Matriz). Era filho filho de Justino Justino Gomes de Sá, de LaunLaundos, Póvoa de Var Varzim e de Maria da Conceição Cruz, de Vila do Conde. Casou em 25 de Novembro de 1926 com D. Maria Margarida Coelho, Coelho, sua colega de MagisMagistério, tendo a cerimónia sido realizada na Póvoa de Varzim. Fale Faleceu na freguesia de Massarelos, Porto no dia dia 2 de Abril de 1974. Fez a instrução primária na antiga escola primária particular da Rua Faria Gajo, donde transitou transitou em 1904 para o liceu, então instalado no edifício da Câmara Municipal. Concluido o curso liceal no Liceu Rodrigues de Freitas, no Porto, matriculoumatriculou-se na Universidade de 1913--14, primeiro da Lisboa, na Faculdade de Direito, no ano lectivo de 1913 sua criação. Em 1919, foi nomeado professor da Escola Primária Superior Rocha Peixoto, sita na Praça Marquês de Pombal, de que era Director o Dr. Joaquim Joaquim Graça, exercendo aí o magistério durante quatro anos. FormouFormou-se em Direito em 1924 e passou a advogar na sua terra natal. Extinta a Escola Primária Superior e criada a Escola Industrial e Comercial Rocha Peixoto, cuja direcção foi confiada ao Dr. Cunha Cunha Araújo, concorreu em 1925 a professor provisório, passando a leccionar as disciplinas de Português e Direito Comercial. Nomeado professor tirocinante em 1927 e efectivo em 1928, veio a ser escolhido para director em 1930, cargo que exerceu até à sua apoapoanos.. Foram mais de sentação, em 1965, ao atingir a idade de setenta anos 35 anos que dedicou à causa pública. No dia 18 de Dezembro desse desse ano, pelas 15 horas, no ginásio1, foi publicamente homenageado pelo corpo docente e discente da sua escoescola, que contou ainda com a presença de encarregados de educação, educação, antiantigos professores e alunos, alunos, muitos amigos e figuras públicas de renome. renome. Às 21,00 do mesmo dia, teve lugar a tradicional Festa de Natal. No decorrer da sessão foi apresentado um auto alusivo à quadra, tendo tendo de seguida, para sua surpresa, sido apresentado o segundo acto da sua opeopereta do coração, a Maria. No dia seguinte, pelas 13,00 horas, ainda 1

O Dr Jorge Barbosa, na sua biografia, alude a uma homenagem no Grande Hotel. Essa teve lugar em 1963 e foi organizada por oi apreantigos alunos e professores, nela tendo participado, além destes, muitos amigos e autoridades. Terá sido nessa ocasião que ffoi apresentado sentado o Segundo Acto da Opereta Maria. No seu testemunho, quando da Homenagem dos alunos, em 1985, Maria de Lurdes

Ferreira, antiga aluna, refererefere-a com entusiasmo. (Jornal Rumo 1818-1111-65).

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naquele ginásio, foifoi-lhe oferecido um banquete, banquete, por iniciativa dos seus colegas de então, então, estando presentes alunos, alunos, colegas e representantes das autoridades e de associações locais, antigos alunos e muitos amigos, amigos, num total de mais de duzentas e cinquenta pessoas.. pessoas.. A sua acção como director daquela Escola granjeougranjeou-lhe, não só entre os colegas, como entre a numerosa população população estudantil que com ele se formou, inúmeras amizades que perduraram para além além da sua vida de docente. Cintilante cavaqueador e apreciado humorista, entretinha, com o seu frequentava ntava e espírito critico e satírico, as tertúlias que habitualmente freque nas quais pontificava, senhor senhor de vasto anedotário, tornavatornava-se um regalo a sua convivência. Em 1930 escreveu a letra para a Marcha do Varzim, clube de que chegou a ser director, cuja música música foi composta por Domingos Pinho. Escreveu, na imprensa local, algumas gazetilhas relacionadas com assuntos poveiros. DedicandoDedicando-se ao teatro ligeiro, levou à cena a revista «Na Berlinda», em 3 actos, de parceria com José Costa, José do Rosário e José Gomes (os 4 Zés), peça musicada pelo Professor Alberto Gomes. Escreveu também, também, as revistas «Quentes e…boas» (musicada pelo Dr. Josué Trocado); Trocado); «Os Poveiros» (musicada pelo Professor Alberto Gomes); «Agora vai» (de parceria com Dr. Armindo Alves e musicada pelo Prof. Alberto Gomes); «A Póvoa Nova» (musicada pelo Prof. António Gomes e representada apenas na Escola Comercial, Comercial, por seus alunos) e a Opereta Maria (musicada pelo Prof. Domingos Pinho), que tão grande êxito alcançou entre a gente poveira e que foi levada à cena numerosas vezes, as ultimas das quais ainda no ano de 1979. O Dr. José Sá escreveu, também, quase todas2 as letras das canções do Rancho da Lapa, musicadas pelo Prof. António Gomes, as quais se encontram gravadas em discos comerciais. Bairrista de gema, o Dr. José de Sá ficou conhecido, nos meios desdesportivos do F.C. Porto, Porto, a cujos corpos directivos chegou a pertencer, pertencer, como o Zé dos AláAlá-arribas, arribas, pois os seus inflamados discursos terminaterminavam sempre por uma salva de ala arribas. arribas. Por tudo isso, apetece apetecepetece-nos recordá– recordá–lo com saudade! Composto com base na biografia do Dr. Jorge Barbosa, Barbosa, Boletim CulCultural Vol. XIX, nº1 (1980), p. 123123-124, 124, complementado com outros outros contributos recolhidos no Jornal Rumo (da Escola Rocha Peixoto), Peixoto), no seu Registo de Baptismo e em depoimentos de alguns amigos. amigos.

Nota: A Póvoa homenageouhomenageou-o dando o seu nome a uma rua da cidade.

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Consultando a Biografia de Antoninho Marta, constatamos que em datas p posteriores osteriores outras pessoas deram o seu contributo para o suas, as, reportório deste Rancho, com muitas mais canções. O próprio Antoninho Marta terá composto uma série delas, com letras, ora su ora de outros autores.

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Entrevista ao Dr. José Sá Sabía tempos,, que o Dr. José Sá, nosso velho amigo, com extraordinária Sabíamos íamos, mos, há tempos vocação para a carpintaria teatral, autor já de trabalhos de aplaudido êxito, andava a ensaiar uma nova peça, original seu, e fiados na nossa inquebrável amizade e na sua extrema afabilidade, aventuramoaventuramo-nos a colher impressões do ilustre Director da Escola Comercial desta vila. Introduzidos no seu gabinete de trabalho, postos à-vontade, vontade, refastelados em fofa maple, frente a frente, disparamos à queimaqueima-roupa o primeiro tiro. Sabes, caro Zé, a intenção que aqui me pseudo--entrevista, umas leves e me traz: Uma pseudo fugidias notas para o Comércio da Póvoa, apontamentos à vol d’oiseau sobre essa linda peça (deve ser linda, aventamos nós, como são todos os trabalhos saídos do labor de tão mimoso joalheiro. Ora, dizdiz-me: - Como nasceu a ideia do espectáculo? E o Dr. José Sá, abrindo um sorriso à sua dedicada benevolência para connosco, prontamente acode: - Um impulso beneficente, gerado numa distribuição de camisolas e agasalhos aos alunos necessitados, distribuição levada a efeito efeito pelas alunas da Escola Comercial, e a faccsolicitude e a colaboração da minha distinta colega D. Maria Alice de Almeida d’Eça, fa to de ter observado que um grande número de alunos se deixa de matricular, embora recebam alguns da Caixa Escolar os respectivos respectivos livros e as matrículas sejam baratas. E não se matriculam, porque receiam não poderem apresentarapresentar-se decentemente. decentemente. Eis o caso… - Como estamos em maré de confissões inter amicus, que muito me sensibilizam, diz mais: - Pelo que deixas aperceber, o produto do do espectáculo… - DestinaDestina-se, se, indubitavelmente, ao pagamento de matrículas e livros e ainda a forforclassificaanecer a dois ou três (conforme os recursos) alunos dos mais pobres e melhor classific dos em instrução primária, o respectivo fato e calçado. - Vamos agora à matéria matériatéria-prima: prima: Porque escolheste por agora uma opereta e não uma revista? - Uma revista -é bem compreensível – teria hoje de entrar pelos domínios da fantafantasia e a receita do espectáculo ou espectáculos, mesmo dificilmente, cobririam as despesas duma razoável encenação. E lá se ia o objectivo da festa. - É de costumes poveiros, a Opereta? - Essa tragotrago-a há muito no coração – dizdiz-nos o amável cavaqueador – tenho já o fio do romance., alguns números estão prontos a ser musicados, assim cvomo as figuras e os tipos estão já definidos., definidos., caracterizados. Mas, para que esse sonho se transformasse em realidade, necessitava da colaboração de muitos. (E dizdiz-nos confidencialmente, um laivo de amargura a rasgarrasgar-se na comissura dos lábios) É possível por isso que o meu sonho não passe de um sonho. - Parece que te negaram a colaboração. - Ninguém a negou, com prazer o confesso, porque também a não pedi ainda. Mas vai ver a dificuldade: necessitava da colaboração dos velhos amadores poveiros e sobresobretudo da valiosa colaboração colaboração do melhor amador que tenho conhecido: - o João Silva. Idea Idealizei uma figura que entre amadores só ele a poderia fazer. Em volta dessa figura gira a peça e, para mim, só ele a poderia tornar grande. Agora, Agora, sejaseja-me lícito perguntar perguntar: rguntar: Estará ele para maçadas? 19


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- E depois? depois? E mais? - A música, por exemplo, é uma séria dificuldade, porque embora o folclore pove poveiiro seja relativamente pequeno e pouco variado, podia dardar-nos, no entanto, lindos motivos para boa música. Era questão de conhecer, quanto a mim, os costumes e as crenças desta boa gente do mar. - Mas para tal, obtemperamos nós, tem dois autores poveiros de já consagrado renome: o Dr. Josué o Alberto Gomes. - Sim, dois nomes, dois grandes nomes mesmo. E aprazapraz-me até que o Comércio Comércio registe a profunda e incondicional admiração que desde há muito mantenho pelo grande talento de ambos, pela sua brilhante e fácil inspiração. Com ambos tive já a honra de trabalhar e por isso não não falo de ouvido. Dois bons autores em qualquer parte. Mas Mas volto a perguntar: estará qualquer deles dispostos a maçadas? - E ainda existem mais dificuldades? - …Encenação poveira, cuidada e custosa por virtude da necessidade de cenários e guarda roupas novos, etc. etc. Enfim, meu amigo, tudo dificuldades porque porque era necessánecessário que tudo no palco fosse retintamente poveiro. poveiro. Só assim entendo que devemos aventuaventurarrar-nos a tal empresa. - E a opereta de agora? - Um fiozinho de romance simples e enternecedor, um pequeno conto que uma deliciosa música borda, emoldura e valoriza. valoriza. Três actos actos sem pretensões, um teatro que não obriga o espectador a conjecturas, que não faz rir nem chorar e que visa apenas a manter no público um pouco de interesse pela acção e a ceder às figuras criadas um poupouco da sua simpatia e ternura. Não há nada de cínico nem vitimas e por isso o espectador pode distribuir indistintamente a sua simpatia por todas as personagens que no palco vão viver. Eis, Gil, a peça, o seu entrecho e o seu valor, se é que o tem. - Já recebeu o baptismo lustral? - Um nome amorável. Maria é o seu nome. Só, Só, Maria…. - Quem musicou a opereta? - O professor Pinho. Um nome novo para a nossa terra mas que ela fixará, porque tem talento, inspiração e bondade. Talento porque o que está escrito é bonito. Inspiração porque interpretou interpretou admiravelmente o que eu pensei. Bondade porque ofereceu espontaespontaneamente a sua colaboração logo que soube o fim a que obedecia o espectáculo. Aqui lhe rendo, por isso, as minhas homenagens e os meus agradecimentos. Da justiça das minhas palavras avaliará o publico no dia da representação. - E quando é o grande dia? - Não posso marcar datas. Logo que esteja tudo afinado e pronto. Com os artistas que estão à minha disposição, o caso é mais difícil, pois não podem roubar muito tempo aos seus trabalhos escolares. escolares. É preciso cuidado. - Sendo assim, talvez lá para princípios de Maio. - Talvez…, talvez… - E quantos entram na peça? - Quarenta, Quarenta, como os conjurados do l.º de Dezembro. Estes ofereceramofereceram-se em holocausto da Pátria. Os meus dedicaram dedicaram à minha solícita obra de protecção, mutualidamutualidade e auxílio.!... LevantamoLevantamo-nos. Estava satisfeita e cumprida a nossa missão. agradecemos--lhe a nossa impertiNum grande abraço ao dedicado amigo Dr. José Sá, agradecemos impertinência. Muito e muito obrigado Gil (in: O Comércio da Póvoa de Varzim)

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Autor da Música Domingos Gomes de Pinho terá nascido no cruzar dos séculos XIX e XX, XX, no Porto, tendo falecifalecido cerca de 1961 1961 naquela cidade (esta informação, informação, colhida junto da SPA) SPA).

Foi professor do ensino primário e musical além de compositor e grande violinista. violinista. Frequentou o Conservatório de Música do Porto de onde, onde, em Julho de 1937, 1937, transitou para o nono e últiúltimo ano do Curso Superior de Violino, tendo nessa altura feito exame de Contraponto e Fuga do Curso Superior de Composição, com a distinta classificação de dezoito valores. No ano seguinte terminou naquele Conservatório o almejado Curso Superior de Violino. Foi aluno brilhante daquela Instituição de Ensino Musical, tendo tendo complementado o currículo com diversas especialidades, sempre com distintas classificações. Na Póvoa de Varzim leccionou na antiga Escola Primária da Praça Marquês de Pombal, no denominado Prédio Postiga (actual esquadra da PSP) pelo menos de 1936 a 1940. Recordam alguns alunos que o professor era dócil e delicado delicado e que era frequente durante as aulas falar sobre música (já lá dizia o sábio Salomão num dos seus colegiais provérbios: do que está cheio o coração, disso fala a boca…), atitude com que alguns alunos por vezes ironizavam. ironizavam. Quando uma vez ou outra um deles deles se excedia nas suas travessuras travessuras, uras, era transferido para a sala em frente, orientada pelo seu amigo, amigo, o professor Viana, mais rigoroso e disciplinador que os metia na ordem. A esse respeito, extraímos das crónicas de Armando Marques o seguinte texto:

“… Era o ano de 1936, sete de Outubro, dia em que se iniciavam as aulas e fui para a Escola primária onde agora se encontra a esquaesquadra da PSP, na Praça Marques de Pombal, Comigo entraram mais umas dezenas de crianças para aprender a ler, escrever e contar… Depois, Depois, foram quatro anos na chamada primária, a basezinha, tendo como professor Domingos Pinho que acumulava a sua mestria no ensino com a arte musical…” Excelente violinista e músico, compôs todas as partituras para a Opereta Maria, obra literária escrita pelo seu amigo Dr. José de Sá, Cineteacuja estreia teatral teve lugar no dia 21 de Maio de 1937 no Cineteatro Garrett. SeguiramSeguiram-se aclamadas e sucessivas edições, uma das quais no dia 4 de Janeiro de 1939, para ajudar o Clube Naval 21


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Povoense. Nos anos que se seguiram, seguiram, esta opereta teve apresentações públicas repetidas vezes, conforme descrevemos, descrevemos, mais pormenorizapormenorizadamente, damente, no título No Rasto de Maria. Foi autor da música da Marcha do Varzim, cuja letra foi escrita pelo Dr. José de Sá. Aludindo à representação de de 1939, a favor do Clube Naval, dizia Américo Américo Silva que, por volta de 1938, 1938, foi Director daquele digníssidigníssimo Clube: “Quem idealizou, congeminou e fez dar à luz a Maria foi

o Dr. José de Sá … e depois, o Dr. Domingos Pinho baptizoubaptizou-a com a água lustral duma música maviosa que anda hoje na boca das nossas lindas tricanas…”. Com Com certeza, certeza, terá composto muitos outros trabalhos musicais, embora, com pena nossa, não tivéssemos conseguido identificáidentificá-las até à conclusão deste trabalho. Em 1955 vamos encontrar o distinto professor na Escola Primária de Pereiró, no Porto, examinando alunos nos então designados ExaExames de Admissão. O João Albano Ribeiro, Ribeiro, filho do saudoso Albano da Silva Ribeiro, um dos últimos ensaiadores da Opereta, foi então então examinado pelo ilustre docente. Foi um dos fundadores do Grupo Coral de Professores do Porto, tendo ocupado o lugar de primeiro presidente, informação colhida já após a sua morte através da da publicação dum interessante artigo da sua autoria na revista Escola EscoEscola Portuguesa, denominado A Música na Escola Primária, no qual disserta sobre o ensino do canto coral nas escoescoalguulas, com directrizes sobre como ensinar e ensaiar e adiantando alg mas regras e conselhos sábios, daqueles que só um grande mestre consegue dar. Faleceu na cidade do Porto, Rua Antero de Quental, n.º 500 – 1.º, em cuja cidade estarão depositados os seus restos mortais. Compilação de J. L. Sepúlveda

José Sá e Domingos Pinho (foto cedida pelo pelo Cido)

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No Rasto de Maria A Opereta Maria surgiu surgiu em 1936/3 1936/37, 6/37, como expresexpressão do génio literá literário do seu autor, Dr. Dr. José Gomes de Sá, meu digníssimo e antigo Direc Director da saudosa EscoEscola Industrial e Comercial da Póvoa de Varzim. Varzim. Mas, Mas, não obstante o seu inegável valor literário e musical, musical, carregou carregou consigo desde o seu aparecimento um grangrande conteúdo humanitário e de volun voluntarismo que a tem perseguido ao longo do seu percurso, percurso, até aos nossos dias. Não pretendendo fazer aqui uma descrição exaustiexaustiva sobre o seu garboso historial, vamos seguir através destas linhas o caminho lindo percorrido década após década, sempre com personagens dinâmicas e criativas criativas, nunca esquecendo esse mesmo espírito solidário de que não conseguiu libertarlibertar-se através dos tempos. tempos. A sua apresentação pública teve lugar em 1937, com estreia no dia 21 de Maio, no Cine Teatro Garrett, tendo então como objectivo a angariaangariação de fundos para ajuda de alunos carecidos da Escola Rocha Peixoto. O elenco era na generalidade composto por formandos formandos daquela Escola. Abriu o espectáculo um inspirado discurso do Dr. Minervino TaborTaborda, docente daquela daquela Escola, Escola, a que se seguiu a declamação de um soneto escrito a preceito para o momento. SeguiuSeguiu-sese-lhe na palavra o aluno António Terroso Dias, com o propósito propósito de entregar ao Dr. José de Sá uma mensagem solene alusiva à efeméride e que lhe foi oferecida numa bonita pasta de veludo carmesim previamente preparada pelos alunos. Ao professor Domingos Pinho foi também oferecido um exuberante ramo de flores e um bonito relógio de pulso. Noticiava o Comércio da Póvoa de Varzim: “Triunfo Completo – As

récitas do BemBem-fazer. A decantada Maria surgiu na ribalta na passada sextasexta-feira e foi tal o entusiasmo que provocou todo o ensamble, foi tão escassa a plateia para contar contar o número de espectadores que queria assisassisteceetir à primeira representação, foram tão pródigos os elogios que lhe tec ram que para logo ficou ficou assente dar novo espectáculo que se realizou na passada terçaterça-feira…” 25 de Maio. O público vibrou com aquelas apresentações apresentações e os seus promotores logo começaram a engendrar a forma de não deixarem morrer por ali este projecto lindo que, além do mais, lhes proporcionava uma satisfação pessoal que muito lhes agradava, alimentando assim o seu veio artístico que para alguns alguns foi uma gratificante revelação. Todos queriam participar. E, reportandoreportando-se à segunda exibição de 25 de Maio, continuava o Comércio da Póvoa a noticiar noticiar o comportamento da assistência:

“… retumbantes aplausos para actores e actrizes que se encarregavam de dar à opereta todo o brilho e todo o relevo…” ou este trecho, atribuíatribuí23


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do ao professor Leopoldino Loureiro: “…Se o poema era de uma suavisuavi-

dade enternecedora, o entrecho simples como um fiozinho de sentime sentimenmento, a colorir um romance de amor, a música que borda esta opereta é de timbre apurado de grata audição, de ritmo aliciante… Há em Maria números de música que têm o cheiro da framboesa. Outros tão suaves e deleitosos, tão virgilianos virgilianos que recordam o badalar badalar merencório das trintrindades e ainda outras que berram na cor das alvoradas de Junho, em arraiais onde a alegria canta o seu melhor e mais lenitivo hino. O dueto do primeiro acto, a alegria da sueca falada e musicada, a invocação da Maria na cena do cruzeiro, cruzeiro, o ramalhar do Vira e o concertante final do segundo acto são números que jamais esqueceremos…” Continuando no seu percurso de glória, eiei-la de novo em preparação para entrar em cena em Novembro de 1938, desta feita, para auxiliar o Clube Naval, que estava então com uma panóplia de iniciativas que os levava a recorrer a apoios extraordinários que pudessem ajudáajudá-los na sua concretização. DizDiz-nos Luís Costa, que foi proprietário do Teatro GarGarompra de dois rett, que o produto da sua receita serviu para ajudar na ccompra escaleres e dois barquitos à vela, conhecidos por andorinhas. O mesmo Luís Costa terá feito parte, durante muito tempo, da tripulação desses barcos (CPV 23/06/2005 – Para a história do velho Teatro Garrett). Garrett). Foi ali, no Clube, que foram recrutados recrutados muitos dos novos actores para um elenco que necessitava de refrescamento. Dizia então Américo Silva, director do Clube à época: época: “…Maria volta

em reprise toda endomingada, mais garbosa e mais senhoril, com uma encenação primorosa, novos e riquíssimos números de música, cinquencinquenta personagens de ambos os sexos nos coros e um conjunto de artistas que vai deixar assombrados peça, autores e espectadores…” Em 19 de Janeiro de 1939, o jornal A Voz da Póvoa noticia: “Foi com certa expectativa que ansiosamente esperámos o dia derradeiro de ‘A Maria’, no seu segundo ano de vida triunfal… O professor Domingos Pinho, que musicou toda a peça, foi para nós, confessámoconfessámo-lo, a maior revelação da noite. Ora nos transmitiu uma harharmonia doce e terna, com suavidade aliciante, aliciante, ora nos deu uma interpreinterpretação pletórica de emotividade e vibração… vibração… Parabéns ao Club Naval pelo grande êxito de bilheteira.). bilheteira.). Passados uns dias, em Fevereiro de 1939, numa segundaopesegunda-feira, feira, a opereta regressa ao Garrett, uma vez mais para ajudar o Clube Naval. Naval. “…tanto a letra como a música foram enriquecidas com números novos…”. Dado o êxito obtido, logo volta à cena na quartaquarta-feira seguinte. Em 28 do do mesmo mês Maria é apresentada no Teatro Martins SarmenSarmento, em Guimarães, flotiGuimarães, segundo o jornal A Voz da Póvoa, para ajudar a flotilha do Club Naval. Naval. Dizia então o Comércio da Póvoa: “… Maria é um suculento naco do nosso regionalismo aldeão. Surge ali todo o elenco típico celebrado por Júlio Dinis nas Pupilas…” (Pontes Júnior) Júnior) - “…O decrépito Abade, o 24


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Clássico MestreMestre-Escola, o velho Médico, a par do característico Lavrador abastado ou ‘desafogado’ sempre lhano, sempre franco, cuja preocupapreocupação predominante é amealhar no fundo da arca umas centenas de coroas para comprar mais tarde a ‘Carta de Doutor’ Doutor’ para o filho…” Parafraseando Pinto Machado, Machado, jornalista do Jornal de Notícias, Notícias, podia lerinteler-se no Comércio da Póvoa: Póvoa: “… se o teatro português merecesse o inte-

resse superior que lhe é devido e não estivesse à mercê de industriais inteligentes inteligentes que, como industriais, se se preocupam mais com os sucessos de bilheteira que com os sucessos do teatro em si, decerto, o Dr. José de Sá seria seria procurado para dar ao nosso teatro o fruto das suas raras qualiqualidades artísticas e dramáticas…” …“…A sua peça Maria, pela sétima ou oitava vez representada no Teatro Garrett da Póvoa de Varzim, colheria banhissos mesmos aplausos que lhe foram oferecidos pelo povo e pelos banhi tas que tiveram a fortuna de a ver representada…”. Dez anos depois da sua estreia foi apresentada no Teatro Narciso Ferreira, em Riba d’Ave, a favor dum Sanatório para tuberculosos pobres da Póvoa, sonho do Dr. Américo Graça (21.ª Sessão, segundo José dos Santos Marques, in A Voz da Póvoa de15.03.1990). de15.03.1990). Embora não tivéssemos acesso a registos que o confirmem, é de supor que esta apresentação fosse antecedida por outras no Garrett (ou Bombeiros?), tendo em conta o número da da sessão atribuído a Riba d’Ave). d’Ave). Nas décadas de quarenta e cinquenta, foi apresentada em diversos locais: No cinema PóvoaPóvoa-Cine, na Póvoa de Varzim; no CineCine-Teatro Neiva, em Vila do Conde; no Teatro Gil Vicente, em Barcelos; no CineCineTeatro Narciso Ferreira, em Riba d’Ave; e no Cine.Teatro das Aves, em Vila das Aves, Santo Tirso. Em 1955, em cena no Garrett, durante durante duas sessões, contou com a participação do do João Silva, que agora recompôs as partituras integradas neste trabalho. Um outro registo falafala-nos que terá sido apresentada em Quelimane, pela mão de João Trocado. Também o Dulcídio Marques (Cido), cantou a opereta ao longo da sua carreira, pelos mais diversos lugares (ler o seu testemunho). Com o decorrer dos anos, não fora essa essa divulgação, divulgação, Maria quase pairava esqueesquecida no pó das prateleiras, prateleiras, durante largo tempo. tempo. A sua primeira encenação teve lugar em Braga, decorria então o ano de 1961. Foram então apresentadas actuações na FNAT – Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (que, após a Revolução dos Cravos Cravos, daria lugar ao Inatel), assim como nas freguesias bracarenses bracarenses de PalmeiPalmeira, Soutelo e Merelim. Em 18 de Dezembro de 1965 1965, Maria regressa ao ao palco, desta vez no Ginásio da Escola Comercial e complementando a Festa de Natal que então teve lugar. Foi uma homenagem ao ao seu criador, o Dr. José Gomes de Sá, uma iniciativa de de antigos alunos e professores, professores, sendo então apreapre25


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sentado apenas o segundo acto da Opereta (ler pormenores desta homenagem no testemunho da Dr.a Emília Godinho) Foi então que em 1969 a Opereta ganhou um novo fôlego, desta vez para apoiar o Patronato de S. José. Renovada no seu elenco, do qual faziam parte figuras conhecidas dentre a população poveira poveira, tendo como encenador Albano da Silva Ribeiro, Maria vem para a ribalta rejuvenesrejuvenescida, tendo apresentado em poucos poucos meses sete espectáculos: as duas primeiras sessões (27ª e 28ª) tiveram lugar nos dias 18 e 20 de Junho, respectivamente. A 29ª. Sessão, Sessão, no no Teatro Vale Formoso, no Porto, a que se seguiram duas novas sessões, (30ªe 31ª) em 7 e 21 de Julho seguintes. Logo em Outubro, nos dias 23 e 24, foram à cena mais duas sessões (32ª e 33ª), 33ª), desta feita a favor do Clube Naval e do Varzim Sport Clube. Clube. Sete sessões, sete casas cheias, sete grandes sucessos. Momentos memoráveis para o teatro popular poveiro. Em 3 e 4 de Julho de 1979, 1979, de novo em palco, desta vez a favor dos Cénico daquela corporacorporaBombeiros da Póvoa, Póvoa, organizado pelo Grupo Cénico ção. ção. Encenação de Albano Ribeiro. Dizia, então, Armando Marques (Póvoa Semanário 06.09.2009): “IniciamIniciam-se ensaios para levar à cena no Garrett, pela enésima vez, a

opereta opereta “Maria” Maria” da dupla Dr. José de Sá e Prof. Domingos de Pinho (meu professor na primária) para angariação de fundos a favor dos Bombeiros. Foi mais uma vez um sucesso a comover os poveiros, como sempre acontecia. À canção da ceguinha ninguém resistia e as lágrimas corriam corriam pelas faces.” Em 26 de Maio de 1984, uma nova encenação do Cido, desta feita, para comemorar o 80º aniversário do Clube Fenianos Portuenses, no Salão Nobre daquele clube, sendo então protagonistas os elementos que compunham o Grupo Amizarte Amizarte, um grupo de amigos que se dedicou durante algum tempo a actividades de expressão artística variadas. Este clube acabou por levar à cena por diversas vezes a Opereta. Em quatro de Julho desse ano, no âmbito da Festa da Música, em Santo Tirso, Maria foi apresentada no átrio da Câmara Municipal. Municipal. Em 19 de Abril de 1986, volta à Póvoa de Varzim, Varzim, encenada pelo Cido, no âmbito das comemorações dos 23 anos da Santa Casa da MiseMisericórdia da Póvoa de Varzim, desta vez, no Salão Varzino do MonumenMonumental Casino, Casino, pelo Grupo Amizarte. Ainda em 30 de Outubro desse ano, foi levada ao Auditório Nacional Carlos Alberto, no Porto, espectáculo a favor da Caritas Diocesana PorPor-

tuguesa. Por fim, nos dias 9 e 10 de Junho de 1996, 1996, duas novas novas sessões sessões foram a palco, uma vez mais a favor da Santa Casa da Misericórdia que estava a comemorar os 240 anos da sua criação. Providencialmente, uma dessas sessões foi integralmente gravada, possuindo os autores e a Universidade Sénior um registo em DVD dessa gravação. 26


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Terá sido essa a última última encenação do Cido? Temos esperança que não! Queremos que não! Queremos vêvê-la, de novo, em cena. Quando? O tempo se encarregará de o mostrar, tenhamos confiança! Passados todos estes anos, o espírito de de Maria continua vivo, vivo, sendo recordada recordada com saudade por todos aqueles que nela participaram, ora como actores, ora como figurantes ou assistentes e é frequente aqui e acoacolá, em convívios ou reuniões de amigos, ouvirouvir-se trautear ou cantar as linlindas melodias gravadas na mente de muitos e que a vo voracidade do tempo jamais apaga. apaga. Muitas daquelas daquelas músicas foram e são ainda hoje divulgadas por todo o mundo através da acção do Rancho Folclórico Poveiro. Poveiro. Por todo este trajecto lindo, a Opereta Maria merece o nosso carinho, a nossa ternura, ternura, a nossa estima. Obrigado, Mestres José de Sá e DominDomingos de Pinho. Compilação Compilação de J. L. Sepúlveda

Nota dos Autores: Autores: Este registo é passível de incorrecções ou omissões que queremos aqui ressalvar. ressalvar. Foi escrito com base em notícias de jornais locais. locais. Por outro lado, com recurso a depoimentos pessoais, pessoais, escritos ou transcritos de memória e, e, por isso, sujeito a lapsos e imprecisões tendo em conta até a longa distância de tempo então decorrida. Mesmo correndo esse risco, achamos que deveriam ser aqui aqui referidos.

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Resumo Musical Primeiro Acto Abertura do Primeiro Acto Meditação O Meu Sonho Jogo da Sueca Fado do Soldado Terceto dos Criados (cómico) Coro de de Trabalhadores Canção do Amor

Segundo Acto Prelúdio do Segundo Acto Coro de Abertura do Segundo Acto Samba (canção Brasileira) Soldado e Sopeira (dueto) Bolinhos de Amor Sempre em Pé Marcha dos Grandes Vira Súplica Final do Segundo Acto (coro)

Terceiro Acto Prelúdio do Terceiro Acto Coro de Abertura do Terceiro Acto Canção da Ceguinha Canção do Amor Guida e o Magala Canção de BoasBoas-Vindas (saudação) Brinde ao Amor

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Cartaz das Sess천es de Outubro de 1969

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Personagens Pai Mãe José (filho) Maria Joãozinho (filho) Luizinha (filha) Abade Doutor Professor Regedor Joaquim (criado e soldado)) António (criado) Joaquina (criada) Guida (criada) Manuel (criado) Rapaz Manuel (aldeão) Elisa (aldeã) Francisco (aldeão) Rita (aldeã) Rosa (mãe do João) João (filho da Rosa) Velhota Rapaz da Cega Cega Figurantes: - Raparigas - Rapazes

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Alguns Elencos Personagens Luís (pai) Joaquina (mãe) José (filho) Maria Abade Doutor Professor Regedor Manuel (criado) Joãozinho Luizinha Joaquim (soldado) Rosa (criada) Deolinda (criada) António (criado Joaquina) (criada) Elisa (camponesa) Rita Francisco Manuel Rapaz Guida (criada) Tia Rosa João da Quinta Manuel (camponês) Rosa (Ceguinha (Ceguinha) Ceguinha) Rapaz Velhota Criada Elisa Criada Rita Criada

1937 Edmundo Malhão M Augusta Oliveira Manuel Barbosa Eugenia Correia Ant.º Terroso Dias Liege Manuel Santos Manuel João Silva João M. Pinheiro

1939 Edmundo Malhão M Augusta Oliveira Manuel Barbosa Felismina Silva Ant.º Terroso Dias Liege Manuel Santos Manuel João Silva João M. Pinheiro

19471947-1955 João Fernandes M Lurdes Marques António Guimarães Elvira Ferreira Osório Graça Carlos Calafate Assis Marques Manuel João Silva Leopoçdino Alves

Ernesto Pinto

Ernesto Pinto

Ernesto Pinto

Manuel M. Areias

Manuel M. Areias Maria Silva João Bicho

Maria José Areias M Céu Mesquita

Maria José Areias M Céu Mesquita

Albina Marques Maria das Dores João Calafate

Mavilde Areias

Mavilde Areias

M Fátima Veloso Dulcídio Marques Junila Gomes Rita Marques

Outros Figurantes Ensaiador Contra--regra Contra Cenários Ponto

1969 Bernardino Fiel Albina Pinheiro Nelson Mateus Virgínia Cadilho Isidro Ferreira Antero Cadilhe Henrique Veloso António Marques José Goiana José Luís Sá Albertina Marques Dulcídio Marques Maria La Salette Cármen Ribeiro J. Manuel Marques Ana Maria Cadilhe Maria Cacilda Lima M. Helena Nunes Estevão Santos Ant. José Marques Renato Pinheiro Ricardina Andrade M Lurdes Marques José Manuel Costa Emanuel Pacheco Angelina Pinheiro José Alberto Moura M. Arminda Pontes Maria Jesus Silva Ana Maria Pinheiro M Fátima Craveiro

1996 1996 Humb. Fernandes Albina Marques João Barbosa M. Dores Castro Albino B. Lima Antero Cadilhe Joaquim Pacheco Assis Marques Eduardo Faria Luís Carlos Sara Marques Dulcídio Marques M. José Carvalho António Costa M. Martinho

Manuel Reina C. Magalhães L. Pontes Eurico Ferreira Lina Maria António Armaud Adelaide (Avanca) Fernanda Moura Arminda Novo Gabriela Rosa

Diversos António Maio Graça J. Marques José Malhão

António M. M. Graça José Malhão

Albano Ribeiro Virgínia e Belmiro Isaac Romero H: Fernandes

Dulcídio Marques Olindo Sousa António Marques Filomena Pinto

P.S.: Nestes elencos, colhidos a título precário, em listagens incompletas ou através de testemunhos de algumas pessoas, podem existir erros ou omissões que aqui ressalvamos.

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Enredo A acção decorre numa bela aldeia de Portugal, do Alto Minho. Uma dessas terras paradisíacas onde tudo é simples, numa simbiose perfeita entre o verde repousante da paisagem, o cristalino das águas puras e seu povo laborioso, bom, que sofre às vezes, mas também ri, canta, baila, vive e faz viver em pás e felicidade. Ele – José – rico, filho dos donos da casa, doutor; ela – Maria – órfã, pobre, boa, recolhida por caridade pelos pais dele. São criados como irmãos, mas… um dia, descobre que que a amizade de irmãos cede lugar ao amor – cândido e puro – que há muito os une e só agoagora descobrem (…desde o dia em que descobri que o amor substitui a amizaamizade de irmãos reclamando direitos…) Poderá o filho doutor casar com aquela que foi recolhida por caridade? caridade? Deixará o pai, homem bom mas orgulhoso, com grandes planos para o futuro do seu filho médico, duro, de feitio difícil, ceder para felicidade de ambos? Que farão a mãe, terna e dedicada; o abade respeitado, conciliador e bom; o médico resingão, resingão, agreste mas amigo; o professor inconformado, concontestatário mas interessado por todos; o regedor rústico mas atento ao bem comum? Convosco, a Opereta Maria. A. M. Barros Marques

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Cena do Primeiro Acto

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Cena I A cena representa uma lareira de casa de lavradores ricos. Segundo a velha usanusança, estão duas mesas. Numa come a gente, ou antes, a família da casa. Na outra, criados e criadas, enfim, todo o pessoal. levanta taO pano sobe na altura em que a ceia acabou. O pai levan ta-se e com ele todos para, segundo o velho costume, dar graças a Deus.

Meditação Música N.º 01 Pai Santas graças e louvores damos ao Senhor Perla Sua bondade e infinito amor Por nos ter dado de comer e de beber Sem que tenhamos feito por o merecer Mãe E vós, Senhora minha, Santa Mãe de Deus Tende piedade, rogai por nós nos céus Para que sejamos, pois, dignos, contritamente, contritamente, Das promessas de Cristo. Ámen, Eternamente. Pai (após ter dado a bênção a todos os filhos) Boa noite. Deus seja louvado. Todos Ámen Ámen. en. Muito boa noite. Pai E agora, cada um às suas ocupações. É preciso que o bom sol quando nascer nos encontre a todos prontos para lhe darmos os bons dias. E tu, José, vai ajudar os homens, enquanto a tua mãe e a Maria adormecem os pequenos. José Sim, meu pai. Mas não me demoro. Pai Podes hoje demorardemorar-te um pouco mais. Temos de decidir definitivamente do teu futuro e convém até que não estejas presente. E tu, ó Manuel, olha olha--me por aqueaquela batata do Casal. PareceuPareceu-me que o mal quer entrar com ela este ano… ano… e aquela terra é o mimo cá da casa. Manuel (criado) Nada Nada por minha culpa, meu patrão. Trato dela com mais cuidado que de mulher minha, se a tivesse. 37


Opereta Maria

Pai Bem sei que és cuidadoso. Mas, assim que a rama começar a amarelecer, avisaavisame, ouviste? Manuel Fique descansado, meu patrão. A batata só não vem boa se Deus não quiser. quiser. Pai E vós, tratai do gado. TrataiTratai-o bem que neste tempo bem merece o que come. Todos Boa noite (saem)

Cena II (Pai, Mãe, Maria e os pequenos) pequenos)

Mãe Então, é hoje que resolveis a sorte do pequeno? Já não é sem tempo! Pai Começo a compreender que tens razão. Éramos só nos quem devia escolher a carreira do rapaz. Mas que queres? São todos amigos da casa e sempre são pespessoas de melhor entendimento do que nós. Mãe Pois sim, sim, mas o caso é que o tempo vai passando e eles nunca mais chegam a acordo. Estou na minha. Chama o rapaz e ele que diga a carreira que quer seguir. Nós só temos que ver se o que está na arca chega pira o levar ao fim. O resto é com ele. Teu coração, teu mestre. Pai Tens razão, mulher, hoje ou se decidem ou eu sigo o teu conselho. Mãe Nunca te deste mal com eles. E já lá vão vinte anos. Pai Vinte anos! Parece que estou a verver-te ainda a sair da Igreja, linda como uma manhã de sol, mais rubra ainda que a rosa que levavas no teu peito. LembrasLembras-te da doçura com disseste, logo que ficamos sós: Para sempre!? Mãe Olha o velho doido! Juízo, que esta touca de neve pede respeito. Vai, vai ver se os homens têm tudo pronto, enquanto eu acabo de arrumar isto com a Maria,

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Opereta Maria

adormeço os pequenos e ponho a mesa pronta p’ra vocês se descomporem à vontade. Pai Tens razão, vou dar uma volta no eirado (sai).

Cena III (mãe (mãe, ãe, Maria e os pequenos)

Mãe Vê se adormeces os pequenos enquanto eu acabo de arrumar. Bem sabes que estão sempre à espera da tua música e da tua história. Maria Sim, mãe. Vamos lá, João, anda lá, Lui Luizinha. Que história vos heihei-de contar hoje? Joãozinho ContaConta-nos aquela da fada linda que salvou a princesa das garras do dragão! Luizinha Essa não que me faz medo. medo. Conta antes aquela do rei muito rico que casou a filha com o pobrezinho que a desencantou. (disputam e zangamzangam-se). Maria Não se zanguem, meus amores, que é feio. VouVou-vos contar uma história nova, uma que vós nunca ouvistes. O meu sonho… Mãe Quietos e caladinhos se quereis música para adormecer. adormecer. Maria Vá, meus amores, atenção.

O Meu Sonho Música N.º 02 Numa aldeia portuguesa Cheia de cor e beleza Entre rosas de toucar Tão linda moça vivia Que o povo todo dizia Ter descido dum altar Na graça do seu perfil 39


Opereta Maria

No seu corpito gentil, Na doçura do olhar, Não havia com certeza Quem à linda camponesa Se pudesse comparar

Era um corpito de santa Tão gentil Só feito para adoração Mas de gelo o coração Vinham de longe rapazes Nas lutas do amor audazes P’rá conquistar à porfia E batiam sem apelo Nessa muralha de gelo Que o coração lhe cobria Mas toda a aldeia espantada Um dia a viu transformada, As faces com outra cor Viu mudar sua alegria Em estranha melancolia Era enfim um sol de amor

E àquele àquele coração frio e gelado Que nunca sentiu calor Chega enfim a voz do amor (a meio da música entram falando o Abade e o Pai, mas a mãe apontaaponta-lhes o quadro e impõe silêncio) silêncio)

Cena IV (os mesmos, o Pai e o Abade) Abade)

Abade Que lindo quadro! Como Deus sabe pagar bem a vossa caridade! Bem orgulh orgulhoosos vos devíeis sentir se fosse vossa filha. Mãe Já há muito me esqueci de que não é. Pai Não lhe queríamos mais, se o fosse! 40


Opereta Maria

Maria Pronto, já dormem. Quem me ajuda? Pai Eu. Deixa que os levo só.

Maria Olhe que pesam muito! Abade Os anjos com que eles agora estão sonhando também ajudam. Maria Com licença, senhor Abade, Abade, vou despidespi-los e deitádeitá-los. Mãe Eu vou ajudarajudar-te Maria Não é preciso, mãe, eu cá me arranjo sozinha. Pode ficar a fazer companhia ao senhor Abade. Abade. Mãe Aí vem já o teu pai. Os homens entendementendem-se melhor uns com os outros. (saem

as duas)

Cena V (Abade e Pai. Pai. O Pai vai junto da mesa para ver se está tudo em ordem para a partida da sueca)

Pai Pronto, Pronto, meu Abade, Abade, o terreiro está em ordem, faltam só os puxadores. Abade Devem estar a chegar. O Doutor já ceou há muito. ViVi-o passar no caminho da Igreja quando vinha para cá. Quis ver a tia Rita do Eirado, que está cada vez pior. Pai Naquela idade, as doenças de coração são todas más. Abade Não é só nos velhos que elas são perigosas…

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Opereta Maria

E tem graça, é também por causa duma doença de coração - mas de gente nova! que eu vim mais cedo. cedo. Vem cá, Luís, tenho de falarfalar-te dum caso muito sério. SentaSenta-te. Pai Nos moços, a doença de coração chamachama-se amor… e isso é coisa séria! Abade É isso, é isso mesmo. Ainda te lembras, seu maroto. Pai E o nosso Abade não se lembra porque tem fraca memória. memória. Dizem que antes de tomar ordens… Abade CalaCala-te, Luís, não lembres pecados velhos porque Deus já me perdoou. Vamos direitiiao nosso caso… E como tenho pouca habilidade para estas coisas, vou já direit nho ao fim. Que pensas fazer da Maria? Pai AssustaAssusta-me, senhor Abade, Abade, a que vem a pergunta? Abade Ó homem, não vale a pena. TrataTrata-se dum rapaz que tu conheces, um rapaz sério, que pelos modos gosta dela e que me pediu para te “apalpar” sobre o assunto. Não deves esquecer que ela vai fazer dezoito anos anos e os tempos não vão, infelizinfelizmente, muito de feição para freiras. Pai E a Maria sabe disso? Abade Não, homem, descansa. O rapaz nunca em tal lhe falou e não falará, creio, se não for do teu agrado. Pai E quem é o rapaz, pode sabersaber-se? Abade Pode, não não é segredo. É o João da Quinta .

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Cena VI (entra a mãe e fica no fundo ouvindo a conversa)

Pai Eu lhe digo, senhor Abade. Abade. Quando o meu compad compadr adre José, o pai da Maria, veio do Brasil - lembralembra-se? – vinha rico e a casa do pai que ele vinha receber já era uma das melhores casas da freguesia. Fomos como irmãos em rapazes, e a fortufortuna não o tornou soberbo nem orgulhoso. Como irmãos continuamos desde que chegou e algumas vezes, nos primeiros anos de casado, ele ele me valeu com o seu crédito no banco da cidade. Abade Sei tudo, sei tudo isso. Pai Mas oiça, senhor Abade, Abade, que é preciso para me compreender. Vem o desastre do banco e ele, coitado, ao contrário de tantos, nem sequer salvou do naufrágio a casa que tinha tinha recebido do pai. Não salvou.. salvou... porque não quis. Abade Porque era honrado. Pai Como poucos, pode dizer. Mas o desgosto matoumatou-o… e a companheira lá o seguiu dois meses depois. A Maria ficou então com sete anos. Só, no mundo… e na mais negra miséria! A minha minha casa foi desde então a sua e desde então tamtambém, eu e a minha mulher tudo fizemos para que ele se não sentisse nunca em casa alheia. Abade Bem sei, tudo é verdade. Mãe Pode jurar, senhor Abade. Abade. Abade Estavas aí, Joaquina? (levanta(levanta-se) Mãe Ia a passar, vi que falavam da Maria e… fiquei. Adivinho do que se trata e conticontinuo… Bondosa sempre e inteligente, não tivemos até hoje um só instante de arrependimento pelo que fizemos. fizemos. EducamoEducamo-la na cidade até onde os nossos recursos chegaram e até quando quando ela quis. QueroQuero-lhe muito. Não a distingo dos meus filhos, nem mesmo no querer, Deus me perdoe!

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Abade Bem sei. Conheço tudo isso. Mas o meu caso… Pai O seu caso, meu querido Abade, Abade, morreu aqui. O João da Quinta é rapaz sério, bem sei, mas não merece a minha Maria. Não, não falemos mais no caso. Mãe Olha que é melhor mesmo porque já aí vêm os parceiros (sai). (sai).

Cena VII (os mesmos, o Doutor e o Professor) Professor)

Doutor Ora Deus esteja aqui e o demónio… Abade Resolveu ficar em sua casa porque não lhe agrada a companhia do Abade. Abade. Professor Ora toma! Pai Então, hoje pegam logo à entrada? Doutor Bem sabe, meu caro Luís que a ciência é incompatível com a Igreja. A ciência conclui e fulmina… Abade A Igreja reza e perdoa. Professor Ciência…, mas que ciência? A medicina não é uma ciência… é uma arte! Doutor A arte de matar os tolos, como você! Professor É exercida, senhor Doutor! Doutor! Senhor Doutor, Doutor, olhe que eu faltofalto-lhe ao respeito! Abade Então, meus amigos, tratemtratem-se com mais caridade.

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Doutor Já começa você também com as suas gracinhas de santo. Não somos todos do seu rebanho, ouviu?

Abade Mas ainda devemos querer, segundo a Igreja, às ovelhas transviadas. Professor Por isso te quero tanto, que tantas mágoas me dás… lá diz a cantiga.

Pai Tão bons amigos e sempre a fingirem de zangados. Já é mania. Ora, meus senhores, vamos lá à partidinha e uma só, porque temos muito que falar. Professor Antes, tenha paciência, senhor Luís. DêDê-nos um copo daquele branco do Eirado, a mais maravilhosa obra do homem… Abade É de Deus. Pai Pronto, é um instante, já cá estava à mão. (enche os copos) Doutor Cura de todas as doenças, eu te saúdo. Professor Alívio de todas as dores, eu te bendigo. Abade Porque dás paz aos homens, eu te abençoo. Pai Para os ver assim felizes, eu nunca o vendo. Abade Bem. Vamos lá ao grande prémio. prémio. Deito reis? Doutor Não, não vale a pena. Já sabe que a ciência só pode aliaraliar-se ao trabalho. Com padres e funcionários públicos não me entendo. Professor Senhor Doutor, Doutor, senhor Doutor, Doutor, já começá começámos?

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Opereta Maria

Pai Vai outro copo? Abade Sente--se lá, senhor Professor. Não, isto é doença incurável e só requer paciência. Sente Professor. Baralha, Luís… Luís… Parta (dirigindo(dirigindo-se ao doutor)… (dá as cartas) cartas).

Jogo da Sueca Música N.º 03

Pai Doutor Pai Abade Professor Abade Doutor Professor Pai Abade Pai Professor Doutor Professor Doutor Pai Doutor Professor Abade Professor Pai Abade Pai Professor Doutor Professor Doutor Professor Doutor

Senhor Doutor, Doutor, atenção Respeite a minha puxada Mas sou eu quem tem a mão A bisca já vai cortada Isto é a bisca lambida, Não é sueca nem nada ‘Stão a falar toda a vida Mas eu cá não disse nada Não pode ser Isto é demais Vamos a ver se vos calais Vá, ó Doutor, Doutor, Eu não me agacho Senhor Professor fale mais baixo Lá vai um ás p’ra cortar Ó senhor esteja calado O Doutor não quer trunfar Faço o que é do meu agrado Olha que a vaza vai minha Faz o favor de carregar Todos os tentos que tinha Há muito vão a voar Não pode ser Isto é demais Vamos a ver se vos calais Vá, ó Doutor Eu não me agacho Senhor Professor fale mais baixo Já estão seis trunfos fora Isto assim não pode ser Não pode? Hom’ Hom’essa, agora É como estou a dizer Oiça lá, seu mestremestre-escola Mais cuidado no falar 46


Opereta Maria

Professor Pai Abade Pai Professor Doutor Doutor Professor Doutor Professor

Doutor Professor

Abade Professor Pai Abade Pai Professor Todos

Senhor Doutor, Doutor, por esmola, Não comece a insultar. Não pode ser Isto é demais Vamos a ver se vos calais Vá, ó Doutor Eu não me agacho Senhor Professor fale mais baixo Venha a manilha p’ra aqui Vá aprender a contar Fez batota, seu sagui Seu ginja, seu alve alveitar MestreMestre-escola malcriado MataMata-gente, curandeiro Que seria, Deus louvado, louvado, Se jogassem a dinheiro Não pode ser Isto é demais Vamos a ver se vos calais Vá, ó Doutor Eu não me agacho Senhor Professor fale mais baixo

Professor (levantando(levantando-se) Nunca mais. Quem joga assim, joga a bisca com a governanta e não incomoda os outros. Doutor Tome brometos, meu amigo, que isso é nervoso. Professor Isto não é nervoso, é saturação. saturação. Estou farto de os aturar. Pai Então, meus amigos, olhem que acordam as crianças. Abade Dois corações de ouro a fingir que não se entendem. Vamos lá, meus amigos, então? Vamos ao resto da partida. Doutor Hoje estou resolvido a por em cheque o sue talento diplomático. Não jogo mais.

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Opereta Maria

Pai Pois então, meus amigos, fica para amanhã o resto da partida. Agora sentemsentem-se e oiçam. Abade É a mesma história do José? Pai É, senhor Abade. bade. Sempre a mesma, porque não há maneira de nos entenderentendermos, Contudo, o período de matrículas na Universidade está a terminar e nós não decidimos ainda nada. Hoje, porém, tem de ser. Abade Eu cá por mim, mantenho a minha opinião. Médico. Porque… Pai As razões já eu conheço. E o senhor Doutor? Doutor? Doutor Padre. É pão garantido neste mundo. No outro, há lugar no Paraíso. Abade E a vocação? Pai Não discutamos. E o senhor? Professor Advogado. Á força de lidar com marotos, habituahabitua-se a conhecêconhecê-los É o que é preciso. Doutor Ou a ficar igual a eles… Pai (levantando(levantando-se) Bem. Meus senhores, declaro em crise o regime parlamentar. Vou resolver em ditadura. Abade E o que resolves? Pai Decidirei depois da conferência com o meu Ministro das Finanças. É a única opinião opinião que agora me interessa.

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Opereta Maria

Cena VIII (os mesmos e soldado e Joaquina)

Joaquim (da porta) Dá licença, patrão? Pai Que é preciso? Joaquim É que abalo esta madrugada para Lisboa, fiz a trouxa e vinha despedirdespedir-me. Doutor O quê? P’ra Lisboa? Vais formar ministério? Professor Vais aprender a receitar? Doutor A alveitar, é o que você queria dizer. Era o que lhe convinha. Abade Não brinques que o caso é sério, Vai cumprir o seu dever. Pai Vai ser soldado. Entra, rapaz. Doutor Porque não falaste ao Regedor? Regedor? Professor Livrava--te, com certeza. Sim, porque não lhe falaste? Ele agora manda lá na Vila. Livrava Doutor És filho único… E achas que a tua mãe já não sofreu pouco com o teu pai que morreu na guerra? Joaquim Por isso mesmo, senhor senhor Doutor. Doutor. E não me esqueço que ele, morrendo pelas pátrias, pátrias, nos legou como única esperança a obrigação, o dever de morrer também por ela quando for preciso. Abade Ora toma!

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Opereta Maria

Pai Bravo, rapaz, assim é que é falar. Professor Mas… Joaquim Não me convence, senhor Professor. Professor. EnsinouEnsinou-me o senhor Abade que devemos honrar pai e mãe. Isto quer dizer para mim que mal sei ler que devemos guardar e conservar com respeito o nome e os haveres dos que nos deram a vida. O seu nome, o do meu pai, era o de de um trabalhador como eu, e eu tenho conservado sempre honrado, honrado, graças a Deus. Dos seus haveres herdei apenas uma cruz de guerra, ganha numa morte gloriosa, que vou aprender a honrar, porque para mim essa cruz vale mais do que todas as terras desta freguesia. freguesia. Abade Bravo, meu filho, és bem digno do teu pai. Pai Nunca mais me esqueço a carta que o comandante do Regimento em que o teu pai serviu em França mandou à tua mãe. Nunca te esqueças, que eu não me esqueço, que ela entrou aqui para nono-la mostrar, chorosa, chorosa, trémula, louca de dor. Mas quando saiu, depois de a ouvir ler, levava os olhos ainda velados pelas lágrimas, é certo, mas o seu porte era já altivo e orgulhoso como convinha. Era a viúva dum herói! Joaquim (choroso) Obrigado, patrão.

Fado do Soldado Música N.º N.º 04 O soldado português Na vitória ou no revês É sempre o mesmo, é igual. igual. Suceda o que suceder Ele nunca pode esquecer Que nasceu em Portugal Portugal, se a tua história Só tem actos de glória Que mais podes tu querer. Já provaste tantas vezes Como morrem portugueses Quando é preciso morrer. 50


Opereta Maria

Coro Ah ah ah Ah ah ah ah ah Ele Já provaste tantas vezes Como morrem portugueses Quando é preciso morrer

Aonde for experimentada A nossa farda é honrada Seja no mar ou na terra Demonstramos galhardia, Coragem, fé, valentia Ainda na grande guerra Tem no mundo justa fama Quem tem um Vasco da Gama Um Coutinho ou um Cabral Eis porque me convenci Que é honra viver por ti Ó meu lindo Portugal

Coro Ah ah ah Ah ah ah ah ah Ele Eis porque me convenci convenci Que é honra morrer por ti Ó meu lindo Portugal Joaquim (despedindo(despedindo-se) Adeus, senhor Abade, Abade, muita saúde. Abade Adeus, Joaquim amigo, lembralembra-te da tua mãe. Joaquim Não me esquecerei. Adeus, senhor Doutor, Doutor, adeus, senhor Professor, Professor, até breve… Adeus, meu patrão. Pai Vai descansado, que à tua mãe nada faltará. 51


Opereta Maria

Joaquim (saindo) Obrigado. Saúde a todos. Abade Que grande lição, meu caro Professor! Professor! Professor Mas ele tem razão. No povo é que estão de verdade as virtudes da raça.

Cena IX (Abade, Abade, Pai, Professor, Professor, Doutor e um rapaz)

Rapaz Ó senhor Doutor, Doutor, pelas cinco chagas de Nosso Senhor, venha já a casa da tia Ritinha que está mesmo a expedir. Doutor Ainda há bocado a deixei sossegada. Rapaz Acho que ficou muito aflita depois de comer o caldo. O que eu sei é que é uma igreja.. gritaria lá em casa que até se ouve no adro da igreja Doutor Venha daí, Abade, Abade, que isto agora deve ser mais consigo do que comigo. Professor É o coração? Doutor quee há Deve ser o coração que acabou a corda e quer parar. Venha daí também qu que fazer para todos e a noite está um encanto. Abade Até já. À volta passaremos por aqui para saber a decisão. Pai Então, até já (saem)

Cena X Pai Ó Joaquina, vem cá, se fazes o favor (Joaquina entra). entra). SentaSenta-te e ouve. (depois da mãe estar sentada). Ó Manuel, chama aí o menino José que deve estar para a eira com os homens. DizDiz-lhe que venha cá, que lhe quero falar. 52


Opereta Maria

Mãe Sempre vais consultáconsultá-lo? Pai É a única maneira de decidirmos. Agora, como sempre, tinhas razão. (beija(beija-a).

Mãe Tanto tempo tempo gasto! E agora, não será tarde? Pai Não, não é. Ponto é que o rapaz se decida… (que nós decidamos) e segue já no comboio da manhã para a cidade com uma carta para o nosso compadre Morais que tudo apronta e remedeia. (entra o José)

Cena XI (Pai, Mãe e Filho)

Filho Pronto, meu pai, chamou? Pai Vem cá, José, sentasenta-te e ouve, porque tens de decidir hoje e já do teu futuro. José Tudo o que o pai e a mãe decidirem, está certo para mim. Mãe Ouve o teu pai, filho, é melhor. Pai É certo que tens sido sempre sempre obediente e cumpridor, bom filho. Mas agora és um homenzinho já e tratatrata-se de escolher a tua carreira. Tens de ser ouvido. Filho Mas, meu pai… Pai Escolhe o que entenderes. Devem estar na arca algumas libras que o meu suor e as canseiras da tua mãe ali amealharam e que devem chegar para tirares o curso que preferires, sem grandes cuidados. MentiaMentia-te, porém, se não dissesse que entre todos há um que me entusiasmava e que gostaria que escolhesses. 53


Opereta Maria

Filho Médico?! Médico?! Pai É esse mesmo. Como adivinhaste? Filho Porque o ouvi dizer aqui muitas vezes. Os males aumentam, a pobreza não diminui e a velhice vai já fazendo os seus estragos ao nosso Doutor. Doutor. Era bem preciso ir preparando alguém para o ajudar. Mãe E queres ser tu esse alguém? Filho Sim, minha mãe, sem sacrifício, até com alegria. ObedeçoObedeço-vos e obedeço ao meu coração. Mãe Querido filho! (beija(beija-o) Pai (levanta(levanta-se) És bom e dásdás-me uma grande alegria. E agora, Joaquina, dá ordem para que tudo fique pronto hoje. (para o filho) Tens de partir amanhã de manhã. Filho Já amanhã? Pai Sim, José, tem de ser e se demorares podemos perder o ano. Eu vou escrever ao compadre para que cuide de ti e para que nada te falte. (Sai). (Sai).

Cena XII (Mãe, filho, Maria e criados)

Mãe Maria, ó Maria, vem cá depressa. E tu, José, vai dizer ao António que traga para aqui a mala grande do teu pai. Filho A que eu levava para o colégio?

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Opereta Maria

Mãe Não, filho, essa p’ra agora é pequena. A outra grande que está no sótão. (o filho sai)… sai)… (Para duas criadas que entram) Tu, Rosa e tu, Deolinda, Deolinda, acendei os ferros e toca a passar as camisas e a roupa do menino, menino, que estão a secar na eira. Vamos, tem que ficar tudo pronto hoje. Maria (que entra) A que vem tanto alvoroço, mãezinha? É um príncipe que chega? Mãe Não, menina, é um príncipe que parte. É mais triste! Maria E quem é, pode sabersaber-se? Mãe É o José que vai para o Porto. Maria Quando? Mãe Amanhã pela manhã. Maria Já? Que pressa! (amuada) Mãe E irá a tempo? Deus permita que sim. Maria (à parte) É já tão tarde, para para mim… (triste, sai)

Mãe Entra, António, pousa aí junto da mesa. (sai)

Cena XIII (entram dois criados com a mala)

António Uff! patroa, que ela pesa como a Arca de Noé (limpando o suor)…. (aparte para uma criada que está junto dele e que trouxe a roupa) Cabíamos os dois juntinhos dentro dela e ainda ficava mala. Primeira Criada (para o criado António) P’ra pores a palha que havias de comer pelo caminho. 55


Opereta Maria

António Se tu quisesses, quisesses, màzona, Por esses olhos… Primeira Criada O que é que você dava? António Um mundo… Primeira criada De promessas… Vá bater a outra porta que não mora aqui quem você quer.

Terceto de Criados Música N.º N.º 05

1º Criado Criada 2º Criado Criada

1º Criado Criada 2º Criado Criada 1º Criado Criada 2º Criado Criada

Se tu quisesses, Jaquina Que feliz podias ser Não me sirvo da tigela Onde outras outras vão beber Mas eu podia jurar Que seria sempre teu Um santo que cá havia Um santo que cá havia DeuDeu-lhe um malzinho e morreu ChegaChega-te a mim Eu não vou nisso Antes a mim Olha o enguiço Não sejas sejas má A mão é minha Deixa apertar Não faças caso Tira a patinha

Os 2 criados

Amor, amor Louca paixão Que trago aqui No coração Amar é bom, Amor, quem dera, Como um sorriso Como um sorriso Da primavera

1º Criado

Jaquina, não sejas má Olha que eu morro por ti 56


Opereta Maria

Criada 2º Criado Criada

Os 2 criados

O morrer de amor não custa, Morra que eu rezo por si Rejeitas o que te ofereço E dardar-te tudo queria É que sendo a esmola grande É que sendo a esmola grande Sempre o pobre desconfia Amor, amor Louca paixão Que trago aqui No coração Amar é bom, Amor, quem dera, Como um sorriso Como um sorriso Da primavera (os criados saem.) saem.)

Cena XIV (Maria e Mãe) Mãe)

Mãe Vai tu arrumando essa roupa na mala, Maria, enquanto eu vou ver se as raparigas se mexem. P’ra isto tens mais jeito. jeito. (sai)

Cena XV (Maria e depois José)

Maria (só) Tinha de ser. Estava certa a história. (canta os dois últimos versos do N.º 02) José (da porta) Estás só, Maria? A Mãezinha? Maria (surpreendida) Saiu. Foi lá acima ajudar as moças. José (entrando) Ainda bem, Queria falarfalar-te a sós antes de partir. 57


Opereta Maria

Maria (à parte) parte) Meu Deus, que quererá ele? (cá fora, ouvemouvem-se os trabalhadores, cantando)

Coro dos Trabalhadores Música N.º 06 Minho verde, trigo loiro, Tanta canseira e cuidado Deste pedaço de terra Com nosso suor regado. Desce a noite, foifoi-se o sol E com ele a luz que havia; Descansa, trabalhador, Que amanhã também é dia. José Ouves, Maria? São os trabalhadores que cantam a alegria de um dia bem ganho. Como são felizes! Deus sabe quando os tornarei a ouvir. Maria (fingindo(fingindo-se indiferente) Que tristeza aí vai, meu Senhor! São saudades da aldeia? (irónica) Olhe que a cidade é o movimento, movimento, o ruído, a vida! José (com entusiasmo) Na aldeia, o silêncio serve para melhor se ouvir os colóquios de amor. Até o sol aqui anda mais namorado na terra. Vem vêvê-la todos os dias. Todos os dias a beibeija. Maria Estás poeta? José Não brinques, Maria, ouve. Vês além o rio como vai gemendo a sua dor, bate batenndo de pedra em pedra, a caminho da morte, no mar? Vai perderperder-se na sua imenimensidão e as suas águas, aqui límpidas e tranquilas, são lodo lá, escuras e revoltas. Maria Mas, Deus, a que vem isso? 58


Opereta Maria

José Ouve Ouve. Também eu iria assim, se não levasse aqui, bem viva, no coração, a minha Senhora da Guia.

Maria Quem? José Tu! Maria Eu? José Tu, sim, por quem e para quem vivo. Ali, lá longe, para onde quer que vá, hoje e sempre, só vejo e verei com os teus olhos, Sabes o que é isso? Maria O que é?

José Amor! Maria Ó, sim, amor!

Canção do amor Música N.º 07 José

Há tanto tempo, Maria, Que este segredo trazia A encherencher-me o coração Maria

Tens assim desde menino O coração pequenino Cabe na palma da mão, José

Mas é teu desde essa hora, Vê como o tratas agora, AqueceAquece-o, dádá-lhe calor. 59


Opereta Maria

Maria

AceitoAceito-o porque é teu, Vou pôpô-lo junto do meu Que está cheiinho de amor.

Os Dois

Amor, estranha sensação Que faz o coração sonhar Amor, estranha simpatia Que nos faz de alegria chorar Amor, estranho sentimento Que faz doce tormento sofrer Amor, estranha simpatia Que nos faz de alegria chorar, Amor, palavra doce e querida Que faz estranha a vida, viver. viver. José

Bendita sejas Maria P’lo que me dás de alegria, De coragem e de fé. Maria

Pelo bem que me fizeste Pela graça que me deste Bendito sejas, José. José

Maria, quando eu partir, PrometePromete-me que háshás-de ir Rezar por mim ao Senhor Maria

HeiHei-de pedirpedir-lhe daqui Que vele sempre por ti E proteja o nosso amor Os Dois

Amor, estranha sensação Que faz o coração sonhar Amor, estranha simpatia Que nos faz de alegria chorar Amor, estranho sentimento Que faz doce tormento sofrer 60


Opereta Maria

Amor, estranha simpatia Que nos faz de alegria chorar, Amor, palavra doce e querida Que faz estranha a vida, viver. (no final da música a mãe entra com roupa para meter na mala. Vê e adivinha o que se passa. Fica perto da porta)

José Eis o segredo que me enchia a alma… Maria Como eu te quero também, meu José! E partes! A ausência tudo fará esquecer. José Não sejas tonta. Nada importa a ausência para quem ama. Quem ama tem semsempre presente o culto do amor. A distância é para o amor o que é para a sombra o sol. Aquela é tanto maior quanto mais o sol se vai distanciando. Maria Tens razão. A ausência é para o amor o que é para o fogo o vento, se é pequeno, extingueextingue-se, se é grande, ateiaateia-o. Vai, meu José, já não tenho medo.

José Para o Amor, Maria, não há antes nem agora. (ouve(ouve-se de novo lá fora o coro dos tratrabalhadores). Há só uma palavra: eternamente. eternamente. Mãe Então, Maria, vamos a por o resto na mala. (coro dos trabalhadores) José (surpreendido pelo aparecimento da mãe) Perdoe, mãezinha, vou despedirdespedir-me dos rapazes. Mãe Vai lá, meu filho. (para Maria). Vamos nós. Maria Não posso mais, mãezinha (chorando) (chorando). Dê Dê-me a sua bênção. Mãe Deus te abençoe, minha filha, ou antes, Deus vos abençoe, meus filhos. Desce o pano lentamente.

Fim do primeiro Acto 61


Opereta Maria

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Opereta Maria

Cena do Segundo Acto

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Opereta Maria

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Opereta Maria

A cena representa um largo da aldeia com um cruzeiro típico que fica ao centro, Rapazes e raparigas estão atarefados em decorádecorá-lo porque é dia de festa.

Coro de Abertura Música N.º 08 Cheira a flores, que perfume Anda espalhado no ar Vem toda a gente p’ra ver Sair Jesus do altar Há galhardetes no ar Tapetes pelo caminho Cheira a Igreja e toda a aldeia A rosas e rosmaninho Coro Meninas Rapazes Meninas Rapazes Meninas Rapazes Meninas Rapazes

Aqui nos rendemos, Aqui nos rendemos, Senhor, nosso preito, Senhor, nosso preito, Mas daidai-nos em troca Mas daidai-nos em troca Um rapaz de jeito Meninas de jeito

Meninas Rapazes Meninas Rapazes Meninas Todos Todos

Vós podeis, Senhor, Vós podeis, Senhor, ‘Stá na vossa mão, ‘Stá na vossa mão, Valei a meus males Valei a meus males São do coração

‘Stá em festa toda a aldeia Brilha Brilha o sol com mais fulgor Trocam pares de namorados Lindas promessas de amor Velhos, moças, raparigas Andam todos à porfia Tudo brinca, tudo ri Tudo baila nesse dia Coro Meninas Rapazes Meninas

Aqui nos rendemos, Aqui nos rendemos, Senhor, nosso preito, 65


Opereta Maria

Rapazes Meninas Rapazes Meninas Rapazes

Senhor, nosso preito, Mas daidai-nos em troca Mas daidai-nos em troca Um rapaz de jeito Meninas de jeito

Meninas Rapazes Meninas Rapazes Meninas Todos Todos

Vós podeis, Senhor, Vós podeis, Senhor, ‘Stá na vossa mão, ‘Stá na vossa mão, mão, Valei a meus males Valei a meus males São do coração

Cena 1 Manuel (aldeão que está sobre uma escada) Eh lá, Elisa, em que pensas? Manda cá p’ra cima balões que já estou farto do poleiro. Elisa Pois olha que só ganhas em estar aí. Aí em cima ainda passas. Aí pareces um periquito… e empoleirado cantas melhor. Francisco Sim, cá em baixo ao pé das moças é um passarão de respeito. Elisa É um melro de bico… Manuel Deixa lá a cor do bico e passa para cá os balões que é o que preciso. preciso. De resto, todos sabem que andais doidinhas por mim. Eu é que estou farto do cheiro de alfazema. Agora, só perfumes caros. Rita Alto lá, senhor pavão, não arme o rabo que pode cair com o balanço. Francisco Lá bazófias têm ele mas é só p’ra caça grossa. grossa. Quando tenta a caça fina, perde os tiros todos.

Elisa Que é lá isso? Conta à gente! 66


Opereta Maria

Francisco Ele bem me entende. Manuel Vá lá de conversas e nada de gracinhas, ouviste, ó orelhudo? Vê lá se queres que te depene uma asa. Elisa Pronto! Lá caiu o monco ao peru. Coitado! (todos riem)

Cena II (os mesmos, o Abade e o Regedor) Regedor)

Todos Bons dias, senhor Abade. Abade. Bons dias, senhor Regedor. Regedor. Abade e Regedor Bons dias. Regedor Eh, rapazes, isto p’ra aí vai muito atrasado. atrasado. Lá em cima, a Comissão da Igreja, já ao romper da manhã, tinha tudo pronto! Abade E o largo está um amor, lá isso está. O mastro, então, é uma verdadeira obra de arte… e de gosto! Regedor O festão e os galhardetes vão fazer morder de inveja os homens da Areosa, senhor Abade, Abade, lá isso vão. Francisco Boa novidade. Ou não andasse lá a mão da menina Maria. Mas isto também vai…, está quase pronto. Abade E está bonito também, sim senhor. (examinando tudo), Muitas flores, muita luz, um festão todo catita. Quem foi o artista? Francisco Foi o Manuel…, o pavão armado. Abade Vá lá, Francisco, não gracejes, não brinques.

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Opereta Maria

Manuel Deixe lá, senhor Abade, Abade, que o canário quer alpista e eu estou morto por lha dar. Regedor Então, Manuel, ele quer alpista? Não lha dês, matamata-o à fome que é melhor. E tu, Francisco, trabalha, ajuda se quiseres mas não provoques ninguém. Nem me obrigues a puxar pela fita, vai lá. Abade Espera que eu vou contigo, rapaz. Andas a precisar de boas companhias e eu tenho, Regedor) or). Vou ver se tenho, pelo menos, menos, boa boa fama. Vamos lá, senhor Martins (Regedor na Igreja tudo está a postos para receber os colegas que vêm cantar a missa e que devem estar a chegar. Até já, rapazes. Todos Até já, senhor Abade. Abade.

Cena III (os mesmos, menos o Abade e o Francisco)

Regedor Então, meninas. Vamos a isto. As músicas devem estar a dar entrada. O povo começa a chegar e é preciso que tudo esteja lindo para o receber. Elisa Então, bota lá uma cantiguinha que isto a compasso vai melhor e Então, ó Manuel, bota mais depressa. Manuel O cantar quer quer hora e o meu relógio está parado. Fala aí ao senhor Regedor. Regedor. As raparigas Vá lá uma, senhor Regedor, Regedor, vá lá uma cantiguinha. Regedor perdi--lhe o jeito. Que sei eu de cantigas, raparigas? Depois que fui para o Brasil, perdi

Manuel Vote lá uma modinha brasileira, brasileira, nós acompanhamos.

Regedor (em êxtase)

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Opereta Maria

A modinha brasileira! Mistura de sol e de luar. Sol escaldante do Brasil… luar saudoso de Portugal. (para todos) Vá lá, rapazes, façam coro, sempre me resolvo a cantar. Mas nada de parar o trabalho, hein?

Samba Música N.º 09 Coro

Pinião, pinião, pinião, piu O pito morreu Com medo do gavião Por isso mesmo sabiá cantou Bateu asas e voou Foi comer melão O pinião é um bicho carniceiro Quando salta ao poleiro Com tudo o ele quer Um dia destes Quando descia a avenida Fez uma coisa atrevida, Beliscou minha mulher Coro

Pinião, pinião, pinião, piu O pito morreu Com medo do gavião Por isso mesmo sabiá cantou Bateu asas e voou Foi comer melão O pinião é um bicho mui danado Quando s encontra zangado Não tem medo de ninguém Bicho marou Sua força e afoiteza Não condiz com a beleza Pois até ferra na mãe Coro

Pinião, pinião, pinião, piu O pito morreu Com medo do gavião Por isso mesmo sabiá cantou Bateu asas e voou Foi comer melão 69


Opereta Maria

Todos Bravo, senhor Regedor, Regedor, bravo (batem palmas) Regedor Um sucesso, hein hein?? Mas nada de dizer ao nosso Abade que eu estive para aí a cantarolar. Rita Porquê? Tem medo? Regedor Ele lá tem as suas razões. Diz que música brasileira escalda o sangue. sangue. (ouve(ouve-se uma banda de música entre cenas)

Manuel Ah!, Ah!, rapazes. Aí vem a música da Areosa a dar entrada. Ena, pai! Instrumentos a luzir…, farda nova… Regedor Está tudo pronto! Vamos lá todos. Siga a festa (saem) Soldado Ó Guida, fica. QueriaQueria-te dar duas palavrinhas. Guida Ó filho, vê se te esqueces disso… e não quero que me faças faxinas lá pela porta, ouviste? O patrão pode desconfiar. Soldado E que tem isso? Tu bem sabes que me trazes por aqui. (aponta o beiço). QueroQuero-te mais do que queria lá no quartel ao toque do rancho. Tu és a minha minha tora, só tu é que me podes encher o fole. Guida Vieste outro de Lisboa, sim senhor. Soldado Olha, põe a mão aqui no coração. Olha que ele bate acelerado. Inté parece o dia em que o major passa revista à caserna. caserna. Volta p’ra cá os faróis, não sejas tola. Olha que ainda posso vir a ser alguém. Guida Inda bem. Casa co’a Jo Joaquina, co’a sopeira do teu alferes. Soldado Tu sabes? Quem to disse? Se calhar foi o Regedor que deu à dica. Malandro! 70


Opereta Maria

Guida Toda a gente cá da freguesia sabe que tu tinhas lá uma sopeira que pintava os beiços com amora e tinha as unhas sujas de sangue de percevejos. Soldado Lá isso agora, não. Não ofendas. A pequena quando entrava a meias co’a patroa na caixinha, era uma cachopa toda puxada ao faísca. Quando Quando íamos pela avenida, ouvia sempre: que grande fatia, hein!, ó camarada. E aquilo entrava cá dentro de mim que desde os butes ai bivaque eu todo tremia de orgulho, de bazófia. bazófia. Guida Então gostavas assim dela? Nunca te lembraste de mim? Nem uma só vez? Ingrato! Ingrato! Eras todo para essa porcalhona!

Dueto do Soldado e Sopeira Música N.º 10 Ele Ela Ele Ela Ele Ela

‘Stá quieta, não brinques Vá lá, faz favor ‘Stiveste em Lisboa, Armaste em Doutor Armo no que sou, Um home’ um soldado Um parvo, um palerma Um pavão armado Cuidado co’a língua, Não me tratem mal Desculpe, perdoe, Ó meu general

Ele

Ás mulheres lá de Lisboa PusPus-lhes à roda a cabeça Era tudo a mim, a mim, Embora te não pareça Rebolavam cada olho, Olha p’ra ‘qui que era assim Inté nos primeiros dias Andava fora de mim

Ela

Vinde ver um toleirão, Um palerma feito gente Ó filho, vaivai-te despir, Sai daqui da minha frente VaiVai-te embora, podes ir Quem foi que aqui te chamou? Cheiras ainda a esturro Que a sopeira te pegou 71


Opereta Maria

Ele

Cheiro a águaágua-dede-colónia, A bom perfume coti Visto bem, sou um janota E foi lá que eu aprendi A minha Micas catita Punha rouge nas orelhas Fazia a misemise-enen-plie E tinha as unhas vermelhas

Ela

Trazia a boca pintada Com vermelho de zarcão zarcão Parecia mesmo as beiças Do burro do meu patrão É que as sopeiras de agora Usam luvas e chapéus Por cima tudo são sedas Por baixo, valhavalha-me Deus Ele Ela Ele Ela Ele Ela

‘Stá quieta, não brinques Vá lá, faz favor ‘Stiveste em Lisboa, Armaste em Doutor Armo no que sou, Um home, um soldado Um parvo, um palerma Um pavão armado Cuidado co’a língua, Não me tratem mal Desculpe, perdoe, Ó meu general

Cena IV (entra o Abade e a tia Rosa, mãe do João da Quinta)

Abade Tem paciência, Rosa, mas eu não lhe falo mais, ou antes, não falo já. Rosa Ó senhor Abade, Abade, perdoe a teimosia mas eu sou mãe. Que quer? Não tenho coração para ver o meu filho a mirrarmirrar-se dia a dia de desgosto. Isto inté parece bruxaria. Abade Não te rales, Rosa, Males de amor não matam. O amor naquela idade é como as folhas das árvores morrem umas no Outono para nascerem outras na primavera. Deixa lá. 72


Opereta Maria

Rosa O senhor Abade fala assim porque não o vê sofrer. O senhor é padre, não sabe o que é isso. isso. Abade (àparte) (àparte) Não sei eu o que são penas de amor?) amor?) Rosa Mas oiça lá, senhor Abade Abade,, não é o meu João um rapaz são de corpo e alma? Não é? Abade Fala mais baixo, Rosa, que aí vem o Luís de Sá e a família. Rosa Ora ainda bem. É hoje mesmo que o caso fica fica tirado a limpo. O que tem de ser tem muita força! Abade Tem cautela, Rosa, que o Luís não é homem de graças.

Cena V (passam Luís de Sá, Maria, Mão, José e os pequenitos, que salvam o Abade e a Tia Rosa)

Rosa Ó senhor Luís, se não vai com muita pressa, queria dar dar--lhe duas palavrinhas. Calhava bem. Pai Pois sim. (para a família) Os meninos vão andando para o adro da Igreja que eu já lá vou ter. (estes saem) Então, tia Rosa, venha de lá isso. Rosa Ó senhor Luís, Luís, se calhar já adivinha o que lhe quero? Pai Não. Nem faço ideia. Rosa Era por causa do meu filho… Abade Por causa daquilo que te falei outro dia. Por causa dele e da Maria.

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Opereta Maria

Pai Ah, já me lembro. Era o seu João que queria casar com a minha Maria, não é verdade? Rosa Isso mesmo. Pai Pois, tia Rosa, digadiga-lhe que tenho muita pena, mas não pode ser. O seu filho é bom rapaz, já disse ao senhor Abade…, Abade…, mas não serve para ela. Rosa Ora essa! Onde encontra melhor na freguesia? O meu filho é um rapaz escorreiescorreito, é filho único, é meu herdeiro… e as minhas terras pedem meças com as suas. Pai eduuTem razão…, é mais rico, talvez, porque ela nem sequer é minha filha. Mas ed queiquei-a de outro modo. Abade Já lhe disse, Luís. Já lhe disse tudo isso. Rosa Para quem guarda a princesa? princesa? Abade Rosa! Pai Tia Rosa, o seu amor de mãe cegacega-a. Mas não tem o direito de ofender ninguém. A Maria não tem culpa de que o seu filho se apaixonasse por ela, esquecendoesquecendo-se que a sua educação tinha cavado entre os dois um abismo. A Maria é um amor de rapariga, rapariga, não merece que a julguem mal. Rosa GuardeGuarde-a para o seu filho, senhor Luís, guardeguarde-a, já que ninguém lh’a quer. Abade Rosa! Pai Tia Rosa, acabamos com isto… Rosa Pois acabamos…, mas é o que toda a freguesia diz! Pai É verdade o que esta mulher diz, senhor Abade? Abade? 74


Opereta Maria

Abade Vamos que aí vem gente. Depois falamos. Adeus, tia Rosa (saem todos)

Cena IV Bolinhos de Amor Música N.º 11 Romaria portuguesa Sem doce e bolos d’ d’amor´ É fidalga sem nobreza É uma festa sem beleza Jóia falsa sem valor Bolos de amor, que doçura Que doce tão delicado Feito da massa mais pura InventouInventou-o a ternura Dum coração namorado Coro

Bolinhos de amor Que belo sabor Que doces que são Aceita, menina, Não te faças fina, Não digas que não É bom, saboroso, É delicioso, Não tenhas receio, É do coração, Não digas que não, Não digas que é feio

Cena V (João, Manuel, Regedor e Doutor) Doutor)

João Mas tu viste bem? Tens a certeza? Manuel Com estes que a terra háhá-de comer. Tu sabes bem que não minto. AcabaAcaba-se o mundo se o senhor Luís chega a saber. 75


Opereta Maria

João Mas, conta lá o resto, anda… Manuel Vai eu, como dizia, alapeialapei-me muito bem à espreita. Não tardou um orado que os não visse vir os dois, ao lado um do outro, muito juntinhos, chegarem à fonte e sentaremsentarem-se Eu fiquei muito rentinho, por trás das costas. Já se deixa ver, ouvi tudo… João E então então? tão? O que ouviste? Manuel A coisa está pegada, mas pegada a valer! Tu, tira daí o pensamento, passaram todo o tempo de mãos dadas. Meu José p’ra aqui, minha Maria p’ra acolá… João Ouve lá, Manuel, és capaz de contar tudo o que viste ao senhor Luís? De lhe lhe dizer tudo? Manuel Sou, pois quê! Duvidas que eu sou? João Então deixa lá que cada cão tem o seu dia. Ouve… (ficam os dois conversando) Regedor Olá, que dois passarões, senhor Doutor. Doutor. Doutor devem evem estar a tramar Sim, a festa lá em baixo e estes dois melros aqui… Não a d boa. João deixa--me cá na manobra. (vendo Vai. O resto é contigo. Não te dês por achado e deixa o doutro e o Regedor) Regedor). RaspaRaspa-te que aí vem o Doutor. Doutor. SomeSome-te que não convém que nos oiça.

Cena VII (os mesmos menos Manuel)

Doutor Então, João, festa lá para baixo. As moças mais bonitas da freguesia à espera dos rapazes e tu por aqui a namorar o passarão do Manuel! Hum, não me cheira a coisa boa!

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Opereta Maria

João Que quer, senhor Doutor? Doutor? Quem eu quero não me quer, quem me quer não me faz conta. Regedor É sempre assim, senhor Doutor. Doutor. É a velha história. Desejamos e não possuímos. Vale dez, desejando, querendo possuir e tornatorna-se difícil a posse, vale cem, desedesejamos e é impossível, vale um milhão, vale tudo! Desejamos, abrimos a boca e possuímos logo, vale… não não vale nada. Doutor Ainda é a teia de Maria que te suja os miolos? João Não, isso já passou Regedor curam--se com outro amor. É claro, raparigas não te faltam. As penas de amor curam ChegaChega-lhe, rapaz, em vez de uma, três que é a conta que Deus fez. Doutor A dor por um amor que se perde não é eterna, meu rapaz, como é eterne a alealeprinciigria por um amor que se alcança. A vida é assim, tudo acaba para depois princ piar. João Não, senhor Doutor. Doutor. Eu já me convenci. As mãos finas da menina Maria não podem unirunir-se às mãos calejadas dum homem de trabalho. Aquela boca não e fez para beijar esta que o suor da terra e o pó endurecem. Não… Maluqueiras. Com esta me vou, senhor Doutor. Doutor. Boa tarde. Doutor Ainda bem que aquilo lhe passou. A mãe andava preocupada e eu confesso que também não estava sossegado. O rapaz emagrecia a olhos vistos e o coração é um músculo caprichoso. Regedor Músculo? Diz bem, senhor Doutor, Doutor, p’ra ficar rijo precisa de muito exercício… exercício… e é o que faço! Doutor doiiTu estás cada vez pior. As mulatas do Brasil fizeram de ti um céptico…, um do do. Regedor Eu não percebi o que o senhor Doutor quer dizer, mas o doido percebi… e é o quanto con cont onta. Doido? É isso que me chamam? Mas sabe porquê? Porque Porque não 77


Opereta Maria

caio no laço que a primeira me arma. Eu moro no largo da Boavista, senhor Doutor! Doutor! Doutor Doido presunçoso.

Regedor Doido e o que o senhor Doutor quiser. quiser. Mas olhe que o senhor doutro também acreditou que o João já esqueceu a menina Maria… e ele não esqueceu! Anda a tramátramá-la com o maroto do Manuel, mas eu estou em guarda. Doutor Que queres dizer? Regedor Que o povo já fala… que o povo já diz que a menina Maria e o filho do senhor Luís gostam um do outro. E estes trastes preparampreparam-se para urdir a teia; mas eu cortocorto-lhes o fio, tão certo como já ter ouvido a Jibóia a assobiar. (Abade e Professor que entram) entram)

Abade Lá está a oposição reunida e satisfeita com a vitória. Professor Não me conformo… e o caso não fica por aqui. (voltando(voltando-se para o Doutor e o RegeRegedor) dor). Os senhores ande saber quanto vale um Professor…, Professor…, os senhores precisam ser educados. Doutor Que lhe dói, senhor MestreMestre-Escola? Professor DóiDói-me a minha consciência de cidadão ofendido. À traição, nunca! Comprar um, foi o que lhes valeu mas hãohão-de pagarpagar-mas… Regedor Senhor Professor, Professor, não ofenda nem ameace. Olhe que não sou para brincadeiras. Abade Então, senhores, que é lá isso? Vocês são todos amigos, o ideal é o mesmo. A lislista da Junta não é boa? Porquê tantas contendas? Professor O senhor Abade bem sabe que eu concordo com a lista. Mas…, o Presidente não. O Presidente não me passa daqui… 78


Opereta Maria

Regedor Tens de gramágramá-lo. Doutor Custa mas aguenta. (ouvem(ouvem-se vozes de fora)

Todos Mostra, mostra Soldado Já vai…, eu já mostro. Abade Que é isso. Meninos? Que propósitos são esses de andar a perseguir um homem? Soldado Eu lhe digo, senhor Abade. Abade. O que faz cócegas cócegas aos miolos cá às moças é este deitá--lo abaixo, ele boneco. Por mais que lhe mexam, por mais que tentem deitá aguentaaguenta-se sempre nas garulas… e está sempre em pé. Professor Que é isso de garulas? Isso não se usa cá na freguesia! Soldado Isso é calão do quartel, quartel, senhor Professor, Professor, mas olhe que inté é fino. Garulas quer dizer canetas, achas, gambias gambias, etc. Pois como ia dizendo, isto é um símbolo. Abade Um quê? Soldado Um símbolo é assim a modo duma coisa que tem grande significado. Eu explico: Tudo na vida depende do peso que a gente tem. Se a gente é leve, ao menor assopro está de bruços com a fachada no chão que inté mia. Se tem peso, pode abanar como o eucalipto quando quando o vento bate de rijo, mas quando mal se precaprecata, lá está outra vez de pé com a ramalheira toda a chiar, como a dizer: Outra que desta ainda não foi. Eu lhe canto:

Sempre em Pé Música N.º 12 ‘Star de pé é a maneira De vermos a malta inteira De espinha sempre curvada Mas devemos ‘tar alerta Porque dandodando-lhe uma aberta 79


Opereta Maria

‘stás a ver, aí vem facada ‘Stá um tipo na galeria ArmaArma-se logo chinfrim, DizDiz-se com grande banzé - Agora vai ou eu racho E ele então vai abaixo? Não, senhor, ‘stá sempre em pé! Teimar, teimar sempre, É esse o meu jeito Quanto mais me mexem Mais eu me endireito Mais eu me endireito Assim é que é Não mexam, cuidado, Que estou sempre em pé Anda um homem a pular Daqui p’rá ali a saltar E é sempre um ZéZé-ninguém Mas um dia vem do norte Um ventozinho ventozinho de sorte Passa logo a ser alguém São os jornais a falar, A malta toda a piar, Um grande zaragaté Foi só por causa do tacho, Nesse caso vai abaixo? Não senhor, ‘stá sempre em pé! Teimar, teimar sempre, É esse o meu jeito Quanto mais me mexem Mais eu me endireito Mais eu me endireito Assim é que é Não mexam, cuidado, Que estou sempre em pé Abade Isto de rapazes é o diabo. Deus me perdoe (benze(benze-se) Professor Todas as cautelas são poucas, senhor Abade. Abade. Ele lá diabo não será, mas é pardal e será bom que não comece a debicar a sementeira. 80


Opereta Maria

Regedor Sim, que não dê cabo da seara. Professor Com um espantalho como você não será fácil. Regedor Nada de gracinhas com a autoridade, senhor Professor. Professor. Doutor Você, Abade, Abade, é que deve ter cautela com o rebanho. Com um lobo destes, as ovelhas não estão seguras. Regedor Conte com a Lei, senhor Abade. Abade. Abade Conto com Deus, que é mais seguro. Doutor Sim, com o diabo não conte que ele em Lisboa anda à solta e não tem medo de ninguém. Abade Que Deus lhe perdoe as blasfémias, Doutor. Doutor. Professor E lhe dê juízo, que bem falta lhe faz. Regedor Mas isto aqui para nós. Se o diabo é aquilo, ele não é tão mau como o pintam. Abade Repare no que diz, Regedor, Regedor, que contas tem que dar a Deus? (OuveOuve-se música) música)

Cena VIII Marcha dos grandes Música N.º 13 Fogo e luzes, festões de verdura Hinos de fé e alegres canções São bem a prova da doce ternura Que hoje enche nossos corações 81


Opereta Maria

Coro

Senhor da Cruz, vais tão bonito Com tantas rosas no andor Que voltarias, acredito, A qu’rer morrer por nosso amor É dia de romaria, toca a folgar, Haja festa e alegria em todo o lar, Rapazes e raparigas, à boca cheia, Vamos encher de cantigas a nossa aldeia Velhos e moços, enfim, toda a gente Vão para a rua pr’a rir e folgar, Dia de festa, o povo bem sente Que em tristezas não deve pensar Coro

Senhor da Cruz, vais tão bonito Com tantas rosas no andor Que voltarias, acredito, A qu’rer morrer por nosso amor É dia de romaria, toca a folgar, Haja Haja festa e alegria em todo o lar, Rapazes e raparigas, à boca cheia, Vamos encher de cantigas a nossa aldeia

Regedor Vamos ao vira! vira!

Vamos ao Vira Música N.º 14 Coro

Bailai moças que esta moda Não tem nada que saber Basta ter um pé no ar Outro no chão a mexer E que importa que não saibas 82


Opereta Maria

A graça que ela tem Basta só que o saibas Só que tu o saibas, Tu e eu e mais ninguém

Ele

Não gosto dele, desprezodesprezo-o Já o disse hoje aqui É bem mais feliz a terra Porque é pisada por ti

Ela

Bem sei que não é bonito Com coisas sérias brincar Mas diz o povo e está certo - Quem desdenha quer comprar Coro

Bailai moças que esta moda Não tem nada que saber Basta ter um pé no ar Outro no chão a mexer E que importa que não saibas A graça que ela tem Basta só que o saibas Só que tu o saibas, Tu e eu, e mais ninguém

Ele

Não prendas a um estudante Teu lindo coração d’oiro Rapazes de capa preta São aves de mau agoiro

Ela

Estudantes e Doutores Doutores Nunca neles tive fé O rapaz que eu escolher Será forma de de meu pé Coro

Bailai moças que esta moda Não tem nada que saber Basta ter um pé no ar Outro no chão a mexer E que importa que não saibas A graça que ela tem Basta só que o saibas Só que tu o saibas, Tu e eu, e mais ninguém 83


Opereta Maria

Cena XI (Doutor, Doutor, mão e Abade) Abade)

Doutor Ó senhora Joaquina, precisava muito de lhe falar. Um caso sério. Mãe Se é para me pedir namoro, senhor Doutor, Doutor, já estou comprometida. Doutor Não, não se trata disso, Já agora, vou para a cova de palmito e capela. Abade Este nunca jogou na lotaria do amor. Medo e rabugice. rabugice. Doutor E você, Abade, Abade, jogou e saiusaiu-lhe o bilhete branco. Qual é melhor? Mãe vê--la ainda. Branca E que lindo era o presépio a que ele se habilitou! Estou a vê como um lírio, loira como uma espiga, espiga, distinta como uma rainha. Ó! bem se via, olhandoolhando-a, a nobreza do seu nascimento. Doutor Lá gosto teve, o maroto. E se não fora o orgulho dos pais dela, vocês, na verdaverdade, tinham feito um lindo par. MataramMataram-na, porque por muito amor morreu. E a você… Abade MataramMataram-me também Mãe Então, senhor Abade! Abade! Doutor Falemos n’outra coisa, quer? Abade Não, já não sofro. Resta apenas de tudo isso a lembrança terna e saudosa desse sonho lindo que não cheguei a viver. Quando me vestiram esta batina amortalhaamortalharamram-me definitivamente o coração. Doutor Deus não foi justo.

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Opereta Maria

Abade Não blasfeme, querido amigo, Deus é sempre justo. Eis porque o amo e sirvo. Mãe (para mudar de conversa) Mas é, senhor Doutor, Doutor, disse que queria falar e não era para isto, concretiza. concretiza. Doutor Tem razão, senhora Joaquina. O caso era outro. Mas o Abade ajudeajude-me que eu não sei como começar. Abade Eu não estou menos atrapalhado. Mãe AssustamAssustam-me. É assim coisa tão grave? Doutor Não, não é que tenha gravidade… É delicado. TrataTrata-se do José e da Maria. Maria. Mãe Mas que têm eles? Abade Nada. Começou a espalharespalhar-se cá na freguesia que eles gostam um do outro. Mãe E que tem isso? Doutor Nada, é naturalíssimo, mas… Abade Mas o Luís tem um feitio esquisito, tem uns projectos acerca do José, legítimo, porque é pai, mas… Mãe Muito elevados, quer dizer… Doutor Não, não é bem isso. O José está prestes a formarformar-se e a sua carreira dádá-lhe direidireitos. Abade O pior não é ainda isso. Tenho receio que a notícia chegue até ao teu homem deturpada. Suponha que o João João da Quinta - o que quis casar com ela - anda desdespeitado… e o ciúme é mau conselheiro. 85


Opereta Maria

Doutor Sim, ele é fraca rés e pode arranjararranjar-nos algum desgosto. É melhor ir preparando o Luí Luís. Mãe Não tenham receios, meus amigos, supus até agora que só eu sabia que que eles se amavam. SoubeSoube-o no dia em que o José foi pela primeira vez para o Porto… Porto… e ia sabe--o mais alguém? jurar que os dois também descobriram isso nesse dia. Mas, sabe bom.... e quer muito a Tanto melhor. Falarei logo ao Luís. Ele é esquisito mas é bom.. ambos. Abade Bem, bem… Doutor Óptimo! Mãe De resto, se assim não sucedesse, eu saberia ser mãe. Abade Bem, Joaquina, prudência. Mãe Descanse, senhor Abade (saem)

Cena XII (Maria entra com os pequenos pela mão)

Maria Mãezinha, mãezinha (alto) já não ouve…, vai além a dobrar a curva do caminho, vedes? Os dois pequenos. pequenos. Vamos, vamos… Maria Então ide que eu para lá vou ter. Fico aqui a rezar um bocadinho. (Saem os pequenos)

Cena XIII Maria (só) (só)

Suplica 86


Opereta Maria

Música N.º 15 Senhor, que tanto sofreste Por amor de toda a gente FáFá-lo bom a carinhoso AmandoAmando-me eternamente Faz com que sempre me queira Como quer neste momento Seja sempre a minha imagem Sombra do meu pensamento

Ele Que pede ao Senhor Com tanto fervor A linda Maria

Ela Não posso dizer Mas deve saber O que eu lhe pedia

Cena XIV José PediasPedias-lhe por mim, por nós? Maria Tem prémio, meu senhor. Adivinhou… que era difícil! José E qual é o prémio? Maria Beijo (dá(dá-lhe a mão) José Cada dia te quero mais. Em cada dia que passa descubro em ti uma virtude nova. Maria Vê que me fazes vaidosa… José Vaidade? Só eu a posso ter, porque és minha, porque te tenho… Maria Sim, meu José, toda tua… 87


Opereta Maria

José Desde o dia em que descobri que o amor substitui a amizade de irmão, reclamo direitos – lembraslembras-te? – Nunca mais deixou de ser a tua imagem sombra do meu pensamento. Maria Meu José (dá(dá-lhe a mão a beijar). beijar).

Cena XV (entra o pai, seguido do João e depois a mãe, Abade e povo)

Pai perder--se a fotografia. (os dois Bravo, mais um instantinho, não se mexam, pode perder levantamlevantam-se rapidamente)

José Meu pai! Pai Preparavas uma surpresa? Tive, felizmente quem me avisasse. José Oiça, pai, oiçaoiça-me com toda a sua calma, com toda a sua bondade. Pai Falaremos depois. Vai para casa. Maria Paizinho, perdão.

Pai mataste--o tu agora. As telhas da O teu verdadeiro pai morreu há muito… e este mataste minha casa não podem cobrir mais quem paga com tamanha ingratidão a esmola que recebeu. Maria Senhor! Mãe Luís, tu não estás bom… 88


Opereta Maria

Pai Estou doido, queres dizer? Mas deixadeixa-me em paz. Eu sou o pai, o chefe. Quem manda sou eu. Mãe Mas tu exorbitas… e perdoa que te fale assim. Sempre fui submissa, bem o sabes, e espalhei toda a minha ternura, a minha alma inteira, por ti e pelos nossos filhos. É por isso que só só os quero ver felizes e… mais nada. Pai Que queres dizer? AgradavaAgradava-te ver o nosso filho, Doutor, Doutor, casado com uma sonsa que recolhemos por caridade? Era uma linda compensação para o sacrifício que temos feito. Mãe Luís, tu não estás bom! Pai Bem ou mal, mando eu. (voltando(voltando-se para Maria) Não podes voltar para nossa casa. Mãe Que fazes, Luís, agora, sim, estás doido. A pobre pequena… Abade Deixa lá, Joaquina, não te atormentes. A Maria irá honrar a minha pobre cabana. (voltando(voltando-se para Maria). Partilharás Partilharás da mesa, se não te custa aturar as rabugices deste velho. Nada te faltará, nem mesmo o meu afecto. Deus é justo. Maria Senhor Abade (beija(beija-lhe a mão) Pai (para a mãe) Vamos nós, temos muito que conversar. (Maria vem beijar a mão da mãe e tenta beijar a do pai que lha recusa) (saem, ficando só o povo a quem a cena produz profunda emoção) Manuel Então, assim se háhá-de estragar a festa? Tudo aquilo acabará em bem, que vos digo eu. O amor vence tudo, e aquele é amor do bom, do verdadeiro. Eh! raparaparigas, venha venha de lá isso.

Final do segundo Acto Música N.º 16 Andam beijos e cantigas 89


Opereta Maria

Entusiasmo e calor Na boca das raparigas Palavras amigas Promessas de amor De verdade, sem ajudas, Andas, meu bem, ao redor Para ver se assim mudas O beijo de Judas Num beijo de amor Vá lá não me diga Que gosta de mim Amor é cantiga Que breve tem fim Então, encontrar Amor verdadeiro É o mesmo que achar Agulha em palheiro

Fim do segundo Acto

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Opereta Maria

Cena do Terceiro Acto

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Opereta Maria

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Opereta Maria

Cena I A cena é a mesma do primeiro acto com a diferença que agora se encontra cheia de de floflorese apenas uma mesa grande destinada a grande banquete que soleniza a vinda do novo Doutor. Doutor. As criadas, dirigidas pela senhora Joaquina, põe as toalhas e pratos e dispõe tudo para para que nada falte e tudo esteja em ordem logo que ele chegue.

Abertura do Terceiro Acto Música N.º 17 17 Nas voltas que o vira dá E no calor das cantigas São como rubras papoilas As caras das raparigas Nas voltas que o vira dá Anda meu bem ao redor E quando passa por mim Segreda ditos de amor Vá lá, pois, toca a virar Sem descansar Haja firmeza Que é dança de encantar Bis

É dança sem par De rara beleza Mãe (que entra) Então, meninas, mexammexam-se, o meu filho está a chegar e eu quero que ele enconencontre tudo pronto e bonito. Velhota A que horas chega o menino José? Segunda Criada O menino? Dobre a língua, o senhor Doutor. Doutor. Velhota ViVi-o nascer. Para mim será sempre o menino José. A não ser que ele me proíba que o trate assim. Mãe Não proíbe, não. Descansa. Sabes bem quanto ele te estima.

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Opereta Maria

Velhota Olha o favor. AtureiAturei-lhe as traquinices. E como ele era engraçado em pequenito! Vivo como azougue. Quando se apanhava livre, corria por esses campos como uma lebre. O pai ralhava e eu ria, ria. (voltando(voltando-se para a Mãe). E Deus sabe o que vai aqui no coração desde que ele há um ano começou a sofrer…, desde que saiu daqui a menina Maria… Segunda Criada Nunca mais houve alegria nesta casa. Mãe Então!? Já sabem que não permito que se fale nisso. Velhota Ai não? Sou velha, tenho direitos. EncomendoEncomendo-os a ambos sempre nas minhas orações. Tenho fé que ainda hãohão-de ser felizes. Deus háhá-de ouvirouvir-me. Mãe Também tenho fé que ele te ouça. PedePede-lhe que me ajude a fazêfazê-los felizes. (para as criadas) Olhem essas flores, espalhemespalhem-nas na mesa. E esses pratos mais sepaseparados, a mesa chega. Ó meu Deus, que habilidade (com ironia). Assim! Assim! Primeira Criada PõePõe-se destes guardanapos para todos? Mãe Para todos, sim. Servirá hoje a melhor roupa. Hoje é dos dias mais felizes… Deus queira que seja o mais feliz! (para a velha) Vamos, vamos colher as flores para o ramo que eu quero que tu lhe ofereças. Tens todo o direito, minha velhota. (saem a mãe e a velha).

Cena II Rapaz da Cega Cega (entra com a cega pela mão) Então, a que horas chega o senhor Doutor? Doutor?

Primeira Criada Vai andando, se queres chegar ao foguetório. E tu, Rosa (é a cega), hoje nada de tristezas que é dia grande cá na aldeia. Rapaz da Cega Está triste como nunca, ninguém lhe arranca um sorriso. Segunda Criada Desde que lhe morreu a mãe, parece que ficou mais cega ainda.

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Opereta Maria

Rapaz Tem razão, porque háhá-de estar ela tão triste se estão todos contentes? Ele é médico, quem sabe? Pode trazertrazer-lhe a luz dos olhos!? Cega (canta) canta)

Canção da Ceguinha Música N.º 18 18 Já nasci assim ceguinha E para desgraça minha Nunca vi a minha mãe Senti a sua ternura Maior foi a amargura Quando fiquei sem ninguém Que me importa a vida Sendo eu ceguinha Depois que perdi A minha mãezinha Nunca vi a luz do dia Nunca tive essa alegria Deus de mim não revê dó Oiço as crianças brincar Todas a rir e saltar E a chorar sou eu só Que me importa a vida Sendo eu ceguinha Depois que perdi A minha mãezinha Primeira Criada Vai, José, trátrá-la por aqui quando começar a festa. O senhor Doutor deve querer vêvê-la. (Saem)

Cena III (criadas, depois o Regedor) Regedor)

Segunda criada Tenho cá um palpite, sabeis? 95


Opereta Maria

Todos O que é? Segunda Criada Tenho o palpite que a festa de hoje vai trazertrazer-nos uma grande surpresa. Contai os talheres e os convidados. Depois… Regedor (que entra) Ora vivam… Todos Bons dias, senhor Regedor. Regedor. Regedor O que daria eu para ser o jardineiro de tão lindas flores. Segunda Criada Com água benta e no adro da igreja é que se cuida delas, senhor Regedor. Regedor. Regedor Plantas de estufaestufa-fria. fria. Vou antes pelas que pedem calor. Segunda Criada Então, é melhor procurar noutros sítios. Aqui não há disso. Regedor Rosa com espinhos. Engalinho com esta esta flor porque só serve para regalo dos olhos, é só para ver. Segunda Criada E cheirar, claro. Quem lhe lhe põe a mão, picapica-se.

Cena IV (os mesmos, o Doutor e o Professor) Professor)

Todos Bons dias, senhor Doutor. Doutor. Doutor Bons dias, meninas. E você entre as mulheres…, sempre entre as mulheres. (as criadas saem)

Regedor Os homens não se entendem. 96


Opereta Maria

Professor E as mulheres parece que já o vão entendendo bem. Quando chegou do Brasil, trazia sempre o cinturão cheio de caça…, agora, nem uma para amostra. Doutor A caça foge. Tem medo do caçador. Regedor Ou será o caçador que não está resolvido a gastar chumbo? Professor Professor Presunção e água benta… Doutor Mas, oiça lá, o Luís já saiu? Regedor Que eu saiba, não, senhor Doutor, Doutor, também vinha por ele.

Cena V (os mesmos, Luís e depois a mãe)

Pai Pronto, quem chama por mim? Doutor Bravo, senhor Luís, todo janota! Regedor Luxo de mordomo, em dia de festa… Pai Mas que festa, meus amigos? Chega o meu filho Doutor. Doutor. Agora, sim, Doutor de verdade. Professor Um ajudante p’ró carrasco (voltado para o médico) Doutor Bem sei, você preferia um veterinário, faziajeito,, entendia fazia-lhe mais jeito entendiantendia-se melhor com as suas doenças. Regedor Essa agora foi forte, ó senhor Professor, Professor, 97


Opereta Maria

Doutor Foi forte mas o mal é agudo e o remédio é um cáustico. Dói mas cura. Pai E agora nada de gracinhas com os médicos. Eu dantes ria mas… agora também me toca pela pele. Regedor Com a carta de Doutor… Doutor… falta só a noiva de dinheiro. A filha do Costa, comencomendador estava a calhar. Então, Senhor Luís, festa de arromba! Era a noiva à altura. Pai (alheado) Havemos de pensar nisso. Agora?... É cedo, ainda… Professor (a mudar de conversa) Vá lá, senhor Luís, um copo de branco pró caminho e p’r a as pazes. Regedor E para fazer peito para o vivório. Pai (deita vinho) Vamos lá nisso… Regedor (preparando um brinde) Senhor Luís. Neste dia… (entra a mãe) Mãe Ainda aqui e a fazer discursos. Deixa isso para logo e toca a andar que são horas. Professor Tem razão, vamos andando. (saem) Mãe (para o pai, que fica) Olha como tu levas essa gravata desajeitada. desajeitada. (arranja(arranja-o) Pai Então, não achas que vou bonito? bonito? Já não gostas de mim? Tens razão, a roda do tempo vai descobrindo os achaques, a neve dos invernos já não a derrete o sol da primavera… Mas o coração está jovem ainda, ouviste? Bate na mesma. Doutor (à porta) Ó Luís, vamos embora, são horas! Mãe Vai, velho tonto. (sai) (entram de novo as criadas, rindo)

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Opereta Maria

Professor (que volta) Não viram por aqui o meu guardaguarda-chuva? O sol escalda… e eu não quero ser o primeiro cliente do novo Doutor. Doutor. Primeira Criada Está aqui, senhor Professor (dá(dá-lhe). E, já agora, deixedeixe-me fazerfazer-lhe um pedido… Professor Pois sim…, mas não demores, tenho pressa! Segunda Criada Eu queria saber…, ou antes, nós queríamos que o senhor Professor nos indicasse um livro que traz essas cartinhas de amor… Professor Hum! essa agora! Isso é o mesmo que pedir ao Abade para vos deitar as cartas. Não! eu sou um educador, eu tenho responsabilidades… responsabilidades… Eu tenho contas a dar a Deus. Segunda Criada E nós já somos mulheres. O amor é um tributo fatal na vida. Professor diantava eu responder Bravo! Quem te ensinou isso, minha cachopa? Mas que aadiantava se vós nem amor sabeis escrever? Terceira Criada Quem lho disse? Ora pergunte!

Canção do Amor Música N.º 19 19

Professor Ela Todas Professor

Professor Ela

Das quatro letras de amor A primeira qual será Ora diz tu, por favor É um A A-A-A Muito bem, ‘atou satisfeito Muito bem. ‘atou satisfeito Já vejo que têm jeito E agora a outra letra A segunda, já se vê, Dize lá tu sabichona É um M 99


Opereta Maria

Todas Professor

M-M-M Sim, senhor, ‘stá‘stá-me a agradar Sim, senhor, ‘stá‘stá-me a agradar, Podemos continuar

Professor

Vamos lá ver a terceira É já faltam duas só Dize lá tu, coradinha É um Ó Ó-Ó-Ó Confesso que não conhecia Confesso que não conhecia A vossa sabedoria

Ela Todas Professor

Professor Ela Todas Professor

Coro Professor

Elas

Vamos lá à derradeira, derradeira, À quase que não se lê: Dize lá, carinha de anjo É um R R-R-R ‘Stá muito bem, apoiado ‘Stá muito bem, apoiado ‘Stá o assunto arrumado Todas as moças solteiras O sentem com emoção Porque o trazem escrito Aonde? No coração (e as criadas saem por terem visto o soldado)

Soldado (que tem estado a ouvir) Bravo, senhor professor. Todos nós à espera e o senhor a dar aqui lições de amor às raparigas. Se o nosso Abade o cócasse! Se o senhor Regedor soubesse…, era um toque de alce e a seguir uma data de acelerado que nem tinha espinhas. Professor DeixaDeixa-me, rapaz, não digas nada disto. Estas raparigas são o diabo. Soldado De resto, o que tosca o senhor disto? Que misca o senhor de amor? O senhor que assou a vida a ensinar os filhos dos outros porque nunca arranjou um para si. Professor Falar de amor não é pecado. O amor é um sentimento puro, dignificante.

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Opereta Maria

Soldado O amor, assim como o senhor o diz, é como a caderneta limpa de um soldado. Obriga a gente ao canudo da promoção. Professor Do casamento, queres tu dizer?! Soldado Isso mesmo, do enterramento. DeixeDeixe-se disso, senhor Professor. Professor. O amor querquer-se como a tora no rancho. Poucochinho, Só para dar o paladar. Se lhe carregar carregar de mais fica o rancho cheio de gordura… E passa a gente a vida a arrotar a enjoado! Professor Anda lá, Satanás, tentador de almas. O que tu foste aprender! Como tu vieste! Soldado É isto, senhor Professor… Professor… (saem) Guida (só) Aí, sim senhor! Saíu hoje a melhor roupa do bragal. Anda mistério no ar e ou eu me engano muito ou, apesar de tudo, não tarde um credo que a menina e o senhor Doutor não dêem o nó. nó. Só eu não vou. Logo na bouça heihei-de perguntar ao cuco: Lindo cuco, lindo cuco Que cantas na ramalheira, Vais dizerdizer-me quantos anos Ainda vou ficar solteira? Soldado (à porta) Cú…cú… Guida Um ano! Um ano só! Será verdade? Soldado É sim. Cachopa. Dentro de um ano juntaremos os trapinhos e mandamos vir logo a tal encomenda de Paris. Guida Somebarba-azul! Some-te, coisa ruim!!! Nanja contigo, meu barbaSoldado Olha lá, Guida, o que lá vai, lá vai… Dormiram muitas lá na caserna mas, aqui no coração, no melhor quarto do quartel, só tu…

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Opereta Maria

Guida Ó filho, tira lá a pata que isto é broa sem mistura. Não tem prova, ou leva ou deixa… Soldado Deixa lá trincar um bocadinho da côdea, Guida! Guida Não, meu home. Quem trincar a côdea tem que comer o miolo… Soldado Mas, ó Guida, sabes que eu venho habituado ao casqueiro casqueiro do quartel, é pãozipãozinho mais macio. DeixaDeixa-me habituar os dentes, primeiro… Guida ChegaChega-te p’ra lá (ameaça(ameaça-o), olha que perdes o apetite! Soldado Vá lá, Guida, deixadeixa-me dar só um… Guida Um quê? Soldado Um beijinho… Guida Ai que o home está co’a gripe, está varado co’a febre!

A Guida e o Magala Música N.º 20

Ele Ela Ele Ela Ele Ela Ele Ela Ele

Um beijo, que tem lá isso, Que mal te pode fazer? Cada um sabe de si E eu tenho medo de arder DeixaDeixa-me dardar-te um beijinho P’ra os fazer morder de inveja HásHás-de dardar-me aqui na testa Mas só no arco da Igreja Um beijo sim Um beijo não Meu querubim Meu matulão Vá, deixa ver 102


Opereta Maria

Ela Ele Ela

Ele Ela Ele Ela

Mas que meiguinho Não sejas má Tem juizinho Anda lá, não sejas tola, Ó Guidinha, minha amada Estás a perder o tempo E daqui não levas nada Ou me dás agora um beijo Ou nunca mais nos veremos Vai falar ao senhor Abade Depois então falaremos

Ele Ela Ele Ela

Um beijo sim Um beijo não Meu querubim Meu matulão

Ele Ela Ele Ela

Vá, deixa ver MetesMetes-me dó Anda lá, qu’rida Vá lá, um só!

Mãe Então, que pouca vergonha é esta? (depois de saírem) Ai mocidade, mocidade…

Cena VI VI (Mãe e depois o Abade) Abade)

Mãe (só, enquanto vai dando a última demão na mesa) Que Deus me proteja hoje, me ilumine e se lembre de nós todos. Abade (que entra) Bom dia, Joaquina. Mãe Bom dia, senhor Abade. Abade. Abade Já saíram todos? Mãe Já, senhor Abade, Abade, agora mesmo. O carro deve estar a chegar.

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Opereta Maria

Abade Pois eu só agora posso ir. E, para isso, disse a Missinha Missinha mais depressa. Só eu e o sacristão… Está tudo para a espera do nosso Doutor. Doutor.

Mãe Em boa hora o meu filho venha, senhor Abade. Abade. Pode ser hoje o dia mais feliz ou o mais triste da minha vida. Abade Tenho fé de que tudo háhá-de correr bem. Tenho confiança no coração do Luís e na minha boa estrela. Tu, deixa correr e nem uma palavra, ouviste? DeixaDeixa-o comigo. Mãe Deus o oiça, senhor Abade… Abade… E por mim fique descansado. Abade Bem, eu vou andando que as pernas já não ajudam muito e ele ainda é um bocabocadito. (ouvem(ouvem-se fora vivas, etc.) Mãe Õ senhor Abade, Abade, que já não vai sem tempo. Abade Vou indo ao encontro, até já!

Cena VII VII (A mãe fica à porta a escutar os vivas que se ouvem cada vez mais, porque o cort corteejo se aproxima. O filho José é o primeiro que entra, seguido do pai, Doutor, Doutor, ProProfessor, fessor, Regedor e povo, que continua aos vivas. O filho dirigedirige-se logo para a mãe)

José Minha querida mãe! (beijando(beijando-lhe a mão) Mãe Meu querido filho (abençoando(abençoando-o) José (voltando(voltando-se para o povo) Muito obrigado, a todos muito obrigado…

Canção de BoasBoas-Vindas Música N.º 21 21 José

Bem hajam todos, Muito obrigado 104


Opereta Maria

Regedor

De agradecer Está dispensado

José

Todos ficais No coração O resto era Ingratidão

Pai

Coro

BemBem-vindo seja, bembem-vindo De novo à terra natal Quem estima e quer ainda A mais formosa e mais linda Aldeia de Portugal José Regedor

Regedor

Na minha terra Sou mais feliz. Acreditamos Porque ele o diz José Sou mais feliz Bem sei porquê Não digas mais Que a gente vê Coro

BemBem-vindo seja, bembem-vindo De novo à terra natal Quem estima e quer ainda A mais formosa e mais linda Aldeia de Portugal Pai Professor

Pai Regedor

Também eu quero Agradecer ‘Stá dispensado De o fazer Ele é meu filho Basta dizer Todos fizemos Só por prazer Coro

BemBem-vindo seja, bembem-vindo De novo à terra natal Quem estima e quer ainda A mais formosa e mais linda Aldeia de Portugal 105


Opereta Maria

Regedor (discursando) DãoDão-me licença? Meus senhores, em nome do Governo… Professor Em nome de quem? quem? Regedor Do governo! Que é que o senhor julga? (continuando)… Como ia dizendo, em nome do governo tenho a honra de saudar o novo filho da Ga…ga…ga… … … quê, senhor Doutor? Doutor? Doutor Galeno. Regedor Éinh, Isso…, de Galeno… (todos riem e ele sacode os ombros com desdém). Francisco Então, ele não é filho do senhor Luís de Sá? Regedor (continuando) Agora, doravante, eu que represento a força, a autoridade, com os meus cabos de polícia e com dois Doutores, Doutores, não permitirei – ouviram? – não permitirei que qualquer doença ou epidemia passe passe as fronteiras da nossa aldeia. Todos Apoiado Regedor (continuando) Senhores Doutores, Doutores, atenção! O inimigo espreitaespreita-nos… Na freguesia próxima as crianças são dizimadas por uma doença grave, difteria… Pois bem, vós mandais, aqui mandais só vós, ninguém obra sem vossa autorização! Todos Apoiado! Regedor E tu, povo, confia em nós. A ciência estuda, a força vela. Viva o novo Doutor! Doutor! Todos Apoiado (dão palmas e vivas) Doutor Bravo, assim é que é falar. Você esteve um verdadeiro Cícero.

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Opereta Maria

Regedor Cícero? Conheci muito bem. Tinha uma casa de café pegada à loja do meu patrão. ConheceuConheceu-o também, senhor Doutor? Doutor? Doutor (rindo) Não…, ouvi falar!

José Meus amigos, ouvistes falar o vosso Regedor. Regedor. Palavras amáveis para mim e seveseveras como ordens, próprias próprias de um grande chefe. Nada tenho a acrescentaracrescentar-lhes, senão que posso garantirgarantir-vos que seguirei os conselhos do meu ilustre colega. Tudo farei para merecer a estima que vós lhe dedicais. A minha casa passa a ser a casa de todos os que sofrem. Obrigado. Obrigado. Do coração vos agradeço tudo. (todos aplaudem e saem aos vivas)

Pai Agora vai, José, vaivai-te preparar, precisas arranjararranjar-te para o almoço. Todos estaestamos derreados com fome e tu não deves estar com menos. Vai… José Um instante, meus senhores. Tempo apenas apenas para reparar um pouco a toilette. Até já (sai).

Cena VII (os mesmos, menos José)

Pai vollVai agora tu, Joaquina. Vai dar ordena para servir o almoço logo que o José vo te. Que nada falte… Mãe Também, o que tens de bom é o estômago…, que o coração, esse… Pai O coração manda mas o estômago exige. Anda, vai depressa… Mãe Já vou, descansa. Pai Mas, agora reparo, falta aqui o nosso Abade? Abade? Professor Eu vivi-o na estrada. 107


Opereta Maria

Pai Também eu, depois sumiusumiu-se. Vou mandámandá-lo chamar… (para fora) Manuel, ó Manuel, vai a casa do senhor Abade e dizdiz-lhe que estamos à espera dele para o almoço. Manuel (que entra) Ainda agora mesmo trouxe a criada do senhor Abade esta carta para o senhor Luís. Pai Mau, mau… (lê e depois, passandopassando-a para o Doutor). Doutor). Agora diga que o latim também não dá volta ao miolo. Leia, leia e diga se isto tem jeito. Doutor (lendo) Meu caro Luís. Lamento profundamente não poder assistir ao teu almoço, mas a correcção e a delicadeza obrigamobrigam-me a ficar em casa fazendo companhia a um hóspede que cá tenho. Perdoa, mas podes crer que daqui mesmo fico fazendo os mais ardentes votos pela felicidade do teu filho, que tanto estimo e quero. Pai Isso pode lá ser. (para o criado) Salta lá a casa do senhor Abade e dêsdês-lhe que recebiivenha já, porque o esperamos. Que traga o hóspede, que será aqui bem receb do. DizDiz-lhe que o não dispenso, ouviste? Que o não dispenso! (o criado sai) José (que entra) Pronto, meus senhores, às vossas ordens. Mãe (que entra também… seguida das quatro criadas) Meus senhores, aos seus lugares. O senhor Abade mora perto e não tarda aí. (ordenando) Tu, aí… (e vai dando ordens a todos, sobrando um lugar ao lado de José e outro ao lado do pai). Pai (para a mãe) Sobram dois lugares, como é isto? Já contavas contavas com o hóspede? Mãe (embaraçada) Sim, já supunha. Pai É estranho, supus que não sabias que o nosso Abade tinha hoje hóspedes. hóspedes. Doutor (para o Professor) Professor) Temos conspiração. Professor Pela certa, aqui há história! 108


Opereta Maria

Cena VIII (todos, o Abade e depois Maria)

Abade (à porta) Dão licença? Pai Entre, senhor Abade. Abade. Desde quando pede licença para entrar em minha casa? Abade Não é para mim, Luís, é para o meu hóspede. Pai É hoje nosso hóspede também. Que entre… Abade Entra… (Maria surge à porta, cabeça baixa e receosa perante a surpresa de todos, que se levantam) José (corre para Maria) Maria! Maria José! Mãe Minha filha! Maria Minha mãe! (beijam(beijam-se) (o pai tem uma hesitação)

Abade Então, Luís, e tu? Pai (hesitante, ainda) Eu, senhor Abade…, Abade…, bembem-haja por a ter trazido. Vem cá, Maria, minha filha! Maria Paizinho… (beija(beija-lhe a mão) Pai Deus sabe o que o meu orgulho me tem feito sofrer. Mas, depois do que se paspassou, em nenhum dia como hoje me faria tão feliz a tua volta. BemBem-haja, haja, senhor Abade. Abade. Tu, mulher, dá cá um beijo…, e tu, José, meu maroto, vê se a fazes feliz.

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Opereta Maria

Todos Muito bem, muito bem… Regedor (para o Doutor) Doutor) Eu estava a ver que lá ia o almoço à viola. Pai A agora, meus senhores, dupla festa. Formatura e noivado!

Doutor Doutor O amor tudo vence! Abade Só eu… fui por ele vencido! Pai Para a mesa, meus senhores. José (depois de sentarsentar-se, tendo ao lado Maria) Permitis que, conta a regra, eu brinde antes de começar o almoço? Pai Anda lá, mas depressa, que a alegria fazfaz-me fome.

Brinde Música N.º 22 22 Porque será pecado ter amor Se ele tudo é nossa vida Na balança do amor, o que é amado Pesa mais do que a honra e do que a vida Brindemos pois ao amor com calor Entusiasmo e alegria Erguer os copos no ar P’ra saudar O meu amor a Maria Hip, hip, hurra Hip, hip, hurra Hip, hip, hu…u…rra Pai Agora, o almoço!

Cai o Pano 110


Opereta Maria

Partituras Estas Estas partitura partituras artituras foram foram recuperadas recuperadas de uma parparte de Piano, Primeiro Violino e uma parte guia onde só existia a melodia e pouco mais. A orquestração foi adaptada segundo o que retive na memória das vezes que executei a Opereta em anos transactos. João Oliveira da SILVA.

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Opereta Maria

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Opereta Maria

Primeiro Acto Abertura do Primeiro Acto Meditação O Meu Sonho Jogo da Sueca Fado do Soldado Terceto dos Criados (cómico) Coro de Trabalhadores Canção do Amor

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Opereta Maria

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

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Opereta Maria

ABERTURAE MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO - 2

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO - 3

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO - 4

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO - 5

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Opereta Maria

ABERTURA DO E MEDITAÇÃO 1.º ACTO - 6

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO - 7

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO - 8

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO – 9

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO – 10

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO – 11

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Opereta Maria

ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO – 12

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

O MEU SONHO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

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Opereta Maria

O MEU SONHO – 2

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Opereta Maria

O MEU SONHO – 3

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Opereta Maria

O MEU SONHO – 4

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Opereta Maria

O MEU SONHO – 5

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Opereta Maria

O MEU SONHO – 6

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Opereta Maria

O MEU SONHO – 7

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Opereta Maria

O MEU SONHO – 8

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

JOGO DA SUECA Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

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Opereta Maria

JOGO DA SUECA - 2

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Opereta Maria

JOGO DA SUECA – 3

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Opereta Maria

JOGO DA SUECA – 4

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Opereta Maria

JOGO DA SUECA – 5

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Opereta Maria

JOGO DA SUECA – 6

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Opereta Maria

JOGO DA SUECA – 7

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Opereta Maria

JOGO DA SUECA – 8

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

FADO DO SOLDADO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

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Opereta Maria

FADO DO SOLDADO – 2

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Opereta Maria

FADO DO SOLDADO – 3

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Opereta Maria

FADO DO SOLDADO – 4

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Opereta Maria

FADO DO SOLDADO – 5

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Opereta Maria

FADO DO SOLDADO – 6

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Opereta Maria

FADO DO SOLDADO – 7

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Opereta Maria

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

TERCETO DOS CRIADOS Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 2

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 3

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 4

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS –5

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 6

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 7

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 8

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 9

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TERCETO DOS CRIADOS – 10

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Opereta Maria

TERCETO DOS CRIADOS – 11

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Opereta Maria

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

CORO DOS TRABALHADORES Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

163


Opereta Maria

CORO DOS TRABALHADORES – 2

164


Opereta Maria

CORO DOS TRABALHADORES – 3

165


Opereta Maria

166


Opereta Maria

OPERETA MARIA

CANÇÃO DO AMOR Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

167


Opereta Maria

CANÇÃO DO AMOR – 2

168


Opereta Maria

Segundo Acto Prelúdio do Segundo Acto Coro de Abertura do Segundo Acto Samba (canção Brasileira) Soldado e Sopeira (dueto) Bolinhos de Amor Sempre em Pé Marcha dos Grandes Vira Súplica Final do Segundo Acto (coro)

169


Opereta Maria

170


Opereta Maria

OPERETA MARIA

PRELÚDIO DO 2.º 2.º ACTO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

171


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 2.º. ACTO – 2

172


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 2.º. ACTO – 3

173


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 2.º. ACTO – 4

174


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 2.º. ACTO – 5

175


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 2.º. ACTO – 6

176


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 2.º. ACTO – 7

177


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 2.º. ACTO – 8

178


Opereta Maria

OPERETA MARIA

CORO DE ABERTURA DO 2.º 2.º ACTO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

179


Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 2

180


Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 3

181


Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 4

182


Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 5

183


Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 6

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Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 7

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Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 8

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Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 9

187


Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 10

188


Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 11

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Opereta Maria

CORO DE ABERTURA DO 2.º. ACTO – 12

190


Opereta Maria

OPERETA MARIA

SAMBA Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

191


Opereta Maria

SAMBA – 2

192


Opereta Maria

SAMBA – 3

193


Opereta Maria

SAMBA – 4

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Opereta Maria

SAMBA – 5

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Opereta Maria

SAMBA – 6

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Opereta Maria

SAMBA – 7

197


Opereta Maria

198


Opereta Maria

OPERETA MARIA

SOLDADO E SOPEIRA Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

199


Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA - 2

200


Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 3

201


Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 4

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Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 5

203


Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA –6

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Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 7

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Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 8

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Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 9

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Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 10

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Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 11

209


Opereta Maria

SOLDADO E SOPEIRA – 12

210


Opereta Maria

OPERETA MARIA

BOLINHOS DE AMOR Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

211


Opereta Maria

BOLINHOS DE AMOR - 2

212


Opereta Maria

BOLINHOS DE AMOR – 3

213


Opereta Maria

BOLINHOS DE AMOR – 4

214


Opereta Maria

BOLINHOS DE AMOR – 5

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Opereta Maria

BOLINHOS DE AMOR – 6

216


Opereta Maria

BOLINHOS DE AMOR – 7

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Opereta Maria

BOLINHOS DE AMOR – 8

218


Opereta Maria

OPERETA MARIA

SEMPRE EM PÉ Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

219


Opereta Maria

SEMPRE EM PÉ – 2

220


Opereta Maria

SEMPRE EM PÉ – 3

221


Opereta Maria

SEMPRE EM PÉ – 4

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Opereta Maria

SEMPRE EM PÉ – 5

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Opereta Maria

SEMPRE EM PÉ – 6

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Opereta Maria

SEMPRE EM PÉ – 7

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Opereta Maria

SEMPRE EM PÉ – 8

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

MARCHA DOS GRANDES Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

227


Opereta Maria

MARCHA DOS GRANDES - 2

228


Opereta Maria

MARCHA DOS GRANDES - 3

229


Opereta Maria

MARCHA DOS GRANDES – 4

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Opereta Maria

MARCHA DOS GRANDES – 5

231


Opereta Maria

MARCHA DOS GRANDES – 6

232


Opereta Maria

MARCHA DOS GRANDES – 7

233


Opereta Maria

234


Opereta Maria

OPERETA MARIA

VIRA Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

235


Opereta Maria

VIRA – 2

236


Opereta Maria

OPERETA MARIA

SÚPLICA Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

237


Opereta Maria

SĂšPLICA - 2

238


Opereta Maria

SÚPLICA – 3

239


Opereta Maria

SÚPLICA – 4

OPERETA MARIA

FINAL DO 2.º 2.º ACTO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

240


Opereta Maria

SÚPLICA – 5

241


Opereta Maria

242


Opereta Maria

OPERETA MARIA

CORO FINAL DO 2.º ACTO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

243


Opereta Maria

CORO FINAL DO 2.º ACTO – 2

244


Opereta Maria

CORO FINAL DO 2.º ACTO – 3

245


Opereta Maria

CORO FINAL DO 2.º ACTO – 4

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Opereta Maria

CORO FINAL DO 2.º ACTO – 5

247


Opereta Maria

CORO FINAL DO 2.º ACTO – 6

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Opereta Maria

CORO FINAL DO 2.º ACTO – 7

249


Opereta Maria

250


Opereta Maria

Terceiro Acto Prelúdio do Terceiro Acto Coro de Abertura do Terceiro Acto Canção da Ceguinha Canção do Amor Guida e o Magala Canção de BoasBoas-Vindas (saudação) Brinde ao Amor

251


Opereta Maria

252


Opereta Maria

OPERETA MARIA

PRELÚDIO DO 3.º 3.º ACTO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

253


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 3.º ACTO – 02

254


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 3.º ACTO – 03

255


Opereta Maria

PRELÚDIO DO 3.º ACTO – 04

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Opereta Maria

PRELÚDIO DO 3.º ACTO – 05

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Opereta Maria

PRELÚDIO DO 3.º ACTO – 06

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Opereta Maria

PRELÚDIO DO 3.º ACTO – 07

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Opereta Maria

PRELÚDIO DO 3.º ACTO – 08

260


Opereta Maria

OPERETA MARIA

CORO DO 3.º ACTO Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

261


Opereta Maria

262


Opereta Maria

OPERETA MARIA

CANÇÃO DA CÉGUINHA Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

263


Opereta Maria

CANÇÃO DA CEGUINHA - 2

264


Opereta Maria

CANÇÃO DA CEGUINHA - 3

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Opereta Maria

CANÇÃO DA CEGUINHA - 4

266


Opereta Maria

CANÇÃO DA CEGUINHA - 5

267


Opereta Maria

268


Opereta Maria

OPERETA MARIA

CANÇÃO DE AMOR Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

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Opereta Maria

CANÇÃO DO AMOR - 2

270


Opereta Maria

CANÇÃO DO AMOR - 3

271


Opereta Maria

CANÇÃO DO AMOR – 4

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Opereta Maria

CANÇÃO DO AMOR - 5

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Opereta Maria

CANÇÃO DO AMOR - 6

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Opereta Maria

CANÇÃO DO AMOR - 7

275


Opereta Maria

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

GUIDA E O MAGALA Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

277


Opereta Maria

GUIDA E O MAGALA - 2

278


Opereta Maria

GUIDA E O MAGALA – 3

279


Opereta Maria

GUIDA E O MAGALA – 4

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Opereta Maria

GUIDA E O MAGALA - 5

281


Opereta Maria

GUIDA E O MAGALA - 6

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Opereta Maria

GUIDA E O MAGALA – 7

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Opereta Maria

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

CANÇÃO DE BOASBOAS-VINDAS Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

285


Opereta Maria

CANÇÃO DE BOAS-VINDAS – 2

286


Opereta Maria

CANÇÃO DE BOAS-VINDAS –3

287


Opereta Maria

CANÇÃO DE BOAS-VINDAS – 4

288


Opereta Maria

CANÇÃO DE BOAS-VINDAS – 5

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Opereta Maria

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Opereta Maria

OPERETA MARIA

BRINDE AO AMOR Livreto: Dr. José Sá

Partitura e Orquestração: Prof. João Silva

Música: Prof. Domingos Pinho

291


Opereta Maria

BRINDE AO AMOR – 2

292


Opereta Maria

BRINDE AO AMOR – 3

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Opereta Maria

BRINDE AO AMOR – 4

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Opereta Maria

BRINDE AO AMOR – 5

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Opereta Maria

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Opereta Maria

Bibliografia • Memórias de Albano Saraiva Ribeiro • Recortes de notícias nos jornais poveiros o Comércio da Póvoa de Varzim o Ala Arriba o Voz da Póvoa o Póvoa Semanário • Revista Escola Portuguesa • Biblioteca Rocha Peixoto • Biblioteca Municipal Almeida Garret (Porto) • Biblioteca Pública Municipal do Porto • Sociedade Portuguesa de Autores • Esmae, Escola Superior de Música e das Artes do Espectãcolo • Conservatório de Música do Porto • Testemunhos de antigos participantes e espectadores • Pesquisas na Internet • Coplas e Cartazes de anúncio da Opereta

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Opereta Maria

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Opereta Maria

Índice

Duas Palavras ................................................................ ................................................................................................ ....................................................................... ....................................... 5 Nota de Abertura ................................................................ ................................................................................................ ................................................................... ................................... 7 Breve resenha sobre a Opereta ................................................................ ..................................................................................... ..................................................... 9 O meu encontro com Maria ................................................................ ....................................................................................... ....................................................... 13 Recordando Recordando o Dr. José Sá ................................................................ ......................................................................................... ......................................................... 15 Autor do Libreto ................................................................ ................................................................................................ .................................................................. .................................. 17 Autor da Música ................................................................ ................................................................................................ .................................................................. .................................. 21 No Rasto de Maria ................................................................ ................................................................................................ ................................................................. ................................. 23 Personagens ................................................................ ................................................................................................ ....................................................................... ....................................... 31 Alguns Elencos................................ Elencos................................................................ ................................................................................................ ..................................................................... ..................................... 32 Enredo................................ Enredo................................................................ ................................................................................................ .............................................................................. .............................................. 33 Cena do Primeiro Acto ................................................................ ............................................................................................ ............................................................ 35 Cena I ................................................................ ................................................................................................ .................................................................. ..................................37 Meditação................................................................ ........................................................................................... ........................................................... 37 Música N.º 01 ........................................................................................................................ 37

Cena II................................................................ ................................................................................................ ................................................................. .................................38 Cena III ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................39 O Meu Sonho ................................................................ .................................................................................... .................................................... 39 Música N.º 02 ........................................................................................................................ 39

Cena IV ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................40 Cena V ................................................................ ................................................................................................ ................................................................. .................................41 Cena VI ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................43 Cena VII ................................................................ .............................................................................................. ..............................................................44 Jogo da Sueca ................................................................ ..................................................................................... ..................................................... 46 Música N.º 03 ........................................................................................................................ 46

Cena VIII ................................................................ ............................................................................................ ............................................................49 Fado do Soldado ................................................................ ................................................................................ ................................................ 50 299


Opereta Maria

Música N.º 04 ........................................................................................................................ 50

Cena IX ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................52 Cena X................................................................ ................................................................................................ ................................................................. .................................52 Cena XI ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................53 Cena XII ................................................................ .............................................................................................. ..............................................................54 Cena XIII ................................................................ ............................................................................................ ............................................................55 Terceto de Criados ................................................................ ............................................................................ ............................................ 56 Música N.º 05 ........................................................................................................................ 56

Cena XIV ................................................................ ............................................................................................ ............................................................57 Cena XV ................................................................ .............................................................................................. ..............................................................57 Coro dos Trabalhadores ................................................................ .................................................................... .................................... 58 Música N.º 06 ........................................................................................................................ 58

Canção do amor................................................................ ................................................................................. ................................................. 59 Música N.º 07 ........................................................................................................................ 59

Cena do Segundo Acto................................ Acto................................................................ ............................................................................................. ............................................................. 63 Coro de Abertura ................................................................ ............................................................................... ............................................... 65 Música N.º 08 ........................................................................................................................ 65

Cena 1................................ 1................................................................ ................................................................................................ .................................................................. ..................................66 Cena II................................................................ ................................................................................................ ................................................................. .................................67 Cena III ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................68 Samba................................ Samba................................................................ ................................................................................................ ................................................................. ................................. 69 Música N.º 09 ........................................................................................................................ 69

Dueto do Soldado e Sopeira.............................................................. .............................................................. 71 Música N.º 10 ........................................................................................................................ 71

Cena IV ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................72 Cena IV ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................75 Bolinhos de Amor ................................................................ ............................................................................. ............................................. 75 Música N.º 11 ........................................................................................................................ 75

Cena V ................................................................ ................................................................................................ ................................................................. .................................75 Cena VII ................................................................ .............................................................................................. ..............................................................76 Sempre em Pé................................................................ .................................................................................... .................................................... 79 300


Opereta Maria

Música N.º 12 ........................................................................................................................ 79

Cena VIII ................................................................ ............................................................................................ ............................................................81 Marcha dos grandes ................................................................ ........................................................................... ........................................... 81 Música N.º 13 ........................................................................................................................ 81

Vamos ao Vira ................................................................ ................................................................................... ................................................... 82 Música N.º 14 ........................................................................................................................ 82

Cena XI ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................84 Cena XII ................................................................ .............................................................................................. ..............................................................86 Cena XIII ................................................................ ............................................................................................ ............................................................86 Suplica ................................................................ ................................................................................................ ................................................................ 86 Música N.º 15 ........................................................................................................................ 87

Cena XIV ................................................................ ............................................................................................ ............................................................87 Cena XV ................................................................ .............................................................................................. ..............................................................88 Final do segundo Acto ................................................................ ....................................................................... ....................................... 89 Música N.º 16 ........................................................................................................................ 89

Cena do Terceiro Acto ................................................................ ............................................................................................. ............................................................. 91 Cena I ................................................................ ................................................................................................ .................................................................. ..................................93 Abertura do Terceiro Acto ................................................................ ................................................................ 93 Música N.º 17 ........................................................................................................................ 93

Cena II................................................................ ................................................................................................ ................................................................. .................................94 Canção da Ceguinha ................................................................ .......................................................................... .......................................... 95 Música N.º 18 ........................................................................................................................ 95

Cena III ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................95 Cena IV ................................................................ ............................................................................................... ...............................................................96 Cena V ................................................................ ................................................................................................ ................................................................. .................................97 Canção do Amor................................................................ ................................................................................ ................................................ 99 Música N.º 19 ........................................................................................................................ 99

A Guida e o Magala ................................................................ ......................................................................... ......................................... 102 Música N.º 20 ...................................................................................................................... 102

Cena VI ................................................................ ............................................................................................. .............................................................103 Cena VII ................................................................ ............................................................................................ ............................................................104 301


Opereta Maria

Canção de BoasBoas-Vindas ................................................................ ................................................................... ................................... 104 Música N.º 21 ...................................................................................................................... 104

Cena VII ................................................................ ............................................................................................ ............................................................107 Cena VIII ................................................................ .......................................................................................... ..........................................................109 Brinde ................................................................ .............................................................................................. .............................................................. 110 Música N.º 22 ...................................................................................................................... 110

Primeiro Acto................................................................ ................................................................................................ .................................................................... .................................... 113 ABERTURA E MEDITAÇÃO DO 1.º ACTO ............................................................................. 115 O MEU SONHO .................................................................................................................... 127 JOGO DA SUECA ................................................................................................................ 135 FADO DO SOLDADO ........................................................................................................... 143 TERCETO DOS CRIADOS ...................................................................................................... 151 CORO DOS TRABALHADORES ............................................................................................. 163 CANÇÃO DO AMOR ........................................................................................................... 167

Segundo Acto ................................................................ ................................................................................................ .................................................................... .................................... 169 PRELÚDIO DO 2.º ACTO ....................................................................................................... 171 CORO DE ABERTURA DO 2.º ACTO ..................................................................................... 179 SAMBA ................................................................................................................................. 191 SOLDADO E SOPEIRA .......................................................................................................... 199 BOLINHOS DE AMOR ........................................................................................................... 211 SEMPRE EM PÉ ...................................................................................................................... 219 MARCHA DOS GRANDES .................................................................................................... 227 VIRA ..................................................................................................................................... 235 SÚPLICA ............................................................................................................................... 237 FINAL DO 2.º ACTO ............................................................................................................. 240 CORO FINAL DO 2.º ACTO .................................................................................................. 243

Terceiro Acto ................................................................ ................................................................................................ .................................................................... .................................... 251 PRELÚDIO DO 3.º ACTO ....................................................................................................... 253 CORO DO 3.º ACTO ............................................................................................................ 261 CANÇÃO DA CÉGUINHA.................................................................................................... 263 CANÇÃO DE AMOR ............................................................................................................ 269 GUIDA E O MAGALA ........................................................................................................... 277 CANÇÃO DE BOAS-VINDAS ............................................................................................... 285

302


Opereta Maria

BRINDE AO AMOR ............................................................................................................... 291

Bibliografia ................................................................ ................................................................................................ ..................................................................... ..................................... 297

303


Opereta Maria

304


Opereta Maria

Universidade S茅nior da P贸voa de Varzim 305


Libreto da opereta maria  
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