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3ª edição - Set/2010 Revista digital de cinema da J. Júnior

Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

Tarantino X Ritchie TOP 10: Las mejores versiones del cinema

Cada um com seu País das Maravilhas

Tragédia número 174


editorial

Invenções e versões Roteiros semelhantes, diversos trabalhos de um ator, características de um diretor... São temas de conversas recorrentes a qualquer apreciador do cinema ou apenas a uma pessoa que tem assistido a muitos filmes ultimamente. As comparações que surgem são inevitáveis. É incrível o número de filmes que são versões de outros. Sem contar aqueles que são baseados em livros ou em histórias em quadrinhos. Há aqueles que optam por refazer exatamente a história original. Enquanto há outros que preferem adaptar as idéias. Às vezes a adaptação é tão grande que nem parece a mesma história. Impossível não pensar e discutir sobre qual é a melhor versão. Talvez, no cinema, seja também verdadeira aquela idéia de que nada se cria, tudo se transforma. Os diretores atuais buscam inspiração nos de outras décadas, as produtoras de cinema fazem cada vez mais seqüências de filmes, alguns roteiros são derivados de outros. Pode ser que nem tudo no cinema é totalmente original, mas isso não o deixa menos interessante. Na verdade, ainda é a grande paixão de muitas pessoas. Nessa edição, selecionamos alguns filmes, diretores e atores e os comparamos de diversas formas. Então, leia, compare, discorde ou concorde. E bom divertimento.

Por Patrícia Chemin

Cinéfilos Revista Digital 3ª Edição Setembro/2010 Equipe

Editora: Patrícia Chemin Repórteres: Beatriz Montesanti, João Saran, Juliana Malacarne, Meire Kusumoto, Paula Zogbi, Paulo Fávari e Shayene Metri

Diagramação e edição de arte:

Ana Marques, Anna Carolina Papp, Daniela Bernardi, Daniela Frabasile, Lucas Rodrigues, Mayara Teixeira e equipe do Cinéfilos O Cinéfilos é um projeto da Jornalismo Júnior | Empresa Júnior de Jornalismo ECA/USP Presidente: Yasmin Abdalla Vice-presidente: Rafael Ciscati


Índice SEÇÃO

MATÉRIA

PÁGINA

Fazendo História......... A Conquista da Honra X Cartas de Iwo Jima............. 4 Deu Fome......................... Chocolate X Estômago.................................... 6 Cá Entre Nós............... Ônibus 174 X Última Parada 174............................ 8 Letras na Tela................. Alice no País das Maravilhas............................. 10 Personagem............................ Woody X Allen....................................... 15 Principal..................... Quentin Tarantino X Guy Ritchie........................... 17 Vale a Pena Ver........... Menina de Ouro X Meninos Não Choram................. 25 Top 10....................... As Melhores Versões do Cinema............................ 27 Cine Trash.............. Godzilla e As Piores Versões do Cinema..................... 31 Cinetecetera................... Frida Kahlo X Olga Benário............................... 34


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fazendo historia

Uma batalha pela honra Por Juliana Malacarne

No dia 19 de fevereiro de 1945, a batalha que duraria 35 dias pela ilha de Iwo Jima começou com 30 mil fuzileiros americanos desembarcando em solo japonês. Essa data é apenas um marco histórico, pois a ilha já havia sofrido um bombardeio de dois dias seguidos sem trégua antes dos soldados chegarem. Iwo Jima fica a 1200 km de Tókio e tem apenas 24 km2 de extensão. Apesar de pequena, a ilha constituía um ponto estratégico para os americanos que pretendiam ter nela um local para pousar e reabastecer seus bombardeiros (aeronave militar projetada para atacar alvos terrestres, principalmente através do lançamento de bombas) quando estivessem a caminho da ilha principal japonesa. É baseado nessa batalha que ocorre durante a Segunda Guerra Mundial que o diretor Clint Eastwood dirigiu dois filmes: “Cartas de Iwo Jima” e “A Conquista da Honra”, ambos indicados ao Oscar, sendo que o primeiro conquistou a estatueta de melhor edição de som, em 2007. Iwo Jima, a ilha que cheira a enxofre, é um ponto de contato entre os dois filmes. Para os americanos, era algo

que devia ser conquistado, porque é isso que se faz na guerra, e, de preferência, rapidamente para que os soldados possam voltar logo para casa. Os japoneses tinham a missão de defendê-la, não importa o que lhes acontecesse. Era uma ordem do Imperador. Eles sabiam que se aquela ilha fosse tomada pelos americanos havia grandes chances do Japão perder a guerra. Eles foram para a batalha sabendo que perderiam suas vidas, mas dispostos a lutar pelo seu país até o final. Contraponto interessante com o pensamento dos americanos, de que pode até se lutar pelo seu país, mas se morre pelos amigos. “A Conquista da Honra” conta a história de três soldados americanos que sobreviveram à batalha de Iwo Jima e, ao chegarem aos Estados Unidos, foram considerados heróis, pois apareciam em uma foto hasteando a bandeira estadunidense no topo do Suribachi (ponto mais alto de Iwo Jima). Essa foto foi vista pela população como o triunfo dos Estados Unidos sobre os japoneses, baseada na força daqueles homens que se uniam para levantar a bandeira. Um deles se aproveita da fama passageira. O outro não acha justo levar a glória para si, mas aceita o título de herói, pois esse incentivava a população a colaborar com a guerra. E o terceiro acha tudo aquilo uma palhaçada. Eles não deveriam ser considerados heróis só porque apareceram em uma fotografia. Ele diz que a guerra é algo terrível e que viu e fez


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fazendo historia A Conquista da Honra (EUA, 2006)

coisas lá que não merecem ser aplaudidas ou vangloriadas. O filme traz a discussão de quem são nossos heróis. Heróis são algo que nós construímos, pois precisamos deles, não porque de fato aqueles homens o sejam, não devemos pedir isso a eles. Os soldados que sobreviveram à batalha tentaram apenas não ser atingidos por balas e morteiros. Se fizeram algo realmente de valor foi terem se arriscado para salvar seus companheiros de batalha, mas não foi isso que lhes rendeu a fama. Há aí uma profunda discussão sobre o que a sociedade - não só a americana - valoriza. Já no filme “Cartas de Iwo Jima”, somos imersos em uma cultura completamente diferente. Homens dispostos a dar a vida para defender sua nação, ou apenas para morrerem com honra. Os japoneses eram belicamente muito inferiores aos americanos, então usaram como estratégia de resistência esconderem-se em túneis e de lá acertarem os inimigos. Essa estratégia inteligente foi a responsável por terem conseguido manter a batalha por 35 dias. Enquanto os EUA contavam com aproximadamente 70 mil soldados, o Japão dispunha apenas de 22 mil. As diferenças eram gritantes, mas o general Kuribayashi, responsável por liderar as tropas japonesas nesse confronto, proibiu seus homens de morrerem antes de terem matado pelo menos 10 americanos cada. Eles sabiam que perderiam, mas que-

riam causar estragos no adversário; conseguiram. Foram 7 mil mortos e 19 mil feridos do lado americano. O filme mostra como uma cultura influi no modo de pensar dos homens. Eles estavam lá, pois acreditavam que só assim defenderiam suas famílias. Preferiam acabar com a própria vida do que se render ou ser morto pelo inimigo, o que provocou o suicídio em massa de vários deles. Não se vê aqui menos amizade entre os japoneses do que a que existia entre os americanos, mas o amor pela pátria é ressaltado. A história é centrada em Saigo, um jovem soldado que ainda não teve oportunidade de conhecer sua filha. Ele resolve não se suicidar, acaba capturado pelos americanos e volta para casa. O filme levanta a questão sobre o que é certo ou não em tempos de guerra. Poderia se dizer que um conta a história da batalha na visão dos japoneses e o outro na visão dos americanos. Não está errado, mas é uma visão simplista. Com os filmes, Clint Eastwood não quer mostrar quem é o mocinho e quem é o bandido ou quem tem mais razão. Quer mostrar que não existem heróis, que honra é algo relativo, que depende da cultura, que o que pode parecer valoroso para uns pode levar a conseqüências ruins, que a guerra é algo terrível independente de quem venceu, mas que a amizade acontece entre quaisquer seres humanos, independente da nacionalidade.

Título Original: Flags of Our Fathers Direção: Clint Eastwood Elenco: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach Gênero: Drama | Guerra Cartas de Iwo Jima (EUA, 2006) Título Original: Letters from Iwo Jima Direção: Clint Eastwood Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase Gênero: Drama | Guerra


deu fome

Os efeitos das receitas Por Shayene Metri

Estômago (Brasil, 2008) Direção: Marcos Jorge Elenco: João Miguel, Fabiula Nascimento, Babu Santana, Carlo Briani Gênero: Drama

Que “cozinhar é uma arte”, Raimundo Nonato não tem muita certeza. O paraíba de “Estômago”, contudo, não pode negar que a cozinha lhe rendeu muita história e certo poder. Cozinheiro de mão cheia, Nonato faz sucesso em qualquer lugar: boteco, restaurante italiano e até dentro da prisão. Nós, cinéfilos, podemos não nos dar bem na cozinha, mas acreditamos que comer é uma arte, ainda mais quando acompanhada de um bom filme. Dentre as delícias realizadas por Nonato, nada mais prático e gostoso do que a famosa coxinha de frango,

obrigatória nos cardápios de qualquer barzinho. Para você que prefere passar o sábado em casa assistindo a um bom filme com os amigos, siga a receita abaixo, perfeita para abrir o apetite de todos. Tome cuidado! A coxinha não é o alimento preferido para os preocupados com a saúde. Não exagere no óleo nem se empolgue na quantidade, você pode morrer de indigestão ou colesterol. Raimundo Nonato já nos provou que comer pode ser muito mais que um mero prazer e deixou uma dica: cozinhe você mesmo.

COXINHA DE FRANGO INGREDIENTES 3 xícaras de água 3 envelopes de caldo de galinha 3/4 de xícara de óleo 4 xícaras de farinha de trigo Mistura para empanar e farinha de rosca

COMO FAZER Leve ao fogo até ferver, a água, o caldo de galinha e o óleo. Tire do fogo e junte a farinha de uma só vez. Mexa bem. Volte ao fogo, mexendo sempre até soltar da panela. Deixe esfriar um pouco e mexa com as mãos. Pegue uma porção da massa e abra um pouco na palma da mão. Com o lado externo da colh-er, espalhe o catupiry. Adicione um pouco do recheio e faça movimentos circulares com a mão para fechar as extremidades. Passe em mistura de empanar e na farinha de rosca. Frite em óleo quente.


deu fome Preocupações à parte, quem sabe você não se descobre um exímio chef e decide seguir carreira? Com Nonato, foi assim. Porém, por favor, não esqueça do essencial: alecrim. Agora que já mataram a fome, o que fazer para acompanhar o próximo filme da maratona de cinéfilos? Uma sobremesa. E, neste inverno, a indicação preferida é o chocolate quente. Se você acredita que chocolate é só mais um doce e serve apenas para engordar, não precisa nem continuar a leitura. Caso seja um chocólatra que entenda bastante sobre o poder do cacau, mãos à obra. Só que não se trata de um chocolate qualquer. A receita em questão, criada pelos maias, tem o poder de mudar a vida de muita gente. Em “Chocolate”, a comportada vila fran-

cesa Lansquenet-sous-Tannes vê sua assustadora tranqüilidade acabar com a chegada de Vianne e seus magníficos chocolates. A receita vai amenizar o frio e também pode ser útil, diz a lenda, para um filme a dois. Afrodisíaco ou não, o chocolate quente com pimenta garante um “au revoir a la tranquillité”. Comidinhas prontas, nosso último conselho é pensar bem na ordem dos filmes da maratona. “Estômago”, mesmo com tantas receitas maravilhosas, pode estragar o seu apetite. Raimundo Nonato mostra que, caso se irrite, pode ir além de “pegar alguém pelo estômago” e fazer da comida uma arma. Já o sutil “Chocolate” é uma delícia para seus olhos e vai lhe deixar com água na boca, assim como os doces de Vianne.

CHOCOLATE QUENTE COM PIMENTA INGREDIENTES 60 ml creme de leite fresco 85 g chocolate meio amargo, picado 180 ml leite Uma lasquinha de gengibre fresco 1 pimenta dedo-de-moça, cortada ao longo sem sementes 1 colher (chá) conhaque

COMO FAZER

Em uma jarra refratária, coloque o creme de leite, e leve para aquecer no microondas. Junte o chocolate picado, e misture até o chocolate se dissolver e formar um creme homogêneo. Reserve. Em outra jarra refratária, coloque o leite, o gengibre e a pimenta e leve para ferver no microondas. Retire a pimenta e o gengibre, junte o creme de chocolate e o conhaque, misture bem e sirva a seguir, com um pauzinho de canela para aromatizar.

Chocolate (EUA e Reino Unido, 2000) Título Original: Chocolat Direção: Lasse Hallström Elenco: Carrie-Anne Moss, Alfred Molina, Johnny Depp Gênero: Drama | Romance


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ca entre nos

TRAGÉDIA NÚMERO174

Por Juliana Malacarne O ônibus 174 saiu da Gávea no dia 12 de junho de 2000, uma segundafeira ensolarada, e ninguém poderia imaginar que entraria para a história do Brasil como uma das piores tragédias que já ocorreram. Sandro Barbosa do Nascimento nasceu em 1978, aos seis anos de idade teve que superar o assassinato de sua mãe, em 1993 sobreviveu ao massacre da Candelária (local onde vivia), em que vários de seus amigos morreram. Sete anos depois ele seqüestra o ônibus 174 e torna-se protagonista desse episódio. A história desse jovem e a do seqüestro em si são abordadas em

dois filmes: “Última parada 174” e “Ônibus 174”. “Última parada 174” é uma ficção baseada na história de Sandro e filmada por Bruno Barreto. Já “Ônibus 174” é um documentário dirigido por José Padilha que reúne imagens verídicas do seqüestro e depoimentos dos reféns e de pessoas que conheciam o criminoso. As dessemelhanças entre os dois filmes devem-se, em grande parte, por serem de gêneros diferentes. Na ficção, o drama pessoal vivido por Sandro acaba sendo ressaltado, pois, por mais emocionantes que sejam os


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ca entre nos depoimentos, ver aquilo em imagens mexe muito mais com o espectador. A vida terrível que ele teve salta aos olhos e é difícil não pensar em uma relação de causa e efeito. Já no documentário, o momento em que ele atira na refém fica mais evidente. O terror das vítimas. Não dá pra ignorar. Pensa-se imediatamente no que aquela mulher fez de mal para Sandro para ele estar com uma arma apontada para sua cabeça. O documentário faz uma crítica clara à atuação da mídia durante o episódio, aos repórteres que cercaram o ônibus e impediram a polícia de executar seu trabalho sem tanta pressão. Por ter sido transmitido ao vivo na TV, diversas decisões deixaram de ser tomadas. Por exemplo, ordenar que um atirador de elite atirasse em Sandro quando ele estivesse com a cabeça para fora do ônibus, o que ele fez diversas vezes para conversar com o policial que negociava o resgate. Atirar em Sandro provocaria um efeito muito chocante pela TV, o que não era interessante para a imagem do Rio, já que o seqüestro era transmitido para o mundo todo. O documentário aborda mais profundamente que a ficção a inabilidade da polícia em resolver o caso, o que, entre outros fatores, causou a morte de uma das reféns. O documentário dá um panorama mais completo sobre a situação e todas as forças que atuaram nela, mas o filme choca mais por causa das atuações e situações remontadas além do seqüestro. Porém, os dois deixam claro que os reféns não fizeram nada para Sandro, nada que despertasse aquele ódio que ele tinha no olhar. Não diretamente, pois a sociedade transformou Sandro no que ele foi. Sandro

não é uma vítima, mas é um ser humano ignorado, invisível. No seqüestro do ônibus 174 ele se fez ver para o Brasil e para o mundo. Expôs a chaga em nosso próprio lar que muitos fazem questão de ignorar. Não vai ajudar em nada esquecer que os pobres existem. Não adianta não dar educação e achar que só as camadas baixas serão atingidas. Os erros do passado sempre voltam e atingem a todos. É isso o que os filmes querem dizer. Não podemos continuar a ignorar os “Sandros” se não quisermos que tragédias como a do 174 se repitam. Ônibus 174 (Brasil, 2002) Direção: José Padilha Gênero: Documentário

Última Parada 174 (Brasil, 2008) Direção: Bruno Barreto Elenco: Michel Gomes, Marcello Melo Jr., Gabriela Luiz, Cris Vianna Gênero: Drama


letras na tela

Cada um com seu País das Maravilhas Por Paula Zogbi

Uma menina que não entendia qual é o propósito de um livro sem imagens ou diálogos. Essa é Alice, personagem mais de Charles Lutwidge Dodgson (sob pseudônimo de Lewis Carroll). Mas ela não é só de Carroll, tampouco só dos livros. Ela também é das telonas: de Tim Burton, de Jonathan Miller, William Sterling e muitos outros. E o Letras na Tela desse mês se dedica a desvendar e, é claro, comparar alguns desses países das maravilhas com todas as suas peculiaridades.

Alice in Wonderland (Reino Unido, 1903) - P&B Direção: Cecil Hepworth, Percy Stow A primeira adaptação do livro de Carroll para as telonas foi um curta, originalmente com 12 minutos, o filme mais longo feito na Inglaterra até então. A produção, feita após 8 anos do nascimento do cinema, fez grande sucesso e os efeitos especiais usados para fazer Alice crescer e diminuir diante do espectador foram um mar-

co da história do cinema. Em resumo: um clássico. Apesar disso tudo, a película quase foi completamente perdida com o passar dos anos, o que restou foram 8 minutos restaurados, com algumas manchas e imperfeições.

Alice no País das Maravilhas (Estados Unidos, 1951) - colorido Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson, Hamilton Luske “Clássico é clássico e vice-versa”, já dizia o filósofo. A animação da Disney levou, no total, 15 anos para ser feita, sendo 10 apenas para o desenvolvimento no papel e 5 para a produção em si. Muitos daqueles que viram apenas o filme não sabem, mas a tão famosa Alice do vestidinho azul também passa por situações que vêm do livro Alice Através do Espelho (Trough the Looking Glass), como o encontro com Tweedle Dum e Tweedle Dee e a visita ao jardim das plantas que falam. A história adaptada conta, inclusive, com personagens secundários que não existiam na original de Carroll, como o cachorro-vassoura. Como as produções da Disney são


letras na tela feitas majoritariamente para crianças, os roteiristas se utilizaram de pequenas adaptações na história, principalmente no sentido de apresentar nela ensinamentos e uma moral. Um exemplo disso é o fato de Alice desejar, ao início do filme, que existisse um mundo só seu, completamente nonsense, no qual não teria que fazer obrigações que não gostasse. Obviamente, se arrependeria depois. De qualquer forma, é indiscutível que Alice no País das Maravilhas é um dos longas animados mais importantes já feitos. E, portanto, imprescindível para qualquer cinéfilo.

Alice in Wonderland (Reino Unido, 1966) - P&B Direção: Jonathan Miller Essa ótima versão foi lançada inicialmente para a TV britânica BBC e esteve perdida por um bom tempo. A releitura mostra uma Alice com volumosos cabelos crespos e um olhar vazio, que é atraída a um País das Maravilhas pouco convidativo, condizente com sua própria aparência. Boa parte do filme é quase impossí-

vel de se compreender sem conhecer a história previamente. Os animais, por exemplo, são interpretados por atores sem nenhuma fantasia ou acessório característico, apenas agindo de forma nada humana. É brilhante, no melhor estilo psicodélico de Dodgson. Foram muito bem exploradas as peculiaridades de cada personagem, como a loucura do Chapeleiro Maluco, a mente perturbada da Rainha de Copas e o jeito esquisitão do rei. O espectador pode se imaginar facilmente tendo o livro novamente em mãos. O filme se torna especialmente assustador quando Alice fala sem abrir a boca, ou quando a trilha sonora se mistura e some em meio a altos zumbidos de mosca. Essa trilha sonora, aliás, é algo à parte. Composta e executada por Ravi Shankar, cria um clima de sonho e é capaz de fazer o espectador penetrar tão completamente quanto a protagonista nesse sombrio universo paralelo.


letras na tela Alice’s Adventures in Wonderland (1972) - colorido Direção: William Sterling Uma versão feita para toda a família. Com um certo “quê” de O Mágico de Oz, o musical é mais uma mistura de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, na qual até mesmo Charles Dodgson é personagem. Chamam a atenção principalmente as cores (vide tom de rosa da poção de encolhimento no início) e a perfeição no figurino, vencedor do prêmio BAFTA. Custoso acreditar que existe uma pessoa comum (Michael Crawford) por trás de todo aquele pêlo do coelho branco. E o Chapeleiro Maluco (Robert Helpmann) parece ter sido montado especialmente com o propósito de mostrar a Willy Wonka (A Fantástica Fábrica de Chocolate, 1971) quem é seu verdadeiro “pai”.

“Era a melhor manteiga...” É interessante notar também a repetição da figura de Peter Sellers, como a Lebre de Março. O ator britânico, de muito prestígio, já havia interpretado o Rei de Copas na versão para a televisão de 1966.

Alice (Tchecoslováquia, 1988) - colorido Direção: Jan Svankmajer Um País das Maravilhas com acesso por uma gaveta cheia de material escolar, onde o que Alice bebe para diminuir é tinta roxa e a lagarta do cogumelo tem o corpo formado por uma meia 3/4. Essas e muitas outras bizarrices te aguardam em Alice do surrealista Svankmajer. Mais uma vez vemos uma adaptação do livro infantil que não foi feita exatamente para crianças. O filme é uma mistura da atuação de uma loirinha angelical (Kristýna Kohoutová) com a técnica de animação stop-motion,


letras na tela

onde o diretor se permitiu reinventar boa parte dos personagens de Carroll e ainda criar outros mais, completamente seus. Quase isenta de diálogos, a produção mostra que é possível montar um País das Maravilhas completamente inovador, mesmo que não se modifique a essência da história original de Carroll. Vale a pena se enfiar nessa gaveta e conhecer um novo mundo esquisito e perturbador, onde pessoas viram bonecas e almofadinhas de alfinete podem ser porcos-espinhos.

145 anos depois, 10 anos mais velha Alice in Wonderland (Estados Unidos, 2010) - Colorido, 3D Direção: Tim Burton Dentre todas as versões aqui apresentadas, essa é definitivamente a que mais foge da história original de Carroll. E não é só porque a personagem cresceu. Linda Woolverton, roteirista do filme, e Tim Burton praticamente pegaram as histórias de Alice, misturaram, sugaram toda a sua essência e enfiaram em outro buraco de coelho qualquer. É a primeira vez que pode se

perceber um confronto aberto entre o “bem” e o “mal”, e Alice tem uma missão clara (e bizarra) no País das Maravilhas. Gato de Cheshire, Chapeleiro Maluco, Coelho Branco e até mesmo as rainhas, todos personagens incrivelmente emblemáticos em sua origem, se tornam companheiros ou inimigos de Alice, perdendo muito de suas originalidades e personalidades. Esse quase um século e meio de existência não deve ter feito bem a eles. Obviamente, não é um filme ruim: as bilheterias não mentem. Foi criado um mundo realmente fantástico em 3D, com uma montagem linda, que causou grande euforia e uma febre de Alice há muito não vista. O grande problema é que a história de Burton e Woolverton não é, e nem tem metade da genialidade da de Carroll.


letras na tela

Outras cartas do baralho erland Alice of Wond - Nesin Paris (1966) lice, já

,A sa animação sa, tem o muito famo conhecer sonho de s personagen outros m osos e também fam ouca relaParis. Tem p istória de ção com a h Carroll.

Alice in Wonderland: A Musical Porno (1976) -

Versão adulta de Alice. A personagem sonha que é levada a uma aventura sexual no País das Maravilhas. Arrecadou mais de US$ 90 mi.

Alice’s adventures in wonderland (1910) Curta de 10 minutos.

Alice in Wonderland

(1931) - No ano anterior ao centenário de Carroll, Alice ganha voz pela primeira vez. Recebeu pouca atenção e houve até uma época de dúvida se ele ainda existiria.

Alice in W or What’sonderland a Nice kid like y o u doing in a place li k e this? (1966) -

Animaçã para TV o que con ta com a participa ção de perso nagens c omo Fred Flin tstone.

e the Palac t a e c li A sical pro

Mu (1982) telepara a duzido por trelado s e o ã vis indireep. Foi Meryl St Emmy. cado ao

Kuni Fushigi no (1983 no Alice Anime

- 1984) pisódios de 52 e ido transmit . no Japão

Alice in Wonde

rla

nd (1988) - A nimação australiana que teve o cuidado de não utilizar elemen to algum de Alice Atr avés do Espelho. Alice in Wond erland

(1999) - F ilme produzido para a televisão, vence dor de 4 Emmys.

Alice merve au pays de s illes (1 a 9

49) prime F ira a franc dapta oi esa. ç ão Mistu res ra a reais t o e an em s top-m imaçã o otion proce . Sof ss reu Estad os na just iça no os U nidos s foi la , já nç que versã ada enqu o da an produ Disne to a zi y er a ve gr da. O cas o teande r eperc à épo ussão ca.

Alice na Terra dos Ácidos - Alice in Acidland (1968) - Uma

paródia underground, onde uma garota suburbana chamada Alice experimenta drogas pesadas e conhece um novo mundo. Para maiores.

Alice in W onderland (198

3) - A daptação baseada em mus ical da Broad way.

Alice in W onderland (19

85) - Fil me prod zido em uduas pa rtes para a televisão , estrelado por uma atriz de apen as 10 an os na época, Natalie Gregory.

- Minis pisódo e e d série ís das la, o Pa e N . s do dio é toma s a h il v Mara ntroinos co de s s a c r po ha ela Rain lados p Copas.

09) Alice (20 is


personagem

por MEU NOME É WOODY ALLEN, SOU COMEDIANTE, DIRETOR DE CINEMA E NÃO SEI COMO CONSIGO GANHAR DINHEIRO COM ISSO. MAS POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, FIZ MAIS DE 30 FILMES DESDE 1969, O QUE ME CONFERE A MARCA DE QUASE UM FILME POR ANO. EM RELAÇÃO ÀS MULHERES, TIVE SEIS GRANDES RELACIONAMENTOS, DOS QUAIS TRÊS CASAMENTOS E DOIS DIVÓRCIOS, O QUE ME DÁ A MARCA DE TRÊS BURRICES ATÉ ENTÃO EM UMA ÚNICA VIDA.

Uma das vantagens de ser diretor, roteirista e protagonista do seu filme é que você escolhe as atrizes. Eventualmente, com alguma delas acaba tendo uma aproximação maior e ela se torna uma de suas esposas. Não sei porque elas se interessam por mim, sou narigudo, ranzinza e não moro na Califórnia. Acho que o que as prende mesmo é a minha maravilhosa capacidade sexual. Mas quando percebem que conviver comigo é como

ver um filme meu durante alguns anos, pedem divórcio. É uma seqüência natural das coisas: primeiro vem o sexo, que alivia a tensão; depois vem o amor, que a provoca, e por último, a extorsão. Não que eu seja um louco ou tenha mania de perseguição, mas tenho lá minhas neuras. Constantemente faço reflexões sobre a morte e a condição humana. É amedrontador você pensar que o universo está em expansão

*


personagem e que o chão pode ruir a qualquer momento. E se um grande meteoro, como o que matou os dinossauros, atingir a Terra amanhã? Por outro lado, e se nada existir de fato, gastei dinheiro à toa com o meu carpete novo? Faz parte da minha rotina acordar no meio da noite pensando nessas coisas, horrorizado. Que filme meu você deveria ver? Qualquer um, as chances de você dar de cara com um judeu novaiorquino neurótico são enormes. Geralmente eu não leio críticas – meu trabalho é fazer filmes – mas sempre me dizem que meus personagens são iguais. Bom, há um famoso dramaturgo bra-

sileiro que quando cria personagens iguais põe o nome de Helena. Eu ao menos mudo os nomes, a profissão. Não é lá muita coisa, mas para esse pessoal mais novo, que escuta esse “lixo arrebenta tímpano”, passa despercebido. Preciso ir agora, é hora de voltar ao trabalho. A Carla Bruni fez uma participação nele e me deu uma baita dor de cabeça. Como é fraquinha a moça... Tive de fazer 35 tomadas dela numa cena sem diálogo! Isso sem falar que ela não para de olhar para a câmera. É como eu disse há algum tempo: que mundo! Poderia ser maravilhoso se não fossem as pessoas.

*Para você que vibrou achando que esta matéria foi escrita pelo Woody Allen, é com um certo prazer que quebramos sua expectativa ao informar que, na verdade, ela é obra de Paulo Fávari.


principal

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As semelhanças deixam dúvidas: Tarantino fez escola? Ritchie é injustiçado quando o chamam de “Tarantino piorado”? Em seções, os traços dos dois colocados em combate!


principal

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violencia É a semelhança mais óbvia. Tarantino não seria Tarantino se seus filmes não mostrassem pelo menos uma cena em que o sangue é o personagem principal. Tente imaginar “Cães de Aluguel” com policiais cujas orelhas estão em seus devidos lugares. Ou então “Kill Bill” sem cabeças, braços e pernas voando pelos ares após o corte preciso de uma espada Hanzo. Ou ainda um “Pulp Fiction – Tempos de Violência” em que um Chevy Nova não está entupido de sangue e pedaços de crânio. Im-

por Meire Kusumoto

possível! Guy Ritchie parece andar na mesma trilha, mas com mais receio. Sua temática principal é o mundo do crime, o que, por si só, supõe violência. Humanos servindo de diversão para caranguejos em “Rocknrolla – A Grande Roubada” evidenciam isso. Entretanto, Ritchie trata o assunto de forma mais esquemática, com mais reviravoltas e jogos de câmeras, subjugando a violência às artimanhas. Em seus filmes, o sangue não jorra e as cabeças não voam.


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historia fragmentada

principal

Essas reviravoltas não são exclusividade de Guy Ritchie. Na verdade, Tarantino é especialista em fragmentar histórias e mudar a ordem em que os acontecimentos são mostrados. O recurso é simples, mas genial, já que permite uma visão aprofundada de cada história paralela e torna o desfecho mais surpreendente. Tarantino fragmenta em horas (“Cães de Aluguel”), dias (“Pulp Fiction”) e anos (“Kill Bill”). Mas eventualmente mantém a ordem cronológica, como em “À Prova de Morte”. Guy Ritchie tem uma divisão diferente. O que marca seus filmes são as ações simultâneas, como em “Snatch – Porcos e Diamantes” ou em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”. Isso torna o desenrolar um pouco mais complicado, mas consegue dar o mesmo efeito: surpreende com o final inesperado, em que todas as histórias se interligam.

teorias e ´ longos dialogos

Tarantino e Ritchie são quase iguais

Guy Ritchie tem as suas sobre o Catolicismo ser um

nesses pontos. Ambos constroem cenas

erro de tradução (“Snatch”) e sobre o cigarro (“Rockn-

com longos diálogos (os de Ritchie um

rolla”).

pouco menores), em que teorias sobre

Além disso, as frases de efeito recebem grande des-

os assuntos mais diversos são formula-

taque nos dois mundos. “Kill Bill” tem “Se em sua jor-

das. O primeiro tem suas teorias, por

nada você se encontrar com Deus, Deus será cortado”

exemplo, sobre a música “Like a Virgin”

e “Revólver” tem “Você quer que as pessoas saibam

de Madonna (“Cães de Aluguel”), sobre

o quanto você é bom, atraente, generoso, engraçado,

massagem nos pés (“Pulp Fiction”) e so-

maluco e inteligente. Tenha medo de mim ou me reve-

bre o Super-homem (“Kill Bill vol. 2”).

rencie. Mas, por favor, me considere especial”.


principal

aprofundamento dos personagens Tarantino apresenta personagens mais trabalhados, desenvolvidos. “Vilão” ou “mocinho” (se é que há algum em seus filmes), todos se mostram muito carismáticos. Mesmo que Bill “mereça” morrer, o personagem interpretado por David Carradine não deixa de despertar certa simpatia. Em “Cães de Aluguel”, Harvey Keitel interpreta um Mr. White que confia na lealdade de Mr. Orange, mesmo que eles sequer saibam os nomes ou histórias de vida uns dos outros. Guy Ritchie parece ser mais superficial e despreocupado com a força de seus personagens. Eles são em grande número e não são trabalhados individualmente, o que dá ao espectador a impressão de que todos eles são secundários e que o grande personagem do filme é, na verdade, a pr��pria história, com todas as suas reviravoltas.

humor Os dois diretores não perdem a oportunidade

quando os quatro amigos de “Jo-

de mostrar um humor negro e tiradas irônicas

gos, Trapaças e Dois Canos Fume-

em seus filmes. De Tarantino, “Kill Bill vol.2”

gantes” contam piadas despreocupadamente

tem toda uma seqüência sofrida para A Noiva

enquanto o mundo está prestes a cair e muitas

(Uma Thurman), mas cômica para o público,

pessoas dispostas a atirar para todos os lados.

com Pai Mei, interpretado pelo excelente Gor-

Entretanto, Ritchie se utiliza também de um

don Liu. Em “Bastardos Inglórios”, as tentativas

humor mais “pastelão”. No mesmo “Jogos...”

do tenente Aldo Reine (Brad Pitt) de falar ita-

dois “bandidos” deveriam reaver os “canos fu-

liano não deixa de arrancar risadas, principal-

megantes”, mas não têm coragem. Aliás, cri-

mente quando ele solta um “Arrivederci” car-

minosos atrapalhados também figuram em

regado de sotaque do sul dos Estados Unidos.

“Snatch”, que tentam assaltar o quase imortal

Das produções de

Ritchie, a ironia reina

“Bullet Tooth” Tony com réplicas de armas.


^

autorreferencias

principal

Quentin Tarantino é bem conhecido pelas cons-

suas referências não são tão óbvias. Mas ele

tantes referências a filmes de outros diretores e

insiste em alguns pontos, como a presença

aos seus próprios. Tanto que um curta-metragem

infalível do narrador, a abordagem de jogos,

brasileiro foi feito, “O Código Tarantino“. Selton

a presença dos mesmos atores (em “Jogos...”

Mello e Seu Jorge discutem as autorreferências

e “Snatch”). Até o mesmo nome ele chegou

do diretor e formulam uma teoria de que todas

a usar em personagens de filmes diferentes.

as suas histórias estariam interligadas. Os per-

Avi aparece em “Snatch” e em “Revólver”, e

sonagens seriam os mesmos em todos os filmes,

seu uso já foi considerado uma referência à

tendo passado apenas por transformações.

Cabala, filosofia que o diretor seguia durante

Guy Ritchie não ganhou curta-metragem e

seu casamento com a cantora Madonna.

trilha sonora A

trilha

sonora

é

importante

em

qual-

trategicamente encaixada na cena inicial.

quer produção, mas tem força extraordiná-

Ritchie não fica atrás e joga com Ocean

ria na montagem das cenas de Quentin Ta-

Colour Scene e sua “Hundred Mile High City”

rantino e Guy Ritchie. Faltaria muito a “Kill

em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fume-

Bill vol. 1” sem a presença de “Bang bang”

gantes”. Em “Revólver”, a queda nas esca-

(Nancy Sinatra) no começo ou então “Twis-

das tem tom muito dramático com a ópera.

ted nerve” assoviado por Daryl Hannah na

Já em “Rocknrolla”, a banda The Subways

cena do hospital. “Pulp Fiction” oferece ou-

toca “Rock & Roll Queen” enquanto uma bri-

tro exemplo, com “Misirlou” (Dick Dale) es-

ga toma lugar do lado de fora de um clube.


principal

˜

˜

animacao Ambos se utilizaram da animação em pequenas seqüências de seus filmes. Em “Kill Bill vol. 1”, Kazuto Nakazawa dirigiu uma cena de oito minutos. Ela conta a história de O-Ren Ishii (Lucy Liu), que pertencia ao Esquadrão Assassino de Víboras Mortais, grupo que A Noiva promete exterminar.

“Revólver” mistura gravações e animação quando mostra a liberação de um gás de efeito sonífero num quarto de hotel. Ritchie disse que ele tivera a idéia de produzir uma seqüência animada antes de “Kill Bill vol. 1” ser lançado (este é de 2003 e “Revólver”, de 2005), portanto não estaria plagiando Tarantino.


principal Por tudo isso, percebe-se que Guy Ritchie tem um pouco de Tarantino, sim, mas não deixa de ter seu próprio estilo. A atmosfera pode ser até parecida, mas a essência dos filmes dos dois diretores é diferente. Muito mais do que ser uma versão inglesa do diretor americano, Ritchie mostra que sabe o que está fazendo. Assim como o próprio Tarantino busca referências das mais remotas no cinema, Ritchie pode ter como referência alguns dos filmes desse polêmico diretor. Não há crime algum nisso. ^

as referencias de QUENTIN Ele é um verdadeiro cinéfilo. Suas referências vão dos westerns spaghetti aos filmes japoneses: “Lady Snowblood”: História de uma menina que busca vingança pelo estupro de sua mãe e o assassinato de seu pai. “Batalha Real”: Governo japonês aprisiona alunos da nona série e os obriga a se matarem. “Três homens em conflito”: Durante a Guerra Civil Americana, três pistoleiros tentam encontrar uma fortuna em ouro.

seus admiradores “Cova Rasa”: Três amigos que dividem um apartamento permitem que

crime. Um pistoleiro, um policial, duas mulheres e um diretor de TV são os personagens da trama.

um novo morador se instale. Porém,

“Um Amor e uma .45”: Assaltante parte em fuga quan-

após alguns dias ele aparece morto

do um de seus assaltos acaba em morte. Acompanhado

por overdose e os amigos encontram

de sua noiva, tem de fugir da polícia e de um psicopata.

em meio a seus pertences uma mala

“Assassinos por Natureza”: Casal tem desejo de san-

cheia de dinheiro. “Contrato de Risco”: A história mistura várias tramas, ligadas por um

gue. Eles agem de modo a deixar sempre alguma testemunha viva para poder divulgar a história. A imprensa sensacionalista acaba por glorificar os assassinatos.


principal

^

as referencias de GUY Além de Tarantino, Ritchie busca referências em outros trabalhos: “Clube da Luta”: Cansado de sua vida comum, homem funda um clube da luta com um misterioso vendedor de sabão. “Os Suspeitos”: Cinco suspeitos de cometer um crime são presos e se unem para realizar um trabalho. Mas, na verdade, eles estão apenas sendo manipulados por alguém muito mais poderoso. “Cassino”: Retrata a Las Vegas dos anos 70 através de três personagens: um especialista em pegar trapaceiros, uma prostituta e um gângster. “Trainspotting”: Grupo de jovens escoceses mergulha no submundo para alimentar seu vício pela heroína.

seus admiradores Guy Ritchie também mostrou seu poder cinematográfico ao influenciar alguns diretores de Bollywood, maior indústria de cinema indiano. “Fool n final”: Baseado em “Snatch”, conta a história de diamantes roubados. Vários personagens tentam colocar as mãos nos disputados diamantes. “99”: Dois homens que parecem estar estacionados, sem nunca chegar a um ponto melhor em

suas vidas.


vale a pena ver

CONTRA Por João Saran e Paulo Fávari

Esses versos do poeta irlandês William Butler Yeats, citados em uma das cenas finais de “Menina de Ouro”, falam sobre a luta incessante por um espaço de paz. Paz também buscada, embora de outra maneira, em “Meninos Não Choram”. Dois filmes fortes e provocantes que tocam em tabus da sociedade contemporânea. Hillary Swank é Maggie Fitzgerald e Teena Brandon. Uma garçonete de origem pobre, determinada a se tornar lutadora de boxe no filme de Eastwood. Uma garota com crise de identidade sexual no de Kimberly Pierce. A primeira quer ganhar terreno num esporte identificado com o sexo masculino. A segunda quer ser um garoto. Ambas se equilibram perigosamente numa corda bamba cujo ponto de chegada são seus sonhos. Ambas não têm a rede de proteção familiar abaixo de si e andam contra o vento soprado pela sociedade. Em “Meninos Não Choram”, Teena Brandon apresenta-se apenas como Brandon. Nos primeiros minutos da trama, quase não se nota que é uma mulher. Envolve-se em brigas e roubos, sofre de uma rebeldia nebulosa e sem

A REGRA “Eu me levantarei e partirei para Inisfree E lá construirei um chalé de barro e varas E lá eu terei paz porque a paz vem aos poucos Dos véus da manhã para onde o galo canta.”

forma. Numa dessas confusões conhece Candace e seus amigos, ex-presidiários. Eles moram em outra cidade, de uma região homofóbica. Ao acompanhálos, acaba nesta cidade e se torna parte do grupo. É lá, também, que conhece Lana, por quem se apaixona quase que instantaneamente. Estabelecido seu objetivo (conquistar Lana), a rebeldia vai se assentando. Brandon aos poucos se transforma, sua busca pela autoafirmação sexual como alguém do sexo mascu-


vale a pena ver lino gradualmente se torna algo secundário. Quando conquista o amor de Lana, já não importa mais se sofre ou não de crise de identidade sexual, se se parece ou não com um garoto. No entanto, o momento coincide com a revelação de que Brandon é mulher, e não homem, como todos pensavam. A tragédia anunciada se consuma. Em “Menina de Ouro”, Maggie Fitzgerald é uma garçonete de meia idade, pobre e apaixonada por boxe. Por causa desse sonho vai ao encontro de Frankie Dunn, um velho treinador e dono de academia, na tentativa de que seja seu treinador. Paga, a muito custo, seis meses de academia e lá fica, persistente, à espera de que seu pedido seja aceito. Com a ajuda sutil de Eddie Scrap-Iron Dupris, ajudante e ex-pupilo de Dunn, Maggie consegue o treinamento. A partir de então, passa a ganhar luta após luta em notáveis nocautes logo aos primeiros rounds. Treinador e treinada, de gênios fortes, se mantêm em sintonia porque agem anti-naturalmente. Luta após luta, os laços entre os dois se estreitam. A família de Maggie, agora chamada de Mo Cuishle, não dá a mínima a ela. São sanguessugas sensíveis apenas ao dinheiro. A de Dunn é a filha com quem não tem contato há um bom tempo e que é indiferente às cartas que manda. Maggie e Dunn se reconhecem filha e pai. Na luta de disputa pelo cinturão mundial de peso meio-médio, o sonho acaba. Em um golpe desleal da adversária, Maggie fratura duas vértebras e torna-se tetraplégica. Sua vida perde sentido. Suplica a Dunn que a mate, como quando era menina seu pai havia feito com o cachorro paraplégico da família. A garota pobre do interior que se torna boxeadora de sucesso tem o

seu quê de fábula. A garota que quer ser garoto incomoda. Há estereótipos cruéis estabelecidos, que os filmes buscam, cada qual a seu modo, quebrar. Em conseqüência, o espectador não sai incólume a eles, afinal, partilha destes preconceitos. São histórias sobre ousar desafiar as convenções. Ousa-se, pois não há outro caminho possível. A opção pelo mais difícil é, na verdade, muito mais natural para as protagonistas do que a aceitação de uma realidade que não lhes cabe. Brandon e Maggie morrem justamente quando se sentem, enfim, parte do mundo. Este é o estreito espaço de pertencimento que suas casas de barro e varas lhes proporcionam. É a paz possível aos destoantes.

Menina de Ouro (EUA, 2004) Título original: Million dollar baby Direção: Clint Eastwood Elenco: Hilary Swank, Clint Eastwood, Morgan Freeman Gênero: Drama Meninos Não Choram (EUA, 1999) Título Original: Boys Don’t Cry Direção: Kimberly Peirce Elenco: Hilary Swank, Chloë Sevigny, Peter Sarsgaard Gênero: Drama


<TOP>

10

Las mejores versiones del cinemA Por Beatriz Montesanti, JoĂŁo Saran, Lucas Rodrigues, PatrĂ­cia Chemin e Paula Zogbi


top io

) 3 8 9 -1 2 3 9 (1 e c a f r a 10-Sc

ótimos. são igualmente e ak m re u se e do, vai à o filme original Caso raro onde ubano que, exila C o os in im cr de coso caso de um mafioso. Como Scarface conta so ro de po um sangue. a trabalhar para sangue, muito e Miami e passa s re he ul m r Institute, m daí brigas po American Film tume, se inicia da a áfi m de ou em melhores filmes to a de 1983 fic an Na lista dos 10 qu en r, ga lu 32 ficou em 6º a versão de 19 l. uma versão fie 10º. Isso sim é

9-Preso na escuridão

(abra los ojos, 1997)

As reviravoltas no enredo de Pr eso na Escuridã dro Amenábar, o (1997), de A são, sem dúvida lejan, o que mais ch filme. Entretan am am a atenção no to, a transform ação de um rote em uma histór ir o a pr in cípio comum ia genial é o pr incipal mérito nhola. Apesar de de ss a pr od ução espanão conter a m esma força do (2001), o remak or ig in al , Vanilla Sky e do filme, traz consigo um gran ação de Penélo de tr un pe Cruz, que in fo: a atuterpretou a mes ambas as versõe m a pe rs onagem em s.

8- O iluminado

(The shining, 1980)Kubrick. O diretor prova que não é

ador, e s primas de Uma das obra rontar o espect ed am ra pa s ai eitos especi s nos dá preciso usar ef recursos gráfico de a lt fa A . ar elhor não us complepode ser até m medonha está ão aç tu si la ue que toda aq o sair da a impressão de real. É difícil nã da vi na r ce te a nova el de acon tamente passív filme ganhou um O o. çã ba ur rt m certa pe cto. frente da tela co o mesmo impa ve te e ng lo de , que nem versão, em 1997


7- O Destino do Poseido

top io

(The Poseidon Adventur

e, 1973)

n

Na noite de Ano Novo, o transa tlântico SS Pose onda e começa idon é atingido a naufragar. O por uma s passageiros conseguirem es lu ta m po r su capar do navio. as vidas para Os efeitos espe atores renderam ci ai s, as músicas e os ao filme de 19 73 indicações a cinema, incluind im po rt an te o o Oscar e o s prêmios do Globo de Ouro. atualizada de 20 Já Po se id on 06, parece ser , sua versão apenas mais um sastres naturais da qu el es e caos. Além di filmes de desso, foi nomea de pior remake do ao Fr am bo em 2007. esa de Ouro

6- Dança Comigo? )

6 ica(Shall we Danso uja?po,nê19s S9hall we Dansu? dispensava a teammerum a

só, contador Completo por si bem sucedido um s, ia ór st hi s que se bas as de algo. Depoi a lt nização. Em am fa e nt se a nd de vida, ada, porém ai amento e estilo rt po família estrutur m co de a ud sociedade las de dança, m em segredo. A a, inscreve em au nç da a , ão ix ão original. tém a nova pa arece só na vers enquanto man ap a, gm ti es do filme, al a dança é um os 51 prêmios a ic japonesa, na qu pl ex ca ri o dessa cultura tã A contribuição lywood. da artificial Hol contra nenhum

5- Os Infiltrados

(The departed, 2006)

Versão do chin ês Conflitos In ternos, Os Infil melhor que o or trados é consid iginal por ter id erado o pa ra r nas mãos de se. O roteiro é M ar ti quase uma cópi n Scorcea exata da vers infiltra um de se ão as iá ti ca . A polícia us agentes na máfia irlandesa de seus homen e es ta co ns s na polícia. Am egue um bos passam a te novas vidas. Ve r pr ob le m as com as ncedor de dive rsos prêmios, melhor filme, o in cl ui nd o o Globo de Ouro Oscar de de melhor dire lhor roteiro adap to r e o B A FT A de metado.


top io

959) -1 5 2 9 (1 r u H n e B 4

s. Antes areceu nas tela ap e qu ro ei im não foi o pr é o mais William Wyler eza, o de 1959 rt ce m co , as O Ben-Hur de M e de 1925. e é escrarsões de 1907 do século I, qu u, de ju co ri dele, houve ve do A história bidos – são blico e crítica. de Oscars rece s ta is rd co re aclamado por pú s de é um do tar pela liberda do cinema. vizado e quer lu -se um clássico ou rn to o, ss di lém onze no total. A

3- Janela Indiscreta

(Rear Window, 1954)

Pela janela de seu apartamento, L. B. Jeffries acompanha va os passos de seus vizinhos. A suspeita de que um deles havia come tido um crime criou uma das mais famosas atmosferas de suspe nse, elevou Hitchcock ao posto de um dos mestres do gênero e abriu caminho para algumas versões. A refilmagem de Jeff Bleckner (1998 ), é um exemplo de que não se deve mexer com os clássicos.

e at l o c o h c e d a ic r b á F a ic t 2- A fantás

y, 1971) or ct fa e at ol oc ch e th d an ka (willy won filmes-família. A in ça qualquer lista de

Mel Stuart encabe mais pestinhas, A versão do diretor ícios adultos” dos de “v s ao a st po ra nt lie, co arte, com a progenuidade de Char escer. A direção de cr o nã a er rto ce o que fera de mágica ensinava às crianças à fábrica uma atmos ia er nf co a, lic dé ico e ps é mais colorida, fusão de cores quas remake. A fábrica um e rig di n rto Bu , Tim sua condição de perdição. Em 2005 bula parece revelar fá A o. nt ze cin s ai m ré mas o mundo exterio às avessas. canto sai um pouco alegoria moral e o en

<1- Psicose (Psycho, 1960)>

a de 60, o filme Fançois Truffaut e Jean-Luc Godard consideraram, na décad enta anos e muitas de Hitchcock um dos maiores da história do cinema. Cinqu o pelo explícito ou releituras depois, pouco mudou. Aqui o terror não é gerad ncia para qualquer pelo grotesco. Não é o excesso. É a sugestão. Essa é a referê to desta ópera do suspense psicológico. Além disso, a trilha é o maestro perfei o mestre. E a história medo. Gus Van Saint, em 1998, arriscou fazer melhor que já ensinou que não se revêem os cânones.


cine trash

ESCAMAS DO EXAGERO 1.

Por Paula Zogbi

Um lagarto mutante, com corpo de um tiranossauro, os longos braços de um iguanodonte e as barbatanas dorsais de um estegossauro. Apesar de sua altura, ele se esconde incrivelmente bem, e é descoberto através da sua enorme e radioativa pegada. Mais trash que isso, só um remake disso. Godzilla (Gojira) é, definitivamente, um dos monstros mais conhecidos das telonas. Só no Japão, já foram feitos pelo menos 28 filmes nos quais ele aparece. Personificando a força e o terror das armas nucleares, ele já atacou cidades como Tóquio e Nova York e lutou com outros gigantes como King Kong. Mas tudo o que ele queria era se alimentar e viver em paz. A primeira aparição do réptil foi em 1954, no Japão. Era um ator numa

fantasia de látex retardante de incêndio, e seu famoso rugido era produzido pelo atrito de borracha com um contrabaixo. Absurdamente criativo. Apesar disso tudo, esse primeiro filme tem uma razão de existir. O país estava em processo de superação da bomba, que ainda produzia seus efeitos na população. Mas qual seria a justificativa para esse monstro nuclear ir parar nos Estados Unidos? Alguém seria capaz de adaptar uma história ruim para outra ainda pior? Isso aconteceu. Em 1998, o diretor Roland Emmerich resolveu importar a criatura de dez andares de altura da Ásia para “a cidade que nunca dorme” (é assim que NY é mencionada no filme), e o resultado não foi exatamente digno de um Oscar. Em Hollywood, existe uma necessidade latente de que um americano


cine trash saiba mais que o resto do mundo e salve o dia. É essencial, portanto, que Godzilla se desloque da Polinésia Francesa à America do Norte, em tempo recorde, e destrua tudo por lá. Para amenizar um pouco, os franceses, que seriam os verdadeiros afetados, surgem para ajudar de uma forma bem misteriosa. Como se não bastasse toda a destruição, a questão nuclear e o heroísmo americano, foi possível encaixar na história um romance mal resolvido. Eis que conhecemos Audrey (Maria Pitillo), ex-namorada do biólogo que investiga o caso. Ela quer ser repórter e só precisa de um furo de reportagem tão grande quanto o lagarto, que coincidência! Sua inigualável atuação rendeu ao filme o prêmio Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante. Para os que não estiverem satisfeitos, a Warner Bros. e a Legendary Pictures prometem uma nova versão, em 3D, do filme para 2012. Muita ansiedade e expectativa para a nova aventura do réptil, ainda maior e mais “real”. Não percam.

TOP 10

2. A Pantera Cor-de-Rosa (2006) -

Steve Martin tem suas gracinhas, mas, ao contrário do humor que o original de Peter Sellers trouxe em 1963 (com o Inspector Clouseua), a imagem do velho Martin já estava gasta quando a versão de 2006 estreou. Este apresenta um caráter infantil, contrastando com o ridículo-para-adultos de Sellers.

3.

O Massacre da Serra Elétrica (1973) - Quando não conseguimos diferenciar duas versões de um filme, é sinal de que alguma coisa está errada. No caso de O Massacre da Serra Elétrica, isso fica evidente. Quem pode especificar a história das diversas versões desse filme? Tudo se baseia no mesmo maluco sanguinário com sua máquina mortífera.

4. Destino Insólito (2002) - Guy

Ritchie empregando sua esposa Madonna. Ela é uma socialite arrogante e seu barco de luxo naufraga em uma ilha deserta. O problema é que fica sozinha com um funcionário que antes desprezava. Agora estão em igualdade de posições, e é fácil saber o que vai acontecer. Versão de Por um Destino Insólito, de 1974.


cine trash

As piores versões do cinema 5. Sexta-feira 13 (2009) - Jason, o

8. A Herança de Mr. Deeds (2002) -

6. O Dia em que a Terra Parou

9. Doze é Demais (2003) - Os fil-

psicopata da máscara de hóquei, tem sua história contada do zero e, para variar, ganha poderes chuck norrianos que chegam a irritar. O filme tenta compensar com mais cenas de sexo e ação que os anteriores e se contradiz quando morre a personagem que aparece mais que a protagonista.

(2008) - Versão de homônimo de 1951. Um alienígena e um robô gigante viajam juntos à Terra. Missão: avisar que os terráqueos constituíam um perigo para os outros planetas e que, se não parassem, o planeta seria destruído. Não precisa falar mais nada.

7.

Dia dos Namorados Macabro (2009) - Num dia dos namorados, um assassino mata 22 pessoas. Dez anos depois, um infeliz descobre ser o principal suspeito do crime. A versão de 1981 era um filme de baixo orçamento, lançado em VHS. Tudo mudou quando foi relançado em 3D! Não é mais de baixo orçamento e procura espalhar suas cenas absurdas pelos cinemas. Por que, Senhor?

Versão de O Galante Mr. Deeds, 1936, o filme conseguiu estragar o que havia de bom em seu original. É a história do dono de uma pizzaria, que descobre que vai receber uma herança gorda. Então, passa a ser atormentado por uma repórter, que se apaixona por ele.

mes de 1950 e 2003 não guardam nenhuma semelhança, a não ser a família de 12 filhos e a mudança do campo para a cidade. O primeiro é baseado no livro biográfico de Frank Gilbreth Jr. e Ernestine Gilbreth, o que torna a família no cinema mais interessante. Já o filme de Steve Martin ocupa-se de filhos descontrolados. Dois filmes são demais.

10. Dr. Dolittle (1998) - Concorda-

mos que os vexames do cinema devem permanecer no limbo dos filmes ruins. Alguns diretores ignoram essa regra e revivem as histórias mais constrangedoras. Betty Thomas conseguiu fazer un Dr. Dolittle, com seus animais falantes, ainda mais desnecessário. Versão de Doctor Dolittle, de 1967.


cinetecetera

Semelhança de tom, contraste de cor Por Beatriz Montesanti

Trata-se de muito mais que duas personagens históricas, convergências ideológicas, romances idealizados e biografias eternizadas na literatura, no cinema ou na TV. As semelhanças começam na Europa, mais especificamente, na Alemanha: ali nasceu o advogado Leo Benário e dali partiu, alguns anos mais tarde, Carl Wilhelm Kahlo em direção ao México. Olga, a filha do alemão que ficou, veio ao mundo de Munique em 1908. Frida, um ano antes, da terra escolhida como destino do pai (que mudou o nome para o equivalente em espanhol: Guilhemo). A relação de ambas as mulheres, então jovens, com os pais marcou o caráter de cada uma. Olga conheceu a miséria por meio dos processos em que Benário defendia trabalhadores de Munique. Frida, em uma casa predominantemente feminina, era mais próxima do único homem, fotógrafo renomado e que tinha a pintura como passatempo. Pode-se dizer, talvez, que tenham tido uma juventude confortável, mas

logo cedo as duas mulheres já sofriam dos infortúnios que marcariam o destino de suas personagens. Olga pertencia a uma família judia na Alemanha nazista e suas posições ideológicas jogaram-na ao mundo. Frida contraiu a pólio aos 7 anos. Aos 17, sofreu o acidente de ônibus que a condenaria a mais de 30 operações e uma vida de invalidez. Enquanto a Alemanha assistia à ascensão nazista, no México, Lázaro Cárdenas governava após ser democraticamente eleito. Políticas, conscientes de suas decisões, conscientes da movimentação ideológica mundial. Aos 15 anos a alemã ingressou na Juventude Comunista. A mexicana, aos 21. Semelhanças que chegam à América Latina: o continente para onde se refugiou o pai de Frida, mais tarde tornou-se o destino de Olga. Para lá viajou com a missão de proteger Luís Carlos Prestes, cujo objetivo era nada menos que a Revolução Comunista no Brasil. Sonho que o muralista mexicano Diego Rivera, com quem Kahlo se


cinetecetera


cinetecetera

“Frida Leuschner” foi um dos codinomes recebidos por Olga, em uma missão.

Enquanto Olga apaixonavase pelo comunista que deveria proteger, Frida tinha um breve caso com o comunista expurgado da URSS que se abrigava em sua casa, ninguém menos que Trotsky.

Frida (EUA e México, 2004) Título Original: Frida Direção: Julie Taymor Elenco: Salma Hayek, Alfred Molina, Roger Rees Gênero: Drama

casou, adotaria para seu próprio país. Analogias entre os maridos, no entanto, não vão além da posição política. A figura tímida e franzina de Prestes contrasta com a imponência gordurosa de Rivera. Se lhe faltava altura, compensava no caráter não encontrado, por sua vez, no mulherengo muralista. Casamentos condenados. Olga, que talvez nunca tivesse pensado ser es-

posa ou mãe, deu à luz a uma menina no holocausto nazista. Frida esperou uma criança, porém o corpo frágil não lhe permitiu concebê-la. Ambas retratadas no cinema. Vida de dores e cores. Cores de Frida Kahlo por todo o longa que leva seu nome. Opacidade de uma época sem cor em Olga. Cenas determinantes, cabelos cortados, mudança de vida. A construção


cinetecetera

Frida deixou a mensagem de que a vida deve ser bem vivida, a despeito de suas carências e efemeridade. O trecho, abaixo, foi retirada da carta que Olga escreveu para Prestes, do campo de concentração:

Com ti aprendi querido, quanto significa a força de vontade, especialmente quando emanam de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. No entanto, pode ainda acontecer tantas coisas.

de uma época, de uma geração excepcional de artistas, o legado de uma luta. Ideologias derrotadas, consciências reerguidas. Dor física, emocional, social. A maior semelhança entre essas mulheres, talvez, fique a cargo das falas de Luís Carlos Prestes e Diego Rivera na tela: “A mesma franqueza, o mesmo jei-

to de falar de mulher decidida, senhora do próprio destino.” “Seu trabalho é ácido e sensível, duro como ferro e belo como a asa de uma borboleta, amável como um sorriso, cruel como a amargura da vida.“ Frida com suas dores terminais viveu 12 anos a mais que Olga, que foi assassinada na câmera de gás.

Olga (Brasil, 2004) Direção: Jayme Monjardim Elenco: Camila Morgado, Caco Ciocler, Luís Mello Gênero: Drama



Cinéfilos - 3ª edição