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Caminho PortuguĂŞs da Costa Estudos


Caminho PortuguĂŞs da Costa Estudos


Título

Caminho Português da Costa - Estudos Edição

Câmara Municipal do Porto Câmara Municipal da Maia Câmara Municipal de Matosinhos Câmara Municipal de Vila do Conde Câmara Municipal da Póvoa de Varzim Câmara Municipal de Esposende Câmara Municipal de Viana do Castelo Câmara Municipal de Caminha Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira Câmara Municipal de Valença Textos

Álvaro Campelo Aurora Botão Rego Carlos A. Brochado de Almeida Deolinda Carneiro Ivone Baptista de Magalhães José Augusto Maia Marques Design

Rui Carvalho Design Impressão

Felprint Tiragem

5.000 exemplares Data da Edição

novembro 2017 Depósito Legal

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Índice

Nota introdutória 5 A rede viária pré-jacobeia no Minho litoral Carlos A. Brochado de Almeida

7 As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa Ivone Baptista de Magalhães

27 Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna Aurora Botão Rego

49 A iconografia de S. Tiago e outros santos “peregrinos”, no Caminho da Costa Deolinda Carneiro

81 Fazer o Caminho: Construir e viver a Paisagem Álvaro Campelo

119 O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho José Augusto Maia Marques

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Nota introdutรณria


A investigação sobre as temáticas jacobeias apresenta abordagens diversas, contribuindo para um conhecimento cada vez mais profundo sobre os caminhos de peregrinação e os peregrinos.

Cientes de que é fundamental estimular a investigação sobre o Caminho Português da Costa, lançámos o convite a alguns investigadores, cujo percurso profissional se tem debruçado sobre estes temas e os nossos territórios em concreto, a fim de partilharem connosco aqueles que são alguns exemplos de investigação. Desta forma reunimos um conjunto de seis artigos que abordam desde a formação do sistema viário antigo, às problemáticas turísticas, passando pelos sistemas de travessias fluviais, pelos registos históricos indiretos de peregrinos, pela imaginária religiosa associada ao caminho e também pelas perspetivas que a antropologia nos abre sobre a paisagens, as suas lendas e os próprios peregrinos.

Agradecimentos A presente edição só foi possível graças à colaboração, disponibilidade e voluntarismo de cada um dos autores, razão pela qual lhes expressamos sincera gratidão em nome do grupo de trabalho associado ao Projeto de Valorização do Caminho Português da Costa.

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A rede viária pré-jacobeia no Minho litoral Carlos A. Brochado de Almeida

Natural de Forjães, Concelho de Esposende. Doutorado em Pré-História e Arqueologia pela FLUP. Professor aposentado da FLUP; Professor da Licenciatura em Turismo no ISMAI. Investigador do CETRAD e membro do CEDTUR (ISMAI). Autor de vária dezenas de publicações na área do Património Cultural com incidência na Arqueologia e na investigação viária.

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Carlos A. Brochado de Almeida

Resumo A descoberta do túmulo do apóstolo São Tiago, em Compostela, ocorreu no início do séc. IX. Os primeiros peregrinos serviram-se de uma rede viária já existente nomeadamente romana. De salientar que nenhuma via foi traçada para servir propriamente as viagens até Compostela. Os peregrinos serviram-se de uma rede pré-existente, alguma dela com origens pré e proto-históricas que é, em parte, possível documentar através do registo arqueológico e toponímico.

Com a “descoberta” do túmulo de São Tiago, em Compostela, rapidamente nasceu uma alternativa aos tradicionais locais de peregrinação de então - Jerusalém, Roma, São Martinho de Tours - sobretudo para os peregrinos peninsulares e das Ilhas Britânicas, porque se tratava de um local mais próximo e com menos percalços de viagem. Salvo os britânicos e irlandeses, com grande parte da sua peregrinação em barco, os demais tiveram de calcorrear caminhos já existentes, porque nenhuma entidade civil ou religiosa se lançou na missão de construir vias específicas para peregrinação. No começo do século IX, os itinerários peninsulares de maior projeção continuavam a ser os romanos, embora alguns deles tivessem já uma vida anterior, caso da Via de la Plata, que fazia a ligação das Astúrias ao vale do Guadalquivir, o que equivale a dizer que ligava dois dos maiores centros mineiros da antiguidade clássica: Médulas e Rio Tinto. Esta via tornou-se rapidamente num grande centro roteiro de peregrinação, tal aconteceu com o Caminho Francês, que recebia os peregrinos franceses e europeus por alturas de Roncesvalles e os encaminhava para Compostela através do Norte de Espanha. Em Portugal, a via que começava em Olisipo (Lisboa) e vinha até Bracara Augusta (Braga), atravessando o rio Douro em Cale (Porto), rapidamente se tornou no primeiro grande itinerário jacobeu português, porque, a partir da antiga capital dos Suevos, aproveitava-se o traçado da Via XIX e as pontes de origem romana que havia ao longo do percurso, com as de Ponte de Lima e de Pontevedra à cabeça. Embora com alterações de percurso posteriores, sobretudo a partir de São Pedro de Rates, este itinerário viria a ser designado por Caminho Central Português, por ser aquele que ao longo da Idade Média mais serviu os interesses dos peregrinos jacobeus. Interiorizada a ideia que em Compostela estava o túmulo de São Tiago, outras rotas foram “abertas”, aproveitando-se para isso outras estradas existentes e serviços de apoio que os mosteiros, postados à ilharga destes caminhos, iam proporcionando a quem desejava ir até Compostela e a outros santuários que foram nascendo pelo Entre-Douro-e-Minho. Uns tentaram “desviar” peregrinos criando alternativas justificadas pelo facto de albergarem o corpo de discípulos do apóstolo de Cristo: São Torcato e São Donato. Outros, aproveitando simplesmente o enraizamento da ideia de peregrinação, como fator de fé, de penitência e de sacrifício, passaram a divulgar locais de culto tidos como miraculosos: Senhora da Abadia, Santa Senhorinha de Basto, São Pedro de Rates, São Frutuoso, São Martinho de Dume, etc. (Almeida et alii, 2014).

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Carlos A. Brochado de Almeida

Antecedentes à rede viária romana

A rede viária pré-jacobeia no Minho litoral

Ao tratar das vias galo-romanas, Paul-Marie Duval escrevia, em 1959, que palavras como estrada e via tinham uma origem latina, sendo que caminho era muito provavelmente de proveniência gaulesa. Em qualquer dos casos este autor defendia que vias, estradas ou caminhos, estavam predestinados aos transportes carrários, fossem eles civis ou militares, levassem eles correio ou mercadorias, fatores que implicavam sempre uma certa organização social e a existência de relações regionais e inter-regionais e num estádio mais avançado, uma organização política centralizada quando se começa a falar em rede de estradas ou redes viárias. O autor acaba por concluir que em território francês, antes da romanização do país, não se podia falar de uma verdadeira rede de estradas (Duval, 1959, 9-11). Antes dos romanos estabelecerem um sistema de transportes terrestes na bacia do mediterrânio, outros povos já tinham usado os carros como meio de transporte, embora numa função mais militar que comercial. Os carros de guerra foram usados pelos povos do Médio Oriente, desde os persas e mesopotâmicos, aos egípcios e hebreus. Usaram-nos os gregos, tenham sido eles micénios ou troianos e naturalmente os romanos, os primeiros que sistematizaram algo que enfermava das rivalidades próprias de quem não tinha uma administração centralizada. Por exemplo, é sabido, através das descrições de Júlio César e de Pausânias, que certas regiões da Gália usavam transportes carrários para diversos fins e que entre os gregos clássicos havia caminhos empedrados e vias de ligação a unir alguns centros urbanos (César, VIII,14; Pausánias, 2000). O mesmo se pode dizer dos etruscos que em meados do I milénio a.C. já tinham carros de transportes aparentados ao carpentum romano (Paolicci, 2006, 116-117) e que as populações peninsulares mais próximas da bacia mediterrânica, que antes da chegada dos romanos tinham “sofrido” forte influência púnica e helénica, também os conheciam. Desta realidade falam as estelas votivas onde estão representados guerreiros à maneira grega, munidos de armamento e de carros com rodas radiais, mais os pequenos carros votivos encontrados em santuários ibéricos, sem esquecer os restos daqueles que foram encontrados em sepulturas tartéssicas (Corso Sánchez, 2001, 128-129), um pouco à imagem de outros, com cronologia proto-histórica, que foram encontrados na Europa Central e em Vix (França) (Kruta, 2000). Se isto acontecia desde o I milénio a.C. um pouco por toda a bacia mediterrânica bem como na antiga Gália transalpina, que já tinha um certo grau de desenvolvimento económico e social quando Júlio César iniciou a sua conquista (58-21 a.C.), o que dizer então do Noroeste Peninsular ou mais especificamente do território que a literatura romana deu a conhecer como sendo a futura Gallaecia? Este espaço estava pejado de castros, de pequenos e médios povoados de habitat concentrado, protegidos por condições naturais de defesa e quando estas se revelaram insuficientes, rodearam-se de fossos e de muralhas de pedra e terra (Silva, 2007; Almeida, 2003; Parceiro Oubiña, 2002; Carballo Arceo, 1996; Carrocera Fernández, 1995, 53-65). Um tão grande número de habitats, sobretudo no litoral oceânico e ao longo das bacias dos principais rios, pressupunha certas ligações políticas e económicas, caminhos terrestres e travessia de rios, mas não uma verdadeira rede de estradas como viria acontecer quando a administração romana se instalou no território. Havia, sem dúvida, caminhos, carreiros, sendas, trilhos, atalhos, caminhos de pé posto, por onde transitavam pessoas e animais, cargas ao dorso de pessoas e de animais, mas não caminhos em sentido carrário, porque estes, apesar de não serem desconhecidos - o carro de bronze de Vilela, votivo ou não, é uma prova que eles por aqui não eram desconhecidos - não tinham condições políticas e económicas para serem acarinhados. O urbanismo dos castros não objetivava a circulação de carros no interior do seu sistema defensivo e são desconhecidos caminhos estruturalmente preparados para que

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carros circulassem na periferia destes habitats, muitos deles situados em locais de muito difícil acesso. Embora a agricultura já fosse um fenómeno importante nas vidas populações, estava longe do incremento que veio a ter, após Roma ter instalado em Bracara Augusta a sua administração. É também sabido que Roma baseava a sua Cultura no binómio cidadecampo, na perspetiva que a sociedade mediterrânica tinha raízes profundas numa trilogia milenar: pão, vinho e azeite. Por outro lado, é também do conhecimento geral que exércitos regulares como o romano, necessitavam de grandes doses de equipamento, em parte transportado às costas dos legionários, mas também por uma grande fila de carros onde se transportava toda a sorte de material, sobretudo o pesado e naturalmente os bens alimentares que eram necessários a um tão grande número de participantes (Goldsworthy, 2003). Tais caminhos, que existiam, não eram usados, de uma forma tão complexa, pelos diversos grupos militares indígenas, que baseavam a sua força na mobilidade e no equipamento ligeiro, quando muito apoiados pelos seus resistentes cavalos de montanha (tieldones), mas foram aproveitados e até melhorados pelo exército romano com uma organização que não dispensava a equipagem alicerçada em diversos meios de transporte, na sua grande maioria, carrários. Depois havia as minas de estanho e até de ouro nesta parcela da Hispânia, atividade que exigia meios bastante complexos e provavelmente o uso de transporte carrário (Santos Yanguas, 1988, 43). Como corolário, no sentido carrário do termo, a circulação de veículos de tração animal, fosse ela bovina ou cavalar, seria muito ténue e em certas regiões até seria mesmo inexistente, mas havia movimentação de pessoas e bens desde tempos bem mais recuados que a vida útil dos castros. Aliás Estrabão é bem explícito quando afirma que os castrejos colocavam os enfermos junto dos caminhos para que os que passavam os curassem caso tivessem tido males similares (Estrabão, III, 3,7). Circular num território pejado de cursos de água, de maior ou menor dimensão, com era o caso do Noroeste Peninsular, era um desafio à imaginação e à segurança de pessoas e bens, tanto mais que o volume de água por eles transportado estava longe de ser uniforme. Nas bacias terminais, a largura e a profundidade da massa de água era um sério obstáculo, como também o eram no interior onde, a largura associada a margens ravinosas e pedregosas, aumentava as dificuldades e as incertezas da travessia. Todos estes obstáculos aumentavam nos períodos invernais e como não havia pontes - a primeira terá sido a de Ponte de Lima ainda em tempo de Octávio César Augusto (Almeida, 2008) - os habitantes de então tiveram de procurar outras soluções como sejam os vaus e os barcos. Os vaus são travessias de cursos de água, não propriamente de pé enxuto, mas que eram bastante vulgares em períodos de diminuição do caudal de água. Vaus havia em todos os cursos de água e muitas destas travessias ficaram registadas na toponímia e ainda hoje são usados em certos sítios, apesar da proliferação das pontes. Quanto ao uso de barcos temos dois documentos importantes que comprovam a sua existência. Um é literário e vem de Estrabão. Segundo este geógrafo clássico “antes da expedição de Brutos, não tinham mais que barcos de couro para navegarem nos estuários e lagoas do território; porém, hoje usam barcos feitos de troncos de árvore, ainda que o seu uso seja raro” (Estrabão, III, 3, 7). O segundo é material arqueológico, pois está relacionado com a descoberta e recolha de quatro canoas monóxilas, no rio Lima, no sítio da Passagem/Carregadouro e cujas cronologias variam entre os séculos III e II a.C. (Almeida et alii, 2009, 205-207). A primeira sistematização da rede viária, tenha sido ela principal ou simplesmente secundária, veio com a administração romana, mas temos de admitir que muitas das estradas que então se começaram a construir decalcaram traçados anteriores e caminhos já milenarmente calcorreados. Objetivamente nem tudo foi novo, salvo as pontes, os marcos miliários e todo o sistema de apoio que conhecemos pela designação latina de mutatio e mansio.


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Como definir então uma via, uma estrada, um caminho que não está documentalmente firmado, que não tem pontes, salvo os pequenos cursos de água que podiam ser atravessados sobre troncos de madeira, marcos quilométricos, restos de empedrados artificiais, cortes nas encostas e sinal algum de caixas e de muros de sustentação? Um dos caminhos da investigação para detetar possíveis pistas e trilhos calcorreados por populações de períodos cronológicos anteriores à Idade do Ferro e mesmo deste período, poderá ser através da cartografia dos vestígios arqueológicos e pela sinalização de todos os locais onde tenham havido barcas de travessia e vaus. Estes eram locais obrigatórios de passagem tal como as portelas que facilitavam a transposição entre vales adjacentes. Partindo desta premissa é possível que possamos chegar a alguns traçados inter-bacias de rios, milenares, nesta parcela do Entre-Douro-e-Minho. Analisemo-los um pouco mais em pormenor.

Caminhos pré-romanos no litoral

A rede viária pré-jacobeia no Minho litoral

O caminho que durante a Romanização tem travessia garantida no rio Douro, entre a Afurada e Lordelo do Ouro, independentemente das alterações a que o percurso posteriormente foi sujeito, tem seguramente uma existência bem anterior à sistematização imposta pela máquina administrativa romana. Outra travessia, mais que certa no rio Cávado, é a da Barca do Lago (Esposende), o mesmo se podendo dizer no rio Lima, a da Passagem, entre Moreira de Geraz de Lima e Lanheses e no rio Minho entre Valença e Tuy. Pré-romana será também a travessia de Vila Nova de Cerveira/Goián, pois está no enfiamento de uma velha senda pré-histórica que marginava a encosta poente da Serra d’Arga1 e atravessava o rio Âncora, provavelmente no sítio onde depois se construiu a medieva ponte de Vilar de Mouros. Se olharmos com atenção para os sinais da presença humana nesta região, pelo menos a partir da sedentarização de populações anteriormente a viver de um nomadismo ainda não muito calibrado, pelo menos, na ponta final do Paleolítico, veremos que a densidade de vestígios é grande, mormente a partir do chamado megalitismo (IV/III milénio a.C.), porque a norte do Lima há registos bastante seguros da presença humana. Ao longo da orla litoral, entre os rios Douro e Minho, há um grande número de topónimos conotados com o megalitismo, tais como anta, antela e mamôa que ficaram registados na documentação medieval e nos tombos das propriedades monásticas, dos coutos2 e um pouco mais tardiamente (séc. XVI), nos tombos das paróquias e no registo de propriedades privadas. Na sua grande maioria as mamôas desapareceram com o incremento da agricultura, com o desbravar dos terrenos incultos e com a densidade populacional, mas algumas escaparam, não necessariamente intactas e que nos dão a ideia de quão grande era a azáfama nestas paragens, pelo menos desde o IV milénio a.C. Bastará recordar, entre outras, a antela de Lavra, a mamôa de Vilar, as mamôas de Pindelo e para lá do rio Cávado, as mamoas de Eira d’Ana, de Cimo de Vila (Palmeira de Faro), sem esquecer as mais de três dezenas que havia no planalto de Vila Chã e na freguesia de São Paio de Antas e ainda, mais a norte, as de São Romão de Neiva/Chafé (Viana do Castelo). Transposto o rio Lima o panorama continua a ser o mesmo, pois são às dezenas os topónimos ligados ao megalitismo e não podemos esquecer outros dignos representantes deste período que são as mamôas da Pedreira (Romão Para além de um conjunto de mamôas situadas no planalto que antecede a subida para São Lourenço da Montaria há que referir o topónimo Chão do Porto em Dem e dois menhires identificados: um em Pedrulhos (Montaria) e o outro em Meixedo. Consulte-se, por exemplo, as Inquirições de 1258 e os documentos dos cartórios dos muitos mosteiros que por aqui se fixaram no início do II milénio. 1

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de Neiva), da Eireira em Afife e do outro lado rio Âncora, o dólmen da Barrosa (Jorge, 1982; Almeida, 2007, 62-78; Pires, 2012; Marques, 2012). Estes são deveras dados importantes, mas longe de serem os únicos. Haverá que juntar ainda uma série de gravuras e naturalmente os menhires, número que tem vindo a aumentar nos últimos tempos à medida que a pesquisa de campo se vai tornando mais atenta. A arte rupestre já identificada e que pode, muito bem, estar relacionada com os locais de culto de então, parecem definir dois itinerários possíveis e viáveis entre os muitos trilhos que se podiam e podem traçar nas serras que povoam a parte norte do Minho atual. Um deles, mais interior, progride pela encosta nascente da serra de Santa Luzia e será, em parte, mais tarde, aproveitado por um mais que provável traçado da via romana Per Loca Marítima. Convirá não esquecer que este foi um território rico em estanho e onde o ouro também foi pesquisado. O outro é mais litorâneo e está em parte relacionado com as gravuras de Montedor e da praia de Fornelos. Esta presença, convirá lembrar, teve seguimento na ocupação da Idade do Bronze localizada entre a colina do castro e a penedia da orla costeira e posteriormente no castro da Idade do Ferro situado na colina de Montedor (Almeida, 2007, 61). Em linha com outros prováveis itinerários pré-históricos que progrediam ao longo da orla litoral poderão estar alguns dos menhires já identificados nestas paragens. Num deles poderemos incluir o de Perafita, caso o topónimo esteja relacionado com um possível menhir. É também nesta plataforma que vamos encontrar a estátua-menhir de São Bartolomeu do Mar e relativamente próximo os dois menhires de São Paio de Antas, mais um terceiro que está situado em Forjães, na divisão com São Romão de Neiva, muito próximo das antas acima referidas (Marques, 2014). Se derivarmos um pouco para o interior vamos encontrar outros menhires no planalto dos Feitos, em Vila Cova e em Palme, todos eles situados na periferia de um dos mais antigos itinerários desta região, aquele que atravessava o rio Cávado na Barca do Lago e pela futura ponte de Fragoso (Barcelos) atingia o rio Lima no sítio da Passagem (Moreira de Lima) após passar pelas antas da Infia (Fragoso), pelo sítio da Mámua em Mazarefes e pelos menhires de Deocriste e de Santa Maria de Geraz do Lima. Transposto o rio Lima lá estava o menhir de Meixedo e o de Pedrulhos e os muitos topónimos relacionados com o megalitismo em freguesias como Lanheses, Meixedo, Amonde e São Lourenço da Montaria (Almeida, 2007, 67-68), para, nas margens do rio Minho, ir ao encontro das gravuras de Lanhelas, da Serra da Gávea e da importantíssima sepultura da Quinta da Água Branca em Lovelhe, Vila Nova de Cerveira, que se situa a curta distância da ancestral travessia daquele rio (Almeida, 2000; Almeida et alii, 2015). Na realidade este é um dos mais antigos caminhos de penetração que a sul do rio Neiva corria pela plataforma litoral, embora um pouco resguardado dos terrenos inóspitos e mesmo lagunares que Helena Granja bem estudou na orla litoral de Esposende, nomeadamente na assoreada lagoa da Apúlia e na foz do Ribeiro de Peralta (Marinhas) e ainda na zona da Aguçadoura e na parte terminal do estuário do rio Ave (Granja et alii, 2003; Granja et alii, 2009; Granja, 2013, 221-235). Para além destas realidades há que ter em linha de conta a presença das já acima mencionadas canoas monóxilas encontradas na travessia que se fazia entre Moreira de Lima e Lanheses. São proto-históricas e possivelmente anteriores à chegada à região da primeira expedição do exército romano liderado por Decimus Junius Brutus (138-137 a.C.), tal como o são os artefactos da Idade do Bronze encontrados bem junto ao local da Passagem (Almeida, 2008, 206-207).


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Itinerário tão ou mais antigo do que estes será aquele que posteriormente ficou conhecido como sendo a via veteris / carraria antiqua. Passa na periferia de uma série de povoados castrejos (castro Boi e castro de Laúndos, cividades de Bagunte e Terroso, etc.), como também tem à sua ilharga realidades bem anteriores como as mamôas Santa Cruz do Bispo, de Leça de Palmeira de Sabariz (Macieira da Maia), do Fulão (Junqueira), de Terroso (Sejães) e de Laúndos e todas as demais que se estenderiam até à travessia na Barca do Lago e até um outro tipo de menhir, mais apropriado a um cromeleque, que está na divisão de São Miguel de Arcos (Vila do Conde) com Santa Eulália de Balasar (Póvoa de Varzim).

A rede viária romana

A rede viária pré-jacobeia no Minho litoral

A localização de todos este locais conotados com o megalitismo, mais aqueles que lhes sucederam e que têm expressão nos sítios da Idade do Bronze e nos muitos castros que formaram a densa rede de povoados de média e baixa altitude ao longo do I milénio a.C., muitos deles situados na periferia de alguns dos futuros itinerários romanos, permite-nos imaginar um autêntico emaranhado de pistas, caminhos e trilhos que rompiam pelas encostas, atravessavam portelas, vadeavam rios, chegavam às fontes económicas, nomeadamente às mineiras, quando os metais passaram a liderar o processo tecnológico. Por isso, quando os romanos firmaram a sua presença na região, já estavam traçadas as linhas mestras dos futuros itinerários carrários, sejam eles da rede principal ou da secundária. Já tivemos oportunidade de expressar a nossa opinião acerca da escolha do local da futura Bracara Augusta e de alguns dos principais itinerários que ligavam esta sede da administração romana a outros centros peninsulares. A localização da futura cidade de Braga não foi obra do acaso, antes fruto de um conhecimento muito alicerçado da região a que não terá sido alheia a expedição militar de Decimus Junius Brutus. O mesmo se poderá dizer do futuro traçado da Via XIX, por Ponte de Lima, pois a localização da primeira ponte nesta região do Minho, também não foi fruto de uma decisão apressada. O exército romano, que por aqui já operava desde meados do séc. II a.C., conhecia bem os itinerários pré-conquista e as travessias mais acessíveis nos cursos de água, quanto mais não fosse através do seu serviço de espionagem e dos comerciantes mediterrânicos que operavam, com especial incidência, nas bacias terminais dos principais rios. A travessia do Douro, próximo à foz, já era conhecida desde Decimus Junius Brutus e foi mais tarde alicerçada em 74 a.C. quando Marcus Perpena tomou Cale (Tranoy, 1981, 130). Uma seria em frente à Ribeira; a outra, mais a jusante, em Lordelo do Ouro. A primeira será a travessia da via romana (Via XVI) que ligava Olisipo, por Conimbriga, a Bracara Augusta (Mantas, 1996). A segunda fará parte de uma rede secundária de estradas e estará na génese da futura Via Veteris. A travessia de cursos de água como o Leça e o Ave também têm particularidades distintas. Sabemos que o rio Leça era galgado pela Via XVI numa provável ponte romana antecessora da atual Ponte da Pedra e que havia uma estrada secundária mais litorânea que fazia a travessia deste mesmo rio numa ponte de raiz romana, que é a atual Ponte da Azenha ou de Ronfes. Desconhecemos, todavia e em absoluto, como era a transposição do rio Ave. A jusante da Trofa, a ponte mais antiga é a Ponte d’Ave (D. Zameiro) (século XII/XIII) caso a Ponte de São Miguel de Arcos, também românica, não tenha antecedentes romanos ou no mínimo altomedievos. Mais para o litoral, a travessia podia fazer-se em diversos sítios, tantos quantas são as barcas de passagem conhecidas, com a de Vila do Conde, Tougues/Retorta e a da Espinheira à cabeça, já que será no seu enfiamento que nascerá a ponte d`Este no século XIII.

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3 Nesta capela há uma série de grandes silhares almofadados e de colunas cilíndricas provenientes de uma construção, com uma certa envergadura, de época romana. 4 Pompónio Mela, Corog. III, 7: "Totam Celtici colunt, sed a Durio ad f lexum Grovi, f luuntque per eos Avo, Celadus, Nebis, Minius et cui oblivionis cognomen est Limia".

Carlos A. Brochado de Almeida

A travessia do Cávado, essa apresenta também muitas dúvidas, exceto a da Barca do Lago, muito anterior à chegada dos romanos. Será de elementar justiça lembrar que neste local há um castro de tipo agrícola - o Outeiro dos Picoutos - e que um milhar de metros para sul estão as minas de ouro da Lagoa Negra e que do lado norte do rio há uma série de mamôas no sítio da Eira d’Anha. As outras travessias estarão em linha de conta com os traçados da Via XIX e da Per Loca Marítima, sendo sintomático o facto deste rio não haver uma ponte que se possa considerar de raiz romana. A ponte de Barcelos data da primeira metade do século XIV e a ponte de Prado, como hoje a vemos, é obra do início do século XVII, sendo, portanto filipina. Todavia a Via XIX faria a travessia do rio Cávado muito provavelmente no local ou próximo disso à atual ponte. Em sua defesa há um miliário de Augusto e um outro de Tibério, dois dos mais antigos marcos desta estrada (Capella, 1895, 89; Almeida, 2008, 40) e mais adiante, em São Tiago de Francelos, estão bem visíveis inequívocos sinais da presença romana na capela que margina a antiga estrada3. Por sua vez, a Per Loca Marítima, ainda sem um traçado definido e ou ainda não devidamente esclarecido, devia atravessar em barca o rio Cávado por alturas de Padim da Graça, dirigir-se à zona mineira de Cervães/Parada de Gatim tomando um traçado que será posteriormente decalcado pela estrada real Braga-Viana do Castelo que transpunha o rio Neiva na ponte de Anhel (Barcelos/Ponte de Lima), indubitavelmente uma obra românico-gótica (Almeida, 2008, 39; Almeida et alii, 2009, 215-217). As dúvidas também são muitas quanto às travessias do rio Neiva, curso de água historicamente importante na época clássica4, mas que tem dimensões e largura aceitáveis para o lançamento de uma ponte, sem grandes custos, em época romana. A única exceção está no percurso da Via XIX, já que em Goães (Vila Verde), a medieva (românica) ponte que permite a transposição deste rio, possui restos romanos no seu paredão norte (Almeida, 2008,40-42). No mais, não há pontes tão antigas, porque a de Fragoso é do século XV, embora este traçado, que derivava na Barca do Lago para o interior através do planalto de Vila Chã e Feitos, seja um itinerário bem pré-romano. Recordamos que na sua periferia há mamoas em Gemeses, Palmeira de Faro, Vila Chã, Palme, Fragoso (Infia) e Mujães (Mámua), que junto ao mosteiro de Palme há indícios de haver um menhir, sem esquecer um outro que foi deslocado, mas que esteve inicialmente bem junto da mámua de Cimo de Vila (Palmeira de Faro) e que ao longo da Proto-História serviu os interesses de castros como o Senhor dos Desamparados, o de São Lourenço e o do Monte Crasto de Aldreu/Palme (Barcelos) que, no início da Reconquista Cristã, foi aproveitado como reduto defensivo dos moradores locais, nomeadamente os monges que iniciaram esta casa conventual dos beneditinos (Almeida, 1977, 51-53). A outra ponte conhecida neste rio e que serviu a estrada litoral situava-se em São Paio de Antas/São Romão de Neiva, mas ela desapareceu já no século XIX após uma derrocada provocada por um anormal volume de água invernal. As outras são pontes de cheias, de tabuleiro raso, mas que por serem cronologicamente intemporais, não ajudam nada na atribuição de qualquer tipo de cronologia, embora as julguemos como pós-medievais. Juntamente com o Minho, o rio Lima, é aquele que tem maior massa aquática devido ao seu perfil. Com o já atrás o dissemos, este rio tem uma travessia, a Passagem, entre Moreira de Geraz do Lima e Lanheses, que é uma das mais antigas conhecidas e que remonta, no mínimo, à Proto-História. Era uma travessia que se fazia em barco, à imagem de tantas outras que havia entre a foz e a primeira ponte que nele se construiu: Ponte de Lima (Almeida et alii, 2009, 205-265). Era nesta ponte, com cerca de uma dezena de arcos (Almeida, 2008, 50-55) que a Via XIX fazia a travessia do rio, mas a sua congénere Per Loca Marítima, essa teve de se


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contentar com uma em barco, provavelmente entre Deão e São Salvador da Torre, sítio onde havia barca de passagem, tal como acontecia um pouco mais a poente, na barca do Porto em São Silvestre de Cardielos, onde nos juncais de Mazarefes foi recolhida uma outra canoa datável do séc. IX (Almeida, 2009, 216-217). Por sua vez, a via mais litorânea, aquela que é uma continuação lógica da Via Veteris, essa descia até à margem do rio Lima, para, em Darque, iniciar a travessia do estuário, bem largo deste rio, em barco, que aportava na margem oposta mesmo em frente ao sítio onde veio a ser construída a Igreja das Almas. Esta travessia onde não havia ponte, antes um pequeno santuário romano no local onde depois foi erguida a capela de São Lourenço, podia tornar-se dramática em certas alturas do ano consoante o relatam alguns dos muitos viajantes que por ali passaram na sua caminhada, de ou para Santiago de Compostela (Almeida et alii, 2009, 224-225). O último curso de água no atual território português, à exceção dos pequenos rios Âncora e Coura, é o rio Minho. Este é um rio largo, que podia ser navegável até alturas de Tude (Tuy) e que possuía pequenos cais de acostagem para a navegação comercial flúvio-marítima, já em época romana, um deles foi descoberto junto da estação castrejo-romana do Forte de Lobelhe e muito próximo da travessia ancestral que aqui havia (Almeida et alii, 2015, 65-71). Como não tinha pontes até estádios cronológicos muito recentes (séc. XIX/XX), a travessia fazia-se em barca. Estas eram muitas, mas as mais conhecidas sempre foram a de Tuy/Valença - Cais do Areinho - e a de Vila Nova de Cerveira, sem esquecer os vaus que havia, mais a montante, com o de Careixas à cabeça (Almeida, 2005, 119-148; Almeida et alii, 2011 e 2014). O rio Coura, que é um dos seus afluentes possui três pequenas pontes importantes. A mais a montante situa-se na freguesia de Rubiães (Paredes de Coura) e na sua estrutura atual mostra sinais de ter sido uma construção de época romana ou já do começo da Alta Idade Média. Era sobre ela que atravessava a estrada romana Via XIX e posteriormente o caminho para Santiago. A segunda ponte está na freguesia de São Martinho de Coura e na sua conceção atual é uma ponte do começo da época moderna o que pressupõe uma variante à estrada anterior já que endireitava o caminho em direção ao Cerdal, passando na encosta poente do castro de Cossourado e na capela de São Bartolomeu das Antas (Rubiães) onde estão reunidos cerca de meia dúzia de marcos miliários. A última destas pontes é a de Vilar de Mouros, uma obra românico-gótica, mas que bem pode ter nascido de uma outra mais antiga, já que por aqui transitava uma estrada com passado pré e proto-histórico e que deverá ter sido a Per Loca Marítima, que está em conexão com a ponte de Tourim (Almeida, 1968). Esta ponte está situada em Amonde sobre o pequeno rio Âncora e na sua configuração atual é uma construção da baixa Idade Média, o que bem se nota no cavalete algo pronunciado e nas siglas que algumas das pedras dos paramentos ostentam. Vozes há que consideram a sua origem como romana e se o foi, é mais uma achega para se considerar este itinerário como romano, muito ligado à exploração do estanho e do ouro na bacia norte do rio Lima até ao rio Minho (Currás Refojos et alii, 2011, 179-201) o que nos leva para a possibilidade da Per Loca Marítima ter singrado por estes terrenos.

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Em momento indeterminado da presença romana na região estabeleceram-se alguns itinerários, que com pequenas alterações de pormenor, chegaram à atualidade. Os mais sugestivos, à imagem da rede viária principal, correm no sentido longitudinal do território, mas também os haveria transversais, só que com muito menos visibilidade visto não haver ao longo da costa os aglomerados populacionais que só surgiram no fim da Alta Idade Média com a independência do Condado Portucalense. São estes itinerários que perduraram no tempo, ultrapassaram a vigência administrativa do império romano, que vão ser usados pelos moradores e viajantes dos reinos suevo e visigodo, tal como serviram às hostes invasoras muçulmanas e depois aos cristãos que se devotaram na Reconquista. São também estes itinerários que vão ajudar os primeiros peregrinos a chegar até Santiago, após a “descoberta” do seu túmulo por volta de 820. Estradas novas só surgirão com o novo milénio, após a estabilização político-religiosa da antiga baixa Gallaecia e sobretudo com a independência portuguesa. Serão precisamente os primeiros reis portugueses, juntamente com outras figuras gradas da sociedade de então, fossem eles da nobreza ou da igreja, que promoverão a construção de uma série de pontes, como a de D. Goimil, a de Moreira, a ponte d’Ave, a Ponte de Este, a de São Miguel de Arcos, a de Anhel e a das Tábuas, bem como a de Barcelos, só para citar as mais próximas ao litoral (Almeida, 1968). Por não haver aglomerados populacionais junto à costa e também porque uma boa parte destes solos não estavam ainda estabilizados devido às zonas lagunares encharcadas que se estendiam sobretudo para norte da Póvoa de Varzim, a estrada mais litorânea corria algo desviado dela e sempre que possível na base da cordilheira que acompanha todo este território, desde o rio Cávado até ao Minho. Para sul do rio Cávado, esta cordilheira praticamente desaparecida e que só deixou pequenos apontamentos nos montes de Laúndos e de Terroso, obrigou esta estrada a aproximar-se deles, tal como aconteceu a sul do rio Ave, pois a estrada atravessa solos que se encontram na base ocidental do monte da cividade de Bagunte e mais abaixo ainda do castro Boi em Vairão. Esta realidade maioritária não invalida, todavia, a hipótese de entre Vila do Conde e Fão ter havido um caminho mais próximo à costa, tanto mais que são conhecidos sinais da presença romana nas Caxinas (Vila do Conde), na Póvoa de Varzim (Alto de Martim Vaz) e na divisão da Estela com a Apúlia /Villa Menendi). Analisemos então o itinerário mais consistente que servia as populações castrejas e romanas, bem como as que se lhes seguiram neste território ao longo da Romanização e da Alta Idade Média.

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Itinerários secundários de época romana


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Via da rede romana secundária do litoral

A rede viária pré-jacobeia no Minho litoral

Esta estrada da rede secundária, também denominada carraria antiqua que está na génese do futuro caminho para Santiago e que funcionou como uma alternativa a um outro que ficou conhecido como Caminho Central e que ia a Rates, Barcelos, Ponte de Lima e Tuy, iniciava o seu percurso em Lordelo de Ouro (Porto) e por um traçado, que hoje já está bem documentado, chegava até Monte dos Burgos para seguir em linha reta para Custóias e ao rio Leça que atravessava na ponte de Ronfes ou da Azenha. Entre outros sinais diremos que junto da igreja de Lordelo do Ouro havia uma grande ocupação romana atribuída ao Baixo Império com perduração suévica e que atravessava o futuro couto de Cedofeita onde foi construída uma pequena igreja românica (Almeida, 1978, II, 208-211; Almeida et alii, 2011, 30-31), mas que devido aos vestígios ali encontrados se presume que seja a sucessora de um outro templo anterior, possivelmente do período da Reconquista, embora se diga que possam ser suevos. Atravessando rio Leça na ponte de Ronfes, que conserva algumas aduelas almofadadas, a estrada romana seguia um traçado mais ou menos retilíneo através das atuais freguesias de Gemunde, Mosteiró, Vilar de Pinheiro, Vilar, Gião, Vairão (base do castro Boi), Vilarinho (Macieira da Maia) (Freitas, 201, 297- 323) para rumar ao rio Ave que atravessaria por alturas de Tougues onde as Inquirições de 1258 mencionam uma viam veterem, ou mais a montante na Espinheira, já que do outro lado há referências a estradas antigas no século X, as carrarias antigas e mouriscas, em sítios como Quintela (Argivai), Cadilhe e Mourilhe (Amorim) (Almeida et alii, 2014). Convirá recordar que na periferia deste traçado há notícia de ocupações romanas em Guilhabreu, de castros em Vairão, Santa Marinha de Retorta, São João de Vila do Conde, Argivai, Touguinha e Terroso, não esquecendo as muitas ocupações romanas que se vão documentando de Vila Conde (villa das Caxinas ou do Bairro do Farol) a Beiriz. Com a indicação segura de que em tempos anteriores à nacionalidade a estrada passava em Cadilhe a direção norte apontava precisamente à travessia do rio Cávado na Barca do Lago. Pelo caminho deixava a poente o pequeno castro da Estela, a villa romana conhecida por Villa Menendi (Estela/Apúlia), para passar no coração da exploração aurífera da Lagoa Negra (Barqueiros) e, ao chegar ao rio, passar na base do castro do Outeiro dos Picoutos (Fonte Boa). Para poente, mas não muito longe, estaria o pequeno templo rural romano (fanum) que está na origem do topónimo da vila de Fão. Ultrapassado o rio Cávado em barca como sempre aconteceu até aos dias que correm, apesar de durante séculos ter sido esta a estrada real ou mais explicitamente a estrada do Porto, ela dirigia-se para a base da arriba que se estende, com ligeiras interrupções, até à foz do rio Minho. É um traçado um pouco distante da atual linha de costa, mas topograficamente muito seguro, porque mantém uma horizontalidade digna de registo ao longo de todo o seu percurso. Está, além disso, marcado por uma sucessão de habitats castrejos e romanos, a saber: castros de São Lourenço, de Nossa Senhora da Paz, Monte Castro de São Bartolomeu do Mar/Belinho, Suvidade de Belinho, Castelo de Neiva, N.ª Sr.ª do Crasto (São Romão), Monte Árculo (Darque), Cidade Velha de Santa Luzia, Castro do Pego, Castros Velhos (Carreço), Montedor, Castro de Santo António, Agrichousa (Afife), Cividade de Âncora e ainda os dois castros que se encontram sobranceiros a Caminha, com o de Cristelo e Vilarelho em destaque. É também ao longo desta estrada, senão mesmo com ela a envolverem-se, que estão algumas ocupações romanas com destaque para a villa da Agra do Relógio (São Paio de Antas), para a ocupação romana sobranceira à travessia do rio Neiva e para a villa das Baganheiras em Afife (Almeida, 2003; Silva, 2007; Marques, 2012). É também neste percurso que estão documentados três importantes elementos que ajudam a definir um percurso romano, mesmo quando há pontes de matriz romana como é o caso da de Ronfes ou da Azenha sobre o rio Leça. O primeiro é o topónimo Fão cujo nome deriva de um templo rural ou seja de um fanum. O segundo está relacionado com a recolha de uma inscrição dedicada aos Lares Viales

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Variante: Vilarinho - Ponte d’Ave - S. Miguel de Arcos, São Pedro de Rates

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em Castelo de Neiva que está atualmente à guarda do Museu Pio XII em Braga. O terceiro é um outro fanum situado na berma da travessia do rio Lima em Darque (capela de São Lourenço), local onde, para além de pedras com a chancela romana, também se encontrou uma ara anepígrafa (Almeida, 2000).

Em momento ainda não determinado, mas que ocorreu ao longo da permanência da administração romana na região, a estrada secundária do litoral conheceu uma derivação por alturas de Vilarinho (Macieira da Maia). Enquanto uma seguia por Tougues e Touguinha (em meados do século XIII já existia a ponte d’Este (PMH, Inquis. 1258, 1415), a outra aproximava-se do rio Ave por alturas do sítio onde séculos depois (século XII) começou a ser construída a ponte de D. Zameiro. Sintomático é o facto de, bem próximo, o topónimo “barco” ser aplicado em 1258 para situar uma leira que deveria pagar foros ao rei. Esta estrada, que passa em zona de mamôas, de memoriais e na base poente do monte da Cividade de Bagunte, será o traçado do futuro Caminho Central Português para Santiago até São Pedro de Rates. A sua passagem está atestada em São Simão da Junqueira por documentos do início do séc. XII que a ela se referem como sendo a “karraria” que estava próxima à villa Frenandi (Freitas, 2001, 339). Mais adiante atravessava o rio Este numa ponte que está na origem do topónimo que identifica a freguesia de São Miguel de Arcos. Embora esta seja uma ponte de características românicas, não restam dúvidas que as referências documentais quanto à freguesia, sugerem que houve uma ponte anterior à atual e que está na origem da identificação da freguesia que tinha a curta distância restos de um povoado castrejo no lugar de Casais. Chegada a São Pedro de Rates, esta estrada, que viu nascer na sua periferia os mosteiros de São Simão da Junqueira, de São Cristovão de Rio Mau e de São Pedro de Rates, tomava a direção da Cova da Andorinha - “pella cova dandorinha e ende aa carreira mourisca” (ANTT, AlémDouro, fl. 81) e da Lagoa Negra onde se fundia com a outra que vinha dos lados de Cadilhe, Mourilhe e mais atrás de Quintela. Só depois é que rumava à Barca do Lago (Araújo, 2013, 66-68), para servir a mineração que se fazia na serra de Rates e na Lagoa Negra (Barqueiros).

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Variante: Gemeses (Barca do Lago), ponte de Fragoso/ Passagem Esta estrada secundária, que será a velha karraria antiqua, que corria longitudinalmente pelo litoral, veio a conhecer uma outra variante após a travessia na Barca do Lago. Já falamos deste percurso quando analisamos alguns dos itinerários pré e proto-históricos desta parte do Minho. No seu trajeto subia ao planalto de Vila Chã deixando a poente o castro de São Lourenço e passava na periferia de um povoado tardo-romano com a sua necrópole, no sítio de Maíndos (Vila Chã). Depois, seguia mais ou menos o traçado da estrada nacional n.º 305 tendo na sua periferia o convento de Palme, algumas mamôas junto a este, o castro e castelo medievo de Palme, para atravessar o rio Neiva na ponte de Fragoso, obra do século XV e o rio Lima no sítio da Passagem, no caso vertente em barca. A norte deste rio pode dizer-se que continuava a decalcar a nacional n.º 305 até ao cruzamento com a M526-1, não sem antes ter passado por Meixedo, onde há registo de um pequeno tesouro monetário romano e atravessar o pequeno rio Âncora na ponte de Amonde que se presume ter uma origem romana (Almeida, 1968). Depois, mais adiante, após ter singrado por entre explorações de estanho e de ouro e de ter na sua periferia sinais da presença romana como é o caso da ara dedicada a Mercúrio encontrada na igreja de Gondar, atravessava Dem com o seu castro e chegava a Lanhelas e a Vila Nova de Cerveira, locais onde não faltam sinais de ocupação castreja e romana (Almeida et alii, 2015). Aqui atravessava o rio para a Galiza atual, onde também não faltam sinais da presença romana no município de Goián, mas também podia ter continuidade para nascente, pela margem sul, até encontrar, por alturas de Cristelo Covo, a Via XIX que vinha de Ponte de Lima e transpunha o Minho junto dos castros que então havia nas colinas onde surgirão povoações como Valença (Contrasta) e Tuy.

Estrada: Lordelo do Ouro - Bouças - Lavra - Labruje

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De todos os percursos pré-nacionais e jacobeus, este é de longe o menos documentado e também o menos conhecido, embora haja indícios que pode remontar, pelo menos, ao período romano. A única referência documental que temos à presença de uma estrada antiga mais junto ao litoral, data do século IX e refere-se a uma carraria antiqua localizável em Lavra (Matosinhos). Nesta freguesia abundam as menções a estruturas pré-romanas, romanas e alto medievais. Referimo-nos, muito em especial, ao sítio da Antela, aos tanques de salga e salinas que conjuntamente com a villa romana de Fontão e ao topónimo Paiço, que mais não é que uma corrupção do termo latino Palatium, ou seja de um paço de época romana, são provas, mais que explícitas, do desenvolvimento agro-marítimo desta região e, depois, já no período alto-medievo, à provável existência de um pequeno mosteiro (PMH, DC, doc. XII), do qual também nada ou muito pouco, se sabe. Esta estrada também a sair de Lordelo do Ouro, por alturas de Cedofeita rumava para poente através de Ramalde, um topónimo de origem germânica, para a foz do rio Leça onde, na Idade Média, atravessava numa ponte medieval, hoje desaparecida. Na periferia há, pelo menos, três importantes testemunhos com cronologias distintas: o fortemente romanizado castro de Guifões, com uma desaparecida ponte na sua base poente, o mosteiro de Bouças onde chegou a estar albergada a relíquia do Santo Lenho que posteriormente foi oferecida ao mosteiro de Moreira da Maia e a grande quantidade de salinas, que a documentação medieval refere, mas que podem ter, em certos casos, já um desenvolvimento no período romano.

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O traçado desta via, para norte de Lavra, é do mais problemático possível, embora se possa argumentar que não andará longe do perfil da estrada municipal que atravessa o pequeno rio Onda em Calvelhe, outro topónimo de matriz germânica, numa ponte de um só arco a atribuir ao período moderno. Mais adiante, em Labruje, mais especificamente em Moreiró, havia uma mamôa na sua periferia, hoje desaparecida, tal como o está o pequeno castro de São Paio, erguido às cavaleiras do oceano (Freitas, 2001, 297-323, Almeida, 1980; Pires, 2012). Seguia depois na direção da igreja de Vila Chã e de Gândara Nova em Mindelo onde se encontrava com a velha estrada do Porto. De referir que esta estrada tinha na sua periferia os lugares de Fundo de Vila em Labruje, Cimo de Vila em Vila Chã e o lugar de Moimenta em Mindelo. Além disso um documento datado de 1518, pertencente ao Tombo Verde do mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde, diz textualmente que o Campo da Fonte situado em Mirancos (Vila Chã) confrontava com a “estrada q. vay p.ª labra” (Freitas, 2001,323). A travessia do rio Ave far-se-ia em frente ao morro do castro de São João (onde está o convento das freiras clarissas) e pelo Cimo de Vila chegava por um traçado mais ou menos rectilíneo às imediações da Igreja da Póvoa de Varzim seguindo depois para norte, para o rio Cávado até Fão, por um traçado próximo da costa (A-Vêr-o-Mar, Aguçadora, Estela, Apúlia), já que era próximo ao mar que estavam as villae romanas das Caxinas, Martim Vaz e Menendi) que produziram materiais arqueológicos mais antigos apontam para a viragem do milénio. Depois convirá referir que o topónimo Quintela, na divisão de Argivai (Póvoa de Varzim) com Formariz (Vila do Conde), se situa muito próximo às Caxinas e que q documentação medieva menciona ali uma carraria antigua na mudança do I para o II milénio.

A Via Veteris Esta estrada embora citada na documentação medieval de meados do século XIII e em uso nessa altura, é na sua génese uma via bem anterior, no mínimo romana, em grande parte, se não o é mesmo na sua totalidade.

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O percurso desta estrada está muito bem documentado nas Inquirições que em 1258 se fizeram às freguesias da Terra da Maia por ordem de D. Afonso III. Entre as mais diversas informações os homens que foram auscultados em Gião e Macieira da Maia disseram que havia uma estrada antiga que se chamava velha - via veteris - que começava no rio Douro, mais especificamente na Arrábida, ou seja, em Lordelo do Ouro (Freitas, 2001; Almeida et alii, 2011, 29). Se olharmos atentamente para a descrição que os jurados fizeram da orientação desta estrada - una via que vocatur via veteris et incipit in fluvio Dorii in loco qui dicitur Arrabea, deinde quomodo venit ad cautum qui stat inter Lordellum et Citofactam, deinde quomodo venit ad crucem Sancti Jacobi de Costoyas, deinde quomodo venit ad Avellanedam, deinde quomodo venit ad mormoriale Dompni Pelagii Truytosendiz, deinde quomodo venit ad cautum qui stat inter Fajozes et Vayram subtus castrum bovis, deinde quomodo venit ad Mazanariam, deinde quomodo intrat in fluvio Ave (PMH, Inq. 1258) - ficamos com a impressão que, pelo menos até São Tiago de Custóias, o seu traçado é coincidente com a estrada romana secundária (karraia antiqua) que servia o litoral da antiga Gallaecia meridional. A partir daqui sabemos que a via veteris seguia um traçado mais ocidental a caminho da ponte de D. Goimil que na sua estrutura em cavalete é bem uma construção do século XIII. Daqui em diante a estrada seguia por Aveleda e daqui em diante ia para as traseiras da Igreja de São Tiago de Labruje, para, a seguir, através da atual rua dos Marcos, chegar a Modivas de Baixo e lugar de Paços onde há restos de uma ocupação romana bem como uma ara do mesmo período dedicada por uma mulher de nome Materna. Seguia depois para o lugar


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do Monte e pelas ruas da Longa e da Campa (Azevedo, 1939, 118) voltava a encontrar-se com a antiga estrada, também conhecida por carraria antiqua, junto ao Crasto de Vairão (castro Boi). Aqui, em linha reta, rumava ao lugar de Vilarinho em Macieira da Maia. Neste trajeto, algo modificado por força da ocupação posterior do solo deparámonos com alguns topónimos interessantes, caso de Estrada Velha (Labruje), Paço que deriva de palatium ou seja de uma ocupação importante de época romana e a Rua da Campa, o qual, por força da sua localização, bem pode ser uma reminiscência do “memorial” levantado em honra de D. Paio Trutosendes, já que bem próximo estava o couto que havia entre Fajozes e Vairão. Daqui para norte, o traçado é conhecido, mas onde se processava a travessia do rio Ave? Verdadeiramente não sabemos, porque o texto não é claro, pois diz simplesmente que entrava no rio Ave. A chave do problema parece estar em Vilarinho. Aqui podia tomar duas opções. Podia seguir em frente e em Sabariz ir na direcção da Ponte d’Ave ou de D. Zameiro que começou a construir-se no século XII, para rumar para São Pedro de Rates pela ponte de São Miguel de Arcos. A segunda hipótese era seguir pela rua do Sr. do Padrão e depois pela da Estrada Velha em Tougues - aquela que vem referida na Inquirição de 1258 - para atravessar o rio Ave, em barca, mas não no rio Este, porque ali havia uma outra ponte no período românico, a Ponte de Este, que tem junto a si, uma outra, bem mais nova, só que construída em 1834. A partir do rio Ave não há mais referências à via veteris, mas elas continuam noutros parâmetros, nomeadamente designando-a como estrada mourisca ou mesmo estrada pública em documentos dos cartórios monacais, no caso vertente, no de São Simão da Junqueira.

Valença

Vila Nova de Cerveira

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Viana do Viana do Castelo Castelo

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de Varzim Póvoa dePóvoa Varzim

Vila do Conde Vila do Conde

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Mapa da rede viária pré-jacobeia no Minho litoral. Nota: as vias pré-romanas e romanas traçadas só contemplam os territórios que fazem parte do atual quadro dos municípios que integram o projeto do Caminho Português da Costa.

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Matosinhos


Carlos A. Brochado de Almeida

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As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa Ivone Baptista de Magalhães

Licenciada em História - Variante de Arqueologia (FLUP), Pós Graduada em Museologia (FLUP) e mestranda em Arqueologia da Paisagem (UM). Filha de Faroleiro, nasceu no Farol de Esposende na foz do Rio Cávado, condição que certamente influenciou a sua relação com o Mar e com os rios e as comunidades piscatórias. Foi formadora do primeiro Centro de Formação Profissional para o Sector das Pescas em Viana do Castelo (Forpescas) de 1986 a 1995, realizando vários estudos na área da antropologia marítima publicados em Portugal e no estrangeiro, destacando-se a construção naval tradicional. Atualmente é Coordenadora do Serviço de Museu Municipal de Esposende.

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Resumo O Caminho Português da Costa, ou Caminho da Costa, ocorre num território costeiro privilegiado, entre a foz do rio Douro e a foz do rio Minho, e prolongando-se da foz do Minho subindo até Valença, seguindo pela sua margem. Em rigor, não se pode falar de um caminho, mas de muitos caminhos. O mar é o grande protagonista neste espaço e com ele as imensas linhas de água, que alimentam a riqueza da biodiversidade e da paisagem. Rios que descem desde os montes sobranceiros até às praias atlânticas onde se juntam ao mar, num encantamento de romântico bilhete postal, que ganha vida própria, feita de diferentes rios impossíveis de transpor. As Barcas e Barcos de Passagem do Caminho Português da Costa fazem parte deste encantamento porque numa paisagem onde imperam os rios, o que ditou este Caminho foram os rios que teve de vencer, e onde as barcas e os barcos de passagem, nas suas diferentes tipologias, são o meio que permitiu fazer o Caminho.

Introdução O Caminho Português da Costa, ou Caminho da Costa, ocorre num território privilegiado. Historicamente é dos mais antigos espaços do primitivo Condado Portucalense, e destes, é o menos mobilizado pela modernidade, pelo que ainda encerra muitas expressões dessa antiguidade na história local, e principalmente na cultura costeira. É notavelmente o espaço que embalou o berço da nacionalidade, pois a par do valioso mundo agrário que amanhava a terra e amealhava as sementeiras para os vindouros, foi nas comunidades ribeirinhas que se estabeleceram os pescadores, os marinheiros, os pilotos e os construtores navais, que iriam permitir dar novos mundos ao mundo na Expansão Marítima, enquanto a população acudia a manter vivas as tradições da fé e da Cristandade, alheias à impiedosa roda da máquina da História, compartimentando o Conhecimento e os Saberes numa sociedade profundamente rural e religiosa, que só com o cosmopolitismo do final do século XX eliminou rusticidades, nivelando pela urbanidade os novos quotidianos, agora cada vez mais globalizantes e comuns. É neste território costeiro, entre a foz do rio Douro e a foz do rio Minho, e do Minho pela sua margem subindo até Valença, que encontramos o território do Caminho da Costa. Em rigor, não se pode falar de um caminho, mas de muitos caminhos, que junto à costa levam a Santiago de Compostela, e desde logo no rio Minho, com a alternativa em Caminha para atravessar em barco para Camposancos (La Guardia) na passagem tradicional que segue pelo Caminho da Costa Galego, ou em Vila Nova de Cerveira passar pela ponte para Goián, ou ainda em Valença passar pela ponte para Tuy. “O Caminho faz-se caminhando” e o Caminho Português da Costa é provavelmente o mais recente deles, vindo desde o Porto pela orla litoral, passando em Matosinhos, Maia, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo, Caminha, Vila Nova de Cerveira e Valença.

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Em todas estas comunidades, o olhar mais atento encontra traços da cultura costeira, seja na forma como se organiza a arquitetura dos lugares da borda de água, quase sempre a partir da margem do mar ou do rio, com o casario encaixado atrás de um pequeno logradouro para os barcos, que já não existem, encimado por uma igrejinha com o seu cruzeiro. Seja no ritmo de vida apressado, num corre-corre constante a fazer as lides da casa, do campo, do rio, da praia, da lota, do barco, do café, da venda, do mercado, da fábrica, da oficina… da Vida. Gente que vive sempre atarefada, mas que guarda tempo ainda para cumprir as suas tradições mais profundas, testemunho da antiguidade das suas solenidades, as populares e as religiosas, do Natal e do Ano Novo, da Páscoa e das Procissões do Senhor, e principalmente, das Festas de Verão, com os Santos Populares, as Romarias de fim de semana e as Procissões dos Santos Padroeiros, que hoje, tal como no passado, ainda contam com as comunidades piscatórias a cumprir promessa no figurado processional (Magalhães, 2015, 55). A esta paisagem humana junta-se a paisagem marítima. O mar, é o grande protagonista neste espaço, e com ele as imensas linhas de água que alimentam a riqueza da biodiversidade e da paisagem, que descem em anfiteatro desde os montes até à praia atlântica onde se juntam ao mar, recortando o horizonte, num encantamento de romântico bilhete postal, a azul e verde, que ganha vida própria, feita de diferentes praias entre cada rio, impossíveis de transpor na foz.

As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa

Caminha. Viagem de “ferry”, Camposancos-Caminha, rio Minho.

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As Barcas e Barcos de Passagem do Caminho Português da Costa, fazem parte deste encantamento porque numa paisagem onde imperam os rios, o que ditou este Caminho foram os rios que teve de vencer, e os barcos, em essência, são o que permitiu essa vitória. Hoje os caminhos modernizaram-se, o engenho humano encontrou soluções para vencer todos os rios, e os barcos, esses, que nos últimos dois mil anos governaram estes rios, quase desapareceram, vítimas da modernidade. Fomos em busca desse património esquecido, curiosamente num Caminho de Fé, acreditando, sem ciência, que as atuais embarcações que habitam os rios do Caminho da Costa são certamente herdeiras de alguma da materialidade dos barcos e barcas de passagem do passado, e que a melhor forma de as resgatarmos do esquecimento é valorizá-las e divulgar o seu passado milenar, porque um barco é mais do que um engenho de navegar. Ele reflete a resposta do Homem à Paisagem.

As Paisagens do Caminho da Costa

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As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa

O litoral norte português foi modelado desde a Pré-história pelos recolectores e pastores de rebanhos, pelos caçadores de gados silvestres, pelos homens e mulheres que apanharam frutos, lenhas e matos, e pelos lavradores que organizaram o território em pequenas parcelas muradas de cerca viva ou de pedra, criando o cadastro agrícola, antigo de mais de 20 séculos. Os mesmos homens que construíram barcos e portos de abrigo no interior dos grandes rios e que levantaram salinas nas praias atlânticas e na foz desses rios, e que foram os construtores da nossa paisagem, rural e marítima, a paisagem Atlântica. Nesta costa, a paisagem atlântica tem em comum uma montanha de baixa altitude paralela ao mar que acompanha as praias marinhas que ocorrem no seu sopé. Hoje sabemos que essa montanha foi a arriba fóssil da antiga praia, outrora o batente do mar durante uma importante transgressão marinha que remonta à última glaciação há cerca de 80 mil anos (Daveau, 1993, 35-41), que moldou esta paisagem, cujo relevo denuncia para além da eustática, a sua orogénese, onde se destaca o rio Cávado, que perto da foz, por captura sísmica, corre anormalmente para o norte, cerca de 2 km, numa curva onde ocorre o seu estuário antes de se lançar no mar. Neste território toda a costa é baixa, caracterizada por praias de areia branca e fina, apenas protegidas por cordões dunares e afloramentos rochosos que se prolongam mar dentro, as restingas, que assomam na baixa-mar com as suas características poças de maré, sendo estas praias apenas interrompidas pela foz dos grandes rios: Douro, Leça, Ave, Cávado, Neiva, Lima, Âncora e Minho. Estes rios desaguam no mar e, independentemente da sua dimensão e da capacidade de abrigo dos seus estuários, têm vindo desde a Pré-História a desempenhar o maior protagonismo como barreiras naturais na circulação viária paralela ao mar, dividindo o território em 7 blocos principais: Douro-Leça, Leça-Ave, Ave-Cávado, Cávado-Neiva, Neiva-Lima, Lima-Âncora, Âncora-Minho. Além dos rios, também as pequenas linhas de água assumem protagonismo. Neste território desaguam a partir da duna diretamente no mar uma miríade de pequenas linhas de água, cujo número aumenta com as chuvas, e que levam o nome localmente de “boqueiros” ou “poços”. De inverno são impossíveis de atravessar a vau, mesmo na baixa mar, devido à força das águas. A estas linhas juntam-se a foz dos grandes rios, impossíveis de vencer, pelo que o caminho pela praia, do Douro ao Minho não é possível sem alguns desvios pelo interior do território, onde se encontram lugares mais seguros para o atravessamento. A água dita a resposta do caminhante. A norte do Douro, nas linhas de água de pequena dimensão, não existem pontes de grande porte, porque a passagem se fazia facilmente, era a “passagem a vau” (a pé, dentro de água), ou sobre “poldras” (pedras gran-


Ivone Baptista de Magalhães As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa

des estacadas) que pontilhavam fora de água colocadas estrategicamente de forma a andar-se sobre as mesmas. Nas linhas de água mais fortes, construiu-se pontes, que variam de tamanho conforme o lanço de água que terão de vencer. E nos sítios em que não era possível nenhuma destas soluções, construíram-se barcos, pequenos para os homens, grandes para os carros e carroças, e o caminho foi-se construindo, evoluindo, chegando até nós como uma das muitas “estradas velhas”. Do Minho ao Lima, em Caminha a arriba fóssil ganha o nome de Serra (Serra de Açude de Santa Tecla, rio Neiva. Arga) e por alturas de Afife, a larga reentrância cortada pelo vale de Cabanas muda o nome para Serra de Santa Luzia. Em Carreço a serra sobressalta-se num apontamento geológico, a colina de Montedor, seguindo a serra para sul até à foz do Lima que a interrompe. Do Lima ao Neiva, a paisagem é dominada pelo monte de Anha, e encaixado junto ao Neiva, o monte de Moldes tem aos pés a Igreja de São Tiago do Neiva (Castelo do Neiva), considerada a invocação mais próxima do mar e a mais antiga em Portugal com a invocação do Apóstolo, datando do ano de 862, contrariando a ideia de que as populações antigas não se fixavam perto do mar, pelo perigo de invasores e piratas vindo do mar, que povoam as narrativas tradicionais. Semelhante a outros lugares de atravessamento no Caminho junto a linhas de água, guardadas por povoados colocados estrategicamente no monte mais próximo, o Neiva (Nebis) foi certamente um lugar de grande valor estratégico tanto para o atravessamento como para a entrada e saída de embarcações, considerando-se que o rio tem bastante água mas é estreito (corre em meandros encaixados no maciço granítico). Guardado pelo castro de Moldes, valioso na época romana para o fornecimento e distribuição de produtos vindos do Império a esta região (Almeida, 2003, 113), foi convertido na Idade Média em castelo roqueiro, o Castelo do Neiva, que deu o nome à povoação. A tradição local invoca as guerras de sucessão dinástica de 1383-1385 e a vinda do exército do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, que em nome do Rei D. João I de Portugal, arrasou este castelo “pera que não servisse a Castela”, proibindo a sua reconstrução, redistribuindo as Terras do Neiva por novos proprietários sob a sua proteção. A sul do Cávado e até à Póvoa de Varzim, as linhas de água denunciam a antiga charneca alagadiça, resultante da primitiva zona lagunar alimentada pelo delta do Cávado e pelo mar, ainda visível na Lagoa de Apúlia (Granja, 1993, 43-49), correndo a sul por Rio Alto e Aguçadoura, Estela e A-Ver-O-Mar, território onde pontuavam outros ribeiros que se espraiavam até ao mar provenientes da arriba fóssil, hoje dominada pelo Monte São Félix. Da Póvoa de Varzim até ao Porto, os rios são antigos, profundos e caudalosos, e exigiram a construção de pontes robustas de pedra, encaixadas nos sítios onde correndo em meandros, longe da foz, o rio mais estreitava, e todas as estradas se organizavam a partir desses lugares pois foram os rios que ditaram a estrutura viária. As pontes de maior porte (vários arcos) são longe da foz do rio e variam de altura e de largura conforme as condições da margem. As pontes sobre os rios próximos do mar são montadas em granito da região em pedra irregular ou em junta seca e têm um único arco, ligeiramente ogival, como um tabuleiro apoiado sobre duas bases (ponte de cavalete), cada uma firmada na respetiva margem popularmente ditas “pontes romanas”, pelo que a ponte, mesmo sendo medieval ou

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Pontelha de Sebastião (ponte de padieiras), rio Neiva.

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moderna, ganha frequentemente esse atributo (Almeida, 1979, 73-74). A ponte de D. Goimil sobre o rio Leça (Custóias) é desta tipologia, e um dos exemplares melhor conservado no Caminho da Costa. A par das grandes linhas de água, que a montante da foz correm pelos terrenos agrícolas a levar a água de um lado a outro, desviados do seu leito natural, encontramos outros ribeiros e rios, que nos locais onde levavam mais água, mas sem profundidade, apresentam pontelhas também conhecidas por pontes de padieiras. As pontelhas são o elemento arquitetónico mais abundante neste Caminho e um dos mais bem conseguidos do ponto de vista da engenharia tradicional. São compridas pontes em granito da região, retilíneas, baixas e estreitas, com piso de duas lages paralelas de pedra, com encaixes (macho) para os pegões (pés da pontelha ou padieiras), que são muitos, e distribuídos a distância regular pela ponte, bem talhados, e que no topo superior levam o encaixe (fêmea) para receber as lajes, de forma a impedir que a “correnteza” ou a subida de água de inverno desmontassem a ponte, e permitindo a passagem apenas a peões, e a animais de carga a dorso: cavalos, mulas e burros. Nestas pontelhas, quase sempre próximo e a montante, corria um alinhar de pedras, reduzindo a força da água, e permitindo no estio a passagem de gado a vau, ou um “açude”, um forte muro de pedras a fazer represa de água, remontando quase sempre o açude ao final do século XIX, que foi nesta região o período do esplendor dos engenhos movidos a água, que era represada para ganhar força no final do verão, respondendo às necessidades da época das colheitas com as sementes, que depois de secas ao sol eram o grão do pão (milho, centeio, cevada), e aptas para moagem nas moendas, de azenha ou de rodízio (Botelho, 1997, 83-101). Muitas vezes coexistiam vários engenhos além das moendas, como os engenhos de serração de madeira e os engenhos de linho, que usufruindo da mesma água, que era encanada como força motriz, beneficiavam mutuamente da condução das águas, num binómio açude-pontelha, servindo a ponte para garantir a clientela de ambas as margens. Hoje frequentemente nestas pontelhas existe ainda uma ruína guardiã, assinalando esse binómio, e em raros casos, encontramos a ruína restaurada e transformada em romântica habitação de férias.


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A paisagem do Caminho mantem a sua natureza semisselvagem, apesar do crescente aumento de áreas urbanas, onde às primitivas enseadas marinhas ainda se associam em estado natural as áreas estuarinas e a foz dos grandes rios, mantendo o encanto da paisagem piscatória descrita por Raul Brandão no verão de 1921: “Esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar (…) Começa em Caminha até ao Forte de Âncora – de Âncora ao extremo do monte da Gelfa, e daí ao Farol de Montedor, em três largas reentrâncias, que têm como pano de fundo a cadeia azulada dos montes (…) Todas as povoações são viradas para o mar (…) Perto de Âncora fica a povoação de Gontinhães, de pescadores e de pedreiros, os pescadores ao pé do mar, os outros lá em cima no Calvário, unidos pelo caminho da Lagarteira, torto e lajeado. (…) À reentrância que forma a bacia de Âncora, e que termina pelo Monte da Gelfa com outro forte de Lippe arruinado, segue-se a que vai à saliência do Montedor com o farol que se conjuga com o de Vigo e o de Leixões.(…) Deixo esta manhã Viana (…) e sigo pelo pinhal de Darque, Anha, S. Romão de Neiva, para Esposende com o rio à esquerda (…) De Belinho para S. Bartolomeu já me envolve a poalha da tarde e depois uma luz violeta nas Marinhas. (…) Do outro lado do Cávado é Fão (…) e logo a seguir a estrada que se deita a caminho entre os campos para a Póvoa de Varzim” (Brandão, 1995, 48-52). O património cultural e a paisagem são dois elementos indissociáveis das embarcações. Sobreviveram até aos nossos dias algumas embarcações fluviais, de pesca ou de transporte, por serem de pequena dimensão e de fácil manutenção. Mas o cosmopolitismo atual, com a sua voraz modernidade tecnológica, condenou as embarcações tradicionais, movidas à vara, a remo ou à vela, ao obsoletismo técnico e assim ao seu desuso, que continuado, levará à extinção.

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O legado dos Barcos O mar e os rios são mais do que uma reserva de peixe ou uma via de comunicação. Representam “uma história milenar sobre o primeiro tronco f lutuante, que permitiu ultrapassar com êxito a fronteira da água e transportar para a outra margem, e em segurança, os bens preciosos do Homem do passado” (Magalhães, 2007, 33). Designa-se por princípio do tronco f lutuante a essa primeira forma de navegar num tronco de árvore, que rapidamente se transforma rudimentarmente numa piroga monóxila, escavada num tronco de árvore, a que designaremos canoa. Encontramos um valioso testemunho arqueológico no rio Lima dessa evolução. “Entre 2002 e 2003 foram descobertas e recuperadas no rio Lima, nas proximidades do eixo entre Lanheses, na margem norte, e do lugar da Passagem, de Moreira de Geraz do Lima na margem sul, duas pirogas monóxilas datando entre os séculos 4º e 2º a.C., que receberam a designação de Lima 4 e 5. Com efeito, desde os anos oitenta já tinham sido recuperadas neste rio três outras embarcações do mesmo tipo datando da época medieval, duas das quais perto desta mesma área. Estes achados estão claramente relacionados com uma tradição multimilenária desta área de passagem do rio, bem atestada como constando num itinerário dos caminhos da famosa peregrinação medieval de Santiago de Compostela” (Alves, 2007, 6).

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Piroga Monóxila n.º 5 do rio Lima, 200 a.C.. Lugar da Passagem, Rio Lima. (Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, Trabalhos do CNANS, 21, 2007).

Mar, rios e lagos tornaram-se desde a Pré-história em caminhos de água, numa rede operada pelos barcos. Com as suas diferentes tipologias as embarcações pertencem a uma paisagem exclusiva e são o resultado das produções de uma comunidade humana que lhes deu expressão e representação. Pertencem à arquitectura dos lugares ribeirinhos, fluvial ou marítima, que é identitária e única. “Comparemos a arquitectura rural da região, vocacionada desde o final do sec. XVIII para o gado bovino e o milho e consideremos o carro de bois e o espigueiro como a otimização de um modelo construtivo funcional que a caracteriza invariavelmente. Também a embarcação, por força de ser o barco de trabalho, protagoniza um modelo da cultura material produzida pelo universo piscatório. A maior diferença é que nestas comunidades não há a uniformidade do universo rural e, numa mesma aldeia piscatória, encontramos embarcações de fundo-chato ou de quilha, de costado liso ou de casco trincado, embarcações de rodas de proa e popa ou embarcações com a popa e a proa simplesmente cortadas em painéis.” (Magalhães, 1998, 23).

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“Para transportar, depois pescar e logo conservar, o Homem precisou de melhorar a canoa e transformá-la num barco” (Magalhães, 2007, 33). O curso natural levou a construir mais barcos e um porto de abrigo para protegê-los. Assentou arraiais num lugar especial, protegido no estuário de um rio. Dedicou-se ao sal, à pesca, à conservação do peixe e à sua venda. Depois ao transporte e à compra e venda de mercadorias. Teve que inventar melhores barcos, para a pesca, para o transporte, para a defesa e para a guerra. Construiu edifícios adequados para cada uma destas atividades. Depois organizou-se em confrarias e irmandades e teceu a arquitetura do lugar, religiosa, civil e militar. Surgiram as cidades portuárias e as suas comunidades ribeirinhas. Este é o legado do princípio do tronco flutuante, o primeiro “barco”.


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O barco é o símbolo individual de cada comunidade ribeirinha. Resulta do apurar de milénios de conhecimentos artesanais, saberes do Saber-Saber, do Saber-Fazer e do SaberSer: modos e usos do dia-a-dia de outrora, saberes náuticos e ribeirinhos. Neste contexto, “entende-se como Embarcação Tradicional todos os exemplares náuticos que resultam de um processo construtivo artesanal, frequentemente usando madeiras e outras matérias-primas autóctones, que operam, navegam ou trabalham segundo tecnologias tradicionais, que se relacionam com o meio ambiente de forma ecológica e sustentável, que remontam a formas de transmissão do saber, do fazer e do usar transmitidas de geração em geração por experimentação, que originam um conjunto de práticas marítimas, marinheiras, piscatórias e agro-piscatórias baseadas em conhecimentos, tecnologias, artesanais e manualidades singulares, que refletem a historiografia local e que torna cada exemplar náutico com estas características e enquanto património marítimo navegante, num monumento cultural vivo” (Magalhães, 2015, 77-78). Podemos organizar os barcos “tradicionais” quanto ao seu tamanho em dois grupos, os de grande dimensão são os navios, e todos os outros são apenas as embarcações. Neste território fluvial não temos navios, só “embarcações”. Estas são indicadores da comunidade humana a que pertencem, e o mesmo modelo naval muda de nome de comunidade para comunidade pela forma como trabalha. Organiza-se por tipologias que todos reconhecem: pesca, transporte, pilotagem, socorro, lazer, passagem entre margens. Mas, e principalmente, as embarcações são classificadas quanto à forma como foram construídas. O conhecedor percebe se foram construídas por um lavrador com habilidade para a carpintaria ou se por um mestre construtor naval, calafate ou construtor naval de ribeira. Isso fará a diferença e dará, ou não, as aptidões náuticas que os vão destinar ao mar ou aos rios. Os barcos de mar são mais complexos que os barcos de rio, e são construídos por mestres construtores navais. Em comum podem ser embarcações de fundo liso (chato) ou de fundo redondo (como uma pipa mas com quilha) sendo estes últimos os mais aptos ao mar largo, e o sistema construtivo pode ser simples, seguindo uma fôrma ou molde (shell first – concha primeiro) ou com um complexo esqueleto (skeleton first – esqueleto primeiro) uma verdadeira ossada interior composta por peças específicas – quilha, roda de proa, roda de popa, cadaste e cavername – reforços para que o casco aguente cavalgar o mar, frequentemente dito num inglesismo “carvel”, e que muitos autores pretendem ser a origem da expressão caravela. O forro exterior, a “pele” do barco, dito casco ou costado, pode ser em madeira pregada e encaixada a topo, de tal forma que não se encontram as emendas das tábuas no casco, ou pregada em fiadas de tábuas sobrepostas, uma sobre a outra, trincadas, daí o nome específico para este tipo de forro, casco trincado, que na zona de influência da Galiza, se diz tinglado ou casco de tingladillo (do inglês clinker) numa mistura semântica por influência das embarcações oriundas das ilhas do norte da Europa, em particular do Fifie escocês (Greenhill, 1997, 8-13), uma embarcação muito semelhante ao bote poveiro (caíque ou caíco), mas de casco trincado, muito apto à pesca da sardinha e do pilado (pequeno caranguejo pelágico que andava em cardume associado à sardinha, dito mexoalho em Matosinhos, patilado em Caminha e patêlo em Viana do Castelo) e que muitos autores pretendem poder estar na origem da tipologia poveira, a maior família de barcos de mar no norte de Portugal. As embarcações podem classificar-se ainda em função do exterior do convés (cobertura ou espécie de tampa sobre o barco, dito cobérta), que faz muita diferença nas embarcações. As embarcações miúdas, de pequena dimensão, não tinham autonomia para viagens demoradas, pelo que não iam para muito longe do porto de abrigo, e assim não precisavam de cobérta, pelo que ficavam desprotegidas, ditas de “bôca aberta”, pois quando apanhavam vagas, corriam o risco de encher de água e ir ao fundo. A partir do século XVIII algumas comunidades ribeirinhas, quer do mar, quer dos grandes rios com este tipo de problema (vagas encrespadas pelo vento), iniciaram um processo de cobrir pelo menos as partes do barco mais expostas, normalmente a proa (e quando simétrico e a remos protegiam a proa e a popa), com uma espécie de triangulo em madeira sobre o bico das rodas (junto ao capêlo, onde se junta à proa os costados laterais, formando um bico ou proa) conhecido por “tilha” (de tilheiro ou telhado).

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Carece este tema de estudo mais aprofundado, até porque desde a época romana que as passagens e os barcos eram objeto de taxa por parte dos senhores proprietários, direitos que existiam ao tempo do Condado Portucalense, aprimorados com o reino de Portugal, e que passavam desde a Coroa, aos Senhores e aos Municípios, e frequentemente também a favor da Igreja ou de Abadias e Mosteiros, mas não havendo sobre este assunto ainda um levantamento exaustivo nem registo eficaz. As razões prendem-se principalmente pelo facto de não existir um Arquivo único onde esta informação esteja reunida, estando dispersa, com a agravante de se ter perdido a localização dos antigos arquivos das Comissões Hidráulicas, extintas na sequência das reformas administrativas após 1974 e que forneceriam valiosa informação sobre as barcas de passagem.

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As qualidades náuticas das embarcações apuraram-se sempre em função da ecologia do lugar e do rio, da carga a transportar e das capacidades de quem a construía ou mandava construir. Por isso são muitas as tipologias mesmo para as embarcações de transporte fluvial, nas quais se incluem os barcos e barcas de passagem, variedade que garante a riqueza patrimonial de cada comunidade ribeirinha1. No território do Caminho, os grandes rios são pela ordem de grandeza, o Douro, o Minho, o Lima e o Cávado. Nestes rios, as pontes até ao século XIX só existiam no seu interior e longe da costa, pelo que o transporte tradicionalmente era em barco e barca, usando os “portos”, “portelas”, Barquinhos do Lima. Cais Velho, Darque. “carregadouros” e ancoradouros que serviam a rede viária pré-existente, para atravessar os rios, e que remonta aos caminhos romanos e medievais. Estes rios, apesar de serem largos na zona estuarina, são rios com uma navegação igual à dos pequenos rios, podendo ser atravessados à vara a montante da foz nos locais menos profundos, servidos por bancos de areia resultantes do assoreamento (ditos ilhas, ínsuas, camalhões, junqueiras, morraceiras), por isso as embarcações de rio usadas neste território eram de boca aberta e sem telheiro. A principal característica das embarcações de rio é o seu fundo chato. Este tipo de fundo é como uma tábua rasa debaixo do barco, em cujo ponto central a meio da estrutura, no sentido longitudinal, funciona uma falsa quilha, normalmente assinalada com uma tira de madeira pregada pelo exterior. Diz-se que este tipo de barco de rio “cála” pouco. “Calado” é a altura submersa do barco, ou a profundidade a que se encontra o ponto mais baixo da quilha de uma embarcação em relação à linha d’água e, como manobra em pouca água, conforme o peso da carga, precisa apenas de 2 a 3 palmos de água para deslizar mesmo no estio do verão, pelo que são os barcos mais aptos quer nas passagens entre margens quer nos transportes rio acima ou rio abaixo. Estes barcos eram específicos para esta necessidade, e normalmente desenhados para aguentarem carga diversa e deslocarem-se em zonas de pouca água à vara. Embora alguns pudessem armar remos, só os grandes barcos de carga armavam vela para as grandes viagens rio acima ou rio abaixo, andando à feição dos ventos dominantes, sempre a favor da correnteza pois subiam e desciam com as marés nas zonas de influência das mesmas, ou a favor das enchentes e vazantes do fim do inverno. Sem corrente e sem vento deslocavam-se à vara, lentos, mas eficientes e majestosos.


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No rio Minho, da foz até Valença, a passagem foi sujeita a apertada vigilância por se tratar da fronteira com Espanha, com a passagem proibida frequentemente ao longo do tempo em virtude dos acontecimentos históricos que ora uniam ora desuniam à força da razão administrativa. Os registos mais antigos sobre barcas de passagem regular no rio Minho remontam ao século XVI, e certamente essas barcas seriam as grandes embarcações rudimentares, verdadeiras barcaças de transporte, que basicamente são jangadas ou pontões flutuantes, manejados como uma jangada à vara. Neste tramo do rio, desde a antiguidade que as ilhas, ínsuas e morraceiras, que abundam no rio Minho, ajudaram a manter alguns vaus de passagem e a permitir a travessia em canoas rudimentares para as travessias de gente e carga pequena, pois apesar de separados administrativamente, as populações desta raia de uma banda e outra, negociavam, e casavam frequentemente entre si. Graças aos arquivos fotográficos de coleções privadas e públicas, do final do século XIX e primeiro quartel do século XX, conhecemos a riqueza e a variedade dos grandes barcos e barcas de carga e de passagem nos rios do Noroeste peninsular. A Galiza é notoriamente mais rica de estudos publicados sobre as formas de administração dessas barcas (leis, taxas, licenças, acordos e desacordos entre mosteiros, senhores e concelhos, que entre si geriam os lugares e as suas barcas de passagem), enquanto Portugal é rico principalmente em fotografia de época, graças aos jornais e aos bilhetes postais, que retratam o quotidiano e os motivos desses tempos, onde os barcos considerados pitorescos, frequentemente aparecem nesses registos, sendo uma mais valia extraordinária para a reconstituição da paisagem ribeirinha. A fotografia, que em Portugal inicia no último quartel do séc. XIX, apresenta valiosos registos que acompanham a própria revolução industrial, acompanhando a gradual mecanização dos barcos, o que levou à extinção de quase todos os modelos tradicionais navais de grande porte, que eram à vela, à vara e a remo. As barcas de passagem nos grandes rios no resto do país são substituídas pelos revolucionários “ferry boats”, “vapores”, “cacilheiros”. Neste território os modelos navais de pequena dimensão sobreviveram a essa revolução tecnológica, por serem mais baratos de construir e de fácil manutenção. Foi certamente o caso do carocho e da masseira (Magalhães, 1997, 21).

Passagem internacional Camposancos-Caminha. Bilhete postal de época.

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O carocho no lado galego do rio chamase “anguleiro” e a masseira “gamela”. “Ambas são embarcações de rio, próprias de águas calmas e a encontrar abrigo nos recantos do arvoredo que bordeja as margens ou as ínsuas de areia (morraceiras). Aptas tanto à pesca como ao transporte de pessoas e bens, têm na sua história contos de contrabando e de passagem de homens perseguidos pelas ditaduras (franquismo e salazarismo) ou emigrantes a salto para França, Suíça e Alemanha, os principais países de acolhimento” (Magalhães, 1998, 39-40). O carocho só existe neste rio e é o grande barco de passagem no Minho. Sendo uma embarcação de molde (shell first) tem acabamentos que imitam os barcos cavernados, com linhas semelhantes ao barco redondo, com proa e popa e casco muito Carocho de Lanhelas “Corvo”, réplica navegante, 1995. afilado. O casco trincado garante-lhe excelentes saídas de água e maior rapidez na deslocação sendo por isso um barco muito rápido, podendo deslocar-se a remos, à vara ou à vela. O carocho varia em dimensões conforme a necessidade do proprietário, e no passado recente os de maior dimensão funcionavam como barcas de carga, transportando cargas pesadas como pedra e areia para a construção civil, desde Monção a Cerveira e a Caminha e vice-versa, bem como esteios de granito para os vinhedos da região e madeiras para os estaleiros da ribeira de Caminha. Como curiosidade a tradição local para o seu nome, diz que o mesmo se deve ao facto de ser parecido com a estilização de uma carocha negra (coleóptero da família dos escaravelhos), por ser pintado de cor escura tanto no casco como na vela, e ter um par de remos compridos e curvados para trás também negros, semelhante às patas da carocha e, principalmente por conseguir ficar como ela facilmente camuflado e escondido na vegetação da margem do rio, êxito da sua condição clandestina para o contrabando de fronteira. A partir de 1960 estes grandes carochos desaparecem, finda a sua utilidade, substituídos pelos camiões que facilmente distribuem pelo interior das terras por via terrestre todos os produtos e bens. Sobrevivem os carochos de pequena dimensão, os Carochos de Lanhelas, sendo introduzido no final dos anos 1980 o alumínio para a construção de carochos para a pesca fluvial, com a popa cortada em painel para a colocação de um motor fora-de-bordo. Em 1995 Paulo Cunha e a Associação Corema mandam construir em Lanhelas, no último construtor naval (Luís Marrocos), uma réplica navegante à escala do Carocho de Lanhelas. A masseira (ou gamela) é uma embarcação de molde (shell first) em forma de caixotão sub -retangular e diz-se que o nome vem da semelhança com as tradicionais masseiras de amassar a massa de fazer o pão de milho. O caixotão é reforçado no interior com falsos braços de caverna (aposturas) e tem a popa e a proa cortados em painel. Apresenta fundo chato, com falsa quilha (reforço exterior longitudinal). A masseira existe neste rio e na costa atlântica numa pequena área de influência, que no lado espanhol vai até La Guardia e no lado português vai até Viana do Castelo, sendo que no passado, até 1960, chegou a Esposende e à Póvoa de Varzim, com o nome de chalandra. Existe uma variante, dita masseira do mar, para a pesca, que é ligeiramente maior que a de rio, e mais alta de bordo e mais curva no casco. O casco é arredondado como os barcos de quilha e cadaste, para ser mais segura no mar, com a falsa quilha ladeada por “cascudos”, reforços paralelos à tabua de falsa quilha, que protegem a tabua de fundo em caso de passar por cima da penedia, pois este tipo de barco pesca aos peixes da pedra (robalo, congro e polvo). Já não faz a passagem por não ser necessário dado existir o moderno ferry boat.


Ivone Baptista de Magalhães Masseiras no portinho de Vila Praia de Âncora. Bilhete postal de época.

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Mais a sul, descendo para o rio Lima, procuramos os barqueiros do Lima, que à força de vara, uniam e serviam as grandes vilas da ribeira Lima, longínquas entre si, como Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima e Viana do Castelo. Neste rio encontramos ainda hoje dois modelos navais, que no passado serviam para a passagem entre margens e para o transporte, rio abaixo e rio acima: o Barco do Lima e o Barquinho de Riba Acima que também é conhecido por barco de Água-Arriba (e que de barquinho só tem o nome pois é o de maior envergadura que trabalha neste rio). Estes barcos são muito parecidos na forma de serem construídos, sendo o Barquinho do Lima o mais pequeno (entre os 5 e os 9 metros), e o Barco do Lima variando dos 9 aos 18 metros de comprimento. Na margem sul (Darque e Vila Franca do Lima) chamam-lhe Riba Acima, enquanto na margem norte (Lanheses e Bertiandos) chamam-lhe Água Arriba. Mas os antigos barqueiros distinguem os “barquinhos” considerando que o maior de todos é a “barca de carga”. Todos são embarcações construídas de molde (shell first) e de casco trincado, que independentemente da dimensão, eram feitos sempre só com duas tábuas sobrepostas a montar o costado (o que muda é o tamanho de cada tábua, montadas por sobreposição, ditas “tábuas dos lombos”). A largura (tampo) e o comprimento faziam a diferença, sendo os barcos maiores os construídos perto de Ponte de Lima, em Capareiros (Veiga, 1945, 76). Estes barcos carregavam quase tudo conforme o seu tamanho: cal, areia, pedra, carvão, madeiras, pessoas, produtos agrícolas para as feiras das grandes povoações do rio Lima, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, levando os feirantes e os produtos da feira: milho, feijão, batatas, cebolas, coelhos, galos e galinhas, trazendo no regresso, sacos de farinha de milho, pipas e dornas, enxadas e encinhos, cestos e “gigos” (cestos de vindima), panos e o que mais fizesse falta nas casas de lavoura para quem trabalhavam ao frete (transporte encomendado e pago por preço acordado previamente) levando muitas vezes apenas a carga, pois o feirante ou o lavrador que encomendava o serviço, não viajava no barco, deslocando-se de carro de vacas, e mais recente, de autocarro. Calavam pouca água e navegavam facilmente à vara e à vela redonda (traquete) montada num mastro com verga. Os barcos maiores para poderem envergar mastro e vela eram governados com

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leme de esquadra “(…) os barcos de passagem, ditos “barquinhos” embora possam passar de margem a margem de 20 a 30 pessoas, distinguem-se dos “barcos” por o seu tampo ser muito mais largo, os talabardões (por isso que o barquinho é muito menor) mais curtos e encimando apenas 3 a 4 liames, os bordos e o tampo mais baixos, havendo nele estreitos canteiros, não usando vela, para no Inverno usar traquete e leme” (VEIGA, 1945, 76). Em 1960 os grandes Água-Arriba iniciam o seu declínio por falta de procura de trabalho para os manter, e entram em extinção. O último Água Arriba esteve ao serviço de uma empresa turística de Viana do Castelo e viajava entre Viana do Castelo e Ponte de Lima no verão, tendo sido abandonado por não ser lucrativo, apodrecendo num esteiro do Lima, e restando dele as fotografias nos ilustrativos postais de época. Em 2000 a Junta de Freguesia de Lanheses manda construir uma réplica navegante à escala do barco grande do Lima, no construtor carpinteiro Manuel João Castro da Rocha (Caninhas) um Água-Arriba. Descendo para o troço rio Cávado-rio Ave, temos Fão, com a ponte férrea a fazer a passagem do Caminho da Costa, mas encontramos aqui referência a barcos de rio construídos para passagem de carros de gado, que chegaram até meados do século XX e ainda muito presentes na tradição local, o batel do Cávado e a Barca Grande de Carga da Barca do Lago. O nome desta última faz presumir ter havido uma outra barca de carga que não era grande, o que se confirma ter existido, mas a montante do território em estudo (a montante já no Concelho de Barcelos). O batel do Cávado é o batel de Fão de Octávio Lixa Filgueiras, e “é uma pequena embarcação de rio movida a remos, de boca aberta, fundo chato, popa de painel, com cinta por baixo do alcatrate e bancadas moveis” (Filgueiras, 1981, 12). Estamos perante a única memória bem preservada do que seria uma Barca de carga dos lugares de passagem do século XX, que ficou retida no lugar da “Barca do Lago”, sítio próximo de Esposende, no Caminho de Santiago desde o século XIII. “Foi na borda do rio, a dois passos da passagem, que os crentes medievais ergueram a capela em homenagem à Virgem Maria, a que chamaram Senhora do Lago” (Araújo, 2013, 16), e que reza a lenda foi uma imagem encontrada nas redes de um pescador no lago, e que desde logo se fez voto de erguer capela e fazer passagem por amor de Deus, popularizando a Barca por Amor de Deus, a única passagem gratuita conhecida, servida por uma barca grande de carga, que Água-Arriba do Lima “Lanhezes”, rio Lima, réplica tipologicamente pertence às jangadas ou navegante, 2000. barcaças-pontões, e que aparece referida desde o século XVII pois em 1635 a Irmandade da Barca do Lago fazia dizer “ser esta passagem muito frequentada, estando nesta pacífica pose por mais de 400 anos” (Neiva, 2003, 47). Remontaria assim aos tempos da fundação de Portugal este local de passagem, associado não à estrada do mar mas à Via Veteris e, reforçado pela Barca por Deus, ao Caminho de peregrinação a Santiago de Compostela. Localmente o “lugar da Barca do Lago” é em Gemeses, e deve o nome ao facto do rio naquele sítio parecer calmo como um lago. Conhecido pela sua romaria anual tradicional à Senhora da Barca do Lago, romaria que acontece no verão (final de Julho) foi sempre muito popular como lugar de festa de verão. “O snr. Conselheiro Campos Henriques, depois de descançar por algum tempo, saiu a dar uma volta pelo arraial, acompanhado de todos os convidados, e tomando


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lugar na barca de passagem – uma espécie de jangada d’enormes porporções, que comporta mais de 100 pessoas – atravessou o rio” (O Espozendense, 1935, 3). Apesar de muito utilizada a passagem na Barca da Barca do Lago tinha os seus perigos e em 1880 nas Cortes o deputado Barroso de Matos por Barcelos dizia que “os riscos que terão os habitantes das freguesias d’além Cávado que, para irem a Espozende têm forçosamente de atravessar este rio na Barca do Lago, que é perigosíssimo no Inverno e principalmente em ocasião de grandes cheias que nele são frequentes” (Araújo, 2013, 92). “Da barca de passagem há fotografias antigas. Parece uma espécie de jangada com gradeamento de proteção lateral e aberta nos topos, tendo estes rampas reguláveis para facilitar a entrada e saída dos passageiros, animais e veículos.” (Araújo, 2013, 93). Esta barca está bem documentada. “Por volta de 1966, Adélio Marinho de Macedo e José António Figueiredo fizeram um estudo sobre as passagens de barco existentes ou que existiram desde a foz do Cávado até à ponte de Prado. Em Gemeses tiveram oportunidade de recolher dados, junto de pessoas que viveram em contacto diário durante vários anos com a tal barca de carga, que lhes permitiram fazer uma reconstituição gráfica da dita. Descreveram-na como tendo forma rectangular com ligeira curvatura lateral para fora; o fundo apresentava uma pequena convexidade para baixo e para os lados, como uma pipa tradicional cortada longitudinalmente. Era protegida lateralmente pelo prolongamento dos lados, pouco acima do nível do estrado (chão ou soalho). As bordas eram ainda protegidas por meio de uma guarda (grades, varais ou resguardo). As grossas cavernas (cadilhas), formadas por duas ou três peças ou secções, ficavam a pequena distância umas das outras; serviam de base aos pontaletes (barrotes) que aguentavam as travessas transversais onde eram pregadas as tábuas que formavam o estrado (chão)” (Araújo, 2013, 95). Pela descrição percebe-se que a barca não era de construção rústica, pois tinha cavernas (cadilhas) pelo que era construída segundo as normas de uma embarcação de mar devendo considerar-se a proximidade dos importantes estaleiros navais de Fão, abundantes em matérias primas para a construção naval e com a mão de obra especializada para construir esta embarcação.

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Barca Grande de Carga da Barca do Lago, rio Cávado. Bilhete postal de época.

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Barca Grande de Carga do Cávado “Barca do Lago”, rio Cávado, réplica navegante, 2017.

2 A PRORIVER é uma empresa marítimo turística a operar no rio Cávado com sede na Barca do Lago, Fonte Boa (margem sul). A Barca, foi desenhada pelo Engº naval José Coelho, que fez escola nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, e por força de lei, é motorizada. O serviço de transporte é pago (2€ pax). A razão invocada por Belmiro Penetra (proprietário) que foi atleta Olímpico de Canoagem e profundo conhecedor deste troço do rio Cávado, foi “ a responsabilidade de preservar a memória do trabalho no rio, que no caso terá o peso histórico da própria Nacionalidade, com esta travessia ativa há pelo menos 700 anos e que não se devia deixar perder nem esquecer” (proriver.lazer@gmail.com).

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Até finais de 1940 a passagem foi servida pela barca de carga referida para o transporte de carros e animais e por um barco pequeno, o batel da barca (batel de Fão), que levava 2 remadores e que fazia a travessia a passageiros individuais. A licença da Barca de carga extinguese em 1947, ainda que ela tenha por lá ficado eventualmente trabalhando quando houvesse gente, principalmente nas Festas da padroeira, mas com a manutenção dispendiosa passou parte do trabalho para o pequeno barco que também não sobrevive depois de 1970. A inauguração da Ponte férrea em Fão, em 1892, desviou para aquela ponte a Mala-Posta, um dos principais rendimentos da passagem, agora servida pela nova Estrada Real (18891892) que atravessava na ponte. A estrada real entre Porto, Póvoa, passando por Fão e Esposende, para Viana e Valença, passou a designar-se depois de 1913 como Estrada Nacional nº13 (ou Estrada do Entre-Douro-e-Minho), e passava dentro de todas as vilas e cidades que lhe ficassem no caminho, mormente as vilas piscatórias, numa versão melhorada da estrada do mar, o que ditou o abandono gradual do caminho de Rates para a Barca do Lago. A barca abandonada acabou por ficar submersa e em 1958 uma cheia do rio seguida de forte vazante arrastou-a e afundou-a, perdendo-se a última grande barca de carga do Cávado. Apesar de muito presente na tradição oral, esta barca não consta do inventário que Octávio Lixa Filgueiras realizou neste rio. Em 2017 (maio) por iniciativa privada da empresa marítimo-turística PRORIVER, inaugurou-se a réplica navegante da Barca Grande de Carga da Passagem da Barca do Lago com capacidade para 20 pessoas e ao serviço da revitalização do Caminho de Santiago por Rates (Caminho Central)2.


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De Esposende para a Póvoa de Varzim podia seguir-se da Barca do Lago pela estrada de Rates para o Caminho Central, ou seguindo pelo Caminho da Costa, que aqui se conhecia por “estrada das dunas” e já vem referida em 1549 no Tombo de Nabais por “estrada da areia” (Araújo, 2013, 51). Esta estrada era fustigada pelas areias e frequentemente melhorada em pequenos troços, sobretudo no final do século XIX, e por isso a mais usada pelas populações litorais. Este troço do Caminho (Aguçadoura e Aver-o-Mar) é o mais rico em tradições agro-marítimas, pois as comunidades humanas que aqui se fixaram, contra todas as probabilidades, encontraram forma de domesticar a árida paisagem dunar, de forma única no país, inventaram os campos em masseira, campos agrícolas em forma de tabuleiro retangular, com os lados em talude para proteger das areias trazidas pelo vento marítimo, com cerca de um hectare, escavados na areia da duna até ao lençol freático, sendo o chão do tabuleiro o campo das sementeiras de leguminosas e “novidades” (batata, cebola, alho e couve coração) que era enriquecido com sargaço (adubo que contrariava a escassez de nutrientes das areias dunares). O sargaço ou argaço é o nome dado a várias macroalgas que povoam as penedias submersas junto à costa e que as tempestades de verão (maresias) matam, arrancando pela raiz e arrojando às praias, onde são apanhadas com aproveitamento como “estrume” ou “adubo”, para fertilizar as terras arenosas e pobres da agricultura costeira. O “Campo-masseira – exploração hortícola típica das localidades entre a Póvoa de Varzim e o rio Cávado – rodeado por árvores retorcidas pelo forte e constante vento norte” (Santos, 2001, 37). No litoral norte a comunidade de Aguçadoura é a comunidade sargaceira de referência, ainda que sem o folclore etnográfico da sua vizinha a norte (Apúlia). A faina do sargaço aqui fez-se pelo menos desde o século XIV e para os agricultores das terras do interior, as algas depois de bem conservadas por secagem ao sol, eram tão importantes e valiosas para o enriquecimento dos solos agrícolas, que a apanha do sargaço destinada a venda para a agricultura fez a riqueza de muitos caCampo em masseira, Aguçadoura. baneiros, pescadores e lavradores pobres, que se estabeleceram no cordão dunar, ocupando a terra do mar que era terra de ninguém, com a complacência régia que percebia nestes cabaneiros os verdadeiros povoadores do litoral e fundadores da paisagem marítima que hoje reconhecemos. Estabeleceram-se em cima da duna, de cara para o mar sempre de sentinela, daí os nomes dos lugares da praia: chamadoiro, Aguçadoura, Aver-o-mar, no início sem igreja e sem capela, a conquistar a areia. Devem o nome às cabanas de madeira e colmo (palhoças ou palheiros) onde viviam. E da Póvoa até Caminha o afloramento rochoso apresenta xistos e granitos, pelo que, quando havia na proximidade esta matéria-prima, os mais abastados, os lavradores, construíam cabanas com muros de pedra, que faziam da forma mais simples, sem as complexas esquinas travadas, arredondadas como um barco, normalmente do tamanho do barco que lhe iriam meter dentro, pois durante o inverno, os barcos e o sargaço guardavamse dentro destas casas, ditas casas do barco ou casas do sargaço.

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Barcos poveirinhos. Caxinas, Vila do Conde. Ilustração de época.

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O sargaço era recolhido a pé a partir da praia ou recolhido nos caíques, a embarcação mais pequena da tipologia poveira. Esta tipologia evoluiu da comunidade sardinheira residente na então Vila da Póvoa, e por ser o modelo naval mais bem sucedido para as embarcações de mar, independentemente da dimensão do barco, foi replicado pelas comunidades marítimas vizinhas, e usado desde Viana do Castelo a Afurada, e foi levada para o rio Tejo, onde toma a forma da “chata de Cascais”. A tipologia poveira influenciou todas as comunidades ribeirinhas, principalmente as agro-marítimas, que sendo lavradores na época do sargaço (maio a setembro) tornavam-se pescadores, pelo que o modelo foi com muito sucesso imitado pelos lavradores, resultando os barcos de fundo-de-prato que povoaram as comunidades sargaceiras da Póvoa a Viana do Castelo, e que também encontramos na paisagem de Esposende. Na Póvoa encontramos mais uma vez referências aos ribeiros que com a chuva de inverno ficavam intransponíveis, pelo que quase todos eram dotados de pontelhas (padieiras) ou ponte simples de um arco redondo. Em 1824 pedia-se que se realizassem obras na “Rua da Ponte, das pontes della de forma que se possão andar por ella carros e bestas. E em 1826, pedia-se o fornecimento da pedra de esquadria e seus carretos para as obras do “pontilhão do regato”(…) se compunha de um único arco abatido ou “escarçano” (Amorim, 2004, 295). No Ave voltamos a encontrar referências a barcas de passagem. “Em Vila do Conde a travessia do Ave fez-se por barca até 1794, administrada pelas freiras do Mosteiro de Santa Clara, decorrente do foral manuelino. Mas o anseio de uma ponte já andava na mente dos dirigentes locais em 1535. Porém, o processo decorreu durante mais de um século, com insistência dos moradores, hesitações do poder régio a que certamente não seria alheia a pressão das freiras de Santa Clara, com receio de perder os proventos que advinham da administração da barca de passagem. Nas primeiras décadas do séc. XVII continuavam os pedidos de uma ponte” (Araújo, 2013, 47). De facto, a importância estratégica do Convento de Santa Clara, com a sua própria alfândega, e os direitos sobre a portagem de mar e rio, faz adivinhar o movimento por este caminho. Vila do Conde teve várias pontes no troço Santana-Vila. A jusante da atual ponte


Ivone Baptista de Magalhães Ponte do Socorro (ponte da eclusa), Vila do Conde. Ilustração de época.

As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa

da estrada nacional 13, houve uma casa do barco com respetiva barca. A montante, junto à meia laranja existiu uma ponte cujos alicerces se percebem facilmente e que reza a história foram arrancados por uma vazante. A tradição local, no entanto, guarda a imagem do último barqueiro, num barquinho a fazer a passagem acima do açude, entre Retorta e Formariz3 . Vila do Conde é a comunidade mais bem sucedida de construtores navais tradicionais em madeira e o rio Ave teve vários lugares de atravessamento na Vila, acima e abaixo do açude quinhentista. A tradição oral mantem um lugar de passagem de serventia dos estaleiros entre margens com uma barcaça de carga (para carga entre estaleiros) que atravessava de Azurara para o Cais das Lavandeiras. Apesar do rio Douro ficar fora da área deste estudo, as suas passagens organizaram as vias de circulação terrestre e na maioria chegaram até nós bem conservadas. Aqui a passagem mais famosa era a que ligava o Porto pela Serra do Pilar (Vila Nova de Gaia), sendo o mosteiro de meados do séc. XV, funcionando desde essa data como lugar de pernoita aos peregrinos. A tradição local remete para dois sítios de atravessamento de Barco, um descendo do Mosteiro (Calçada da Serra) chegava ao cais do Porto junto da Sé; outro mais a jusante, na Afurada, passava as escadas da Boa Passagem, que descia ao cais de Gaia onde se passava para Massarelos, sendo este o caminho mais próximo ao caminho pelas dunas e do mar. O Porto teve várias pontes, as mais famosas foram as pontes de barcas que se instalavam em períodos especiais, de comércio ou de guerra para acelerar a passagem: fundeavam-se várias barcas (barcaças, batelões ou jangadas) amarradas umas às outras e colocavam-se pranchas em cima, de forma a funcionarem como uma ponte militar podendo passar carros em cima, e quando deixava de fazer falta soltavam-se as barcaças e desmontava-se a ponte. A partir de 1843 a Ponte Pênsil veio resolver esta necessidade, seguindo-se em 1888 a Ponte Luís I.

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Mestre Noé, de Azurara, lembra que passar um pastor e uma cabrinha em Formariz custava 1 tostão em 1960.

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Ivone Baptista de Magalhães

Ponte das Barcas, rio Douro (Henri L’Éveque, 1817). Ilustração de época.

Conclusão

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As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa

Até meados do século XX as barcagens foram uma das mais importantes atividades fluviais, com repercussões na sociedade e na economia local. A partir da construção das pontes viárias sobre os rios, atravessar passou a fazer-se pelas novas pontes e as barcas de passagem, normalmente grandes plataformas que embarcavam um ou até dois carros de bois, deixaram de ter clientela e encerram a atividade. Por pouco tempo continuaram ainda os barcos e barquinhos, menos dispendiosos de manter, que levavam apenas uma a três pessoas e uma ou outra bicicleta (transporte mais comum em meados do século XX). Cedo as vantagens gratuitas de um desvio pela nova ponte se fizeram sentir. Em 1960 já não sobrevivem barqueiros exclusivamente desta atividade (com exceção dos novos ferrys que atuam em Caminha, em Viana do Castelo e no Porto, que são barcagens enquadradas na atividade turística). “As embarcações tradicionais representam um desafio nacional, e são, caso a caso, não só um repositório de formas e funções, mas também de memórias e saberes ancestrais transmitidos entre famílias de sangue e de profissão.” (Baptista, 2012, 17). Em Portugal é a partir de 1960 que a comunidade científica se começa a preocupar com o rápido desaparecimento das inúmeras formas navais, de carácter singelo como os barcos e barcas de passagem ou mais eruditas como os grandes navios de cabotagem ou de alto mar, como Lugres, Patachos, Escunas, Barcas, Galeões e Iates do Sal, que iniciaram o seu declínio em 1940 e que estão à beira da extinção em 1960. São ainda as universidades e o meio académico a realizar alguns estudos, poucos, sobre a antropologia e etnografia dos homens e das comunidades do mar, fixando-se a Antropologia Marítima como disciplina académica. A revolução social e cultural após 1974 trouxe uma modernidade que não se compadeceu com o atraso tecnológico, até então garantia da sobrevivência dos meios de produção antigos das atividades pré tecnológicas, onde se incluem as ribeirinhas, piscatórias ou rurais, acelerando o desaparecimento dessas atividades, enquanto em simultâneo estimulava o gosto pelo “folclore local”, com os usos e costumes, as festividades e as tradições antigas, valorizando a sua preservação e o seu estudo, culminando com a recente “patrimonialização” turística.


Ivone Baptista de Magalhães As barcas e barcos de passagem do Caminho Português da Costa

“Os caminhos velhos, as pontes, certos trechos de paisagens dos seus arredores deviam merecer de todos nós o maior carinho. Não sabemos se aos municípios incumbe ou pode incumbir tal tarefa, que é mais própria de poetas do que de homens de orçamentos” (Araújo, 1962, 21). Neste contexto, a sociedade civil inicia lentamente um movimento revivalista apostado em salvar a cultura e as memórias associadas aos barcos. Primeiro vocaciona-se para os barcos de mar. Em 1991 na Póvoa de Varzim constrói-se a Lancha Poveira do Alto, “Fé em Deus”, seguida em 1993 em Esposende, da Catraia sardinheira “Santa Maria dos Anjos”. Em 2002 em Viana do Castelo é a vez da Masseira “Nossa Senhora da Graça” de Montedor. Seguem-se os barcos de passagem: o primeiro em 1995, no rio Minho (Lanhelas) foi o Carocho “Corvo”. No Rio Lima em 2009 (Lanheses) foi o Água-Arriba “Lanhezes”, e em 2016 também em Lanheses, foi a réplica da “piroga monóxila” pré-histórica “Canoa”. No rio Cávado, em Maio de 2017, foi a Barca Grande de Carga do Cávado “Barca do Lago”. O legado dos nossos barcos de rio renasce. Referir ainda que nos rios que tiveram lugares de passagem, as embarcações possíveis foram os pequenos barcos construídos de propósito para esta função por um lavrador carpinteiro, ou com o aproveitamento (reciclagem) de embarcações miúdas provenientes das comunidades marítimas vizinhas, este o recurso mais comum quando as passagens são perto da foz, lugar por excelência das comunidades ribeirinhas atlânticas. Estes barcos serviam para o trânsito de uma ou duas pessoas e eventualmente de um animal que os acompanhasse de pequeno porte (cabra, ovelha, cão, leitão). Para os carros de carga e as carroças este barco não servia, e dotavam-se os lugares de passagem com as Barcas de Carga, ditas barcaças nalguns sítios (Vila do Conde e Porto) e Barca Grande (Esposende e Vila do Conde), que podiam ser construídas por lavrador (modelo de jangada ou plataforma flutuante, que era tirada por cabos de vaivém em ambas as margens, como na passagem entre Retorta e Formariz, acima do açude quinhentista em Vila do Conde) ou construídas por um construtor naval de ribeira. Das muitas tipologias de barcos usados para navegar nos rios de maior caudal, no território do Caminho da Costa perderam-se as funções e os barcos. Sobreviveram os barcos fluviais mais bem-sucedidos e de pequena dimensão, transformados, auxiliados por motor fora de borda, porque são barcos que continuam a servir o rio, agora exclusivamente para o lazer ou para a pesca, pois a legislação só permite o transporte de passageiros em embarcações registadas como operadores de marítimo-turística, e esta normativa acelerou a extinção da atividade dos barqueiros nos rios navegáveis. Por último, neste território já não encontramos originais de barcos ou barcas de passagem de grande porte a fazerem a passagem regular, mas encontramos referência a vários modelos navais, registados em fotografia e postal antigo, ou documentados na literatura local. “Mas o que percebemos foi que para além das tipologias das diferenças entre barcos, o que resumia um barco, era ser uma extensão da própria “família”. Frequentemente passava de pai para filho e, sucessivamente, de geração em geração. Madeiras novas, velas novas, peças novas, reconstrução em cima de reconstrução. Mas sempre o mesmo nome, o mesmo modelo naval com os mesmos defeitos e qualidades. (…). Percebemos que um barco só “morria” verdadeiramente quando naufragava. Esta era a morte de um barco. E só morre o que tem “vida”. Nas comunidades ribeirinhas, o barco e as pessoas, são “entidades”, com vida depois da vida.” (Magalhães, 2008, 535). Fomos em busca dos primitivos lugares de passagem nas linhas de água, nos grandes rios e nos pequenos “boqueiros” que se formam com as chuvas de inverno nos ribeiros, procuramos entre as margens e nos sítios que lhe ficassem próximos, os primitivos lugares de atravessamento do rio, quase sempre associados na micro toponímia local com nomes como “porto”, “carregadouro”, “barca”, “barqueiros” ou “passagem”, em busca das memórias dos seus barcos e barcas de passagem. O Caminho da Costa não se fazia ontem sem os barcos. Hoje precisa dos barcos para salvaguardar a sua autenticidade e para preservar a sua identidade cultural. Este é o legado do Património Naval do Caminho da Costa.

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Ivone Baptista de Magalhães

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna Aurora Botão Rego

Doutorou-se na Universidade do Minho em História, especialidade de Demografia Histórica. Integra o grupo de trabalho “Repositório Genealógico Nacional” e coordena o “Repositório Genealógico do concelho de Caminha”. É investigadora integrada do Citcem da UM/FLUP desde 2007, pertencendo ao Grupo da História das Populações. Tem participado em vários projetos de investigação e participado com comunicações em inúmeros congressos nacionais e internacionais. Tem livros, artigos e capítulos de livros publicados em várias revistas científicas nacionais e internacionais, tendo como principais interesses de investigação a Demografia Histórica, a História Social, a História Local, as Comunidades Marítimas e as relações transfronteiriças entre o Minho e a Galiza. Desempenha atividades de investigação no Município de Caminha.

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Resumo

Aurora Botão Rego

São conhecidos muitos relatos de peregrinações a Santiago de Compostela cujo trajeto atravessou o território português. Personagens ilustres, nacionais e estrangeiras, acompanhadas de comitivas onde cronistas e pintores se integravam, legaram para a posteridade as suas experiências e vivências, bem como a descrição da paisagem ou das populações com as quais se cruzaram. Pouco conhecemos sobre os peregrinos sem rosto, que enformaram verdadeiras torrentes humanas seculares em direção ao santuário compostelano, movidos pela fé, pela devoção, pela doença ou pela remissão, trilhando caminhos ásperos, estendendo a mão à caridade, almejando por fim alcançar as indulgências das suas penas. Por força da sua condição social ficaram no anonimato. O presente estudo pretende resgatar os nomes de alguns desses pobres peregrinos, levantando tão somente um pouco o véu sobre esta realidade multifacetada e de difícil alcance – por onde passavam, de onde vinham, em que condições viajavam, a resposta da assistência e da caridade alheia, a morte em inesperados percalços da viagem santa.

Introdução Para o estudo das populações durante a Idade Moderna, as séries de registos paroquiais (nascimento, casamento e óbito) constituem o meio mais sistemático de análise. O cruzamento entre estes registos permite a reconstituição de comunidades históricas em período de longa duração, acompanhando o percurso das famílias e dos indivíduos em cadeia genealógica (Amorim, 1991). Para o presente estudo, concentrámos primordialmente a nossa atenção nos registos paroquiais de óbito, onde é possível encontrar peregrinos e o seu enquadramento dentro desta temática. Percorremos os livros das paróquias selecionadas, procurando entre milhares de assentos, aqueles que, direta ou indiretamente, se pudessem relacionar com o objeto de análise. Como fontes complementares, recorremos pontualmente a informações provenientes de estruturas assistenciais. As balizas cronológicas resultam do início do lançamento dos assentos nas diferentes paróquias, pelo que, grosso modo, a observação inicia-se no século XVII e termina em finais do século XVIII, com algumas exceções, em consequência da ausência de alguns livros ainda não colocados à consulta online por um lado e, por outro, pela necessidade imposta pela investigação. Na impossibilidade de efetuar o levantamento de dados de todas as paróquias dos concelhos que enformam o Caminho Português da Costa, foram selecionadas algumas1 onde o trajeto se encontrava comprovado pela existência de estruturas assistenciais. Iniciámos esta viagem, concelho a concelho, desde Valença em direção ao Porto, considerando a primeira como a grande porta de saída/entrada de peregrinação portuguesa a Santiago de Compostela. 1

Agradecemos as informações disponibilizadas pelos Técnicos dos diferentes Municípios.

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Aurora Rego

Estas são as nossas questões de partida: quem eram os peregrinos humildes; qual a sua proveniência; em que condições de viagem se deslocavam; quais os percalços das viagens; que resposta era dada pelas instituições religiosas e pela caridade alheia às suas necessidades durante o penoso trajeto; que condicionalismos políticos afetavam as peregrinações com consequentes ritmos de decadência ou recrudescimento das mesmas, entre outras questões a que tentaremos responder.

Considerações gerais

Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

Desde a Idade Média que as peregrinações entraram no ideário das populações, não só como ato voluntário de fé e de devoção, mas também como forma de remissão dos pecados, de cumprir as penitências impostas pelos confessores, de alcançar a cura das suas maleitas, de obter finalmente as indulgências almejadas para toda uma vida, para além do carácter ascético que cada indivíduo imprimia à sua jornada. Constituía, igualmente, uma maneira de conhecer gentes e locais distantes, rasgar horizontes que não se restringiam ao adro da paróquia ou ao perímetro da convivência interparoquial mais próxima. O peregrino humilde encetava a sua marcha, consciente (ou não) da aspereza dos caminhos e da lonjura do Santuário, das incertezas da viagem (em virtude de assaltos, exploração a que estavam sujeitos, por exemplo), da fortaleza ou da fragilidade do seu corpo. Contava com o apoio das instituições (Misericórdias, mosteiros, albergues, estalagens, implantados estrategicamente nas vias mais movimentadas), mas também da caridade alheia, porque quem oferecia auxílio e acolhia peregrinos também era agraciado com as indulgências sagradas. Muitos peregrinavam uma vida inteira, de terra em terra, de romaria em romaria, visitando as relíquias dos santos (Martins, 1957, 11). O regresso era incerto. A maioria voltou a suas casas, relatando o deslumbramento do Lugar, as peripécias da viagem. Muitos ficaram pelos caminhos, algures, errantes. Outros morreram devido a variadas circunstâncias.

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Aurora Rego

Santiago de Compostela

In B.P.N. Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Cota ea-326-a.

Gráfico 1 Entrada de peregrinos no Hospital Real de Santiago (1803 - 1845) 800 700 600 500 400 300 200 100

In Rodriguez, 1991, 405.

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1845

1841

1843

1837

1839

1835

1831

1833

1827

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1825

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1823

1817

1819

1815

1811

1813

1807

1809

1805

1803

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

Na Idade Moderna, apesar da existência de fraturas religiosas e suas consequências, estamos em crer que estas vontades e movimentações se mantiveram. Porém, a mobilidade das populações em território ibérico, durante os períodos de hostilidades, diminuiu consideravelmente. Assim aconteceu no século XVII, desde a ocupação filipina até à Restauração e ao Armistício. Assim aconteceu no início do século XVIII, com a Guerra da Sucessão de Espanha até 1713. Assim também sucedeu desde os alvores do século XIX, com a Guerra das Laranjas, seguida pelas Invasões Francesas e, na década de Vinte, com o início das Guerras Liberais. As pestilências ocasionaram pontualmente a imposição de cordões sanitários fronteiriços que impediram a mobilidade das populações (Rego, 2017, 224-234). Estas condicionantes não constituíram exceção nos fluxos de deslocação dos caminhos da peregrinação na cidade de Santiago de Compostela. Guerras e pestes alteraram a cadência de visitas ao Santuário, como ficou provado na intermitência de entrada de irmãos na Confraria de Santiago de Moissac, entre 1523 e 1671, circunstâncias que ocasionaram tanto ciclos de decadência como de prosperidade da peregrinação compostelana (Lopo, 2016, 255-267). Igualmente, as invasões francesas da Península Ibérica produziram o mesmo efeito, como é possível verificar no Gráfico 1, onde o número de peregrinos baixou para níveis residuais. Os picos observados posteriormente associam-se a Anos Santos (1819, 1824, 1830) (Rodriguez, 1991, 405).


Aurora Rego

No que concerne à nacionalidade dos peregrinos hospedados no Hospital Real de Santiago, entre 1630 e 1660, os portugueses representavam uma fatia de 5,3% do total (Rodriguez, 1991, 411). Contudo, entre 1797-1799, atingiam já um volume de 21,9% (Lopo, 2016, 272) sendo que em 1807-1825, decaíam para 14,4% (Rodriguez, 1991, 414). Estes níveis estão em direta sintonia com as datas dos ciclos de instabilidade política que atravessaram o território português. A sazonalidade da peregrinação foi alvo também de análise por parte dos historiadores referidos, uma vez que a decisão de encetar a jornada encerrava muitas variáveis. Como podemos verificar nos Gráficos 2 e 3, a sazonalidade dos internamentos, entre 1630 e 1660, seja nos anos ditos normais seja nos Anos de Jubileu, seguiu praticamente a mesma tendência: uma maior concentração entre março e julho, com um pico secundário em outubro. Todavia, entre 1802 e 1824, houve uma alteração de comportamentos, sendo agora os meses entre maio e setembro os mais escolhidos. Se no primeiro período, os peregrinos se guiavam por fatores climáticos determinados pelos meses de menor intensidade nos trabalhos agrícolas e mais propícios à peregrinação, no segundo período a grande festividade do Jubileu transformou-se no fator mais determinante (Rodriguez, 1991, 406-410). Gráfico 2 Sanozalidade das entradas de peregrinos no Hospital Real de Santiago (1630 - 1660) 350 300 250 200 150 100 50 dezembro

novembro

outubro

setembro

agosto

julho

junho

maio

abril

março

fevereiro

janeiro

0

Anos Santos

Anos Normais

Gráfico 3 Sanozalidade das entradas de peregrinos no Hospital Real de Santiago (1802 - 1824) 400 500 400 300 200 100

Anos Normais

dezembro

novembro

outubro

setembro

agosto

julho

junho

maio

abril

março

fevereiro

0 janeiro

Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

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Anos Santos

In Rodrigues, 1991, 406-410

Importa agora conhecer os peregrinos anónimos que não regressaram a casa, tombando algures, por doença, por acidente, por atos de violência ou outras circunstâncias. Importa, igualmente, conhecer o contexto do óbito e do território onde o mesmo ocorreu. Interessa finalmente, dar-lhes um nome, sempre que possível, já que os cronistas oficiais olvidaram esta mole humana que com fé, cânticos, alegria e tristeza, enxamearam os caminhos. A sua existência fundamenta e humaniza o Caminho da Costa Português.

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2 A.D.V.C., Registos de óbitos de Valença, Paróquia de Santa Maria dos Anjos (Cotas 3.17.6.24, 3.17.6.25, 3.17.6.26, 3.17.6.27 e 3.18.1.23, entre 1623-1811) e Paróquia de Santo Estevão (Cotas 3.17.6.13, 3.17.6.14, 3.17.6.15 e 3.17.6.22, entre 1613-1758). 3 A.D.V.C., Registos de óbitos de Valença, Paróquia de Cristelo Covo (Cotas 3.16.5.22, 3.16.5.24 e 3.16.6.5, entre 1612-1807). 4 A.D.V.C., Registos de óbitos de Valença, Paróquia de Arão (Cotas 3.16.2.26, 3.16.2.27, 3.16.3.12 e 3.16.3.13, entre 1642-1807). 5 A.D.V.C., Registos de óbitos de Valença, Paróquia de São Pedro da Torre (Cotas 3.17.4.28, 3.17.5.6. e 3.17.5.7, entre 1668-1800).

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

A vila de VALENÇA assume-se, pela sua posição estratégica, geográfica e militar, como uma das portas giratórias mais importantes de entrada e saída de gentes para a vizinha Galiza. A ela confluem caminhos e sendas que se perdem na memória do tempo. Debruçámo-nos sobre os registos paroquiais de óbito das freguesias de Santa Maria dos Anjos e da Colegiada de Santo Estevão (vila de Valença)2, de Cristelo Covo3, de Arão4 e São Pedro da Torre5. Segundo esta fonte, ficámos com a visão de uma vila onde, aos residentes, se misturavam os militares da grande praça militar, mercadores, inúmeros assistentes galegos e alguns escravos, pobres a esmolar, num redopiar intenso de circulação humana da mais variada proveniência e linguarejar. Na época, a atividade ribeirinha mercantil e de transporte de pessoas e de bens possuía uma importância fundamental para a economia local, com inumeráveis referências sobre a mesma, registando-se, paralelamente, o aparecimento de um número assinalável de pessoas afogadas e arrojadas às margens do rio Minho, quer em consequência de acidentes e quedas em manobras, quer no embarque ou desembarque das embarcações. O cais/lugar da Urgeira, o cais do Cruzeiro e a presença de inúmeros barqueiros foram encontrados na documentação paroquial, bem como a existência de várias estalagens. Apesar de toda esta intensa agitação, muitos homens naturais de Valença, em pleno vigor da idade, procuraram melhores condições de vida fora do concelho, o que é visível pelo permanente aparecimento de óbitos em mercados de trabalho longínquos, sendo Lisboa o principal destino. Em virtude da sua situação geográfica, naturalmente que milhares de peregrinos de Santiago de Compostela passaram por Valença ao longo dos séculos. Alguns ficaram assinalados nos registos de óbitos, ora regressando doentes ou moribundos, ora sucumbindo à fragilidade humana, após o longo e árduo percurso até Valença. Noutros assentos, tudo indica existirem lacunas na sua redação, sendo que, por vezes, só podemos deduzir que são peregrinos devido à sua naturalidade afastada. Transcrevemos alguns registos de óbitos como exemplos dos vários contextos referidos:

Aurora Rego

Peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna


Aurora Rego

Na paróquia de Santa Maria dos Anjos de Valença:

Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

11 de novembro de 1638 – (…) se faleceo Gonçalo da Portella sem sacramentos porque quando me avisarão já se fazia o signal de sua morte (…) me disseram seus filhos e molher que não avia quatro dias que viera de Santiago de Galiza onde fora confessado e sacramentado e alcançara o jubileu que no mesmo anno se concedia (…). 4 de maio de 1677 – (…) faleceo afogado Manuel Cerqueira (…) desta Villa e freguezia vindo embarquado de Seixas pelo Rio assima pera esta Villa (…). 30 de outubro de 1694 – (…) faleceo de morta repentina hum pobre mendicante em hum palheiro de Mathias Pereira, não se sabe o nome delle, nem a terra com serteza donde era. Era home de sacenta anos pª sima (…) fiz este assento pª que achandosse clareza do nome e terra se ponha a margem (…). 9 de janeiro de 1717 – (…) faleçeo desta vida presente (…) Fellipha de Lira, solteira, natural de Refoyos de Lima, termo de Ponte de Lima, fª que disse ser de Christovão Ferras de Abreu e de Fellicianna de Lira, faleceo nesta vila aonde adoeçeo vinda do Appostollo São Tiago (…). 3 de agosto de 1731 – (…) faleceo da vida prezente com o Sacramento da Extrema Unção João Gomes da cidade de Lisboa freguesia de São Julião vindo do Appostolo Santiago em caza da Antonio Reis (…) ao coal condeney na forma da Constituição por não dar parte com tempo (…) esta sepultado no adro (…). 14 de junho de 1756 – (…) faleceo da vida prezente Maria de São José solteira filha de João Francisco já defuncto e de sua mulher Joanna Maria, moradores na cidade de Lisboa da freguesia de São Pedro de Alfama, que hia para Sentiago de Galiza com Bartholomeu da cidade de Tuy (…) nesta freguesia no lugar da Urgeira extramuros aonde se lhe dey aExtrema Unção (…). 28 de agosto de 1764 – (…) Falleceo da vida prezente com os Sacramentos necessários Maria Teixeira solteira (…) filha legitima de Hyeronimo Teixeira e de Agueda Carvelha, da freguesia de Sancto Andre de Villa-Nune Cabesseiras de Basto; esta sepultada dentro desta Igreja (…). 11 de setembro de 1802 – (…) Faleceo da vida prezente com os Sacramentos necessários Joseja Teresa de Jesus solteira Romeira que vinha de São Tiago, natural da freguesia de Vespereira, falecida nesta freguesia em caza de Jose de Queiros em São Sebastião (…).

Na Colegiada de Santo Estevão de Valença: 3 de abril de 1688 – (…) faleceo nesta villa vindo da Romaria de Santiago de Galiza Pedro Fernandes vº natural da fregª de S. Fins Bispado de Lamego (…) foi sepultado no adro desta Igreja e por ser forasteiro e ser o parocho desta Collegiada obrigado a todos os forasteiros a lhes administrar os Sacramentos (…). 6 de junho de 1701 – (…) faleceo com todos os Santos Sacramentos Josepha mossa de idade de quatorze annos pouco mais ou menos que dizia ser de Compostella, cidade de Santiago, Reyno da Galiza, não ha noticia nomeasse seu pays, so dezia ser sobrinha de hum clérigo daquela cidade com elle se criara (…). 29 de janeiro de 1717 – (…) Manuel da Sylva, cazado com Maria Valente da freguesia de Santa Marinha da Branqua da Feira, Bispado do Porto, indo pª Santiago de Galiza faleceo nesta villa (…) foi sepultado pela Mizericordia nesta Igreja de Santo Estevam dentro della (…).

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Na vizinha freguesia de Arão, após a pacificação entre os dois países, continua a encontrar-se referência à passagem de inúmeros forasteiros e indivíduos de origem galega, o que comprova a existência das rotas antigas de mobilidade desde Castela, como no seguinte caso: 17 de julho de 1747 – (…) “se recolheu àcaza de Bento de Souza de Eydi de Sima gravemente enfermo Antonio Posse natural do Reino de Galliza, que dezia ser cazado e que vinha de Castella dever dous filhos que alli tinha e que era vezinho da Senhora da Escravidam, alem da villa do Padrom, perto do engenho do Papel (…). Em termos de localização geográfica, a freguesia de São Pedro da Torre constitui um ponto de entroncamento de várias vias terrestres, para além de possuir uma importante passagem fluvial no rio Minho. Este posicionamento facilitava, por sua vez, a migração de um grande número de trabalhadores locais, especializados na arte da pedraria, que se distribuíram um pouco por todo o país. Logo, não é de estranhar a movimentação de passageiros da mais variada origem, de um número elevado de afundamentos de embarcações e do aparecimento de afogados no Rio da Ponte, na Estrada da Veiga de Mira ou no lugar do Esteiro. Transcrevemos dois registos de óbitos de peregrinos que ilustram esta realidade: 10 de setembro de 1682 – (…) falesceo com todos os sacramentos António Pereira natural q disse ser de Santa Mª dabade termo de Barcelos, vindo de Samtiago esta enterrado no adro de S. Pº. (…). A.D.V.C., Registos de óbitos de Valença, Paróquia de Boivão, Cota 3.16.2.27, fls. 201-202. A descrição dos corpos e condições de descoberta normalmente são muito minuciosas para uma eventual identificação posterior. Para além dos traços biométricos, a indumentária, tecidos, sapatos e apliques acusavam a nacionalidade ou região de origem dos indivíduos.

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30 de outubro de 1756 – (…) falleçeo da vida prezente nesta freguesia em caza de Francisco Alvares, o novo, hum homem que vinha do Appostollo Santiago e quando chegou a caza do dito Francisco dice que era do Alentejo e quando me deu parte (…) para o ir confessar já o homem num falava (…) e como achey nelle sinais de Christam, como foy o Rozario da Sª e escapulário da Sª do Carmo o absolvi sub conditione (…).

Aurora Rego

No arrabalde de Valença, extramuros, fica localizada a paróquia de Cristelo Covo, onde se refugiaram as populações das freguesias vizinhas durante a Guerra da Restauração. Disso fez nota o pároco de Boivão ao registar vários óbitos de fregueses seus, aí sepultados, estando retirados nas barracas de Valença por rezão das guerras6. Mesmo após a assinatura do Armistício de 1668, a freguesia manteve-se fortemente militarizada, a ajuizar pelo número elevado de soldados. Os assistentes galegos em permanência acabarão por suprir as necessidades de mão de obra nas quintas a partir do momento que a mobilidade masculina desta freguesia readquire novo vigor para a Beira, Lisboa, Mafra, Serra da Estrela ou Brasil. No rio Minho continuava a azáfama de transporte fluvial, visível pelo elevado número de indivíduos desconhecidos, nacionais e galegos7 que foram sendo encontrados afogados nas passagens da Veiga da Mira, no porto do Areeyro, no lugar da Besqueyra, no porto da Fontaínha, no lugar do Casa do Cais. Múltiplos assentos paroquiais referem, sem mais explicações, a morte de forasteiros de proveniências distantes e que mantêm a freguesia no corredor dos fluxos de deslocações do Caminho da Costa. Transcreve-se a seguir um óbito de um peregrino de Santiago:


Aurora Rego

25 de agosto de 1701 – (…) se fez um officio (…) pela alma de Mathias Barbosa (…) natural da fregª de Infesta, concelho de Coura q vindo da cidade de Tui em hum barco desta fregª se afogou neste rio Minho e de todos coantos no barco vinhão e como aportou nos lemites desta fregª nela foi enterrado (…). Questionámo-nos, no entanto, quanto à omissão do contexto que envolve alguns óbitos, que pode ser atribuível a causas naturais, a circunstâncias de violência ou de árdua peregrinação: 25 de outubro de 1727 – (…) amanheceo Domingos Esteves natural e morador desta freguesia de Sam Pedro daTorre morto na estrada da Veiga da Mira com huma perna quebrada e hum brasso e por senam saver lhe nam administramos sacramentos (…). 17 de setembro de 1780 – (…) faleceo da vida prezente repentinamente em casa de João Rodz Rego hum homem que vinha de jornada por nome João Afonso viúvo da freguesia de Santa Maria de Amonde (…) e se lhe deu sepultura eclesiástica (…) por determinação do Rev.º Dr. Vigário Geral desta Comarca (…).

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VILA NOVA DE CERVEIRA, praça militar localizada entre Valença e Caminha, assegurava a continuidade da defesa do cordão transfronteiriço do rio Minho. A entrada de galegos apresentava-se muito significativa, a ajuizar pelo movimento oficial de passaportes externos a partir de 1829, o que parece indicar uma tradição secular na mobilidade da população transfronteiriça8. Neste concelho, analisámos as séries de Campos9, Reboreda10 e Lovelhe11, localizadas a norte do concelho, de Vila Nova de Cerveira12 ao centro, e a sul, de Gondarém13. Apesar do levantamento efetuado, não encontrámos qualquer registo de óbito explícito a peregrinos de Santiago de Compostela nas paróquias analisadas. Esta circunstância poderá estar relacionada com a elaboração de registos muito sucintos por parte dos párocos, lacuna passível de ser colmatada com informações indiretas decorrentes da documentação. Em Campos, enquanto durou a desordem política em consequência da Restauração, verificámos que, como seria de esperar, a população masculina local não migrou, mantendose na sua terra. Entretanto, muitas mortes por afogamento foram registadas na ribeira de Campos - Furna, Carvalha, Pontedeira ou Areeyro -, algumas resultantes de confrontos com o inimigo. A partir de 1710, os homens de Campos iniciaram as suas migrações pendulares em direção às grandes cidades e para o trabalho de pedraria nas obras nacionais, bem como para as regiões do Alentejo, Beira ou Castela. Na ausência de livros de assentos paroquiais entre 1673 e 1710, período em que as peregrinações adquiriram um novo vigor, estendemos a observação até 1820. Retivemos os seguintes assentos: 10 de outubro de 1747 - (…) Foi Deos servido levar da vida prezente (…) em caza de António Fernandes Sanches desta mesma freguesia a João da Monteira galego que disse ser das partes de Santiago e lhe fizeram os sacerdotes da freguesia hum oficio pelo amor de Deos (…). A.M.V.N.C., Livros de registos de passaportes internos de Vila Nova de Cerveira, (Cotas 1.21.1.1, 1.21.1.2). A.D.V.C., Registos de óbitos de Vila Nova de Cerveira, Paróquia de Campos (Cotas 3.21.2.1, 3.21.2.2, 3.21.2.4 e 3.21.2.9, entre 1626-1820). A.D.V.C., Registos de óbitos de Vila Nova de Cerveira, Paróquia de Reboreda (Cotas 3.21.4.31, 3.21.4.32 e 3.21.4.33, entre 1645-1731). 11 A.D.V.C., Registos de óbitos de Vila Nova de Cerveira, Paróquia de Lovelhe (Cotas 3.21.4.14, 3.21.4.15, 3.21.4.16 e 3.3.4.36, entre 1659-1820). 12 A.D.V.C., Registos de óbitos de Vila Nova de Cerveira, Paróquia de V. N. Cerveira (Cotas 3.21.5.29, 3.21.6.12, 3.21.6.13, 3.21.6.14 e 3.21.6.15, entre 1615-1803). 13 A.D.V.C., Registos de óbitos de Vila Nova de Cerveira, Paróquia de Gondarém (Cotas 3.21.4.5 e 3.21.4.6, entre 1647-1812). 8 9

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Aurora Rego

19 de junho de 1819 – (…) Liberata Patricia vezinha de Borcisdella [?] em Galiza morreu desgraçadamente as maos dos goardas da mesma nação com tiro de balla vindo já quasi abordar aPortugal (…) e no dia seguinte foi sepultada no adro desta Igreja (…). Na freguesia de Reboreda, encontrámos a mesma instabilidade política que irá reinar até ao final da assinatura do Armistício de 1668. Indivíduos afogados apareceram na área defronte a Linhares. Os homens válidos retomaram a sua diáspora relativa às artes da pedraria ou às zonas vinhateiras do Douro, ficando as mulheres e famílias entregues a si próprias14, ocasionando sérias fragilidades económicas nos agregados familiares, sendo que o pároco, em 1707, relata à morte de uma paroquiana pobre, que não tem em que se sustente e filhos senão de esmolas e jornais que ganha travalhando nas fazendas alheas. De entre os forasteiros falecidos, transcrevemos do óbito de uma mulher natural de Braga:

Lovelhe perspetivava-se então como uma freguesia de dimensão reduzida, localizada no arrabalde da sede concelhia, onde a fixação de militares era significativa. As comunicações fluviais do rio Minho mantinham-se aqui e alguns afogamentos tiveram lugar nas suas margens no areal da Leira Longa, da Barca ou do porto de Linhares. O trânsito de indivíduos, quer do Norte quer do Sul, era assinalável, bem como os óbitos de naturais verificados em Lisboa, Lamego, Vila Real ou área de cima do Douro. Face à natural falta de mão de obra decorrente das migrações masculinas, é frequente a fixação de famílias e criados/jornaleiros galegos. Como nas freguesias anteriores, retivemos somente um óbito que, à falta de mais informação do redator paroquial, se pode enquadrar no movimento de peregrinação: 3 de junho de 1747 – (…) hindo em hum Barco de Portugal para o Reino de Galiza se afogou neste Rio Minho Joanna solteira filha legitima de Joam Dias e de Antónia Francisca defunta do Lugar da Lavada (…) desta freguesia de Santa Maria de Lobelhe (…). A sede concelhia de Vila Nova de Cerveira apresentava já uma feição urbana e uma economia mais diversificada. Desde 1430, existia um hospital que, em 1674, se encontrava muito pobre e falecido das cousas necessárias aos Peregrinos e peçoas que nelle ajam de receber recolhimento e agasalho. Por esta razão, foi formalizada uma petição de doação a D. Afonso V, em 21 de fevereiro daquele ano. Foi o referido hospital anexado aquando da instituição da Santa Casa da Misericórdia quinhentista. Em 1627, o Provedor dava conta de desvarios financeiros que convertem em seus usos as esmolas dos pobres em prejuízo dos necessitados, e peregrinos que passão a São Tiago (Guerreiro, 2008, 13-21).

14 O desequilíbrio entre sexos ao óbito torna-se evidente, uma vez que a maioria dos migrantes não regressava mais, seja por acidente no trabalho, seja por doença ou desamparo nas viagens ao longo dos caminhos. Esta circunstância aplica-se a toda a região do Alto Minho onde a densidade demográfica era demasiado elevado para os recursos existentes, situação que, entre outras, foi ocasionada pela introdução precoce do milho no século XV, e pela existência de uma malha apertada de rios, riachos e regatos de água potável que proporcionaram uma maior qualidade de vida e uma maior sobrevivência das populações.

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9 de fevereiro de 1717 – (…) se sepultou nesta Igreja (…) Urçula Francisca mulher de Manoel Francisco naturais da Cidade de Braga na freguesia de Sam Vitor faleceo de morte repentina eassim como chegou a esta freguesia me deram parte que lhe administrasse o sacramento (…).


Aurora Rego

Na década de 1630, é frequente o óbito de pobres mendicantes. Após 1670, assinalam-se vários óbitos de ermitões de Nª. Sª. Da Encarnação e do Espírito Santo, bem como a morte de Frei Teotónio, religioso de São Bento. As migrações masculinas reiniciaram-se para os mais diversos cantos do reino. Como exemplo dos inúmeros óbitos de forasteiros detetados em Vila Nova de Cerveira (que poderiam relacionar-se com o Caminho de Santiago), apontamos o seguinte de um indivíduo natural de Beja: 11 de junho de 1761 – (…) Antonio filho de Miguel de Moyo morador na cidade de Beja faleçeo da vida prezente (…) com todos os sacramentos excetto o da extrema-unção em casa de Antonio Alves Lages (…) não fez testamento por não ter de quê, e se lhe fez um officio de esmolla (…).

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Em Gondarém, na Quinta do Outeiral, numa porta da propriedade que pertencera ao cónego da Sé de Braga, D. Crisóstomo Guerreiro de Amorim, pode ler-se a inscrição Caza dobridação para passageiros e mandigos que n’ela quizer dormir”, datada de 1592 (Guerreiro, 2008, 13-21), remetendo-nos para a caridade e proteção dos peregrinos. Terra de intensa mobilidade masculina, com afamados profissionais das artes da pedraria, o local ao óbito cobria todo o território do reino, expandindo-se para o Brasil e África. Eventualmente relacionados com os caminhos de peregrinação, escolhemos dois assentos, um óbito ocorrido no Mosteiro de Oia e outro de um indivíduo que se perdeu no monte: 18 de agosto de 1694 – (…) se falleçeo Domingos Lourenço, sapateyro, de repentte no Reyno de Galiza, dizem foy enterrado no Mosteiro doya, em fé de q meassigno, era ut supra, Maciel. 20 de dezembro de 1800 – (…) apareceu nesta freguesia de Gondarem no Pinheiral dos Coques hum homem chamado Francisco da Pedra do lugar da Cumieyra freguesia do Rozal Reino da Galiza morto, mas com sinais de Christão, e hum rapaz com elle vindo dos ganhos de Castella, e perdendo-se no Caminho ali deu alma a Deos sem Sacramentos por se não saber dormindo aquella noite no dito pinheiral se constipou, e apareceu morto (…). Em CAMINHA, mercê da sua localização privilegiada na desembocadura dos rios Minho e Coura, e beneficiando também da costa atlântica, floresceu um porto comercial e mercantil de importância assinalável. A sua população era constituída por todas os grupos sociais e ocupacionais, destacando-se nela mercadores, marinhagem e pescadores de mar e de rio.

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Caminha

In B.P.N. Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Cota ea-326-a.

- despendi com hum pobre pelegrim, ao passar em hum barco pª Vila Nova 40r. - despendi com hum pobre doente que hia à romaria de Sº Tiago, do barco que a levou a Vila Nova 100r. - Despendi com outro pobre doente que veio de Viana e hia pª a dita romaria, do barco que aluguei pª o levar a Vila Nova 100r. Procurámos igualmente nos livros de registos paroquiais do concelho de Caminha assentos de óbito nas freguesias de Caminha16, Moledo17, Argela18 e Vila Praia de Âncora19. Em Caminha, foram detetados os seguintes assentos de óbito de peregrinos: 22 de maio de 1638 – (…) faleceo no ospital desta Villa, vindo de São Tiago, João Alvares do Azambujal, termo da villa de Alvaiazere, com todos os sacramentos e se enterrou na Igreja Matriz (…). 7 de fevereiro de 1680 – (…) se achou morto na ponta do Camarido desta villa um frade fransses q hia pª São Tiago e per seus papéis q lhe acharão era da Orde do Carmo calçado e se chamava frei Pº Carafa, enterrousse na Cappella Mor da Igrª Matrix com os confrades da Confrª do Spiritto Sancto (…).

A.D.V.C., Fundo da Misericórdia de Caminha, Livro de Receita e Despesa, Cota 7.35.2.21, fl. 80. O ano económico inicia-se em Julho e termina em Junho do ano seguinte. A.D.V.C., Registos paroquiais de Caminha, Paróquia de Caminha (Cotas 3.4.5.5,3.4.5.8, 3.4.5.31 a 36, entre 1613-1800). 17 A.D.V.C., Registos paroquiais de Caminha, Paróquia de Moledo (Cotas 3.5.2.14 a 17, entre 1582-1802). 18 A.D.V.C., Registos paroquiais de Caminha, Paróquia de Argela (Cotas 3.4.4.24 a 25 e 3.4.4.33, entre 1624-1811). 19 A.D.V.C., Registos paroquiais de Caminha, Paróquia de Vila Praia de Âncora (Cotas 3.5.1.19 e 3.5.1.35 a 36, entre 1623-1791). 15

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

A norte da sede concelhia, situa-se a freguesia de Seixas onde um número assinalável de indivíduos se dedicava aos serviços de barcagem entre as margens do rio Coura, passagem obrigatória no caminho das praças militares e essencial na peregrinação, por via terrestre, para Santiago de Compostela. Nesta freguesia, a Confraria de São Bento proporcionaria serviços de apoio a romeiros e peregrinos. Na sede concelhia, ergue-se a Santa Casa da Misericórdia, fundada em 1516, e que, posteriormente, anexou o hospital de pobres e peregrinos existente pelo menos desde 1457, junto à porta de Viana (Paiva, 2002, 60 e 116). Percorrendo os seus Livros de Receita e Despesa, inúmeras alusões foram encontradas ao provimento dos peregrinos, como no ano económico de 2 de julho de 1751 a 1 de julho de 175215:


Aurora Rego

1 de agosto de 1772 – (…) se faleçeo Luis Glz morador na fregª da igª Matrix de Vianna, chegando aesta villa vindo de Romaria do apostollo São Tiago de Galiza, enterrousse no convento de Stº Antº desta (…). Na freguesia de Moledo está implantada a capela de Santo Isidoro, local comprovado de pernoita e de abrigo de peregrinos no Caminho da Costa. A ermida, de eventual construção românica, encontra-se localizada na orla costeira e a cerca de 2-3 km dos dois aglomerados populacionais mais próximos. Nesta paróquia, foi detetado o óbito de um peregrino de Santiago: 8 de junho de 1681 – (…) faleceo nesta freguezia Guilherme Romeiro q disse vir de Santiago de Galiza, q teria de idade pouco mais de 20 annos (…) e dizia ser natural de Saboya, seu corpo esta sepultado no adro desta Igrª com outros q aqui falecerão debaixo de hua campa q tem hu letereyro (…).

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No interior do concelho de Caminha, na freguesia de Argela, foi encontrado outro óbito, mas com características diferentes. Trata-se de uma romeira, natural da mesma, que acabou por falecer em Santiago. A intensa devoção a Santiago na freguesia de Argela é reforçada pelo número significativo de crianças batizadas com o nome do apóstolo Santiago entre 1658 e 1687: 24 de julho de 1638 – (…) chegou noticia certa que no sabado (…) vespora de Santiago deste presente anno na mesma Cidade de Santiago se falleceo Maria Rodz molher de João Glz do Viso (…). Vila Praia de Âncora, comunidade que se localizava junto à encosta da serra e a cerca de 2km do litoral, caracterizou-se, durante séculos, por possuir um afamado grupo socioprofissional de canteiros e pedreiros que se deslocava amplamente em território ibérico na construção militar, religiosa e civil. A não utilização do mar e do rio como fonte de recursos económicos (a não ser a partir do segundo quartel de Oitocentos com a fixação de uma comunidade de pescadores galegos que aí desenvolveu a pesca (Rego, 245-258)) evitou afogamentos de naturais, à exceção de alguns corpos arrojados por embarcações que passavam ao largo. Nesta paróquia, foram encontrados mais dois óbitos de peregrinos: 20 de julho de 1745 – (…) foi achado morto na estrada que vem de Caminha, junto a Santo Isidoro João Chrisóstomo de nassão germânica, como constou dos seus papeys de guia, o qual se vinha recolhendo da Semana do Apostolo Sanctiago, onde se confessou e comungou como peregrino, como também constou da certificação que trazia mandada passar pelo Doutor Manuel Antonio Rossa e Soto Conego de Compostela e fabriqueiro (…) e alem disso trazia ao pescoço hum rozario cujos sinais mostrarão ser Católico (…). 31 de julho de 1790 – (…) faleceo nesta freguezia Domingos Antunes, natural de Montemor o Novo o qual hia de romaria para Santiago, recebeu o sagrado viatico e depois ainda o conduzindo para o hospital de Caminha, falesceo no caminho (…).

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In B.P.N. Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Cota ea-326-a.

Constituindo-se como um grande nó de interseção de vias, a presença e passagem de populações galegas, passageiros, peregrinos e mendicantes de toda a casta, encontra-se bem comprovada na documentação paroquial e patrimonial, a começar pela instituição do Hospital Velho em 1468, por João Pais, o Velho. A informação extraída dos Livros de Despesa e Receita da Santa Casa da Misericórdia revela que, desde o ano de 152322, eram recorrentes as despesas com os peregrinos. Do seu vasto acervo, retirámos algumas referências a romeiros pobres que, ora se dirigiam ao Santuário de Santiago de Compostela, ora dele regressavam:

A.D.B., Inquérito Paroquial de 1775, cota 732. 21 A paróquia de Santa Maria de Âncora pertenceu à comarca de Viana do Castelo até à Reforma Administrativa Liberal de 1836, transitando, após esta data, para o concelho de Caminha. 22 A.D.V.C.T., Misericórdia de Viana do Castelo, Livros de Receita e Despesa, de 1523 a 1539. 20

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Viana do Castelo

Aurora Rego

O intenso trânsito de gentes ao longo do Caminho da Costa ficou bem explícito no Inquérito Paroquial de 177520, no qual os párocos vizinhos de Âncora21 e de Afife, respetivamente, se queixaram dos gastos associados à passagem de pessoas a quem deviam proporcionar pousada, incluindo peregrinos de Santiago de Compostela: Gasto com os hospedes graves, oficiais de guerra, soldados, Religiosos, Prelados das Religiões, e outros passageiros que pedem pouzada, pois a estrada Real que vai de todas as praças do Minho para a villa de Viana, cidade do Porto, Coimbra, Lisboa, e outras terras e dellas para esta Província, e Romaria de S. Tiago de Galiza passa por esta freguezia com frequência de passageiros e peregrinos, por cada anno um por outro 9$600 rs. Gasto com frades mendicantes, oficiais de militar, vários hospedes, Ministros, que frequentam a estrada, que corre junto da residencia da vila de Viana para as praças, conventos por junto ao Minho pouco mais ou menos 16$000 rs. Com os peregrinos que passam a visitas ao santuario de S. Tiago, e pobres que andam mendigando e no dia de fieis defuntos, e no dia do Orago com os pobres da freguezia e de fora dela pouco mais ou menos 1$200 réis.” VIANA DO CASTELO, centro de urbano com duas paróquias de grande dimensão – Monserrate e Santa Maria Maior – é reconhecido pela sua importância nos mares das Descobertas, da expansão marítima e do seu intenso comércio transatlântico e fluvial, rio Lima acima. Aqui se cruzavam nobres, navegadores, mercadores, homens de negócios, militares, pescadores, entre vários grupos ocupacionais. Devido à próspera atividade marítima, os naufrágios individuais ou coletivos apresentavam um carácter permanente, bem como o frequente ataque da pirataria e do corso no mar ou na costa.


Aurora Rego

Setembro de 1524 – se deu a hua molher q vynha de Santyago 20rs – se seu no dtº dya a hua molher q hya pª Santyago – aos 24 de Setembro se deu a hum prove q hya pª Sãtyago 10 de outubro de 1524 – se deu a Isabell Aº e a Dº Myz naturais de Llisboa q vynhã de Santyago Fevereiro de 1527 – derom deesmolla a dous romeiros q hyam pª Sãtyago 6 de julho de 1535 – se deram desmolla ao Yrmytam de Nossa Snrª no dtº dya pª ir a Santiaguo 140rs – se deu a hum crerigo q vynha doente de Santiaguo 100 rs – se deu desmolla a freyra de Santyaguo 80 rs

Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

Dada a dimensão dos núcleos urbanos de Viana do Castelo, optámos por apresentar uma lista de peregrinos vianenses que se albergaram no Hospital de Vigo, entre 1724-1737 (Moreira, 1993, 31-33), cidade aonde confluíam vários itinerários de peregrinação, entre os quais o Caminho da Costa. Na Tabela seguinte, é possível observar que os meses mais escolhidos para a peregrinação se concentravam em março, maio e junho, evitando-se assim o rigor das temperaturas, aliando os dias mais longos aos períodos menos exigentes de trabalhos agrícolas. Saliente-se ainda que existe uma média de cerca de dois peregrinos/ano, número que certamente não reflete a totalidade dos romeiros, uma vez que a grande maioria dos peregrinos não necessitaria de apoio assistencial.

Tabela 1 Entrada de peregrinos no Hospital del Espiritu Sancto y La Magdalena (1724-1737)

Ano

Mês

Dia

Nome

1728

junho

18

Mathias Lopes

1729

maio

17

Sebastião Costa

1729

junho

9

Silbestre Gonzales

1731

janeiro

1

Bernardo Moreyra

1731

setembro

4

Micaela Moreyra

1732

agosto

12

Gil Fernandes

1733

fevereiro

2

Pedro Gonzales

1733

março

18

Joseph Alvares

1733

maio

8

Domingas Alvares

1734

julho

24

Manuel Teijeira

1734

outubro

7

Francisco da Silva

1735

março

24

Lucas Peres

1735

dezembro

9

António Andrade

1736

janeiro

16

João de Miranda

In Moreira, 1993, 31-34

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A sul de Viana do Castelo, encontramos a freguesia de Darque, na travessia do caudaloso rio Lima. Segundo os assentos consultados, a população masculina dedicava-se maioritariamente à atividade marítima de longa distância, com óbitos relativos a naufrágios, em cativeiro e em paragens distantes – Índia, Brasil (Baía, Pernambuco, Rio de Janeiro, Maranhão). Associados aos serviços de passagem no rio Lima, encontrámos referências a barqueiros, carreteiros, canastreiros, almocreves, estalajadeiros. Na toponímia local, destacam-se o lugar do Cais, o Cais Novo, o Cais de São Lourenço. Apesar de sucinto, o seguinte assento sugere a passagem para Norte (embora sem definição do destino) de um eventual peregrino: 28 de agosto de 1700 – (…) foy Deos servido levar pª ssi a Joseph Simoens da fregª de Maçans do Bispado de Coimbra morreo com os sacramentos (…)neste lugar em caza de Maria Barboza estalajadeyra (…). Procurámos informação nos registos paroquiais de São Romão de Neiva, freguesia onde se encontrava implantado o mosteiro benedito. Porém, de igual forma, os párocos redigiram de forma muito concisa e negligenciando dados adicionais. Centrámo-nos somente no assento seguinte: 7 de fevereiro de 1805 – (…) chegou a esta freguesia Manuel José e sua mulher Olalia Micaela q disserão ser da Villa de Monçaraz (…) e me pedio lhe enterrasse hum filho seo chamado João, o qual disseram lhe nascera na villa de Barcellos (…). 23 A.D.V.C., Registos paroquiais de Viana do Castelo, Paróquia de Afife (Cotas 3.18.2.22, 3.18.2.23, 3.18.2.25 a 3.18.2.27, 3.18.2.34, entre 1584-1829). 24 A.D.V.C., Registos paroquiais de Viana do Castelo, Paróquia de Darque (Cotas 3.19.1.3 a 3.19.1.5; 3.19.1.17 e 3.19.1.18, entre 1596-1782). 25 A.D.V.C., Registos paroquiais de Viana do Castelo, Paróquia de Neiva (Cotas 3.19.6.27 a 3.19.6.29; 3.19.6.36, entre 1600-1800).

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2 de setembro de 1728 – (…) chegou notícia que fallecera desta vida prezente na Cidade de Tuy, na volta de Santhiago, Manuel Rodrigues de Agruchouzo, e se fez o primeyro officio na forma do costume (…). 4 de novembro de 1764 – (…) Manuel joseph, solteyro, filho legitimo de Antonio Alvares da Poça, e Domingas Rodrigues (…) chegou noticia certa de que fallecera afogado no rio do Minho, vindo no barco da vila da Guarda para a de Caminha (…).

Aurora Rego

Percorremos ainda as séries paroquiais de Afife23, Darque24 e São Romão de Neiva25. Na freguesia de Afife, a norte do concelho de Viana do Castelo, encontrava-se o convento de São João de Cabanas que pertencia à rede assistencial beneditina e que proporcionava apoio aos peregrinos. A população masculina da freguesia dedicava-se “aos ganhos” da pedraria, tendo sido encontrados pelo menos 207 e 83 óbitos no Alentejo e em Castela, respetivamente, os maiores destinos de trabalho. A morte por naufrágio era exterior à comunidade, a não ser aquela provocada pela tradicional apanha do sargaço. A incorporação desta área geográfica no trajeto do Caminho da Costa reafirma-se pelo óbito, entre outros, de um passageiro que morreo na estrada que vay desta freguesia para Vianna, chamada entre ambas as Villas, junto ao campo de Lourenço Rodrigues da ponte d’affife, ou de um galego que vinha de Sevilha e se dirigia à sua terra de Stª Christina de Cobres, perto de Pontevedra. Para além da referência à ponte de Afife/ponte de Loureiro, também existiam barqueiros em Afife. Selecionámos as seguintes notícias de óbito:


Aurora Rego

Dada a origem distante deste casal, procurámos nos assentos da vila de Barcelos o registo de batismo da criança. Bastante mais elucidativo e rico em pormenores (o que comprova a arbitrariedade aquando da redação paroquial), o mesmo informa que os pais se deslocavam em peregrinação a Santiago: 21 de janeiro de 1805 – (…) João Luís, filho de Manuel José de Virtudes e de sua mulher Eulália Micaela, naturais de….. neto paterno de …., neto materno de…, baptizado aos… pelo paroco…. forão padrinhos … e para constar fiz este assento porque nasceo nesta Villa indo seos pays de preregrinação a Sam Tiago26.

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ESPOSENDE apresenta-se, segundo as fontes27, como um concelho de particular vocação marítima e mercantil desde os priADVCT, Livro de Registos de Óbitos. mórdios do lançamento dos assentos paroquiais. O local ao óbito - em cativeiro, naufrágio ou acidentes associados - é revelador de uma pujante economia transatlântica que dos grandes portos nacionais se diversificava para a Índia, Brasil, Ilhas, Galiza, Astúrias, França, Inglaterra, ou para as “partes do Norte”. Assinalem-se as tragédias marítimas ocorridas nos cavallos desta Villa, ou os produtos transacionados, como o sal, cal ou açúcar. Apesar da informação detalhada relativa ao mar, não foi detetado algum óbito diretamente relacionado com a peregrinação, embora alguns (certamente por omissão à sua redação) possam enquadrar-se neste contexto. É o caso de muitos pobres tratados e sepultados pela Misericórdia local. Em Fão28, a realidade socioprofissional apresenta-se em tudo semelhante à que foi perspetivada em Esposende. Contudo, de igual modo, os párocos concentraram-se no lançamento dos óbitos dos seus paroquianos e respetivo enquadramento familiar, com referências pontuais a forasteiros. Encontrámos apenas um óbito relacionado com a peregrinação a Santiago: 8 de maio de 1751 – (…) Catharina Guilhezes [?] Castelhana casada com Anho [?] Gomes da villa de Alvegre [?] bispado de Almeria, Reino de Granada, molher peregrina pera Samtiago de Galiza chegando a esta freguezia gravemente inferma e recolhendosse nas Casas do Hospital da Santa Caza da Misª e nelle com todos os sacramentos falesceo (…).

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A.D.B, Registos Paroquiais de Barcelos, Paróquia de Barcelos, Cota B-166, fls. 43v e 44. A.D.B, Registos Paroquiais de Esposende, Paróquia de Esposende (Cotas 8-77 a B-80, entre 1642-1738). A.D.B, Registos Paroquiais de Esposende, Paróquia de Fão (Cotas B-77 a B-80, entre 1601-1805).

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Aurora Rego

Fonte Boa29, freguesia do mesmo concelho de Esposende, embora mais interiorizada territorialmente, acusou atividades ligadas ao mar e ao rio, com vários afogamentos nas suas águas. A mobilidade masculina, ao que tudo indica, é reduzida, com poucos óbitos fora dos seus limites geográficos. No entanto, constituiu, sem dúvida, corredor de passagem de forasteiros nacionais e galegos, dado o significativo número de óbitos aí encontrados, e ainda pela presença de vendeiros e de vendas que certamente serviriam de ponto de apoio a passageiros. Destacamos o assento de óbito de uma mulher que vinha do sul e cujo pai tinha anteriormente falecido em Barcelos. Embora sem mais indicações, este óbito pode estar relacionado com os caminhos de peregrinação: 30 de outubro de 1804 – (…) Maria solteira da freguezia de Faro, morreo com todos os sacramentos (…) e consta q seu pay se chamava Antº e que hera falecido no Hospital de Barcellos (…).

17 de julho de 1740 – (…) no Poço do Lago, andando a nadar por estar hum dia muito callido, se afogou Joseph Repeto da Sylva, natural de Castella, assistente em Lisboa, q hia pª a villa de Vianna em companhia de Joseph Manoel carreteiro e de Manoel de Vivaz, e de Manoel Cavanãs, todos Hespanhóis que seria pelo meyo dia (…). 7 de setembro de 1746 – (…) se afogou Dom Antonio de Santa Ursella, que tinha sido frade Cruzio vindo de Caminha pª a cidade do Porto se achou afogado do meyo dia para a hua da tarde o quanto do muro do Lago de tras da Capella, e se enterrou (…) com toda a Sollemnidade (…). 27 de novembro de 1785 – (…) José Martins Espada Capitão Bergantim da cidade do Porto falesceo ma estalagem da Barca do Lago hindo de passagem (…).

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A.D.B, Registos Paroquiais de Esposende, Paróquia de Fonte Boa (Cotas B-202 a B-206, entre 1581-1810). A.D.B, Registos Paroquiais de Esposende, Paróquia de Gemeses (Cotas B-267 a 270, e 281, entre 1562-1802).

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Interessa ainda destacar que, seja em Fonte Boa, seja na freguesia de Gemeses30, muitos paroquianos faziam parte da Confraria de Nª. Sª. do Lago, sendo também os féretros de pobres mendicantes acompanhados pela Irmandade. Nesta última comunidade, realçamos a existência de vendeiros desde 1625, profissão que se vai reproduzir por gerações até, pelo menos, finais do século XVIII. A presença de moleiros, barqueiros, calafates, sapateiros, tamanqueiros, alfaiates, ferreiros, ferradores, soldados, entre outros, constituem ocupações transversais aos dois séculos, o que parece indicar a prestação de serviços não só à comunidade local, mas também a passageiros, tendo em conta o seu significativo número. Ao que tudo aponta, a migração de indivíduos naturais é despicienda, indiciando que a falta de trabalho não se afigurava tão elevada como nas demais freguesias analisadas. Este facto deve ficar a deverse à localização estratégica desta freguesia como território de passagem e da existência de uma economia local que gravitava à sua volta. Transcrevemos três assentos de óbito que, embora não indiquem claramente o destino da viagem, poderão estar associados aos percursos em estudo:


Aurora Rego

No concelho da PÓVOA DE VARZIM analisámos os registos paroquiais de Estela31, de Amorim32 e de Rates33. A primeira paróquia – Estela - se bem que inserida na Estrada, apresentava-se à época, segundo as fontes que consultámos, muita minguada de população. Apresenta número reduzido de óbitos de fregueses, número reduzido de indivíduos falecidos no exterior da freguesia, número reduzido de ocupações (barqueiro, alfaiate, lavrador, soldado), se bem que a toponímia pareça refletir uma área geográfica considerável – Carregosa, Zimbello, Barros, Contris, Pedra, Pedrinha, Cruzeiro, Eirado, Outeiro, Monte, Igreja, Moinho, Estrada ou Loureiro. Selecionámos dois registos de óbito que, mercê da omissão do pároco, se podem associar aos caminhos se Santiago:

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22 de maio de 1687 – (…) falleceo nesta freguesia Adam Fernandes abintestado e disse ser natural da fregª de Sam Mamede deRial de Cornado do termo e bispado do Porto (…) hia de passagem e esteve de cama quatro dias (…). 12 de abril de 1748 – (…) faleçeo desta freguesia de Sancta Maria de Estella com todos os sacramentos, hum pobre que trazia Carta de Guia, pelas Mizericórdias, que disse se chamava Jeronimo, vº de Domingas Luzia da fregª de Sancta Maria de Lampaya [?] mea legoa de Santiago de Galiza pera qua e que vinha das partes de Lisboa e que hia caminhante com a dita Carta de Guia (…). Na freguesia de Amorim, de invocação ao Apóstolo, muitos indivíduos possuíam Santiago como nome próprio ou apelido. As migrações masculinas dirigiram-se, sobretudo, para as regiões do Alentejo e de Lisboa, se bem que com níveis modestos. Torna-se visível um número assinalável de pobres e mendicantes, principalmente galegos, que aqui se vinham recolher, acabando por falecer em casas particulares ou palheiros, cedidos para pernoita. Existiam igualmente estalagens para passageiros. Seguem-se alguns assentos que poderão estar relacionados com a peregrinação compostelana, mas que também confirmam a freguesia de Amorim como ponto de passagem no corredor dos fluxos de deslocação territorial: 12 de outubro de 1712 – (…) faleçeo Maria, menor filha de Gaspar de Brito e de sua molher Guiomar Fernandes peregrinos que assistirão nesta freguesia de Santiago de Amorim e foi sepultada no adro (…). 3 de agosto de 1739 – (…) faleceo em o lugar de Cadille desta fregª (…) hum mosso que era passageiro e teria de idade pouco mais ou menos 20 annos, e dizião chamarce Miguel e ser das partes de Valença, porem ninguem o certificava (…). 22 de março de 1743 – (…) António Loureiro pobre mendicante que deziam outros pobres ser casado e natural da fregª de Sam Jorge Bispado de Tuy e Reino de Galiza falecera em casa de Domingas Gonçalves viúva do lugar de Mourille (…). 31 de dezembro de 1750 – (…) José de Rés que deziam ser (…) da freguesia de Sam Marinho de Lourinho do Campo, Bispado de Ourense (…) pobre mendicante, faleceo em caza de João Pedro no lugar de Carvalheiro (…).

A.D.P., Registos Paroquiais de Póvoa de Varzim, Paróquia de Estela (Cotas E/26/1/2-5.4 e E/26/1/2-7.1, entre 1651-1778). A.D.P., Registos Paroquiais de Póvoa de Varzim, Paróquia de Amorim (Cotas E/21/7/6-22.5, E/26/1/1-1.2, E/21/7/6-22.1 e E/26/1/1-1.3, entre 1657-1772). 33 A.D.P., Registos Paroquiais de Póvoa de Varzim, da Paróquia de Rates (Cotas E/26/1/5-18.4, E/26/1/5-19.3 e E/26/1/5-20.3, entre 1623-1771). 31

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Aurora Rego

A paróquia de São Pedro de Rates é incontornável nos Caminhos da História de Santiago de Compostela, pelo que procedemos à verificação da sua documentação paroquial e respetiva informação qualitativa. Desde o início do século XVII, a freguesia ostenta um número significativo de ocupações - mosso das mullas, ferrador, alfaiate, carpinteiro, vendeiro, arrieiro, mercador, marchante, tendeiro, cesteiro, broeira, tamanqueiro, moleira, alquilador de mullas, cardadeira, boticário, entre outras – que reflete uma realidade socioprofissional muita diversificada, como também a variedade das necessidades das populações locais e dos passageiros. A multiplicidade de topónimos transporta-nos para uma localidade vibrante de histórias e significados – Forca, Fontaínha, Queiroal, Guardais, Covinha, Padrão, Quingostas, Outeiro, Portão da Feira, Serra, Granja, Soalheira, Fonte do Mouro, Vergonha, Cabouquo, Pelourinho, Mosteiro, Praça, Rua Direita, Calvário. O número de estalagens é elevado (a maioria em nome dos proprietários), bem como de vendas como a Estalagem do Padrão ou a Venda da Fonte.

São Pedro de Rates

A migração masculina de residentes de Rates parece ter sido pouco significativa. Pelo contrário, a presença de assistentes, criados e escravos, parece indicar a fixação de indivíduos do exterior da freguesia e uma evidente necessidade de mão de obra. Igualmente o óbito de passageiros e homens de caminhos informa-nos da importância fundamental deste território nos fluxos de deslocação das gentes minhotas e galegas, tendo sido encontrados casos de indivíduos de Caminha, Afife, Paredes de Coura, Viana do Castelo, Meadela e inúmeros galegos, para além do grande destino religioso jacobeu: 20 de novembro de 1684 – (…) se faleceo na estalagem de João Francisco da Fonte hum moço galego natural do Rozal que não deu nome por não poder falar e quando lhe perguntarão per elle (…) disse vinha da Cidade de Cevilla não trazia certificado nenhum consigo (…). 18 de janeiro de 1686 – (…) apresentou João Gonçalves hua certidão em como era falecido António Lopes (…) a qual certidão dezia que elle fallecera no mês de Agosto de 1685 na villa de Canha e foy passada pelo Pde. Manuel Dias professo do hábito de Samtiago (…). 28 de outubro de 1714 – (…) chegou aqui hum homem que disse ser de junto a Caminha do Minho e me pedio lhe desse sepultura a hum moço filho seu que trazia morto em hum carro e com outros que vinhão com elle afirmou lhe falleceo no caminho vindo do Porto (…).

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In B.P.N. Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Cota ea-326-a.


Aurora Rego

21 de janeiro de 1725 – (…) se fez o bem d’alma por António Pereyra solteiro o qual disse sua may fallecera no mês de Dezembro do anno passado nas partes de Cima do Douro andando na estrada no offício de arrieyro (…). 28 de dezembro de 1730 – (…) faleceo, ou se achou morta hua molher na estalagem do Poço a qual vinha em companhia de outras pessoas da cidade do Porto em Romaria e deitandosse à noute valente, amanheceu morta, em companhia da gente que com ella vinha (…) chamavase Luzia Pereira da Sé Santa do Porto (…).

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No concelho de VILA DO CONDE, tivemos em conta a documentação paroquial de Azurara34, Vila Chã35 e Mindelo36. Dado o volume de informação a tratar para a sede concelhia, optámos, também neste caso, por referenciar dois peregrinos vila-condenses que se albergaram no Hospital del Espiriti Santo Y la Magdalena, em Vigo (Moreira, 1993, 31-33): Manoela de Ouvina hospedada em 6 de agosto de 1736 e Cristina Peres Mendes em 30 de agosto de 1737. Na época, Azurara assumia-se como uma comunidade marítima e mercantil de largos horizontes, a ajuizar pelo local dos numerosos óbitos detetados fora do âmbito da freguesia (perto de 370), desde os grandes portos nacionais até às principais cidades e regiões brasileiras, passando pelas colónias africanas, pelo Oriente (Índia, Ceilão), pela costa norte galega e francesa e pelo sul de Espanha. Toda esta atividade é visível na toponímia da época – Rua dos Navios, Rua da Praia, Rua do Porto, Junqueira -, ou nas alcunhas de indivíduos como Ana Francisca do Bacalhao. Esta diáspora sem retorno, associada também as vítimas de pirataria e corso, obrigou à fixação na comunidade de indivíduos exógenos ao meio, fundamentalmente da Galiza e da área de Braga, além de mão de obra escrava. Da nossa consulta, retivemos dois óbitos relacionados com a peregrinação compostelana: 13 de janeiro de 1708 – (…) se faleceo hum peregrino q dizia na sua Carta de Guia chamavasse Manoel Rodz e em outro papel que trazia Manoel Penha Lousa e que era catalao e soldado [?] em Catalunha e mostrava ter trinta anos (…). 19 de fevereiro de 1798 – (…) faleceo Domingos Francisco, pobre mendigo cazado com hua mulher que por hua carta de guia consta assistir na frgª de Alqueidão comarca de Aveiro não houve quem informasse o nome, de idade de sessenta anos, pouco mais ou menos (…). Na freguesia de Mindelo, apesar da vasta e propícia costa atlântica, a comunidade local parecia ser reduzida, assim como o óbito de naturais no exterior. Alguns indivíduos afogados em naufrágio (a maioria a trabalhar em lanchas da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde), alguns no Alentejo, Castela ou Lisboa. A presença de muitos pobres, de todas as idades, obrigava à ação da Irmandade do Subsino, que acompanhava os funerais. Não existem informações acerca de assistentes galegos ou de outras localidades, possivelmente por ausência de assentos pormenorizados por parte dos párocos. Transcrevemos apenas o óbito de dois pobres mendicantes cuja origem e destino se encontram omissos nos assentos: 2 de agosto de 1784 – (…) faleceo da vida prezente António Gonçalves da estrada pobre mendicante, tendo recebido todos os sacramentos e indulgência Papal do artigo da morte (…). 34 A.D.P., Registos Paroquiais de Vila do Conde, Paróquia de Azurara (Cotas E/27/6/6-21.1, E/27/6/6-21.2, E/27/6/4-16.2 e E/27/6/5-17.2, entre 1632-1801). 35 A.D.P., Registos Paroquiais de Vila do Conde, Paróquia de Vila Chã (Cotas E/27/10/1-4.1 e E/27/10/1-4.2, entre 1586-1761). 36 A.D.P., Registos Paroquiais de Vila do Conde, Paróquia de Mindelo (Cotas E/27/8/4-14.3, E/27/8/4-15.1, E/27/8/4-15.2 e E/9/5/3-107.1., entre 1648-1804).

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Segundo a documentação consultada37, a realidade da freguesia de Vila Chã não difere muito da sua vizinha de Mindelo. Fluxos de deslocação masculina aparentemente modestos, para os destinos habituais de Castela, Alentejo, Lisboa, Brasil e alguns afogamentos. Não foi encontrada alusão à fixação de indivíduos de fora, nem tão pouco de peregrinos, pobres mendicantes ou indivíduos indocumentados, eventualmente devido à pobreza de pormenores dos registos paroquiais. No sul do concelho de Vila do Conde, na paróquia de Aveleda, foi encontrado um registo de batismo de uma criança, filha de um casal de peregrinos que regressava de Santiago de Compostela38:

Aurora Rego

21 de dezembro de 1786 – (…) se achou morto hum pobre mendigo no palheiro de João Rodrigues do lugar da Igreja desta freguesia cujo nome se ignora (…).

20 de maio de 1688 – (…) eu Gabriel da Cunha de Sousa, vigário que sou desta igrª de Santa Mª de Aveleda baptizey e fui padrinho de Manuel fº de António de Abreu e de sua mulher Maria de Castro (…) eles naturais da fregª de Esgueira e nella moradores, termo de Aveyro, bispado de Coimbra vinhão de romagem de S. Tiago da Galiza de romaria (…).

1702 [s/d] – (…) Amaro João, cazado com Magdanella Gonçalves da aldeia de Angeiras desta freguesia morreo de repente de hu acidente vindo de hua Romaria, no caminho [?] e foi sepultado (…) no adro da Igrª de São Payo de Rorys (…).

A análise ficou, porém, prejudicada pela ausência de livros paroquiais de óbito posteriores a 1761. A.D.P., Registos Paroquiais de Vila do Conde, Paróquia de Aveleda, Cota E/12/2/3-10.5, p. 60. A.D.P., Registos Paroquiais de Matosinhos, Paróquia de Lavra (Cotas E/12/9/4-15.1, E/12/9/4-16, E/12/9/4-15.2 e E/12/9/4-17, entre 1653-1809). 40 A.D.P., Registos Paroquiais de Matosinhos, Paróquia de Santiago de Custóias (Cotas E/12/9/3-9.2, E/12/9/3-9.3, E/12/9/3-9.4 e E/12/9/310.1, entre 1633-1798). 41 A.D.P., Registos Paroquiais de Matosinhos, Paróquia de Leça do Balio (Cotas E/12/9/5-20.9, E/12/9/5-20.10, E/12/9/6-21.1 e E/12/9/6-21.2., entre 1623-1765). 37

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O concelho de MATOSINHOS, criado após a Revisão Administrativa Liberal, integrou territórios pertencentes ao termo da cidade do Porto, ao antigo Couto do Mosteiro de Leça do Balio da Ordem do Hospital e ao Julgado de Bouças. Debruçámo-nos sobre a documentação paroquial de Lavra39, Santiago de Custóias40 e de Leça do Balio41. A norte da sede concelhia, litoralmente localizada, está a freguesia da Lavra que regista um elevado número de residentes afogados no mar ou no rio, ou de marinhagem arrojada às praias. Os apelidos (ou alcunhas) Bacallho ou Bacalhoa aparecem com frequência, bem como o nome próprio/apelido Santiago. A toponímia é diversificada, destacando-se entre outros, os lugares de Angeiras, Antela, Pampellido, Cabenellas, Avellozo, Payso, Outeiro, Rapaburel ou Igreja. Apresentava-se muito elevado o número de pobres mendicantes que se recolhiam, por esmola, em casas particulares (a caminho do Norte ou de regresso para Sul), a quem era disponibilizada pernoita e que eram acompanhados à última morada pela confraria do SobSigno. As viagens a Santiago de Compostela também se efetuavam por via marítima, em particular, naqueles portos onde as transações comerciais com a Galiza eram frequentes. As lacunas redatoriais não nos permitiam concluir, em definitivo, se as deslocações visavam Santiago de Compostela. Contudo, dado o seu contexto, são hipóteses a considerar, como nos casos que a seguir se transcrevem:


Aurora Rego

4 de março de 1772 – (…) sahio na praya da Forcada Districto desta fregª (…) hum homem afogado estatura ordinaria, branco e redondo do rosto de idade de trinta annos pouco mais ou menos, cabelo corredio entrançado em três partes atadas com fita azul camizotes de cambraia, meias de laa pardas huns botoins de pechibeque nos braços (…). Declarou Pedro Antº Perez que era marinheiro da nau com a invocação da Senhora do Rozario do Reino de Castella que o defunto se chamava Som Izidoro de los Reys capitão de soldados (…). 29 de fevereiro de 1788 – (…) veio a noticia de morrer afogado entre as praias da Galiza e Bigo, Custodio solteiro de mayor idade, fº legº de Custodio Correia e Anna da Silva, do lugar de Antella desta fregª (…). 4 de julho de 1792 – (…) faleceo nesta freguesia Maria, fª de Cidro Rodrigues que disse vir de Sant-Yago de Galiza (…) foi sepultada no adro da Igreja (…).

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Ao que tudo indica, a freguesia de Santiago de Custóias, localizada junto à estrada, constituía um ponto importante de passagem de peregrinos e passageiros. A ela confluíam todo o tipo de pobres, mendicantes, forasteiros, procurando pernoita. Falecendo, eram acompanhados pelas Religiosas da Conceição, pela Irmandade de Leça e pelos meninos órfãos. Do tecido socioprofissional encontrado (criados, jornaleiros, escravos, calafates, militares, lavradores, moleiros, alfaiates, carpinteiros, pedreiros, por exemplo) e face à pouca mobilidade encontrada de residentes, a comunidade parece auferir de uma certa estabilidade económica à época, em ampla área geográfica, dividida em muitos lugares, tais como Gondevinho, Santa Cruz do Bispo, Espozade (de Cima, do Fundo) Torre, Outeiro, Linhar, Fonte, Forninho, Igreja, Cruz, Souto, Murinhos, Matalto. Para além dos indivíduos naturais da freguesia, foram, na sua grande maioria, os óbitos de pobres, peregrinos e mendicantes que ficaram plasmados nos assentos paroquiais: 9 de dezembro de 1699 – (…) em o lugar de Santiago junto a estrada que vay pera Villa de Conde foy achado hum pobre mendigo e antes da morte foi levado a caza de Manoel João do dito logar adonde expirou (…) poderia ter 45 annos pouco mais ou menos e se lhe acharão huns escriptos (…) era João Ribeiro do Bispado de Coimbra (…). 11de dezembro de 1753 – (…) chegou a porta de Domingos Antonio Ramalho da aldeã de Espozade do Fundo desta fregª hum pobre a pedir pouzada às onze horas pouco mais ou menos e mandoo assentar aporta para ir para o palheiro logo cahio morto de repente (…). 2 de novembro de 1770 – Joseph homem mendicante consta que dezia ser de Sima do Douro que teria de idade de sassenta anos morreo nesta freguesia (…) e foi sepultado dentro desta Igreja (…). O que dissemos relativamente a Santiago de Custóias aplica-se à paróquia de Leça do Balio – mobilidade masculina residual (o que indica a existência de um estável mercado de trabalho local), diversidade de ocupações (carpinteiros, sapateiros, escravos, sangradores, cirurgiões, moleiros, vendeiros merceeiros/as, por exemplo); variada toponímia a acusar uma vasta área geográfica associada (Aranha, Araújo, Giestal, Agrella, Santeiro, Recarei (de Baixo, de Cima), Outeiro, ponte de Moreira, Gondivai, Souto, Real, Ponte das Varas, Guimil, Ponte da Vedra, Azenha, Monte de Santana, Aguasantas, Agrela, Fafians); ponto de interseção de vias terrestres e de passagem do rio Leça, fator que propiciava a confluência de passageiros, caminhantes, peregrinos, mendicantes e até doentes que se deslocavam ao hospital do Porto a curar suas doenças. Abundavam as estalagens e as vendas, nomeadamente nos lugares do Araújo, do Padrão da Légua, da Ponte, junto ao Mosteiro de Leça e no Monte de Santana (entre outras, em nome de particulares), estrategicamente colocadas nos caminhos que bifurcavam para o Interior ou

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No concelho da MAIA procedemos ao levantamento de dados na sede concelhia42, em Moreira43 e em Vila Nova da Telha44, se bem que não tivéssemos encontrado as séries paroquiais digitalizadas na sua totalidade, o que empobreceu a análise45. Nas três localidades, encontrámos o mesmo padrão de comportamentos associado ao corredor de fluxos de deslocação em direção ao Norte de Portugal, em articulação com os concelhos de Vila do Conde e Viana do Castelo. Em Vila Nova da Telha, a presença de militares (alferes, sargentos, capitães) sugere a vigilância necessária das vias. Outras ocupações existiam – caseiros, mestres pedreiros e oficiais, serradores, carpinteiros, vendeiros – revelando uma economia mais interiorizada e menos ligada ao mar (à exceção da apanha do sargaço). A toponímia local com referência a apenas alguns lugares na época em causa (Vilar do Sr.º, Vila da Aldeia, Cambados, Lagiellas, Quires, Casal dos Telhados, Arrabalde) e o reduzido número de assentos paroquiais parece revelar uma freguesia pouco povoada. A presença de pobres, doentes (alguns em direção ao Hospital do Porto) e mendicantes mantém-se muito forte. Seguem-se alguns assentos, sobretudo reveladores da pobreza dos viandantes que, à falta de informações, desconhecemos se de peregrinos se tratavam:

A.D.P., Registos Paroquiais da Maia, Paróquia da Maia (Cota E/12/4/6-23, entre 1736-1795). A.D.P., Registos Paroquiais da Maia, Paróquia da Moreira (Cotas E/12/5/1-2.2, E/12/5/1-3.1 e E/12/5/2-5.2 entre 1608-1653 e 1780-1794). A.D.P., Registos Paroquiais da Maia, Paróquia de Vila Nova da Telha (Cotas E/12/5/5-18.2, E/12/5/5-18.3, E/12/5/5-19.1, entre 1586-1777). 45 Na paróquia de Moreira, a consulta só pode ser efetuada entre 1608 e 1653 e entre 1780 e 1794. Na Maia, entre 1736 e 1795 e em Vila Nova da Telha até 1777. 42 43

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26 de julho de 1620 – (…) faleceo hum peregrino a quem se não soube o nome (…) e se enterrou no adro do dito mostº de Leça pelo amor de Deos (…). 12 de novembro de 1711 – (…) faleceo hum mosso na estrada de Vianna que deziam ser de Ponte de Lima esta sepultado no adro desta Igª. (…). 26 de janeiro de 1715 – (…) falleceo abintestado hu passageiro em caza de Mª de Souza Migalhas de Araujo (…) e não se soube como se chamava e seria hum homem de meya idade (…) e hum rapaz que com elle vinha disse hera das partes da Senhora do Bom Despacho de hum lugar ou fregª que se chamava Parada de Gatim (…) e hera homem pobre (…). 22 de fevereiro de 1727 – (…) faleceu na estalage da Catadral hum homem q por cartas q se acharam se chamava Phascoal Alvs e por ellas dezia ser das partes de Monsão do Minho (…). 8 de maio de 1743 – (…) falleceo João de Almeyda Caminheyro em a Venda da Catosol desta fregª (…) e disse ser cazado e assistente na fregª de Victória da Cidade do Porto e a Confraria do Socino lhe mandou dizer hua Missa pª sua alma na forma dos seus Estatutos (…). 6 de março de 1757 – (…) faleceo Manoel solteiro e barbeiro (…) actualmente vendeyro na venda do Monte de Santana (…) se achou quasi morto com a cabessa pisada e queimado da cara e para lhe acodirem entrarão pelo telhado e se presume que forão huns ladrões (…). 8 de novembro de 1759 – (…) na Ponte de Moreyra desta fregª faleceo em caza de Fabianna Moreyra hum homem (…) recolhendo-o ella por caridade em hum palheyro pella manham o encontraram morto e vinha pela estrada Rial e por isso vinha do Porto ou Lxª e por indícios parecia ser do Reyno de Galiza ou daquelas partes (…).

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para a Costa. E também não faltavam vagabundos e ladrões que se misturavam nesta torrente humana que esmolava. Selecionámos alguns registos paroquiais que podem fornecer uma visão geral desta realidade:


Aurora Rego

7 de setembro de 1728 – (…) faleceu (…) Diogo de Araujo q aportou a esta fregª. todo mizeravel de hua infirmidade de tizica (…) vinha todo roto e esfarrapado, trazia Carta de Guya de huas Mizericordias pª as outras, athe o porem na sua terra q me dice era natural da Villa dos Arcos de Val de Bez (…) era ainda rapaz e dicem que tinha dezoito anos de idade, o corpo vinha desforme pelas mizerias q padecia (…). 18 de novembro de 1747 – (…) Faleceu no palheiro de Manoel Domingues (…) estando cheio de palha hua mulher pobre, e vagabunda (…) achouse morta (…) e a cauza de se dar com ella morta foi pelo grande cheiro mao que exalava de si e não foy pressentida de pessoa algua coando entrou no dito dito palheiro (…) elle dito Manoel lhe dera muytas vezes esmolla e que a mandava embora mas que ella hia e vinha e alguas vezes fez o mesmo na minha caza, sem querer sahir (…) pergunteilhe mais de três vezes como se chamava e de donde era respondia que era dentro do ceo e da terra (…) dava por resposta que queria ficar mais perto da Igreja para ser enterrada (…) foi amortalhada e acompanhada pela Irmandade do Susino (…).

Moreira Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

In B.P.N. Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Cota ea-326-a.

Na freguesia de Moreira, a situação apresenta-se muito semelhante à que encontrámos em Vila Nova de Telhas, quer no que diz respeito à migração masculina, quer no que concerne às ocupações ligadas à terra e ainda nos serviços de passagem no corredor dos fluxos de deslocação. A toponímia era diversificada (Couço, Carvalhido, Azenhas, Gontam, Real, Guarda, Matos, Outeiro, Refonteira, Barrocho, Burgo, Rio, Ponte, Sendal, Pedras Ruivas, Padrão, Cabo). Pobres, mendicantes e passageiros, muitos assaltados, deslocavam-se pelas estradas, pedindo esmola ou pernoita: 9 de agosto de 1633 – (…) faleceo hum home pobre q hia de caminho por esta estrada q disse hera de junto a Barcellos cuio nome não soube por elle não poder falar, seria de sacenta annos para sima (…). 4 de abril de 1649 - (…) falesceo Antº Glz homem passageiro q diziam ser de Ponte de Lima (…). 24 de novembro de 1786 – (…) faleceo Joam pobre mendicante natural do Reino de Galiza sendo de idade de pouco mais ou menos quarenta anos (…). 9 de abril de 1782 – (…) faleceo da vida prezente (…) hum homem que mostrava ter coarenta anos e declarou chamarse Agostinho José de Santo António e ser da fregª de Melres Bispado do Porto e disse q hia de Romaria (…) não se lhe achou dinheiro algum e que os ladroens do caminho o tinhão roubado e por se achar muito mal se recolheo em caza de José Francisco Moreyra desta fregª e ahy faleçeo (…).

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Porto

In B.P.N. Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Cota ea-326-a.

Na cidade do PORTO os dados referentes às freguesias da Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória deveriam ser alvo de investigação apurada e prolongada no tempo. Porém, dado o volume de dados a manipular, optámos, à semelhança de Viana do Castelo, por elaborar uma lista de peregrinos que se albergaram no Hospital de Vigo, entre 1724-1737 (Moreira, 1993, 31-33), e que eram oriundos do Porto. Na Tabela seguinte, realçam-se novamente o carácter sazonal da entrada dos doentes e a presença maioritária de enfermas.

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

29 de julho de 1765 – (…) faleceo Narciso Domingus Galego (…) em caza de Joanna Francisca da Estrada de moléstia que repentinamente lhe deo (…). 24 de setembro de 1770 – (…) morreu na Estrada, na Taberna de Francisca Luíza, hum galego de morte repentina e o qual se lhe não soube o nome, nem trazia consigo [Carta de Guia] e sabesse ser galego pela falla e ter sahido do hospital do Porto (…). 22 de abril de 1772 – (…) faleceo na Estalagem da Pinta, António Glz que disseram ser caminheiro e da freguesia de Ribeirão (…). 14 de novembro de 1780 – (…) faleçeo no lugar e venda da Pinta, Domingas do lugar de Cevaloens segundo as noticias que ouverão e me não souberam dizer couza algua mais por ser molher desconhecida e passageira que por acaso na dita Venda se achou (…). 13 de dezembro de 1780 – (…) faleceo na venda do logar de Pinta Luis Gomes da fregª. de S. Pedro de Maxeminos, Arcebispado de Braga, o qual morreo de uma pancada que lhe derão na cabeça com uma vara carreteira no logar de Tilheiras (…).

Aurora Rego

Na urbe da Maia, a variedade de profissões alerta-nos para a existência de um centro populacional de dimensão significativa e de um tecido socioprofissional mais alargado. Para além de criados, assistentes e escravos, encontrámos boticários, mestres imaginários, uma vasta rede de militares, para além de profissionais ligados à pedraria. A toponímia confirma a dimensão viva desta comunidade, destacando-se os lugares de Barreiros, Arroteya, Brandinhains, Fafiainz, Vizo, Recamude, Refoyos, Jarissa, Formiga, Picoto, Bunosayres, Vinha Velha, Souza, por onde vendas, tabernas e estalagens se encontravam implantadas (taberna da Estrada, venda e estalagem da Pinta). Seguem-se alguns registos paroquiais relacionados com a passagem de caminhantes:


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Tabela 2 Entrada de peregrinos no Hospital del Espiritu Sancto y La Magdalena (1724-1737)

Ano

Mês

Dia

Nome

1732

Julho

14

Savina Fernandes

1733

Agosto

13

Maria Rosa Abreu

1734

Agosto

8

Jazinta de Castro

1734

Dezembro

5

Fernanda da Silva

1735

Novembro

26

Maria Gonzales

1736

Julho

7

Pedro Moreira

1737

Junho

11

Manoela de Ouvina

1737

Julho

25

Isabel Moreyra

Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

In Moreira, 1993, 31-33.

Para além do natural movimento de peregrinos da urbe portuense, destacamos também a existência, na Idade Média, do Hospital de S. Crispim e S. Crispiniano, fundado por Martim Vicente Barreyros e sua mulher Joanna Martins, e ainda João Annes Palmeira, irmão do primeiro, em 1307, e que foi doado à Confraria da mesma invocação. Um dos objetivos da sua fundação era efetivamente dar pousada “aos pobres peregrinos que iam e vinham do Senhor Santiago” (Oliveira, 2001, 41-63). Nele se proporcionava cama, durante três dias, lenha para se aquecerem, água para lavar os pés e, na consoada, pão, vinho e fruta, (Oliveira, 2001, 41-63). A tradição deste acolhimento encontra-se intimamente relacionada com a rota de peregrinação, tendo em conta as inúmeras alusões que se observam nos registos paroquiais dos concelhos mais próximos (Maia e Matosinhos) de indivíduos que aí faleceram ou que dele regressavam. O trabalho de Rodriguez (1991, 417), centrado no movimento de entrada de peregrinos hóspedes em instituições hospitalares de Santiago de Compostela, entre 1807 e 1825, indica que a grande maioria de romeiros era proveniente dos distritos do Porto e de Viana do Castelo (com prevalência do primeiro), facto que decorre das seculares afinidades socioculturais que se mantiveram entre a Galiza e o Noroeste Português.

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9

5 12 43

4 1

2

4 22

4 2

5

3

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

8

Peregrinos portugueses hospitalizados. 1807-1825. In Rodriguez, 1991.

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16

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Aurora Rego

Considerações finais

Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

Como pudemos verificar, muitos dos registos de óbitos de forasteiros encontrados nos concelhos que integram o Caminho da Costa dizem respeito à passagem de caminhantes indiscriminados, que poderiam ou não ser peregrinos. Em vários casos, os redatores apenas ofereciam uma imagem muito genérica e pouco detalhada do indivíduo não natural que estava de passagem e cabe ao investigador, cruzando vários dados, deduzir o conteúdo destas lacunas e determinar se cada um deles se tratava de um peregrino. A este propósito refira-se que o rigor imposto na normalização do registo paroquial variava consoante a ação regular dos visitadores dos vários arciprestados e dioceses nas respetivas paróquias. Tudo aponta para que, quanto maior era o afastamento da Diocese de Braga sobre o território nortenho, tanto menor era a observância à norma, o que vários estudos têm vindo a comprovar (Amorim, 1999; Rego et ali, 2016). Os seguintes dados permitem-nos construir um caso forte de que muitos deles seriam efetivamente peregrinos: o contexto de cada óbito, a distância da terra natal ao Santuário de Santiago de Compostela, as condições de viagem, a utilização de cartas de guia que permitia oficializar o seu trajeto junto da rede assistencial, o trajeto realizado muitas vezes em grupo, a sazonalidade das viagens, os meios de transporte, a doença súbita e repentina, os assaltos de que eram vítimas, e, principalmente, a herança do ideário medieval de despojo, da mendicância, à imagem de Jesus e à prática de muitas ordens religiosas. A ilustração e a terminologia diversificadas e muitas vezes aplicadas pelos vários redatores paroquiais conduzem a esta dedução. Assim, considerando estes pressupostos, 70% do total dos casos atrás mencionados tratam-se inequivocamente de peregrinos de Santiago. Neste contexto, torna-se elucidativa a peregrinação a Santiago de Compostela de 3 vianenses – P. Francisco Padilha, P. Francisco da Conceição e Francisco Lopes de Padilha. Só chegou até nós o conhecimento desta viagem devido ao assalto de foram alvo e que originou uma demanda notarial (Moreira, 1993, 64). A mobilidade de indivíduos galegos em território português, tal como a sua fixação como assistentes nas grandes cidades, como Porto ou Lisboa, e os seus fluxos de deslocação para Castela ou sul de Espanha encontra-se estudada (Lopo, 1993; Rego, 2013 e 2017) e corrobora o que temos vindo a dizer. Verificamos primeiramente que é o universo masculino quem mais peregrina, representando o setor feminino cerca de 39% do total. Consideramos a proporção feminina bastante assinalável, tendo em conta a mobilidade reduzida das mulheres no meio exterior à sua paróquia devido a constrangimentos culturais à época. Ora, visto que uma mulher raramente saía dos limites da sua paróquia (ou comunidade inter-paroquial), a alusão a uma mulher viandante fornece um possível caso forte de uma peregrina em devoção, tanto mais que os registos hospitalares confirmam a sua presença.

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Aurora Rego

Relativamente à sazonalidade ao óbito associada à peregrinação (Gráfico 4), a tendência encontrada é muito semelhante à encontrada na Galiza (vide Considerações Gerais). Observou-se que o mês com maior volume de registos de óbito se concentrou em julho (mês da festividade), seguindo-se os meses enquadrantes de junho e agosto, avançando um mês relativamente ao calendário encontrado para a Galiza. A razão deste comportamento deve encontrar-se no período incerto que medeia entre a ida e o regresso da peregrinação. Gráfico 4 Sanozalidade ao óbito dos peregrinos no Caminho da Costa (%)

dezembro

novembro

outubro

setembro

agosto

julho

junho

maio

abril

março

fevereiro

Confirmamos igualmente que durante os períodos de hostilidades transfronteiriços, as viagens de peregrinação praticamente deixaram de se efetuar - no século XVII, com um total de 21 peregrinos, durante a Guerra da Restauração, apenas 1 indivíduo encentou viagem; no século XVIII, num total de 80 indivíduos, durante a Guerra de Sucessão de Espanha, apenas 5 óbitos e nenhum durante as Invasões Francesas. A naturalidade dos peregrinos seguiu também a tendência geral: 64,8% são oriundos do Alto Minho, Baixo Minho e área do Porto, com naturais laços socioculturais comuns. Realcemos ainda a importância do território português como corredor de passagem de peregrinos estrangeiros (da França, da Alemanha e das regiões/cidades espanholas de Castela, Granada, Sevilha, Ourense). A doença, a exaustão, a fraca alimentação, o contágio entre companheiros de viagem, constituíram as causas de morte mais frequentes dos peregrinos. Alguns casos existiram de afogamento em barcas de passagem ou no atravessamento de leitos de rio e regatos. Outros casos relativos a assaltos de ladrões e vagabundos, que nos grupos de romeiros se misturavam ou nas esquinas apareciam. Ladrões que assaltaram uma venda e deixaram à morte o seu assistente, ladrões que roubaram um peregrino que ficou sem dinheiro e acabou por se recolher e falecer numa casa particular. Crimes que deixaram uma vítima morta na estrada com os membros partidos, ou outro peregrino sucumbido pelas pancadas de vara carreteira. Todo o cuidado era pouco, de modo que, em muitos casos, os peregrinos deslocavam-se em grupo. Foi o caso de um grupo que vinha da cidade do Porto. Contudo, uma das mulheres, na estalagem do Poço, deitando-se à noite valente, amanheceu morta, em companhia da gente que com ela vinha. Causa natural, pestilência, exaustão, ingestão de alimentos deteriorados? Mas foi o local ao óbito que mais nos comoveu e que nos fornece uma visão mais aproximada da assistência local e institucional provida aos pobres peregrinos, das circunstâncias extremas de carência, do isolamento e do eventual fim abrupto da jornada santa. Se é verdade que existem registos de óbitos completamente isentos de informação (limitados ao nome do indivíduo e à data do falecimento), também é verdade que outros párocos, por providência, acautelavam as circunstâncias que rodeavam o falecimento.

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

janeiro

20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0


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Do que conseguimos apurar, encontrámos 10 óbitos que ocorreram em instituições de assistência (hospitais, misericórdias, conventos); outros 10 em estalagens, vendas ou tabernas; 15 foram recolhidos em casas particulares cujos donos ofereceram guarida e mais 4 em palheiros cedidos para aconchego da noite, em gestos de verdadeira caridade ao próximo. Que dizer de dois peregrinos que se perderam nos pinheirais, durante a noite, e por lá sucumbiram ao frio? E que dizer de 12 pobres peregrinos que morreram na maior solidão, arrojados em estradas e caminhos ermos? São estas gentes peregrinas que humanizam os caminhos, são estas gentes mendicantes que constituem a razão de ser das instituições assistenciais e de acolhimento, são as gentes peregrinas que acendem a lâmpada das capelas e ermidas de pernoita, oram e cumprem as suas promessas aos santos protetores da dura caminhada, são estas gentes que se instalam nas estalagens, vendas e alimentam a frágil economia local, são estas gentes que atravessam pontes e alpondras e ultrapassam os vales e as montanhas agrestes, que fazem mover as barcas para vencer as barreiras líquidas, são estas gentes, na maioria anónimas, a alma e o alento da peregrinação a Santiago de Compostela.

Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

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ALVES, L. (1985) Monografia do concelho de Caminha, Caminha, Câmara Municipal de Caminha. AMORIM, N. (1991) Uma metodologia de Reconstituição de Paróquias desenvolvida sobre registos paroquiais portugueses, in Boletín de la Associacíon de Demografía Histórica, IX, I, pp. 7-25.

Aurora Rego

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Pelo Caminho da Costa: peregrinos anónimos, contextos e reconfigurações na Idade Moderna

OLIVEIRA, M. (2001) A Confraria de S. Crispim e S. Crispiniano e o seu Hospital na Idade Média, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto.


Deolinda Carneiro

A iconografia de S. Tiago e outros santos “peregrinos”, no Caminho da Costa

A iconografia de S. Tiago e outros santos “peregrinos”, no Caminho da Costa

Deolinda Carneiro

Licenciaturas em História e na Variante de História de Arte (FLUP). Frequência do Mestrado em História de Arte (FLUP), concluindo a parte escolar em 1994. Mestre em Estudos Locais e Regionais (FLUP). Tese: “As Procissões na Póvoa de Varzim. Imaginário Religioso e Piedade Coletiva.” Diretora do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim (desde 2004.07.05, Curadora desde 1990). Delegada da Equipa do Arciprestado da Póvoa de Varzim e Vila do Conde para o Inventário do Património Artístico da Igreja. Conceção e montagem de Exposições; apresentação de conferências, comunicações e participação em ações de formação; alusivas às exposições do museu, História, Património e Arte da Póvoa de Varzim e Vila do Conde. Publicações alusivas ao Património da Póvoa de Varzim e respetivo Museu Municipal; temas de Arte Sacra do Arciprestado de Vila do Conde/Póvoa de Varzim; Ex-votos; Traje, Recriações Históricas; Arqueologia; Caminhos de Santiago; etc. Registada no FCT, em 27.01.2009. Doutoranda em História da Arte em Portugal, pela FLUP (Orientadora: Prof.ª Dr.ª Clara Paulino, em 2013 – 2014, Prof. Dr. Agostinho Araújo (2014); Prof. Dr. Nuno Resende e Rui Carita (2015 – 2016): - O traje em Portugal em ex-votos pintados (1777-1914) - 2015.

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Resumo

Fotografias José M. Flores Gomes e Deolinda Carneiro 1

Desde a Idade Média que o território do Noroeste Peninsular foi percorrido por peregrinos e caminheiros que, por ancestrais vias, se dirigiam pelo “Caminho” em direção a Compostela. Aqui, para além das marcas deixadas pelo seu peregrinar, encontramos a devoção local dedicada ao Apóstolo S. Tiago Zebedeu, o Maior, um culto enraizado, antigo, que novas devoções, por vezes, lançaram no quase esquecimento. São diversas as paróquias em que encontramos a presença deste apóstolo – nalguns casos é mesmo o orago – patente através da sua imagem, seja em esculturas, pinturas, têxteis, ou em peças de ourivesaria. Surgem, igualmente, imagens dos cultos associados, como N.ª Senhora do Pilar (aludindo à tradição que defende que a primeira igreja da Península foi fundada por S. Tiago em Saragoça); S. Roque; também ele peregrino; S. Gonçalo, padroeiro das pontes e como tal associado aos caminhantes; S. Cristóvão, padroeiro dos viajantes; Santo Amaro, etc. Encontramos, ainda, S. Tiago Mata-mouros, uma figuração bélica, bem diferente da tradicional iconografia do S. Tiago como apóstolo. No Noroeste de Portugal, destacamos, agora, algumas das imagens de S. Tiago e outros santos protetores dos peregrinos, que encontramos nos concelhos integrados no percurso pedestre que percorre a zona litoral, entre Porto a Valença.

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Na Península Ibérica a devoção a S. Tiago “de Compostela” iniciou-se, como é do conhecimento geral, no final do século IX, lançando um imparável movimento de peregrinação que se estendeu a toda a Europa cristã. Todos os caminhos serviram para levar aqueles que, querendo remir pecados ou buscar a salvação no Além, percorriam, a pé ou a cavalo, os caminhos de um continente ciclicamente mergulhado em guerras, devassado por salteadores ou, a partir do mar, ataques de povos do Norte e com a ameaça sempre presente - desde a Idade Média ao final da Idade Moderna - de novos ataques “sarracenos” e piratas em geral. Mau grado a insegurança, uma crescente circulação de “gentes” - em que se destacam os peregrinos a Santiago de Compostela - vai permitir criar uma rede complexa de percursos e relações entre povos, cidades e nações que, vencendo desconfianças e medos, possibilitou que milhares de crentes atravessassem distâncias consideráveis e buscassem o consolo dos seus achaques, ou o perdão das suas faltas. Todos os caminhos eram bons para se chegar a Compostela, mas, ao longo do tempo, algumas rotas foram mais usadas do que outras, tornando-se as preferidas pelos peregrinos, fosse pela sua maior segurança, facilidade do percurso, ou melhor assistência. Percorreram “O Caminho” desde essa altura gentes de todas as classes sociais, desde os que esmolavam o sustento do dia à porta das igrejas e pelas casas no caminho, até nobres de alta condição que, com as suas cortes, se dirigiam ao túmulo do apóstolo. A execução deste artigo realiza-se na sequência de outros produzidos a propósito das imagens de S. Tiago no arciprestado de Vila do Conde / Póvoa de Varzim. Destacamos, em particular, a colaboração dos nossos colegas das outras câmaras Municipais (do Caminho da Costa), os quais nos forneceram informações e fotografias, nomeadamente dos concelhos de Caminha, Vila Nova de Cerveira, Viana, Esposende, Maia e Matosinhos. Contamos também com a colaboração e abertura, por parte dos responsáveis pelo Museu da Sé do Porto e do Museu de Arte e Arqueologia do Seminário Maior do Porto e respetivas técnicas superiores. A todos fica aqui o nosso agradecimento. Iremos, inevitavelmente, destacar as peças que melhor conhecemos e estudamos, as do nosso Arciprestado. Esperamos que, no futuro, com mais algum tempo seja possível avançar na pesquisa e realizar um estudo com a dimensão e reflexão que o tema justifica.

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Deolinda Carneiro A iconografia de S. Tiago e outros santos “peregrinos”, no Caminho da Costa

Por toda a Europa proliferaram, nos séculos que se seguiram, conventos e mosteiros, hospitais e albergues para prestarem assistência aos peregrinos. Surgem, igualmente, confrarias com a invocação jacobeia e muitas igrejas e capelas constroem alpendres para dar abrigo das intempéries aos viajantes. Entretanto, no século XIX, o movimento das grandes peregrinações esmoreceu devido às terríveis invasões francesas e guerras civis, para só renascer no século XX. E, a partir de finais deste até às primeiras décadas do século XXI - laico e quase ateu - o interesse pela peregrinação atrai, de novo, multidões que se lançam ao “Caminho”. Renasce, igualmente, o interesse por caminhos menos usados, que levam os viajantes por trilhos diferentes, revelando outros valores naturais, artísticos e patrimoniais. Uma das manifestações mais palpáveis da existência de velhos percursos a Santiago é a presença de um riquíssimo património sacro com a temática jacobeia. Em igrejas, capelas e nichos deparamos com esculturas de vulto, pinturas e outros objetos, com a piedosa invocação do apóstolo, além de o encontrarmos como orago de múltiplas freguesias e localidades. O costume de “dar um patrono celeste” às igrejas só se generalizou a partir do séc. VI e naturalmente Cristo, Nossa Senhora e os mártires tinham a primazia nos conturbados séculos da Alta Idade Média. Nos “censuais” da arquidiocese de Braga (1085 e 1091), a seguir a Santa Maria (com 99 freguesias como titular), ao Divino Salvador (69), S. Martinho de Tours (592) e S. Miguel arcanjo (553), era S. Tiago o orago de maior número de freguesias: 45 (Costa, 1997, 470). É certo que o culto a S. Tiago se estendeu por toda a península desde a Idade Média, mas se fizermos uma cartografia das manifestações do seu culto nos concelhos do Norte do país facilmente se pode divisar a existência de trajetos, alguns deles alternativos e periféricos. Paralelamente, encontramos invocações de santos normalmente associados ao culto do apóstolo, como: Nossa Senhora do Pilar (invocação da primeira igreja fundada por S. Tiago em Saragoça e na península); S. Roque, protetor da peste (representado como peregrino, ao lado do seu fiel cão); S. Gonçalo, construtor de pontes (e por isso auxiliar dos viajantes em geral); S. Cristóvão (apoio dos caminhantes); Santo Amaro (protetor de doenças nas pernas); Rainha Santa Isabel, de Portugal, também ela peregrina; S. Pedro de Rates, primeiro arcebispo de Braga, convertido por S. Tiago, entre outros. Relativamente a todas estas imagens devemos lembrar que, embora sejam conhecidas as datas de fundação das igrejas e capelas em se encontram expostas, elas são, normalmente, de fatura posterior e foram sendo “restauradas” e “beneficiadas” seguindo as indicações de visitadores, ou resultam do cumprimento de promessas de devotos. Assim, temos esculturas (e mesmo pinturas) que foram perdendo o seu aspeto original, pois, além de múltiplos repintes que lhes alteram o aspeto geral, os seus atributos foram substituídos – retirados e/ ou adicionados - o que dificulta a sua classificação estilística e cronológica. São conhecidos os nomes de alguns nobres e reis que peregrinaram a Santiago: a Rainha Santa Isabel foi a Compostela em 1325; D. Manuel, em 1502 (com estadia em Vila do Conde onde decidiu apoiar a construção da soberba Matriz); Cosme de Médicis, em 1669 (o pintor - e arquiteto – que seguia na sua comitiva, Pier Maria Baldi4, realizou uma aguarela a sépia da Vila de Rates, quando por aí passaram), etc. Mas a mole imensa de peregrinos que seguem o caminho precisa de ser estudada, pois são escassos os vestígios da sua passagem deixados nos arquivos mais antigos: alguns assentamentos de óbitos, legados, ofertas a hospitais e pouco mais. Os registos de obras assistenciais, como hospitais, Misericórdias e outras obras pias são fundamentais, pois indicam que tinham como fim o apoio a pobres e a peregrinos em particular.

2 S. Martinho de Tours (N.ca.317 – M.ca. 397) foi o grande apóstolo das Gálias e o seu túmulo, em França, era o grande centro de peregrinações da Europa da Alta Idade Média, logo a seguir a Roma, até Santiago na Galiza o superar a partir do século XI. 3 O Arcanjo S. Miguel, como chefe das legiões celestes, era o anjo guerreiro e protetor, representando valores fundamentais na época da reconquista cristã. 4 Baldi estava "incumbido de ilustrar o relato com aspectos dos locais visitados ou apenas percorridos" quando este realizou uma viagem por Espanha e Portugal em 1668- 1669. (Barbosa, 1955).

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Convém recordar que uma das obras de misericórdia mencionadas por Cristo (e referida como um meio para alcançar a salvação) era acolher os peregrinos: - “era peregrino e recolhestes-me” (Mt 25, 35-36). Nesta frase Cristo assume-se como pobre ou viajante e quem ajudar estes estará a ajudar o próprio Jesus, tendo como prémio a vida eterna (Mt 25, 45-46). Muitos destes peregrinos, sabemo-lo, eram pobres ou desvalidos da fortuna, que iam esmolando o sustento para o dia a dia. Segundo nos descreve um deles, denominado Nicola Albani (napolitano, que em 1743 deixou um relato das suas deambulações em Portugal e na Galiza) constatamos que, frequentemente, as estadias e percursos eram condicionadas pela existência de locais onde davam pousada aos caminheiros e por datas concretas (festividades), em que lhes eram oferecidas boas esmolas, em casas ricas ou mosteiros (Albani, 2007). Num dos seus percursos, este viajante, após ter sido atacado por salteadores perto de Valença, vem pela costa, desde Viana do Castelo até Vila do Conde “caminhando pela praia”. Fala-nos, ainda, da “muito deliciosa” e “cheia de mercadores e comerciantes forasteiros” cidade de Viana onde “obteve boa” esmola, dormiu numa tarimba do hospital e encontrou marinheiros seus conterrâneos de Nápoles (o que nos indicia o cosmopolitismo desta cidade portuária). Em Vila do Conde refere que dormiu no hospital em cima de palha, mas conseguiu “boa esmola” e, no Porto, por ser dia de Natal, recebe excelentes dádivas no Hospital de S. Crispim. Face à falta de documentação sobre a peregrinação nesta região, resta-nos a análise das esculturas e templos que podem ajudar na datação e importância deste Caminho. Não podemos, no entanto, neste brevíssimo trabalho, fazer um estudo exaustivo. Assim sendo, referimos alguns templos e peças de “arte móvel”, sabendo, à partida, que muito fica por mostrar da riqueza e importância que este culto teve nesta região. Esta amostragem do culto a S. Tiago torna-se também complexa, porque diversos templos erguidos com esta invocação – e que são fundamentais para o estudo da devoção – foram desaparecendo, nomeadamente em Vila do Conde e na Póvoa de Varzim. Nestes concelhos limítrofes, em ermos locais de passagem e próximos do litoral, existiram duas capelas medievais (já destruídas, mas bem documentadas) dedicadas ao grande apóstolo das Espanhas. A antiga capela de S. Tiago em Vila do Conde – mais tarde denominada Capela do Desterro – aquando das Memórias Paroquiais de 1756 (Freitas, 1988, 54-67) ficava “na margem do rio, no vasto areal que a cerca pela parte do mar”, e o Prior Falcão ao dizer que “é tradição que foi Matriz” comunica-nos a ideia da grande antiguidade que atribuíam à pequena capela, a qual foi construída, provavelmente, no séc. XIV (Vasques, 2008, 54).


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Na Póvoa de Varzim a primitiva Capela de S. Tiago era de construção românico-gótica e foi ampliada e convertida em Igreja Matriz no séc. XV e Igreja da Misericórdia, em 1756. Aí se encontrou (partida e enterrada em terreno sagrado) provavelmente a mais antiga das imagens de S. Tiago nesta região. Trata-se de uma escultura de vulto inteiro, do séc. XIV - XV, em calcário policromado. “Em 10 de Agosto de 1817, ao ser reconstruída a capela-mor da igreja da Misericórdia (feita em 1685, no lugar da capela românica) encontrou-se junto dos alicerces, soterrada, e partida em três partes, esta imagem do Apóstolo. Da capela medieval a ele dedicada - a imagem transitara, sem dúvida, para o templo seiscentista que lhe sucedeu; pelos fins do século XVII, ou começos de setecentos, seria enterrada a escultura. O Dr. Leandro Rodrigues, em 1736, e o tenente Veiga Leal, em 1758, já a não citam ao inventariarem as imagens da igreja.”5

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Por se encontrar incompleta – perdeu-se a zona inferior da estátua e o braço direito – não podemos verificar devidamente quais os atributos que apresentava e, assim, saber S. Tiago Zebedeu, o Maior. Séc. XIV - XV (?). Calcário exatamente qual é o seu tipo iconográfico. policromado. S. C. Misericórdia da Póvoa de Varzim, Na verdade, para melhor analisarmos as em depósito no MMPV. Inv. Es-037. imagens que encontramos, além de conhecermos a história e a “legenda” do santo, é fundamental ter presente que S. Tiago pode ser representado segundo três tipos iconográficos diferentes: o Apóstolo; o Peregrino e o Cavaleiro - os quais refletem diferentes eventos da sua vida na Palestina (narrada nos Atos dos Apóstolos, 12,1-2) e da sua legenda na Europa, que só aparece depois do séc. IV - em particular da pregação na Hispânia (séc. VI) - descrita com detalhe no Liber Sancti Jacobi - Codex Calixino, no séc. XII6, propagandeado por toda a cristandade pela Legenda Dourada (Vogarine, 1982) de ca. 1264 e por uma miríade de representações iconográficas e documentais (Réau, 1996, 169-182).

Provavelmente esta imagem de S. Tiago é do século XIV e fora enterrada, seguindo as orientações das Constituições Sinodais de Braga que, depois do Concílio de Trento, recomendavam que as imagens que se encontrassem em mau estado, fossem enterradas na igreja ou sacristia. (Gonçalves, 1964, 210). 6 A vinda de Santiago à Península Ibérica é inspirada em textos apócrifos - em particular na História de Eusébio de Cesareia -, sendo a referência da sua pregação na Hispânia do séc. VI, no Breviário dos Apóstolos, que é divulgada por Isidoro de Sevilha em De Ortu et Obitu Patrum e pelo Beato de Liebana. Após a descoberta do túmulo c. 830, a sua lenda foi-se espalhando, em particular a partir do Liber Sancti Jacobi. Codex Calixino, do séc. XII, conservado no Arquivo da Catedral de Compostela. (Vázquez Santos, 2012, 8-73). 5

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7 Cruz, com travessa dupla, usada pelo arcebispo primaz. Primaz, na hierarquia católica, é o arcebispo cuja sede e circunscrição são as mais antigas de um país ou região.  8 Segundo a lenda, Santiago fundou a primeira igreja na Península Ibérica dedicada à Nossa Senhora do Pilar, em Saragoça. Por sua vez o pilar, ou coluna, lembra que os Apóstolos são as “colunas”, as “pedras vivas”, sobre as quais se edificou a Igreja. 9 As relíquias de Santiago foram iluminadas por uma estrela, ca. 813, ou 830. 10 Principalmente a partir do século XII o apóstolo Santiago é quase sempre representado com a indumentária de peregrino. 11 As primeiras representações de Santiago como peregrino, surgem a partir de meados do século XII em Zamora (Igreja de Santa Marta de Tera) e o apostolado da Câmara Santa da Catedral de Oviedo (ca. 1165 – 1175). (Vázquez Santos, 2012, 65). 12 Bordão - Bastão, cajado grosso terminado geralmente em volta na parte superior. (Lello & Irmão, 1979, 364). 13 Uma das regras do peregrino é levar o saco aberto, para mostrar a sua disponibilidade em ajudar quem precisa. 14 A concha da vieira tornou-se frequentemente (e incorretamente) símbolo de outras peregrinações. 15 A partir do século XV as imagens de S. Tiago frequentemente “esboçam” o movimento de começar a caminhar, lembrando a principal atividade do Peregrino e, o sentido de Missão, de levar o Evangelho a todas as partes do mundo, dos apóstolos.

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O Apóstolo S. Tiago Zebedeu, o Maior (celebrado no dia 25 de Julho), era um pescador, filho de Zebedeu e Salomé, irmão mais velho de S. João Evangelista e um dos discípulos prediletos de Cristo, que com eles privou de perto. A estes irmãos, temperamentais e voluntariosos, Jesus chamava: Boanerges, ou seja, “filhos do trovão” (Mc. 3, 17). Só eles, e S. Pedro, assistiram à Transfiguração de Jesus, à ressurreição da filha de Jairo e o acompanharam no Jardim das Oliveiras. O rei da Judeia, Herodes Agripa, ca. do ano 42, “mandou matar à espada Tiago, irmão de João” (Act 12, 2), tornando-o o primeiro dos apóstolos a sofrer o martírio. É denominado “Maior”, exatamente por ter sido um dos primeiros a ser “chamado” e a seguir Jesus. Distingue-se de S. Tiago “Menor” [Alfeu] o apóstolo que seria primo de Cristo e o primeiro bispo da igreja de Jerusalém, que transporta uma maça, ou pedras, com que foi martirizado. Como “Apóstolo” é representado envergando túnica talar e toga (ou manto); descalço e com um “rolo”, prontamente substituído por um livro (alusivo ao Novo Testamento). Como judeu, que morreu relativamente jovem, apresenta cabelo comprido e barbas escuras; e, atendendo ao seu martírio, era representado com a espada. Encontram-se também apostolados em que este apresenta uma cruz “primacial”7, aludindo à circunstância de ter sido o primeiro arcebispo da Península, pois, segundo a tradição tardia, a ele teria sido destinada a evangelização da Península Ibérica. S. Tiago teria vindo pregar em “Braga, Iria e Saragoça” (Santiago, 1964, 327-333) (onde criou a primeira igreja cristã, dedicada a Nossa Senhora do Pilar8, criando uma devoção que se encontra naturalmente associada a ele) e, em pouco tempo, converteu um grande número de discípulos, alguns dos quais o seguiram quando regressou à Palestina. Depois da sua morte estes teriam trazido o seu corpo para a Hispânia, cujo túmulo só foi “descoberto” no século IX9, marcando o início das peregrinações a Compostela [ou, Campo da Estrela - Campus Stellae (Carmona Muela, 1998, 63 e 64)]. Tornou-se o “padroeiro da Espanha cristã” (Costa, 1997, 512) e a sua fama espalhou-se por toda a Europa, motivando um número crescente de peregrinos que traçaram na Alemanha, França, Espanha e Portugal uma teia de “Caminhos de Santiago”. Assim, devido à importância desta peregrinação ao seu túmulo em Compostela10, começa a ser representado, ele próprio, como “Peregrino”11, usando bordão12, cabaça (como cantil), surrão (bolsa, escarcela ou alforge) sem fitas13, chapéu (normalmente de abas largas, tipo chapeirão, ou “sombrero”), botas e capa com esclavina (Réau,1996,169 – 183) (pequena capa que protege os ombros, também chamada romeira) e túnica um pouco mais curta (para facilitar a caminhada). A concha de vieira – devido à lenda do “cavaleiro das conchas” - torna-se na insígnia mais emblemática da peregrinação a Santiago14 - sendo colocada no chapéu, na capa sobre os ombros, na bolsa, ou no bordão. Esta é a representação mais comum na nossa região. No entanto, iremos encontrar, frequentemente, a simbiose destes dois tipos iconográficos, o Apóstolo e o Peregrino. Os quais se encontram, normalmente, nas imagens devocionais de pé15, mas também se podem encontrar alguns exemplos (mais raros) sentado “em cátedra”, reproduzindo a imagem do Pórtico da Glória de Compostela, como a curiosa imagem existente no Recolhimento de S. Tiago em Viana do Castelo, atribuível ao século XV, com o bordão de peregrino encimado pela imagem de Nossa Senhora do Pilar.


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S. Tiago “in Catedra”. Séc. XVII (?). Capela do Recolhimento de S. Tiago, Viana do Castelo.

S. Tiago. Pormenor da Lámina de Bronze de sepultura. Séc. XV. Igreja do Mosteiro de Leça do Balio, Matosinhos.

O vetusto S. Tiago da Póvoa de Varzim, já referido, enverga a túnica comprida e um livro, o que corresponde ao tipo iconográfico do apóstolo, mas não podemos saber – por lhe faltar braço e mão direita – se segurava a espada (correspondente ao seu martírio), ou o bordão. No entanto, alguns acessórios da indumentária apontam para a tipologia do peregrino: chapéu (se bem que pequeno e sem a concha) e uma sacola. Também não vemos a zona dos pés para sabermos se estava descalço (como os apóstolos) ou com botas, como os caminheiros. Outros exemplares, ainda do final do gótico – em que se evidencia a tipologia da “Apóstolo” - encontramo-los em lugares tão díspares: como elemento da bordadura da lâmina de bronze da sepultura de D. Frei Estevão Vasques Pimentel na Igreja do Mosteiro de Leça do Balio; ou na fachada da Igreja Matriz de Viana16 – em que S. Tiago é simplesmente um entre os seis apóstolos adossados a fustes na fachada – ou seja, realçando o símbolo destes como “colunas” da Igreja – com a túnica talar, manto, livro e descalço, como os outros, mas com o bordão, bolsa e chapéu de peregrino; Exemplos eruditos, e de fatura internacional, refletindo o Estilo renascentista (e, subsequentemente, o “maneirista”) transparecem um maior cuidado doutrinal na reprodução iconográfica, para seguir as recomendações exaradas pelo Concílio de Trento (após 1563), tentando destacar o papel do “Apóstolo” sobre o Peregrino. É disso exemplo, a figuração do apóstolo, mas com bordão e chapéu de peregrino, presente no sebasto frontal bordado (com seda e ouro) de uma belíssima casula – que nos parece ser de origem flamenga – exposta no Museu do Seminário Maior do Porto / Igreja dos Grilos.

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Edifício do Século XV, agora Sé, da jovem diocese de Viana.

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S. Tiago. Sebasto de Casula. Séc. XVI (?). Museu de Arte e Arqueologia do Seminário Maior. Porto.

Perto deste paramento, na Sala do capítulo da Sé do Porto17, encontra-se uma das mais belas imagens desta série: uma escultura de S. Tiago – também de influência flamenga, muito restaurada (já no séc. XVIII), mas que se destaca, não apenas pela dimensão, mas sobretudo pelo trabalho requintado e a elegância da execução. Descalço, com amplo manto vermelho, túnica talar, livro e compridas e aneladas, barbas bífidas. Se bem que o aspeto geral é do clássico apóstolo, o chapéu com vieira, sacola e o bordão recordam-nos que a figuração do “Peregrino” seria a preferida pelos artistas e encomendadores, bem como os atributos mais fáceis de identificar pelos fiéis. A iluminura que decora a Bula Papal, manuscrito com a Instituição da Confraria do Santíssimo Sacramento de S. Tiago de Amorim, foi elaborada em Roma e está datada de 158018. Essa imagem destaca-se pelo colorido e elegância “maneirista” do torso do Apóstolo, inserido num “tondo”19, no canto superior direito da cercadura do documento decorada com “grutescos”20 de inspiração clássica e toda a gramática decorativa própria do maneirismo romano. Ao ser pintado em Roma é natural que nesta figuração se realce a tipologia do “Apóstolo”, com túnica e manto avermelhado, barba e cabelos compridos, o livro na mão direita e a auréola dourada. Apenas o bordão e o chapéu nas costas evidenciam a característica de viajante / peregrino. Esta imagem é proveniente da capela do primitivo claustro [cemitério] da Sé do Porto e esteve num retábulo, no interior da igreja. Portugal perdeu a independência em 1580, com a subida ao trono de Filipe II de Espanha. No entanto, nesta região não se passa por um período de crise, pelo contrário, os finais do século XVI e inícios do XVII destacam-se pelas múltiplas obras de arte e renovação das já existentes. 19 Moldura redonda, muito frequente nas obras italianas do Renascimento e posteriores. 20 Motivos decorativos frequentemente encontrados em pinturas murais da Roma antiga e muito imitadas no renascimento. Como eram vistas em casas arruinadas ou em escavações apelidaram-nos de “grutescos” por serem característicos das “grutas”. São compostas por motivos vegetalistas, animais híbridos, medalhões, etc. Ver: (Teixeira, 1985, 126 - 127). 17

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S. Tiago (ao centro). Séc. XV. Granito. Portal axial. Sé de Viana.


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S. Tiago Maior. Séc. XVI - XVIII. Madeira policromada. Sala do Cabido. Museu da Sé do Porto.

É nas igrejas mais abastadas e com programas iconográficos mais eruditos que encontramos S. Tiago integrado em “apostolados” completos. É disso exemplo, o opulento retábulo do Santíssimo Sacramento (em talha dourada do século XVII), na Igreja Matriz de Caminha, em que S. Tiago se integra no grupo dos doze, ao lado de Cristo Salvador, representado com um bordão na mão.

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Bula Papal com a instituição da Confraria do Santíssimo Sacramento. 1580. Roma. Pergaminho com iluminuras policromadas. Igreja de Amorim.

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Retábulo do Santíssimo Sacramento. Séc. XVII. Talha dourada e policromada. Igreja Matriz de Caminha

S. Tiago. Séc. XVIII. Óleo s/ tela. Sacristia. Museu da Sé do Porto.

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Na sacristia da Sé do Porto, num trabalho mais tardio ainda, num conjunto de doze pinturas barrocas dos apóstolos, encontramos o busto do Santo, envolvido numa moldura ovalada de flores brancas e vermelhas (símbolo do martírio), com os atributos de peregrino, bordão com cabaça, “sombrero” com vieira e capa com romeira. A extensa planície litoral que se estende desde o Douro até ao Minho foi, logicamente, usada por muitos peregrinos que demandavam o túmulo do Apóstolo, o que pode ajudar a explicar os múltiplos topónimos na região alusivos à temática jacobeia e mesmo as invocações de algumas. No entanto, nem todos estes locais, invocações, imagens, símbolos e testemunhos de uma devoção, podem ser interpretados como resultado da passagem, mais ou menos continuada, de peregrinos. Percebe-se que o culto é profundo e enraizado e tem a ver com a fé antiga no apóstolo de Jesus. Se numas paróquias o facto de S. Tiago ser o orago justifica a existência de esculturas, pinturas e outros tipos de registos, em capelas e oratórios é a devoção particular que motiva o aparecimento e preservação do culto.


S. Tiago. N.º 1 - Século XVI - XVII (?). Madeira policromada. Capela de S. Roque, S. José de Ribamar. Póvoa de Varzim

21 Esta capela de S. Roque / Santiago irá sendo renovada, até à última “reedificação”, iniciada em 1887, numa construção com carácter eclético, com boa interligação com a rua comercial que com ela se inicia e com a praceta que lhe faz face. 22 A criação de Igreja Anglicana por Henrique VIII, dá-se em 1534, mas por toda a primeira metade do século XVI (com a “Reforma” protestante, no Norte da Europa), como muitas esculturas religiosas foram atiradas aos rios e oceano, é, realmente, muito frequente o aparecimento - no mar, rios e suas margens - de imagens religiosas, que são imediatamente tratadas com particular devoção por todo o mundo católico.

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“N’esta ermida está erecta uma confraria do apostolo S. Thyago cuja imagem veneram n’ella os confrades por seu protector, e os devotos por seu advogado. Na mesma capella se conserva o meio corpo d’uma imagem do mesmo sagrado apostolo, que por tradicção constante certificam apparecera nas praias d’esta villa, e fora achada n’ellas junto da lingueta do mar, por um pastor que apascentava o seu rebanho no juncal, que n’este lugar havia e de que acima se trata. Vê-se claramente que a dita imagem fora cerrada ao meio; a sua formatura é antiquíssima, mas a encarnação primorosa; e a sua aparição dizem fora no principio do scisma da Inglaterra.”

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Por exemplo, a capela de S. Roque da Póvoa de Varzim foi instituída e edificada com esta invocação, em 1582, numa rua nova - a Junqueira -, mas cedo se tornou conhecida como Capela de S. Tiago, porque foi a este santo que o povo devotou maior veneração. Segundo a informação prestada pelo Dr. Leandro Rodrigues, em 1736 (Barbosa, 1958, 322-323), estava já na posse da Confraria de S. Tiago e tinha sido por ela reedificada.21 Outra tradição, que nos é transmitida pelo tenente Veiga Leal, em 1758, está relacionada com uma imagem de S. Tiago que teria sido encontrada, partida, junto ao mar (Leal, 1758), na altura do “cisma de Inglaterra”22, ou da Reforma.


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S. Tiago. Século XVI - XVII (?). Madeira policromada. Chapéu de folha de metal pintado (Séc. XX, década de 50, segundo o modelo do antigo). Capela de S. Roque, S. José de Ribamar. Póvoa de Varzim.

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O último repinte é característico de finais do século XIX.

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É difícil verificar a veracidade desta lenda porque, estranhamente, se conservaram duas imagens completas, com algumas características afins, de S. Tiago Zebedeu, o Maior, que, apesar dos espessos repintes e “restauros”23, podem ser atribuídas ao século XVI-XVII. Curiosamente distinguem-se de outras esculturas do mesmo período na região, pois aparentam a fatura de uma escola hispano-flamenga, com proporções elegantes e um tratamento requintado dos rostos, barbas e pregueados. Ambos têm dimensões médias (entre 70 e 75 cm. de altura); cabelos e barbas bem trabalhadas, onduladas e compridas; vestes com pregueados bem organizados, com suave ondulação, transmitindo movimento às esculturas e expressões serenas, que refletem dignidade e nobreza. Os dois seguram um livro na mão esquerda, atributo dos apóstolos, assim como túnicas compridas. Mas, ambos estão calçados e o que tem a túnica mais curta [n.º 2] revela claramente as botas típicas dos viajantes, o que, aliado à subtil torção do corpo e o pé esquerdo a avançar, sugerem movimento ao santo, dando a sensação de estar a caminhar. Apenas o que tem o manto tipo toga [n.º 1] aparenta ter sido partido – notando-se, ainda, a cicatriz da emenda na zona dos joelhos, sob espessas camadas de repintes – e poderão ter-lhe acrescentado a zona inferior do corpo (dos joelhos para baixo), alterando a sua volumetria inicial e proporções, pois a imagem original deveria ser mais esbelta do que a S. Tiago. Século XVIII (?). Granito. Igreja de atual. Nota-se que a zona inferior tem um trabalho S. Simão da Junqueira. Nicho na fachada. mais frustre, desproporcionado e a base é tosca. No entanto, como até ao momento não foi possível fazer estudos e análises laboratoriais (apesar de colocarmos a hipótese de ser esta a imagem que estava truncada) não nos é possível apresentar qualquer conclusão segura. Ambos estendem a mão direita para segurar algo (que se perdeu), mas enquanto o n.º 1 tem a mão em baixo, podendo segurar algo como uma espada, o 2.º, com a mão à altura do ombro, encontra-se à altura certa para se apoiar num bordão de peregrino. O 1.º se tem, ainda, livro, túnica e amplo manto, colocado a envolver o corpo, característico da condição apostólica (Falcão, 2012, 156), por outro lado, dispõe duma escarcela, uma diminuta esclavina sobre os ombros (onde foram pintadas vieiras) e um pequeno chapéu com uma vieira em relevo na frente o que, a par dos sapatos (dos quais apenas se vê a ponta), são elementos identificativos do “peregrino”. A 2.ª imagem, além do movimento, da túnica mais curta e das botas já referidas, apresenta uma típica esclavina de peregrino com vieiras. Dispõe, ainda, de um grande chapeirão, com vieira, feito em metal pintado e que foi refeito há algumas décadas, seguindo o modelo do anterior que se encontrava muito degradado. Estas duas imagens exemplificam bem os modelos que vamos encontrar com mais frequência ao longo dos séculos XVII ao XIX.


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S. Tiago / S. Simão. Século XVI - XVII (?). Madeira policromada. Igreja de S. Simão da Junqueira.

S. Tiago (orago da paróquia de Amorim). Século XVI (finais) – XVII (?). Madeira policromada. Igreja de Santiago de Amorim (velha).

Por outro lado, encontram-se casos curiosos nas trocas de atributos iconográficos das imagens, sendo disso exemplo o que encontramos na igreja de S. Simão e S. Judas Tadeu da Junqueira, de Vila do Conde, um convento de Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, localizado no “Caminho”, onde se dava guarida e proteção aos peregrinos. Na fachada da igreja encontra-se uma estátua de pedra de S. Simão e, ao lado deste - onde deveria estar o outro orago, S. Judas Tadeu - encontra-se a escultura de S. Tiago Maior. A população local identifica, habitualmente, as imagens que se encontram na fachada como sendo os dois oragos e fica surpreendida quando peregrinos e outros visitantes protestam a identidade do apóstolo das Espanhas, ao observarem o tradicional chapeirão com a vieira na aba frontal levantada. Sintomático dessa tentativa de transferir a devoção a S. Tiago (muito marcante até ao séc. XVIII), para o depreciado S. Judas24, é a curiosa adaptação da imagem mais antiga daquele santo que se encontra no interior da igreja para um dos oragos. Junto ao arco cruzeiro, encontramos a escultura de S. Tiago (do século XVI, ou XVII), em que ainda é visível a vieira no chapéu, o livro e o alforge, mas, na sua mão direita (onde, tradicionalmente, se encontraria o bordão de caminhante) foi-lhe colocado uma serra, típica da iconografia do mártir S. Simão e pintada a legenda na base identificativa: S. Simão. 24

Devido ao seu homónimo, o traidor Judas Escariote.

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Cruz processional da Confraria do Santíssimo Sacramento de S. Tiago de Amorim. Século XVII. Cruz de prata com imagem de Cristo de chumbo policromado (séc. XVIII). Igreja paroquial de S. Tiago de Amorim.

Livros onde se registam as paróquias e os contributos que estas devem pagar à Igreja. O arquiteto foi Arnaldo Redondo Adães Bermudes, considerado um dos melhores arquitetos portugueses na época. É normal as igrejas disporem de uma segunda imagem do santo de maior devoção para ser colocada no altar nos dias da festa, enquanto o outro sai em procissão, ou para guarnecer a “mesa das esmolas” e, ainda, em certos dias ser utilizado em procissões no interior da própria igreja. 25

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A paróquia de Amorim, do concelho da Póvoa de Varzim, tem S. Tiago como orago e conserva um conjunto significativo de imagens do apóstolo, desde o século XVI até à atualidade. Esta é já referida nos “Censuais”25 de Braga (Amorim, 2002 - 2003, 26) (de 1091, 1220, etc.) como “De Sancto Jacobi de Amorim” (Costa, 1997, 167). Era paróquia antiga e abastada, à qual pertencia (até 1922) a atual freguesia de Aver-o-Mar, destacando-se pela riqueza e beleza das suas igrejas, capelas e oratórios. A velha igreja matriz (datada de 1595) foi construída no período “maneirista” e, em 1904, foi iniciada a construção do novo templo neorromânico26, financiada pela família dos “Bonitos” de Amorim, que a dotou com imagens e novas alfaias, possibilitando que a igreja “velha” se preservasse na totalidade. Assim, na paróquia conservaram-se várias imagens deste santo de diferentes épocas, origens e materiais. A imagem principal – que deverá datar de finais do século XVI, ou inícios do XVII – encontra-se na antiga igreja matriz, numa mísula do lado do Evangelho, no retábulo da capelamor – o local de honra, onde deve estar colocado o orago da freguesia. Conjuga os atributos de apóstolo (túnica talar; amplo manto vermelho (ou “toga”); barba e cabelos compridos; livro na mão), com os do peregrino (esclavina com vieiras; chapeirão; botas e bordão com cabaça). Na mesma igreja deparamos com uma elegante e enérgica imagem de menores dimensões do mesmo santo, cujo corpo se inclina para avançar e a leveza da esclavina levantada nos indica uma provável datação de final do século XVII27. Reproduz a escultura anterior, embora se distinga desta pela túnica mais comprida que cobre os pés. Como é usual, ambas se encontram revestidas de espessos repintes, resultados de restauros ao longo de séculos que dificultam o seu estudo.


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S. Tiago. Séc. XVII - XVIII. Igreja paroquial de S. Tiago de Sopo, Vila Nova de Cerveira.

Brasão de Armas. Séc. XVIII. Igreja paroquial de S. Tiago de Sopo, Vila Nova de Cerveira.

Provavelmente do século XVII devem ser as alfaias litúrgicas, como a Cruz Paroquial de S. Tiago e as duas lanternas processionais, em prata ricamente cinzelada, apresentando estruturas tubulares, molduradas e motivos inspirados na gramática decorativa arquitetónica de raiz tratadística: volutas; óvulos; campainhas; enrolamentos de acantos e outros elementos vegetalistas; cartelas lembrando pergaminhos recortados e enrolados, muito ao gosto “maneirista”. A cruz é particularmente interessante para nós porque, num medalhão na interseção dos braços da cruz, encontramos uma pequena imagem do santo peregrino com os tradicionais atributos. Curiosamente, sobre esta imagem, e dando cumprimento a uma ordem do Visitador em 176628 – em que todas as cruzes deveriam ostentar a figura de Cristo – foi-lhe pregada uma imagem de Jesus crucificado, policromado, de produção banal, numa liga metálica com chumbo, que cobre a zona inferior do medalhão. Este é de formado quadrangular, rematado por decorações concheadas sobressaindo nos cantos e vieiras, em relevo, também no interior dos quatro cantos. Ao centro a imagem de S. Tiago é visível da cinta para cima e percebe-se que segura o livro na mão direita, como apóstolo, mas tudo o resto recorda o peregrino: capa; chapeirão com vieira ao centro na aba revirada para cima; bordão onde está seguro uma grande cabaça e sacola à cinta.

1766 -20. Fev. - l2ªVis. (...) "Em satisfação aos decretos da Santa See Apostolica mando que em todos os altares se ponha na crux delles, quando ainda não tenhão, hua imagem de Christo Crucificado [Cristo crucificado] feito de escultura. Ao lado: "Dei aviso à Madre Abbadeça, do altar mor e cappela das Neves que lhe pertencem. Mandarão duas imagens de Christo.” (Brandão, 1964, 190-191).

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S. Tiago Maior. João d’ Affonseca Lapa. 1887. Madeira policromada e dourada. Capela de S. Roque / Santiago, S. José de Ribamar, Póvoa de Varzim.

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S. Tiago. Séc. XVII – XVIII. Igreja paroqial de S. Tiago de Labruge. Vila do Conde.

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Encontramos, neste Caminho, diversas paróquias com S. Tiago como orago, que dispõem de imagens deste Apóstolo e Peregrino, quase todas datáveis dos séculos XVII e XVIII. Por norma, a imagem principal é de dimensões médias e encontra-se no retábulo-mor, do lado do Evangelho. Em alguns casos, também se encontra uma pequena escultura em pedra na fachada, muitas vezes colocada em época posterior. Lembramos as paróquias de Cristelo (Caminha); Castelo do Neiva, Vila Nova de Anha, Cardielas (Viana do Castelo); Custóias (Matosinhos). Permitimo-nos destacar duas igrejas, às quais nos foi facilitada a sua visita e registo, e onde pudemos constatar o cuidado com a conservação e o gosto por adicionar novos elementos decorativos, como painéis de azulejos e esculturas, nomeadamente em Labruge (Vila do Conde) e S. Tiago de Sopo (Vila Nova de Cerveira). Esta última tem um aprimorado brasão de armas com os símbolos do peregrino a Santiago de Compostela, conserva diversas pinturas no interior da igreja e novos azulejos figurados no exterior, que demonstram a devoção vigente. Capelas como a do Recolhimento de S. Tiago e a de Santa Catarina, em Viana, destacamse pela qualidade e riqueza das suas imagens. Se no século XIX, como referimos, a veneração a S. Tiago foi-se esbatendo, ofuscada pelo surgimento de novas devoções e com as peregrinações dificultadas por guerras e epidemias, no entanto, na Capela de S. Roque da Póvoa de Varzim nota-se o cuidado em conservar o espólio da capela, restaurando-se o quadro do “Mata-mouros” (em 1832), repintando as esculturas antigas e adquirindo toda uma parafernália de objetos litúrgicos onde a vieira e outros motivos jacobeus estão fartamente representados.


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Em 1889, foi comprada uma nova imagem de tamanho natural e colocada no retábulo colateral do lado da Epístola (protegida por porta de vidro), atestando a permanência do culto ao apóstolo, mesmo em épocas mais recentes. Trata-se de uma imagem que representa “o” apóstolo a pregar, com um braço levantado, indicando o Céu. Mas, apesar de se encontrar numa posição frontal, a ligeira torção do corpo, desde o pé esquerdo, que avança, ao braço bem esticado - que o agiganta, num gesto naturalista de orientação - à expressão viva e convincente do rosto, transmite uma energia latente, uma expressiva “terribilitá”, que arrebata o devoto. Está vestido com túnica comprida, calça sandálias ligeiras, usa o convencional e classicizante manto vermelho, barba e cabelos compridos e segura, com firmeza, o costumado livro na mão. Até o rosto rude de trabalhador, em contraposição com a vivacidade do missionário, nos mostra que o autor conseguiu representar “o apóstolo pescador” de forma realista e S. Tiago. Lino da Costa Nilo [Fajardo]. 1872. Pintura convincente. Apenas a cabaça presa à cina óleo s/ tela. tura por uma tira de couro nos lembra as suas viagens e o peregrinar. É uma das obras do escultor naturalista João d’ Affonseca Lapa29, natural de Vila do Conde, com oficina em Gaia, que gostava de vir à Póvoa assistir às procissões - muitas vezes acompanhado do seu amigo, o escultor Teixeira Lopes - para “ver os seus filhos” (Barbosa, 1991, 45) - ou seja as imagens por ele criadas, a serem levadas nos “andores” processionais. Recentemente, em 1991, a capela-mor foi revestida por azulejos azuis e brancos30, figurativos, historicistas, representando os patronos: S. Roque (a invocação inicial) e S. Tiago, ambos sobre fundos paisagísticos enquadrados por molduras e outros motivos decorativos neo-rococós. S. Tiago encontra-se à beira mar, avistando-se um pequeno barco e, apesar de usar a túnica com manto, barba, cabelos compridos e pés descalços - como apóstolo – também traz o amplo chapéu e o bordão de peregrino.

As esculturas realizadas por João d’ Affonseca Lapa para Póvoa e Vila do Conde (Costa, 1997, 167) são em tamanho natural e enquanto umas são totalmente lavradas em madeira, outras são imagens de vestir, ou seja, esculpidas sem as vestes, mas com o corpo perfeitamente modelado. São naturalistas, mas destacam-se por refletirem a sincera devoção e crença do escultor, que começou por entalhar alegóricas figuras de proa, no seu primeiro local de trabalho, os estaleiros navais de Vila do Conde. Assim, podemos compreender que agradassem a clérigos e irmãos de confrarias, a braços com grandes dificuldades em encontrar bons imaginários, numa época de crescente descrença nos valores religiosos e místicos. As obras de cariz religioso distanciavam-se mais e mais da “grande arte” e, quando encomendadas a estatuários “afamados” da época, desagradavam aos fiéis pelo seu frio e desapaixonado tratamento académico. 30 Os painéis de azulejos foram fabricados em Aveiro. Tendo inscrição pintada - “D’ARTE AVEIRO” - e assinatura - “R. Campos / 91”. 29

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O teto foi renovado em finais do século XX e a pintura em tela que aí se encontrava foi encaixilhada e colocada numa parede lateral. Em todos os pormenores da nova igreja se nota a mão de mestre de Adães Bermudes e se reflete a preferência “romântica” da época pelos revivalismos historicistas. Estando Santiago associado, na Península Ibérica, a uma das mais emblemáticas construções românicas, faz todo o sentido que tenham escolhido o estilo neorromânico para a nova igreja paroquial. Este estilo é evidente nas decorações, como o tímpano – com o “Cristo em mandorla” – da porta axial, a todas as peças do mobiliário, que foram executadas segundo o mesmo “gosto”. 33 A partir do século XVI passam a representar turcos. 31

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Observando edifícios e coleções, tornase evidente que, a partir do último quartel do século XIX, é patente alguma abastança, fruto dos proventos da emigração no Brasil. Muitas igrejas pintaram (ou repintaram) os seus edifícios com figurações das suas imagens sagradas, adquiriram novo figurado e/ ou restauraram as antigas. Por exemplo, em Amorim, encontramos, ainda, uma pintura a óleo sobre tela que se encontrava no teto da nave31, na qual o pintor - Lino da Costa Fajardo (Nilo) - além de assinar e datar aproveitou para deixar o seu endereço: “Lino Pintou. Rua / d’ Alegria nº 30. Povoa / 1872”. E, apesar de não ser uma pintura erudita, é interessante porque nos mostra a figuração do santo com os atributos de apóstolo (túnica comprida azul, toga vermelha) e de peregrino (esclavina com vieira; chapeirão; bordão e cabaça) assemelhando-se à pequena escultura antes descrita. Na nova igreja paroquial de Amorim32 não podia faltar uma correta e afável imagem do mesmo apóstolo, de inícios do século XX, também localizada em destaque, como na antiga, do lado do Evangelho, sobre uma mísula, na capela-mor. É a imagem que reproduz melhor a tipologia do “peregrino”. Túnica mais curta; botas de cano alto; esclavina com conchas; chapéu e bordão com cabaça. O último tipo iconográfico identificado é o “S. Tiago Mata-mouros”. O apóstolo é representado como um feroz guerreiro montado num garboso cavalo branco (por S. Tiago Peregrino. Séc. XX. Madeira policromada. regra), com o braço direito erguido e branIgreja (nova) de S. Tiago de Amorim. dindo uma grande espada, lançado sobre espessa massa de infiéis - os quais envergam trajes mouriscos33 - reproduzindo o lendário Milagre da Batalha de Clavijo, em que as tropas de Ramiro I, das Astúrias, no dia 23 de Maio de 844 (Leite, 1987, 395), enfrentaram os exércitos de Abderramán II. Neste combate, quando tudo parecia perdido para as tropas cristãs, terá surgido um cavaleiro que desbaratou as hostes muçulmanas, dando a vitória aos cristãos.


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Era o apóstolo S. Tiago34. Uma das mais antigas e influentes representações deste episódio com o cavalo a galope35 encontrase na Catedral de Compostela, no tímpano de Clavijo (ca. 1236). Aí o apóstolo é representado como um guerreiro, com a espada em riste na mão direita e um estandarte na esquerda. Nota-se que segue o modelo com que eram representados, nas iluminuras, os nobres cavaleiros terratenentes da Península na sua cruzada contra os mouros36. Esta figuração aguerrida explica-se pelo ideal de cruzada - na Península Ibérica mantida até mais tarde devido à “Reconquista”. Aqui, a luta contra os muçulmanos invasores decorreu de 711 a 1492 e perdurará na emblemática da Ordem de Santiago (Réau, 1996, 177). Não esqueçamos que, ao longo dos séculos o sentimento anti Islão continuará a ser aguilhoado pelos ataques turcos à Europa cristã e pelo pavor provocado pelas razias súbitas empreendidas por piratas berberes37. Esta tipologia difunS. Tiago Mata-mouros. Século XVII (?). Madeira policromada. Proveniência: Capela do Desterro de Vila diu-se por toda a Espanha, em Portugal, do Conde. colónias Ibéricas e pela Europa38. No nosso país destaca-se o exemplo do belíssimo baixo relevo em Santiago do Cacém (de ca. 1330) (Falcão, 2012, 218). No nosso arciprestado também o encontramos como guerreiro em plena batalha, em duas esculturas de Vila do Conde e uma pintura na Póvoa. É curioso que, normalmente, nas representações mais antigas enverga simplesmente a túnica e manto de apóstolo e assinala-se o seu carácter bélico pela espada, brandida sobre a cabeça, concomitantemente com a atitude agressiva do cavalo, empinado, que esmaga os inimigos com as patas dianteiras. Estas representações assemelham-se à iconografia de S. Milan, em que o anacoreta da Rioja aparece a cavalo, com hábito preto39 e uma espada (Roig, 1950, 203) ondulada, na Batalha de Simancas (939), a auxiliar Ramiro II e outros reis cristãos, contra Abd-al-Raman III. Nas representações mais tardias, particularmente a partir do sé34 Curiosamente as mais antigas referências documentais a Santiago auxiliador e cavaleiro, são divulgadas na “História Silense”, escrita ca. 1115. Este documento reproduz crónicas anteriores, uma das quais relata o reinado de Fernando I e a Tomada de Coimbra. Aí se conta que, em 1064, um peregrino grego, na sua visita à Catedral de Compostela, teve a visão de Santiago a cavalo, com as chaves de Coimbra na mão. Alguns dias depois soube-se que Coimbra tinha sido efetivamente tomada. 35 Em contraposição com o Santiago que tem o cavalo a passo, mais heráldica, e cuja representação mais antiga que se conhece encontra-se no “Tumbo Menor de Castilha” (ca. 1236). (Vázquez Santos, 2012, 69). 36 Como se encontram iluminados os reis Fernando II e Afonso IX (ca. 1175 – 1208), no Tumbo A do Arquivo Catedralício de Santiago. (Vázquez, 2012. 69). 37 A hostilidade ao Islão é comum entre as populações do litoral, vítimas frequentes de ataques de corsários berberes que flagelavam as costas em busca de escravos, ou reféns, para obterem resgates. 38 Encontramos imagens de Santiago Mata-mouros sobretudo na Europa do Sul, que sofre com os crescentes ataques dos turcos nos século XV e XVI, fazendo reviver o ideal de cruzada. Na luta contra os turcos destaca-se a célebre Batalha de Lepanto, em 1571 e Alcácer Quibir, em 1578. 39 San Millán viveu como eremita na zona da Rioja numa cova no local (e morreu em 574, com 101 anos) onde será instalado o mosteiro de San Millán de la Cogolla – “de Suzo” – e, a partir de 1053, num espaço mais amplo e baixo, foi construído o importantíssimo Mosteiro de “Yuso” (“Cuna de la Lengua”). Tornou-se patrono de Castela e “co-patrono” de Espanha. Enverga amplo hábito preto, como beneditino, embora ele não tenha sido frade, mas sim anacoreta. Como o seu eremitério deu origem ao mosteiro com o seu nome é, frequentemente, representado como frade, com báculo.

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Por vezes usa, sobre a armadura, o hábito branco com a cruz vermelha dos cavaleiros espatários, ou seja, da Ordem de Santiago da Espada. É o que vemos, por exemplo na tábua de Santiago Mata-mouros do Retábulo de Santiago, da 1.ª metade do séc. XVI. Cf. (Gonçalves,1979,8-9).

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S. Tiago Mata-mouros. Século XVI (?). Madeira policromada. Mosteiro de Santa Clara, Vila do Conde.

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culo XVI – em que a luta contra os turcos campeava - e a emblemática da ordem de Santiago tentava destacar o seu aspeto nobre e cavalheiresco40, reforça-se o aspeto marcial do santo mediante o uso de armadura completa e a clâmide vermelha. Na Capela de S. Tiago de Vila do Conde - mais tarde denominada Capela de Nossa Senhora do Desterro e (re)construída segundo traçado contemporâneo - encontra-se uma majestosa imagem do “mata-mouros” de longas barbas, lembrando os heráldicos retratos de cavaleiros até ao século XVI. O cavalo branco, de dimensões reduzidas - para não retirar preponderância ao santo, que se agiganta – é representado a galope com as patas dianteiras levantadas, numa atitude dinâmica e agressiva, semelhante à postura do corcel que já encontramos no tímpano da Batalha de Clavijo da catedral de Santiago de Compostela (ca. 1220) e na iluminura do Tumbo B (ca. 1326), do mesmo templo, em que são representados, pela primeira vez, os inimigos mortos a seus pés (Vázquez, 2012, 69). O santo enverga túnica comprida, o típico manto vermelho, pés descalços (segundo a tipologia de apóstolo) e não apresenta nenhum acessório de peregrino. A sua mão direita segura uma longa cimitarra, realizada em metal e reproduzida em época recente. É curioso ostentar este tipo de arma, no entanto, pela posição em que se encontra, a linha curva do gume cria um arco sobre a cabeça do santo, a qual dignifica e santifica a imagem, pois ao reproduzir a linha de uma ampla auréola, circunscreve a escultura numa mandorla imaginária. De menores dimensões (com esquema compositivo básico e tratamento mais rude) conserva-se outra destas representações nas reservas do mosteiro de Santa Clara (à guarda da paróquia Matriz de Vila do Conde). Também tem uma túnica ampla, barba (mais curta), pés descalços, mas um chapéu com vieira identifica-o como peregrino. Embora lhe falte o braço direito, é percetível que ele estava levantado, como o anterior e o braço esquerdo segura um estandarte, que nestas imagens “marca” uma linha compositiva em diagonal, que destaca a atitude ativa, impetuosa e agressiva do tema.


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Na capela de S. Roque da Póvoa de Varzim (1582 (Barbosa, 1958, 277)) conserva-se um quadro de Indulgências da Confraria41 de S. Tiago42 onde podemos ver a garbosa figura do S. Tiago Mata-mouros a cavalo e, sob os cascos do mesmo, os corpos ensanguentados de muçulmanos que, adaptando-se à época da execução da pintura se mostram trajados “à turca”. A ameaça turca à Europa, que se manteve, mais ou menos viva, desde o século XV até ao século XVIII, justifica esta mudança. O medo do “infiel” englobava todos os medos de ameaças externas43 à segurança e estabilidade das populações, pois a guerra podia trazer a fome, a morte e as doenças, ou ainda, o cativeiro e a escravatura, um destino terrível. Vamos encontrar nas nossas igrejas caixas de esmolas para a remissão dos cativos, ou para a Bula da Santa Cruzada, ou até ex-votos atestando esses perigos. Rocha Peixoto transcreveu a legenda de uma tábua votiva (infelizmente não datada) no Bom Jesus de Braga de um cativo que penou nove anos como escravo em Argel44. No Museu da Póvoa de Varzim, enTábua de Indulgências da Confraria de S. Tiago da Pócontra-se uma caixa de esmolas do século voa de Varzim. Anterior a 1832 (data da “reforma”). XVIII, que apresenta a inscrição: “Caxa da Pintura a óleo sobre madeira. Subscrição pintada na Bula da Santa Cruzada”, servia para receber base: “Sumario das Indulgencias da Confraria de Santiadonativos usados, nomeadamente, no resgo (...) foi Reformado por Ordem da Meza no Anno de 1832 gate de cativos. Este revelava-se um provei- pinto[u] Fajardo na Rua Nova”. Capela de S. Roque / Santiago da Póvoa de Varzim. toso negócio para os piratas que raptavam mareantes, ou habitantes do litoral, para depois negociarem o seu resgate, muitas vezes assegurado com grandes dificuldades pelos monges Trinitários (Alberto, 2011). Os frequentes ataques de turcos e mouros, bem como as noticia de maus tratos e violências infligidos aos cativos, vão reforçar esse sentimento profundamente anti-islâmico.

41 Muito embora esta Confraria de Santiago da Póvoa tenha desaparecido, a devoção perdurou e é curioso notar que a capela localizada na zona comercial e burguesa da Povoa de Varzim continua a ser a preferida e frequentada por membros da classe piscatória poveira. 42 O quadro de Santiago Mata-mouros tem sido datado de meados do século XVII, mas torna-se difícil confirmar esta datação porque foi restaurado (e, parcialmente repintado) em 1832, por um pintor local, Eduardo, da Rua Nova, conforme atesta na parte inferior da subscrição: “SUMARIO DAS INDULGENCIAS DA CONFRARIA DE SANTIAGO / INDULGENCIA PLENARIA COM REVISAÕ. DE TODOS OS PECADOS II A TODA A PESSOA Q~ CONFESSADA E TEND/ comungado o Santsmo. Sacramto. da eucaristia emtrar nesta irmandade (...) ~ ffoi reformado / por ordem da Meza do Anno De . 1832 ~ Pintor Eduardo na Rua Nova” 43 O Norte de África estava sob o domínio islâmico, facilitando que daí partissem embarcações de piratas e corsários que flagelavam as costas mediterrânicas e as atlânticas próximas do estreito de Gibraltar. No Índico os portugueses também tinham constantes enfrentamentos contra muçulmanos, o que faz permanecer essa sensação de medo e ameaça latente. A ideia de que, por intervenção divina um santo pudesse descer à terra e combater, ombro a ombro, com os guerreiros da fé cristã, enchia de esperança e fé os soldados e marinheiros que nesta altura se lançavam na luta contra os combatentes de “Mafoma”. 44 A legenda foi transcrita por Rocha Peixoto (1905, 198), mas não encontramos, na atualidade, este ex-voto no Santuário do Bom Jesus do Monte. “M. que fez o Bom Jesus do Monte a João Fermeira o qual estando capti- / vo em Argel nove annos apegando-se com o mesmo Snr. foi resga / tado / Bom Jesus. Braga.”

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Não é, pois, de admirar que a Tábua das Indulgências da Confraria de S. Tiago da Póvoa de Varzim, instalada na capela de S. Roque / S. Tiago, bem perto do mar, e certamente agrupando pescadores e mareantes poveiros, tivesse como figuração o aguerrido S. Tiago MataMouros e não o calmo e pacífico S. Tiago Peregrino. O esquema da pintura45 tem afinidades com as imagens referidas antes (se bem que o apóstolo e seu corcel estejam virados para o lado oposto). Também tem o cavalo rampante, que esmaga, de forma assustadora e sangrenta, os aterrados inimigos da fé cristã. As calças e mangas “tufadas”, os ricos turbantes, faixas e coletes identificam os turcos e as bandeiras com o crescente do Islão, inclinadas, a cair do lado direito, representam a derrota dos muçulmanos. S. Tiago enverga uma túnica verde e um manto esvoaçante escuro. Como cavaleiro usa botas, espada, e escudo, elementos que lhe conferem um incontestável aspeto bélico. Segura, com a esquerda, uma lança onde drapeja um estandarte de cor vermelha com uma cruz branca “recruzada” (Teixeira, 1985, 77), que nos lembra que a Cruz de Cristo chegou aos 4 cantos da Terra. Apenas o chapéu com uma pequena vieira sobre a fronte e outra vieira aplicada no ombro sobre uma quase impercetível esclavina negra, o identificam como peregrino. A composição é, também, organizada em função de uma linha diagonal principal - que vai da cabeça de um turco no canto inferior esquerdo, passa pelo pescoço do cavalo e vai à ponta da lança de Santiago - que se contrapõe a outra diagonal (formando, assim, uma subtil e dinâmica composição em X), que parte do grupo de turcos em cima, à esquerda, passa pela cabeça do cavalo, garupa, e termina na linha de um corpo sem cabeça no canto inferior direito.

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S. Tiago Mata-mouros. Séc. XIX. Gravura sobre papel. Museu Municipal da Póvoa de Varzim. N.º Inv. 2015-118-269.


Deolinda Carneiro Santiago. Patrono de Espanha. Printed in Western Germany. Séc. XX. Estampa colorida s/ papel. Coleção particular em depósito no Museu Municipal da Póvoa de Varzim.

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S. Tiago Mata-mouros. Séc. XIX (?). Pintura a óleo. Igreja paroquial de Sopo, Vila Nova de Carveira.

S. Tiago Mata-mouros. 1929. Fábrica Aleluia. Aveiro. Painel de Azulejos. Igreja paroquial de Sopo, Vila Nova de Carveira.

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S. Tiago Mata-mouros. Séc. XX. Faiança pintada. Casa particular. Areosa, Viana do Castelo.

Nicho de Alminhas do Purgatório. Séc. XVIII - XIX (?). Apúlia. Esposende.

46 No Museu Municipal da Póvoa de Varzim conservam-se registos (gravuras) e estampas com a representação de S. Tiago Matamouros, que estiveram encaixilhadas e foram usadas como decoração nas casas da região.

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Encontra-se, também, uma pintura (a óleo) de S. Tiago Mata-mouros na tela da abertura da tribuna do retábulo da capela de Santa Catarina em Viana do Castelo, atribuível ao séc. XVIII, que corresponde à iconografia que se vai cristalizar, neste período, e vai perdurar em gravuras e estampas até ao séc. XX, nas casas dos fiéis46 e vão ser reproduzidas nos tetos das igrejas, painéis de azulejos e relevos decorativos em faiança. Também devemos lembrar os tradicionais “Nichos de alminhas do Purgatório” - que pontuam caminhos e sacralizam encruzilhadas - onde, sobrevoando, as chamas do Purgatório encontramos anjos e santos remindo as almas. Um curioso exemplar na Apúlia (Esposende), tem a encimar a abertura do nicho um motivo decorativo em forma de chapeirão com uma concha de vieira ao centro. Serviria como um indicador de caminho?


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Cultos associados a S. Tiago A devoção à Nossa Senhora do Pilar surge associado à de S. Tiago pois, segundo a lenda, quando o santo visitou Caesaraugusta, a atual Saragoça, teve uma visão de Nossa Senhora, de pé sobre uma coluna (ou pilar), que alentou o Apóstolo Tiago a continuar a sua evangelização nas Espanhas47. A devoção espalhou-se para toda a Península. Sabemos que na igreja Matriz da Póvoa e na capela de S. Roque de Vila do Conde foram cultuadas imagens da Virgem do Pilar, e ainda se conservam mais duas nas freguesias rurais de Amorim e Arcos. Na igreja de S. Tiago de Amorim conserva-se uma pequena imagem de Nossa Senhora envergando túnica vermelha, manto azul, que ampara no braço esquerdo um rechonchudo Menino despido, muito ao gosto do maneirismo. Tem longos cabelos louros que caem em madeixas onduladas pelas costas e um rosto de menina. Apesar dos repintes aparenta ser uma imagem do século XVI. O pilar poligonal, que permite a sua identificação, é ornado com uma cruz de Cristo na zona frontal, mas apresenta um trabalho mais frustre e com menos detalhe. Na Póvoa sabemos que, na primeira metade do século XVIII, havia uma “N. Snr.ª do Pilar”, encimando o altar de S. João Baptista, na antiga Igreja Matriz, mas desconhece-se o seu paradeiro48. É possível que lhe tenham retirado os signos distintivos, como aconteceu com outras imagens quando as respetivas devoções esmoreceram49.

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Nossa Senhora do Pilar. Século XVI - XVII (?). Madeira policromada e dourada. Igreja de Santiago de Amorim (“velha”).

N.ª S.ª do Pilar. Séc. XVIII. Madeira policromada (estofada) e dourada. Proveniência: Capela de S. Roque de Vila do Conde. Museu da Ig. Matriz de Vila do Conde.

O pilar - ou coluna - lembra que os Apóstolos são as “colunas”, as “pedras vivas”, sobre as quais se edificou a Igreja. Dr. Leandro Rodrigues (entre 1736 -1747). (Barbosa, 1958, 276). Por exemplo, um S. Pedro Gonçalves Telmo, facilmente identificável pela indumentária e alguns atributos (como o livro e um barco aos pés), foi-lhe colocada uma legenda para o identificar como “S.to Isidóro”.

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A iconografia de S. Tiago e outros santos “peregrinos”, no Caminho da Costa

“A Capela de S. Roque, situada no meio da Rua chamada de S. Roque, desta Vila, onde se venera a imagem do mesmo santo, Nossa Senhora do Pilar, S. Francisco Xavier, e Santa Quitéria, há notícia que é fundação de promessa do povo, e é capela deste, e administração pública: Tem duas confrarias, a saber, de S. Roque e de Nossa Senhora do Pilar.” (Freitas, 1988, 60). 51 As conchas são utilizadas como motivo decorativo e simbólico desde o Império Romano, até ao neoclassicismo, no século XIX. No período do Renascimento e no século XVIII surgem frequentemente, quer na sua representação frontal e simétrica - enquadradas por arcos ou rematando diferentes molduras – quer irregulares, assimétricas e naturalizadas, particularmente no período rococó. Por outro lado, como já vimos, é símbolo da Peregrinação, inicialmente apenas a Santiago e progressivamente de todos os que buscam os principais santuários. 52 Os ex-votos dedicados a N.ª S.ª do Pilar, que antes se encontravam nas paredes da capela, estão agora na Casa Museu José Régio. 50

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No Museu da Igreja Matriz de Vila do Conde conserva-se uma barroca e esplendorosa imagem. Distingue-se das “rechonchudas” imagens entalhadas em Braga, pelos seus traços finos, duma elegância áulica, com uma execução requintada. A graça dos gestos e a amabilidade dos traços indiciam uma peça de gosto cortesão. A iconografia desta imagem, com a Nossa Senhora a segurar o pé do Menino, lembra-nos as de Nossa Senhora do Rosário e sabemos que o seu culto foi aqui florescente desde o século XVI. No entanto, ela é incontestavelmente identificada como Virgem do Pilar, graças à parcela de coluna que a sustenta, embora seja constituída apenas pela base e um pequeno segmento de fuste. Mas esta imagem excecional deve ser S. Tiago diante da aparição de Nossa Senhora do Pilar / vista em paralelo com o conjunto em que se 1746 / Painel de azulejos pintados (azul e branco) / Caintegrava. Fazia parte do espólio da Capepela de S. Roque. Vila do Conde. la de S. Roque de Vila do Conde, a qual foi fundada em 1580, devido à peste que grassou depois de Alcácer Quibir, em 1578. No entanto, S. Roque, a quem foram dedicadas tantas capelas neste período (a da Póvoa foi instituída logo a seguir, em 1582), foi sendo subalternizado em algumas delas por devoções que lhe estavam associadas. Assim, a capela da Póvoa torna-se mais conhecida por capela de S. Tiago e, na de Vila do Conde, foi Nossa Senhora do Pilar quem ganhou destaque. Nesta última, as Memórias Paroquiais de 175850 atestam que aí se venerava e tinham confraria: S. Roque e Nossa Senhora do Pilar. Neste templo foram colocados azulejos barrocos, azuis e brancos, com painéis enquadrados por molduras, representando: A Morte de Nossa Senhora; a Aparição de Nossa Senhora do Pilar a S. Tiago e a construção da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, em Saragoça. Tudo envolto por grande profusão de motivos decorativos barrocos, como querubins, apontamentos arquitetónicos e vegetalistas, bem como conchas diversas, incluindo as tradicionais vieiras51. “No coro lê-se o seguinte na parede voltada a norte: «Esta obra de Azulejo mandaram fazer os devotos de N.ª S.ª do Pilar no ano de 1746.» (Neves, 1991, 95). A ela também foram dedicados interessantes ex-votos52. Na igreja de Arcos, Vila do Conde, também está exposta à veneração dos fiéis uma pequena imagem de Nossa Senhora do Pilar. É muito semelhante à de Amorim, embora se enquadre num gosto neoclássico. Será a mais recente das referidas, sendo datável de final do século XVIII, ou XIX. O Menino está vestido e a Virgem tem véu. A coluna, também com a Cruz de Cristo, é de melhor fatura. Recordamos que Arcos situa-se no “Caminho Central” para Santiago de Compostela, próxima de uma ponte importante para a passagem do Rio Ave, a Ponte d’ Este.


Deolinda Carneiro Ex-voto a Nossa Senhora do Pilar. 1766. Pintura a óleo. Casa Museu José Régio, Vila do Conde.

A iconografia de S. Tiago e outros santos “peregrinos”, no Caminho da Costa

Como já referimos, a devoção a S. Tiago pode também ser revelada, por interposta pessoa, pela veneração devotada a outros santos, também eles peregrinos, ou seus protetores. S. Roque (N. ca. 1350 em Montpellier – M. ca. 1371 em Montpellier, ou Voghera, Lombardia) tornou-se protetor dos pestíferos ao longo do século XV, quando a sua biografia se divulga e é integrado no martirológio. A sua história justifica esta nova invocação, atendendo que, durante a viagem de peregrinação a Roma53 – que calhou na época da terrível Peste Negra54- foi ajudando muitos pestíferos, a quem curava fazendo o sinal da cruz. Por outro lado, ele próprio, ao regressar a casa, contraiu a doença perto de Piacenza (Itália) tendo-se refugiado num bosque para não contaminar ninguém. Aí foi ajudado por Deus, que lhe enviou um anjo para o consolar e tratar com um bálsamo a ferida, fazendo, ainda, brotar uma fonte para ele matar a sede. Um cão levava-lhe um pão todos os dias para se alimentar55 e lambialhe as feridas. Tendo recuperado, teria regressado à terra natal onde ninguém o reconheceu, tendo sido preso por espionagem e morrido na prisão, onde foi descoberto irradiando uma luz milagrosa.56. Toda a sua história lembra o poder curativo do santo, a sua compreensão pela doença, que sofreu na própria carne, depois de ter assistido e tratado outros doentes e apela ao auxílio de Deus, seja através de um anjo que cura e consola, ou através do apoio do simpático animal - como o fiel cão - que o alimenta. Assim, quando a sua vida foi divulgada, o Concílio de Ferrara, sob a ameaça de um surto de peste, pediu orações públicas a S. Roque e foram levadas relíquias suas para Veneza (1485). A partir daí a sua fama espalhou-se rapidamente por toda se Europa, acompanhando os múltiplos surtos de peste.

53 S. Roque, tendo ficado órfão de pais jovem, ofereceu a sua fortuna a pobres e hospitais e partiu para Roma em 1367, tendo-se demorado por lá até 1371. 54 A peste negra propagou-se na Europa entre ca. 1347 e 1350, mas nos anos subsequentes foram acontecendo surtos em diferentes zonas. 55 O cão levava um pão todos os dias a S. Roque, à semelhança do corvo que também levava um pão diário a S. Paulo eremita. 56 Aspetos da sua vida podem ter sido inspirados na vida de Santo Aleixo, que foi em peregrinação à Terra Santa, vindo a morrer como mendigo, debaixo da escada da casa da sua família, em Roma. (Réau, 1996, 147-153).

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57 A expressão “romeiro”, muitas vezes usada como sinónimo de peregrino, na verdade refere-se aos que viajavam (por motivos religiosos) em direção a Roma. 58 Infelizmente os restauros são tão “espessos” que se torna difícil ver as características originais destas peças.

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N.ª S.ª do Pilar. Séc. XIX – XX. Madeira policromada. Igreja paroquial de S. Miguel de Arcos, Vila do Conde.

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N.ª S.ª do Pilar. Séc. XIX – XX. Madeira policromada. Igreja paroquial de S. Miguel de Aros, Vila do Conde.

Considerando que ele peregrinou a Roma57, devia carregar as respetivas insígnias dos romeiros, ou seja duas chaves cruzadas (enquanto os que se deslocavam à terra Santa traziam uma imagem da Santa Face) mas, o mais frequente, é ser representado com a indumentária do peregrino a Santiago de Compostela (ou de um S. Tiago peregrino) adotando, também, as suas insígnias mais típicas, como a concha de vieira sobre a esclavina, que remata a capa, a veste curta, que permite ver as botas de caminheiro, chapéu, bordão, cabaça e bornal. O que especificamente o identifica sem qualquer dúvida é o bubão de peste na perna - que mostra afastando a indumentária - o cão, solicito, que lhe leva o pão e, por vezes, o anjo que o consola e trata. Como é natural vamos encontrar a sua imagem tutelar nas capelas com o seu nome, que se encontram em quase todos os concelhos. Muitas delas surgiram na sequência de períodos de epidemias e - tal como a devoção a S. Sebastião – os cuidados e desvelos com estas imagens reacendem-se ciclicamente, a par das novas doenças e flagelos. Encontramos interessante imagens, como o fascinante S. Roque, da Capela com esta invocação, em Monserrate, Viana do Castelo, cujos pregueados, nos lembram a estilização da escultura f lamenga. A estilizada e elegante escultura da Capela de S. Roque em Vila do Conde, que abriga os azulejos de N.ª S.ª do Pilar antes referidos. Os arcaicos S. Roques das Capelas de Cortes e de Gontige, em Vila Nova de Cerveira58. Bem como belas e barrocas imagens de Valença; Caminha (da Capela de S. Isidro, em Moledo); Afife, Areosa e Igreja de S. Domingos, de Viana do Castelo; Esposende; Póvoa de Varzim; etc. quase todas dos séculos XVII e XVIII.


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S. Roque. Séc. XVII (?).Madeira policromada. Capela de S. Roque. Vila do Conde.

S. Roque. Séc. XVII (?). Madeira policromada. Capela de S. Roque de Gontige, Vila Nova de Cerveira.

S. Roque. Oficina dos Irmãos Maia, 1955. Cap. S. Roque. S. José de Ribamar. Póvoa de Varzim.

S. Roque. Joaquim Lopes, 1917. Óleo sobre tela. Cap. S. Roque. S. José de Ribamar. Póvoa de Varzim.

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De qualquer maneira na Capela de S. Roque na Póvoa, como noutras capelas, há uma nítida vontade de renovar e atualizar as obras de arte. Assim compreendemos a encomenda das pinturas de S. Roque a um erudito pintor academista, Joaquim Lopes, em 1917, e a aquisição de uma nova imagem a uma conhecida oficina de santeiros de Cidadelhe, os “Irmãos Maia”, em 1955.

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S. Roque. Séc. XVII (?). Madeira policromada. Capela de S. Roque, S. José de Ribamar, Póvoa de Varzim. Reservas.

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Deolinda Carneiro S. Gonçalo de Amarante. Séc. XVII (?). Madeira policromada. Igreja paroquial de Beiriz, Póvoa de Varzim.

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S. Gonçalo de Amarante. Séc. XVII (?). Madeira policromada. Sala do Cabido. Museu da Sé do Porto.

S. Gonçalo de Amarante. Séc. XVII (?). Madeira policromada. Capela de S. António, Rates, Póvoa de Varzim.

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Pode-se considerar a figura do S. Gonçalo como mais afastada desta plêiade de santos jacobeus, pois não se conhece ligação à história de S. Tiago. No entanto, como construtor de uma ponte, torna-se protetor dos caminhos e dos viandantes e, logicamente, dos peregrinos que demandavam os lugares santos. Também neste percurso encontramos este santo dominicano e benfazejo, com alguns exemplos particularmente interessantes atribuíveis ao séc. XVII, como uma escultura conservada na sala do cabido da Sé do Porto, ou a pequena peça da igreja de Beiriz, Póvoa de Varzim, ou as reportáveis ao séc. XVIII, na capela de S. António, em Rates, ou no Convento de S. Domingos, em Viana do Castelo. A escultura de Custóias, pelo acabamento elegante e realista aponta para um período mais recente e classicizante.


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S. Cristóvão e S. Jorge. Madeira e tecidos. Séc. XVIII (?). Capela de S. João Baptista. Caminha

No século XX, S. Cristóvão, patrono dos automobilistas e outros viajantes, foi identificado, pela Igreja, como uma figura mítica, de origem lendária. Mas apesar das suas imagens terem sido retiradas do culto e dos altares, não o podemos esquecer neste trabalho. Gigante lendário que, desde que se converteu ao cristianismo teria ajudado os viajantes a atravessar um rio de águas caudalosas, onde não havia ponte, tornou-se patrono dos motoristas, muitos dos quais continuam a zelar pela sua figura tutelar. Como orago de algumas paróquias, nomeadamente de Rio Mau, as suas imagens são toleradas nas suas igrejas. A sua colossal e protetora figura ainda se encontra pintada em muitas catedrais em Espanha e, nesta região, nomeadamente em Vila Nova de Cerveira (na Igreja Matriz) e em Caminha (na capela de S. João Baptista), ainda se podem observar as suas esculturas de vestir, semelhantes aos brincalhões “cabeçudos”, pois que, pelo menos quando se realizava a Procissão do Corpo de Deus, tinham que sair na rua, assim como a escultura do S. Jorge, que se encontra, por vezes, ao lado do “gigantone”. Noutros templos, encontramos “pequenos” vestígios, como a mão de um S. Cristóvão, na igreja do Convento do Carmo, em Vila do Conde, também junto à figura cavalheiresca de S. Jorge.

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Mão de S. Cristóvão. Séc. XVIII - XIX (?). Madeira policromada. Igreja do Convento do Carmo. Vila do Conde.


Deolinda Carneiro A iconografia de S. Tiago e outros santos “peregrinos”, no Caminho da Costa

S. Amaro. Séc. XVII – XVIII. Igreja paroqial de S. Tiago de Labruge. Vila do Conde.

S. Aleixo. Séc. XVIII (?). Madeira policromada. Sé do Porto. Reservas.

Por sua vez, um raro e interessante, S. Aleixo, mártir e peregrino, conserva-se nas reservas da Sé do Porto. Santo Amaro, protetor das pernas (e, assim sendo, dos caminheiros) encontra-se, por exemplo na respetiva capela de Vila do Conde, na paroquial de Labruge, ou na Capela do Desterro da Póvoa de Varzim59. Como remate, lembramos uma castiça e curiosa imagem - conservada no Museu do Seminário Maior do Porto – pertencente, provavelmente a um Grupo da: “Sagrada Família no Desterro”. Recordando a viagem de S. José, Maria e o Menino Jesus, aquando da sua fuga para o Egito, apresenta todos os acessórios de um caminheiro. Pensando na viagem realizada para salvar o Menino, é compreensível que S. José possa aparecer envergando a indumentária de “peregrino”. Estas e outras devoções, prendem-se à ideia que o Homem é um peregrino na Terra e, quem viaja, reflete esse estado de insegurança e necessidade de auxílio que a Igreja nunca deve esquecer, lembrando as Bem-aventuranças...

O S. Amaro da Capela do Desterro é em tamanho natural, naturalista, pois trata-se de uma aquisição já do séc. XX, ao famoso santeiro de S. Mamede do Coronado, José Ferreira Thedim.

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S. José Peregrino. Séc. XVIII. Madeira policromada. Museu de Arte e Arqueologia do Seminário Maior. Porto.

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Ă lvaro Campelo

Fazer o Caminho: Construir e viver a Paisagem Ă lvaro Campelo

Fazer o Caminho: Construir e viver a Paisagem

Professor Associado da UFP. Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia.

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Resumo

Álvaro Campelo

Fazer o Caminho Português da Costa, é percorrer um território marcado pela água e pelas referências míticas e lendárias da paisagem. Desde o Porto a Valença, desde o urbano ao rural, passando por veigas férteis, transpondo rios e ladeando o mar atlântico, o caminhante de Santiago faz uma viagem onde a paisagem e a interpretação dela, pelas narrativas do fantástico, são um património natural e cultural vivido. Sejam quais forem as intenções e objetivos do peregrino, impõe-se-lhe sempre esta relação com a paisagem costeira. Dessa relação nasce um experiência emocional, sensitiva e espiritual, frequentemente comunicada pelos caminhantes. Ao longo do percurso há muitas lendas, impossíveis de citar todas neste breve texto. O que aqui procuramos foi, invocando o extraordinário e o lendário, dar a possibilidade de interpretar e viver este território costeiro. Trata-se de um território marcado por referências à própria história de Santiago, aos santos prediletos da devoção dos peregrinos, às dificuldades do caminho, aos lugares e monumentos mais surpreendentes, que, por o serem, exigiram a exceção da fantasia, a invenção de mundos e a superação do humano. Assim, caminhar para Santiago, olhando o mar, sentindo uma paisagem que reflete séculos de ocupação humana, é transpor para o corpo, pelos sentidos, uma nova experiência de conhecimento, de vivência. E talvez seja esta a experiência espiritual, emocional e física que mais permanecerá na memória daquele e daquela que um dia percorreu o caminho!

Fazer um caminho, como é o caso do ‘Caminho de Santiago’, é fazer opções, acertar ou errar percursos, hesitar entre alternativas, sendo que em todas estas existem razões para as possibilidades de escolha. Na maior parte das decisões o que impera é o ponto de partida – onde se habita, de onde de sai – os meios disponíveis, as dificuldades a encontrar e como as superar, os recursos a usar durante o percurso, assim como a segurança e acolhimento esperados. Atingir o santuário, onde está o túmulo do Apóstolo é o desiderato final. Para conseguir este objetivo, o peregrino pondera todas as possibilidades de risco. Durante séculos de peregrinação, dois riscos estiveram associados ao êxito ou fracasso do empreendimento: os primeiros, os da hospitalidade, da existência de comunidades de apoio e dos possíveis conflitos – alguns deles associados a períodos de grandes transtornos políticos, como guerras e inseguranças sociais; os segundos, os das dificuldades apresentadas pela orografia, pela estrutura física da paisagem, onde a presença ou ausência de caminhos e infraestruturas viáveis, a existência de obstáculos, como montanhas e rios, obrigava a um planeamento mais acurado do percurso. Assim, mesmo na ausência dos conflitos sociais episódicos, marcados por eventos de que a história política e social facilmente anotou, percorrer determinados caminhos foi sempre um grande desafio de segurança. E isto acontecia porque eram extremamente isolados ou porque obrigavam à transposição de obstáculos nem sempre fáceis de resolver. Não estranha, portanto, que sobre os lugares mais surpreendentes ou nos percursos mais difíceis, surgissem narrativas lendárias que ajudavam os peregrinos a interpretar e superar as dificuldades que se apresentavam. Algumas destas lendas surgiam com a própria história do caminho, como é o caso da de Cayo Carpo; outras tinham a sua razão de ser nas próprias vivências das comunidades locais, do espaço onde residiam, interpretando a orografia e as dificuldades da vida, numa tentativa de lhes dar sentido, integrando o misterioso e o fantástico na vida quotidiana.

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Seja qual for a razão, o território percorrido no Caminho de Santiago, e neste caso o do ‘Caminho da Costa’, é um território que deixa transparecer estas duas dimensões: nele estão inscritos os conflitos da história e nele se negociaram soluções ou se impuseram meios para superar as dificuldades evidentes a quem quer progredir no percurso do peregrinar. O grande desafio deste texto, pelas limitações próprias a um número definido de páginas e ao tema que lhe foi atribuído, é saber como permanecem no território estas ‘marcas’ dos eventos históricos que influenciam a sua transposição, e, ainda, saber como os peregrinos atuais os reconhecem e como, também eles, ao percecionar a paisagem, redefinem, na medida do possível, as suas escolhas, ao optarem pelo ‘Caminho da Costa’. Logo de início devemos dizer que há um elemento a marcar a relação da geografia e da paisagem desta região com as próprias narrativas lendárias da vinda do corpo do Apóstolo Santiago para as terras do ocidente ibérico, até chegar ao lugar onde atualmente é venerado. Esse elemento é o mar! A lenda diz que os amigos do Apóstolo trouxeram o seu corpo por mar, entre muitos milagres, até chegar ao local onde permanece na atualidade, em Compostela. Partindo da Palestina, vindo de Jerusalém, o corpo, vai dar ao ‘largo de Portugal’ junto a um local chamado de ‘Bouças’ em terras da ‘Amaya’ (Maia). Narrativas lendárias clássicas situam a importância da relação das viagens marítimas vindas do mediterrâneo com a extraordinária paisagem e novidade que era, naquele tempo, o fim da terra conhecida! Não era possível ir mais longe! A pré-história oferece-nos evidências de uma contínua relação entre os povos do mediterrâneo e as costas ocidentais da ibéria. Dois mundos muito diferentes se encontravam e negociavam em portos naturais e em pequenos percursos pelo interior, para onde iam bens e donde vinha minério. Esta relação entre culturas tão diferentes, habituadas a paisagens tão diversas, sempre foi pautada por figuras lendárias, que aqui chegam para fundar cidades ou transmitir novas crenças religiosas. É esta a base da narrativa lendária de Cayo Carpo, nobre senhor de Amaya. Este, em circunstâncias milagrosas, vai conhecer a mensagem de Cristo através dos discípulos de Santiago que transportam o corpo do Apóstolo em uma barca. O ‘tempo manso’, trouxe ‘em paz’ o corpo do Santiago. A entrada fortuita, pelas águas dentro, durante um jogo de divertimento junto ao mar, aquando da celebração da boda do cavaleiro Cayo Carpo, vai proporcionar o milagre. As águas envolvem o cavaleiro, mergulhado junto à barca onde estavam os discípulos que haviam transportado o corpo de Apóstolo desde a Palestina. Submergido muito tempo, regressa envolto em vieiras! Seguem-se diálogos entre o cavaleiro e os discípulos de Santiago, as mensagens divinas e o anúncio de uma nova fé. É o deslumbramento destes feitos inusitados a provar a existência do desígnio de Deus, na presença milagrosa de um corpo, mensageiro e testemunha da vitória de Cristo. O Apóstolo Santiago, na boca dos seus discípulos, havia ensinado o evangelho, a vida de Cristo, de quem era pregador e testemunha! Tudo era milagre a testemunhar Cristo e a vontade de Deus. A obrigação era continuar a celebrar e anunciar Cristo, a crença nos seus milagres e comunicar para todo o sempre que o que ali aconteceu, com a vinda do corpo milagroso do Apóstolo para tão longínquas terras. Os milagres servem para chamar à conversão todos os que ali estão para a celebração da boda, a quem é prometido o paraíso caso se batizem e sejam, também eles, peregrinos de Santiago. A partir de agora, naquela terra, junto ao mar, nasce um grupo de crentes. Ser testemunha e ‘vassalo’ de Santiago era obrigação de quem havia vivido tão grandes feitos e milagres! O testemunho de vida do cavaleiro ‘conchado’, reafirmado pelos fontes escritas, que se auto referenciam, como as “Folhas Sanctorum de Alcobaça”, ou o “O Breviário Antigo da Sé de Oviedo”, iniciou toda a ‘linhagem’ de peregrinos a Santiago.


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Cunctis mare cernentibus: Sed à profundo ducitur: Natus Regis submergitur; Totus plenus conchilibus.1

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O Símbolo da ‘vieira’ atesta a ligação ao mar. Não deixa de ser interessante a descrição no Elucidario2 das palavras que se usaram, em tempos remotos, em Portugal, sobre a palavra ‘vieira’. Começa por dizer, relacionando-se com Compostela, que ‘vieira’ vem de ‘via’, caminho para Compostela, mas que o facto de os romeiros usarem as ‘conchinhas’ com que se adornam, pode estar relacionado com o ‘prodígio’ testemunhado por todo o povo de Bouças, anteriormente referido, durante os esponsais de Cayo Carpo, da Maia, com Cláudia Loba, de Gaya. Daí a razão de muitas nobres famílias usarem a ‘vieira’ no escudo de armas, por se julgarem descendentes destes nobres da Maia, ou por terem lutado na batalha de Ourique, vencida em dia de Santiago. Os adereços do peregrino, depois apostos à própria iconografia do Apóstolo Santiago, integram a ‘vieira’ e o ‘bordão’. Sobre o ‘bordão’ muitos autores exploram os diversos sentidos da palavra, desde a origem, como pau que serve de apoio a quem caminha, como os peregrinos, até ao pau/cano de gaita de foles (roncão), fazendo a ligação entre o pau do peregrinar, a sua transformação em instrumento de música, para ocupar o tempo aos peregrinos. Assim, a riqueza da poesia e da música do peregrino (Southey, 1838, 285-291)! Levaria isso à composição de poemas e músicas apropriadas à viagem e às paisagens por onde peregrinavam? Não estranharia então, caso isso fosse comprovado, a presença frequente na poesia galaico-portuguesa de temas ligados ao mar, às rias e outros lugares de passagem dos romeiros. Até que ponto esta paisagem da costa marítima portuguesa e galega vai marcar o mundo imagético e cultural dos peregrinos, tendo em conta, também, a influência da paisagem e da orografia na construção das culturas locais (Campelo, 2002, 2005, 2010, 2017). Importa, por isso, num primeiro momento, entender a relação entre a paisagem e o território. Quem percorre um território depara-se com múltiplas paisagens, umas vezes monótonas e símiles por longos quilómetros, outras de extrema variedade, sempre a desafiar o olhar e os sentidos do viajante. A paisagem é muito mais que uma realidade ‘natural’ (Campelo, 2013). A ocupação do território, as Este hino constaria dum breviário antigo da catedral de Oviedo onde se fazia referência a este milagre. A mesma referência aparece no Agiológio Lusitano, de D. António Caetano de Sousa, de 1744. Elucidário das Palavras, Termos e Frases, que em Portugal antiguamente se usarão, e que hoje regularmente se ignorão. Obra indispensável para entender sem erro os documentos mais raros, e preciosos. MDCCXCIX , Tomo II. pp. 400-401. 1

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estratégias de uso dos solos e dos elementos que compõem o meio, são como uma ‘marca identitária’ da ocupação humana no espaço físico. Os seres humanos transformam a paisagem, organizam as relações territoriais, criando dependências e estabelecendo limites – de ocupação, de aproveitamento económico, de estabelecimento de relações sociais e interdependências, onde os variados sentidos são sempre e constantemente negociados (Campelo, 2010). O território vivido pelos que aí habitam, ou o território percorrido, por aqueles que com ele se relacionam, de forma constante ou de passagem, faz-se das disponibilidades nele presentes e das capacidades de procurar, num determinado espaço viável, aquilo que falta à comunidade (para a sobrevivência ou para o prestígio social). Aos que estão de passagem, o território organiza-se de uma outra forma. Ele deixa-se transpor pelo interior das comunidades, ou por periferias sempre controladas, em percursos que assegurem dois requisitos: i. manter o território aberto e disponível a ser confrontado com a novidade e o risco; ii. assegurar que esses percursos se mantenham, ao mesmo tempo, controlados, de forma a que se possa gerir a permanência e fluidez do estranho. É neste duplo objetivo que as comunidades locais se relacionam com o peregrino a Santiago: aproveitar ao máximo o que ele traz de novidade e gerir a mobilidade, quando o perigo ou o risco de transtorno social pode advir de uma permanência indesejada. Por sua vez, o peregrino, junto com a hospitalidade desejada, onde estão os serviços de acolhimento, vai-se apropriando do que vê, das culturas que observa e das paisagens por onde percorre o caminho. Mais do que penetrar em profundidade na cultura local e nas suas tradições – que lhe é impossível, dado o pouco tempo que permanece em cada lugar – o que recebe é uma ‘cultura emocional’! Ao experienciar o espaço paisagístico e ao relacionar-se com as pessoas que aí habitam, o peregrino cria um campo emocional, que não mais vai desaparecer. Esta experiência do ‘caminhar entre paisagens e pessoas’ é a consequência mais relevante no mundo emocional do peregrino, transformando todo o espetro cognitivo. Muitas das razões que justificam o objetivo do peregrinar se vão transformando ao longo do própria peregrinação! Uma antropologia emocional deve ser colocada em campo para entender esta experiência. O mundo do fantástico (Campelo, 2002) e a perceção da paisagem por onde se vai caminhando é parte integrante desta experiência. Peregrinar, na Idade Média, era uma atividade reconhecida por todos e praticada por um número muito significativo de pessoas. A aprendizagem do peregrinar não se iniciava nas chamadas grandes peregrinações (a Jerusalém, a Roma, a Santiago ou aos maiores santuários da Europa, ricos em relíquias de santos). Fazia-se a peregrinação na condição de romeiros, demandando os santuários e capelas dos oragos relativamente mais próximos e de grande devoção numa certa região. Os romeiros debutantes, acompanhados por homens e mulheres mais experientes e conhecedores dos percursos, iam aprendendo tanto o percurso como certas curiosidades, que de tempos a tempos eram lembradas pelos ‘conhecedores’: uma fonte, um penedo, uma ribeira, uma ponte ou passadiço, uma pedra insculpida, um sendeiro mais estranho, uma árvore surpreendente, etc. A esses elementos ‘naturais’ ou construídos pelos homens, eram acrescentadas estórias e lendas, narrativas fantásticas que ora atraíam a atenção do novato, como demarcavam o percurso e davam consistência e segurança à orientação tomada pelos romeiros. Elas (as estórias e lendas, bem como os elementos a que faziam referência) funcionavam como ‘marcas’ do território. Serviam, assim, para guiar e dar ao percurso a familiaridade sempre reconhecida do que era conhecido. Ao mesmo tempo funcionavam como elemento de conversa, de motivação à descoberta, introduzindo em todos a sensação de estarem perante acontecimentos e eventos fantásticos, a provocarem a imaginação, suavizando as dores e dificuldades do percurso, ao suscitarem o pensamento e a curiosidade. Ao percurso do romeiro acrescentava-se um percurso do mágico e fantástico, enriquecendo e dando forma a um mundo que ultrapassava o quotidiano. Estas marcas da paisagem eram, também elas, o testemunho de que estavam experienciando uma outra ordem do viver e sentir o caminho.


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Desde tempos imemoriais que os humanos precisam de simbolizar e marcar o território com narrativas, para se apropriarem dele e, através dessa apropriação, obterem segurança no seu uso. Não aconteceu o mesmo com o interesse pela paisagem. É verdade que há já alguns anos nos interessamos pela paisagem, pela beleza paisagística e até pela preservação da paisagem. Mas, recentemente, o interesse pela paisagem ganhou dimensão pública e política quando a Comissão Europeia propõe, através do The European Commission’s Rural Development Policy 2007–2013 (European Community, 2006), a valorização do ambiente e da paisagem rural. Esta estratégia vai na sequência da definição de paisagem dada pela European Landscape Convention: “paisagem é uma área, na medida em que é percebida pelo povo, em que o seu carácter é o resultado da ação e interação de fatores naturais e/ou humanos” (Council of Europe, 2000). Nesta definição é evidente o foco na subjetividade do entendimento da paisagem, na medida em que é a perceção daquele que vê a paisagem (daí o acento no “olhar”) a estabelecer a identidade da mesma. Ao ser introduzida a preocupação pela ‘cultura da paisagem / paisagem cultural’, não podemos deixar-nos somente pela questão de uma ‘perceção’ da paisagem, pois somos obrigados a outras atenções e desenvolvimentos (Campelo, 2010). O que não pode ser deixado de fora deste texto é a afirmação de que a paisagem tem de ser olhada como um património. E sendo um património natural/cultural, ela deve estar dentro das estratégias de proteção e de estudo. Quando um peregrino de Santiago segue um percurso (normalmente um dos que as ditas ‘autoridades’ definiram como ‘Caminho de Santiago’), ele, peregrino, assume essa proposta das ‘autoridades reconhecidas’. Elas manifestam esse poder definidor em livros, folhetos, sinais, e até no marketing territorial. Mas as configurações do percurso, quase sempre fundadas em critérios históricos, em ‘tradições’ assumidas como mais ou menos definitivas, esquecem que o percurso, o caminhar para Santiago, faz-se, seguindo uma deixa do poeta António Machado, caminhando! E esse ‘caminhando’ tem em conta a vontade e razões do peregrino, as emoções que carrega consigo, as relações que estabelece ao longo do caminho, as mutações anímicas que vão sucedendo ao longo do percurso, as necessidades, as urgências, em profundo diálogo com a geografia física, a história, a arqueologia, as formas arquitetónicas, os sentidos estéticos de que faz uso a cada momento, a paisagem, etc. O caminhante para Compostela experiencia uma paisagem visual, uma paisagem sonora, uma paisagem táctil, ou seja, uma paisagem emocional, onde se concentram todas as outras. É esta paisagem que nos interessa aqui. Trata-se, essencialmente, de uma paisagem de ‘descoberta’! O corpo do peregrino imerge no espaço, transpondo para os sentidos a ‘exterioridade’, fazendo do seu corpo uma parte da paisagem. Ao mesmo tempo, absorve pelos sentidos e pela cognição a paisagem que vai percorrendo, fazendo dela uma parte do seu ser. Não pode haver mais forte sentido do peregrinar do que esta dupla realidade da mútua relação entre o corpo (individual e social) e a paisagem. Está aqui a força misteriosa do peregrinar, seja pela busca de uma gnose, de uma experiência fora do comum, seja pela consciência de que se está perante uma experiência espiritual, enfrentando medos e descobertas que anteriormente se julgavam ausentes. Desde o Porto a Santiago de Compostela, o caminhante que segue o ‘caminho da costa’ vive a experiência frequente de olhar o mar. De que forma o fantástico e a lenda se conjugam na interpretação e vivência desta experiência? Em que se diferencia este percurso da costa? Não cabe aqui justificar os percursos tradicionais, os eventos históricos, documentados e sujeitos a análise crítica pelos especialistas desta área. Interessa-nos duas coisas: olhar para o percurso e ver nele essas ‘marcas’ de construção de uma paisagem simbólica, de que as narrativas lendárias são a mais visível consequência; ver como os novos praticantes se apercebem desta paisagem e se eles têm conhecimento desta carga simbólica da paisagem e em

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que moldes. Haverá uma experiência do ‘sentido do caminho da costa’, como há um ‘sentido do lugar’, da forma como o referiu Muir (2000)?; haverá uma ‘identidade do caminho da costa’, reduzindo o território percorrido a um ‘lugar praticado’, como sendo a ‘singularidade percebida de um lugar’, no sentido de Stobbelaar & Pedroli (2011, 322)? Será que a perceção de um território, de um percurso, se dá sobretudo pela construção e partilha de narrativas, que por sua vez vão proporcionar uma ‘experiência psicológica partilhada’, independentemente da forma como cada um experienciou as características físicas do lugar (Haartsen et al., 2000; Kruit et al., 2004)? Como dizíamos no princípio, o testemunho lendário de Cayo Carpo, funda, deste logo, no início do percurso, a relação com o mar e o símbolo da ‘vieira’. Foi o mar que trouxe a mensagem de Cristo através do corpo de Santiago, transportado num navio pelos seus amigos. Assim, o caminhante a Santiago carrega as suas insígnias e parte desde o centro da cidade do Porto, por Matosinhos e pela Maia, para se juntar de imediato à costa, em Vila do Conde. Mesmo que a parte inicial do ‘caminho da costa’ o leve pelos territórios férteis de Matosinhos e da Maia (agora quase todos urbanizados), foi neste território onde se celebrou o evento milagroso de Cayo Carpo. Desta forma, Matosinhos e Maia, entram na narrativa compostelana como elementos centrais, onde o mar resume essa centralidade. Na tradição a lenda também é chamada ‘Lenda do Matizadinho’, onde estaria a origem do nome de Matosinhos. A versão escrita mais antiga aparece no “Catálogo dos Bispos do Porto…” de D. Rodrigo da Cunha, obra datada de 1623. Aparece depois transcrita em outras obras posteriores, nomeadamente na “História da Prodigiosa Imagem de Christo Crucificado, Que com o titulo de BOM JESUS DE BOUÇAS SE VENERA NO LUGAR DE MATOZINHOS”, de António Cerqueira Pinto e publicado em 1737. Segundo a obra de D. Rodrigo da Cunha esta versão teria sido copiada de “hum Flos Sanctorum de pergaminho, em letra portugueza, que está na Livraria do Mosteyro de Alcobaça, e se acabou de tresladar de originais antiquíssimos, no ano de Christo de 1443, por mandado de D. Fernando de Aguiar, Esmoler Mor e do Conselho del Rey D, Afonsso V e do Abade do mesmo mosteyro”. Não vamos neste texto transcrever a lenda, dado os limites de espaço, mas o seu sentido já foi mencionado aqui, bem como os pontos fundamentais. A lenda serve também para explicar o aparecimento, na praia de Matosinhos, da imagem conhecida como o ‘Bom Jesus de Bouças’. Esta imagem tem ainda uma outra lenda sobre a sua origem. Diz a tradição que o ‘Bom Jesus de Bouças’ o ‘Bom Jesus de Barcelos’ e o ‘Bom Jesus de Fão’ são irmãos! Certa é a tradição de os peregrinos de Santiago visitarem o Mosteiro de Bouças, onde até ao séc. XVI permaneceu esta imagem! Ao longo do percurso, são muitas as lendas associadas a personagens milagrosas, a santos ou a lugares onde sucederam feitos extraordinários. São Santuários, capelas, túmulos, pontes e monumentos que referenciam esses eventos e que os peregrinos visitavam ou transpunham. Os devotos locais fortaleciam os sentidos dos lugares com as visitas que faziam aos mesmos, justificando a fama. Ao mesmo tempo o aumento da procura deste locais de peregrinação avisavam o peregrino a não perder a oportunidade de contactar com o mistério do milagre, experiência a repetir ao longo de todo o percurso. Chama-se a atenção para os outros trabalhos, presentes no livro agora editado, que assinalam os santos patronos e capelas associados aos Caminhos de Santiago junto à costa, bem como os lugares e meios de passagem dos cursos de água. O mar e os lugares por onde correm os ribeiros e rios, junto ao mar, surpreendem o caminheiro. Junto ao rio Leça, o Monte de S. Brás domina a paisagem e, diz a lenda, quem o quisesse transpor desapareceria para sempre! Cá estão os perigos dos lugares e zonas florestadas, que encerram seres misteriosos! A ‘Lenda do Homem da Maça’ mostra como a juventude é afoita e corajosa. Um jovem entra na floresta com uma ‘maça’ de trabalhar o linho,


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teimoso no desafio às forças e bichos ali existentes. Aparece mais tarde morto junto a um animal estranho, parecido com um leão, também ele morto no combate que ambos tiveram. Prova deste evento são, segundo a lenda, as gravuras ali deixadas esculpidas na pedra. Segue-se o vale do rio Ave. De tão fértil e cheio de verdura, que só milagres e magia o podiam criar! Por entre campos e cercas, o caminhante chega ao rio nascido na serra da Cabreira. Diz a lenda que foi o desejo de uma donzela por um Conde caçador, a originar o rio. Perdida de amores, e depois de ter ficado na serra após a partida do Conde para a sua terra situada junto ao mar, a ‘bela e angélica’ donzela chorou tanto, que de tantas lágrimas nasceu o rio! E desejando vir ao encontro do seu amor, queria ser ‘ave’, para voar até junto dele. E daí o nome de Rio Ave, a desaguar em Vila do Conde! Na Póvoa de Varzim a Lenda de S. Pedro de Rates está bem no âmago da tradição da peregrinação a Santiago de Compostela, pois seria ele um dos sete varões ordenados pelo Apóstolo em Santiago e nomeado Bispo de Braga. Quem caminha vê ao longe o Monte de S. Félix, sobressaindo na paisagem. Foi ali que, segundo a tradição, um eremita, o próprio S. Félix, teve um chamamento piedoso. Um chamamento que o levou à descoberta do corpo de S. Pedro de Rates, assassinado pelo pai de uma jovem convertida, símbolo da ira e vontade dos ímpios. A Fonte da Moura era o único local onde os caminheiros tinham acesso a água. A comunidade de Navais ainda hoje celebra, no seu reportório folclórico, esta fonte mágica da Moura Encantada: No tempo dos meus avós Já a minha avó me contava  Que havia lá um tesouro  E uma moura encantada!

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Cobra ou jovem de cabelos de oiro em noites de S. João, a Moura (a tecedeira) alimentava a fantasia e o desejo de sorte dos que a procuravam! Já em Esposende, as terras de Apúlia e Fão, apaixonadas pelo mar que a todo o momento acompanha o peregrino, receberam viajantes do mediterrâneo e das terras bárbaras do norte, desde tempos imemoriais, ali deixando vestígios e tradições, nomes e lendas, de que são testemunho os ‘Cavalos de Fão’, petrificados no mar em frente, ligados a Salomão ou ao rei Ofir! Depois é preciso atravessar o Cávado, o que nem sempre era fácil, por ser rio ‘muito perigoso’. Mas o local estava abençoado por um milagre, contado pela ‘Lenda da Senhora do Lago’. “Os princípios e origem do aparecimento desta milagrosa imagem da Mãe de Deus, referem-se num livro antigo manuscrito (que ainda hoje se conserva) que foi assinado e rubricado por um tal Pedro de Couros Carneiro e pelos juízes do quadro das freguesias de S. Miguel de Gemeses, S. Martinho de Gandra e Santa Eulália de Palmeira”. Insere-se este voto no cumprimento da vontade manifestada pelos discípulos de Santiago na Lenda de Cayo, obrigando-se as freguesias do local em construir a barca para passagem gratuita dos peregrinos. Esta é a barca que chamam «Por Deus» ou «Do Amor de Deus». Tal importância teve este lugar, que logo ali se construíram serviços de apoio aos peregrinos, sob a proteção misericordiosa de Virgem Mãe de Deus e dos pescadores.

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O milagre do aparecimento da imagem de Nossa Senhora vai dar lugar ao título de Senhora do Lago, ou da Barca do Lago, ‘Senhora dos Mares e dos Rios’! Santifica o lugar e protege-o de todos os perigos, cujo principal era o vencer as águas no momento da passagem. O ter ali sido construída uma Ermida mostra como a narrativa lendária se consolida e dá sustento à devoção dos moradores e dos residentes nas freguesias vizinhas (que lhe devem prestar tributos e bens). Atualmente passa-se pela ponte metálica e vai-se diretamente à cidade de Esposende. Surge depois uma paisagem bem contrastante: as arribas dos montes à direita e a extensão do mar infindo à esquerda. Nos montes andam os seres mágicos e as fontes santas de S. Lourenço, para os males da pele; os caçadores, com a Lenda do Caçador de Belinho a mostrar como a proteção de Santo Amaro e a fé vivida no convento de S. Romão do Neiva ajudaram a resolver o infortúnio. Na veiga próxima do mar é a Fonte Santa de S. Bartolomeu do Mar e o seu Banho Santo em dia do padroeiro, onde as multidões acorrem à praia para banharem seus filhos, e passam por baixo do andor do santo, oferecendo-lhe galos pretos (ou não) para esconjurar os males do corpo e procurar a saúde! No concelho de Viana, o que mais marca o caminhante é o rio Lima, ele mesmo cheio de lendas. O famoso rio do esquecimento, o Lethes, não impediu a progressão das milícias romanas. O general que comandava as tropas chama, da margem direita, os seus homens pelo nome de cada um, fazendo-lhes ver que a extraordinária paisagem que viam não era ainda a chegada ao paraíso, mas tão somente um lugar de encanto a superar, se queriam conquistar mais território para Roma. Viana conhece lendas ligadas à sua fundação e aos seus heróis, como S. Bartolomeu dos Mártires. Enquanto se progride para norte, é a paisagem ribeirinha da Areosa, Carreço e a ‘Lenda do Monte da Dor’, Afife e seus lendários remotos assentamentos humanos a marcar a paisagem. Cada monte, cada figura insculpida nas rochas lembram comunidades humanas ancestrais, homens, donzelas, amores mágicos do passado, como o da sarracena Aldara. A lenda do rio Âncora, por onde se entra no concelho de Caminha, está para sempre ligada aos amores entre cavaleiros e donzelas, mouros e cristãos, Alboazar e Urraca, que desde o tempo da vinda do Apóstolo Santiago para estas terras marcaram o imaginário das populações locais. A cada lugar a presença do amor e do ódio, das núpcias e das guerras, numa mostra de que as sociedades vivem entre o conflito e a esperança da paz, de que o amor nupcial é o maior testemunho. Quem caminha pela via de Santiago vai entrando neste território de fantasia e de ‘uma verdade’ transformado em rio, em paisagem, em rochas marcadas, como prova de ‘existência’ deste mundo mágico. Ao largo de Caminha, na foz do rio Minho, outro rio lendário, está o forte da Ínsua, com a Lenda do Convento de Santa Maria da Ínsua. A fé de um monge faz brotar a ‘fonte milagrosa’ em lugar onde não seria suposto nascer água-doce! Quando se passa a ponte, no lugar onde desagua o rio Coura, temos a junqueira e a Lenda do Lobisomem, ali redimido de seu destino. Ao longe, do lado direito, é a montanha sagrada da Serra d’Arga, com muitas lendas. Há muitas ligadas a penedos e a santos eremitas, como os do convento de S. João d’Arga; ou ainda a Lenda de Santo Aginha, padroeiro dos ladrões. Conforme o caminhante vai progredindo pelas margens do Minho, mais se vai integrando no concelho de Vila Nova de Cerveira, com lendas de Mouras nas montanhas e de amores nas ilhas que povoam o leito do rio. Na montanha reina o Cervo Rei, ícone desta terra. A sua lenda mostra como a liderança do animal de exceção é exemplo de governo e de sentido justo do poder para os humanos. A narrativa coloca os animais e os homens lado a lado, em lutas e conquistas pela riqueza e abundância destas terras. A lenda prova a fraternidade e como o conhecimento da paisagem e daquilo que a terra dá pode obrigar ao diálogo entre o mundo


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animal e o humano. Por sua vez, a Lenda da Cova da Moura é mais uma prova que entre mouros e cristãos, entre montanha e rio, apesar das evidentes diferenças, tem de haver uma relação mútua, porque é imperioso entender a coexistência dos diferentes. Em Valença, novamente o rio e o Monte. Na montanha é a Lenda da Senhora do Faro, protetora dos prisioneiros dos mouros africanos. Na Fortaleza é a Lenda da Porta do Sol, mais uma vez chamando heróis clássicos, como Ulisses, príncipes e princesas, mouros e cristãos. O rio Minho, desde Caminha omnipresente, dá-nos a Lenda da Mulher Marinha, esse ser encantado que sai das águas e atrai de amores D. Fraião. A mulher marinha, a antítese da personagem da Lenda do Rio Minho, um elemento natural humanizado e viril, trás consigo a virgindade da donzela, expressa na beleza da nudez. Era esta donzela a pureza em absoluto, onde se inscreveu a fé de Cristo: D. Fraião, seu amante, batizou-a para a tomar como sua legítima esposa, dando-lhe o nome de Marinha. Como vimos, ao longo do percurso, o mundo lendário interpreta e justifica o espaço territorial no quotidiano das pessoas, mesmo que faça referência a feitos extraordinários e a eventos irrepetíveis. À organização territorial é aposto o sentido dos “lugares”, a memória de experiências e de tradições de uso de determinados espaços culturais, para sua “estabilidade simbólica”. É a particular prevalência de uma estrutura organizacional simbólica identificável, seja pelos elementos que a compõem, seja pela apropriação e uso dos mesmos numa comunidade humana, seja pelas narrativas que sobre ela se constroem, que dá unidade à geografia mágica de um território. O litoral norte, entre o Porto e Caminha, por onde passa o ‘Caminho da Costa’ está marcado por esta geografia lendária e sagrada. Quem o percorre pode não ter conhecimento das lendas e das crenças que deram origem a santuários, capelas e fontes, ou pontes e barcas. Mas facilmente se apercebe que está numa paisagem carregada de vivências sagradas e mágicas, onde o mar, os rios, a água e a montanha imperam. É o feminino da fertilidade e o masculino viril que alimentam os vales e a montanha; é a crença cristã que vê em cada origem ‘milagrosa’ de um santuário ou prática a razão e força para preservar no tempo a devoção e o cuidar do património religioso construído; é a experiência de longos anos de convivência com pessoas que surgem do mar, do rio ou chegam pelos caminhos junto à costa que dá o sentido do risco e a necessidade de estarem preparados para o inusitado, para vencer e conviver com os elementos naturais, onde o mar é fundamental! Onde se manifesta o feminino, brota a água da fortuna e da saúde. Umas vezes nos altos das montanhas, como a Furna ou o Monte Faro, outras junto ao rio, como a Senhora da Cabeça, o feminino e a água revelam-se como os elementos necessários para a fertilidade. A constante presença da figura feminina, ora se manifesta na «Moura Encantada», ora em Nossa Senhora – muitas vezes com grande dificuldade em discernir qual das duas está presente. O caminhante para Santiago cruza vales e rios, passa junto do oceano e interna-se por montes até Compostela. Todos os lugares estão marcados por estórias e lendas, umas sagradas, outras menos, onde as bruxas e as feiticeiras também aparecem! Por sua vez o Lobisomem «corre o seu fado» pelos montes e vales, transformando a noite e as encruzilhadas em locais de aparição do «monstro».

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Se num primeiro momento o objetivo era transcrever as lendas dos concelhos por onde passa o ‘Caminho da Costa’, com o tempo verificou-se ser impossível colocar nas páginas disponíveis tal proposta. Optou-se por uma referência sucinta e contextualizada na paisagem. Ao caminharmos pelos locais desta via para Santiago, deparamo-nos com os peregrinos e caminhantes que hoje percorrem, aos milhares, este caminho. Se para o etnólogo e antropólogo é fundamental a pesquisa bibliográfica e documental para apoiar a pesquisa de levantamento de terreno sobre as lendas associadas a este território, não menos fascinante, antes pelo contrário, é o trabalho de pesquisa junto dos atuais peregrinos e caminhantes. Entrevistar estes novos peregrinos sobre o sentido que atualmente dão ao seu caminhar e avaliar as perceções que têm da paisagem por onde caminham tornou-se, a dado momento, muito interessante para nós. Entrevistamos, extensivamente, 23 pessoas durante a pesquisa, sendo a maioria alemã (8), com americanos (6), pessoas do Norte da Europa (3 noruegueses) e do Leste (3 polacos), em número significativo. Um outro número importante de entrevistados era de nacionalidade italiana (3). Neste ano de 2017 o número de ‘peregrinos’ aumentou consideravelmente, sendo, por isso, fácil encontrar entre eles pessoas disponíveis. Um dos dados levantados de imediato foi a pouca informação que tinham sobre as narrativas do fantástico e lendário, ligadas ao território que percorriam. Muitos referiram terem procurado informação, em língua inglesa, na Internet, para preparar a viagem, mas não tinham conhecimento da existência de informação sobre lendas ou textos sobre como as entender enquanto viajavam. Julgavam muito importante conhecer o percurso, os locais de pernoita, a forma de organizarem e dividirem a viagem pelos dias disponíveis, os pontos onde procurar apoio e serviços. Mas quando confrontados com esta dimensão da viagem: o valor cultural paisagístico e as narrativas mágicas e lendárias presentes no percurso, logo se manifestaram muito abertos e interessados. E este interesse era claramente superior nas pessoas mais cultas (com maior formação académica) e dos países do Norte da Europa. Mas todos - quando em diferentes pontos do percurso os questionamos sobre o vale e o rio que atravessavam, sobre uma montanha, este santuário, aquela rocha, fonte, ponte, etc., - ficavam fascinados e interessados quando os informávamos da existência de uma lenda, uma narrativa milagrosa ou fantástica! E logo queriam saber toda a narrativa, como se olhassem de forma diferente para a paisagem e para os monumentos.

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Caminhantes do presente e a percepção do fantástico

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Quando questionamos sobre qual tinha sido a razão de escolha deste percurso, a grande maioria referiu ter sido a proximidade do mar. Outros referiram questões climatéricas, como esta peregrina: No Porto uma jovem alemã disse-me que o caminho pelo interior era muito bonito e que era o tradicional, mas que era muito quente. Então escolhi o do mar. Um dia ainda farei esse caminho, pois já fiz o Caminho Francês. Não faço o Caminho por razões turísticas. Vou fazendo como um projeto pessoal e espiritual. A mim o que me tem impressionado é a força do mar. Na paisagem busco essa força e eu como sou da montanha, estou a apreciar muito o mar. Não tenho informação sobre as lendas, mas também não a procurei. (Marina, 42 anos, Professora, Bergamo, Itália). Depois de falarmos sobre a paisagem e questionarmos sobre as opiniões que tinham, houve quem nos dissesse: A paisagem é muito, muito, muito linda! Estou encantada! A razão de escolher o caminho da costa foi o mar. É tão forte e inspirador. [...] não tenho conhecimento de lendas... não tive maneira de as conhecer... (Karina, Munster, 47 anos, Química, Alemanha, a viajar com uma amiga alemã de 51 anos). Depois de lhe ter falado da lenda do rio Lima, Karina ficou entusiasmada: “Gostaria muito de as saber, pois são fantásticas! Que interessante! Descansavam sentadas num banco da Alameda do Jardim, em Viana do Castelo e os seus olhos brilharam ao voltarem a estender a visão sobre o rio Lima! Uma outra razão apontada era a de usufruírem de uma rota ainda não muito frequentada, o que lhes possibilitava uma maior intimidade:

Pedimos a estes americanos que resumissem em algumas palavras os elementos do percurso que mais os marcaram. Responderam: “The landscape”; “Ocean”! Em Caminha os peregrinos ficavam fascinados com a enseada do rio Minho. Desconheciam o que estava no Forte da Ínsua e que tinha sido um mosteiro, não sabendo, portanto, a Lenda do mesmo. De facto, parece impossível haver ali água-doce! Só milagre! Esta terra está cheia de milagres, de beleza. Depois de me contar estas lendas, quase me apetece chorar... estou muito emocionada! (Anne, 52 anos, Escritora, Noruega).

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Não quisemos fazer o Caminho Francês porque está cheio de gente. Quisemos vir junto ao mar e tem sido uma experiência fantástica. (quando questionadas sobre as lendas) Não sabemos... não conhecemos... mas vamos ver, depois, na wikipédia... (Emy (37 anos), Christian (34), Rebecca (34) – Pensilvânia, EUA).


Álvaro Campelo

Um dos pontos que mais surpreende os caminhantes é a variedade da paisagem, onde sobressai a relação entre montanha e mar / rio: Ao longo do caminho sonhei ao ver o mar, sonhei ao atravessar os rios, sonhei ao ver as montanhas. Parece que tudo está aqui! Há muitas coisas de que não gosto... algumas construções, alguma confusão e... não sei! Mas tem sido um caminho de reflexão, dor... Vou ser uma pessoa diferente! (Robert, 67 anos, empresário na área das artes gráficas, Americano – estava acompanhado por um grupo de 4 pessoas da mesma nacionalidade).

Conclusão É impossível dar conta de todas as lendas e transcrevê-las, como é impossível dar o registo de todas as entrevistas! Mas, no final deste texto, não é difícil concluir como um olhar diferente para os sentidos da paisagem, com as narrativas históricas, e as narrativas do fantástico, milagrosas, mágicas e lendárias, possibilitam uma outra experiência do caminho. O caminho de Santiago e este ‘Caminho da Costa’ são um percurso espiritual, turístico, ou outro qualquer que queiramos designar ou nos é comunicado por aqueles que o percorrem. Mas ele é, essencialmente, uma experiência emocional. Uma experiência que é aumentada, revivida ou transformada quando lhe acrescentamos informação e conteúdos que ajudam o peregrino a melhor entender esta paisagem cultural, onde o mar assume um lugar incontornável.

Fazer o Caminho: Construir e viver a Paisagem

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Álvaro Campelo

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Fazer o Caminho: Construir e viver a Paisagem

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Álvaro Campelo

O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho José Augusto Maia Marques

Fazer o Caminho: Construir e viver a Paisagem

Historiador, Antropólogo e Ensaísta. Autor de vários livros e artigos publicados em Portugal e no estrangeiro. Técnico Superior da Câmara Municipal da Maia e Investigador do Centro de Estudos e Desenvolvimento Turístico do Instituto Universitário da Maia.

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Resumo

José Augusto Maia Marques

Neste trabalho o autor reúne um conjunto de reflexões que tem vindo a levar a cabo durante vários anos, tendo em vista as questões relacionadas com o Caminho de Santiago, nomeadamente os percursos do norte de Portugal. Depois de abordar o fenómeno do Caminho como viagem, como percurso, e de apresentar várias leituras para o fenómeno da peregrinação, apresenta-nos o Caminho ele mesmo como património mundial e trata vários “patrimónios” ligados a ele. Numa segunda parte alude ao Caminho do Litoral ou da Costa e a vários tipos de recursos turísticos de que ele pode beneficiar, como a paisagem e a gastronomia, por exemplo, chamando depois a atenção para questões que se levantam e que devem solucionar-se para assegurar o futuro do Caminho da Costa.

«Ó Cabo do Mundo! Moreira da Maia! Estrada de S. Tiago! Sete-Estrelo!» António Nobre

Propósito Das três mais importantes viagens de peregrinação da cristandade – Jerusalém, Roma e Santiago – esta última é aquela que se mantém como verdadeiro caminho, com a pureza inicial da peregrinação, em que o aspeto importante é o caminhar, e o chegar é “apenas” a última etapa – o fim – desse percurso. De facto, já ninguém vai a Roma ou a Jerusalém a pé, de bicicleta ou a cavalo, como se faz a Santiago. Assim, o Caminho tem um âmbito territorial vastíssimo, em que o património, seja de que tipo for, ocupará sempre lugar de destaque. O Caminho de Santiago ele próprio foi até, como sabemos, declarado, em 1987, pelo Conselho da Europa, como o primeiro “Itinerário Cultural Europeu”. A UNESCO consagrou-o, em 1993, como “Património da Humanidade”. Passam, portanto, 30 anos sobre o primeiro facto e praticamente 25 sobre o segundo. E o Caminho Português representa já quase um quinto do fluxo geral, num claro segundo lugar, a seguir, como é óbvio e expectável, ao Caminho Francês. Os vários percursos do Caminho encerram um conjunto de especificidades que fazem dele o mais amplo conjunto patrimonial do mundo. Na sequência de vários trabalhos sobre o tema, eis um conjunto de reflexões sobre o Caminho de Santiago como património ele mesmo, mas também sobre os vários «patrimónios» que ele cruza, não tanto os mais conhecidos, que isso outros farão, mas aqueles que menos atenção porventura concitam.

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E também abordar a perspetiva do património humano, isto é, do Peregrino, elemento indispensável para que haja peregrinação, tantas vezes tão esquecido e tão desprezado por motivos materiais, fúteis, interessando a poucos e prejudicando a muitos. E para finalizar, um olhar ligando o Caminho com o Turismo, tão inevitável quão indispensável nos tempos que correm, e que constitui, para muitos locais, uma possibilidade de desenvolvimento.

Parte I - O Caminho como património

O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho

Caminho, Viagem Este é um mundo onde todos viajamos, seja folheando revistas, seja fazendo zapping, seja na internet. E a viagem da humanidade, desde a sua saída de África há vários milhões de anos, até à descoberta do caminho marítimo para a Índia, desde a conquista dos polos até às viagens à Lua ou à estação espacial internacional, sempre comandou o mundo (Marques, 2010). A vida, ela mesma, é uma viagem, mais ou menos atribulada, mais ou menos demorada, entre dois pontos – nascimento e morte. Não podemos de igual modo esquecer-nos que os nomes primeiros das grandes religiões foram viajantes – Abraão, Noé e Moisés no Cristianismo, Maomé no Islamismo e Buda na cultura budista são disso excelentes exemplos; até Confúcio viajou para difundir a sua palavra. Aliás sobre este tema há um estudo excelente de Simon Coleman e John Elsner (Coleman & Elsner, 1995) onde se aborda justamente a questão das “viagens sagradas”, do seu papel e da sua importância nas diversas religiões ao longo da história. Sobretudo no seu capítulo 5 – “Geographies of Saintwood: Christian Pilgrimage from the Middle Ages to the Present Day”, o Caminho de Santiago é espinha dorsal, e nele se afirma claramente (p. 104) que a peregrinação a Santiago se tornou na peregrinação “individual” mais importante da cristandade ocidental. Peregrinação individual aqui no sentido de se tratar só de uma relíquia (a do Santo) e não de uma Cidade Santa, como Jerusalém, Roma ou outras, mas também pelo facto de a peregrinação a Santiago ser sobretudo um ato individual, que não obedece a preceitos nem a datas ou períodos específicos. A História regista, aliás, e desde tempos imemoriais, nomes de grandes empreendedores de viagens – Hatshepsut, Gilgamesh, Alexandre Magno, Aníbal, Júlio César, Ibn Battuta, Federico Barbaruiva, Gengis Khan, Alexander von Humboldt, Karen Blixen – que ampliaram o conhecimento geográfico e contactaram com povos diversos do seu, levando a um intercâmbio de bens e recursos. E a mesma História também não esquece os grandes exploradores – Marco Polo, Vasco da Gama, Colombo, Cabral, Magalhães, Livingstone, Capelo, Ivens, Serpa Pinto – representando um outro arquétipo da viajem, visando sobretudo a conquista política. Hoje, refletir sobre o fenómeno da viagem é um dos aspetos fulcrais dos estudos sobre Turismo, por exemplo, por isso o nosso interesse vai, para um tipo específico de viagem – a peregrinação – cujas características e fronteiras são cada vez mais difusas, sobretudo se as quisermos ancorar ao designado Turismo religioso. Talvez a Antropologia, e aquilo que chamamos “ver o mundo pelas lentes do antropólogo” nos ajude a enquadrar melhor este fenómeno, antiquíssimo, mas tão atual, das peregrinações. Os estudos antropológicos sobre este tema podem ser agrupados em três grandes correntes.

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O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho

1 Não esqueçamos o estrondoso sucesso de Paulo Coelho e do seu Diário de um Mago (1987). Paulo Coelho fez, nove anos depois daquele livro, uma nova peregrinação pelo Caminho de Santiago de mais de 90 dias de que dá conta no seu blog http://br.paulocoelhoblog.com/

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Na primeira predomina o modelo funcionalista, que tende a interpretá-lo com as ferramentas teóricas e metodológicas construídas a partir da tradição dominante na disciplina, essencialmente voltada para os estudos de comunidades e de sociedades não ocidentais de pequena escala. A segunda, que poderíamos designar como de carácter “performático”, apresenta-se em ruptura com o funcionalismo, propondo um outro paradigma de análise que encontra nos trabalhos de Victor Turner (1975 e 1978) a sua formulação mais importante. A terceira corrente interpretativa tem o seu ponto alto na publicação da coletânea «Contesting the sacred» em 1991 (Eade & Sallnow, 1991), que marcou um novo caminho para os estudos da peregrinação no período pós-turner. Assim, desde há três décadas que se tem produzido uma nova «leva» de trabalhos de mérito na área da Antropologia do Turismo. São já várias dezenas as obras que podemos qualificar de excelentes e várias as que podemos considerar incontornáveis, sendo que algumas merecem destaque para o tema desta reflexão. No princípio foi o trabalho de Dean MacCannel (1976), que chamou a atenção para o facto de o turismo moderno poder ser visto como uma continuação das peregrinações tradicionais, e o de Erik Cohen (1979) que fez notar a experiência do distanciamento do quotidiano como sendo um elemento comum à peregrinação e ao turismo, que despoletaram a discussão e reflexão sobre o tema. Depois seguem-se muitas monografias e coletâneas de grande interesse, como é o caso, entre muitos outros, de «Contesting the sacred – The anthropology of christian pilgrimage», já citado, de «On Pilgrimage: Sacred Journeys Around the World» (Westwood, 2003) reflexão na perspetiva do peregrino e dos locais de peregrinação, de «Intersecting Journeys – The Anthropology of Pilgrimage and Tourism» (Badone & Roseman, 2004), ou de «Reframing Pilgrimage: Cultures in Motion» (Coleman & Eade, 2004), coletâneas importantíssimas e bem mais recentes, e ainda do curioso e interessante (para nós fundamental para se perceber o que está em discussão) «Sacred Travels: Recovering the Ancient Practice of Pilgrimage» (George, 2007). E não se citam aqui, seria por demais fastidioso fazê-lo, as dezenas de capítulos de livros e de artigos relevantes dispersos por inúmeras publicações. Também no Brasil se reflete muito sobre o tema, em parte por virtude da importância que tem naquele país o Caminho de Santiago1, em parte pela preexistência de diversos caminhos de peregrinação. Por exemplo Carlos Alberto Steil (1996 e 2003) e Sandra Sá Carneiro (2003 e 2004), que até têm trabalhos em comum, são fundamentais. E até entre nós as coisas começam a mexer. Veja-se, por exemplo, entre muitos outros, um artigo que publicamos em 2003 (Marques, 2003), seguido por outros de teor conexo, também o trabalho excelente de Pedro Pereira (2003) sobre as peregrinações a Fátima, ou até algumas abordagens feitas no IV Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia que teve lugar de 9 a 11 de Setembro de 2009 em Lisboa. Relevantes também várias reuniões científicas e de investigação, como as de Belmonte em 2008, as do Instituto Universitário da Maia em 2009 e mais recentemente os de Rates em 2014, 2015 e 2016. E neste ano do centenário, houve uma verdadeira chuva de livros e artigos sobre as visões em Fátima, embora a maioria deles não trate, do modo como gostaríamos, esta questão do(s) caminho(s).


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Muito importantes também, ainda que numa linha algo distinta, são os vários trabalhos publicados por Carlos Alberto Brochado de Almeida, culminando com o que mais nos interessa para este caso, em que aborda o Caminho do Litoral para Santiago (Almeida & Almeida, 2011), e onde faz uma análise, e uma excelente síntese sobre o percurso, as suas razões, o seu entorno, ajudando a fixar um traçado, um trajeto, um Caminho. Um estudo como todos os Caminhos deviam ter.

Peregrinação

O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho

O termo “Peregrino” aparece na nossa língua na primeira metade do século XIII, para denominar os cristãos que se deslocavam a Roma, à Terra Santa ou a Santiago de Compostela. Vem do latim peregrinus, a contração de per (através) e ager (terra, campo). Isto originou o adjetivo pereger (viajante, viandante) e o advérbio peregre (no estrangeiro), que por sua vez deu origem a peregrinus (estrangeiro) e peregrinatio (viagem ao estrangeiro). Para evitar maus encontros, sobretudo com bandidos e salteadores, os peregrinos iam pelos campos, atalhando caminho. O mesmo étimo originou no francês peligrim, que evoluiu para o atual pélerin, e no inglês, inicialmente pilegrim e depois pilgrim. Dizia-se na Idade Média que “Todos os caminhos conduzem a Santiago”, sobretudo a propósito da profusão de itinerários que conduziam ao túmulo do apóstolo. Os peregrinos, ataviados com o chapéu de aba larga, proteção contra o sol ou a chuva, com a bolsa para o dinheiro de oferenda, a cabaça para a água, o bordão para auxiliar na caminhada, as sandálias para proteger os pés das dificuldades do percurso, e a concha, símbolo da peregrinação, seguiam para Compostela guiados, isto de acordo com a tradição, pela Via Láctea. Aliás Compostela derivaria, assim, de Campus Stella, isto é, Campo de Estrelas. Eram tão populares as peregrinações a Santiago durante a Idade Média, que Dante Alighieri afirmou que «só é peregrino quem caminha até ao túmulo de Santiago» e outro grande vulto das letras, o alemão Johann Goethe dizia que «a Europa inteira fez-se peregrinando a Compostela». A peregrinação é uma das mais antigas tradições religiosas da humanidade. Tanto no contexto das antigas civilizações, como no seio das sociedades modernas, podemos observar um movimento contínuo de peregrinos que se deslocam dos seus lugares de origem em busca de uma experiência que lhes permita transcender o seu quotidiano e encontrar-se com forças místicas ou reviver simbolicamente, mesmo que seja por alguns momentos, a utopia de uma comunhão com as suas divindades ou com os seus semelhantes (Turner & Turner, 1978 e Coleman & Elsner, 1995). As peregrinações cristãs terão as suas raízes na antiga tradição das jornadas para a Terra Santa, que provavelmente começou nos primeiros séculos da nossa era (Nolan & Nolan, 1989). Como tem sido demonstrado por vários autores, a história do cristianismo no Ocidente é indissociável das peregrinações, especialmente após o século quarto, quando é introduzido o culto às relíquias dos mártires e santos (Jenkins, 1950, Brown, 1981 e Hunt, 1982). No entanto esta tradição, em todos os lugares onde se implantou, acabou por misturar-se com os costumes e aspetos locais, conformando a cultura e reconfigurando diferentes sistemas de valores. Os estudiosos do tema têm verificado que, longe de se constituírem num elemento do passado ou numa “sobrevivência” cultural, as peregrinações apresentam-se como um fenómeno perfeitamente atual que se redefine continuamente a partir da sua relação com as

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Ora neste caso, se bem que as rotas que inicialmente marcaram o Caminho de Santiago – a francesa e a da prata – tivessem origem romana, e fossem de carácter essencialmente político e económico, logo a “redescoberta” do corpo do Apóstolo, em 830, fez com que elas começassem a conhecer uma finalidade primordialmente religiosa.

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Aqui no sentido francês do termo, bem mais perto do de antropólogo na terminologia dos autores anglo-saxónicos.

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O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho

“Ao contrário do turista moderno, que é um consumidor que se crê um viajante, o etnólogo2 é um sedentário que se vê obrigado a viajar: o turista espera que cheguem as férias para partir em viagem, enquanto que o etnólogo sabe que a sua experiência de estadia, por maior que seja, só adquirirá sentido no regresso, no momento em que a transmita aos outros. […]. Para o etnólogo tudo é objecto de observação, incluindo as emoções que sente o turista que encontra no terreno, emoções que se calhar ele também compartilha.”

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mudanças socioeconómicas, as transformações tecnológicas e mesmo as novas orientações intelectuais. As peregrinações acompanham assim os dramas históricos e os processos sociais pelos quais passa a sociedade. Creio poder dizer-se que há hoje três grandes tipos de peregrinação: a que se faz por obrigatoriedade, como é o caso de Meca, a que se faz para solicitar ou agradecer uma graça, como Fátima, ou a que se constitui num percurso que se faz pelo próprio percurso, e em que, ao contrário dos dois anteriores, o chegar é apenas um dos momentos e não «o» momento, em que fazer o caminho, caminho exterior, físico, mas também e sobretudo caminho interior, espiritual, é o verdadeiro ato central. No primeiro caso as pessoas são metidas num meio de transporte e despejadas no local de peregrinação; finda a cerimónia são novamente empurradas para o meio de transporte e rapidamente desaparecem do local. No segundo, trata-se de chegar o mais rapidamente possível, sem sequer olhar para o lado. O percurso é sacrifício. Não há paisagem, não há monumentos, não há gentes, há apenas estrada. A estadia é célere, as refeições incertas. Quantas vezes ambas são «clandestinas». Lucrarão alguns hotéis, nos picos da peregrinação. Lucram alguns restaurantes, sobretudo ao fim de semana com os passeios. Sempre, ou quase sempre, lucram os vendedores de «souvenirs». E mesmo esses já se queixam. Finalmente o terceiro, cujo exemplo mais acabado é o do Caminho de Santiago, é aquele em que a caminhada é o mais importante. Aquele em que se fazem duas caminhadas em simultâneo, a exterior e a interior. Aquele em que o motivo da peregrinação é não só o encontro do outro, dos outros, mas também o reencontro de si mesmo. A caminhada física é aberta ao que rodeia o caminhante. Aos campos, às cidades, aos monumentos, às pessoas. Por isso este, em termos de turismo religioso sustentado apresenta grande valia. Repare-se aliás que o organismo oficial de peregrinações do Vaticano, a Opera Romana Pellegrinaggi, oferece, através do JOSP – Journeys of the spirit, entre muitos outros destinos, e para além do Caminho de Santiago, dois outros caminhos de peregrinação, ambos de “criação” recente – A «Via di Roma» ou «Via Francigena» de Roma a Assis, em 14 etapas totalmente a pé, e a «Terra Santa, messaggeri di pace», em cinco etapas parcialmente a pé. Quer um quer outro são versões modernas do Caminho Jacobeu. Mas o que é que fará com que alguém como eu cometa a ousadia de imiscuir-se neste campo? Para além do facto de há alguns anos refletir sobre este tema em vários trabalhos publicados e em diversas palestras e mesas redondas em diferentes instituições, justificome citando Marc Augé, num interessantíssimo trabalho (Augé, 2007). Escreve ele:


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Assim, essa simbiose entre o civil e o religioso, esse bastião de afirmação de religiosidade e de querer reconquistar, essa vontade de uma bênção do apóstolo, que reis e cavaleiros sentiam, torna-se, a partir do século XIII, um fenómeno essencialmente religioso, onde tudo o resto vem por acréscimo. O próprio Caminho foi fator de enorme progresso e desenvolvimento que sem ele não existiria. Graças a ele, e para permitir calcorreá-lo, foram construídas pontes, estradas, mosteiros, igrejas, albergues e hospitais. Surgiram novas cidades. Aparecem povoações de emigrantes. Trava-se um intercâmbio cultural sem precedentes. Chega-nos por ele o romance, na literatura, e o românico, na arquitetura, por exemplo.

O Apóstolo e o Caminho como património histórico

O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho

Há, em todo o País, 187 paróquias que possuem como Orago o Apóstolo S. Tiago. De todas as invocações, só a de S. Pedro o supera em número. Mas mesmo assim isso acontece no Sul que não no Norte. No Norte (dioceses de Viana, Braga, Porto, Vila Real e Bragança) são 127 freguesias que invocam o apóstolo. E são-lhe dedicadas pelo menos 33 capelas. Está bem demonstrado, se preciso fosse, a importância do culto a S. Tiago no Norte de Portugal (Marques, 1992). Depois de os territórios do ocidente europeu se terem fechado muito sobre si próprios, na sequência da queda do Império Romano, são as peregrinações a Santiago que vão reanimar as vias de ligação entre localidades mais distantes. Nuns casos reaproveitando e melhorando as romanas, noutros construindo novas acessibilidades. No século X as peregrinações a Compostela são já um facto enraizado na cristandade. Fazem-se pelos caminhos mais próximos da costa, bem mais seguros que as rotas do interior, sujeitas às movimentações árabes. Será a partir do ano 1000 que se popularizam as peregrinações a Santiago, como antes havia acontecido com as romagens a Roma e a Jerusalém. A primeira eclosão das peregrinações a Santiago dá-se nos séculos XI e XII, coincidindo com a fase de maior fulgor da arquitetura românica. Os monarcas aperceberam-se que manter o Caminho livre e transitável era, ao mesmo tempo, a certeza da existência de uma via de vital importância económica, comercial e militar para controlar o seu território. E de que a importância do Caminho ultrapassa em muito a deslocação ao túmulo do apóstolo. A partir do século XIV regista-se um certo declinar do Caminho. Dois fatores imediatos são identificáveis. Por um lado, a peste negra havia ceifado a vida a metade da população europeia, criando além disso toda uma ambiência autenticamente depressiva e imobilista. Por outro, no seio da própria cristandade começavam a surgir dissensões, sendo que a principal, a dos protestantes, considerava mesmo as peregrinações como atos popularuchos, desprovidos de cerne religioso (Dreher, 1980). Mas há outras razões. O mundo transforma-se. Iniciam-se os descobrimentos. As pessoas voltam as suas atenções para outros horizontes. Até a própria Igreja. Entretanto mudam-se os tempos, mudam-se os significados. A figura de Santiago, como patrono de Espanha, significado principal durante os períodos de reconquista e conquista, dá lugar à de Santiago como protetor dos que buscam novos mundos – a intervenção de Santiago é decisiva, no espírito dos descobridores e dos conquistadores.

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Durante os séculos XVII e XVIII melhoram muito as comunicações, e o Caminho recupera parte do prestígio que tivera, recebendo muitos viajantes ilustres. No entanto as especulações renascentistas, o iluminismo, as correntes de pensamento racionalistas, os livres-pensadores, as descobertas científicas, a revolução industrial e o desenvolvimento urbano, muito longe das vivências medievais, em nada ajudam à continuidade do Caminho. E em 25 de julho de 1867, dia de Santiago, apenas estão 45 peregrinos na Catedral3. Uma Bula do Papa Leão XIII «Deus Omnipotens», de 1 de novembro de 1884, ratifica e confirma a Sentença da Comissão Especial da Sagrada Congregação dos Ritos, na qual se declaravam autênticas as relíquias de Santiago bem como as dos seus discípulos Atanásio e Teodoro. Este facto potenciou um crescimento do número de peregrinos. Nestes últimos tempos a peregrinação a Santiago recobrou o vigor e o esplendor de outras épocas. O número de peregrinos, vindos de todo o mundo, cresce sem parar. Símbolo da Reconquista, fator de desenvolvimento económico e social após o fim do mundo Romano, o Caminho é, como já o afirmamos (Marques, 2003), a segunda Europa, depois da do Império de Roma. E depois dele vieram já outras europas que soçobraram, como a napoleónica e a hitleriana, mas o Caminho sobreviveu, manteve-se e desenvolveu-se.

Santiago, a «mitologia das origens» e a História portuguesa

Consulte-se “As peregrinações a Santiago” em https://www.santiago.org.br/os-caminhos-a-santiago/99-as-peregrinacoes-a-santiago, acedido em 12/4/2017.

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O Caminho como Património e os Patrimónios do Caminho

Para além de várias lendas que relacionam Santiago com milagres e acontecimentos extraordinários, ganham relevo as referências ao Apóstolo como «protetor» dos exércitos dos nossos primeiros reis. A batalha de Ourique, se calhar não por acaso, dá-se a 25 de julho, dia de Santiago. Mas muito antes, no reinado de Fernando Magno, em 1064, a conquista de Coimbra é feita na mesma data. E dias antes, em Compostela, o Apóstolo teria aparecido a um Bispo anunciando-lhe que ia levar a Fernando as Chaves de Coimbra. Mais tarde, e como nos conta Frei António Brandão na sua Monarquia Lusitana (Brandão, 1623), é Mem Ramires quem, no aceso da refrega para conquistar Santarém, invoca Santiago, ao que lhe responde o próprio Rei do mesmo modo, apelidando-o mesmo de «patrão do povo fiel». Também a Crónica da Fundação do Mosteiro de S. Vicente (Nepomuceno, 1873) nos diz que na tomada de Lisboa os cristãos combateram fortemente com muita devoção, chamando por Jesus Cristo e por Santiago. Nestes casos estamos perante a invocação a Santiago sob a figura de Mata-mouros, inspiradora da reconquista cristã e protetora dos combatentes de Jesus Cristo. Só mais tarde, com D. João I, este papel será atribuído a S. Jorge. É a influência do «inglês» Duque de Lencastre, sogro do rei, que favorece o também «inglês» S. Jorge. Mas é também o facto de S. Tiago ser o protetor dos dois exércitos em contenda – o nosso e o castelhano. Fazia lá sentido que ambos lançassem, ao mesmo tempo, dos dois lados, o grito «Santiago – a eles»! Por isso muda-se de patrono…


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Do domínio do maravilhoso é também o suposto episódio de D. Afonso IV que, na véspera da tomada de Coimbra terá ouvido um grupo de mulheres entoar um cântico em louvor de S. Tiago. O rei, zombando, afirmou que S. Tiago nunca tinha sido guerreiro. O Apóstolo, que não deve ter gostado da graça, aparece nessa noite ao rei, a cavalo e de armadura, e ordena-lhe que arremeta contra a cidade no dia seguinte, o que acontece, com os resultados conhecidos. Já do domínio da História é a Ordem de Santiago da Espada. Uma confraria de cavaleiros, criada em 1160, ligada aos cónegos regrantes de Santo Agostinho (Barbosa, 1998) terá constituído o embrião de onde se formou a Ordem de Santiago. Fundada na devoção ao Apóstolo e inspirada pelo seu perfil, em 1170, Fernando II de Leão oficializa-a, dando-lhe, em 1172, a vila de Cáceres. No início os cavaleiros chamar-se-iam, por isto mesmo, Cavaleiros de Cáceres (Apolinário, 2013). A confirmação papal foi dada por bula de 1175. Os freires da vila de Cáceres espalharamse rapidamente por Castela e Portugal onde receberam diversos castelos a sul do Tejo. Os freires de Santiago desempenharam um papel fundamental na expansão da Reconquista, com evidentes ganhos sociais, mas sobretudo políticos e económicos. Com a simplificação do treino militar e a moderna organização dos exércitos, as Ordens militares entram em decadência e terminada a conquista do território português as energias das Ordens dirigem-se para a tarefa dos descobrimentos. Outro facto histórico são os Votos de Santiago que tendo provavelmente origem na batalha de Clavijo, constituíam um tributo que os camponeses das terras cristãs tinham de pagar anualmente à Diocese de Santiago de Compostela (Martins, 1993). Os historiadores têm normalmente duas opiniões sobre a questão. Há os que defendem que tudo começa em Clavijo, há os que sustentam que foi Ramiro II que com a vitória sobre Abderramão III em Simancas, prometeu pagar a Compostela uma importância anual. Notese que este facto é contestado por muitos historiadores que não acreditam nesta concessão. O que é verdade é que os votos representavam uma receita muito importante para a Diocese de Santiago. Em Portugal pagavam-se no Norte e Centro do País, não sem muitos protestos e rebeliões. Braga, por exemplo, chega mesmo a apropriar-se da totalidade dos votos. Noutros locais, são as terras que se recusam a pagar quantias superiores ao estabelecido no tempo do Rei Ramiro. Até porque em algumas Dioceses começam a cobrar-se os votos mesmo a quem não tinha juntas de bois. Passados vários Papas, vários monarcas e vários conflitos, várias contestações, os votos lá foram caindo em desuso, libertando os pobres lavradores do Norte de Portugal de mais um fardo. Portanto, como se vê, o Caminho em si mesmo é Património: histórico, natural, arquitetónico, etnográfico, artístico, enfim, diríamos que é um Património Total. Até porque, elemento essencial desse património são as pessoas. São os peregrinos. E quantas vezes quem planeia, quem assiste, quem tem algum tipo de responsabilidade no Caminho se esquece da essencialidade do Peregrino…

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Deixem-me aqui fazer um aviso à navegação: sim, concordo plenamente com esta designação da «lavra» de Carlos Brochado de Almeida, porque é mais abrangente e mais condicente com a realidade geográfica; sim, concordo quase em absoluto com o traçado que ele propõe para o Caminho do Litoral. Não vou aqui repetir o que este autor afirma. Não quero entrar por áreas que sei magnificamente tratadas por outros colegas nesta publicação. Gostaria apenas de chamar a atenção para alguns aspetos menos aludidos em contextos como este. Patrimónios que se constituem, cada vez mais, como importantes recursos turísticos.

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Parte II - O Caminho do Litoral e os recursos turísticos

Novos recursos, velhos produtos

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Começo pelo ambiente, pela natureza, pela paisagem. Saídos dos limites da cidade do Porto, austera no seu granito, mas de dimensão humana e acolhedora, com alguns magníficos jardins românticos, com um excelente «parque da cidade», entramos em Matosinhos por terras que fazem parte da bacia do Leça, rio tão maltratado, mas hoje em recuperação. Toda esta área está profundamente alterada pelos fenómenos de urbanização e o Caminho está aqui ainda relativamente afastado da Costa. Mais do que o verde predomina o cinzento. A norte da A4 e de Custóias, o verde começa a aparecer com mais frequência. Atravessamos o Leça na singela, mas bela ponte de Goimil rodeados de campos e, um pouco adiante, aparecem as bouças, elemento tão característico destas paisagens. Passamos à Maia, freguesia de Moreira, continuando o Caminho por uma rua com designação toponímica curiosa e demonstrativa – rua da Estrada. Atravessando a N 107, aqui já em paisagem urbana, mas onde se conservam vários exemplares de arquitetura rural, vamos pela rua da Botica à Praça do Exército Libertador, nome “erudito” para o Largo da Feira de Pedras Rubras e daí a Lagielas. Entramos em Vila do Conde pela freguesia de Aveleda. Neste tramo vila-condense do Caminho merece destaque o regresso à paisagem agrária entrecortada com bouças, mas sobretudo a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo, que se distribui por parte de cinco freguesias do concelho (Azurara, Árvore, Mindelo, Vila Chã e Labruge) numa área total de quase 400 hectares. Possui uma rica diversidade quer de habitats quer de espécies, muitas delas migradoras, mas a maioria residentes. Também a presença de flora é importante. Atravessado o Ave, e passada a formosa Vila do Conde e a rua da Estrada Velha, entramos na Póvoa de Varzim pela Rua dos Ferreiros. Atravessada a Cidade, saímos para Aver-o-Mar e Aguçadoura, acompanhados, de um lado, por praias de areia e rocha, mas do outro por paisagens agrícolas, sendo que na Estela encontramos já os campos em masseira. Entrados no concelho de Esposende pela Apúlia, reino por excelência dos campos em masseira, de grande produtividade, deparamos com o Parque Natural do Litoral Norte, que se entende por 16 km de costa, entre a foz do rio Neiva e esta zona da Apúlia, abrangendo parte das freguesias de Antas, Apúlia, Belinho, Esposende, Fão, Gandra, São Bartolomeu do Mar e Marinhas. De grande riqueza em habitats, fauna e flora, o Parque prevê percursos pedestres e itinerários automóveis, bem como atividades de turismo de natureza. Atravessado o rio Neiva, entramos em Viana do Castelo pela freguesia de Castelo de Neiva. Se quisermos subir até à Igreja de Santiago, encontraremos aí a que será o templo mais antigo consagrada ao apóstolo, fora do território espanhol. Até à cidade, passamos num ambiente de pinhal, só aqui ou ali entrecortado por campos, e muito próximo da orla costeira.


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Passada Viana, por Areosa e Carreço, encontramos uma curiosa paisagem tríplice. Mais à nossa esquerda a praia, depois campos de cultivo, e à direita o monte com abundante revestimento vegetal. Em Montedor, a terra entra no mar sem praia nem areia, formando um promontório muito curioso onde pontifica o seu farol. Deixamos Viana por Afife e entramos em Caminha por Vila Praia de Âncora. Referência especial para o Pinhal da Gelfa que acaba praticamente no rio Âncora para dar lugar ao casario da vila. Retomado o caminho, e antes de entrar na sede de concelho, destaque para a Mata Nacional do Camarido, que se situa nas freguesias de Vilarelho, Cristelo e Moledo, e possui uma área de 143 hectares, e terá sido mandada plantar por D. Dinis. Caminha é uma zona riquíssima de paisagem. Como a própria autarquia lembra, Caminha um “Mosaico de Paisagens”, com grande diversidade natural, repartida por praias marítimas e fluviais, serra e matas. O estuário do Minho e junção do Coura neste, formam uma área de paisagem com vários habitats – sapais, juncais, galerias ripícolas, bancos de areia, campos agrícolas próximos – que atraem grande número de espécies faunísticas, nomeadamente aves. Daqui pode atravessar, via ferry-boat, para Camposancos e A Guarda, seguindo depois o Caminho da Costa Galego. Se optar por continuar por terra, por Seixas e Lanhelas, chegamos a Vila Nova de Cerveira. Também aqui pode optar por atravessar o rio Minho para Goián ou continuar até Valença e apanhar o Caminho Central. O percurso faz-se “paralelo ao rio, com amplas vistas, marcadas pelo verde da vegetação e o azul das águas e dos céus”. Por entre campos, manchas florestais, juncais, o rio e os montes que nos surgem em sequência como que prenunciando as grandes elevações do Alto Minho.

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Outro aspeto que gostaria de lembrar é o da gastronomia. Cada vez mais a gastronomia assume papel fundamental na motivação para visitar um destino. E a gastronomia do caminho do litoral é riquíssima. Vejamos:

Porto Sim, já sabemos, tripas à moda do Porto, claro. Mas não esqueçamos o Caldo Verde, que aqui se faz como em poucos lugares, o bacalhau à Gomes de Sá ou à João do Buraco, característicos da Cidade. E, símbolo do multiculturalismo e da inovação, a francesinha. É Porto, Ponto. Matosinhos Terra de peixe, já se vê. Da minha meninice guardo a faneca da pedra de Angeiras. Mas hoje em qualquer ponto se come excelente peixe, grelhado e não só, acompanhado por vezes por um magnífico arroz de legumes. Mas também há quem ainda faça a tradicional caldeirada de peixe.

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Maia Mesmo “em cima” do Caminho, vários restaurantes servem o Bacalhau à Lidador e o Cabrito à Maiata. Mas outros pitéus como a Vitela assada ou o Arroz de Pica no Chão podem ser degustados. Vila do Conde Terra de diversidade paisagística e também gastronómica. Apreciada a petinga à moda das Caxinas, mas também o cabrito assado. Riquíssima em doçaria conventual. Da minha juventude recordo o pão doce, folar tradicional do sul do concelho, que fazia parte da Terra da Maia. Felizmente há já em vários pontos de Vila do Conde e da Maia quem o fabrique de novo e com sucesso.

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Póvoa de Varzim Leonardo da Mata, cozinheiro famoso nos anos 40 do século XX (hoje seria chef ), inventou a Pescada à Poveira e a Rabanada à Poveira, duas magníficas criações. Só tenho pena que a Póvoa tivesse deixado morrer a original “A Poveirinha” e os seus excelentes e saudosos Claudinos. Esposende Na época, a Lampreia do rio Cávado, o robalo e o polvo do mar da Apúlia. Também os queijos e manteigas dos Lacticínios de Marinhas. E aquele que para mim é o melhor doce conventual do mundo – as Clarinhas de Fão. Viana do Castelo Aqui podemos provar (e comer) excelente gastronomia tradicional. Destaque, claro, para os bacalhaus, ou não tivesse sido Viana sede de grande frota bacalhoeira. Bacalhau à Viana, Bacalhau à Gil Eannes, Bacalhau à Camelo, Bacalhau à Margarida da Praça. E nos doces, entre muitos outros, Sidónios, Torta de Viana, Santas Luzias.

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Caminha Como em todos os concelhos ribeirinhos, destaque para a lampreia do rio Minho. Mas também a caldeirada e o cabrito da Serra de Arga. As roscas e os papudos na doçaria tradicional e os caminhenses, mais modernos, merecem uma prova. Cerveira Para além da lampreia, os rojões e o cozido à portuguesa têm direito a eventos especiais. Do mesmo modo as rabanadas tradicionais. Valença O caldo verde de Valença foi uma das 7 Maravilhas Gastronómicas de Portugal. Mas também merecem prova o bacalhau à São Teotónio, a savelha frita, a lampreia assada e o cabrito serrano, entre muitos outros.

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Este Caminho do Litoral, ou Caminho da Costa, como ficou consagrado, é um caminho “novo”. Novo não na idade, já que como afirmamos atrás os caminhos pelo litoral eram mais seguros e menos difíceis, portanto bem utilizados. Novo, sim, no seu estudo, na sua definição e na sua organização. O que muitas vezes parece (e é?) impossível, conseguiu-se aqui. Um conjunto de municípios, cobrindo todo o percurso no lado português, organizou-se, elaborou um projeto e pô-lo em prática. Isto é verdadeiramente novo. E exatamente porque é novo, não queiramos que ele “enferme” de velhos hábitos. É que o Caminho é uma entidade viva, em constante transformação. Por isso, temos de o acompanhar. O aspeto fundamental do trabalho tem de ser a atenção ao peregrino, para quem, no Caminho é fundamental que haja (Marques, 2015): 1. Segurança e comodidade; 2. Genuinidade; 3. Conforto; 4. Beleza; 5. Monumentalidade. Temos de atender a estas preocupações. A água é importante para quem faz o Caminho e os primeiros peregrinos bem o sabiam. Por isso, ao longo das etapas, foram construídas fontes, muitas vezes formando pequenos lugares de repouso. Temos de rever este aspeto, que conjugado com a colocação de algum mobiliário e árvores proporcione um lugar de descanso. Temos de analisar e atualizar normas de segurança e privilegiar um caminho mais confortável e mais seguro para o peregrino. Não podemos esquecer aqueles que têm dificuldades de locomoção. O Caminho tem de ser inclusivo. A acessibilidade tem de ser uma prioridade. É que o Caminho é hoje. É completamente absurdo querer fazer passar o peregrino por percursos dificílimos, só porque “era por aí o Caminho na Idade Média”. Mas nós não estamos na Idade Média. Desde o seu início até hoje o Caminho foi-se fazendo pelas estradas que havia em cada momento. Tal como deve continuar a ser. Obrigar o peregrino a dar voltas só para ver isto ou aquilo é tão desonesto como torcer o caminho para ele passar à porta de um estabelecimento de turismo de habitação, por exemplo. Este projeto não pode ficar por aqui. Já deu origem ao mais importante – um grupo de trabalho que trabalha. E que tem de continuar a sê-lo e a trabalhar. A riqueza da gastronomia no Caminho da Costa é de tal ordem, que acho que merecia maior atenção e um tratamento cuidado em termos informativos, algo à semelhança do que existe em Espanha (Zarzalejos, 1993). O mesmo acontece com outros aspetos, a pedir tratamento monográfico. A marcação do Caminho tem de ser vigiada, já que depois de ter sido feita, em vários locais foi “sobreposta” pelas setas amarelas, indicando outros percursos “alternativos”. Temos de analisar e atualizar normas de segurança e privilegiar um caminho mais confortável e mais seguro para o peregrino. Claro que no meio de todos os interesses que o Caminho concita – económicos, culturais, de desenvolvimento – não podemos esquecer a outra face, aquela que criou o Caminho, que o justificou, justifica e justificará – a espiritual.

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Novos caminhos, velhos hábitos?


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Rematando

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Numa palestra muito recente a que assistimos4, o Arquiteto Rui Loza abordou um conjunto de circunstâncias decisivas, algumas das quais é bom lembrar aqui, para remate deste trabalho. A propósito da possível candidatura do Caminho Português a Património Mundial da UNESCO (Loza, 2015), aquele técnico lembrou, em primeiro lugar, que a UNESCO não classifica o interesse turístico nem o interesse económico. Classifica algo que tenha valor imaterial, mas também muitos bens materiais de grande valor, como é o Caminho Português, para o qual aponta “vantagens” como o valor patrimonial, a identidade, a experiência de intercâmbio multicultural, a hospitalidade, os inúmeros elementos de atratividade. Mas refere também alguns constrangimentos que é necessário ultrapassar: a abertura das igrejas, a aposição dos carimbos, o restauro do património, as relações com as associações, a colaboração do setor privado, a investigação, a uniformização de sinalização e informação. E a propósito destes problemas de marcação, lembrou a existência da Normativa de 5 de novembro de 20155 que, atualizando os Decretos 85/2012, de 16 de fevereiro, e 138/2008, de 22 de maio, renova o “Manual de señalización turística de Galicia”. De facto, não vale a pena andar a descobrir a roda todos os dias… Permitam-me recordar aqui algumas das conclusões do seu estudo, fulcrais também para o Caminho do Litoral: - Há um movimento significativo de entidades interessadas em promover a candidatura, mas não há uma plataforma de articulação dessas entidades. - O caminho Português de Santiago não tem ainda uma Entidade Gestora nem um Plano de Gestão que são indispensáveis em qualquer candidatura à UNESCO. - O caminho a percorrer para chegar a uma candidatura com sucesso implica a criação de uma Entidade Gestora com capacidade agregadora e de liderança. Com ou sem candidatura, estas questões são fulcrais para a sobrevivência e desenvolvimento do Caminho do Litoral, isto é, do nosso projeto. Isto leva-nos à necessidade premente da criação de um organismo coordenador da gestão do Caminho Português, ou melhor, dos Caminhos em Portugal que, talvez em parceria com a S A do Xacobeo, poderia por ordem na casa e colocaria os remadores a remar para o mesmo lado. E sobre a hipótese de classificação do Caminho Português, defendeu a posição de que isso deveria fazer-se como uma extensão daquele que está classificado desde 1987 (Caminho Francês), à semelhança do que recentemente (julho de 2015) Espanha fez com outros dois percursos, O Caminho do Norte e o Caminho Primitivo. É que iríamos por uma via que já foi traçada, que já tem regras, critérios e estudos, não nos dando portanto oportunidade para «divagar», ou para querer impor «capelinhas». Como já escrevemos (Marques, 2009), o Caminho de Santiago é busca e encontro, é interrogação e resposta, é preocupação e esperança, é luz e espírito. E é também, e sobretudo, inclusivo, sem preocupação de raças nem grupos nem credos. É um caminho ecuménico, espiritual. É um caminho da universalidade e do encontro.

4 5.ª Conferência de Gaia - "O Caminho Português de Santiago", que teve lugar, no Mosteiro de Grijó, em Vila Nova de Gaia no dia 25 de maio. 5 Pode ser descarregada em https://www.xunta.gal/dog/Publicados/2015/20151118/AnuncioG0244-111115-0001_es.html.

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É um caminho que nos leva a um horizonte no meio da bruma das nossas incertezas. E que neste mundo materialista nos faz lembrar de nós como espírito, deixando para trás, ao menos por alguns dias o aspeto material. Mas isso são contas de outro rosário… Deixem-me terminar com uma espécie de pequena homenagem ao Prof. Carlos Alberto Ferreira de Almeida. Escrevia ele num artigo a propósito do Caminho: «Um caminho, qualquer que seja a forma com que se apresenta, seja uma pequena calçada ao serviço de um campo ou um escavacado acesso a um monte, desde um «caminho da missa» ou «da feira» até a um «carreiro da fonte», desde um caminho concelhio ou uma «estrada real» à recente auto-estrada, é sempre, na sua circunstância, um rico testemunho de civilização» (Almeida, 1995). E mesmo no fim uma citação do nosso Miguel Torga6, insuspeito quanto a este aspeto, de que o Prof. Carlos Alberto gostava particularmente e que lhe ouvi referir: «E o peregrino vem. Reza devotamente, Põe no altar o que tem, E regressa mais livre e mais contente… Assim faço também!»

Trata-se da parte final do poema “Federico Garcia Lorca”, inserido no livro Poemas Ibéricos publicado em 1965.

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Crédito das ilustrações 0, 3 e 5 – autor 1 – Turismo de Matosinhos 2 – Turismo da Maia 4 – Turismo da Póvoa de Varzim 6 – Turismo de Viana 7 – Turismo de Caminha 8 – Turismo de V. N. de Cerveira 9 – Valença. Tui. Info

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