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O DISCU RSO SEM MÉTODO um jornal a serviço da dúvida.

mar/abr 2013

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cotas em questão Inauê Taiguara. p.8 O PIMESP (Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior) foi anunciado pelo governador Geraldo Alckmin e está previsto para começar a valer para os ingressantes do ano de 2014. Mas, enfim, o que há de polêmico na proposta do governo do Estado?

por um engajamento político amplamente social Zé Calixto. p.12

os mortos e zumbis Gabriel Philipson. p.23

publicação dos estudantes de Filosofia da FFLCH/USP

odiscursosemmetodo.wordpress.com


editorial. 2

bramidos dissensuais Editorial “Se é necessário o silêncio da razão para curar os monstros, basta que o silêncio esteja alerta, e eis que a separação permanece.” (Foucault, Ordem do Discurso, p. 13). BEM-VINDOS CALOUROS!!! Porque aqui na Filosofia ninguém é bixo, bixete ou bixano, estamos todos em deviranimal. E se o sono da razão produz monstros, o silêncio do discurso – com ou sem método – coaduna com a apoplexia política. O DISCURSO SEM MÉTODO – Um jornal a serviço da dúvida – começa o ano, então, soltando os monstros, que habitam os corredores de nosso departamento, para berrarem em altissonante insurgência a urgência de fazer política de nosso agora. JÁ! Lembrando sempre que nosso gritar, não é palavra de ordem, mas é um convite a você ingressante e a todos os ditos veteranos: VENHAM GRITAR CONOSCO! Para tanto, neste impresso que você recebe e continuará recebendo gratuitamente e bimensalmente, conjugamos reflexões políticas, acadêmicas, estéticas, éticas, sociais, entendendo que estas áreas se permeiam continuamente e que as questões de cada uma delas estão implicadas nas questões das outras, de forma que os problemas estão sempre se interconectando e servindo de fermento uns para os outros. Talvez um gesto político emergencial esteja em afirmar a interdependência das áreas de reflexão filosófica. Uma forma de dizer que política da estética e estética política, ou política do sensível e sensibilidade política, são irredutíveis, mas também indissociáveis. Anima, então, nosso periódico, a ideia de dissenso (segunda opção mais votada para nome de nosso jornal - um possível codinome). “O que entendo por dissenso não é o conflito de ideias ou sentimentos. É o conflito de vários regimes de sensorialidade.” (Rancière, O espectador emancipado, p. 59) Perceber que o dissenso é o cerne da política, nos aponta para a irredutibilidade das sensibilidades dos sujeitos políticos, para a indecidibilidade de todo dispositivo consensual, enfim, para a necessidade de não silenciarmos frente à necessidade de renovação dos dispositivos políticos, reivindicando que esses possam abarcar o dissenso que constitui a multiplicidade de formas de vida em nossas sociedades. ONDE O CONSENSO E O SILÊNCIO SÃO UMA ORDEM,

É PRECISO GRITAR COM PALAVRAS E FORMAS DISSENSUAIS! É isso que faz nosso periódico ao trazer a premência do debate sobre o PIMESP - Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista. A “Nota de Repúdio” da Frente Pró-Cotas vem dizer que o PIMESP, travestido de política meritocrática e de reforço aos alunos menos preparados, está solapando as reivindicações históricas dos movimentos negro e de esquerda. Argumento que é analisado detalhadamente por Inauê Taiguara em “Cotas em questão”. A urgência desse assunto deve envolver toda a comunidade uspiana: neste semestre será decidido a implementação ou não do PIMESP, os conselhos universitários serão consultados – é necessário que os alunos reflitam e se posicionem sobre o PIMESP, AGORA! Outro assunto de urgência: a recente presepada do Ministério Público ao imputar como formação de quadrilha a ocupação do prédio da reitoria em 2011. A “Nota de Esclarecimento à Imprensa” da Comissão Jurídica dos processados vem mostrar como por trás dessa imputação está a crescente criminalização dos movimentos sociais e do fazer político. Michel Amary explode de raiva e vem nos inflamar para a questão: “Quem é realmente a quadrilha?”. Mais que reconhecer o pífio aparato jurídico utilizado para a imputação, a insustentável acusação do Ministério Público e nos aliviarmos com a dissipação de tal imputação, Michel vem nos lembrar, com Chico Buarque, que existe uma LUTA política em jogo e que é inadiável nos movimentarmos para que o amanhã possa realmente ser outro dia. Nessa direção “Trânsito e transporte na USP” de Inauê Taiguara e “Por um engajamento político amplamente social” de Zé Calixto, trazem-nos pautas tão emergenciais quanto - talvez até mais pelo perigo de esquecimento - o problema dos transportes relacionados ao BUSP e a delimitação da comunidade USP, a desmilitarização da polícia e a legalização das drogas. Poderá se perceber, lendo estes textos, que as questões políticas que animam a USP estão intimamente interconectadas e que um “engajamento político amplamente social” vê que a USP e a sociedade paulistana não estão separadas, e que eleger pautas que dizem respeito a USP é propor como queremos que funcione nossa sociedade para além de nossos muros.


editorial. 3 Nesse sentido, “Ato sem palavras” de Lucas Paolo e “A Nova Condição Humana” de André Oliveira vem mostrar como as formas de pensar, olhar, sentir, são determinantes na constituição política de nossa sociedade. André Luiz Oliveira, em uma divertidíssima narrativa, nos propõe a reflexão: “O que aconteceria com nossos modos de vida se a matemática deixasse de fazer sentido para os homens?”, mais precisamente “Haveria alguma ordem possível se o quantitativo fosse abandonado em prol do qualitativamente sempre distinto?”. Lucas Paolo, polemizando com charges de Chico Caruso e Carlos Latuff, parece nos querer sugerir: “Olhou uma vez, olho de novo...”; para sugerir o gesto ético de que jamais afirmemos nossa suficiência estético-moral – o autêntico e o verdadeiro estão sempre escapando em nossos modos de sentir e agir. Mas não acaba por aí! Gabriel Philipson continua sua voraz dissecação do fazer história da filosofia. Se na edição anterior de nosso jornal, ofereceu-nos os modelos “vegetariano” e “canibal”, nesta edição nos brinda com o “espiritista” e o “necrófilo”. Duvidamos que a leitura desse texto não propulsionará um apetite insaciável para que você leitor devore os livros que virão pelo curso – sem esquecer de regurgitar, aqui e ali, os empanturramentos de suas glutonices zumbismais. O que aconteceria se Platão e Aristóteles decidem jogar “Par ou Ímpar”, é o que Thiago Fonseca nos oferece em seu texto homônimo. Thiago nos ajuda a lidar melhor com nossos professores, mostrando que até nosso querido Ari teve problemas com o intransigente Platão. Brincadeira incluídas, ambos os textos não cessam de nos mostrar o quanto o fazer filosófico ou do historiador da filosofia mobilizam sensibilidades irredutíveis e muitas vezes incomunicáveis. Mas na contramão do reconhecimento impossível, André Paes Leme nos oferece um breve comentário e um fragmento traduzido do livro “Elogio do Amor” de Alan Badiou. Trata-se de reivindicar o amor como um afeto dissensual, contra a sensualização crescente das formas de manifestação do amor que o mercado vende como consensos a serem adquiridos e partilhados. Ali onde o amor efetua a despersonalização das subjetividades e afirma a irredutibilidade da alteridade, assim como sua necessidade na constituição de um sujeito não-identitário, o reconhecimento não só se torna possível, mais urgente. Por fim, e com certeza não menos importante, nossa seção de resenhas e poesias. Ela começa com a profunda análise de Alberto Sartorelli sobre o quadro “O Tempo” de Henrique Bernardelli, quadro este que em sua análise nos faz despertar para o aspecto existencial e problemático do tempo ao configurar nossas experiências. Já “A nova resenha de Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino” nos coloca, editores, numa aporia temporal e de procedimento. Você está começando a ler o comentário da resenha de André Scholz e já sente a vertigem palimpséstica de estar lendo o fim pelo início, o procedimento literário por seu simulacro assaz imperfeito. Não nos delonguemos: leia a resenha! Não menos vertiginoso é o “FUMER OU NE PAS FUMER... CE N’EST PAS LA QUESTION” de Siddhartha Sacadura, que pela negação ultradeterminada determina: frente a tantas questões

fundamentais não deve ser para opinião pública o fumar ou não baseado a verdadeira questão. Perpassemos o nevoeiro criado pela opinião pública e coloquemos que a verdadeira questão com relação à legalização dos entorpecentes possui uma amplitude bem maior do que gostariam aqueles que colocam o livre-arbítrio no cerne das problemáticas políticas e sociais. Por fim, não incorreremos no absurdo de comentar cada poesia – isso automaticamente colocaria o editorial na seção de resenhas e nosso periódico estaria indo longe demais com a lógica aristotélica e talvez com boa parte da filosofia dita ocidental. Apenas fica o alerta: se você levou a sério a inseparabilidade de política e estética, leve a sério a possibilidade das poesias que trazemos para você serem uma maneira privilegiada de violentar sua própria sensibilidade. Mais uma vez agradecemos àqueles que têm colaborado para que este Jornal esteja se firmando com um veículo de discussão em nosso curso. E convocamos a todos para participar contribuindo com um texto, ou mesmo com a sua leitura e reflexão, a promover a dúvida, o debate, o engendrar de novas sensibilidades e novas possibilidades políticas e com a força de nosso grito. ϕ

Expediente Alberto Sartorelli André Paes Leme André Oliveira André Scholz Bruno Bernardo Caio Mello Duanne Ribeiro (diagramação) Gabriel Philipson Inauê Taiguara (edição) Lucas Paolo Mariana Luppi (revisão) Monica Marques (diagramação) Michel Amary Siddartha Thiago Fonseca (ilustrações) Zé Calixto

Agradecimentos a Johannes Gutenberg; à Comunicação Social da FFLCH;

imagem da capa: ”El sueño de la razón produce monstruos” (1799), Francisco de Goya.


editorial. 4

Índice agenda e notas

artes visuais

calendário..........................................................5 impressões sobre “O Tempo”, de Henrique Bernardelli................................24 coluna do CAF Alberto Sartorelli o CAF, a gestão e o jornal................................6 literatura universidade e política A Nova Resenha de Se um viajante numa noite cotas em questão............................................8 de Inverno de Italo Calvino............................26 Inauê Taiguara André Scholz nota de repúdio da Frente Pró-Cotas Raciais conto sobre o PIMESP.............................................10 Inauê Taiguara a nova condição humana...............................28 André Oliveira movimento estudantil par ou ímpar...................................................31 por um engajamento político Thiago Fonseca amplamente social........................................12 Zé Calixto crônica Chico e os processados...............................14 Michel Amary estrutura universitária

fumer ou ne pas fumer... ce n’est pas la question.................................32 Siddartha

poesia.............................................................33 trânsito e transporte na USP........................16 Inauê Taiguara Desbarrancadeiro pra curvar rio na falta de tempo sociedade Lucas Paolo ato sem palavras...........................................18 emanação Lucas Paolo Alberto Sartorelli sobre o direito de ser rodapé.............................................................36 reflexões sobre o 8 de março.......................20 CAF em 1994 Monica Marques Mulher, símbolo de amor, perseverança, desprendimento...................21 Bruno Bernardo tradução Elogio do Amor, de Alan Badiou..................22 André Paes acadêmico os mortos e zumbis.......................................23 Gabriel Philipson

leia as edições anteriores e o Manual do Calouro e da Caloura, no link: issuu.com/caf_usp/


agenda e notas. 5

calendário político-estudantil: - Segundas-Feiras – Reunião Ampliada do CAF, das 18h às 19h30. Local: Sede do CAF, situada no Espaço Verde, última sala.

acadêmico-estudantil: - 3 de abril – Data máxima para trancamento de matrícula em disciplinas. - 1 de maio - Dia do Trabalho. Não haverá aula. - 10 de maio - Data máxima para o envio de textos para a próxima edição do Discurso sem Método - 30 de maio - Corpus Christi. Não haverá aula. - 31 de maio - Recesso Escolar. Não haverá aula

culturais: - Sábados – Biblioteca Mario de Andrade, das 10h às 12h - ciclo de palestras Romance de Formação: caminhos e descaminhos do herói 06 de abril - Machado de Assis, Dom Casmurro palestra de Alcides Villaça 13 de abril - Alfred Döblin, Berlim Alexanderplatz palestra de Willi Bolle 20 de abril - Gustave Flaubert, A educação sentimental palestra de Samuel Titan Jr.

15 de junho - Thomas Mann, A montanha mágica palestra de Jorge de Almeida 22 de junho - Guimarães Rosa, Grande sertão: Veredas palestra de Davi Arrigucci 29 de junho - Milton Hatoum, Dois irmãos palestra de Milton Hatoum - Paço das Artes - série Diálogos Estéticos Arte e Gestão Cultural 11 de abril | Quinta-feira | 19h30 Com Dennis Oliveira e Soledad Galhardo Arte e Música 15 de maio | Quarta-feira | 19h30 Com Flo Menezes e Vladimir Safatle Arte e História Da Arte 13 de junho | Quinta-feira | 19h30 Com Elaine Caramela e Sônia Salztein Arte e Mediação 29 de agosto | Quinta-feira | 19h30 Com Cayo Honorato e Jorge Menna Barreto Arte, Cidade e Comunidade 12 de setembro | Quinta-feira | 19h30 Com Guilherme Teixeira e Mônica Nador Arte e Colecionismo 17 de outubro | Quinta-feira | 19h30 Com Miguel Chaia e Camila Duprat

04 de maio - Ítalo Svevo, A consciência de Zeno palestra de Fábio de Souza Andrade 11 de maio - James Joyce, Retrato do artista quando jovem palestra de Munira Mutran 18 de maio - José María Arguedas, Os rios profundos palestra de Marcos Piason Natali 25 de maio - Graciliano Ramos, São Bernardo palestra de Erwin Torralbo Gimenez 08 de junho - Proust, Em busca do tempo perdido palestra de Franklin Leopoldo e Silva

Um oferecimento de Gianotti's Pato-Lebre

www.patoaquilebreacola.com.br

27 de abril - Dostoiévski, Crime e castigo palestra de Paulo Bezerra


coluna do CAF. 6

ano letivo e ano de luta Olá a todos, Nós da atual gestão do CAF, Cafuzo, decidimos utilizar este espaço reservado à gestão no periódico do nosso curso para nos apresentar, relembrar alguma de nossas propostas para este ano e também refletir sobre algumas pautas que estão em voga. De modo que este texto é destinado a calouros e veteranos. Oficialmente, a atual gestão é composta por alunos do 2º, 3º, 4º e 5º anos do curso, além de diversas outras pessoas que, apesar de não estarem formalmente inscritas na gestão, são participantes ativos do CAF e ajudam a geri-lo. Falamos aqui, portanto, em nome de uma gestão expandida. Ela não é filiada a nenhum partido, apesar de alguns membros serem mais próximos de uma ou outra linha política. Acreditamos que essa diversidade é saudável e permite ao CAF, enquanto entidade, um posicionamento mais crítico no contexto da USP. Antes de seguir, gostaríamos de destacar a diferença existente entre gestão e entidade. Por gestão, entendemos a chapa eleita pelos estudantes do curso para executar as atividades que competem ao CA, como a organização de eventos, debates e festas, mediação entre o corpo dos estudantes e o departamento, entre outras coisas. Já quando falamos no CAF como “entidade”, estamos falando em um conceito bem mais amplo, que engloba todos e todas as estudantes do curso. Consideramos temerário o que vemos acontecer em outros CAs, onde gestões se confundem com a entidade e acabam por usar a entidade para promover e fortalecer o próprio coletivo ou como dizemos, aparelham a entidade. Isto leva muitos

estudantes a se afastarem do movimento estudantil por não encontrarem no CA - que deveria ser a instância mais próxima do estudante – possibilidades de debates críticos. Sendo assim, reconhecemos que o CAF é muito mais amplo que a gestão e a excede: todos os estudantes do curso têm direito a voz e voto nas reuniões ampliadas do CAF, as quais acontecem todas as segundas-feiras, das 18h às 19h30, ordinariamente na sala do CAF, no Espaço Verde. Acreditamos que somente com a participação ativa dos estudantes é que o CAF poderá corresponder às demandas do curso e dos estudantes – em suma, não basta esperar tudo daqueles que estão na gestão. Mas a gestão tem o seu papel e as suas responsabilidades. O que nos leva a apresentar algumas de nossas propostas para este ano. Sabemos que nosso curso é plural do ponto de vista dos interesses dos alunos e que há uma dificuldade de reunir em um ponto ou em uma atividade tal amálgama. Acreditamos que tal dificuldade é uma das causas da pouca participação nas atividades promovidas pelo CAF. Porém, a esta se somam no mínimo outras duas causas: a dificuldade de comunicação e a fragmentação das turmas, que após o primeiro ano seguem caminhos diversos, escolhendo matérias em dias diferentes – o que por vezes dificulta o aprofundamento de algumas questões comuns, mesmo entre colegas próximos. Quanto às propostas, não há nada de genial. A principal ideia é que a gestão incentive e apoie tanto quanto possível iniciativas tais como a que se concretizou neste jornal, ou seja, a gestão se propõe a fomentar a criação e a manutenção de comissões. Grupos que queiram debater política, manter um cineclube ou realizar saraus podem

participe do jornal! Envie artigos, traduções, contos, crônicas, poesia, manifestos, comentários; ajude na edição; colabore com a diagramação. A produção do jornal é aberta a todos os alunos da Filosofia, com discussões presenciais e online.


coluna do CAF. 7 encontrar no CAF o apoio necessário para a concretização de suas ideias. Acreditamos que isto pode em parte ajudar a resolver a primeira dificuldade que citamos acima, a de reunir e/ou contemplar os diversos interesses dos alunos do curso. Sobre a questão da comunicação entre os estudantes, fisicamente utilizaremos bastante os murais: tanto o Mural do Corredor quanto o das salas – já reparou que em todas as salas existem murais?! Virtualmente utilizamos uma lista de email (para ser incluído nesta lista, envie um email para uspcaf@gmail.com), o site do CAF (www.fflch.usp.br/ df/caf) no qual são publicadas as atas das reuniões, além de contar com o auxílio de um perfil do CAF no Facebook (o perfil chama-se “CAF USP”). Quanto ao terceiro ponto, a fragmentação das turmas, nos parece que uma das poucas opções para enfrentar este problema é promover festas, ou melhor dizendo, livres associações de pessoas em espaços públicos, conforme o 5º artigo da Constituição brasileira, e promover assim uma cultura de confraternização extraclasse. Estas propostas visam propiciar aos estudantes a possibilidade de vivenciarem o curso de filosofia como um todo, em suas inúmeras facetas: acadêmica, social, cultural e política. Por fim, existem debates que serão feitos neste semestre e neste ano e que valem ser mencionados desde já. Primeiramente, vocês provavelmente já sabem que houve uma ocupação a reitoria em 2011 e que os 72 estudantes e funcionários presos durante a reintegração de posse foram, agora em fevereiro de 2013, denunciados pelo Ministério Público por diversos crimes, entre eles formação de quadrilha, além de terem sido punidos internamente com até 15 dias de suspensão. Consideramos que esses estudantes não cometeram crimes, pois faziam uma manifestação política, por isso nos posicionamos contra os processos tanto no nível institucional quanto no político. Fica patente também que o tratamento dado à questão é sintoma da atual forma como a reitoria lida com problemas internos, autoritária e punitivamente, valendo-se sempre de meios legais para defender e implementar um projeto de universidade mais focado na ascensão nos rankings e no favorecimento a fundações do que nos interessas da população. A manifestação política dos processados

opunha-se a esse projeto, por exemplo, na medida em que defendia maior presença da população no campus (contra as restrições atuais) e questionava, a partir da USP, a função da Polícia Militar. Além disso, o governo do estado de São Paulo, em conjunto com o Cruesp (Conselho de reitores das universidades estaduais paulistas), lançou o Projeto de Inclusão por Mérito (PIMESP) para as universidades, que pode ser aprovado ainda esse semestre. Somos favoráveis às cotas sociais e raciais e, portanto, contra o PIMESP, uma vez que ele não significa a adoção real de cotas, e busca “incluir” negros, pardos e indígenas através de um critério distorcido de mérito, criando um curso especial para os estudantes cotistas, a ser realizado a distância por 2 anos, oferecido pelo Instituto Comunitário de Ensino Superior (ICES) - Instituto que seria criado para este fim - em parceria com a Univesp, antes de conceder a entrada nas universidades. Além disso, a concessão da vaga ficaria condicionada a um aproveitamento de 70% no tal curso à distância. Ainda, não podemos deixar de observar as disciplinas que seriam oferecidas pelo ICES no curso em questão. Entre elas, incluídas por sinal como matérias de Ciências Humanas, estão “Profissionalização, Inovação e Empreendendorismo”, “Liderança e trabalho em equipe”, entre outras de caráter exclusivamente mercadológico e que em nada ajudam a preencher as lacunas deixadas pelo Ensino Médio, posto que não há na grade curricular sequer ensino de geografia ou história. A nosso ver, trata-se de um projeto racista e segregador. Enfim, o próprio reitor da USP, João Grandino Rodas, destacou a “meritocracia como premissa principal do programa (http://www.usp.br/ imprensa/?p=27164).” Vale mencionar que o movimento negro discute há anos um projeto de cotas raciais, visando à inclusão de negros pardos e indígenas nas universidades públicas, e esse movimento também se posiciona contra o PIMESP. Ambas as questões já estão sendo tratadas em diversos fóruns do movimento estudantil, e a gestão do CAF buscará realizar debates e outras atividades para o aprofundamento dessas discussões, bem como de todas as outras discussões sobre questões que digam respeito, direta ou indiretamente, à comunidade universitária. Ressaltamos que estamos sempre abertos ao diálogo, às críticas e sugestões. Bom ano letivo e de luta a todos nós. ϕ

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universidade e política. 8

cotas em

questão Inauê Taiguara

Casa-Grande e Lan-House Dia 05 de fevereiro de 2013, ocorreu uma audiência pública convocada pela Frente pró-cotas raciais no estado de São Paulo, cujo objetivo era o de discutir a proposta do governo do Estado para as três universidades estaduais: UNESP, UNICAMP e USP. A presente audiência contou com a participação de mais de 70 coletivos, o que mostra que há uma grande mobilização em torno dessa questão. O PIMESP (Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior) foi anunciado pelo Governador Geraldo Alckmin às vésperas do natal, e está previsto para começar a valer para os ingressantes do ano de 2014.

Mas enfim, o que há de polêmico na proposta do governo do Estado? Segundo o projeto estadual os estudantes que entrassem pelo critério das cotas raciais teriam de fazer dois anos de um reforço pedagógico à distância, a fim de ‘nivelar’ estes candidatos. Este reforço é chamado de “college”. Terminados estes dois anos o cotista teria uma vaga garantida nos cursos da universidade, no entanto, apenas se tiverem obtido mais de 70% de aproveitamento do “college”, sendo que, ao final do primeiro ano, estes es-


universidade e política. 9 tudante teriam o direito de entrar para algum curso das FATECs, é claro, mantendo os 70% de aproveitamento. Ou seja, uma graduação como a nossa que demora no mínimo quatro anos, para um cotista demoraria no mínimo seis. Quantos dos que entram na faculdade têm dois anos para gastar neste reforço? E o princípio da igualdade onde fica? Imaginem que se criarão dois tipos de graduando, os que entram de primeira e os que entram de segunda. Esta ideia não pode ser considerada como razoável. A primeira objeção à implementação das cotas raciais foi a alegação de que elas seriam inconstitucionais, objeção esta que foi derrubada pela decisão do STF que determinou a legalidade das cotas raciais. A segunda objeção gira em torno da questão do mérito, objeção que ainda não foi derrubada, e é a por causa disto que um projeto como o PIMESP é apresentado como uma grande solução para reparar uma desigualdade historicamente estabelecida. Em termos objetivos, aqueles que defendem o “college” argumentam que o nível dos cursos na universidade cairia se pessoas entrassem apenas pelo critério das cotas raciais, e que isto não deve acontecer. No entanto, estudos recentes mostram que os estudantes que entram por sistemas de cotas têm desempenho igual ou superior aos estudantes que entram pelo filtro do vestibular (http:// bit.ly/cotistas). Ademais, noutros cursos tais como os da POLI ou do IME, muitos dos alunos que entram frequentemente encontram dificuldades para acompanhar o curso e para eles são disponibilizadas aulas facultativas de reforço, o que dá ao aluno a opção de ir atrás ou não de superar a sua dificuldade. Diferentemente de um reforço imposto, que joga o problema de superar a desigualdade social estabelecida em razão do fenótipo das pessoas na responsabilidade do aluno cotista em alcançar e manter os 70% de aproveitamento neste PIMESP. Ademais, todos sabem que entrar na faculdade faz parte de uma formação social e política, e não só profissional. A universidade é um espaço de troca de ideias, de crítica e de convivência com a pluralidade. Estes estudantes que “entrassem” na universidade por esse sistema de cotas estariam também privados desta convivência por dois anos. E se as cotas estão em pauta é porque se assumiu, eis um avanço, a existência da desigualdade historicamente estabelecida em nossa sociedade. Ora, estes estudantes deveriam estar é no seio da universidade para ajudar ativamente a transformá-la em direção à superação dessa desigualdade e não serem mantidos a distância. Se o projeto começar a vigorar mesmo em 2014, teremos classes mais diversas, fenotipicamente falando, apenas em 2016. Porque demorar tanto? Não me estenderei mais em relação ao tema, acredito

que já expus claramente a minha objeção ao projeto do governo estadual. O objetivo deste texto é trazer este debate a tona para que cada um chegue a suas próprias conclusões e decida se é a favor ou não do PIMESP. O fato é que este é um tema que está em pauta, e corre o risco de virar realidade ainda esse semestre sem que sequer o tenhamos colocado em discussão. Porém, antes de encerrar quero comentar alguns trechos de dois artigos que saíram em apoio ao PIMESP, para ressaltar como este programa é embasado em um projeto de universidade elitista e excludente. Primeiro, o Editorial da Folha de 29/12/2012, intitulado “Novo modelo de cotas”, diz acerca do PIMESP: “Similar a ‘colleges’ dos EUA, a ideia é a inovação mais promissora da proposta paulista. Adota a premissa, correta, de que é preciso elevar e equalizar o nível acadêmico dessa clientela antes de expô-la a cursos de ponta. Além disso, apenas estudantes com desempenho mínimo de 70% na fase preparatória teriam passagem automática para as carreiras tradicionais de USP, Unesp e Unicamp, o que resguarda o mérito. A adoção de uma meta a ser atingida --em vez de reserva simples de vagas-- também é sinal de maturidade. Não obriga as universidades a receber alunos com conhecimentos insuficientes, que possam comprometer as instituições. Há, contudo, dois aspectos criticáveis. O primeiro é a adoção de critérios raciais para escolher metade dos alunos do curso preparatório. A única premissa deveria ser socioeconômica; ter estudado em escola pública é a melhor aproximação para isso. Não cabe à política pública incentivar experimentos “racialistas” numa sociedade miscigenada como a brasileira.”. De início, o editorial argumenta que é uma premissa correta afirmar que o estudante que ingressa pelo sistema de cotas não conseguiria acompanhar os cursos das universidades, e que isto comprometeria as instituições. No entanto, como já me referi, estudos recentes mostram que estudantes cotistas, em geral, têm desempenho igual ou superior ao dos estudantes que ingressam pelo caminho do vestibular. Ademais, logo em seguida o editorial se refere a estes candidatos como “clientela”, deixando transparecer a ideia de que, para eles, o ensino transformou-se em mercadoria. Em seguida, o editorial se refere que o único critério que deveria ser utilizado é o socioeconômico e que um bom medidor de tal critério é o aluno ter estudado em escola pública. No entanto, é um equívoco sugerir que um aluno de ETEC possui a mesma formação que um estudante de uma Escola Estadual comum, ou que um aluno da Escola de Aplicação possui a mesma formação que os Estudantes das Escolas Municipais comuns. E eis que se se toma apenas o fato de o aluno ter cursado o ensino público como fator re-


universidade e política. 10 levante, se equiparam estas realidades tão discrepantes. Já a coluna de Cláudia Collucci, “Testes provam que aparência e DNA se confundem no país” publicada no dia 23/12/2012 da Folha de São Paulo, apresenta um estudo colocando a questão de “quão negro” é quem se autodeclara. Segundo o artigo: “A mulata Célia da Silva se autodeclara “muito preta”, mas menos de 10% dos seus genes são de origem africana. A loirinha Milene da Costa se classifica como “muito branca”, mas tem 37% de ancestralidade africana.” Tratando o assunto desta forma se superficializa a questão, como se não houvesse razões para levar em conta o fenótipo das pessoas, pois no Brasil toda a população é miscigenada – como se não existissem preconceitos raciais em nossa sociedade. Tal pensamento leva a conclusão tendenciosa de que apenas cotas sociais seriam necessárias e reparariam as desigualdades em nossa sociedade. Porém, a bem verdade, a autora reproduziu uma resposta contrária ao argumento genético e que está muito mais sintonizada com a realidade: “Segundo frei David Santos, ativista da causa negra e presidente da Educafro, há um bombardeio da sociedade contra as cotas raciais, e o resultado é que até os negros são influenciados por ele e passam a considerar as cotas sociais uma opção melhor. “Vários setores da sociedade, principalmente a mídia, têm insistido na tese da genotipagem. É uma tese equivocada, maldosa. O preconceito é no fenótipo, e não no genótipo. Quanto mais negro o cidadão é, mais chances ele tem de apanhar da polícia.” ϕ

nota de repúdio da

Frente Pró-cotas Raciais sobre o PIMESP Em novembro de 2012, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, auxiliado pelos reitores das três universidades públicas do estado (USP, Unicamp e UNESP), veio à público anunciar um programa de cotas para as respectivas instituições. O projeto, denominado Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (PIMESP), tem como objetivo a “inclusão com mérito”, ou seja, os estudantes cotistas terão suas vagas garantidas para um college (sistema americano de ensino, em que o aluno faz um curso básico antes de escolher uma especialidade) semipresencial. Após dois anos, de acordo com a nota que obtiver, o aluno poderá escolher um curso. Consideramos que submeter a um “reforço” os alunos aprovados no vestibular pelo sistema de cotas é ilegítimo. Instituir o college seria reforçar uma discriminação negativa e acreditamos que tal “ensino à distância” isola tais estudantes em seu acesso à universidade. Dois anos de espera irão atrasar o desenvolvimento educacional e profissional dos estudantes cotistas, desestimulando sua permanência na universidade. A ideia implícita em tal programa é a noção elitista e racista de que os estudantes cotistas seriam um entrave ao desenvolvimento da universidade


universidade e política. 11 A Frente Pró-cotas Raciais da USP espera que possa ser implantado um projeto de ação afirmativa que efetivamente dialogue com as reivindicações históricas do movimento negro e da esquerda. caso não dotados de mesmo “conhecimento” que os estudantes não-cotistas supostamente possuem. Consideramos tal ideia ilegítima dado que pesquisas apontam que o desempenho de cotistas é igual ou superior ao dos demais estudantes e de que nenhum estudante deve ter seu conhecimento medido e reduzido às lógicas de mercado vigentes nas universidades atualmente. Além disso, criticamos o fato de que, no PIMESP, não há desvinculação entre cotas raciais e sociais, ou seja, destinar o percentual de cotas raciais de acordo com a composição étnico-racial do estado não irá incidir sobre o total de vagas, mas dentro dos 50% de vagas destinados a estudantes de escola pública (o que reduz o percentual de cotas por critério racial, portanto). Por fim, no que diz respeito à permanência, alunos com renda familiar inferior a 1,5 salário mínimo (R$933,00) receberão uma bolsaauxílio de R$311,00, abaixo do valor das bolsas oferecidas atualmente aos alunos, como no caso da USP, que são em torno de R$450,00. Esse programa é uma ofensa aos anos de luta que os movimentos sociais travaram para garantir acesso e reparação à população negra e pobre. Repudiamos completamente esse programa e exigimos que a implementação de cotas seja feita em conjunto com os movimentos sociais. Há espaços criados que vem discutindo isso, como a Frente Pró-cotas Raciais do Estado de São Paulo, que tem total capacidade de criar um programa que atenda de fato à população negra. Uma das tarefas que cabem à Universidade de São Paulo é a de promover políticas significativas de inclusão e permanência da população negra e pobre. A responsabilidade social da USP é posta em xeque com a decisão unânime do STF, em 2012, de que as cotas raciais são constitucionais. A Frente Pró-cotas Raciais da USP espera que possa ser implantado um projeto de ação afirmativa que efetivamente dialogue com as reivindicações históricas do movimento negro e da esquerda. Não aceitamos uma proposta que venha “de cima para baixo”. ϕ

Visite o blog da Frente Pró-Cotas Raciais da USP: frenteprocotasraciaisusp.wordpress.com


movimento estudantil. 12

por um

engajamento político amplamente

social Zé Calixto

O movimento estudantil não soube levar sua pauta para a sociedade. Fechou-se em si mesmo na USP e foi derrotado. Passados um ano e pouco da invasão da policia militar na USP e com a instauração do processo de acusação de formação de quadrilha por parte dos estudantes, urge repensar a atuação dos movimentos sociais envolvidos com esta pauta. Sendo assim, este texto é uma reflexão interna aos colegas do movimento estudantil, principalmente da USP, mas que pode servir de convite a diversos movimentos sociais progressistas. O estopim da crise que segue até hoje não foi a morte de um estudante da filosofia ou da economia. O estopim do movimento foi a repressão policial ao consumo de maconha. É só a partir deste fato que todo o debate político e social se orienta. “São os maconheiros da USP querendo que a polícia saia de lá”, diz o senso comum. Mesmo com grandes atos e grandes assembleias o que se seguiu foi um acúmulo de derrotas: estudantes expulsos, redução da circulação na USP, processos, destruição do canil (espaço cultural livre). Cabe então uma reorientação de perspectiva. Primeiramente é preciso reconhecer realmente qual é a pauta que está inevitavelmente embutida neste movimento e ter coragem de assumi-la. A pauta dada pelos acontecimentos tem dois eixos centrais: a polícia e os entorpecentes. Toda vez que o debate vem à tona ambas as pautas são convocadas.

O primeiro diz respeito à existência de uma policia Militar que atua sobre a esfera civil. A Polícia Militar é um instrumento de guerra que obedece ordens, incapaz de lidar com as ambiguidades e contradições no trato de policiamento da esfera civil e principalmente com os movimentos sociais, os quais trata sempre como inimigo. Desde que explodiu nosso movimento - contra a PM na USP - todos perceberam que o problema era a PM por toda parte, mas nosso movimento não conseguiu dar forma a esta percepção e transformá-la numa reivindicação real. A outra pauta diretamente relacionada a esta era a dos entorpecentes. Vínhamos em 2011 de uma enorme vitória política do movimento de legalização das drogas - antiproibicionista - que agora pode organizar suas manifestações livremente. A legalização dos entorpecentes é fundamental para diminuir a violência que tanto mata o povo como os próprios PMs. No entanto, fomos usados para cumprir os interesses do discurso conservador contra a legalização dos entorpecentes e a favor da Repressão. É preciso assumir que hoje este tema é amplamente defendido por todos, mas timidamente pautado na sociedade. Novamente recuamos. Saímos à rua falando: “Que vergonha achar que a greve é por causa da maconha”. Diante disto, o que fazer? O filme No retrata a construção da campanha publicitária vitoriosa do plebiscito que tiraria Pinochet do poder na ditadura chilena, uma vitória con-


movimento estudantil. 13 traditória, mas que deixa uma lição. A mensagem central passada pelo publicitário para os militantes de esquerda que queriam derrotar a ditadura é a seguinte: “É preciso vencer, e para isso você deve saber vender a sua pauta”. O movimento estudantil não soube levar sua pauta para a sociedade. Fechou-se em si mesmo na USP e foi derrotado. Mas é preciso vencer nestas duas pautas, pois elas são fundamentais para a emancipação da sociedade, como foi preciso vencer as ditaduras e hoje garantir que não voltem mais. A questão é: como vencer? Ainda mais agora que a luta é contra o poder público do Estado. O movimento estudantil está deveras acostumado a pautar pautas específicas internas: direitos de permanência, verbas para a educação, pautas diretas da universidade. No entanto, as pautas que tem diante de si – polícia e entorpecentes - são amplamente sociais. O movimento deixa de ser estudantil e passa a ser social. Vencer nestas pautas é assumir a capacidade de nosso movimento intervir na realidade de toda a sociedade para além da universidade, coisa que muitos da esquerda da USP sonham. Sendo assim, reconhecendo o caráter amplo da pauta penso que devemos ter as seguintes orientações para ampliar o apoio popular de nosso movimento: 1- Convocar todos os movimentos sociais em solidariedade para nossas manifestações. Movimentos sociais, antiproibicionistas, partidos de esquerda, movimentos de moradia, movimentos rurais, etc. Todos os que sofrem com a repressão da Polícia Militar. 2- Passados um ano e pouco de reflexão já podemos afirmar (até a ONU afirma): queremos a extinção progressiva da Polícia Militar. Pelo fim da violência policial. Toda a população sente a opressão da PM, sabe que a PM é corrupta , truculenta e descontrolada. Afirmar esta pauta trará muitos para o nosso lado. 3- Queremos a legalização do consumo de entorpecentes como tem ocorrido até nos EUA. Nesta pauta temos amplo apoio de intelectuais e artistas. A população esta sentindo na pele o proibicionismo que se alastra por toda parte. Se os estudantes da USP convocarem a todos pela legalização já teremos mais uma enorme via de apoio popular. 4- Isso deve ser pautado em paralelo à defesa de todos os que sofrem com processos e à democratização da universidade, pautas não menos importantes, mas que tendem a nos deixar isolados no interior da USP. Penso que para vencermos é preciso ter coragem de focar estas questões. A democracia e defesa dos processados, a democratização da USP, a extinção da Polícia Militar, a legalização de entorpecentes. É preciso também ter coragem de reformulá-las de maneira que sejam positivas e atraentes, convidando a todos para o sonho de um mundo mais pacificado, mais livre, igualitário e amoroso, com menos armas, com uma universidade aberta à cidade e democrática. ϕ

Nota de Esclarecimento

à Imprensa Comissão Jurídica em Defesa de Estudantes e Trabalhadores

Vimos a público esclarecer notícias recentemente veiculadas na mídia referentes à denúncia oferecida pelo ministério público contra as 72 pessoas (estudantes e trabalhadores) presas na ocasião da reintegração de posse da Reitoria da Universidade de São Paulo em novembro de 2011. A desmedida acusação imputa a suposta prática dos delitos de desobediência, formação de quadrilha, pichação, dano ao patrimônio público e manipulação de artefatos explosivos. No entanto, até o presente momento, sequer se trata de um processo criminal, não podendo ser consideradas as 72 pessoas rés, e sendo no mínimo leviano nomina-las criminosas. Por trás dessa forma de acusação, com destaque à imputação do delito de formação de quadrilha, há uma prática recorrente de repressão contra movimentos sociais que lutam por direitos. Organizar-se coletiva e democraticamente para reivindicar mudanças políticas não pode ser caracterizado como ação criminosa. No caso específico, ademais, o próprio ministério público reconhece a ausência de individualização da conduta dos supostos envolvidos, demonstrando absoluta inaptidão da denúncia. O Direito Penal não admite responsabilização coletiva. Sem a devida especificação do que fez cada pessoa acusada, não há condições para o exercício pleno da defesa. Diante da generalidade das alegações e da efetiva inocência dos acusados, a Defesa mantém a confiança de que a acusação não resistirá ao crivo do Judiciário. Mantemo-nos à disposição para eventuais esclarecimentos em defesa.adv@gmail.com.

São Paulo, 06 de fevereiro de 2013. Comissão Jurídica


movimento estudantil. 14

Chico e os processados Michel Amary O primeiro sentimento ao ler que o Ministério Público Estadual movia uma ação contra os estudantes que na greve de 2011 invadiram a reitoria foi de raiva. Uma daquelas raivas pegajosas que partem do coração e grudam na mente nos trazendo a lembrança dos retratos calados que fizeram de nós. Esse desconforto pedia uma cabeça fria que evitasse os perigos da ambiguidade que a raiva suscita. Quando direcionada a raiva pode produzir uma reação imediata à causa que a incita, transformando-a; por outro lado, quando potencializada ela toma caminho oposto, volta-se contra aquele que a sente, destruindo-o por confundi-lo com a própria causa que a inflama. De uma explosão de raiva podemos destruir máquinas e derrubar presidentes; sistemas inteiros podem vir abaixo quando nossa raiva não se transforma na própria arma do oponente, o ódio. Ódio é diferente da raiva, sua passagem é temporal. Enquanto a raiva aparece por um afeto negativo, ela logo se vai quando o novo chega com outras afecções. O ódio, por sua vez, se perpetua na escravidão e no racismo, na inquisição e na homofobia, no elitismo e na meritocracia, nos porões de antigamente e nas vielas de hoje. A raiva tem o poder de se colocar como uma mola para mudança, enquanto o ódio se impõe como um pouco mais do mesmo, do ontem e do hoje, do sempre. Mas de um jeito estranho, ao mesmo tempo em que da perpetuação da raiva nasce o ódio, o ódio pode se tornar motivo de raiva. O segundo momento é aquele ao qual nós respondemos; o primeiro é o que tentamos evitar. Quando eliminamos o outro apenas por ser diferente, por desejo, ou por um simples destruir, deixamos nossa raiva bater na porta do mundo daqueles que nos odeiam, por isso é necessário direcioná-la, em músicas, palavras ou ideias. Como diria Machado de Assis, é assim que fazemos um livro, um governo ou uma revolução. Um pouco mais calmo, os resquícios dessa raiva primeira, que pura, nasce do âmago, persistiam como incômodo e inquietude; foi então que, antes de escrever, optei pela terapia da música. Deu-me vontade de escutar Chico Buarque. A referência era óbvia para um fefelechento que costuma ver ‘estado de exceção’ em tudo. Não preciso detalhar a biografia de Chico, cantor mediano, mas brilhante letrista que tomou uma posição importante na luta 1 - Recomendo a audição da música antes de continuar. 2 - Comentário feito em redes sociais por integrantes do MES após eleições do DCE.

contra a Ditadura Civil Militar. Música vai, música vem e escuto-o falar de nossos colegas processados. A música era Hino de Duran1 ! “Sem tostão”, trazíamos no “bolso apenas muambas e baganas”, que viraram “contravenção” após abordagem de policiais à paisana no morrinho (cf. Chico Buarque – Hino de Duran). Arapongagem que se tornou comum na USP, hoje nós vemos com tranquilidade a mensagem posta na demolição do Canil Espaço Fluxus de Cultura: “essa obra está sendo monitorada”. Vigiados pelo COSEAS no CRUSP, no Bandeijão, em nossos espaços deliberativos, e até mesmo no conforto de nossas casas com perfis falsos em redes sociais, começamos a cobrir o rosto e a falar “palavras sutis, por senhas, sussurros, ardis” (id, ibid). Não demorou, para em uma polêmica Assembleia, estarmos “redondamente enganados” (id. ibid). De um jeito Rodas, rodamos. No calor do momento, “pensávamos que pensávamos” (id. ibid) e a reitoria foi ocupada. O que se seguiu foi “desprezo e o horror da sociedade”, ‘terroristas’, ‘vândalos’, ‘vagabundos’, viramos “um estorvo, um tumor” (id. ibid) para a opinião pública. “Bandidos infelizes”, nos “pregaram na cruz” (id. ibid). Logo em seguida, vieram “os urubus” e “os dobermans” (id. ibid) para nos levar das “pedras de nosso próprio lar” (id. ibid). De lá para cá, alguns de nós - os classificados como processados - passaram por maus bocados. Tensão, perseguição política, falta de apoio, despejo, perca de emprego, risco de expulsão. Passaram a viver “sobre a sombra dos porões” (id. ibid) até que “a lei viesse abraçá-los com seus braços de estivador” (id. ibid). Como reagimos a isso? A raiva que em mim a notícia despertou, foi estado de choque para outros tantos. Pasmos, silenciosos, de férias, me parecem essas as respostas. Frente a nossa apatia, caiu a ficha daquela frequente impressão de que os processados sempre são aqueles ‘mais radicais’ que “insuflas agitas e gritas de mais” (id. ibid). Bateu-me o desespero de ver que Juntos, estamos mais preocupados em combinar camisas e nos promover entre nós mesmos. De que nos adianta achar que se venceu “o PSDB no começo do ano e o PT no fim do ano”2 enquanto quem realmente importa Rodas, manda e desmanda. Bom, vamos considerar que somos impotentes à situação. Que enquanto movimento não podemos fazer nada. Que a Comissão Jurídica está nessa sozinha. Ou melhor, que estamos otimistas com a declaração do presidente da Comis-


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são de Direitos Humanos da OAB e de juristas acadêmicos e atuantes que consideraram abusiva e exagerada a ação do MPE. Que não precisamos nos preocupar, afinal há um erro jurídico primário, o inquérito por formação de quadrilha tem por obrigação mostrar a responsabilidade de cada um nas acusações de depredação de patrimônio público, crime ambiental, e até mesmo confecção de bombas. Que o Boletim de Ocorrência coletivo joga a nosso favor, uma vez que é impossível descrever o que cada um dos 72 estudantes fez ou deixou de fazer. Que a Constituição lhes garante direito de não produzir provas contra si mesmo e que caso tivesse feito algo, ninguém irá se acusar. Que as penas institucionais, consideradas brandas, também sejam um indicio de absolvição nas esferas penais. Que todos serão absolvidos e que já podemos comemorar!

Dá-me a sensação que esquecemos quem é a quadrilha. Nesse jogo do contingente e do faz de conta, até poderíamos chamar Chico a testemunhar no tribunal. Ao caracterizar cada um, Chico diria que “Carlos amava Dora, que amava Lia, que amava Lea, que amava Paulo, que amava Juca, que amava Dora, que amava Rita, que amava Dito, que amava Rita, que amava Carlos, que amava Dora, que amava Pedro, que amava a filha, que amava Carlos, que amava Dora que amava tanto, que amava toda a quadrilha” (Chico Buarque – Flor da Idade). Foi tanto amor, tanto rosa e tantos rodopios que ficamos tontos, enquanto a ciranda Rodas sozinha. Infelizmente não é a música de Chico que faz a banda tocar. Enquanto acreditamos na boa fé e no ideal da justiça, ignoramos que o justo não está no direito, que a questão de fato que manda é o governador, seu escolhido e a “física paulista dos interesses que se coloca contra a metafísica daqueles que insistem em enxergar alternativas para a política que não seja o mercado” (cf. Arantes, p.18). Temos aqui um jogo político que vai muito além da encenação do judiciário. O que está em pauta é a democracia na nossa universidade. Ainda podemos ser condenados por um regimento de 1972 escrito por Gama e Silva, autor do AI-5. Ainda temos uma ‘democracia’ que legaliza um reitor escolhido em segundo lugar de uma lista tríplice, feita pela parte mínima dos nossos professores. Nosso ilegítimo reitor ainda é aquele quem condenou Zuzu Angel, que homenageou os golpistas de 64 e que a todo custo relutou para a instauração da Comissão da Verdade em nosso campus. Gerimos nossos problemas internos, disciplinares ou não, com a polícia. Não discutimos projetos, impomos. Fechamos nossos portões para uma cidade carente de área verde e arte. Queremos a favela que limpa nossa sujeira, prepara nossa comida, e dá nossa carona longe da vizinhança. E que seus filhos não nos visitem como iguais. Ainda somos a universidade que menos realiza inclusão social no país, e como não se bastasse ao invés de cotas botamos o Núcleo de Consciência Negra no chão. Achamos uma aberração a interferência externa à autonomia universitária (porque de fato o é), mas também fazemos parte da cidade e quando a democracia que falta tem dificuldade de ser debatida até mesmo dentro de nossos muros é que nos damos conta de como a realidade é tão cara aos nosso ideal de comunidade. Descobrimos que, no sentido oposto ao que pensávamos, somos incapazes de ameaçar o mundo com novas ideias e propostas; ao contrário, é a nossa bolha que está ameaçada pela atmosfera que a cerca. Tão grave quanto a interferência externa na autonomia universitária é a vanguarda do judiciário paulista em criminalizar dos movimentos sociais; as bárbaras violações cometidas pela polícia militar contra grupos étnicos e sociais específicos, e a militarização da política. Apesar de aparentemente essas questões não dizerem a respeito a USP, elas tem tudo haver com a situação em que nos deparamos e são nesses termos que precisamos discutir democracia. Ainda que conclamemos no coro a vitória continua na próxima página >>


movimento estudantil / estrutura universitária. 16 (que sim, virá) como nós Juntos somos fortes, temo profundamente o futuro de nossa instituição enquanto os fundamentos da democracia não forem amplamente debatidos e vivenciados na esfera pública, não mudarem as estruturas e o exercício de poder da gestão universitária e os interesses governamentais que a acompanham, e a verdadeira quadrilha estiver solta: Alckmin, Rodas e Passarelli. Essa quadrilha armou um incêndio na universidade, um espetáculo para a imprensa, um palco para o judiciário e um contrato para as empresas que nos quiserem. Não ser o primeiro na lista tríplice não impediu Rodas de encabeçar, em uma velocidade nunca antes vista, o projeto de privatização da universidade proposto pelo governo do Estado. As improbidades administrativas da reitoria compram prédios, tapetes e até servidores com o dinheiro público, terceiriza o que pode e nos faz de shopping. Na universidade classe mundial a iniciativa privada cobra a conta dos impostos pagos; interferem em nossas pesquisas para produzirmos algo realmente importante para a sociedade, bens de consumo. No meio de tudo isso, passou-se Univesp, extinção de cursos que não interessam ao mercado, proposta de cursos pagos, BUSP, catraca nas unidades e por aí vai. Enquanto reitor, João Grandino Rodas foi um dos poucos a usar a imprensa, que por sinal o recebe muito bem, para eliminar sua oposição interna na USP. Estratégia muito bem articulada para desmoralizar os estudantes que resistiam na reitoria contra os abusos de autoridade de uma gestão carente dela. O escracho moral que os órgãos da imprensa ofereceram aumentou a pressão sobre Geraldo Alckmin que resolveu nos dar aulas de democracia iguais às do Pinheirinho. Ao seu comando, a tropa de choque invadiu a reitoria e desrespeitou qualquer resquício de direitos que aqueles homo sacer universitários ainda tivessem. Saciado o sadismo de São Paulo, ainda faltava a cereja. A última cartada foi uma armação com a promotora Eliana Passarelli, orientada por uma das linhas mais duras e conservadoras do nosso judiciário, para que nos castigue e nos faça de exemplo. Com um trio desses, é irônico acusar alguns alunos de formação de quadrilha. Às soltas, não é difícil que cada um em seu âmbito continue, com seus braços de ferro, mãos invisíveis e o poder que lhes é autorizado ou não, a nos fazer passar raiva. Apocalíptico, não tenho muitas esperanças. Mas, para não deixar uma mensagem pessimista é que finalizo como comecei: cantando Chico. Afinal, “apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia” (Chico Buarque, “Apesar de Você”). Referencias Bibliográficas ARANTES, Paulo. Apagão. In Zero a Esquerda, São Paulo: Conrad Editora: 2004 BUARQUE, Chico. Apesar de Você. 1970 _______. Flor da Idade. 1998 _______. Hino de Duran. 1978

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Trânsito e Transporte

na USP Inauê Taiguara Ninguém entra ou sai rápido da USP, nos horários de pico. O trânsito, principalmente no P1, em dias normais é lamentável, chega-se a demorar mais de uma hora entre a FFLCH e a Av. Alvarenga. Em dias de chuva então nem se fala. O entorno do campus já é um lugar com trânsito intenso de veículos, some-se a isso as 110.000 pessoas (http://www1.folha.uol.com.br/ cotidiano/818517-furto-de-carros-faz-usp-pedir-ajudaa-policia-militar.shtml) que passam pela Cidade Universitária diariamente e temos um quadro um pouco mais preciso do tamanho do problema. Com o intuito de melhorar esta situação projetou-se a criação de duas estações de metrô dentro do campus, uma na praça do relógio e outra próxima ao Hospital Universitário (HU). Afinal, o metrô é um transporte assaz mais regular e, apesar da lotação de pessoas, é bastante eficiente na locomoção das massas. No entanto, estas estações não foram construídas dentro do campus, sob a alegação de que elas dificultariam o controle de quem entra e sai da USP e assim tornariam a segurança do campus comprometida. Por este motivo, o projeto foi adaptado e, sem a consulta da comunidade USP, foi construída a estação de metrô Butantã na Av. Vital Brasil. Histórico da transição Antes da inauguração do metro Butantã a integração do campus com o metrô era feita pela extinta Ponte Orca, trajeto feito por um micro-ônibus que partia do metrô Vila Madalena, opção de ir no contrafluxo do trânsito de São Paulo – detalhe que essa integração era gratuita a qualquer cidadão de São Paulo e não apenas à comunidade USP, pois ligava o metrô a CPTM. Este microônibus parava na frente da estação Cidade Universitária da CPTM e, portanto, não pegava todo o trânsito do P1 junto à Av. Alvarenga. Como o antigo circular não sai do campus, ele não pega o trânsito de fora da USP e passava regularmente, apesar dos poucos ônibus em circulação. Estes antigos circulares se tornaram cada vez mais escas-


estrutura universitária. 17 sos, pois quando a estação de metrô foi construída fora da USP e os novos circulares começaram a rodar, fazendo a integração, julgou-se que os antigos circulares não seriam mais tão necessários. No entanto, vale lembrar que diferente dos antigos circulares, que eram utilizados livremente por qualquer cidadão, os novos possuem catracas e apenas quem possui o cartão BUSP pode utilizá-lo gratuitamente, o que inclui estudantes, professores e parte dos funcionários da USP – não, por exemplo, alguns terceirizados. Além disso, muitos moradores da São Remo, comunidade próxima ao P3 da USP, utilizavam os antigos circulares como meio de transporte até a CPTM ou até o metrô na Av. Vital. Assim, as pessoas que não estão na USP devido ao critério destorcido da “meritocracia” tiveram o custo de sua condução consideravelmente aumentado. (Para conferir o debate mais pormenorizado: http://bit.ly/busp-beneficioouprivilegio) Porém, voltemos ao tema em questão. Hoje a ligação entre o metrô e a Cidade Universitária é feita pelos novos Circulares, que partem da estação Butantã e passam pelo P1. Os novos circulares foram apresentados como mais uma opção de transporte entre o campus outros pontos da cidade de São Paulo. No entanto, em menos de um mês da inauguração destes novos circulares constatou-se que um ônibus parou de circular, o ônibus Cid. Universitária – Aclimação (274A). No final do ano passado mais algumas linhas de ônibus deixaram de passar no campus, como, por exemplo, a linha 107T (Cid. Universitária – Metrô Tucuruvi) e o 177P (idem – Metrô Santana). Ou seja, se ganha uma opção aparentemente muito boa, ligação direta com a rede do metrô, e

perdem-se outras tantas. A extinção destas linhas de ônibus faz com que a maioria daqueles que vêm à USP e dependem do transporte público fiquem totalmente dependentes dos Novos Circulares, que estão cada vez mais lotados e pegam o referido trânsito para passar pelo P1. Na verdade, os antigos circulares também ficavam lotados, porém neles havia três portas do lado direito dos ônibus, que serviam para embarque e desembarque. Nos novos circulares existem apenas duas portas do lado direito, uma porta para embarque e uma para desembarque, e existem duas portas do lado esquerdo que ficam inutilizadas durante todo o trajeto dentro do campus, sendo às vezes usadas para o desembarque no ponto final no metrô Butantã. E a opinião da comunidade USP, onde fica? Agora levantemos alguns pontos. Será que, de fato a segurança do campus ficaria comprometida se houvessem estações de metrô dentro da Cidade Universitária? Temos de perguntar que tipo de segurança está em questão. Muitos estudiosos das questões de segurança pública alegam que quanto maior a circulação de pessoas em um local, maior a segurança do mesmo. Se pensarmos que os alunos de diversos cursos saem de suas aulas às 23h em um campus deserto e muito mal iluminado, a solução aparentemente mais cabível seria a de proporcionar uma maior circulação de pessoas e melhora da iluminação E até, porque não, um percurso menor até o metrô. Outra coisa que deve ser dita é que a estação de metro próxima ao H.U. facilitaria o acesso dos cidadãos de São Paulo aos serviços do Hospital Universitário, bem como seria uma boa opção de transportes para os moradores da São Remo.

Será que, de fato a segurança do campus ficaria comprometida se houvessem estações de metrô dentro da Cidade Universitária? Temos de perguntar que tipo de segurança está em questão.


estrutura universitária / sociedade. 18 Como outros temas que dizem respeito a todos nós, estas decisões são estabelecidas de cima para baixo, sem consulta aos diretamente interessados: estudantes, professores e funcionários da USP Deste modo, no atual modelo, a nova estação de metrô e os seus circulares deixam a Cid. Universitária cada vez menos acessível aos cidadãos de São Paulo, que deixam de usufruir de uma das poucas áreas verdes da cidade. Consequentemente, cada vez há menos circulação de pessoas e baixos investimentos para melhorar a iluminação dos espaços do campus, o que sem dúvida reforça o discurso da ‘necessidade de um policiamento militar ostensivo para garantir a segurança’.

Ato sem

palavras Lucas Paolo

Sugestões Esses problemas tão presentes no nosso cotidiano parecem longe de estar sendo estudados para serem resolvidos. Entretanto, vez ou outra se ouve uma ideia do que poderia ser feito. Por exemplo criar um corredor de ônibus ligando a Cid. Universitária ao metrô, incluindo o trecho antes de se chegar ao P1, no qual amiúde há um trânsito desanimador. Isto aumentaria o trânsito dos veículos de passeio, mas estimularia o transporte público. Outra solução poderia ser mudar o trajeto de saída dos Circulares passando pela entrada do Instituto Butantã, o qual é bem menos movimentado. Dado que o metrô Butantã está em funcionamento, outra opção de transporte seria a bicicleta. Há no metro Butantã um bicicletário, iniciativa privada, no qual se podem alugar bicicletas. Entretanto não se tem na USP pontos onde se poderia entregá-las, o que torna muito dispendiosa essa locação. Uma iniciativa partindo da própria USP na construção destes bicicletários poderia ser uma saída. É claro que, junto a tal iniciativa, poderia pensar-se em uma ciclovia passando, de repente, pelo caminho do Instituto Butantã e pelas paralelas da Av. Vital Brasil. Em todo caso, estes são problemas gerados por se ter construído a estação de metrô fora do campus, enquanto que, penso eu, se a comunidade USP fosse consultada sobre a questão, a maioria esmagadora aprovaria a criação das estações de metrô dentro do campus. Mas como diversos outros temas que dizem respeito a todos nós, estas decisões são estabelecidas de cima para baixo, sem consulta alguma aos diretamente interessados: estudantes, professores e funcionários da USP, além dos moradores do entorno que deveriam poder desfrutar das dependências do espaço público que é a Cidade Universitária e da infraestrutura que o seu funcionamento demanda. ϕ

Charge de Chico Caruso As charges que ilustram este texto (acima Chico Caruso; à direita Carlos Latuff) protagonizaram algumas discussões na entrada do mês de fevereiro em diversos blogs e redes sociais. Não sou atualmente adepto da interconexão intermitente, ou seja, não possuo mais Facebook e, portanto, não vivenciei o calor da discussão, a mobilização cibernética. Tomei conhecimento dos burburinhos da balbúrdia por comentário de um professor em um blog literário, e isso com uma boa distância do olho do furacão. Escusas apresentadas, tentarei me posicionar nesta nota contra os diversos discursos, digamos, moralizantes, humanistas e, sobretudo, os exaltado-absolutistas. Os muitos impropérios que li podem ser genericamente resumidos da seguinte forma: com vistas à elaboração de um intento antipetista, Caruso teria beirado as raias de uma atitude inominavelmente desrespeitosa, inumana – uma gracinha que poderia ser denominada como “infantilismo bestial”; já Latuff teria ironizado na medida certa o abominável posicionamento das autoridades antes e depois da tragédia ocorrida em Santa Maria (não foram poucos os que se regozijaram infinitamente com outra charge de Latuff sobre o comportamento insensível da imprensa). Posiciono-me contra essas leituras que, a meu ver, estão enclausuradas no imediato de um discurso imagético que vem apenas confirmar concepções preconcebidas, vem afirmar a suficiência de um discurso crítico estabilizado que estagna politicamente tanto setores da dita esquerda, quanto da direita. Gostaria de sugerir que a partir da charge de Caruso é possível formular questões mais interessantes que


sociedade. 19 as de Latuff que, para mim, só reiteram um discurso moralizante estacionário. Comecemos pela charge de Latuff. Ela coloca em pauta a pergunta-de-um-milhão-de-dólares tão difundida: “A culpa é de quem?”. Essa citação à famigerada canção da banda Planet Hemp carrega consigo a necessidade postulada pelo ressentimento social de responder às dificuldades que assolam nossos modos de vida e de organização social com um apelo identitário. É preciso que haja uma teia coerente de causas e efeitos que, se bem analisada, nos encaminhe a um “Quem” ou “O que” que possa ser responsabilizado pelas lamúrias de uma felicidade social cada vez mais inalcançável. Na melhor das hipóteses, poderia se argumentar que a questão vem apenas reiterar uma indecidibilidade pessimista que gostaria de colocar, em última instância, o inescapável estado em que nos encontramos, no qual essa pergunta não pode mais chegar nem perto de ser respondida. Todavia, a relação entre imagem e texto parece querer sugerir que a pergunta seria de antemão inútil, dado que todos sempre estão se eximindo da responsabilidade e da culpa pelos fatos ocorridos. Talvez inclusive possamos optar por dizer que a pergunta é desde o início inútil, já que está tão disseminada no senso comum e não vem acrescentar muitas questões à imagem. Já a imagem apenas vem oferecer uma representação que coaduna com o que passa na maioria das cabeças que a olham. Ou seja, vem cumprir perfeitamente sua função de charge inócua ocupando de 2 a 3 segundos da vida de alguém com a possibilidade de se autoafirmar: “E não é o que eu sempre digo, na hora do vamos ver ninguém sabe, ninguém viu. É sempre a mesma coisa, ninguém leva a culpa nesse nosso paisinho e tudo acaba em pizza, mesmo!”. Para além da questão de que esse dizer não é inteiramente de se desprezar, o que importa aqui é que o sujeito se coloca na posição de suficiência estético-moral . Como se a verdade fosse por demais evidente e a falha infligida a nosso ordenamento jurídico não nos permitisse efetuar a justiça social – pensamento que exime o sujeito que se crê crítico de qualquer ato moral verdadeiro, imputando à falibilidade das leis, principalmente de seus executores, o soçobrar do Estado democrático de direito. E em que a charge de Caruso difere disto? A charge de Latuff oferece signos que não mimetizam a realidade social – em verdade, afirmam um distanciamento irônico dela –, mas significam, no fim das contas, um discurso ordenado e crítico da realidade social. Já a charge de Caruso, oferece signos que mimetizam a realidade social, mas conforma um discurso incoerente, absurdo. Há algo de muito preciso em mostrar que a personagem da charge olha para a enorme quantidade de fumaça e não para a boate pegando fogo – afinal, na maioria das vezes se reconhece um incêndio pela fumaça e não pelo fogo. Entretanto, essa personagem jamais se exaltaria com o calamitoso da situação, gritando: “Santa Maria!”. Digamos que Caruso quis sugerir a presidenta Dilma com a personagem, jamais ela pronunciaria tal

Charge de Carlos Latuff infame trocadilho. Contudo, o discurso absurdo diz mais profundamente sobre nossa realidade social justamente ao postular o descompasso entre realidade e discurso. A irredutibilidade insinuada nesse descompasso já é altamente profícua ao sugerir que às vezes o real é demasiado para o discurso. Mas isso apenas aproximaria a charge de Caruso da indecidibilidade frente à pergunta “A culpa é de quem?”; ambas carregariam em seu bojo a consciência de que o discurso que quer pensar a realidade social sempre possui fundamentos insuficientes para a compreensão da totalidade de questões envolvidas nos fatos. Porém, mais que isso, a charge pode trazer uma questão suplementar ao sugerir que a impotência não é apenas moral. Podemos olhar para charge e pensar que o ordenamento jurídico e os dispositivos governamentais são incapazes de tematizar o ocorrido – exatamente por isso emitem um discurso absurdo. Como se, anteriormente ao fato, os dispositivos que regulam nossa realidade social já fossem incapazes de dar conta de uma tragédia dessa magnitude. Mas em que diferem, então, as charges? A de Latuff carrega o pressuposto de que há uma suficiência do ordenamento jurídico e dos dispositivos governamentais para evitar ou julgar a situação, podendo-se, assim, identificar os responsáveis pelas falhas produzidas nessas instâncias. Já a de Caruso pode produzir um estranhamento – talvez até um estremecimento – frente à percepção de que há uma insuficiência imensa em nossos dispositivos governamentais e em nosso ordenamento jurídico. Não se trata de reduzir o ocorrido em Santa Maria à mera fatalidade, mas perceber que a tragédia, em última instância, não surge de uma falha ocorrida em nossa realidade social, mas provém justamente das estruturas que a conformam. ϕ


sociedade. 20

sobre o direito de ser reflexões sobre o 8 de março Monica Marques Quando criança me disseram que era menina. O que é ser menina? Não ser portadora de pênis, não ser agressiva, não falar palavrão, não cuspir no chão, não brincar de carrinho, não usar roupa de menino, não ser grosseira. Mais tarde, por uma série de reflexões, percebi que deveria ser mulher. O que é ser mulher? Não ver pornografia, não demostrar desejo, não falar sobre política, não beber até vomitar. Positivamente: ser passiva. Definitivamente não era mulher. Muitas coisas mudaram. Muitas não. Algumas, quando postas inversamente servem como imperativos para meninos e homens: falar palavrão, ser portador de pênis, cuspir no chão, brincar de carrinho, ver pornografia, ser agressivo, cantar mulheres, querer dominar. Noutros termos: não ser emotivo, não brincar de boneca, não ser delicado, não usar cor-de-rosa, não receber flores, não chorar, sob a terrível acusação de ser ‘mulher ’. As lutas ‘femininas’ passaram por diversos momentos: igualdade de direitos, igualdade de salários, o respeito, direito ao gozo e ao desejo, o direito ao corpo. Mas que a ‘mulher ’ quer ser? Quer ser mulher? Ou quer simplesmente ser? Antes de clamar pela igualdade de salários, visivelmente uma injustiça, ou pela divisão dos serviços domésticos entre outras coisas, é preciso questionar a própria constituição de gênero e sua legitimidade. Pensar como uma falácia impõe e nega gestos, obriga a comportamentos dementes ambos os ‘gêneros’ imaginariamente reais, e todo o resto é apenas uma consequência. O conceito mulher é vazio, série de afirmações e negações frente ao conceito homem, assim como o conceito homem é vazio, afirmação e negação posto o conceito mulher, feminino. Fraqueza – força. Conceitos vazios dão origem à disputa pelo poder. A igualdade exigida pelo feminismo é uma luta pelo poder, uma luta pelo poder igualitário. O direito de não ser agredida, seja como for. Uma lei tenta impedir a agressão à mulher com uma punição eficiente, e é importante na medida em que esses homens não deixarão de existir tão facilmente. Ela quer impor por meio da força ao conceito

A luta por ‘direitos iguais’ passa pela desconstrução dessas identidades que limitam e aprisionam homem que não seja o que ele é. Entretanto, o conceito homem continua a ser fabricado e ela nunca será suficiente. É preciso informar ao conceito homem que ele não precisa mais ser ‘macho’. Assim, talvez não se devesse pensar a própria relação de poder, o conceito homem e o conceito mulher? A desconstrução de gêneros e a criação de novas relações de poder parece ser mais libertária que luta pela identidade de ser ‘algo’ determinado que merece respeito. A busca pelo direito de ser mulher, gay, negro, ciclista vai abrindo concessões na constituição estabelecida a partir de uma identidade. Todavia, perde-se a autenticidade no momento em que se adotam tais identidades pré-fabricadas, constituídas como modelos do que é ser mulher (feminista ou não), do que é ser gay etc. que podem se estabelecer interna ou externamente a esses movimentos que tentam representar as minorias. O próprio pensamento ocidental condiciona a estabelecer modelos. Sempre surgirão novos bodes-expiatórios, quem deve ser ‘separado’ por uma certa condição, uma vez que as relações são determinadas precisamente por esse sistema classificatório normativo, tudo que não se ajusta à norma será apontado, desqualificado. A luta por ‘direitos iguais’ passa pela desconstrução desses ‘gêneros’, dessas identidades que limitam e aprisionam. Não pelo direito de ser isso ou aquilo frente a certa norma. Não afirmando aquilo que é diferente enquanto separado, mas afirmando a diferença total pelo direito de ser o que se é criando novos modos de existência. Dissolver a própria norma. Se já não era ‘mulher’, também não quero ser você, ‘homem’, nem coisa alguma. Descontruir o conceito ‘homem’, para que o conceito ‘mulher’ possa se desexistir, como todas as outras pseudo-oposições. A possibilidade de um mundo em que a classificação dos indivíduos de acordo com seu sexo, cor, sexualidade ou qualquer outro parâmetro seja irrelevante, sejam irredutíveis a conceitos identitário-normativos, onde o dia 8 de março já não faça nenhum sentido. ϕ


sociedade. 21

Mulher, símbolo de amor, perseverança, desprendimento Bruno Bernardo Guerreira, amiga, emotiva, carinhosa, dedicada. Poderia escrever aqui milhares de adjetivos... Mas eles todos se traduzem em uma só palavra: Mulher. Parabéns pelo seu dia, você é muito especial. Dia das mulheres virou o dia do estado de ser feminino. A feminilidade do ser feminino. Um dia pra isso, é importante. E se o dia das mulheres é isso, por que não o dia do homem? Por que não um dia da masculinidade do masculino, onde não receberíamos flores, mas cerveja, ou qualquer outra bobagem nossa de homem macho? A mulher tem o dia dela e nós damos flores, somos supercavalheiros, elogiamos sua feminilidade, os mais sofisticados falarão sobre a pureza do ato de dar a luz. Se o dia da mulher é isso, quero o dia do homem. Falo brincando, claro. Empresas fazem a propaganda dessa imagem do dia da mulher. Não sei se são a causa, mas têm sua culpa. Não só nas propagandas institucionais, onde se faz um cartãozinho com dizeres iguais aos que começaram esse texto, mas também, além dos clientes, mandam flores às funcionárias, as mesmas mensagens de guerreira, mãe, lutadora e flores, a cordialidade fabricada e vazia, como um programa de televisão.

pergunta já é machista em essência. Elenca-se uma série de adjetivos que comparam a ações historicamente desenvolvidas por homens, como ser guerreira, que no fundo só são adjetivos da mulher graças à sua condição na sociedade. Aguenta o tapa, o mau salário, mais baixo que o mau salário do marido, humilhações de estranhos, conhecidos, e outras injustiças e humilhações. Todo esse contexto é necessário, a priori, para poder chamar a mulher de guerreira, senão o adjetivo não faria sentido algum. Só sendo guerreira mesmo, depois de tudo o que eu faço. Nessas flores, nestes obrigados, não seríamos nada sem você, sua guerreira, hoje eu lavo, estamos dizendo que sabemos dos privilégios, e muito obrigado. O dia da mulher se tornou o seu inverso. Inverso poderia ser o dia em que maltratasse a mulher mais, ou pelo puro maltratar. Esse seria o inverso do dia das mulheres como é comemorado hoje, o inverso do inverso, portanto. Não vamos falar da sua força e beleza e sim do choro e da celulite. Um inverso mais nefasto é o inverso do dia das mulheres como feminismo. Se torna então o dia em que a figura da mulher é lembrada pelo homem machista, que a embota de elogios pegados no google ou lidos num cartão de uma papelaria – e flores.

Para quem não sabe, a data foi marcada para lembrar as operárias tecelãs de Nova Iorque que, em 1857, foram trancadas na fábrica que ocupavam que foi incendiada, matando todas. O dia é feminista, nasceu assim, e é esse seu sentido. A importância do dia é o reconhecimento do machismo e o reconhecimento de que é um problema, e, assim, necessita de solução. Por isso o dia do homem não é apenas não necessário, como é ultrajante. Um dia do homem deveria ser o reconhecimento de um problema, mas qual o problema do homem, enquanto ser distinto da mulher, não enquanto ser humano? A resposta que encaixa é o feminismo. É ele que bota problemas para o homem, enquanto ser separado da mulher, dentro do machismo. Mas não, essas perguntas nem se colocam, pois o dia da mulher, como sabemos, é o dia de gratidão a todo ser que porte a feminilidade do feminino, a qual deve ser exaltada nas demonstrações de gratidão, que devem ser feitas.

Mas se o dia das mulheres foi cooptado pelo machismo, o que resta ao feminismo? Abandonar o dia ou tentar ressignificá-lo?

O que seria a feminilidade do feminino? A resposta a essa

- É, parabéns pra nós, as escravas...

O boicote pode ser interessante por já estar ressignificando ao mesmo tempo em que nega. O ato do boicote ao dia gera a ressignificação automática como o dia do boicote ao dia internacional das mulheres, mesmo se o dia do boicote não for internacional e mesmo se o boicote se der no simples ignorar da data. Negar os parabéns é resistir à data machista. Desculpas também de nada servem. Temos que entender que o machismo é um pensamento, e impõe modos de vida a todos, homens de um jeito, mulheres de outro. Ou talvez a ironia seja melhor e não deixa de ser uma forma de boicote. Ouvi no metrô duas mulheres conversando: - Hoje é dia das mulheres, tinha esquecido!

ϕ


tradução. 22

‘Elogio do Amor’ Alain Badiou André Paes Alain Badiou nos mostra neste livro forte e límpido que o amor se encontra atualmente ameaçado: a potência do acontecimento incomensurável que ele constitui é negada, por um lado, por uma concepção comercial e securitária da vida íntima. O mercado parece cada dia mais nos ter convencido de que podemos amar sem correr riscos; de que podemos exorcizar a contingência do acaso, por exemplo, contratando um serviço on-line que realize o cruzamento de dados e preferências e nos mantenha distantes de mulheres (ou homens) que não façam nosso tipo. Por outro lado, persiste ainda a ameaça moral para a qual o amor não passa de uma figura a mais de nosso hedonismo. Na contramão deste cenário desalentador, Badiou rastreia na filosofia, na arte e na política as linhas de fuga pelas quais o amor se desenha como a instauração, na identidade do indivíduo, de uma diferença pura. Não mais a reunião do par em torno do uno, a submissão do múltiplo à identidade de um princípio unificador, como no romantismo. O desafio atual do amor, sua reinvenção, se caracteriza pela imperiosa necessidade de construir um mundo cujo obstinado nascimento, a partir de um ponto de vista descentrado, realize-se sob a “cena do dois”; um mundo que encontra sua potência superior na afirmação do acontecimento inaugural, na continua invenção de diferentes formas de de durar, de alcançar a venturosa duração desconhecida. É preciso, e esta é a lição maior do pequeno livro de Badiou, reabilitar, contra as ameaças da segurança e do conforto, as intermitências da aventura e do risco. A proposição central do surrealismo foi aquela de que falávamos inicialmente, isto é, segundo o lema de Rimbaud, reinventar o amor. E esta reinvenção era indissociavelmente, para os surrealistas, um gesto artístico, um gesto existencial e um gesto político. Eles não estabeleciam separação entre os três. Há um ponto muito poderoso na arte, ela faz justiça ao acontecimento. Esta é mesmo uma de suas definições possíveis: a arte é aquilo que, na ordem do pensamento, faz completa justiça ao acontecimento. Em política, os acontecimentos são catalogados pela história retrospectivamente. Mas somente a arte restitui ou tenta restituir sua potência intensiva. Somente ela restitui a dimensão sensível disto que é um encontro, uma revolta, um motim. A arte, em todas as suas formas, é o grande pensamento do acontecimento enquanto tal. Uma grande pintura é a apreensão, pelos meios que lhe são próprios, de algo que permanece irredutível àquilo que é mostrado. O acontecimento latente vem, se assim

se pode dizer, furar aquilo que é mostrado. Breton nos lembra que, deste ponto de vista, o vínculo com o amor é muito íntimo, uma vez que ele, no fundo, é o momento no qual um acontecimento vem furar a existência. É isso o que nos ensina “O Amor Louco”. Porque o amor é irredutível a toda lei. Não há a lei do amor. Muito frequentemente, além disso, a arte tem representado o caráter antissocial do amor. Como diz o ditado popular, depois de tudo, “os amantes estão sozinhos no mundo”. São solitários guardiães da diferença a partir da qual experimentam o mundo. O surrealismo exalta o amor louco como potência acontecimental (événementielle) fora da lei. O pensamento do amor é aqui também esse pensamento que se exerce contra toda ordem, contra o poder ordinário da lei. Os surrealistas buscavam alimentar seu desejo de uma revolução poética na língua, mas também, insisto, na existência. Eles estão muito interessados, deste ponto de vista, no amor, na sexualidade, como princípio, como suporte possível de uma revolução na existência. Por outro lado, não estão muito interessados na duração. Propuseram sobretudo o amor como poema do encontro de modo magnífico. Por exemplo, em Nadja, que ilustra de maneira esplêndida a poética do encontro incerto e misterioso, daquilo que, no dobrar de uma esquina, vai ser um amor louco. Estamos aqui realmente nos antípodas do cálculo, no encontro puro. Mas não realmente no registro da duração, não na dimensão da eternidade. Certos filósofos, entretanto, sustentaram que a eternidade fosse o instante. Encontra-se esta ideia já no pensamento grego. A única dimensão temporal da eternidade seria o instante. Aquilo que daria razão a Breton. Evidentemente, o instante do encontro miraculoso promete a eternidade do amor. Mas tento propor uma concepção da eternidade menos miraculosa e mais laboriosa, uma construção da eternidade temporal, da experiência do Dois, tenaz, passo a passo. Admito o milagre do encontro, mas penso que ele se perde da poética surrealista caso o isolemos, caso não o orientemos para o laborioso devir de uma verdade construída ponto por ponto. “Laborioso”, aqui, deve ser entendido positivamente. Há um trabalho do amor, e não apenas um milagre. É preciso estar em movimento, é preciso ter cuidado, é preciso se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então, sim, como a recompensa imanente do labor, há a felicidade. ϕ


acadêmico. 23

Os Mortos e Zumbis Gabriel Philipson Tudo acaba por dar nos zumbis ... Aos poucos os estudantes vão se acostumando com os mortos. Passam a examinálos, dissecá-los, recortá-los, de modo naturalizado: os mortos tornam-se habituados. A força do hábito, porém, acaba por gerar diversas anomalias. Poucos são aqueles que se mantêm rigorosos em sua inabalada fé no sentido de tal atividade, e, mesmo esses, tornam-se demasiado ranzinzas, quando não esquizofrênicos e inquisidores: é que a loucura predomina a volta deles, e eles agem loucamente para combatê-la. Para bloqueá-la de também perecem nessa peste negra, agem com os loucos, como se fossem empesteados, seres que devem ser banidos do convívio social apenas porque possuem loucura diferente da deles. Assim, enquanto alguns abusam da raciona- Tendemos a nos tornar zumbis, sagrados como as vacas na Índia lidade tentando compreender a constituição anormal do 3º osso do dedo mindinho do pé, outros assumem Simbolizam o morto enquanto lagosta e literalmente outros métodos de interação com os mortos. Já discorri sobre o comem seu rabo. A exceção, que confirma a regra, como vegetariano e o canibal, neste texto apresento-lhes o espiritista se diz, fica pelo primeiro morto carnívoro que se deixa ser comido apenas para o papar: Zaratustra é um zumbi. e o necrófilo. Mantido afastado do departamento por longos períodos por meio de fogueiras públicas que perduram até hoje, tem-se visto nos últimos tempos uma santa cruzada que visa rever a condenação do espiritismo, tornando-o, se não liberado, ao menos regulamentado. À semelhança da maconha, droga muito mais cool, o principal baluarte é um professor aposentado da faculdade que, ao invés de participar de um documentário, diz estar escrevendo um livro sobre o assunto. Trata-se aqui de uma operação que visa fazer ecoar, no sentido de eco, redizer, por meio de uma exegese fenomenológica-hermenêutica, o que ficou não-dito pelo morto. Quem odeia essa atividade são os ávidos pela carne do morto. Aqui, a vaca, ou o morto, é sagrado, e através de um obscuro paralelismo entre ele e eu, ao remugir eu mujo o que havia sido mujado apenas nas entrelinhas do mugido. A necrofilia é apenas uma interpretação livre do redizer o não-dito que incorpora – a contragosto dos mesmos – elementos também livremente apropriados dos carnívoros: eles redizem na medida em que coadunam sexualmente com o morto. Eles dobram a dobra de todas as tradições.

O ideário dos zumbis surge juntamente com a utopia dos que interpretam o sobre-homem como o homem imortal. É de se notar a existência do Partido Comunista da Sociedade dos Imortais nos idos do clássico período stalinista russo. Essa sociedade defendia uma reforma nos direitos universais do homem, na medida em que só poderíamos ser de fato igualitários caso todos tivessem igualmente o mesmo direito à vida. Paralelamente, desassociada da esquerda, vemos ressurgir no coração do kitsch americano sociedades semelhantes que baseiam seus argumentos não mais no igualitarismo da vida, mas na sua liberdade plena. O resultado é o mesmo: Tendemos a nos tornar zumbis, sagrados como as vacas na Índia, seres morto-vivos, nem vivos nem mortos. Para nos preparar, relacionamo-nos com os mortos com a maturidade de quem sabe que, em breve, estes se tornarão escassos, e que conversar com os mortos será conversar consigo mesmo, na medida em que a experiência da morte existencial será experienciada na própria vida. É o preparo para tal o secreto sentido de toda a história da filosofia e busca da verdade enquanto um se relacionar com os mortos: é curiosidade daquilo que deixaremos de nos tornar. ϕ


artes visuais. 24

impressões sobre

“O Tempo” , de

Henrique Bernardelli Alberto Sartorelli

Acima, “O Tempo”, de Bernadelli: “Estamos no tempo, efêmeros, matéria. Linear ou cíclico, o tempo passa. Ele detém o poder, as leis. Seria o tempo o próprio deus?” “O Tempo” é um quadro de Henrique Bernardelli, datado de 1925, exposto na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Nele, são misturados elementos pagãos e cristãos. A obra apresenta seis personagens. A presente análise visa elucidar minhas impressões sobre o significado do quadro, sobre como a questão do tempo influencia diretamente a acepção da obra, que toma uma posição próxima do determinismo histórico.

a Adão. O ato de comer o fruto proibido, não resistindo à tentação do pecado, segundo a tradição, privou o gênero humano da vida eterna no Éden. Todo homem, a partir de então, nasceria impuro, com o pecado inato e manifesto em toda a sua existência. A ação de Eva pegar a maçã da árvore é o ato de fundação da cultura e da história, no âmbito do mortal, do mutável, do pecaminoso; a partir da desobediência de uma norma dada extrinsecamente ao ser.

Ao fundo, nus, estão Adão e Eva, personagens bíblicos, da cultura judaico-cristã. Javé, o deus supremo dessa tradição, havia concedido o paraíso para que Adão e Eva vivessem em felicidade plena, imortais, com todo o Jardim do Éden; porém, não poderiam eles dois tocar no fruto da árvore proibida, segundo lei imposta por Deus. Eis a primeira determinação presente no quadro: Deus, soberanamente bom e justo, impondo uma lei arbitrária à sua criatura, cuja moral repousa na obediência. No meio do paraíso, a fonte de todo o mal, a tentação do demônio travestido de serpente. Descartes diz que o homem nasce com a vontade maior que o entendimento, e cabe ao sujeito manter sua vontade nos limites do entendimento. Numa moral fundada na obediência, e quando na natureza humana a vontade comumente ultrapassa as fronteiras do entendimento, é perigoso colocar a fonte do mal à vista dos homens, ainda que apenas dois deles, um homem e uma mulher. Adão e Eva também tinham a vontade infinita e o entendimento finito. Na cena apresentada no quadro, Eva acaba de pegar da árvore proibida a maçã, e está prestes a oferecê-la

Mais à frente na imagem, podemos ver três mulheres escrevendo. Elas são figuras pagãs, chamadas moiras pelos gregos, parcas pelos romanos, e, com uma pequena variação, podem-se identificar também às nornas da mitologia nórdica. A variação se dá pelo fato de as nornas representarem passado, presente e futuro, no universo cíclico nórdico; e as moiras, início, meio e fim, na concepção temporal linear greco-romana. A ópera O Crepúsculo dos Deuses, de Richard Wagner, final da tetralogia O Anel dos Nibelungos, se inicia com as nornas tecendo os fios da vida de Sigfried e Brunhilde, os protagonistas, e dos deuses da Valhala, morada divina. Em certa medida, a norna Urd, guardiã do passado, exerce uma causalidade em Verdandi, entidade do movimento presente e contínuo, que culmina em Skuld, deusa do futuro e controladora do destino. Mas tratemos especificamente das moiras. As moiras são responsáveis por tecer o fio da vida de todos os indivíduos, e nem mesmo Zeus, o mais poderoso ser da última geração de deuses do Olimpo, pode contestar suas decisões. Uma delas, Cloto, que inicia o fio da vida, está na imagem em


artes visuais. 25

As moiras na representação mais tradicional de "A Golden Thread" (1885), de John Melhuish Strudwick. segundo plano ao lado direito, jovem; outra, Láquesis, é responsável por puxar o fio, e está na obra em primeiro plano do lado direito, adulta; e a última, Átropos, corta o fio e determina o fim da existência do indivíduo, está em segundo plano do lado esquerdo, velha, atrás do ancião. Elas tecem os fios na Roda da Fortuna, figura conhecida na cultura popular por ser a décima carta entre os arcanos maiores do tarô e representar as determinações do destino. Mas na imagem as moiras estão escrevendo, e não tecendo. Acredito que o significado seja o mesmo. Um livro para cada indivíduo, o papel que tudo aceita e a tinta que não se apaga, até que seja escrita a última palavra antes do livro se fechar. Cloto ainda não empunha a caneta e observa Láquesis escrevendo, por isso uma representa infância, o aprendizado, e outra a idade adulta, aparência de maturidade e saber. Átropos parece escrever rapidamente, no estado febril que comumente toma conta dos escritores próximos do fim de seus livros. Quando fechado, pouco importa se o livro está em branco ou foram-lhe dedicados anos de atenção: estão fechados. O último personagem, enfim. Um ancião segurando uma ampulheta, em primeiro plano, personificação do tempo. Atrás do tempo esconde-se a moira responsável pela morte. As outras duas, ao lado do velho. Tudo que as moiras de Henrique Bernardelli - que escrevem - fazem, realizam no tempo. As controladoras do destino se subordinam ao tempo, ele sim a força-mor da natureza. O que seria, então, o tempo? Uma condição dada a priori para a existência dos fenômenos, diria Kant. Hegel fala de um movimento contínuo do espírito absoluto que se dá no tempo. Aristóteles diz que o mundo é eterno e tudo sempre existiu. Insuficiente.

Agostinho, eu prefiro, é ele quem faz as perguntas. “Como são esses dois tempos, o passado e o futuro, quando o passado já não mais existe e o futuro ainda não existe? O presente, por sua vez, se sempre fosse presente, não iria para o passado; sequer seria tempo, mas eternidade”. Quanto a isso, pouco podemos dizer. Por fim, estamos no tempo, efêmeros, matéria. Linear ou cíclico, o tempo passa. Não sabemos como, mas passa. Ele detém o poder, as leis. Antes mesmo de Javé impor sua moral de obediência a Adão e Eva, o tempo já lá estava. Seria o tempo o próprio deus? Seria ele tão poderoso que não só passa e transforma, como também cria? Não conhecemos a essência do tempo, só sabemos que ele passa, nos traz aqui e nos leva embora. Antes da cultura e da história, o tempo. Traz consigo a causalidade, a determinação, a força imponente da natureza, que é ela mesma tempo. O tempo é a quem tudo se submete. Correu de Marcel Proust por exatos sete volumes! Aquele velho senhor, em primeiro plano, que dá nome ao quadro, amigo de Nietzsche e Dostoievski. Para que uma moral no tempo, sem discutir de antemão o problema de liberdade e, o mais importante, resolvê-lo de vez? Javé e suas condições contingentes, arbitrárias. O velho senhor talvez risse, e continua rindo, de toda moral estabelecida. Depois, depois do ancião supremo dono das únicas leis válidas, aparecerem as moiras, que determinam as leis aos seres, no tempo, e por isso não totalmente livres. As moiras estão na sombra, escrevendo o destino dos homens discretamente. Por último, os determinados, meros mortais no tempo, nós. No entanto, as moiras escreveram um destino especial a Henrique Bernardelli. Elas o deixaram permanecer no tempo por mais tempo. ϕ


literatura. 26

A Nova Resenha de Se um viajante

numa noite de Inverno de

Italo Calvino

André Scholz Reflexioné que todas las cosas le suceden a uno precisamente, precisamente ahora. Siglos de siglos y sólo en el presente ocuren los hechos; innumerables hombres en al aire, en la tierra, y el mar y todo lo que realmente pasa me pasa a mi... Jorge Luis Borges

Você está começando a ler a nova resenha de Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino. Relaxe. Pare de andar por alguns momentos. Sente-se, se for possível. Ajeite a coluna no espaldar da cadeira, se estiver sentado. Se estiver de pé no ônibus: cuidado! Evite reproduzir na leitura das linhas os sobressaltos do asfalto. A resenha não é nada demais, a bem verdade. Não é muito comprida, nem muito pequena. Se você já leu o livro, sabe que a resenha é muito pretensiosa e talvez um pouco arrogante; trata-se sem dúvida de uma (tentativa de) imitação barata que só empobrece o livro, desnecessária e banal. Se você já leu todas as obras daquele autor, ou talvez se for um pouco obsessivo, poderá desgostar dela ainda mais (e talvez julgá-la inconsistente). Se ainda não leu, talvez a resenha pareça um pouco estranha, mas ainda sim existe uma pequena possibilidade de você pegar o livro na biblioteca (que talvez esteja ao seu lado) e desistir de lê-la para lê-lo. E ainda existe a chance remota que você goste da resenha - ou diga que goste para agradar alguém, ou goste mesmo e diga que não goste para fazer birra, etc. Não importa muito, pois você continua lendo. A resenha é decididamente nebulosa, vaga e incoerente. Faz uma longuíssima descrição do enredo do livro sem falar propriamente de sua história e perde-se em análises grotescas e superficiais. Você pensa que talvez o próprio livro seja um fluxo irrelevante de histórias sem sentido (mas aí ou bem o livro pertence à sua categoria de Livros Que Você Não Gosta Porque Você É do Contra, ou bem a resenha foi tão mal escrita que é melhor ignorá-la). O texto se perde por linhas e mais linhas sobre as dificuldades de tradução do italiano, das complexas variações da comida búlgara (que não se relacionam nem um pouco com

o velho japonês e a sabedoria oriental que por tanto tempo ela discute). É uma grande mistura de porcarias pós-moder­ nas, escritas por algum estudante sacal de filosofia, desses que você não conhece muito bem, mas tem certeza que se acha muito superior ao resto da humanidade, ou daqueles falastrões de tudo que não sabem de nada, ou ainda um daqueles maconheiros revolucionários, ou dos reacionários malufistas, ou um dos fascistas de esquerda, ou dos fascistas de direita, etc. Não importa quem, mas você tem certeza que não foi alguém normal que escreveu aquilo. Você já está ficando desinteressado, talvez o tremulante mortor do ônibus comece a deixar a leitura irritante e desagradável. Mas eis que no meio daquele texto mal escrito e pretensioso, eis que você, que já leu o livro, lê algo que lhe interessa; ou então você, que não o leu, lê algo que talvez lhe desperte o interesse para ler (e dependendo do interesse, o livro pode vir a ser um Daqueles Livros Que Você Tem Que Ler, ou dos que Vai Dizer Que Leu Porque Está no Jornal Que Ninguém (ou Que Todo Mundo) Lê, etc.). A certa altura o texto começa problematizar a relação de gênero Leitor-Leitora e as relações de dominação, e as conspirações contra a leitura; e logo o texto se encadeia numa reflexão mais atrativa, ou pelo menos é menos irritante e menos cacofonico e menos mal escrito. Fala sobre a necessidade de ler sempre O livro (e ainda começa a falar até sobre Plotino, mas você não entende – ou entende – se é no livro resenhado, se é premissa de argumento), sobre os entrecruzamentos e entrelaçamentos da linguagem que formam a leitura, e sobre o leitor que corajosamente debruça-se sobre a rede formada pelo eterno começo das histórias-sem-fim e do eterno fim das histórias-que-sócomeçam. Lucrécio, Ovídio e Borges também aparecem na teia de citações da pseuda erudição aracnídea do autor. A resenha fala algo sobre romances e pontes, sobre o romance que quer levar a algum lugar, e continua a se perguntar sobre os tipos de pontes e os tipos de romance. Ain­ da menciona alguns autores que você já ouviu falar (ou já leu, ou já ouviu falar e disse que já leu, etc.) e começa a falar sobre a morte. Pronto, agora ele te ganhou. Você está interessado (ou interessado por estar sendo mandado estar interessado)!


literatura. 27 o mundo não te deixa em paz. Quase sem pensar, você acessa o blog do jornal, mas o texto não está lá! Você vasculha na rede, mas ele não existe! Você decide então que vai procurar uma versão correta do jornal, uma versão em que os textos pelo menos façam algum sentido. Você está decidido. Muda os seus planos imediatamente para ter outro exemplar do Jornal da Filosofia, custe o que custar. Você se levanta com pressa e quase esquece o guarda-chuva. Eventualmente você chega à faculdade e procura o jornal. Mas não há mais nenhum exemplar. Embora não queira se misturar à gentalha que frequenta o prédio, ainda assim você pergunta para um ou dois caras (a bela moça que passou te deixa envergonhado, e a ela você nada pergunta), mas nada do jornal. Algo te deixa desconfiado: aqueles dois parecem se divertir com a sua desgraça.

Está o centro acadêmico organizando uma cons­piração neo-integralista contra o livro? De repente, surge um enorme borrão no verso da página, onde a coluna continuaria. Você a vira verificando se é isso mesmo, se o texto está interrompido. É isso mesmo. (Mas você folheia mais uma vez, só para ter certeza). Nas últimas linhas o autor volta a falar qualquer bobagem e você está quase certo que o texto é irrelevante. Mas você fica bravo, algo despertou o seu interesse, e você não sabe bem o que. Parece-lhe que as únicas linhas que prestavam foram devoradas pela tinta. Mas você pensa que é tudo um ardil do autor, que tenta levantar uma névoa de mistério no texto, para tentar transformar os miasmas de suas pútridas ideias em perfumes de erudição e autenticidade. Agora você quer desmascarar aquele salafrário do jornal, quer ler a íntegra do que ele escreveu, quer ler e comentar o texto dele linha por linha, quer aplicar minuciosamente o método socrático nos seus sofismas, quer mostrar que está tudo errado e que ele quer se fazer de resenhista, mas não sabe nem ajeitar os pontos, as vírgulas e quem dirá os acentos (se você está no ônibus de pé, pensar em acentos o faz virar a cabeça e procurar um lugar; mas hoje não é seu dia de sorte). O grande problema é que você é sério. Você quer desmascarar o autor, mas para isso você precisa ler o livro resenhado. Porém, você não é burro, e logo percebe que na verdade é tudo um plano para te deixar interessado em ler o livro. E você não quer ser vencido. Com desprezo, decide descobrir as linhas perdidas para ter um julgamento mais seguro, para proceder com razão. Por um tempo você tenta esquecer. Vai para o quarto, começa a ler algo, algo melhor. O som da TV ligada te irrita, você grita que está lendo - mas, como sempre,

Mas ainda existe uma esperança. Você manda uma mensagem para o corpo editorial do Jornal, mas manda por email. Não quer conhecer o autor ou os editores do jornal antes de terminar de ler o texto na íntegra. Curiosamente os estudantes que organizam respondem com a seguinte mensagem: “Vá ler Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino. Inauê”. Será a sua assinatura uma variante integralista? Embora a contragosto, você escreve para o próprio autor (usando um nome falso, claro), mas ele educadamente diz que, na verdade, o texto não é dele. Trata-se, ele explica, ou de um homônimo ou de alguém que quis publicar em seu nome para fazer piada (embora ele não pareça achar graça, você não deixa de suspeitar que ele esteja tirando onda da sua cara). Agora o livro parece estar no centro de algo maior do que você supunha. Agora você quer ler ou reler o livro, quer descobrir se há algo que você deixou passar. Será que o borrão significa algo? Será um código? Ou uma pretensiosa obra de arte? Ou será que o autor da resenha foi censurado? Está o centro acadêmico organizando uma conspiração neointegralista contra o livro? Quem escreveu a resenha? Talvez o borrão tenha sido um atentado terrorista do próprio autor para evitar que suas palavras fossem publicadas, ou lidas, para que ele pudesse se isentar do conteúdo... Muito tempo depois, Leitor, você reencontra a velha resenha em papel carcomido e corroído (cujo verdadeiro autor nunca foi encontrado). Agora você leu o livro (mas há muito pouco tempo, na sua nova perspectiva) e, lembrando-se do dia em que leu a resenha, arrepende-se. Pois você se lembra de ter percebido que a moça que passou por você era uma leitora, que carregava O livro sob os braços. - Ah, você suspira, ah se eu tivesse lido os livros antes... Se tivesse ido direto à biblioteca... ϕ


conto. 28

A Nova Condição Humana André Oliveira

A ninguém tem sido fácil convencer-se de que a dissolução da matemática foi um bem conquistado pelo homem; é que a vida tornou-se deveras mais difícil. Fomos todos pegos de calças curtas e arriadas... Movido por pruridos de esperança ou de estultice – ou até mesmo por mero senso prático –, quero deixar registrado o momento de grande tumulto espiritual por que passa a humanidade no tempo presente. Impressões e descrições tiradas ainda quentes das vicissitudes, embora não possam contar com a ponderação que o tempo concederá aos pósteros, possuem a grande virtude da fidelidade empírica. Um invulgar evento se deu nos dias correntes: nada menos que a matemática deixou de fazer sentido para os homens. De início a peripécia não causou grande alvoroço. Tratava-se apenas de um burburinho oriundo de um grupo ativista o qual contestava e ridicularizava o

método dedutivo dessa antiga ciência. Sim, tudo muito extravagante, como se pode perceber. Anunciou-se ali que “a transcendência e a constância da razão entre perímetro e diâmetro da circunferência são acidentes a denunciar um amplo sistema ardiloso, cujos fins são desconhecidos mas sem dúvida nebulosos; são como o rabo do gato que ficou a balançar do lado de fora do esconderijo”. Tais argumentos de repente encontraram assentimento na França, na Coreia do Sul, e logo descobriríamos não ser aquela uma simples teoria em busca de legitimação; era na verdade um fenômeno, pois em todas as nações observou-se o mesmo movimento silencioso de ceticismo e desencanto para com a matemática. Agora nem sequer conseguimos entender


conto. 29 Pegue-se outro exemplo, mais assombroso: ninguém sabe mais ao certo a própria idade. Constam dos registros hora e data dos nascimentos, mas que significam aqueles amontoados de números, aquelas combinações excêntricas? Nada senão a arbitrariedade impulsiva de um escrivão para determinar o significado de tais arranjos – mas quem há de dar crédito à volição de um ordinário burocrata? a mensagem que vai dentro dessas aspas... Desde os preceitos introdutórios, tudo passou a ser matéria de dúvida, de gosto, de opinião. Vasculham-se os livros antigos, estudam-se as regras severas e as definições tão didáticas, mas quanto maior o didatismo, maior a estupefação. O horror de imaginar como a humanidade foi capaz de produzir tantos absurdos! Rumoreja-se que estávamos todos imersos em uma espécie de transe coletivo do qual despertamos por força da influência de um cometa adunco e misterioso que raspou a Terra. Mas não passam de lendas, evidentemente; saber de fato, ninguém sabe a razão para estranheza tamanha. O que temos em nossas mãos é a verdade crua e amarga de que desaprendemos a operar todos aqueles sistemas, catalogados antes por essas mesmas mãos. Alguns tentam amenizar o desconforto observando o fato pelo lado contrário: consideram que a ordenação dos números era uma forma de ignorância da qual conseguimos nos libertar etc. Seja como for, doravante estamos todos às cegas – inclusive os próprios ativistas da causa –, e este fator é determinante para o estado calamitoso em que se encontram todas as nações do globo. A ninguém tem sido fácil convencer-se de que a dissolução da matemática foi um bem conquistado pelo homem; é que a vida tornou-se deveras mais difícil nessa nova civilização. Pegue-se o caso do comércio. O exemplo soará insólito e simplório a alguns, mas, quando mais não seja, dá conta de expor nossos reveses. Vai-se hoje à padaria e logo se depara com a dúvida e a estranheza acerca de quantos pães levar. “Leve seis – adianta-se o padeiro, com ar satisfeito de quem já se acostumou a dar conselhos aos clientes sobre esse assunto –; eles estão frescos como nêsperas recém-colhidas!” Por acaso, era justamente esse o número que o sujeito rascunhava na imaginação, então ele assente e posta-se de través, para aguardar a preparação do embrulho. Mas eis que o conflito se dá. Divergem sobre a quantidade de pães que foram embrulhados. O padeiro argumenta que considera seis a quantidade de pães e de objetos em geral semelhante ao movimento de pegar os sapatos para calçar – pegase um sapato, pega-se o outro, tem-se seis sapatos; ora, essa soma dá três! – argumenta por sua vez o sujeito, dizendo que seis pães equivalem, isto sim, ao total de bocas existentes em sua casa – a sua, a de sua esposa, a de sua sogra: seis bocas. Conflitos dessa natureza têm ocorrido o tempo todo, em todos os lugares. Criase uma teoria própria para o que é obscuro e raro é haver consenso sobre o significado dos números – com

a honrosa exceção daquele que se disfarçou de artigo indefinido. Os mais desacreditados são os que insistem em seguir as regras dos velhos manuais. Naturalmente o maior problema tem sido a forma de efetuar os pagamentos, mas ao menos o nosso governo tomou uma medida sensata nesse sentido: decretou que as transações devem se basear nas cores das notas e no tamanho das moedas. Quando o cliente acha justo e fica satisfeito, paga com as notas de cor mais valiosa ou as maiores moedas; caso contrário, precisa entrar em comum acordo com o vendedor, e assim nós vamos caminhando. É paliativo, sim, mas que há de se fazer? Fomos todos pegos de calças curtas e arriadas... Uma ampla e penosa operação está em andamento agora mesmo, com o bravo intuito de tentar levantá-las, mas nada é simples: todos os aspectos dessa nova realidade precisam ser recalculados, reorganizados, de modo que diversas camadas de obstâncias permeiam entre a ideia e o ato. As obras arquitetônicas, por exemplo, tiveram de ser interditadas devido à imprecisão das formas e das medidas. Locais onde funcionavam as antigas bolsas de valores assemelham-se a zonas devastadas por acidentes nucleares. Alguns episódios de anarquismo têm ocorrido em diversos quadrantes, mas a polícia tem feito sua parte; a rotina dos ladrões, a propósito, é das poucas que não foram afetadas, visto que eles permanecem com a tática de levar a maior quantidade possível do objeto de seu intento. (Há quem questione também a denominação das grandezas, e considere o vocábulo “menor” mais apropriado para caracterizar a medida desse objeto, em lugar de “maior”; mas isso é pura intriga de ferrabrases a rir do circo pegando fogo... Ora, é a própria intuição que dimensiona grandezas e, a meu ver, não há nada demais em seguir chamandoas pelo nome com que sempre foram chamadas – o que infortunadamente não se aplica aos números; o fato de o sistema inteiro ter vindo abaixo causou tamanho choque que não se confia nem mesmo nas definições mais primárias.) A despeito do riso desses embusteiros, são amaríssimas as dificuldades a nos castigar. Pegue-se outro exemplo, mais assombroso: ninguém sabe mais ao certo a própria idade. Constam dos registros hora e data dos nascimentos, mas que significam aqueles amontoados de números, aquelas combinações excêntricas? Nada senão a arbitrariedade impulsiva de um escrivão para determinar o significado de tais arranjos – mas quem há de dar crédito à volição de um ordinário burocrata? Penduram-se ainda em nossas geladeiras os


conto. 30 Quantas vezes o sol se pôs desde que os europeus desembarcaram no continente americano? Ou quantas vezes os ponteiros se cruzam ao longo da existência de um homem? E o assombro mor: não serão todas essas vezes uma única vez, uma prisão que encerra uma substância de nome Razão, a qual delira enquanto purga seus excessos em um movimento semelhante à trajetória de uma lágrima? exemplares da quimera a que costumávamos chamar “folhinha”, o tal e impenetrável Calendário; pois é grande o mistério de por que se perfilar os símbolos até determinado ponto para em seguida passar a repeti-los – com o acréscimo de se deixar à esquerda da nova sequência um dos símbolos utilizados antes, método a se perder de vista. Se pouco ou quase nada da oração anterior foi compreendido, os pósteros não fiquem constrangidos: é exatamente essa a sensação, a nossa sensação. Temos pranchetas que nos falam de anos, de dias, de conjuntos de dias que possuem até mesmo nomes próprios (“Janeiro”, “Fevereiro”). Mas todas essas coisas não passam de palpos de aranha que se desfazem ao menor esforço cognitivo, ao mais reles olhar que se detenha em seus terrosos fundamentos. Sabemos tratar-se, o Calendário, de obra da Igreja, que em algum momento decidiu sulcar no tempo um ponto referencial – o nascimento de Jesus Cristo – para melhor acomodar a História. Um propósito louvável, sem dúvida, mas assentado sobre essa ciência com a qual não podemos mais contar. Sem ela, tudo desmoronou feito um castelo de cartas, e o que se tem é escuridão e dúvida. Buliçosos franceses enxergaram nessa confusão toda uma oportunidade de reativar o calendário republicano – mas pelo fato óbvio de que as mesmas dificuldades permaneceriam, a ideia foi de pronto rejeitada, tendo o mesmo acontecido com as iniciativas de adoção dos calendários judeu e muçulmano. Enquanto isso, a outra tecnologia empregada na contagem do tempo, o relógio moderno, foi sumariamente tragada pelo abismo: a ninguém faz mais sentido as marcações esdrúxulas dos relógios digitais, áridas feito vaticínios em nogaico; só os relógios de ponteiros tem alguma utilidade, mesmo assim bastante limitada; sabemos que uma quantidade x de tempo passou quando os ponteiros se cruzam – mas vá saber que quantidade é essa! Será sempre a mesma? Melhor confiar na regularidade da sucessão de dias e noites, na posição dos astros no céu. Grandes ciências já foram erigidas com base nessa prática benfazeja. Cumpre ressaltar que a astronomia desde já está envolta em aura de grande suspeição, posto que seu conjunto de fábulas possui notória imbricação com a feitiçaria numenal. Quanto à astrologia, o prestígio de seu ordenamento lógico, honesto em sua sagacidade, só faz aumentar. Está entre os campos mais promissores dessa nova era. Num mundo ávido por princípios apriorísticos, já não há quarteirão em que não seja encontrada alguma plaqueta de anúncio do tipo “Aqui jogam-se búzios”. As mais recentes especulações dão conta de que

tudo não passou de obra de gênios malignos que habitaram a Terra na Antiguidade. Nomes como Euclides, Pitágoras, Zenão, Arquimedes, Apolônio, até mesmo de obscuros matemáticos indianos, estão todos a arder na fogueira. Tal asserção nos trouxe um assombro adicional e ainda mais impactante: quando ocorreu a Antiguidade? Ora, se os livros retratam a História como uma sucessão de temeridades, quanto tempo se passou entre elas? Por que esse conceito de sucessão, aliás, soa tão inconsistente? Por exemplo, quantas vezes o sol se pôs desde que os europeus desembarcaram no continente americano? Ou quantas vezes os ponteiros se cruzam ao longo da existência de um homem? E o assombro mor: não serão todas essas vezes uma única vez, uma prisão que encerra uma substância de nome Razão, a qual delira enquanto purga seus excessos em um movimento semelhante à trajetória de uma lágrima? Contudo, assim como a certeza de que o resultado da soma 2 + 2 sempre será “escárnio”, ou de que o ócio é o único mínimo divisor comum possível, resplandece a confiança de que conseguiremos pôr termo a esses mistérios, num futuro que nem deve estar tão distante. Pois se algo nós sabemos ainda, é que a razão sempre consegue se reinventar e contornar as dificuldades que se lhe impõem. Se estávamos embrulhados na engenhosa armadilha da matemática, eis-nos de pé, rochosos, preparados para retomar a busca pela segurança. Nem sempre essa marcha tem sido serena; mesmo assim avançamos com novos saltos, novos instrumentos, novas tecnologias. É esse, afinal, o elemento que tem nos diferido das enguias e das cacatuas. De sorte que algo grandioso sem dúvida deve estar a caminho, trazendo a solidez que desejamos aos nossos alicerces. Faço votos, por fim, de que este breve relato possa contribuir de alguma forma no restabelecimento da ordem, ainda que os rumores apontem para a obliteração da própria escrita alfabética – certas sociedades já planejam abolir algumas das normas de seus idiomas (“matronas esclerosadas, traiçoeiras e cartesianas”). Talvez seja uma medida sensata, sim! Contanto que sirva para nos afastar da perfídia e para nos reconduzir ao caminho do esclarecimento. Para todos os efeitos, que este amaldiçoado magote de sintagmas cumpra seu destino. Que reste como emblema de um tempo em que nós, macacos geômetras e falastrões, despertamos para a formidável inexatidão do mundo. ϕ


crônica. 31

Par ou Impar Thiago Fonseca – Está desafiando minha autoridade de Platão: – Par. filósofo? Não esqueça que você é só um Aristóteles: – Ímpar! aluninho aqui. – Óbvio que você é ímpar. – ... – Ãhn? – Pois bem, entendeu as regras do novo – Estamos jogando par ou ímpar. Se eu pedi jogo? par, é óbvio que você é ímpar. É par OU ím– Creio que sim. par. Não tem mais nenhum pra você escolher. – Então vamos tentar. Par. – Que injusto. Quem começa é livre e o – Ímpar! outro só escolhe o que sobra? – Por Zeus! Seu asno! Você pode escol– A questão não é essa. Não há escolha. her qualquer coisa! Logo, você não precisa falar ímpar, boçal. – Eu escolhi ímpar. Não posso? – Mas e esse “ou” - ele não pode ser con– Tenha um pouco de imaginação, por juntivo? Que tal par e/ou ímpar? favor. – Assim poderíamos ter um empate. – Por que o senhor não escolheu outra catego– É verdade. Pelas barbas de Sócrates! ria de números então? – Mas você me deu uma ideia. – Ah, não, profe. Já disse que discordo dessa história de ideias. – Força do hábito. Escolha outro. – Não é dessa ideia que estou falando. Zeus! Como você é burro. – Por que eu? – Porque eu sou o professor, eu mando aqui. Vai. – Acho que tenho o direito de discordar do senhor. – Tá. Número primo. – Cala a boca. Presta atenção. Se não, vai pra fora da sala. – Um, dois, três e já. – Aulas do lado de fora? Seria legal. – Um, dois, três e já. – Cale-se. Eu tive uma ideia. Podemos expandir o par ou ímpar. – O quê... mas o que é isso?! – Como assim? Fazer par e/ou ímpar? – Não sei, senhor... – Por exemplo. – Nenhum de nós apresentou dedo algum. – Senhor, essa ideia foi minha. – É só um exemplo. Não será só par e/ou ímpar. Será núme- – O que isso significa, profe? ro par ou número ímpar ou número inteiro ou número – Temos um não-número. Um não-ser. Valha-me, Parmênides! – Profe, isso está ficando difícil. real... daí o segundo jogador pode escolher. – Não compreendo. Como pode haver o não-ser? Estare– Mas o primeiro tem que pedir par sempre? mos diante do nada? – Não. Deixa de ser burro. – Creio que não poderemos jamais saber do que não é. – Não compreendo. Os dois poderão escolher? – Rápido, traga o papiro e a pena. Começaremos a aula a – Isso mesmo. Finalmente você compreendeu. partir dessa questão. – Interessante. O desafio é maior. – Exato. E o resultado imprevisível. Não teremos neces- – Senhor, o combinado foi que quem perdesse no par ou sariamente um vencedor e um perdedor. Deixe-me prosse- ímpar buscaria o material. Não sei dizer se perdi. Talvez o guir. Por exemplo, você pode pedir par e eu pedir número senhor deva buscá-lo. – Eu estou mandando! primo. Se a soma dos dedos for 5, eu ganhei. – Isso não é justo. – Ótimo. Mas... e se for 2? – O que é o justo? – Daí temos um empate. – Tá bom! Tá bom! Não começa! Que ódio ficar de recuperação. – Um empate de dois vencedores ou de dois perdedores? – Como eu queria ter outro aluno. Como eu teria. Aquele ra– Um empate é um empate, seu jumento. paz, o Espeusipo... vou conversar com o pai dele. Preciso de – Então, o terceiro não está excluído. um pupilo inteligente. Esse menino Aristóteles não vai longe. – Não, não está. – Ei! Eu estou ouvindo! – Que complicado... não posso alcançar essa ideia. – Aristóteles, se você continuar assim, vai reprovar nessa matéria. – Então aproveite e traga um giz! De castigo, escreverá cem vezes na lousa: “Só sei que nada sei”. Pelas barbas de Sócrates! ϕ – Sempre reprovando a matéria, não é, profe?


conto. 32

Fumer ou ne pas fumer... Ce n’est pas la question por Siddhartha Não, eu não estou fumando um beck. Estou, sim, contemplando a simplicidade dos pássaros e sua segurança em somente se preocupar com o carregar de seu corpo e com a proteção de sua liberdade de voar à vontade, no percorrer de uma vida em busca exclusivamente do que se conforta em seu próprio bico. Não, eu não estou fumando um beck. Mas refletindo sobre quanto tempo mais os brasileiros gastarão vivendo à sombra dos discursos retóricos e inflamados, sob a fantasia do Autor divinizado pela eterna “vontade de servir”1. Não, eu não estou fumando um beck, pois a profissão de filósofo, eterno estudante, me condena a sempre justificar perante a mim mesmo sobre o valor de minha própria vida. Não que eu não fumasse um beck, porém me preocupo demasiadamente com o alimento de minha alma, “uma coisa que colocas muito acima de teu corpo... de que depende toda tua sorte, porquanto serás feliz ou desgraçado conforme tua alma for boa ou má”2. Afinal, sob julgo de tão grande sabedoria, o pequeno universitário de filosofia se encontra eternamente “escravo do escolher”3, isso ainda mais se tudo não passar de um “eterno retorno”4. Pois, por mais que respeite a opinião do vulgo calcada na manutenção da tradição de sua própria cultura, este “pródigo filho”5, como é tomado constantemente pela mídia de sua própria pátria, acaba por ter a responsabilidade de construir as bases do que será a cultura nacional de sua geração e posteriores, conforme a função social do debate acadêmico universitário que, por isso, não pode ser vigiado panotipicamente por um poder executivo cuja função social deveria constituir-se, exclusivamente, no acatamento das decisões dialeticamente perpetradas por aquela instituição democrática. Para aquele que discute a razão de ser e o âmago que promove e institui a essência daquilo que posteriormente se formalizará enquanto lei, a compreensão desta somente se realizará de forma hermenêutica (interpretativa), à qual todo significado de qualquer sentença linguística está fadado. 1. Étienne de La Boétie. Discours de la Servitude Volontaire. 2. Πλάτων. Πρωταγόρας. 3. Jean-Paul Sartre. L’existentialisme est un Humanisme. Friedrich Nietzsche. Die Fröhliche Wissenschaft, § 341. 4. Bíblia. Lucas 15:11-21. 5. Michel Foucault. Surveiller et Punir: Naissance de la Prison.

As Leis somente são leis porque os homens lhes deram algum valor que lhes permitiu ser algo no mundo Para este jovem, inserido constantemente num “ócio social”, uma vez que para o vulgo nada produz de funcional ou prático, a prática constitui-se nesse próprio refletir que fundamenta não somente suas próprias ações, mas também a de todos os cidadãos contemplados pelas discussões originadas no cerne acadêmico. E assim, para ele já não há mais sentido em falar das leis que regem a sociedade pelas Leis presentes nos lucrativos vade-mécuns que se reeditam semestralmente para o ganho da dispersão capitalista do humano; já não mais se pode permitir a entificação de um ser que somente pôde vir a ser pela ação do ser do homem no mundo, enquanto agente de transformação e de interpretação inventiva das verdades essenciais através do desbravamento dos fluxos de estímulos extrassensórios que abarcam seus sentimentos mais internos, colapsando sua realidade numa determinação que focaliza a atenção numa determinada camada de seres intramundanos. Ou seja... as Leis somente são leis porque os homens lhes deram algum valor de significação que lhes permitiu ser algo no mundo. Para este jovem, que toma a autorreflexão objetivo mais primoroso para a constituição do sentido da vida, a principal questão já não é se deve-se ou não reduzir a maioridade penal, ou se deve-se instituir um tribunal de condenação sumária, mas, sim, questionar até quando os brasileiros se trilharão acorrentados ante ao muro, baseando-se nas sombras da discussão retórica pessoalista destituída de sua essência humana. Até quando os brasileiros errarão a esmo escravos do θυµος (impulso irracional) pelo poder e da imaturidade em lidar com ele? Obviamente, para este jovem fumar ou não fumar um beck não é a verdadeira questão, conquanto a opinião pública se satisfaça com apenas isso! ϕ


poesia. 33

emanação Alberto Sartorelli Então sai de mim a luz idealista a que emana, de dentro para fora pois aquela ideia do homem que em outrora digo que era em si, e agora rabisca.

Desbarrancadeiro pra curvar rio na falta de tempo Lucas Paolo Rocha transcende ser rocha e é cachoeira. Não-palavra. Sou eu palavra. Labuta de em ser água escorrendo. Com corrente pedrinha por pedrinha nenhuma. E esvaziado de vazio riocorrente sem ser tempo. Embarco nu féretro trôpego espúrio cai chão. Vamos pr’um agora agorinha água rio abaixo a’mar peixe-vivo carregado-carregando o morto...

Do rabisco do homem que é para si vejo a conscientização de mim mesmo sóbrio na realidade, logo vi o meu eu, vagando no mundo a esmo. Perseguia- o de maneira voraz nas altas masmorras do pensamento e o encontrei, ele estava em pranto. Cansado de si mesmo, agora faz um escrito que expõe o seu lamento para nós, ele mesmo que quer tanto. Para si, para o outro, para nós para ser eu mesmo, saio de mim. E mesmo que estivéssemos a sós é o todo que devemos ter por fim. Se o eu fosse pra nós, elevar-se-ia. Para além da mera filosofia.


rodapĂŠ. 36

CAF em 1994

O Discurso sem Método #3  

Um jornal a serviço da dúvida. Publicação dos estudantes de Filosofia da FFLCH/USP.

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