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O DISCU RSO SEM MÉTODO um jornal a serviço da dúvida.

nov/dez 2013

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a autonomia universitária e a estrutura de poder na USP publicação dos estudantes de Filosofia da FFLCH/USP

Monica Marques. p.9 Somente com a pluralidade democrática, com todos os seus riscos, é possível garantir que a USP não seja vítima do autoritarismo e permaneça um espaço para o debate e a crítica onde seja possível estabelecer canais de comunicação estáveis, contemplando sua função social.

a crítica do movimento estudantil Matheus Ichimaru. p.20

‘10 teses sobre a política’, de Jacques Rancière Lucas Paolo. p.29

odiscursosemmetodo.wordpress.com


editorial. 2

a serviço da

dúvida

Editorial Este periódico chega a um fim de ciclo. Nascido sob a atmosfera pós-mobilização de 2011 (o confronto com a polícia militar em 27 de outubro, as subsequentes ocupações da administração da FFLCH e da reitoria, a greve), ele se propunha, de acordo com seu primeiro editorial, a “expor as tensões dos nossos corredores”, a permitir o “acúmulo concreto de posições críticas”, recursos à disposição para os “momentos de decisão coletiva”. Pois bem: após cerca de dois anos e seis edições, o Discurso sem Método retorna àquela atmosfera, a este ponto em que as tensões precisam menos “ser expostas” — porque vibram por si próprias, independentes do nosso consentimento — e mais esclarecidas. Em que existe um tal coisa como o coletivo — ou, ao menos, um momento no qual cambaleamos na direção do que seja uma comunidade. Que posições críticas elaboramos? Em um sumário impreciso, pode-se dizer que entre o que fizemos está a digestão do fato do movimento de 2011 ter falhado. Em “Erro de Cálculo do ME ‘da USP’”, do nº2, Inauê Taiguara afirma: “O ME não foi capaz de convencê-la [a sociedade] da importância da pauta”; “não souberam elaborar, organizar e apresentar a sua luta”. José Calixto ecoa o diagnóstico, na edição nº3, em “Por um Engajamento Político Amplamente Social”: “O movimento estudantil não soube levar sua pauta para a sociedade. Fechou-se em si mesmo e foi derrotado”. A questão permanece: hoje, estamos comunicando os temas em pauta? Consegue-se transmitir as ideias entre grupos distintos, dialogar e conquistar apoio? Mais estruturais, mas ainda nesse sentido, dois artigos do nº1: André Scholz, em “Qual é o Papel das Instituições Estudantis?”: “Há uma clima de despolitização e incomunicabilidade entre os estudantes (apenas entre nós?). Cada qual discute com suas próprias categorias e ninguém utiliza categorias que não as suas próprias”; e Marcelo Soares, em “Organizados e Independentes, ou um pouco antes”: “A necessidade de unidade no movimento estudantil não pode ser mero discurso bonito e bem recebido, mas

própria condição de decência na atuação política. (...) Perdemos muito por vaidade e por não sabermos conversar”. Além da comunicação, se questionou a autoconsciência do movimento estudantil. Rafael Zambonelli, em “Do Cinismo do Movimento Estudantil”, do nº0, fala de “perda da dimensão histórica”: “Enfatizamos nossas pretensas vitórias, lançando ao esquecimento nossas derrotas — a consequência é a normalização e a aceitação tácita daquilo que nos derrotou (a título de exemplo: ninguém mais se levanta contra os muros ou a Univesp, etc. Será que daqui a alguns anos, se dará a mesma coisa em relação à PM ou ao novo regimento da pós-graduação?)”. Qual a resposta a essa última pergunta? Tudo isso desagua em junho, no “vislumbre quase alucinatório do ressurgimento de processos de luta popular” em junho, como descrevem Mariana Luppi e João Pedro Bueno. É neste texto do nº5, “Pensar a Organização: Lições de Junho”, que lemos: “Movimentos massivos tendem a ter esse efeito: por um lado reacendem nossas esperanças (...) por outro, colocam em cheque as preconcepções estratégicas e táticas da esquerda (...) tirando-nos do estado frustrante porém confortável do movimento em períodos de calmaria, em que não precisávamos questionar o sentido, a necessidade e o caráter de nossas organizações (...)”. Um slogan difundido por setores do movimento estudantil tentava fazer crer que as mesmas forças que preencheram as ruas juninas surgiam na USP. Se assim for, é de se perguntar se a mesma autocrítica, o mesmo conflito interno, surgirá. --Que posições críticas elaboramos? — agora com o cuidado de compreender esse verbo em tempo presente. “Ciclos”, abstrações que são, só se encerram para que se iniciem outros, e este periódico é agora feito no calor de uma greve, à beira de uma ocupação de Reitoria, nos intervalos das assembleias de curso e gerais.

participe do jornal! Envie artigos, traduções, contos, crônicas, poesia, manifestos, comentários; ajude na edição; colabore com a diagramação. A produção do jornal é aberta a todos os alunos da Filosofia, com discussões presenciais e online.


editorial. 3 Os debates que ocupam ou invadem nosso cotidiano chegam a estas páginas em uma série de textos. Seu tema central, a organização decisória da universidade, é tratada no artigo “A Autonomia Universitária e a Estrutura de Poder na USP”, de Monica Marques. Menos analítico, mais manifesto, “Por que Lutamos”, de Inauê Taiguara, reforça essa mesma discussão; ainda outro texto deste autor procura o consenso com seus opositores pressupostos: “Para um Diálogo com Quem só Vê a Pedra no Meio do Caminho” é fundamentalmente sobre princípios e traz pelo menos uma grande pergunta: “Queremos normalidade para chegar onde?”. Segue por essa via “Recordar para não repetir: o Regimento Disciplinar da USP”, de Maria Rita Morita, que ressalta as ligações históricas da universidade com a ditadura militar — e o que persiste dessas ligações ainda na atualidade. “Greve e Ocupação”, de Caio Sorio, discute os métodos do movimento estudantil e aponta a possibilidade de experiências de vivência e organização comunitária existentes nessas estratégias (na ocupação, por exemplo). Possibilitar essas experiências, segundo o autor, já são vitórias do movimento. No caminho da análise que indicamos na retrospectiva do início deste editorial, “A Crítica do Movimento Estudantil”, de Matheus Ichimaru, quer “compreendê-lo [o movimento estudantil] no interior de suas contradições, de suas deficiências e fragilidades”, em uma “tentativa de agregar; de enriquecer; de fortalecer; de ampliar o domínio da luta e as frentes onde ela se trava”. Matheus fala dos “gargalos” e de um “aparelhamento” do movimento, se precavê contrauma“caçaàsbruxas”–epropõeumasolução“republicana”. Ainda nesse sentido, dois textos estudam o que significa representação no âmbito do movimento estudantil: “As assembleias estudantis são representativas?”, de Dimitrios Valentim, e “Sobre representação no movimento estudantil”, de Maria Rita Morita. Saindo dos muros uspianos (ou nem tanto), Orlando Pimentel procura explorar: “Por que o Black Bloc é como é?”. Já o correspondente internacional Lucas Paulo nos envia uma tradução de Jacques Rancière, “10 Teses Sobre a Política”. Em “A Biblioteca”, de André Braga, parte das conversas de corredor para realizar uma crítica à naturalização de problemas por parte de procedimentos “técnicos” — nesse caso, os “guardadores de mochila”. Neste tom de dia a dia, uma carta que publicamos por engano (desculpem), “A Uma Leitora”, de André Paes

Leme. (André, Manuel Bandeira, em agradecimento pela citação tão cordial, lhe envia esses versos: “As almas são incomunicáveis. // Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. // Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”) --Parece causa perdida chamar os estudantes à participação de modo geral e à colaboração com esse jornal em particular — mas estejamos em defesa de causas perdidas: este Discurso existe (ou pretende fazê-lo crer) por um aprofundamento da troca de ideias, do senso de comunidade e da formação (em sentido amplo, amplicissímo) dos alunos de Filosofia. Escreva, combata. Sem método mesmo. ϕ

Expediente desta edição André Braga André Paes Leme Ari Marinho Bueno Bruno Bernardo Caio Sório Dimitrios Valentim Duanne Ribeiro (diagramação) Felipe Maia da Silva João Pedro Bueno Inauê Taiguara (edição) Lucas Paolo Marcelo Soares (revisão) Mariana Luppi (revisão) Maria Rita Morita Matheus Ichimaru Monica Marques (diagramação) Orlando Pimentel Pedro Zambarda Rondino Diferença Thiago Fonseca (ilustrações) Y.K

imagem da capa: Thiago Fonseca

inscreva-se no grupo de discussão por email: http://bit.ly/jornaldafilosofia Ou envie um email para uspcaf@gmail.com, com o assunto Jornal. lleia as edições anteriores em: http://www.issuu.com/caf_usp

visite também: facebook.com/filosofiausp


sumário. 4

Índice agenda e notas calendário..........................................................5 coluna do CAF sobre os eixos da greve discutidos em assembleia.................................................6 universidade e política

tradução ‘10 teses sobre a política’, de Jacques Rancière....................................29 Lucas Paolo crítica

a pele a se habitar.........................................31 por que lutamos...............................................8 Bruno Bernardo Inauê Taiguara crônica a autonomia universitária e a estrutura de poder na USP..............................................9 a uma leitora..................................................34 Monica Marques André Paes Leme recordar para não repetir: o regimento disciplinar da USP....................11 a biblioteca.....................................................36 André Braga Maria Rita Morita paródia para um diálogo com quem só vê a pedra no meio do caminho.........................12 pro trabalhador e pro Inauê Taiguara estudante ter palavra....................................36 Dimitrios Valentim greve e ocupação: métodos de luta do ME..................................13 Caio Sório poesia.............................................................37 carta dos estudantes do onze poetas primeiro ano...................................................14 Ari Marinho Bueno movimento estudantil as assembleias estudantis são representativas..............................................15 Dimitrios Valentim sobre representação no movimento estudantil...................................17 Maria Rita Morita

canção do bom moço Dimitrios Valentim a luta continua Rondino Diferença só mais dez minutos Y.K.

a crítica do movimento estudantil...............20 Matheus Ichimaru quadrinhos

zaratustra ad hoc Duanne Ribeiro

luta de classes nas estrelas episódio 3.......................................................26 A Pantera, de Rainer Maria Rilke Noite ao Luar, de Joseph von Eichendorff Thiago Fonseca Felipe Maia da Silva sociedade rodapé............................................................44 por Thiago Fonseca por que o black bloc é como é?.................28 Orlando Pimentel


coluna do caf. 5

calendário Envie textos para o manual do calouro até 15 de janeiro e para a próxima edição do jornal até 10 de março.

acadêmico-estudantil: - As atividades do período de greve são informadas em www.filosofiaemluta.blogspot.com www.facebook.com/caf.usp

cultural: - Novembro - Mês da Consciência: A organização do Mês da Consciência Negra na USP em 2013 está sendo tocada pelo Núcleo de Consciência Negra em conjunto com diversas entidades, coletivos e movimentos que lutam pela inclusão e contra o racismo e o genocídio,. O cronograma

aconteceu e você não viu De 25 a 27 de setembro, aconteceu a II Jornada de Filosofia Oriental da FFLCH/USP. Os vídeos das palestras estão disponíveis no blog da Jornada: http://bit.ly/2ajornada Destaque para as seguintes apresentações: “Heidegger e o Inevitável Diálogo com o Mundo Oriental”, do Dr. Antônio Florentino Neto: http:// bit.ly/oriental_heidegger “Ontologia e cosmologia no Sānkhya Kārikā de Īśvarakrsna”, do Prof. Dr. Roberto de Andrade Martins): http://bit.ly/oriental_ontoecosmo “Do Sufismo Andaluz aos Dias de Hoje”, da Dra. Bia Machado: http://bit.ly/oriental_sufismo “Introdução ao Caminho do Meio”, do Prof. Dr. Leonardo Vieira: http://bit.ly/oriental_domeio Leia também “Filosofia Oriental: por que não?”, de Lucas Nascimento Machado, artigo publicado na edição nº2 deste periódico que analisa preconceitos relacionados ao pensamento não-ocidental — e, à época, anunciava a 1ª Jornada: http://bit.ly/filosofiaoriental de atividades que se darão em novembro está no link: http://bit.ly/consciencianegra2013 - De 31/10 a 14/11, o III Festival do Cão, organizado pelo CANil Espaço Fluxus de Cultura. Vários locais da USP. Confira a programação em www.festivaldocao.com.br.

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- De 18 a 22/11, o II Semana Arte no Meio, organizado pelo Núcleo de Cultura do Prédio do Meio. Vários locais da USP. Confira a programação em www.2semanaartenomeio.wordpress.com. Conheça também o grupo do Núcleo no Facebook: http://bit. ly/nucleomeio - Até 1º/12, a X Bienal de Arquitetura, com seminários, conferências, oficinas sobre arquitetura e urbanismo. Vários locais, como a FAU, o Masp, o Centro Cultural São Paulo e o Sesc Pompeia. Veja a programação completa no site www.xbienaldearquitetura.org.br


coluna do CAF. 6

sobre os eixos da greve discutidos em

assembleia

Sobre os eixos da greve A assembleia geral dos estudantes da USP, convocada de maneira extraordinária no dia 1 de outubro, uma terça-feira, se expressou como resultado de um ato convocado pelas entidades representativas das três categorias que compõem a Universidade (Adusp, Sintusp, DCE e APG) em frente à reitoria durante a reunião do último Conselho Universitário (CO).Esse ato culminou com a ocupação da reitoria em resposta ao posicionamento do CO de não aceitar nem mesmo discutir a possibilidade de abrir o processo eleitoral para voto amplo da comunidade acadêmica, de maneira que mais uma vez a escolha do reitor depende estritamente de um corpo fechado no qual as categorias (funcionários, estudantes e mesmo professores) estão sub-representadas, assim como em qualquer instância de deliberação na universidade. Além disso, os representantes discentes e representantes dos funcionários foram impedidos de voltar ao CO após sair do plenário para informar aos manifestantes a respeito da deliberação do colegiado, de modo que as deliberações foram tomadas sem essa representação, que já é exígua. Desde essa primeira Assembleia da greve, as pautas se desenvolveram e hierarquizaram, com separação entre os eixos principais do movimento e as bandeiras estratégicas. Seguem os eixos conforme deliberados em 10 de outubro (e até aqui, 28 de outubro, ratificados): - Eleições Diretas e paritárias para Reitor, Diretores de Unidade e Chefes de departamento. Fim da lista tríplice! O movimento estudantil reivindica paridade entre as categoriasque compõem a comunidade acadêmica (professores, funcionários e estudantes) nas instâncias deliberativas da Universidade, o que toca também a instância deliberativa que elege o reitor da USP. Por isso reivindicamos que toda a comunidade possa votar, com peso igual das três categorias. Todo processo eleitoral para reitor gera uma lista tríplice, ou seja, uma lista do primeiro ao terceiro colocado dentre os candidatos reitoráveis mais votados, a fim de que, a partir desta lista, o governador do estado de São Paulo indique um dos três. O fim da lista tríplice parte como reivindicação de que haja a possibilidade da própria comunidade acadêmica escolher seu dirigente, sem ingerência do governo do estado, que impõe um projeto político-pedagógico específico empreendido dentro da USP, que vem

priorizando uma lógica de produtividade e vinculação da pesquisa universitária ao mercado em detrimento tanto da autonomia universitária, quanto do caráter e relevância sociais da universidade. - Por uma estatuinte livre e soberana na USP Como podemos perceber, todas as pautas reivindicadas se contrapõem, em graus diversos, à atual estrutura de poder na USP. Tais questionamentos remontam há pelo menos 1983, quando a primeira proposta de reformulação do estatuto da USP apareceu. Em termos objetivos, a estatuinte se trata de um processo de reformulação plena do estatuto vigente. Nesse sentido, apesar de ser uma pauta de médio prazo, deve ter seu processo iniciado o quanto antes. O adendo a esta pauta (livre e soberana) se insere na discussão de que somente a comunidade acadêmica, articulada e mobilizada com os setores da sociedade civil, pode conduzir esse processo de estatuinte de maneira democrática, sem a ingerência de interesses particulares e nem sob a estrutura verticalizada de deliberação do CO. - Cotas na USP já! Pela implementação do PL Estadual de iniciativa popular da Frente Pró-Cotas que institui cotas sociais e raciais nas Universidades Paulistas Consideramos fundamental o reconhecimento da exclusão histórica que a população sofreu e sofre na sociedade brasileira. A falta de negros na universidade pública é um reflexo disso, que deve começar a ser sanado com a medida de reserva de vagas. A PL da Frente pró-cotas é justamente uma iniciativa do movimento negro no sentido de sintetizar suas demandas sobre o acesso à universidade. (mais informações em http://frenteprocotasraciaissp.blogspot.com.br/) - Devolução dos blocos K e L para a moradia estudantil O atual prédio da reitoria foi planejado para ser moradia estudantil e a devolução do mesmo foi prometida para essa função após uma vitória da greve de 2007. O próprio reitor João Grandino Rodas prometeu, em entrevista logo após sua “nomeação”, que devolveria os blocos K e L ao CRUSP. - Não à Repressão! (Nenhuma reintegração de posse! Negociação Já! Nenhuma punição aos estudantes em luta! Fora PM dos Campi: Fim do convênio USP-PM! Pelo fim dos processos aos estudantes e trabalhadores da USP! Reintegração dos es-


coluna do CAF. 7 tudantes eliminados! Não à retirada dos espaços estudantis!)

prédios administrativos ao reivindicar por moradia estudantil.

.Pela não punição dos manifestantes que aderirem a presente greve e apoio à ocupação da reitoria

Além desses eixos, são bandeiras do movimento também votadas em Assembleia:

Diante deste preocupante histórico de punições por manifestações políticas e diante da necessidade de se manifestar politicamente, a assembleia do curso de Filosofia, entendeu como de suma importância, elencar este eixo pela não punição dos manifestantes que aderirem à atual greve, bem como daqueles que agora ocupam a reitoria. Em 2007 o movimento conseguiu que a reitora Sueli Vilela assinasse um termo de compromisso pela não punição e retirada dos processos já abertos, com a formação de uma comissão de negociação política entre as três categorias e a reitoria. Rodas, ao contrário, até agora não demonstrou nenhuma disposição para negociar...

- Dissolução do Conselho Universitário

.Fim do convênio PM/USP Essa reivindicação parte da noção de que desde o estabelecimento do convênio, a segurança no campus não aumentou, apenas o controle sobre as manifestações dos estudantes e funcionários. Como nos demonstrou junho, polícia não é segurança, é repressão! .Pelo fim dos processos a estudantes e trabalhadores Tendo em vista o fato de que a luta política dentro da Universidade vem sendo criminalizada (com direito a punições administrativas com amparo em um decreto de 1972 – 52.906/72 – e punições no âmbito penal). Segundo o atual estatuto da USP, não é legítimo, na Universidade, que um grupo se expresse politicamente. É com base no decreto citado que manifestações políticas vêm sendo sistematicamente oprimidas. O resultado mais perverso disto se expressa em uma política do medo, disfarçada de legalista, em que as pessoas que se expõem para defender uma causa de interesse comum (como moradia estudantil), são penalizadas individualmente como se questionar a ordem vigente fosse um crime. Diretores do Sintusp, da Adusp e estudantes sofrem processos administrativos referentes a diferentes momentos de mobilização e, em grande parte, correm até hoje – que subsidiam inclusive processos criminais: 72 estudantes foram detidos pela ocupação da reitoria em 2011 e sofrem acusação de formação de quadrilha, depredação do patrimônio público, etc., entre vários outros processos, por exemplo o da ocupação da COSEAS, que tramita em segredo de justiça. .Pela reintegração dos expulsos/demitidos políticos Alguns processos dos citados no ponto anterior já foram revistos na justiça comum. Alguns dos estudantes punidos administrativamente pela ocupação da reitoria de 2011 tiveram seu direito ao recurso (previsto em estatuto) negado pelo reitor, o que se caracteriza como uma usurpação de competência do CO (ou seja, o próprio reitor julgou e negou os recursos). Além disso, funcionários foram demitidos por motivos políticos, bem como estudantes foram expulsos por ocupações de

- Governo Tripartite - Cancelamento do Conselho Universitário de 01/10/13. - Devolução do espaço do DCE-Livre, com autonomia política e financeira de gestão. - Moradia, Restaurantes Universitários e circulares nos campi do interior. - Refeições nos bandejões no fim de semana, no almoço e no jantar com contratação de mais funcionários efetivos. - Aumento de vagas nas creches - Que as bolsas de permanência estudantil tenham o valor um salário mínimo - Duplicação dos circulares com contratação de mais funcionários efetivos. Pela volta das linhas externas que foram cortadas em 2013. - Contra as catracas na USP! - Pela volta do gatilho automático! - Contratação de mais professores - Fora Rodas! - Fora Alckmin! - Pela incorporação dos trabalhadores terceirizados ao corpo de funcionários da USP - Não à retirada do Espaço do SINTUSP - Fim do Vestibular Pautas apresentadas pela Frente Feminista: - retomada dos blocos K e L para que sejam moradia adequada para pessoas com filhos! - pelo fim do Convênio USP_PM, por uma nova iluminação no Campus e por uma guarda preventiva, com treinamento para atender casos de violência contra a mulher e com contratação de mais guardas femininas - que a Universidade torne públicos os dados sobre violência, estupro etc, contabilize como ocorrência do campus e preste atendimento psicológico às mulheres agredidas! ϕ

acesse o blog Filosofia em Luta, que acompanha a mobilização do curso: www.filosofiaemluta.blogspot.com


universidade e política. 8

por que

lutamos Inauê Taiguara

Somos estudantes de uma universidade pública, considerada como uma das mais importantes da América do Sul, que nos últimos anos tem se preocupado mais em atender interesses mercadológicos e subir em ranques internacionais, cujos critérios são majoritariamente quantitativos, ao invés de atender às demandas sociais apresentadas diretamente pela sociedade na qual a USP está concretamente inserida. Nós não concordamos com este caminho que as últimas gestões da Universidade de São Paulo têm trilhado a ferro e fogo, utilizando para tanto inclusive de decretos promulgados durante a ditadura civil-militar para silenciar aqueles que denunciam e se opõem diretamente às mazelas de tal caminho. No entanto, dentro da atual conjuntura, pouco podemos fazer se não nos manifestar e protestar contra tais rumos, e mesmo estas ações, asseguradas pela Constituição Federal, são para nós passíveis de punições – vide, por exemplo, o decreto 52.906/72 que proíbe manifestações ou propagandas de caráter político-partidário, racial ou religioso (art. 250) e que recorrentemente vem sendo utilizado para a “eliminação definitiva” (art. 249) de membros da comunidade universitária. A impossibilidade de intervir concretamente nos rumos da universidade se deve, sobretudo, à estrutura de poder da USP. Para exemplificar, esta estrutura é formada de tal maneira que quem está no poder (reitor) indica grande parte daqueles que terão o direito de escolher o próximo que ocupará o poder (membros do Co.), o que gera um círculo vicioso que permite que a Universidade continue a servir a interesses de um grupo particular, interesses esses totalmente contrários à verdadeira função da universidade pública. Lutamos pela democratização da Universidade de São Paulo! Chamamos atenção para o fato que o conhecimento pode servir tanto para a transformação da sociedade e a superação das desigualdades sociais como para a manutenção de tais desigualdades. Isto depende de quem produz e de quem controla o conhecimento. Lutamos, sobretudo, pelo ensino público e de qualidade para todos! Dentro do contexto em que estamos inseridos, reconhecemos que estamos em uma das universidades mais elitistas do país e também uma das mais antidemocráticas. “A USP é uma das universidades cujo funcionamento é um dos mais autoritários do Brasil. O caso da forma de eleição para reitor é apenas um demonstrativo de sua lógica: 98% das pessoas diretamente interessadas (estudantes, professores e funcionários) são excluídas do colégio eleitoral, que é alterado de 2% de participação no 1º turno para ape-

nas 0,4% no segundo turno.” (GT Estatuinte, Informações para o debate sobre uma nova estatuinte na USP, 2012) Ao reivindicar a democratização estamos na verdade dizendo a toda sociedade: “Nós, 95 mil estudantes da USP, assumimos nossa responsabilidade diante do que a universidade faz e deixa de fazer, diante de seus êxitos e seus fracassos. Esta responsabilidade, porém, tem de nos ser reconhecida de direito! Queremos que nos seja assegurado o direito ao voto direto Reivindicar o direito ao para os cargos de devoto direto não é pedir cisão, tais como Chefes privi­légios e sim assumir de Departamento, Direresponsabilidades e detores de Unidade e Re- veres diante da sociedade itor da Universidade!” Ao contrário do que dizem aqueles que criticam a nossa mobilização, reivindicar o direito ao voto direto não é pedir privilégios e sim assumir responsabilidades e deveres diante da sociedade. Por fim, vale dizer que a democratização da Universidade de São Paulo é de interesse de toda a sociedade e não apenas da comunidade universitária. A Universidade só poderá atender às demandas concretas da sociedade se lhe for assegurada a autonomia universitária. Enquanto a atual estrutura de poder e de decisão se mantiver, os rumos da universidade estarão atrelados a interesses mercadológicos que dão margem, por exemplo, a que suas produções estejam submetidas ao conceito de obsolescência programada ou então a interesses partidários, que buscam resultados rápidos (quatro anos no máximo) para utilizá-los em campanhas futuras, sem que isso signifique necessariamente a resolução concreta dos problemas reais e estruturais da sociedade – uma vez inclusive que a promessa de resolução de tais problemas é recorrentemente utilizada nas campanhas eleitorais. ϕ


universidade e política. 9

autonomia universitária a

ea

estrutura de poder

na

USP

Monica Marques Desde que iniciaram os protestos e a ocupação da reitoria pela democratização da Universidade de São Paulo diversos discursos insistiram que não poderia haver nada mais despótico e autoritário do que a democratização dessa universidade com a participação dos três setores que a compõem. Os argumentos são variados: desde a impossibilidade dos alunos participarem do processo de eleição por nela permanecerem pouco tempo até a defesa de que a interferência do governador no processo de escolha do reitor é a garantia da “participação popular” na universidade, passando ainda pela acusação de que, se os estudantes agora utilizam marretas para abrir a porta da reitoria, imaginem o que farão quando tiverem representação política na universidade... Qualquer um facilmente imagina uma legião de estudantes armados com martelos destruindo bibliotecas e laboratórios e reitores indefesos enforcados em praça pública. Tais fatos conduzem à necessidade de analisar a natureza dessa instituição e pensar se de fato a estrutura de poder da USP é compatível com sua função. A universidade moderna desde sua origem caracteriza-se como um espaço público que possibilita a discussão e a construção de ideias e valores, o que a define ainda como um espaço democrático. Para que esse espaço de liberdade seja possível é imprescindível que a universidade tenha autonomia no que se refere à produção de conhecimento, não se submetendo a interesses mercadológicos ou projetos políticos do Estado. Mas é preciso deixar claro que a autonomia da universidade, requisito para a realização da idéia de universalidade, não significa que a instituição abstrai o contexto social no qual se insere. A independência, como distanciamento crítico, possibilita, ao contrário, que este contexto possa ser pensado como um pólo de relação que não se confunde com qualquer conjunto de interesses particulares, sejam eles mercadológicos, empresariais ou políticos. (Leopoldo e Silva, 2001, p. 301.) Muito além do que fabricar engenheiros, médicos e ensinadores, a universidade cumpre a função de formar indivíduos capazes de pensar a sociedade e exercer a cidadania contribuindo para sua evolução. Nesse sentido, a universidade contém uma promessa de emancipação. Justamente

por não estar limitada pelas injunções do mercado é que a universidade pública pode cumprir o seu papel histórico e social de produção e disseminação do conhecimento, e também manter com a cultura uma relação intrínseca que se manifesta numa possibilidade de reflexão que foge aos moldes do compromisso imediatamente definido pelas pressões de demanda e de consumo. (idem, 2001, p. 299.) O fato de a universidade cumprir uma função social e manter constantemente um diálogo com o meio social não quer dizer que ela deva adaptar-se a esta simplesmente atendendo as demandas sociais. A função da universidade é, sobretudo, crítica e aparece como um núcleo de resistência frente às pressões políticas e econômicas externas. Sendo assim, a universidade não pode ser encarada como uma empresa prestadora de serviço do Estado, tampouco o reitor como simples administrador de recursos. Eles têm uma responsabilidade muito maior: garantir que a universidade cumpra sua função histórico-social. É, ainda, o relativo distanciamento que permite que ela reconheça as contradições e os problemas da sociedade ao invés de reproduzi-los. Porém, como garantir isso se a estrutura de poder da USP é extremamente restritiva, permitindo que um pequeno grupo se consolide no poder por gerações? O reduzido colégio eleitoral (apenas 2%) é composto em grande parte por pessoas escolhidas direta ou indiretamente pela própria reitoria. A maioria dos conselheiros são nomeados diretamente pelo reitor. Os professores titulares que compõem a maior parte do colégio têm seus títulos concedidos pela reitoria. (Tais títulos deveriam ser concedidos por mérito; nunca ficou claro, porém, quais seriam os critérios adotados pela reitoria, lembrando que nesses concursos normalmente há apenas um candidato). É evidente que com esse sistema eleitoral caímos num ciclo vicioso que tem por objetivo manter um grupo político no poder, uma vez que a lista tríplice é eleita pelos membros escolhidos pelo reitor anterior, seguida da escolha do governador. Esse modelo não deixa margem para resistência caso o grupo que esteja no poder tenha interesses escusos à função social da universidade. A intervenção do governador na escolha do reitor, longe de representar a participação popular, não pode representar outra coisa senão o desejo político de controlar e interferir na direção da produção de conhecimento da universidade, ferin-


universidade e política. 10 do justamente o princípio da autonomia na qual está alicerçada a universidade. Como bem aponta Franklin Leopoldo e Silva, com a interferência do Estado corremos “o risco de inserir a universidade no ritmo das conjunturas políticas que se sucedem, o que equivaleria a um profundo desequilíbrio do trabalho universitário, o qual deve ser orientado por um núcleo permanente em que resida o ideário mais amplo e mais originário pelo qual a instituição se deveria pautar.” (idem) Isso nos permite perceber que a atuação do Estado no processo eleitoral representa um risco muito maior do que a participação da classe estudantil, que, ao contrário do governador, é parte ativa da produção e disseminação de conhecimento no interior da universidade e experimenta intensamente esse espaço. Outra justificativa para a não democratização da É uma ilusão crer que universidade possa se furtar à política USP é que, com método atual, evita-se a politização sejam questionais, partindo deles vemos que dentre as melhores da administração, priorizando “propostas acadêmicas” que gauniversidades do Brasil encontramos diversos exemplos, como rantem a “excelência” universitária. É uma ilusão crer que unia UFRJ e a UFSCar, que mostram que qualidade pode ser conviversidade possa se furtar à política. A politização da universidaver perfeitamente com estruturas de poder mais democráticas. de é inevitável. A decisão de onde e de que maneira são feitos os investimentos, a grade curricular, quais as áreas devem ser Somente com a pluralidade democrática, com todos os seus priorizadas etc. são precisamente decisões políticas que incidem riscos, é possível garantir que a USP não seja vítima do autorisobre a produção intelectual e cultural da universidade. É na- tarismo e permaneça um espaço para o debate e a crítica onde tural que a universidade seja objeto de disputa política já que seja possível estabelecer canais de comunicação estáveis, conas percepções de qual o melhor modo dela cumprir sua função templando sua função social. É certo que da mesma maneira podem divergir. Contudo, há um horizonte fixo: manter um es- que a sociedade não pode se impor à universidade, a univerpaço permanente de liberdade e crítica (lembrando que esse es- sidade não pode simplesmente fazer o que bem entender sob paço pode ser facilmente extinto sem o uso da força bruta, bas- a acusação de corporativismo. Contudo, é de se notar que, ao tando que se façam os desinvestimentos certos, como direcionar contrário dos argumentos apresentados pela mídia, não é a os cursos para atender os interesses mercadológicos). democratização, mas essa estrutura de poder, que permite que No entanto, a maneira como se dá a política universitária atual é deturpada. Bem distante desse horizonte, que se caracteriza pela multiplicidade e pelo debate, esta é marcada pelo monopólio político. Politicagem não é a abertura para o debate político, politicagem é o que ocorre quando os professores disputam a concessão do título para ter poder ou quando o reitor é nomeado pelo governador que o escolhe justamente por conveniência política. É precisamente o espaço de divergências que é frutífero aos rumos da universidade, e justamente por isso é um equivoco deixar que apenas um pequeno grupo controle a universidade. Outros ainda dizem que as “melhores” universidades do mundo não têm gestões democráticas. Pode até ser que não tenham eleições diretas, mas uma coisa é certa: nenhuma delas tem uma interferência tão direta do Estado na escolha de seus dirigentes. Em algumas até os ex-alunos votam. Além disso, se a falta de democracia resultasse necessariamente num aumento da qualidade, como recentemente declarou o atual reitor, deve-se indagar por que a Universidade de São Paulo nunca figurou nem entre as 50 primeiras nos mais importantes sistemas de classificação. Isso indica que a questão da qualidade deve ser reflexo de outros fatores. Ainda que esses critérios de qualidade

os dirigentes “façam o que quiser” com a universidade sem qualquer chance de oposição. Não é a intervenção externa, seja do governador, seja da opinião pública, que resolve a questão, mas antes a retomada de seu princípio originário é que pode conciliar autonomia e função social.

A maneira com que a mídia se permite tratar esse assunto exprime o esvaziamento do espaço público e do conceito de democracia no Brasil. A democracia que se exige não é o simples direito de votar no candidato que contemple o interesse dos estudantes, mas, antes, remete ao bem comum (elemento que parece ter sido cuidadosamente apagado da democracia brasileira). É para cuidar que os dirigentes não desviem a universidade por caminhos que não lhe condizem que os estudantes querem democracia. Por tudo isso é urgente a abertura de uma estatuinte livre e soberana na USP. Referências LEOPOLDO E SILVA, Franklin. Reflexões sobre o conceito e a função da universidade pública – In Revista Estudos avançados vol.15 no.42 São Paulo May/Aug. 2001 CHAUÍ, Marilena. A Universidade Operacional. Folha de São Paulo, 09 de maio de 1999. Caderno Mais! ϕ


universidade e política. 11

recordar para não repetir: o regimento

disciplinar da USP Maria Rita Morita

Vinculada enquanto instituição civil ao governo militar da ditadu- um decreto que dita normas institucionais compatíveis com o ra brasileira, a USP não se destaca somente por ser uma das maio- AI 5. No início do ano de 2012, seis alunos foram expulsos por res comunidades acadêmicas e um centro de pesquisas valorizado causa da ocupação de uma das sedes administrativas da Coorpor seu selo de melhor universidade da América Latina. Como denadoria de Assistência Social da USP (Coseas), que funcioUniversidade pública do Estado de São Paulo, teve seus órgãos nava em um dos blocos destinados ao Complexo Residencial administrativos diretamente ligados ao regime de exceção no da USP (Crusp). Com base no Regimento Disciplinar, além da período de 1964 a 1985, desde seu funcionamento e modificações acusação de depredação do patrimônio público, eles foram de ordem burocrática até membros do DOPS instalados na reitoria. acusados também de se organizarem politicamente para reivinNesse sentido, o Estatuto da Universidade de São Paulo, fundada dicar o direito à permanência estudantil com moradia. Processo em 1934, sofreu modificações profundas que apontavam para a de sindicância semelhante foi o que puniu administrativamente permissão legal dos órgãos internos de cassação, expulsão e per- os estudantes que ocuparam a reitoria em novembro de 2011, seguição do corpo docente, discente e de funcionários que fossem com base no mesmo decreto e com a baliza do sensacionalismo considerados subversivos. Fato é que após a abertura democrática, encampado durante a reintegração de posse, com um contingente de cerca de 400 policiais militares em 1985, os regimentos e estatutos das unipara prender 72 estudantes. versidades brasileiras também passaram por um processo de redemocratização Enquanto a instituição da USP foi conivente e é certo dizer que a USP foi uma delas. e colaborou com desaparecimentos, mortes Porém, não sem conservar uma estrutura e demissões compulsórias de professores, administrativa característica do período estudantes e funcionários, e uma vez que de exceção. Além de a estrutura de poder a Universidade foi fundada para atender dos órgãos deliberativos se conservar na interesses econômicos e formar a intelecconcentração de poder de membros do tualidade política do estado de São Paulo, cargo mais alto da docência (os profesé óbvio concluir que essa universidade sores titulares), não é de se deixar de lado foi um dos aparatos políticos com roupaum decreto que desde 1972 passou ileso a gem civil para a repressão e perseguição todas as modificações regimentais. Tratapolíticas empreendidas no Brasil durante a se do decreto 52.906/1972, redigido pelo então reitor Luís Antônio da Gama Sem uma transição de fato democrática, ditadura civil-militar. Tal relação estreita e Silva, também redator e locutor do a USP estará fadada a reproduzir a lógica conservada há 40 anos com o período Ato Institucional nº5, baixado em que orientou as violências do passado da ditadura se expressa em medidas extremamente autoritárias no presente, dezembro de 1968, ato que fechou o Congresso Nacional, permitiu a cassação e a suspensão de direitos materializadas em constantes ações violentas encampadas pelos gespolíticos e uma série de medidas repressivas. Em vigor desde 27 de tores e na estrutura legal administrativa de poder da universidade. março de 1972, o decreto se intitula Regimento Disciplinar da USP e regulamenta, há 40 anos, os códigos de conduta e convivência Permitir que casos de perseguição política se materializem jusno campus da Universidade. Códigos de conduta e convivência tificados institucionalmente por um decreto disciplinar de 1972 regulamentadas por uma lei ditatorial que permite processos de ainda em vigor, significa permitir que a USP e a sociedade para sindicâncias internos contra qualquer membro da comunidade além dos muros dela não tenham plena consciência da gravidade e do alcance das violências que marcaram a própria constituição acadêmica que se expressar politicamente. e o caráter de classe da Universidade. Sem uma transição de fato Casos de julgamentos internos em processos de sindicância con- democrática, que reveja o formato de seu corpo administrativo e tra funcionários membros do Sindicato dos Trabalhadores da burocrático, que recorde e reconheça a violência que promoveu, USP são os mais recentes episódios de punição contra o movi- a violação dos direitos humanos que encampou pelo decreto mento político interno à Universidade e de instauração de uma 52.906/1972 e pela sua própria estrutura de poder, a USP e sua política do medo. O corpo administrativo ameaça seus pares a comunidade acadêmica estará fadada a reproduzir o discurso e a serem expulsos, demitidos, entre outras punições, baseados em lógica que orientou as violências do passado. ϕ


universidade e política. 12

para um diálogo com quem só vê a

pedra no meio do caminho Inauê Taiguara Fico realmente espantado, às vezes triste, com como as pessoas se incomodam com a pedra no meio do caminho. Dedicam tanto esforço em criticar o obstáculo que sequer levantam a cabeça para ver o caminho que andam seguindo. “Tirem a pedra!”, exigem, “Queremos continuar nosso caminho”. Não aproveitam o bom da parada que é a possibilidade de pensar (pela primeira vez, na maioria dos casos) o caminho como um todo. Ao criticar unicamente a pedra no meio do caminho perde-se de vista o fato que o caminho não está totalmente feito e que muitos rumos podem ser tomados a partir do ponto em que a pedra se coloca. Como diz o poeta Antonio Machado: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.” Sabemos da celeridade e imprevisibilidade com que ocorrem os processos políticos – isso se deve a sua própria natureza e não à má-fé das pessoas politicamente engajadas. Aliás, se há má-fé de alguém na origem da atual situação de tensão entre os estudantes é a da reitoria que inviabilizou qualquer possibilidade de, dentro da normalidade, rediscutir o caminho da universidade. Constatemos mais uma vez este fato: a normalidade, na USP, é antidemocrática. Porém, ao invés de nos debruçarmos sobre as pautas (os eixos e bandeiras) da mobilização e o caminho que se anuncia através delas, algumas pessoas insistem em que nos desgastemos com a pedra no meio do velho caminho – criticam a greve, as paralisações, os cadeiraços etc. Essas pessoas pedem, sobretudo, a volta da normalidade – como se dentro dela houvesse espaço para discussão e construção efetiva de uma mobilização que façam frente ao desejo da reitoria de levar o processo eleitoral a cabo nos moldes decididos pelo CO do dia 1º de outubro. Ora, pergunto, queremos normalidade para chegar onde? Afinal, concretamente, a pedra está no meio de qual caminho? A meu ver, a pedra está no caminho da competitividade exacerbada, do interesse no lucro rápido, da mercantilização da educação que é um direito, do alinhamento da universidade a interesses partidários (do PSDB, para ser mais específico) e, sobretudo, a pedra está no caminho do autoritarismo da reitoria. A meu ver esse caminho só pode não incomodar alguém que ignore totalmente o caráter público da USP e que esteja mais preocupado com sua carreira pessoal do que em fazer a universidade cumprir a sua função social. Todavia, outro caminho se anunciou como possível. Porém, ele só pôde se anunciar através de uma mobilização que perturbou a normalidade, que na USP é antidemocrática, repito. E esse novo caminho passa necessariamente pela democratização da universidade.

Queremos normalidade para chegar onde? Concretamente, a pedra está no meio de qual caminho? Ao invés de comparar os diferentes caminhos antes de prosseguir a caminhada, algumas pessoas nos enchem de razão para temermos a parada. Arvoram-se num discurso descontextualizado e, de maneira simplista, afirmam que podemos pensar enquanto continuamos andando pelo velho caminho. “Sejamos peripatéticos”, dizem alguns. Ora, se não nos opusermos efetivamente ao processo eleitoral para reitor agora, continuaremos nossa marcha rumo a um projeto bem específico de universidade. Isso tem de ficar claro. Chamo atenção para mais um detalhe que não pode ser ignorado: a volta à normalidade nesse momento significa que a eleição para reitor ocorrerá normalmente, de modo que a chance de participação real no processo de escolha dos dirigentes da universidade (e de intervir em seus rumos) só se abrirá de novo em 2017! Sei que há pessoas extremamente bem intencionadas que acreditam ser possível voltar à normalidade e construir a mobilização. A elas eu pergunto: é possível dentro de um velho caminho criar outro efetivamente novo? Parece-me que qualquer coisa criada assim se assemelharia a um Elevado Costa e Silva. Assim, para aqueles que insistem em achar que o problema está na pedra no meio do caminho, lhes faço um convite para que questionem a si mesmos no meio de qual caminho a pedra efetivamente está, bem como sobre qual caminho elas querem seguir em seus próximos anos. Por fim, uma última provocação a quem teme os ônus da greve estudantil: ainda que percamos um semestre, se conseguirmos concretizar o processo de uma estatuinte livre e soberana na USP, poderemos assegurar que a estrutura de poder dessa ins­ tituição avance ao menos uns 40 anos. Vale a pena? ϕ


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greve e ocupação:

métodos de luta do ME Caio Sório Na quarta-feira 02 de outubro, um dia após a ocupação da reitoria e da deliberação de greve na assembleia geral , xs estudantes de Filosofia decidiram por se incorporar a esse movimento e paralisaram as suas aulas também. A partir disso, foi reacendido o velho debate acerca dessas duas metodologias de luta. Se por um lado muitas críticas tecidas à greve e à ocupação eram na verdade críticas às assembleias enquanto modelo organizativo e fórum deliberativo afinal, como elas podem elas ser legítimas se contam com um baixo percentual de estudantes participantes? -, por outro, haviam questionamentos sobre a eficácia e até sobre a “veracidade” desses métodos enquanto pertencentes ao Movimento Estudantil. O primeiro lado da moeda, as críticas às assembleias, não será um dos objetivos desse texto - mas não me nego a adiantar que, a confusão desse caso reside no fato de se usar um raciocínio baseado no conceito de representatividade para se julgar uma situação de democracia direta -, muito pelo contrário, gostaria de discorrer brevemente aqui sobre as ocupações e greves estudantis, tentando demonstrar como as críticas que são feitas a elas são fruto de uma interpretação dos fatos que ignora uma boa parte de nosso cotidiano enquanto estudantes. Geralmente as questões levantadas nesses momentos podem ser sintetizadas nas seguintes perguntas: as greves e ocupações estudantis podem realmente nos levar a vitórias? Quando fazemos greve, não somos nós xs únicxs prejudicadxs? Notase então, como a primeira pergunta refere-se à eficácia ou não do método, e a segunda ao pertencimento ou não dele à categoria estudantil. A primeira pergunta gostaria de responder com uma piada: as únicas certezas que temos quando há uma greve é que teremos piquetes e fura-greves, o resto é contingente. Pode parecer displicência de minha parte responder dessa forma, mas de fato se há algo que aprendemos desde que Rodas sentou-se na cadeira de Reitor é que tudo é possível nessa Universidade, que vitórias e derrotas tem quase a mesma chance de acontecer para ambos os lados, ou por acaso alguém previa que a justiça não concederia a reintegração de posse ao todo-poderoso Rodas? Mas é importante ainda complementar essa resposta, não só não podemos ter certeza da nossa vitória, como o sucesso de uma greve e ocupação não dependem exclusivamente da conquista de nossas reivindicações. E para melhor desenvolver esse raciocínio é necessário que a segunda pergunta seja respondida. O questionamento de se os dois métodos de luta - greve e

ocupação - pertencem ou não ao Movimento Estudantil, é normalmente baseado em algumas premissas como: o Movimento Estudantil faz uma transposição errônea da luta de classes entre trabalhadorxs e burguesia para estudantes e professorxs, nesse sentido, param de estudar como se parassem de trabalhar, mas o estudo não é trabalho e o estudo interessa mais à/ao estudante do que à/ ao professorx; a força da greve dxs trabalhadorxs reside na interrupção da produção, quando estudantes param de estudar não há efeito direto no capital e, portanto, não se estabelece uma pressão frente a ele. Antes de tudo, é preciso dizer que essa divisão é meramente um recurso metodológico e que, realmente, essas premissas são duas partes de um mesmo raciocínio, de modo que, uma invariavelmente implica na outra. Tendo isso em vista, a resposta a essas premissas deve se dar em bloco. Admito de antemão que qualquer transposição da relação de classes para relação entre estudante e professorx não é somente mecânico como simplista. Porém, acreditar que a relação estudante-professorx não é de modo algum permeada e saturada por uma relação de poder, na qual x professorx se sobrepõe à/ao estudante é não somente simplista, como evidência uma grande ignorância acerca dessa relação. Afinal, quem seria levianx a ponto de dizer que estudante e professorx estabelecem uma relação horizontal, sem nenhuma forma de dominação? Desde pequenxs somos criadxs dentro da disciplina escolar e isso não muda , apesar de diminuir em alguns casos, no ensino superior. Durante toda a nossa vida escolar somos moldadxs, podadxs por instrumentos disciplinares, como horários de aula, datas de trabalhos e provas e conteúdos estabelecidos como certos. Nesse sentido, apesar de importantes, em alguns momentos, as aulas não somente não são o único componente do estudo, como muitas vezes são um empecilho para tanto - quem nunca ficou divididx entre ler o que julga importante para sua formação pessoal e o que lhe é requisitado pelo programa do curso? Quem nunca teve de faltar à aula para terminar um trabalho, ou mesmo colocar sua leitura em dia, ou, para sermos sincerxs, para estudar? Dessa forma, quando paralisamos nossas aulas estamos muitas vezes criando novos espaços que nos possibilitem novas maneiras de pensar, novas maneiras de


universidade e política. 14 estudar e buscar o conhecimento que não sejam pautadas no nosso calendário escolar, nas datas de entregas de trabalhos e provas. Estamos assim, criando novas formas de viver o mundo e de estabelecer relações sociais que não estejam amparadas na velha forma acadêmica, na forma atual de ensino mercadoria ou na tão conhecida forma capitalista de relacionamento humano. Estamos ainda, demonstrando, ou pelo menos tentando demonstrar, que nós, estudantes, podemos tomar as rédeas do nosso cotidiano e organizá-lo, que não precisamos de professorxs e burocracias universitárias para dizer o quê, como e onde estudaremos aquilo que nos interessa e julgamos importante. Estamos abrindo, portanto, todo um leque de possibilidades que antes haviam sido tomados de nós pelas regras e regimentos institucionais. E é a ocupação o espaço onde isso pode melhor se concretizar, pois é ela tanto o local de encontro de pessoas de passados e presentes diferentes, como é nela que podemos levar ao máximo essa apropriação de nosso cotidiano, sendo que ali não somente organizamos nossos estudos, como a nossa alimentação, a limpeza de nosso espaço e tudo aquilo que está implicado em nossas vidas. Mas e aí - podem perguntar algumas pessoas - onde isso pressiona o capital? É claro que experiências como essas não exercem uma pressão contundente no sistema estabelecido, e de modo algum quero dar a entender que ameaçamos verdadeiramente o capital quando ocupamos e paralisamos nossas aulas. No entanto, não podemos ignorar também que todas as possibilidades e novidades listadas acima dão margem a um novo tipo de relação social que se contrapõe diretamente à tradicional forma capitalista das pessoas interagirem e se organizarem entre si. Quando xs estudantes se unem na ocupação e se organizam em torno dela mantendo sua limpeza, alimentando-se coletivamente, programando atividades para sua formação e entretenimento e estabelecendo fóruns comuns de discussão e deliberação, um grande passo é dado contra a divisão social do trabalho - entre manual e intelectual - e a divisão social entre mandante e mandadx. Muitas relações de poder e dominação típicas da sociedade capitalista-estatistapatriarcal são combatidas no interior dessa experiência que traz uma nova compreensão de como devemos e podemos nos organizar. E é nesse sentido que digo que o sucesso de uma greve e uma ocupação não depende exclusivamente da conquista de suas pautas. Afinal, com elas conseguimos toda uma ruptura, mesmo que momentânea, que nunca seria possível se continuássemos a ser pressionadxs por nossa instituição universitária e tudo que está implicado nela. E essa ruptura, mesmo quando nossas pautas não são atendidas e a derrota parece ser a única interpretação dos fatos, gera frutos e é grande fator de conscientização das pessoas enquanto capazes de tomar para si o seu cotidiano. ϕ

Carta dos estudantes do primeiro ano No dia 25 de setembro, uma aluna do primeiro ano do curso de Filosofia sofreu uma agressão por parte de um aluno da mesma sala onde estuda. Ele passou a ofendê-la com propostas sexuais indecentes contendo palavras extremamente ofensivas. Tendo isso sendo mais que uma “cantada”, e considerado pela polícia civil do estado de São Paulo como “importunação ofensiva ao pudor”, os demais integrantes da sala, ao saberem do fato, escreveram a seguinte carta ao departamento de filosofia, comunicando-lhe a impossibilidade de permanecer no mesmo local que o aluno em questão. Para que o acontecido possa ser divulgado com o objetivo de impedir que mais casos como esse ocorra e abrir uma reflexão sobre a violência contra a mulher, segue a publicação da carta: São Paulo, 26 de setembro de 2013 Ao Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo Nós, alunos do 1º ano do curso de Filosofia da USP, período noturno, gostaríamos de deixar registrado nosso repúdio ao fato ocorrido em sala de aula em 25 de setembro de 2013 bem como à postura demonstrada pelo aluno no momento do ocorrido e em seus desdobramentos. Como coletivo nos sentimos extremamente desconfortáveis com a presença deste aluno em sala de aula após tão evidente manifestação de comportamento machista. Após o fato do dia 25 de setembro, muitos colegas não se sentiram mais em condições de assistir às aulas e há diversos relatos de dificuldade de concentração e entendimento por parte daqueles que permaneceram em sala, uma vez instaurado um ambiente tenso e instável devido à presença do referido aluno em sala. Desta forma, informamos que durante as provas da próxima semana não permaneceremos em sala. Face à impossibilidade de deslocar uma pessoa de direito, nós nos despomos a nos deslocar como forma de manifestação palpável de nosso repúdio a sua presença. Contamos com a compreensão dos professores do departamento para garantir que possamos realizar as provas sob tais condições. Contamos com a presteza deste departamento para que os processos administrativos acadêmicos sejam encaminhados da forma mais adequada e rápida possível por temermos pela segurança de todos. Desde já agradecemos pela atenção dispensada.


movimento estudantil. 15

as assembleias estudantis são representativas? Dimitrios Valentim Muito ouvimos ou lemos: “As assembleias estudantis não são representativas”. Com isso se quer dizer, quase invariavelmente, que os estudantes mobilizados que frequentam tais foros não podem decidir pelo conjunto dos estudantes, devido ao seu pequeno contingente. Assim, as posturas assumidas de acordo com tal convicção vão da simples detração, passando ao desprezo pelo movimento estudantil e, por fim, chegando à atuação mais ou menos organizada nas próprias assembleias tendo em vista deslegitimá-las e desmobilizá-las. Já ocorreu de ouvirmos ou lermos: “minorias radicais”, “grupelhos”, “fascismo de esquerda” e daí vai. Isso quer dizer que é uma “facção” dentre os estudantes que costuma se reunir em assembleias. E, no caso da acusação de “fascismo”, tratar-se-ia de uma facção criminosa. Mas o que fazem os estudantes, afinal? Basicamente discutem, tomam decisões e mobilizam. Por exemplo, eles podem discutir assuntos burocráticos do Centro Acadêmico ou o deficit democrático da universidade; eles podem não decidir nada, como podem decidir por paralisação de sua categoria; eles podem mobilizar para uma festa ou podem fazer coisas muito sérias, como inviabilizar aulas, “invadir” prédios administrativos, no caso de terem decidido por uma greve com ocupação. De todo caso, e quase sempre incomodados pelas greves, aqueles que acusam tais pechas pressupõem uma maioria, digamos, soberana, que observa tudo do alto de seu bom senso e que, embora reprove, prefere, por praticidade, deixar que o movimento reflua e os “radicais” morram na praia. E é claro que tal maioria deveria existir, mesmo que reações indignadas em defesa, por exemplo, do direto às aulas ocorram sempre pelas manifestações de alguns poucos. Afinal, não importa que, na prática, a regularidade das aulas inviabilize a luta política na universidade. É tudo uma questão de princípios e de vontade da maioria! Há problemas... Bem, mas “o movimento estudantil deve pensar em métodos alternativos”, “é possível mobilizar e ter aula”... Sim, porque é muito comum as pessoas se preocuparem, ao mesmo tempo, com coisas como a fenomenologia transcendental de Husserl e a necessidade de uma estatuinte. Pressupondo-se que o movimento estudantil seja composto exclusivamente por estudantes que não trabalham, todos podem redigir suas dissertações e frequentar atos e assembleias “mais representativas” numa boa. Fora as atividades políticas formativas que, realizadas em tempos de normalidade acadêmica, poderiam até servir como extensão universitária. Eles, os da minoria, podem até ter alguma razão... Quem seria tolo ao ponto de discordar de coisas como democra-

tização da USP? Ora, mas são mesmo poucos os que não se deixam intimidar por algumas dúzias de estudantes extremados com alguma razão. Daí temos uma minoria, sim uma minoria, mas uma que representa uma maioria. No caso do curso de filosofia, a julgar pelas últimas assembleias desde que se deflagrou greve em 2 de outubro, essa minoria como que delegada pela maioria tem sido cada vez menor. Refiro-me, é claro, a uma minoria ainda menor que a minoria que representa a maioria em sua indignação contra a violenta passagem em salas de aula por parte dos estudantes grevistas. Era preciso que a opinião da maioria se enunciasse mesmo no território desses grupos radicais, pois é preciso esclarecê-los, não é mesmo? Uma, duas ou três pessoas militantemente e umas duas ou três que parecem apenas ter um certo prazer em ser do contra formaram uma minoria de quase meia dúzia de pessoas que diz representar a maioria do curso, sobretudo em seu questionamento quanto aos métodos de greve. Pode até fazer greve, mas cadeiraço... Aí não! Houve um dia em que, de tanto essa minoria ser a voz da maioria, apareceu em apoio uma dessas figuras muito expressivas em nossa cena pública, que já chegou até a concorrer a vereadora pelo PSDB, usando de sua popularidade por proferir discursos muito sensatos sobre os planos comunistas do Partido dos Trabalhadores. Mas ela era estudante da filosofia? O que sei é que ela, como eles, falou da violência dos estudantes, que aquilo era uma sala de aula, que depois que esse bando de fascistas apanhassem da polícia iriam chorar etc. Em suma: A turma do “sem vandalismo”, como presenciamos no último mês de junho. Mas, por ironia do destino (e não minha), essa quase meia dúzia de estudantes que diz representar a maioria do curso e que faz frente aos estudantes grevistas, como uma espécie de bancada oposicionista, a bancada da aula, procura deslegitimar as assembleias participando delas. Ironias à parte, essa “maioria” está de parabéns, afinal, participa. São poucos, mas comparecem. Porém, se é para contentar a “maioria”, a questão a respeito da legitimidade das assembleias estudantis não parece ser numérica. É no mínimo tolice se basear nos números para aferir a legitimidade de uma assembleia num curso em que ninguém vai à USP mais que três vezes por semana e no qual parte das pessoas simplesmente não se importa com as questões estudantis, não por desprezo ou por discordar das pautas e métodos, mas sim por já estarem em outra graduação, ou porque têm outras preocupações, ou, como se diz, simplesmente porque estão “em outra”.


movimento estudantil. 16 Vale lembrar também que o quórum que referendou a segunda semana de greve no curso de filosofia contou com 120 estudantes e, pelo que lembro, a votação foi de lavada. Diante da afirmação taxativa que reza “as assembleias estudantis não são representativas”, conviria, então, perguntar se em uma assembleia estudantil há algum representante eleito. Porque, de fato, e em certo sentido, uma assembleia é “representativa” quando é composta por delegados. Por exemplo, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Pretende-se que um deputado realmente represente uma parcela da população, por isso coisas como quórum e composição do colegiado são fundamentais, se se trata de uma sociedade política democrática. Mas não... De fato, uma assembleia estudantil não é representativa nesse e em qualquer outro sentido semelhante. Sua legitimidade não está na delegação e por isso mesmo não está em seu quórum ou composição. Em uma assembleia estudantil não há grupos que representam interesses; podendo, obviamente, haver grupos que atuam tendo em vista certos interesses. No caso da filosofia, aliás, é muito rara a atuação de organizações políticas. Seguindo Rousseau, eu diria que lá cada um é seu próprio partido, o que certamente contribui para que se delibere conforme a vontade do curso. E, no mais, seria por si só estúpido deliberar sobre qualquer matéria polêmica com um quórum desprezível, o que em cinco anos de graduação ainda não vi. Parece ser esta uma regra tácita. Uma assembleia assim é legitima, inicialmente, por dois motivos: nela há direito a voz e voto para todos os estudantes de filosofia interessados nas questões sobre as quais se delibera; e, além do mais, há publicidade sobre tais reuniões. Sua legitimidade não é aferida por critérios quantitativos, mas qualitativos. Óbvio, em nossa recente greve, 120 estudantes de filosofia mobilizados em uma assembleia, mais de 1000 na geral, boas notícias sobre os outros cursos, é algo muito expressivo. Não que essa gente toda tenha “representado” alguém, mas se eu fosse dizer quem “representa mais”, não seriam os pretensos representantes da maioria. Se é assim, não é possível compreender quem diz, como que a priori, que uma assembleia estudantil não é representativa e daí infere, sem mais, que ela não é democrática. Parece-me aí implicada uma noção um tanto peculiar sobre o que é ou deixa de ser uma democracia. É a visão daqueles mesmos que chamaram, nos idos da greve de 2011, estudantes grevistas e ocupantes da Administração da FFLCH de “fascistas de esquerda”. Como se fosse plausível que uma assembleia estudantil devesse representar alguém para ser democrática! A acusação de fascismo é ainda mais estapafúrdia. Sequer deve-se gastar tinta com ela, pois se trata de descarada tentativa de criminalização de movimento social. Não basta que digam que somos fascistas para que sejamos fascistas. Seria melhor que tais detratores explicassem o que é essa tal “representação”, quando o movimento estudantil existe, sobretudo, em decorrência da ação direta. Seria melhor que eles arrumassem argumentos mais claros para o que efetivamente defendem: não deveria haver movimento estudantil. Só que isso pareceria reacionário demais. Então, é melhor dissimular, confundindo a lógica da representação com a da ação. Se levássemos a sério tal

confusão, seriamos obrigados a admitir, por exemplo, que um sem-teto só agiria democraticamente caso representasse um comteto. Para que suas assembleias fossem “representativas” os semteto deveriam mobilizar os proprietários. Pois que tais detratores considerem que as assembleias estudantis não representam alguém, mas algo. A legitimidade aí decorre, por fim, de quatro fatores: publicidade, abertura aos interessados, razoabilidade dos participantes e urgência das pautas. Mesmo que fôssemos uma minoria insignificante, o que pelo menos em unidades como a FFLCH me parece pouco provável, quem pensa assim simplesmente assume que não devemos reivindicar nada por vias de fato, isso quando toda a bancada estudantil no Conselho Universitário foi excluída de uma votação sobre reformas no processo eleitoral para reitor, votação que não democratizou praticamente nada, diga-se de passagem. Somos a minoria descartável nos foros representativos da USP e deveríamos compor uma minoria, de preferência pacata, confessando seus delírios sobre democracia pelos corredores. Afinal de contas, a universidade deve ser exclusivamente para os estudantes que estudam, não para os que fazem política, não é mesmo? Deveríamos não protestar. Mas nós podemos. Aliás, por tocar no assunto da representação estudantil... É verdade que temos representantes no Conselho Universitário. Mas, neste caso, o problema é obviamente numérico. No entanto, os que questionam a legitimidade das assembleias estudantis pelo critério quantitativo são os mesmos que em hipótese algum questionam, pelo mesmo critério, a legitimidade do colegiado máximo da universidade. Em última análise, tudo se passa como se o CO se legitimasse simplesmente por estar lá. Ele está lá, ele toma as decisões e deve parecer imune à história. As assembleias estudantis é que não são legítimas por sua legalidade precária... Bem, convém lembrar que a USP sequer respeita a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) no que diz respeito a uma composição democrática de seus colegiados. Há, evidentemente, um modo muito distinto de tratar a legitimidade do instituído contra a do instituinte. É claro que o sentimento que move quem questiona a legitimidade dos foros estudantis é conservador, e ser conservador na USP, atualmente, é necessariamente ser antidemocrático, já que reivindicamos democracia. Só que ser publicamente contra isso é muito feio... Assim, acuados, os conservadores e reacionários da USP, em coro, taxam-nos com o pior dos xingamentos: o movimento estudantil da USP, por sua forma de organização, é antidemocrático! Que seja, a esta altura, só não vão nos chamar de santos. Ah, e quanto aos cadeiraços... As cadeiras dos colegiados da USP, do reitorado e seus asseclas, as cadeiras que ainda estão nas salas de aula também são um cadeiraço contra o que queremos: Democratização da USP já! Estatuinte livre e soberana! Mais representação dos estudantes e trabalhadores nos colegiados! Diretas paritárias para reitor! Abaixo ao decreto de 1972! Cotas sociais e raciais! ϕ


movimento estudantil. 17

sobre representação

no movimento estudantil Maria Rita Morita Muito tem se discutido a respeito de uma questão levantada em períodos como este, em que estudantes deflagram greve em assembléias de curso, referendando e legitimando uma deliberação do movimento geral, representado na assembléia geral de estudantes da USP. Trata-se, especificamente, da legitimidade que possui ou não uma assembléia de estudantes, um dos fóruns de decisão do movimento estudantil, de representar a opinião, vontade ou sentimento da categoria estudantil. Antes de tentar responder a esta questão, gostaria de fazer algumas distinções importantes. Em primeiro lugar, a assembléia estudantil da filosofia não é uma assembléia do Centro Acadêmico de Filosofia (CAF), tampouco uma assembléia da gestão que executa tarefas da base Esses estudantes que pensam melhor o formato de uma representação sem sequer disputar opinião nos espaços de delibe­ estudantil no CAF. A assembléia é o espaço de discussão e, ao mesmo ração e discussão (sim, questionáveis), ao lado de seus outros colegas, não estão pensando coletivamente tempo, de deliberação dos estudantes de um curso ou de uma universidade, gal e territorial onde os estudantes de determinado curso reunidos enquanto uma das categorias que compõem a comunidade acadêmica, assim como podem se sentir representados enquanto categoria estufuncionários e docentes. Trata-se, portanto, de um espa- dantil e colocar abertamente sua opinião, posicionamento ço do próprio curso, do qual aqueles que administram a político e propostas de ações que expressem sua opinião gestão de um Centro Acadêmico (como o CAF) devem se e posicionamento; nesse sentido, justamente por ser em basear para atender as demandas do curso de graduação formato de entidade e representação acadêmica e política representado pela entidade do curso. Se as demandas es- dos estudantes de um curso que um centro acadêmico age tão coladas ou descoladas de demandas do movimento de acordo com um estatuto que garante a possibilidade de estudantil para além do curso, o centro acadêmico (por espaços de discussão e de deliberação para tentar estar o ser entidade) é obrigado estatutariamente a executar. Em mais próximo possível das demandas da categoria discensegundo lugar, não importa qual seja a opinião e o posic- te, nas peculiaridades de cada um dos diferentes cursos ionamento políticos da gestão que administra um centro que compõem o projeto pedagógico e interdisciplinar de acadêmico em se tratando de uma deliberação estudantil, uma universidade. Pensando nessa lógica, se cada curso seja em reunião aberta, em plenária ou em assembléia, pois tem seu centro acadêmico, assim como nós temos o CAF, assim como todos os estudantes do curso, os estudantes há uma representação por entidade de todos esses centros que fazem parte da gestão devem disputar seu posicio- acadêmicos, que no caso da USP é o Diretório Central dos namento político nos espaços deliberativos legítimos e as Estudantes – Alexandre Vanucchi Leme, e assim se condeliberações que saem desses espaços devem ser acatadas figura estatutariamente o movimento estudantil geral pela gestão enquanto representantes legais da entidade. da USP. Tal movimento geral também dispõe de espaços Quanto à entidade, em terceiro lugar, ela é o espaço le- de discussão e deliberação gerais, tal como Conselho de


movimento estudantil. 18 Centros Acadêmicos (CCAs); assembléias gerais; reuniões ordinárias e o próprio Congresso dos Estudantes da USP (instância máxima de deliberação da nossa categoria, único espaço deliberativo que pode fazer modificações regimentais e que ocorre bienalmente). Vale lembrar que esse formato de deliberação estudantil, balizada por entidades representativas dos estudantes, configura uma conquista de uma reivindicação histórica, que remonta o período da ditadura civil-militar, de terem os estudantes (como parte de uma comunidade acadêmica) a possibilidade de pautar, opinar e também decidir os rumos da universidade que compõem junto aos funcionários e professores e que, porém, até hoje não são reconhecidas como representações da categoria nas instâncias deliberativas da administração universitária, como o Conselho Universitário e mesmo os colegiados deliberativos dos conjuntos didáticos, ou seja, as congregações (para compor esses espaços, as categorias elegem representantes, que no caso dos estudantes são os representantes discentes). Quanto ao sentimento de representação dos estudantes em relação a essas instâncias, apenas faço a ressalva de que todos os estudantes que se dispuserem a expor seu posicionamento político nesses espaços terão a possibilidade de imprimir minimamente sua posição, pois estes espaços devem garantir, enquanto mecanismo de representação, a colocação de todo e qualquer estudante que disputar opinião e posicionamento político neles; assim como nenhum desses espaços e entidades obrigam que todo e qualquer estudante se sintam representados por eles, afinal, nenhum estatuto de qualquer entidade estudantil versa sobre o sentimento individual de representação de cada um dos estudantes (ainda bem!), porém versa sobre o dever que essas entidades têm de tentar representar aqueles que se sentem representados e construir a política estudantil balizados pela opinião expressa nos mecanismos de deliberação que possuímos. Para além da exposição legalista e estatutária, há a questão de se esses espaços, de fato, congregam a opinião de todos os estudantes (ou pelo menos da maior quantidade possível de estudantes) e se as decisões tomadas neste espaço são expressão o mais direta possível destes. Quanto a isso é evidente que há problemas nesses mecanismos de representação de deliberação baseada em uma opinião de um coletivo, ainda mais de um coletivo tão numeroso tal como o dos estudantes. Mas ao enxergar esses problemas, porque não construir conjuntamente a discussão da problemática desses mecanismos ao invés de acusar a assembléia de manipulação de grupos políticos sem ter sequer ido a uma assembléia de curso? Ou ainda, se alguns estudantes pensam outras formas de representação e criticam com veemência a forma atual, por que continuam acusando o CAF de não representá-los por não se ater às formas que propõem sem levá-las a cabo? Afinal, se se decide em curso que a próxima forma de deliberação coletiva será, por exemplo, com votos em urna, quem ficará responsável por garantir materialmente que essa deliberação aconteça? A gestão do CAF? “Sim, a gestão do CAF, que manipula

as assembléias para que a forma de deliberação seja conforme suas posições políticas e tem medo da real (sic) base do curso que deliberaria perfeitamente colada à opinião da real maioria dos estudantes!”. Curioso é que sempre que se pensa o problema da representação política dos estudantes, a responsabilidade é daqueles que encampam no dia a dia a garantia da existência da entidade, jamais de quem pensa outras formas de representação sem sequer ter um mínimo de organização para que suas propostas “mais democráticas” sejam efetivadas, afinal “é o CAF que não quer”. E os outros estudantes? E aqueles que não se sentem representados? Estes estudantes que criticam a atuação da gestão do CAF como antidemocrática nunca tentaram efetuar suas propostas “mais democráticas”? No mínimo estranho... Estranho o fato de que a responsabilidade é de quem executa e não de quem não executa. Se em uma assembléia estudantil algum estudante expor que não se sente representado por aquele formato de deliberação, ele será ouvido e a assembléia não será negligente quanto ao seu posicionamento, mesmo que grande parte dos presentes no espaço seja contrária. A questão que ponho aqui não é uma tentativa de negar que de fato precisamos sempre repensar a maneira como entendemos o formato da representação da categoria estudantil, pelo contrário, que pensemos e reformulemos constantemente a maneira como deliberamos como coletivo, porém que façamos sem caráter denuncista do formato atual ao construir coletivamente uma discussão de fato, sem relegar a responsabilidade sobre as entidades, mas sobre a responsabilidade que todos os que pensam e repensam as questões políticas têm de construir junto às entidades o que elas são e podem ser. Afinal, entidade não é secretariado, é uma construção coletiva daqueles que estudam em determinado curso, construção de discussão, de política e de levantamento de problemas e soluções que perpassam toda a nossa graduação, desde os corredores do nosso próprio curso até as vivências para além dos nossos amigos locais e professores locais. Sim, temos problemas no formato de representação, e muitos; as gestões das entidades se deparam a todo momento com questões referentes à representação. Fui gestão do CAF por dois anos (2011 e 2012) e em nenhum momento de deliberação, discussão e atividades acadêmicas e políticas eu não me questionei sobre os problemas de representação política com os quais eu me deparei nesses dois anos em que fui responsável por relevar a decisão dos espaços deliberativos que o CAF é obrigado a se comprometer e garantir, enquanto entidade, porque sou estudante de filosofia e enquanto gestão, porque na época eu geria com meus colegas a entidade. Notei, também, ao longo desses dois anos que a acusação vinda daqueles que não se sentem representados nunca se mostra propositiva no sentido de construir o contrário do que acusam, mas sempre reconhece a entidade pelo seu inverso, ao afirmar que o CAF não o representa porque é


movimento estudantil. 19 culpa do CAF, nunca daquele que não move uma palha para construir uma representação mais democrática, a não ser a palhinha do discurso de acusação. Aqueles que propõem deliberação por urna não sabem o quanto é difícil numa gestão pequena de Centro Acadêmico garantir pessoas que fiquem atrás das urnas, imprimam cédulas e contem os votos. Aqueles que disputam a gestão do DCE com chapas críticas ao movimento de esquerda não sabem o que é, enquanto entidade, garantir materialmente um processo eleitoral dentro do próprio curso e pelo maior tempo possível de três dias para que o maior número de pessoas possa votar. Esse tipo de tarefa quem encampa são as entidades e, justamente por conta de um trabalho de construção cotidiana por parte e disposição de estudantes que se propõe a fazer parte de uma gestão ou são próximos da execução de tarefas de sua entidade, as entidades não podem ser comparadas em princípio com aparatos políticos. Isso não quer dizer que grupos políticos não viciem, em muitos aspectos, esses espaços de representação com seus mecanismos de deliberação. Um dos grandes questionamentos enfrentados durante os anos das minhas participações na gestão do CAF foi justamente como lidar com a necessidade de disputar o posicionamento político de deliberações em espaços em que não nos sentíamos representados em grande parte das ocorrências. Em Conselho de Centros Acadêmicos, por exemplo, levávamos divergências políticas por vezes extremamente opostas à tática de grupos partidários que estavam em gestões de um número grande de Centros Acadêmicos e, por serem em maior número, cuja correlação de forças, mesmo que representasse a posição de um grupo político partidário, vencia na deliberação do pequeno centro acadêmico da filosofia, dentre outros. Isso sem mencionar as assembléias gerais. Quanto à questão partidária, sempre se espera coerência política (de acordo com nossa própria visão – afinal, coerência política não é um universal) de organizações partidárias que disputam posição no movimento estudantil, e minha experiência de gestão não foi o suficiente para que eu entendesse o que eu pensava sobre partidos no movimento estudantil geral, pois minha vivência no CAF foi bastante marcada por sentimentos individuais e pessoais acerca da questão de não me sentir representada por espaços que eu percebia aparelhados por concepções e programas partidários. Não acredito que tenho uma opinião formada sobre isso atualmente, mas posso afirmar que tenho essa questão melhor formulada, pois um ano depois que eu oficialmente não estava mais na gestão do CAF, estouraram as manifestações de junho; vi nessas manifestações bandeiras de partidos serem violentamente coibidas por parte dos próprios manifestantes, vi bandeiras de movimentos anarquistas (e apartidários, portanto) sendo queimadas pelos próprios manifestantes que estavam ao lado, também vi bandeiras do movimento feminista e movimento negro serem rasgadas pelos manifestantes que marchavam ao lado do mesmo movimento. Concluí que se a população civil se mobilizar por não se sentir representada por nenhuma bandeira, estará sendo antidemocrática para com aqueles que se sentem representados pelas bandeiras que levantam. Se todo e qualquer cidadão tem direito a se sentir

representado por uma política, por um discurso, por um partido ou por uma entidade, então a existência de organizações partidárias ou não partidárias deve ser uma das garantias para que qualquer um se sinta representado politicamente – conquista, aliás, do período de abertura democrática pós-ditadura no Brasil, ou seja, a volta da permissão legal para que os partidos voltassem a existir, depois de duramente reprimidos e extintos nos anos de chumbo. Que bom que o movimento estudantil não reprime os partidos que o compõe! Que bom que a Constituição de 1988, que garantiu a volta de existência de partidos políticos, não foi desrespeitada pelos estudantes da USP. Que bom que estudantes filiados e não filiados a partidos podem sentir-se representados nos espaços deliberativos, ou, espaços de disputa de opiniões, posicionamentos, formulação e execução de táticas. Garantimos assim, no movimento estudantil, a possibilidade de discordar ou concordar, convencer ou não, se sentir representado ou não, se expressar ou não, disputar ou não, em todos os espaços de discussão e deliberação. Acontece que os estudantes que não se convencem, não se sentem representados e ao mesmo tempo não se expressam, não disputam, também não compartilham da possibilidade mínima de ter sua opinião representada nem pelo contrário daquilo com o qual não concorda e não foi dizer que é contra. Esses estudantes que pensam melhor o formato de uma representação democrática sem sequer disputar opinião nos espaços de deliberação e discussão ao lado de seus outros colegas, representados pelos formatos (sim, questionáveis) nos quais as entidades representam a opinião da base dos cursos, não estão pensando coletivamente. O direito individual de não se sentir representado é respeitado pela entidade que representa aqueles que se sentem, portanto, peço respeito também dos que não me representam e tampouco exigi que se sentissem representados por minhas gestões do CAF. Sou representada pela entidade do meu curso e, com posicionamento crítico, à minha entidade geral (o DCE), portanto reitero: peço respeito daqueles que não se sentem representados pelo CAF, porque a nossa entidade, ao mesmo tempo em que não tenta pegar nenhum estudante pela mãozinha e nem obriga a ninguém que se sinta representado, releva a opinião de ao menos um número mínimo de estudantes que se sentem representados por espaços de discussão que não se distinguem de espaços deliberativos, por entidades como formato de representação direta e por deliberações (ganhas ou perdidas) que puderam disputar compartilhando do mesmo espaço de estudantes com os quais discordaram politicamente. Se você tem o direito individual de ir e vir e, porque passou no vestibular, de assistir às aulas, peço que respeite o direito coletivo de lutar por aulas que garantam as condições materiais para a permanência no nosso curso, de lutar por uma universidade que garanta o direito de ir e vir no âmbito de sua comunidade acadêmica de pessoas que não passaram no vestibular como nós, de lutar para que a USP ofereça irrestritamente o que oferece para um grupo pequeno de estudantes do país que, em parte, continua lutando pelo seu direito individual de ter aula. ϕ


movimento estudantil. 20

a crítica do

movimento estudantil Matheus Ichimaru Talvez não fosse despropositado, antes de iniciar, fazer algumas considerações a respeito do intuito desse texto. Ele é, ou se pretende – tanto quanto possível –, uma tentativa de reflexão a mais lúcida e honesta possível – melhor seria dizer “a mais lúcida porque honesta” – a respeito do movimento estudantil ele próprio. Seu propósito não é, como se poderia a princípio pensar – induzido pela conotação vulgar que a palavra “crítica” assumiu nos dias de hoje –, uma tentativa de desmoralizar ou de enfraquecer nem o movimento estudantil nem a sua luta específica de agora, travada contra uma estrutura de poder autoritária – que tem na figura do reitor João Grandino Rodas seu máximo expoente – e com vistas a transformá-la por meio de um processo de democratização. A crítica deve ser entendida aqui como um exercício de reflexão que coloca o próprio movimento estudantil no foco de uma análise minuciosa; que faz dele seu objeto de estudo e que tenta compreendêlo no interior de suas contradições, de suas deficiências e fragilidades sem negligenciá-las ou atenuá-las estrategicamente. A expectativa é que daí surja uma imagem, fiel à realidade, que nos auxilie no processo de construção de uma luta coletiva mais sólida e bem estruturada. É, portanto, uma tentativa de agregar; de enriquecer; de fortalecer; de ampliar tanto o domínio da própria luta quanto o número de frentes onde ela se trava. No plano da ação grandes esforços têm sido já há algum tempo envidados; é hora, penso eu, de concentrarmos um pouco mais de energia no plano da reflexão teórica e ver se não transborda daí um caldo nutritivo capaz de complementar e de melhor ordenar o impulso surgido na angústia, no mal-estar, na revolta e no inconformismo diante do absurdo – eternos motores da ação política. Em primeiro lugar seria importante sublinhar a forte identificação que tenho com o histórico de reivindicações do movimento estudantil e ressaltar, portanto, o caráter legítimo tanto de sua indignação quanto de suas lutas. O que quero fundamentalmente dizer é que os motivos das sucessivas revoltas dos estudantes me parecem quase sempre justíssimos e apenas alguém muito pouco razoável, ou mal intencionado, poderia considerá-los absurdos e, portanto, ilegítimas suas insatisfações: os decretos de José Serra em 2007 ferindo a autonomia universitária; a presença estrategicamente cavada da Polícia Militar no campus em 2011 como forma de demonstração de força por parte do governo estadual; a perseguição política aos estudantes

e funcionários respaldada por um Regimento Disciplinar que é uma verdadeira excrescência da época da ditadura militar; e agora a questão da falta de democracia na forma com que a reitoria conduz as discussões universitárias, ignorando completamente os anseios e preocupações de boa parte de todos os três setores e fechando-se sobre si mesma como se aquilo que está sob sua administração fosse um Império e nós todos seus súditos, emancipandose e desenraizando-se, assim, do corpo coletivo que lhe deu origem e transformando-se numa espécie de poder transcendente que agora, já livre das amarras que outrora a prendiam à coletividade, torna-se a ela inalcançável e acaba por suprimi-la e esmagá-la – é disso que estamos falando quando invocamos a palavra “democratização” para dentro dos muros dessa universidade. Mas se os motivos de indignação do movimento estudantil são justíssimos e revestem, dessa forma, suas reivindicações com o verniz da legitimidade, como é possível que ele até hoje não tenha conseguido vitórias substanciais? Mais do que isso: como é possível que ele consiga sempre perder a confiança da opinião pública e, ao invés de agregála como potencial aliado para pressionar tanto reitor e reitoria quanto seu norte ideológico – o governo psdbista do Estado de São Paulo –, dela apartar-se de maneira tão antipática e odiosa? É, afinal, o restante de nossa população um completo oceano de conservadorismo e alienação, absolutamente insensível aos clamores estudantis de preservação da autonomia universitária e, portanto, imobilizável a nosso favor? Ou então é a imprensa assim tão poderosa e mal intencionada que consegue, sistematicamente alinhada aos interesses do Governo do Estado, manipular o restante da opinião pública e manobrá-la para sempre opô-lo às lutas estudantis? Não somos ingênuos, e já não mais mesmo o poderíamos ser. É evidente que, em alguma medida, a resposta a esses questionamentos é “sim”. Mas não haveria ainda outro fator, interior ao próprio movimento estudantil, e que seria o responsável por fazê-lo patinar e derrapar no afã de atingir seus objetivos? Não haveria outros problemas, de natureza diversa dos já apontados, que fariam com que o movimento estudantil, por assim dizer, tropeçasse nos próprios pés? Minha meta a partir de agora é investigar a fundo a trilha aberta por essa pista para depois, num terceiro momento, já em posse do material daí extraído, cotejá-lo com aquilo que já nos é bem sabido e reavaliar com base nessa nova imagem tanto o movimen-


movimento estudantil. 21 to estudantil como um todo quanto suas perspectivas de ação a curto e médio prazo. Esses serão os assuntos das próximas seções. Gargalos do movimento estudantil Ao refletirmos a respeito do movimento estudantil, sua composição e perspectivas de ação, podemos elencar logo de cara alguns fatores que atuam como gargalos no seu processo de maturação e desenvolvimento. Esses gargalos poderíamos mesmo chamá-los de naturais – porque partem da própria natureza do movimento estudantil –, e podem ser, a meu ver, bem resumidos nos seguintes itens:

camente exclusiva à vida acadêmica. Isso faz com que se cave um fosso entre vida acadêmica e participação na vida política da universidade, sobretudo nos cursos que pela natureza mesma dos conteúdos abordados passam mais ao largo das preocupações sociais, políticas e econômicas e não possuem como objeto de estudo algo que esteja a elas diretamente relacionado. Todo esse cenário apresentado faz com que surja, a meu ver, uma série de forças impeditivas que, naturalmente, vão desencorajando o estudante a tomar parte tanto do movimento estudantil quanto da vida política mais ampla da própria universidade;

III - Média de idade relativamente baixa: eu sei que esse é um dos pontos mais delicados a se apresentar, pois poderia endossar, se indevidamente I - Período de permanência na enviesado, um discurso canaluniversidade relativamente ha de desmoralização das ações curto: diferentemente de um estudantis como, por e­xe­m­­plo, partido político, de um sindiaquele apresentado por alguns cato ou mesmo de movimenmembros do CO (Conselho tos sociais de outra natureza, Universitário) que, segundo o movimento estudantil posrelatos, com o dedo em riste e sui a particularidade de ser transbordando autoritarismo constituído por um corpo que e prepotência “tratoraram” as está em constante reformulareivindicações dos representção. Em 4 ou 5 anos a maior antes discentes na última reparte dos estudantes se forma, união do conselho, de 1º de outalguns trancam o curso, viaubro, aos gritos de “moleque” e jam, outros pedem transferênoutros xingamentos desse jaez. cia ou há mesmo aqueles que Entretanto, como o intuito dessimplesmente evadem. Por sa reflexão é ser o mais honesto conta dessa dinâmica e, porpossível e não fazer nenhum tanto, do tempo de permanêntipo de concessão negligente ou cia relativamente curto na estratégica, devemos nos lançar universidade por ela proporsem desvios em direção à concionado, surge uma dificultradição e tomá-la mesmo em dade de planejar e de executar sua integralidade, aceitando-a ações em longo prazo e de como algo consolidado para dar continuidade àquelas já em curso, decorrendo daí um A causa efetiva da corrupção do movimento depois, aos poucos, ir buscancerto grau de imediatismo e estudantil é a inobservância ao interesse co- do seus nós e puxando os fios capazes de desatá-los. Por essa de contingência no plano das mum – e o interesse comum aqui deve ser torazão reitero: não posso deixar ações que, a meu ver, não mado obrigatoriamente como valor republicano de ver a baixa média de idade pode deixar de ser visto como como um gargalo para o movium gargalo do próprio movimento estudantil – muito embora ela seja a um só tempo, e mento estudantil; talvez pelas mesmas razões, um de seus trunfos, como irei II - Cursos extremamente difíceis e exigentes: a Universi- ressaltar adiante. A pouca idade dos estudantes – a maiodade de São Paulo é a maior universidade do país e aquela ria encontra-se na casa de seus vinte e poucos anos – imque goza de maior prestígio no que diz respeito à excelên- plica uma curta experiência de vida; implica também uma cia de seus cursos. Decorre daí que o grau de dificuldade curta bagagem intelectual, por mais extensa que ela seja e de dedicação exigidos para cursá-los é bastante grande. para sua idade; implica ainda um raso conhecimento do Isso consome não apenas tempo mas também disposição funcionamento da universidade em seus bastidores e em psíquica, física e emocional. Não são raros os casos que seus mais profundos detalhes. Isso é incontornável. Além conheço de colegas – eu mesmo me incluo na estatística – disso, não me parece desarrazoado afirmar que a juvenque em algum momento de seu curso se viram isolados de tude não é o momento da vida em que a razão encontra-se uma série de outras atividades, estranhas ao andamento mais bem assentada no espírito humano; ao contrário, pado curso, pela necessidade de se dedicar de maneira prati- rece ser o momento em que as paixões dominam; os son-


movimento estudantil. 22 hos imperam; o ímpeto de agir se sobrepõe à prudência de refletir. E isso tudo, somado ao que foi anteriormente afirmado, me parece contribuir para afastar, às vezes, as decisões do movimento estudantil do caminho do bom senso. Mas é preciso que eu faça agora uma defesa imediata dessa crítica: isso não quer dizer, em absoluto, que por conta disso o movimento perca sua legitimidade ou que não seja capaz mesmo de fazer uma leitura bastante apurada das situações em jogo e de formular questões e propor soluções absolutamente pertinentes aos problemas apontados; de forma alguma. Isso quer tão somente dizer que para isso ele terá de enfrentar essas dificuldades que lhe são inerentes e superá-las; e isso inevitavelmente. Por fim, resta ainda dizer que essa juventude do movimento estudantil e as características que a pouca idade lhe confere se são por um lado, como já argumentado, uma espécie de impeditivo a ser superado, são por outro lado uma espécie de pedal que o impulsiona – mesmo que às vezes de uma maneira vacilante e um pouco errática – a agir e a romper a inércia congelante que vemos em muitos casos engessar alguns setores da sociedade que se mostram absolutamente impassíveis diante de um cenário absurdo de completa injustiça e de violação do estado democrático de direito. Desse mal, é importante ressaltar, o movimento estudantil não sofre e jamais, penso eu, virá a sofrer. IV - Influência do tempo presente: por último, mas não menos importante, devo ressaltar o contexto econômico, social e político que vivemos atualmente e que é o responsável, em larga escala, por balizar as ações e comportamentos das pessoas. Vivemos uma realidade, ao menos em nossas democracias – entre muitas aspas, é claro – liberais do ocidente, na qual o discurso e a ideologia neoliberal há muitas décadas predomina e vem moldando, desde então, as relações interpessoais tanto no âmbito público quanto no âmbito privado. Essa corrente de pensamento – somada a uma série de outros fatores –, se não foi a responsável pela gênese, certamente contribuiu de maneira decisiva para agravar o processo de individuação no seio da sociedade – não seria mesmo exagero, penso eu, dizer “processo de fragmentação” ou mesmo de “dissolução da sociedade” –, a tal ponto de transfigurá-la numa espécie de arquipélago de autocratazinhos, sujeitos atomizados, circundados por um conjunto de liberdades individuais e completamente apartados – por que não dizer protegidos? – do corpo coletivo; algo muito próximo do ideal thatcheriano de sociedade. Todas essas mudanças, penso eu, foram responsáveis por engendrar um comportamento de extremo individualismo – não seria exagero também dizer egoísmo, no sentido mais pernicioso da palavra –, apatia e alienação, que, por sua vez, faz com que funcionemos muito mal, ou mesmo não funcionemos, do ponto de vista coletivo. Isso fica patente a mim quando participamos de uma assembleia ou mesmo em menor escala de uma simples reunião de condomínio. É impressionante notar o quanto nos tornamos surdos, míopes, pouco razoáveis, irritadiços, chiliquentos e opacos ao diálogo; o

que antes era divergência torna-se ofensa; o que antes era argumento torna-se injúria; o que antes era ponderação torna-se ataque; e o que antes era debate torna-se, enfim, um grande e fastidioso cabo-de-guerra. Meu ponto, para encerrar esse item, é que, em alguma medida, tudo isso ecoa, ou é refletido, no interior do movimento estudantil também. Aparelhamento do movimento estudantil Todos os pontos elencados na seção precedente em alguma medida transcendem o alcance do próprio movimento estudantil. Quero dizer com isso que muito dificilmente uma ação sua sobre si mesmo poderia dar conta de saná-los completamente, uma vez que a raiz do problema encontra-se alhures e é a partir mesmo desse dado que a transcendência se efetiva. É bem verdade que poderíamos adotar resoluções concretas que visassem de certa forma atenuar os efeitos prejudiciais que tais gargalos desempenham no movimento estudantil, mas de uma maneira geral acredito se tratar de problemas que, embora tenhamos o dever de reconhecer, não podemos resolver integralmente, e nos restaria, portanto, aprender a com eles conviver adotando aqui e acolá estratégias para contorná-los de maneira pontual. Entretanto, um último gargalo faltou ainda ser citado e o cito agora, apartado dos demais, justamente por acreditar que deles se diferencia de maneira essencial, pois, diferentemente dos outros, não o considero, em absoluto, natural – e naturalizá-lo, como pretendo mostrar, seria mesmo um erro de graves consequências. Sem mais rodeios é preciso admitir que o movimento estudantil encontra-se atualmente, e já há um bom tempo, aparelhado. O que isso quer dizer? O aparelhamento, no jargão da política, diz respeito à utilização – na maior parte dos casos indevida – de uma instituição – na maior parte dos casos pública – por parte de um grupo com interesses corporativos ou partidários, de tal modo a colocála a serviço desses seus interesses mediante a ocupação de posições estratégicas dentro deles. A partir de quais dados podemos, então, afirmar que o movimento estudantil encontra-se aparelhado? Bom, se uma simples ida a uma assembleia geral não for suficiente para convencê-lo, devemos atentar para o fato de que as eleições para o DCE (Diretório Central dos Estudantes) – órgão maior de organização estudantil – são explícita e sabidamente dominadas por partidos políticos – PSOL, PSTU, PCO, LER-QI etc. e mais recentemente PSDB, embora a chapa Reação insista em se dizer “apartidária”. Isso não é de modo algum natural e se nos colocarmos as questões adequadas, me parece, começam a aparecer os motivos pelos quais o aparelhamento se dá, ou mesmo as evidências que me levam a crer que ele de fato existe. Em primeiro lugar é preciso entender que a Universidade de São Paulo, pelo seu tamanho e por sua importância, ocupa uma posição de destaque dentro de um cenário


movimento estudantil. 23 político mais amplo, seja nas esferas municipal e estadual ou até mesmo em âmbito federal. Logo, os acontecimentos ocorridos no interior de seus muros têm relevância política e chamam a atenção da opinião pública da cidade, do estado e da nação. Não é difícil enxergar a partir daí que aos olhos de partidos políticos e de movimentos sociais – sobretudo daqueles que não têm grande expressividade em âmbito nacional – a USP surja como uma grande oportunidade de efetivação de suas lutas; de ramificação de suas bases de atuação; e de ampliação de suas frentes de batalha. Nesse contexto, sobretudo àqueles que já têm uma certa vivência dentro da universidade, fica fácil compreender as paralisações sintomáticas que observamos, por exemplo, em anos eleitorais. É evidente que para a situação não é nada agradável entrar em uma disputa eleitoral com a maior universidade do país, sob sua jurisdição, paralisada e em efervescência. Logo, para a oposição, a inserção de suas pautas na agenda universitária, seja por meio do movimento estudantil, seja por meio do SINTUSP (Sindicato dos Trabalhadores da USP) ou mesmo da ADUSP (Associação dos Docentes da USP), torna-se inegavelmente uma ferramenta de luta política bastante valiosa. No meu entendimento não parece nada absurdo raciocinar acerca dos acontecimentos políticos na Universidade de São Paulo por meio dessa chave partidária. Por meio dela, como já dito, o aparelhamento se explica como tentativa da oposição – ou parte dela – de transferir para dentro dos muros da universidade suas lutas partidárias mais amplas; por meio dela se explica também a intransigência com que a Reitoria – mero “departamento ultramarino” do governo do Estado – trata as reivindicações estudantis, pois, afinal, sabe desse aparelhamento e reconhece ali não um coletivo de estudantes, mas um adversário eleitoral; por meio dela se explicam ainda muitos outros fatos, como, por exemplo, a enfiada oportunista da Polícia Militar para dentro do campus do Butantã como tática política; a escolha do ex-governador José Serra por João Grandino Rodas, o segundo nome mais votado da lista tríplice de 2009, em contrariedade a uma tradição vigente de longa data e que havia sido respeitada mesmo em anos de ditadura militar; e, por fim, o surgimento e relativo fortalecimento de uma corrente psdbista dentro do próprio movimento estudantil, historicamente tão marcado por uma certa hegemonia da esquerda, como tentativa de recuperação de terreno por parte da situação. Já não somos ingênuos, sabemos que há nos três setores da universidade uma considerável inserção de partidos políticos nas suas principais instâncias deliberativas; não sejamos agora cínicos ou inconsequentes e assumamos, pois, que essa considerável inserção partidária efetivamente se desdobra em algum grau de aparelhamento. Devo dizer agora que o aparelhamento não constitui apenas um problema logístico-operacional, no sentido de que, enquanto gargalo do movimento estudantil, ele atua como um impeditivo para que este alcance suas metas. No meu entendimento precisamos cavar um pouco mais fundo

nessa reflexão e admitir que o aparelhamento é também um problema ético-moral, porquanto viola os valores republicanos mais fundamentais da política e mesmo corrompe os organismos e instituições nos quais se instala – “corrupção” aqui não apenas no tosco sentido de hoje em dia de desvio de verba, de pagamento de propina etc; mas naquele sentido maquiaveliano de corruzione, de desacordo entre a forma e a matéria de um estado que acaba por engendrar o mau funcionamento da máquina pública. O aparelhamento do movimento estudantil é um problema a priori, isto é, independente de seus efeitos, pois ele é desnaturação; ele desnatura o movimento estudantil, isto é, faz com que perca sua natureza primeira, e isso por si só, não posso pensar de outra forma, é necessariamente um problema. Uma assembleia de estudantes deveria ser um local onde os estudantes se reúnem para coletivamente discutir as questões da universidade e deliberar a respeito de possíveis soluções para elas; não um local onde grupos pré-organizados, sabidamente comprometidos com uma agenda externa – ainda que ela seja legítima e relevante –, que nunca passou pelos olhos dos demais estudantes e que em vários pontos sequer toca as questões universitárias, se digladiam para obter o controle do movimento e por meio dele, nele inserindo suas pautas, perseguir seus objetivos particulares. Isso corrompe o movimento estudantil; isso cinde o corpo dos estudantes. Para terminar esse tópico: o aparelhamento do movimento estudantil é corrupção; e se isso for bem compreendido, então meu objetivo nessa seção terá sido alcançado. Crítica da crítica: o perigo de uma caça às bruxas Sem perder de vista o exposto precedente é importante agora, antecipando já o contra-movimento dialético intrínseco a esse tipo de debate, pôr a nu aquela que poderia ser a extrapolação mais indevida da problematização acima apresentada. Um dos grandes perigos que corremos ao refletir sobre o que foi dito é o de concluir sumariamente que os estudantes filiados a partidos políticos, coletivos e outros movimentos sociais, externos e desvinculados formalmente da universidade, são a moléstia do movimento estudantil e que devem, portanto, para o bem do próprio movimento estudantil, ser combatidos e afastados da vida política da universidade. Eu sei que essa é uma conclusão bastante ignóbil e intolerante, e duvido que – rezo para que não! – a maior parte dos meus colegas incorresse em tamanho erro de ilação. Entretanto, como já salientado, não estamos mais em condição de sermos ingênuos ou levianos, e sabemos também da presença de ideologias bastante atrapalhadas dentro do próprio movimento estudantil, como, por exemplo, a UCC (União Conservadora Cristã) e a chapa Reação (que, aliás, não entendo até hoje se o intuito era mesmo fazer um chiste ou se não enxergam de fato que esse nome é uma piada pronta), e que poderiam, sabe Deus lá de que maneira, se aproveitar desse caldo de antipatia para protagonizar algo parecido com o que presenciamos nas manifestações de junho e julho, sobre-


movimento estudantil. 24 tudo em São Paulo, quando militantes de partidos nanicos de esquerda e até do partido dos trabalhadores foram hostilizados e expulsos das manifestações de rua numa das mais bizarras demonstrações de autoritarismo e protofascismo de que tive notícia nos últimos tempos. Logo, é preciso de imediato fazer essa distinção: a corrupção do movimento estudantil via aparelhamento partidário não é necessariamente um ato de má-fé; ela pode vir a ser e de fato temos, às vezes, indícios que nos levam mesmo a crer que dessa forma ela se consolida. Mas de uma maneira geral precisamos começar a enxergar a inserção de militantes de partidos políticos no movimento estudantil de uma maneira não demonizada sem perder com isso o teor crítico que uma reflexão lúcida e imparcial a respeito desse assunto imprime no debate.

neira mais geral, a inobservância aos valores republicanos; e desse assunto falarei mais longamente na seção a seguir.

Mas como conciliar agora essa postura não demonizante com a afirmação que fiz logo acima, quando disse que era preciso considerar o aparelhamento partidário para além de uma mera questão logístico-operacional e inseri-la no plano da ética e da moralidade? Como isso se torna possível se a princípio admitimos que a corrupção não se dá necessariamente por ato de má-fé? Bom, não é necessário que se tenha em mente ser mau para agir de maneira perniciosa. É evidente que aqui a questão começa a se tornar bastante sutil e caminhar para o campo de uma certa subjetividade, o que desencorajaria os mais céticos e os mais objetivos a seguir considerando a discussão pertinente ou mesmo interessante. Mas é positivo que isso ocorra, eu devo dizer. É bom sinal que a investigação teórica tenha adentrado um terreno de incertezas e de vicissitudes, porque é exatamente assim que a realidade parece se apresentar. Se a partir de uma realidade vertiginosamente contraditória e repleta de arestas empreendemos uma reflexão que busca explicá-la em sua integralidade, e no decorrer dessa reflexão nos vemos atolados até o joelho em terreno igualmente contraditório e repleto de arestas, é sinal de que talvez tenhamos finalmente atingido seus fundamentos. A distinção que estou tentando empreender é, em suma, aquela existente entre três tipos diferentes de análise que, na falta de melhor denominação, chamaria de: a negligente, a demonizante e a lúcida. Uma análise negligente e irresponsável é, a meu ver, aquela que não reconhece o aparelhamento do movimento estudantil e muito menos que ele é corrupção; uma análise demonizante é aquela que reconhece o aparelhamento mas lhe atribui como causa uma perniciosidade desnecessária – que mais a frente irá conduzir à famigerada caça às bruxas; uma análise que tendo a ver como mais lúcida e equilibrada é, por fim, aquela que reconhece o aparelhamento como corrupção mas lhe atribui como causa outra coisa que não a simples má-fé. E qual seria então a causa efetiva desse aparelhamento involuntário por assim dizer? Tendo a pensar, e cada vez mais, que sua causa – assim como a causa de uma série de outras corrupções na política contemporânea – é a inobservância ao interesse comum, ou de uma ma-

Em primeiro lugar preciso salientar que ela se inscreve na trilha aberta por alguns autores, como, por exemplo, Hannah Arendt e Claude Lefort – os cito não como argumento de autoridade, mas apenas para maior esclarecimento do leitor –, que diante de um certo esgotamento conceitual causado pelo embate de ideias liberais e marxistas no debate político contemporâneo, e tentando superá-lo, foram buscar na tradição de pensamento republicano elementos capazes de auxiliar e mesmo de ressignificar todo um conjunto de questões e de problemáticas nas quais o pensamento político atual encontrava-se – e ainda se encontra, em certa medida – emperrado. Na esteira desse movimento, portanto, o qual considero extremamente promissor e fecundo, penso agora em estendê-lo à discussão do movimento estudantil, ou contrariamente, em trazer o próprio movimento estudantil, microcosmo particular de um universo político mais amplo, para debaixo das lentes dessa análise.

Possível solução: resgate dos valores republicanos? Essa é a parte do texto em que a crítica começa a sair de cena e passa a dar lugar a uma reflexão mais especulativa e propositiva – muito de acordo, aliás, com o papel que se espera de uma crítica, que é o de analisar minuciosamente um objeto de estudo para que em seguida essa análise sirva de solo para a edificação de uma síntese. Entretanto, essa reflexão especulativa e propositiva se pretende bastante breve e inicial. Quero apenas desenvolver um pouco mais a ideia apontada ao fim da seção precedente e ver aonde ela pode nos conduzir.

O plano é simples e sua execução quase imediata: a crítica até aqui empreendida buscou indicar problemas relacionados à constituição e funcionamento do movimento estudantil; em seguida, localizando aquele que considerou o mais grave dentre eles e procedendo a seguir as distinções que julgou necessárias, procurou cavar mais fundo até atingir seus fundamentos. Essa busca termina, no meu entendimento, ao se responder à seguinte questão: qual é, afinal, a causa da corrupção do movimento estudantil? A resposta, como já apontado, e escapando ao senso comum, me parece ser a seguinte: a causa efetiva da corrupção do movimento estudantil é a persecução individual ou partidária de interesses particulares. E qual é a causa, por fim, dessa causa intermediária? Reitero: a inobservância ao interesse comum – e o interesse comum aqui deve ser tomado obrigatoriamente como valor republicano, o que acaba por inscrever essa reflexão na trilha indicada acima. Cumpriria agora, coisa que não farei de modo algum porque tanto escapa à minha competência como foge ao próprio escopo desse texto, conceituar profunda e detal-


movimento estudantil. 25 hadamente o que vem a ser o interesse comum. Apesar de declinar dessa tarefa, pelas óbvias razões já apresentadas, devo dizer que, na falta de algo melhor e para os propósitos restritos desse texto, o interesse comum pode ser compreendido como aquele interesse que persiste no espírito humano ao se meditar sobre determinadas questões guiado somente pela razão e no silêncio das paixões. Sei dos perigos em que incorro ao propor tal conceituação; sei do perigo que existe ao se invocar palavras como “espírito humano” e “paixões” no debate político contemporâneo, tão marcado – por que não dizer empobrecido – pelo positivismo jurídico; sei do perigo que há por detrás do apelo à razão – a pressuposição de uma razão universal e coisas do tipo. Sei de todos esses inconvenientes; não os ignoro. Entretanto, acredito que pensando o interesse comum como alguma coisa desse tipo – ou ao menos assim o colocando como norte da reflexão e postergando a discussão espinhosa a respeito da possibilidade mesma de sua existência e toda a masturbação intelectual que ela traz como ônus para um outro momento – ele vem a se amalgamar muito adequadamente às necessidades práticas implicadas no problema que o invocou. Quero dizer com isso que eu realmente acredito que tanto melhor seria o debate e a organização do movimento estudantil e tanto mais ele se afastaria do aparelhamento ou de qualquer outra forma de corrupção, quanto mais as pessoas atentassem para isso que chamei de interesse comum. O silenciamento das paixões seria o responsável por tirar de cena interesses particulares que distraem o corpo coletivo em sua busca pelo bem comum; a meditação racional seria a responsável por conduzir as pessoas àquilo que persiste a esse silenciamento – o que alguns chamariam de “o bom”, “o justo” e que eu chamei de “interesse comum”. Muito abstrato? Difícil de entender? Vamos tomar um exemplo concreto: em assembleia alguém propõe que determinadas questões, mais controversas e cruciais para os rumos do movimento – como, por exemplo, a deliberação por greve ou não –, sejam votadas em urna e em período extraordinário no decorrer de alguns dias subsequentes à reunião. O interesse é que com isso a vontade de um maior número de estudantes seja contemplada e que, portanto, as decisões tomadas em assembleia sejam mais representativas em relação ao todo dos estudantes. Qual não é nesse caso uma atitude republicana – e não o é justamente porque ignora o interesse comum? Antever que uma proposta como essa, se aprovada, põe em risco a realização da própria greve – uma vez que a probabilidade de que o grosso da população estudantil se oponha à greve é relativamente alta – e em decorrência disso manobrar a votação ou mesmo tratorar a discussão para que ela não ocorra – pela última vez, não somos mais ingênuos, sabemos que isso acontece. Veja que aqui tais pessoas ainda podem estar sendo movidas por boas intenções, porque elas podem de fato acreditar – como eu, por exemplo, acredito – que a greve é necessária como instrumento de luta contra

uma reitoria e contra um governo do estado opressores etc., etc., etc. Mas veja também que esse interesse agora se converte em interesse particular, ainda que se possa argumentar que ele está direcionado ao bem comum. Qual seria então uma atitude dita republicana – e o é agora justamente porque atenta para o interesse comum? Apesar de reconhecer que com isso a concretização da greve possa ser colocada em risco – e de enfiada a luta legítima e necessária contra a reitoria e o governo do estado –, silenciar essa paixões e admitir que não há nenhuma razão – se houver, que ela seja colocada – para se impedir que essa proposta seja ao menos votada pelo plenário. No primeiro caso, quando não se atenta para os valores republicanos, temos a corrupção da instituição em questão; no segundo, sua preservação e fortalecimento. O contra-argumento mais óbvio e imediato nesse caso seria o seguinte: mas então você está sugerindo que em situações como essa a coisa certa a fazer seria aquela que põe em risco a concretização de uma luta tanto legítima quanto necessária? Sim, é precisamente isso que estou querendo dizer. Ainda que se tenha plena convicção de que em dada situação determinada resolução seja a mais acertada a se tomar, e ainda que se seja movido a isso pela melhor das intenções, a persecução desse fim não pode se dar de maneira inadvertida; não pode violar esses princípios republicanos que considero fundamentais. E por que não? Bom, se essa questão me for seriamente colocada, apesar de muito tentado a recorrer à célebre frase de Brecht – “Que tempos são esses em que é necessário defender o óbvio?” –, acredito que meu argumento caminharia algo em direção à máxima ciceroniana de que nada existe de útil que possa ser contrário ao honesto; e terminaríamos, assim, por perfazer o caminho que conecta o campo da política com o da ética e da moralidade. Bom, é mais ou menos assim que enxergo a questão... “Quanto à causa que a maioria apoia e me parece justa, aplaudo-a com moderação. Ela não me apaixona. Não lhe hipoteco toda a minha razão e a minha alma. A cólera e o ódio nada têm a ver com a justiça; são paixões a que somente podem entregar-se aqueles que não sabem obedecer serenamente à razão e ao dever, porque “só quem não domina sua razão se abandona aos impulsos desordenanos da alma”. Todas as intenções legítimas e justas são por si mesmas aceitáveis e moderadas, sem o que se tornariam subversivas e ilegítimas. Por isso ando por toda parte de cabeça erguida, rosto e coração abertos. E, em verdade – não temo confessá-lo – em caso de necessidade acenderei de bom grado, como a velhinha do ditado, uma vela a S. Miguel e outra ao dragão. E seguirei o partido do direito até a fogueira exclusive.” MICHEL DE MONTAIGNE, Ensaios III.I

ϕ


quadrinhos. 26

Desenhos e roteiro: Thiago Fonseca


quadrinhos. 27

Leia o Epis贸dio I - http://bit.ly/classwars1 - e o epis贸dio II - http://bit.ly/classwars2


movimentos sociais. 28

por que o

black bloc é como é? Orlando Pimentel

texto originalmente escrito para o blog http://anarquia-itupevense.blogspot.com.br em 25/5/2011 Poucos leitores talvez tenham presenciado ou participado de uma passeata ou manifestação, revindicando uma pauta de interesse público. No nosso país e no mundo, manifestações ocorrem diariamente se opondo as opressões sofridas, de diversas formas, cujos alvos são trabalhadores, campesinos, jovens, negros, homosexuais, enfim, pessoas submetidas as estruturas densas de poder econômico-político que transformam a vida de todos nós a todo momento, por vezes sem percebermos. Não obstante a diversidade de manifestações pelo mundo a fora, muitas pessoas, historicamente falando, debruçaram-se sobre essa diversidade de atos, tentando enxergar alguma relação que pudesse explicar por que, há tanto tempo, as manifestações públicas e legítimas de pessoas que se sentiam oprimididas pelo sistema dominante quase sempre tinham como resposta não a obtenção dos direitos requeridos, mas sim o gesto repressivo do Estado e da polícia... que só saberia dialogar através de bombas de gás lacrimogêneo e carícias de cassetete. Uma das formas de luta nascidas dessas reflexões sobre o enfrentamento entre a sociedade em manifestação e o aparato estatal foi o Black Bloc (Bloco Negro). Geralmente, associada aos movimentos anarquista e autonomista da década de 80 em diante, ela se caracteriza por uma forma típica de atuação em manifestações coletivas públicas. Nas passeatas e nas ruas, o B.Bloc, a olhos avessos a reflexão, pode parecer apenas como mais um bando de baderneiros. Infelizmente, a visão mais geral de qualquer manifestação pública é essa: “são todos um bando de baderneiros”, parafraseando um não-colega de profissão. Mas essa classificação só ocorre pois as manifestações e passeatas de estudantes, jovens e trabalhadores, em geral, trazem mensagens concorrentes àquelas alardeadas pela grande mídia e acabam, assim, questionando, ainda que pouco, o próprio poder dos grandes meios de comunicação em comunicar e mais ainda em identificar problemas de fato preocupantes para sociedade. Apesar da mídia possuir a função de disseminar ideias, ela também as filtra, seleciona e pode também, com seu poder de capitação de imagens, registrar determinadas cenas ou não, torná-las públicas ou não. Imaginemos, por exemplo, uma manifestação reivindicando determinada demanda estudantil, que tenha a presença ilustre de repórteres de TV, e a presença ilustre, mas não convidada da polícia... Pois bem, em tempos de acirramento dos conflitos, como houve muitos em nossa história, os meios de comunicação de massa e o aparato repressor de ideias e atos agiram conjuntamente: os registros das cenas, que eram monopolizadas apenas pelos grandes meios de comunicação, jornais, e TV, serviam para identificar pessoas que estavam envolvidas com o movimento. O período da ditadura militar, em diversos países e aqui

no Brasil, possui muitos exemplos dessa “associação”. Partindo da análise de situações históricas, como essa, o movimento Black Bloc encontrou algumas possíveis formas de resistir a essa grande barreira que é o poder de identificar e punir exemplarmente pessoas que participam de manifestações públicas legítimas, adotando um modo e um objetivo, um meio e um fim: tanto para defender o direito que a passeata reivindica quanto para defender o direito ao ato em si. O objetivo dos Black Blocs é deixar claro que as manifestações e reivindicações populares devem ter espaço na sociedade e devem expressar suas mensagens ao máximo possível de pessoas, sem que isso signifique um problema de legalidade. Indissociada, teórica e praticamente, desse objetivo, está a ideia de que os movimentos reivindicatórios acabam tendo sua autonomia limitada pelos conflitos sempre tão revisitados com a polícia. O meio de agir dentro dessa situação conflitante, ao mesmo tempo em que prosseguisse a manifestação legítima, seria, surgido qualquer início de enfrentamento com a polícia, que o enfrentamento fosse um conflito em que os manifestantes não se isolassem ou agissem espontaneamente. A perspectiva é de ação sempre em grupo, mesmo para o enfrentamento. Assim é que se justificam as vestimentas, geralmente, pretas e os panos tão característicos dos participantes dessas manifestações. Eles servem para garantir a integridade contra as possibilidades de identificações isoladas. Um ativista de black bloc só quer ser reconhecido por sua pauta e é ela que impulsiona coletivamente os participantes do ato... Posto isso, então, por que punir individualmente e exemplarmente um indivíduo de uma manifestação de luta por interesses públicos legítimos, como a necessidade de educação, o acesso a moradia, aos bens materiais mais básicos? Respondo imaginando que talvez seja essa a única forma de encontrar uma “ilegitimidade” no ato ou a única forma de fazer com que as pessoas, espectadoras do que se passou, engulam a idéia de que o protesto - como um todo - foi obra típica dos baderneiros de sempre. Pois, se há isolamento dos indivíduos no movimento, a mídia pode editar, recortar melhores enquadramentos da cena que favoreçam a imagem da polícia como mantenedora da ordem pública, etc... Apesar de sabermos que, há muito tempo, a ordem que a polícia defende não é nem um pouco pública: ela defende uma ordem privada que priva as pessoas do acesso a educação, a saúde, a terra, e a uma série de direitos inalienáveis. Na verdade, o enfrentamento contra bombas de gás lacrimogênio, uniformes e balas de borracha é, de fato, apenas um episódio de uma luta muito maior, que se dá a todo instante, na nossa escola, no nosso trabalho, nas nossas vidas, a qual chamamos luta de classes e que se manifesta por diversas formas. ϕ


tradução/crítica 29

‘10 teses sobre a política’, de Jacques Rancière Lucas Paolo Ofereço uma tradução literal apressada do texto 10 teses sobre a política de Jacques Rancière. Dados os últimos acontecimentos políticos em nosso país e o crescente conclamo por uma intensificação do policiamento, pareceu-me urgente inserir esse texto em nosso contexto de prática e discussão política. O texto de base para a tradução é a tradução chilena de 2006 de LOM Ediciones, no livro “Política, polícia e democracia”. O texto original possui 20 páginas e cada uma das 10 teses é minuciosamente deslindada e explicada. Aqui, por motivo de espaço, oferecemos apenas as 10 teses traduzidas com uma explicação dos pontos centrais, a meu ver, da reflexão política de Rancière. Deixo aqui meu agradecimento a Adrián Cangi pela descoberta desse texto, bem como grande parte das reflexões que seguem. Todas as dez teses giram em torno da ideia central de Rancière de que um povo é aquilo que ainda não está dado, que precisa ser permanentemente criado. Contrário à tradição da luta de classes, nacionalista ou identitária, Rancière afirma que um povo não pode ser, para que haja política, jamais uma unidade substantiva passível de identificação. Nesse sentido, o povo é como um vazio ou um suplemento dos que dentro de uma partilha do sensível são incontados, deixados de fora. Rancière denomina partilha do sensível como “o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividades que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha.” (A partilha do sensível, p. 15). Podemos dizer que para Rancière entre a política e a polícia operam três termos. A polícia opera dentro de uma partilha do sensível identificando aquilo e aqueles que configuram o comum partilhado e as partes exclusivas, a participação e a separação. A polícia é para Rancière um nome que designa a política como sistema legitimado de produção de acordos consensuais. Ou seja, a polícia é aquilo que com roupagens políticas institucionalizadas anula a própria política ao estabelecer o que deveria ser comum no sensível. É aí que a política, e o povo como terceiro termo, surge como possibilidade de forçar o dissenso, dizendo que é necessário expandir, suplementar a partilha do sensível, com aquilo que ainda não tem nome, com

aqueles que estão nas margens, estão excluídos do consenso institucional. “Entre política e polícia, entre aqueles que pertencem à visibilidade do regime e aqueles que permanecem anônimos. Se poderia chamar a isso ‘luta de classes’, mas essa luta de classes não é realmente uma luta política, mas sim uma luta pela política. Isto para Rancière se deve ao fato de que uma das partes dessa luta, a polícia, não tem nada a ver com a política.” (Federico Galende, p. 80.) Enfim, a polícia é aquilo que na partilha do sensível naturaliza um regime de visibilidade e de enunciação que estabelece que certos modos sensíveis, certas práticas, possam existir dentro do institucionalizado e outras não. Nesse sentido os três termos produzem a existência de um sujeito paradoxal. Paradoxo como aquilo que se diz em dois sentidos, com um mesmo valor. Um sujeito que participa de uma partilha do sensível, mas que ao mesmo tempo, enquanto sujeito político, necessita expandir, tendo em conta a ambiguidade de suas ações políticas, as práticas de visibilidade e as possibilidades de enunciação dessa partilha. Ao mesmo tempo, essa expansão deve ser intermitente e recreada permanentemente para que não devenha uma nova polícia ao naturalizar, fixar, novos regimes de visibilidade e de enunciação. Um problema que se poderia colocar, exatamente nesse ponto, é que afirmar, ou permitir que tenham parte, aqueles que não têm parte, expandir a noção de povo produz um momento de identificação. Contudo, o central é que o povo não se sedimenta em uma unidade substancial, o momento identitário é apenas um momento necessário para a expansão dos que tem parte, para a criação de um povo que ainda não está, para permitir que os excluídos possam ter parte no comum. Entretanto, não se trata para Rancière de uma produção ético-ontológico, mas sim política, e, portanto, sempre identificações sempre paradoxais e provisórias. A democracia como uma perpétua e paradoxal reconstrução das subjetividades políticas. E isso pressupõe um interminável litígio pelas reconfigurações e resignificações do sensível, da partilha do sensível. É preciso que sempre haja margens de indefinições como condições de litígios no e pelo sensível, por invenção de novos sujeitos políticos. Assim, finalmente, para Rancière, entre Política e Estética, Política e Polícia, está um povo como possibilidade de produção de mesclas impuras sensíveis. O que permite criação é reinvenção sempre paradoxal, a passagem de um termo a outro, é esse suplemento que é o povo como


tradução/crítica. 30 aquilo que precisa ser permanentemente recriado, como condição de que nunca se responda “O que é um povo?”, mas que a própria pergunta expanda nossa compreensão, e nos impulsione a reinvenção das subjetividades políticas. Resumidamente, não se deve tratar o povo como uma unidade substancial, porque isso só é possível com exclusão das multiplicidades que não fazem parte dessa unidade; tampouco como inclusão social apenas, como agregar os incontados, porque isso é o que um policiamento institucional pode realizar, com a condição de manter na partilha do sensível o sentido de que

os incluídos são uma parte exclusiva, excluída, que precisa ser tolerada, ou seja, sob a falsa face do consenso se inclui as margens, desde que se sejam mantidas como margens, como marginalizados, como as exceções do regime. É preciso que se trate como três, como um terceiro termo, que produz movimento entre a unidade identitária e os agenciamentos de inclusão. Que o povo seja o que está sendo, em todo momento, criado, a condição de reinvenção dos sujeitos políticos, a condição mesma da política. Lhes deixo com as teses de Rancière:

1. A política não é exercício de poder. A política deve ser definida por si mesma como um modo de atuação específico posto em ato por um sujeito próprio que depende de uma racionalidade própria. É a relação política que permite pensar ao sujeito político e não o contrário. 2. O próprio da política é a existência de um sujeito definido por sua participação nos contrários. A política é um tipo de ação paradoxal. 3. A política é uma ruptura específica da lógica do arkhé. De fato, ela não supõe simplesmente ruptura da distribuição “normal” de posições entre aquele que exerce um poder e aquele que o sofre, mas sim uma ruptura na ideia das disposições que se tornam “próprias” a essas posições. 4. A democracia não é um regime político. É, como ruptura da lógica da arkhé, ou seja, da antecipação do mandato em sua disposição, o regime mesmo da política como forma de relação que define um sujeito específico. 5. O povo que é o sujeito da democracia, portanto o sujeito matriz da política, não é a coleção de membros de uma comunidade ou a classe trabalhadora da população. É a parte suplementar em relação a qualquer conta das partes de uma população, que permite identificar em relação ao todo da comunidade a conta dos incontados. 6. Se a política é o esboço de uma diferença que desaparece com a distribuição das partes e das partes ociais, ocorre que sua existência não é de maneira nenhuma necessária, mas surge como um acidente sempre provisório na história das formas da dominação. O resultado é que o litígio político tem como objeto essencial a existência mesma da política. 7. A política se opõe especificamente à polícia. 8. A polícia é uma divisão do sensível (partilha do sensível) cujo princípio é a ausência de vazio e de suplemento. O trabalho essencial da política é a configuração de seu próprio espaço. É fazer ver o mundo dos sujeitos e suas operações. A essência da política é a manifestação do dissenso, como presença de dois mundos em um só. 9. Por mais que o próprio da filosofia política seja fundar a atuação política em um modo de ser próprio, o próprio da filosofia política é apagar o litígio constitutivo da política. 10. O fim da política e o retorno da política são duas maneiras complementares de anular a política na relação simples entre um estado do social e um estado do dispositivo estatal. O consenso é o nome vulgar desta anulação.

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resenha/crítica. 31

a pele a se habitar Bruno Bernardo

O habitar é para ser levado a sério, pois é somente estando inteiramente dentro do mundo dos envolvidos que se pode julgar uma determinada ação Quando assisti ao filme A pele que habito de Almodóvar no cinema não fiquei exatamente impressionado. Mais tarde, porém, comecei a pensar sobre ele. Facilmente nos identificamos com o garoto, Vicente. De certa forma, recusamos a proposta de justiça do personagem interpretado por Antonio Banderas, o cirurgião Robert Ledgard, que se dá sob a forma de uma vaginoplastia, mais uma série de cirurgias plásticas, encarceramento e o vigiar constante, transformando Vicente num objeto sexual-voyeurista chamado Vera. Achamos, por outro lado, justo o final, com o assassinato de Robert Ledgard e sua mãe, possibilitando a fuga. Tendemos, portanto, a considerá-lo antagonista ou vilão. Isso porque somos normais. Mas numa obra de arte podemos nos sentir mais livres para a honesta loucura de nosso espírito, e tomar a vingança como aplicação de pena, que, aliás, na mão do Estado parece-me ser mais cruel, pois sistemática e mantenedora de desigualdades. Tento então colocar uma proposta de interpretação para o filme, mantendo a noção de justiça desvinculada do Direito em mente. Não tento abarcar o todo, portanto, deixando de lado aspectos sutis, como um masoquismo em Ledgard e outros que me parecem bem visíveis, como a ironia com toda trama da vida, ao mesmo tempo em que não nos deixa de emocionar com o verdadeiramente humano que vive atrás dos mudos gestos dos atores e acasos da trama. E nem essa beleza é poupada de ironia, causando uma sensação inebriante de alegria e tristeza, apreensão e leveza, como a vida em sociedade é. Um bom ex-

emplo de um momento como esse é o final, no reencontro de Vicente com sua mãe e Cristina. Ele conta à Cristina toda sua bizarra história, rápida e normalmente, como se contasse qualquer coisa, mas nada do que fala é o real, a trama toda torna-se nada e tudo o que de fato existe naquele momento são os corações palpitando fortemente num misto de nostalgia, saudade e expectativas para o futuro. Mas voltemos ao recorte interpretativo que quero fazer. O título do filme parece-me ser um indicativo que sua proposta é adentrar a pele de cada um dos protagonistas, habitando-a. Pareceme, inclusive, que o cartaz do filme, com o rosto de Banderas e Elena Anaya em close, acentua esse convite. O habitar é para ser levado a sério, pois é somente estando inteiramente dentro do mundo dos envolvidos que se pode julgar uma determinada ação. Há, então, dois filmes dentro de um, dois mundos, duas maneiras inteiramente diversas e extremadas de se encarar cada um dos dois e sua relação: o crime e a justiça aplicada. Começaremos pela pele do que poderíamos chamar antagonista. Robert Ledgard, o cientista, centra-se no exterior de sua vida. E entrar em sua pele é fruir essa beleza externa imediata, da maneira mais apaixonada possível (com apaixonada, querse dizer passiva). É isto que o move – e é um personagem voltado inteiramente para a ação – e a ação é sempre trazer a beleza para perto de si, alterando este mundo externo para entrar de acordo com seu ser. A transformação do estuprador de sua


resenha/crítica. 32 filha na aparência da esposa é um exemplo explícito, mas o se tornar um cirurgião plástico já é uma maneira clara de denotar esta característica, tanto no que altera os corpos das mulheres à perfeição, quanto no que a carreira é lucrativa, dando-lhe a oportunidade de morar naquela mansão, colecionar obras de arte, carros esportivos, passar a tarde modelando um bonsai. Mas fiquemos na primeira: as mulheres. Esta de fato parece ser sua maior paixão, presentes já nas obras de arte, como as duas Vênus de Ticiano que aparecem mais tempo em cena. Seu ideal de Beleza e Paixão parece ser sua antiga esposa, interpretada por Elena Anaya. Especifico o nome da atriz, pois esta é a aparência real e existente pela qual Ledgard, por assim dizer, apaixonou-se: ele se apaixona pela aparência de Elena Anaya, não importando sua alma, se seu nome é Gal, Vera, Elena, se interpreta a todo momento ou não. A morte de sua musa não era uma opção, e resgatada do fogo após sua fuga traiçoeira, começa a luta pelo retorno do seu bem estéticoarquitetônico. Ela, num acaso, arrasada por culpa ou apenas pela perda de sua própria aparência, suicida-se, apesar do canto de sua filha, levando Ledgard aos cuidados da pequena alma de Norma que gera a loucura em seu interior, germinada com a semente da visão da explicitamente vazia morte da monstruosa mãe. Ledgard parece seguir sua vida como cirurgião plástico, enquanto cuida do legado e fruto de sua paixão com psiquiatras, pílulas, e quem sabe afeto. A primeira vez que a menina sai de casa é estuprada (na pele do cirurgião é assim que vê) enquanto ouve ao longe a música que cantava quando sua mãe desfigurada caiu morta em sua frente, e isso a leva a um buraco sem fim – e a uma janela, com seu fim inequívoco, a seduziu para seu vórtice, assim como fez à mãe.

Ledgard encarna a razão técnica. Aqui o acaso parece vir ao seu encontro e destruí-lo em seu ser: o homem ativo que modifica o mundo de acordo com seu ideal belo, enquanto puramente aparência. O acaso desfigurou a esposa e a fez se suicidar, assim como à filha. As duas, enquanto coisas de que cuidava, escapam do controle aparente de Ledgard. Mas esta é uma ilusão de nosso ingênuo romantismo: o acaso nada destrói. Precisamos nos fixar na pele do cientista inescrupuloso: ele se volta apenas para o externo. A ciência pode ultrapassar a morte: sequestra o estuprador de sua filha, modifica seu externo para que se torne idêntico à Elena Anaya, e o mantém em uma jaula luxuosa, instalada como uma obra de arte, com fins aparentemente masturbatórios. Na pele de Ledgard, o ideal de belo volta-se todo na aparência, assim como toda sua ação e todo seu ser. Dentro desta pele, sua pena é justa. Todo o externo mostra o que ocorreu, e as consequências externas, a subsequente loucura e suicídio, acaso ou não, são reais e existentes. Não se julga a intenção em momento algum. Tudo que ele pergunta ao garoto é se ele havia mesmo estuprado sua filha, e este responde que não lembra (do externo, consequentemente inferimos), por conta das drogas que tomara, fazendo com que se mantivesse em si (sem conseguir reparar no mundo exterior). Não pergunta em seguida se quis, ou não, se foi acidental, ou não. Sua moralidade julga apenas os atos e as consequências, não as intenções. A pena encontrada foi a mudança de sexo e mantê-la prisioneira enquanto a observa, como a grande obra de arte

Antigas culturas inseriam o assassino de um membro da família dentro dela, substituindo a perda da qual foi culpado. Isso me parece de uma elevação humanitária num ato de redenção sem limite


resenha/crítica. 33 que conseguiu produzir graças ao seu engenho. Perguntemos os motivos de tal peculiar e deliciosa pena: Será que o que ele queria era instalar mesmo uma obra de arte? Ou será que estava apenas sendo sádico com o estuprador de sua filha, e o acaso o levou a apaixonar-se? Ou ainda, estava sendo masoquista, unindo a imagem de sua esposa que o traiu desencadeando a loucura da própria filha e o estuprador e causador da morte da coitada? As perguntas podem se multiplicar. E creio que o interior de Ledgard é um grande mistério. Habitar a pele deste personagem é voltar o interior inteiramente ao exterior. Não busquemos as explicações, e sim o que ocorreu de fato exteriormente, independentemente de qualquer intenção dele. A sua pena com o estuprador de sua filha foi transformá-lo em seu amor. Ele inseriu o réu no interior de sua família, suprindo a sua solidão de modo central. Os modos como fez isso podem ser julgados por quem busca seu interior, mas dentro de sua pele, devemos compreender que nada poderia ser diferente: ele é este ser que quer alterar o mundo em sua volta como seu ideal de Beleza. Num ato faz reviver todo seu mais intenso sofrimento e todo o mais puro amor em um único ser. Seu ato de justiça é extremamente interessante, ao elevar o réu a todo seu ideal de amor no mundo. Antigas culturas inseriam o assassino de um membro da família dentro dela, substituindo, portanto, a perda da qual foi culpado. Isso me parece de uma elevação humanitária num ato de redenção sem limite. Voltemo-nos agora para o segundo filme, habitando a pele de Vicente. Diferentemente de Robert Ledgard, Vicente volta-se inteiramente ao interior. Ele está em pleno desacordo com o exterior, na mesma medida em que se interioriza, e não podemos dizer qual é a causa e qual a consequência. É isso que quis dizer à filha e futura vítima, com “Sou diferente” – é alguém sensível, voltado à própria interioridade que não encontra apoio no mundo externo, sempre opressor. O fato de tomar drogas chega a ser um estereótipo desse caráter. Se Robert Ledgard se joga ao mundo externo de maneira completa, com o sequestro e o que decorre disso, o menino se volta de modo perfeito ao interno no mesmo ato: com as aulas de ioga subsequentes e a produção artística, encontrando seu lugar interno. A arte que produz mostra esse gritante interior, inofensivo e em desacordo com tudo. É uma boa forma contrapor Ledgard e Vicente pela arte que produzem, e, no caso do primeiro, que também consome. Mas voltemo-nos ao crime. A intenção de Vicente era transar com a menina, mas não pôde ver que ela não estava de acordo com isso. Ela começou a tirar as roupas indicando, a ele, o início do sexo. Mas isso foi mera aparência, pois internamente o tirar de roupas, a ela, representava algum tipo de ato simbólico de libertação. Apenas o acaso fez com que a música cantada ao fundo fosse a mesma canção que en-

toava quando sua mãe morreu, fazendo com que a desconfortável situação tornasse-se insuportável, gritando e enlouquecendo, no momento em que perdia a virgindade. Se encarnarmos a pele de Vicente, e seus pressupostos morais subsequentes, ele julgaria apenas o interior, a vontade – e dessa forma o julgaríamos por si mesmo – como parece que ele faz, culpando-se interiormente por ferir o interno de Norma ao mesmo tempo em que sente a inocência dentro de si mesmo. A pena parece-lhe dura demais, a culpa interna que direcionou a si mesmo começa a perder sua potência e, revoltado, simula no exterior os traços do amor e da paixão, para sorrateiramente colocar Ledgard em seu momento mais vulnerável, assumir a dissimulação dizendo simplesmente “eu menti” e atirar, deixando o cientista, tão ingênuo em simulações – pois parecia dar pouca conta de tudo que é interno, a não ser, quiçá, os mistérios de sua própria lacônica alma – , sem entender o porquê da traição. Este é o momento em que Vicente toma a primeira ação em sua vida, como se fosse preciso esta situação extremada para fazer mover o sensível rapaz. Vicente se recusa à sua pena, se recusa ao destino que o mundo lhe impôs e retoma sua vida agarrando um acaso. Apenas esse ato, que renega toda a sua natureza, faz a vida lhe dar um salto à frente, não atrás. Antes estava insatisfeito com sua vida, queria fugir de casa. Mas apenas o cirurgião conclui este plano que seu interior jamais poderia realizar na exterioridade, e o faz encontrar sua essência em sua interioridade, na arte e na ioga. Nesse sentido, Ledgard, sem intenção alguma, servo do acaso, foi como que um pai ou mestre. É como se, antes da trama, Vicente houvesse feito um acordo com Mefistófeles e pedido que seus desejos fossem realizados, sem especificá-los. Pois o que ele queria era sair de casa e ter uma mínima chance de conquistar Cristina, que pareceu um tanto interessada, ao menos na aparência de Elena Anaya. Vicente, por si mesmo, jamais iria sair de casa, e muito menos recorreria a uma troca de sexo. Não sei se foi o destino ou a sua ação que trouxeram seu final feliz, e o mesmo se pode dizer sobre o final infeliz de Ledgard. Parece que perdi meu fio condutor, de me direcionar para a questão de sua inocência ou culpa. Mas buscar a culpa é o que se perde, vestindo as peles de Vicente/Vera. Seu interior era inocente, apesar de inflamado, e as consequências de seus atos foram acasos decorridos de uma má interpretação. Na pele de Ledgard, as causas e consequências do mundo exterior a si são julgadas e modificadas a sua plenitude. Apenas Ledgard é, em seu mundo, e o exterior é mera aparência disposta a seu deleite. Ele jamais faz a culpa recair em si mesmo, jamais assume sua parcela na causalidade externa do mundo, pois é seu centro. O próprio Vicente não sabe se é inocente ou culpado. Estar em sua pele é abandonar esta questão, como ele faz. Ele dá um salto, deixando de ser uma vítima ou um réu do mundo, um salto que significou seu próprio amadurecimento. Ele agora deixa de ser um garoto e torna-se uma mulher. ϕ


crônica. 34

a uma leitora André Paes Leme lo, conquanto, conforme é certo, seja a única, distinções formais se impõem como necessárias), acabou por forçar-me a preencher novamente este espaço com essas minhas linhas tão mal traçadas. Em primeiro lugar, devo admitir não ter sido (Elizabeth Bishop) pequena minha surpresa quando, em meio a tantas saudades (elas, que insistem em nunca morrer), você, do alto dessa “sua infinita volubilidade de pássaro”, deixou como que escapar: Embora seja certo que (quase) ninguém mais se lembre, tive, “Li todos os seus textos no Jornal da Filosofia”. Sei que é um há não muito tempo, a honra de contribuir com algumas tanto ridículo, mas por um instante, envaideci-me de um ausmodestas páginas nas primeiras edições desta publicação. ente pendor para as letras... logo eu, cujas confusas vírgulas Tempo este em que o Discurso sem Método ainda sonhava tanto trabalho dão aos simpáticos colegas revisores. Como em ser um mensário (e eu até mesmo defendia, utopica- havia dito mais cedo, mas ainda naquele dia, minha maior frustração é não dispor do mente, a quinzena como menor talento para a comintervalo perfeito entre uma posição literária. E como edição e outra) e se chamao mundo é estranho, não? va Jornal da Filosofia. AiDaquela minha clara connda que o primeiro nome, fissão de derrota recolhi um como ocorre com tudo que prazer enigmático. Explicoé provisório, me aprouvesse me: é que você se espantaria mais que o definitivo, a rese pudesse ter contemplado cordação de ter continuado sua própria expressão facial a contribuir com alguma no momento em que descocoisa aqui e outra ali não briu que não era seu, mas me é estranha (no entanto, é da literatura (Ah! Essa velha preciso salientar, seus olhos, musa, sempre tão jovial!), caro leitor, jamais chegariam o primeiro lugar no pódio a passar por essas folhas das minhas frustrações... De sem o empenho dos colegas tudo isso, contudo, o que imrevisores, dos diagramaporta é que cá estou eu, uma dores, da gestão do CAF e, derradeira vez, a escrever-te. por último, mas não menos O delírio amoroso não delira apenas sobre algo ou importante, de um recon- alguém, mas sobre uma paisagem no interior da qual E por que escrevo, perguntohecido esforço pessoal do algo ou alguém lentamente se singulariza. me? A resposta é simples: esintrépido Inauê). Nesse contexto, tendo visto este periódico – que alguns meses atrás crevo porque há coisas que não se deve dizer, que não se pres(ou será que já passou um ano?) parecia apenas mais uma tam a serem ditas. Sócrates e Fedro que me perdoem, mas falar ideia destinada ao sono longo e indolente das frias gavetas não é mais que fazer charme, é algo um tanto sujo e até mesmo – tomar forma e fôlego; tendo visto a quantidade crescente baixo. Sinto que preciso escrever, pois, quando Theuth, como de contribuições que, inclusive, já extravasaram os estreitos nos conta Platão, inventou a escrita – ele não sabia, acredicorredores do prédio do meio, pensei que deveria poupá- tava que ela apenas funcionaria como um remédio contra o lo, amigo leitor, do esforço de pular, edição após edição, as esquecimento – trouxe à luz uma miríade (alguém um dia páginas modorrentas e pretensiosas que se seguem (ou se me falou que não há palavra mais pedante do que esta, mas encerram, esta deliberação cabe geralmente à Mônica e ao o que posso fazer...) de sensações e impressões desconhecidas, Duanne) à minha desimportante assinatura. Assim, era com além de intermináveis nuances àquelas de que nós, os humaa sensação de dever cumprido (quem explica as sensações, nos, já dispunhamos. Escrevo, pois, nuances como a perfeita não?) que pensava em me recolher à posição mais nobre, coincidência entre meu estado de espírito e o azul daquele seu isto é, a de um contumaz leitor desse nosso agradável jornal. vestido – isso para não falar no inexplicável brilho da sua pele sob o sol de uma cálida manhã de sábado – parecem pobres No entanto, sua repentina descoberta, cara leitora (a do títu- demais quando enunciadas pela banalidade das cordas vo“A arte de perder não é nenhum mistério; Tantas coisas contêm em si o acidente De perdê-las, que perder não é nada sério.”


crônica. 35 cais; pois, pequenos milagres, como a rotação freneticamente precisa dos seus olhos diante das crianças que brincam, mordem e choram, perderiam toda sua vivacidade se expressos por palavras que o amansado soprar dos ares levaria para além do limiar de uma promessa. Escrevo, enfim, porque, por ser pura (re)criação, e não fixação de coisa alguma, a escritura é a única saída para o angustiante dilema de Crátilo, o pobre seguidor de Heráclito, que, como nos relata Aristóteles, atônito diante da perpétua mobilidade do sensível, viu-se obrigado a abandonar o uso das palavras e a “somente apontar o dedo”. Um ano, cara leitora, não é longo, mas é muito tempo. Tempo suficiente para “amar, desamar, amar” e, quem sabe, ainda uma vez, de novo... Mas sem nunca esquecer que, de todos os plurais, o do amor é o mais ilusório. Um psicanalista, desses que você admira, já disse uma vez que, no amor, o primeiro repete o último, lembra? Ora, é por isso que não há mais que um, e que todos os outros que por aí vemos, seja caminhando de mãos dadas nos parques, ardendo na perfeição casual daquelas esquinas próximas às escadas do metrô, abrindo-se em flores no alto dos prédios e até mesmo adornando, nos cemitérios, as sepulturas de suas vítimas, são apenas os traços visíveis da difícil natureza do Outro impregnada pelos contornos (sempre diversos) do Mesmo. É por isso também que todo amor é “amor sem conta,/distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,/doação ilimitada a uma completa ingratidão”. O que é só a forma mais poética que conheço para o adágio segundo o qual amar é empenhar ao outro aquilo que não se tem, isto é, ir além de si mesmo, de seu narcisismo e seus interesses mesquinhos (e, ao mesmo tempo, o que pode nos tornar mais mesquinhos?). É preciso, querida leitora, levar a sério, por pelo menos um instante (e como levei tempo em busca dele), esta hesitante nebulosa de ideias incertas. Se não há amores, e sim um único amor do qual todos os que subsistem sobre a superfície do que é vivo se caracterizam por serem a repetição, então é também permutável seu objeto. Ou melhor, a essa altura, já não mais há objeto, na medida em que se relativiza a própria posição do sujeito mediante o qual ele se poria como tal. Estamos todos, agentes e pacientes dos afetos (inclusive as coisas inanimadas), recolhidos à potência aparentemente inesgotável de uma única repetição, sempre diversa, embora única... um eterno lançar de dados. Disso decorre que o desejo apareça como uma questão de “entrar” e “sair”, ou seja, de “passar”, “escorrer”, “fluir”. Ou, se quisermos, cara leitora, usar palavras difíceis, o desejo é sempre uma questão de territorialização e desterritorialização. O delírio amoroso não delira apenas sobre algo ou alguém, mas sobre uma paisagem no interior da qual algo ou alguém lentamente se singulariza. Daí a minha longínqua intuição sobre suas variações climáticas, sobre a fauna e, principalmente, a flora que habitam as regiões mais remotas da insondável geografia do seu corpo. Porque desejar é construir, e construir, ao mesmo tempo que significa perder contato com a “realidade” de alguém (como naquele poema que você gosta), também aponta para uma ver-

dade à qual esse alguém está longe de poder ser indiferente. Por esses, mais que por outros motivos, minha cara, é que tornou-se imprescindível revê-la. Porque a cessação e a ruptura ativam as piores armadilhas quando se entrincheiram em nossas memórias. Um certo masoquismo das reminiscências, aliado à tormentosa profusão das distâncias, faz com que nos esqueçamos, às vezes, de que o amor não é mais que uma cega confiança nos poderes do acaso; e que, muitas vezes, no que concerne ao amor, para cumprirmos a velha lição da Ética, aquela verdadeira “guerra das alegrias contra as tristezas”, e passarmos a agir mais do que padecer, é preciso que estejamos à altura da mais imponderável tarefa, isto é, que não recuemos diante da necessidade de “amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa/amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”. Um reencontro, é essa a significação última da fidelidade a um bom encontro. Isso não quer dizer simplesmente não renegar um determinado conjunto de experiências passadas, um encontro é algo muito maior que uma experiência (ou um conjunto delas), é algo da ordem do acontecimento, que, por sua vez, permanece completamente inacessível, opaco, fechado em si mesmo, mas cuja realidade são todas as múltiplas consequências que ele arranca ao passado e atira em direção ao futuro, quer dizer, em direção ao próprio caminho pelo qual flui o que conhecemos como vida. E que fórmula melhor pode haver para a vida, a não ser: “não querer nada de outro modo, nem para diante, nem para trás, nem para toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo (...), mas amá-lo”? PS: Creio ter me alongado bem mais que o conveniente. E olha que nem deu tempo de escrever sobre a terrível inveja que senti da Giulia (nome inventado, claro), minha cara... Pensei que, pelo resultado final, deveria ter destinado apenas ao teu email estas linhas. Mas, agora, já é tarde: acabei mesmo por enviá-las ao email do CAF e deverão ser publicadas naquele jornaleco dos estudantes. Bem que eles podiam perceber que se trata de um engano, mas, como vivem sempre à cata de textos, creio que não perceberão. Pensei também em enviar outro email para alertá-los, contudo já sei a resposta: “- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” PS (2): Se você está lendo isto, mas não é a minha leitora, bem, é provável que você, como ocorre com todos os meus outros leitores, exceto ela, não exista. Mas, caso eu esteja errado, o que, nesse ponto, é muito improvável, não se preocupe. Se já não for o caso da atual, na próxima edição do DSM, no máximo, haverá um diagnóstico que contemple indivíduos como eu. Você sabe, esses que costumam apropriar-se de uma importante ferramenta de comunicação crítica e lúcida sobre os problemas não apenas do curso e da universidade, mas de nossa sociedade como um todo, para discorrer sobre suas pequenas (e burguesas?) catástrofes cotidianas. ϕ


crônica. 36

a biblioteca André Braga Em tempos de grandes possibilidades de mudança na anos para adquirir os lançamentos brasileiros, que dirá política nacional, gostaria de tomar o tempo dxs senhorxs os estrangeiros – e logo pensei, essx aí acordou querendo para um tópico menor. Peço que tomem como um chiste, se gabar que sabe ler em outra língua – e que a biblioteca, algo para alegrar o dia em meio a tantas coisas sérias que para elx, não servia senão para os livros canônicos, ou passamos o dia inteiro lendo: não há necessidade de dar seja, disse elx, aqueles que foram os guias das teses dxs mais relevância a isto, enfim, sintam-se em casa, afinal, professorxs mais antigxs, e consequentemente dxs sxus tem gente que lê “Veja” só para se divertir e rir das bo- melhores pupilxs, que leem tão bem as obras dxs grandes bagens, quer dizer, tem humor de todos os gostos, outrx autorxs (logo se vê, pensei comigo, que essx daí é mais umx dxs esnobes tipo de gente gosta de colegas meus que descansar escutando estudam filosoconversas pelo correfia) que chegam a dor... Enfim, senhorxs, repetir ipsis literis gostaria de pedir, pora interpretação tanto, uma breve atendxs melhores coção para discorrer somentadorxs, em bre algo que enche de geral francesxs, e orgulho a todxs nós: cujos livros é posa Biblioteca Florestan sível se enconFernandes. Ela é a bibtrar na biblioteca, lioteca com o maior de modo que se acervo da USP com tornaram hoje mais de 800 mil obras, xs novxs profese 15 mil inscritos. Já sorxs... enfim, elx ouvi um epíteto de “a continuou nessa maior da América Latoada e tenho tina” e, embora nunca certeza que estava tenha ido para um mesmo é irritadx outro país da América com alguma nota Latina, temo não inruim que tirou. correr em uma inverdade, como é o caso Mas me espande muitos epítetos sutou mesmo foi perlativos – temos nas outra conversa cidades do interior do que ouvi por aí – estado a vocação para é impressionante capitais nacionais disMe peguei pensando nessas besteiras, como se uma como se conversa so e daquilo que não coisa (guardar malas no armário) tivesse alguma relanos corredores me deixa mentir. É de ção necessária com outra (mudar o mundo) por aqui, pelo fato fascinante a quantidade de livros reunidos em seus três andares, sobre as- menos na biblioteca reina algum silêncio –, não que eu suntos os mais abrangentes, livros de todos xs formatos, seja fofoqueirx, mas movidx pela curiosidade natural tamanhos, línguas, enfim, uma maravilha, mundos ina- de todx filósofx, procedo em pesquisa das ideias que cabáveis, estudos não só para uma, mas para várias vi- circulam pelo nosso meio. Era umx estudante barbudx, das, etc., escolha a expressão que preferir, todas querem de óculos não muito grandes, como é a moda agora, dizer a mesma coisa. Apesar disso, o que não ouço por que estava se gabando de que na Europa as bibliotecas aí, de gente que reclama que falta livros, falta espaço... é que eram boas, tudo feito de madeira nobre, mesas Outro dia ouvi umx dessxs falar, acreditem só, que a bib- largas, podia se emprestar quantos livros se quisesse e lioteca está desatualizada, que demora no mínimo cinco o sistema de guardar material antes de entrar na biblio-


crônica/paródia. 37 Não pode entrar com pasta por quê? porque elxs institucionalizaram o defeito de não conseguirem coibir o roubo de livros, e, ao invés de melhorarem o sistema, é mais fácil proibir todo mundo de usar pastas! teca – o que me chamou mais atenção foi a naturalidade fingida com que elx falou isso, sem nem esconder que sabia o quão hipócrita estava sendo – “você colocava uma moedinha de um ou dois euros e pegava a chave, sem escravinhxs intermediárixs. Aqui não, – dizia elx, e fiquei pensando, e me divertiu a ideia, que elx devia ser irmãx dxs patricinhxs que protestaram contra xs médicxs cubanxs – inventaram uma profissão ridícula, fruto dessa nossa tradição escravagista (x metidx ainda se atreve a falar isso) que é a de guardadorx de mochilas (e disse isso com um tom de desprezo na voz, como se elx não achasse que trabalhar numa biblioteca dessas fosse digno de alguém de importância, dessxs que carregam títulos e barbas por onde vão) na biblioteca, porque não somos capazes, ouvi dizer por aí, disse elx, de guardarmos as nossas próprias malas no armário, ah!, falaram que mudou o sistema de cadeados e ficou muito complicado, que xs alunxs não seriam capazes de se adaptar e por excesso de zelo e de didática, disse elx, pretendendo mostrar que até descer à ironia e ao sarcasmo era capaz, se preocuparam em colocar alguém para guardar e pegar nossas coisas no armário. Fico pensando, continuou x pedante, que dxs professorxs não foi que elxs tiraram essa ideia didática (era tão metidx, pensei, que se achava digno de criticar xs professorxs) já que essa palavra não existe no vocabulário delxs, e que já que tem tanta regra na biblioteca, ‘ah, não pode pasta, não pode garrafa...’ (será que pode plantar bananeira?), outro dia vi umx russx, que entrava pela primeira vez e não sabia que não podia entrar com água, passei vergonha, continuava x prolixx-classe-média-sofre, já que tem tanta regra, podiam ser didáticxs quanto a elas, escreverem em algum lugar, mas não fazem isso porque sabem que é um absurdo (elx não parava mais, estava de fato revoltadx), não pode entrar com pasta por quê? porque elxs institucionalizaram o defeito de não conseguirem coibir o roubo de livros, e, ao invés de melhorarem o sistema, é mais fácil proibir todo mundo de usar pastas! E além do mais, continuou x verborrágicx cansadx das poucas e boas pelas quais a classe média tem que passar, além do mais (agora vem a chave de ouro, pensei ironicamente) como é possível alguém mudar o mundo e fazer a revolução se não é capaz de guardar sua mala num armário?” Depois, na fila do bandeijão, me peguei pensando nessas besteiras, como se uma coisa (guardar malas no armário) tivesse alguma relação necessária com outra (mudar o mundo). Leitorxs, é preciso ficar de olho aberto, tem cada coisa que a gente ouve por aí... ϕ

paródia Dimitrios Valentim

Ao som e ao tom de ‘a flor e o espinho’, de Nelson Cavaquinho, vamos animar a greve cantando a nossa pauta:

Tire esse estatuto do caminho Só se for diretas, só se for! Eu já aturei o João Grandino E eu não quero outro reitor É para ter gestão das três categorias Na USP assim que vai ter democracia É no Conselho que eu quero ter mais vagas Pra trabalhador e estudante ter palavra Já que dessa vez o Rodas rodou Eu não quero ter outro reitor


conto. 38 Onze poetas Ari Marinho Bueno “O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa”, Fernando Pessoa I O primeiro poeta estava escondido atrás de uma grande porta branca, e fazia de seu batente uma expectativa de redenção; com seu corpo defenderia o corpo vivo (eram um só, assim cria) dos outros dez. Uma porta é um lugar que separa dois outros, ele dizia. O fundo deste quadro pode ser verde. II Um corredor à direita da porta, e que conduzia ao outro lado (seria a um dos lados do real?) - , era onde estava o segundo poeta. O palco (verde) era para si ir e vir, e rápido. Assim, egocêntrico dos outros dez, dali exauria-se até protegendo, até atacando. Queria saber tal qual os números, tal qual o tempo. III Último homem a destruir, se preciso for; se preciso for último homem sobre a face do chão verde à frente do homem atrás da grande porta branca. A marca que traz no braço poderia ser uma cicatriz, mas enfaixa apenas sua alma. Sua altivez tem algo de drástico, sabem os outros dez. Este é o terceiro poeta. Perdoai-o, Senhor, ele não sabe o que faz. IV Atônito à própria presença ali, o quarto poeta é mais jovem e mais alto que todos os outros dez. Súbito entre os escolhidos que o duvidam, sabe conduzir-se como deles poucos no plano, o verde. Será protagonista de uma obra inacabada, sabemos, que é impedir a criação do alheio contrário a si, a vós. Ele é experimentado, para menos. V Pela esquerda da grande porta branca, correndo risco o quinto poeta. Ser agredido ou agredir, sinal de ruindade? Prefere vencer a ser esquecido. Cabeça baixa, fixando o verde, jaz sua habilidade - lado esquerdo de seu corpo, o muito que lhe querem os outros dez. O lado esquerdo de seu peito não é estar recuado. Recusa a ser recusado. VI Meio caminho entre a grande porta branca, sobre o tapete verde, e o limitado dos seus recursos, ainda assim o sexto poeta sabe o que fazer. Ocasião para mostrar, sem falta, sua experiência. Chamaremos a isso valentia. Tem fôlego para gritar e gritar pelos dez outros, nós a desfazer. Quereríamos mais criatividade, mas não é obrigado a ser o que precisamos.

VII Nos seus olhos de águia antecipam-se as ofensivas. Daí que os outros dez, quando postado onde deve, confiam. Pode livremente distribuir - tem destreza para - as estocadas contra a obra em aberto. Será esta uma vitória? Uma derrota? O sétimo poeta é um postulado presente em todos os cantos do local, piso em verde, passos dinâmicos, rumo a uma grande porta branca. Outra. VIII Nada tem de ideológica aquela centro-direita: o oitavo poeta ali é feito um relógio. Pelo seu ritmo os demais, os dez outros, se aventuram. Da fluidez com que as coisas se desenrolam, não há revolta diante da posição assim ocupada. Chão verde de passos, na velocidade da lentidão. Destra confabulação de mágicas, seus passes. IX O nono poeta: sua condição é a ponta de uma lança. Não há abrigo que aconchegue a grande outra porta branca, quando à sua frente. Crivada em sua metade esquerda, a argumentação se sustenta, crença nos outros dez. Ao desfilar seu rigor no improviso, faz do tapete verde um lugar, uma audiência. Sem igual, saem dali parecidos heróis e vilões. X Salvo engano, tem ele liberdade para toda parte. Pela direita, pela esquerda. Pelo meio, entre os outros dez, até o escancaro da grande porta branca (seu batente). É demais a redenção do décimo poeta – limpar o caminho rumo ao salto que evitará ou será inútil. É ele ou eles vingados, no tentar de um plano prenhe, verde de sentidos. Os nomes de fora e as cores, a fase. XI Eu sou um poeta. Eu sou aquele que faz. Eu sou o único que pode decidir. Eu sou melhor que todos juntos. Eu garanto o nível deste espetáculo dantesco. Eu sou mais que tudo o que já quiseram ser um dia. Eu sei que eu sou uma coisa, e eu sei que os outros são outras coisas. Eu já fui um cara, agora eu sou maior que vários. Eu sei que todos queriam ser como eu sou. Eu sou quem tem que resolver. Eu sou um alvo. Eu sou um matador. Setembro, 2011


poesia. 39 A luta continua Rondino Diferença

Canção do bom moço Dimitrios Valentim Ele é um sujeito contido, pacato Não se envolve com greve, ato Não vai para as ruas, não faz piquete Carrega suas pedras regularmente Não as ataca na cruz Não as ataca em banco Não as ataca em milico Não é nenhum baderneiro Só é vagabundo aos domingos

, pode. Não pode! Como, não pode??! NÃO PODE!!! Entendeu, ou preciso desenhar? Claro que pode, porra! Nem fudendo! Não pode! Ah é? Então vejamos!... Não vamos... Como não vamos, que que é isto? Apenas N Ã O V A M O S Ah, dá licença... Licença? Sem licença. Puta que pariu, vai se foder!!! Como já disse, nem fudendo. Quer saber de uma coisa? Não, não quero, Vou continuar este poema depois, ouviu? Depois! Não tem depois e nem... Ah tem, e como trem!!!

Mas dentro dele alguma coisa palpita, palpita, palpita

Só mais dez minutos Y.K Olhe aquele rapaz que aponta Os dedos as nuvens Que deus compôs em morada. Sua ânsia de fé lhe sustenta Cada dedo digno da mão de seu braço Que sobe e espalha a glória de seu ego Ao resto do corpo de deus Que reside onde as nuvens tocam A rede por trás da retina e clamam seu nome. Chamado de idealista que crê apenas no que os olhos veem, Prova que um deus, só pode ser provado como tal, por si mesmo.


poesia. 42 zaratustra ad hoc Duanne Ribeiro zaratustra postula três fases de evolução do espírito: 1. camelo 2. leão 3. criança porém, pesquisas recentes apontam: há possibilidades inexploradas por Nietzsche. não só a ordem proposta camelo >> leão >> criança é cambiável: a) criança >> leão >> camelo b) leão >> camelo >> leão >> criança c) criança >> camelo >> leão >> criança >> camelo e etc, como existem outros estados ontológicos possíveis: 4. pinguim maluco 5. piranha 6. deleuze1 7. cronópio-fama2 8. comediante3 9. ready-made entre outras.

as descobertas causaram frisson na comunidade filosófica.4

1. ENCOUNTERS at the End of the World. Direção: Werner Herzog. 2005. 2. CORTAZAR, Julio. Histórias de Cronópios e Famas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974. 2. MOORE, Alan. Watchmen. São Paulo: Panini, 2011. 4. Para melhor utilização deste poema, se disponha à entrada de cada item numerado e deslize (CF PALAHNIUK, Chuck. Clube da Luta. São Paulo: Leya Brasil, 2012.)


poesia/tradução. 43

Noite ao luar Joseph von Eichendorff Foi como se o céu, na imensidão, A terra houvesse beijado, E esta, no brilho da flor, desde então, Só com ele tivesse sonhado.

A Pantera Rainer Maria Rilke De tanto percorrer as grades, seu olhar Tornou-se tão cansado, que ela nada mais tolera; Para ela é como se houvesse só grades a contemplar, E atrás de tantas grades nenhuma Terra. O elegante Andar de passos fortes que, em rodeio, Do centro de um Círculo sempre mais se avizinha, É como uma dança de força ao redor de um meio, No qual, dopada, grande Vontade se anuncia. E, às vezes, o véu da pupila se descerra sem ruído -. E ali entra uma Representação, que pela tesa calma de seus membros erra, e só cessa quando chega ao Coração.

Der Panther Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe so müd geworden,dass er nichts mehr hält. Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe und hinter tausend Stäben keine Welt. Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte, der sich im allerkleinsten Kreise dreht, ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte, in der betäubt ein grosser Wille steht. Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein, geht durch der Glieder angespannte Stille und hört im Herzen auf zu sein. (tradução: Felipe Maia da Silva)

Pelo prado se arrasta o vento, Espigas balançam serenas, O bosque sussurra tão lento, A noite era clara de estrelas. E minha alma assim desdobrou, De modo bem amplo a asa, Sobre terras tranquilas voou, Como voasse de volta pra casa.

Mondnacht Es war, als hätt’ der Himmel Die Erde still geküsst, Dass sie im Blütenschimmer Von ihm nun träumen müsst. Die Luft ging durch die Felder, Die Ähren wogten sacht, Es rauschten leis’ die Wälder, So sternklar war die Nacht. Und meine Seele spannte Weit ihre Flügel aus, Flog durch die stillen Lande, Als flöge sie nach Haus. (tradução: Felipe Maia da Silva)


rodapĂŠ: Thiago Fonseca

O Discurso sem Método #6  

Um jornal a serviço da dúvida. Publicação dos estudantes de Filosofia da FFLCH/USP.

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