Triste fim do Doutor Sócrates por Flavia Manfrin - editora 360 Talvez isso possa gerar polêmica e não é minha intenção. Sempre fui fã do Dr. Sócrates e da sua história, que é parte da história do Corinthians, portanto de seus torcedores, e do futebol brasileiro, portanto de todos nós. Maravilho entrar para a história como ele, sendo que foi no esporte brasileiro.
Lamento sua morte tão precoce. Sim, 57 anos hoje é pouco mais da metade da expectativa de vida da classe media e da elite brasileiras, a exemplo da realidade de países mais desenvolvidos e capazes de proporcionar qualidade de vida a seus habitantes. Lamento também que ele tenha partido sem se dar conta do mal que o acometeu quando ainda traçava os gramados com seus passos inesquecíveis. E lamento por todos que sofrem desse mal e tratam de passar a vida sem admitir que sofrem de uma doença crônica e fatal. Fatal para os sonhos, os planos e, muitas vezes, como aconteceu agora com o Doutor, para o viver. Seguramente Sócrates queria viver mais, tinha planos, como andou informando através da imprensa. O que seria mesmo magnífico, a julgar por sua alma, sua essência, suas crenças, seu preparo, suas realizações.
Milhões de pessoas, muitas delas aqui, neste imenso Brasil, sofrem da mesma doença. São portadoras não de um vírus, mas de dependência química de
bebidas alcoólicas. Conhecida como alcoolismo, essa doença acomete as pessoas sem que elas possam prever e, considerando o incrível incentivo público ao consumo de bebidas alcoólicas, que deflagram essa doença, sem que possam se prevenir.
Livrar-se dela é possível, mas exige algo muito pouco provável para a maioria dos “addicts”, como vem se tornando comum chamar os dependentes em substâncias químicas: admiti-la. Nem mesmo o grande Doutor Sócrates conseguiu essa façanha, apresentando até o fim um dos principais sintomas de quem sofre dessa doença: reafirmar que se tem controle sobre o próprio consumo.
Em uma de suas últimas entrevistas, Sócrates assumiu o hábito e o gosto pela bebida, disse que era sua companheira e o ajudava a lidar com a timidez, mas não admitiu a doença, caracterizada pela incapacidade que o portador tem de controlar o consumo de uma substância que o tira do senso da realidade de modo a lhe proporcionar um nível exacerbado de prazer, ao qual ele se entrega fácil e involuntariamente. Tal situação faz com que o organismo sinta uma necessidade constante do consumo, que aparece mais ou menos fortemente, ou maior ou menor freqüência, a depender da substância química que cause a dependência, como o álcool, os analgésicos, os soníferos e outros produtos lícitos e ilícitos que
podem causar esse vínculo involuntário.
Essa dificuldade em admitir a doença, geralmente informando ser capaz de ficar longos períodos abstendo-se dela, faz com que o “addict” (viciado em inglês) passe a viver criando justificativas para garantir que têm o controle do consumo, num histórico recorrente de “tapar o sol com a peneira”, sempre regado por elevado consumo, claro. Porque quando o addict bebe, sai de baixo. Não há limite, não há fim, a não ser quando a bebida o nocauteia. Por isso, sem controle e sem admitir que consomem mais do que pode ser tolerável para o organismo, os addicts tornam-se alvo fácil para as doenças que lhes tiram a possibilidade de viver bem e de sobreviver também. Penso que talvez o fato de saberem que a única cura comprovada é alicerçada na abstinência total (ainda hoje a técnica do A.A. – Alcoólatras Anônimos) contribua para que os portadores desse mal tenham vontade de livrar-se dele.
Penso que é preciso buscar alternativas que equilibrem o intenso incentivo social que se faz ao consumo de bebidas alcoólicas (apoiado por governos, personalidades e empresas de muito dinheiro) ao incentivo a estudos que tragam novas possibilidades de tratamento. Seja químico, natural, farmacêutico, psicoterapêutico ou de que campo
possa surgir soluções que permitam que esses milhões de pessoas que a gente ama possam viver mais e melhor.
Penso que enquanto esse equilíbrio e soluções mais palatáveis não acontecem, a propaganda deva ser verdadeira, informando não só que é preciso beber com moderação, mas que as festas na praia, na piscina, na noite, que são apresentadas em qualquer * trazendo peshorário e mídia* soas de todas as classes sociais e idades bebendo em muita diversão, é regada a algo que pode – e muito, porque a incidência é grande – causar uma doença que não tem cura até hoje, apenas controle. E um controle muito exigente. Quis partilhar esse pensamento com os leitores do 360 neste dia dia triste para a família, os amigos e os fãs do Dr. Sócrates, esperando que o Timão consiga homenageá-lo com o título que disputa nesta tarde. O jogo já começou.
* O Caderno 360 não publica
anúncios de incentivo ao conconsumo de bebidas alcoólicas e não publica fotos de pessoas bebendo em sua famosa seção GENTE, que comumente publica fotos de pespessoas em festas e bares.