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Um choque no machismo e no racismo de Curitiba Para Carol Dartora, com sua sua eleição negros se veem nos espaços de poder

PARANÁ

Ano 5

Edição 238

18 a 24 de novembro de 2021

distribuição gratuita

Lian Voigt

Entrevista | p. 4

Esportes | p. 8

A felicidade bate à porta do Coxa Classificação para a série A veio com duas rodadas de antecedência

www.brasildefatopr.com.br Giorgia Prates

Vidas negras importam EDITORIAL: É CENTRAL ENFRENTAR O RACISMO SAÚDE: VÍRUS MAIS LETAL PARA OS NEGROS IMIGRANTES: VIDA DIFÍCIL EM CURITIBA PÁGS. 2, 4 E 5


Brasil de Fato PR 2 Opinião

Enfrentar o racismo, uma luta central EDITORIAL

O

dia 20 de novembro é uma oportunidade para refletir sobre o racismo que forja a construção do Brasil. Logo, também para estruturar políticas de reparação histórica. A desigualdade racial presente no acesso a trabalho, renda, educação e saúde exige políticas efetivas de combate à discriminação. Recentemente, diversos episódios de violência policial contra pessoas negras, casos de ofensas racistas no futebol foram colocados em evidência – como o que envolveu o jogador Celsinho, do Londrina, gerando indignação e exigindo tomada de posição por parte dos clubes e torcidas. Se, por um lado, isso mostra que há muito que se avançar em torno do tema, por outro, indica que o assunto está tomando mais o espaço público e constrangendo as instituições a agirem. O recente julgamento do STF

SEMANA

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reconhecendo injúria racial como crime imprescritível é uma demonstração disso. Apesar desse enquadramento penal ser uma medida limitada para enfrentar o problema, a posição indica que o racismo deve ser combatido de forma séria. Se um presidente da República faz declarações que estimulam a discriminação, como tem feito Bolsonaro, é preciso combater tal governo racista. Por isso, a luta contra o racismo é central em nosso país.

A desigualdade racial presente no acesso a trabalho, renda, educação e saúde exige políticas efetivas de combate ao racismo

Fórmulas empoeiradas e retórica vazia

OPINIÃO

Renato Almeida de Freitas,

vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Graduado e mestre em Direito pela UFPR. Pesquisador na área de Direito Penal, Criminologia e Sociologia da Violência. Integrante do núcleo Periférico. Escritor.

E

ntrei na Universidade no tempo em que o salário-mínimo era R$ 240, e o Restaurante Universitário era R$ 1,30. Não tinha bolsa permanência, cotas raciais ou sociais. Até os mais progressistas dos estudantes saíram às ruas quando foram ameaçados pelas cotas. Lembro hoje que a gestão (2004 ou 2005) do DCE (rachada, façase justiça) fez panfletos, passeatas e eventos para demonstrar os motivos pelos quais as cotas (ao menos a ‘racial’) não deveriam ser implementadas. Lembro que um dia estava eu curtindo um Rap no Centro Acadêmico de Ciências Sociais, meu curso, e entraram os dois representantes maiores da “esquerda” na salinha. Ouviram um ou outro verso do Facção Central e não tardaram a rir. “Esse é o historiador do grupo”, disse um em tom jocoso, “e esse é o cientista social”, retrucou o segundo “militante” das causas so-

ciais. Fiquei de cara, mas abri meu sorriso amarelo. O espaço era deles, afinal eu não tava do lado de lá da ponte, nas margens da BR-116, em Colombo (minha casa na época). Mas fiquei profundamente desapontado, eles riram das minhas principais referências teóricas, riram dos meus primeiros esquemas de compreensão do mundo, sobretudo do MEU mundo. Riram como se não fôssemos nada, riram como se não fosse ter virada. Abandonei o curso no segundo ano para trabalhar, já que era só diurno, só para quem não precisava ter a tal da CTPS registrada. Hoje, sempre que vejo o movimento estudantil e suas lideranças, romantizando a pobreza e a fudição, com suas vanguardistas fórmulas empoeiradas, sua retórica vazia de sentimento e cheia de “radicalismo”, lembro daqueles dois manés, e compreendo as razões da ‘esquerda’ não representar sequer 2% da vontade popular nos momentos de disputas institucionais, e menos que isso na realidade cotidiana de quem tá jogado no centro da exclusão. Como diz o Mano Brown, playboy bom é chinês e australiano...

EXPEDIENTE Brasil de Fato PR | Desde fevereiro de 2016 O jornal Brasil de Fato circula em todo o país com edições regionais em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Paraná. Esta é a edição 238 do Brasil de Fato Paraná, que circula sempre às quintas-feiras. Queremos contribuir no debate de ideias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais. EDIÇÃO Frédi Vasconcelos e Pedro Carrano REPORTAGEM Ana Carolina Caldas, Gabriel Carriconde e Lia Bianchini COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Fernan Silva e Renato Almeida de Freitas ARTICULISTAS Fernanda Haag, Cesar Caldas, Marcio Mittelbach e Douglas Gasparin Arruda REVISÃO Lea Okseanberg, Maurini Souza e Priscila Murr ADMINISTRAÇÃO Bernadete Ferreira e Denilson Pasin DISTRIBUIÇÃO Clara Lume FOTOGRAFIA Giorgia Prates e Gibran Mendes DIAGRAMAÇÃO Vanda Moraes CONSELHO OPERATIVO Daniel Mittelbach, Fernando Marcelino, Gustavo Erwin Kuss, Luiz Fernando Rodrigues, Naiara Bittencourt, Roberto Baggio e Robson Sebastian REDES SOCIAIS www. facebook.com/bdfpr CONTATO pautabdfpr@gmail.com


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Geral

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FRASE DA SEMANA

Servidores da Adapar aprovam greve Os funcionários da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) aprovaram greve a partir do dia 22 de novembro caso a direção da agência mantenha a proposta de plano de carreira entregue em projeto de lei à Secretaria da Agricultura. A deliberação pela greve foi aprovada em assembleia virtual em 16 de novembro. O Sindicato dos Médicos Veterinários do Paraná e o Sindicato Técnicos Agrícolas de Nível Médio do Paraná também devem aderir à paralisação, após reunião específica. A paralisação ocorre porque o anteprojeto de lei, “APL feito pela Direção da Adapar”, não contou com a participação e aprovação da categoria. Por isso, os servidores irão buscar apoio junto a deputados estaduais para apreciarem o “APL dos Servidores”, com redação aprovada quase por unanimidade na categoria. O APL dos servidores promove adequações e atualizações na lei que criou a carreira da Adapar. Eles solicitam melhorias na remuneração, pois, além de não terem a reposição da inflação acumulada, 29,52%, recebem quase metade do que o Estado de Santa Catarina paga, sendo o maior concorrente nas exportações do agronegócio. Em comparação a outros estados, o salário dos servidores da Adapar está em 8º lugar, abaixo de estados que não possuem relevância para o agronegócio nacional.

“Que ‘jornalismo’ é esse? ... em que o primeiro colocado nas pesquisas sendo aclamado na Europa não é notícia, mas a filiação de um dos lanterninhas é?”

COLUNA DA

JUVENTUDE Quem samba fica

Questionou a jornalista Cynara Menezes, sobre a cobertura da velha mídia ao discurso do ex-juiz Sérgio Moro em sua filiação a um partido e por esconder que Lula discursou no Parlamento Europeu e foi recebido pelos principais líderes do continente.

Divulgação

NOTAS BDF

Por Frédi Vasconcelos

É a fome Relato publicado na BBC Brasil, de uma professora da rede pública do Rio de Janeiro, é chocante e mostra o crime da volta da fome no Brasil. Uma aluna de 8 anos, negra, chegou mal à sala de aula: “Ela sentou e abaixou a cabeça na mesa. Eu estranhei e chamei à minha mesa. Ela veio e eu perguntei se ela estava bem. Ela fez com a cabeça que estava, mas com aquele olhinho de que não estava. Perguntei se ela tinha comido naquele dia, ela disse que não... Fui pegar algo para ela na minha mochila - porque eu sempre levo um biscoitinho ou uma fruta para mim mesma. Mas não deu tempo. Ela desmaiou em sala de aula”, contou.

Passeio em Dubai-Doha Presidente do país da menina que passa fome, Bolsonaro esteve nesta semana no Oriente Médio. Em Dubai hospedouse num hotel cuja diária custa R$ 45 mil. Disse no vídeo cafona em que mostra o quarto que quem pagou a hospedagem foram seus anfitriões, mas não se referiu aos custos do avião presidencial e das dezenas de acompanhantes que levou para o turismo oficial. Depois foi para o Catar. Lá, na quarta-feira (17), sem compromisso oficial, foi participar de uma motociata pelas ruas de Doha.

EDITAL DE CONVOCAÇÃO DA DÉCIMA ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DA COOPERATIVA DE COMERCIALIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA UNIÃO CAMPONESA A Cooperativa de Comercialização e Reforma Agraria União Camponesa- COPRAN, através de seu presidente, Sr. Alencar Hermes, em cumprimento às disposições legais (Lei n° 5.764/1971 e Lei nº 14.030/2020) e estatutárias no uso de suas atribuições, CONVOCA os seus associados para participar da Décima (10ª) Assembleia Geral Extraordinária, a ser realizada no dia 29/11/2021, às 09:00, em primeira convocação, às 10:00, em segunda convocação, e às 11:00 horas em terceira e última

convocação. No Centro Comunitário do Assentamento Dorcelina Folador, situado na Estrada Araguari KM-06. CEP 86.700970, com a seguinte ORDEM DO DIA: 1) Inclusão de novos códigos e descrições das atividades econômicas principais e secundárias da cooperativa. Arapongas, 17 de novembro de 2021 Alencar Hermes Presidente

Nos momentos de crise, ataque e extermínio do povo, se levantam lutadores e lutadoras que não só simbolizam, mas são a síntese das lutas que travamos. Marielle, Marighella... Com a estreia do filme de Wagner Moura, vieram críticas e polêmicas como: “O ator é mais preto do que deveria” e “Camarão na quentinha do MTST”. Talvez não entenderam ou têm medo do papel histórico de um filme, como estamos no Brasil, a terra das contradições, convivemos com essas ideias. Só que nós não vamos parar. Se a prática é um critério para a verdade, me sinto parte de um acerto histórico, na luta organizada, no Levante Popular da Juventude, movimento que surgiu fazendo escrachos contra torturadores, o último na Prevent Senior. Com o filme, a gente pôde fazer várias intervenções em salas de cinema pelo Brasil, participamos de exibições em territórios da reforma agrária e organizamos exibições nos lugares onde atuamos. É com as pessoas que as ações de luta e propagação da ideia libertadora, fazem sentido. Não viemos a este mundo para sofrer nem ser capacho de países imperialistas não é? A chama que acende a luta é a indignação. Por isso levar a história de resistência de Marighella é um compromisso com nossa própria história. Fernan Silva é militante do Levante Popular da Juventude e pesquisador na área de arte e linguagem


Brasil de Fato PR 4 Entrevista

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“Um choque na estrutura desta sociedade historicamente machista e racista” Para a vereadora, seu mandato desencadeia ações positivas na reorganização da sociedade, na direção do combate ao racismo e da promoção da igualdade racial Pedro Carrano

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arol Dartora é a primeira vereadora negra da história de Curitiba. Em entrevista ao Brasil de Fato Paraná, aponta como, a exemplo do que aconteceu em várias cidades, em que pese as reações dos setores racistas, a presença de uma mulher negra em um espaço de poder desencadeia ações contra o racismo, gera o envolvimento de jovens negros e negras no mandato – em um efeito mobilizador como não se havia visto naquele espaço. Brasil de Fato Paraná - Qual a avaliação e quais medidas o seu mandato tem tomado contra os ataques racistas, que aconteceram no período da sua posse e ainda ocorrem nas redes sociais? Carol Dartora – Infelizmente, esses ataques que eu tenho recebido são estimulados pela irracionalidade que tomou conta do nosso país com a chegada do bolsonarismo ao poder. Assim como esses ataques, o bolsonarismo também é irracional. Temos feito a exposição dessas situações, pois é importante para denunciar para a sociedade que a gente não tolera mais essa violência que ameaça nossas vidas e nossos direitos. Outra coisa é o registro às autoridades para que cada caso seja investigado, e os responsáveis puni-

dos. Lamentavelmente ainda não tivemos êxito na identificação dessas pessoas, pois elas se escondem atrás de perfis falsos e outros recursos tecnológicos que, segundo as autoridades, dificultam a investigação. Mas acredito que é uma questão de tempo para que esses criminosos sejam localizados. Seu mandato envolve jovens negros e negras, qual a relação disso com a mobilização e com a organização popular? A partir do momento que as pessoas negras veem uma mulher negra, professora de História, dirigente sindical, terceira candidata mais votada da cidade, ocupando uma cadeira na Câmara, elas entendem que aquele lugar também é delas. Isso é muito simbólico e tem um poder incrível que nós não temos condições de mensurar, pois desencadeia inúmeras ações positivas na reorganização da sociedade, na direção do combate

Agora é a vez da pauta dos jovens, dos negros e negras, da classe trabalhadora, das minorias políticas serem representadas na Câmara

ao racismo e da promoção da igualdade racial. É um choque na estrutura desta sociedade historicamente machista e racista. Durante a campanha eleitoral a gente dizia assim: Curitiba nunca teve uma vereadora negra. Não reproduza essa história. Agora é nossa vez! Então é sobre isso. Agora é a vez da pauta dos jovens, dos negros e negras, da classe trabalhadora, das minorias políticas serem representadas na Câmara. Do ponto de vista da mobilização e da organização popular, isso nos aproxima da busca pela cidade que queremos, uma cidade que seja para todas e todos, não apenas para alguns. Mas não queremos que esse agora dure apenas quatro anos, mas que represente uma mudança permanente. Seu mandato busca também cumprir um papel nas questões nacionais? Na última eleição a bancada do PT teve crescimento importante para a cidade de Curitiba, especialmente para a população que não é atendida em suas necessidades por essa gestão higienista que governa a cidade. Com três vereadores (atua ao lado de Renato Freitas e Professora Josete, do PT), temos mais força para fazer os debates que precisam ser feitos, nos temas que perpassam diversas políticas em que a população negra é a mais afetada,

como o problema da falta de moradias, da assistência às pessoas em situação de rua, a violência contra as mulheres e outros que não são prioridades para a atual Prefeitura. Ao abordar esses temas, é inevitável falar também do que acontece em Brasília, afinal nosso país passa por desmonte de todas as políticas públicas que na última década, durante os governos Lula e Dilma, tiraram o nosso país do mapa da fome. Então é preciso denunciar essa necropolítica do Bolsonaro. No mês da Consciência Negra, quais os desafios para o movimento negro? Nossa luta é ancestral e os desafios ainda são os mesmos de sempre. Mas neste momento político e social que estamos vivendo no Brasil, temos uma pauta comum que é derrotar o bolsonarismo. Essa ideologia representa uma ameaça constante às nossas vidas, aos nossos direitos e às nossas conquistas dos últimos anos. Para além disso, precisamos continuar caminhando na luta pela efetivação de políticas públicas que promovam igualdade racial agora, como é o caso das cotas nos concursos públicos, projeto que o nosso mandato apresentou para Curitiba e tramita na Câmara Municipal. O que a gente quer não é nenhum favor, não é esmola. Queremos apenas justiça, ou seja, tudo aquilo que nos foi roubado.


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Brasil

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Pandemia escancarou preconceito e atendimento inadequado na saúde Relatos mostram discriminação à população negra no atendimento contra a Covid Giorgia Prates

Ana Carolina Caldas

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leonice Gonçalves trabalhou desde jovem como empregada doméstica e teve sua vida abreviada pela Covid-19, sendo a primeira vítima fatal da doença no Brasil. Ela dormia no emprego, no Leblon, Rio de Janeiro, e foi contaminada pela patroa que voltou de uma viagem para a Itália e, mesmo com sintomas, não fez isolamento nem dispensou a funcionária, que veio a morrer em 16 de março de 2020. Naquele momento o Ministério da Saúde ainda não contabilizava casos e mortes por indicadores de raça e cor. Isso só aconteceu em abril, após pressão do GT Racismo e Saúde, da Coalizão Negra e da Sociedade Brasileira de Médicos de Família e Comunidade. Com a divulgação dos dados dos infectados e mortos incluindo raça/cor, foi possível acompanhar o vírus se alastrando rapidamente pe-

Legenda

las periferias e ficou evidente que a pandemia foi muito mais letal para a população negra. Levantamento do IBGE, em 2020, mostrou que mulheres, negros e pobres foram os mais afetados. A cada dez pessoas que relataram mais de um sintoma da Covid-19, sete eram pretas ou pardas. Outro estudo realizado pelo Raça e Saúde Pública mostrou que, em 2020, o excesso de mortalidade foi de 28% entre pretos e pardos em comparação com 18%

entre pessoas de cor branca. São 36 mil óbitos a mais entre pessoas de cor preta e parda em relação às brancas. Em todas as faixas etárias, pessoas pretas e pardas morreram mais. A pandemia escancarou o que já era sabido, a desigualdade do acesso à saúde tanto privada como pública. Mas não são só números, mulheres e homens negros sentiram na pele o preconceito e a dificuldade do atendimento na saúde. A diarista Marilde Camargo, moradora

de Fazenda Rio Grande, relata que só foi saber que havia contraído o vírus quando passou para seu filho. “Fui ao hospital e me mandaram de volta dizendo que eu estava com gripe. Eu sentia falta de ar, falei para eles, mas a impressão sempre é que a gente não é levada a sério”, conta. “Aí meu filho ficou ruim, conseguiu fazer o teste porque o patrão dele pediu e estava com Covid”, diz. Volta para casa sem atendimento Caso semelhante foi da fotojornalista Giorgia Prates, que contraiu duas vezes o vírus e disse que teve medo de morrer devido à falta de atendimento e ao preconceito. “Comecei a não conseguir falar, ter suadouro e fui para o hospital. Fiz a triagem e, quando entro para ter a avaliação com a médica, ela perguntou o que eu tinha, eu disse que achava que estava com Covid. Na hora, começou a gritar para que eu paras-

Falta execução de políticas públicas No momento mais crítico da pandemia, em 2020, o secretário de Saúde do Paraná, Beto Preto, foi questionado, em audiência na Assembleia Legislativa, sobre atenção à população negra na pandemia após surto de Covid-19 em uma das comunidades quilombolas do estado. Ele se limitou a dizer que estariam incluindo a população negra, via decreto, como de risco para o vírus e continuariam monitorando. Para Teresa Mendes, do movimento negro do Paraná e integrante do Conselho Municipal de Igualdade Racial de Londrina, a pandemia só escancarou mais o quanto a po-

pulação negra não é priorizada nas políticas púbicas. “Sem estruturar o SUS pensando nesta população, não vai ter mudança”, diz. Teresa destaca que existe um Plano Nacional de Saúde integral da População Negra aprovado em 2009 que precisa ser executado. “A população negra tem especificidades. E esse plano precisa ser implementado. São poucos os municípios que estão empenhados em tirar do papel o plano. Por exemplo, está incluída lá a capacitação dos profissionais da saúde para atender esta população, que inclusive tem doenças específicas,” explica. Dados da Pesquisa

Nacional de Saúde (PNS) apontam que a população negra apresenta prevalências maiores de hipertensão (44,2%) e diabetes (12,7%) comparada à população branca (22,1% e 6,2%). O mesmo acontece em relação a doenças cardíacas (7,0%), à asma (8%). A redação do Brasil de Fato Paraná entrou em contato com a Secretaria Estadual de Saúde questionando se no Estado há orientação aos municípios sobre a execução da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Até o fechamento da matéria, não houve resposta.

se de falar e saísse da sua sala. Ela chegou também a brigar com a enfermeira e pediu que me isolasse. A enfermeira disse que eu não tinha nada e que não me isolaria.” Giorgia voltou para casa, mas na mesma noite se sentiu ainda pior e buscou atendimento numa unidade de pronto atendimento. Lá, ela e sua companheira esperaram 6 horas, e não foram atendidas. “Eu achei que ia morrer ali. Toda hora a gente ia perguntar quando seria atendida, via pessoas com menor gravidade sendo atendidas. Depois de mais de 6 horas, outra moça negra foi questionar sobre quando seria atendida. Ali me dei conta de que as duas pessoas pretas que ali estavam não eram prioridade. Entendi que cor eles estavam priorizando.” Mais uma vez, Giorgia voltou sem ser atendida e acabou sendo orientada a distância pela irmã, profissional de saúde, e se tratou em casa.

DOENÇAS

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS)

Pop. Negra

Pop. Branca

hipertensão

44,2%

12,7%

Diabetes

22,1%

6,2%


Brasil de Fato PR 6 Cidades

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Imigrante negro relata dificuldades e racismo em Curitiba

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Conseguir documentos, emprego e moradia são alguns dos desafios de quem chega à capital, sobretudo haitianos Gabriel Carriconde

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e acordo com dados do Ministério da Economia e do Trabalho, nos últimos dez anos o número de imigrantes em Curitiba praticamente triplicou. Desse número, quase 40% são formados por haitianos, com também a presença de argentinos, paraguaios, portugueses, chilenos e venezuelanos, que vêm para a cidade em busca de uma vida melhor. Esse é o caso de Wilnar Ro-

sier, 34 anos, formado em Turismo, e que está desde 2011 no Brasil. Haitiano, oriundo da cidade de Gonaives, quarta maior cidade do país, entrou em solo brasileiro via fronteira do Acre, como muitos de seu país, que vieram para cá em busca de oportunidades e para fugir das dificuldades, de um Haiti assolado por pobreza generalizada e catástrofes naturais como terremotos que assolaram a capital, Porto Príncipe. Wilnar conta que quando Giorgia Prates

veio para o Brasil, instalou-se primeiramente em Porto Alegre e, depois, em Curitiba, onde está há oito anos, mas que já viajou por outras partes do Brasil. “Passei pelo Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Salvador, muitos lugares antes de chegar aqui.” Rosier mora em uma ocupação urbana, na Vila União, no Tatuquara, em Curitiba. “Se não fosse por Deus e essa ocupação, estaria morando na rua, está muito difícil para conseguir emprego.” O turismólogo sofre do mesmo problema de diversos imigrantes que chegaram no país, mas que precisam renovar seus documentos e enfrentam atrasos na Polícia Federal para os agendamentos. “Sem os documentos, não consigo trabalhar, e com a pandemia minha situação financeira piorou”. Wilnar tem uma filha de 11 anos que deixou no Haiti, e mesmo formado em Turismo, está buscando fazer outra faculdade. “Já faz um bom tempo que não consigo enviar dinheiro para minha filha por conta das dificuldades que estamos passando”, revela. Rosier está desde março tentado renovar sua documentação, mas não consegue resposta por parte da Polícia Federal, em Curitiba.

Dificuldades com documentação é maior Para a secretária regional da Cáritas, confederação de 165 organizações humanitárias da Igreja Católica que atua em mais de duzentos países, Márcia Ponce, com a pandemia as dificuldades para vários imigrantes conseguirem renovar seus documentos pioraram. “Nos últimos tempos, frente à pandemia, as dificuldades aumentaram sobretudo no Paraná, temos relatos de agendamentos para junho do ano que vem. Esta-

mos lidando com número muito reduzido de atendimentos.” Além da dificuldade burocrática, vários imigrantes também esbarram na empregabilidade. Rosier revela que já passou por situações de constrangimento em algumas empresas. “Já fui impedido de me candidatar em uma vaga por ser haitiano, a empresa disse que não era racismo da parte deles, mas dos clientes que eles atendem”, conta.

Seu caso não é isolado. Márcia Ponce conta que a Cáritas vem recebendo diversos relatos parecidos com o de Rosier, uma situação que, segundo ela, tem a ver com o aumento de grupos de ódio no Brasil e em Curitiba. “Isso é resultado desse movimento que temos no mundo, e mais especificamente no Brasil, fascista de ódio, e quem tem se intensificado.” Ela ainda lembra que, como Rosier, muitos chegam ao Bra-

sil com qualificação, mas acabam tendo diversas dificuldades para revalidar seu diploma. “Você tem pessoas extremamente capacitadas que chegam aqui, e o Brasil não investe um centavo. Temos uma dificuldade enorme para revalidar os diplomas no país. Estamos fazendo um processo de sensibilização com as empresas e o MPT para mostrar para as empresas a importância de se abrirem para a questão da diversidade.”


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Brasil de Fato PR Cultura

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Políticas afirmativas contribuíram para avanço do cinema negro no Brasil, diz diretora de festival Festival Internacional quer promover a descolonização do mercado audiovisual e do cinema brasileiro Thaylane Cristina

Ana Carolina Caldas

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segunda edição do Festival Internacional do Audiovisual Negro do Brasil (FIANb) está em cartaz até o dia 20 deste mês, em formato híbrido – com atividades presenciais no Centro Cultural SP e online, com acesso gratuito, via plataforma de streaming TodesPlay e pelo canal no YouTube do evento, que é realizado pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Conta com mostra audiovisual, laboratório de desenvolvimento de projetos e mesas de debates. O evento também visa à reflexão sobre os caminhos da produção audiovisual negra no Brasil. O Brasil de Fato Paraná conversou com diretora artística do FIANb, Tatiana Carvalho Costa, sobre o festival e a respeito dos avanços e desafios do cinema negro no Brasil. Tatiana é profes-

sora universitária de cinema e doutoranda, pesquisadora sobre cinemas negros. É também conselheira da região sudeste da Associação

dos Profissionais do Audiovisual Negro e diretora artística do Festival Internacional do Audiovisual Negro do Brasil. Confira ao lado.

DICAS MASTIGADAS | Sopa de abóbora

Ingredientes 1 kg de abóbora orgânica já descascada 1 ½ cebola orgânica branca ½ maço de salsinha 2 galhos de erva cidreira / capim santo 1 colher (sopa) sumo de gengibre Sal a gosto

Reprodução

A cada semana, publicamos receitas com produtos agroecológicos da rede colaborativa Produtos da Terra, da Sinergia Alimentos Saudáveis e da Rede Mandala. Parte dos ingredientes pode ser encontrada no site produtosdaterrapr.com.br

Modo de Preparo Coloque todos os ingredientes em uma panela, acrescente água suficiente para cobrir toda a abóbora e leve ao fogo, com a panela tampada. Quando estiver bem cozida, com a abóbora bem macia e a cebola transparente, tire o galho da erva cidreira/capim santo, descarte, e bata todo o conteúdo no liquidificador até ficar um creme homogêneo. Coloque de volta na panela e deixe apurar um pouco, depois é só servir com um fio de azeite de oliva ou azeite de licuri.

Brasil de Fato Paraná Gostaria que você contasse sobre a organização e a história do FIANb e os desafios para colocar o evento na rua. Tatiana Carvalho Costa - O festival é um desdobramento de um seminário realizado pela Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro. A associação tem como objetivo ampliar a presença de profissionais negros, negras, negres no audiovisual e no cinema brasileiro. A gente se entende como um movimento negro de ação política e o festival é uma das nossas ações. A proposta é promover formação e fomento para ampliar e fortalecer a presença das pessoas negras no mercado nacional e internacional. Além disso, essas ações do festival têm objetivo de promover a descolonização do mercado e do imaginário da sociedade brasileira que é bastante centrado na ideia de um sujeito universal e marcado por vivências brancas, sobretudo da classe média e do Sudeste. Ou a partir do Sudeste, o que acaba exotizando o resto do país. O cinema negro tem acontecido muito pela organização independente. Como você vê a indústria em relação a esse movimento? Desde 2016, a gente vê um crescimento muito grande de festivais dedicados ao audiovisual negro e alguns com alguma interseção negro/indígena no Brasil, com concentração gran-

de no Nordeste. Isso é fabuloso e de fato são realizações que vêm, por exemplo, de universidades ou organizações independentes com algum apoio público. São iniciativas maravilhosas, mas ainda insuficientes. Ao mesmo tempo, a gente olha para esse aumento de festivais e também de filmes produzidos por pessoas negras, e entende que é reflexo de um processo das últimas duas décadas, notadamente nas gestões de Lula e Dilma, que implementaram ações afirmativas na educação e na cultura. Essas políticas, sem dúvida, criaram um horizonte de desejos para que a juventude negra pudesse se ver ali. Já impactou uma geração jovem que se vê como possibilidade. Diferente da minha geração, jovem na década de 90, que cresceu sem muita perspectiva. Agora, infelizmente, a lei de cotas está para ser renovada, e estamos pessimistas frente a esse desmonte que este desgoverno está empreendendo. Uma coisa em que este governo é competente é para destruição, e estamos vendo ainda destruição de políticas públicas que aumentaram a presença de pessoas negras em diversos setores da sociedade e o cinema é uma delas.

Programação Online https://www.fianb.com. br/programacao Canal do YouTube da APAN e Plataforma TodesPlay


Brasil de Fato PR 8 Esportes

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Classificação duas rodadas antes do fim da série B Redação

O Coritiba subiu matematicamente para a Série A do Brasileirão após vencer o Brasil de Pelotas no domingo, 14, e ver o CRB ser derrotado pelo Brusque no dia seguinte. Com 64 pontos, vice-líder da competição, tem matematicamente a vaga garantida entre os quatro primeiros da competição, que sobem para a Série A em 2022. A outra vaga já decidida é do Botafogo, atual líder. Agora, a briga do Coritiba é pelo tricampeonato da Série B. Ainda enfrentará o CSA (casa) e Ponte Preta (fora). O Botafogo enfrentará o Brasil de Pelotas (fora) e o Guarani (casa).

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Coritiba: dias felizes estão de volta Em 40 participações do Coxa na Série A, em 17 o time esteve entre os 12 primeiros colocados Divulgação

Caso Neves – parte 2 Por Marcio Mittelbach

O Paraná se viu obrigado a pagar uma dívida de R$ 40 milhões quando a Justiça deu ganho de causa para o empresário Leo Rabello referente ao caso Thiago Neves. Após negociação, o valor baixou para R$ 10 milhões, em 2013. Foi o estopim para a venda da Sede do Tarumã. Dos R$ 27 milhões arrecadados no leilão, 10% foram destinados para amortização da dívida com Rabello. Mas o pagamento ficou por aí. Em 2015, a dívida já tinha voltado à casa dos 36 milhões. Em 2016, depois de nova negociação, o Paraná renegociou a dívida para R$ 4,5 milhões. Mais da metade foi paga com dinheiro emprestado pelo mecenas Carlos Werner, que não recebeu por esse e outros empréstimos, e por isso ganhou na Justiça a posse do CT Ninho da Gralha. Semana que vem, no terceiro e último texto sobre o Caso Neves, a gente fala sobre a situação atual do caso e faz uma reflexão sobre essa história toda.

Por mais esta taça! Por Douglas Gasparin Arruda

Enfi m a fi nalíssima da Sul-Americana está chegando, mas infelizmente negando tudo que nos faz sul-americanos. A fi nal em jogo único é um equívoco retumbante e típico de uma mentalidade que só acha bonito o espelho da Europa. Dentre todos os argumentos críticos possíveis, o econômico é o que grita mais alto. Em que nível de descompasso social estão os mandatários da Conmebol para estipular um ingresso mais caro que o da Champions League? Os ingressos de Chelsea x Manchester City partiram de R$ 451, enquanto a torcida do Furacão vai precisar desembolsar no mínimo R$ 550 para entrar no Monumental. Mas, apesar das várias decisões lamentáveis, é empolgante ver o Athletico chegar para a decisão num ótimo momento do ano, apresentando um futebol que deixa a torcida otimista. Que venha(m) o(s) bi(s)!

Cesar Caldas

“H

appy days are here again”. É tempo de deixar as preocupações para trás e eliminar o estresse. Um novo estado de espírito: reencontrar e cultivar amizades, curtir a vida esportiva outra vez. Sair da concha, não hesitar. Participar! Todos os versos acima são da música do CHIC “Good Times”, cuja linha de baixo é das mais sampleadas da história da música: você a encontra em canções de bandas de rock como Queen, The Clash e INXS, no primeiro “hip-hop” de que se tem notícia (Rapper’s Delight, 1979) e até no maior sucesso de Gabriel O Pensador, por exemplo. É com tal ânimo que 2022 deve ser encarado pelos 17.800 sócios alviverdes, 1,2 milhão de torcedores, seus funcionários, atletas e a eficiente diretoria, após o clube assegurar vaga no Campeonato Brasileiro da Série A. Em suas 40 participações na competição (criada há 50 anos), em 17 ocasiões o Coritiba “furou” o chamado G-12 (os grandes de SP, RJ, MG e RS): foi campeão (1985), 3º colocado (1979), 4º (1980), duas

vezes 5º (2003 e 1972), 6º (1998), três vezes 8º (2011, 1984 e 1973), duas vezes 9º (2008 e 1976), 10º (1971), duas vezes 11º (2013 e 2002) e três vezes 12º (2004, 1998 e 1997). Foi também o melhor (13º) dentre os clubes que não integram aquela “elite do eixo” em 2012 e 1999. Vem aí igualmente a Copa do Brasil (28ª participação alviverde em 32 possíveis) O clube foi semifinalista em cinco ocasiões (1991-2001-2009-2011-2012) e, nestas duas últimas, chegou às finais. Para obter o esperado sucesso, o estádio do Alto da Glória espera maciça presença de público nos jogos e espetáculos musicais no pós-pandemia. Lindo, seguro, adaptado e reequipado, tornouse opção única das cinco big players do mercado de espetáculos para públicos próximos de 40 mil pessoas em Curitiba. As três paulistas e duas cariocas já nem consultam preços e condições logísticas dos outrora “concorrentes”: Baixada e Ópera de Arame. Só para incluir duas outras mensagens de otimismo da célebre canção “disco” do CHIC: “queremos o melhor” e “vamos balançar” – no caso, as arquibancadas do Couto.


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