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Ano IV - Nº 68 - Março de 2018

Conectados em Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes LGBTI

PELAS ASAS DE MAAT: a luta por justiça e liberdade 1 a partir das mulheres encarceradas no Ceará Franciane Oliveira e Iara Fraga - Inegra, Ceará.

O texto apresentado busca partilhar os caminhos feitos por integrantes do 2 Instituto Negra do Ceará (INEGRA) nos últimos três anos junto com as mulheres que foram capturadas pelo sistema de (in) justiça brasileiro, mais precisamente aquelas que se encontram em privação de liberdade, em cumprimento de penas alternativas ou de alternativas penais. Essas andanças têm início no ano de 2014 quando acompanhamos o caso grave de racismo institucional vivido por Mirian França, doutoranda, carioca, que há época foi a única presa, acusada do homicídio da italiana Gaia Molinari. Todo o processo de intervenção da segurança pública e do judiciário foi carregado de racismo, homofobia e sexismo. Após a liberação e retorno de Miriam ao seu Estado decidimos visibilizar os vários outros casos de violência e racismo institucional que mulheres em situação de aprisionamento passavam. Foi então que “a Inegra”3 passou a realizar semanalmente formação política com as mulheres do Instituto Penal Feminino Des. Auri Moura Costa (IPF), situado na região metropolitana de Fortaleza. Pouco tempo depois passamos a realizar as formações com mulheres da Central de Alternativas Penais (CAP) e em cumprimento de penas alternativas no Centro de Educação de Jovens e Adultos Paulo Freire (CEJA Paulo Freire). Os

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objetivos principais das formações eram problematizar, a partir da educação popular feminista, o cotidiano daquelas mulheres. Visibilizar e encontrar os entrecruzamentos das opressões raciais, patriarcais e de classe vividas por elas, que também eram vividas por nós.As temáticas étnico-raciais, relações de gênero e patriarcais e as contradições do modo de vida capitalista estavam presentes nos nossos encontros. Além das músicas, tambores, capoeiras, danças e poesias. Com todos os grupos as situações de racismo, de violência policial e de trajetórias marcadas por violação de direitos desde a infância, foram regra. Podemos compreender melhor sobre essas questões a partir de alguns autores que abordam acerca do racismo institucional, que são (SOUZA, 2010; MOORE, 2007; LÓPEZ, 2012; EURICO, 2013; WERMUTH e ASSIS, 2016). Esses autores explicitam no seu aporte teórico sobre a violência vivenciada cotidianamente pela população negra através das abordagens das autoridades do sistema de justiça, como também na seletividade prisional atrelada a “cor da pele”, deste modo, configurando-se então no racismo implícito, resultando no aprisionamento em massa, composta majoritariamente de sujeitos oriundos de

situação de vulnerabilidade social extrema. E esse processo de seletividade e segregação acaba por fazer parte da pessoa em privação de liberdade. *********** 1.

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Este texto recebeu menção honrosa na I Jornada Nacional Sobre Racismo Institucional, ocorrida na Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro em março, 2018. A INEGRA é uma Organização NãoGovernamental feminista, anti-racista e anticapitalista, cujo projeto político é lutar contra o preconceito e a discriminação racial, sexista e de classe, fortalecendo a construção afirmativa da identidade da mulher negra e propondo políticas públicas que contribuam para a promoção da igualdade de gênero, raça e classe. No decorrer do texto vamos chamar “o” INEGRA” por “a” INEGRA, acompanhado de um artigo definido feminino, isso se deve ao fato de que nos momentos de formação política no Instituto Penal Feminino Desa. Auri moura Costa, as educandas às chamavam o INEGRA por a INEGRA, sendo assim, feminizando nossa organização. Desde então, passamos a nos chamar por “a” INEGRA.

EXPEDIENTE COORDENAÇÃO Lídia Rodrigues SECRETÁRIA EXECUTIVA Suely Bezerra ASSESSORES DE CONTEÚDO Paula Tárcia

Rodrigo Corrêa Rosana França DIAGRAMAÇÃO Tatiana Araújo

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Vale salientar que, para Moore (2007), é errônea a concepção de que o racismo é ideológico, uma vez que os novos estudos demonstram que é uma construção histórica. Tal mudança de perspectiva demanda a adoção de novas bases epistemológicas para se compreender o problema. Em sua abordagem, tanto o racismo quanto o sexismo são, diferentemente de outros preconceitos, atemporais, universais e transversais, não obstante as diferenças que existem entre eles. Segundo o autor, o racismo se explica pela necessidade da posse e manutenção dos recursos vitais, dos privilégios materiais o que, nas sociedades contemporâneas, podem ser expressos em acesso a saúde, educação, moradia e outros benefícios sociais. Tal concepção histórica do racismo traz instrumentos que ajudam a elucidar os elementos estruturais de subordinação interseccional e a pensar novos modos de enfrentamento. A função básica do racismo é de blindar os privilégios dos segmentos hegemônicos da sociedade, cuja dominância se expressa por meio de um continuum de características fenotípicas, ao tempo que fragiliza, fraciona e torna impotente o segmento subalternizado. A estigmatização da diferença com o fim de “tirar proveito” (privilégio, vantagens e direitos) da situação assim criada é o próprio fundamento do racismo. Esse nunca poderia separar-se do conjunto de processos sistêmicos que ele regula e sobre os quais preside tanto em nível nacional quanto internacional (MOORE, 2007, p. 284. Grifos do autor). Um ponto relevante a ser destacado é o papel do sistema de justiça, do Direito Penal, Segundo Wermuth e Assis (2016), é um mecanismo de legitimação da ordem hegemônica vigente, do qual pode-se constatar por meio da criminalização primária e secundária, evidenciando a concepção de um Direito Penal, dito como justo e igualitário não passa de uma premissa falaciosa. O exemplo disso é a composição da massa carcerária, ou seja, o perfil que à compõe. Muñoz Conde acrescenta que “o Direito Penal não protege por igual todos os cidadãos;

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tampouco a lei penal é igual para todos, nem o status de criminoso se aplica por igual a todos os sujeitos independentemente da danosidade social e da gravidade das infrações.” (MOÑOZ CONDE, 2005, p. 31). Diante do exposto indagamos: a quem esse sistema de “justiça” protege e interessa? O fato é que a prisão incide cruelmente sobre a vida daqueles que já se encontraram abrigados entre seus muros de concretos. Ou seja, o encarceramento não propicia um retorno saudável das pessoas ao convívio social. A passagem pelo sistema prisional deixa marcas indeléveis no corpo, na trajetória de vida e na estrutura psíquica dos encarcerados. De acordo com Foucault (2013, p. 216), “a prisão longe de transformar os criminosos em gente honesta, serve apenas para fabricar novos criminosos ou para afundá-los ainda mais na criminalidade”. A prisão acaba por produzir a própria delinquência pois, uma vez fichado pela Justiça, sempre será um indivíduo sob suspeição na sociedade, especialmente para a polícia. Não obstante, segundo Souza (2011), “Aos aparatos institucionais de uma dada sociedade encontram-se a serviço dos grupos hegemônicos que os criam e fazem com que funcionem para a reprodução do sistema que lhe confere significado e existência.” (2011, p. 80). Ou seja, é uma estrutura que faz parte de um sistema maior que atua de acordo com seus interesses, assim como o Direito Penal enquanto aparato institucional do sistema de justiça. Que por sua vez reproduz resultados racistas ainda que tenha ou não intenção de fazer, devido ao racismo institucional impregnado em sua estrutura e perpetradas pelos grupos racialmente dominantes. Nessa arena racial, não podemos deixar de considerar que de acordo com López (2012), “O racismo institucional atua de forma difusa no funcionamento cotidiano de instituições e organizações, provocando uma desigualdade na distribuição de serviços, benefícios e oportunidades aos diferentes segmentos da população do ponto de vista racial.” (LÓPEZ, 2012, p. 121). Sendo assim, o racismo e o sistema penal estabelecem entre si uma relação de complementaridade. Nesse sentido,

convém destacar que: Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, a precariedade das estruturas do sistema de justiça criminal brasileiro não deixa dúvidas sobre a ilegalidade de suas práticas. As denúncias diurturnas de prisões flagrantemente arbitrárias, de torturas sistemáticas dentro e fora do cárcere, da corrupção e da extorsão como dados da atividade policial, de grupos de extermínio atuando com a chancela do Estado, de cabeças rolando em massacres prisionais gerados pela omissão institucional, bem como de tantos outros vilipêndios que integram a rotina da segurança pública no país, compõem um quadro que só pode ser explicado pela intensa naturalização social do racismo, com profundo desprezo à vida negra. (ALEXANDER, 2017, p. 13-14) Daí ressaltamos a importância da atuação da Inegra dentro do IPF, de forma a proporcionar na vida destas que encontram-se sob a custódia do Estado, possibilidades de mudanças no seio prisional, lutando pelos direitos e condições dignas neste universo repressor e disciplinador, do qual corrói as subjetividades e identidades a partir do momento que adentra na prisão, ocasionando violações na vida deste e deixando no corpo e na alma marcas que nem o tempo consegue apagar, que na maioria das vezes é irreversível. Do qual “a vida negra vai sendo minada por dentro das amarras do sistema.” (ALEXANDER, 2017, p. 13) Sinalizamos como alguns resultados a contribuição na realização da primeira Conferência Livre de Direitos Humanos do Sistema Prisional Cearense. Também participamos da criação e continuamos acompanhando o Comitê Estadual das Mulheres Encarceradas, um espaço de controle da sociedade Civil da política pública. Participamos da elaboração da Política Estadual de Cultura para o Sistema Prisional através de um

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Grupo de Trabalho formado pela Secretaria de Justiça do Estado e Pela Secretaria de Cultura. Diga se de passagem que foi durante as formações da Inegra que, pela primeira vez um maracatu adentrou ao presídio. Por fim, temos construído a Agenda Nacional Pelo Desencarceramento no Estado e passamos a pautar tanto na agenda feminista quanto no movimento negro a realidade da justiça criminal, da segurança pública e o quão esses espaços reproduzem opressões. Lembramos que quando nos propomos a realizar as formações políticas com as mulheres, diziam que elas eram perigosas, que era criminosa e que poderiam nos violentar. Por essas andanças conhecemos mulheres com trajetórias de vidas semelhantes as nossas. Mulheres artistas, costureiras, estudantes, cujo caminho levou ao encarceramento. Encontramos, em sua maioria, mulheres jovens, outras nem tanto. Elas nos contaram histórias de vida e do seu lugar. Algumas vinham de outras partes do Nordeste, algumas do Norte. Muitas narrativas são comuns a nós. A nossa condição de ser mulher negra, gostar de reggae, ser lésbica, bissexual ou heterossexual, ser mãe, ser filha, ser avó, ser guerreira, enfrentar o racismo e o empobrecimento. Enfim, são muitos pontos em comum. As rodas de conversas, mostravam que nossos percursos foram diferentes, às vezes desiguais, mas sempre nos enxergamos em alguns relatos. Cada realidade desconhecida trazia aprendizados para quem está na “liberdade”. Publicamos uma cartilha “Rompendo muros, brotando resistências e liberdades” construída com as mulheres encarceradas e distribuímos a todas no IPF. O presídio que suporta 374 mulheres e nos últimos anos conta com uma média de mais de 850 mulheres, extrapolando sua capacidade. No Ceará, de acordo com a matéria do Jornal o Estado, veiculada em abril/2017, o potencial chega a 80%, o que denuncia que a prisão provisória não representa a exceção e sim, a regra. E isso acaba por gerar superlotação, agravando ainda mais as injustiças e as condições indignas de vida das mulheres. Realizamos spots para rádios e dialogamos com

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u n i v e r s i d a d e s , E s t a d o e o u t r a s vida, o crime, a droga, o que é ser mulher, o organizações da sociedade Civil. Nunca feminismo, a (in) justiça, o amor. A tivemos quaisquer problemas, conflitos ou INEGRA, entre outras linhas de atuação ameaça das mulheres em privação de vem trabalhando junto às mulheres em liberdade, ao contrário, nós nos situação de cárcere, travando lutas e identificamos com essas mulheres e elas se resistências no intuito de desnaturalizar, i d e n t i f i c a r a m c o n o s c o , p o r q u e problematizar, construir propostas e estabelecemos uma relação muito pressionar o Estado e os governos a horizontalizada com respeito, afetos, reduzirem as prisões provisórias e cuidado, olho no olho, que talvez poucas desconstruir a cultura punitivista que tanto organizações façam isso. Passamos a encarcera jovens, homens e mulheres buscar cada vez mais a liberdade negras. amparadas pelas asas de Maat, essa deusa REFERÊNCIAS ALEXANDER, Michelle. A nova segregação: racismo e egípcia, africana, da justiça, do equilíbrio e encarceramento em massa. Tradução: Pedro Dovoglio. da liberdade, inspiradora deste caminho. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2017. As correntes há muito tempo EURICO, Márcia Campos. A percepção do assistente social acerca do racismo institucional. In: Serviço Social aprisionam e deixam marcas, em nome da & Sociedade, São Paulo, n. 114, p.290-310 abr./jun. ordem vigente. O Estado penal por sua vez, 2013. ainda hoje mantém o sistema carcerário FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 26 ed. São Paulo: Graal, 2013. com a desculpa de ser um meio de fazer LÓPEZ, Laura Cecilia. O conceito de racismo prevalecer a justiça. Uma desculpa que institucional: aplicações no campo da saúde. In: Interface – Comunicação, saúde e educação. São finge acreditar que as pessoas serão Leopoldo, v. 16, n. 40, p.121-134, jan./mar. 2012. transformadas positivamente ao passar MOORE, Carlos. Racismo & Sociedade: novas bases pela prisão. Diante do exposto, não há epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza, 2007. dúvidas que estamos falando de um sistema de justiça e prisional que são estruturalmente racistas, patriarcais UM POUCO DA HISTÓRIA DO 8 DE MARÇO. e elitistas, o que nos O dia 8 de março é o resultado de uma série de fatos, lutas e move a atuar reivindicações das mulheres (principalmente nos EUA e politicamente e Europa) por melhores condições de trabalho e direitos sociais e buscar influenciar a políticos, que tiveram início na segunda metade do século XIX pauta política das e se estenderam até as primeiras décadas do XX. No dia 8 de organizações e março de 1857, trabalhadores de uma indústria têxtil de Nova movimentos Iorque fizerem greve por melhores condições de trabalho e igualdades de direitos trabalhistas para as mulheres. O sociais. Contudo, movimento foi reprimido com violência pela polícia. Em 8 de ainda bem que março de 1908, trabalhadoras do comércio de agulhas de Nova existem outras Iorque, fizeram uma manifestação para lembrar o movimento vivências e de 1857 e exigir o voto feminino e fim do trabalho infantil. Este aprendizados. movimento também foi reprimido pela polícia. No dia 25 de Deixamos o medo março de 1911, cerca de 145 trabalhadores (maioria mulheres) do desconhecido morreram queimados num incêndio numa fábrica de tecidos em para enxergar as Nova Iorque. As mortes ocorreram em função das precárias vidas que pulsam no condições de segurança no local. Como reação, o fato trágico IPF. Essa provocou várias mudanças nas leis trabalhistas e de segurança convivência de trabalho, gerando melhores condições para os trabalhadores norte-americanos. Porém, somente no ano de 1910, durante transformou o uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de nosso modo de março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em olhar e agir no homenagem ao movimento pelos direitos das mulheres. mundo. Ampliou nossa visão sobre a

Fique

por dentro

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dICIONÁRIO DE DIREITOS HUMANOS Feminismo: Doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade. Encarcerada: Que foi colocado em cárcere; que está ou foi preso; aquilo que se encarcerou. Que foi privado do convívio social ou que se retirou do mesmo.

notÍcias

da rede

Em dia contra discriminação, ONU defende inclusão de mulheres negras em metas de desenvolvimento No mês do Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, lembrado em 21 de março, a ONU promoveu nas redes sociais uma campanha pela inclusão das mulheres negras nos esforços de desenvolvimento dos países. Iniciativa pedia que cidadãs afrodescendentes sejam priorizadas em ações de combate à fome e às disparidades sociais, bem como em estratégias pela promoção da saúde, do trabalho decente e da igualdade de gênero. Criada pela ONU Mulheres e pelo Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, a campanha virtual abordava os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, os ODS. “Os objetivos globais de desenvolvimento sustentável e a Década Internacional de Afrodescendentes são agendas dos Estados-membros da ONU, incluindo o Brasil, que precisam ser implementadas nos municípios, nos estados e no país para enfrentar as desigualdades de gênero e raça”, defende Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil. A ação de conscientização levou para a internet mensagens das integrantes do Comitê Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50. Nas redes, elas falaram sobre alguns dos ODS e sobre os desafios que as afrodescendentes enfrentam para ter essas metas cumpridas. Fonte: nacoesunidas.org

Olá pessoal! Fiquem ligado, porque nos dias 14, 15 e 16 de maio acontecerá o II Congresso Brasileiro de Enfretamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes em Brasília – DF.

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www.anamovimento.blogspot.com

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entrevista

Nesta edição, conversamos com a Cearense Ariadne Oliveira, que é costureira, Mãe, tem 36 anos e a cinco anos faz parte do grupo de mães do Socioeducativo organizado pelo CEDECA – Centro de Defesa das crianças e dos adolescentes do Ceara. Campanha ANA: Qual foi/ é sua relação com as Medidas socioeducativas, e como você avalia o sistema? Ariadne Oliveira: Desde 2013, quando meu filho de 13 anos foi apreendido. Primeiro ele passou 20 dias, saiu de lá e rescindiu, passou 45 dias dentro do centro de internação, novamente é posto em liberdade e rescindi, foi quando então o juiz sentencia ele a para cumpri de 6 meses a três anos no regime de Privação de liberdade. Desde as primeiras vezes, ele já sofria agressões dentro dos centros de internação. Como eu não entendia nada, eu o via machucado e vinha embora e começava a chorar. Foi só então da última apreensão dele que eu conheci o trabalho do CEDECA – CENTRO DE DEFESA DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES. Nessa época, o CEDECA estava recebendo muitas denúncias de agressões contra os adolescentes. Então foi comecei a participar das reuniões e estou até hoje. O que eu comecei a perceber, que para o meu filho foi só momentos de perdas. Cada negação de direito que ele tinha dentro do centro ele se transforma numa pessoa pior e sem perspectiva.

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Avaliação que eu tenho desses três anos do sistema socioeducativa é de que é um “depósito” de adolescentes, pois o que realmente o socioeducativo deveria oferecer aos adolescentes não oferece, ou seja, o social, educativo e o Plano de atendimento individual(PIA), para saírem do sistema com outros pensamentos de vida. Na verdade, os adolescentes sofrem torturas pelos agente socioeducativos e pela polícia. Meu filho cada vez que saía do sistema ele saía com menos perspectiva de vida, por isso eu avalio como um depósito. A minha experiência foi muito ruim, eu tive que abrir dez boletins de ocorrência em função das agressões físicas sofridas pelo meu filho lá dentro e as ameaças. Para mídia é mostrado uma coisa, mas quem está dentro do centro socioeducativo é outro. Em 2016 houve muitas rebeliões nos centros de internações, pois adolescentes ficam sem água, sem comida e em condições precárias e isso era motivos para que eles se rebelassem. O meu filho sofreu ameaça, e na primeira oportunidade que teve ele fugiu, fiquei desesperada, sem notícias dele durante oito dias. Ele foi assinado. Eu culpo o estado pela morte do meu filho, pois ele estava nos cuidados do estado. C.ANA: O País tem mais de 26 mil adolescentes em unidades de restrição e privação de liberdade. Segundo levantamento divulgado no início deste ano pelo Ministério dos Direitos Humano. O que acha dessa ideia imposta na população de que adolescentes não são responsabilizados? Ariad.O.: Eu acho que os adolescentes são punidos sim. E eles não são punidos só pela justiça de ser privado de sua liberdade. É mais do que punido pelas agressões que são submetidos, pelas discriminações da sociedade. Fico muito indignada quando a mídia fala sobre as medidas de forma errada. Quem está próximo ao socioeducativo é quem sabe o quanto eles são punidos. Falam que os adolescentes têm vida boa no cumprimento da mediada, que cada adolescente custa 1400 reais e que estão com mordomia. Mas ninguém diz que esses recursos não chegam, que as condições que meninas e meninos cumpre as medidas, tão longe do que seria o ideal do que está previsto do estatuto. As pessoas têm uma ideia errada de responsabilização. Esses meninos e meninas estão sendo responsabilizados com lhes tiram o

direito de ir e vir, mas isso não significa que os outros direitos não têm que ser acessados. C.ANA: 61,03% dos adolescentes e jovens em restrição e privação de liberdade, foram considerados negros, segundo o que mostra o levantamento, e que a maior parte 96% do total - era do sexo masculino, sendo que 57% tinham entre16 e 17 anos. Para você, qual seria a motivação para que os adolescentes negros e pobres, sejam a maioria a cometerem ato infracional? Ariad.O.: Esse índice de adolescentes negros e pobres, tem a ver com a realidade de que adolescentes brancos e de classe média nunca chegam na porta de uma delegacia. Se esses adolescentes brancos e de classe médias são aprendidos, rapidamente eles terão um advogado para defende-los. Infelizmente a nossa população pobre e negra não tem condição de pagar advogado, fora que adolescente muitas vezes não tem oportunidade nenhuma. C.ANA: Em relação a tudo esse processo que você está vivenciando junto com seu filho, qual seria o momento mais difícil que você teve que passar em meio a tudo isso? Ariad.O.: Como eu disse, eu sou costureira. Essas passagens do meu filho nos centros socioeducativos mexeram muito comigo sabe? tive que sair onde eu trabalhava. Tive que restabelecer de uma outra maneira para pode acompanha mais a vida do meu filho. Meu maior sonho era que eu tivesse conseguido resgatar meu filho. Eu não tenho mais o meu filho para tentar lutar e fazer diferente e mudar esse sistema, mas eu apoio as outras mães e a ajudo elas a realizar o que eu não pude realizar pelo o meu filho, de torna-lo um cidadão. Até hoje tento me reestrutura da morte do meu filho. C.ANA: Na maioria dos casos de adolescentes em cumprimento de medidas, são as mulheres que ficam como referência desses adolescentes. Por que os homens rejeitam ou não querem esse assumir esse papel? Ariad.O.: A maioria das mães são mães solteiras, ou são abandonadas e criam os filhos só. E os pais estão presentes na família e acontecem essa situação dos adolescentes serem apreendidos, eles nunca querem assumir que são os filhos deles, Sempre joga para mãe, “tome que é teu filho”, eles nunca querem ter a responsabilidade de que os filhos devem ser cuidados pelo pai e pela mãe.

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Fica dica

Livros Filhos do Cárcere

Filmes A Cor Púrpura Relata a história de Celie, inicialmente com 14 anos, durante 40 anos de sua vida. Em sua juventude, era violentada pelo pai, chegando a dar à luz duas crianças antes de se tornar estéril. A personagem vive um drama no qual é separada dos filhos, além de ser tratada de forma ambígua – como escrava e companheira. Ela compartilha seu sofrimento em cartas e, com tempo, se revolta com sua situação em uma época em que as mulheres negras eram consideradas cidadãs de segunda classe e toma consciência do seu valor e das possibilidades que o mundo lhe oferece.

Com muita coragem e visão humanitária, a autora incita o Ministério Público e o Poder Judiciário brasileiros a terem uma nova postura frente à problemática posta na obra, de modo a escolherem a melhor opção para os filhos de mulheres encarceradas, a fim de evitar a violação de seus direitos de criança. E argumenta, não se deve permitir que o direito subjetivo de infância seja colocado de lado, em detrimento de uma situação prisional experimentada pela mulher-mãe encarcerada. Neste caso, há de prevalecer, imperiosamente, o interesse superior da criança e suas garantias.

As Sufragistas Relata a história de Celie, inicialmente com 14 anos, durante 40 anos de sua vida. Em sua juventude, era violentada pelo pai, chegando a dar à luz duas crianças antes de se tornar estéril. A personagem vive um drama no qual é separada dos filhos, além de ser tratada de forma ambígua – como escrava e companheira. Ela compartilha seu sofrimento em cartas e, com tempo, se revolta com sua situação em uma época em que as mulheres negras eram consideradas cidadãs de segunda classe e toma consciência do seu valor e das possibilidades que o mundo lhe oferece.

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Boletim da ana n°68 Luta por justiça e liberdade a partir da visão das mulheres  

Esta edição traz como tema principal a luta das mulheres que buscam medidas para melhora o sistema prisional e também o socioeducativo. Alé...

Boletim da ana n°68 Luta por justiça e liberdade a partir da visão das mulheres  

Esta edição traz como tema principal a luta das mulheres que buscam medidas para melhora o sistema prisional e também o socioeducativo. Alé...

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