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REVISTA ENCARTADA NO JORNAL O LIBERAL. NÃO PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE.

JULHO 2O17 | EDIÇÃO NO 71 ANO 6 | ISSN 2237-2962

NO CAMINHO PARA AS MONTANHAS

SELVAGENS Com 2.734 metros de altitude, o Monte Roraima é um dos pontos culminantes mais altos do Brasil e atrai visitantes de diversas partes do planeta, que buscam conhecimento científico, paz de espírito e um pouco de aventura em plena Floresta Amazônica. O tepui Kukenan (foto) também se destaca pela beleza imponente.

ESPADARTE

Pesquisadores estudam a vida do “peixe-fantasma” na região

PRESERVAÇÃO

Estudantes da UFPA têm espaço para debater sobre educação ambiental

CINEMA

A cineasta Jorane Castro fala da relação entre a Sétima Arte e a Amazônia


EDITORIAL

PUBLICAÇÃO MENSAL DELTA PUBLICIDADE - RM GRAPH EDITORA JULHO 2017 / EDIÇÃO Nº 71 ANO 6 ISSN 2237-2962 Presidente LUCIDÉA BATISTA MAIORANA Presidente Executivo ROMULO MAIORANA JR. Diretor Jurídico RONALDO MAIORANA Diretora Administrativa ROSÂNGELA MAIORANA KZAM Diretora Comercial ROSEMARY MAIORANA Diretor Industrial JOÃO POJUCAM DE MORAES FILHO

A paisagem azulada do Monte Roraima encanta os visitantes de todo o planeta

Do alto da montanha

FELIPE JORGE DE MELO Editor-chefe

Em termos técnicos, o Monte Roraima é um tepui, um tipo de montanha em formato de mesa característico do planalto das Guianas. Localizado entre três países - Brasil, Venezuela e Guiana -, o monte reforça o encanto pela Amazônia, atraindo turistas, aventureiros, cientistas, biólogos, antropólogos, esotéricos, místicos, que buscam conhecimento científico, contato com a natureza, paz de espírito e um pouco de aventura. Subir os 2.734 metros de altitude exige dedicação e esforço, que se convertem em histórias de superação ao fim da longa caminhada. Além de ser fonte de inspiração para escritores, como o criador do detetive Sherlock Holmes, o britânico Arthur Conan Doyle, na obra “O Mun-

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RORAIMA ADVENTURES

SOB OS PÉS DO MONTE

do Perdido”, o Monte Roraima coloca a Amazônia no mapa internacional do ecoturismo, uma vez que seus visitantes se comprometem a seguir normas que respeitam o ecossistema local, como não jogar lixo no chão e nos riachos que cortam o trajeto até a montanha, não colher plantas e maltratar animais. Até mesmo os fumantes são orientados para evitarem incêndios, o que podem ocorrer com uma simples bagana deixada no caminho. No lado brasileiro, foi criado o Parque Nacional do Monte Roraima, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Quem quiser visitar o lugar deve solicitar autorização para conhecer esse icônico recanto natural da Amazônia.

Diretor JOSÉ LUIZ SÁ PEREIRA Conselho editorial RONALDO MAIORANA JOÃO POJUCAM DE MORAES FILHO LÁZARO MORAES REDAÇÃO Jornalista responsável e editor-chefe FELIPE JORGE DE MELO (SRTE-PA 1769) Coordenação geral LUCIANA SARMANHO Editor de arte FILIPE ALVES SANCHES (SRTE-PA 2196) Pesquisador e consultor técnico INOCÊNCIO GORAYEB Colaboraram para esta edição O Liberal, Agência Pará de Notícias, Agência Brasil, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade Federal do Pará, Universidade do Estado do Pará, Fundação Cultural do Pará Oficinas do Curro Velho, Embrapa (acervo); Alinne Morais, Ana Paula Mesquita, Carlos Henrique Gondim, Natália Mello Victor Furtado (reportagem); Fabrício Queiroz (produção); Everaldo Nascimento, Fernando Sette, Tarso Sarraf (fotos); Anderson Araújo e Inocêncio Gorayeb (artigos) André Abreu, J.Bosco, Jocelyn Alencar e Leonardo Nunes (ilustrações); Alexsandro Santos (tratamento de imagem). FOTO DA CAPA Tepui Kukenan, por Luiz Brito/ Roraima Adventures AMAZÔNIA VIVA é editada por Delta Publicidade/ RM Graph Ltda. CNPJ (MF) 03.547.690/0001-91. Nire: 15.2.007.1152-3 Inscrição estadual: 158.028-9. Avenida Romulo Maiorana, 2473, Marco - Belém - Pará.

amazoniaviva@orm.com.br

PRODUÇÃO

REALIZAÇÃO


NESTA EDIÇÃO

EDIÇÃO Nº 71 / ANO 6

RORAIMA ADVENTURES/ DIVULGAÇÃO

JULHO2017

32 Tepui amazônico

Com 2.734 metros de altitude, o Monte Roraima é um dos pontos turísticos mais visitados por brasileiros e estrangeiros na Amazônia CAPA ARQUIVO PESSOAL

DIVULGAÇÃO

EVERALDO NASCIMENTO

FERNANDO SETTE

28

E MAIS

20

44 48

IMAGENS

ANTROPOLOGIA

ECOSSISTEMA

CINEMA

O fotógrafo Fernando

O pesquisador Renato

Pesquisadores das Univer-

A cineasta Jorane Castro

Sette nos brinda com um

Vieira se dedica ao estudo

sidades Federal do Pará

vive uma das fases mais

ensaio especial sobre as

das “Varinhas do Amor

(UFPA) e Maranhão (UFMA)

produtivas de sua car-

belezas naturais do Pará,

de Mosqueiro”, artefatos

e da University of Idaho,

reira e mostra o melhor

mostrando a harmonia

que guardam uma parte

dos EUA, estudam a vida

do cinema produzido na

na relação entre o ser

da história e da cultura

do espadarte amazônico,

Amazônia, com destaque

humano e a natureza.

amazônica na ilha.

ameaçado de extinção.

em grande festivais.

OLHARES NATIVOS

ENTREVISTA

PESQUISA

PAPO DE ARTISTA

4 6 7 11 13 14 15 16 17 18 19 19 40 54 55 57 58

EDITORIAl AS MAIS CURTIDAS PRIMEIRO FOCO TRÊS QUESTÕES ELES SE ACHAM FATO REGISTRADO PERGUNTA-SE EU DISSE APPLICATIVOS CURIOSIDADES DA BIODIVERSIDADE DESENHOS NATURALISTAS CONCEITOS AMAZÔNICOS SUSTENTABILIDADE AGENDA FAÇA VOCÊ MESMO BOA HISTÓRIA NOVOS CAMINHOS

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ASMAISCURTIDAS DESTAQUES DAS EDIÇÕES ANTERIORES

NAILANA THIELY

DOENÇAS A entrevista com a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde na Amazônia da UFPA, dra. Marília Brasil Xavier, sobre as “doenças negligenciadas” (Entrevista, junho 2017, nº 70) em nossa região revela uma realidade assustadora: ainda estamos à mercê da boa vontade política e da indústria farmacêutica para que mais investimentos possam deslanchar o desenvolvimento da Amazônia. É preciso atrair a atenção do governo e dos investidores para a solução dos nossos problemas. Cláudio Suetônio Belém-Pará

AÇAÍ

VERSÁTIL AÇAÍ

A reportagem sobre o reaproveitamento dos caroços de açaí dando destinação final aos resíduos do fruto foi a mais compartilhada em nosso Facebook na última edição. CELSO LOBO / DIVULGAÇÃO

Parabéns à revista Amazônia Viva por trazer à tona um tema tão importante e, ao mesmo tempo, preocupante para a sociedade. A reutilização dos caroços de açaí (“Caroço de açaí renovado”, Capa, junho de 2017, nº 70) precisa entrar na agenda ambiental do Estado e o trabalho de pesquisadores no que tange o reaproveitamento desses resíduos é salutar para as futuras gerações. Elisabeth Farias Belém-Pará

VITAL Que delícia poder matar a saudade desse grande artista que é o Vital Lima. A entrevista na edição passada (“Quando a música é vital”, Papo de Artista, junho de 2017, nº 70) mostra o amor desse paraense pela Amazônia através de suas belas e eternas canções. Socorro Borges Belém-Pará A BELEZA DAS ÁGUAS

A foto do rio Caraparu, de autoria de Celso Lobo, foi a mais curtida em nosso Instagram na edição de junho passado. NAILANA THIELY

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Vital Lima é uma alma amorosa e um artista que exala verdadeira paixão pelo que faz. Como não amar sua canção “Círios”, que retrata a relação do ribeirinho com a Virgem de Nazaré e me faz ir às lágrimas toda vez que chega outubro. Betinna Vasconcellos Belém-Pará

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Maiorana, 2473, Marco, Belém - Pará, CEP 66 093-000 ou FAX: 3216-1143.


TEXTOS VICTOR FURTADO E ALINNE MORAIS

DIVULGAÇÃO

PRIMEIROFOCO

O QUE É NOTÍCIA NA AMAZÔNIA

Ao Mestre Cupijó, com carinho PESQUISA DOCUMENTAL E SHOW COM MÚSICOS LOCAIS REVISITAM A OBRA DE UM DOS MAIS IMPORTANTES ARTISTAS PARAENSES, QUE FEZ DO SIRIÁ SUA MOTIVAÇÃO DE VIVER PÁGINA 8 E 9

RISCO

FILOSOFIA

Estudo aponta que a Bacia do Tapajós é uma das mais ameaçadas por projetos hidrelétricos construídos e em planejamento. PÁG.10

O Parque Nacional dos Campos Ferruginosos, no sudeste paraense, possui um tipo raro de ecossistema. PÁG.11

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PRIMEIRO FOCO

UM SHOW DE HOMENAGEM AO MESTRE CUPIJÓ FOTOS: DIVULGAÇÃO

Se Mestre Cupijó estivesse vivo iria adorar promover um baile com tantos artistas paraenses. É assim que dois músicos e pesquisadores da obra do cametaense, JP Gonçalves e Daniel Serrão, escolheram homenageá-lo. Os resultados do show, gravado em junho passado, acompanham um documentário feito pela sobrinha de Cupijó, a cineasta Jorane Castro: “Mestre Cupijó e seu Ritmo”. Um CD deverá ser gravado à parte, com músicas do artista regravadas em estúdio. Todo o material deverá ser publicado no próximo ano. O show reuniu artistas como Dona Onete, Felipe Cordeiro, Kim Marques, Lucas Estrela, Waldo Squash e mais 12

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músicos locais. A participação de amigos próximos e até da antiga banda, Azes do Ritmo, era imprescindível. Precisava parecer uma reunião de amigos e de quem vivenciou o processo criativo e musical do Mestre Cupijó. Serrão trabalhou na recuperação de composições perdidas e essa participação era fundamental. É um dos trunfos do disco que será gravado em estúdio. Nas décadas de 1970 e 1980, o multi-instrumentista orquestrou um baile com a Azes do Ritmo. Não havia qualquer intenção de reinterpretar o que Mestre Cupijó fazia. Ele já tinha uma forma de composição bem única e original. Não é à toa que ele é conhecido por

inserir um saxofone e elementos elétricos no samba de cacete africano - ritmo que conheceu com as comunidades quilombolas do Baixo Tocantins - para gerar o Siriá. Ele gostava de criar e inovar, mas o que ele fez não podia ser descaracterizado. Os produtores garantem que o resultado do show foi uma homenagem à altura. “Foi pra reacender o samba de cacete e o siriá que o mestre fazia”, analisou Cavalcante, diretor musical do show. Já há pedidos para o baile continuar em novos palcos ao redor do Brasil. Com certeza, um será especial em Cametá, terra natal do mestre. Curiosamente, ele não gostava de sair de lá. Nem mesmo quando isso repre-


sentava levar a arte dele a outros locais. Dois membros da banda conviveram intimamente com Cupijó. Um deles é o saxofonista Gabriel Arcanjo de Oliveira, de 81 anos. Cametaense, igual ao mestre. Mestre igual ao mestre. E fã do multi-instrumentista, igual a muitos cametaenses. Se orgulha da coleção com os seis discos do mestre do siriá, menos conhecido por seu nome: Joaquim Maria Dias de Castro. Há ainda uma coletânea. A banda, diz Mestre Gabriel, é a segunda mais antiga do Brasil e foi iniciada pelo pai de Cupijó. O grupo estava onde houvesse oportunidade de fazer música e reunir público. De carnaval a romarias. “A gente continua tocando. O Mestre Cupijó me pediu para não deixar acabar”, lembra com saudades. A família de Gabriel é quase toda de músicos. Há muita

gente para não desapontar Cupíjó. E agora, os DVDs do show e do documentário. Jorane Castro destaca que o tio era conhecido demais por nome. Mas pela obra musical, pouco. E faltavam registros históricos dele. JP Cavalcante e Daniel Serrão já sabiam da importância musical de Cupijó. Todos mergulharam na história de Cametá em busca das raízes do trabalho do mestre. O resultado, em vários depoimentos históricos e inéditos, detectou ramificações do trabalho até com uma banda jamaicana. Uma das contribuições do irmão do Mestre Gabriel, o saxofonista Eulampio Antônio de Oliveira, de 66 anos. Ele, por sinal, descobriu por acaso, fazendo buscas na internet. Mas no Brasil, há muitos artistas que tocam a música de Cupijó ou ao menos se inspiraram nela.

EM RITMO DE LEMBRANÇA

Cantores como Dona Onete e Felipe Cordeiro se juntaram a outros artistas locais para homenagear o Mestre Cupijó. A cineasta Jorane Castro (abaixo) produziu documentário sobre o artista.

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PRIMEIRO FOCO

SIDNEY OLIVEIRA / AGÊNCIA PARÁ

Hidrelétricas na Amazônia ameaçam a Bacia do Tapajós O estudo “Damming the Rivers of Amazon Basin”, feito por um grupo de cientistas americanos, apontou que a Bacia do Tapajós, localizada nos estados do Mato Grosso, Pará e Amazonas é uma das mais ameaçadas por projetos hidrelétricos construídos e em planejamento. De acordo com eles, o dado sinaliza um cenário preocupante de degradação ambiental. Os pesquisadores explicam que no trecho principal da bacia não há nenhuma barragem. No entanto, ela é e será uma das mais afetadas pela construção de dezenas de represas em seus afluentes. A pes-

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quisa, publicada na revista Nature apontou ainda que essas construções vão criar um sistema interligado de barragens e pântanos artificiais ao longo de 1.000 quilômetros da bacia. O perímetro é quase equivalente a distância entre Madri, Espanha, e Paris, França. Para Edgardo Latrubesse, um dos cientistas envolvidos na pesquisa, “seria impossível construir esse tipo de obra de enorme impacto ambiental em países desenvolvidos”. Os pesquisadores criticaram ainda que os projetos não avaliam os impactos ambientais nas escalas locais, regionais e continentais.

Além da Bacia do Tapajós, o estudo analisou outros lugares dos rios amazônicos. A pesquisa concluiu que ao longo do Tapajós existem 140 barragens em funcionamento ou em construção e outras 428 estão planejadas. De acordo com eles, mesmo que no final apenas uma parte delas saia efetivamente do papel, o impacto dessas represas sobre os rios amazônicos será desastroso. Segundo os cientistas, este cenário de degradação ambiental exige necessidade de ação coletiva entre nações e estados para evitar impactos cumulativos e de longo alcance.

RECANTO AMEAÇADO

A Bacia do rio Tapajós abrange 6% das águas da Bacia Amazônica, sendo a quinta maior bacia do sistema


TRÊSQUESTÕES

BELEZA NATURAL

RESPOSTAS QUE VÃO DIRETO AO PONTO

Pará ganha parque de campos ferruginosos no sudeste do Estado

A regularização fundiária na Amazônia é um desafio para qualquer gestor público. É um processo complexo, que exige informações e

da fauna e flora, ameaçadas e exclusivas da região, além de registros arqueológicos das primeiras ocupações humanas na Amazônia. Criado por decreto presidencial no começo de junho, o Parque é resultado do licenciamento ambiental do empreendimento de mineração Ferro Carajás S11D. O local é formado por dois platôs ferruginosos: a Serra da Bocaina, também conhecida como “Serra do Rabo”, localizada entre a rodovia PA-160 e o Rio Parauapebas; e a “Serra do Tarzan”, próxima à rodovia 118. Com a criação do parque, o local passa a ser protegido de forma integral. Assim, somente atividades de educação ambiental, lazer junto à natureza, pesquisa científica e turismo ecológico serão realizadas no espaço, sobre a coordenação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

dados atualizados. Contudo, um projeto da Universidade Federal do Pará (UFPA) promete agilizar o trabalho. A coordenadora técnica do projeto, Myrian Cardoso, explica o que o Sistema de Apoio à Regularização Fundiária (Sarf) traz de inovação. Quais os desafios da regularização fundiária na Amazônia? Começa pelo estudo dominial e a propriedade da terra. Na Amazônia, temos muitas áreas com registros diferentes, além de sobreposição da base fundiária e das titularidades: se é do Estado ou da União. Falta estrutura nas instituições municipais, estaduais e federais para essa tarefa, que tem uma interface enorme: jurídica, ambiental e social. Também falta qualificação técnica. De que forma o Sarf pode melhorar a situação? Levaria pelo menos 60 anos para regularizar todos os imóveis repassados aos municípios através do programa Terra Legal. Então desenvolvemos esse software com informações descritivas dos imóveis e informações geográficas. Esperamos que esse sistema seja incorporado à administração pública . Seis municípios participam desse projeto. Por qque foram escolhidos? Seis prefeituras foram beneficiárias do projeto do Sarf: Mãe do Rio, Nova Esperança do Piriá, Capitão Poço, Tomé-Açu, Ipixuna do Pará e Concórdia do Pará. Foram escolhidas para os testes ATALIBA COELHO / AGÊNCIA VALE

por serem próximas de Belém, com acesso por via terrestre mais fácil e que receberam áreas, recentemente, pelo programa Terra Legal, para regularizar. Vamos encaminhar ao Ministério das Cidades para aprovação. Tudo deve ser concluído até agosto.

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ARQUIVO PESSOAL

Conhecido por suas riquezas e diversidade, o Pará tem agora um novo atrativo para mostrar suas belezas naturais: o Parque Nacional dos Campos Ferruginosos. Localizado nos municípios de Parauapebas e Canaã dos Carajás, no sudeste paraense, o cenário é considerado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) um tipo raro de ecossistema. Com lagoas, fauna e flora típicas, presentes somente em formações ferríferas, ou seja, com presença de minério de ferro, o local agora é considerado o maior parque de cavernas em rochas ferríferas do mundo. Com área total de 80 mil hectares, a Unidade de Conservação (UC) de proteção integral possui 377 cavernas de formatos únicos e 59 mil hectares de floresta preservada. O local também abriga espécies raras

Software na regularização fundiária


PRIMEIRO FOCO

CLIMA

RISCO NA AMAZÔNIA

Áreas de várzea são mais favoráveis a queimadas

DESASTRES NATURAIS O aumento da temperatura global vai afetar as cidades da costa brasileira, causando desde enchentes, deslizamentos e outros desastres naturais até a destruição de ecossistemas. As informações são do relatório “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”, feito pelo Relatório Especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Um pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e estudiosos internacionais concluíram, em recente estudo, que as áreas de várzea são menos resilientes a períodos extremamente quentes na Amazônia. De acordo com eles, isso torna esses locais mais favoráveis a queimadas e pode ajudar a desencadear um processo de savanização da floresta. Segundo o estudo, a baixa resiliência ao fogo acontece em áreas de várzea pelo padrão de distribuição da cobertura florestal. Os pesquisadores apontaram que nesses ambientes as árvores são mais espaçadas uma das outras do que em áreas densas de floresta, o que proporciona uma perda substancial de água e maior probabilidade de queima. A pesquisa mostrou ainda que áreas

XINGU

DOCUMENTÁRIO O documentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta” apresenta as diferentes cadeias de produção dos produtos da Amazônia, construídas por índios, extrativistas e pequenos agricultores que vivem, trabalham e protegem as matas. O material já está disponível na internet e mostra a história das sementes do Xingu, do óleo de pequi, da coleta de castanhas, extração de borracha e outros produtos da floresta.

RESGATE

ONÇAS NO PARÁ Duas onças-pretas (Panthera onca), resgatadas durante a Operação SOS Gavião Real, realizada no Pará, ganharam um novo lar. Os animais que estavam em local não autorizado no município de Capitão Poço, no nordeste paraense, foram levados para o Zoológico Park das Montanhas, no Espírito Santo.

FAUNA EXÓTICA

Segundo estudo da analista ambiental Tainah Guimarães, 48% das Unidades de Conservação federais possuem alguma espécie de fauna exótica, ou seja, de animais que estão fora de sua distribuição natural e foram introduzidos nesses locais pela ação do homem. De acordo com ela, ao todo, 104 espécies exóticas estão presentes em UCs e 59 delas colocam em risco a biodiversidade local. 12 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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ASCOM / IDEFLORBIO

FORA DO HABITAT

de várzea são extremamente propensas em extremos climáticos a perderem a massa florestal para queimadas. Isso acontece porque essas regiões têm um lento ciclo de renascimento de árvores e perdem, com facilidade, a fertilidade do solo. Sendo assim estados como Pará e Mato Grosso correm os maiores riscos com queimadas em áreas florestais. Ainda segundo a pesquisa, o aumento de incêndios, principalmente os causados pelo homem, podem estar ameaçando o futuro da f loresta. De acordo com eles, essa destruição pode transformar o local em savanas e isso vai inf luenciar cada vez mais num ciclo climático extremo possibilitando mais queimadas e podendo destruir boa parte da f loresta ao longo do tempo.


CESAR FAVACHO

EVERSON TAVARES / INSTITUTO MAMIRAUÁ

ELESSEACHAM POR QUE MIMETISMO É UMA COISA NATURAL

Parasitas de peixes

TAGS SATELITAIS

Cientistas vão usar tecnologia inédita para monitorar botos Um grupo de pesquisadores e cientistas do Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia e Equador vai iniciar, nos próximos meses, um inédito e ambicioso trabalho para monitorar botos na Bacia Amazônica. O grupo vai instalar nos animais pequenos aparelhos, chamados tags satelitais, que vão gerar dados e informações sobre o comportamento dos botos. Essas tags são pequenos “grampos”, instalados na nadadeira dorsal dos animais, capazes de enviar informações em tempo real sobre a localização das espécies via satélite. Eles são um meio mais prático, rápido e barato de gerar informações sobre os cetáceos, e têm potencial para aperfeiçoar os trabalhos de conservação dos botos feitos hoje na América do Sul. Neste primeiro momento, serão instaladas tags em 15 animais em três

pontos diferentes da bacia: a região do Alto Tapajós, no Brasil; a região de Putumayo, na fronteira entre Equador, Peru, Colômbia e Brasil; e no rio Madeira, no trecho fronteiriço entre Bolívia e Brasil. Assim, os pesquisadores envolvidos na ação vão conseguir coletar informações como dinâmicas populacionais, mortalidade e parâmetros reprodutivos, para ter uma ideia mais clara da situação desta espécie. O objetivo, segundo eles, é estudar o comportamento dos botos por toda a Bacia Amazônica, e descobrir mais informações sobre habitats preferidos, fluxos migratórios e diferenças de hábitos entre machos e fêmeas. Eles também esperam gerar informações científicas confiáveis e consistentes sobre as espécies de botos existentes na América do Sul.

A foto é de um parasita de peixe do gênero Dolops sp., que fica na pele desses animais. Este foi encontrado em uma pirarara no rio Javaes, no Tocantins. Mede aproximadamente 1 cm de diâmetro. Eles parecem escamas e na foto, o parasita parece uma arraia. Com o avanço da piscicultura no Brasil a partir da década de 80 começaram a surgir novas técnicas de criação e também alternativas quanto às espécies de peixes a serem criadas como o pacu (Piaractus mesopotamicus) e o piauçu (Leporinus macrocephalus). Há forte expansão se deu com surgimento de pesque-pagues e a possibilidade da criação de peixes em tanques escavados e tanques-rede. Esta expansão contribui cada vez mais com a disseminação de várias doenças em peixes, decorrentes de problemas sanitários relacionados ao manejo inadequado e as más condições ambientais. As parasitoses são causas de perdas na piscicultura industrial ou esportiva, principalmente na região neotropical, pelas características climáticas pertinentes ao local, que propiciam a rápida e constante propagação da doença. Dentre as parasitoses, os crustáceos exercem papel relevante no número de prejuízos econômicos e perdas na piscicultura. Eles provocam sérios danos a seus hospedeiros através de ações espoliadoras e traumatização de tecidos com seus órgãos de fixação. Isso favorece o aparecimento de infecções secundárias provocadas por fungos e bactérias oportunistas e ainda atua indiretamente como vetor para enfermidades, principalmente as ocasionadas por vírus. Por INOCÊNCIO GORAYEB

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FATO REGISTRADO

Raspa-raspa TEXTO E FOTO INOCÊNCIO GORAYEB

Esta é uma foto de 1970, de um carro de raspa-raspa na avenida Nazaré no dia do Círio. O raspa-raspa é uma bebida feita com gelo raspado e suco concentrado de frutas. Era uma bebida muito apreciada e comumente vendida em todo o Pará. Os vendedores sempre estavam em feiras e praças, nas imediações de grandes festas e campos de futebol, em lugares onde haviam aglomerados de pessoas e pelas ruas da cidade. Hoje, eventualmente se encontram nas praias e feiras do interior do Estado. O problema é que foram proibidos e 14 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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divulgados como perigosos para a saúde por causa da falta de higiene. Os riscos de contaminação são grandes no processo de preparação dos sucos, na manutenção em garrafas por longos períodos e, principalmente, na raspagem do gelo com a mão; também não há boa procedência da água das grandes pedras de gelo que são raspadas ao ar livre. O interessante é que os carrinhos, geralmente, tinham o formato de um barco colorido, com mastro e cordas cheias de bandeirinhas de diferentes cores. O colorido também era incrementado pela fileira de garrafas de

diferentes tons de sucos feitos com as variadas frutas tropicais. Nas cidades da região nordeste do Pará, o raspa-raspa também sempre foi muito vendido e apreciado. Hoje, pela internet, são vendidos carrinhos mais modernos para a venda do produto. Alguns amigos pernambucanos fabricaram carrinhos alimentados por energia solar e bateria, que servem para manter um triturador de gelo mecânico sem o uso das mãos. Seria interessante se esses barquinhos coloridos e com os deliciosos raspas-raspas voltassem a transitar pelo Pará, agora com mais higiene.


PERGUNTA-SE

TECNOLOGIA

É PRECISO ESCLARECER MITOS E VERDADES

Equipamento conserva sabor natural do açaí Um modelo inovador de máquina de processamento de açaí foi apresentado recentemente em Belém. O equipamento promete conservar o sabor natural do produto, pois reproduz o modo de amassar os caroços do fruto, exatamente como faziam as mulheres do interior no passado. A façanha foi alcançada por meio de uma parceria que envolveu o agricultor Samuel Souza, idealizador do mecanismo, a Emater, como intermediadora, e as empresas Promenge (de São Paulo) e Grandbel (de Belém). Desse trabalho conjunto saiu o protótipo do equipamento, que tem estrutura portátil e é feito 100% de aço inoxidável. Samuel Souza explica que o sabor do açaí que é extraído normalmente das máquinas atuais lhe causava um certo incômodo. Ele diz que o produto, que é submetido ao processo de higienização (“branqueamento”), não se comparava ao sabor do açaí que ele experimentava na infância.

Cachorro não urina onde tem garrafa d’água?

Foi a partir dessa inquietação que surgiu a busca por parcerias que o ajudassem a encontrar uma maneira de reproduzir o sabor verdadeiro do açaí. Foi quando Samuel decidiu procurar o escritório da Emater em Benevides, município onde nasceu, e a partir de uma conversa com o engenheiro agrônomo Antônio Carlos Lima deu início ao projeto. Antônio Carlos diz que o equipamento é realmente inovador. Segundo ele, em relação às máquinas atuais a diferença do produto final é muito grande e não há perda das proteínas do fruto, visto que os caroços passam por um processo de atrito em vez de serem triturados. Esse novo processo de produção garante melhor sabor e rendimento nutricional do fruto tão popular entre os paraenses. Agora, a máquina será levada a diversas instituições ainda este mês. A ideia é conseguir patrocínio para a produção em série do equipamento.

O truque viralizou: basta encher uma garrafa com água e colocar onde não se quer que cachorros façam xixi. Cientificamente, ainda não se provou a eficácia o truque. Mas quem fez garante que dá certo. E a moda pegou, principalmente na periferia ou onde há muita incidência de cães na rua. Talvez seja um químico usado no tratamento de água que exale um cheiro desagradável aos cães. Ou apenas um reflexo que afugente. A médica veterinária Marcia Figueiredo, diretora do Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), reforça que não há explicação para o que ela acredita ser uma crença. Menos ainda sabe de onde surgiu. Contudo, ensina medidas que garante funcionarem. “Uma das alternativas para evitar que o animal urine em locais indesejados é lavar bem esse local que ele urinou, para que não fique com o odor da urina, já que o odor faz com que ele volte sempre ao mesmo lugar (muito comum entre os machos). Também é possível usar água e vinagre nos locais em que não se deseje que ele urine”, diz a médica veterinária. Se a pessoa não se incomodar e achar que está resolvendo, pode continuar com a garrafa cheia de água. É até uma forma de reciclagem do PET. Mas lavar o local ainda é uma forma higiênica e que evita levar a garrafa a valas e bueiros em caso de uma chuva, podendo resultar em alagamentos.

FARQUOIS / FREEIMAGES

NAILANA THIELY /ASCOM UEPA

MANDE A SUA PERGUNTA Envie perguntas instigantes sobre hábitos, costumes e fenômenos da região amazônica para o e-mail: amazoniaviva@orm.com.br

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EU DISSE

“Não mexe com quem tá quieto. Ou melhor... não mexe com quem tá se virando pra ganhar a vida honestamente diante de tanta desigualdade.”

“É mais gritante do que nunca garantir que os refugiados sejam protegidos enquanto soluções são buscadas.”

Filippo Grandi, alto comissário para refugiados da ONU, durante a divulgação de dados de deslocamentos no mundo em 2016. O relatório mostrou que a cada três segundos uma pessoa é forçada a deixar o lugar onde vive por causa da violência, perseguição política e religiosa e guerras. DIVULGAÇÃO / ONU

Anitta, cantora criticando, em rede social, uma proposta de lei que criminaliza o funk e que foi enviada ao Senado com mais de 20 mil assinaturas.

“Até 2050, se continuarmos lidando com a natureza da mesma forma que hoje em dia, teremos mais plástico que peixes nos mares.” Denise Hamú, representante da ONU Meio Ambiente no Brasil, em entrevista ao jornal O Globo.

“Eu não sei mais se vou ver esse país no rumo, mas é nosso dever lutar.” Miguel Falabella, ator e dramaturgo, em recente entrevista sobre a atual situação do País.

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“O futuro do planeta está nas escolhas que fazemos todos os dias. Vamos virar o jogo.” Walcyr Carrasco, escritor e autor de telenovelas, em um apelo pela preservação do meio ambiente.

“A cada dia que passa desmatamos mais e mais. Sim, a culpa é nossa e fingimos ser cegos a isso. Será que o ser humano vai precisar perder tudo pra se conscientizar? Cada gesto mínimo importa.” DIVULGAÇÃO

Camila Queiroz, nas redes sociais, em publicação para lembrar o Dia do Meio Ambiente, comemorado em junho.

APPLICATIVOS

BOAS IDEIAS NUM TOQUE DE DEDOS

HAND TALK Este app é uma espécie de tradutor para quem não sabe a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). O usuário diz a frase e Hugo, o assistente virtual, traduz para a linguagem. Fácil e descomplicado. É um app educativo também, pois é possível aprender com ele com o tempo. Há várias formas de captar as palavras e transformar em sinais: texto escrito, fala, vídeo e foto. Gratuito para iOS e Android.

ADDS - TELESSAÚDERS App que ajuda a detectar sintomas de depressão, ansiedade e risco de suicídio. É algo discreto e bem pessoal para quem ainda não sabe se precisa de ajuda médica. O usuário faz um pequeno teste, que pode ser refeito conforme sintomas mudam, e indica a situação atual. O app não é um tratamento ou terapia. É um auxílio de diagnóstico e monitoramento da saúde mental do usuário. É importante levar as informações a um profissional e fazer o tratamento adequado. Desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Gratuito para Android e iOS.

HISTÓRIA DO BRASIL Para melhor entender o momento histórico do país, é importante conhecer a história até aqui. Este app serve como um tira-dúvidas, apoio a estudos e também um passatempo educativo. Os períodos históricos do Brasil são divididos por temas. Em cada tópico há uma quantidade de conteúdo relacionado. Basta clicar e ler. Depois, para fixar as informações, há um quiz. Gratuito para Android. FONTES: PLAY STORE E ITUNES

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CURIOSIDADES DA BIODIVERSIDADE

A força do Carimbó TEXTO E FOTO INOCÊNCIO GORAYEB

O carimbó está com força e se estendeu encantando o Brasil e o mundo. É a biodiversidade das comunidades paraenses refletida em suas relações interpessoais e com a natureza costeira, ribeirinha ou interiorana. “Viemos da nossa terra, fazer barulho na casa alheia.”. “Eu quero saber por que é que no mar não tem jacaré?”. “Curió do bico doce, passarinho, quem te trouxe pra chamar meu carimbó?”. “Limoeiro baixa o galho que eu quero tirar um limão, quero tirar uma mágoa dentro do meu coração.”. “O pescador quer beber, vai beber no Guajará, vento no bote, força no remo, canto de atravessar.”. “Eu tô só morena, eu tô só, tomara que tu me venhas num canto de carimbó.”. “A coruja cantou no galho da laranjeira, quem quiser tomar café vá falar com a cozinheira.”. “Me ‘arresponde’ boto preto, quem te deu esse piché, foi limo de maresia ou inhaca de mulher?”. “Dança menina, remexe paixão, com teu feitiço e tua sedução.”. “Maçariquinho na beira da praia, como é que a mulher levanta a saia?”. “Veado no mato é bicho corredor, corre veado lá vem caçador.”. “A garça namoradeira namora o malandro urubu no meio do pitiú.”. As relações das comunidades da Amazônia Oriental com a natureza são refletidas nas cantorias do carimbó e isso representa tanto a riqueza da biodiversidade como a vida dependente de recursos naturais ainda conservados. As cantigas demonstram ainda a identidade do povo paraense que reafirma o orgulho de interagir com a beleza dos lugares e a riqueza da fauna e da flora. Hoje, todas as cidades, bairros e 18 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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escolas têm um grupo de carimbó. A produção de novas músicas é intensa e muitos mestres estão surgindo na correnteza do ritmo. O sangue tupinambá misturado com o negro e o europeu

aquecem esta veia cultural. Chama Verequete, chama Cupijó, Lucindo, Duluca e Pinduca. Chama todo mundo pra correr na maré do carimbó. Na foto abaixo, o Grupo Pará Caboco.


DESENHOS NATURALISTAS

CONCEITOSAMAZÔNICOS O VOCABULÁRIO REGIONAL É UM PATRIMÔNIO

Pira, pirento O termo é utilizado na Amazônia referente às brincadeiras comuns das crianças conhecidas no resto do Brasil como pega-pega. As crianças brincam correndo, fugindo da “mãe”; aquele que é tocado por ela passa a ser a mãe da vez e todos fogem dele. Existem muitos tipos de pira, entre eles pira-cola, pira-cega, pira-se-esconde e pira-alta. Pira-cola é quando as crianças se dividem em dois grupos e correm fugindo uns dos outros. Quando uma criança é tocada por alguém do outro grupo fica parada (colada), só sendo liberada se for tocada por alguém do seu grupo. O time que for todo colado perderá a rodada. Existe também a pira-cega, quando as crianças fogem da mãe, que usa uma venda no rosto e tenta tocar alguém, que passará a ser a mãe da rodada. A pira-cega geralmente é jogada em

ACERVO MUSEU GOELDI

Mantispidae da Amazônia Em 1975 o pesquisador Warwick Kerr era diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e decidiu que só era possível avançar os estudos na região contratando doutores. Ele então abriu várias vagas para quem quisesse residir em Manaus e trabalhar na Amazônia. Poucos brasileiros se interessaram, mas um grande número de doutores estrangeiros recém-formados foram contratados pelo INPA. Nos anos seguintes foram criados vários cursos de pós-graduação, mestrados em Botânica, Entomologia, Ictiologia, Ecologia e Agronomia. Também houve um grande incremento no intercâmbio científico com instituições de destaque tanto brasileiras como estrangeiras, como o Museu de Zoologia da Universidade de São Pau-

lo, Museu Nacional do Rio de Janeiro, o Instituto Alemão Max Planck, dentre outros. Este foi um período histórico e proveitoso para a ciência da Amazônia, com destaque à visão de gestor e cientista do Dr. Kerr. A figura é de uma espécie de inseto da família Mantispidae, da ordem Neuroptera ( Trichoscelia iridella), que se parece com louva-a-deus, desenhado por Norman Penny, um dos jovens doutores norte-americanos que vieram para região. Ele e Jorge Arias, panamenho egresso da universidade americana, publicaram os primeiros artigos sobre os Mantispidae da Amazônia e descreveram sete espécies novas, dentre estas, uma espécie coletada em Belém, nas florestas da Embrapa: a Plega paraense. Por

um ambiente limitado, como em um quarto por exemplo. Já na pira-se-esconde a mãe fica em um ponto, de olhos fechados e contando. Os demais têm que se esconder durante a contagem. A mãe então se afasta do local e vai descobrindo e falando onde estão os outros; se alguém tocar o ponto a rodada acaba e a mãe volta a contagem no lugar inicial. Os termos pira e pirento também são relativos à coceira, sarna e ferida. A palavra ainda é aplicada para fazer referência à fonte de fogo. Por INOCÊNCIO GORAYEB

INOCÊNCIO GORAYEB

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OLHARES NATIVOS

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Treino e concentração Aqui é melhor. Todo dia dou minhas carreiras pela praia e para nas raízes retorcidas para me equilibrar e fazer uns exercícios. A cabeça fica melhor porque fico olhando o horizonte dessa bela natureza. Registro de João Victor se exercitando na praia do Amor, em Outeiro. Nas páginas a seguir, um ensaio especial do fotógrafo paraense FERNANDO SETTE JULHO DE 2017

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OLHARES NATIVOS

Salto da fé

A relação do homem com os rios na Amazônia vai muito além da exploração de recursos de subsistência. O lazer em uma natureza conservada e bela é um privilégio. Lago da Princesa/ Algodoal, Marudá. FOTO: FERNANDO SETTE

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Sesta no terreiro

A vida rural é diferente. Uma sesta no terreiro da casa, o clima ameno propiciado pelas matas e capoeiras, a sombra e os sons dos pássaros e do vento ninam as pessoas. Esticar-se numa rede é muito gostoso, ainda mais quando pendurada de uma mangueira a uma seringueira. Praia do Aramanai/ Belterra. FOTO: FERNANDO SETTE

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OLHARES NATIVOS

Água e ecossistema

As águas na Amazônia são recursos naturais exuberantes e a riqueza da biodiversidade está relacionada a esta característica. Águas do mar, dos rios, lagos, aquíferos e da chuva banham a vida e compõem os ecossistemas amazônicos. Praia Grande/ Salvaterra, no Marajó. FOTO: FERNANDO SETTE

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Qualquer beira

Nos meses de verão amazônico o calor é mais intenso e as pessoas costumam tirar uns dias de folga para ir às beiras. Qualquer beira de mar ou rio serve para pegar um vento na cara, ficar de molho e contemplar a beleza da natureza. Carapanari/ Santarém FOTO: FERNANDO SETTE

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OLHARES NATIVOS

Vida adaptada

Os rios enchem e baixam anualmente e os ribeirinhos estão adaptados a essa dinâmica de enchentes. Suas moradias são palafitas ou casas flutuantes construídas sobre toras de grandes árvores. As canoas com rabetas levam as pessoas nestas águas amazônicas. Praia do Caripi/ Barcarena. FOTO: FERNANDO SETTE

Envie as suas fotos para a seção Olhares Nativos 26 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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Para participar da seção “Olhares Nativos” da revista Amazônia Viva basta enviar fotos com temática amazônica para o e-mail amazoniaviva@orm.com.br acompanhadas pelo nome completo do autor, número de identidade e uma breve informação sobre o contexto do registro fotográfico. As imagens devem ser autorais e com resolução de no mínimo 300 dpi. A publicação das fotos tem fins meramente de divulgação de trabalhos profissionais ou amadores, não implicando em qualquer tipo de remuneração aos autores. Participe!


OPINIÃO, IDENTIDADE, INICIATIVAS E SOLUÇÕES RORAIMA ADVENTURES/ DIVULGAÇÃO

IDEIASVERDES

Amazônia rochosa FORMAÇÕES COMO O MONTE RORAIMA E O TEPUI KUKENAN ATRAEM TURISTAS EM BUSCA DE PAZ E AVENTURA

PÁGINA 32

CULTURA

SUSTENTABILIDADE

O pesquisador Renato Vieira estuda as famosas “Varinhas do Amor de Mosqueiro” para que elas não caiam no esquecimento. PÁG.28

UFPA estimula estudantes a debaterem sobre consciência ambiental em espaços diferenciados dentro de campi em Belém. PÁG.40


ENTREVISTA

A

ilha de Mosqueiro, distrito a cerca de 70 km de Belém, esconde tradição e culturas próprias de muitos anos. Mas devido a um processo de urbanização irregular, poucos conhecem a produção das varinhas com bordados geométricos. Esses artefatos, também conhecidos como “Varinhas do Amor”, são símbolos marcantes da tradição local. Têm forte influência indígena e eram repassadas de geração em geração. Esse souvenir era comum. A matéria-prima era fácil de achar. Com o desmatamento e a urbanização, essa tradição foi se perdendo. Atualmente, quase não se ouve falar das Varinhas do Amor, que marcaram muitos casais nativos de Mosqueiro ou que passavam pela “Bucólica”. A nova geração desconhece o valor e o simbolismo dessa tradição. A produção era de mulheres das comunidades Mari Mari e Caruaru. A arte também foi levada à ilha de Marajó. Mestre em Artes e doutorando em Antropologia, Renato Vieira dedicou a pesquisa de mestrado às Varinhas Bordadas. Estudou a história e a simbologia dessa tradição para a população de Mosqueiro. Durante a pesquisa, encontrou muito afeto por essa cultura quase desconhecida e esquecida. 28 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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“A tradição não se perdeu por completo” O PESQUISADOR RENATO VIEIRA SE DEDICA AO ESTUDO DAS “VARINHAS DO AMOR DE MOSQUEIRO”, ARTEFATOS QUE GUARDAM UMA PARTE DA HISTÓRIA E DA CULTURA AMAZÔNICA NA ILHA TEXTO ANA PAULA MESQUITA FOTO EVERALDO NASCIMENTO


O que seriam as varinhas bordadas e qual a relação com a nossa região? O fenômeno das varinhas constitui-se de manifestações da cultura visual. Relativamente recentes, mas com um aporte de experiências construídas que lhe certifica significação pouco manifestada. Nessas varinhas são feitos os grafismos bordados com o auxílio de uma lâmina cortante, retirando-se a casca da madeira santa-clara (Euphorbiaceae, espécie Mabea angustifolia, Spruce ex Beuth) e outras espécies como a canela-de-vidro (Euphorbiaceae, espécie Aparisthmium cordatum Baill.), dando origem às formas. As varinhas são pequenos troncos de madeira com diâmetro regular, variando de 0,5 cm a 3 cm e com extensão longitudinal de até 1 m. As figuras são geométricas e podem ser de vários padrões. A finalidade primeira dessas varinhas é ainda desconhecida, mas há pelo menos 50 anos elas têm sido vendidas como lembrança, símbolo de afeto e instrumento de conquista. Daí ter se popularizado

LUGAR DE INSPIRAÇÃO

Os encantos de Mosqueiro guardam tradições culturais próprias do da ilha

em Mosqueiro como “Varinha do Amor”. Como originou a tradição das varinhas bordadas? Mosqueiro é um lugar que, no passado, foi cenário de guerra e absoluta indiferença para com o direito de populações excluídas. A bela ilha sempre possuiu a dádiva de encantar pelas praias, florestas, paisagens e, por uma tradição, entre os casais ternamente chamada “Varinha do Amor”. Depois de muitos anos, após o fim das viagens de navio, Mosqueiro e as varinhas ainda preservam fortes laços ao ponto desse objeto representar seu povo e suas tradições bucólicas: um símbolo do lugar, tão marcante quanto suas belezas, mesmo que elas, as varinhas e seus bordados geométricos hoje, se apresentem discretamente. Moradores da ilha afirmam que as varinhas teriam origem indígena, com alguma finalidade que não se sabe precisar. Mesmo ao se falar da tradição indígena, os relatos são sempre inseguros, sem fontes confiáveis como um rumor que não se sabe de onde

“Mosqueiro é um lugar que, no passado, foi cenário de guerra e absoluta indiferença para com o direito de populações excluídas. A bela ilha sempre possuiu a dádiva de encantar pelas praias, florestas, paisagens e, por uma tradição, entre os casais ternamente chamada ‘Varinha do Amor’.”

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ENTREVISTA

surge. Devido a isso, alguns apostam em que “veio do Marajó” e virou moda em Mosqueiro. Uma afirmação conclusiva para eles, que na prática não se confirma. Quem produzia as varinhas bordadas? Pessoas da localidade de área florestal de Maracajá. Um dos bairros localizados na Ilha de Mosqueiro, específico de duas comunidades: Caruaru e Mari Mari. Foi nesse bairro ou comunidades que viu-se disseminar, ao longo do século XX, o intenso comércio de Varinhas do Amor. As referências desse tempo são ricas, bastando a qualquer pessoa o ato de caminhar com um exemplar delas pelas ruas para que logo apareçam as intervenções dos moradores veteranos: “Olha uma varinha!”, “Isso foi uma febre!” ou “Conheço quem bordava bem!”. Geralmente se referindo aos anos de esplendor dos grafismos geométricos bordados por algum parente de meia idade, idosa ou já falecida. É importante pontuar que, assim como muitas tradições artísticas da região amazônica, as varinhas bordadas se constituíram como uma prática de gênero que está relacionada com um histórico hegemônico conhecido. Relatos mostram que a tradição tornou-se uma atividade predominantemente feminina, visto que os homens desenvolviam trabalhos braçais como a caça, a pesca e a carpintaria enquanto suas vizinhas, parentes ou companheiras, ficavam em casa com as filhas bordando varinhas e ensinando-as para que as vendessem na chegada dos navios. Qual a significação ou finalidade das varinhas bordadas para esses moradores da comunidade de Maracajá? Moradores antigos afirmam que a finalidade das varinhas era o desfile, ou “passeio” pelos logradouros da vila. Havia um desejo de conquista fundado em crenças populares que faziam com que os jovens se presenteassem mutuamente. Para alguns, isso era verdadeiro, mas para outros, pouco importava; as falas demonstram que andar com as varinhas era mesmo elegante. 30 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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DIVISÃO DE TAREFAS

De acordo com a pesquisa de Renato Vieira, relatos mostram que a tradição de confeccionar as Varinhas do Amor tornou-se uma atividade predominantemente das mulheres da Mosqueiro, já que os homens desenvolviam trabalhos braçais como a caça, a pesca e a carpintaria


Essa tradição das varinhas bordadas ainda permanece viva? Com muita dificuldade. E só devido à iniciativa de algumas mulheres das gerações antigas. As novas gerações não conhecem essa tradição. Entretanto, o mito da varinha encantada perdeu força entre os populares dando lugar à percepção tradicional de objeto da cultura local. Por esse motivo, ocupa uma posição marcada entre os que ali vivem, principalmente, as que o confeccionam. Das mais importantes para esse trabalho, duas vivem na comunidade do Caruaru e outra pertence ao Castanhal do Mari Mari, embora more atualmente no bairro do Maracajá. As três são responsáveis pelo elo entre o passado e o presente. Suas falas são aporte para discussões sobre a experiência artística e todas as demais questões a serem aprofundadas. Graças a essas mulheres das gerações passadas, essa tradição não se perdeu por completo. Resiste, apesar de todas as dificuldades. O que pode ter sido a causa da “perda” dessa tradição das varinhas bordadas nas gerações mais jovens? A partir de 1976, com a inauguração da ponte de Mosqueiro, diminuem os roteiros de navio e há um incremento no comércio local. Desse modo, o avanço da urbanização e o desmatamento prejudicaram a coleta da matéria-prima. Foi decisivo para a derrocada da tradição ainda na década de 1970. As falas das bordadeiras mostram que a ausência da mata próximo à zona urbana de Mosqueiro dificulta o ressurgimento dessa tradição. Raimunda Araújo, conhecida como “Dona Dica”, que morreu em 2012, foi uma das mulheres que resistiram com essa tradição. A função de bordadeira de varinhas era um complemento na renda familiar. Porém havia um sentimento de afeto com essa tradição. O hábito de bordar as varinhas para ela era uma forma de estar sempre em contato e ligada a natureza. E isso foi se perdendo com a extração e venda clandestina de madeira que fomentou a extinção de animais e vegetais inclusive os vegetais que eram utilizados para confeccionar as varinhas.

“Com a inauguração da ponte de Mosqueiro, diminuem os roteiros de navio e há um incremento no comércio local. Desse modo, o avanço da urbanização e o desmatamento prejudicaram a coleta da matéria-prima. Foi decisivo para a derrocada da tradição ainda na década de 1970.” O senhor desenvolveu um trabalho de pesquisa sobre as varinhas bordadas e pretende seguir no doutorado. Qual a importância do estudo desse fenômeno para a sociedade e pesquisa? É importante para a cultura paraense porque destaca um traço praticamente esquecido da cultura de Mosqueiro, historicamente relegada ao esquecimento. Tanto pelo poder público quanto pela mídia local. É importante para a sociedade porque discute direitos de expressão das minorias como mulheres e etnias nativas. É valiosa para o mundo científico pela oportunidade de novas descobertas ligadas a saberes culturais que interessam às ciências sociais e outros ramos da pesquisa científica. JULHO DE 2017

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CAPA

PONTO ALTO

DA AMAZÔNIA

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COM 2.734 METROS DE ALTITUDE, O MONTE RORAIMA ATRAI VISITANTES DE TODA PARTE DO MUNDO, INSPIRADOS PELA BUSCA DE CONHECIMENTO, MISTICISMO E AVENTURA TEXTO CARLOS HENRIQUE GONDIM


FOTO DE PAOLO COSTA BALDI. LICENÇA GFDL_CC-BY-SA 3.0

A

o chegar no topo do Monte Roraima, o visitante tem a nítida impressão de que o tempo parou. Ou que foi transportado para uma época passada, de milhões de anos atrás. Ele está em meio a formações rochosas únicas, com cerca de 2 bilhões de anos, e existem poucos sinais da civilização moderna a que estamos acostumados. Até chegar lá, o visitante terá caminhado quase 28 quilômetros em um dos percursos mais enriquecedores na vida de qualquer ser humano. Assim é a expedição ao Monte Roraima, o sétimo ponto mais alto do Brasil, com 2.734 metros de altitude. São poucos metros abaixo dos 2.995 do Pico da Neblina, o ponto mais elevado do país. Ambos ficam na Amazônia e podem ser acessados a pé, sem necessidade de equipamentos de escalada. Há anos, o Monte Roraima vem fascinando artistas e escritores em todo o mundo. Em 1912, sir Arthur Conan Doyle, criador do icônico Sherlock Holmes, publicou a obra “O Mundo Perdido”,

que se passa em um cenário fictício, recheado de dinossauros e claramente inspirado no Monte Roraima. Recentemente, o filme de animação “Up - Altas Aventuras” também usou o local como inspiração para a criação do “Paraíso das Cachoeiras”. Chegar lá era o sonho de infância do protagonista, o viúvo rabugento Carl Fredricksen, deliciosamente dublado por Chico Anysio. Mais recentemente, em 2014, a novela “Império”, da Rede Globo, teve cenas gravadas no local, tido como fonte da fortuna do “Comendador”, personagem do ator Alexandre Nero. Obviamente, são todas criações fantasiosas, mas que explicam um pouco do fascínio que o Monte Roraima exerce sobre seus visitantes. O nome do local foi dado pelos indígenas, a partir das palavras “roroi” (“verde azulado”) e “ima” (“grande”), na língua Pemon, falada por habitantes do sul da Venezuela da mesma etnia Taurepang, no Brasil. Para eles, o local é sagrado e deve ser respeitado por quem o visita.

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EXTREMO NORTE

Ao lado do tepui Kekunan, o Monte Roraima (à direita), localizado no Estado de Roraima, é o sétimo ponto mais alto do Brasil, com 2.734 metros de altitude. São poucos metros abaixo dos 2.995 do Pico da Neblina, o ponto mais elevado do país. Ambos ficam na Amazônia.

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Com cerca de 90 quilômetros quadrados, a montanha se estende por três países: Venezuela, Guiana e Brasil. A parte brasileira fica no norte do Estado de Roraima, que foi batizado com esse nome por causa do monte, e corresponde a apenas 5% da área total. A Venezuela detém 80% do monte e é por lá o principal acesso ao local. Os outros 15% ficam na Guiana, território que é contestado há anos pela Venezuela. Mas isso já é outra história. Tecnicamente falando, o Monte Roraima é um tepui, um tipo de monte em formato de mesa característico do planalto das Guianas. Seu ponto culminante eleva-se no extremo sul, no estado venezuelano de Bolívar, a 2.810 metros de altitude. Há mais de 25 anos, o empresário Magno de Souza organiza expedições ao Monte Roraima. O que começou como hobby virou sua principal atividade e, após onze anos visitando o local com frequência, fundou, em 2003, a Roraima Adventures. A empresa realiza expedições regulares ao monte, saindo da capital roraimense, Boa Vista, em um percurso de mais de 320 quilômetros até o topo da montanha. “O Monte Roraima tem atraído a atenção de turistas, aventureiros, cientistas, biólogos, antropólogos, esotéricos, místicos e todos aqueles que buscam nessa fascinante aventura o reencontro consigo mesmo e com a origem da vida, levando a todos a repensarem sobre o verdadeiro sentido da vida”, afirma Magno. “O primeiro homem a vislumbrar o Monte Roraima foi o inglês Sir Walter Raleigh, em 1595, que chegou até a base, mas não conseguiu subir. Somente em 1884, o botânico Everard Im Thurn conseguiu a proeza. Seus impressionantes relatos inspiraram o escritor Arthur Conan Doyle na 34 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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INTI LICENÇA GFDL CC BY SA 3.0

CAPA


EDMILSON SANCHES / LICENÇA GFDL CC BY SA RORAIMA ADVENTURES/ DIVULGAÇÃO

UMA BELEZA DESLUMBRANTE

RORAIMA ADVENTURES/ DIVULGAÇÃO

As formações rochosas e as cachoeiras, como o Salto Angel, a maior do mundo em queda livre, são alguns dos atrativos da experiência no Monte Roraima

obra ‘O Mundo Perdido’”, completa o empresário. Para chegar ao ponto mais alto do Monte Roraima, são necessários três dias de viagem, partindo de Boa Vista, pela BR-174. São 200 quilômetros de van em um trajeto de três horas até a cidade de Santa Elena de Uairén, já na Venezuela. Para atravessar a fronteira, é necessário apresentar apenas a carteira de identidade (RG). De lá, o grupo embarca em veículos 4x4 para mais 100 quilômetros até a comunidade indígena de Paraitepuy. Após mais cerca de uma hora e meia de viagem, o grupo está pronto para iniciar a caminhada. A partir daí, serão dois dias e meio de “trekking”, de mochilas nas costas, até o objetivo final. Quem precisar pode contar com o auxílio de carregadores, contratados na própria comunidade indígena. A partir deste trecho e até o final da viagem, é essencial o uso de protetor solar, repelente, capa de chuva e boné, de preferência com proteção de tecido para a nuca. O cenário é de savana, sob Sol intenso, mas a chuva pode cair a qualquer hora. A presença de mosquitos é frequente. As águas proporcionam a existência de cachoeiras espetaculares na região, como o famoso Salto Angel, no Ayuan Tepui, o maior salto d’água do mundo em queda livre. No primeiro dia, são 15 quilômetros de trilha, no trecho mais extenso da caminhada, que termina com acampamento. No dia seguinte, são mais oito quilômetros até a base do monte e um novo acampamento. No terceiro dia, ocorre a subida até o topo, em um trajeto de quatro quilômetros e meio. É uma subida que chega, em algumas partes, a 45 graus de inclinação, mas que dispensa o uso de cordas ou equipamentos de escalada. O grupo alcança o topo por volta do meio-dia e pode começar a curtir os atrativos do local. JULHO DE 2017

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CAIO VILELA / GFDL CC BY SA 3.0

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UM LOCAL ÚNICO NO MUNDO

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PAISAGEM INCRÍVEL

Quem faz o “trekking” até o Monte Roraima se encanta com a grandeza do lugar, tornando a caminhada inesquecível

FOTOS: RORAIMA ADVENTURES/ DIVULGAÇÃO

O Monte Roraima possui características que o diferenciam de qualquer outro lugar no mundo. “O Monte Roraima é o mais complexo, desafiador e misterioso dos tepuis. Como todos os tepuis dessa região, ele começou a ser desenhado há quase dois bilhões de anos, quando nem sequer os continentes apresentavam seus contornos atuais. O topo do Roraima é um lugar sinistro, sem referências geográficas em qualquer outra região da Terra”, explica Magno de Souza. “Muitos trechos dos seus quase 90 quilômetros de área permanecem ainda intocados, seja pela dificuldade de acesso ou pelas crenças indígenas que os isolam. Para se ter uma ideia, somente em 1976 é que o primeiro homem (o escritor venezuelano Charles Brewer-Carias) desvendou o impressionante Vale dos Cristais, local próximo ao ponto que marca a tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana”, complementa. No topo do monte, é encontrada uma flora diversificada, com pelo menos 400 tipos de bromélias e mais de 2.000 tipos de flores e samambaias. A fauna é composta por pássaros, insetos e anfíbios - entre eles a peculiar borboleta-tigre e o sapo de nome científico Oreonphynella quelchii (um sapinho preto da barriga vermelha, do tamanho da unha do polegar humano). Entre as plantas, Magno aponta uma peculiaridade: “Forçadas a se adaptar por causa da falta de nutrientes do solo, ao longo de milhões de anos, elas evoluíram em novas espécies – as bromélias, por exemplo, criaram surpreendentes hábitos carnívoros, alimentando-se de insetos”, revela.


TRILHA SELVAGEM O Roraima é um dos montes mais altos e peculiares do Brasil

Altitude 2.734 metros Ponto culminante 2.810 metros Área do topo 90 mil metros quadrados Temperatura de 10ºC a -5ºC Flora 400 tipos de bromélias 2.000 tipos de flores e samambaias O Monte Roraima recebe cerca de 3.500 visitantes todo ano. Cada visitante vive a experiência de uma maneira. “Não sou trilheiro, porém faço corrida uma vez por semana, o que me deu condicionamento para aguentar a trilha com uma pesada mochila sem problemas. O visual é incrível, porém, em todos os dias o que mais me chamou a atenção foi conhecer a vida, a rotina dos carregadores e pessoas das comunidades locais durante o trajeto. Que apesar de toda precariedade, vida dura, não perdem a ternura, a gentileza, a alegria de viver. Posso dizer que a paisagem natural do lugar foi uma experiência secundária, periférica. As histórias de vida, o contato com a equipe de carregadores e os guias é que representou uma experiência relevante no campo pessoal”, afi rma Valdir Silveira, que visitou a montanha em junho de 2015. O brasiliense Cesar Tardelli também ficou impressionado. “O trekking JULHO DE 2017

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ao Monte Roraima foi espetacular. Atravessando a Gran Sabana com visão dos tepuis Kukenan e Roraima, a escalada íngreme e, finalmente, o Monte, quase sempre envolto por névoa passageira e com formações rochosas que parecem não pertencer a este mundo. Simplesmente majestoso”. Moradora de Boa Vista, Inaiara Sá sonhava desde criança em visitar o Monte Roraima. “Descobri que a expedição começa quando o Monte te chama, naquele momento em que você olha pra ele e diz: ‘Um dia vou aí!’. Isso para algumas pessoas dura dias, para outras, é uma questão de anos”, conta. Ela destaca a solidariedade entre todos os que participam da excursão. “Encontrei de novo a solidariedade, dessa vez expressa na ‘etiqueta da trilha’. Todos sempre se ajudando. Mesmo quando caminhamos sozinhos, quietos e reflexivos, estamos atentos às necessidades dos outros. Como foi maravilhoso viver isso na trilha! Podia ser assim com todos, em qualquer hora e lugar”, diz. A paulista Nanci Yuko Kaneko já pensa em voltar. “Geralmente viajo apenas uma vez para cada lugar mas não descartaria a hipótese de voltar pro mesmo Monte Roraima, talvez com mais calma e sem a preocupação do ‘novo’. Gostei muito de margear o rio que fica no caminho para chegar ao lago Gladys. O Vale dos Cristais parece coisa de filme encantado. Sem contar as formações rochosas. Soltando a imaginação, eu tinha a impressão de ver um exército caminhando ao longo do horizonte”, lembra. Segundo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a maior parte dos turistas que visitam o Monte Roraima é da própria América do Sul (45,7%), mas também vêm visitantes da Europa (38,48%) e da América do Norte (5,12%). O conselheiro da Embaixada da República Eslovaca no Brasil, Viliam Rosenberg, subiu até o topo do Roraima e pretende voltar. “As fotos da viagem circularam na Eslováquia e vários dos meus amigos disseram que suas próximas férias seriam para Roraima. Eu também quero repetir a viagem, 38 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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FOTOS: RORAIMA ADVENTURES/ DIVULGAÇÃO

CAPA

talvez na época de que a chuva não é tão frequente”. No entanto, como todo morador da Amazônia bem sabe, é impossível prever a ocorrência de chuva nesta região. “A chance de pegar chuva ou Sol acontece o ano todo. Mas, em geral, de setembro a março é a melhor época do ano”, conta o empresário Magno de Souza. “A temperatura varia entre 10ºC e -5ºC, dependendo das condições meteorológicas. Depende muito do momento. Há momentos com sol, com nuvens, neblina e chuva”, completa.

AUTORIZAÇÃO PARA VISITAR O MONTE Para acessar o Monte Roraima pelo lado venezuelano é necessário obter uma autorização do Instituto Nacional de Parques da Venezuela (Inparques). E a visita só pode ser feita com o acompanhamento de um guia devidamente registrado. No lado brasileiro, foi criado o Parque Nacional do Monte Roraima, adminis-


DE TODA PARTE

Segundo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a maior parte dos turistas que visitam o Monte Roraima é da própria América do Sul (45,7%), mas também vêm visitantes da Europa (38,48%) e da América do Norte (5,12%)

AMAZÔNIA NAS ALTURAS

Entre os 30 pontos mais altos do Brasil, cinco estão na Amazônia, sendo três no estado do Amazonas e dois em Roraima. Posição na Amazônia

Nome

Local

Altitude

Posição no Brasil

Pico da Neblina

Serra do Imeri, Amazonas

2.995 m

Pico 31 de Março

Serra do Imeri, Amazonas

2.974 m

Monte Roraima

Monte Roraima, Roraima

2.734 m

Pico do Cadorna

Serra do Imeri, Amazonas

2.596 m

18º

Arabapo

Serra Arai, Roraima

2.370 m

28º

FONTE: IBGE

trado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Quem quiser visitá-lo deve solicitar autorização prévia ao ICMBio. “Todo o acesso ao Monte Roraima se dá pela Venezuela. Só há uma via de acesso por terra, que fica lá. Pelo lado guianense, uma equipe de São Paulo fez a escalada e deixou a via aberta. Mas essas atividades não são permitidas de forma regular. Foram previamente autorizadas”, conta Magno de Souza. De acordo com ele, obras como a animação “Up - Altas Aventuras” e a novela “Império” têm ajudado a divulgar cada vez mais o Monte Roraima como roteiro turístico no Brasil e no mundo. Mas o potencial turístico do local ainda é muito pouco explorado. “Como produto turístico, o Monte Roraima é uma referência, já que é um local único no mundo. A mídia tem colaborado bastante, promovendo o monte como destino turístico. A novela gerou uma procura muito forte”, conta Magno. “O lado venezuelano tem tido cuidado na exploração turística, com relação ao lixo e ao impacto ambiental. As coisas estão melhor controladas, mas ainda há necessidade de aperfeiçoamento nos cuidados com o meio ambiente”, avalia o empresário. Ao organizar uma expedição para o local, a preocupação com os resíduos sólidos é uma preocupação constante. Os visitantes são orientados a não jogar lixo no chão e nas águas e uma atenção especial é dirigida aos fumantes – já que uma bagana de cigarro pode causar estragos imediatos. Além disso, todos os visitantes são orientados a não levar nada do local. Ao final da viagem, quem descumprir a regra pode até ser detido pela guarda venezuelana. Subir uma montanha de quase três mil metros de altura não é para qualquer um. Exige um certo esforço e preparação, em uma caminhada de quase 28 km. Mas as recompensas estão por toda parte, em uma paisagem exuberante. E se trata, sobretudo, de uma viagem interior, na qual você aprenderá um pouco mais sobre os limites do seu corpo e o significado de desafiar a 7ª maior montanha do Brasil. JULHO DE 2017

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SUSTENTABILIDADE

Lugar de consciência ambiental

C

omo se mede o grau de consciência ambiental de uma pessoa? Não jogar lixo na rua é o mínimo que um cidadão pode fazer pelo meio ambiente. Mas, a julgar pela quantidade de sujeira que entope os bueiros e canais de Belém a cada chuva, chega-se à conclusão que o belenense, em geral,

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anda meio relaxado nesse quesito. Com o intuito de despertar a consciência ambiental nos estudantes e na comunidade externa, a Universidade Federal do Pará (UFPA) criou, há seis anos, o ITEC Cidadão (o ITEC vem de Instituto de Tecnologia, ao qual o espaço é ligado), um espaço que funciona aos moldes de uma ONG, mesmo

ITEC Cidadão estimula práticas sustentáveis da comunidade acadêmica da UFPA TEXTO CARLOS HENRIQUE GONDIM FOTOS SILVIA ATAÍDE

sem sê-la, no campus do Guamá, próximo à ponte de pedestres que separa o campus Básico do Profissional. O Espaço ITEC Cidadão fica localizado no centro dos bosques Benito Calzavara e Camilo Vianna, que somam uma área de 16 mil m² e que passaram a ser integrados a ele. A instituição é

CAMPUS NATURAL

No ITEC Cidadão, tudo é pensado com o objetivo de estimular a consciência ambiental dos estudantes, como atividades de reclclagem e plantação de mudas


coordenada pela administradora Gina Calzavara, fi lha de Benito e servidora de carreira da UFPA. “É um espaço de convivência em uma área nobre no meio da cidade universitária. Não tem portas, grades ou paredes. É absolutamente aberto, ao longo do igarapé do Tucunduba e limitado pela pista”, diz. Lá, os estudantes podem conhecer mais sobre as espécies típicas da Amazônia em nos bosques, jardins e hortas que fazem parte do espaço. Todos os dias, centenas de estudantes passam pelo local, repleto de plantas e mudas plantadas em “vasos” nada convencionais, como pares de sapatos, potes de vidro, latas de alumínio, capacetes de obras e carcaças de monitores de computador. É a expressão prática de um dos 3 Rs da Sustentabilidade, o “reutilizar”, que se soma ao “re-

duzir” e “reciclar”. “Capacetes de obras podem virar um jardim vertical. A sacola de feira que está desgastada vira um vaso. Com monitores de computador, nós fi zemos um ‘jardim tecnológico’. Os pneus do setor de transporte são aproveitados aqui mesmo. Nós não precisamos comprar vaso. Nós trabalhamos com o que é inservível para alguém. A maneira como você olha o resíduo sólido é que faz a diferença no nosso trabalho”, explica Gina. No ITEC Cidadão, tudo é pensado com o objetivo de estimular a consciência ambiental dos estudantes. Ao lado das plantas, são dispostas garrafas pet com água, com placas estimulando quem passa por ali a regar as plantinhas. Aliás, a água usada para isso é captada da chuva, a partir do teto da cantina do ITEC Cidadão, e armazenada em um reservatório.

“A água é um bem fi nito. Não tem sentido você usar uma água tratada para regar uma planta ou limpar uma sala. A água de chuva é viável. A ideia é que as pessoas possam se conectar com esse espaço. E elas próprias regam as plantas, em vez de ficar reclamando que a planta está morrendo porque não tem água. Assim, a gente procura trabalhar a consciência cidadã de cada usuário que passa por esse espaço. Se nós fazemos formação acadêmica, nós temos que fazer acima de tudo formação cidadã. Acreditamos que educação ambiental se faz no cotidiano da vida. Não é uma oficina, uma palestra”, aponta Gina Calzavara. Para ela, a universidade deve participar desse processo, com os estudantes aplicando o que é aprendido em sala de aula. “Nós buscamos conectar o Espaço ITEC Cidadão à missão da UFPA, que é gerar, DANDO O MELHOR EXEMPLO

O vice-diretor da Faculdade de Biologia da UFPA, o professor Marco Antônio Menezes Neto (à direita da foto), colabora com o ITEC Cidadão desde a fundação do espaço, orientando os alunos a terem atitudes mais sustentáveis

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SUSTENTABILIDADE

difundir, aplicar o conhecimento, formando cidadãos que percebam onde eles estão, na Amazônia, e trabalhando a questão da sustentabilidade. Exercitar a criatividade na universidade é estimular o aluno a sair da zona de conforto, se propor a construir alguma coisa. Aqui nesse espaço a gente procura transformar as queixas em ações proativas para corrigir aquilo que era queixa”. Desde que foi criado, o ITEC Cidadão tem mudado a rotina de quem passa pelo local. Se antes era um lugar de certa forma até temido por alguns universitários, principalmente à noite, por ficar deserto e mal iluminado, hoje é o inverso. Alunos se reúnem no local para conversar, ler ou estudar, entre uma aula e outra. E passam a se integrar, em maior ou menor grau, às atividades do local. É o caso de Letícia Araújo Cordeiro, de 19 anos, que cursa o 2º semestre de Letras. “É meu lugar favorito na universidade. Quando eu era caloura, cheguei e vi isso aqui, fiquei apaixonada. Desde o meu primeiro dia de aula, parei aqui e fiquei olhando. É maravilhoso”, conta. Para a estudante Vilma da Silva, 33, que cursa o 8º semestre de Turismo, todos os in42 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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tegrantes da comunidade universitária deveriam participar mais do espaço, que é aberto a estudantes de qualquer curso. “Todos os cursos devem se integrar mais. Aqui tem alunos de biologia, mas também de engenharia, turismo, mecânica, engenharia ambiental, ciências naturais. Essa mistura de áreas do saber é muito vantajoso para a sociedade em geral. Porque o estudante sai daqui com outro olhar sobre o meio ambiente. É muito importante que todos os estudantes se envolvam com esse espaço e participem mais desse local”, aponta Vilma. Augusto José Azevedo Rodrigues, de 24 anos, é aluno de Engenharia Elétrica e cursa o 9º semestre. Ele frequenta o ITEC Cidadão desde o 2º semestre e

se tornou colaborador do local, desenvolvendo várias atividades. “Aprendi a desenvolver ideias sem agredir o meio ambiente. Uma delas foi o telhado vivo. Fiz primeiro uma maquete, em isopor, e depois parti para a versão em maior escala, com a madeira e o telhado das passarelas. Tudo com auxílio dos professores e dos bolsistas do ITEC. Selecionamos plantas mais rasteiras, que não necessitam de muito espaço para se desenvolver, como a espadinha-de-são-jorge, jambu e trapoeraba roxa. O intuito é que a camada de terra e plantas absorva a energia solar e baixe a temperatura no interior da residência. A ideia é mostrar que isso pode ser aplicado nas residências”, explica.


DEDICAÇÃO AO MEIO AMBIENTE

O espaço ITEC CIdadão é coordenado pela administradora Gina Calzavara (acima). Para ela, o lugar é um espaço de convivência em harmonia com a natureza em uma área nobre no meio da cidade universitária.

O vice-diretor da Faculdade de Biologia da UFPA, o professor Marco Antônio Menezes Neto, colabora com o ITEC Cidadão desde a fundação do espaço e também trabalhou na criação do telhado verde. “Fazemos tudo sem gastar muito dinheiro, usando os recursos que temos aqui. Desmontamos as passarelas antigas e usamos a madeira e as telhas para fazer uma casinha de teto verde. É impressionante a diferença de temperatura de dentro para fora da casa. Deve dar pelo menos dois graus. Infelizmente, a gente não usa esse recurso na nossa região. Então, isso tem também um fundo didático, para mostrar que a gente precisa fazer uma arquitetura mais tropical”, diz Marco Antônio. Ele é professor de Botânica do curso de Biologia e convida toda a comunidade para fazer parte do espaço. “Poucas instituições no Brasil têm um espaço como esse aqui. Uma área de bosque, aberta, com rio aqui do lado, é muito difícil. E a gente quer fazer mais coisas aqui. Às vezes a pessoa pode ajudar só vindo aqui. Não precisa dar nada. É só vir, ajudar num dia de trabalho”, diz Marco Antônio, que é engenheiro agrônomo, com mestrado em Agronomia e doutorado em Ciências. JULHO DE 2017

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PESQUISA OPINIÃO

Em busca do espadarte amazônico Pesquisadores vão revelar mistério do gigante fantasma da Amazônia TEXTO MICHELINE FERREIRA

E

da vida e hábitos dessa espécie, sobretudo elucidar o maior mistério que ronda o espadarte – afinal, ele passa mais tempo na água doce ou em estuários? A resposta virá depois da análise química de apenas um dos até 23 pares de dentes que formam a catana, o rosto dentado do peixe-serra. O grupo já conseguiu reunir dentes e catanas de dez indivíduos. Este grande “tesouro” será analisado quimicamente em laboratório nos Estados Unidos e a análise permitirá à Ciência finalmente entender qual é a área de vida dessa espécie, se vive mais em água doce ou em ambientes estuarinos (próximos aos oceanos), e se essa espécie realiza migrações e movimentos durante o ciclo de vida em águas doces e ambientes marinhos. “Essas informações são fundamentais para definir

as estratégias de conservação”, confirma o professor doutor Tommaso Giarrizzo, do Grupo de Ecologia Aquática da UFPA e professor visitante do Programa de Pós Graduação em Ecologia Aquática e Pesca. O pesquisador italiano esclarece que o dente do peixe-serra pode ser comparado ao tronco de uma árvore, que possui anéis de crescimento e funciona como um grande arquivo de toda a vida da espécie. “Uma análise química desse dente vai possibilitar saber se o peixe-serra fez, em sua vida, movimentos do mar para a água doce ou vice-versa, com muita precisão”, garante. E para obter uma amostragem significativa, Hegg, Nunes e Giarrizzo já realizaram várias incursões em praias, baías, feiras livres e casas de Umbanda em busca dos dentes e catanas da espécie. NO RASTRO DO PEIXE-SERRA

Um dos objetivos dos pesquisadores é entender qual é a área de vida do espadarte. Se ele vive mais em água doce ou em ambientes estuarinos.

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DIVULGAÇÃO

le tem aquele jeitão bem assustador. De fato possui uma aparência horrenda, que gera medo e pavor, e ainda por cima também pode ser confundido com um tubarão. Mas o nosso amazônida peixe-serra ou espadarte vai em breve deixar de ser um fantasma, aquele ilustre desconhecido da comunidade científica mundial, a partir de um projeto de cooperação internacional entre as Universidades Federal do Pará (UFPA) e Maranhão (UFMA) e a University of Idaho, dos Estados Unidos, que pretende detalhar boa parte da vida desse gigante amazônico, criticamente ameaçado de extinção. Os pesquisadores Tommaso Giarrizzo (UFPA), Jens Hegg (EUA) e Jorge Nunes (UFMA) pretendem desvendar detalhes


e desconhecidas migrações ao longo de sua existência. Os otólitos, igualmente aos dentes da catana, possuem anéis de crescimento, que podem ser observados ao se analisar um corte transversal da estrutura, determinando idade e até a migração desses peixes. O pesquisador americano está entusiasmado com a cooperação científica e acredita que a parceria vai gerar um importante conhecimento sobre essas duas espécies amazônicas. Jorge Nunes, da Universidade Federal do Maranhão, complementou que o conhecimento a ser gerado pela parceria será fundamental no auxílio aos órgãos competentes para que efetivem leis mais eficazes à proteção dessa espécie.

relevância do projeto para conquistar os patrocinadores. O resultado foi uma adesão expressiva da população americana, gerando a arrecadação de 5.664 dólares, pouco mais de 18 mil reais. O valor, além de bancar os custos de passagem e hospedagem do pesquisador americano no Brasil, também está sendo utilizado para pagar as despesas com as análises químicas necessárias a fim de se conhecer o processo migratório do peixe-serra. O projeto, no entanto, não pretende desvendar os mistérios apenas do espadarte. O financiamento será usado para análises químicas de otólitos, que é uma estrutura óssea localizada no ouvido interno do bagre (dourada, filhote e etc), outro gigante amazônico que também realiza grandes DIVULGAÇÃO

Aliás, nas feiras livres e casas de Umbanda de Belém encontraram a maior parte dos dentes e catanas que será analisada. Recentemente reunidos em Belém e São Luís (MA), os pesquisadores definiram também as estratégias da pesquisa, que pode ser o ponto de partida para a conservação e proteção da espécie, que ainda sofre com a captura, mesmo acidental, embora este ato seja crime internacional desde 2007, segundo a Convention on International Trade in Endangered Species (CITES), órgão internacional que procura regulamentar o comércio de espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção. E por falar em captura acidental, a edição de maio deste ano da revista Fisheries traz o registro de captura dessa espécie a 63 milhas náuticas da costa do Amapá, na foz do rio Amazonas, a partir de vídeo cedido pelo Centro de Pesquisa e Gestão dos Recursos Pesqueiros do Litoral Norte (CEPNOR), vinculado ao ICMBio. A captura foi de um macho com quase seis metros de comprimento. O artigo é assinado pelo doutorando Kurt Schmid, do Programa de Pós Graduação em Ecologia Aquática e Pesca da UFPA, juntamente com o professor Tommaso Giarrizzo, o que pode ser considerado um registro histórico pela Ciência, em razão do veloz desaparecimento da espécie.

FINANCIAMENTO COLETIVO

DIVULGAÇÃO

Para conhecer a fundo e desvendar o mistério dos hábitos e migrações desse gigante amazônico, os pesquisadores recorreram ao financiamento coletivo de projetos de pesquisa pela internet. Foi desta forma que o pesquisador americano Jens Hegg, da University of Idaho, conseguiu recursos para vir ao Brasil encontrar com os colegas da UFPA e UFMA. Hegg aproveitou um edital disponível do site Experiment.com, plataforma criada pela Microsoft, que hoje é uma importante ferramenta de captação de dinheiro para financiar pesquisa, mesmo numa economia forte como a dos Estados Unidos. Ele produziu um vídeo e apostou na

TUBARÃO, PEIXE OU ARRAIA?

Nem monstro, nem tubarão e nem peixe. O espadarte é um parente mais próximo das arraias, embora muito se assemelhe a um tubarão e também seja conhecido como peixe-serra. Os peixes-serra vivem em torno de 25 a 20 anos e atingem a idade adulta aos 10 anos, e só iniciam a reprodução antes quando atingem os 3,5 ou 4 metros de comprimento. A espécie está em declínio populacional na área entre os Estados Unidos e América Central, e também no Atlântico Sul. No Brasil, sua captura e comércio estão proibidos desde 2004. Sua carne é saborosa e ele é muito consumido no Japão. O uso de suas barbatanas, que são consumidas como uma iguaria e seu óleo de fígado para uso em medicamentos, tornou a espécie ameaçada de extinção. Os pesquisadores identificaram que grupos de peruanos vêm ao Pará e Maranhão em busca de dentes e catanas para uso como esporão nas rinhas de galo do país vizinho. Além de mais essa ameaça, os dentes do peixe-serra ARTIGO COBIÇADO

A estrutura dentária dos espadartes, chamada de “catana”, é alvo da caça predatória para ser vendido em mercados clandestinos e feiras livres

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PESQUISA

FOTOS: DIVULGAÇÃO

CIÊNCIA NA AMAZÔNIA

Os pesquisadores Tommaso Giarrizzo, Jens Hegg e Jorge Nunes (abaixo) estão à frente do estudos do peixe-serra no Pará e Amapá. O “gigante amazônico” encontra-se criticamente ameaçado de extinção.

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e suas catanas também são considerados amuletos por algumas religiões, e, no mercado Ver-o-Peso, há a crendice de que o dente ou a serra é um potente remédio para a cura da asma, o que não há nenhuma comprovação científica. A poluição, destruição do habitat e a pesca acidental e predatória são ameaças constantes. O espadarte se emalha facilmente nas redes de pesca e a sua remoção sem ferimento é quase impossível. A serra ou catana pode valer até mais de mil dólares no mercado internacional. As barbatanas, assim como a dos tubarões, acabam sendo exportadas para o oriente onde servem de ingrediente para uma sopa típica. A carne, apesar de saborosa, é comercializada, mas não com a mesma

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importância da serra. Atualmente calcula-se que só existam hoje 10% da população original. O espadarte ocupa uma importante posição como predadores nos ecossistema marinho e estuarino.

ONDE VIVEM ESSES GIGANTES?

A preocupação dos pesquisadores Tommaso Giarrizzo, Jens Hegg e Jorge Nunes para a preservação dessa espécie tem uma razão de ser - as costas dos estados do Pará e Amapá são um dos últimos refúgios das populações de espadarte no mundo. O Brasil possui duas espécies, Pristis pectinata e Pristis pristis, sendo esta última a que

predomina na costa Norte. A espécie Pristis pristis é a que tem um processo de crescimento e reprodução bem mais lento e isso é uma ameaça a mais à sua preservação. Estudos mostram que essa espécie leva aproximadamente 10 anos para atingir a maturidade sexual e geram no máximo 17 filhotes a cada ano ou a cada dois anos. Há relatos de navegadores espanhóis e portugueses que chegaram à América do Sul informando sobre a existência do espadarte em lagoas e rios, com ocorrência na Amazônia Ocidental, bem distante do mar. Há ainda relatos sobre a ocorrência no baixo rio Amazonas, regiões de Marajó, Oriximiná e Monte Alegre, no Pará por pescadores, mas nada pode ser comprovado. Nos últimos dois anos, pesquisadores conseguiram encontrar e estudar indivíduos acidentalmente capturados no Maranhão e Manaus. O vídeo gravado em plena Costa Amazônica, e que serviu como base para a publicação na Fisheries, é o mais recente relato de captura acidental da espécie. Tommaso Giarrizzo destacou que mais raro do que o registro da captura foi a soltura do indivíduo, que quase nunca sobrevive à ação das redes de pesca.


ARTE, CULTURA E REFLEXÃO ARQUIVO PESSOAL

PENSELIMPO

Luz, câmera, emoção. . . A CINEASTA JORANE CASTRO LEVA A AMAZÔNIA PARA AS TELAS DOS MELHORES FESTIVAIS DO MUNDO PÁGINA 48

PIONEIRISMO

ALERTA

Natural de Igarapé-Miri, a paraense Anna Turan Machado Falcão foi uma das primeiras brasileiras a se formarem em Medicina. PÁG.52

O biólogo Inocêncio Gorayeb analisa as consequências das relações interncionais entre o Brasil e a Noruega. PÁG.58

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PAPO DE ARTISTA

cúmplice da Sétima Arte A CINEASTA JORANE

CASTRO VIVE UMA DAS FASES MAIS PRODUTIVAS DE SUA CARREIRA E MOSTRA O MELHOR DO CINEMA PRODUZIDO NA AMAZÔNIA .

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A

DIEGO FORMIGA

cineasta paraense Jorane Castro, desde quando começou a cursar Jornalismo, na Universidade Federal do Pará (UFPA), já sabia que o curso era apenas para ter “onde se abrigar”, institucionalmente. Buscar informações, escrever reportagens, e tudo que concerne a essa prática nunca foi sua praia. Por isso, depois de um tempo, foi para Paris buscar conhecimento e compreender melhor sobre cinema, o que em Belém era quase impossível nos idos dos anos 1980. Era preciso entender sobre mercado, sobre como se inserir nos circuitos de festivais e principalmente, como conseguir recursos para filmar. A empreitada tem rendido bons frutos à sua carreira. Desde o ano passado, ela tem apresentado pelo Brasil o seu mais recente longa-metragem “Para ter onde ir”, um road movie gravado na estrada para Salinópolis, e no próprio município do nordeste do Estado. Em junho, ela foi a Paris apresentá-lo no Festival do Cinema Brasileiro, e também já passou no Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa

(Festin). Este mês, o filme segue para a África do Sul. Na capital paraense, o filme será apresentado em setembro. Além disso, Jorane também produz o documentário sobre a vida e a obra de seu tio, Mestre Cupijó, de Cametá, conhecido por reinventar o Siriá. Um DVD com as suas músicas, festivas e alegres, foi gravado no Teatro Margarida Schivasapa, com nomes como Lucas Estrela, Kim Marques, Dona Onete, Felipe Cordeiro. Contemplado com o edital Programa Petrobras Cultural, o documentário “Mestre Cupijó e seu Ritmo” estará pronto ano que vem. Confira entrevista sobre a trajetória da cineasta e suas produções. Você vem da comunicação da UFPA. Como foi sua opção pelo cinema? Ainda hoje é desafiador atuar na área. Anos atrás, como você vislumbrava essa carreira? Cursei comunicação porque já tinha a ideia de fazer cinema. Tanto que no primeiro ano do curso eu já tinha feito um primeiro projeto audiovisual. E eu já fotografava. Serviu para apenas me abrigar, tanto JULHO DE 2017

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PAPO DE ARTISTA

que nunca exerci a profissão de jornalista. Já sabia que não seria essa profissão que seguiria, tanto que fui buscar formação mais adiante, na França. E por lá fi z o mestrado também. Quando voltei pra cá, fui para a Escola de Cinema de Cuba (San Antonio de los Baños), que é a melhor da América Latina. Já me sentia mais ligada a áreas como fotografia, roteiro e direção do que qualquer outro trabalho com o jornalismo. Admiro, mas continuo achando que não é para mim.

“A França me permitiu ter contato com esse novo mundo profissional. Mas considero que a minha sensibilidade e história, de sentimento e interpretação do mundo, vem da minha experiência amazônica, do que vivi e vivo em Belém. Todas essas sensações que são conhecimentos e têm a ver com essa estrutura familiar, afetiva e sensorial.”

De que maneira a ida para a França ajudou na sua formação? O que buscava lá? Fui para a França porque já tinha morado lá, já conhecia a língua e uma estrutura de conhecimento, para eu não ficar muito desorientada. Já conhecia Paris. E então, fui cursar cinema lá. E o que aprendi em Paris é como funciona o mercado, como se trabalha na profi ssão, como as coisas acontecem de fato, os festivais, a empresas de produção, uma coprodução. Aprendi a me inserir nesse mercado, que era completamente desconhecido e obviamente não existia em Belém, onde eu morava na época - e onde moro hoje. A França me permitiu ter contato com esse novo mundo profi ssional. Mas considero que a minha sensibilidade e história, de sentimento e interpretação do mundo, vem da minha experiência amazônica, do que vivi e vivo em Belém. Todas essas sensações que são conhecimentos e têm a ver com essa estrutura familiar, afetiva e sensorial. Meu trabalho é tentativa de associar essa sensibilidade amazônica, minha experiência pessoal, com essa experiência de mercado.

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De volta a Belém, você começou a produzir a partir da realidade amazônica? Houve essa preocupação? O meu primeiro filme, “As Mulhe-

res Choradeiras” teve o roteiro escrito quando eu ainda morava na França. Fui selecionada e voltei para fazer projeto. É uma coprodução França-Brasil, com verbas do Ministério da Cultura e de lá, o que foi necessário para fazê-lo nas melhores condições possíveis. Então, essa questão foi se consolidando ao longo dos anos na minha trajetória, mas já estava presente lá atrás. Apesar de que também meu curta-metragem de conclusão de curso não tem nada de Amazônia, fiz outros na África, sobre música, e no Oceano Índico, mas ver a partir daqui é a minha maneira de ver o mundo. Aprofundo isso, gosto e me sinto à vontade de filmar nos lugares mais incríveis. Vivi experiências muito bonitas ao longo do meu caminhar, entrevistando pessoas. Ainda tem muito tempo para esgotar os temas. O que não quer dizer que sempre será assim, mas é um lugar que me fascina. E consigo interpretar com mais propriedade, pelo fato de ser a minha identidade cultural. Seu filme mais recente, “Para ter onde ir”, fala da vida de mulheres. E de encontros. Como foi que surgiu a ideia desse enredo? O filme veio de uma Ideia de que existem cumplicidades femininas. De que o mundo das mulheres seria de cumplicidade. E o fato de você colocar pessoas dentro de um carro e fazer uma viagem qualquer, de carro, a pé, o que for, faz com que as pessoas se apresentem de uma forma muito legal, e essa forma é importante. Acho que esse era o mote para fazer o filme. Encontro de mulheres diferentes, que pensam a vida diferente e são filmes e situações que eu podia justamente pontuar as minhas ficções, que têm personagens mulheres, esse veio continuar os outros, “Ribeir i n hos do A sfa lto” e “Qua ndo a chuva chega r”. O própr io “A s Mu l here s C hor adei r a s” tem f ig u r a s i mport a nte s de referência s dent ro do projeto que são fem i n i na s. E esse f i l me só veio a comprov a r m i n ha ideia de


f i l mes que continuam com esse olhar e pensamento sobre o feminino. Agora, o “Para ter onde ir” está rodando pelo Brasil e pela Europa. Quando chega a Belém? Sim, esteve em Paris no final de junho, no Festival de Cinema Brasileiro, e dia 13 de julho vai para a África do Sul. O próximo lançamento será em São Paulo, na Mostra Latino-Americana. Mas o filme só será lançado no sistema comercial em setembro em Belém, e será distribuído em cadeia nacional pela O2 Play, um braço de distribuição da O2 Filmes.

SENSIBILIDADE FEMININA

Os filmes de Jorane Castro mostram a força da mulher amazônida, como nos filmes “Para ter onde ir” (acima) e “As Mulheres Choradeiras” (abaixo). Recentemente, a cineasta também produziu um documentário sobre o Mestre Cupijó, conhecido como “O Rei do Siriá”.

FOTOS: DIVULGAÇÃO

Você também está realizando o documentário sobre o seu tio, Mestre Cupijó. De que maneira você pensa, o artista, o tio, a obra, o legado? Esse projeto é para mim é muito gratificante porque tinha muita vontade que as pessoas descobrissem a música dele. Eu via muitos shows quando criança e achava contagiante e bonita, alegre, pra cima. Também porque as músicas falam com muita verdade da cultura cabocla, é muito delicada e verdadeira. Então, a gente vê que é cultura de dentro da Amazônia, coisas simples descritas, essa beleza singela da nossa cultura, que muitas vezes desconhecemos. Isso era um projeto de missão, de conhecer esse músico. A música dele era muito boa, ele estudou, escrevia e compunha e quando começa a tocar ele faz uma coisa fantástica, que é contagiar pela alegria, pela força da música. Desde que começamos a trabalhar no projeto, a gente está vendo o quanto é importante falar desse mestre e manter sua obra viva. Conhecer o Pará e sua história e cultura tem sido um trabalho em conjunto com muitas pessoas que também compraram a ideia do projeto de maneira muito genuína. As pessoas estão encantadas com a música do Mestre Cupijó e querendo descobrir mais. E se a música dele ficar por mais tempo ecoando pelas festas e lugares do Brasil e do mundo vai ser o melhor resultado desse documentário. Para isso que escrevi o projeto. JULHO DE 2017

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MEMÓRIAS BIOGRÁFICAS

Dra. Anna, a primeira médica do Pará TEXTO ANA LAURA CARVALHO ILUSTRAÇÕES JOCELYN ALENCAR

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Anna Turan 1862-1940


C

om a chegada da Família Real ao Brasil, surgiram as primeiras faculdades da então colônia portuguesa. No Rio de Janeiro e Bahia, havia o curso de Medicina, mas as mulheres não tinham acesso. Mas a paraense Anna Turan Machado Falcão foi uma das primeiras brasileiras a se formarem médicas. Nascida em Igarapé-Miri, nordeste do Estado, no engenho da família, em 28 de abril de 1862, Anna Turan era filha de Antônio Lopes Machado e Andreza Turan. Era a mais velha de três irmãos, Maria e Antônio. Foi a primeira paraense a estudar Medicina. Seu pai era senhor de engenho e dono de muitos escravos. Ter um médico na família era a vontade dele. Anna decidiu, então, que seria médica, visto que o irmão não estava disposto a estudar Medicina. E assim, em 1882, foi para Nova York, nos Estados Unidos, para a mesma faculdade em que outras brasileiras haviam estudado. Após cinco anos de estudo, em 19 de abril de 1887, formou-se em uma turma composta por dez mulheres. Pelo brilhante desempenho na faculdade, Anna Turan recebeu uma medalha de honra ao mérito. Ao retornar para o Brasil, Anna teria de revalidar seu diploma na Bahia ou no Rio de Janeiro, mas antes passaria em sua terra natal, para as comemorações ao lado da família. A festa de recepção, organizada por seu pai, foi interrompida para que ela pudesse atender uma das escravas da fazenda que, em trabalho de parto, necessitava de cuidados médicos. Após o episódio, Anna Turan partiu para Salvador, a fim de ter o diploma revalidado pela Faculdade de Medicina da Bahia, sendo a primeira mulher a fazer o exame de habilitação para revalidação, concedida em 28 de janeiro de 1892. Esse processo implicaria em mais dois anos de estudos para ela. Durante a passagem pela Bahia, a jovem médica conheceu Emílio Ambrósio Marinho Falcão, estudante pernambucano, com quem iria casar. A morte de seu pai, porém, interrompeu a temporada de estudos, fazendo com

que Anna voltasse para Igarapé-Miri para cuidar das coisas da família. Ao retomar os estudos na Bahia, três anos depois, Anna Turan estava casada com Emilio, ele já formado cirurgião-dentista, e ela grávida da primeira das cinco filhas que teriam. Em 1891, a paraense passaria uns meses em Quixadá, no Ceará, com o marido. Ali também deixaria sua marca, relembrada com carinho e reconhecimento pelo vigário da cidade, por conta da dedicação para com os pobres habitantes do local. Ao retornar para Belém, um ano depois da validação de seu diploma, a região vivia os áureos tempos da borracha e também dias atribulados na política. E Anna Turan, intitulando-se “especialista em moléstias das senhoras” e “aceitando chamados a qualquer hora do dia ou da noite”, abriu consultório à Rua 13 de Maio, juntamente com o marido, que ali também tinha seu “gabinete de cirurgia e prothese dentaria”. Em 1909, Anna se mudou com a família para o seringal Aquidabam, no Acre. Agora, em plena floresta, tudo dependeria de sua habilidade no combate às doenças, como a malária endêmica que assolava a região, e o surto de gripe espanhola, que chegaria ali, provavelmente pelas levas migratórias dos nordestinos que iam trabalhar nos seringais. Ali, Anna produziria os remédios obtidos da natureza. Além disso, seria a médica, a enfermeira, a parteira. Em 1921, com todas as filhas casadas, Anna e o marido se mudariam para Xapuri, também no Acre, onde a médica continuaria a exercer a profissão. Em 1925, ela e o marido foram para São Paulo, onde as filhas haviam se radicado em Santos. A “Dra. Anna”, já com 63 anos, realizava seu último trabalho como médica: a assistência a um parto. Por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932, Anna Turan doaria para a causa a aliança de casamento e a medalha de ouro conquistada nos Estados Unidos. A insíginia, mais que um simples símbolo, era parte de sua vida. Anna Turan Machado Falcão faleceu em 1940, aos 77 anos, em São Paulo. No Acre, uma escola perpetua o nome dessa pioneira da medicina brasileira. JULHO DE 2017

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AGENDA

ÓPERA

CULTURA

Prêmio para mestres do carimbó

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) está com as inscrições abertas para o prêmio “Carimbó Nosso Patrimônio”. A iniciativa tem o objetivo de valorizar a atuação de mestres, mestras e grupos que contribuem para a transmissão e continuidade do carimbó. As inscrições são gratuitas e devem ser enviadas para a Superintendência do Iphan no Pará até o dia 21 de agosto. No total, serão concedidos 25 prêmios, no valor de R$ 5.160,00 para cada vencedor. Dez serão destinados a mestres e mestras em atividade; cinco destinados aos herdeiros diretos de cinco mestres ou mestras já falecidos e dez destinados a grupos de carimbó. A convocação dos

candidatos selecionados será feita por publicação no Diário Oficial da União. Os mestres, mestras e grupos serão avaliados pelo tempo de atuação e pela contribuição sociocultural que o trabalho deles proporciona à comunidade em que vivem e atuam. No caso dos que já faleceram, será analisada a atuação e contribuição que eles realizaram em vida. O júri da premiação também vai observar a contribuição dos concorrentes para a criação e fortalecimento de espaços que promovam a valorização e difusão das tradições do carimbó, além de avaliar a renda mensal familiar e a contribuição dos participantes para a articulação de parcerias com a comunidade e instituições diversas. O carimbó foi registrado como patrimônio cultural brasileiro em 2014. O prêmio chega como parte das ações para proteção dessa manifestação cultural. Mais informações e edital completo no site portal.iphan.gov.br.

O Festival Ópera na Tela, mostra totalmente dedicada ao gênero da ópera, apresenta “La Traviata”, de Guiseppe Verdi, no dia 13 de julho, no Cine Líbero Luxardo, na avenida Gentil Bittencourt, 650, Nazaré. A programação inicia às 19 horas. Ingressos por R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia). Informações no (91) 3202-4321.

JOVENS A colônia de férias “Jovem.com” para adolescentes entre 11 e 17 anos, no Sesc Doca, localizado na rua Senador Manoel Barata, será de 17 a 22 de julho, das 14h às 18h. A inscrição é gratuita para dependentes de comerciários e custa R$ 55 para o público em geral. Informações: (91) 40059505, 4005-9524 e 4005-9525.

ENGENHARIA O 1º Congresso Brasil Norte de Engenharia Sanitária e Ambiental será de 16 a 19 de agosto, no Hotel Princesa Louça, antigo Hilton, localizado na Presidente Vargas. O evento tem como tema “Sustentabilidade, inovação e desenvolvimento na Amazônia”. Informações e inscrições no site cbnabes.com.br.

EXPOSIÇÃO A exposição “Sabe, eu já estive no mar antes”, de Danielle Fonseca, está aberta para visitação até o dia 20 de julho, na Kamara Kó Galeria, na Frutuoso Guimarães, 611. A mostra apresenta aquarelas, fotografias, escultura e o filme “Posseidon é cabra, abelha e o movimento dos barcos”. A visitação é de terça a sexta, das 15h às 19h, e aos sábados, de 10h às 13h. A entrada é gratuita. Mais informações (91) 3261-4809.

AGRONOMIA CARLOS SODRÉ / AGÊNCIA PARÁ

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A 74° Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia será de 8 a 11 de agosto, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, na avenida Dr. Freitas, Marco. Mais informações no site soea.org.br.


FAÇA VOCÊ MESMO

Bolsa de sacos plásticos O plástico é um dos grandes responsáveis pela poluição do meio ambiente. Numa opção de reciclagem, técnicos das oficinas Curro Velho, da Fundação Cultural do Pará, ensinam a reaproveitar esse material, que sempre sobra dos supermercados. É material orgânico à base de celulose que, ao ser aquecido, pode ser moldado das mais diferentes formas. Utilizando apenas o ferro de passar roupas é possível criar uma bolsa. Mas um pouco de experimentação após dominar a técnica, pode resultar em vários outros acessórios, como lixeiras, abajures, capas para objetos... Para ter uma bolsa mais “boleada”, basta passar a ferro suavemente por dentro. Os retalhos de plástico que sobraram dos recortes, poderão ser usados para criar uma estamparia na parte

Do que vamos precisar?

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externa das bolsas. Para isso basta sobrepor os retalhos e passar a ferro novamente. Mas vamos à técnica para fazer a bolsa. E sempre vale lembrar: esse artesanato, além de ecologicamente interessante, é terapêutico e pode render um dinheirinho extra.

Sacolas plásticas variadas Tesoura com pontas arredondadas Régua Pedaço de tecido de algodão Ferro de passar roupa

DILMA TEIXEIRA, COORDENADORA DE ARTES VISUAIS OFICINAS CURRO VELHO | LUIZA NEVES, TÉCNICA EM GESTÃO CULTURAL RUI MARCELO, INSTRUTOR / JACKSONILSON, FOTOGRAFIAS ASCOM/FCP JULHO DE 2017

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ATENÇÃO: Essa atividade pode ser feita por crianças, desde que acompanhadas por um adulto responsável

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Corte e fundo e as alças de 12 sacolas (reserve os retalhos).

Vire a peça e repita o passo 3

Para fixar as alças, meça 10 cm a partir das laterais da bolsa, posicione a alça, cubra com o tecido e passe a ferro. Repita o processo no outro lado da bolsa.

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Sobreponha cinco sacolas alternando a posição das alças

Repita os passos 3 e 4 usando outras cinco sacolas. Estarão formadas as duas “lâminas” (lados) da bolsa.

Para unir os dois lados da bolsa (fundo), sobreponha-os e passe a ferro.

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Estique o tecido de algodão sobre as cinco sacolas e passe toda a extensão a ferro (passe 3 vezes).

Para formar as alças, pegue uma sacola plástica e dobre até ficar na largura de aproximadamente 3 cm. Cubra com o tecido de algodão e passe a ferro até ficar uniforme. Faça as duas alças.

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Sobreponha os dois lados, dobre as laterais e repita o processo de cobrir com o tecido e passar a ferro para fechar toda a bolsa.

Para saber mais Quem quiser conhecer mais sobre técnicas artísticas pode se inscrever nas oficinas Curro Velho, da Fundação Cultural do Pará. Crianças a partir de 12 anos podem participar. O Curro Velho fica localizado na rua Professor Nelson Ribeiro, nº 287, esquina com a travessa Djalma Dutra, bairro do Telégrafo. Telefones: (91) 3184-9100 e 3184-9109. 56 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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RECORTE AQUI

FAÇA VOCÊ MESMO


BOA HISTÓRIA

A procissão vem lenta na cidadezinha sem luz. Só as velas acesas. De longe, parece um enorme engarrafamento não fosse a cantoria das velhas, os instrumentos dos homens e o silêncio das crianças. Na praça, a espera da passagem da imensa massa de gente salpicada de brilho. Da música e das vozes arrastadas que invadem o ouvido dos incrédulos e a alma dos crédulos. A noite também desce sem pressa nenhuma, como que segurasse o mínimo de luz para não estragar o festim. As sandálias na terra, os olhos nas primeiras estrelas. A voz mais aguda quase incomoda, não fosse as cem outras vozes tão agudas quanto que perfazem um pacote sonoro que lembra anjos, como se alguém já tivesse ouvido um anjo de verdade, quanto mais cem, em cantigas ao senhor. São velhas quase todas as vozes, metidas em vestidinhos de chita e, nos casos de mais condição, cambraia e casimira. Os homens com calças de tecido vulgar e chinelos de dedo dão o fundo grave ao coro. As bocas murchas,

os olhos azulados da catarata, alguns chapéus de feltro ao modo do século passado, os terços na mão. Nenhum quer estar ali, mas seguem, rezam ao senhor, rezam para acabar ou, nos casos mais secretos, soltam resmungos e pragas, embora ininteligíveis, ainda que apenas para si. Algumas crianças choram. Não por cansaço, nem incômodo, nem medo, menos ainda porque anseiam estar em casa ou com seus brinquedos ou desejam os balões de ar dos vendedores das calçadas. O pranto é silencioso e tem a ver com o som, com a sincronia vocal das avós e das mães da procissão, que lembra a cada pequeno algo que eles nem sabem, mas que remete a colo e a embalos de um tempo imemorial em que nem andavam, falavam ou entendiam o mundo. Vão calados com as lágrimas em jorro, segurados pelas mãos das mulheres. Têm a vista na linha da cintura dos adultos, estão abafados na poeira que a romaria suscita; de vez em quando, vislumbram o estrelado do céu e se perguntam se falta muito para acabar

LEONARDO NUNES

Milagre

aquele suplício no coração. Os músicos não rezam, nem se comovem. Batem os bumbos, sopram o bico dos trompetes, saxofones, trombones. Estão certos que a arte atinge em cheio a deus e à nossa senhora, onde quer que estejam os santos. Têm tanta convicção que os terços pregados aos instrumentos são conexão divina com o sagrado coração e que se contentam em estar no meio da multidão, porque sabem que é a música que dá impulso e ritmo à caminhada. A volta na praça se completa e todos se postam diante do caminho da capela. Já é breu e os rostos estão amarelos das chamas da vela. Quando param e silenciam a cantoria, as lâmpadas da fachada do templo se acendem. Somente elas, com o resto da cidade ainda na escuridão. Alguém pensa: milagre. Mas, não é. É a energia de volta que se espalha em ondas, casa por casa, sobrado por sobrado, comércio por comércio, em átimos de segundos. Entram na igreja e cantam até o dia raiar de novo. JULHO DE 2017

Anderson Araújo

é jornalista e escritor

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NOVOS CAMINHOS

presidente Temer na Rússia e Noruega A visita de Temer à Rússia e Noruega teve como objetivos buscar investimentos e demonstrar normalidade política, mas tornou-se constrangedora para ele como chefe do Executivo Nacional. Não rendeu os trunfos que o presidente esperava. Escutou reprimendas públicas, corte de verbas para o fundo ambiental, protestos, teve recepções esvaziadas, pouco interesse da imprensa internacional e cometeu gafes; ele confundiu o rei da Noruega com o da Suécia e chamou a Rússia de República Soviética. Na recepção oficial em Oslo foi duro ter sido cobrado pela primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, sobre a corrupção no país, a preocupação com a Lava Jato, o aumento do desmatamento e o anúncio da redução do apoio financeiro ao Brasil para conservação de florestas na Amazônia.

INOCÊNCIO GORAYEB é mestre e doutor em Entomologia, pós-doutor em sistemática zoológica e pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi

Como aspectos positivos da viagem se pode citar: - O incentivo a empresários investirem no Brasil. Isso foi bem anunciado e certamente sensibilizará empresários de toda a Europa e de outros continentes, porque este convite foi divulgado em todo o mundo. - O presidente, diante das críticas a corrupção, dos riscos para a Lava Jato e do avanço do desmatamento, de certa forma, acabou reconhecendo isso e apontou interesse e ações para resolver estes problemas. - Ficou mais evidente o poder e as consequências da posição internacional sobre os problemas políticos e ambientais do Brasil. Isso permite que o presidente tenha maior argumentação contra as

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poderosas forças da bancada do agronegócio e de grupos políticos corruptos que querem impor seus interesses ao governo. - As circunstâncias que foram criadas pela viagem de Temer também são positivas no sentido da grande divulgação dos problemas brasileiros. As pressões internacionais são fortes e acabam tendo influência nas mudanças de algumas diretrizes. Por exemplo, uma das bases de sustentação do governo Temer na Câmara e Senado é a bancada ruralista; o Congresso aprovou as medidas provisórias 756 e 758 que reduzem a proteção de Unidades de Conservação na Amazônia e estuda um projeto que afrouxa as regras do financiamento ambiental; diante da pressão Temer vetou totalmente a MP 756 e sancionou vetos a MP 758. Como aspectos negativos são citados: - A situação constrangedora na fala da primeira-ministra norueguesa, que acabou transparecendo que o Brasil está de “pires na mão”. Os cortes soaram como um castigo de “cortar a mesada” pelos erros cometidos, como um puxão de orelha no filho que fez uma tolice. - As gafes cometidas denotaram a despreparação da equipe do presidente Temer e acabaram por macular os aspecto positivos, pois foram mais explorados pela imprensa. - Os avanços galgados na questão ambiental foram praticamente apagados, pelo menos temporariamente, diante das críticas ao desmatamento e todo o empenho da equipe do MMA ficou enfraquecido, apesar destes índices negativos terem sido devido a falta de ações dos governos anteriores.

“As circunstâncias que foram criadas pela viagem de Temer também são positivas no sentido da grande divulgação dos problemas brasileiros. As pressões internacionais são fortes e acabam tendo influência nas mudanças de algumas diretrizes.”


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Revista Amazônia Viva ed. 71 / julho de 2017  

Encartada mensalmente em O Liberal, a Amazônia Viva é uma produção da RM Graph.

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