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CABANAGEM

Revolução popular paraense marcou a história do Brasil

MÚSICA

Cantora Luê cativa com um misto de clássico e regional

REVISTA ENCARTADA NO JORNAL O LIBERAL. NÃO PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE.

JANEIRO 2O18 | EDIÇÃO NO 76 ANO 7 | ISSN 2237-2962

ELE PRECISA MAIS DO QUE UM BEIJO Personagens encantados nos contos de fadas, os sapos da vida real, assim como pererecas e salamandras, carecem de mais estudos sobre seu modo de vida na Amazônia. Mas um grupo de pesquisadores do Museu Goeldi se dedica a trazer os anfíbios à luz da Ciência, mostrando que somente o conhecimento pode quebrar a aversão a esses animais.


Concerto de jovens talentos Meninos e meninas de Belém se apresentam em concerto, neste mês de fevereiro, para mostrar o que estão aprendendo com o Vale Música. O programa, voltado para crianças de escolas públicas, promove a formação musical e contribui para a difusão da cultura, além de contribuir para a profissionalização de jovens.

Aula Concerto do Vale Música Dias 3 e 24 de fevereiro, às 09h. Local: Art Doce Hall Magalhães Barata, 1022 (ao lado do Hospital Ophir Loyola).

Entrada Franca


Patrocínio Realização Foto Fernando Sette

Agência EKO


EDITORIAL

PUBLICAÇÃO MENSAL DELTA PUBLICIDADE - JORNAL O LIBERAL JANEIRO 2018 / EDIÇÃO Nº 76 ANO 7 ISSN 2237-2962 Presidente LUCIDÉA BATISTA MAIORANA Presidente Executivo RONALDO MAIORANA Vice-Presidente ROSÂNGELA MAIORANA KZAM Diretora Comercial ROSEMARY MAIORANA

LINDA E DELICADA

A perereca-de-vidro (Hyalinobatrachium iaspidiense) é uma espécie em risco na Amazônia

FELIPE JORGE DE MELO Editor-chefe

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Devido às inúmeras histórias permeadas de seres fantásticos, amplamente difundidas na Europa medieval, os sapos entraram para o imaginário popular como uma forma encantada de um príncipe amaldiçoado, quase sempre por uma bruxa má. E, para se verem livres do encanto, somente com o beijo apaixonado de uma incauta princesa. Esse é um enredo que se repete há séculos em várias culturas. Mas bem distante dos famosos contos dos Irmãos Grimm e Hans Christian Andersen, a realidade dos sapos nem sempre é de fadas. Esses animais, ao lado de outros anfíbios, como rãs, pererecas, salamandras e cobras-cegas, vivem uma “maldição social”, sendo alvos da aversão popular - algumas JANEIRO DE 2018

pessoas chegam a matar esses animais por medo, superstição ou pura diversão - e da devastação ambiental, que coloca em risco o habitat natural das espécies na Amazônia. Mas um grupo de pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi tem se dedicado a estudar e catalogar as várias espécies de anfíbios da região. Algumas até mesmo ainda desconhecidos pela Ciência. As pesquisas mostram que esses animais precisam ser cada vez mais conhecidos, pois fazem parte de um grande e complexo quebra-cabeça da biodiversidade amazônica. O desaparecimento de espécies por causa do avanço desenfreado e irracional do progresso não permitirá nunca que elas tenham um final feliz.

PEDRO PELOSO/ DIVULGAÇÃO

A fragilidade dos anfíbios da região

Diretor Jurídico Corporativo EDUARDO CORREA PINTO KLAUTAU Conselho editorial RONALDO MAIORANA ROSÂNGELA MAIORANA KZAM LÁZARO MORAES REDAÇÃO Jornalista responsável e editor-chefe FELIPE JORGE DE MELO (SRTE-PA 1769) Pesquisador e consultor técnico INOCÊNCIO GORAYEB Colaboraram para esta edição O Liberal, Agência Pará de Notícias, Agência Brasil, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade Federal do Pará, Universidade do Estado do Pará, Fundação Cultural do Pará - Oficinas do Curro Velho, Uninassau Belém, Instituto Federal do Pará, Embrapa Amazônia Oriental (acervo); Filipe Sanches (edição de arte); Alinne Morais, Caio Oliveira, Fabrício Queiroz, Victor Furtado (reportagem); Betto Silva, Carlos Borges, José de Holanda, Pedro Peloso (fotos); Fabrício Queiroz (produção), Anderson Araújo e Inocêncio Gorayeb (artigos) André Abreu, J.Bosco, Jocelyn Alencar e Leonardo Nunes (ilustrações); Alexsandro Santos (tratamento de imagem). FOTO DA CAPA Perereca-leiteira (Trachycephalus typhonius), por Pedro Peloso/ Museu Goeldi AMAZÔNIA VIVA é editada por Delta Publicidade. CNPJ (MF) 04.929.683/0001-17. Inscrição estadual: Isenta Inscrição municipal: 032.632-5 Avenida Romulo Maiorana, 2473, Marco Belém - Pará amazoniaviva@orm.com.br

REALIZAÇÃO


NESTA EDIÇÃO

EDIÇÃO Nº 76 / ANO 7

PEDRO PELOSO/ DIVULGAÇÃO

JANEIRO2018

32 À espera do

beijo da Ciência

Pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi desvendam a vida dos anfíbios da região amazônica CAPA JOSÉ DE HOLANDA

KELEM CABRAL

ASCOM IFPA

BETTO SILVA

E MAIS

20 40 44 48

FOTOGRAFIA

EXPERIMENTO

CIÊNCIA

NA MIRA

O fotógrafo Betto Silva

Alunos do Instituto Federal

O chefe-geral da Embra-

A cantora Luê é dona

presenteia a edição de

do Pará (IFPA) campus

pa Amazônia Oriental,

de uma voz cativante e

janeiro com belas ima-

Bragança experimentam

Adriano Venturieri, diz que

as influências regionais e

gens do rio Xingu, onde

método de aprendizagem

para desenvolver a região

clássicas são apenas algu-

ele se faz um pescador de

que estimula o conheci-

é importante integrar para

mas das marcas conheci-

histórias amazônicas.

mento em sala de aula.

não desperdiçar.

das do seu trabalho.

OLHARES NATIVOS

EDUCAÇÃO

OUTRAS CABEÇAS

MÚSICA

4 6 7 11 13 14 15 16 17 18 19 19 28 52 54 55 57 58

EDITORIAl AS MAIS CURTIDAS PRIMEIRO FOCO TRÊS QUESTÕES ELES SE ACHAM FATO REGISTRADO PERGUNTA-SE EU DISSE APPLICATIVOS CURIOSIDADES DA BIODIVERSIDADE DESENHOS NATURALISTAS CONCEITOS AMAZÔNICOS ENTREVISTA HISTÓRIA ESTANTE AMAZÔNICA FAÇA VOCÊ MESMO BOA HISTÓRIA NOVOS CAMINHOS

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ASMAISCURTIDAS DESTAQUES DAS EDIÇÕES ANTERIORES

FERNANDO SETTE

PEDRO PELOSO

MORCEGANDO PELO RIO

A foto do biólogo Pedro Peloso, que mostra uma brincadeira arriscada, porém comum nos rios da Amazônia, teve o maior número de “likes” em nosso Instagram

FERNANDO SETTE JANEIRO DE 2018

A reportagem de capa da edição de dezembro, “Robótica Sustentável”, foi a mais curtida e compartilhada em nosso Facebook

fb.com/amazoniavivarevista

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RECICLAGEM DE SUCATA ELETRÔNICA

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PRIMEIROFOCO

O QUE É NOTÍCIA NA AMAZÔNIA

TEXTOS VICTOR FURTADO E ALINNE MORAIS

SABOR MARAJOARA A CULINÁRIA TRADICIONAL DO MARAJÓ ESTÁ LIGADA À RELAÇÃO ENTRE AMAZÔNIDA E MEIO AMBIENTE PÁGINAS 8 A 11

RAONI GODINHO

SAÚDE

FAUNA

O diretor do Instituto Evandro Chagas, Pedro Vasconcelos, alerta para o surto de febre amarela no País, mas também de outras doenças. PÁG.11

O macaco zogue-zogue-rabo-de-fogo está entre as 20 novas espécies de mamíferos registrados na Amazônia em 2015. PÁG.15

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NAILANA THIELY

PRIMEIRO FOCO

CULTURA ALIMENTAR

TEXTO: JOBSON MARINHO

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NAILANA THIELY

A culinária tradicional do Marajó é marcada pela relação do ser humano com o meio ambiente e por saberes ancestrais. Estima-se que a cultura alimentar da região tenha cerca de 20 mil anos de existência. Nesse tempo, o povo marajoara desenvolveu conhecimentos únicos para o preparo e conservação de alimentos de excelente sabor e qualidade. A cozinheira e conselheira nacional de cultura alimentar no âmbito do Ministério da Cultura, Tainá Marajoara, é uma das herdeiras e guardiãs das tradições da cozinha do Marajó. Ela explica que a cultura alimentar do arquipélago vai muito além daquilo que se come, mas envolve também ciência, intelectualidade, filosofia e questões simbólicas a partir do território amazônico. “Nós não falamos de gastronomia marajoara, porque a gastronomia envolve também os alimentos que vêm das monoculturas à base de agrotóxicos que existem no Marajó. Quando eu falo de alimentação marajoara, eu me refiro à cultura alimentar marajoara, que tem a presença dos povos originários da região. Essa cultura vem à nossa mesa não só por meio dos pescados, mas nos saberes ancestrais, nas tecnologias alimentares de conservação, de artesanato e de utensílios que são presentes até hoje na nossa cozinha”, relata. Pratos típicos do arquipélago, como os beijus baré e de palha, filhós, doce de leite de búfala, pimenta-cani, canhapira, tamuatá, frito do vaqueiro, queijo do marajó, manteiga de búfala e manteiga de garrafa do marajó podem ser encontrados no Ponto de Cultura Alimentar Iacitatá Amazônia Viva, do qual Tainá faz parte. A instituição possui sede fixa no bairro da

Cidade Velha, em Belém, há cerca de dois anos. Além de preservar o conhecimento da cultura alimentar amazônica, o Iacitatá atua em favor da pesquisa e da valorização dos mestres detentores do saber tradicional relacionado à alimentação no Pará, articulando produtores locais e comercializando ingredientes e pratos totalmente livres de venenos, agrotóxicos, transgênicos e contaminantes, sem recorrer a alimentos produzidos por ruralistas ou em terras griladas. Tainá utiliza as receitas herdadas de seus antepassados indígenas como forma de resistência cultural. “É um ato revolucionário que hoje eu, uma mulher jovem, de ascendência indígena, de um povo originário do Marajó, esteja em uma área urbana, cozinhando e exercendo a cultura marajoara na primeira rua de Belém. São processos de práticas culturais que são renovados no cotidiano para que a nossa cultura continue a existir, dentro e fora do território marajoara”, conta a cozinheira. O Iacitatá Amazônia Viva nasceu com o Projeto CATA - Cultura Alimentar Tradicional Amazônica, que realizou em 2009 uma cartografia da cozinha paraense, envolvendo 700 itens entre comidas, rituais de preparação, utensílios, tecnologias de conservação, saberes e outros elementos culturais que envolvem a cozinha paraense.

CARACTERÍSTICAS ANCESTRAIS

A cozinha marajoara está intimamente relacionada com o meio ambiente e da vida humana. Os povos do Marajó possuem comidas específicas para cada período e situação. O alimento mais tradicional é o açaí com peixe e farinha,

PRESERVAÇÃO CULTURAL

Cozinheira e conselheira nacional de cultura alimentar do Ministério da Cultura, Tainá Marajoara é uma das herdeiras e guardiãs das tradições da cozinha do Marajó JANEIRO DE 2018

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PRIMEIRO FOCO

RAONI GODINHO

mas também existe a comida de “sustância”, para o trabalho pesado, que inclui pratos a base de proteína e gordura animal - principalmente de porco e búfalo. No período de chuvas, as populações do Marajó se alimentam de pescados como o tamuatá e aproveitam as cheias para conservar carnes utilizando pimenta cani, sal e gordura animal. Para os convalescentes e mulheres paridas, as comidas são mais leves - como mingau de carimã ou um

chibé mais fraco - e para o período de seca dos rios o alimento são as carnes e peixes conservados, a farinha seca, a água da chuva e as aves caçadas. “São aspectos da sazonalidade da cozinha marajoara. Isso mostra quanto a cozinha amazônica, e em especial a do Marajó, é extremamente singular, onde o que se come depende muito da água”, explica Tainá Marajoara. A cozinheira e ativista também conta que o município de Cachoeira do Arari é

um dos pontos focais da cultura alimentar marajoara. O município faz parte do antigo território do povo Aruã. Em pesquisas do Projeto CATA, foram encontrados manuscritos da coroa portuguesa que reconhecem a excelência da cozinha da região e dos saberes indígenas desde o século XVII. “Existem relatos onde se fala que uma das antigas rainhas de Portugal proibiu o castigo e o trabalho forçado aos indígenas do Marajó, pois eram eles que garantiam a melhor comida da coroa”. Outros manuscritos dessa mesma época - hoje disponíveis no Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari - descrevem os conhecimentos que envolvem a preparação da canhapira e da maniçoba, de conservação de alimentos usando pimentas secas e gordura de animais como peixe-boi, além de usos de frutas como tucumã, inajá e pupunha na alimentação, extração de óleos e também na conservação. Tainá Marajoara, que também é descendente de indígenas do arquipélago, explica que essa sabedoria ancestral influenciava na boa saúde das SABERES À MESA

NAILANA THIELY

Os pratos típicos marajoaras, à base da tradição ribeirinha e dos vaqueiros da região, são patrimônios culturais da Amazônia

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TRÊSQUESTÕES

Febre amarela não é a única ameaça A febre amarela voltou. Surtos no Brasil têm colocado todas as prefeituras e governos estaduais em alerta. O medo e a desinformatar macacos - sem necessidade -, que são muitas vezes as primeiras vítimas da doença e

RAFAEL BRAGA

mação levam algumas pessoas até a

ajudam a identificar uma região de risco. Pedro Vasconcelos, médico virologista e diretor do Instituto Evandro Chagas, fala sobre esse cenário atual da febre amarela e de outras doenças, que não podem deixar de ser monitoradas. NAILANA THIELY

populações do Marajó. “A sabedoria indígena, não só do manejo da natureza, mas da preparação dos alimentos, fez com que o povo marajoara não tivesse deficiências nutricionais. Porém, com a entrada da indústria de alimentos no Marajó, a obesidade, doenças cardíacas, diabetes, problemas de colesterol e triglicerídeos altos se tornaram comuns e provocam hoje uma epidemia de doenças crônicas não transmissíveis no território”.

CULTURA AMEAÇADA

Apesar de sua riqueza, a cultura alimentar da região tem sido ameaçada pela expansão de grandes grupos econômicos e do agronegócio na Amazônia. As monoculturas de soja e arroz em áreas de proteção ambiental têm afetado o trabalho, as formas de ocupação do território, a variedade dos alimentos e as práticas da cozinha tradicional, além de causar contaminação pela grande quantidade de agrotóxicos liberados no ambiente. “Uma biodiversidade gigantesca está sendo arrasada. Com isso, a comida nativa se torna cada vez mais cara e o povo marajoara é distanciado do seu território pela própria boca. O vaqueiro,

as fazedoras de farinha, as cozinheiras que faziam óleos, remédios e temperos também começaram a ter essas práticas ritualísticas alteradas pela terceirização nas lavouras do monocultivo, onde existem índices altíssimos de trabalho análogo à escravidão”, critica Tainá. Em meio às ameaças do agronegócio, a ativista ressalta que a cultura alimentar tradicional também pode ser uma alternativa viável para melhorar os baixos índices de educação, geração de renda e qualidade de vida nos municípios do Marajó. Segundo a conselheira de cultura alimentar, “se as nossas crianças comessem na escola as coisas que são do próprio território marajoara ao invés de ração humana e sucos cheios de corantes e saborizantes, nós iniciaríamos uma grande revolução de conhecimento e de qualificação de mão-de-obra para sair desse índice desesperador de pobreza. Se eu mantenho o Marajó em pé e de água limpa, eu tenho comida de alta qualidade, e essa comida consegue alcançar um valor justo para que as populações tenham boa remuneração e condições dignas de trabalho, sem serem desterritorializadas e subjugadas”.

Por que a febre amarela voltou a assombrar o Brasil? A baixa cobertura vacinal em áreas onde deveria ser maior. Minas Gerais foi o Estado mais afetado ano passado. Era para ser acima de 95% e a média era em torno de 40%. Uma doença que poderia ter número de casos bem menor, se houvesse uma ação de vacinação mais vigorosa. Quais as responsabilidades do poder público e da população nesse surto? A vacinação é uma atividade dos municípios com supervisão dos estados. O governo federal financia as atividades de saúde em geral. Mas, se a pessoa vive numa área endêmica e não busca a vacina, há responsabilidade dela. Mas o poder público deveria fazer buscas volantes de determinados públicos que se sabe que não vão, como agricultores. Que doenças sempre vão exigir vigilância para evitar surtos como a febre amarela? Todas as doenças que têm ocorrência epidêmica, têm potencial de gerar epidemias. Dengue, chikungunya, zika, leishmaniose, malária, que são doenças transmitidas por vetores. Outras são doenças de vias respiratórias, como gripe e influenza. É preciso sempre monitorar cepas mais graves, que podem causar morte, alterar as vacinas anualmente e imunizar a população.

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PRIMEIRO FOCO

CARLOS MAGNO / INSTITUTO VITAL BRASIL

ESTUDO REVELA A DIVERSIDADE DE SERPENTES NAS AMÉRICAS Dados provenientes de 27 países permitiram com que especialistas do Brasil, Alemanha, Austrália, Equador, Estados Unidos e Suécia reunissem informações sobre 886 espécies de serpentes. Os estudiosos organizam uma extensa base de dados com informações coletadas desde o século XIX. O estudo foi publicado na revista Global Ecology and Biogeography. Esta é a primeira vez que pesquisadores organizaram em um mesmo banco de dados fatores como registros coletados, padrões detalhados de distribuição e frequência de ocorrência das serpentes. No total, o trabalho aborda 147.515 indivíduos, pertencentes a 886 espécies, 12 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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distribuídas em 12 famílias. Por meio do estudo os pesquisadores observaram que as espécies de serpentes de áreas abertas como o Cerrado e Caatinga são amplamente diversas. Eles também constataram que existe uma grande lacuna de informações sobre as espécies da Amazônia. Isso se deve a fatores como baixos investimentos em pesquisa no bioma, dificuldades de acesso das áreas que precisam ser estudas e falta de especialistas que realizem pesquisas sobre o tema. Para a publicação, as informações coletadas sobre a região amazônica são provenientes de instituições de pesquisas, como o Museu Paraense Emílio

Goeldi. Atualmente, a coleção do Goeldi inclui cerca de 100 mil exemplares de espécies, principalmente na Amazônia brasileira. Os resultados da base de dados também destacam a necessidade de melhor amostra, exploração científica e proteção de áreas de alta diversidade, assim como a proteção de espécies raras. De acordo com os pesquisadores, o conhecimento sobre as serpentes também fornece informações que devem auxiliar na conservação, formulação de modelos de biodiversidade e evolução das espécies, além de ajudar a elaborar agendas de pesquisa na área da herpetologia - ramo da zoologia que estuda os répteis.


JUCÁ

ELESSEACHAM

O jucá (Libidibia ferrea), planta amazônica amplamente utilizada pela população ribeirinha como medicamento, pode ser a chave para simplificar e baratear o tratamento da leishmaniose, doença que provoca ulcerações na pele e a cada ano atinge três mil pessoas no Brasil. Os estudos com a planta estão sendo desenvolvidos por um grupo de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Atualmente, os estudiosos testam um creme fitoterápico à base do jucá como terapia alternativa às dolorosas injeções do tratamento contra a leishmaniose do tipo tegumentar (LT), também conhecida como cutânea. A ideia é que o creme feito com a planta possa ser associado à medicação recomendada pelo Ministério da Saúde. Os testes iniciais, feito em roedores, trouxeram resultados positivos. Segundo os pesquisadores, os animais tratados com o preparo tiveram 25% de

FOTOS: INOCÊNCIO GORAYEB

PLANTA AMAZÔNICA PODE COMBATER A LEISHMANIOSE crescimento de lesões relacionadas à doença, em comparação ao aumento de 300% dos animais que não receberam nenhum tratamento. O estudo para desenvolver o medicamento iniciou no Laboratório de Leishmaniose e Doenças de Chagas do Inpa. Por meio da pesquisa os profissionais buscam desenvolver um medicamento eficaz, de uso tópico e com uma logística de distribuição simplificada para auxiliar os pacientes que moram em áreas de difícil acesso. O jucá, também conhecido como pau-ferro, é um velho conhecido dos ribeirinhos da região amazônica. A planta é amplamente utilizada por eles em forma de chá para o tratamento de diversas enfermidades, pois possui propriedades antissépticas, antienvelhecimento, antioxidantes e antipigmentação. O jucá também é usado como cicatrizante, sedativo, anti-inflamatório e expectorante.

Joaninhas coloridas Os besouros da família Chrysomelidae são conhecidos como joaninhas. Eles são coloridos, metálicos, com manchas vermelhas ou amarelas, listrados e de uma grande variedade de cores e desenhos, dependendo da espécie. Existem mais de 35 mil espécies nesta família que é uma das maiores em número de espécies da classe Insecta; e muitas ainda vão ser descobertas e descritas. Mas se eles têm cores vivas, isso não seria uma desvantagem por serem logo encontrados pelos predadores, os pássaros, por exemplo? Sim, mas possivelmente este caráter vistoso e colorido estaria relacionado com outros princípios de proteção. Como se alimentam de tecido vegetal adquiriram gosto não palatável, ou indigesto, ou venenoso para os predadores. Estariam enquadrados numa “lei” da natureza, principalmente das florestas tropicais, de que cores vivas indicam perigo, por ser impalatável, venenoso, possuir ferrão, ser urticante e outros mecanismos indesejáveis aos predadores. Estes besouros de fato não se escondem, ficam visíveis sobre as folhas, mas se mesmo assim forem perturbados, encolhem as pernas, deixam-se rolar e cair no solo, e entre os folhiços não são mais encontrados. Por INOCÊNCIO GORAYEB MAURICIO MERCADANTE / DIVULGAÇÃO

PODEROSA

Estudos com o jucá estão sendo desenvolvidos por grupo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

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FATO REGISTRADO

Tração humana nas roças TEXTO E FOTOS INOCÊNCIO GORAYEB

Ainda hoje, o homem rural da Amazônia, que vive dos cultivos da roça e do extrativismo, faz um grande esforço nas tarefas diárias. Andam por longas distâncias para coletar os produtos da floresta e para chegar às áreas de roças. Além disso, nos períodos de plantio e colheita, precisam carregar pesados paneiros com carga. O Pará é o segundo estado em pro-

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dução de mandioca e a maior parte é proveniente da agricultura familiar em pequenas roças. O trabalho de plantar, colher e preparar a mandioca para fazer farinha exige o transporte das raízes da roça para o rio - onde são “afogadas” para fazer a farinha d’água da boa - do rio para a casa de farinha, ou para onde são armazenadas. Os meios de transporte de carga

mais frequentes no passado eram a tração humana e animal. Hoje, as motocicletas e outros veículos, como tratores, são mais utilizados. Entretanto, ainda existem muitas famílias que vivem isoladas em áreas sem estradas, que precisam utilizar a tração humana e animal. A foto é de 1980, em uma área de capoeira do município de Tracuateua, Pará.


PERGUNTA-SE

FAUNA

É PRECISO ESCLARECER MITOS E VERDADES

AMAZÔNIA REGISTRA 20 NOVAS ESPÉCIES DE MAMÍFEROS EM 1 ANO O macaco zogue-zogue-rabo-de-fogo (foto abaixo), duas espécies fósseis e uma de golfinho fluvial foram algumas das 20 novas espécies de mamíferos registrados na Amazônia entre os anos de 2014 e 2015. Os dados estão no relatório realizado pelo World Wide Fund for Nature (WWF) e Instituto Mamirauá. O levantamento foi realizado com base na consulta em coleções amazônicas e especialistas. No total, foram mais de 60 publicações científicas analisadas. Para o desenvolvimento do estudo também foram consideradas como área de amostragem a Amazônia Hidrográfica, a Amazônia Ecológica e a Amazônia Política. Um dos destaques do levantamento foi a espécie de golfinho Inia araguaiaensis, descoberta em 2014. A descrição do animal só foi possível a partir da análise de carcaças encontradas em um lago do rio Araguaia, em Goiás. Os especialistas acreditam que essa espécie

É possível mesmo “morrer de saudade”? O dia 30 de janeiro é conhecido como Dia da Saudade. É um sentimento quase cultural do brasileiro. Às vezes retratado de forma

tenha se separado das populações da bacia do Amazonas há quase três milhões de anos. As análises demonstraram ainda que a espécie se distingue do boto-da-amazônia e do boto-da-bolívia, que também pertencem ao gênero Inia. Outra espécie de destaque que compõe o relatório é o zogue-zogue-rabo-de-fogo (Plecturocebus miltoni). A distribuição geográfica do macaco é o interflúvio dos rios Roosevelt e Aripuanã, nos estados do Mato Grosso e Amazonas. A área de ocorrência do primata está nos limites de importantes unidades de conservação, como a Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Aripuanã e o Parque Nacional dos Campos Amazônicos. Os pesquisadores esperam que a descrição do zogue-zogue-rabo-de-fogo possa contribuir para iniciativas que preservem o uso sustentável da floresta além de alavancar pesquisas na região.

bonita e poética. Mas, na prática, a saudade pode sim ser um sentimento perigoso se não enfrentado de forma correta. E a expressão “morrer de saudade” pode não ser exagero. Quem explica é o coordenador do curso de Psicologia da Universidade da Amazônia, Márcio Barra. Ele afirma que há relação direta entre estados de saudade, melancolia e tristeza com a saúde, com a fisiologia. Para isso, cita a época da escravidão no Brasil, quando havia o banzo. O termo explicava uma forma de depressão vivida pelos escravos, causada pela saudade da terra e privação de liberdade. Os escravos adoeciam e até cometiam suicídio. Na Psicologia, essa experiência da saudade é descrita em muitas dimensões. De algo que foi vivido que foi bom; ou até de algo que se queria ter vivido, mas que não foi possível. Essa insatisfação com o presente, por conta de algo que interrompeu uma vivência, é que, de fato, é perigosa. E é onde entra a perda de uma pessoa amada, o distanciamento de algo ou alguém que se gosta. Essa forma de saudade é que deve ser enfrentada com ajuda profissional, pois pode tomar dimensões perigosas como o banzo.

DANIEL DUCHON / FREEIMAGES

JULIO DALPONTE/ INSTITUTO MAMIRAUÁ

MANDE A SUA PERGUNTA

Envie perguntas instigantes sobre hábitos, costumes e fenômenos da região amazônica para o e-mail: amazoniaviva@orm.com.br

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EU DISSE

Sebastião Tapajós, músico nascido em Alenquer, no Baixo Amazonas, durante as comemorações pelos 402 anos da capital paraense.

REPRODUÇÃO

“Belém representa tudo para mim, foi o início, a porta aberta para o resto do mundo.O meu coração está sempre por aqui.”

“Precisamos mudar nosso comportamento e nossa maneira de consumir, primeiramente no uso da água e na produção de lixo. Todos sabemos que vamos sofrer as consequências do jeito inadequado que estamos vivendo.” Rémy Rioux, advogado-economista francês, sobre as formas de consumo atual.

“Esses campos de refugiados... Muitos deles são campos de concentração. Os acordos internacionais parecem ser mais importantes do que os direitos humanos.” Papa Francisco, sobre os campos de refugiados.

“Não existe solução mágica para o problema da água.” Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água, sobre a crise hídrica no planeta.

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ANA CAROLINE DE LIMA

“A sociedade pouco sabe da história dos povos indígenas, só acredita numa repetição de estereótipos. Mas os índios são pessoas que vivem na contemporaneidade, não são coisa do passado. Nossos conhecimentos e nossas tecnologias não são do passado. Somos tão humanos e capazes quanto os outros para criar, assimilar, usar e compartilhar tecnologias.” Daiara Tukano, militante indígena, professora, artista plástica e mestranda em Direitos Humanos.

APPLICATIVOS

Filtro de Luz Azul Modo Noturno Dormir Bem A luz azul é emitida pela maioria dos dispositivos com telas atualmente. Ela ajuda na exibição de cores mais vivas e imagens mais bonitas. Mas isso tem um preço nos olhos em cansaço e, no cérebro, em se manter ativo. Um problema para quem usa celular antes de dormir e depois sente insônia. Com este app gratuito, é possível aplicar vários filtros que reduzem a luz azul e os efeitos. Claro, as cores vão mudar, mas é questão de costume. Gratuito parra Android.

Convite.in Convidar várias pessoas para um evento, por mais simples que seja, pode ser uma tarefa demorada e cansativa. Mas este app,

“Desrespeito convida desrespeito, violência incita violência. Quando os poderosos usam de suas posições para praticar bullying contra os outros, todos nós perdemos”

gratuito para Android, vem para resolver o

Meryl Streep, atriz norte-americana,

tenimento para adultos que esqueceram

em discurso no Globo de Ouro.

dessas histórias. Gratuito para o Android.

problema. Com uma interface bem fácil, dá para criar vários convites personalizados, com diversas artes, e enviar para todos os contatos por qualquer meio possível em smartphones. Quem recebe, não precisa ter o app instalado. E pelo convite, poderá confirmar.

Lendas da Amazônia Um apanhado de 22 contos ilustrados, de leitura fácil, de histórias e lendas amazônicas. Tudo muito intuitivo e que pode ser educativo para crianças ou mesmo entre-

FONTES: PLAY STORE E ITUNES

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CURIOSIDADES DA BIODIVERSIDADE

Um novo olhar sobre os indígenas paraenses TEXTO INOCÊNCIO GORAYEB FOTO CLAUDIA KAHWAGE

Muito interessantes são os três livros do Instituto de Desenvolvimento Florestal e Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio), publicados em 2017, que merecem ser mais difundidos. Foram organizados por Claudia Carneiro Kahwage, suas equipes e pelas comunidades indígenas. O primeiro, “Narrativas Tembé sobre biodiversidade”, contêm histórias escritas em tupi e em português, com ilustrações dos narradores e das situações naturais. É um material muito útil por constituir material didático para educação indígena e para o ensino fundamental em geral. O segundo, “Artesanato da Terra Indígena Nhamundá, Mapuera”, organizado por Claudia Kahwage, Roberta Cabá do Nascimento e Glauber Júlio Andrade da Silva, apresenta de forma técnica e esclarecedora o belo trabalho do artesanato indígena no uso dos produtos da biodiversidade. Este trabalho é importante por valorizar a conservação e o uso sustentável dos produtos da socio18 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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biodiversidade, promovendo a gestão, desenvolvimento e conservação das áreas protegidas. Também é um trabalho importante de difusão da cultura dos povos da floresta, constituindo-se em rico conteúdo para educação. O terceiro, “Gestão Ambiental e Territorial da Terra Indígena Alto Rio Guamá: diagnóstico etnoambiental”, que teve como editores Renata de Melo Valente e Claudia Kahwage, é um trabalho de grande esforço e recursos, que envolveu muitos profissionais de diversas formações e os indígenas como executores do trabalho e autores do livro. Além destes excelentes trabalhos o Ideflor-Bio incorporou em seu acervo um rico material de oficinas, narrativas, entrevistas, fotografias e filmagens. As relações de trabalho com os indígenas para o desenvolvimento destas obras enriquecem as comunidades envolvidas, renova o ânimo da juventude, difunde a situação atual das comunidades, seus costumes e suas culturas.


DESENHOS NATURALISTAS

CONCEITOSAMAZÔNICOS O VOCABULÁRIO REGIONAL É UM PATRIMÔNIO

Afobitar

ACERVO MUSEU GOELDI

Iconografia pioneira de um pavãozinho-do-pará O pavãozinho-do-pará foi desenhado por indígenas de Belém em 1750. Esta ilustração, assim como outras feitas por eles, são interessantes porque mostram aves com aspectos do ambiente onde vivem e de caracteres comportamentais. O pavãozinho-do-pará foi ilustrado com um pequeno inseto no bico, detalhe evocativo da designação popular pavão-papa-mosca. Esta ave, que foi citada pela sua designação indígena Yuquirihú, é da espécie Eurypyga helias, que só foi descrita por Pallas em 1781. Estas informações estão no livro “As aves do Pará segundo as memórias de Dom Lourenço Roxo de Potfl is, 1752”, escrito por Dante Martins Teixeira e Nelson Papavero e lançado em Belém em dezembro do ano passado.

Os autores apresentam os textos do religioso traduzidos em português e francês, reproduzem as 65 pranchas coloridas de aves, certamente feitas por indígenas orientados pelo naturalista, e discutem o conteúdo destas memórias. Dom Lourenço, fi lho de um francês estabelecido em Belém, era chantre maior (eclesiástico mestre do coro da Catedral da cidade) e apreciava a natureza. Ele resolveu estudar as aves, por isso foi nomeado sócio-correspondente da Academia de Ciência de Paris. Seu trabalho apresenta as iconografias pioneiras da avifauna da Amazônia. O livro publicado por Teixeira e Papavero traz à luz um dos primeiros ensaios da história natural redigido por um brasileiro.

Este verbo é interessante porque surgiu das brincadeiras de peteca no Pará (bolinhas de gude, em outras parte do Brasil). Meninos e meninas se reuniam para brincar de peteca. Vários deles aparecem com seus saquinhos cheios de bolinhas de gude, compradas na taberna da esquina ou conquistadas em pelejas nas temporadas de férias. Combinam o jogo com aqueles que querem participar, colocam suas petecas, em quantidade previamente acertada, no triângulo desenhado no chão de terra e começam a “tecar” para removê-las do espaço traçado ou eliminar um participante por acertar a peteca de um outro jogador. Aí, o linguajar utilizado é cheio de palavras e expressões próprias do jogo. “Vamos jogar peteca? Te prepara, porque vou te afobitar. Te abicora porque senão vou te afobitar”. O verbo afobitar também é utilizado em outra situação, no sentido de roubar. Por exemplo: “Este governo está afobitando o povo”. O jogo de peteca foi mais comum no passado e quase todos de gerações anteriores se lembram e participaram dele na infância e adolescência, principalmente durante os períodos de férias. Por INOCÊNCIO GORAYEB

Por INOCÊNCIO GORAYEB

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OLHARES NATIVOS

Pescador de imagens do rio Xingu

Betto Silva nem sempre foi fotógrafo profissional. Mas a fotografia sempre esteve presente na vida dele. Viveu quase a vida toda numa cidade de concreto, Brasília. E desde que chegou a Altamira, no sudoeste do Pará, para trabalhar na Norte Energia (consórcio da Usina Hidrelétrica de Belo Monte), se encantou com tanta natureza, culturas, pessoas e paisagens que mesclam o desenvolvimento urbano com paisagens naturais. Silva se graduou em Gestão de Eventos. E depois em Marketing. Era diretor de Relações Institucionais da Norte Energia. Sempre que possível, escapava para fotografar as paisagens do da região do rio Xingu. Tão logo a vaga para fotógrafo abriu na empresa, agarrou com flashes e lentes. Desde então, o hobby que começou aos 15 anos, se tornou profissão. “Aproveito o gancho de qualquer trabalho da empresa para as fotos. O Xingu é muito bonito! Todas as pessoas deveriam conhecer. Principalmente fotógrafos. Por sinal, parece já ter tantos fotógrafos quanto pescadores”, brinca Betto Silva. Agora ele tenta buscar retratos de uma Amazônia viva e pulsante.

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Peixes e novas redes

Um flagrante de tempos modernos. Enquanto o pescador adulto se prepara para fisgar um peixe na água, o “peixe-garoto” já estava preso na rede digital. Uma forma de passar o tempo enquanto os peixes da água não davam sinal. FOTO: BETTO SILVA

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OLHARES NATIVOS

Pra descrever memórias

A Usina Pimental, uma casa de força complementar de Belo Monte, foi tema dos cartões postais dos mais de 30 mil trabalhadores da construção, em 2015. FOTO: BETTO SILVA

Beach Soccer à beira-rio

Não importa o horário, não importa o lugar. Onde houver crianças, areia e uma bola disponível, vai ter futebol. A linguagem do esporte é tão universal quanto à da fotografia. FOTO: BETTO SILVA 22 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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Cores de um novo dia

O amanhecer em Senador José Porfírio, próximo ao porto de Vitória do Xingu, é uma experiência única. O céu ganha cores pouco usuais e transforma paisagens. A tenda da imagem é usada por pescadores como ponto de apoio. FOTO: BETTO SILVA

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OLHARES NATIVOS

Harmonia da natureza

Entrar na intimidade das muitas aldeias da região do Xingu não é fácil. Mas com aproximações diplomáticas com os pajés, dá para conhecer de perto a cultura indígena. E flagrar cenas como essa moça, da etnia Araweté, convivendo harmoniosamente com um papagaio. FOTO: BETTO SILVA 24 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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Biodiversidade até os caroços

Conforme as obras da construção de Belo Monte avançavam, eram encontradas muitas sementes, caroços, frutas e vegetais. Assim como animais e insetos. Muitos não catalogados. Por essa diversidade inexplorada, foi feito um Centro de Estudos Ambientais. FOTO: BETTO SILVA


Trabalho e batalha

Carpinteiro do porto de Altamira. As mãos calejadas mostram a experiência rústica. Ele estava trabalhando numa das embarcações do Centro Náutico de Altamira. Os pescadores e barqueiros se apropriaram do espaço que também é deles. FOTO: BETTO SILVA JANEIRO DE 2018

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OLHARES NATIVOS

Diversidade religiosa

Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores, em Vitória do Xingu. O templo é frequentado tanto por católicos quanto afrorreligiosos. O relacionamento entre ambas as comunidades é totalmente respeitoso e harmonioso. A espiritualidade e devoção são características das pessoas do lugar. FOTO: BETTO SILVA

Envie as suas fotos para a seção Olhares Nativos 26 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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Para participar da seção “Olhares Nativos” da revista Amazônia Viva basta enviar fotos com temática amazônica para o e-mail amazoniaviva@orm.com.br acompanhadas pelo nome completo do autor, número de identidade e uma breve informação sobre o contexto do registro fotográfico. As imagens devem ser autorais e com resolução de no mínimo 300 dpi. A publicação das fotos tem fins meramente de divulgação de trabalhos profissionais ou amadores, não implicando em qualquer tipo de remuneração aos autores. Participe!


OPINIÃO, IDENTIDADE, INICIATIVAS E SOLUÇÕES PEDRO PELOSO/ DIVULGAÇÃO

IDEIASVERDES

NATUREZA SELVAGEM NOVAS ESPÉCIES DE ANFÍBIOS SÃO PESQUISADAS NA FLORESTA AMAZÔNICA

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ALERTA

INVESTIGAÇÃO

O coordenador do curso de Gestão Ambiental da Faculdade Uninassau Belém, professor Álvaro Pinto, fala sobre os riscos dos agrotóxicos. PÁG.28

Em Bragança, alunos do IFPA desenvolvem método de aprendizagem que estimula o conhecimento da Física. PÁG.40


ENTREVISTA

A praga do agrotóxico O COORDENADOR DO CURSO DE GESTÃO AMBIENTAL DA FACULDADE UNINASSAU BELÉM, PROFESSOR ÁLVARO PINTO, ALERTA PARA O USO DESENFREADO DOS DEFENSIVOS AGRÍCOLAS NAS LAVOURAS DO PAÍS, REPRESENTANDO UMA SÉRIA AMEAÇA AO MEIO AMBIENTE E À SAÚDE HUMANA E ANIMAL

M

ais comum na vida das pessoas do que se pode imaginar, os agrotóxicos estão presentes na alimentação, nos produtos para limpeza e no trabalho de muitas pessoas, podendo causar muitos males à saúde. Para chamar a atenção para o problema, no dia 11 de janeiro é comemorado o Dia de Controle da Poluição por Agrotóxicos em todo o País. A data visa conscientizar os consumidores e produtores sobre os riscos causados pelo uso indiscriminado dos produtos químicos, além dos impactos causados no meio ambiente e na saúde das pessoas. Os agrotóxicos são utilizados em diversas atividades e ambientes, como a lavoura, a pecuária e ambiente domésticos. Eles estão presentes nos inseticidas, fungicidas, vermífugos e outros tipos de

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defensivos agrícolas. O coordenador do curso de Gestão Ambiental da Faculdade Uninassau Belém, professor Álvaro Pinto, explica sobre a importância da data e debate sobre o uso incorreto desses produtos, destacando os riscos para a sociedade, as normas para utilização e os pontos positivos e negativos dos mesmos. O que são os agrotóxicos e por que são utilizados? Agrotóxicos são produtos químicos utilizados na agricultura para controlar insetos, doenças ou plantas daninhas que causam danos às plantações. Os agrotóxicos também podem ser chamados de defensivos agrícolas ou agroquímicos, sem alterar o seu significado. A maior problemática do uso de agrotóxicos se iniciou devido às incertezas quanto a


UNINASSAU BELÉM/ DIVULGAÇÃO

“O Brasil é um dos primeiros colocados no ranking mundial do consumo de agrotóxicos. Mais de um milhão de toneladas de veneno foram jogados nas lavouras brasileiras somente em 2010.”

que altera a Lei 7.802/89 para regulamentar a emissão do chamado receituário agronômico, emitido por profissionais legalmente habilitados e utilizado na compra de agrotóxicos. O documento funciona como uma espécie de receita médica e deverá ser emitido em cinco vias. Entretanto o que se percebe é a venda indiscriminada de tais produtos, sem a devida fiscalização ou controle. Destaca-se que esta prática é ilegal, configurando crime ambiental, sendo perigosa à saúde e ao meio ambiente, e pode render cadeia a quem vende, a quem compra e a quem aplica o veneno.

sua segurança para a saúde humana e animal, bem como para o meio ambiente. De modo simplificado, separamos os agrotóxicos em três grupos: Inseticidas - que são destinados ao controle de insetos, ácaros, nematóides e moluscos; Fungicidas - usados no controle de doenças causadas por fungos, bactérias e vírus; e Herbicidas - os destinados ao controle de plantas daninhas.

No dia 11 de janeiro é celebrado o Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos. O que representa essa data para a população hoje em dia e qual a importância? A data representa um marco de extrema importância para a conscientização da população quanto aos riscos causados pelo seu uso indiscriminado e problemas ao meio ambiente e à saúde humana. O Brasil é um dos primeiros colocados no ranking mundial do consumo de agrotóxicos. De acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola, mais de um milhão de toneladas de veneno foram jogados nas lavouras brasileiras somente em 2010. O aumento indiscriminado do uso dos agroquímicos tem provocado a contaminação ambiental, com prejuízos para a saúde de agricultores e de consumidores.

Onde é possível encontrar agrotóxicos? São produtos encontrados em lojas especializadas para este fim, sejam físicas ou por e-commerce. Porém, a aquisição de tais produtos deve seguir o que preconiza a lei, devendo ser adquirida com “receita”, emitida por um engenheiro agrônomo devidamente habilitado junto ao conselho de classe, devendo ser específica para cada cultura ou problema, contendo diversas informações. Vale ressaltar, que a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável aprovou em 2011 o Projeto de Lei 3.060/11,

Quais os riscos dos agrotóxicos para as pessoas? De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), até pouco tempo, várias doenças como câncer, doenças respiratórias, neurológicas e más formações congênitas eram tidas como doenças de “causas desconhecidas”, entretanto na área de Saúde Ambiental, que pesquisam os impactos do meio ambiente na saúde humana, classificam o agrotóxico como um dos fatores de grande importância no processo de ocasionamento dessas doenças. A saúde dos trabalhadores que aplicam JANEIRO DE 2018

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ENTREVISTA

o agrotóxico é a questão mais preocupante, pois os riscos variam de acordo com o tempo e dose da exposição a diferentes produtos. Os trabalhadores podem apresentar desde intoxicações, dores de cabeça e vômitos a quadros clínicos mais sérios como a infertilidade masculina e doenças neurológicas. O uso abundante de venenos agrícolas implica em graus rigorosos de poluição ambiental e intoxicação humana, pois a grande maioria dos agricultores e aplicadores desconhece os riscos a que se expõem e, consequentemente, descumprem as normas básicas de saúde e segurança. Existe algum projeto ou ação que trabalhe a conscientização dos produtores e consumidores sobre o uso desses produtos químicos?

Sim. Em 2002, foi criado o Comitê Técnico de Assessoramento para Agrotóxicos, instituído pelo Decreto nº 4.074/2002 (Art.95), constituído por dois representantes, titular e suplente, de cada um dos órgãos federais responsáveis pelos setores de agricultura, saúde e meio ambiente, designados pelo respectivo ministro, que deliberam especificamente sobre assunto técnicos relacionados a comercialização e registros dos produtos. Além deste comitê técnico, existem outras iniciativas da sociedade civil que tratam especificamente da conscientização que é a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que tem como objetivos construir um processo de conscientização na sociedade sobre a ameaça que representam os agrotóxicos e transgênicos por meio de debates e fiscalizações. No Pará,

recentemente, em agosto de 2017, ocorreu o primeiro encontro e, consequentemente, a criação do Comitê de Combate aos Agrotóxicos Paraense, tendo participado do evento diversas entidades. Quais são os pontos positivos e negativos do agrotóxico? O uso dele é um dos recursos mais utilizados pelos produtores rurais para tentar equiparar perdas de produtividade provocadas pela degradação do solo e controlar o aparecimento de doenças. Entretanto, essa utilização de agrotóxicos muitas das vezes é feita de forma inadequada, sem o conhecimento das reais necessidades do solo e das plantas. Os pontos negativos são os impactos que podem ser causados, seja nos seres humanos como doenças e possibilidade de ARQUIVO ANPR

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UNINASSAU BELÉM/ DIVULGAÇÃO

óbito e/ou sequelas, quanto no meio ambiente. Sendo este último elemento, relacionado diretamente ao solo, água e ar, uma vez que os agrotóxicos são aplicados diretamente nas plantas ou no solo, e através da lixiviação da água e da erosão dos solos, podendo levar até aos rios e aquíferos o que gerará efeitos deletérios aos ciclos biogeoquímicos e ecossistemas. Podemos destacar também que os pontos positivos são a diminuição e controle do número de plantas que tendem morrer por ataque de microorganismos nocivos às culturas como vermes, bactérias, fungos e outras pestes, mantendo as plantações cultivadas em números constantes; aumento da produtividade da lavoura; contribuição para

FERNANDO FRAZÃO/ AGÊNCIA BRASIL

“A busca pelo uso racional de agrotóxicos na agricultura brasileira é crescente, especialmente com o surgimento de métodos alternativos a essa utilização, bem como dos resultados positivos obtidos nas lavouras que utilizam novos processos” o aumento da defesa das plantas; maior durabilidade e tempo de estocagem. O que as pessoas podem fazer para substituir os agrotóxicos, obtendo os mesmos resultados? A busca pelo uso racional de agrotóxicos na agricultura brasileira é crescente, especialmente com o surgimento de métodos alternativos a essa utilização, bem como dos resultados positivos obtidos nas lavouras que utilizam novos processos. Entre eles temos a agricultura orgânica. Agricultura orgânica é o sistema de produção que não usa fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, reguladores de crescimento ou aditivos sinté-

ticos para a alimentação animal. O manejo valoriza o uso eficiente dos recursos naturais não renováveis, bem como o aproveitamento dos recursos naturais renováveis e dos processos biológicos alinhados à biodiversidade, ao meio ambiente, ao desenvolvimento econômico e à qualidade de vida humana. Ela prioriza o uso e a prática de manejo sem o uso de fertilizantes sintéticos de alta solubilidade e agrotóxicos. Esta prática agrícola preocupa-se com a saúde dos seres humanos, dos animais e das plantas, entendendo que seres humanos saudáveis são frutos de solos equilibrados e biologicamente ativos, adotando técnicas integradoras e apostando na diversidade de culturas. JANEIRO DE 2018

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ONDE MORAM OS ANFÍBIOS Pesquisadores se dedicam a estudar espécies de sapos, rãs, pererecas, salamandras e cobras-cegas existentes na Amazônia, tirando esses animais da lama do desconhecimento científico TEXTO CAIO OLIVEIRA FOTOS PEDRO PELOSO E CARLOS BORGES

m lugar cheio de vida. Talvez essa seja uma das melhores definições para a Floresta Amazônica, uma região colossalmente rica em todos os detalhes que a compõem. Estudiosos do mundo inteiro se debruçam sobre o local, na hercúlea tarefa de catalogar, estudar e compreender esse que é o bioma mais diverso do planeta. Neste sentido, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) é uma das mais importantes instituições na incrível missão que é desvendar a Amazônia. A herpetologia, ramo da zoologia que estuda répteis e anfíbios, ocupa um papel crucial na pesquisa científica na região. Os anfíbios, pequenos animais vertebrados que podem viver tanto em terra como na água, e que dividem conosco a convivência em um intrincado sistema biológico, desempenham papéis importantes em nossa região, com hábitos que ainda carecem de estudos. “Como qualquer outro animal, os anfíbios se encaixam em um quebra-cabeça muito maior. Nessa analogia, ao tirar uma única peça, nunca teremos a imagem completa. Por exemplo, se uma determinada espécie de anfíbio desaparecer, os animais que se alimentam dele serão prejudicados. Assim como pode ocorrer um aumento da população de insetos, já que eles são o alimento dessa classe”, comenta Pedro Peloso, doutor em Biologia Comparada e pesquisador do setor de Herpetologia do Museu Goeldi. Apesar de não se conhecer ainda o número exato de espécies de anfíbios que habitam o habitat amazônico, já ficou evidente, por meio de inúmeras pesquisas, que a Amazônia Internacional (que ocupa áreas do Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname) é o local com a maior ocorrência de espécies de sapos, pererecas, rãs, salamandras e cecílias (cobra-cegas). Atualmente, a estimativa é JANEIRO DE 2018

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TEM SAPO NA LAGOA VAI, SALAMANDRA

A Bolitoglossa tapajonica é uma das diversas espécies que só existem no Pará

que, das cerca de 7,7 mil espécies registradas de anfíbios no mundo todo, cerca de 1 mil habitam a região amazônica, com o Brasil sendo o país com maior ocorrência desses animais no mundo. “Apesar de não termos o número exato de espécies, até pela complexidade de estudar a Amazônia, que tem vários braços em outros países, podemos dizer com certeza que a cada sete espécies de anfíbios do mundo uma está aqui”, comenta Pedro Peloso, que já percorreu vários estados da Amazônia brasileira em suas buscas pela catalogação dos animais. O acervo de Herpetologia do Museu Goeldi serviu como base para o estudo “Os Anfíbios do Pará: Estado da Arte e Desafios para o Futuro”, desenvolvido pela aluna de Biologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) Gisele Cassundé sob a coordenação de Peloso. A proposta do projeto era ousada: catalogar todas as espécies de anfíbios com ocorrência no Estado, dentro de suas fronteiras políticas e analisando as cinco áreas de endemismo que compõem os limites do Pará: Belém, Guiana, Rondônia, Tapajós e Xingu. Após quase dois anos de pesquisa, 192 espécies de anfíbios foram catalogadas em todo o Estado. Até a compilação do trabalho de Gisele Cassundé não existia nenhuma lista com base em dados de coleções, com o número de anfíbios que se tem no Pará. O pioneirismo da pesquisa encontra-se no fato de que, apesar de haver vários levantamentos em áreas específicas do Estado, 34 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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Anfíbios na área

Distribuição de espécies já catalogadas no Pará Mapa do norte da América do Sul representando as áreas de endemismo da Amazônia (limites brancos) e o Estado do Pará (limite vermelho). O Pará engloba cinco das áreas de endemismo (Belém, Guiana, Rondônia, Tapajós e Xingu) e possui um alto número de espécies de vertebrados endêmicas e ameaçadas de extinção. ninguém havia catalogado a ocorrência de todas as espécies da classe Amphibia, organizados em três grandes grupos ou Ordens: Anura (sapos, pererecas e rãs), Caudata (salamandra) e Gymnophiona (cobras-cegas). É importante destacar que o levantamento foi feito com base no acervo do Museu Emílio Goeldi, além de registros de coleções nacionais e internacionais. O estudo também incluiu registros da literatura, especialmente de espécies recentemente descobertas e descritas na Amazônia.

Novos registros de distribuição no Estado

Sete espécies de anfíbios registrados no Pará compõem aproximadamente 3% da fauna total no Estado

Adenomera juikitam

A espécie acima foi descrita em 2013 a partir de exemplares coletados no estado de Goiás. A principal diferença dessa espécie para as demais é a sua vocalização, que possui características únicas. Numa expedição recente ao município de Palestina, sul do Pará, alguns exemplares da espécie foram observados num fragmento florestal próximo ao Rio Araguaia (divisa com o estado do Tocantins).

Boana diabolica

A espécie foi descrita em 2016 em localidades na Guiana Francesa e no Estado do Amapá. O registro da espécie no Pará era antecipado, uma vez que alguns dos pontos onde a espécie era conhecida se encontram próximos da fronteira entre o Amapá e o Pará. Um único exemplar da espécie do Pará foi encontrado na coleção do Goeldi sendo proveniente do município de Almeirim, no norte do Estado.

DADOS DA SECRETARIA DE ESTADO DE MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE (PA) E DO MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE


Trachycephalus coriaceus

É amplamente distribuída na Amazônia, mas curiosamente nenhum registro da espécie existia no Pará. Ela foi originalmente descrita no Suriname, mas tem distribuição conhecida no Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa e Peru. Aqui, são conhecidos registros do Acre (Souza, 2009), Amazonas (Zimmerman & Rodrigues, 1990) e, mais recentemente, de Rondônia. O registro da espécie para o Pará é confirmado por um exemplar do Museu Goeldi proveniente do município de Marabá.

Pristimantis reichlei

O primeiro registro da espécie no Brasil foi em 2010, com a observação de exemplares que vocalizavam em uma fazenda no município de Senador Guiomard, no Acre. Durante análise de espécimes do Museu Goeldi, identificados originalmente como Pristimantis peruvianus, revelou-se que, na verdade, os animais se tratavam de P. reichlei, coletados em Vitória do Xingu e Itaituba, no Pará.

PESQUISA EM GESTAÇÃO

Os desafios para se estudar a biodiversidade na Amazônia são enormes. Financiamento para estudos de campo são escassos. Enquanto isso, girinos de pererecas-de-vidro, como nesta foto, são desovados muitas vezes escondidos da Ciência.

DESAFIOS CONSTANTES NA REGIÃO Boana alfaroi

A espécie acima foi descrita por Caminer & Ron (2014) e até recentemente só era reconhecida de regiões amazônicas do norte do Equador. Diversos exemplares encontrados na coleção do Goeldi provenientes dos municípios de São Félix do Xingu, Altamira e Alenquer podem ser referidos recentemente a essa espécie. Antes, a maioria estava identificado na coleção como B. calcarata ou B. fasciata. (CONTINUA NA PÁG. 37)

A grandiosidade da Amazônia Legal, com seus mais de 5 milhões de km², ajuda a tornar a área com a maior biodiversidade do planeta. Contudo, questões como extensão territorial, clima e geografia acabam dificultando o trabalho dos pesquisadores, que precisam adentrar o território amazônico para irem atrás do conhecimento científico que buscam desvendar. “Muitos dos pesquisadores do Brasil estão acostumados a ir de carro para o trabalho de campo. Aqui não temos essa facilidade de entrar em um carro e ir para qualquer lugar. O

(Museu) Goeldi, por exemplo, tem uma estação de pesquisa na Flona (Floresta Nacional) de Caxiuanã, no Marajó, onde há toda uma logística para chegar lá. Temos que pegar um barco de Belém até Breves e lá, pegamos um barco do Museu que nos leva à estação. Tudo Isso leva um dia e meio, só para chegar no local de pesquisa, isso se tivermos a estrutura correta”, conta Marcelo Sturaro, doutor em Zoologia e também pesquisador do Goeldi. “Isso quando não vamos para lugares mais remotos, como o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, que leva cerca quatro dias de viagem. Aqui, temos uma logística totalmente diferente para o trabalho de pesquisa, principalmente pela dependência JANEIRO DE 2018

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do uso de barcos”, completa, ao afi rmar que as dificuldades de logística e deslocamento acabam encarecendo a pesquisa na região amazônica. Se o próprio fazer científico na Amazônia não fosse desafiador o suficiente, os pesquisadores se encontrariam em outro grande empecilho na questão do financiamento. “O governo tem alguns programas de incentivo à pesquisa na Amazônia, como o PPBio (Programa de Pesquisa em Biodiversidade) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), mas nós sempre temos que nos virar para conseguir fi nanciamento, até mesmo fora do país. Para conseguir dinheiro especificamente para fazer trabalho de campo, eu tenho tido mais sucesso obtendo recursos no exterior”, comenta o biólogo Pedro Peloso, que já fez expedições fi nanciadas pela National Geographic Society, pelo Instituto Smithsonian e pelo Museu de História Natural de Nova York. No Brasil, o Museu Paraense Emílio Goeldi surge como um apoio primordial ao trabalho dos pesquisadores, já que instituição oferece a estrutura que os biólogos precisam para realização de estudos. Além do acervo gigantesco, coletado desde o fi nal do século XIX, o museu oferece a infraestrutura adequada para armazenamento, preparo e estudo dos animais, “Mesmo passando por um momento de dificuldade, o fi nanciamento do Museu Goeldi vem mais do apoio estrutural, pois temos aqui o que é preciso para a realização do nosso trabalho”, diz Peloso. Apesar das adversidades, o resultado de todo o esforço para inventariar as espécies que ainda se escondem pelas matas acaba se pagando. No meio de tantos problemas, é justamente o conhecimento da região e o povo que a habita que facilita o trabalho dos pesquisadores, que empresta o conhecimento coloquial do habitante para colaborar no fazer científico. O trabalho junto com comunidade 36 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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BREJO CHEIO

O grupo de pesquisa com anfíbios do Museu Goeldi registrou a ocorrência de 192 espécies, como pererecas, sapos e cobras-cegas, no Pará. Cientistas acreditam que o número deve crescer com novos estudos em áreas remotas do Estado.


local é importante para o pesquisador, pois, segundo Pedro Peloso, o amazônida tem um conhecimento que nunca pode ser menosprezado pelo cientista. “Em várias ocasiões, vamos para o campo procurando uma espécie passamos dois, três dias sem achar e depois conversamos com um habitante e ele nos leva no local certo. O nosso conhecimento científico junto com o conhecimento do habitante que está ali todo dia, que conhece a fauna, é de extrema importância”, comenta o pesquisador.

É PRECISO TER OS OLHOS ATENTOS Pedro Peloso uniu sua paixão pelos animais e pela fotografia, e o resultado foi uma sinergia que tem dado muitos resultados positivos, tanto no campo da arte quanto no da ciência. Com fotografias em diversas publicações nacionais e internacionais, o pesquisador-fotógrafo acredita que compartilhar com o mundo suas experiências por meio dos registros fotográficos só ajuda na propagação do conhecimento. “Eu aprendi que esse registro visual tem um impacto enorme sobre as pessoas. Eu posso falar que tem um monte de espécies de sapo diferentes, um bicho laranja, outro amarelo com pintinhas marrons, outro um azul, enfim, mas as pessoas vendo isso elas acreditam mais. Hoje, eu uso a minha fotografia como uma ferramenta, além de prazer pessoal. Eu gosto de gerar essa reação nas pessoas. Tem gente que não gosta de sapo, mas se eu mostrar uma imagem e a foto for bem-feita, eles podem enxergar beleza ali. Gerar essa confusão de sentimentos através da fotografia é muito interessante, é algo que eu sempre busco no meu trabalho”, comemora Peloso. E é com esse trabalho, de trazer para o mundo o conhecimento que ainda está escondido na Amazônia, que os biólogos buscam preservar as riquezas locais. A palavra preservação é outro conceito muito importante para quando se fala da região. A exploração consciente, levando em conta

TEM SAPO NA LAGOA Boana leucocheila

Boana leucocheila foi descrita em 2003, quando foi encontrada somente em três localidades, nos estados do Mato Grosso e Rondônia. A análise dos exemplares do Museu Goeldi revelou a presença da espécie no Pará, proveniente de coletas nos municípios de Juruti e Itaituba. O encontro da espécie no Estado não é surpresa, visto que diverso dos registros passados provém de regiões próximas à divisa entre o Pará e o Mato Grosso.

Dendropsophus haraldschultzi

Dendropsophus haraldschultzi é uma espécie de pequeno porte e de biologia pouco conhecida, apesar de possuir uma ampla distribuição. A espécie é conhecida da Colômbia, Peru e diversas localidades no oeste da Amazônia brasileira, nos estados do Acre e Amazonas. A literatura sobre a espécie menciona que a mesma ocorre no Brasil ao longo do Rio Solimões. Dois exemplares da coleção do Museu Goeldi, obtidos em Oriximiná, norte do Pará, representam uma ampliação da distribuição de cerca de 1.000 km (em linha reta) para a espécie.

Espécies ameaçadas SALAMANDRA

(Bolitoglossa paraensis) Vulnerável

RÃ (Allobates brunneus) Criticamente em perigo

SAPO (Rhinella ocellata) Vulnerável

RÃZINHA

(Pseudopaludicola canga) Em perigo

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PESQUISA APROFUNDADA FOTOS: CARLOS BORGES

toda vida que compõe o bioma amazônico, animais, plantas e pessoas, é um dos principais objetivos do trabalho do biólogo. O pesquisador Marcelo Sturaro se preocupa com a possibilidade do trabalho científico ser prejudicado por causa da ação do homem. “Na área de Belém, ocorreu a maior perda de habitat na Amazônia como um todo. Espécies que eram comuns hoje são difíceis de encontrar. Estou realizando um trabalho em que eu precisaria de uma amostra de um sapo da espécie Engystomops petersi e após várias coletas, ainda não conseguimos localizar o animal. Isso dá uma ideia do tamanho do prejuízo”, desabafa. A devastação predatória, principal inimiga da vida nas florestas, vem causando um grave prejuízo para a fauna nacional, incluindo a população de anfíbios no Estado. O Arco do Desmatamento, área de 500 mil km² de terras que vão do leste e sul do Pará em direção oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre, já causou a perda de espécies endêmicas que, atualmente, não podem mais ser encontradas. É apenas com a catalogação das espécies, seja de fauna ou de flora, que políticas de preservação podem ser elaboradas. “Sem o nosso trabalho de ir ao campo e conhecer as espécies é impossível definir quais áreas vamos preservar. Aquela ideia de que a gente deve preservar a Amazônia inteira e deixá-la 100% intacta é muito bonita, mas também utópica. Tem muita gente na Amazônia, comunidades inteiras, gente que precisa de desenvolvimento para sobreviver. Então algumas áreas vão ter que ser exploradas, outras mais e algumas menos”, comenta Pedro Peloso. E é exatamente esse o trabalho do pesquisador, de ir a campo e definir quais áreas são de preservação, conhecendo a distribuição geográfica dos animais, encontrando novas espécies e contatando quais estão ameaçadas de extinção, contribuindo assim para o equilíbrio desse complexo e fascinante quebra-cabeça vivo.

O doutor em Biologia Comparada e pesquisador do setor de Herpetologia do Museu Goeldi, Pedro Peloso, dedica seus estudos aos anfíbios da Amazônia

NOVAS ESPÉCIES DE ANFÍBIOS NO PARÁ

A coleção de Herpetologia do Museu Paraense Emílio Goeldi, fundada oficialmente em 1965 por Osvaldo Rodrigues da Cunha, conta com um acervo de mais de 40 mil exemplares de anfíbios, a maioria coletados no Pará. Somando esse número aos registros literários, o acervo do Goeldi, que tem mais de 150 anos, é um dos mais profusos do mundo. “O tempo todo, a taxonomia das espécies avança, então existem novas espécies sendo descritas, espécies mudando de gênero e família. Como esses dados não estão atualizados na nossa coleção, não sabíamos quantas espécies tínhamos no nosso acervo”, diz a pesquisadora Gisele Cassundé. Das 192 espécies de anfíbios que compõem a fauna paraense, a maioria é for-

mada pela ordem Anura, com 175 espécies, seguida das Gymnophiona, com 15 espécies e Caudata, com a ocorrência de apenas duas espécies. Na pesquisa “Anfíbios do Pará”, os resultados apontam sete registros novos de ocorrência para o estado, dos quais cinco pertencem a família Hylidae, um Leptodactylidae e um Crugastoridae, todos da ordem Anura. Os dados representam ainda o registro de 17 espécies endêmicas, ou seja, que só foram encontradas no Pará. O trabalho dos pesquisadores teve como base uma das mais importantes áreas da biologia: a taxonomia. A descrição, identificação e classificação dos organismos vivos, seja identificando um indivíduo ou um grupo, é primordial para determinar as espécies e, assim, poder estudá-las


NÃO ENGULA SAPO

Conheça as diferenças entre os anfíbios da Ordem Anura

Sapos de maneira correta. “Há muitos anos, a Bolitoglossa paraensis, uma espécie de salamandra, vinha sendo classificada erroneamente como Bolitoglossa altamazonica. Esta na verdade, representava o que chamamos de ‘complexo de espécies’, que é quando várias espécies são reconhecidas como uma única. Em um estudo de 2013, duas espécies do complexo B. altamazonica foram identificadas para o estado do Pará e reclassificadas como B. paraensis e B. tapajonica, enquanto a distribuição de B. altamazonica parece estar restrita para ao Peru. No entanto, a identificação desses animais é complicada devido as espécies serem muito semelhantes”, comenta Gisele, ao falar da análise do material da coleção do Museu Goeldi.

São animais que preferem viver em terra firme e só procuram ambientes aquáticos quando vão se reproduzir. Em geral, pertencem à família dos bufonídeos, com algumas espécies distribuídas por outras famílias de anuros. A pele geralmente é rugosa e seca, com glândulas denominadas paratoides, por onde o animal expele veneno, usado na defesa contra predadores. O sapo também tem uma capacidade limitada para saltos, devido ao tamanho menor dos membros posteriores.

Pererecas

Em geral, a perereca é a menor dos anuros e pode ser identificada pelos olhos, que são grandes e projetados. Prefere ficar alojada em árvores e possui extensões nas pontas dos dedos, um tipo de ventosa, que ajuda a subir nos galhos. Os membros longos e finos permitem grandes saltos.

ATENÇÃO AO HABITAT NATURAL O doutor em Zoologia Marcelo Sturaro (no alto) teme que o trabalho científico sobre os anfíbios seja prejudicado por causa da ação do homem

Rãs A PRINCESA E OS SAPOS

A estudante de Biologia na UFPA Gisele Cassundé se interessou pela pesquisa dos anfíbios na região

Esses animais preferem os ambientes aquáticos, sendo facilmente encontrados em lagoas. Possuem membranas entres os dedos (interdigitais) que ajudam a nadar melhor. Os membros posteriores das rãs são bem mais longos, representando quase metade do corpo do animal.

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EDUCAÇÃO

Linha de investigação

EM SALA DE AULA

O método do Ensino de Física por Investigação estimula os alunos a desenvolver o próprio modo de buscar o conhecimento, com autonomia e liberdade

Alunos do IFPA campus Bragança experimentam método de aprendizagem que estimula o conhecimento pela experiência por meio das noções de Física

H

á dois anos, alunos das turmas de ensino médio integrado do Instituto Federal do Pará (IFPA) campus Bragança passaram a vivenciar um método diferente de ensino da Física: saem de cena o quadro magnético, os conceitos formais e fórmulas; ganha espaço a mais elementar das atividades científicas: a experimentação investigativa. O trabalho, desenvolvido desde 2016 pelo 40 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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professor Fábio Andrade de Moura - e acompanhado de perto por dois alunos da graduação, Brendo Cruz Costa e Gabryell Malcher Freire - consiste em levar à prática o Ensino de Física por Investigação. O método estimula os alunos a desenvolver o próprio modo de buscar o conhecimento, com autonomia e liberdade, passeando pelos conceitos fundamentais da disciplina a partir de situações-problemas do cotidiano. Aprender - e ensinar - ciência pelo método

da investigação não é algo exatamente novo. Experiências do tipo estão registradas na literatura desde o século XIX e ainda geram discussões entre especialistas. “O ensino por investigação, em que o aluno investiga os conceitos partindo de situações-problemas, é viável para alguns temas, mas não para todos”, ressalta o professor Fábio Moura, consciente do extenso e variado programa exigido no ensino médio. “A aula tradicional, teórica, é necessária pela quantidade de assuntos


FOTOS: ASCOM / IFPA

que precisam ser ministrados”, explica. A resposta dos alunos, porém, anima o professor, que prepara uma dissertação de mestrado sobre a experiência. “O resultado foi positivo em todos os sentidos”, diz, do engajamento dos estudantes com o processo de aprendizagem até a desmistificação de que a física é um bicho de sete cabeças. Divididos em grupos, os alunos são instigados a investigar problemas práticos apresentados pelo professor em sala. É ele quem conduz a dinâmica, em tom de conversa, levantando questões, apresentando possibilidades e ouvindo o que os estudantes têm a dizer, num processo de troca constante. Para trabalhar com os 35 alunos do primeiro ano de Edificações, o professor Fábio Moura escolheu como tema a Primeira Lei de Newton - a lei da inércia. A atividade, feita no laboratório de Física do IFPA campus Bragança, foi dividida em cinco etapas, iniciadas com um experimento simples, com o uso de um skate. A primeira parte da atividade consistiu na chamada demonstração investigativa: o professor apresentou a experiência com o skate e estimulou os alunos a produzir hipóteses para os fenômenos demonstrados, de movimento e repouso. Em seguida, veio a etapa de proposição de questões abertas, onde os alunos precisaram relacionar a experiência com situações do cotidiano, formulando respostas com as próprias palavras. Na terceira etapa, os estudantes foram apresentados a um material didático sobre o assunto, em forma de charges, com informações sobre inércia, movimento, repouso e referencial, iniciando a turma na parte teórica. Em seguida, a quarta etapa, chamada de laboratório aberto, propôs aos estudantes testar os conceitos por conta própria, usando um kit experimental: um carrinho de baixo custo e alguns corpos de prova. A ideia foi explorar o conhecimento construído nas etapas anteriores por meio da manipulação dos objetos.

A última etapa consistiu na sistematização do conhecimento, quando o professor fez a aplicação de uma aula teórica sobre os temas apresentados, alinhavando tudo o que foi discutido anteriormente. “O resultado é acima da média. Ouvi de alguns alunos que aquela foi a melhor das nossas aulas”, lembra Fábio Moura. O professor ressalta que durante as etapas, os estudantes ficam livres para criar argumentos e dar explicações por conta própria para os fenômenos - muitas vezes, alcançando sozinhos os conceitos que serão apresentados mais à frente, ou tropeçando neles. “O erro faz parte desse processo. A gente considera que errar é necessário para a construção do conhecimento. Nem todos assimilam da mesma maneira e alcançam os mesmos resultados, por isso é importante essa etapa final, de sistematização do conhecimento, para costurar e aparar o que foi apresentado”, diz o professor Fábio Moura.

PROJETO TERÁ RESULTADOS APRESENTADOS EM LIVRO

Especialista em Metodologia do Ensino de Física, o professor Fábio Moura transportará a experiência com os alunos do IFPA para o projeto de mestrado que desenvolve na Universidade Federal do Pará em par-

EXPERIMENTOS

O professor Fábio Moura (centro) com a turma de Edificações: aprendizado com bons resultados após implantação do projeto

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EDUCAÇÃO

FOTOS: ASCOM / IFPA

ceria com a Sociedade Brasileira de Física. O assunto também é tema do Trabalho de Conclusão de Curso de dois graduandos em Física do IFPA campus Bragança, Brendo Costa e Gabryell Freire, os monitores que acompanharam as atividades. O TCC, com o título “O ensino de Física por investigação: compreendendo os fundamentos e demonstrando sua aplicabilidade no Ensino Médio através da primeira Lei de Newton”, que também apresenta os resultados práticos da experiência, será transformado em livro, ainda sem data para ser publicado.

A ideia do projeto surgiu em meio a discussões sobre estratégias e metodologias utilizadas nas escolas para melhorar o processo de ensino-aprendizagem, nas aulas do curso de Licenciatura em Física do IFPA campus Bragança. Tida como uma disciplina difícil por boa parte dos estudantes, a Física, a partir da experimentação, se apresenta mais próxima à realidade dos alunos, e mais assimilável. Ao juntar a teoria, a prática e a resolução de situações-problemas em uma mesma aula, o ensino por investigação rompe

TEORIA E PRÁTICA Os graduandos Brendo Costa e Gabryell Freire se interessaram pelos conceitos fundamentais da Física a partir de situações-problemas do cotidiano

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a inércia do modelo tradicional e prova que é experimentando que se aprende.

VEJA COMO É O ENSINO DE FÍSICA POR INVESTIGAÇÃO EM SALA DA AULA NO IFPA CAMPUS BRAGANÇA QR CODE Use um aplicativo leitor de códigos QR no celular para acessar o conteúdo especial desta reportagem


OUTRAS CABEÇAS

RONALDO ROSA

Integrar para não desperdiçar

Chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental, Adriano Venturieri afirma que potencial científico da região amazônica precisa ser mais conhecido e respeitado JANEIRO DE 2018

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OUTRAS HISTÓRIACABEÇAS

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ADRIANO VENTURIERI é chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental

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região amazônica sempre despertou, desde os tempos dos colonizadores europeus, a imaginação sobre lendas e mitos, riquezas e outros mistérios da natureza. Passou depois de algum tempo a ser chamada de “inferno verde”, “pulmão do mundo” e hoje é conhecida pela sua importância na conservação e preservação da biodiversidade. Na década 1960, a preocupação com a vulnerabilidade da região, devido a sua baixa densidade demográfica, aliada as secas no nordeste brasileiro foram JANEIRO DE 2018

fatos decisivos para que houvesse um movimento no sentido de ocupação humana através do lema “terra sem homens para homens sem terra”. Pairava no planalto um sentimento imperioso da necessidade de tornar essa vasta região habitada e, para isso, pôs em prática por meio do Plano de Integração Nacional um intenso processo de ocupação baseado na “pata do boi”, atividade produtiva de mais rápida consolidação, pois existia um forte incentivo para desflorestamento da região. Naquele momento, sob a égide de “integrar para não entregar” houve

um grande avanço das pastagens sobre a floresta, hoje expressos em cerca 60% de desflorestamento do bioma, que acumula 428.398 Km2 (PRODES 2016). Atualmente, graças ao avanço das pesquisas em diversas áreas do conhecimento, a região deixou de ser desconhecida para sociedade e, sobretudo, para a comunidade científica global. Inúmeras pesquisas têm sido realizadas por cientistas do país e do exterior, os quais buscam encontrar respostas aos questionamentos levantados acerca dos impactos que a ação antrópica


KELEM CABRAL

RONALDO ROSA

tem causado sobre diferentes temas como: solo, clima, flora, fauna, água, e mais especificamente, sobre a sua biodiversidade. Temos, no entanto, que enfrentar nossas questões e desmistificar novas lendas que surgiram sobre a região ao longo dos anos, como as que tratam da baixa produtividade agropecuária da Amazônia. Em um mundo onde a demanda por alimentos aumenta exponencialmente visando alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, que de acordo com a FAO, serão necessários serem produzidos mais 50% do que é produzido hoje, podemos pensar, sim, em tornar nossa região em um grande produtor de alimentos.

Todavia, para que possamos alcançar o almejado desenvolvimento, precisamos investir em tecnologias, resultante de pesquisas que estejam em consonância com a nossa realidade. Precisamos (re)conhecer, ainda mais, em detalhe, nossos solos, pois é nele que será edificada uma nova revolução: a revolução da produção integrada. A integração dos usos para não desperdiçar novas e velhas áreas é hoje, a pedra angular para o desenvolvimento de um novo modelo de ocupação do espaço amazônico. Sabemos que as áreas atualmente alteradas podem e devem ser melhores trabalhadas com a utilização de tecnologias que visem tanto a Integração da Lavoura a Pe-

“Atualmente, graças ao avanço das pesquisas em diversas áreas do conhecimento, a região (amazônica) deixou de ser desconhecida para sociedade e, sobretudo, para a comunidade científica global” cuária e a Floresta (ILPF), como os Sistemas Agroflorestais (SAFs) que a Embrapa vem desenvolvendo ao longo das últimas décadas e é capaz de dar suporte a sua implementação e monitoramento. Temos um potencial imenso de intensificar a produção sem a necessidade de abertura de novas áreas via desflorestamento, pois a partir da análise dos dados dos projetos de Uniformização dos Zoneamentos da Amazônia Legal (Embrapa/MMA) e do projeto TerraClass (Embrapa/INPE-CRA) foi possível identificar aproximadamente 2,6 milhões de hectares de solos com aptidão para agricultura que estão sub-utilizados, pois encontram-se ocupados JANEIRO DE 2018

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OUTRAS HISTÓRIACABEÇAS

RONALDO ROSA

por pastagens mal manejadas ou em estado de abandono seguindo para regeneração. Nestas mesmas áreas, ao invés de “produzirmos” apenas forragens de baixa qualidade ou capoeiras com baixos serviços ambientais, temos a possibilidade de termos uma elevada produtividade pecuária, com pastos bem manejados, além de podermos produzir alimentos, como mandioca, milho, soja, arroz e feijão-caupi. O sistema ILPF permite, ainda, a produção de madeira, através do plantio de árvores que também proporciona melhores condições de conforto térmico para os animais que estão no campo. Por outro lado, os SAFs possibilitam a integração de espécies perenes da Amazônia como o açaí, cupuaçu, cacau, bacuri, além de essências florestais, como também a integração da Palma de Óleo com culturas de subsistência que proporcionam aumento de renda aos pequenos produtores, conforme demonstrado por resultados de pesquisas. Cumpre assim entender que para tratarmos de um ambiente natural produtivo e sustentável, 46 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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urge assegurarmos a garantia de recursos para uma retaguarda de investimentos em tecnologias que nos permita gerar conhecimentos que possam ser adotados pelos diversos níveis de produtores. Destarte, o conhecimento não pode ser excludente, muito pelo contrário, deve ser inclusivo e indutor de desenvolvimento para a transformação dos atuais sistemas de produção que promovam a transformação da paisagem em favor da sociedade. Finalmente, precisaremos reunir a por em prática, orçamentos e esforços interinstitucionais, em uma grande aliança, que nos assegure a integração de ações de pesquisa & desenvolvimento, transferência de tecnologia e inovação que seja extensiva e inclusiva aos diferentes atores sociais e agentes públicos e privados em parcerias moldadas para essa finalidade. Estamos certos que somente a partir da integração de programas, ações, e pessoas é que poderemos pensar em um novo momento para o desenvolvimento regional. Precisamos assim de uma nova ordem amazônica: integrar para não desperdiçar.

“Temos, no entanto, que enfrentar nossas questões e desmistificar novas lendas que surgiram sobre a região ao longo dos anos, como as que tratam da baixa produtividade agropecuária da Amazônia.”


PENSELIMPO

ARTE, CULTURA E REFLEXÃO

PONTA DE MIRA JOSÉ DE HOLANDA

A CANTORA PARAENSE LUÊ FALA DA SUA TRAJETÓRIA MUSICAL PÁGINA 48

HISTÓRIA

NOVO ANO

Uma das revoluções sociais mais importantes do País, a Cabanagem surgiu no Pará e ganhou força com o povo marajoara. PÁG.52

O professor Inocêncio Gorayeb aborda a inovação e a geração de oportunidades no campo científico e tecnológico do Pará. PÁG.58

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MÚSICA

Na mira de Luê TEXTO FABRÍCIO QUEIROZ FOTOS JOSÉ DE HOLANDA

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A

voz cativante, a simpatia e as influências regionais e clássicas são apenas algumas das marcas conhecidas do trabalho de Luê. Mas é para o desconhecido e o experimental que a cantora acena em “Ponto de Mira”, disco lançado no final de 2017. A cantora, que tem formação musical no Conservatório Carlos Gomes, em Belém, lançou o primeiro disco em 2013, e agora dá novos passos na carreira ao combinar a sonoridade regional com elementos da música eletrônica e letras intimistas que revelam suas reflexões e vivências nos últimos anos. As mudanças evidentes em “Ponto de Mira” mostram o processo de amadurecimento de Luê, que fi xou residência em São Paulo. Na maior metrópole da América do Sul, a artista passou por novas experiências e entrou em contato com diferentes universos culturais. “Deixei a cidade e todo o clima cosmopolita me tocar”, afirma. Mas enquanto flerta e se apropria de novas referências, Luê mantém vivas as raízes regionais - os acordes de rabeca, por exemplo, ainda estão presentes -, mirando nas possibilidades que esse diálogo proporciona à sua música. Na entrevista a seguir, Luê fala sobre como as transformações pessoais e as influências artísticas de outro contexto a levaram a este momento da carreira. O seu primeiro disco, “A fim de Onda”, foi lançado em 2013 e o segundo, “Ponto de Mira”, em 2017. Quais as marcas desses dois trabalhos? Existem continuidades ou rupturas entre eles? Acho que os dois trabalhos marcam fases da minha vida. “A fim de Onda” foi o meu primeiro disco, gravado uma parte em Belém e uma parte em São Paulo. Por ser meu primeiro disco era tudo muito novo pra mim, todo o processo de escolher repertório, as gravações, a relação com São Paulo. Quatro anos depois eu lanço “Ponto de Mira”, depois de muitas vivências tanto em São Paulo quanto em Belém, que são JANEIRO DE 2018

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MÚSICA

minhas bases hoje. Sinto que são como dois retratos dessa pessoa que eu sou, só que por outra ótica, outras experiências nessa vida. Em “A fim de Onda”, sou eu no frescor do momento com meus 23 anos de idade, com um olhar colorido sobre tudo, cheia de expectativas pra desbravar o mundo. Em “Ponto de Mira” sou eu já tendo dado esse passo e continuando minha trajetória, buscando entender meus medos, meus anseios, olhando pra dentro pra então me lançar além. Sou eu tentando acertar e às vezes errando no meio do caminho, sou eu em construção. Musicalmente os trabalhos são diferentes, mas busquei fazer uma transição entre eles. Com todas as diferenças eles se conectam. Você saiu de Bragança para viver em São Paulo. De que forma essa experiência do interior, como a gente fala, para a grande metrópole da América do Sul influenciou o processo de produção do novo disco? Na verdade, eu sempre morei em Belém, tenho uma relação forte com a cidade de Bragança por minha família ser de lá e por isso praticamente cresci em Bragança, entre idas e vindas. Desde que lancei o meu primeiro disco em 2013 eu frequento São Paulo, foi logo depois disso que resolvi me aventurar e morar fora. Acho que é uma cidade muito generosa e exigente, o tempo todo a cidade te oferece várias possibilidades culturais das mais diversas. Pra mim, assistir shows funciona como uma escola, me nutre e é fundamental pra continuidade do meu trabalho. Ir a shows tanto de bandas novas quanto de bandas que já estão na correria há mais tempo. Me emociona e me inspira a continuar trilhando o caminho maravilhoso, porém incerto, da arte. São Paulo me trouxe muitos encontros especiais 50 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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também, algumas pessoas ficam e outras saem de cena, funciona assim. É uma cidade intensa que deixa a gente inquieto, instigado a realizar coisas, isso pode ser negativo por um lado, no meu caso tem sido bom porque me impulsiona a criar. Passei bastante tempo sem lançar um disco novo, me nutrin-

reflexões e é delas que eu falo no “Ponto de Mira”, todas as músicas falam de vivências minhas ou pensamentos que tive e tenho, mesmo as que não são minhas, de alguma forma dialogam com esse contexto. E por estar passando mais tempo em São Paulo, achei interessante gravar tudo por lá. Eu já tava bem a fim de experimentar uma sonoridade que dialogasse com o eletrônico, que ouvia direto quando era adolescente (e ainda ouço) como Massive Attack, Björk, Chemical Brothers, Groove Armada, Portishead, Fatboy Slim, Kraftwerk, misturando com outras referências como Blundetto, Wild Belle, D’Angelo, Erykah Badu, e juntei tudo com minhas referências amazônicas e brasileiras. É uma alquimia louca e está tudo lá. De certa forma estar em São Paulo me trouxe coragem e me abriu a cabeça pra todas as possibilidades que explorei nesse novo trabalho.

“Eu não saberia definir minha música com uma identidade particular, nem tenho essa pretensão. Prefiro que ela seja livre e me guie.”

E como o local ou regional aparece no novo trabalho? Esse diálogo entre uma sonoridade mais popular e paraense com essa proposta mais contemporânea e eletrônica é possível? É superpossível. Na verdade acho que tudo é possível quando a gente se propõe a fazer algo. “Ponto de Mira” é um disco bem diferente de “A fim de Onda”, porque eu também sou uma pessoa diferente do que era há quatro ou cinco anos. As coisas se movimentam, as inspirações também. Eu saio no regional neste disco intencionalmente, nas primeiras faixas vou buscar outras referências, quero me experimentar indo além de fronteiras, além da zona de conforto. E retorno ao regional misturando tudo com esse burburinho eletrônico especialmente nas faixas “Chega Logo” e “7 saia”. O regional é mais uma inspiração entre tantas.

do de sonoridades, pesquisando, sentindo o que me tocava e sobre o que eu precisava falar quando chegasse a hora. Deixei a cidade e todo o clima cosmopolita me tocar. São Paulo me traz muitas

O regional muitas vezes é relacionado ao tradicional. O seu trabalho e de outros


PLENA CONEXÃO Mesmo mesclando diversos estilos, Luê afirma que os trabalhos, “musicalmente”, são diferentes, mas sempre busca fazer uma transição entre eles

PARA OUVIR LUÊ EM “PONTO DE MIRA” QR CODE Use um aplicativo leitor de códigos QR no celular para acessar o conteúdo especial desta reportagem

artistas apostam em uma tradição dinâmica ou atualizada. Como criar em cima de raízes tão fortes? Eu penso que é simples. Arte é algo meio selvagem, não tem como controlar um processo criativo quando ele vem, ele é livre e essa é a mágica. Quando penso em música me vem milhares de possibilidades, minhas referências são antigas mas são novas também, e de todos os cantos do mundo, não tem um padrão, tudo que me toca me nutre de alguma forma. Que bom que tive uma base muito sólida da música regional feita aqui no Pará, isso me é muito valioso e é uma parte de quem eu sou, a outra parte procura ir além, não carrega estandartes.

Eu não saberia defi nir minha música com uma identidade particular, nem tenho essa pretensão. Prefi ro que ela seja livre e me guie. Quando a gente é de um lugar tão forte culturalmente, às vezes, as pessoas “de fora” acabam nos recebendo com altas doses de “folclore”, entende? Acho natural esse olhar. As pessoas sentem necessidade de botar rótulos nas coisas pra que possam compreendê-las melhor. Nossa cultura é linda, das mais ricas e potentes mas no Pará também se faz rap, reggae, pop, e tantas outras vertentes muito bem feitas. A gente gosta de misturar, somos inquietos e diversos mesmo. Vejo cada vez mais artistas chegando junto na cena, dialogando com o tradicional e o contemporâneo de um jeito lindo.

Alguns elementos que nos remetem à sua música são a sua formação erudita e a rabeca. Como isso aparece no disco? Acho que minha formação erudita se mostra muito mais até na minha forma de compor melodias, não busco um conceito a partir do erudito sabe? Vem antes de tudo, antes de um disco. É quase embrionário. No disco eu toco rabeca, que é um instrumento popular e tem sido um desafio delicioso desbravar a atmosfera eletrônica com esse instrumento.

O trabalho com música é muito coletivo e no “Ponto de Mira” isso está claro. Curumin e Saulo Duarte são alguns dos artistas parceiros, além de outros nas composições. Com tanta gente envolvida, como fazer um disco tão pessoal? Acho que um disco é algo muito pessoal mesmo, é um retrato daquele momento artístico daquele artista ou banda. É um registro onde se está por inteiro e tudo parte, antes de mais nada, de uma inquietação pessoal. Fato é que nessa vida ninguém faz nada sozinho, as pessoas chegam pra somar com algo que já tá ali dentro mexendo com a gente e quem chega junto é quem faz sentido, quem dialoga musicalmente como pra mim foi o caso do Curumim e do Saulo e do Zé Nigro, que produziu o disco. Todo mundo contribui deixando um pouco de sua essência.

Há alguns anos, artistas paraenses têm ganhado espaço no cenário nacional, mas essa música do Pará é muito diversa e acaba que todos são colocados dentro um rótulo generalista. Avaliando seu próprio trabalho, você consegue definir uma identidade particular em meio a essa diversidade?

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HISTÓRIA

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ecos da cabanagem no marajó TEXTO ANA PAULA MESQUITA 52 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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Cabanagem foi uma revolução social que eclodiu em 6 de janeiro de 1835, em Belém, no período regencial do Brasil imperial. Alcançou um território amplo e internacional. Foi um movimento aterrorizador que resultou na morte de muitos mestiços, índios e negros pobres, mas que também acabou com uma boa parte da elite da Amazônia. No arquipélago do Marajó, ficaram indícios carregados de simbolismos, que ultrapassam as condições materiais de existência. O pesquisador e antropólogo Agenor Sarraf Pacheco conta que essa existência material atingiu a esfera do sagrado, da vida e da morte, do humano e do não-humano. Em Melgaço, o altar em estilo barroco da igreja de São Miguel de Arcanjo é uma obra dos cabanos. Sarraf diz que os rostos dos anjos foram esculpidos e espelhados por esses homens em fuga, que tinham muitos saberes e habilidades. “Diferente do cenário de guerra, destruição de bens, de espaços de trabalho, de moradias e mortes que causaram um processo de depopulação no Pará Imperial, o tempo cabanal foi de prosperidade em Melgaço. Como consta em documentário redigido pelo professor Gabriel Severiano de Moura, ‘os cabanos deixaram muitas benfeitorias na vida’, reverberado positivamente na longa duração. Ele é filho de pais cearenses que chegaram ao Marajó no século 19”, informa Sarraf. No imaginário da população de Megalço, durante a Cabanagem, o melgacense “era brabo igual ao cabano”. Essa constatação, assim contou o pesquisador, ocorreu em 1996, quando funcionários públicos da prefeitura de Melgaço, revoltados com os atrasos de salários, atearam fogo nos prédios da prefeitura, da Câmara e da Junta militar. Essa atitude, para muitos melgacenses, lembrou a luta do povo cabano. Essa força, a atitude aguerrida dos funcionários públicos e da população de Melgaço é um retrato desse imaginário cabano tão forte na vida dessas pessoas. Há por parte dessa população uma identificação com a luta dos cabanos. Para eles, os cabanos são sempre referendados como um povo de coragem. Os melgacenses têm afeto e admiração por essa herança histórica e simbólica de um povo de luta e coragem.


“Nas teias entre passado e presente, Cristiane Pires, Wagner Silva e Vera Portal mapearam sítios arqueológicos no Marajó das Florestas, nos municípios de Breves, Bagre, Portel, Melgaço e Gurupá. A intenção era de ouvir os moradores com artefatos que estavam sob sua guarda ou que facilmente se encontram em seus quintais e ao redor de suas moradias. As respostas caracterizaram os objetos antigos como ‘coisa de cabano’”, conta o pesquisador. Essa memória, identidade e imaginário dos cabanos vai além de reflexos comportamentais. Está em objetos materiais, que foram guardados e que têm um significado importante no imaginário e cotidiano da vida dos marajoaras. “O conjunto dessas narrativas, simbolicamente, pode traduzir que uma tradição de luta, para lembrar Edward Palmer Thompson, historiador inglês, enlaçou-se nas trajetórias das populações marajoaras, especialmente de matriz afroindígena antes, durante e depois da Cabanagem. Contudo, por ser a principal e mais importante revolta, de forte participação popular das gentes de cor e guerreiros da liberdade, carimbou-se na perene memória social como arma de guerra que pode ser, sempre que necessária, acionada contra forças de colonialidade e dominação dos marajoaras nos incertos tempos em vivência pela nação brasileira”, analisa Agenor Sarraf .

CONJUNTURA

O Marajó, segundo Sarraf, era uma localização estratégica para a coroa portuguesa efetivar a colonização na Amazônia Oriental. Existia ali uma diversidade de terras para a agricultura, criatório e extrativismo, com águas doces e salgadas e rico potencial de pesca, que despertavam na coroa portuguesa uma grande atração. Com a invasão dos portugueses no Marajó, muitas problemáticas sugiram naquele momento. Sarraf aponta que acirrou-se a criação de uma elite de donatários na vasta extensão territorial do Marajó, frente ao encolhimento

das terras indígenas. Isso resultou nas expulsões, violência, dizimações e exploração da mão de obra dessas populações nativas, inicialmente, e depois de populações africanas escravizadas que povoaram a região. Sob o domínio da coroa, destaca o antropólogo, o território marajoara passou a ser reconfigurado em um sistema colonial com base no mercantilismo português, que era fundamentado num modelo de distribuição de terras, e, ainda hoje, é extremamente visível entre campos e florestas do Marajó. Na região de campos, havia relações de poder historicamente estabelecidas entre famílias influentes e religiosos, intercambiando para si a maior extensão de terra possível. Esses resultados inflamaram a vontade do povo a se rebelar contra a coroa portuguesa. O movimento cabano veio a incidir nesse momento de indignação da população marajoara, que já se encontrava insatisfeita. “Neste contexto de desigualdades sociais, indígenas, negros, afroindígenas e brancos pobres em lutas por liberdade e direitos à vida, à cultura, à crença engrossaram e apoiaram a Cabanagem”, conclui o pesquisador.

REGIÃO DO MARAJÓ ERA COBIÇADA PELA COROA De acordo com o pesquisador e antropólogo Agenor Sarraf Pacheco, o arquipélago do Marajó era uma localização estratégica para a coroa portuguesa efetivar a colonização na Amazônia Oriental. Existia ali uma diversidade de terras para a agricultura, criatório e extrativismo, com águas doces e salgadas e rico potencial de pesca, que despertavam na coroa portuguesa uma grande atração.

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ESTANTE AMAZÔNICA

Livros sobre a Amazônia produzidos na região

Paisagens e Plantas de Carajás

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othing can rival the beauty of a plant in Nature. In its natural habitat, immersed in a multiplicity of special conditions required for its survival, each plant provides us with an enriching, special experience. Within this perspective, all the care taken while preparing this book take an even more important meaning. The delicate and pacient work of tens of researchers has been engaged to face this challenge. Engaging the hands and eyes that sum up decades of experience of the enthusiastic idealizers and authors, allied to the leadership of the Instituto Tecnológico Vale, this work has made the National Forest of Carajás, as if by magic, spring out of these pages. We dedicate this book to all lovers of Nature. We believe it is a living example of how Art, Science, Industry and a true passion for Nature, can be successfully combined.

Paisagens e Plantas de Carajás Landscapes and Plants of Carajás

Luiz E. Mello Instituto Tecnológico Vale CEO

400 ANOS DA PARÓQUIA NOSSA SENHORA DA GRAÇA CATEDRAL DE BELÉM “400 Anos da Paróquia Nossa Senhora da Graça - Catedral de Belém”, do escritor Ernesto Boulhosa, faz uma retrospectiva, em ordem cronológica, da história e do processo de construção do templo católico no decorrer de quatro séculos. A obra mostra o processo de evangelização na Amazônia, mostra a evolução da Catedral, desde suas primeiras construções até os dias atuais, além de retratar a importância do local para a história de Belém. Resultado de uma pesquisa de dois anos, a obra reúne ainda diversas fotos da paróquia. As imagens mostram desde detalhes internos da Catedral, até a missão evangelizadora, os símbolos e acessórios para o embelezamento do local. AUTOR: Ernesto Boulhosa PÁGINAS: 144 EDITORA: Cromos 54 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO DO NORDESTE PARAENSE: UMA REFLEXÃO PARA O FUTURO DA AMAZÔNIA A história da colonização do nordeste paraense desde os meados dos anos de 1800, é destaque no livro “História da Colonização do Nordeste Paraense – Uma reflexão para o futuro da Amazônia”. A obra tem autoria do pesquisador Fabrício Rebello, docente da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) em parceria com o pesquisador Alfredo Homma, da Embrapa Amazônia Oriental. Lançado pela Editora Edufpa, a obra traz, em seis capítulos, relatos de como ocorreu o processo de colonização e ocupação dessa região. Os autores também buscam proporcionar uma importante reflexão para que os erros do passado possam inspirar novos modelos de produção mais sustentáveis e tecnificados em toda a Amazônia. AUTORES: Fabrício Rebello e Alfredo Homma PÁGINAS: 153 EDITORA: Editora Edufra

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Landscapes and Plants of Carajás

Luiz E. Mello Instituto Tecnológico Vale Diretor Presidente

PAISAGENS E PLANTAS DE CARAJÁS

DÁLIA ENTRE NARCISOS Primeira obra de Henrique Leão, o livro “Dália Entre Narcisos” apresenta aos leitores um romance medieval narrado a partir de poemas. Com cronologia e personagens situados na antiguidade, o grande diferencial da obra está na organização dos poemas, que podem ser lidos de forma individual, sem ligações entre si, ou como uma história única. No total, a obra apresenta 70 poemas que foram escritos pelo jovem desde os 18 anos. Entre as narrativas feitas por Henrique, um dos destaques é o poema “Xícara Vermelha”, que também foi selecionado para integrar a Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea, volume 2. AUTOR: Henrique Leão PÁGINAS: 74 EDITORA: Chiado Editora Brasil

ada substitui a be na natureza. Em se imersa em uma m condições específicas, a exp direto é muito enriquecedor Sob esta perspectiva, a a de construção deste livro to importantes. Com o delicad de dezenas de pesquisadore esta empreitada. Com a mão de experiência dos idealizad à liderança do Instituto Tecn Nacional de Carajás foi mag para estas páginas. Para os amantes da natu este livro. Ele é o exemplo vi indústria e paixão pela natu combinados, com sucesso.

Para mostrar mais detalhes da Floresta Nacional do Carajás acaba de ser lançado o livro “Paisagens e Plantas de Carajás”. A obra foi organizada pela pesquisadora botânica Daniela Zappi juntamente com os pesquisadores Pedro Walfir Martins Sousa, Clovis Maurity, Ana Maria Giulietti, Vera Fonseca, Guilherme Oliveira, Rodolfo Jaffe, do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e Pedro Viana e Nara Mota, que integram o Museu Paraense Emilio Goeldi. Com tradução para o inglês, a obra mostra a formação geológica do relevo de Carajás, a formação das paisagens atuais e se dedica ainda a detalhar as plantas e animais que existem no bioma. A obra está disponível para download no site do ITV (www.itv.org). AUTORES: Daniela Zappi, Pedro Sousa, Clovis Maurity, Ana Maria Giulietti, Vera Fonseca, Guilherme Oliveira, Rodolfo Jaffe, Pedro Viana e Nara Mota PÁGINAS: 248


FAÇA VOCÊ MESMO

Máscara de carnaval reciclada

EDUCAÇÃO E INSTRUÇÃO PÚBLICA NO PARÁ IMPERIAL E REPUBLICANO

Autor: Sônia Araújo, Maria do Socorro Avelino e Laura Alves (org.) Páginas: 307 Editora: Eduepa Composto por onze capítulos, o livro destaca estudos de pesquisadores de diversas Universidades da Amazônia Legal. Os textos organizados da obra consolidam estudos de sujeitos, instituições e de práticas ao longo do período do Império a República brasileira. Os artigos dão ao leitor a dimensão Carnaval de sem máscaras não dá. E nem dá para ficar como a educação pública alcançava poucos comprando todo ano adereços novos. Por isso, instrutoe era invisível para as políticas da Curro Velho ensinam como reaproveires públicas da Fundação época. A educação de mulheres e de órfãos,que se tem em casa, para fazer máscaras tar materiais, bem como as reformas educacionais pela qual o Estado passou também são alvo das • Pedaço de papelão pesquisas contidas no livro, organizado pe• Revistas usadas las professoras Sônia Araújo, Maria do So• Furador de papel corro Avelino e Laura Alves.

Do que vamos precisar?

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recicladas de tamanhos variados. Vai dar para usar como acessório no rosto e até na decoração de ambientes. A atividade ainda pode ser um passatempo com crianças. Então mãos à obra antes do baile. Ou do bloco.

Tesoura Estilete Cola branca Pedaço de elástico Lápis preto Pincel Peça de vidro (opcional) Glitter, paetês, penas, fitilhos, botões, flores artificiais

CRISTIANO AMORIM,, COORDENADOR DE ARTES PLÁSTICAS E ÁUDIO VISUAL/ OFICINAS CURRO VELHO | LUIZA NEVES, TÉCNICA EM GESTÃO CULTURAL/FCP DIOGO VIANNA, FOTOGRAFIAS ASCOM/FCP | GILVAN TAVARES, INSTRUTOR OFICINAS CURRO VELHO | NICOLE HOLANDA, MODELO JANEIRO DE 2018 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA • 55


FAÇA VOCÊ MESMO

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Coloque uma peça de vidro sobre a mesa para servir de base. Risque uma máscara de carnaval no papelão e recorte-a com estilete (ou tesoura se preferir).

Com o pincel, cole os pedaços de papel na máscara recortada sobrepondo-os, de forma a não deixar espaço entre eles (repita este processo no verso da máscara).

Use glitter, paetês, fitas, botões, penas e o que encontrar em casa para decorar a máscara (somente a parte da frente)

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Destaque algumas folhas de revista e amasse-as.

Passe uma camada de cola sobre toda a superfície da máscara: frente e verso, a fim de impermeabilizar a peça.

Agora, basta amarrar um fio elástico nos furos laterais para prender a máscara à cabeça.

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Corte as folhas de revista com a tesoura (ou rasgue os pedaços, se preferir)

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Com o furador, faça um furo em cada lateral da máscara

Está pronta uma peça super colorida para os brincantes se divertirem no baile de carnaval.

Para saber mais Quem quiser conhecer mais sobre técnicas artísticas pode se inscrever nas oficinas Curro Velho, da Fundação Cultural do Pará. Crianças a partir de 12 anos podem participar. A Fundação Curro Velho fica localizada na rua Professor Nelson Ribeiro, nº 287, esquina com a travessa Djalma Dutra, bairro do Telégrafo. Telefones: (91) 3184-9100 e 3184-9109. 56 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

JANEIRO DE 2018

RECORTE AQUI

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ATENÇÃO: Essa atividade pode ser feita por crianças, desde que acompanhadas por um adulto responsável


LEONARDO NUNES

BOA HISTÓRIA

Rosa

Esta história não envolve grandes rios, mata fechada,

canoa ou pequenas casas de madeira suspensas em alguma vila perdida e úmida com uma paz idílica e ruído de pássaros. Nem um dia ameno em um bosque varado por raios solares que tocam o rosto de uma criança. Trata-se do efeito dos anos sobre o espírito de Rosa, que não conseguiu se desvincular do velho sobrado e com ele desapareceu. Belém respirava ainda as últimas verdes notas da borracha quando Rosa soube, por acaso, que a casa seria vendida. Os negócios despencaram da noite para o dia ou, quiçá, o velho Germano percebeu tarde o tombo. A família havia começado com um barco para transportar as bolas de látex cozidas. Em 20 anos, a frota se multiplicara. Não havia grandes posses, mas puderam morar na Campina, num quase palacete. Rosa nasceu no tempo das vacas gordas e nunca soube dos sacrifícios anteriores do pai e da mãe, oriundos da Caviana. Desde que descobriu sobre as perdas, não conseguiu mais pregar os olhos. Muito antes da venda, já

sofria por estar longe de seu paraíso com tábuas de correr, da caminha estreita de donzela, dos livros de franceses que lia escondida, do piano que odiava, do cheiro dos móveis de jacarandá, das samambaias na varanda, do som das panelas fervilhando na cozinha comandada pela velha Inês. Os dias sem dormir deixaram, primeiro, a realidade diluída com paredes moles e em movimento os personagens retratados nas caríssimas fotos espalhadas pelos cômodos. Rosa lidava em silêncio com o pavor que virou insônia e se escondia no porão para brincar sem nenhuma alegria com as velhas bonecas chinesas da infância, que o pai comprara de um contrabandista descido de um LLoyd nas Docas. Foi no porão, rodeadas das amigas de brinquedo, que a encontraram com os olhos abertos para sempre, imersa de uma saudade antecipada e incurável. Como estava previsto, o sobrado foi vendido. A casa, por falta de serventia real ao novo dono, passou quase 20 anos fechada, o que para Rosa foi excelente, pois tinha liber-

dade para gozar da melancolia em todo o seu esplendor. Mais adiante, um armazém tomou conta do imóvel e ela não lidou bem com o ardume da pimenta-do-reino nem com o cheiro úmido das castanhas. Voltava unicamente por não saber mais aonde ir na cidade que os anos transformaram em outra. Rosa não envelhecia mais, mas absorvia as degradações da casa em seu corpo translúcido. Quando irrompeu o novo século, o casario estava prestes a cair sem nenhum telhado. Demorou ainda 17 anos até o desabamento. Nos últimos anos, ela acompanhava a turba de homens e mulheres esquálidos e famélicos fumando cachimbos no escuro em meio aos monturos de dejetos que ocupavam todos dos compartimentos. No dia dos estalos fatais, Rosa testemunhou a correria dos invasores vivos. E deu graças de, enfim, encontrar o descanso junto com a casa que fora seu berço, agora no chão. Era noite de chuva na Campina. De manhã, a caçamba recolheu os escombros, mas Rosa não estava mais lá. JANEIRO DE 2018

Anderson Araújo

é jornalista e escritor

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA • 57


NOVOS CAMINHOS

Inovação e geração de oportunidades no Pará

INOCÊNCIO GORAYEB é mestre e doutor em Entomologia, pós-doutor em sistemática zoológica e pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi

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É importante destacar a iniciativa do governo do Estado do Pará, através da Fapespa – Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará - e de seu gerente Eduardo Costa e equipe, de promover o SIGO – Seminário de Inovação e Geração de Oportunidades, no dia 24 de janeiro de 2018. Neste período de dificuldades decorrentes da crise no Brasil, o Estado do Pará mantém o investimento e o fomento em Ciência e Tecnologia, apoiando projetos e bolsas, através de editais para diversas microrregiões. Merece o destaque porque a maioria dos Estados da Amazônia e vários de outras regiões não mantiveram estes investimentos. Além disso, fez o esforço de divulgação executando o SIGO, que apresentou os resultados obtidos nos projetos aprovados em anos anteriores e seus potenciais de desenvolvimento tecnológico, buscando oportunidades de negócios entre estes resultados e os participantes convidados de setores empresariais, para empreendedorismo e novos produtos com foco na sustentabilidade econômica, social e ambiental. A Fapespa acredita e esforça-se para que este link entre a academia e o empresariado promovam mudanças estruturais e de desenvolvimento regional ou nacional. Foram convidados para o SIGO, Universidades, associações locais e nacionais, órgãos dos governos estadual, municipais e federal, bancos, Câmara de Comércio Internacional, Fundos de Investimento/Infraestrutura, cadeia e fornecedores locais. Os seguintes projetos foram apresentados, com destaque aos resultados com poJANEIRO DE 2018

tencial de negócio, turismo, desenvolvimento, políticas públicas e conservação: - Estudo entomológico em campina do baixo Tocantins, Cametá, Pará, como base para valoração do ecossistema. Área de conhecimento Ciências Biológica. Inocêncio de Sousa Gorayeb, Museu Goeldi; - Governança local, gestão territorial e sustentabilidade do manejo florestal comunitário em Projetos de Desenvolvimento Sustentável em Anapu. Área de conhecimento Ciências Humanas/Antropologia. Roberto Porro; - Governança pública e desenvolvimento territorial na Amazônia paraense. Área de conhecimento Ciências Sociais Aplicadas/Administração - Administração Pública. Mário Vasconcellos Sobrinho; - Desenvolvimento de um Sistema de Produção Rural de Etanol a partir da Mandiocaba. Área de conhecimento Ciências Agrárias/Engenharia Agrícola Engenharia de Processamento de Produtos Agrícolas. Luiz Ferreira França. Um debate importante sucedeu as apresentações, quando os participantes fizeram perguntas e comentários aos palestrantes e levantaram elogios e críticas aos processos de fomento e desenvolvimento do Estado. Entretanto todos foram unânimes em elogiar a iniciativa da Fundação no apoio aos projetos, bolsas e pela execução do seminário SIGO. Certamente, com a gradativa melhoria da situação econômica do país e do Pará, as ações da Fapespa serão maiores e mais consequentes, pelo financiamento e outras ações importantes para o fomento da Ciência & Tecnologia do Estado.

“Neste período de dificuldades decorrentes da crise no Brasil, o Estado do Pará mantém o investimento e o fomento em Ciência e Tecnologia, apoiando projetos e bolsas, através de editais para diversas microrregiões”


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Revista Amazônia Viva ed. 76 / janeiro de 2017  

Revista encartada mensalmente em O Liberal, a Amazônia Viva aborda assuntos sobre sustentabilidade, meio ambiente e boas práticas.

Revista Amazônia Viva ed. 76 / janeiro de 2017  

Revista encartada mensalmente em O Liberal, a Amazônia Viva aborda assuntos sobre sustentabilidade, meio ambiente e boas práticas.