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PESCADORES DE ESPERANÇA

ESCOLA DE PESCA EM OUTEIRO FORMA JOVENS PROFISSIONAIS NO OFÍCIO

REVISTA ENCARTADA NO JORNAL O LIBERAL. NÃO PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE.

ABRIL 2O15 | EDIÇÃO NO 44 ANO 4 | ISSN 2237-2962

JALOO, A MÚSICA DE CARA NOVA

ARTISTA DE CASTANHAL IMPRESSIONA COM SUAS COMPOSIÇÕES ELETRÔNICAS

A TRADIÇÃO POR TRÁS DA

FARINHA NOS 220 KM ENTRE BRAGANÇA E BELÉM, TURISTAS PERCORREM A ROTA DA MANDIOCA EM UMA DELICIOSA VIAGEM GASTRONÔMICA, CONHECENDO A HISTÓRIA DAS COMUNIDADES PELO CAMINHO

REALIZAÇÃO

PATROCÍNIO


HELY PAMPLONA

DA EDITORIA

PUBLICAÇÃO MENSAL DELTA PUBLICIDADE - RM GRAPH EDITORA ABRIL 2015 / EDIÇÃO Nº 44 ANO 4 ISSN 2237-2962 Presidente LUCIDÉA BATISTA MAIORANA Presidente Executivo ROMULO MAIORANA JR. Diretor Jurídico RONALDO MAIORANA Diretora Administrativa ROSÂNGELA MAIORANA KZAN Diretora Comercial ROSEMARY MAIORANA Diretor Industrial JOÃO POJUCAM DE MORAES FILHO Diretor Corporativo de Jornalismo WALMIR BOTELHO D’OLIVEIRA

ALIMENTO PARA TODOS

Com nomes e usos diversificado na culinária brasileira, a mandioca é matériaprima para vários tipos de alimentos, como a tradicional farinha d’água

SEJA MANDIOCA OU MACAXEIRA, ÉS MAJESTADE

FELIPE JORGE DE MELO Editor-chefe • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

Em “A História da Alimentação

nica sempre fez parte da culinária

no Brasil”, de 1968, o historiador e

indígena, principalmente em for-

antropólogo potiguar Luís da Câ-

ma de farinha e beijus, e passou a

mara Cascudo chamou a mandioca

compor a dieta dos primeiros ex-

de “A Rainha do Brasil”. O pesquisa-

ploradores e viajantes estrangeiros

dor observou que ela está presente

da região no século XVI, que mis-

na gastronomia de todo o País, da

turavam a mandioca à carne seca

mesa do pobre ao banquete do rico,

para seguir viagem nas expedições

sob os mais variados usos e nomes.

rio abaixo e floresta adentro.

A lista para as definições da raiz é

Hoje, iguaria quase onipresente

tão extensa que não caberia neste

na gastronomia paraense, o tubér-

editorial, mas só para citar alguns,

culo é o protagonista de um roteiro

aí vão: aipim, candinga, castelinha,

turístico que tem atraído turistas de

macamba, maniveira, moogo, mu-

todo o Brasil para os 220 km que

camba, pão-da-américa, pão-de-

compreendem a cidade de Bragan-

pobre, pau-de-farinha, pau-fari-

ça, no nordeste do Estado, até Be-

nha, uaipi e xagala. Na maior parte

lém. É na “Rota da Mandioca” que

da Amazônia brasileira, portanto lá

os novos viajantes da região conhe-

na minha casa também, é mais co-

cem todo o processo de produção do

nhecida como macaxeira.

alimento e descobrem porque ele

O tubérculo de origem amazôABRIL DE 2015

faz jus ao título de majestade.

Diretor de Novos Negócios RIBAMAR GOMES Diretor de Marketing GUARANY JÚNIOR Diretores JOSÉ EDSON SALAME JOSÉ LUIZ SÁ PEREIRA Conselho editorial RONALDO MAIORANA JOÃO POJUCAM DE MORAES FILHO WALMIR BOTELHO D’OLIVEIRA GUARANY JÚNIOR LÁZARO MORAES REDAÇÃO Jornalista responsável e editor-chefe FELIPE JORGE DE MELO (SRTE-PA 1769) Coordenação geral LUCIANA SARMANHO Editor de arte FILIPE ALVES SANCHES (SRTE-PA 2196) Pesquisador e consultor técnico INOCÊNCIO GORAYEB Colaboraram para esta edição O Liberal, Vale, Agência Pará de Notícias, Agência Brasil, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade Federal do Pará, Fundação Cultural do Pará - Oficinas do Curro Velho (acervo); Adelaide Teixeira, Camila Machado, Fabrício Queiroz, Victor Furtado, Anderson Araújo, Moisés Sarraf, Abílio Dantas, Brenda Pantoja, Bruno Rocha, Sávio Oliveira, Vito Gemaque (reportagem); Moisés Sarraf, Fabrício Queiroz (produção); Hely Pamplona, Carlos Borges, Tarso Sarraf, Roberta Brandão (fotos); Inocêncio Gorayeb (artigo) André Abreu, Leonardo Nunes, Jocelyn Alencar, Sávio Oliveira, Márcio Euclides (ilustrações); Alexsandro Santos (tratamento de imagem). FOTO DA CAPA Vendedor de farinha, por Hely Pamplona AMAZÔNIA VIVA é editada por Delta Publicidade/ RM Graph Ltda. CNPJ (MF) 03.547.690/0001-91. Nire: 15.2.007.1152-3 Inscrição estadual: 158.028-9. Avenida Romulo Maiorana, 2473, Marco - Belém - Pará. amazoniaviva@orm.com.br PRODUÇÃO

REALIZAÇÃO

PATROCÍNIO

REVISTA IMPRESSA COM O PAPEL CERTIFICADO PELO FSC - FOREST STEWARDSHIP COUNCIL


ABRIL 2O15

NESTA EDIÇÃO

EDIÇÃO Nº 44 / ANO 4

TARSO SARRAF

MANDIOCA NA VIDA DA GENTE

38

Das variações de farinhas à tapioca, beiju, tucupi e maniçoba, o tubérculo genuinamente amazônico é tema de rota gastronômica no Pará ASSUNTO DO MÊS

DIVULGAÇÃO

16 36

DIVULGAÇÃO

ROBERTA BRANDÃO

ROBERTA BRANDÃO

54

58

DA TERRA

QUADRINHOS

A pesquisadora Maria de

Um banco da praça da

SOFTWARES

Lourdes Ruivo, da Coor-

ARTE & ARTISTA

República vira teste-

Coordenador do Labora-

denação de Ciências da

O compositor Jaloo cole-

munha onipresente da

tório de Sensores e Siste-

Terra e Ecologia do Museu

ciona elogios e admira-

História de Belém na

mas da UFPA, Aldebaro

Goeldi, comenta a institui-

dores entre as revistas e

HQ “Pretérito Mais Que

Klautau Jr. cria programas

ção do Ano Internacional

os críticos especializados

Perfeito”, em uma série

para melhorar a qualidade

do Solo pela ONU e FAO.

em música. Seu talento

criada pelo desenhista

de vida de pessoas com

A Amazônia tem papel

começou a ser conhecido

Otoniel Oliveira e histo-

deficiência.

importante na discussão.

pela internet.

riador Petrônio Medeiros.

QUEM É?

OUTRAS CABEÇAS

DEDO DE PROSA

ARTE PESQUISADA

4 6 7 11 13 15 17 17 18 19 19 20 20 21 21 22 24 46 49 49 50 60 62 63 65 66

E MAIS DA EDITORIA

AS MAIS CURTIDAS PRIMEIRO FOCO TRÊS QUESTÕES AMAZÔNIA CONNECTION PERGUNTA-SE EU DISSE APPLICATIVOS COMO FUNCIONA FATO REGISTRADO DEU N’O LIBERAL CURIOSIDADES DA BIODIVERSIDADE ELES SE ACHAM DESENHOS NATURALISTAS CONCEITOS AMAZÔNICOS EM NÚMEROS OLHARES NATIVOS COMPORTAMENTO SUSTENTÁVEL BONS EXEMPLOS MUDANÇA DE ATITUDE VIDA EM COMUNIDADE MEMÓRIAS BIOGRÁFICAS AGENDA FAÇA VOCÊ MESMO BOA HISTÓRIA NOVOS CAMINHOS

ABRIL DE 2015

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA • 5


ASMAISCURTIDAS DESTAQUES DAS EDIÇÕES ANTERIORES

POMAR

HELY PAMPLONA

Iniciativas como a do Sítio Radini, em Abaetetuba, nos mostram como cada um, com pouco ou com muito, pode fazer alguma coisa em favor do meio ambiente. Eu também cultivo um pomar, nada comparado ao do sr. Ray Cardoso, no modesto sítio da família em Vigia (“Um pomar em Abaeté”, Comportamento Sustentável, março de 2015, edição nº 43). Ricardo Alves Belém-Pará COMO É VERDE ESSE POMAR DE ABAETETUBA

FUTEBOL

Com reportagem de Fabrício Queiroz e fotos de Hely Pamplona, o Sítio Radini, de propriedade de Ray Cardoso, ganhou elogios e comentários em nossa página no Facebook na edição passada. O projeto do cabeleireiro de Abaetetuba é realmente inspirador. FERNANDO SETTE

Como sempre o esporte, principalmente o futebol, está tirando crianças e jovens da situação de risco social e dando esperanças de dias melhores às suas famílias. Parabéns aos gestores do projeto “Bom de Escola, Bom de Bola”, tema desta revista na edição de março (“Para ser bom de bola”, Vida em Comunidade, edição nº 43) Eliakim Araújo Ananindeua-Pará

FÉLIX

AS ÁGUAS REVOLTAS DO RIO GUAMÁ

A foto de Fernando Sette já diz tudo: os rios da Amazônia têm a força que representa a natureza colossal da região. Em nosso Instagram, a foto da seção Olhares Nativos da edição passada bombou em curtidas dos nossos seguidores.

TARSO SARRAF

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da Amazônia Viva envie comentários, dúvidas, críticas e sugestões para o email amazoniaviva@orm.com.br ou escreva

instagram.com/amazoniavivarevista

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

ABRIL DE 2015

Sempre quando posso vou à “Quintarrada” do genial Félix Robatto e sei o quanto ele é um cara importante para não deixar nossa cultura musical morrer sufocada pelos ritmos que chegam de fora, como o axé e o funk carioca. Dhion Braga Belém-Pará

Para se corresponder com a redação

fb.com/amazoniavivarevista

twitter.com/amazviva

Eu não conhecia o trabalho do músico Félix Robatto até assistir a uma entrevista dele no Canal Brasil sobre a música paraense. Agora, ao ler a reportagem na edição nº 43, de março deste ano (“Ao som do nosso clima”, Dedo de Prosa), sobre o trabalho do músico comecei a admirar ainda mais esse artista. Magda Nazaré Belém-Pará

para o endereço: Avenida Romulo USE UM LEITOR DE QR CODE PARA ACESSAR A EDIÇÃO DIGITAL DE MARÇO

Maiorana, 2473, Marco, Belém - Pará, CEP 66 093-000 ou FAX: 3216-1143.


O QUE É NOTÍCIA PARA A AMAZÔNIA CARLOS BORGES

PRIMEIROFOCO

TEMPLO RESTAURADO

APÓS DOIS ANOS EM REFORMA COM PATROCÍNIO DA VALE, A IGREJA DO CARMO, NO BAIRRO DA CIDADE VELHA, É ENTREGUE COM TODA SUA BELEZA ARTÍSTICA E HISTÓRICA À POPULAÇÃO

PÁGINA 8

INTERNET Projeto do Google, Amazon Street View permite que internauta visualize as reservas de Juma e Madeira em 360º pelo computador. PÁG.9

PARCERIA ITV e Museu Goeldi integram plataforma intergovernamental para discutir temas como polinização e alimentação. PÁG.12

NEGÓCIO Para aproveitar restos de bananas desperdiçadas na colheita, agricultores criam salgadinhos fritos a base das frutas. PÁG.15

ABRIL DE 2015

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA •


PRIMEIRO FOCO

PATRIMÔNIO DE FÉ E CULTURA EM BELÉM

“A

ABRIL DE 2015

chamado “Visitação às Obras do Carmo”. Durante quatro meses, cerca de mil pessoas, moradores de Belém e turistas, conheceram a história da igreja vendo de perto o processo de restauração de uma construção histórica. Para as visitas, foram selecionados monitores especiais, como universitários dos cursos de Arquitetura e Engenharia Civil e jovens moradores da Cidade Velha, que foram capacitados por meio de aulas práticas e teóricas. Durante o evento, o diretor de Energia e Institucional Pará, da Vale, João Coral, entregou um certificado simbólico para jovens que participaram da atividade educativa na Igreja do Carmo. “É um projeto muito aderente com o valor da Vale. Nossa intenção é deixar um legado positivo e importante para o povo paraense e para o Brasil. Nós buscamos priorizar manifestações locais e regionais. Somos uma empresa líder em exportação de minério de ferro e temos a obrigação de transformar recursos naturais em progresso e desenvolvimento sustentável”, afirmou.

PERTO DA COMUNIDADE

O diretor de Energia e Institucional Pará, da Vale, João Coral, entregou certificado aos jovens que participaram do projeto “Visitação às Obras do Carmo”

CARLOS BORGES

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

o projeto básico de restauro e orientou tecnicamente o projeto executivo e a equipe responsável pela execução. “Foi um trabalho de dois anos, tempo considerado curto por causa do tamanho e da dimensão do projeto, além da imensa qualidade no cuidado e delicadeza das intervenções. A Igreja teve uma restauração completa, desde a cobertura até os elementos artísticos do interior”, disse Jurema Machado, presidente do Iphan que veio a Belém para a entrega do templo. Iniciada em 2013, a intervenção teve caráter conservativo e restaurativo, preservando elementos artísticos do piso, forro e púlpito. A reforma também recuperou integralmente a cobertura do prédio, o sistema de calhas e de condutores. A fachada de pedra recebeu tratamento para remover os sujos e reintegração. O restauro foi executado a portas abertas. Além de patrocinar toda a restauração, a Vale investiu em ações de comunicação e num projeto educativo que aproximou a comunidade da reforma do templo,

HERMES JUNIOR/ ARQUIVO VALE

Igreja do Carmo é um patrimônio preciosíssimo da Arquidiocese de Belém. Nós hoje estamos aqui diante de uma obra magnífica e de um espetáculo de Arte Sacra. Essa igreja não se transforma em museu, ela é entregue ao culto e ao louvor de Deus. É a finalidade dessa edificação e a Ele devemos toda honra e toda glória. A fé faz a cultura, forma pessoas e educa para a arte”, proferiu, em tom solene, dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo metropolitano de Belém, durante a cerimônia oficial de entrega da Igreja do Carmo, da Capela da Ordem da Terceira e da Capela da Adoração, no bairro da Cidade Velha. O projeto de restauração e conservação teve o patrocínio exclusivo da Vale, via Lei Rouanet, além de recursos próprios. A obra de reforma, entregue no dia 23 de março, foi resultado da assinatura de um termo de compromisso entre Arquidiocese de Belém e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Pará (Iphan), que desenvolveu

CARLOS BORGES

PATRIMÔNIO DE VALOR

A presidente do Iphan, Jurema Machado, veio a Belém para a abertura do templo e elogiou a execução da obra, com destaque para o tempo de conclusão da restauração


GOOGLE / DIVULGAÇÃO

IGUALDADE

AFRODESCENDENTES

A Organização das Nações Unidas (ONU) e o governo brasileiro já iniciaram o planejamento da Década Internacional de Afrodescendentes 2015-2024. A iniciativa busca promover o reconhecimento, a justiça e o desenvolvimento da população afrodescendente no mundo. O coordenador residente das Nações Unidas no Brasil, Jorge Chediek, ressaltou a importância do Brasil como segundo maior país do mundo em população negra, atrás apenas da Nigéria. Ele destacou que o IDH brasileiro melhorou 50% entre 1991 e 2013. Proporcionalmen-

AMAZÔNIA VISTA EM 360º PELA INTERNET O Google lançou a segunda etapa do Amazon Street View, projeto que reúne fotos em 360º de duas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS), no Amazonas. Nas reservas de Juma e Madeira foram visitadas 18 comunidades, em mais de 500 km de rios, lagos e córregos e 20 km de trilhas em meio à mata. O trabalho contou com a parceria da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e a intenção é mostrar a realidade dos habitantes da região. Para captar as imagens, o Google utilizou uma nova tecnologia chamada Trekker. O equipamento permitiu maior mobilidade e autonomia e foram registradas trilhas densas,

além da descida em tirolesa de uma castanheira com 60 metros, remontando uma descida da copa das árvores até o solo. “Cada reserva trabalha com uma dinâmica diferente, tanto de produção como do estilo de vida e como as comunidades estão organizadas. A Amazônia, acima de tudo, é feita por pessoas que, às vezes, não estão visíveis por quem vê a floresta só de cima”, afirmou o superintendente técnico-científico da FAS, Eduardo Taveira. Os próprios moradores contribuíram, indicando os locais que poderiam ser fotografados. O conteúdo já está disponível na internet pelo endereço do Google.

te, “o maior índice desse progresso afetou MODERNIDADE

A equipe do Google utilizou uma nova tecnologia chamada Trekker para captar as imagens no interior do Amazonas

positivamente a população negra”, mas persistem desigualdades raciais, étnicas e de gênero. Dentre os objetivos apresentados pela ONU para cooperar com o planejamento, estão aprovar e fortalecer marcos jurídicos para a eliminação de todas as formas de discriminação racial.

CARBONO

REDUÇÃO

Nos últimos 15 anos, as emissões anuais de carbono das florestas do mundo diminuíram em mais de 25%. Os dados são da Organização das Nações Unidas

18

COMUNIDADES DAS RESERVAS AMBIENTAIS

de Juma e Madeira no Amazonas, foram visitadas na segunda etapa do Amazon Street View, do Google

para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). As emissões geradas pelo desmatamento caíram de 3,9 para 2,9 gigatoneladas de dióxido de carbono entre 2001 e 2015. Neste período, o Brasil representou, sozinho, mais de 50% da redução total. O diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, reforçou que o desmatamento e a

ANDRÉ ABREU

PEIXE INTERGALÁCTICO

degradação florestal aumentam a concentração dos gases de efeito estufa, mas o

Peckoltia greedoi é o nome da nova espécie de peixe catalogada por cien-

crescimento de florestas e árvores absorve

tistas do Museu de História Natural da Universidade de Auburn, Estados

o dióxido de carbono, que são as principais

Unidos. Ele foi batizado por causa da semelhança com o personagem Gre-

emissões de gases de efeito estufa. Chile,

edo, da saga cinematográfica Star Wars, segundo o pesquisador Jonathan

China, Turquia e Uruguai também obtive-

Armbruster, que resolveu fazer a homenagem. O peixe foi encontrado no

ram grandes reduções no desmatamento.

rio Gurupi, entre o Pará e o Maranhão.

FOTOS: AGÊNCIA BRASIL E GIUSEPPE CAROTENUTO / AFP / ARQUIVO O LIBERAL ABRIL DE 2015

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA • 9


PRIMEIRO FOCO

KARATÊ TRANSFORMA A VIDA DE CRIANÇAS EM RISCO SOCIAL

MARABÁ

ODONTOLOGIA

Em Marabá, Unidades Básicas de Saúde da Família (UBS) ganharão gabinetes odontológicos, farmácias e mais consultórios para atendimento. Com a ampliação, os pacientes poderão receber vacinação, atendimento dentário, realizar consultas, curativos, medicação básica e realizar a

A Liga Paraense de Karatê Interestilos (Lipaki), que envolve cerca de 800 alunos em um projeto social com atividades esportivas no município de Marabá, ampliou seu atendimento para mais 150 crianças e adolescentes. A iniciativa, que neste ano recebeu o apoio da Vale, busca transformar a vida de meninos e meninas, afastando-os da rua, do risco das

entrega de exames laboratoriais, além de serem encaminhados para especialidades médicas. As novas unidades serão adequadas para implantar as equipes Saúde da Família. Ao todo, onze equipes do programa passarão a atuar no município. Na UBS do bairro Laranjeiras, será implantado o laboratório e nas demais unidades será assegurada a coleta de exames. As obras são resultado de convênio da Vale com a prefeitura municipal e o objetivo é atender até 80% dos problemas de saúde da população, descentralizar o atendimento e desafogar os hospitais.

drogas, da marginalidade e da exploração sexual, segundo Josivan Lima, presidente da Lipaki. O projeto faz parte de quatro outros convênios firmados entre a Vale e as associações comunitárias do município: Associação de Moradores da Nova Marabá, Associação da Feira Comunitária de São Fe- CRIANÇAS E ADOLESCENTES PARTICIPAM lix e o Centro Comunitário de atividades esportivas no município de Marabá União e Nova Vida.

150

DIVULGAÇÃO

HIV

SOJA

A proteína cianovirina, cultivada em soja transgênica, é presente em algas e tem a capacidade de impedir a multiplicação do vírus HIV no corpo humano. Recentemente, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) conseguiram extrair e purificar a substância, comprovando que as sementes de soja são a biofábrica mais eficiente e uma opção viável para a produção em larga escala. O objetivo é produzir um gel que sirva para destruir o vírus e que as mulheres apliquem na vagina antes do NOVA VIDA Liga Paraense de Karatê de Marabá ganha apoio da Vale no acompanhamento social de crianças e adolescentes

relacionamento sexual. DIVULGAÇÃO

VALE E SEBRAE

FORNECEDORES

Representantes de micro e pequenas empresas de Belém e Ananindeua conheceram como podem tornar seus empreendimentos mais competitivos no mercado. A iniciativa é fruto de um convênio firmado nacionalmente entre a Vale e o Sebrae, com o objetivo de promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável de fornecedores da cadeia de valor da mineradora. Este mês, os empresários de Marabá, Parauapebas, Ourilândia do Norte, Tucumã e

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

ABRIL DE 2015

Canaã dos Carajás participam do evento de apresentação do programa de capacitação. A gerente de Conteúdo Local de Suprimentos da Vale, Érika Rosa, ressaltou que, no ano passado, cerca de 50% das compras da empresa no Pará foram feitas localmente. A gerente adjunta da Unidade de Indústria (UIND) do Sebrae, Maria de Jesus Afonso, disse que a instituição sempre estimula o empresariado a tornar seus negócios mais competitivos e abertos a novos mercados.


CÉSAR FAVACHO / DIVULGAÇÃO

TRÊSQUESTÕES

UM OLHAR JURÍDICO SOBRE OS RECURSOS HÍDRICOS DA REGIÃO O livro “Águas na Amazônia: Gestão de Recursos Hídricos nos Países da Bacia Amazônica”, do professor Octavio Cascaes Dourado Junior, aborda um tema pouco explorado no campo científico-jurídico relacionado à água. Ele fala sobre o processo de elabora-

GRUPO RESGATA AVES DE RAPINA NA AMAZÔNIA Somente no ano passado, o Grupo Harpia, de Belém, reabilitou 15 aves e usou a técnica de falcoaria para reintegrá-los à natureza. O trabalho mais recente foi com o gavião-pernilongo, no começo deste ano, quando a ave foi entregue ainda filhote ao Museu Paraense Emilio Goeldi e recebeu treinos diários. De acordo com o Grupo, este foi o primeiro registro, no Brasil, de um exemplar da espécie que passou por esse tipo de treinamento. Ele é um gavião nativo da Amazônia, conhecido por rapinar ocos de árvores e ninhos para se alimentar. O resultado foi positivo, pois o

método evitou que a ave criasse vínculos com humanos e a estimulou a procurar seu próprio alimento. Desenvolvendo a falcoaria há cerca de seis anos e com o intuito de estabelecer ferramentas para a conservação das aves de rapina do Estado, o Grupo é composto por profissionais das áreas de biologia, medicina veterinária e ciências ambientais. A técnica também é aplicada em atividades como afugentamento de aves em aeroportos e controle de pragas urbanas. Um minicurso sobre o tema está programado para ser realizado neste semestre, com vagas abertas ao público em geral.

VOA, VOA, PASSARINHO

Graças aos cuidados dos técnicos em falcoaria, o gavião-pernilongo pôde voltar ao seu habita natural

COMO FOI ABORDADO O TEMA PARA SEU NOVO LIVRO? A obra se inicia com a apresentação dos princípios ambientais mais relevantes ao caso, como o do desenvolvimento sustentável, que identifica os instrumentos de gestão e a organização institucional dos países e conclui com a análise entre aspectos organizacionais e os princípios ambientais, gerando algumas reflexões sobre a realidade na bacia amazônica.

POR QUE FALAR SOBRE A ÁGUA, TEMA TÃO DISCUTIDO HOJE? A água se faz presente nos mais diversos sistemas, desde o metabólico em relação a uma espécie, até o próprio modo de vida do homem interagindo com a natureza. Dessa forma, tal questão está sempre presente em discussões. Além disso os meios de comunicação assumem um papel importantíssimo divulgando e infor-

15

AVES FORAM REABILITADAS E REINTEGRAdas à natureza através do trabalho do Grupo Harpia

mando as pessoas em relação a vários aspectos relacionados com a água, como por exemplo a “crise hídrica” da região Sudeste.

POR QUE TRANSFORMAR A PESQUISA EM LIVRO JURÍDICO? A ideia de publicar o livro partiu inicialmente do estudo realizado em minha tese de doutorado, onde pude ter acesso a vários

ANDRÉ ABREU

DRONES ARQUEÓLOGOS

mecanismos e ferramentas de gestão dos recursos hídricos. Para que a água possa vir a

Drones serão usados para fazer varreduras na Amazônia brasileira. Os equi-

ser uma temática frequente, se faz necessária

pamentos possuem um laser que pode ultrapassar as folhas das árvores

a realização de pesquisas científicas e, princi-

sem danificá-las e detectar vestígios de civilizações antigas. O projeto é de

palmente, a sua divulgação para um melhor

instituições do Brasil e da Europa com objetivo de compreender a escala e

contato da população como um todo.

as atividades das populações que viveram na região nos últimos 3 mil anos. ABRIL DE 2015

• REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

ARQUIVO PESSOAL

ção da obra..


PRIMEIRO FOCO

ITV INTEGRA PLATAFORMA GLOBAL DE PESQUISA SOBRE POLINIZAÇÃO Localizado no centro de Belém, em um lindo

Aí começou uma era conhecida como ‘Big Scien-

em Belém, afirma que a recuperação e a miti-

parque com árvores majestosas e plantas aquáti-

ce’ (Grande Ciência, em tradução literal). Um

gação desses impactos são estratégicos para a

cas, como a Vitória Régia, o auditório do Parque

exemplo típico desse período é o telescópio Hub-

equipe de cientistas globais. “Para fazer isso, nós

Zoobotânico do Museu Goeldi, o mais antigo em

ble, que não é objeto de trabalho de uma única

precisamos ter um entendimento completo dos

funcionamento no Brasil, sediou a abertura públi-

pessoa, mas é instrumento de pesquisa utilizado

processos de polinização. O foco do encontro é

ca da segunda reunião de trabalho da avaliação

por diversos cientistas e diversos países do mun-

agricultura, mas o serviço dos polinizadores afe-

temática “Polinização, Polinizadores e Produção

do”, contextualiza Luiz Mello, diretor do Instituto

ta todo os ecossistemas naturais, como é o caso

de Alimentos”, da Plataforma Intergovernamental

Tecnológico Vale (ITV).

da nossa floresta, onde a mineração de ferro tem

de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), no mês passado.

O diretor do ITV também expôs que a força-

uma atividade intensa. A nossa intenção é traba-

tarefa desenvolvida pelo IPBES visa à criação de

lhar através de colaborações e parcerias regio-

A IPBES, que reúne 124 países, tem como ob-

uma base de conhecimento planetário, compilan-

nais, nacionais e internacionais”, explica.

jetivo oferecer conhecimento relevante para po-

do e avaliando informações existentes, congre-

O diretor do Museu Emílio Goeldi, Nilson Gabas

líticas públicas sobre biodiversidade e serviços

gando dimensões da antropologia, biologia e até

Jr., afirma que a tarefa é hercúlea, mas essencial

ecossistêmicos, para informar os tomadores de

da genética. O relatório atual concentra esforços

para garantia de decisões políticas responsáveis.

decisão. No evento, a Plataforma intergoverna-

em animais invertebrados polinizadores, princi-

“O Brasil pode ser considerado o berço da conser-

mental foi apresentada pela sua Secretária Exe-

palmente insetos, como as abelhas, cuja popula-

vação, pois foi a partir da Eco 92 que se estabele-

cutiva, Anna Larigauderie. A sede da IPBES é em

ção vem diminuindo devido ao desmatamento e

ceram as bases para se detectarem os problemas

Bonn, na Alemanha.

uso de pesticidas na lavoura, afetando a produ-

ecológicos. Além da proeminência na agenda da

ção agrícola mundial.

conservação global como um dos principais paí-

“Durante muito tempo a humanidade avançou em produções científicas com o trabalho indivi-

A reunião, que aconteceu pela primeira vez no

ses em termos da biodiversidade, sobretudo aqui

dual, vários deles tiveram longos caminhos que

Brasil, foi realizada com apoio do ITV, do Museu

na Amazônia. Temos um solo fértil em estratégias

nos permitiram chegar até o momento em que

Goeldi e do Ministério do Meio Ambiente. Depois

inovadoras, no que se refere a inovação, conser-

estamos enquanto civilização. Mas a partir de um

da abertura pública, foram realizadas reuniões

vação, uso e elaboração de políticas públicas

dado momento o trabalho dos cientistas passou a

técnicas na sede do Instituto Tecnológico Vale.

aliadas ao conhecimento dessa biodiversidade,”

ser muito mais difícil e com resultados limitados.

José Oswaldo Siqueira, diretor-científico do ITV,

aponta. FOTOS: CARLOS BORGES

UNINDO CONHECIMENTOS O diretor do Museu Goeldi, Nilson Gabas Jr., e o diretor do Instituto Tecnológico da Vale, Luiz Mello, participaram da reunião IPBES, ocorrida em Belém • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

ABRIL DE 2015


FILTRO INOVADOR PODE MELHORAR CONSUMO DA ÁGUA

Mesmo localizadas na maior bacia de água doce do planeta, cerca de 260 comunidades na várzea do rio Amazonas, no município de Santarém, não possuem acesso à água de qualidade. O desenvolvimento de um fi ltro barato e sustentável é o foco da pesquisa do professor Manoel Roberval Pimentel Santos, do Instituto de Engenharia e Geociências da Universidade Federal do Oeste do Pará

(Ufopa). A solução encontrada foi o caulim, uma argila comum na região, popularmente conhecida como tabatinga. Ela permite a formação da zeólita, que tem estrutura cristalina capaz de reter certos elementos. O filtro já está em fase de testes e funciona com uma camada de areia e carvão ativado, além de pastilhas porosas de zeólita. Segundo o professor, o biofi ltro faz parte de uma proposta maior de de-

senvolver um microssistema integrado de geração de energia elétrica, captação e tratamento de água para as comunidades. A ideia do projeto é gerar energia elétrica com painéis solares, para acionar bombas de baixa potência que captarão a água do rio ou de um poço de até 30 metros de profundidade. A partir daí, a água seria tratada, passando por um processo de decantação, fi ltragem e cloração. INV N

UFOPA/ DIVULGAÇÃO

AMAZÔNIACONNECTION

CARTAS FRANCESAS PARA AS CRIANÇAS DA ILHA DO MARAJÓ

Na Reser va Extrativista do Mapuá, interior do município de Breves,

arquipélago do Marajó, a cooperação Brasil-França atua na área da educação de populações ribeirinhas. O rio Mapuá troca mensagens com cidades francesas através do projeto “Cartas Amigas”. São seis horas de barco até o núcleo urbano de Breves, e ainda 12 horas via fluvial entre Breves e Belém. O

N

projeto é desenvolvido pela ONG

V

Association Enfants d’Amazonie

O biofiltro projetado na Ufopa ainda está em fase de testes, mas já apresenta eficiência no tratamento da água

(Associação Crianças da Amazônia, em livre tradução do francês), instituição criada em 2010 com a intenção de contribuir com a educação de crianças ribeirinhas na região. Sediada em Chessy, na França, a ONG firma parcerias com instituições brasileiras para promover seus objetivos, como órgãos municipais de Breves e com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio),

260

M NI A NA V Z A I AMAZ NA

responsável pelo Sistema Brasileiro de Unidades de Conser vação em que se insere a Reser va Extrativista do Mapuá. Outro projeto desen,

em Santarém, não possuem acesso à água potável

volvido é Biblioteca Abayami, que consiste na criação de bibliotecas em comunidades desprovidas desse

ANDRÉ ABREU

CHEIRINHO NA FLORESTA

tipo de acer vo - ainda em fase de planejamento. Presidente da ONG,

Dos quase 25,4 teragramas (tg) anuais que a Amazônia emite de gás metano

a brasileira Carla Cristina Daher diz

(CH4), a criação de rebanhos contribui com uma média de 19%. Os dados são

que a organização pretende reali-

de um estudo do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). A quei-

zar uma exposição fotográfica e um

ma de biomassa, por sua vez, é responsável por entre 8% a 10%. As coletas de

espetáculo teatral.

ar foram feitas nos estados do Pará, Mato Grosso, Acre e Amazonas. ABRIL DE 2015

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DAN JAEGER / SXCHU

PRIMEIRO FOCO

ESCOLAS

MAIS VAGAS

Três escolas municipais de Marabá aumentam em 60% o número de vagas por meio de convênio firmado entre a Vale e a Prefeitura de Marabá. As unidades de ensino agora podem receber, juntas, mais 467 novos alunos. Os investimentos da empresa são da ordem de R$ 2,3 milhões e se refletem em 26 novas salas de aula, além de quadra poliesportiva e sala de informática, reforma de refeitório, biblioteca e cozinha. Os prédios ainda serão adaptados permitindo a acessibilidade de pessoas com deficiência. A ação faz parte de uma série de convênios firmados entre a empresa e a gestão municipal com o objetivo de promover o avanço da cidade nas áreas da saúde, educação e infraestrutura.

LABORATÓRIO

INAUGURAÇÃO

Com equipamentos de tecnologia avançada, o Laboratório de Microanálises do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA) foi inaugurado, em parceria com o Instituto Tecnológico Vale (ITV). O espaço conta com três equipamentos de tecnologia de ponta, entre eles um microscópio eletrônico de Varredura ZEISS SIGMA VP (MEV), capaz de realizar análises pontuais de minerais, materiais sintéticos e orgânicos para estudos de forma e interações em escala micrométrica. O MEV foi cedido em comodato pelo ITV e os aparelhos serão usados em regime compartilhado por pesquisadores das duas instituições em estudos nas áreas de geologia, mineralogia, biologia e geoquímica, entre outras, permitindo a obtenção de imagens de materiais sólidos com grandes ampliações e alta resolução.

DO OUTRO LADO DO OCEANO Estudo internacional mostra ligação climática entre a África e a América do Sul

CHUVAS AMAZÔNICAS TÊM

RELAÇÃO COM O SAARA

A poeira do deserto do Saara influencia a formação de chuvas na Amazônia, aponta uma pesquisa internacional, que contou com a participação do físico brasileiro Paulo Artaxo. Segundo ele, a poeira do outro lado do Atlântico é responsável por uma fração significativa dos núcleos de condensação de gelo da

Amazônia, especialmente em altas altitudes e temperaturas mais baixas. O estudo é importante para que cientistas compreendam o funcionamento básico de sistemas naturais e esta é a primeira vez que as partículas destes núcleos são detectadas e suas propriedades físicas, químicas e biológicas medidas.

MACACOS

LANÇAMENTO

Na edição passada,

OVO DE OSGA

publicamos de forma equivocada a ilus-

Lançado no mês passado, “Ovo de Osga” é

tração de macacos

o título do segundo livro de contos do ator e

zogue-zogue em

jornalista Aílson Braga. A obra, que venceu a

vez de macacos da

categoria Conto do Prêmio Dalcídio Jurandir

noite, tema da seção

de 2013, foi publicada pela Fundação Cultural

“Desenhos Naturalistas”,

do Pará Tancredo Neves. Ailson é paraiba-

na página 21. O primeiro pertence ao gênero

no naturalizado paraense e tem outro livro

Callicebus, e o segundo, ao Aotus. Ambos foram

publicado, chamado “Enquanto Chove”. Sua

ilustrados pelo desenhista Eládio Lima (1900-1943),

atuação como ator, dramaturgo e diretor tea-

autor do livro “Primatas da Amazônia”, que faz

tral formou uma escrita marcada fortemente

parte da Coleção Obras Raras, do Museu Paraense

pelas imagens poéticas.

Emílio Goeldi. Acima, a ilustração correta. • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

ABRIL DE 2015

OSWALDO FORTE

ERRAMOS


AGRICULTORES CRIAM SALGADINHO A BASE DE BANANA FRITA

Todo o desperdício da banana na estrada, entre a plantação e o local de venda, fez o casal Elias e Maria Cunha pensar em alternativas para aproveitar a fruta. A família, moradora do município de Trairão, no sudoeste do Pará, trabalhava com plantação de bananas e desenvolveu um salgadinho crocante que caiu no gosto da população. O produto parecido com batata chips foi batizado pelos consumidores de “Bananita” e, após consultoria do Sebrae-Pará, recebeu novo rótulo e embalagem. Cerca de mil pacotes são comercializados por dia, em um trabalho que começou na cozinha da casa dos Cunha e hoje tem local próprio

PERGUNTA-SE

BOLO QUENTE DÁ DOR DE BARRIGA? O bolo sai do forno e as crianças ficam em polvorosa e aí, para afastar os degustadores apressados, a mãe alerta: “comer bolo quente

de fabricação. Uma equipe fica responsável pelo descasque e corte das bananas, outra pela fritura, que é feita em máquinas elétricas, e uma terceira pela embalagem, processada por uma máquina de vedar plástico. Os produtores usam cerca de 40 cachos de bananas por semana, além de óleo vegetal, água e sal, sem a adição de conservantes. Já existe demanda da Bananita para outros estados, mas a logística do transporte ainda é uma dificuldade, segundo Elias Cunha. A família também pretende aumentar a capacidade elétrica da fábrica para usar mais equipamentos e evitar picos de energia.

PACOTES DE “BANANITA” SÃO COMER-

se criou, que mesmo adultos não se atrevem a provar um bolo recém-saído do forno, por mais cheiroso e apetitoso que pareça. Contra um costume antigo, um experiente gastroenterologista, Pedro Augusto Bisi, esclarece tacitamente: tudo não passa de um mito. Não há nenhum ingrediente nas receitas de bolo que, se consumido em altas temperaturas, cause algum problema no sistema digestivo. E nem cientificamente há qualquer fundo de verdade na história, que apenas serve para afastar as crianças apressadas do bolo quente. “Tudo mito. No máximo vai se queimar a boca. E só”, pondera. “Se fosse por isso, não tomávamos tacacá e nem comeríamos outras comidas quentes. A gente sempre escuta essa história, que é antiga mesmo. Nunca atendi ou conheci alguém que tivesse tido algum problema por comer um bolo quente”, completa Bisi. Logo, melhor esperar um pouquinho para não queimar a boca. Por outro lado, o estômago pode ficar livre desse mito. HELY PAMPLONA

cializados por dia pelo casal Elias e Maria Cunha em Trairão, no sudoeste paraense. Os empreendedores receberam consultoria do Sebrae-Pará.

tornou infalível ao longo da história e um mito

ALESSANDRO MEDEIROS / SEBRAE

1 mil

dá dor de barriga”. E, assim, a técnica se

MÚSICA FUNGADA Um músico brasileiro fez um dueto inédito e interagiu, ao piano, com um fungo Physarum polycephalum. O compositor Eduardo Miranda usa ANDRÉ ABREU

culturas de mofo como componente central de um biocomputador que recebe sinais de som e envia respostas. As notas de piano são transfor-

MANDE A SUA PERGUNTA

Envie perguntas instigantes sobre hábitos, costumes e fenômenos da região amazônica para o e-mail: amazoniaviva@orm.com.br

madas em uma onda elétrica e enviadas por tubos formados pelo fungo. ABRIL DE 2015

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QUEM É?

ALDEBARO KLAUTAU JR.

O ENGENHEIRO ELÉTRICO QUE TRABALHA PELO BEM COMUM

“S

TEXTO ARNON MIRANDA FOTO ROBERTA BRANDÃO

ou apaixonado pela minha profissão. Como pessoa eu sou um idealista. Isso faz muito mal no mundo moderno. Ser idealista é problemático, porque, às vezes, você fica como Dom Quixote, lutando contra um moinho de vento. Mas isso faz a vida ficar mais épica, com motivos mais valiosos para lutar”, conta o professor Aldebaro Klautau Junior, coordenador do Laboratório de Processamento de Sinais (LaPS) e do Laboratório de Sensores e Sistemas Embarcados (Lasse) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Suas pesquisas servem de estudo e elaboração de propostas para o avanço dos sistemas de telecomunicações e para a criação de ferramentas de reconhecimento de voz. “A universidade é um ambiente muito bom para essa pessoa idealista. Se ela quer realmente fazer a pesquisa dela surtir efeito, esse é um ambiente muito bom”, diz. A trajetória profissional de Aldebaro se aperfeiçoou na área de processamento de sinais, ainda na UFPA, onde • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

ABRIL DE 2015

se formou em Engenharia Elétrica. Logo depois, fez mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorado na Universidade da Califórnia de San Diego (UCSD), onde também concluiu pós-doutorado. O desempenho profissional fez com que o professor recebesse propostas para continuar nos Estados Unidos, mas ele optou pelas pesquisas para o aperfeiçoamento de ferramentas voltadas ao auxílio das pessoas na Amazônia. Os profissionais desta área atuam com o processamento de sinais, como o de TV digital e de telefonia celular, além do domínio dos algoritmos que servem para comprimir a voz humana e guardá-la em arquivos digitais. Com auxílio do professor Nelson Neto e da equipe que compõe o LaPS, os engenheiros coordenados por Aldebaro Klautau Jr. criaram o grupo Fala Brasil para prover recursos de reconhecimento e síntese de fala humana, para colaborar com a criação de softwares gratuitos no Brasil, usando um motor de reconhecimento de voz em português e auxiliando pessoas

com dificuldade de falar, transcrevendo áudio em texto, bem como facilitar a navegação na rede através de comandos por voz. O bom resultado garantiu à UFPA participar como a primeira Universidade da América Latina na International Telecommunication Union (União Internacional de Telecomunicações – UIT). A entidade é uma das agências especializadas da Organização das Nações Unidas (ONU) e destinada a padronizar e regular as ondas de rádio e telecomunicações no planeta. Com finalidade humanitária, os profissionais do LaPS montam protótipos de hardware e software para transmissão de dados em alta velocidade, simulando as novas demandas por banda larga. Além de coordenar esse trabalho, Aldebaro também atua em projetos que adaptam tecnologias móveis para atender as necessidades de comunicação na Amazônia. Hoje, a equipe testa a possibilidade de promover telefonia social humanitária em comunidades do interior do Pará que ainda vivem incomunicáveis.

NOME

Aldebaro Barreto da Rocha Klautau Junior

IDADE 46 anos

FORMAÇÃO

Pós-doutor em Engenharia Elétrica

TEMPO DE PROFISSÃO 29 anos


UFPA / DIVULGAÇÃO

EU DISSE

APPLICATIVOS

“Belém deveria ser o centro ecológico e cultural do conhecimento da Amazônia. A cidade precisa de tecnologia e inovações.”

BOAS IDEIAS NUM TOQUE DE DEDOS

MINHAS ECONOMIAS

Massimo Canevacci, estudioso italiano especialista em etnografia e comunicação visual, que participou do I Seminário Latino-Americano de Antropologia Visual, em Belém. (Jornal Beira do Rio)

Com tantas contas a pagar, o melhor é manter as contas sobre controle e para isso que este app serve. Com ele é possível criar

“É fundamental discutir as condições de uso e qualidade da água para evitar a escassez de oferta à sociedade”

diversas receitas, orçamentos, controlar gastos e planejar tudo com mais precaução. Todos os dados e planejamentos são salvos em nuvem para preservar seu trabalho independente do dispositivo. Plataforma: Android e iOS Preço: Gratuito

Airton dos Reis, coordenador do campus da Universidade do Estado do Pará (UEPA) em Marabá sobre a Semana da Água organizada pela instituição no mês passado. (Portal da Uepa)

SCANBOT SCANNER

“Em 56% das notificações que recebemos o foco da dengue está na caixa d’água no nível do solo”

Escanear documentos continua sendo uma atividade que os meios digitais não conseguiram eliminar. Mas graças a esse app o

Oteniel Almeida, secretário de saúde de Rio Branco, Acre, ao anunciar a diminuição

smartphone vira um scanner portátil. Os

em 15% dos casos de dengue na capital acriana.

documentos também podem ser guardados

(G1 Acre)

em vários serviços de nuvem diferentes, DIVULGAÇÃO

evitando perdas. O processamento é rápido e cada documento pode ser salvo em múltiplos formatos. Plataforma: Android e iOS Preço: Gratuito

“A redução de desastres é uma prioridade na defesa contra os efeitos da mudança climática, é um investimento inteligente para os negócios e um sábio investimento para salvar vidas”

WATTPAD Esse app é uma comunidade indispensável para quem ama a leitura e gosta de conversar sobre o que está lendo. Lá podem ser encontrados mais de 10 milhões de livros gratuitos e diversos outros pagos, compartilhar, opinar, criar listas, rankings ou até dividir histórias próprias.

Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, em conferência em Sendai, no Japão, sobre como combater as

Plataforma: Android, iOS e Windows Phone

catástrofes naturais ampliadas pelas mudanças climáticas.

Preço: Gratuito

(Portal Yahoo) FONTES: PLAY STORE E ITUNES ABRIL DE 2015

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COMO FUNCIONA

O gramado do Mangueirão TEXTO E ILUSTRAÇÃO SÁVIO OLIVEIRA

A rodovia Augusto Montenegro

Na subida do túnel de acesso, os

lados da trave e percorre a pequena

concentrar a atenção da torcida,

segue engarrafada, com ônibus

dedos do capitão da equipe tocam

área à procura de buracos.

comissão técnica e imprensa no

lotados e carros buzinando. Rojões

o chão e sobem a testa para o gesto

Mas antes do apito inicial, o grama-

esporte mais praticado planeta.

estouram enquanto as bandeiras

da cruz. O árbitro segura a bola em-

do do Estádio Olímpico do Pará, o

Por isso, o campo é tratado com sol,

tremulam e pelo fone de ouvido se

baixo do braço pisando na linha do

famoso Mangueirão, precisa estar

água, adubo mineral e análise

escuta a escalação do time.

meio-de-campo. O goleiro chuta os

tinindo para deixar a bola rolar e

a cada seis meses.

3

O TAPETE DA REALEZA É VERDE...

O sistema de irrigação é escalado com 35 aspersores, dispositivos

Por dentro do Estádio

dispostos em sete filas. Aciona-

Olímpico do Pará

dos eletricamente, funcionam

1

com velocidade suficiente para jogar água em todo o gramado. O circuito evita o desgaste hídrico,

Cultivada nos Estados

o que pode acontecer caso haja

Unidos, a grama do Manguei-

excesso ou falta de líquido na

rão, que leva dez dias para

superfície. O procedimento é feito

ser plantada em pedaços

a cada duas horas, diariamente.

enrolados, é conhecida como

4

“bermuda”. É uma variedade específica para a prática esportiva, que se adapta ao

O sistema de drenagem aumenta

pisoteio das chuteiras e tem

o ritmo quando chega o período

recuperação rápida após

chuvoso em Belém. É formado por

o impacto do jogo. Se bem

grandes tubos maleáveis, com cerca

cuidada, com adubação quin-

de 20 cm de diâmetro, cheios de ra-

zenal adequada cresce 2cm

nhuras, que são furos para aumentar

por dia e dura até sete anos.

a velocidade da água. A chuva que

2

molha o campo chega em aproximadamente 15 minutos até o fosso que fica em volta do campo.

com espessura de 15cm para

5

não deixar o gramado ficar

A sete palmos do estádio, o platô é

empapado pela água da

a última barreira do gramado. Dele

chuva e suor dos jogadores.

ninguém passa. É uma camada de

O espaço entre os grãos de

barro bem batido e assentado, que dá

areia precisar ser alto para

sustentação a toda estrutura montada

facilitar a penetração da

acima do campo, da arquibancada às

água, que ainda encontra

cabines de imprensa, para que o Man-

brechas e escorre para o

gueirão trema muito, mas não caia.

Logo abaixo do tapete de grama, vem a cama de areia,

sistema de drenagem.

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FONTE: RAIMUNDO MESQUITA, ENGENHEIRO AGRÔNOMO DA SECRETARIA DE ESPORTE E LAZER DO ESTADO DO PARÁ

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DEU N’O LIBERAL REPRODUÇÃO / O LIBERAL/ HELY PAMPLONA

INOCÊNCIO GORAYEB

FATO REGISTRADO

RETRATO DA HISTÓRIA

Na foto de 1979, a vila de Curiaú, no Amapá, e sua parcela africana que ajudou a construir a Amazônia como a conhecemos hoje

O quilombola de Curiaú Um homem de pé em frente à sua casa é o elo entre a atualidade e um Grão-Pará onde escravos africanos eram parte da mão de obra da Amazônia. Em 1979, o pesquisador Inocêncio Gorayeb fotografou uma cena cotidiana, porém marcante, na comunidade quilombola da vila de Curiaú, a oito quilômetros de Macapá, capital do Amapá. Seguindo a tradição oral de comunidades tradicionais na região, a foto é a porta para as narrativas dos moradores sobre a fundação da vila – e o contexto em que seus antepassados estavam inseridos. A vila é famosa pelas paisagens e, ainda, em função da elevada biodiversidade da fauna e da flora. E quem passou por bares e casas do Pará e do Amapá, no decorrer da década de 1990, certamente ouviu ia “dançar marabaixo, com os meus irmãos negros, em Curiáu”, pela voz do cantor Roberto Villar. O mesmo

marabaixo, que hoje é ritmo tradicional da cultura amapaense. Tradição que ainda pulsa. Nas festividades religiosas de Curiaú, no decorrer do ano, pode-se vivenciar as rodas da dança. No total, são nove festas em homenagem a santos católicos: dança, música e catolicismo popular, segundo contou, à época, Exida Ramos, 88 anos, lembrando que o marabaixo era uma forma de amenizar o sofrimento nos porões dos navios negreiros que traziam escravos às colônias portuguesas. Curiaú é uma comunidade quilombola, isto é, uma área remanescente de quilombos – lugares em que escravos africanos, indígenas e até brancos pobres se refugiavam da opressão senhorial. Além de comunidade quilombola reconhecida pelo Estado brasileiro, Curiaú é uma Área de Proteção Ambiental (APA). Fora a luta pela preservação

ambiental, os moradores também trabalham pela preservação da memória e das tradições da comunidade. Na área, há dois núcleos populacionais: “Curiaú de Dentro” e “Curiaú de Fora”, assim como outras comunidades contidas na região, a “Casa Grande” e o “Curralinho”. No total, as comunidades comportam uma população de aproximadamente 1.500 pessoas. A casa de pau e palha, com o homem à frente a mulher ao fundo, além dos xerimbabos, da terra e da mata, não formam uma cena comum. A foto é uma ligação. Dela, apreende-se a construção de um forte para o combate a invasores, sobretudo daqueles que desciam de Caiena, então colônia francesa. Da foto, vê-se o registro de um povo escravizado que buscou a liberdade. E mais: a parcela africana nas tradições, nos laços e na formação da Amazônia.

JIBOIA CAÇAVA RATOS NO VER-O-PESO

O comerciante Manoel Augusto encontrou uma maneira bem peculiar de controlar a quantidade de ratos no seu comércio. Depois de ter tentado utilizar sem sucesso os métodos usuais como venenos e ratoeiras, Manoel decidiu inovar. Para caçar os roedores, o comerciante decidiu criar uma jiboia no forro do ponto comercial localizado no Ver-o-Peso. Quando operários da antiga Secretaria de Serviços Urbanos (Sesur) iniciaram a demolição do prédio dos atacadistas do mercado tiveram uma surpresa. Ao se prepararem para derrubar parte do telhado da loja, os operários tomaram um susto ao ver escondida entre as telhas uma cobra de aproximadamente dois metros de comprimento. A retirada do bicho deu trabalho aos funcionários da Sesur e chamou a atenção dos frequentadores da feira. O fato inusitado foi noticiado por O Liberal em 17 de julho de 1985 com a reportagem “Jiboia dá susto no Ver-o-Peso”. Para Manoel Augusto, nada era motivo para pânico. Mas foram necessárias várias pessoas para tirar a jiboia em segurança.

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CURIOSIDADES DA BIODIVERSIDADE HELY PAMPLONA

A cutia albina de Ananindeua

Uma cutia albina do gênero Dasyprocta foi encontrada em um sítio particular em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. O achado pode indicar uma mutação ou representar uma espécie nova, o que ainda depende de estudos. Albinismo em animais é um evento raro, mais ainda nos que vivem em ambientes naturais, como explica o doutor em Genética e Biologia Molecular, Igor Guerreiro Hamoy, professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Entre vertebrados, o albinismo costuma ocorrer mais em aves. Hamoy observa que o albinismo em animais e no homem ocorre por mutações em genes produtores de melanina, pigmento da coloração e

proteção da pele. O animal albino está sujeito a ataques de predadores por não possuir mais a capacidade de camuflagem. Apresenta uma deficiência visual que dificulta a procura por alimentos e percepção de perigo. Porém, sobrevivem mais em cativeiro, facilitando a observação. “Casos mais curiosos e preocupantes de albinismo em animais ocorrem quando populações são expostas a desastres ambientais. Foi publicado, em 2001, um artigo de autores que encontraram uma maior frequência de albinos numa espécie de andorinha em regiões próximas a Chernobyl, na Ucrânia, onde ocorreu um desastre radioativo”, destacou o geneticista.

ELES SE ACHAM BRENO S. BARROS

SE FAZENDO DE FOLHA MORTA Quando imaturos, indivíduos da

folhinhas que vão sendo carrega-

espécie Trachinotus falcatus, da

dos pela maré, sem qualquer preo-

família Carangidae, dão uma de

cupação, enquanto os predadores

folha boiando ao léu para esca-

não mexem com eles. Outras espé-

par dos predadores. O fenômeno

cies da família Carangidae chegam

é bastante observado no estuário

a serem confundidas com pedras.

do rio Curuçá, no Pará, em que os

Depois que o perigo passa, voltam

peixes se parecem com folhas ou

a nadar como peixes, que é o que

sementes de mangue-branco (La-

se espera deles. Depois de adul-

guncularia racemosa), como expli-

tos, perdem essa “manha” de se

ca o biólogo Breno Eduardo da Sil-

fazer de folha e fazem a “egípcia”,

va Barros. É possível encontrá-los

como se virassem a cara ignoran-

em grande parte da zona costeira

do os predadores e vizinhos inde-

paraense, fingindo tão bem serem

sejados.

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DE BOA NA LAGOA

Para escapar dos predadores, os peixinhos da espécie Trachinotus falcatus se fingem de folhas secas e escuras boiando despercebidas na água


DESENHOS NATURALISTAS

CONCEITOSAMAZÔNICOS

BUBUIA, BUIAR, BUIADO NA ÁGUA E NO CAFÉ

No café passado às quatro da tarde, no

boto que surge em águas do fim do dia e no garimpeiro que tirou a sorte grande nas lavras de terras amazônicas: há uma intersecção do bê-ú-bú. Buiar, buiado e bubuia são expressões parônimas do cancioneiro caboclo de todo o dia, com ampla ocorrência na capital e no interior. E há uma certeza nas três palavras parecidas, mas com significados totalmente diferentes. Não importa se tu és do mato ou do asfalto, da piscina ou do igarapé – não há melhores termos para materializar essas ideias. Estás sentido aquele cheirinho? O café! Esqueceste o café na cozinha. Todo mundo já patetou enquanto o café fervia a ponto de transbordar e sujar todo fogão: corre, menino, que o café tá buiando! Gerúndio do verbo buiar, claro. Mas há também outro uso – e aí o termo buiar é um homógrafo. Aquilo que está ERNEST LOHSE

na superfície do rio, à lâmina e à flor d’água, a comprovação experimental do empuxo. Como dizer que um boto apareceu lá na frente

Ah, os beija-flores... desde o Alasca à Terra do Fogo, do extremo norte ao extremo sul. A maior parte dessas espécies é tropical e subtropical, sendo que Brasil e Equador contam com a metade das espécies conhecidas de beija-flor. São profissionais do beijo, o olfato não é lá essas coisas, mas a visão é apuradíssima. São capazes de detectar cores do espectro ultravioleta. Nas refeições, estão o néctar e os pequenos artrópodes que zanzam pelas flores, como formigas e moscas. E pelo estilo de viver de flor em flor, claro, já dava para

Mas o termo é tão comum que saiu da água. Exausto de um de dia de trabalho? Mano, fica

saber: são poligâmicos. Os diferentes tamanhos e cores, do azul marinho ao roxo e do rosa ao amarelo, com rabo de pavãozinho e bicos longos e curtos, estão ameaçados. É que das espécies conhecidas, a UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) lista nove espécies com status de “vulnerável”, onze como “em perigo” e nove como “em perigo crítico de extinção”. As maiores ameaças são a destruição e fragmentação de seus habitats. Esperemos, contudo, na janela pela visita desses graciosos.

só de bubuia na rede. Abatido pela gripe? Aquieta-te em casa e fica de bubuia. Um dia de trabalho normal, mas todo mundo às gargalhadas. O salário do mês saiu e o bolso inchou. Tá buiado! Estar buiado é voltar de táxi pra casa, sair pra jantar, pagar a conta do amigo ou comprar um agrado para quem se ama. É a intersecção do bê-ú-bú: porque quem está buiado pode ir ao balneário ficar de bubuia e deixar o filho buiando na boia! Boia! Foi dela que tudo começou? SÁVIO OLIVEIRA

O momento em que, da janela de nossas casas, avistamos um beija-flor flutuando no ar a bicar as flores – eterno! – foi gravado na prancha 45 do Álbum de Aves Amazônicas, do suíço Emílio Goeldi, entre 1894 e 1906. O desenho é do litógrafo Ernest Lohse, ambos atuando no então Museu Paraense de História Natural e Ethnografia, hoje Museu Paraense Emílio Goeldi. As aves dispostas na prancha compõem a família Trochilidae. Mas o grupo do beijaflor é maior, composto de 322 espécies conhecidas, originárias das Américas,

se não com o susto: buiou um boto ali!

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EM NÚMEROS

SAFRA INVERNAL

FRUTAS REGIONAIS DÃO MAIS SABOR E COLORIDO NESSE PERÍODO CHUVOSO TEXTO VICTOR FURTADO INFOGRAFIA MÁRCIO EUCLIDES

O inverno amazônico traz a safra de

na indústria alimentícia, exportações

nia. Curiosamente, é no inverno que

são de sabores marcantes e populares,

frutos regionais tão característicos e

e alegrando turistas que visitam o Ver-

ocorre a safra de frutos que funcionam

repletos de nutrientes. Entre os des-

únicos quanto a própria região, movi-

o-Peso, principal ponto de encontro

melhor como receitas geladas de sucos,

taques estão bacuri, biribá, cupuaçu,

mentando a economia nas feiras livres,

com a alimentação típica da Amazô-

sorvetes e outros doces. Esses produtos

piquiá, pupunha e uxi.

SALADA DE FRUTA

Conheça as principais características dos fruto mais encontrados nas feiras de Belém e Ananindeua nesse inverno

BACURI

(PLATONIA INSIGNIS)

presente Amazônia, é mais Comum em toda a do e do Marajó. É uma das na região do Salga es do Pará e sendo usados frutas mais popular e sorvetes. como sucos, doces

105 ATÉ 2 MIL calorias para cada 100 gramas

r árvore os anualmente po bacuris são colhid

R$0,70A R$2 a unidade

a Safra de dezembro

maio

CUPUAÇU

BIRIBÁ

(THEOBROMA GRANDIFLORUM)

(ROLLINIA MUCOSA)

Conhecido pelo forte aroma, é comum em toda a região amazônica, o fruto é usado não apenas nas receitas de doces e sucos, mas também na indústria cosmética.

Originada na fronteira da Amazônia brasileira com o Peru chega até o nordeste brasileiro. Fruta de polpa doce e suave e bastante usada em sucos, doces e sorvetes.

30 A 40 2,5 KG R$ 1 A R$ 4 frutos por ano em cada pé

em média, por fruto

a unidade

Safra de outubro a junho

300 G A 1,3 KG por fruto

7 R$ 2 A R$ 3 nutrientes: proteínas, fibras e lipídeos, além de cálcio, ferro e vitaminas B1 e B2

a unidade

Safra de novembro a maio

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PIQUIÁVILLOSUM)

UXI

HI) (ENDOPLEURA UC Pará, sendo mais lÁrvore presente no s. Cu rajó, e no Amazona abundante no Ma micamente inviável, mas no eco ase qu raenses. R$ tura limitada, apreciado pelos pa ainda assim muitoentados anualmente por safra. vim mo o lhã 1,2 mi

700 A 2 MIL R$0,20 frutos produzidos por árvore

a unidade

a junho Safra de dezembro

(CARYOCAR com a Depois de cozido o fruto fica bem marcarne mais saborosa e aroma também cante. Os caroços sem espinhos ou arroz. podem ser cozidos com feijão

200 R$1 A R$2 30% A 40 % frutos por árvore a cada ano

a unidade

nto as outras das árvores frutificam por ano, enqua “descansam”

Safra de março a junho

PUPUNHA GA

(BACTRIS

SIPA Fruto cult ivado po ES) safra era mo descobrimento do r indígenas desde sal, també arcada por festas Novo Mundo. Cad . Al a m é comid a com mel ém de cozida com ou açúcar . cachos sã safra por o colhidos numa pupunhei ra

15 25 ATÉ 100 R$ 7 A R$ 10 frutos em cada

cacho

o quilo Safra de no vembro a ju nho

FONTES: CAVALCANTE, PAULO B. FRUTAS COMESTÍVEIS DA AMAZÔNIA. BELÉM: EDIÇÕES CEJUP, 1991, 5ª EDIÇÃO; EMBRAPA DA AMAZÔNIA ORIENTAL, CEPLAC, FRUTÍFERAS E PLANTAS ÚTEIS NA VIDA AMAZÔNICA, PATRÍCIA SHANLEY, GABRIEL MEDINA, DIEESE E FEIRANTES DO VER-O-PESO E MERCADO MUNICIPAL DE ANANINDEUA

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OLHARES NATIVOS

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ABRIL DE 2015


Forte, barulhenta e encantadora O começo de tudo era pavor. Algo perto do dilúvio bíblico, próximo do medo primitivo do poder inclemente da natureza. O que durou por longos anos e gerou histórias terríveis de um avó que se viu imprensado pelas águas e que, bravo que só, manteve o navio-gaiola no rumo do trapiche mais próximo da lembrança para salvar sua vida. Valei-me! Ou de dois irmãos briguentos que foram ao fundo, sendo encantados pelo rio. Ou ainda da Mãe d’Água revoltada com o sumiço da filha Jacy. Assim, prevaleceram por quase uma eternidade o rugido, a força, a irracionalidade das águas arrastando as beiras em erosões inexplicáveis. Até que jovens caboclos, de sangue índio, pele tostada e olhos no mar, reconciliaram o rio e o homem com uma prancha e um muito de coragem: nascia o surfe na pororoca. Dos antigos relatos de barcos virados aos causos de manobras radicais, São Domingos do Capim, no nordeste paraense, entrou na rota internacional do esporte mais popular do Havaí misturando desafio à turbulência fluvial amazônica ao respeito ao encontro majestoso e brutal, doce e salgado, hoje admirado por surfistas do mundo inteiro. Neste mês, registros especiais do fotógrafo TARSO SARRAF. ABRIL DE 2015

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OLHARES NATIVOS

Em busca do fenômeno De prancha a tiracolo, a adrenalina a níveis alarmantes, os surfistas segue para o Mirante do Barriga para testemunhar a beleza do encontro das águas e experimentar, alguns pela primeira vez, a comunhão com a natureza em estado de fúria.

Respeito às águas em fúria O rio é um senhor severo, ainda mais revolto e orgulhoso pela junção com as águas do oceano. Quem crê que suas ondas curtas e constantes serão domadas sem esforço ou destreza está fadado a ficar para trás. A crista é lugar de heróis.

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Valentia na pororoca São poucos os primeiros valentes, como toda epopeia. Os feitos, a coragem, o gosto pela aventura reuniram muitos: mais de 800 este ano. Brasileiros de vários estados, peruanos, franceses, suíços: a pororoca é de todos, de todos os lugares.

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OLHARES NATIVOS

Desafiando a escuridão Fim do mistério nas noites fluviais da Amazônia: as luzes de led conduzem os surfistas da pororoca. Na imensidão escura do rio, homens e mulheres deslizam nas águas em seus instrumentos de cores fortes e radiantes. São enguias, estranhas entidades, seres míticos de luz

Lugar de encontro A choupana: porto seguro para quem vai ao desafio das ondas à noite. Só os mais aptos e conhecedores do rio e suas modulações se atrevem a se lançar nas águas do Capim.

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Noturno coletivo Sob a chuva, as veias-vias de pura adrenalina, uma é a chance de encaixar a prancha na onda certa. O corpo retesa, os pés se plantam firmes, os braços buscam o equilíbrio, a mente mantém o controle. Guerreiros domam a natureza no breu. ABRIL DE 2015

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OLHARES NATIVOS

Testemunhas da natureza Duas mil pessoas envolvidas diretamente no surfe na pororoca, entre profissionais, turistas e comunidade. Duas mil novas e boas histórias. Duas mil e muitas expectativas sobre o próximo ano, a próxima onda, a próxima vez de aceitar o convite da natureza para participar como protagonista do espetáculo único do encontro das águas.

Envie as suas fotos para a seção Olhares Nativos • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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Para participar da seção “Olhares Nativos” da revista Amazônia Viva basta enviar fotos com temática amazônica para o e-mail amazoniaviva@orm.com.br acompanhadas pelo nome completo do autor, número de identidade e uma breve informação sobre o contexto do registro fotográfico. As imagens devem ser autorais e com resolução de no mínimo 300 dpi. A publicação das fotos tem fins meramente de divulgação, não implicando em qualquer tipo de remuneração aos autores. Participe!


Para um mundo com novos valores.


É um orgulho contar a história de uma igreja que faz parte do meu dia-a-dia. Fernando Cardoso, monitor e morador da Cidade Velha.


OPINIÃO, IDENTIDADE, INICIATIVAS E SOLUÇÕES

OSWALDO FORTE

IDEIASVERDES

FARINHA DA BOA

A ROTA DA MANDIOCA LEVA TURISTAS A UMA INESQUECÍVEL VIAGEM GASTRONÔMICA ENTRE OS MUNICÍPIOS DE BRAGANÇA E BELÉM PÁGINA 38

TERRA Instituído pela ONU e FAO, o Ano Internacional do Solo deve ser amplamente debatido na sociedade, diz Lourdes Ruivo. PÁG. 36

PRESERVAÇÃO Projeto Biomas encabeçado pela Embrapa recupera áreas degradadas pela criação de gado no sudeste do Estado. PÁG.46

PESCA Escola comunitária em Outeiro, distrito de Belém, mantém 100 jovens em curso técnico em Recursos Pesqueiros. PÁG.50

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OUTRAS CABEÇAS

O

debate sobre a importância do solo para a qualidade de vida no planeta é uma questão levada a sério pela Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), instituições que elegeram 2015 como o ano mundial deste recurso indispensável à vida na Terra. Pesquisadora da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia do Museu Paraense Emílio Goeldi, Maria de Lourdes Pinheiro Ruivo acredita que o ano instituído pela ONU é muito importante para a discussão atual do tema. Participante dos programas de pós-graduação em Agronomia, na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), em Ciências Ambientais, na Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Rede Bionorte/PPPBionorte, voltado para biodiversidade e biotecnologia, a professora chama a atenção para os estudos do solo, principalmente na Amazônia. De que maneira a declaração do Ano Mundial do Solo pode influir nos estudos e políticas públicas nesse setor? A ONU e a FAO instituíram esse ano ao solo, assim como outros anos foram voltados à água e à biodiversidade, para chamar atenção para recursos que nós pensávamos que nunca acabariam e hoje sabemos que sem cuidado e, principalmente, sem conhecimento, são deteriorados. Isso é uma forma de a ONU fazer com que as pessoas entendam a importância desse substrato. No ano passado foram iniciadas algumas atividades na área da ciência do solo. Este ano, em agosto, vai ocorrer o Congresso Nacional de Ciências do Solo em Natal, Rio Grande do Norte. A Associação Brasileira de Ciências do Solo conclamou os estudiosos para falarem sobre a importância do assunto e, principalmente, so• REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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“O SOLO É REALMENTE IMPORTANTE”

A PESQUISADORA MARIA DE LOURDES RUIVO, DA COORDENAÇÃO DE CIÊNCIAS DA TERRA E ECOLOGIA DO MUSEU GOELDI, ACREDITA QUE O ANO INTERNACIONAL DO SOLO, INSTITUÍDO PELA ONU E FAO, VAI GERAR GRANDES DISCUSSÕES SOBRE O TEMA EM FAVOR DA PRESERVAÇÃO DESSE RECURSO NATURAL TEXTO ABÍLIO DANTAS FOTO ROBERTA BRANDÃO


bre o ensino dessa ciência nas escolas. A senhora poderia nos dar um exemplo em relação ao aumento do conhecimento na área de estudos do solo? O Brasil melhorou muito a sua produção de alimentos com o surgimento da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), por exemplo. A formação da Embrapa foi um ponto fundamental para a melhoria da nossa relação com o solo e com a agricultura. Tanto que hoje ela tem escritórios em vários países do mundo e é muito importante para o desenvolvimento da África. Há uma relação entre áreas degradadas e países onde há grande pobreza. De que modo essa situação pode ser modificada? Em tudo sempre culpam a pobreza. Para mim, quem são culpados são os governos. Existem pesquisas em vários lugares do mundo, mas não são utilizadas para serem elaboradas políticas públicas. Principalmente em países subdesenvolvidos. Na Europa, observamos que são produzidos alimentos em pequenos ambientes, em estufas. Aqui, gastamos nosso solo colocando adubos, herbicidas e outros materiais, muitas vezes de forma inadequada. Os nossos produtos ficam caros. Para uma sociedade melhorar é preciso aplicar os conhecimentos de pesquisas em sua realidade. Para isso, precisamos também de pesquisas aplicadas. Muitas vezes fazemos modelos em laboratórios que não funcionam na prática. De que maneira o conhecimento das populações tradicionais da Amazônia são aplicados junto às pesquisas acadêmicas? Essa relação existe e foi por isso que nós evoluímos. Existe o conhecimento empírico que todos nós temos, pois somos todos oriundos do interior ou possuímos parentes que reencontra-

“Para uma sociedade melhorar é preciso aplicar os conhecimentos de pesquisas em sua realidade. Para isso, precisamos também de pesquisas aplicadas” mos quando voltamos lá. Muitos questionamentos das pesquisas surgem de coisas que vimos nesses lugares, nos quintais, nos sítios. Existe hoje, inclusive, proteção aos conhecimentos tradicionais. É muito importante fazer a prática de pesquisas com os pequenos ou grandes produtores pois são eles que vão produzir. É preciso unir o conhecimento tradicional ao conhecimento científico. A partir de sua experiência na Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia do Museu Emílio Goeldi, como é essa interdisciplinaridade nos estudos do solo? O solo é um compartimento no qual você pode fazer um trabalho realmente interdisciplinar. Você pode trabalhar com a Geologia, estudando a geoquímica dos solos para fazer pesquisa mineral, por exemplo. Você pode trabalhar com a agronomia, na questão da produção. Pode trabalhar também com a biodiversidade, tanto de organismos de fauna como de flora, pois o solo é o substrato onde fica a vegetação. Existe também a parte de geotécnica, que trabalha com

edificações. Hoje em dia trabalhamos muito com as variações de clima também para saber de que forma variam os atributos do solo de acordo com o clima. O solo possui micro-organismos que podem ser utilizados para fazer o controle da produção e desenvolver remédios, por exemplo. O solo é realmente rico e importante, daí a importância de preservá-lo, pois é onde você mora, onde você se diverte e onde você produz. Relembrando sua trajetória como pesquisadora, tanto em programas de pósgraduação como em seu trabalho no Museu Goeldi, que estudo em específico a senhora destacaria? Principalmente os estudos de indicadores de recuperação de áreas alteradas, como as de área de mineração. Hoje em dia já sabe-se que é possível recuperá-las. Já temos vários exemplos. Em Porto Trombetas, onde pesquisei no meu mestrado e no meu doutorado; em Paragominas, que é também um lugar onde está havendo recuperação após a mineração. Há também os trabalhos em Aurora do Pará, Bragança e Tailândia, com reflorestamento, isso apenas para exemplificar trabalhos com sistemas agroflorestais, que deram excelentes resultados no nordeste paraense. Foram utilizadas técnicas de manejo de solo que servem também para o pequeno agricultor. Eu trabalho especificamente com a parte de indicadores da qualidade de solo que mostram que a técnica dá certo, que é viável assim como técnicas de reflorestamento com o paricá, que é uma espécie florestal utilizada em várias fazendas, de vários produtores. Acredito que os meus trabalhos, assim como os de muitos pesquisadores que trabalharam com solos alterados, mostraram que o solo pode ser recuperado se bem manejado. Sobre o solo, assim como a água, que nós pensávamos que nunca teria um problema, vemos que se não for bem cuidado pode ser perdido. Mas acredito que tudo seja uma questão de manejo. A sociedade não se desenvolve se não unirmos a ciência com os produtores e as empresas. ABRIL DE 2015

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ASSUNTO DO MÊS

NA ROTA DA MANDIOCA MATÉRIA-PRIMA DE VÁRIOS ALIMENTOS CONSUMIDOS NA AMAZÔNIA, COMO A FARINHA E O TUCUPI, A MANDIOCA SE TORNOU A PROTAGONISTA DE UM ROTEIRO TURÍSTICO E GASTRONÔMICO PERCORRIDO EM 220 KM ENTRE BRAGANÇA E BELÉM TEXTO ADELAIDE TEIXEIRA

SANTA ISABEL DO PARÁ

BELÉM

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FEVEREIRO DE 2015


P

ercorrer o trajeto por onde passa a produção de um dos alimentos mais consumidos na Amazônia como a mandioca pode, num primeiro momento, parecer sem atrativos ou mesmo monótono para quem procura um roteiro turístico na região. Além do que, para alguns moradores do Sul e Sudeste do país, a “Amazônia” se restringe, muitas vezes, ao Estado do Amazonas, com uma extensão geográfica suficientemente grande para ocupar o imaginário das pessoas diante da biodiversidade tropical deste lado do Brasil. Assim também pensava o produtor de turismo Ricardo Frugoli antes de botar os pés em terras

paraenses. Esteve em Belém por acaso, há mais de dez anos e, desde então, sua relação com a cidade e a Amazônia é cada vez mais intensa. Ele visita a capital paraense de quatro a cinco vezes por ano e é considerado “Cidadão Paraense” pelo governo estadual, devido alguns anos de trabalho na propagação da cultura da região Brasil afora. Hoje, Ricardo é formado em gastronomia. É também chef de cozinha, pesquisador e mestre em Hospitalidade, com foco em cozinha paraense. Com o crescimento desse setor na região, o país volta o olhar para as tradições gastronômicas do Pará, conhecendo melhor nossos valores culturais através do que somos e comemos.

AUGUSTO CORRÊA

BRAGANÇA

MARÇO DE 2015

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HELY PAMPLONA

E foi com a ideia de trabalhar a cultura de comida e sua valorização histórica que Ricardo idealizou os chamados “Roteiros Gastronômicos”. O trajeto turístico e gastronômico pelo Pará compreende as cidades de Bragança e Belém e é chamado de “Rota da Mandioca”. Segundo Ricardo Frugoli, o objetivo da viagem é fazer com que as pessoas reconheçam a importância do alimento, fundamental para o desenvolvimento histórico do país. O trajeto foi pensado a partir do processo de produção da mandioca, desde a sua colheita até a fabricação de produtos finais como a farinha e a tapioca. E, por entre estradas, furos de florestas e rios, personagens surgem com suas histórias de vida, experiências e tradições, espalhando uma espécie de encanto que toma conta da viagem. Para começar, a cidade de Bragança oferece uma experiência única de patrimônio histórico e sabores tradicionais. São 220 km de distância da capital do Estado, percorridos pelas BRs 316 e 308 em • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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quase três horas de viagem. Mas para fazer a Rota da Mandioca o turista precisa de cinco dias para conhecer todo o roteiro. Além de possuir a “farinha de Bragança”, a mais famosa da região, o município tem uma culinária baseada na agricultura familiar e na produção artesanal, que vão desde a comida caipira até a fabricação de panelas e outros utensílios de cerâmica. É também o maior polo pesqueiro do Pará, com foco na exportação e no fortalecimento econômico. Para falar melhor sobre a comida bragantina e sua forte relação com a mandioca, um dos chefs da cidade envolvidos no projeto da Rota da Mandioca, Valfir Ribeiro, recebe os turistas em seu pequeno e charmoso restaurante. Um jantar em forma de degustação é servido para um melhor entendimento dos sabores típicos da cidade: chouriço PAIXÃO PELA CULINÁRIA

O gastrólogo e chef de cozinha Ricardo Frugoli seca a massa da mandioca em um tipiti. Ele idealizou um roteiro gastronômico saindo de Bragança até Belém.

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ASSUNTO DO MÊS


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CARACTERÍSTICA DE UM LUGAR

A farinha de Bragança, fonte de renda para muitos feirantes do município, é tão famosa quanto produtos típicos do Pará, como o açaí e a maniçoba

ENCONTROS

A importância de envolver a comunidade destacando seu papel na produção tradicional é vital para a sobrevivência da cultura não só de Bragança, mas da região amazônica com suas florestas, povos e biodiversidade. É possível ver essa riqueza no olhar dos feirantes, dos vendedores de peixes e de farinhas. Cada história é contada com o preciosismo de quem remete a uma lembrança ou a uma breve emoção. Em certo momento da viagem, saindo um pouco de Bragança, uma

estrada de terra batida leva o visitante à casa de Benedito Batista da Silva, de 74 anos, o Seu Bené. Ou melhor, “O Professor da Farinha”. “Aquilo que Deus lhe dá tem seu tempo”, repete Bené. Hoje, ele é um dos mais conhecidos produtores da farinha de Bragança. “Deixa eu lhe explicar”, inicia o agricultor com ar professoral ao contar sua história, que passa pelo campo onde nasceu, saindo de Belém até a Itália, o maior acontecimento de sua vida. Em 2006, Seu Bené participou do Terra Madre, evento italiano de gastronomia que reúne pequenos produtores de todo o mundo. Sua farinha e o modo peculiar como a embala, coberta com folhas finas e palha de guarumã, transformou o produto em um “food designer”, que carrega não só o alimento, mas toda uma simbologia histórico-alimentar. Além do reconhecimento conquistado com a viagem, Seu Bené coleciona vários fregueses de diversas classes sociais. Com um modesto retorno financeiro graças à sua produção, já melhorou a casa de farinhas e sustenta a família com tranquilidade. O encontro dos visitantes com pessoas como ele desperta para a consciência da valorização da história da sociedade amazônica. São muitos “Benés” que

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bragantino, galinha carijó e, é claro, a farinha em todos os tipos, seja grossa, fina, seca ou lavada. É interessante perceber a relação que Valfir estabelece entre alimento e visitante, o que reflete a maneira como são conduzidas a economia e a cultura em Bragança. A mandioca é fortemente cultivada como produto de venda e consumo e não se limita apenas à feitura de farinhas, mas constitui parte fundamental de todo um processo econômico. Ao se visitar o mercado municipal é possível entender melhor a realidade local de acordo com sua produção alimentar. E a mandioca está lá, na tapioquinha, no bolo de macaxeira, no beiju e no mingau de carimã.

DE BRAGANÇA PARA O MUNDO

Seu Bené participou do festival gastronômico Terra Madre, na Itália, em 2006. O produtor alavancou sua modesta produção e hoje é conhecido como o “Professor da Farinha”.

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ASSUNTO DO MÊS

LABUTA DIÁRIA NA CASA DE FARINHA

Carmem Lucia Alves mora na Vila Camutá, nordeste paraense. Com uma produção tradicional, também faz tapioca e tucupi para a subsistência da família.

merecem reconhecimento para que possam, um dia, ter melhores condições de vida e de trabalho.

NA FAZENDA

Antes de se despedir de Bragança, os turistas da Rota da Mandioca ainda fazem algumas visitas pelos arredores da cidade, uma delas na Fazenda Bacuri, com mais de 50 hectares de manejo da fruta que dá nome ao local. Teresinha Osaki, neta dos fundadores da fazenda e à frente do

empreendimento, dedicou anos ao estudo de engenharia florestal para chegar a alternativas sustentáveis de extração e rentabilidade do produto. A fazenda possui a primeira fábrica artesanal de produtos derivados do bacuri do Estado. Além da polpa da fruta, trabalha com uma produção variada de doces, geleias e licores, oferecidos como degustação aos visitantes e representam o “carro-chefe” de comercialização da fazenda. O trabalho

consciente de produção sustentável também torna a Fazenda Bacuri referência no turismo ecológico e representa um grande exemplo de empreendimento sustentável e em larga escala, dentro da agricultura familiar. O caminho de volta à capital paraense também reserva outras paradas interessantes, como a casa de farinhas de Carmem Lucia Alves, de 45 anos, localizada em Camutá. A comunidade fica à beira de um igarapé, utiliza-

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CULTIVO TRADICIONAL

Nas primeiras horas do dia, Carmem Alves vai ao igarapé onde as raízes da mandioca “descansam” de molho antes de serem prensadas para virarem farinha

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VÁRIOS APRENDIZADOS

Os turistas que fazem a Rota da Mandioca visitam locais importantes do roteiro, como o mercado do Ver-o-Peso e uma fábrica de tucupi. A troca de experiências entre culturas tão diferentes é enriquecedora. RODRIGO JOSÉ / DIVULGAÇÃO

do especialmente para a produção da mandioca. “Quem manda aqui é ela”, adverte a produtora da Vila Camutá. É nas águas correntes do igarapé que a raiz descansa, de três a cinco dias, antes de ser prensada e “machucada” para virar farinha. Diferentemente de Seu Bené, Carmem tem uma produção mais variada e tradicional. Trabalha com farinha e também com o tucupi e a tapioca. Em cada momento de sua produção, a agricultora tem o olhar atento, cauteloso e divide as tarefas com o marido. Seu trabalho também foi foco de um projeto artístico cultural chamado “Senhora Raiz”, idealizado pela fotógrafa paraense Walda Marques, e que fez o registro da forte presença feminina sob a agricultura familiar e sua relação com o alimento na Amazônia.

PARA A CAPITAL

Um povo que se transforma e se refaz construindo sua vida em torno da cultura da comida, com base na agricultura familiar, na venda, no consumo e na tradição alimentar. Esse é o maior legado que se leva da charmosa cidade de Bragança, além do entendimento socioeconômico do quanto a mandioca é importante para o progresso da região. Já os paraenses da capital, envolvidos

em um cotidiano mais urbano, podem, muitas vezes, esquecerem-se da importante relação com a natureza amazônica e seus ingredientes singulares. Também são íntimos da tapioca, do tucupi, da farinha, à mesa em todos os momentos. É coadjuvante, mas também protagonista de uma história. Sua participação na economia é indispensável na geração de empregos e renda familiar, além de fortalecer o comércio de serviços. Na Rota da Mandioca, ao passar por plantações, fazendas, furos e igarapés, se entende os vários processos produtivos do alimento, dos mais tradicionais aos mais modernos feitos em larga escala. Com isso, histórias de pessoas se misturam com as da raiz. Na estrada rumo a Belém é feita uma parada na Fazenda Vovó da Floresta, em São Francisco do Itá, um pequeno vilarejo em Santa Isabel do Pará, a 45 km da capital. É lá que fica uma das mais famosas fábricas de tucupi e a única de produção industrial em larga escala, de forma orgânica e natural, sob o comando de Nelson Calderaro da Silva, de 64 anos, fundador do empreendimento. A ideia veio após comprar o terreno que, antes, servira apenas como lazer e moradia. Quando percebeu o aumento na produção e na comercialização da mandioca, ainda nos anos 80, resolveu arriscar na

ALTA PRODUÇÃO

O cultivo da mandioca faz crescer a economia do Estado

PRODUÇÃO PRODUÇÃO DEMANDIOCA MANDIOCA DE PORREGIÃO REGIÃO POR

NORDESTE 26,12%

NORTE 32,20%

SUDESTE 11,76% CENTROOESTE 5,66%

ESTADOS ESTADOS PRODUTORES PRODUTORES DEMANDIOCA MANDIOCA DE

SUL 24,26%

SP 5,88% MA 6,64% BA 9,55%

OUTROS 41,11%

PR 16,79%

PA 20,04%

De acordo com a Embrapa, o Pará está em 1º LUGAR na produção de mandioca do Brasil, com 4.617.543 toneladas ao ano. O rendimento da produção em 2012, EM MÉDIA, chegou a 15.300 TONELADAS POR HECTARE. Em segundo e terceiro lugar vêm os estados do Paraná e da Bahia, com 24.300 t/ha e 9.900 t/ha, respectivamente. A REGIÃO NORTE participa com 32,20% da produção nacional da mandioca FONTE: EMBRAPA/ IBGE - PRODUÇÃO AGRÍCOLA MUNICIPAL 2012

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ASSUNTO DO MÊS

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DIVERSIDADE DE SABORES

Da maniva feita das folhas da mandioca no Ver-o-Peso ao chocolate produzido na ilha do Combu, os visitantes do roteiro gastronômico no Pará vivenciam uma experiência única ao entrar em contato com a culinária do Estado

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fabricação dos derivados da mandioca. O principal produto da fábrica de Nelson é o tucupi. Mas na sua plantação, que rende em média 33 toneladas de raiz de mandioca por safra, também aproveita os derivados para a comercialização de farinhas de todos os tipos e da pimenta-decheiro, que são distribuídas com o tucupi na maioria das redes de supermercados em Belém. “Tudo natural e orgânico”, reforça Nelson. O sistema mecanizado de sua fábrica permite a padronização do produto, sendo, até o momento, o único que comercializa o tucupi dessa maneira no local. Já em Belém, os visitantes conhecem as barracas espalhadas nos bairros da cidade, com a venda de tucupi e do tradicional tacacá. Mas é no Ver-o-Peso que os turistas se esbaldam com a profusão de cores e sabores da Amazônia. O mercado é apresentado com detalhes para os turistas, que vão desde a ala de verduras, frutas e comidas até a seção de mandingas, perfumes e patuás. A erveira Dona Carmelita ensina a tomar água de urucum para emagrecer, enquanto Dona Culó vende seus perfumes da sorte e amuletos de proteção. O olhar alegre e receptivo de cada vendedor reforça aos visitantes a ideia de que Belém tem mesmo um povo receptivo e caloroso, assim como as altas temperaturas do verão amazônico. Valores como hospitalidade, alegria e receptivi-

dade nas relações humanas constituem um ponto alto no turismo da região. Na Rota da Mandioca, os turistas são incentivados a preparar um tradicional “Almoço do Círio”. Para isso, contam com o auxílio de algum morador de Belém, que abra suas portas para a experiência gastronômica. Segundo o chef Ricardo Frugoli, que acompanha todos os momentos da viagem, o objetivo de levar os participantes à cozinha é para que possam aplicar os conhecimentos adquiridos sobre cada ingrediente, entendendo ainda mais sobre a cultura e a emoção envolvidas na culinária típica da Amazônia. Depois de alguns jantares para degustações de pratos gourmet, visitas aos principais pontos turísticos, experiências na cozinha e o contato direto com os sabores do Pará, os participantes da rota fortalecem ainda mais a ideia de que a região possui, sim, uma infinidade de sabores únicos e uma das melhores cozinhas típicas do Brasil.

A DESPEDIDA

A Rota da Mandioca inicia sua despedida na Ilha dos Papagaios, do lado insular de Belém, logo ao amanhecer. A saída programada às 4h30 é para dar a oportunidade aos visitantes de presenciar a revoada dos pássaros à beira do rio Guamá. Um espetáculo da natureza à parte, que fica marcado na memória das pessoas que chegam até ali. Um ótimo começo para o fim. Após assistirem ao voo do papagaios, os participantes


GUY VELOSO / DIVULGAÇÃO

tomam café da manhã na Ilha do Combu e conhecem um pouco mais sobre aquele outro lado de Belém, tão perto mas tão distante em sua realidade ribeirinha. Visita-se a pequena fábrica de chocolates de Nena dos Santos Costa, que trabalha com a produção de cacau orgânico e vem ganhando visibilidade no comércio de Belém. Nena começou a vender as sementes do cacau, depois o fruto e hoje distribui também os chocolates. São 300 kg de semente por safra de cacau, o suficiente para o controle do comércio de produção e venda dos produtos. Para quem trilha os 220 km da Rota da Mandioca, os dias se enriquecem de informações, histórias, culturas de diferentes tipos e sabores únicos, que ficam marcados na memória de cada turista que participa da viagem. O pesquisador Câmara Cascudo já dizia que “a mandioca é a rainha do Brasil”. Para os amazônicos, é rainha e mãe de sustento. Reconhecer sua participação em toda a região é indispensável para a valorização e proteção da natureza, tão próxima e necessária para a permanência de toda a cadeia histórico-produtiva. A Rota da Mandioca cumpre sua missão didática, promove o turismo ecoflorestal e reforça o status de que o Pará é uma das principais capitais da gastronomia do País. Uma viagem indispensável aos amazônidas, demais brasileiros, historiadores, estudantes de culinária e curiosos em busca de um passeio cultural rico em lazer e diversidade. Reconhecer esse elo com a natureza, a importância de cada prato e o sabor de quem vive e produz na Amazônia é, sem dúvida, o melhor gosto que se pode levar da viagem. DOCE LEMBRANÇA

O passeio de barco sob o voo dos papagaios ao final da Rota da Mandioca sela a viagem gastronômica pelo Pará que não pode ser esquecida

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RONALDO ROSA/ EMBRAPA / DIVULGAÇÃO

COMPORTAMENTO SUSTENTÁVEL

PELOS CAMPOS VERDEJANTES O PROJETO BIOMAS AJUDA A RECUPERAR ÁREAS DEGRADADAS PELO PASTO NO SUDESTE PARAENSE COM A IMPLANTAÇÃO DE UM SISTEMA EM QUE PRODUTORES RURAIS CONTRIBUEM COM A PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE TEXTO FABRÍCIO QUEIROZ

E

m 1991, o paulista Walter Müller chegava ao Pará como mais um comerciante em busca das nobres e valiosas madeiras da região. A atividade era lucrativa e sempre teve um bom mercado, mas logo ele apostou em um segmento que vinha crescendo e hoje é um dos mais importantes da economia local: a pecuária. As grandes áreas disponíveis na região sempre foram um atrativo para este setor que • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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ainda hoje utiliza pastos para a produção do gado. Porém, com uso extensivo da atividade, o solo tende a ficar sem nutrientes e a produtividade reduz, o que leva os produtores a buscarem outras áreas, aumentando uma exploração desorientada desses recursos. Em São Domingos do Araguaia, sudeste paraense, Walter Müller testemunha as mudanças que o ambiente vem sofrendo. “O solo é vivo, por isso ele se cansa como

é o caso das nossas pastagens implantadas onde era floresta e a madeira comercial foi sendo subtraída. O restante foi queimado, se plantava as gramíneas e tinha um pasto lindo e produtivo. Hoje, com mais de 30 anos de atividade pecuária, o solo já está cansado, não produz mais o mesmo volume que antes. O segmento vai se inviabilizando economicamente”, diz. Aliado a essa realidade, os produtores rurais passam ainda por um período de


FOTOS: RONALDO ROSA/ EMBRAPA / DIVULGAÇÃO

adaptação devido às novas diretrizes aprovadas no Código Florestal Brasileiro, reformulado em 2012. A lei institui as formas que o território pode ser explorado e quanto deve ser preservado com base nos diferentes ecossistemas. Na Amazônia, por exemplo, a determinação é de que a área destinada à produção não pode ultrapassar os 20%, sendo os demais 80% componentes da Área de Reserva Legal (ARL). Em busca de alternativas para conciliar preservação ambiental e produtividade, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) atuam desde 2010 em parceria para a execução do Projeto Biomas, iniciativa que reúne mais de 300 pesquisadores e profissionais em estudos nos seis biomas brasileiros. Um dos objetivos é avaliar a inserção de espécies arbóreas nas propriedades rurais seja como recurso para uso econômico ou como item importante para a conservação nas ARLs e Áreas de Preservação Permanente (APP). Na região amazônica, o Biomas chegou há pouco mais de dois anos e está instalado em uma área experimental de cerca de 30 hectares na Fazenda Cristalina, propriedade de Walter Müller em São Domingos do Araguaia. Lá, 22 subprojetos são realizados, grande parte dedicados a recomposição das ARLs, um dos grandes entraves à regularização das propriedades rurais na Amazônia, como explica Alexandre Mehl, pesquisador em Entomologia Florestal da Embrapa e coordenador do projeto na região. Nesse sentido, uma das ações desenvolvidas é o plantio de espécies típicas e de grande valor, como ipê, ingá, mogno, castanheira, fava, além de espécies frutíferas que também podem servir como fonte alternativa de renda. “Almejamos mostrar que as ARLs podem e devem ser usadas do ponto de vista econômico e, também, de recuperação de área”, afirma. Em 2014, foram plantadas mais de 15 mil mudas e apenas nos meses de janeiro e fevereiro deste ano foram mais 11.500.

TERRENO FÉRTIL

O pesquisador Alexandre Mehl e o produtor rural Walter Müller apostam na recuperação vegetal em São Domingos do Araguaia, sudeste paraense a partir do projeto Biomas

Da mesma forma, o Biomas também analisa formas de recuperar as APPs, locais importantes para a biodiversidade como nascentes de rios ou, ainda, morros e encostas, passíveis de erosões e deslizamentos. Segundo Alexandre Mehl, a preservação desses locais trará ganhos para os moradores e para toda a região. “Acredito que a

importância dessas ações consiste nos serviços ambientais que os produtores podem conseguir adotando algumas propostas do projeto. A qualidade da água, por exemplo, é o serviço mais evidente: com a recuperação de matas ciliares. Atualmente removidas para proporcionarem meras áreas de bebedouro para gado, as fontes desse recurso ganham em qualidade e quantidade”. ABRIL DE 2015

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COMPORTAMENTO SUSTENTÁVEL

Cerrado, Pantanal, Caatinga, Pampa, Mata Atlântica e Amazônia são descritos como os seis biomas brasileiros, ou seja, conjuntos de ecossistemas relativamente homogêneos em si devido a relação única estabelecida entre a fauna e a flora e os recursos como a água, o ar e o solo. As particularidades do ambiente provocam tanto características quanto usos diferenciados dos recursos naturais, o que é um fator importante a ser considerado em intervenções em cada território. Assim, nas áreas dedicadas ao estudo dos sistemas de produção, o Biomas Amazônia analisa experiências com sistemas agroflorestais (SAFs) e outras atividades que podem ser integradas à economia já existente na região. Um exemplo é a proposição de um sub-projeto com o sistema integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Desta forma, é possível aliar a produção animal com a agricultura e a exploração de recursos madeireiros ou florestais. O projeto ainda está no começo, já que visa a um plano de execução para os próximos nove anos, mas o produtor Walter Müller diz ver com bons olhos todo o trabalho realizado. E já aposta no que pode ser uma solução viável e sustentável para seu negócio, o ILPF. “Todas são boas, mas a que mais me chama a atenção e ILPF. Vejo aí o meu futuro”, vaticina. Para Müller, os projetos de pesquisa promovem um apoio cada vez mais necessário aos produtores locais. “O potencial da Amazônia é muito grande e tem muita coisa ainda a ser descoberta e explorada com consciência e respeito ao meio ambiente. Para o desenvolvimento do setor rural nós precisamos de respostas dos pesquisadores para investir na produção a mais certa possível. Ai que entra a Embrapa • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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RONALDO ROSA/ EMBRAPA / DIVULGAÇÃO

PRODUTIVIDADE

“As ARLs podem e devem ser usadas do ponto de vista econômico e também de recuperação de área” ALEXANDRE MEHL Pesquisador da Embrapa

e outros centros de pesquisa para nos ajudar a resolver os problemas e apontar soluções economicamente viáveis para que continuemos produzindo na Amazônia”, defende o pecuarista. Alexandre Mehl destaca o interesse e a parceria promissora que o Biomas tem com a Fazenda Cristalina, que inclusive cedeu áreas adicionais para a execução de novos subprojetos. Além disso, o pesquisador lembra o trabalho de outras instituições como a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal

Rural da Amazônia (Ufra) e Universidade Federal de Rondônia (Unir), que possibilitam ao projeto superar as dificuldades logísticas e de material na região. Realista, Mehl lembra sempre que há ainda muitas etapas a serem realizadas. Otimista, acredita que o Biomas Amazônia terá contribuições a mostrar sobre a realidade rural da região. “O projeto terá condições de afirmar se os parâmetros estabelecidos por lei atendem aos requisitos necessários para a recuperação e adequação de uma determinada área, propriedade, região”, opina o pesquisador.


MUDANÇADEATITUDE DIVULGAÇÃO

ALEXANDRE MORAES / DIVULGAÇÃO

BONS EXEMPLOS

SEJA UM VOLUNTÁRIO VOCÊ TAMBÉM A vida corre apertada todos os dias, a agenda sufoca e as contas vencem: o tempo é precioso. Mas algumas horas por semana

Espaço para se sentir bem Dar um tempo na correria e descansar o corpo e a mente, entre uma aula e outra, no fim do expediente. Ou simplesmente contemplar o fim de tarde. Isso é possível para estudantes e comunidade no meio do bairro do Guamá, dentro do campus da Universidade Federal do Pará, no Espaço ITEC Cidadão. Criado em março de 2011 com o objetivo de revitalizar os bosques Camilo Viana e Benito Calzavara, assim como a orla do rio Tucunduba, onde fica localizado, o projeto cumpriu de início a função de estimular a comunidade acadêmica a sair das salas de aula e realizar práticas de ensino e extensão em áreas abertas. Gina Calzavara, coordenadora do espaço, disse que “incentivar professores e alunos a criarem projetos envolvendo questões de compromisso ambiental e social, refle-

tindo sobre a construção de uma universidade solidária e sustentável é papel fundamental de qualquer instituição pública. Além do mais, o Espaço provoca a melhoria da qualidade de vida, a partir do contato com a natureza”. O mais importante, no entanto, é que no Espaço ITEC Cidadão, tudo é feito por doações e com materiais reciclados e trabalho voluntário. E não se restringe só aos acadêmicos. O acesso da comunidade do entorno da instituição é totalmente livre, em todas as atividades. O local dispõe de mesas que podem ser usadas para estudar, uma pequena biblioteca, hortas de verduras, espaço para prática de esporte e até apresentações musicais. Programações específicas ou visitações de escolas públicas são comuns por lá, bastando fazer um agenda-

mento prévio da atividade. Gina conta que cada vez mais os estudantes pedem aos professores para que deem aulas nos bosques sustentáveis, e acabam se tornando voluntários, construindo canteiros ou produzindo mudas. A ideia deu tão certo que hoje é exemplo para outros locais. “Escolas têm procurado os bosques sustentáveis pedindo nosso apoio para realizarem experiências semelhantes em seus ambientes”, diz. Despertar a consciência coletiva e ambiental é o pilar do Espaço ITEC Cidadão. Porém, mais do que isso, é uma forma de aproximar a Universidade da sociedade, mostrando que as boas práticas devem ser estimuladas. “O que é descartado por alguém pode ser justamente o que outra pessoa precisa para realizar seu trabalho”, diz Gina Calzavara.

podiam ser doadas ao outro, o que poderia proporcionar um bem-estar que você jamais vivenciou. Mais do que isso. Ser voluntário durante uma ou duas horas em uma associação de bairro, abrigo ou ONG pode ser a sua contribuição à comunidade. “Pensar que fomentar benesses sociais, econômicas, educacionais, culturais, de saúde e tantas outras é de responsabilidade de governos e secretarias está felizmente ultrapassado”, diz o ator, dramaturgo e diretor teatral Hudson Andrade. É hora de compartilhar responsabilidades com o Estado. “Há inúmeros relatos de pessoas que pelo simples acolhimento de suas dificuldades e demandas passam a ter uma atitude mais positiva diante da vida”, observa Hudson, que é instrutor teatral no Lar de Maria, abrigo para idosos e crianças abandonadas. Do outro lado da troca, para quem se torna voluntário, também há ganhos. “Toda ação no bem é revertida primeiramente para aquele que a pratica”, garante Hudson. E mais: “Aliviar dores e sofrimentos nos ensina a ver a vida em sua realidade. Respeitar o outro nos dá a verdadeira noção do que é o amor. E assim nos tornamos seres mais humanos”. Uma vida mais equilibrada também reside em compartilhar um pouco de si ao próximo. Por que ser voluntário? “Porque o mundo precisa de ação. Usamos demais o cérebro. Mas o melhor da existência é fazer. Por si. Pelo outro”, afirma Hudson.

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VIDA EM COMUNIDADE

ENSINANDO A PESCAR JOVENS DA CASA ESCOLA DA PESCA, EM OUTEIRO, DESCOBREM NA ATIVIDADE PESQUEIRA A IMPORTÂNCIA DA AQUICULTURA PARA A SOCIEDADE AMAZÔNICA

APRENDIZADO

Os alunos do curso para Técnico em Recursos Pesqueiros aprendem técnicas artesanais de trabalho, como a construção de matapis para a captura de camarões

TEXTO SÁVIO OLIVEIRA FOTOS CARLOS BORGES

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reme de pentear no cabelo, brinco de pérola na orelha esquerda, camisa preta de nylon e calça jeans. Bracelete de aço inox de um lado e no outro pulso, linhas tecidas nas cores do reggae. Nas mãos, uma palheta e uma agulha. Enquanto os dedos medem a distância fixa entre espaços do fio de malha com a palheta, a agulha serve para trançar e formar a tarrafa, uma espécie de rede circular para captura de peixes. E o olhar baixo de Marcos Vinícius se mantém fixo na finalização da peça, durante a aula de Confecção de Apetrechos, da Casa Escola da Pesca, lo-

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calizada à margem do rio Maguari, Ilha de Caratatuea, em Outeiro, distrito de Belém. Com a tarefa pronta, Marcos Vinícius, estudante do último ano do Ensino Médio, se posiciona no degrau da escada do trapiche e põe um dos pesos de madeira, que são amarrados ao redor da tarrafa para fazê-la afundar mais rápido, na boca do rio. Em seguida, estica o braços, aumentando a envergadura da rede. Sob as sombras da árvores que emergem do mangue, ele joga a tarrafa no rio. O jovem pescador captura um tucunaré com cerca de 20 cm. Exibe o peixe para a turma, posa para foto, devolve

o animal ao rio e retorna à sala de aula. Teoria acadêmica e prática cotidiana em pesca e aquicultura que atende mais de 100 pessoas da Região Metropolitana de Belém. Vinculada à Fundação Escola Bosque, a Casa Escola da Pesca, fundada em 17 de abril de 2008, atua com Educação de Jovens e Adultos (EJA), desenvolvendo um método de Pedagogia da Alternância, no Ensino Fundamental e Médio. A organização se dá da seguinte forma: 15 dias de aulas presenciais, em tempo integral, e mais 15 dias a distância, aplicando projetos ou plano de estudos no local ou comunidade em


que moram. Nesse período, também são realizadas visitas por coordenadores e professores a residências, além de visitas técnicas a fábricas ou empresas, vivências comunitárias e estágios supervisionados. Ao final do curso, a formação é de Técnico em Recursos Pesqueiros. Em regime de semi-internato, a escola lembra um retiro educacional, com um casarão de madeira e telhado de barro ao centro, com biblioteca e sala de reunião. Alojamentos masculino e feminino separados, com camas beliche e guarda-roupas. Laboratório de tecnologia do pescado, um tanque para piscicultura e um trapiche de madeira, em meio a bastante árvores e animais. O dia inicia-se com o café da manhã. Depois, as turmas caminham para as salas as aulas, onde convivem com peixes e camarões embalsamados em formol. Ao final da manhã, o almoço é servido em grandes mesas de madeira, ao lado do casarão principal. No intervalo, há uma pausa para tirar a sesta, uma disputa de pingue-pongue descontraída ou um programinha na televisão para distrair. Após o descanso, vem o retorno às aulas, até o fim de tarde e depois o jantar. “No início todo mundo quer ir embora por causa do tempo, mas quando passa o período de adaptação, das quinzenas, a gente vai se conhecendo e se transformando em uma família. Após tantas aulas, o cheiro do peixe vai impregnando no nosso corpo”, brinca André Luiz, um dos estudantes mais antigos da Casa Escola e principal motivador das atividades extracurriculares, como a dança de rua, a capoeira e quadrilha junina. Para ele, o contato diário com o pescado é essencial para a aprendizagem e acompanhamento dos sistemas aquáticos e recursos pesqueiros. “Cada módulo presencial tem uma

quantidade de disciplinas básicas e específicas, que vão se afunilando com o decorrer do curso. No módulo atual, por exemplo, temos biologia aquática e pesqueira, em que os alunos irão conhecer a estrutura morfológica e fisiológica das espécies. Com isso, ele vai entender o funcionamento do ambiente natural e em cativeiro”, explica a professora Vera Lúcia. “O curso dá ênfase à animais que tenham importância social e econômica, como o tambaqui, o camarão regional, o camarão rosa e o caranguejo. Conforme o curso avança, estudaremos espécies com tecnologia para cultivo, como peixes, crustáceos ou moluscos”, completa.

PROCEDIMENTO

A vida pesqueira começa com a criação e povoamento dos alevinos, minúsculos peixes recém saídos dos ovos. Eles serão colocados em dois tanques cavados no chão, no quintal da Casa Escola da Pesca, dando início ao processo de piscicultura. Antes é preciso desinfeccionar os viveiros com a calenagem, aplicação de cal para eliminar bactérias e microorganismos. Após isso, começa a alevinagem, processo de criação e engorda, quando os tambaquis e cuiramatãs, espécies cultivadas, irão crescer até um

LANÇAI AS REDES

Os jovens que participam do curso aprendem todas as etapas da atividade pesqueira, desde o manuseio de tarrafas até o cultivo das espécies

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VIDA EM COMUNIDADE

“Como a nossa principal matériaprima é o peixe, nós buscamos fazer o uso integral dele” KATIÚSCIA BITTENCOURT

PROFESSORA DE BIOLGOGIA DA CASA ESCOLA DA PESCA

BOA PESCARIA

quilo no decorrer de doze meses e estarão prontas para o consumo. Enquanto os alevinos não crescem, os estudantes ficam em sala de aula para apresentar seminários e conhecer anatomia dos peixes, ecossistemas e a relação que existe entre rio e comunidade, na aula de Morfologia Aquática. Segundo a professora de biologia Katiúscia Bittencourt a educação ambiental aplicada abrange bem mais do que o funcionamento do ecossistema debaixo d’água. “Quando é feita a fritura do peixe, o óleo que é utilizado é guardado para ser transformado em sabão. Antes ele era desperdiçado no ralo da pia e contaminava

No curso, os alunos também aprendem a preparar a carne dos peixes para a venda e consumo. Jovens como Marcus Vinícius têm mudado de vida através da Escola Casa da Pesca.

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o nosso rio Maguari. Agora, nós começamos a utilizar esse óleo da cozinha, que é reciclado na lavagem das dependências, louças e roupas. A aula prática é estimulante porque instiga esse tipo de pesquisa e manejo. Como a nossa principal matéria-prima é o peixe, nós buscamos fazer o uso integral dele”, explica. Além do sabão de cozinha feito com óleo de soja, o Laboratório de Tecnologia do Pescado também reaproveita o lixo da indústria pesqueira. Espinhas de peixe são raspadas e cortadas pelos estudantes e professores. Enquanto a massa de carne que resta é concentrada e temperada para a produção de polpa, croquete ou hambúrguer

de peixe, a espinha é triturada para ser utilizada como composto orgânico, na futura horta que será cultivada no quintal da Casa Escola de Pesca. “Nós trabalhamos para que a formação escolar ofereça maturidade no conhecimento da importância da pesca e da aquicultura para a sociedade em geral e a comunidade envolvida de forma mais próxima, como ribeirinhos, que têm estreita relação com esses recursos naturais. E a maior parte dos nossos estudantes são moradores das regiões de ilhas”, afirma a professora Vera Lúcia, em uma conversa após um almoço composto de salada tropical e camarão regional.


ARTE, CULTURA E REFLEXÃO DIVULGAÇÃO

PENSELIMPO

AO SOM

DOS BEATS O ARTISTA JALOO CONQUISTA O ESPAÇO MUSICAL COM REMIXES E OUSADAS CRIAÇÕES FEITAS NO COMPUTADOR

PÁGINA 54

QUADRINHOS O desenhista Otoniel Oliveira e o historiador Petrônio Medeiros criaram uma HQ cujo personagem é um banco de praça. PÁG. 58

BOTÂNICA O paulista João Murça Pires foi um pesquisador que se aventurou na floresta amazônica para descobrir novas espécies. PÁG.60

PESQUISA A região amazônica ainda tem muitas áreas que carecem de estudos aplicados e investimentos na formação de doutores. PÁG.66

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DEDO DE PROSA

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UM DOS NOMES MAIS PROMISSORES DA ATUAL MÚSICA PARAENSE, JAIME MELO, O JALOO, SAIU DE CASTANHAL PARA CONQUISTAR UM SÉQUITO DE ADMIRADORES PAÍS AFORA. AO GANHAR O MUNDO ATRAVÉS DA INTERNET FAZENDO, POR CONTA PRÓPRIA, REMIXES COM UMA PEGADA DE TECNOBREGA PARA HITS COMO “BACK TO BLACK”, DE AMY WINEHOUSE, E “RUDY BOY”, DE RIHANNA, ALÉM DE GRAVAR A VERSÃO DE UM CLIPE DE “BABY”, DE CAETANO VELOSO, O ARTISTA COMEÇOU A CONSAGRAR SUA CARREIRA RUMO AO ESTRELATO. TEXTO BRUNO ROCHA FOTOS DIVULGAÇÃO

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DEDO DE PROSA

Jaime Melo e Jaloo... Onde começa um e termina o outro? Quer dizer, a gente pode falar que Jaloo é um personagem? Pode e não pode. Porque o dono dos dois ainda sou eu mesmo, entende? (risos). Mas vai de cada um. Eu sei que falo sobre o Jaloo na terceira pessoa, como estou fazendo agora, mas é mais para organizar as ideias na minha cabeça, que já não é muito boa. Então isso facilita mais as coisas. Como funcionou a parceria com o produtor musical Kassin no EP Insight, o seu primeiro autoral? Trabalhar com um selo conhecido muda alguma coisa do que você vinha fazendo antes? Antes de responder a pergunta, acho que é bom deixar uma coisa bem esclarecida: ainda me produzo. O que isso quer dizer? Quer dizer que, pelo menos, 90% do que vocês vão ouvir passou diretamente pelas minhas mãos. Eu fiquei feliz demais de ter o Kassin do meu lado, ouvindo, aconselhando e criando coisas para enriquecer meu disco, mas até os arranjos que gravamos juntos ele disse: “Toma! Recorta, filtra, faz o que você quiser” e foi o que eu fiz. Assinar com o selo StereoMono foi praticamente um processo de mixagem e masterização. Se ele foi o cara que pegou o som para trabalhar e confiou em mim. Em uma entrevista, o DJ Patife (DJ brasileiro de drum’n’bass) fala da diferença entre músico e DJ e diz não se considerar um músico. Você se sente um músico? DJ eu nunca fui! Não que não saiba animar uma festa, ou não seja um bom pesquisador musical, mas acho que pro cara ser DJ tem que ter muita entrega para esse tipo de performance e a minha en5 • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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trega está indo para um caminho bem diferente no momento. Outra coisa é que quem faz remixes não é DJ e nunca vai ser, confusão comum e motivo maior pelo qual começaram a me chamar de “DJ” há alguns anos. Quem faz isso é um produtor musical, alguém que cria, trabalho esse que também considero ser diferente de músico, que pode ser um compositor, mas também alguém que só lê partitura e toca razoavelmente bem. Então, acho que o melhor nome agora é artista mesmo, alguém que não é nenhum desses, mas todos ao mesmo tempo. Penso que é por aí. Você sempre quis ser um artista? Aliás, se considera um artista? E qual sua concepção de artista? Considero pra caramba! Mas tudo aconteceu naturalmente, não tem muita historinha de “canto e toco desde os 4 anos” ou “venho de família onde todo mundo é músico”, ou “tinha um piano na minha sala”. Não mesmo. Ganhei meu primeiro computador em 2006, tinha 18 anos já. Isso é bom para as pessoas sacarem que nunca é tarde. Me apaixonei por isso de fazer música, quando ouvi coisas interessantes e botei na cabeça que queria fazer aquilo também. Mas foi muito trampo, nada foi do dia para noite. Sobre a concepção de artista... Eu sou um cara que acompanha todos os processos, sempre botando a mão na massa junto com quem vai trabalhar comigo, em relação a tudo: visual, imagem, vídeos... Mas isso é a minha forma de trabalhar. Então quem sou eu para falar sobre concepção de artista? Você trabalha em muitas frentes, talvez até pela sua formação acadêmica em publicidade. Não é só música, é audiovisual, é esté-

DOWNTOWN

Confira uma das faixas do EP “Insight”, trabalho autoral da Jaloo

BABY

Aqui você pode assistir ao clipe da versão da música Baby, de Caetano Veloso, famosa na voz de Gal Costa

RUDE BOY

Outra versão feita por Jaloo, desta vez com um dos maiores sucessos da cantora Rihanna

“O legal é que quando as pessoas descobrem que sou daqui, ficam tipo: “Amazônia, uau!”, como se eu fosse um “pokémon”. Mas amo isso. Ser diferente e já amado de cara por isso me deixa feliz” tica e comportamento. Em algum momento isso gera crise, confusão? Como é que cada elemento compõe sua obra? Olha, estou pensando muito em procurar um analista, mas só vai rolar quando eu tiver uma grana, então...(risos). Cara, eu passo mal, sério. Está cada vez mais doido e complicado aguentar a pressão, principalmente sobre certas lições aprendidas nas escolhas artísticas que eu já fiz. Uma coisa que já aprendi é nunca mais deixar nada nas mãos de alguém, no que diz respeito ao meu trabalho, sempre vou sair mal resolvido dessas situações. Esse disco foi uma prova de fogo muito doida e ainda vem muita coisa por aí, mas já tinha aprendido essas lições quando entrei nessa, então foi bem mais fácil segurar a barra. E as pessoas que trabalham comigo hoje já conhecem meu modus operandi e todo mundo gosta, exatamente por ser assim. E essa coisa de ser amazônida no mundo da música. Conta um pouco da sua história.


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O legal é que quando as pessoas descobrem que sou daqui, ficam tipo: “Amazônia, uau!”, como se eu fosse um “pokémon” ou algo do tipo. Mas, cara, eu amo isso, amo demais. Ser diferente e já amado de cara por isso, me deixa feliz sim. Mas a “liga” é provar que o buraco é mais embaixo, que, no final, o que tenho a dizer é o que vale a pena. Tive amigos muito importantes na minha cidade (Castanhal), um deles, o Tárcio, me mostrou esse tipo de música que anseio. Também tem minha família, que é muito simples e cheia de valores e minha mãe, por exemplo, sempre falou que tudo que eu aprendesse era importante pra mim, era um tesouro que ninguém poderia me tirar e isso fez um bem incalculável na minha vida. Você vive um bom momento da carreira, sendo elogiado por grandes artistas e revistas especializadas. Você tem noção de onde quer

chegar com seu trabalho? No público (risos). Sério, eu amo saber que muita gente da música mesmo gosta do meu som, que a Rolling Stone listou minha música “Insight” entre as melhores do ano passado, que a Gal (Costa) mostrou meu cover de “Baby” pros amigos dela, mas eu quero que o público fale o que pensa também, que a música que eu faço viaje mais, chegue no máximo de ouvidos que eu puder fazer chegar. E esse ano vou fazer um “intensivão” pra que isso aconteça. O tecnobrega é um gênero aberto, que consegue incorporar informações por onde passa. Incomoda essa tentativa de tentar definir seu estilo? Incomoda muito, vocês nem imaginam. Pessoas não são rótulos e minha música também não. As facilidades técnicas são mesmo fundamentais? Qual sua relação com a tecnologia hoje?

Tudo que eu fiz foi graças a tecnologia, mas um violão de nylon é tecnologia, então isso não é exclusivo pro tipo de música que eu faço, mas me ajuda de inúmeras formas. Tutoriais na internet, por exemplo, salvam minha vida, 4shared e afins hospedam minhas produções, redes sociais divulgam e eu produzo no computador. Então, sou um cyborg?

UM CARA BEM DIFERENTE

Jaloo gosta de fazer pesquisas e experimentações sobre músicas e publicar na internet. Com isso, já conquistou fãs e despertou a atenção de renomadas gravadoras.

Você gosta de São Paulo? Se mudou definitivamente pra cidade ou pretende voltar ao Pará um dia? Cara... Amo e odeio esse lugar, todos os dias. Sabe, aqui as coisas acontecem e está sendo assim com os artistas faz umas décadas já, mas o que eu queria mesmo era um lugar tranquilo para criar e tentar ser mais feliz mesmo e sempre que precisasse viesse para cá trabalhar, entende? Então pode ser aqui do lado, na mata, ou no Pará, ou em outro país, só o tempo vai dizer. Mas, Pará... Ai, Pará, que saudade que dá...

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ARTE PESQUISADA

Do banco da praça A HQ “PRETÉRITO MAIS QUE PERFEITO” RECONTA 100 ANOS DE HISTÓRIA DE BELÉM A PARTIR DO TESTEMUNHO DE UM BANCO DA PRAÇA DA REPÚBLICA

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TEXTO BRUNO ROCHA FOTO ROBERTA BRANDÃO

ontar o passado, ou melhor, relatar um fato passado em relação a outro também já acontecido pode parecer uma sobreposição de tempo confusa. Nada mais simples isso, já explicado pela gramática e seus tempos verbais, para um narrador que tenha vivenciado a história bem de perto, aliás, que tenha participado dela. Esse é o mote principal da história em quadrinhos “Pretérito Mais Que Perfeito”. Acontece que tal narrador não é um qualquer. Desde sempre ali, na praça da República, lugar onde se desenvolve o enredo, nada passou despercebido a esse cuidadoso cúmplice. Só se ele nunca estiver saído de lá e é justamente isso que acontece, já que o personagem principal desse quadrinho é um banco da praça. Criado pelo roteirista e desenhista Otoniel Oliveira e pelo historiador Petrônio Medeiros, “Pretérito Mais Que Perfeito” é um projeto inovador no cenário do quadrinho paraense. Primeiro pelo roteiro original, que conta fatos históricos de Belém do ponto de vista de um banco, que consegue observar as pessoas e acontecimentos ao redor e ao mesmo tempo fazer juízo, a ponto de entender o próprio “espírito” do lugar. Otoniel diz que tudo partiu de uma ideia simples, até clichê: “e se esse banco pudesse falar?”, pergunta o autor. “Foi aí que eu cheguei com o Petrônio e disse que queria narrar fatos humanos, em diferentes épocas históricas, a partir de um mesmo lugar e que ia usar um banco de praça para isso”. Como a ideia é retratar todo século XX foram convidados dez ilustradores paraenses para 15

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histórias, cada um responsável por uma década e com a missão de retratar o mais fielmente possível o estilo de desenhar do artista em voga no mundo dos quadrinhos de cada década. O desenhista responsável pela década de 50, por exemplo, se baseou no estilo do quadrinista Will Eisner, consagrado criador de clássicos como The Spirit. Então, são pequenos retratos da vida de pessoas diferentes, em datas diferentes, mas que em comum compartilham suas emoções com um lugar específico. O banco da praça, para os autores, é justamente esse ponto de confluência, é a tentativa de levar para os leitores a percepção de que algo tão despercebido, abriga tantos dramas passados e que mesmo preso ao chão ele se movimenta em um ritmo único e constante com os próprios movimentos da história. Otoniel Oliveira diz que o grande lance do quadrinho é mesmo esse, contar a história não só de tramas épicas e A MESMA PRAÇA... “Pretérito Mais Que Perfeito” mostra uma viagem no tempo sob a ótica de um banco da praça da República

fantásticas, mas também da observação cotidiana, ir e voltar no tempo, fazer com que vidas diferentes se cruzem em um mesmo enredo. O historiador e antropólogo Petrônio Medeiros é coautor e roteirista da “Pretérito Mais Que Perfeito” e diz que “para além da história oficial era necessário colocar os dramas humanos. Hoje em dia é muito comum os historiadores buscarem a ficção como auxílio, como renovação e rompimento com alguns velhos vícios do cientificismo.” Para ele, a revista é uma maneira de utilizar a arte em função da história, mas, para além disso, o quadrinho serviu para mostrar as motivações humanas por trás de acontecimentos de caráter universal. “Durante as pesquisas a gente foi cons-


...O MESMO BANCO

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O roteirista e desenhista Otoniel Oliveira e o historiador Petrônio Medeiros narram na HQ fatos humanos em diferentes épocas históricas de Belém do século XX

tantemente atraído por questões subjetivas que envolviam determinado fato”, opina Petrônio.

FINANCIAMENTO

Outra inovação foi a forma de financiamento do “Pretérito Mais Que Perfeito”, feito pelo Catarse, um site de financiamento coletivo a partir da colaboração direta de pessoas que se interessem pelo projeto. Cada apoiador, ao colaborar em dinheiro, recebe o que os idealizadores da página na internet chamam de recompensa. Neste caso, cada colaborador ganhará um exemplar da revista, assim que lançada, ainda neste mês. Essa é a primeira vez que o Catarse recebe, da região norte, um projeto para produzir uma história em quadrinhos. Petrônio Medeiros conta que a escolha da praça da República se deu pela importância não só histórica, mas também social. “É aqui que tem a feira de domingo, quando as pessoas vêm se relacionar, descansar. Tem muita gente do interior. Aqui também é palco de atos e manifestações, de atividades artísticas”, ressalta o historiador, que pela primeira vez assina o roteiro de uma HQ. Otoniel Oliveira lembra que o próprio Eisner, considerado um dos grandes mestres da arte narrativa em quadrinhos , quando fez Nova York - A Vida na Grande Cidade, partiu da realidade local para tratar temas universais. “Pretérito Mais Que Perfeito” também se lança para fora, partindo de um banco, ponto fixo, se completando com cada história de vida e por fim se dividindo para tantos.

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MEMÓRIAS BIOGRÁFICAS

Botânico com espírito aventureiro TEXTO ROSANA MEDEIROS ILUSTRAÇÕES JOCELYN ALENCAR

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João Murça Pires 1917-1994


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ano de 1945 ficou marcado na história por um grande acontecimento que mudaria o futuro da humanidade, o fim da Guerra Mundial. No mesmo ano, ocorria na Amazônia um acontecimento de menor porte e, aparentemente, sem muita importância, mas que também mudaria a história. Naquele ano, chegou ao Pará o botânico João Murça Pires, que acabaria se tornando um expert da taxonomia da flora amazônica. Nascido em Bariri, São Paulo, Murça Pires chegou à região como funcionário do recémcriado Instituto Agronômico do Norte (IAN), atualmente Embrapa Amazônia Oriental. Foi no IAN que o botânico iniciou o que seria a marca de sua trajetória profissional, as expedições botânicas pela Amazônia. Em 40 anos de profissão, foram mais de dez viagens pela região. Essas expedições permitiram que Murça Pires criasse laços com cientistas nacionais e internacionais. “Ele era reconhecido internacionalmente como um notável taxonomista e fitogeógrafo, e, desde o início de sua atuação na Amazônia, sempre procurou estreitar laços com grandes instituições estrangeiras, como The New York Botancial Garden, Smithsonian Institution, Royal Botanic Garden, além de destacadas instituições nacionais, a exemplo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do Museu Nacional, do Instituto de Botânica de São Paulo, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e a da Universidade de Brasília”, relata Ricardo Secco, pesquisador de botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi. Como botânico deixou um legado extenso na descrição de taxas novos, enfatizando-se a descoberta de uma família (Saccifoliaceae), além de três gêneros e 47 espécies. O amor pela pesquisa em botânica somado à competência como cientista transformaram João Murça Pires num dos botânicos mais importantes da Amazônia. Seus trabalhos sobre a flora amazônica se tornaram clássicos e ainda hoje são os mais expressivos e completos que existem. Um dos grandes atributos de Murça Pires era o espírito aventureiro. Essa característica proporcionou ao cientista várias viagens, nas quais afiava sua ousadia e expandia seu conhecimento sobre a região. Na década de 1960, realizou por meio do programa Guiana (convênio de cooperação nacional e internacional, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientí-

fico e Tecnológico/CNPq e pela National Science Foundation, dos Estados Unidos) excursões botânicas pelas bacias principais do Amapá, coletando um total de mais de três mil coleções de exemplares vegetais para estudo. Era um cientista consciente da importância da ciência para a sociedade. Defendeu e atuou na criação de herbários, possibilitando o desenvolvimento de estratégias de preservação, de manejo e de utilização sustentável de espécies vegetais catalogadas para os herbários. Fundou o herbário da Embrapa, o da Universidade de Brasília (UnB), o da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, em Itabuna, Bahia e, o da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Segundo Ricardo Secco, o botânico “era um homem tímido, muito culto e competente, mas de personalidade fechada e crítico feroz”. Conhecedor da importância da pesquisa a longo prazo, que só pode ser realizada em área conservada, defendia a conservação de áreas naturais e condenava a implantação de projetos de desenvolvimento na Amazônia sem qualquer planejamento prévio. João Murça Pires só se importava com a ciência, que para ele não tinha fronteira. Ele reclamava das dificuldades para a entrada de cientistas estrangeiros no Brasil, enquanto a ocupação desordenada destruía imensos trechos da floresta amazônica, causando a perda pura e simples da biodiversidade. Murça Pires também teve forte atuação na educação. Foi professor e diretor da Escola de Agronomia da Amazônia/EAA (atual Universidade Federal Rural da Amazônia), da Universidade de Brasília (UnB), do Curso de Pós-Graduação em Ciências Biológicas criado pelo convênio entre a Universidade Federal do Pará e o Museu Paraense Emílio Goeldi entre outros. Seu esforço e competência lhe renderam diversos prêmios e medalhas, além de outras conquistas, enfatiza Ricardo Secco: “Outras grandes conquistas de Murça Pires foram o campus de pesquisa do Museu Goeldi, na década de 80, conseguido graças aos seus esforços. Também a Estação Científica Ferreira Pena, na Floresta Nacional de Caxiuanã, no município de Melgaço, na década de 90, que até hoje funciona como laboratório de estudos da biodiversidade da Amazônia, inclusive é base de estudos para o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio)”. ABRIL DE 2015

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AGENDA

CIENTISTAS Seguem abertas as inscrições para o Prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres da Ciência no Brasil, que dará a sete cientistas brasileiras bolsa-auxílio de US$ 20 mil (em torno de R$ 62 mil) cada. Este é o único programa brasileiro de prêmios voltado exclusivamente para mulheres cientistas, e completa dez GABRIELLE DUPLANTIER / DIVULGAÇÃO

FOTOGRAFIA

edições este ano. As interessadas tem até o dia 31 de maio para se inscreverem, na página www.loreal.com.br. As ganhadoras da bolsa serão conhecidas em agosto e os prêmios, entregues em outubro.

DIREITOS HUMANOS A VI Conferência Internacional de Direitos

ARTISTA FRANCESA NA UFPA

Humanos será um evento que reunirá

O trabalho da artista francesa Gabrielle Duplantier já foi exposto em vários centros culturais da Europa e da

militantes do Brasil e do mundo, focados

China e está, pela primeira vez, em Belém. A mostra pode ser visitada até o dia 14 de abril, no Museu da UFPA

em torno de ideias e propostas destinadas

(MUFPA). A exposição não apresenta um único assunto de forma isolada, mas gira em torno dos temas favori-

a aprimorar o Estado Democrático de Direi-

tos da fotógrafa, como um retorno aos anos que passaram. Informações pelo telefone (91) 3201-7000.

to para advogados e sociedade mundial. O

grandes nomes da política, especialistas e

evento será realizado de 27 a 29 de abril, no Hangar. Mais informações por meio do site www.oab.org.br.

IDOSOS De 9 a 11 deste mês será realizado em Belém o VII COMLAT – Congresso do Comitê Latino Americano e Caribe em Geriatria e Gerontologia. As inscrições ainda podem ser efetuadas no local do evento, caso ainda hajam vagas. Para ficar por dentro da programação completa basta acessar o site comlat2015.com.br.

SELEÇÃO A Universidade Federal Rural da Amazônia CRISTINO MARTINS / AGÊNCIA PARÁ

INDÚSTRIAS

FEIRA DE NEGÓCIOS

(UFRA), através da Assessoria de Cooperação Interinstitucional e Internacional (ACII), torna público o Processo de Seleção de um estudante da universidade para participar do 15º Encontro Internacional de Estudantes sobre Alimentação, Agricultura e Meio Ambiente no Novo Século, em Tóquio, no Japão. O encontro, que ocorrerá no período de 26 de setembro a 4 de outubro de 2015, tem como

No período de 6 a 9 de maio, o Hangar Convenções e Feiras da Amazônia será palco da produção industrial

objetivo fazer com que os alunos participem

paraense, com a XII Feira da Indústria do Pará – FIPA, apresentando as novidades e a gama de produtos que

de ações em abordagens inovadoras para au-

são fabricados no território paraense. Para este ano, cerca de 100 empresas deverão mostrar ao público

mentar a resiliência local, além de promover

que o Pará tem um parque industrial inovador, moderno e que produz artigos com alta qualidade e preços

a consciência para Desafios Globais. O edital

mais competitivos. A expectativa é que 30 mil pessoas circulem nos quatro dias de realização da Feira. Mais

pode ser encontrado no site www.portalnew.

informações: (91) 4009-4866 / 98265-1184 ou fipa@fiepa.org.br.

ufra.edu.br.

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FAÇA VOCÊ MESMO

PORTA-MOEDAS DE SOMBRINHA Uma forma alternativa de renda ou de estimular a criatividade fazendo arte com as mãos. A Fundação Cultural do Pará, por meio das Oficinas Curro Velho, apresenta nesta edição o passo a passo para confeccionar um porta-moedas artesanal utilizando sobras de tecidos de sombrinhas. A possibilidade de criação e reaproveitamento de materiais faz a diferença nas oficinas do Curro Velho. Confecção de bolsas é um dos cursos mais procurados por senhoras e jovens. É um dos acessórios

da moda que pode ser feito de vários materiais como couro, tecido, plástico, palha, ráfia dentre várias possibilidades, e decorado com bordados, pinturas ou colagem com materiais de fácil acesso, principalmente o que já tem em casa. Para aprender outras possibilidades de confecção de bolsas ou porta-moedas, assim como tipos de acessórios de utilidade necesssária é só participar das Oficinas Curro Velho e usufruir de uma infi nidade de ideias de sutentabilidade como arte e ofício.

Nazaré Lopes de Sousa, 70 anos

DO QUE VAMOS PRECISAR?

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Retalho de tecidos de algodão ou sintético Linha de pesponto Agulha e viés Cola fria de silicone Botão de pressão Papel para molde Esponjado para forro Tesoura com pontas arredondadas INSTRUTORA: LUCILENE CARVALHO COLABORADORAS: CLÁUDIA REGO E DEUSARINA VASCONCELOS FOTOS: IONALDO RODRIGUES

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ATENÇÃO: Essa atividade pode ser feita por uma criança, desde que acompanhada por um adulto responsável

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Dobre o molde ao meio na medida do comprimento, arredonde uma das bases e em seguida meça 2 cm e marque a referência para o botão de pressão macho.

Corte a medida do molde no tecido e em seguida fixe o botão de pressão fêmea. Depois corte a medida do molde no forro e em seguida fixe o botão de pressão macho.

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Passe cola em toda a extensão do lado avesso do forro e cole no tecido.

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Meça o comprimento da base reta e corte o viés. Passe cola nos dois lados fixando no tecido, em seguida costure em pesponto.

Dobre o tecido e feche as laterais com cola.

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Antes de prender o viés, dobre as pontas e costure em toda a extensão do porta-moedas.

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Corte o viés deixando 1 cm de sobra. Dobre para dentro, finalize a costura e finalmente a peça estará pronta.

Em um pedaço de papel faça as medidas do molde do porta-moedas: 27 cm x 12,5 cm. Em seguida corte-o. No comprimento do molde, faça duas marcações uma com 10cm e outra com 9,5cm.

Na base reta, meça 5 cm para o meio, no local de referência para o botão de pressão fêmea.

PARA SABER MAIS Quem quiser conhecer mais sobre técnicas artísticas pode se inscrever nas Oficinas Curro Velho, da Fundação Cultural do Pará. Crianças a partir de 12 anos podem participar. O Curro Velho fica localizado na rua Professor Nelson Ribeiro, nº 287, esquina com a travessa Djalma Dutra, bairro do Telégrafo. Telefones: (91) 3184-9100 e 3184-9109. • REVISTA AMAZÔNIA VIVA •

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RECORTE AQUI

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LEONARDO NUNES

BOA HISTÓRIA

A peleja Terminou a sesta e foi se postar no batente da porta

para olhar a paisagem congelada pelo calor. Estava tão quente que nenhum ser vivo se movia na canícula do vilarejo. Diante dele, a pracinha minúscula, os bancos de madeira estragada e seca partindo debaixo do sol, as flores no canteiro prestes a arrancarem as raízes da terra para buscar a sombra mais próxima. No coreto, Fedoca, o adorável vira-lata, dormitava profundo alheio à temperatura. Não se moveu com o barulho da corrente deslizando na coroa e no rolamento da bicicleta de Gabriel. - Ê. O homem soltou o grunhido de sempre para o compadre, que devolveu o cumprimento com som gutural quase idêntico. Gabriel encostou a magrela na calçada usando o pedal à guisa de descanso. Apeou e estendeu a mão com o sorriso manso que o amigo reconhecia como o sinal para velha contenda. Era terça-feira. O anfitrião havia esquecido o compromisso. E, mais ainda, que

a competição seria em sua casa. Estava sem camisa, chupando os restos do almoço ainda presos nos dentes. A memória já não era lá aquelas coisas: só atentou para a descortesia quando o adversário sentou-se no beiral do pátio e contou com expressão séria que a bike seria vendida ao prefeito pela fortuna de 80 mil contos. Era um fim justo da relação com o veículo que lhe moldou o caráter e a identidade. Ninguém percebera, no entanto, Gabriel pedalava a mesma bicicleta havia mais de 50 anos. - Vai virar peça de museu. – E continuou a argumentação sobre um novo ponto turístico planejado pelo governo municipal. Era um investimento necessário para o desenvolvimento local, traria novos visitantes e empregos aos concidadãos. Os recursos estavam garantidos em um grande empréstimos junto a instituições internacionais de fomento à cultura. Genoveva, como ele nomeara a inseparável bicicleta, seria estrela na sala principal de relíquias. O compadre coçou o queixo e enxugou o suor embaixo da papa

que lhe cobria o pescoço. - A esse preço? O adversário sem demora arguiu: pouca gente sabia, o biciclo tinha origem mais antiga e nobre do que supunham todos que o conheciam. Segundo o dono, viera de Petrópolis encaixotada como herança a um velho barão dono de engenhos e pertencera a ninguém menos do que a filha mais nova de Pedro II, que agora ele não recordava o nome. - Mas, o modelo é moderno! Gabriel levantou a sobrancelha direita e rebateu que a raridade da peça jazia neste detalhe: uma inovação futurista em pleno século 19. O amigo entrou em casa para buscar tabuleiro e as pedras brancas e pretas. Equipados, os dois atravessaram a pracinha com os passinhos lentos e as moleiras ferventes. Enxotaram Fedoca com delicadeza e iniciaram o jogo de damas, pano de fundo para a peleja acirrada de mentiras inocentes que tratavam desde o batizado do primeiro filho de Gabriel. - Agora é minha vez – disse o rival, afinando o bigode. ABRIL DE 2015

ANDERSON ARAÚJO

é jornalista, escritor e blogueiro

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NOVOS CAMINHOS

Tesouro ainda a ser descoberto Um número surpreendente de espécies novas da bio-

INOCÊNCIO GORAYEB é mestre e doutor em Entomologia, pós-doutor em sistemática zoológica e pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi

diversidade amazônica continua sendo descrito, apesar do baixo número de especialistas de ciência pura que se dedicam a estudar os seres vivos da região. São poucas as instituições e os profissionais que decidem abarcar essa vocação. Entretanto, a Amazônia, apesar das áreas naturais agredidas e alteradas, continua com as maiores áreas de florestas nativas primárias inexploradas da Terra. Muitas áreas nunca foram estudadas, amostradas e não estão representadas nas coleções existentes nas instituições amazônicas, brasileiras ou estrangeiras. Continuamos tendo o maior número de espécies descritas por estrangeiros que conseguem mais apoio para desenvolver pesquisas na Amazônia. Geralmente, em vários países da Europa e da América do Norte, dois anos de pesquisa na Amazônia ou na África dão peso ao currículo de jovens doutores que disputam fixação em instituição de excelência científica. O apoio financeiro para projetos priorizam as pesquisas aplicadas, de importância mais direta a solução de problemas da sociedade e aqueles de interesse econômico. Isso é certo, porém, mesmo assim, o mínimo de apoio às pesquisas puras deveria ser suficiente para o avanço das pesquisas básicas. Áreas como, por exemplo, a Serra de Tumucumaque, no Planalto das Guianas, terras indígenas conservadas, de ecossistemas como as savanas naturais amazônicas e campinas, e

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muitas outras são pobremente representadas em coleções. Muitas lacunas geográficas precisam ser amostradas e estudadas, inclusive, até as unidades de conservação não estão devidamente estudadas. Não é desnecessário repetir que muitas espécies ainda nem sequer são conhecidas. Muitas das já descobertas são conhecidas apenas pelo registro geográfico e a descrição que permitiu suas respectivas classificações. Pouco se sabe sobre suas relações com outros seres vivos suas comunidades, populações e seus ciclos de vida, e muito menos sobre possíveis usos de interesse ecológico, social e econômico. Este conhecimento, por um aspecto, constitui-se num tesouro que deve ser gradativamente descoberto e explorado. Cada espécie é uma riqueza. Os estudos de comportamentos, substâncias que produzem, utilização, funcionamento de seus órgãos, mecanismos de defesa e ataque, desenvolvimento e ciclo de vida, construção de moradias, controle da prole, etc., podem desvendar conhecimento tanto para o entendimento da natureza como para solução de problemas da humanidade. Um jovem vocacionado que se forma cientista e se dedica a estudar um grupo de ser vivo na região amazônia vai descobrir muitas espécies, relações ecológicas e suas aplicabilidades. Seu tempo é curto para produzir um conhecimento profundo, por isso são necessárias “escolas científicas”, continuidade, coleções e contingentes que atravessem gerações.

Muitas lacunas geográficas precisam ser amostradas e estudadas, inclusive, até as unidades de conservação não estão devidamente estudadas


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Revista Amazônia Viva ed. 44 / abril de 2015