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Saideira Alexei JosĂŠ

Capa Daniel Domingos


A espera, como dizia Jorge Ben, é difícil. Vou adiante: é uma merda. A avó de um amigo dizia que o melhor da festa é esperar por ela. Velha idiota. O melhor da festa é a própria festa. Assim também pensava João, não exatamente com essas palavras ou exemplos. Tinha ele suas próprias expressões e referências e assim, esperando, acendeu um cigarro. Na verdade queria parar de fumar. Há anos pensava nisso mas simplesmente não se imaginava sem um cigarro entre os dedos. Merda de vício. Começou a fumar aos catorze, programou-se para parar aos trinta e estava há dois meses de completar oito anos de atraso em seu cronograma. -Fica pros quarenta. Sem saber por que, caprichou uma dose de Johnnie Walker 12 Years Old num copo que veio de brinde com dois litros de Grant's que havia comprado numa promoção há mais de um ano, talvez dois. Talvez mais. O copo, gasto pelos tragos nele derramados, já nem tinha mais a marca do uísque que promovia e assim, pensou João, é um copo sem identidade. Aceita qualquer coisa. Até refrigerante com gelo e limão. Não. Aí não. Mas falávamos de Grant´s, um uísque escocês produzido por cinco ou seis gerações da família do Willian, cuja primeira dose foi servida num Natal de 1887. O Brasil ainda era uma Monarquia e o velho Bill já destilava sua birita. Deve ter sido uma festa e tanto. Sem Papai Noel descendo pela chaminé, sem trenó, renas, duendes, saco de presentes e todas essas merdas. Na casa do velho e bom Mr Grants, rolaria, no máximo, um amigo secreto. Talvez recebesse na festança o Johnnie Walker, os irmãos Chivas Regal, o velho Parr, os Jamesons da Irlanda e seus amigos ianques Jack Daniels e Jim Bean. Charutos, cartas, umas moças bonitas e Dimple Bell’s, Dimple Bell’s, Let Me Sing, Let Me Sing. Mas, apesar da história, tradição e das possíveis festanças organizadas por Willian Grants, seu uísque não era um iscótchi que João costumava comprar. Aqueles dois que


trouxeram o copo a reboque só entraram no seu bar pela promoção que, como dizia o cartaz do supermercado, era imperdível. Eis aí uma das poucas propagandas honestas que João se lembrava de ter visto. Não podia deixa-la passar em branco. Deu um gole até quase matar a dose e serviu outra, caprichada. Faltou dois dedos pra ele deitar a garrafa. Acabar com o litro no vocabulário etílico de João era "deitar o uísque". Aprendeu a expressão num bar da zona sul, o Carioca, que oferecia um Clube do Uísque justo: sem intervenções paraguaias nem preços que valiam os olhos da cara. Lá deitou muitos Johnnie Blacks. Muitos. Vários, pra não dizer a maioria, sem qualquer motivo especial. Exatamente como aquela dose que se servira há alguns minutos. Chegou a perder um carro nessas deitadas sem sentido, quando saindo do Carioca espatifou seu Uninho quatro-portas-um-ponto-seis-amarelo-sport, contra uma loja de lustres que ficava numa esquina. A curva fechou demais pro João. Puta prejuízo. Havia aprendido a beber com um primo, uns cinco anos mais velho, que vivia se metendo em encrencas que seu nariz cafungante, chamado ou não, sempre se metia com vigor. Acabou preso e em cana está há quase quatro anos. Lá do xilindró o doido cria dois filhos e uma filha que tem com três mulheres diferentes. Sujeito foda. Doidaço, mas se garante. Tem o respeito de toda a bandidagem e dos carcereiros. O bicho não tem medo de nada. João não é assim. É incapaz de cometer uma desonestidade. Tem seus limites. Essa fronteira, entre o medo que tinha e a dose que entendia ser ideal para uma vida segura, ficava clara e cristalina quando estava com o primo. Sentia-se pequeno perto dele, meio bunda mole. Era João uma das quatro pessoas que visitava o primo no presídio. As outras eram seus tios, pais do detento, e uma mulher que não era mãe de nenhum de seus filhos. Via no primo uma dose de coragem que uísque nenhum poderia lhe assegurar. Mesmo ali, preso e todo enrolado com suas mulheres e filhos e pais e policiais e juízes e promotores loucos para fudê-lo mais e mais, tinha um ar nobre, um olhar firme, uma postura altiva. O filho da puta é foda. João sentia uma ponta de inveja


do primo. Ele era livre. Incrível isso: mesmo ali, atrás das grades, tinha aquele bandido uma liberdade que saltava ao seus olhos. Filosofava-lhe o detento enquanto recebia os pacotes de cigarro que ele sempre o presenteava: -A covardia é a mãe da honestidade. Num homem totalmente honesto, não se deve confiar. Jamais.

De Ballantine’s João não gostava. Mas tomava se fosse preciso. Foi numa dessas que deu-se a grande merda da loja de lustres. Tomou Balla quando não tinha Johnnie na companhia dum amigo da zona norte que chegou no bar de ônibus. Deitada a garrafa, resolveu levar o amigo em casa e não se importou em atravessar a cidade completamente chapado. Na ida, salvo duas guias, quatro finas e uma fechada num BMW de cinema, tudo bem. Na volta, a porra da esquina da loja de lustres. Perda total. A polícia chegou e o porre sarou. Os policiais não entendiam como aquele acidente não havia deixado vítima. O Uninho estraçalhou a loja. Não sobrou um abajur pra contar a história. O curioso é que se João saísse andando ao invés de ficar sentado em seu carro observando um tanto maravilhado o estrago que havia proporcionado, ninguém desconfiaria que era ele o protagonista daquela história. Nem bêbedo parecia estar. João conseguiu levar o B.O. como um vacilo na direção, uma distração, uma mudança na faixa de CD. Disse aos fardados que sim, havia bebido, mas nada mais que duas ou três cervejas. Latas. Pena foi estar com o documento do carro vencido. Se estivesse com tudo em cima poderia sair sem qualquer problema. O guarda impiedoso sacou o talão de multas com os olhos brilhando pela oportunidade da aplicação da penitência. Não havia espaço para a misericórdia naquela farda. Mas João, ainda assim, tentou se livrar da


canetada. Já estava pra lá de fodido com o carro e ainda tinha aquela loja toda escangalhada que iria certamente cair na sua conta. -Eu já tô sendo castigado, né seu guarda? Não me esfarela ainda mais, vai? O policial não quis saber e começou a preencher o talão. Foi quando, desgovernado, um Gol atravessou o farol e entrou em cheio na viatura que estava parada do lado oposto ao da loja de lustres, jogando o policial longe. Ele caiu de um lado desacordado, a perna direita arregaçada, enquanto o talão com a multa semipreenchida rasgou o ar frio da noite, indo cair num bueiro do outro lado da rua. Como João já não tinha mais idade para acreditar em deus, concedeu o milagre ao Balla 12. -Eu nuca mais tomo esse santo líquido em vão. E reafirmou a promessa quando ouviu gritos femininos saindo do Golzinho, que acabou a noite abraçado ao poste da esquina. Lembrou-se da mãe dizendo que deus, às vezes, escolhe caminhos estranhos para fazer suas vontades. Quem sabe? Reconsiderou sua pose de ateu e ficou de olho. Dali, de onde estava, imaginou ter uma meia dúzia de mulheres naquele acanhado carro. Quem sabe? Chegou a pensar em levar uma caixa de Ballantine’s pra ser benzida em Aparecida do Norte quando percebeu que o milagre não era pra tanto. Se fosse um milagre de São Johnnie, a coisa poderia ser diferente. Mas eram apenas duas garotas, magras demais para seu gosto, que saíram do carro. E se não as achou de todo feias, é porque estava embriagado. Balla 12, uisquezinho de merda. João acabou não sendo multado mas gastou uma boa grana pra pagar a loja de lustres pois seu seguro não cobria danos contra terceiros, ao contrário do que ele presumia. O acidente aconteceu há quase três anos e até hoje o processo que ele moveu contra a seguradora está rolando na justiça. Das garotas, sei que ainda estão na oitava série, estudando a noite, num colégio municipal lá nos quintos dos infernos. Já o policial da ocorrência manca até hoje.


O relógio do vídeo cassete que resistia à sua obsolescência ao lado do aparelho de Blue Ray, conectado a um moderno Home Theater, acusava que faltavam 5 minutos para as três da tarde. Deu mais uma bela talagada no copo e soltou um "ah!" em regozijo pela tarde vadia. Deixou o copo na mesa e encarou o telefone que não tocava. Ele estava decidido a não ligar. Gostava de sua garota. Mesmo. Mas como era difícil aquela mulher! Se ele não ligasse, guerra nuclear. Três... dois... um... não desta vez! Que se dane! O problema é que ainda era cedo e havia muito tempo para o arrependimento. No fundo ele sabia que acabaria voltando atrás, que ligaria, que diria que sentia sua falta. Se não, ela o faria mais tarde quando a noite houvesse se tornado um erro imperdoável. Que mulher aquela, previsível como um mal piadista. Sempre esperava que ele telefonasse pois, na sua cabeça, era esta obrigação de João: estar à sua disposição. E do seu lado, se não lhe telefonasse, João passava as doses esperando que seu celular tocasse e o nome da sua garota surgisse na tela. Puta mal estar. O negócio era terminar aquela relação. Mas ele não fazia nada nesse sentido. Esperava que as coisas melhorassem. Aquela garota era boa, ao menos não de todo ruim. Ah, ela que se fodesse. -Quer falar comigo? Liga. Mas liga logo. Mais tarde, não sei não... Lá fora chovia embora houvesse no céu um visível azul por trás das plúmbeas nuvens. Eis uma das vantagens em estar desempregado: beber uma boa dose no meio da tarde sem culpa ou maiores responsabilidades, preocupando-se apenas com o céu azul por trás da tempestade. Na verdade, a única coisa ruim em não estar empregado é a falta da remuneração. Isso é o que fazia João trabalhar. Não era a realização, a alegria do dever cumprido, a felicidade e a sensação boa de se estar fazendo um trabalho legal. Nada disso. Tudo é grana. Realização e alegria ele sentia quando a maquininha do cartão lhe dizia que seu crédito estava aprovado. Isso sim era felicidade! Ao menos para João, que


há anos jogava na megasena. Com o prêmio, não iria ajudar ninguém, nem montar qualquer negócio, investir em lances lucrativos ou doar para instituições sem fins lucrativos. Fodam-se. Iria beber até a última gota de todos os Finest Scotch Whisky que a Escócia fosse capaz de produzir. Depois, sairia pela cidade explodindo lojas de lustres. Naquele momento, por exemplo, trazia o canhoto de um jogo na carteira à espera de mais um sorteio. Viria a calhar. Sua grana estava no fim e o seu salário desemprego vivia o derradeiro terceiro mês. Já havia mandado currículos, feito algumas entrevistas e aguardava um chamado. Até aquele dia, àquela hora, nada.

-Ok João, obrigado por ter vindo e aguarde nosso retorno, tudo bem? Ok. Eu agradeço pela atenção e desculpe-me por qualquer coisa. Mas eu sei que você não vai ligar. Seu veadinho.

Finalmente acabou com a dose e ao invés de calibrar mais uma para aproveitar o gelo que resistia no fundo do copo, ficou olhando da janela a chuva encharcar toda a cidade com a dose suspensa no ar. Calçou os tênis encardidos e se mandou pela tarde molhada que prometia ser de sol até o fim da avenida. Chega de esperar. Esperar o ano terminar, os quarenta anos chegar, a sentença do juiz, a coragem do primo, a ligação da namorada, uma proposta de trabalho, o deitar da garrafa de uísque, o gelo derreter, a grana acabar, a chuva passar. Chega. João sentia que era preciso fazer alguma coisa. Mesmo que fosse só sair andando.


Saideira  

João tem uma vida etílica e um tanto agitada, repleta de coisas que podem ser deixadas para depois. Mas até quando? Texto de Alexei José. Ca...

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