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Feliz Ano Novo Alexei JosĂŠ Capa

Marcio Zechetto


Seu ano não começava só depois do carnaval, mas ele levava alguns dias mais que uma semana depois da explosão dos fogos para se dar conta, definitivamente, de que os dias passavam sempre da mesma forma. A vida seguia com seu plano eterno de dar aos mortais alguma esperança de renovação e sucesso num simples virar da meia-noite ao passo que do lado de fora tudo permanecia exatamente igual. E pasme: muitos acreditam na tal renovação. Muitos, muitos, muitos! “Coisa de gênio essa história de ano novo vida nova”. A mulher dele, por exemplo, botava a maior fé na mudança com o girar dos números do calendário cristão. Foi ela que lhe metera na cabeça aquela história de listinha de realizações para o ano novo que ele, mesmo tão cético e realista (ao menos ele não se julgava pessimista como ela insistia em condená-lo), acabou aderindo (já que não era tão cético assim). E lá estava então debruçado sobre um pedaço de papel em sua mesa sem se importar com o relatório por fazer e que incrivelmente já estava atrasado. “Puta que pariu, o ano nem começou e já querem me foder”, pensou com a caneta nas mãos enquanto fazia um círculo em volta do número cinco e se preparava para mais um item da lista: mudar de emprego. Na folha já estavam cravados com seus garranchos outros desejos: 1- parar de fumar; 2- ler mais; 3- fazer exercícios; 4- aprender de uma vez por todas aquele maldito espanhol que nem ele mesmo mais aguentava ouvir sua voz, um tanto envergonhada, hablar um Coca-Cuela molhado na feijuca com couve e laranja baiana. Havia escrito apenas o “mudar” do quinto item quando alguém lhe avisou que o chefe o aguardava em sua sala atapetada com frigobar e TV de Plasma de dezenas de polegadas. Atendeu ao chamado e deixou sua cadeira antes de escrever o “de emprego”. “Vai que venha uma promoção aí”. Bateu na porta, entrou e foi recebido com o sorriso de sempre que lhe soava tão insuportavelmente bem sucedido. E ele ouviu o patrão falar pelos cotovelos que repousavam sobre a mesa de vidro, envoltos numa camisa cara de grife famosa. Escutava calado enquanto pensava que “mudar” era suficiente. Na verdade era completo. “Mudar de emprego” não tinha a mesma dimensão do solitário “mudar”. Aquele “de emprego” soava como um muro altíssimo que estabelecia limites para a transformação que aquela lista lhe prometia ser possível num espaço de 365 dias. Pouco menos, visto que já havia se passado


quase a metade de janeiro. Que dia era aquele afinal? Quinze? Dezesseis? “Que se foda o calendário”. O fato é que enquanto o chefe narrava suas aventuras cronometradas e

meticulosamente

ensaiadas num réveillon

descoladíssimo na Grécia, ele permanecia ali pensando na sua lista. “Mudar. Taí: não preciso escrever mais nada”. Esse valia pelos dez itens que a mulher dizia ter que constar na tal listinha de ano novo. E por falar nela, eis o motivo pelo qual o chefe procura lhe ser próximo. Aquele cretino o tratava bem pois crescia os olhos pra cima da sua esposa, morenaça de olhos verdes e estilão Malu Mader de andar. Mulheraço! E o boçal ali, falando da porra da Grécia. “Filho da puta. Vem com essa conversinha de réveillon só pra me azeitar”. Ele sabia que dali a pouco, certo como a morte, o cretino perguntaria da sua mulher. Batata. -Você passou onde a virada? -Foi com sua mulher, logicamente. -E ela, como está? Na sua casa? -O gato comeu sua língua? -Que cara é essa? -Porque me olha assim? -Tá tudo bem? Enquanto o chefe não entendia seu silêncio, ele meteu a mão no bolso da calça e sacou o maço com onze cigarros, amassando-o para depois atirá-lo contra o peito do patrão. Tiro certeiro, espanto fatal. Pensou em sacar a rola pra fora e mijar em cima daquele filho da puta mas como estava sem vontade, limitou-se a manda-lo à merda, dizendo que não era da conta dele onde havia passado as festas de ano novo com a mulher que aliás, ele não iria botar as mãos. Não por ser ela sua propriedade, mas sim pelo gosto dela. E sabia o patrãozinho qual era essa preferência? Homem. Exótica ela, né? Ela tem uma queda para coisas mais tradicionais, tipo homem de verdade. “Sabe qualé?”. Que ele fosse cuidar da vida boçal que tinha, cheio de reuniões, conferencescalls, viagens solitárias e fodas rápidas e sem graça com putas caras e frias. Filho da puta. “Fi-lho-da-pu-ta”, repetiu soletrando cada sílaba da ofensa como quem aprecia calma e prazerosamente um Single Malt 12 years old made in


Highlanders. E saiu da sala decidido, olho no olho, com a ofensa segura e tranquila na fala comedida que nem parecia ser xingamento. A chefia ficou paralisada, do outro lado da mesa, sem dizer uma palavra. O sujeito do Armani cheirava a cagaço. Estava apavorado. “Bunda mole do cacete”. Ele voltou pra sua mesa, pegou o paletó que descansava no dorso da cadeira e deixou lá a listinha por fazer. “Já sei tudo o que tenho que fazer”. Se mandou pra casa onde a esposa curtia um filme com o George Clooney em sua última tarde de férias. No caminho, matriculou-se num curso de espanhol e comprou dois Dostoievskis, um Thomas Mann e um Rubem Fonseca, contos, num sebo a duas quadras do ex-emprego. -Ué, mas já chegou? Aconteceu alguma coisa, meu amor? -Sim tigra: as coisas mudaram. E partiu pra cima da mulher com a disposição de quem malha horas e horas, todos os dias, em busca de uma vida mais saudável.

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Feliz Ano Novo  

Um ano que nasce não pode por si só mudar vidas. Mas pode servir de estopim para o início de grandes mudanças. Texto de Alexei José. Capa de...

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