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Capa de Treze Lisandro Leite Diagramação Carlos Papai


Projeto Conto com a Diretoria apresenta:

Treze Contos de Alexei José

Capas: Lisandro Leite, Maurício Amaro, Henrique Sassim, Márcio Zechetto, Carlos Papai, Daniel Domingos, Marcos Andolphatto, Fernando Dlouhy, Geraldo Bezerra e Giuliana Rollo

São Paulo – 2013


Contatos alexeijose.wix.com/alexeijose escribapcd@gmail.com


Projeto Conto com a Diretoria e Fast Read O maior prazer que tive em fazer parte do fantástico mundo da criação publicitária é trabalhar em dupla. Nunca fui fominha e sempre gostei de tabelar. E criar em mais de um é mais legal. Quando encontro quem tem essa minha fome, trocando apenas a pena pelo lápis de cor, tudo fica mais divertido. Eis aí a alma de o PROJETO CONTO COM A DIRETORIA: o puro e simples prazer de criar além dos “compre agora” e “ligue já”. Criar sem prazos, nem clientes ou apresentações e reuniões. Criar quando der tempo, quando a inspiração bater, de acordo com o feeling do momento e sem refações que visam apenas agradar ao público. Há sempre um público por aí, doidinho pra ser agradado sem que precisemos forças a barra. Mesmo que for a nossa barra. Assim chegamos ao FAST READ, uma variante do PCD, originário da vontade da rapaziada em bater uma leitura rápida no meio da correria do dia a dia, entre um post e outro do Facebook, só pra não ficar de cérebro vazio. Que tal então minicontos com até 150 palavras por menos de um minuto do seu dia, embrulhados pra viagem em capinhas super legais? Ou vai deixar sua mente roncando? Essa coletânea que traz praticamente todos os contos e minicontos de 2013 é mais que um apanhado de histórias e capas. É uma celebração ao prazer em criar.

Alexei José

Projeto Conto com a Diretoria – alexeijose.wix.com/alexeijose FAST READ – https://www.facebook.com/pcdfastread?fref=ts


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Capa: MaurĂ­cio Amaro

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Instinto Não sabia se era aquela a camisa certa. Caprichou outra dose enquanto se vestia. Era pra ser a última. A sonzeira rolando no toca-discos e ele fazendo-se de Bon Scott em frente ao espelho enquanto abotoava a camisa. Tudo certo deixar alguns botões abertos. Caía-lhe bem o estilo cafajeste. Estava numa boa. Sentia-se até bonito. Saiu do espelho, pegou a chave do carro, a carteira, o maço de Marlboro já pela metade e o velho Zippo, presente da esposa no quinto ano de casamento. Completou mais três dedos do fino sabor das highlands num copo descartável e se mandou certo de que nada lá fora seria melhor do que o que tinha em casa. Que seu uísque, que seus discos, que sua mulher. Mas precisava cair na noite. Disso sabia. E já era mais que o suficiente.

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Capa: Lisandro Leite

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O filho do homem Quando montou a piscicultura, Pôncio contratou um paraense chamado Jesus. Melhor contratação, dizia esfregando a pança retumbante, jamais houve. Mas estranhou quando o alvo funcionário precisou de um barco para ir alimentar os peixes criados em tanques no meio do rio. Depois, quando a peste dizimou 2/3 da criação, desgostou da incapacidade do empregado cabeludo e de espessa barba em multiplicar a produção. Jesus também não ressuscitou o cunhado do patrão, vítima de um AVC, tampouco fez da água o vinho quando acabou a birita da festinha de fim de ano da firma. Foi demais pra Pôncio. Ele chamou Jesus de incompetente e farsante. Crucificou-o diante os outros funcionários que, embora vissem nele um exemplo a ser seguido, calaram-se frente às raivosas injúrias. Não podiam correr o risco de perder o décimo terceiro. E então, três dias após a sumária demissão, humilhado e sozinho, enforcou-se Jesus num poste sem luz.

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Capa: Carlos Papai

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Doutor Duende Embora trabalhasse desde criança, foi o melhor aluno do colégio. No vestibular passou em primeiro lugar. Medicina, escola pública, o sonho do pai que morreu antes de vê-lo com o canudo na mão. A vida não lhe dava trégua. Suou pra ajudar a mãe com as contas da casa e estudar a irmã mais nova enquanto era residente. Médico, especializou-se no exterior e salvou um sem número de pessoas, das de altos saldos bancários às sem um tostão furado. Interessava-lhe a vida. Não o status. Não a fama. Não a fortuna. Ganhou dezenas de prêmios pelo mundo. Conheceu a badalação, as altas rodas e mulheres das mais diversas intenções. Mas nele nada mudou. Inconformado, enfrentou colegas sem ética, moral ou vergonha na cara, denunciando açougueiros de jaleco e estetoscópio. Tornou-se um exemplo. Virou um problema. Seguiu enfrentando-os, receitando a vida com uma letra sempre normal. Nem bonita, nem feia: normal.

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Capa: Marcos Andolphatto

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O leitor raso e a bêbada profunda Ela gostava de beber. Não pelos problemas ou frustrações que tinha como os temos eu e você. Mas ela bebia mais que nós dois juntos. Simplesmente gostava de beber. Aos cântaros. Ele gostava de ler. Lia o tempo todo e, a despeito do seu QI de protozoário, encarava Joyces, Manns, Voltaires, Borges e outros monstros. Pouco compreendia daquelas palavras embora as repetisse convulsivamente. Quando chegaram ao altar, ele leu um Buckowski cabeludo que só não causou mais espanto na meia dúzia de convidados que o arroto por ela desfraldado antes do “sim” eterno. Juntos permanecem até hoje, aguardando que a morte dê as caras em seu lar repleto de livros e garrafas vazias. Ele continua repetindo frases que não entende, aporrinhando a todos que o cerca. Menos a ela. Ela sempre lhe sorri embriagada, encantada com as palavras bonitas que não compreende, apenas vivendo aquela inexplicável paixão encharcada de vodca.

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Capa: MaurĂ­cio Amaro

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O promissor futuro de João Neves. Quando João Neves completou 40 anos fez algo inédito na vida: pensou no futuro. Descobriu então que queria conhecer o mundo e decidiu que, aos 50, viajaria por aí sem destino certo ou data pra voltar. Passou uma década se preparando para a grande jornada. Guardou dinheiro, parou de fumar, praticou exercícios, trocou gorduras e frituras por saladas e frutas, riscou bebidas alcoólicas do menu. Quando completou cinco décadas estava em sua melhor forma física e espiritual. Comprou as passagens, arrumou sua mochila, pegou um mapa, passou no banco e seguiu para o aeroporto em tom de alegre despedida, observando pela janela a cidade em que nasceu e foi criado. Estava especialmente bonita naquela manhã ensolarada como se lhe abrisse um iluminado sorriso. E com olhos brilhando, João Neves não percebeu que seu taxi foi alvo de um ônibus desgovernado que furou o farol vermelho.

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Capa: Geraldo Bezerra

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O bebê de Rosemary Gostou quando no carro dela tocava Deep Purple. Pirou ao se beijaram num show do Kiss. Apaixonou-se assim que ganhou de Rosemary um vinil do Hendrix. Soube que jamais olharia para qualquer outra mulher ao vê-la entrar na igreja sob os arranjos do Led Zeppelin. Inflamou a noite de núpcias ouvindo-a sussurrar Stones em seu ouvido. Sentiu ser o homem mais feliz do planeta quando ela berrou um Black Sabbath antes de dar a luz. Derreteu-se quando a esposa sugeriu o nome do pequeno rebento: Lemmy. E procurou, apavorado, onde havia falhado como pai quando o filho já crescido lhe pediu um abadá para comemorar o aniversário atrás de um trio elétrico em Salvador com os amiguinhos.

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Capa: Mรกrcio Zechetto

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10% Um quarteirão antes do rock, desconfiou que a conta seria alta. A lua estava lá, cheiona, com o friozinho de outono a lhe garantir o conforto da flanela. O som, surpreendentemente bom começava a lhe ditar o ritmo dos passos. Entrou sem ter nome na lista e lá dentro a mulherada sorria aos cântaros. Acendeu o cigarro num Minibic que havia comprado verde mas já estava maduro há alguns bares e sorriu de volta com os dentes escancarados no pecado. Encostou no balcão e pediu a birita: -Toma duas e paga uma, chefia. Promoção especial da noite. Pediu a dose dupla e consultou o menu: um sábado e um domingo iriam lhe custar a segunda-feira. Caiu dentro. Foi tão bem servido que deixou a terça de gorjeta.

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Capa: Giuliana Rollo

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Sentidos Ele falava pelos cotovelos. Isso era normal. Mas, naquela viagem em especial, falou até que lhe dessem câimbras. Literalmente. A bela garota, com os grandes olhos castanhos, vivos e inquietos, prestava-lhe toda a atenção do mundo. Não queria perder uma sílaba daqueles dedos frenéticos. Mal piscava. E de tanto observá-lo, sentiu os olhos arder. Paraíso, Liberdade. Luz, Tucuruvi. Trocaram essa ardência outra dos olhares profundos que ganhavam uma nova dimensão no calar infinito de suas línguas inertes. Mas o coração - ah, o coração! - batia forte, sentido Zona Norte. E era esse batuque inquestionável, alheio aos falecidos ouvidos e à voz vencida, o único som que podiam ouvir enquanto toda a cidade passava surda e muda a aquele encontro inflamado.

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Capa: Carlos Papai

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Manifestação O fato de ter chegado surpreendentemente cedo não o pegou de calças curtas. Tinha tudo feito, tudo checado. Por isso entregou-lhe todo o calhamaço de páginas quando o alinhado patrão ainda estava em sua primeira xícara de café. -O que é isso? -São os relatórios que o senhor me pediu na semana passada. Cara de interrogação no colarinho apertado, coçada na testa, olhos espremidos sob as sobrancelhas vergadas e, enfim, a lembrança. -Ah! Depois eu vejo. Deixa isso ali, naquela pilha de papéis próxima ao lixo. Mas aquilo era urgente, advertiu o funcionário. Havia ali os clamores da nação, os desejos do povo, os compromissos assumidos e as promessas não cumpridas e agora cobradas nas ruas e avenidas. Ele riu. Deveria ser aquele rapaz novo no gabinete – quem o teria indicado? Já deveria saber que nenhum daqueles problemas lhe dizia respeito. Afinal, era ele apenas um senador.

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Capa: Lisandro Leite

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Domingo no Parque Sua capacidade em entreter os ouvintes era notável. Pra tudo ele tinha uma história imaginativa, uma associação inteligente, uma informação relevante, uma brincadeira saborosa. Tudo com uma voz que caia aos ouvidos como a seda ao corpo. Era assim que conquistava as pessoas: na conversa. Um talento nato. Estava especialmente de bom humor quando caminhava com Vânia no Ibirapuera, falando o que sabia sobre o Parque, misturando à história um pouco de mitologia grega e especulações ufólogas, salpicando a conversa com seu incomparável bom humor cultural. Seriam os deuses astronautas, publicitários ou palhaços desempregados? Ela ria e rindo era Vânia absolutamente linda aos olhos dele. -Cara, sua cabeça deve ser um parque de diversões! Ela só foi descobrir que estava certa após o jantar, quando, amarrada à cadeira, sentiu a navalha rasgar-lhe a carne. Mas àquela hora só o trem fantasma ainda estava aberto.

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Capa: Marcos Andolphatto

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A busca do ouro A vida o jogou no crime. Assim pensou o ladrãozinho quando uma brisa de arrependimento soprou-lhe a consciência depois de roubar uma velhinha. Assim também pensava enquanto caminhava para assaltar um cego que esmolava na praça. Coragem não era seu forte. Mirou a latinha cheia de moedas e meteu-lhe a mão, levando um puxão imediato da vítima. Mas que porra era aquela?! Não deu tempo de descobrir. Rapidamente o cego lhe deu uma sequência de duros golpes antes de soltá-lo para uma fuga desesperada e manca. O falso cego então juntou as moedas espalhadas pela calçada, ajeitou seus trapos e saiu cabisbaixo em busca de outro ponto para esmolar. Um transeunte o reconheceu: era um ginasta sem patrocínio ou apoio do governo, apesar de ter índice olímpico. Correu até o atleta e lhe deu uma nota de dois reais, pedindo-lhe que tirasse uma foto consigo. E abriu um largo sorriso.

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Capa: Fernando Dlouhy

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Feliz para sempre Desta vez Jonas era padrinho. Estreava no cargo e quis fazer bonito. Meteu um belo terno que ornou com as bênçãos, orações, lenços encharcados e vastos sorrisos. Os vestidos pomposos, as belas gravatas e os sapatos brilhando inundaram a festa repleta de amigos e pessoas que aos recém-casados só desejavam o melhor. A alegria transbordava pelas janelas do salão finamente arrumado. E Jonas dançou, bebeu, fumou, beijou a madrinha e pegou seu telefone assim que o DJ parou de tocar e os garçons de servir - e a madrugada já trajava suas vestes da manhã. Sempre que Jonas ia a casamentos pensava que seria legal se casar. Por isso se emocionava na cerimônia, alegravase no jantar e incendiava a festa com uísque, tabaco, disposição e simpatia. Mas quando acordava, com a ressaca a lhe martelar um novo dia, agradecia aos céus por não estar em seu dedo aquela reluzente aliança dourada.

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Capa: MaurĂ­cio Amaro

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Homem feito Fechou a mala, pegou a passagem e antes de sair fez uma escala no quarto do filho. Ali ele havia crescido entre brinquedos, gibis, discos e sonhos. Hoje era um pai de família, homem feito. Quantas recordações! Lembrou-se o velho de uma discussão com Junior ainda menino, quando pregava no quarto pôsteres das bandas que rugiam em sua vitrola, que àquela altura já não mais tocava histórias da carochinha. -Malditos maconheiros! Gritam e estragam a pintura das paredes! A recordação arrancou-lhe um sorriso encharcado de emoção. O filho o recebeu com a sincera alegria dos que amam com gratidão: -Que bom que você está aqui, pai! Era a primeira vez que o velho visitava o filho na nova casa e logo viu um enorme pôster do Led Zeppelin pendurado sobre o sofá. O sorriso lhe voltou à face: -Agora eles estão na sala, meu filho? -É papai... eu cresci.

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Capa: MaurĂ­cio Amaro

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Shut Down Empurrou o óculos com a ponta do dedo até a base do nariz e coçou a testa. Sentia uma angústia a lhe consumir, pouco a pouco, como aquela ave que come o fígado de Prometeu, desafeto do todo poderoso Zeus. Mas ele, ali, diante o monitor de um PC já ultrapassado pelos novos processadores ultrassônicos dos malditos tempos modernos, nada havia feito demais. A bem da verdade, não havia feito coisa alguma. E se nem uma faísca roubara do Olimpo, porque sentia desencadear sob seus ombros uma sensação de profundo arrependimento? O telefone tocou e ele deixou tocar. Que se dane. Não queria falar com ninguém. Não agora. Queria poder não ver, não falar, não ouvir, não atender ou ser atendido por qualquer pessoa. Era da solidão, total e absoluta, que ele queria mais que tudo naquele momento. Sumir do mapa, não para sempre, mas ao menos durante aquele período em que a ave de rapina lhe esfurunçava a alma. Mas quem se importa? A campainha do telefone tocou novamente. Pensou em atender mas não se mexeu. Desconectou-se do e-mail após verificar que não havia nenhuma correspondência em sua caixa postal, salvo anúncios de promoções de sites que ele não havia se cadastrado, oferecendo-lhe oportunidades imperdíveis – as quais ele perdia todas. Olhou o relógio no canto do monitor e percebeu que tinha, no máximo, mais cinco minutos antes da saída. O mundo lá fora, alheio às suas perturbações, continuava a girar sem querer saber quem está bem, quem não. Ele nada mais era que uma engrenagem, uma peça de fácil reposição. Se ali resolvesse ficar por uma semana, sem se mexer, talvez ninguém notasse. Talvez pudesse ficar por mais de uma semana. Talvez mais. Talvez bem mais. O telefone voltou a tocar. O corpo involuntariamente fez movimentos de abandono da cadeira. Ele os ignorou. Cogitou a hipótese de se tratar de algo importante, ao menos a insistência o levava a essa óbvia conclusão. Dane-se. Importante agora era ele e seus problemas. Voltou a se recostar calmamente no assento

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Shut Down

e mais uma vez ajeitou os óculos com a ponta do dedo. Apertar suas astes era mais importante que atender a uma ligação e já que nada arrumaria naquele instante, por que se preocupar com o telefone? Que tocasse até perder a fala. A hora chegou. Tinha que ir. Mas ele não foi. Depois de tantos anos pontuais, não seria um atraso que mancharia sua reputação. Eles poderiam viver sem ele. Quem sabe até se sairiam melhor na sua ausência? Julgou ser exatamente isso que aconteceria se permanecesse ali, imóvel, na frente do monitor do seu velho PC. Quando enfim se mexesse e tomasse seu caminho rotineiro, já seria tarde demais. Seu lugar estaria ocupado. Sentiu que se quisesse vencer, aquele era o momento. Era preciso tomar seu rumo. -Que se dane. Levantou-se da cadeira e foi até a janela. Fazia um sol estrondoso e uma velhinha atravessava a rua a passos de tartaruga, protegendo-se do sol com uma sombrinha. Era muita petulância, pensou. Uma velha dessas, que mal consegue andar, afrontar todo o poder do astro rei com uma sombrinha miserável de ambulante de porta de metrô. Aquela cena o irritou profundamente e ele desejou que a pobre senhora fosse atropelada. Ele, no vigor e na força da mocidade, vivia um momento infernal que mal lhe possibilitava sair de sua escrivaninha enquanto aquela maldita velha encarava o mundo e o sol com seus passos diminutos e uma sombrinha esfarrapada. -Velha petulante!

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De repente ele voltou para a mesa. Sentou-se resoluto em escrever um e-mail endereçado a toda sua lista no qual falaria as mil e duzentas verdades que jurava trazer engasgadas no peito, que há muito precisavam ser escarradas pra fora de seu espírito enfermo. Havia visto um filme assim. Não se lembrava do nome da película mas o final era feliz.


Começaria pela arrogância dessa gente mesquinha que pensa que muito da vida sabe e que pode sair por aí julgando e classificando as pessoas como quem mete uma etiqueta num produto. Bonita, feio, útil, capaz, competente, reciclável, filho da puta. Sim, começaria pelos filhos da puta. Seria daquele diretorzinho de merda o primeiro endereço que seu e-mail bateria à porta. Decidido, quis abrir o Word mas o cursor não se mexeu na tela do monitor de seu PC ancião. Não eram só seus óculos que precisavam de um ajuste. O mouse encardido e sua jovem vida também. E o telefone voltou a tocar

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Capa: Carlos Papai

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Cotidiano Lúcia não ouvia muitos “se cuida”. Geralmente era um “falou” ou um “beleza”, quando muito um “a gente se fala”. Às vezes rolava um “ficamos assim então, querida” que era simpático, mas quase sempre dito por quem não lhe era lá muito querido. Por isso, quando ouviu o terceiro “se cuida” da manhã, arregalou os olhos. O primeiro foi logo depois da caneca de café tomada às pressas com o relógio lhe empurrando pra fora de casa enquanto via o marido calçando os tênis novos para o correr da manhã em mais uma tentativa de esquecer o cigarro. Havia parado de fumar há quinze dias: -Vai com Deus, amor. Se cuida, tá? Depois quando, já no prédio da firma, encontrou o colega da contabilidade que após lhe contar sobre o sucesso da lojinha que havia recém-montado com a esposa e o cunhado, acrescentou o “se cuida” à sua tradicional despedida: -A gente se vê então, Lúcia. Se cuida hein? E o derradeiro, um pouco antes de sair para o almoço, quando encerrou um chat no Facebook com um amigo que acabara de comprar as passagens para sua tão sonhada viagem à Europa: -Se cuida :) Sentou-se na mesa do mesmo restaurante que almoçava desde que começara a trabalhar naquela empresa pensando nos “se cuida” que lhe infestaram sua manhã abafada. Aquilo era um sinal. Só podia ser. Qual foi última vez que ela ouviu um “se cuida” antes daquela manhã? Não se lembrava. Alguma coisa devia estar pra acontecer. Só podia ser isso. O celular toca e ela se assusta. A campainha é uma canção engraçadinha dos anos 80 a qual ela já não achava mais graça:

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Cotidiano

-Alô? Era a amiga que dizia sentir muito mas não poderia encontrá-la pois aquele gatinho que há tempos ela tentava, finalmente sedia ao seu charme. E advinha só: tinha que ser naquele almoço. Lúcia riu e respondeu um “tudo bem, não esquenta amiga” mas quase engasgou com o couvert, que sempre lhe serviam a despeito dela nunca pedir, quando a moça enamorada se despediu de maneira inédita na amizade de mais de uma década: - Vamos marcar outro dia, gata. Se cuida, tá? Voltou ao escritório pensando nos “se cuida” mas isso não impediu que ela terminasse todos os relatórios de sua mesa. Na reunião, fez as anotações que precisava e as intervenções cabíveis, como era de praxe, em meio a apresentação de um planejamento repleto de estratégias amarradas e ações geniais que aos seus olhos não passava de mais um punhado de futilidades. Fim da reunião, o diretor abre um sorriso no lugar da cotidiana carranca séria e solta um inusitado: -Se cuidem! -Mas o que quié isso, gente? - cochichou Lúcia aos seus botões voltando pra mesa. Formatou o novo planejamento, ligou para um fornecedor conforme havia agendado, acertou os prazos e formas de pagamento com as velhas técnicas de negociação que havia aprendido na pós-graduação e quando devolveu o telefone ao gancho, teve a certeza de que havia feito um bom negócio. Vestiu o a blusinha, ajeitou a saia, despediu-se da secretária, pegou o elevador, o carro, as ruas congestionadas de seu velho caminho enquanto os mesmos dramas e tragédias lhe eram narrados pela estação de rádio que ouvia há anos.

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Quando parou o carro na sua vaga apertada do prédio, ouviu numa despedida alheia outro “se cuida”. Pegou o elevador e apertou o oito aflita. A trag´deia estava em andamento. Abriu a porta do seu apartamento preparada para o pior. Mas tudo estava tranquilo, aliás, como sempre: o marido lendo o jornal, ouvindo um Chico Buarque na vitrola, que a fez se questionar em silêncio por que não os CDs que sempre ouviam. Sua janta estava lá pra ser esquentada no micro-ondas e na geladeira, seu refrigerante light parecia aguardar sua sede ansiosamente. Lúcia comeu, bebeu, lavou sua louça, escovou os dentes e ligou a TV para assistir ao noticiário com o mesmo apresentador que há anos lhe invadia a sala com os mesmos trejeitos e inabalável tom de voz. Foi pra cama cedo como fazia costumeiramente, abriu um livro que há muito estava em seu criado mudo mas ela nunca tinha tempo pra ler. Logo o fechou pois sua atenção foi toda absorvida por um vacilo que havia dado no trabalho e só agora se dava conta. Demorou-se a dormir pensando numa solução para a distração usual e quando o fez, nada havia acontecido. Absolutamente nada.

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Capa: Henrique Sassi

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Sujo Há seis meses não sabia o que era ter uma mulher em sua cama. Desde que se separou da esposa, há quatro anos, era a primeira grande seca que vivia. “Seca” era um termo muito usado pelo irmão quando ficava naquela situação. Tinha ele uma teoria que ligava o livro Vidas Secas de Graciliano Ramos à falta de sexo, evolvendo todos os personagens da trama. Até Baleia, a cadela dos miseráveis retirantes, tornava-se uma espécie de avatar da putaria. Idiotices do irmão, como aquela outra que dizia que cada mulher feia que se come aqui na terra é um tijolinho que se garante lá no céu. Dizia isso e, às gargalhadas, falava que lá no paraíso já havia dado entrada em uma mansão com meia dúzia de suítes, ofurô, quadra de tênis, heliporto, vista pro Éden e o caralho a quatro. Mentiroso. Jamais viu o irmão com mulher feia. O cretino tinha uma lábia capaz de seduzir a própria Virgem Maria. “Quando a hora do safado chegar, ele vai morar debaixo da ponte do capeta, isso sim”. Entrou no elevador tomando o rumo daquela merda de reunião de condomínio. A descida fez uma pausa no oitavo andar onde morava a fanha. E foi justamente ela que entrou com seu cachorrinho felpudo e fofinho que sempre o irritava. Curioso como gostava de falar a mulher, a despeito de seu problema vocal. Tagarelava sobre tudo: política, economia, literatura, meteorologia e até futebol. Sempre que com ela se encontrava, injuriava-se. Ela com a língua sem freios e ele a entender 30%, 35% no máximo do que a mulher destrambelhava a falar. Com uma fanha não se bate papo. Se presta atenção. Ele atento, ela falando e ele respondendo uns “hum-hum” e outros “é, né?”. Entender o assunto? Porra nenhuma! E o quanto isso o irritava?! Mas não naquele dia. Pela primeira vez desde que se mudara para aquele prédio não se irritou com o conversar compulsivo da fanha sexagenária. Muito pelo contrário. Deu-lhe uma atenção especial que não passou despercebida pelos vivos olhos azuis da coroa conversadeira. Quando o elevador chegou ao térreo, esperou que ela saísse para que pudesse dar uma bela olhada em sua bunda gorda. “Nada mal”, pensou.

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Sujo

Logo se repreendeu. Deveria estar louco, isso sim. A mulher tinha uns trinta anos a mais que ele, pelo menos. E não era das mais conservadas. “Mas dá um caldo”. Sacudiu a cabeça em nova desaprovação. Ele precisava de uma mulher em sua cama. E urgente. Foi o último a chegar ao salão. Pelo atraso, recebeu o olhar de reprovação da maioria. Mas nem tomou conhecimento. Reuniões de condomínio era um troço que não suportava. Enquanto o síndico falava sobre as contas a serem aprovadas e uma maldita reforma que não poderia mais ser adiada, ele deu uma rápida olhada pelo entorno. Apenas duas mulheres. Velhas e feias. Ali, só tinha maridos. Ou exmaridos, como ele. Um sujeito alto, vestindo óculos de intelectual, tomou a palavra. Ele o conhecia. Era o sujeito do sexto andar que torcia pro Palmeiras. Vivia gritando da sacada do seu apartamento em dia de jogo. Se não eram os gols do seu time, eram blasfêmias contra os rivais. Nada a ver com o sujeito que agora falava na reunião de condomínio com a voz calma e bem postada. Lembrou-se da esposa do fulano. Uma máquina! Aquela sim valeria uma volta de elevador. Nas poucas vezes que a havia encontrado no prédio, estava vestida com roupas apertadas e decotes discretos, mas reveladores. Aquela mulher pelada deveria ser um negócio! De repente, percebeu que estava de pau duro. “Era só o que me faltava!”. Pau duro em reunião de condomínio é o fim da picada! Com os olhos no sujeito e delirando em sua esposa. Tentou ajeitar-se discretamente sem ter que meter a mão no danado. Até que se saiu bem. Colocou a mão no bolso e acabou ajeitando a rola duranga dentro da cueca. Uma velhinha percebeu o movimento e o encarou. Ele desviou os olhos. Não soube se ela o recriminava, julgava-o veado ou davalhe corda, vibrando com a excitação que há anos não lhe abria as anciãs pernas. Ele não quis saber. Não queria correr o risco de, naquela seca, acabar trocando olhares com uma senhora que poderia ser sua mãe. Aquela, no caso, sua vó.

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“Comer a vó é de doer!”. Já não bastava a fanha do elevador! Afastou a imagem da


mulher do vizinho que ainda falava e pôs-se a fazer cara de atenção ao assunto discutido. Desejar a mulher do próximo era coisa de seu irmão, não dele. Mas havia ainda outra diferença entre ambos: seu irmão certamente já haveria se deitado com a dona. A ele, restava a punheta. Não. Isso não. A masturbação era o caminho dos perdedores. Não que não lançasse mão, literalmente, de tal pratica em momentos de desespero, mas a sensação que tinha após o gozo era de tão absoluto fracasso que depois mal podia se olhar no espelho. Nisso o irmão tinha razão quando dizia que a bronha é o reduto dos fracos. As mulheres sentem a presença de um punheteiro a quilômetros de distância. E riem dele. Com sarcasmo. Com dó. Não há mulher que queira dar para um coitado. Vai socar uma? Prefira meter. Mesmo que for num veado. É mais digno. É mais homem. Ao menos, era o que propagava o irmão com a voz já pastosa em noites de grandes doses. A reunião acabou e a reforma não foi aprovada mais uma vez. Ele foi à padaria comprar cigarros. Talvez uma volta lhe arejasse a cabeça. As duas. Mas que nada. Quando entrou na padoca, a primeira coisa que pensou foi na mulatinha do caixa. Não estava lá. Em seu lugar, um nordestino alegre de sotaque carregado. Àquela hora, a mulatinha já se fora. Talvez estivesse se agarrando com seu namoradinho nalgum canto escuro do ponto de ônibus. Sujeito de sorte! Voltou pra casa, cumprimentou o porteiro e subiu sozinho no elevador. Quando chegou no corredor, ouviu lá dentro o telefone tocar. Apressou-se em abrir a porta e se atrapalhou todo com as chaves. Quando enfim conseguiu entrar, o telefone já estava mudo. Nunca desejou tanto um bina. Merda. Seria uma mulher? Mas quem? Havia uma namoradinha, uma quarentona desquitada, que há muito não via e ultimamente vivia em seus pensamentos. Vai ver estava rolando uma sintonia entre ambos. Ele pensava nela, ela nele. Lindo. “Mas que papo é esse, Valdemar! Sintonia, química, entrosamento? Você está velho demais para essas veadagens!”. O telefone voltou a tocar. Era uma suave voz de menina, perguntando sobre Márcia,

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Sujo

sua filha. A garota se identificou como Joice. “Ah lembro!”. Ela o cumprimentou e disse que estava atrás da Marcinha mas não a encontrava. Pensou que ela pudesse estar com o pai. Mas não estava. Estava com a mãe. Foram viajar. Pra Argentina, ele achava. Pensou em chamar a tal Joice para um jantarzinho, mas conteve-se a tempo. Lembrava-se bem dela. Dezenove aninhos, bem gostosinha. E assim, pensando mais nas curvas da mocinha que na conversação ao telefone, involuntariamente aveludou a voz e tentou puxar uma conversa sem saber ao certo o que dizer. Foi interrompido por um fatal “então beleza, tio. Desculpa incomodá-lo, tá? Tchau.”. Tio. Vai à merda, fedelha! No estado em que estava, desejou até a ex-mulher. Mesmo tendo que aguentá-la falar depois da foda, reclamar de tudo e despejar seu preconceito e rancor contra tudo e todos que a cercavam. Idiota. Uma completa idiota. Mas como era boa quando se casaram. Meu Deus do céu! Ele mal a ouvia. Só via seus peitos, suas pernas, sua cintura fina antecedendo uma bunda perfeitamente circunsférica. Disse pra ela certa vez, quando eram ainda namorados, que a curva mais bonita de seu corpo era o seu sorriso. Baita cascata! Era a bunda mesmo. Era o que ele queria dela, sua bunda, nada mais. Falou aquela baboseira do sorriso para levá-la pra cama. Só isso. Se a ex-mulher fosse apenas uma bunda ainda estariam casados. E seriam felizes. Muito felizes. Quando contou essa história ao irmão, ele concordou com um sorriso largo que o intrigou deveras. “Será que o filho da puta traçou minha ex-mulher?”. Não, não era possível. Ou seria? Ligou a TV, acomodou-se no sofá e um comercial de cerveja o excitou. Irritou-se com o pau duro. Não dava mais para ficar daquele jeito. Aquilo era ridículo! Ele precisava fazer alguma coisa. Ligou o computador, acessou um site de acompanhantes, escolheu uma loira boazuda, passou a mão no telefone e fez o pedido. -Coisa de meia hora ela estará aí, senhor. Bom divertimento.

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Arrumou a sala, trocou a roupa de cama, tomou um banho, pôs uma cueca nova, colocou um vinho na geladeira e chegou a se sentir feliz. Nada daquilo era para a


mulher que estava a caminho. Era pra ele. Nos quarenta e poucos minutos que a moça levou para chegar, ele mal pode esperar sentado. Ia até a varanda, olhava pra baixo na direção da portaria, voltava pra sala. Ligava a TV, desligava o som. Ligava o som, desligava a TV. Abriu o vinho e pôs outra garrafa na geladeira. Acendeu um cigarro, e outro e mais um. Quando o interfone tocou, sua rola endureceu ainda mais, retumbante. Achou que tivesse estourado um botão da calça. Abriu a porta e viu que não era uma loira alta e deliciosa que o chamava. Era uma baixinha de cabelos castanhos com uma barriguinha nada malhada, como lhe vendeu a foto da internet. Ele perguntou se era ela mesma a Michelle. Ela disse que sim. Ele perguntou se tinha certeza. -Claro que tenho. -Mas você é Michelle com um ou dois Ls? -Com dois. Danou-se. Mas e esse nariz aquilino? E essas orelhas grandes? E essa boca de caçapa? E essa pança toda? E esse cu virado pro asfalto? Nada perguntou, apenas ficou olhando para aquela piranha que não era nem sombra da que havia contratado. “Ora, que se foda! Tá no inferno? Come o capeta!”. Não lhe ofereceu o vinho, tampouco um dedo de prosa no aconchego da sala e nem pôs seus vinis pra rolar. Levou-a direto pro quarto, arrependido de ter trocado os lençóis e pensando que sua nova cueca merecia melhor estreia. Gozou uma, duas, três, quatro, cinco vezes. A garota ficou impressionada. Como um coroa daquele podia fazer tanto e tão bem? Ela gostou do programa. Se sempre fosse assim, não haveria porque pensar em mudar de ofício. Ele, arrependido depois da quinta gozada, insultou o irmão em pensamento e aquela sua filosofia vagabunda de macho cafajeste suburbano. No outro dia, acordou com a mesma sensação de vazio e tristeza que a masturbação lhe provocava. Só que 300 reais mais pobre.

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Capa: Lisandro Leite

Rascunhos


Pedras Rolando Brown Sugar Os acordes de Keith Richards impediram que ele apertasse o “soneca” pela terceira vez naquela fria manhã de junho. Demorou-se na cama até que a voz de Mick finalmente invadisse a quarta-feira gelada e assim iniciou os movimentos, ainda lentos e preguiçosos, para se livrar das amarras do felpudo cobertor que o prendia ao leito. Abrir os olhos já não era suficiente para que seu dia enfim começasse. Sentou-se na cama e se espreguiçou. A mulher reclamou do rádio ligado e da coberta que já não mais estava sobre si. Ele então viu que ela dormia de calça jeans e moletom. Nem o elástico que lhe prendia os cabelos ela havia tirado. Do jeito que chegou da firma se jogou na cama. Talvez nem tivesse descalçado o tênis. “Puta frio, meu”, ela disse. Ele ficou quieto. Apenas a cobriu, deu-lhe um leve beijo no rosto e finalmente apertou “alarme”. Era chegada a hora de Mick Jagger fechar sua enorme boca. Houve um tempo em que ele e a mulher se esfolavam ao som dos Stones. Isso antes dos filhos, da barriga, do cair dos peitos e do constante desânimo patrocinado pelo cansaço das contas pra pagar. Talvez fosse a hora de mudar de estação.

Satisfaction Chegou na garagem com um sabor hortelã Kolynos na boca e antes de subir na moto viu o jornal pela fresta do portão jogado na calçada. Ainda estava dobradinho, preso no elástico. O entregador errara o alvo novamente e não tivera a dignidade de retornar para corrigir a má pontaria. No frio, era sempre assim: one shoot, baby. Filho da puta. Abriu o portão, pegou o jornal e sem ler-lhe uma sílaba, deixou-o no

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Pedras Rolando

chão, ao pé da porta do corredor. Montou sua moto, sacudiu-lhe o tanque entre as pernas. Havia pouco combustível mas dava pra chegar no trabalho. Terminou de vestir as luvas, meteu o gorro e o capacete e se mandou, deixando pra trás o ronco barulhento de sua motocicleta e o resmungo que sua mulher, ainda na cama, sempre dava quando ele saía fazendo barulho com aquela “merda de moto”. O primeiro dos nove semáforos que separava sua cama do trabalho estava vermelho. Se dobrasse a esquerda ao invés de ir reto e virar à direita quatro quadras adiante, tomaria o rumo da estrada vicinal que desembocaria na autoestrada que o levaria ao norte. Desde que mudara para aquela cidadezinha, pensava nisso. Virar à esquerda e se mandar para o calor do norte, sem parada certa. Só subir, subir por toda a vida. Já havia dividido o devaneio com a mulher, depois com ela e a filha e ultimamente só com seus botões. “Pra quem não tem um norte, qualquer porto serve”, dizialhe o pai quando ele ainda era criança. Ou havia lido aquela frase em algum lugar? Que se dane! Esticou o cabo sob a manopla fazendo o motor urrar de raiva, como se assim pudesse intimidar a voz que lhe dizia “you can´t get enough”. Ele conhecia aquela voz de longa data. Não, não era o seu pai. Era Mick Jagger. De novo ele. O sinal abriu e ele seguiu reto pra quebrar à direita quatro esquinas a adiante, deixando atrás de si o ronco infernal da motocicleta, meia dúzia de resmungos sonolentos e a tentação no caminho. Ele gostava de ouvir o Mick. Mas só confiava no Keith.

You can´t always get what you want 52

Um silêncio atípico inundou-lhe os ouvidos assim que entrou em casa. Normalmente a filha estaria com o som ligado, ouvindo aquelas bandinhas de adolescente que tanto o irritava. Deixou a capacete em cima do sofá e tirando as luvas, foi até a cozinha.


Um dia cheio como aquele deveria ser encerrado com uma cerveja escura, amarga, daquelas que ele havia comprado em sua última ida ao supermercado. Mas antes dela, havia um bilhete preso à porta da geladeira por um imã em forma de abacaxi. “Paulo, fui embora. Estou levando a Laura comigo. Fique em paz.” Três frases e fim. Ele ficou um instante com os olhos presos naquele bilhete até que abriu a geladeira e pegou sua cerveja. Sentou-se na mesa e se serviu. Dois dedos de colarinho. De repente estava só novamente. Sua vida ganhava novas proporções e seu caminho parecia agora estar livre. Poderia, enfim, virar pra esquerda e seguir para o norte. Sentia-se livre. Três frases e o começo. Porém ele não contava com o vazio no peito que agora sentia. Percebeu que um certo desespero começava a tomar forma em seu espírito e a sensação de ser deixado pra trás acabou por roubarlhe algumas lágrimas. Não, ele não queria virar pra esquerda.

Get off of my cloud O celular da mulher estava mudo e ele saiu em busca do número do telefone do trabalho dela. Não sabia decor. Não sabia nada decor. Talvez o encontrasse no quarto. Mas não encontrou. Nem o número, nem as roupas da mulher, nem seus discos dos Stones.

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Capa: MaurĂ­cio Amaro

Rascunhos


Amigo Especial Foi um acidente idiota. Um carro entrou na contramão na rua em que ele atravessava ouvindo seu MP3 a 500 mil decibéis. Não ouviu a buzina, nem o grito das pessoas ou o som da freada que em vão tentou evitar a colisão. Apenas Ramones. -Sangue muito bom esse Alexandre. E era mesmo. Sujeito bacana, querido por amigos, conhecidos e principalmente pelas amigas. Habilidoso, cheio de charme e absolutamente apaixonado pelas mulheres, vivia trocando de namorada. Mas curiosamente não era odiado por nenhuma ex. Todas entendiam que ele precisava dar um tempo e que o problema nunca e jamais havia sido elas. Ele é que era um sujeito complexo. Ele mesmo, Alexandre, é quem não as merecia. -Liso feito um quiabo esse Alexandre. Tinha trinta e dois anos quando foi atropelado. Faria trinta e três dali um mês e alguns dias. Cairia num sábado que Alexandre tinha certeza que seria de céu azul. Ele comemoraria saltando de paraquedas. Já havia, inclusive, pagado o salto. -Sabia curtir a vida como ninguém! Rômulo estava vendo os comentários sobre a morte de Alexandre no Facebook. Havia muitos, muitos. Mas um lhe chamou a atenção. Assinava Carol. “Alê vai fazer falta. Era um amigo muito especial”. Rômulo conhecia Carol. Foi ele quem a apresentou a Alexandre algum tempo depois de encerrar um caso com ela, um namorico de nada, coisa de dois ou três meses em que mais passaram na cama que em cinemas ou restaurantes. Ele sabia que Carol e Alexandre haviam se enfiado debaixo dos lençóis de um romance quente por algum tempo.

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Amigo Especial

-Amigo especial? Entendi... Uma reunião o tirou de sua mesa e do Facebook onde só voltou após longas duas horas e quase vinte minutos. Terminou algumas coisas do trabalho e voltou a navegar pelos pêsames virtuais coletivos. Não eram poucas as garotas que classificavam o finado gente fina como um “amigo especial”. Rômulo riu. Então era isso? Que malandro esse Alexandre! Passou o rodo geral, sem dó nem piedade. -Até na Jéssica!? O cara devia ser muito bom mesmo... quem diria? O relógio bateu as seis badaladas da tarde e ele se mandou. Pegou um trânsito surpreendentemente tranquilo e chegou ao barzinho onde encontraria a namorada e uns amigos para o happy hour. Parou o carro numa vaga próxima, pechinchou o preço com o flanelinha e foi o primeiro a chegar ao bar. Havia uma mesa reservada lá dentro, distante da calçada. Aquilo era coisa de sua namorada. Qualquer ventinho a fazia tremer de frio. Isso nela era muito chato, além daquela história de não querer que ele fumasse perto dela. Sentar-se em mesas na calçada só em dias de calor. E sem cigarros. Estava no quarto chope quando as pessoas começaram a chegar. Sua namorada foi a quinta a se sentar à mesa. Papo vai, papo vem e o assunto cai em Alexandre e sua morte besta. Que coisa! Um sujeito cheio de vida, cheio de planos, com todo um futuro pela frente e de repente, bumba! Vai-se desta pra melhor num piscar de olhos.

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-Num atravessar de rua.


-Ele me deu uma baita força num projeto que fiz há alguns anos. -Eu fiquei com uns CDs dele. -Generoso. Isso é o que o Alexandre era. -Era um cara muito bacana. -Um amigo especial. Muito especial mesmo. A namorada de Rômulo reforçou o “muito especial mesmo” e ele pareceu ouvir um suspiro saudoso saindo de sua boca de lábios finos e dentição alva feito a neve. Encarou-a com tanta força que ela se sentiu despida. Mas porque a olhava assim? Jamais havia visto os olhos do namorado brilharem de modo tão estranho. Parecia estar com raiva. -O que foi Rômulo? -Nada. E acendeu um cigarro.

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Capa: Alexandre Chiquillo

Rascunhos


War Pigs Desde que ativara a função shuffle do seu tocador de MP3, aguardava por aquele momento: Paranoid. E ela chegou como tinha que ser: alta e nervosa, treta forte, com a turma toda do Black Sabbath tocando como ninguém jamais ousou tocar. E pra completar a bem aventurada trilha sonora, um bônus extra: outra cerveja gelada. Matou-a num tapa. Arrotou involuntariamente e involuntariamente repreendeuse, não sem antes admitir que fora uma senhora arrotada. Na auto bronca, lembrou-se que a janela da sala poderia estar aberta. Chovia paca e lá foi ele averiguar. Deu mais duas ou três arrotadinhas pelo caminho e tudo certo: janelas fechadas, sala enxuta, nenhum trabalho extra. Extra só mais gelada que pegou no caminho, quando passou pela cozinha. Voltou a se sentar e soltou outro arroto. Escrotaço. Chegou a cheirar mal. Respirou fundo deixando que o aroma lhe impregnasse as narinas e soltou um “Nossa Senhora” exclamativo e orgulhoso. E se divertindo com a própria porquice, trovejou uma sequência no ritmo do riff da guitarra de Mestre Tomy Iommi. Do banheiro, um grito feminino interrompe a melodia com o poder de uma TPM em fase infernal: -Para com isso, seu porco!

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War Pigs

Ele riu. Houve uma época em que cantava Paranoid e Iron Man arrotando. Inteirinhas. Quando a conheceu, num show da banda de um amigo que fazia cover do Black Sabbath, já era o maior arrotador da turma. Naquela noite, chegou a ser chamado no palco para delírio da plateia que já estava alucinada, é bom que se diga. Seu arroto era um sucesso absoluto de público e crítica. Todo mundo curtia, e isso muito antes do Facebook ser inventado. Não tinha um churrasco em que a rapaziada não se derretia de rir com suas performances de rasa educação. Ela também. Bons tempos. Então, começaram a namorar e a graça foi dando espaço ao bom comportamento. Abriu outra cerveja e, em nome dos velhos tempos, botou Paranoid pra rolar de novo. Já no começo, na fulminante guitarra de Seu Tomy, ele entrou arrotando violentamente. Percebeu que estava em forma. Deu um profundo gole em sua gelada e, no gogó do arroto, iniciou um improvável dueto com Ozzy Osbourne: Finished with my woman 'cause she couldn't help me with my mind.

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Ao fundo, o ranger de uma porta se abrindo atravessa o som como uma cuíca irresponsável de um chinês na bateria da Mangueira. Não demorou para que o pesado cheiro de merda escorresse por todo o ambiente.

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Capa: Carlos Papai

Rascunhos


Rascunhos O pior é a falta que vc faz. Isso é foda. E eu não passo imune. A maioria das coisas eu sinto. Por fora não. Me saio até que bem. É o medo. Me assombra a possibilidade de me verem por dentro. Mas eu me importo. Não passo imune. De jeito nenhum. Queria passar. Queria estalar os dedos e pronto. Ou dormir com alguém e acordar diferente. Ou tomar uns tragos e esquecer. Esquecer não, isso jamais. Apenas pensar diferente. Ver com outros olhos. Mas a merda, a merda é que não passo imune. E que não tenho essa capacidade de sair por aí gostando de todo mundo.

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Rascunhos

Quem me dera ter o gosto comum. Mas fui feito assim: barro grosso por fora, porcelana por dentro. Coisas do Criador moldar-me assim. O Tal que se se importasse me faria distante. Eu queria ser diferente. Distante. Eu queria não ligar. Eu não queria ser amigo. Não ser adorado. Não ser uma ótima companhia. Pois assim sendo, sou um traidor de mim mesmo. E traição não tem perdão. Crime imprescritível. E cá estou sentindo sua falta. Pena dura de pagar. Por que diabos eu não sou imune? Por que sou só mais um amigo?

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Com o dedo suspenso sobre o mouse, cursor apontando em direção ao SEND, ele sentiu que aquele e-mail mudaria tudo. Guardou o dedo na palma


da mão quando viu sua cara refletida no espelho do estojinho de maquiagem esquecido aberto pela mocinha que trabalhava na mesa da frente. “Covarde? Não seja tão duro consigo mesmo, Alberto. Você precisa apenas de mais um tempo pra pensar. Um texto desses não se manda para uma mulher achando que nada vai acontecer. O que é que são elas”. Escrever um poema, ou seja lá que manifestação amorosa for, deve ser manuscrito. Com palavras que saem verdadeiramente de dentro de si causando em seu autor uma sensação de nudez e escancaro de seus sentimentos que em nada combina com um e-mail. Ou com teclas. Com DELETE, ENTER, CTRL C, CTRL V, ENTER. Uma carta sentimental, autoral da primeira letra ao último ponto final, sem aspas ou citações de literatos consagrados, deve mostrar mais que as palavras ali postas e que, por sinal, precisam se mostrar levemente desalinhadas. Devem passar ao largo da impessoalidade da Times New Roman, espaçamento duplo, corpo 12, paragrafação perfeita. Uma carta verdadeiramente amorosa deve ter a letra de seu autor. Uma letra legível mas um pouco trêmula, escrita em papel bacana, talvez salpicada por gotículas de lágrimas a borrar um ou outro parágrafo. Ou estrofe. Ou não. Chorar pode ser um tanto exagerado. Dá medo em quem lê. Mas ali não era para tanto. Alberto gostava de Ana Maria. Não como amiga, evidentemente. Queria beijá-la, chupá-la, fodê-la, fazê-la gozar mil uma vezes numa única noite e acordar ao seu lado vez ou outra, servindo-lhe um café da manhã enquanto a observava despertar preguiçosamente. Não todo dia, que fique claro. O “sempre” acaba gerando motivos ao pranto, configurando-se assim um novo exagero. O “sempre” dá um puta medo.

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Rascunhos

Alberto, embora não fosse imune aos sentimentos mais vivos, não era um exagerado e tinha lá seus temores. Era até um pouco comedido, diziam os mais chegados. Inclusive Ana Maria que, se não a amava, gostava dela especialmente. Dum tanto que sentia sua falta. Ele queria estar com ela. E essa ausência o levava aos poeminhas desalinhados. Sem rima, claro. Pois há dois tipos de rimador: o poeta e o cafona. E lá ia Alberto, nem poeta nem cafona, bater seus sentimentos no Word. Mas não os enviava para Aninha. Afinal, ela era sua amiga. Ah, as amizades femininas! Quantos amores não mataram e ainda estrangularão ao longo da história? Esse sentimento que, nobre como o ouro, pode ser uma intransponível pedra no meio do caminho que água nenhuma desse mundo é capaz de furar. -Né, José? Não, não mandaria aquele e-mail. Se o enviasse, passaria o dia esperando uma resposta e quando ela enfim chegasse, fatalmente traria tudo o que ele não queria mais ler: Meu querido, Eu tb sinto sua falta. Eu o adoro e vc é uma ótima companhia e blablablá.

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“Esqueça essa mulher, Alberto. Siga em frente! Eis aí um homem bonito, bem apanhado, educado, capaz e competente, cidadão dito respeitável e que ganha mais de quatro mil cruzeiros por mês! Vá se enfiar na noite à procura de um novo regaço onde possa se esbaldar e gozar toda essa vitalidade e paixão que sente pulsar em suas entranhas e embaixo de suas calças. Vá homem! Liberte-se! Cure-se dessa vontade! Para dor de amor só há um remédio: um novo amor.”


Tirou os olhos do espelho quando o telefone tocou. Era ela, Ana Maria, com sua voz comum de doer. Durante a conversa, Alberto chegou a se perguntar por que cargas d’água sentia um gostar tão especial por ela. Não sabia e não saberia responder. Ninguém explica essas coisas. Mas elas existem. Mais concretamente que deus ou duendes. Mas Ana lhe explicava um outro lance: não havia ido à festinha dele pois ficou presa no desesperado arrumar de sua bagagem. Afinal, ele sabia o tanto que era ela desorganizada, deixando tudo pra última hora. -Né? É, ele sabia. Mas ela não queria partir assim, sem vê-lo. Estava com saudades e queria um chope com Alberto antes de seu embarque à Ásia, num rolê de um mês e alguns dias que daria com uma amiga da yoga. -Vamos hoje? Naquele bar que você me levou naquele dia, lembra? Que choveu um monte. Lembrou? Adorei aquele bar! Alberto desligou o telefone e voltou ao monitor. Voltou a esticar o dedo em direção ao mouse mas não mandou o e-mail. Tampouco o deletou. Salvou-o como rascunho. Quem sabe, numa próxima? Quem sabe?

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Capa: Mรกrcio Zechetto

Rascunhos


Feliz Ano Novo Seu ano não começava só depois do carnaval, mas ele levava alguns dias mais que uma semana depois da explosão dos fogos para se dar conta, definitivamente, de que os dias passavam sempre da mesma forma. A vida seguia com seu plano eterno de dar aos mortais alguma esperança de renovação e sucesso num simples virar da meia-noite ao passo que do lado de fora tudo permanecia exatamente igual. E pasme: muitos acreditam na tal renovação. Muitos, muitos, muitos! “Coisa de gênio essa história de ano novo vida nova”. A mulher dele, por exemplo, botava a maior fé na mudança com o girar dos números do calendário cristão. Foi ela que lhe metera na cabeça aquela história de listinha de realizações para o ano novo que ele, mesmo tão cético e realista (ao menos ele não se julgava pessimista como ela insistia em condená-lo), acabou aderindo (já que não era tão cético assim). E lá estava então debruçado sobre um pedaço de papel em sua mesa sem se importar com o relatório por fazer e que incrivelmente já estava atrasado. “Puta que pariu, o ano nem começou e já querem me foder”, pensou com a caneta nas mãos enquanto fazia um círculo em volta do número cinco e se preparava para mais um item da lista: mudar de emprego. Na folha já estavam cravados com seus garranchos outros desejos: 1- parar de fumar; 2- ler mais; 3- fazer exercícios; 4- aprender de uma vez por todas aquele maldito espanhol que nem ele mesmo mais aguentava ouvir sua voz, um tanto envergonhada, hablar um Coca-Cuela molhado na feijuca com couve e laranja baiana. Havia escrito apenas o “mudar” do quinto item quando alguém lhe avisou que o chefe o aguardava em sua sala atapetada com frigobar e TV de Plasma de dezenas de polegadas. Atendeu ao chamado e deixou sua cadeira antes de escrever o “de emprego”. “Vai que venha uma promoção aí”. Bateu na porta, entrou e foi recebido com o sorriso de sempre que lhe soava tão insuportavelmente bem sucedido. E ele ouviu o patrão falar pelos cotovelos que repousavam sobre a mesa de vidro, envoltos numa camisa cara de grife famosa. Escutava calado enquanto pensava que “mudar” era suficiente. Na verdade era completo. “Mudar de emprego” não tinha a mesma

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Feliz Ano Novo

dimensão do solitário “mudar”. Aquele “de emprego” soava como um muro altíssimo que estabelecia limites para a transformação que aquela lista lhe prometia ser possível num espaço de 365 dias. Pouco menos, visto que já havia se passado quase a metade de janeiro. Que dia era aquele afinal? Quinze? Dezesseis? “Que se foda o calendário”. O fato é que enquanto o chefe narrava suas aventuras cronometradas e meticulosamente ensaiadas num réveillon descoladíssimo na Grécia, ele permanecia ali pensando na sua lista. “Mudar. Taí: não preciso escrever mais nada”. Esse valia pelos dez itens que a mulher dizia ter que constar na tal listinha de ano novo. E por falar nela, eis o motivo pelo qual o chefe procura lhe ser próximo. Aquele cretino o tratava bem pois crescia os olhos pra cima da sua esposa, morenaça de olhos verdes e estilão Malu Mader de andar. Mulheraço! E o boçal ali, falando da porra da Grécia. “Filho da puta. Vem com essa conversinha de réveillon só pra me azeitar”. Ele sabia que dali a pouco, certo como a morte, o cretino perguntaria da sua mulher. Batata. -Você passou onde a virada? -Foi com sua mulher, logicamente. -E ela, como está? Na sua casa? -O gato comeu sua língua? -Que cara é essa? -Porque me olha assim? -Tá tudo bem?

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Enquanto o chefe não entendia seu silêncio, ele meteu a mão no bolso da calça e sacou o maço com onze cigarros, amassando-o para depois atirá-lo contra o peito do patrão. Tiro certeiro, espanto fatal. Pensou em sacar a rola pra fora e mijar em cima daquele filho da puta mas como estava sem vontade, limitou-se a manda-lo à


merda, dizendo que não era da conta dele onde havia passado as festas de ano novo com a mulher que aliás, ele não iria botar as mãos. Não por ser ela sua propriedade, mas sim pelo gosto dela. E sabia o patrãozinho qual era essa preferência? Homem. Exótica ela, né? Ela tem uma queda para coisas mais tradicionais, tipo homem de verdade. “Sabe qualé?”. Que ele fosse cuidar da vida boçal que tinha, cheio de reuniões, conferences-calls, viagens solitárias e fodas rápidas e sem graça com putas caras e frias. Filho da puta. “Fi-lho-da-pu-ta”, repetiu soletrando cada sílaba da ofensa como quem aprecia calma e prazerosamente um Single Malt 12 years old made in Highlanders. E saiu da sala decidido, olho no olho, com a ofensa segura e tranquila na fala comedida que nem parecia ser xingamento. A chefia ficou paralisada, do outro lado da mesa, sem dizer uma palavra. O sujeito do Armani cheirava a cagaço. Estava apavorado. “Bunda mole do cacete”. Ele voltou pra sua mesa, pegou o paletó que descansava no dorso da cadeira e deixou lá a listinha por fazer. “Já sei tudo o que tenho que fazer”. Se mandou pra casa onde a esposa curtia um filme com o George Clooney em sua última tarde de férias. No caminho, matriculou-se num curso de espanhol e comprou dois Dostoievskis, um Thomas Mann e um Rubem Fonseca, contos, num sebo a duas quadras do ex-emprego. -Ué, mas já chegou? Aconteceu alguma coisa, meu amor? -Sim tigra: as coisas mudaram. E partiu pra cima da mulher com a disposição de quem malha horas e horas, todos os dias, em busca de uma vida mais saudável.

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Capa: Daniel Domingos

Rascunhos


Saideira A espera, como dizia Jorge Ben, é difícil. Vou adiante: é uma merda. A avó de um amigo dizia que o melhor da festa é esperar por ela. Velha idiota. O melhor da festa é a própria festa. Assim também pensava João, não exatamente com essas palavras ou exemplos. Tinha ele suas próprias expressões e referências e assim, esperando, acendeu um cigarro. Na verdade queria parar de fumar. Há anos pensava nisso mas simplesmente não se imaginava sem um cigarro entre os dedos. Merda de vício. Começou a fumar aos catorze, programou-se para parar aos trinta e estava há dois meses de completar oito anos de atraso em seu cronograma. -Fica pros quarenta. Sem saber por que, caprichou uma dose de Johnnie Walker 12 Years Old num copo que veio de brinde com dois litros de Grant's que havia comprado numa promoção há mais de um ano, talvez dois. Talvez mais. O copo, gasto pelos tragos nele derramados, já nem tinha mais a marca do uísque que promovia e assim, pensou João, é um copo sem identidade. Aceita qualquer coisa. Até refrigerante com gelo e limão. Não. Aí não. Mas falávamos de Grant´s, um uísque escocês produzido por cinco ou seis gerações da família do Willian, cuja primeira dose foi servida num Natal de 1887. O Brasil ainda era uma Monarquia e o velho Bill já destilava sua birita. Deve ter sido uma festa e tanto. Sem Papai Noel descendo pela chaminé, sem trenó, renas, duendes, saco de presentes e todas essas merdas. Na casa do velho e bom Mr Grants, rolaria, no máximo, um amigo secreto. Talvez recebesse na festança o Johnnie Walker, os irmãos Chivas Regal, o velho Parr, os Jamesons da Irlanda e seus amigos ianques Jack Daniels e Jim Bean. Charutos, cartas, umas moças bonitas e Dimple Bell’s, Dimple Bell’s, Let Me Sing, Let Me Sing. Mas, apesar da história, tradição e das possíveis festanças organizadas por Willian Grants, seu uísque não era o que João costumava comprar.

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Saideira

Aqueles dois que trouxeram o copo a reboque só entraram no seu bar pela promoção que, como dizia o cartaz do supermercado, era imperdível. Deu um gole até quase matar a dose e serviu outra, caprichada. Faltou dois dedos pra ele deitar a garrafa. “Deitar a garrafa”. Aprendeu a expressão num bar da zona sul, o Carioca, que oferecia um Clube do Uísque justo: sem intervenções paraguaias nem preços que valiam os olhos da cara. Lá deitou muitos Johnnie Blacks. Vários, pra não dizer a maioria, sem qualquer motivo especial. Exatamente como aquela dose que se servira há alguns minutos. Chegou a perder um carro nessas deitadas sem sentido, quando saindo do Carioca espatifou seu Uninho quatro-portas-um-ponto-seis-amarelo-sport, contra uma loja de lustres que ficava numa esquina. A curva fechou demais pro João. Puta prejuízo. Havia aprendido a beber com um primo, uns cinco anos mais velho, que vivia se metendo em encrencas que seu nariz cafungante, chamado ou não, sempre se metia com vigor. Acabou preso e em cana está há quase quatro anos. Lá do xilindró o doido cria dois filhos e uma filha que tem com três mulheres diferentes. O sujeito se garante. Tem o respeito de toda a bandidagem e dos carcereiros. Não tem medo de nada. João não é assim. É incapaz de cometer uma desonestidade. Tem seus limites. Essa fronteira, entre o medo que tinha e a dose que entendia ser ideal para uma vida segura, ficava clara e cristalina quando estava com o primo. Era João uma das quatro pessoas que visitava o familiar fora da lei no presídio. As outras eram seus tios, pais do detento, e uma mulher que não era mãe de nenhum de seus filhos. Via no primo uma dose de coragem que uísque nenhum poderia lhe assegurar. Mesmo ali, preso e todo enrolado com suas mulheres e filhos e pais e policiais e juízes e promotores loucos para fudê-lo mais e mais, tinha um ar nobre, um olhar firme, uma postura altiva. O filho da puta é foda. João sentia uma ponta de inveja do primo.

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-A covardia é a mãe da honestidade. Num homem totalmente honesto, não se deve confiar. Jamais.


De Ballantine’s João não gostava. Mas tomava se fosse preciso. Foi numa dessas que deu-se a grande merda da loja de lustres. Tomou Balla quando não tinha Johnnie na companhia dum amigo da zona norte que chegou no bar de ônibus. Deitada a garrafa, resolveu levar o camarada em casa e não se importou em atravessar a cidade completamente chapado. Na ida, salvo duas guias, tudo bem. Na volta, a porra da esquina da loja de lustres. Perda total. A polícia chegou e o porre sarou. Os policiais não entendiam como aquele acidente não havia deixado vítima. O Uninho estraçalhou a loja. Não sobrou um abajur pra contar a história. João conseguiu levar o B.O. como um vacilo na direção. Disse aos fardados que sim, havia bebido, mas nada mais que duas ou três cervejas. Latas. Pena foi estar com o documento do carro vencido. O guarda impiedoso sacou o talão de multas com os olhos brilhando pela oportunidade da aplicação da penitência. Não havia espaço para a misericórdia naquela farda. Mas João, ainda assim, tentou se livrar da canetada. -Olha o prejuízo que eu já tive? Já tô sendo castigado, né seu guarda? Não me esfarela ainda mais, vai? O policial não quis saber e começou a preencher o talão. Foi quando, desgovernado, um Gol atravessou o farol e entrou em cheio na viatura, jogando o policial longe. Ele caiu de um lado desacordado, a perna direita arregaçada, enquanto o talão com a multa semipreenchida rasgou o ar frio da noite, indo cair num bueiro do outro lado da rua. Como João já não tinha mais idade para acreditar em deus concedeu o milagre ao Balla 12. -Eu nuca mais tomo esse santo líquido em vão. E reafirmou a promessa quando ouviu gritos femininos saindo do Golzinho, que acabou a noite abraçado ao poste da esquina. Lembrou-se da mãe dizendo que deus, às vezes,

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Saideira

escolhe caminhos estranhos para fazer suas vontades. Quem sabe? Reconsiderou sua pose de ateu e ficou de olho. Dali, de onde estava, imaginou ter uma meia dúzia de mulheres naquele acanhado carro. Quem sabe? Chegou a pensar em levar uma caixa de Ballantine’s pra ser benzida em Aparecida do Norte quando percebeu que o milagre não era pra tanto. Apenas duas garotas, magras demais para seu gosto, que saíram do carro. E se não as achou de todo feias, é porque estava embriagado. Balla 12, uisquezinho de merda. João acabou não sendo multado mas gastou uma boa grana pra pagar a loja de lustres pois seu seguro não cobria danos contra terceiros, ao contrário do que ele presumia. O acidente aconteceu há quase três anos e até hoje o processo que ele moveu contra a seguradora está rolando na justiça. Das garotas, sei que ainda estão na oitava série, estudando a noite, num colégio municipal lá nos quintos dos infernos. Já o policial da ocorrência manca até hoje. O relógio do vídeo cassete que resistia à sua obsolescência ao lado do aparelho de Blue Ray, conectado a um moderno Home Theater, acusava que faltavam 5 minutos para as três da tarde. Deu mais uma bela talagada no copo e soltou um "ah!" em regozijo pela tarde vadia. Deixou o copo na mesa e encarou o telefone que não tocava. Ele estava decidido a não ligar. Gostava de sua garota. Mesmo. Mas como era difícil aquela mulher! Se ele não ligasse, guerra nuclear. Três... dois... um... não desta vez! Que se dane! O problema é que ainda era cedo e havia muito tempo para o arrependimento. No fundo ele sabia que acabaria voltando atrás, que ligaria, que diria que sentia sua falta. Se não, ela o faria mais tarde quando a noite houvesse se tornado um erro imperdoável. O negócio era terminar aquela relação. Mas ele não fazia nada nesse sentido. Esperava que as coisas melhorassem. Aquela garota era boa, ao menos não de todo ruim. Ah, ela que se fodesse.

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-Quer falar comigo? Liga. Mas liga logo. Mais tarde, não sei não... Lá fora chovia embora houvesse no céu um visível azul por trás das plúmbeas nuvens. Eis uma das vantagens em estar desempregado: beber uma boa dose no meio da tarde sem culpa ou maiores responsabilidades, preocupando-se apenas com o céu azul por trás da tempestade. Na verdade, a única coisa ruim em não estar empregado é a falta da remuneração. Isso é o que fazia João trabalhar. Não era a realização, a alegria do dever cumprido, a felicidade e a sensação boa de se estar fazendo um trabalho legal. Nada disso. Tudo é grana. Realização e alegria ele sentia quando a maquininha do cartão lhe dizia que seu crédito estava aprovado. Isso sim era felicidade! Ao menos para João, que há anos jogava na megasena. Naquele momento, por exemplo, trazia o canhoto de um jogo na carteira à espera de mais um sorteio. Viria a calhar. Sua grana estava no fim e o seu salário desemprego vivia o derradeiro terceiro mês. Já havia mandado currículos, feito algumas entrevistas e aguardava um chamado. Até aquele dia, àquela hora, nada. -Ok João, obrigado por ter vindo e aguarde nosso retorno, tudo bem? Ok. Eu agradeço pela atenção e desculpe-me por qualquer coisa. Mas eu sei que você não vai ligar. Seu veadinho. Finalmente acabou com a dose e ao invés de calibrar mais uma para aproveitar o gelo que resistia no fundo do copo, ficou olhando da janela a chuva encharcar toda a cidade com a dose suspensa no ar. Calçou os tênis encardidos e se mandou pela tarde molhada que prometia ser de sol até o fim da avenida. Chega de esperar. Esperar o ano terminar, os quarenta anos chegar, a sentença do juiz, a coragem do primo, a ligação da namorada, uma proposta de trabalho, o deitar da garrafa de uísque, o gelo derreter, a grana acabar, a chuva passar. Chega. João sentia que era preciso fazer alguma coisa. Mesmo que fosse s�� sair andando.

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