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O pior é a falta que vc faz. Isso é foda. E eu não passo imune. A maioria das coisas eu sinto. Por fora não. Me saio até que bem. É o medo. Me assombra a possibilidade de me verem por dentro. Mas eu me importo. Não passo imune. De jeito nenhum. Queria passar. Queria estalar os dedos e pronto. Ou dormir com alguém e acordar diferente. Ou tomar uns tragos e esquecer. Esquecer não, isso jamais. Apenas pensar diferente. Ver com outros olhos. Mas a merda, a merda é que não passo imune. E que não tenho essa capacidade de sair por aí gostando de todo mundo. Quem me dera ter o gosto comum. Mas fui feito assim: barro grosso por fora, porcelana por dentro. Coisas do Criador moldar-me assim. O Tal que se se importasse me faria distante. Eu queria ser diferente. Distante. Eu queria não ligar.


Eu não queria ser amigo. Não ser adorado. Não ser uma ótima companhia. Pois assim sendo, sou um traidor de mim mesmo. E traição não tem perdão. Crime imprescritível. E cá estou sentindo sua falta. Pena dura de pagar. Por que diabos eu não sou imune? Por que sou só mais um amigo?

Com o dedo suspenso sobre o mouse, cursor apontando em direção ao SEND, ele sentiu que aquele e-mail mudaria tudo. Guardou o dedo na palma da mão quando viu sua cara refletida no espelho do estojinho de maquiagem esquecido aberto pela mocinha que trabalhava na mesa da frente.

“Covarde? Não seja tão duro consigo mesmo, Alberto. Você precisa apenas de mais um tempo pra pensar. Um texto desses não se manda para uma mulher achando que nada vai acontecer. O que é que são elas”.

Escrever um poema, ou seja lá que manifestação amorosa for, deve ser manuscrito. Com palavras que saem verdadeiramente de dentro de si causando em seu autor uma sensação de nudez e escancaro de seus sentimentos que em nada combina com um email. Ou com teclas. Com DELETE, ENTER, CTRL C, CTRL V, ENTER. Uma carta sentimental, autoral da primeira letra ao último ponto final, sem aspas ou citações de


literatos consagrados, deve mostrar mais que as palavras ali postas e que, por sinal, precisam se mostrar levemente desalinhadas. Devem passar ao largo da impessoalidade da Times New Roman, espaçamento duplo, corpo 12, paragrafação perfeita. Uma carta verdadeiramente amorosa deve ter a letra de seu autor. Uma letra legível, mas um pouco trêmula, escrita em papel bacana, talvez salpicada por gotículas de lágrimas a borrar um ou outro parágrafo. Ou estrofe. Ou não. Chorar pode ser um tanto exagerado. Dá medo em quem lê. Mas ali não era para tanto. Alberto gostava de Ana Maria. Não como amiga, evidentemente. Queria beijá-la, chupá-la, fodê-la, fazê-la gozar mil uma vezes numa única noite e acordar ao seu lado vez ou outra, servindo-lhe um café da manhã enquanto a observava despertar preguiçosamente. Não todo dia, que fique claro. O “sempre” acaba gerando motivos ao pranto, configurando-se assim um novo exagero. O “sempre” dá um puta medo. O “sempre” é o choro inestancável a borrar uma relação. Alberto, embora não fosse imune aos sentimentos mais vivos, não era um exagerado e tinha lá seus temores. Era até um pouco comedido, diziam os mais chegados. Inclusive Ana Maria que, se não a amava, gostava dela especialmente. Dum tanto que sentia sua falta. Ele queria estar com ela. E essa ausência o levava aos poeminhas desalinhados. Sem rima, claro. Pois há dois tipos de rimador: o poeta e o cafona. E Alberto não corria riscos e seguia, nem poeta nem cafona, batendo seus sentimentos no Word. Mas não os enviava para Aninha. Afinal, ela era sua amiga.

Ah, as amizades femininas! Quantos amores não mataram e ainda estrangularão ao longo da história? Esse sentimento que, nobre como o ouro, pode ser uma


intransponível pedra no meio do caminho que água nenhuma desse mundo é capaz de furar. -Né, José? Não, não mandaria aquele e-mail. Se o enviasse, passaria o dia esperando uma resposta e quando ela enfim chegasse, fatalmente traria tudo o que ele não queria mais ler:

Meu querido, Eu tb sinto sua falta. Eu o adoro e vc é uma ótima companhia e blablablá.

“Esqueça essa mulher, Alberto. Siga em frente! Eis aí um homem bonito, bem apanhado, educado, capaz e competente, cidadão dito respeitável e que ganha mais de quatro mil cruzeiros por mês! Vá se enfiar na noite à procura de um novo regaço onde possa se esbaldar e gozar toda essa vitalidade e paixão que sente pulsar em suas entranhas e entre suas pernas. Vá homem! Liberte-se! Cure-se dessa vontade! Para dor de amor só há um remédio: um novo amor.”

Tirou os olhos do espelho quando o telefone tocou. Era ela, Ana Maria, com sua voz comum de doer. Durante a conversa, Alberto chegou a se perguntar por que cargas d’água sentia um gostar tão especial por ela. Não sabia e não saberia responder. Ninguém explica essas coisas. Mas elas existem. Mais concretamente que deus ou duendes. Mas Ana lhe explicava um outro lance: não havia ido à festinha dele pois ficou presa no desesperado arrumar de sua bagagem. Afinal, ele sabia o tanto que era ela desorganizada, deixando tudo pra última hora. -Né?


É, ele sabia. Mas ela não queria partir assim, sem vê-lo. Estava com saudades e queria um chope com Alberto antes de seu embarque à Ásia, num rolê de um mês e alguns dias que daria com uma amiga do curso de gastronomia. -Vamos hoje? Naquele bar que você me levou naquele dia, lembra? Que choveu um monte. Lembrou? Adorei aquele bar!

Alberto desligou o telefone e voltou ao monitor. Voltou a esticar o dedo em direção ao mouse mas não mandou o e-mail. Tampouco o deletou. Salvou-o como rascunho. Quem sabe, numa próxima? Quem sabe?


Rascunho