A POESIA DE ANTÓNIO CABRAL: TEMAS E FORMAS ALBINO MATOS
1. Introdução 2. O poeta 3. Os temas: I. Grelha analítica; II. Poemas Durienses; III. Os Homens cantam a Nordeste; IV. Emigração Clandestina; V. Entre o Azul e a Circunstância VI. Síntese 4. As formas: I. Grelha de análise; II. Poemas Durienses; III. Os Homens cantam a Nordeste; IV. Emigração Clandestina; V. Entre o Azul e a Circunstância 5. Conclusão
1. Introdução I. E porque não, tratando de poesia, de poesia duriense, para mais, porque não lembrar aqui um poeta da região, António Cabral, falecido há poucos anos, não decerto esquecido na sua terra, bem pelo contrário, mas largamente desconhecido isso sim do país culto, quando não ignorado mesmo pelo próprio meio literário? E contudo, trata-se seguramente de um poeta como já veremos de primeira água, com bem largos recursos de escrita e inspiração, perfeitamente actual e moderno, integrado no seu tempo e espaço, com vasta obra publicada, quer na poesia, quer em outros domínios, literários e não literários. O que poderá explicar o desconhecimento de uma tal figura, no plano nacional, a despeito da sua indiscutível notoriedade local e regional? Será apenas o vezo centralista, tão arreigado no país, aliado porventura à estreiteza consabida do espaço da cultura nacional? Ou jogarão aqui eventualmente outras razões, além dessas? II. Reservemos para depois a resposta a estes quesitos. Para enunciarmos, já de imediato, o propósito que nos guia de privilegiar aqui a reflexão sobre os temas e as formas da poesia de António Cabral. Os temas e as formas, insista-se, como quem diz, basicamente, o fundo e a forma da obra poética do nosso homem Os temas e as formas. Uma maneira, como tantas outras possíveis, de apresentar, divulgar e dar a conhecer a dita poesia, que é aquilo que mais importa. Mas modo, também, de verificar, de testar ou de fundamentar algumas ideias ou impressões que brotam espontaneamente de uma primeira leitura rápida e superficial daquela poesia. A ideia, por exemplo, do peso dominante da componente regional no conjunto da obra poética do nosso autor. Ou a ideia do apuro formal da oficina do poeta, a 1
impressão de que, também ao nível da forma, o mesmo se mostra perfeitamente integrado no seu tempo, exibindo largos recursos expressivos e uma inventiva que o cota no primeiro plano da poesia portuguesa actual. E aqui temos, a forma, por um lado, a substância, por outro. III. Não poderíamos, já se vê, analisar na íntegra toda a obra poética em causa, de modo que limitaremos o exame segundo a circunstância. Vejamos, a dita obra consta de quinze volumes ao todo, que aqui damos em relação, escorada em várias fontes fidedignas:1 Sonhos do meu Anjo, Vila Real, 1951 O Mar e as Águias, Porto, 1956 - Falo-vos da Montanha, Vila Real, 1958 - A Flor e as Palavras, Lisboa, 1960 - *Poemas Durienses, Vila Real, 1963 - *Os Homens Cantam a Nordeste, Tomar, 1967 Quando o Silêncio Reverdece, Porto, 1971 A Hierarquia dos Na(ba)bos, 1976 - *Emigração Clandestina, Coimbra, 1977 - Aqui, Douro, Lisboa, 1979 - *Entre o Azul e a Circunstância, Vila Real, 1983 Novos Poemas Durienses, Vila Real, 1993 Bodas Selvagens, Chaves, 1997 O Peso da Luz nas Coisas- Poemas de Natal, Vila Real, 2000 - Ouve-se um Rumor, Vila Real, 2003 O problema é que nem todas estas obras aparecem, seja no mercado, seja nas bibliotecas. Buscando em bibliotecas públicas do centro do país – em duas, note-se, com depósito legal – só foi possível encontrar metade das publicações (aquelas que estão assinaladas com hífen). Ora bem, das obras encontradas elegemos quatro (assinaladas com asterisco*) para constituir o corpus da análise que aqui apresentamos, a saber: - Poemas Durienses (1963) - Os Homens cantam a Nordeste (1967) - Emigração Clandestina (1977) - Entre o Azul e a Circunstância (1983)
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Mencionam-se as fontes invocadas: a) O sítio of. do poeta: https://www.antoniocabral.com.pt/ b) O Projecto Vercial: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/acabral.htm c) A.M.Pires Cabral, Viajar com… António Cabral, Porto (2009); d) Indicação na portada de Ouve-se um Rumor (2003), última obra de poesia publicada em vida do autor.
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Um corpus suficiente, ao que julgamos, para a finalidade em vista, seguramente representativo da obra no seu conjunto, seja pela extensão do campo abrangido, seja pela qualidade das obras em causa, seja finalmente pelas datas de publicação dessas mesmas obras.2 Antes, porém, de tratar da obra, teremos de falar para já do homem, apresentando o poeta como tal a quem porventura o não conhecer.
2. O poeta Saia pois o artista à boca de cena e apresente-se. António Cabral (1931-2007), poeta, mas também ficcionista, de conto e romance, cronista, ensaísta e dramaturgo, ademais de etnógrafo e animador cultural. Nado e criado em Alijó (Castedo do Douro), a dois passos do rio a que a terra pede o nome, de família de agricultores remediados.3 Frequenta o ensino primário na sua terra, que conclui em 1942. Parte então para Vila Real, onde faz o curso completo no Seminário de Santa Clara; finaliza em 1954, tomando ordens como sacerdote católico. Lecciona desde então, primeiro no dito seminário, depois em aulas particulares por largos anos, mas também sucessivamente no ensino público secundário, bem como na Escola do Magistério Primário. Assume com a ordenação funções pastorais no Cotorinho (Campeã, Vila Real), a par da gerência da Minerva Transmontana, empresa gráfica ligada à diocese (1961-73). Entretanto, dispensado do voto de celibato canónico, abandona o sacerdócio e casa com Alzira Vilela (1972), que conhecera como explicanda ainda nos anos 60 e que reencontra, como colega, na Faculdade de Letras do Porto, ela de Românicas, ele de Filosofia (licenciatura em 1975). De tal casamento nascem duas filhas, Eva e Lídia. Diz quem o conheceu bem que António Cabral era um homem exuberante, de riso pronto e fortes convicções.4 Alegre e correntão, dado ao convívio e à amizade, diz que enchia o lugar onde estivesse, discutindo e argumentando sobre as questões da actualidade. Enérgico e dinâmico, acrescenta-se, dotado de grande capacidade organizativa, empenhava-se ao máximo na intervenção social e cultural, sempre fiel por um
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Não se diga que a inclusão dos Poemas Durienses, de reconhecida vocação regionalística, desequilibra a contabilidade no conjunto da obra. É que deixamos fora do campo da análise, a compensar, um outro livro de igual vocação, Novos Poemas Durienses. 3
Com grau variável de detalhe, aqui, por ordem decrescente: a) Sítio of. https://www.antoniocabral.com.pt/vida b) A.M.Pires Cabral, op. cit., passim. c) Projecto Vercial: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/acabral.htm; d) Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Cabral_(escritor)
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A.M.Pires Cabral, op. cit.
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lado à sua fé religiosa pessoal e familiar, e por outro a um pensamento social progressivo, do lado dos humildes, desfavorecidos e explorados. Sempre ligado a Vila Real, cidade e distrito, funda aí com outros o Centro Cultural Regional (1979), que dirige até 1991, tal como o Núcleo Cultural Municipal, estando na génese das respectivas publicações, revista Tellus (1978) e mensário Nordeste Cultural (1980). Mas já anteriormente, em 1962, participava na criação do movimento Setentrião, com revista homónima, a cujos camaradas (Nuno e António Barreto, Eurico Figueiredo, Eduardo Guerra Carneiro, Carlos Loures, entre outros) dedica o volumezinho seminal de 1963, Poemas Durienses. Interessado na cultura popular e devotado à sua divulgação, aprofunda estudos sobre os jogos tradicionais, ao mesmo tempo que promove eventos e encontros da actividade, nacionais e internacionais. Isto no âmbito do já referido Centro Cultural, tal como, anteriormente, enquanto delegado regional do FAOJ (1974-76), e sucessivamente como delegado distrital do INATEL (1996-2004). Publica, além das recolhas de poesia atrás indicadas, várias obras de ficção, teatro, história literária, etnografia e antropologia, com particular incidência na ludoteoria. Refira-se, por último, que poemas seus, antes ainda da Revolução de 1974, foram musicados e interpretados por cantautores de intervenção, como Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Francisco Fanhais, por exemplo.
3. Os temas I. Grelha analítica Entramos na matéria, os temas desta poesia, com uma ideia muito simples, a de medir o peso da temática regional na obra poética do nosso patrono. Por outras palavras, comprovar com um padrão de medida a afirmação intuitiva e evidente de que o peso daquela temática é enorme no todo da obra, que António Cabral é sem sombra de dúvida ‘o poeta do Douro’ por antonomásia, que nenhum como ele assumiu tão intensa e extensamente a vivência rural da região, quer a montante (Junqueiro, Torga), quer a jusante (Pires Cabral). Vamos usar uma grelha classificativa contrapondo essencialmente a componente local e regional e as outras componentes (lírica pessoal, lírica de relação, lírica social, lírica da natureza), distinguindo já agora o peso relativo de cada uma delas. Grelha forjada e apurada in itinere, na própria análise da obra, ao jeito do segador que avança pela seara dentro, decidindo na hora se usará gadanha ou foucinha, e parando aqui ou ali para afi(n)ar o instrumento de corte. Assumindo, no nosso caso, algum subjectivismo inevitável na concepção do instrumento de análise e classificação, quando não na sua aplicação concreta, sem excluir sequer a possibilidade de erro, já se vê, num ponto ou noutro, por inadvertência. 4
Expliquemo-nos, então, quanto às diferentes rubricas. A rubrica regional (ou regionalista, ou mesmo regionalística, se assim preferirmos…) vai de si mesma, compreende os poemas com alusões explícitas ou veladas ao entorno local ou regional, em qualquer dos seus aspectos. A lírica pessoal, hoc sensu, tem a ver com o próprio sujeito poético ou com o acto de criação poética, considera o próprio poeta em si mesmo, com suas ideias, sentimentos, emoções, crenças, etc. abstraindo de qualquer relação sua com terceiros. Contrapõe-se-lhe a lírica de relação, que cobre os poemas alusivos à relação do sujeito poético com um ‘tu’ expresso ou implícito, seja este o par da relação amorosa ou de qualquer outra relação bilateral. Sendo a relação visada no poema de natureza colectiva ou social, respeitante a uma comunidade mais ou menos alargada, falaremos então de lírica social, cabendo aqui igualmente as vertentes política, cultural e histórica, por exemplo. Consideramos ainda um outro apartado, meramente acidental, a lírica da natureza, para abranger referências a elementos da natureza em qualquer dos seus domínios.
II. Poemas Durienses Um livro-programa, diz dele o prefaciador da edição que aqui utilizamos.5 Neste livro, pode dizer-se, é avassalador o peso da componente regional, em sintonia desde logo com o seu título. Vejamos, em pormenor. a) Lírica regional Logo no poema inicial (Estes montes, p. 15), que interroga: Estes montes, que se desdobram e dobram como um ribombo, que pesadelo suportariam? No poema seguinte (Aqui, o homem, p. 16), volta a aludir-se aos mesmos montes, que fecham nas cumeadas o vale onde o rio corre: Montes de pedra dura, gólgotas onde os geios são escadas. A seguir, um outro poema (Ode ao rio Douro, p. 17), em que o sujeito poético se dirige ao próprio rio, em discurso directo. O poema imediato (Miradouro de S. Salvador do Mundo, p. 20) é dedicado a este famoso monumento natural da região, do termo de S. João da Pesqueira. Logo depois (Um passeio, p. 21), continuamos vinculados à temática local, posto que o passeio em causa alude aos ‘barrancos de S. Cristóvão’, às vinhas, assim como aos bandos de homens que ali trabalham e suam.
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A.M.Pires Cabral, no prefácio de Poemas Durienses (Opera Omnia, 2017).
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Dois barqueiros, no areal da Régua (p. 24) dispensam para este efeito outra menção além do título. E o mesmo se diga de Os malhadores (p. 26), ainda do tempo dos manguais, tal como A uma oliveira (p. 27), ‘irmã do tempo e do silêncio’. O díptico da solidão (p.28) fala-nos também de uma aldeia que o poeta almeja, a exemplo de Yeats com relação ao famoso lago de Innisfree. E outrossim História triste (p. 29), que apesar de relatar um certo facto acontecido na estação de Ovar, o suicídio de um homem, este entra no discurso porque o poeta o recorda, já que o homem era seu conterrâneo. É ainda à aldeia (Na minha aldeia – diz o poeta – aos domingos à tarde, os homens jogam o fito) que se refere o poema seguinte (Um meio de iludir a solidão, p. 31). Mesmo um poema como Bispo de Viseu (p. 33), sem nome indicado da personagem, temos de enquadrá-lo na rubrica local, sabendo que um certo famoso bispo de Viseu, António Alves Martins (1808-82), era natural de Alijó. Por vezes, bastam os títulos dos poemas, sem mais, para os associar à componente regional: Douro, meu belo país (p. 35); Descendo a Quinta do Roncão (p.37); Lá vem um barco rabelo (p. 38); A Senhora dos Remédios (p. 40), célebre romaria de Lamego; O lavrador percorrendo a vinha (p. 50); Ermida de N.S. Piedade em Sanfins do Douro (p. 53); Ode ao Marão (p. 55); Podando (p. 62); A amendoeira do cômoro (p. 63); Os cavadores regressando do campo (p. 64); Uma vindima (p. 65); Guerra Junqueiro (p. 67), o poeta de Os Simples e lavrador de Freixo de Espada à Cinta; Miguel Torga (p. 86), médico em Coimbra, mas poeta filho do termo de Sabrosa; O Pinhão (p. 76); Ponte sobre o rio Tua (p. 79); Aqui, Douro (p. 98).6 Mas não podemos deixar de remissa, neste lugar, mais estes poemas: Cantemos este dia de trabalho (p. 59), que nos fala de homens em mangas de camisa, pulverizando longas filas de videiras; A quinta do Senhor Smith (p.68), evocando o domínio antigo dos britânicos na actividade vitivinícola da região; Oração (p. 73), a propósito do Zé do Quintal, que ‘está triste porque o míldio/ lhe queimou as uvas/ - quase tudo o que possuía’; Canção do lavrador desconhecido (p. 74), mencionando também o míldio, além do oídio, as carquejas, a Quinta dos Frades, o Douro; O sonho que nos legaram (p. 80), citando expressamente o ‘Douro dos montes em calvário’; História para ser meditada (p. 83), relativa a certo colega e amigo de infância do sujeito poético, depois cavador de enxada, que acaba tuberculoso; Esta cerejeira (p. 87), identificando a espécie bical, tão apreciada na região. b) Lírica pessoal
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Curioso, este poema, Aqui, Douro – que renasce aqui e acolá, evoluindo sempre, segundo o tempo e o lugar. Aparece a primeira vez em Falo-vos da Montanha (1958), tem depois edição autónoma (1961), reaparece no presente livro (1963), saindo mais tarde em nova edição autónoma (1979). Mais do que um poema, dir-se-ia um hino pessoal, ou um credo poético.
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Classificamos nesta rubrica os poemas Homo, mensura (p. 34), Poesia e amoras (p. 39), Cantiga que eu ouvi ao ramo de uma árvore (p. 54), De desgaste em desgaste (p. 75). c) Lírica de relação Aqui consideramos os poemas Descalça vai para a fonte (p. 22), decalcada na célebre cantiga de Camões, Maria (p. 36), As crianças (p. 52), e Canção de embalar (p. 72). d) Lírica social Enquadram-se neste apartado os poemas seguintes: Aviso que pode ser útil a algumas pessoas (p. 32), sobre o Chiado, ou chiados, o antigo e os novos; Maria, a linda moira (p. 42); Um quintal e um sonho (p. 57), que aliás poderíamos meter legitimamente na epígrafe regional, pela alusão ao quintal e à casa do sujeito poético; Castro em ruínas (p.77), com idêntica consideração; Crime (p. 82), alusivo a um dissídio entre irmãos; Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste (p. 95). e) Lírica da natureza Abrangem-se nesta rubrica seis poemas, por razões evidentes: Neve (p. 61), Uma noite de Agosto (p. 70), Uma tarde de chuva (p. 88), Ode à lua (p. 92), Contra a lua (p. 94), Uma árvore (p. 96). Apurando as contas, quanto a este primeiro livro (55 poemas), temos o seguinte: - Lírica regional: 35 poemas (63%) - Lírica pessoal: 4 poemas (7%) - Lírica de relação: 4 poemas (7%) - Lírica social: 6 poemas (11%) - Lírica da natureza: 6 poemas (11%).
III. Os Homens cantam a Nordeste a) Lírica regional Deste livro (com uma só edição, ao que se julga), são menos, mas ainda assim são muitos, os poemas enquadráveis na componente regional. Carta ao George (p. 10), ecoando o conhecido poema de Nobre,7 incita o ficto destinatário: ‘anda ver meu país do vinho e do suor’ (o país-Douro, atentemos), ‘país
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António Nobre, Só (Lusitânia no Bairro Latino): Georges! anda ver o meu país de marinheiros O meu país das Naus, de esquadras e de frotas! Oh! as lanchas dos poveiros A saírem da barra, entre ondas e gaivotas.
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do sol em chamas,/ um rio, ferro em brasa, a estalar’. E, além do rio, da podoa e do tractor, o poema menciona ‘os geios de vinha,/ escadas, uma raiva de escadas, mais/ escadas que as da Tour Eiffel ou de Babel’.8 Onde o suor e o sonho dão as mãos (p. 12) refere-se também à região, ao jeito próprio do poeta, associando ‘sonho’ e ‘suor’, marcas registadas de uma terra bravia: Bravia é esta terra onde os homens se assemelham aos troncos das árvores. A redra (p. 14) nomeia e canta a ressabida operação praticada na zona, de segunda cava das vinhas. Oito dias de nevoeiro (p. 22) alude a uma praga antiga do vale duriense, o nevoeiro persistente de dias, actualmente superada com a subida do nível da água, derivada das obras de navegabilidade do rio. À saída do Correio (p. 34) incorpora igualmente um eco regional, quer pela alusão à Companhia, quer pela referência explícita ao Douro: - Donde vem a carta, senhora Maria? - Vem da capital, é da Companhia. - E que diz a carta, senhora Maria? - Que no Douro o sol nasce ao meio-dia. Um eco idêntico soa em Lamentação por uma vinha (p. 43). Como em Viagem com um gato (p. 46), que nos fala de uma viagem de comboio ao longo do rio (que é gato). E ainda em Carta a João Cabral (p. 48), onde se reitera a ideia que aparece no poema anterior, do Douro como um rio gato. Sol engarrafado (p. 50) é a expressão genial que se arranca do nada, para designar o produto duriense chamado na região ‘vinho fino’ ou ‘vinho tratado’, mas que o mundo conhece por ‘porto’, a partir da trasfega gaiense. Esse vinho, diz-nos o poema: É sol, é sol engarrafado. Sangue também. Ao pai do poeta (ou do sujeito poético…), agricultor na região, aludem dois poemas: Meu pai, um como tantos (p. 53), e Silêncio e cravos (p. 54):
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Este Georges mítico (com ‘s’, como em Nobre) vai reaparecer, aí com o nome grafado sem lapso, em Emigração Clandestina, pp. 40 (Écloga I), e 69 (Carta ao Georges)
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Hoje, o meu pai trazia do campo grinaldas de espinhos. O suor escorrendo pela barba crescida. E botas e calças empoeiradas. // O meu pai é lavrador. Tem na varanda um craveiro e outro no fundo dos olhos. Versos que parecem uma brincadeira, mas não são (p. 55), afirmam, e insistem, que ‘O Douro gera vinho e pedra’. E Elogio da agricultura (p. 57), além dos lavradores, menciona quer a Casa do Douro, quer o ar do Marão. O mesmo se diga de O tempo (p. 61), lamentando que ‘no Douro é raro andarem a horas até os comboios’! O país (p. 90), convém reparar, é o país-Douro, não o país-Portugal. A confirmar: É um pequeno país marcado por um rio e pela erva que cresce nos olhos das mulheres. (…) Nenhum vestígio de mar. Carta para um amigo da cidade (p. 91) é também ela referente à região, contendo alusões à montanha, à falta de braços no campo, à apanha da azeitona. Por fim, os poemas em que a temática regional se infere dos próprios títulos: No alto do Marão (p. 19), Vista parcial duma aldeia duriense (p. 26), De Lamego a Resende (p. 31), Pinhão, 8,20 (p. 36), Os cabos eléctricos do Douro (p. 45), Vila Real (p. 59), A Régua (p. 60), Vila duriense em adivinha (p. 62), A Casa do Douro (p. 64), Numa aldeia duriense (p. 88), Romance do rio Douro (p. 93). b) Lírica pessoal Neste domínio são considerados os poemas seguintes, que perfazem uma soma relevante, a exemplo da rubrica anterior: Princípio (p. 9), Enquanto as nuvens passam (p. 18), Rondó dos mortos e dos vivos (p. 21), Oração de Natal (p. 24), Cantiga (p. 28), Quadro (p. 32), As palavras (p. 33), Barcarola (p. 38), Certas palavras (p. 66), História das calças azuis (p. 67), Os brontossáurios (p. 68), Comentário (p. 69), Os tais (p. 70), Ode à terra (p. 71), O homem que andava aos cogumelos (p. 73), A morte do cavalo (p. 75), Nado-morto (p. 77), Uns versos à Clarisse (p. 79), Serranilha (p. 80), Glosa (p. 82), Paisagem (p. 83), Elogio do silêncio (p. 85), Poema (p. 86), Torrão ou fio de giesta (p. 87), Tríptico pungente (p. 89), Estrelas musicais (p. 97), Apesar de tudo (p. 98). c) Lírica de relação Com escassa presença, abrange esta rubrica três poemas: Bebe comigo o sol (p. 29), Canção do entardecer (p. 30), e Morreu o velho Daniel (p. 74). d) Lírica social 9
Cobrem-se, com este chapéu, os seguintes poemas do presente livro: Canção do emigrante desconhecido (p.16), O fandango (p. 25), O molho de giestas (p. 27), Meditação com um menino (p. 41), Na repartição (p. 63), O homem justo (p. 65), Poema com história (p. 72), e O emigrante (p. 94). O apuramento das contas, quanto a este livro (68 poemas), dá os seguintes resultados: - Lírica regional: 27 poemas (40%) - Lírica pessoal: 27 poemas (40%) - Lírica de relação: 3 poemas (4%) - Lírica social: 8 poemas (12%) - Lírica da natureza: 3 poemas (4%).
IV. Emigração Clandestina9 a) Lírica regional A pertença regional dos poemas que a documentam ou evocam no título podemos aboná-la, como é evidente, sem mais aquelas: Trás-os-Montes (p. 51),10 Junto do marco geodésico do Monte da Bandeira em Castedo do Douro (p. 57), O castelo de Numão (p. 60), Senhora do Viso (p. 61), e Marão (p. 62). Mas tal pertença é manifesta ainda com relação aos seguintes poemas: Documento (p. 50), que fala do tempo atmosférico do Outono/73 e do seu reflexo no pequeno lavrador duriense, e no grande; Aquela mulher (p. 52), com um molho de erva à cabeça; Por aqui não (p. 55) – pois não, diz o poema, não há fábricas, há lagares de azeite e é um pau; Sob este céu de chumbo (p. 53), quase epigramático, que paga a pena transcrever: Seis graus abaixo de zero em Trás-os-Montes. Muito gostava de ver um poeta formalista, sob este céu de chumbo a escrever o seu versinho. Há, por último, um conjunto de poemas alusivos a certos utensílios agrícolas, bem curiosos por sinal, que igualmente pertencem aqui: Podoa (p. 114), Enxada (p. 115), Tractor (p. 116), Forquilha (p. 117), e Escada (p. 118). b) Lírica pessoal
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Primeira e única edição, salvo erro: Coimbra (Centelha), 1977.
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Apenas isto, que se não é de génio anda lá muito perto: Trás-os-Montes é uma sombra pintalgada de sol com um rio ao fundo para disfarçar.
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Esta rubrica tem, no presente livro, um peso equivalente ao da componente regional, abrangendo os poemas que passamos a arrolar: Emigração clandestina (p. 7) – nada a ver com a emigração verdadeira e própria; A flor e as palavras (p. 34); Para este campo vos convoco (p. 37); Écloga I e Écloga II (pp. 40, 42); Lê-se na Bíblia (p. 44); Os oxímoros (p. 47); Sugestão para pintura (p. 48); Canção (p. 56); A propósito da sabedoria (p. 58); Brincadeira poética (p. 82); Acróstico giratório (p. 83); Tu não verás, Marília (p. 88) – decalcando o versinho de Tomás António Gonzaga (Tu não verás, Marília, cem cativos); Numa praia do sul (p. 97); Acusar Ezra Pound (p. 98); Isso de uma personalidade poética (p. 126) – em que se surpreende um certo sabor de Álvaro de Campos, como já foi justamente notado.11 c) Lírica de relação Os poemas a arrumar nesta estante são os seguintes: Primeiro poema (p. 10), Comparar-te (p. 11), Revelar-te (p. 12), Só (p.13), Não esquecerei (p. 14), Absoluta (p. 15), Eflúvio de terra morna (p. 16), Um instante sobre o silêncio (p. 17), Uma casa preenchida (p. 18), Cada onda do teu corpo (p. 19), Uma estrela para habitação (p. 20), Sem distância de água (p. 21), A teu lado (p. 22), Sobre um lírio (p.23), Mulher de junquilhos verdes coroada (p. 24), Um discurso tranquilo (p. 26), À minha filha Eva (p. 27), Algumas palavras (p. 32), Praia/1974 (p. 91), Mulher velha (p. 100), e Mulher nova (p. 101). d) Lírica social Corriam os anos de brasa pós-revolução quando este livro foi publicado, incorporando, podemos presumi-lo, produção poética de data recente. Não admira, por isso mesmo, que seja importante o peso da lírica de tema social no conjunto do volumezinho.
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A.M.Pires Cabral, Viajar com… António Cabral. A conferir: Não tenho uma personalidade poética, não quero ter uma personalidade poética, isso de uma personalidade poética é um artifício, uma abstracção, um limite, um bluff. Respiro os quatro ventos que me entram na carne, pelas palavras, revolvem, estilhaçam, refazem as vísceras e o pensamento, as vísceras do pensamento. Estou atento a todas as formas do ser infinito. Serei um grande corpo fluvial.
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A abrir, Assembleia Nacional (p. 45), que transcrevemos, conjecturando tratarse aqui do órgão legislativo do Estado Novo, da Constituição de 1933: Sei um país com barriga de pedra e ramos de giesta nos cornos. Vede a Assembleia Nacional: obra-prima da inteligência que a natureza descontou aos brontossáurios, abrindo neste país de esterco e pedregulhos uma fábrica de ideias enlatadas. Vêm, depois: Numa rua do Porto (p. 46), Quando fulano de tal (p. 49),12 Problema (p. 54), O emigrante (p.63), Ratos no sótão (p. 65), Universidade Portuguesa (p. 66) – lembrando a exclusão por motivos políticos de vultos eminentes da cultura e da ciência; Carta ao Georges (p. 69) – onde é lícito ver, neste trecho saboroso, uma velada alusão à designação de Marcelo Caetano, em 1968, como sucessor no cargo de Salazar: ‘a nomeação, para um dos pináculos, dum fulano que tem morcegos nos olhos’! E não é que?... A lista alonga-se, quase página a página: Um dia saberemos (p. 70), Um processo cómodo (p. 71), Tojo miúdo (p. 72), Evocação de Mário Sacramento (p. 74) – o grande médico e homem de cultura de Aveiro; In memoriam do camponês desconhecido (p. 75), O velho entrara triste (p. 76), O cogumelo (p. 78), 25 de Abril (p. 80), Leonor (p. 85) – filhada a Camões, para meter num chinelo (que não usava…) as madamas do Alvor. Continuando, seguimos por Habituei-me à ironia (p. 86), Janeiro/75 (p. 87), Bastou um sopro (p. 89), Eleições de 1975 (p. 92), A reforma agrária (p. 93), Na estalagem de Ofir (p. 94), O pequeno agricultor (p. 102), Os nossos governos (p. 103) – este último, tão certeiro, que é impossível deixar na sombra: Numa coisa os nossos governos têm sido escrupulosamente cristãos: mantêm a agricultura pobre para cumprir a profecia de Cristo, que diz: pobres sempre os tereis convosco. Para fechar o inventário, neste ponto, temos de referir ainda mais estes poemas: Hotel de cinco estrelas (p. 104), Se (p. 105), Estação de Santa Apolónia (p. 106), Retrato de família (p. 107) – que mete a par, na foto, Lisboa (‘dama oceânica’…) e
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Merece transcrição, indubitavelmente (santa paciência!): Quando fulano de tal subiu à tribuna reparei naquela gente olhos despojados de sua cor imóveis e re dondos como beatas então pensei camarilha de merda
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Bragança, Vila Real e Chaves (‘três raparigotas bem educadas’…); Padre Max (p. 108), Algumas quadras (p. 109), Quadras fre(i)néticas (p. 113), Castro celtan(p. 119). Verificando as contas, deste livro (84 poemas), apuramos o seguinte: - Lírica regional: 14 poemas (17%) - Lírica pessoal: 16 poemas (19%) - Lírica de relação: 21 poemas (25%) - Lírica social: 33 poemas (39%).
V. Entre o Azul e a Circunstância a) Lírica regional O tema local ou regional tem uma presença expressiva neste livro,13 já que ocupa mais de um terço do total de poemas, destacando-se desde logo três ‘elegias durienses’, com seus dois ‘salmos’ intermédios (pp. 43-48). Mas tem, além disso: Terra (p. 8), aliás sem título, realmente; Entre o azul e a circunstância (p. 9), que dá título ao volume, assim como à primeira secção do volume, aludindo p. ex. a cabra, pastor, giestas, maias, Covas de Barroso; Nervo a nervo (p.11), com menções à manhã, a montes e montes, ao Larouco; Os olhos de Penélope (p. 12) contém um inventário de topos geográficos transmontanos, de uma ponta à outra do Douro, de Mazouco a Barqueiros; Os homens cantam a Nordeste (p. 15) é aqui um poema, mas já fora, como vimos, um título de livro, e fala agora do Tâmega, dos bois da Padrela e, como sempre, do Douro, esse ‘paraíso do vinho para os outros’; e, por fim, Nocturno de Vila Real (p.17), que dispensa outra menção. b) Lírica pessoal Temos um poema único desta recolha, para arquivar nesta gaveta: Arte poética (p. 7), que bem justifica transcrição: Palavra que não se invente não é quente. Palavra que não tem dente não é gente. Flor que (fruti) fique no ramo todo o ano e o vergue para o chão ao alcance da mão.
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Edição do autor para ‘Livros do Nordeste’ (Centro Cultural Regional de Vila Real), de 1983, única, ao que se sabe.
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c) Lírica de relação Um só poema há para classificar também aqui, Quando os cântaros descem os teus olhos (p. 20), de que oferecemos o início, o primeiro elemento apenas de um conjunto de cinco: A vida a minha se demove quando os cântaros descem os teus olhos. Ficarei à esquina de mim próprio a ver-te passar dentro? Oh de cravos tão breve a enfeitar-nos a tenda! (…) d) Lírica social Esta é a componente de mais peso no volume, como já sucedia no livro anterior, mas aqui é ainda maior o peso relativo. Abrangem-se as três ‘elegias de Lisboa’ (pp. 25, 27, 30), além das ‘coisas breves’ (pp. 32-39), que são quinze, ao todo Rua Augusta/ À beira do Tejo/ Praça de Espanha/ De e sem/ De táxi/ Restaurante/ Cova da Onça/ Boca do Inferno/ Caparica-1/ Caparica2/ Sé/ Hotel de 5 estrelas/ Se/ Estação de Santa Apolónia/ Espécie de fotografia).14 Em resumo, deste livro (31 poemas), são estas as contas: - Lírica regional: 11 poemas (36%) - Lírica pessoal: 1 poema (3%) - Lírica de relação: 1 poemas (3%) - Lírica social: 18 poemas (58%).
VI. Síntese Tentemos agora uma visão de conjunto dos dados já registados, fundindo os quatro livros, com somar as suas composições, para conhecer os números globais de cada uma das rubricas da grelha. Mantendo a sequência dos livros segundo a ordem de publicação (Poemas Durienses, 55 poemas/ Os homens cantam a Nordeste, 68 poemas/ Emigração Clandestina, 84 poemas/ Entre o Azul e a Circunstância, 31 poemas), cujos números parcelares se dão a seguir entre parênteses), teremos este quadro:
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A discriminação serve-nos para deixar, à margem, uma anotação de esclarecimento, de que os últimos quatro elementos das ‘coisas breves’ vêm repetidos, por inadvertência ou não, de Emigração Clandestina (1977). Pormenor de somenos, desconsiderado nas contas do texto.
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- Lírica regional (35+27+14+11), 87 poemas (37%) - Lírica pessoal (4+27+16+1), 48 poemas (20%) - Lírica de relação (4+3+21+1), 29 poemas (12%) - Lírica social (6+8+33+18), 65 poemas (27%) - Lírica da natureza (6+3+/+/), 9 poemas (4%) Sobram as palavras, perante a clareza dos números, que nos autorizam a concluir isto, pelo menos, que há duas componentes destacadas na poesia de António Cabral: o elemento social (27%), e acima dele, o elemento regional (37%). Alguma surpresa, nisto?
4. As formas I. Grelha de análise Do tópico do conteúdo transitamos ao da forma, focados no exame do mesmo corpus, agora em obediência a três critérios distintos: a) Primeiro, a dimensão do poema, a sua extensão, medida pelo número de versos, o tamanho por assim dizer, grande pequeno ou médio (a estatura); b) Segundo, a forma escolhida na disposição dos versos, na composição da estrofe, onde aplicável, em conjuntos de dois, três, quatro ou mais versos (o formato); c) Terceiro, algumas soluções adoptadas pelo poeta, mais invulgares, ousadas ou surpreendentes, seja na forma do poema, seja na expressão verbal utilizada (os ousios, permita-se o termo, formais ou expressivos. Ao tratar do formato, anotamos ainda alguns pontos complementares, na sobras em causa: a utilização de prosa poética, umas vezes, a adopção de rima, outras vezes, bem como o uso da forma soneto, ainda que irregular, algo sedutora para o nosso poeta.
II. Poemas Durienses a) Estatura Distinguiremos, neste capítulo, os seguintes escalões: 1) Inferior, até 9 versos; 2) Classe 10; 3) Classe 20; 4) Classe 30; 5) Superior, 40 e mais versos. Ora bem, os padrões mais usados no presente livro são os da classe 10 (entre 10 e 20 versos) e da classe 20 (entre 20 e 30 versos), cada uma com 18 poemas. A saber, classe 10 (pp. 21-32-33-34-37-38-50-53-54-61-63-65-67-72-73-74-76-87). E classe 20 (pp. 15-16-26-27-28-29-31). Abaixo destes padrões, temos 5 poemas no escalão inferior (pp. 20-75-79-8286). Acima, 6 poemas na classe 30 (pp. 22-24-35-55-59-80); e 8 poemas na classe superior (pp. 17-40-42-57-69-70-88-97).
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O mais longo, Maria, a linda moira (p. 42), com 148 versos. O mais curto, Miradouro de S. Salvador do Mundo (p. 20), com 5 versos. A conferir: Quem trouxe o inferno para aqui e o converteu em serrania talhada, retalhada de vastidões, fundões e penedia? O pensamento gela nas palavras… b) Formato15 A grande maioria dos poemas pertence à classe 6, de sextilhas e superior (pp. 15-21-22-24-27-28-29-31-33-34-40-52-55-57-59-63-64-65-68-70-72-73-80-82-83-8894-95-96-98), 30 poemas ao todo, mais de metade, 55%. Abaixo disso, da classe 5 (quintilhas), temos 3 poemas (pp. 16-20-77). Da classe 4 (quadras), um número expressivo, 14 poemas, 25% (pp. 17-26-32-36-38-39-42-5053-61-67-74-86-92). Da classe 3 (tercetos), 4 poemas (pp. 54-75-79-87). Da classe 2 (parelhas), 2 poemas (pp. 37-76). Este último (O Pinhão), não o deixaremos sem destaque: Lá em baixo, na curva do rio, vazadouro e fornalha, está o Pinhão. Belo! belo! – dirá o turista. E o burocrata: progressivo. Mas o Pinhão não é nada disso, é mais do que isso, não é nada do que mostram os documentários de cinema ou qualquer ‘Life’ comercial. Pinhão!, capital do suor, os teus caminhos são pedaços de sangue coagulado. Não há soneto, neste livro. Há prosa poética, 9 peças (pp. 73-80-82-83-88-9495-96-98). E há rima, em 8 poemas (pp. 21-22-42-54-61-62-74-86). c) Ousios Assinala-se um ousio formal: Podando (p.62), com verso curto (uma palavra, duas no máximo), de três sílabas. Dignos de nota, alguns ousios expressivos: 1) Dois barqueiros, no areal da Régua (p. 24): A avenida João Franco… a esta hora do entardecer,/ com o sol escoando-se nas árvores,/ tem um ar de jovem despenteada. O silêncio, lê-se mais adiante, é um 15
Em abono da verdade, diga-se que nestas contas do formato prescindimos do rigor aritmético em dois ou três casos, onde o poeta usa dois ou mais tipos de estrofe dentro do mesmo poema.
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longo vidro partindo-se. 2) Uma noite de Agosto (p.70): O luar escorre dos telhados da aldeia./ Voluptuosamente escorre pelos muros/ até cair nos becos e ruelas. 3) Canção de embalar (p. 72): O gato do vento mia nas frinchas da janela. 4) Ode à lua (p. 92): Silenciosamente, pela ramagem dos pinheiros/ a tua mão de veludo acaricia-me o pensamento.
III. Os Homens cantam a Nordeste a) Estatura Também neste livro, a exemplo do anterior, a medida mais utilizada do poema é da classe 10, entre 10-20 versos (pp. 9-12-18-25-26-27-28-29-31-52-53-56-62-64-6870-72-74-83-84-86-87-89-90-97-98-). e da classe 20, entre 20-30 versos (pp. 10-21-3033-34-45-54-59-63-65-67-71-73-79-85-88-93), contando-se na primeira 26 poemas (38%), e na segunda 17 poemas (25%). Com valor residual, a classe 30, 5 poemas apenas (pp. 14-16-36-48-50). Na classe superior (40 e mais versos), registados 13 poemas (pp. 19-2238-41-43-46-55-5775-80-91-94). Na classe inferior (até 9 versos), existem 7 poemas (pp. 13-24-32-60-6166-69). Desta última classe retenha-se, por exemplo. Oração de Natal (p.24). Perdão, Senhor, para quantos na noite de Natal confundem o teu nome com o seu desejo. b) Formato Os poemas da classe 2 (parelhas) têm aqui um valor numérico pouco avultado, 4 ao todo (pp. 12-54-66-69). Ainda menor, o número da classe 3 (tercetos), apenas 3 poemas (pp.64-89-98).16 Há bastantes quadras, mais que no livro anterior, 18 poemas ao todo (pp. 1021-24-28-30-34-48-50-52-56-62-63-67-70-77-79-91-97). Mas o que abunda, isso sim, são os poemas da classe 6 (estrofes de 6 e mais versos), são 35 no conjunto, mais de metade do total do livro (pp. 14-16-18-19-22-25-27-29-31-32-33-36-38-41-43-45-4653-57-65-71-72-73-74-75-80-83-84-85-86-87-88-90-93-94) – nada de especial a inferir daqui, a não ser talvez o peso do ecletismo da própria classe, que mistura formatos muito diversos, portanto com natural recorrência estatística.
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Este último poema, Apesar de tudo (p.98), ilustra bem a dificuldade do analista, já apontada, perante uma composição que não usa um só tipo, mas antes quatro, visto que tem um terceto, uma quadra, uma parelha e um monástico.
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Não há neste volume, nem quintilhas, nem prosa poética. Mas existe rima, o dobro por sinal do livro anterior, 16 poemas (pp. 9-14-21-26-34-38-54-62-63-67-68-7077-79-80-93). Sonetos, temos dois (pp. 26-68), dando-se aqui o primeiro (Vista parcial duma aldeia duriense), como quem desse um rebuçado: Há nesta aldeia oitocentas almas, mas vinte, pelo menos, têm o corpo lá longe em terras de África. É a guerra. As cartas vão chegando como sopros. Chegam as cartas e algumas notas de banco. O sô Manso já comprou um fogão a gás. Enquanto o filho arrisca a pele, ele vive um pouco melhor. Coisas da paz. De lá perguntam como vai a cava, se as raparigas têm paciência, claro!, se o vinho é bom, se os filhos obedecem. Aqui, o dia vem depois da noite, mastigam-se as ideias com o caldo e, às vezes, as mulheres empalidecem. c) Ousios Ousios formais, podemos citar três, pelo menos, em pinhoca (pp. 59-60-61). Deixando de lado o primeiro (Vila Real), e o segundo (A Régua), por agora, ficamos com o terceiro (O tempo), boa ilustração do que aqui se chama um ‘ousio’, como quem diz um divertimento, para não dizer uma forma atrevida: No Dou RO é ra RO anda R em a ho R as até OS comboi OS. Ousios expressivos, por seu turno, temos aqui uma caterva deles: 1) No alto do Marão – diz o poema homónimo (p. 19) – estala e cai em pedaços a crosta do dia-adia. 2) Oito dias de nevoeiro (p. 22), de que já falámos atrás, ecoando as desgraças de uma terra achacada às névoas, implora no final, ironicamente: Valha-nos Deus/ e um caldinho de cebola bem quente. 3) O fandango (p. 25), com relação ao par de bailarinos ao despique, fala em dois torrões moventes com uma alma de sol. 4) Bebe comigo o sol (p. 29), convida a isso mesmo: Bebe comigo/ o sol na concha do silêncio. 5) Canção do entardecer (p. 30): Cravarei no muro a minha planta/ de palavras, aladas pétalas. 6) De Lamego a Resende (p.31): A tarde com seus pés de seda/ nasce do outro lado do rio. 18
7) As palavras (p. 33): Falar da tarde que derrete espigas/ na linha do horizonte – eis a primeira possibilidade que se depara ao sujeito poético. 8) Silêncio e cravos (p. 54): De dois gumes de silêncio/ sei eu quem faz um sonho. 9) Certas palavras (p. 66): … assemelham-se a escorpiões pintados de branco. 10) Torrão ou fio de giesta (p. 87): Vim aqui somente/ para encher o olhar/ nas fontes da tarde. 11) O país (p. 90): Os dias/ vão-se buscar aos celeiros do amor./ E barcos que ninguém construiu/ partem velozes dos nossos dedos. 12) Apesar de tudo (p. 98): Um dia fechamos o escorpião do medo/ no círculo triunfante do nosso amor. E por último, falado acima nesta página, um duplo ousio, expressivo e formal, A Régua (p. 60): A Régua assemelha-se a um pensamento com sucessivas ideias prestes a entrarem nos lábios do rio.
IV. Emigração Clandestina a) Estatura O corpo dos poemas deste livro é na maior parte da classe 10 (entre 10-20 versos), ao todo 38 poemas, quase metade, 45% (pp. 10-11-14-15-16-17-18-19-20-23-2644-55-56-60-61-65-67-70-71-75-85-87-88-91-97-100-104-105-106-108-113-114-115116-117-118-126).Vem depois a classe inferior (até 9 versos), com 13 poemas (pp. 1221-45-47-49-52-53-82-83-92-93-101-102). Menos expressivas, temos a classe 20 (20 e tal versos), que conta 7 poemas (pp. 13-22-32-57-62-63-74), a classe 30 (30 e tal versos), com 6 poemas (pp. 24-58-7280-89-98), e a classe superior (40 e mais versos), com 10 poemas (pp. 7-27-34-37-4042-66-94-109-119). Fica aqui, como exemplo do mínimo – que é um achado, de resto – Aquela mulher (p.62): Aquela mulher com um molho de erva à cabeça faz-me lembrar o filtro de um cigarro. Porquê? b) Formato Os diferentes tipos formais estão bem distribuídos neste volume, com certa equidade, digamos. 19
Na classe 2 (parelhas), 18 poemas (pp. 10-11-12-14-23-52-56-71-74-85-101102-106-114-115-116-117-118). Na classe 3 (tercetos), 2 poemas (pp. 69-70). Na classe 4 (quartetos), 21 poemas (pp. 16-17-18-19-21-22-26-60-61-62-63-65-66-88-91-92-94104-105-109-113). Na classe 5 (quintilhas), 3 poemas (pp. 15-53-97). Na classe 6 (sextilhas e superior), a mais expressiva, 24 poemas (pp. 7-13-20-24-27-32-34-37-40-42-4445-47-49-57-58-72-80-89-93-98-100-119-126). Há prosa, neste livro, dita prosa poética, 10 exemplos (pp. 46-48-50-51-54-7678-86-103-107). E há sonetos, seis (pp. 17-26-55-75-87-108). Há ainda rima, bastante bem representada, 16 poemas (pp. 10-55-56-60-61-62-65-66-85-87-88-94-102-105109-113). c) Ousios Neste domínio destacaríamos, como ousios formais: Os oxímoros (p. 47), Quando fulano de tal (p. 49), Por aqui não (p. 55), Brincadeira poética (p. 82), e Acróstico giratório (p. 83). Retemos aqui o terceiro, que além de ser também um ousio expressivo, constitui ainda formalmente um soneto (um soneto brincado, se é permitida a expressão): Por aqui não há fábricas; há uns lagares de azeite e é um pau; mas também não há greves: já o negócio não vai assim tão mau. Nas eleições toca-se em tom de lá de baixo: essa é a causa de os que mandam mandados terem umas promessas de auMento das obras que pensam fazer - fábricas não, pois não pode ser: o fumo toldaria o sol e então Lá se ia o azeite de primeira e o abastecimento da garrafeira do patrão. Ousios de expressão não faltam, igualmente, e não são poucos, poderíamos mesmo duplicar este rol, à vontadinha: 1) Revelar-te (p. 12): Desenrolo o teu gesto como se abrisse as gavetas do sol. 2) Absoluta (p. 15): Por muito tempo os olhos/ não depositam aí a sua relva. 3) Cada onda do teu corpo (p. 19): … me devolve os formosos eucaliptos da luz. 4) Sem distância de água (p. 21): Flui naturalmente o que resta/ das tuas mãos acesas no meu ombro. 5) A teu lado (p. 22): … enquanto a noite a de finos dedos/ se descola do tecto e põe um ovo/ azul no feno morno do silêncio. 6) Sobre um lírio (p. 23): E dentro dos meus olhos disseste/ aí o futuro é macio como a penugem duma ideia. 7) À minha filha Eva (p. 27), conclui, pedindo: Filha, empresta-me uma só 20
pétala do teu gesto. 8) Habituei-me à ironia (p. 86) – falando o poeta dos amigos, aliás em prosa, uns que desertaram – Outros ficaram, molhando as côdeas permitidas na sua raiva silenciosa, na sua coragem vigiada ou perseguida, na sua ironia. 9) Numa praia do sul (p. 97): O vento é morno/ e os dias são de cera. 10) A enxada (p. 115): … cospe inter-/ mitente raiva acumulada! 11) A escada (p. 118), o que demónio havia de lembrar ao poeta?... Duas ideias que se aprumassem ao pé da árvore com lisas dúvidas transversais de espaço a espaço (…).
V. Entre o Azul e a Circunstância a) Estatura Há um certo equilíbrio neste livro, na distribuição dos poemas por tamanho. Na classe inferior (até 9 versos), 7 poemas (pp. 7-33-33-34-36-39-48). Na classe 10, subindo (entre 10-20 versos), 10 poemas (pp. 32-32-33-34-35-35-37-37-38-45). Na classe 20 (entre 20-30 versos), 2 poemas (pp. 8-36).17 Na classe superior (40 e mais versos), 9 poemas (pp. 9-17-20-25-27-30-43-46-48). Mínimo, este epigrama, De e sem (p. 33): A política de cera e a cera da política. A solução sem governo e o governo sem solução. b) Formato De parelhas, temos 10 poemas (pp. 7-9-33-33-34-36-38-39-45-48). De tercetos, um (p. 20). De quartetos, 5 poemas (pp. 8-33-34-37-37). De sextilhas (e mais), 11 poemas (pp. 17-25-27-30-32-32-35-36-43-46-48).18 Prosa poética, contam-se 3 peças (pp. 11-12-15). Soneto, há um (p. 35). Rima, somente em duas composições (pp. 7-37). c) Ousios Em matéria de ousios formais, sem forçar a nota, citaríamos dois: De táxi (p.33), e Restaurante (p. 34), oferecendo este último em transcrição, por curto e fino:
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Há vários números repetidos (32-33-34-35-36), neste inventário parentético, mas não é lapso, é antes o resultado de em cada uma dessas páginas do livro se inserirem vários poemas, opção de paginação gráfica que deixa muitas dúvidas, para dizer o mínimo. 18
Os números repetidos entre parênteses têm a explicação já dada, respeitam a poemas diferentes numa mesma página.
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Meia hora para dois crânios pontuais entre dois relógios no João do Grão Quanto a ousios expressivos, só a escolha nos pode criar embaraço: 1) Nocturno de Vila Real (p. 17): oferece-nos esta cidade, inicialmente a dormir, ‘em seus esguios moles corredores’, com os poetas a refugiar-se no sótão, quando não a ‘ir pelas vielas do nocturno musgo’, acabando o passeio na rua Camilo Castelo Branco, onde… um murmúrio de luz continua a escorrer nos vidros. 2) Primeira elegia de Lisboa (p. 25): Estou à janela e ponho/ a imaginação no teu ombro,/ meu belo país dos infinitos silêncios. Que não ardem. 3) Segunda elegia de Lisboa (p. 27): A rua é um horário partido ao meio. No final, pergunta-se: ainda é tempo de desenterrar os vivos. 4) Segunda elegia duriense (p. 46): As mulheres obedecem aos homens/ escravas da sua honra/ e fiam ideias na roca dos olhos. 5) Terceira elegia duriense (p. 48), concluindo: Não mais, não mais, ó rio e brisas bravas./ Digam os outros sua obrigação.
5. Conclusão I. A atenção prevalente da obra literária à coisa local e regional recebe um nome na teoria – regionalismo, que aliás tem bem mais a ver na prática com a prosa. Acontece que na obra poética de António Cabral não só tal atenção é bastante vincada, consoante vimos de ver, como o próprio autor, em distintos lugares, sempre que lhe vem a pêlo, confunde reiteradamente os dois planos, nacional e regional. Dizendo melhor, substitui o quadro global pelo local, troca o mito nacional (o país) pelo mito regional, sobrepõe e subroga ao país a região, o vale duriense. O país de Cabral, por outras palavras, na poesia pelo menos, é o país-Douro, nanja o país-Portugal. Recordemos, do já inventariado. Douro, meu belo país (Poemas Durienses, p. 35), consagra vendo bem no próprio título do poema a identificação dos dois referentes, ´país’ e ‘Douro’, que é proclamada no primeiro verso (‘Douro, meu belo país do vinho e do suor’), vindo ainda repisada no último verso (‘Eh Douro, meu belo país!’),a fechar um discurso de tom épico empolgado. Aqui, Douro (Poemas, p. 98), canta presencialmente o entorno local, a partir de dentro (aqui), identificando o lugar com o mito do paraíso: paraíso do vinho e do suor, paraíso dos montes sobre montes, paraíso esverdeado das oliveiras, paraíso das hortinhas e pomares, das vinhas e das romarias. 22
Carta ao Georges (Os Homens cantam a Nordeste, p. 10), convida o interpelado a vir ver ‘meu país do vinho e do suor’ – o país-Douro, visivelmente – com seus ‘geios de vinha’, ‘o país do sol em chamas,/ um rio, ferro em brasa, a estalar’. Por último, O país (Os Homens, p. 90), onde o poeta explica, a quem de tal carecesse, que ‘é um pequeno país marcado por um rio/ e pela erva que cresce nos olhos/ das mulheres’. O paísDouro, por conseguinte, só isso, nada mais do que isso. Eis porque, se há autor de quem em poesia se pode falar de regionalismo, esse autor é sem dúvida António Cabral.19 Que, de resto, segundo consta, chegou mesmo a preconizar em tempos um explícito ‘neo-regionalismo’, termo forjado por simpatia fonética a partir do ‘neo-realismo’, não como negação deste movimento, mas como seu prolongamento.20 Um novo movimento artístico, que não visse a coisa rural com olhos urbanos, a partir de um ponto de vista citadino, mas que a olhasse pelo contrário de dentro, a partir de ‘aqui’ (‘aqui, Douro’, ‘aqui, o homem’ – são expressões dos versos de Cabral). II. Não será em todo o caso o regionalismo, por sua baixa cotação na teoria e no meio literário, que poderá eventualmente explicar o já falado desconhecimento do nosso poeta no cenário actual da poesia portuguesa. Desde logo porque este desconhecimento é de carácter recente, não correspondendo certamente ao tempo da publicação das obras em causa, que tiveram, é preciso dizê-lo, larga recepção e boas referências, em número e qualidade, na crítica desse tempo e nos meios da época.21 Depois, há uma outra explicação para a situação actual, uma explicação bem mais directa, mais simples e mais palpável, que tem a ver com o tratamento editorial das obras de poesia de António Cabral. Edições artesanais, a bem dizer, porventura de muito magras tiragens, não satisfazendo sequer, como aqui podemos presumir, as obrigações injuntivas do depósito legal. Por outro lado, um autor falecido, há mais de dez anos já, cuja última obra poética data de há quase vinte anos. Por fim, um meio literário estreito, cuja dimensão é escassa mesmo para os vivos, imagine-se agora para
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Elisa da Torre (‘António Cabral, o suor da tradição: Apontamentos para uma abordagem ao autor transmontano’, pp. 285-6) diz que não, que se trata antes de um poeta do universal, ao qual não conviria o rótulo de poeta regionalista. Não tem, depreende-se, o regionalismo por fashion, nem lhe ocorre tão pouco a célebre epígrafe de Torga (o universal é o local sem paredes) – na Revista de Letras, II, n.º 11 (2012), pp. 283-90/ PDF em linha: https://www.researchgate.net/publication/274370753_Antonio_Cabral_o_suor_da_tradicao_Apontamentos_para_uma_abordagem_ao_autor_transmontano 20
A.M.Pires Cabral, op. cit., in fine, citando fonte impressa específica: um folheto do movimento Setentrião, Folha nº 1 (Jan. 1964). 21
Respigando, a partir do Projecto Vercial: M.S. (Diário Ilustrado, 16/3/1961); João Maia (Brotéria, 5/1964); Nuno Teixeira Neves (Jornal de Notícias, 17/8/1967); João Gaspar Simões (Diário de Notícias, 14/9/1967); Luís Miranda Rocha (Jornal de Notícias, 24/10/1968); Francisco Belard (Expresso, 13/12/1994); Manuel António Pina (Jornal de Notícias, 7/10/1997, 13/1/2001); A.M.Pires Cabral (Repórter do Marão, 14/12/2001); Viale Moutinho (Diário de Notícias, 1/1/2002) / http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/acabral.htm
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os mortos! O que mais será preciso invocar para justificar ou explicar o esquecimento actual do nosso grande poeta? De todo o modo, a situação é pouco abonatória, para o país, para a região, para a cultura. Lembremos por nossa parte o homem, exaltemos-lhe a obra, a poesia, neste caso. E reclamemos a edição sem demora da obra poética completa, em falta. Devida, por isso mesmo, ao poeta, mas sobretudo ao público.
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