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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA Séculos XV - XX


Alberto Vieira

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA Séculos XV - XX

Centro de Estudos de História do Atlântico Secretaria Regional do Turismo e Cultura 2003


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

ÍNDICE GERAL

TÍTULO A Vinha e o Vinho na História da Madeira. Séculos XV a XX

ABREVIATURAS.....................................................................................4

1ª Edição Setembro de 2003

INTRODUÇÃO.........................................................................................7

AUTOR ©Alberto Vieira FOTOGRAFIA Alberto Vieira, Duarte Gomes, José Pereira da Costa Phtotograpia Museu Vicentes: Vicentes Photographos, Perestrellos Photographos COLECÇÃO MEMÓRIAS Nº. 46

O VINHO NA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA • • • •

A história do vinho ................................................................................8 A historiografia do vinho.....................................................................15 As fontes .............................................................................................25 A bibliografia .......................................................................................36

DA VINHA AO VINHO

EDIÇÃO

CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA DO ATLÂNTICO RUA DOS FERREIROS, 165, 9004-520 FUNCHAL TELEF. 291-229635/FAX: 291-223002 Email: ceha@nesos.net. Webpage: http://www.ceha-madeira.net TIRAGEM 2000 exemplares CAPA Painel de Azulejo. Largo António Nobre(Funchal). Ass. C. A. Moutinho. Fábrica de Sacavém.1930 IMPRESSÃO Deposito Legal ISBN

• A VITICULTURA E A PRODUÇÃO A Viticultura Madeirense ........................................................................ O Homem e a Terra ...........................................................................72 As Castas e as Áreas Dominantes .....................................................103 O Malvasia da Fajã dos Padres ..........................................................112 Factores Meteorológicos e Botânicos ................................................122 • A VINIFICAÇÃO Da Vindima ao Lagar ........................................................................139 Do Lagar ao Canteiro ........................................................................148 • A produção de Vinho........................................................................166 Subsídio Literário...............................................................................178 Os Preços ...........................................................................................187 • Os Complexos Vinícolas....................................................................196 Medidas do Vinho.............................................................................206 O Trato do Vinho..............................................................................215 As Estufas...........................................................................................234 • A Questão das Aguardentes ..............................................................255 • O Processo de Vinificação Hoje .......................................................275 Os Diversos Tipos de Vinho Madeira..............................................277 • A Defesa Institucional do Vinho Madeira .......................................285 A Confraria do Vinho Madeira.........................................................258 • ANEXO: quadros ...............................................................................290

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O MERCADO DO VINHO • Circuitos e Mercados ........................................................................293 • Movimento Interno ...........................................................................298 Movimento do Vinho no Mercado Madeirense ..............................302 Imposição do Vinho..........................................................................305 O Quotidiano e o Vinho ...................................................................315 • Movimento Externo...........................................................................328 Movimento de Exportação de Vinho ...............................................339 As Instituições Fiscais ........................................................................363 Áreas e Circuitos ................................................................................375 • Os Preços e os Mercados ..................................................................397 • O Negociante de Vinhos ...................................................................400 • Uma Nova Teoria sobre a Crise........................................................426 • Actualidade e Consumo do Vinho Madeira.....................................454

Abreviaturas

• ANEXO: Quadros..............................................................................470

CSF: Cabido da Sé do Funchal

O CULTO E A CULTURA DO VINHO • A Expressão Literária do Vinho........................................................537 O Vinho Madeira na Literatura ........................................................538 Personalidades Históricas e o vinho Madeira...................................550 • O Vinho na História e Património ...................................................553 A Expressão Plástica e Temática dos Rótulos...................................568 • O Vinho. Uma Rota Com História...................................................571 • ÍNDICE DE QUADROS..................................................................584

ANTT: Arquivo Nacional da Torre do Tombo AF: Alfândega do Funchal [disponível no ANTT] ARM: Arquivo Regional da Madeira [Arquivo da Região Autónoma da Madeira] AHM: Arquivo Histórico da Madeira

CX: Caixa DAHM: Das Artes e da História da Madeira. FOL/fols.: Fólio(s)

GC: Governo Civil [documentação desde 1834] IVV: Instituto do Vinho da Madeira. Nº: número

PJRFF: Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal [documentação existente no ANTT. A Provedoria da Fazenda surgiu no século XVI sendo extinta em 1775 para dar lugar à Junta da Real Fazenda.] P/pp: página(s)

RGCMF: Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal [tombo em que se registava toda a correspondência oficial recebida na câmara do Funchal, disponível no ARM]

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O vinho é uma presença indelével no devir histórico da cristandade Ocidental. Acompanhou os primeiros cristãos nas catacumbas, a expansão monástica na Europa e dos europeus no Atlântico. A presença no acto litúrgico e alimentação traçou-lhe o caminho do protagonismo no quotidiano e ecnomia do mundo cristão. As ilhas atlânticas são um dos exemplos disso. Os europeus fizeram chegar as cepas a todo o lado, mesmo àqueles onde a cultura teria dificuldades em se adaptar como foi o caso de Cabo Verde. Apenas na Madeira, Açores e Canárias a qualidade e fama do produto fizeram com que se assumisse uma destacada dimensão comercia,l que animou o movimento com os mercados europeu e americano. A concorrência entre os vinhos foi feroz. Primeiro tivemos a disputa pelo mercado inglês e, depois, no século XVIII, pelo norte-americano, onde a Madeira usufruíu uma posição de destaque, favorecida pelos tratados e leis de navegação estabelecidos pela coroa britânica. Nalgumas ilhas dos Açores as condições do solo e clima não propiciaram a produção de um vinho de superior qualidade. A excepção acontece no Pico e Graciosa onde o vinho se igualou ao da Madeira e Canárias. Em qualquer dos casos o mercado do vinho insular desenvolveu-se por força da solicitação colonial. Os vinhos da Madeira e Canárias tiveram desde o século XV presença assídua na mesa da aristocracia europeia. O mesmo se poderá dizer do Verdelho do Pico que correu nos palácios dos czares da Rússia. Para os norte-americanos as ilhas atlânticas [Açores, Canárias e Madeira] são identificadas pelo vinho, sendo momeadas desde o século XVIII na documentação e historiografia como as ilhas do vinho1. O epíteto evidencia o papel que o seu vinho assumiu no mercado americano. Note-se que nalguns registos alfandegários norte-americanos do século XVIII o vinho da Madeira surge juntamente com o dos Açores2, tornando-se difícil quantificar a participação de cada um dos arquipélagos.

Madeira Illustrated

Capa do livro de Henry Vizetely. 1880

1. GUIMERÁ RAVINA, Agustin, “Las Islas del Vino (Madeira, Azores y Canarias) y la America Inglesa Durante el Siglo XVIII”, in Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1989, pp.900-934. 2. A. D. Francis, The Wine Trade, Edinburg, 1973, p.216; Ch. M.Andrews, The Colonial Period of American History, H. Haven, 1964, p.112

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A história do vinho

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O vinho Madeira foi, sem dúvida, o que mais se evidenciou no universo das ilhas. O luzidio rubinéctar, que continua a encher os cálices de cristal, é, não só, a materialização da pujança económica do presente, mas também, o testemunho dum passado histórico de riqueza. Prende-o à ilha uma tradição de mais de cinco séculos. Nele reflectem-se as épocas de progresso e de crise. No esquecimento de todos fica, quase sempre, a parte amarga da labuta diária do colono no campo e adegas, o árduo trabalho das vindimas, o alarido dos borracheiros. Hoje, para recriar a ambiência, torna-se necessário olhar os restos materiais e ler os documentos, donde ainda é possível desbobinar o filme do quotidiano de luta, que se esconde por entre a ferrugem, a traça e o pó. O Vinho Madeira, celebrado por poetas e apreciado por monarcas, príncipes, militares, exploradores e expedicionários, perdeu paulatinamente nos últimos cem anos parte significativa do mercado, fruto da conjuntura criada, nos finais do séc. XVIII e princípios do séc. XIX. A desusada procura obrigou o madeirense a utilizar todo o vinho e a acelarar o processo de envelhecimento de modo a satisfazer os pedidos. Mas o futuro não era risonho. A abertura dos mercados conduziu a um certo fastio a partir de 1814. Depois. as doenças acabaram com as cepas de boa qualidade, fazendo-as substituir pelo produtor directo que se manteve lado a lado com as europeias numa promiscuidade pouco adequada à preservação da qualidade. O passado recente anunciou o retorno das castas tradicionais e abriu portas a novos momentos de riqueza. A presença da vinha na Madeira, associada aos primeiros colonos, é uma inevitabilidade do mundo cristão. O ritual religioso fez do pão e do vinho os ele-

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mentos substanciais da prática e a tradição, fazendo deles símbolos da essência da vida humana e de Cristo. Ambos foram companheiros da expansão da Cristandade, sendo responsáveis pela revolução dos hábitos alimentares. A partir do séc. VII o comer pão e beber vinho simbolizava para o mundo cristão o sustento humano. Em meados do século XV, com o arranque do processo de ocupação e de aproveitamento da ilha, é dada como certa a introdução de videiras do reino e, mais tarde, das célebres cepas do Mediterrâneo. João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrello, que receberam o domínio das capitanias do arquipélago sob a direcção do monarca e do Infante D. Henrique, procederam ao desbravamento e cultivo, plantando as primeiras culturas trazidas do reino, onde se incluíam as cepas. O Vinho Madeira adquiriu desde o princípio fama no mundo colonial, tornando-se na bebida preferida do militar e aventureiro na América ou Ásia. Escolhido pela aristocracia manteve-se com lugar cativo no mercado londrino, europeu e colonial. Perante isto, o ilhéu, desde o último quartel do século XVI, fez mudar os canaviais por vinhedos ao mesmo tempo que conquistou novas terras à floresta a Sul e a Norte. O madeirense, embalado pela excessiva procura do vinho, esqueceu-se de assegurar a auto subsistência. O vinho era a fonte de redimento e a única moeda de troca para assegurar o alimento, indumentária e manufacturas. Daqui resultou uma troca desigual para o madeirense e muito rentável para o inglês. No séc. XV o vinho competia com o trigo e açúcar assumindo uma posição de relevo na economia local, assumindo-se como um meio de troca no mercado externo. Os trigais e canaviais deram lugar às latadas e balseiras e a vinha tornou-se na cultura quase exclusiva. Tudo isto projectou o vinho para o primeiro lugar na actividade económica da ilha, mantendo-se por mais de três séculos. O ilhéu apostou, desde o último quartel do séc. XVI, na cultura da vinha, tirando dela o necessário para o sustento e manter uma vida de luxo, construir sumptuosos palácios, igrejas e conventos. A Madeira viveu, entre o século XVII e princípios do XIX, embalada pela opulência do comércio do vinho. O madeirense, com tão avultados proventos, deixou-se vencer pelo luxo, habituou-se à vida cortesã e copiou os hábitos ingleses. A política exclusiva da cultura da vinha, imposta pelo mercantilismo inglês, mereceu a reprovação quer do Governador e Capitão General, José A. Sá Pereira, através de um “regimento de agricultura” para o Porto Santo, quer do Corregedor e Desembargador, António Rodrigues Veloso, nas instruções que deixou em 1782 na Câmara da Calheta. Mas foi tudo em vão, ninguém foi capaz de travar a “febre vitícola”, nem de convencer o viticultor a diversificar as culturas da terra. Vivia-se um momento de grande procura do vinho no mercado internacional e as colheitas eram insuficientes para satisfazer a incessante procura. Perante tão desusada solicitação e à falta de melhor socorriam-se dos vinhos do Norte da ilha e mesmo dos Açores e Canárias para saciar o sedento colonialista. A rota do comércio do vinho começou a ser traçada no século XV, partindo da

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Europa ao encontro do colonialista na Ásia ou América. O comerciante inglês, que surgiu a partir do séc. XVII, soube tirar o máximo partido do produto fazendo-o chegar em quantidades volumosas às mãos dos compatriotas que o aguardavam nos quatro cantos do mundo. Vários factores fizeram com que o inglês se instalasse na ilha e se afirmasse como o principal negociante do vinho. Para tanto contribuíram as condições favoráveis exaradas nos tratados luso-britânicos e o favorecimento que as regulamentações britânicas do comércio colonial atribuíram à Madeira. Do numeroso grupo de britânicos merecem referência: Richart Pickfort (1638/82), W. Boltom (1695/1714), James Leacock (1741), Francis Newton (1745), R. Blandy (1811). As Canárias foram desde o princípio o competidor directo da Madeira no mercado do vinho europeu e colonial. A união peninsular não terá sido favorável ao vinho madeirense, uma vez que abriu as portas do mercado colonial ao vinho de Canárias. A conjuntura económica, que se anunciou em 1640, abriu novas perspectivas para o Malvasia da Madeira, com o retorno a uma posição de privilégio do mundo português e britânico. A concorrência estava no vinho dos Açores, produzido nas ilhas Graciosa e do Pico. Os pactos de amizade entre as coroas de Portugal e Inglaterra sedimentaram as relações comerciais favorecendo a oferta do vinho madeirense e açoriano nas colónias britânicas da América Central e do Norte, como o determinavam as leis de navegação a partir de Carlos II, aprovadas em 16413. A situação de privilégio concedida ao vinho dos arquipélagos portugueses repercutiu-se negativamente na economia das Canárias, podendo ser considerada como um travão ao desenvolvimento da economia vitivinícola, a partir de finais do século XVII4. E. Steckley, não obstante documentar uma época de prosperidade no comércio com Inglaterra, anuncia a crise que se aproximava: Así pues durante dicha centuria algunos de los antiguos mercados canarios de vino se estancaron y las islas portuguesas demonstraron ser unos competidores capaces y eficientes para los nuevos mercados americanos de vino5. A mesma ideia aparece no estudo de António Macías e Agustin Millares Cantero, que definem o período de 1640 a 1670 com de crisis del prolongado esplendor económico, como resultado de la oferta madeirense y de o porto que comenzó a sustituir a la Canaria en el mercado ingles6. A criação em 1665 da Companhia dos Mercadores de Londres e a reacção popular que gerou com o derrame dos vinhos, conduziu inevitavelmente à perda de importância do malvasia de Canárias no mercado europeu em favor do Jerez.

O casamento de Carlos II de Inglaterra com D. Catarina de Bragança foi o prelúdio da conjuntura favorável ao vinho Madeira, sendo referido por Viera y Clavijo como um golpe tan feliz para la isla de la Maderas como infausto para las Canárias7 . A guerra de Cromwell contra Espanha levou ao encerramento do mercado londrino, no período de 1655 a 1660, ao vinho de Canárias e ao estabelecimento de medidas preferenciais para o das ilhas portuguesas. O texto da ordenança de 1663, repetido mais tarde na de 1665, era claro: Wines of the growth of Maderas, the Western Islands or Azores, may be carried from thence to any of the lands, islands, plantatinos, & colonies, territories or places to this majesty belonging, in Asia, Africa or America, in english built ships8. Com o fim da guerra de fronteiras entre Portugal e Espanha e a assinatura das pazes em Madrid a 5 de Janeiro de 1668, ratificadas a 13 de Fevereiro em Lisboa, restabeleceram-se os contactos entre os dois arquipélagos9. O reforço das relações é testemunhado pela presença de Bento de Figueiredo no Funchal como cônsul castelhano10. Mas não acabaram aqui as dificuldades pois apenas com as pazes de Ultrecht de 1713 se abriram novas perspectivas de negócio, quando os vinhos madeirenses e açorianos haviam conquistado uma posição sólida no mercado colonial e britânico. O arquipélago das Canárias encontrava-se na posição de perdedor e a braços com uma crise económica por falta de escoamento do vinho11. O movimento de exportação do vinho da Madeira nos sécs. XVIII e XIX liga-se de modo directo com o traçado das rotas marítimas coloniais inglesas que tinham passagem obrigatória na ilha. São as rotas da Inglaterra colonial que faziam do Funchal o porto de refresco e de carga para o vinho no percurso para as Índias Ocidentais e Orientais, donde regressavam pela rota dos Açores, com o recheio colonial. Também os navios portugueses da rota das Índias, ou do Brasil escalavam a ilha onde recebiam o vinho para as praças lusas. São ainda os navios ingleses que se dirigiam à Madeira com manufacturas e retornavam por Gibraltar, Lisboa, ou Porto. E, finalmente, os navios norte-americanos que traziam as farinhas para sustento diário do madeirense e regressavam carregados de vinho. Por tudo isto o vinho madeirense conquistou o mercado britânico em África, Ásia e América afirmandose até meados do séc. XIX como a bebida dos funcionários e militares das colónias. Com o movimento independentista das colónias todos regressaram à terra de origem trazendo o vinho na bagagem. O momento de apogeu na exportação do vinho Madeira situa-se entre finais do séc. XVIII e princípios do séc. XIX, altura em que a saída atingiu a média de 20.000 pipas. Mais de 2/3 do vinho exportado destinava-se ao mercado americano, com

3. Rupert CROFT-COOKE, Madeira, Londres, 1961, pp.26-28; André L.SIMON, “Introduction” e “Notes on Portugal Madeira and the Wines of Madeira”, in The Bolton Letters.Letters of an English Merchant in Madeira 1695-1714, Londres, 1928 4. A. Bethencourt MASSIEU, “Canarias Y Inglaterra. el Comercio de Vinos(1650-1800)”, in Anuario de Estudios Atlanticos, nº.2, 1956, pp.195-308: IDEM, “Canarias y el Comercio de Vinos(siglo XVII)”, in Historia General de las Islas Canarias, tomo, III, 1977, 266-273; 5. ”La Economia Vinicola de Tenerife en el Siglo XVII: Relación Anglo-espanola en un Comercio de Lujo”, in Aguayro, nº. 138, Las Palmas, 1981, p. 29 6. ”Canarias en la Edad Moderna(circa 1500-1850)”, in Historia de Los Pueblos de Espana. Tierras Fronterizas(I) Andalucia Canarias, Madrid, 1984, pp.319, 321

7. Citado por A. LORENZO-CÁCERES, Malvasia y Falstaff. los Vinos de Canarias, La Laguna, 1941, p.19. 8. André L.SIMON, “Notes on Portugal, Madeira and the Wines of Madeira”, in The Bolton Letters. Letters of an English Merchant in Madeira 1695-1714, Londres, 1928. 9. A coroa insistiu na nova situação, recomendando às autoridades madeirenses que publicitassem o que foi feito por meio de um bando a 8 de Maio. Veja-se Arquivo Regional da Madeira, Câmara Municipal do Funchal, nº.1215, fls.37vº.38 10. Ibidem, nº.1215, fls.58-58vº, 17 de Dezembro de 1672. 11. G.STECKLEY, art.cit., pp.25-31.

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destaque para as Antilhas e as plantações do Sul da América do Norte e a área de N. York. A primeira metade do séc. XIX foi pautada pela alteração no mercado consumidor do vinho da Madeira. Foi o período de afirmação de novo destino capaz de suprir a perda do mercado colonial. A Inglaterra e a Rússia substituíram as colónias a partir de 1831. O fim das guerras europeias, em princípios do séc. XIX, abriu as comportas do vinho europeu os mercados asiático e americano. A saida do colonialista foi considerada uma perda irreparável para o vinho Madeira. Hoje, passados mais de quinhentos anos sobre a introdução da vinha na Madeira, estão ainda presentes na memória madeirense os tempos áureos de apreciação e comércio do vinho. A imagem passou rapidamente à História. À euforia da procura sucedeu a crise dos mercados, agravada pela presença das doenças que atacaram a vinha (oídio e filoxera). A crise do sector produtivo, resultado de factores botânicos alastrou a todo o espaço vitícola com efeitos semelhantes na economia e mercado do vinho. Perdeu-se a ligação ancestral com as tradicionais castas europeias mas, em contrapartida, descobriram-se novas variedades americanas. As dificuldades do negócio conduziram à debandada dos agentes que haviam traçado o mercado. A Madeira conseguiu paulatinamente recuperar ou conquistar novos mercados. Os vinhos dos Açores e Canárias seguiram uma trajectória semelhante ao da Madeira. Foram os madeirenses que levaram as primeiras cepas para os Açores e Canárias. O das Canárias concorreu de forma directa com o da Madeira no mercado britânico já no século XV, a atestar pelas referências de Shakespeare. Para o dos Açores a competição começou apenas no século XVII. Mas a concorrência foi sempre entre o malvasia da Madeira e os caldos de Tenerife. Da disputa pelo mercado europeu passou-se depois ao colonial. O século XVII foi o momento de viragem no mercado atlântico do vinho, conseguindo a Madeira levar a melhor na preferência do mercado norte-americano e colónias das Antilhas. O vinho Madeira tornou-se numa moda do quotidiano das colónias britânicas. Os viticultores e comerciantes de Tenerife para poderem sobreviver tiveram que se sujeitar ao fabrico de um vinho semelhante ao Madeira, ou à baldeação com o de Tenerife para depois venderem com o rótulo de Madeira 12. O século XVIII foi a época de plena afirmação do falso e verdadeiro Madeira13.

12. Burguesia Extranjera y Comercio Atlantico. La Empresa Comercial Irlandesa en Canarias(1703-1771), Santa Cruz de Tenerife, 1985, pp.317-332; G.L.Beer, The Old Colonial System. 1660-1754, N. York, vol. II, 1912, p. 287. 13. Alberto Vieira, Breviário da Vinha e do Vinho na Madeira, Ponta Delgada, 1991, p.30-31.

Baco Cerâmica Nau (Setúbal) Loja de Vinhos Diogos Shop (Funchal)


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A historiografia do vinho

H Capa do Livro de J. A. Mason, A Treatise on the Climate and Meteorology of Madeira, Liverpool, 1850.

A História do vinho provocou o empenho de muitos estudiosos nos últimos anos. Desde o pioneiro trabalho de Roger Dion (Histoire de la Vigne et du Vin en France. Des Origines au XIXe Siècle, 1959) sucederam-se inúmeros outros, fruto de arrojados projectos de investigação. Foi no campo da Geografia histórica que o tema mereceu maior relevo, sendo a França a dar o exemplo. A realização em 1977 na cidade de Bordéus de um colóquio foi a chamada de atenção para a temática. Nas actas (Géographie Historique des Vignobles), publicadas em 1978 por Huetz de Lemps o ponto da situação do tema incluia 701 títulos, sendo mais de metade referentes aos vinhos franceses e suas regiões: Bordeaux, Languedoc e Burgundy. Na Universidade de Bordéus o Centre d’Etudes et de Recherches sur la Vigne et le Vin desenvolveu uma linha de investigação sobre os vinhos europeus de que resultou uma colecção dirigida por Andre Pitte com a publicação de 10 volumes, sendo um sobre a Madeira (1989) da responsabilidade de Alain Huetz de Lemps. Na comunidade de língua inglesa, como assinala Tim Unwin, o interesse pelo tema é relevante desde a década de setenta14. O incremento da viticultura na Califórnia, Austrália e África do Sul, na segunda metade do século XIX, conduziu à valorização do tema. A segunda metade do século XIX foi o momento de consciencialização da maior parte dos investigadores para a importância científica social, económica, cultural e histórica do vinho. Os estudos científicos adequaram-se ao combate da praga e espicaçaram a curiosidade, permitindo a publicação de textos de diversa índole. Em muitos dos casos a recorrência à História era o necessário alento para levantar os ânimos enfraquecidos no combate às doenças, de modo a que a cultura assumisse a adequada dimensão na sociedade e economia. Em Portugal e Espanha foi cada vez mais evidente o interesse pelo estudo e conhecimento da realidade em torno do vinho. A tradição francesa e inglesa do tratamento do tema numa perspectiva historiográfica, levou a isso. Nos últimos anos surgiram estudos de grande importância para o conhecimento e divulgação da História do Vinho. Em 1982 a Academia Portuguesa de História organizou um encontro

14. Wine and Vine. An Historical Geography of Viticulture and the Wine Trade.1991

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sobre o Vinho na História Portuguesa séculos XIII-XIX. Depois tivemos projectos inovadores, como O Marquês de Pombal e o Vinho do Porto (1980) de Susan Schneider, a Memória do Vinho do Porto (1990) de Conceição Andrade Martins e O Douro e o Vinho do Porto - de Pombal a João Franco(1991) de Gaspar Martins Ferreira. Finalmente apareceu a Enciclopédia dos vinhos de Portugal, orientada por António Lopes Vieira, que contempla os Vinhos Verdes, do Dão, do Alentejo, Bairrada, Península de Setúbal, Porto e Madeira. A Universidade do Porto mantém um Grupo para História do Vinho do Dão, pioneiro na divulgação da temática nos últimos anos. O vinho tornou-se num tema comum, cativando poetas e literatos. Hoje o vinho é uma questão cultural sendo cada vez mais numeroso o público interessado em conhecer a História. Daqui deriva a profusão de estudos de divulgação e de grupos de trabalho especializados. O vinho Madeira é considerado desde tempos muito recuados indispensável na garrafeira dos apreciadores. Não é preciso ser escanção para reconhecer e apreciar as qualidades aromáticas e gustativas, basta apenas um pouco de atenção no momento de o beber. Os epítetos proferidos por poetas, escritores, políticos e viajantes, que tiveram a possibilidade de o provar e apreciar, poderão ser um dos caminhos para isso. Todos ficaram deslumbrados com os aromas e sabores e ninguém se escusou a tecer-lhe os maiores elogios. Prende-o à ilha uma tradição de mais de cinco séculos e reflecte-se nele a época de resplendor e os momentos de crise. O vinho assumiu uma dimensão importante nas ilhas, nomeadamente nas economias da Madeira e Tenerife a partir do século XVII. Por força disso encontrámos na Madeira conjunto variado de textos que procuram traçar a História ou fazer o ponto da situação do problema vitivinícola entre finais do século XIX e princípios do século XX. É de considerar a obra de D. João da Câmara Leme, o Conde de Canavial, o mais destacado estudioso e conhecedor dos problemas políticos e enológicos madeirenses na segunda metade do século XIX. Nas Canárias os estudos são parcelares, ao clássico estudo de Andrés de Lorenzo Caceres15 deverá juntar-se outro de A. Bettencourt Massiu16 e, recentemente, os de A. Guimerá Ravina17, Manuel Lobo Cabrera 18 e Pedro Miguel Martínez Galindo19 e o de George F. Steckley 20, de que foi publicada uma síntese em 1981 na Revista Aguayro. Para os Açores é reduzida a atenção da historiografia à cultura e produto, não obstante ter conseguido uma posição de relevo na economia de algumas ilhas como foi o caso do Pico e Graciosa. O Pe. Fernando Augusto da Silva diz-nos que a História do vinho da Madeira está 15 .Malvasia y Falstaff. Los Vinos de Canarias, La Laguna, 1941. 16. “Canarias e Inglaterra. El Comercio de Vinos(1650-1800)”, in Anuario de Estudios Atlanticos, nº 2, 1956. Publicado em livro em 1991 17. Burguesia Extranjera y Comercio Atlantico. La Empresa Comercial Irlandesa en Canarias(1703-1771), Santa Cruz de Tenerife, 1985. 18. El Comercio del Vino entre Gran Canaria y las Indias en el Siglo XVI, Las Palmas de Gran Canaria, 1993. 19 .La Vid y El Vino en Tenerife en la Primera Mitad del siglo XVI, La Laguna, 1998. 20. “La Econmía Vinícola de Tenerife en el Siglo XVII: Relación Angloespañola en un Comercio de lujo”, Aguayro, Las Palmas de Gran Canaria, 138, 1981.

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Abertura oficial da exposição sobre o vinho da Madeira. 1980

Capa do folheto da Exposição sobre o Vinho da Madeira. 1980

por fazer21. A monografia que pretendia realizar não era histórica mas antes uma enciclopédia à maneira do Elucidário. Assim, o entendeu ao traçar em o Elucidário Madeirense22 um esboço da história em diversas entradas, no que muito se aproxima o Pe. Eduardo Pereira23. Estamos perante trabalhos com grande impacto junto do público, mas que pouco avançam em relação à informação já recolhida por Paulo Perestrelo da Câmara e Álvaro Rodrigues de Azevedo. O escrito de A. R. Azevedo atem-se mais aos documentos do arquivo local, às deambulações históricas e políticas, mas mesmo assim é de considerar, por ser um primeiro esboço de história local em que o vinho tem lugar de relevo24. Se a isto juntarmos a monografia de J. Reis Gomes, e algumas referências avulsas e parcelares, temos feito o inventário da bibliografia sobre o vinho até à década de setenta do século XX. Hoje felizmente que o panorama é distinto e contam-se já inúmeros trabalhos. O vinho é um tema de referência da Historiografia Madeirense. Os ingleses foram, entre todos estrangeiros, os que lhe dedicaram mais atenção. A posição hegemónica na exportação e consumo 21 .Está ainda infelizmente por elaborar uma completa monografia sobre os vinhos da Madeira, em que se faça a sua História, desde meados do século XV até a Época que vai decorrendo, nos variados e interessantes aspectos que ela nos oferece. Deveria para isso proceder-se a um largo trabalho descritivo e de pormenorizada coordenação, que além de abranger as diversas fases de indústria e dos processos de vinificação, fornecesse também informações seguras Acerca da escolha apropriada do solo e do plantio de bacelos, tratamento eficaz das videiras, fabrico e conservação dos mostos, preparação dos produtos destinados ao embarque, o comércio interno e no estrangeiro, a análise rigorosa dos chamados vinhos generosos e a cuidadosa conservação da celebrada fama de que universalmente gozam, constituindo outros tantos objectos de investigação e estudo, para o que seria indispensável aproveitarem os valiosos elementos que se encontram dispersos em diversas publicações”, Elucidário Madeirense, vol. III, p. 392. 22. Vide vol.I - Balseira (p. 113), Estufas (p. 408); vol. II, Filoxera (pp. 31/2), Indústria Vinícola (pp. 148/54), Mangra da vinha (p. 315), Míldio (p. 347); vol III, Os Vinhos (pp. 389/95), Vinhas (pp. 381/9, Vinhas e uvas do Porto Santo pp. 387/9), Vinho de Canteiro (p. 389), Vinho de roda (p. 389). 23. Ilhas de Zargo, vol. I, pp. 275/301. 24. Anotações às Saudades da Terra, pp. 728/30; veja-se igualmente a colaboração nos jornais locais nomeadamente na “Discussão” e “A Madeira”.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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ditou a necessidade de conhecimento25. Aqui destacam-se as monografias de Henry Vizetely, André L. Simon, Ruppert Crooft-Cooke e as publicações recentes de Noel Cossart e Alex Liddel. A partir de 1976 o processo autonómico permitiu a valorização do vinho da Madeira. A regionalização das competências atribuídas à Junta Nacional do Vinho, com a criação do Instituto do Vinho de Madeira (1979), conduziu a uma diferente importância do produto e das tradições a ele ligadas. Desde 1978 a Direcção Regional de Turismo iniciou a evocação da festa das vindimas, que têm permitindo um momento de diversão e divulgação do vinho. Em 1980, no âmbito da festa, teve lugar no salão nobre do Teatro Municipal do Funchal uma exposição sobre o Vinho da Madeira, que foi uma oportunidade para recolha de materiais relacionados com a vinha e o vinho que se encontravam ao abandono. Daqui resultou a consciêncialização dos empresários ligados ao sector para a necessidade de valorização da cultura material relacionada com o produto. Foi neste contexto que a Madeira Wine Company repensou as caves de S. Francisco, adaptando à condição de espaçomuseu aberto ao público. Entretanto o IVM recuperou a cave das instalações para um espaço museológico, inaugurado a 18 de Setembro de 1984. Tudo isto é corolário de um trabalho de valorização da componente cultural do vinho. O núcleo museológico do IVM tornou-se num espaço de divulgação do Vinho da Madeira e ponto de encontro de interessados no tema. O Museu do IVM apostou na promoção da História e cultura do vinho, de que se destaca a edição de Contributos para uma Rota do Vinho de Madeira (1997) e o Vinho na História e Património da Cidade do Funchal (2000). A criação do Centro de Estudos de História do Atlântico em 1985 contribuiu para um avanço significativo no conhecimento da História do vinho, que passou a merecer um tratamento historiográfico adequado. Nas edições, colóquios e seminários o vinho foi presença constante. Entretanto em 1998 realizou-se um seminário sobre Os Vinhos Licorosos e a História que foi o início de um eficaz intercâmbio com investigadores do Porto, Bordéus, Málaga e Puerto Santa Maria. Podemos, ainda, assinalar que a aposta na divulgação da História do Vinho da Madeira levou o CEHA a editar em 1993 um volume sobre a História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, da nossa autoria. Todo o esforço de divulgação da História do vinho traduziu-se em inúmeras publicações sob o formato papel e digital, que continuam a merecer a atenção do público. Idêntica dedicação esteve presente ao nível museológico, ficando ao dispor dos interessados espaços específicos das empresas e instituições do sector. O vinho marcou épocas de prosperidade com evidentes reflexos no quotidiano e arte. As expressões disso estão presentes na arquitectura urbana dos séculos XVIII e XIX e em alguns museus.

Também nós fomos contagiados e o vinho passou a ser companheiro diário das nossas pesquisas. Ao longo dos últimos vinte anos reunimos tudo o que de mais importante existe sobre ele ou com ele relacionado. Dos materiais perdidos nos armazéns fizemos um museu. A partir daqui incidimos a nossa acção sobre os arquivos públicos e privados, testemunhos dos apreciadores, defensores e detractores. Disso demos notícia num Breviário da Vinha e do Vinho da Madeira (1990), numa compilação História do Vinho da Madeira. Documentos (1993) e o Vinho Madeira da Enciclopédia de Vinhos de Portugal. No penúltimo volume procuramos reunir o mais importante testemunho da vivência que o vinho Madeira definiu: a economia da ilha e o papel dos directos interventores, a insistente procura dos que se tornaram apreciadores, o júbilo e o agradecimento dos que descobriram a genuinidade do produto e foram testemunhos da importância económica.

25. Aqui convém destacar as monografias de Henry Vizetely, de André L. Simon, Ruppert Crooft-Cooke, Noel Cossart e Alex Liddel, referenciados na Bibliografia.

Formas de ver e estudar o vinho Na actualidade é cada vez mais evidente o interesse pelo estudo do vinho. A atenção do público e comunidade científica é grande. Já na segunda metade do século XIX, momento definido por uma conjuntura de crise da viticultura europeia, deparamos com igual euforia editorial sobre a temática da vinha e vinho. Aqui somos confrontados, para além das discussões sobre as soluções económicas e técnicas, com estudos descritivos da realidade e História da cultura e comércio do produto. Assim, podemos definir dois tipos de publicações, de acordo com a posição em que se coloca o autor: 1. Os estrangeiros, nomeadamente os ingleses, procuravam divulgar junto dos consumidores o historial do vinho que corria diariamente à mesa; 2. Os nacionais que, motivados por conjunturas de crise, intervém no sentido de apresentar soluções, indo ao encontro de causas políticas ou económicas. Assim, quando a crise se situava na esfera comercial, surgiram tratados em favor do proteccionismo e na área da produção tivemos soluções miraculosas para debelar a crise. A segunda metade do século XIX foi o momento de consciencialização para a dimensão científica social, económica, cultural e histórica do vinho. Os estudos científicos adequaram-se ao combate da praga e espicaçaram a curiosidade de todos e permitiram a publicação de inúmeros trabalhos. Em muitos dos casos a recorrência à História foi o necessário alento para a aposta, debelar das doenças e fazer com que a cultura voltasse a assumir a adequada dimensão na sociedade e economia. Sucederam-se exposições26, congressos27 e estações vitícolas28 e enológicas, associ26. Em Espanha tivemos em 1877 a Exposición Vinicola Nacional. Em Portugal: Exposição Histórica do Vinho do Porto(193132). 27. Para Espanha: 1878 - Congreso Antifiloxerico de Madrid, 1886; Congreso de Viticultores. Em Portugal: Congresso Vinicola Nacional(1895). 28. Em Espanha: Málaga, Zaragoça(1880), Sagunto(1881), Unidad Real(1882), Tanagona(1882). Em Portugal: Quinta de Nalaria(1887), Douro(1957), Régua(1929).

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adas a publicações periódicas especializadas29. No caso das ilhas é na Madeira que encontramos a maior produção bibliográfica de autores nacionais e estrangeiros. O vinho havia conquistado uma dimensão inusual pelo que se justificava a desmesurada atenção. Disso fizemos eco num estado onde compilamos o que de mais importante se publicou30. Nos últimos anos toda a atenção tem sido dada ao sector comercial com trabalhos para o século XVIII. É, por isso, que faz falta um estudo sistemático da cultura e do produto final que contemple os cinco séculos de História. Também subsistem algumas dúvidas para alguns campos que reputamos de grande interesse. Em primeiro lugar, no que concerne à diversidade de castas, não temos informação segura sobre o início da presença na ilha e a dimensão que cada uma assumiu no cômputo da produção. A isto acrescem as dificuldades em conseguir definir de forma precisa as técnicas de vinificação e os tipos de vinho mais comuns que deram fama ao Madeira. Para certa literatura tudo se reduz à Malvasia e, de modo especial, à da Fajã dos Padres. A análise da realidade vitivinícola não poderá esquecer a estrutura produtiva e formas de evolução. Há que ter em conta o grupo de mercadores que serviram de suporte ao mercado do vinho e dele tiraram o maior rendimento. A História das casas comerciais é um tema ainda em aberto que deve ser merecedor da nossa atenção, tendo em conta a disponibilidade de alguns e importantes arquivos empresariais31. Os estudos no âmbito da História da Empresa têm aqui um campo que aguarda a atenção do historiador. A par disso não deverá esquecer-se a envolvência do vinho na sociedade e as implicações daí resultantes. Assim, no caso da Madeira, é comum definir-se um modelo de criação artística e urbanística, influenciado pelo vinho, que levou alguns a definirem para o Funchal uma cidade do Vinho. A propriedade do termo é discutível mas não impede de consideramos as relações do vinho com a arte e mesmo com o quotidiano insular. A sociedade madeirense de oitocentos é herdeira do impacto provocado pela dominância da vinha e vinho, faltando estudos que o valorizem. A um nível restrito poderá partir-se para um novo tipo de abordagens. Primeiro a arte do vinho, lavrada em gravuras, avulsas ou ilustrativas de livros e rótulos. O rótulo para além da expressão plástica pode ser também um espelho da época através das temáticas dominantes e mensagens escritas32. O levantamento das referências que mereceu na literatura torna-se imperioso. Em prosa ou em verso o vinho é uma constante que está ainda por descobrir. A Etnografia é uma preciosa auxiliar do conhecimento e definição da ambiência

que envolve a cultura da vinha e o fabrico do vinho. O Folclore e as tradições definem no passado e confrontam-se com a realidade global. A tecnologia tradicional foi esquecida nos armazéns. São poucos os lagares tradicionais que persistem e falta quem providencie o estudo e inventariação. O fabrico do vinho tinha lugar em lagares de madeira e pedra. Hoje são raros e o fabrico do vinho adequou-se às inovações tecnológicas para que o produto final esteja conforme os padrões de qualidade da Comunidade Económica Europeia. No caso das Canárias é evidente nas ilhas de Tenerife e El Hierro o interesse dedicado a estas estruturas de madeira. Já nos Açores é fácil encontrar no Museu do Vinho dos Biscoitos um conjunto único de lagares e lagariças de pedra, a que se pode juntar idênticas infra-estruturas com carácter museológico no Pico e Graciosa. Na Madeira são poucos os lagares de tabuado e pedra. As lagariças de pedra, circunscritas ao Curral das Freiras, Ponta do Pargo e S. Vicente, jazem hoje ao abandono. O Vinho ganhou raízes nas ilhas pela necessidade dos primeiros povoadores mas cedo se espalhou a fama da qualidade fazendo com que acompanhasse as rotas comerciais do Novo Mundo e tradicionais mercados europeus. Fama e comércio foram sinónimo de interesse científico e editorial. Daqui resulta que a Madeira se apresenta como um caso raro na Historiografia da Vinha e do Vinho. O vinho foi e continuará a ser uma referência importante na definição da ilha e da labuta de cinco séculos das gentes. As ilhas ficarão para a História como um momento do percurso histórico do vinho entre o mundo antigo e o novo. Em 1978, confrontados com o paupérrimo panorama bibliográfico madeirense sobre o vinho, decidimo-nos por encetar uma pesquisa com o objectivo de publicar uma monografia completa sobre o vinho, através da procura doutras vias de conhecimento e a recolha de informações, por intermédio de uma morosa investigação arquivística. A primeira atenção foi dedicada aos núcleos documentais dos Arquivos Regional da Madeira, da Torre do Tombo, Histórico Ultramarino e Secção de Reservados da Biblioteca Nacional. O trabalho de recolha alargou-se depois a toda a imprensa madeirense, com particular relevo para a do século XIX. A informação recolhida deu lugar a textos escolares, de divulgação e estudos apresentados em colóquios. Hoje, passados mais de vinte anos, decidimo-nos por um melhor aproveitamento de toda a informação recolhida, publicando o presente volume. Ao longo da investigação duas personalidades despertaram a nossa atenção: D. João da Câmara Leme (Conde de Canavial) e José Silvestre Ribeiro. O primeiro foi uma das mais destacadas figuras da sociedade madeirense da segunda metade do século XIX, afirmando-se como escritor, cientista, naturalista, industrial, jornalista33, influenciando de forma decisiva o aperfeiçoamento do processo de vinificação. Do vasto espólio bibliográfico, merecem referência os estudos sobre o vinho e a situação de crise vinícola, traçando as linhas mestras da discussão em torno da crise e das

29. .Revista Vinícola Jerezana(1866) The Wine and Spirit Market (França-1871), The Wine Trade Review (Londres. 1864), Revista do Comércio de Vinhos (1896) O País Vinhateiro (1884), Anais do Instituto do Vinho do Porto(1940), O Vinho(1935), Vinicultura(1934). 30. História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993 31. Cf. Alberto Vieira, Guia Para a História e Investigação das Ilhas Atlânticas, Funchal, 1995, p.167. 32. Cf. José de Sains-Trueva, Heráldica de Prestígio em Rótulos de Vinho Madeira, in Islenha, nº.9, 1991, 62 e segs; F. Guichard, A Linguagem do Rótulo. O Vinho entre o Dito e o não Dito, in Os Vinhos Licorosos e a História, Funchal, 1998, pp.71-80.

33. Não existe qualquer monografia sobre esta personalidade insulana, apenas dispomos de alguns elementos em dois jornais locais: - “A Luz”, nº 1 (1881), p. 2, e o “Diário de Notícias”, nº 5, pp. 2/3.

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soluções apresentadas pelas diferentes facções políticas. Foi pioneiro no associativismo cooperativo, apresentando a proposta de uma sociedade anónima de promoção da rede viária da ilha para transporte das mercadorias com um cabo aéreo e a criação da companhia fabril do açúcar madeirense, quer, ainda, com a criação de uma associação de proprietários, viticultores e negociantes de vinho - Associação Vinícola da Madeira, ou Real Associação Vinícola da Madeira -, como forma de envolver os madeirenses na solução da crise da segunda metade do século XIX. Ao mesmo nível está a figura de José Silvestre Ribeiro. A actuação situa-se mais no campo prático da governação em momentos de crise vinícola da segunda metade do século passado e nas medidas proteccionistas e incentivadoras do desenvolvimento agrícola, como as soluções de emergência perante a situação de calamidade pública resultante da crise. O delineamento da rede viária e a aposta no complicado sistema de levadas estiveram na linha da frente dos planos práticos para promover a agricultura e travar a emigração34.

Fontes e bibliografia

Os acervos bibliográficos e arquivísticos são pobres, como pouco conhecidos e usados. Com isto não queremos dizer que escasseiem ou sejam desconhecidas as fontes mais importantes, mas sim que o pouco estudado e inventariado é incompleto para feitura dum trabalho científico. Durante muito tempo foi evidente a ausência de um guia bibliográfico e roteiro arquivístico, onde fossem reveladas as fontes fundamentais da História35. A inventariação bibliográfica evidencia a existência de várias tentativas, sendo de destacar as de A. Rodrigues de Azevedo36, José Joaquim Rodrigues37, Fernando Augusto da Silva38 e o Visconde do Porto da Cruz39, mas nunca se apostou no sentido de nos legar uma monografia completa.

34. Veja-se Colleção de Documentos Relativos à Crise de Fome..., 1847, Funchal, 1848; Uma Época Administrativa na Madeira e Porto Santo, Funchal, 1949/50, III vols. 35 .Hoje o panorama é distinto. Foi guiado por esta ideia que em 1995 publicamos um Guia para a História e Investigação das Ilhas Atlânticas. 36. Vide in Dicionário Universal de Português Ilustrado, artigo Madeira. 37. Catálogo Bibliográfico do Arquipélago da Madeira, Funchal, 1950. 38. Elucidário Madeirense, vol. II, Elementos para a História da Madeira. 39. Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, Funchal, 1951, vol.II

Cuba em Madeira para envelhecimento do vinho. Madeira Wine Company 2003


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Gravura humorística. Re-nhaunhau Carta de Armas de Ph. Cossart, 1700

As fontes

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Ao nível arquivístico o panorama é pobre. A falta de um roteiro, colectâneas documentais, obrigou à procura demorada nos arquivos disseminados pela capital e ilha. A ideia lançada em 1960 (por altura das comemorações henriquinas) por Pereira da Costa de publicação de uma MADEIRA MONUMENTA HISTÓRICA, certamente tendo em vista o Arquivo dos Açores de Ernesto do Canto, não teve continuadores. Os eruditos, interessados pela História da Madeira, entre 1873 e1950 dedicaram pouca importância à divulgação documental. Contrariando a situação temos iniciativas que merecem ser referenciadas. O Arquivo Histórico da Madeira apostou desde os anos sessenta na publicação de documentos e o Centro de Estudos de História do Atlântico seguiu o mesmo caminho com a edição de estudos e documentação40. Foi aqui que publicamos três volumes com interesse para a História do Vinho41. Seria exaustivo enunciar todas as fontes dos séculos XVIII e XIX que reputamos fundamentais mas, tendo em conta o tema que nos propusemos estudar, apresentamos apenas uma relação sumária dos núcleos consultados. Na altura da pesquisa documental, a inexistência do necessário roteiro arquivístico complicou o nosso trabalho, mas hoje a tarefa está facilitada pelos avanços no domínio da Arquivística.

Copiador de cartas comerciais. Arquivo da Madeira Wine Company

40. É o caso dos livros de vereações do Funchal dos séculos XV a XVI, da responsabilidade de José Pereira da Costa. 41. História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993; O Público e o Privado na História da Madeira 2 vols, Funchal, 1998.


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Publicação de documentos

Guias de fontes Arquivo Histórico Militar, Lisboa, 1978 As Gavetas da Torre do Tombo, C.E.H.U., 12 vols., Lisboa, 1960-1977 BARROS, Fátima e Gastão Jardim, Arquivo Regional da Madeira a memória insular portuguesa in Os Arquivos Insulares (Atlântico e Caraíbas), Funchal, 1997, 201-226 Guia do Arquivo Regional da Madeira, in Arquivo Histórico da Madeira, Vol. XX, 1997. Bibliotheca Nacional de Lisboa. Inventário. Secção XIII. Manuscriptos / [José António Moniz]. — Lisboa: Biblioteca Nacional, 1896 BRANQUINHO, Isabel, Alguns Núcleos Documentais Relacionados com os Arquipélagos dos Açores e da Madeira Existentes em Arquivos e Bibliotecas de Lisboa, in Os Arquivos Insulares (Atlântico e Caraíbas), Funchal, 1997, 227-266. CASTRO E ALMEIDA, Eduardo, Archivo de Marinha e Ultramar. Inventário, 2 vols., Coimbra, 1907-1909. (Vol. I: Madeira e Porto Santo, 1613-1819; vol. II: Madeira e Porto Santo, 1820-1833). Catálogo de Mapas, Plantas, Desenhos, Gravuras e Aguarelas, Coimbra, 1908. Catálogo deManuscritos, Série Vermelha, vol. I (nº 1- nº 499), Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, 1978; Catálogo de Manuscritos, Série Vermelha, vol. II (nº 500-nº 980), Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, 1986. FARINHA, Maria do Carmo Jasmins Dias, Os Documentos dos Negócios Estrangeiros na Torre do Tombo, Lisboa, 1990. FITZLER, M. A. Hedwig, “Códices do Extinto Conselho Ultramarino”, in Inventário da Secção Ultramarina da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1928. Instrumentos de Descrição Documental, ANTT; Lisboa, 1992. LEAL, Maria José Silva; PEREIRA, Miriam Halpern Roteiro de Fontes da História Portuguesa Contemporânea, Lisboa, INIC, 1984. (2 vol.) MOREIRA, Alzira Teixeira Leite, Inventário do Fundo Geral do Erário Régio, A.H.T.C., Lisboa, 1977 Do Tesouro Público ao Tribunal de Contas. Inventário preliminar dos núcleos existentes no AHTT (1779-1933), Lisboa, 1981 [dactilografado]. Cartórios Avulsos. Inventário Preliminar, Lisboa, 1981 [dactilografado] O Conselho da Fazenda. Inventário, AN/TT, Lisboa, 1993. RODRIGUES, Maria do Carmo Jasmins Pereira Alfândega do Funchal, ANTT, 1968 [dactilografado], Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal, ANTT, 1969 [IDD dactilografado] VIEIRA, Alberto, Guia Para a História das Ilhas Atlânticas, Funchal, CEHA, 1994

ARAGÃO, António, A Madeira Vista por Estrangeiros. 1455-1700, Funchal, 1981. [publica entre as pp.227-393. As cartas de W. Bolton de 1695-1700] MENEZES, Servulo D., Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo..., 3 vols, Funchal, 1949-50 NASCIMENTO, João Cabral, Apontamentos de História Insulana, Coimbra, 1927 SILVA, Maria Júlia de Oliveira e, Fidalgos-Mercadores no Século XVIII- Duarte Sodré Pereira, Lisboa, 1992 SIMON, A. L., The Bolton Letters. The Letters of an English Merchant in Madeira, vol. I [1695-1700], Londres, 1965, The Bolton Letters. The Letters of an English Merchant in Madeira, vol. II (1701-1714), Funchal, 1960, [ed. Policopiada de Graham Blandy]. VIEIRA, Alberto, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993; O Público e o Privado na História da Madeira 2 vols, Funchal, 1996, 1998.

Arquivo Regional da Madeira Aqui distinguimos quatro núcleos onde foram recolhidos elementos importantes e valiosos para o nosso estudo:

Câmara Municipal do Funchal Colecções de documentos: - Registo Geral, tomos 7/19, nº. 1219/1231 [com Índice organizado por Jesus Lamedo, nº. 1398]. - Vereações, 1700/1887, nº. 1341/1382 Imposição do Vinho e Aguardente: - Livros das Arrematações, 1683/1804, nº.25. - Livro dos Termos de Arrendamento da Imposição do Vinho, 3 livros, 1869/1879, nº. 466/469. Rendimento do vinho atavernado: - Livro do Despacho do Vinho, nº. 60 - Livro dos Mieiros do Vinho, nº. 1396 Sociedade Agrícola: - Livro das Actas das Sessões da Direcção da Sociedade Agrícola, 1860/1862, nº. 1247

Governo Civil - Alvarás, Provisões e Regulamentos sobre a Agricultura na Ilha da Madeira, 1779, nº. 70 - Actas da Comissão Anti-filoxera do Distrito, 1883/1887, nº. 86. - Actas da comissão de Auxilio à Lavoura, 1888/1890, nº. 150

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- Actas do Conselho Distrital da Agricultura, 1893/1898, nº. 249 -Actas da Sociedade Agrícola do Funchal, 1849/1854, 1854/1876, nº. 1016-1017 -Inventário dos Volumes Oferecidos ao Gabinete de Leitura da Sociedade Agrícola do Funchal, nº. 1015 Imposição das Estufas: - Vinho, Manifestos, 1839/1872, 6 volumes, nº1069/1074. Acção britânica e sua ocupação da ilha: - Governo Civil, Registo de Ofícios, Rrespostas, Capitulações, Participações, Divisões e todos os mais Documentos Positivos deste Governo com as Forças e Tropas de Sua Majestade Britânica e Enviado Português em Londres, 1808/1815, nº. 516

- Ofícios Dirigidos à Comissão da Fazenda, 1834/1835, nº. 400 REPARTIÇÃO DO CONSELHO - Avisos Expedidos, 1775/1844, nº. 402/409 - Consultas, 1775/1791, nº. 410 - Ordens, 1775/1796, nº. 411/412 CONTADORIA GERAL: - Contas-correntes do Rendimento das Estufas de Melhorar Vinho, 1806/1833, nº. 441 - Notas da Contadoria – Registo, 1716/1833, nº. 458/460 - Ofícios da Contadoria – Registo, 1806/1834, nº. 461/463 - Portarias – Registo, 1830/1834, nº 465/467 - Portarias, Ofícios, Requerimentos, 1831/1832, nº 468 DÍZIMOS: - Contas Correntes com Vinho e Verduras, 1827/1831, nº 750 ERÁRIO, Repartição do...: - Avisos Expedidos, 1775/1832, nº. 758/759 - Ordens Expedidas, 1775/1795, nº. 760 ERARIO RÉGIO: - Consultas, 1775/1843, nº. 761/765 - Ordens Enviadas à Junta da Fazenda, 1775/1844, nº. 770-778 JUNTA DA REAL FAZENDA: - Assentos Extraordinários, 1802/1807, nº. 940 - Deliberações, 1775/1805, nº. 942 PORTO SANTO: - Documentação sobre a Administração da Real Fazenda da Ilha..., 1781/1792, nº. 960 REGISTO GERAL DA FAZENDA E CONTOS1569/1775, nº. 963/976

Câmara Municipal de Machico Colectâneas de documentos: - Livro do Registo Geral da Câmara, 1637/1840, nº. 84/93 - Livro das Vereações, 1700/1895, nº. 110/144 Imposição do Vinho: - Livro de Arrematação da Imposição do Vinho, 1710/1732, nº. 3 - Livro do Registo dos Manifestos de Vinho, Aguardente e Vinagre, 1774 e 1776, nº. 145/146 Núcleo particular - Casa Ornelas42 - Casa Torre Bela

Arquivo Nacional da Torre do Tombo Quanto à Madeira o arquivo nacional dispõe de três núcleos arquivísticos importantes que para aí foram transferidos por portaria de 9 de Junho de 1886. Alfândega do Funchal, Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal, Cabido e Sé do Funchal.

Alfândega do Funchal -Direitos da Cerveja e Genebra, 1818. nº. 2 Mercadorias- Entradas e saídas: Livro do Fiel dos Armazéns - Manifesto de Carga de Vinhos, 1819/1831, nº. 207 Vinho - exportação: - Livro do Feitor do Embarque, 1789/1834, 11 volumes, nº 245/255

Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal -Registo de Cartas Escritas a Sua Majestade por Francisco de Andrada, seu Filho Ambrósio Vieira Andrada e seu Neto Jorge Vieira de Andrada, 1646/1783, nº. 396 42. Maria Fátima Barros Ferreira, Arquivo da Família Ornelas Vasconcelos. Instrumentos Descritivos, in Arquivo Histórico da Madeira, Boletim do Arquivo Regional da Madeira, vol. XXI, 1998.

SUBSIDIO LITERÁRIO, Repartição: - Avisos Expedidos, 1776/1789, nº. 994 - Consultas e Ordens, 1775/1834, nº. 995/996 - Manifesto do vinho e receita por freguesia: Arco de S. Jorge, 1834, nº. 1049 Calheta, Arco e Estreito, 1775/1834, nº. 1050/1053 Camacha e Caniço, 1832, nº. 1054 Câmara de Lobos e Estreito, 1812/1831, nº. 1055/1058 Campanário (nº. 1063 também Ribeira Brava Serra de Agua e Tabua), 1828/1830, nº. 1059/1063 Caniço (o nº. 1068 também Gaula e Camacha, nº. 1069 também Gaula), 1803/1834, nº. 1064 Estreito e Arco da Calheta, 1804/1825, nº. 1072/1073 Estreito de Câmara de Lobos, 1828/189, nº. 1074/1075 Faial, 1834, nº. 1076/1077 Fajã da Ovelha, Paul do Mar, Prazeres, Jardim do Mar, 1834, nº. 1078 Gaula, 1828/1834, nº. 1079/1080 Machico, Agua de Pena, Caniçal, Faial, Santa Cruz, 1827/1834, nº. 1081/1088

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Madalena do Mar, 1803, nº. 1089 Nossa Senhora do Monte, 1829/1832, nº. 1090/1092 Ponta Delgada, 1833/184 – nº. 1093/1094 Ponta do Sol, Canhas, Madalena e Tabua, 1803/1834, nº.1059/1104 Porto da Cruz, 1816 e 1834, nº. 115/116 Porto Moniz, Ribeira da Janela, Seixal, 1829/1834, nº.1107/1112 Porto Santo, 1805/1834, nº. 1113/1119 Ribeira Brava, Campanário, Serra de Agua, Tábua, 1805/1832, nº.1120/11203 Ribeira da Janela, 1834, nº. 1124 Santa Ana, Arco de S. Jorge, 1804/1834, nº. 1125/1126 Santa Cruz, Gaula, Santa Luzia, Caniço, 1804/1834, nº. 1127/1153 Santa Luzia, S. Gonçalo, Nossa Senhora do Monte, 1834/1835, nº.1134 Santa Maria Maior, 1812/1835, nº. 1135/1142 Santo António, Camacha, 1819, nº. 1143/1144 Santo António e Curral das Freiras, 1829/1831, nº. 1145/1147 Santo António, Curral das Freiras, S. Martinho, Câmara de Lobos e Estreito, 1834, nº. 1148 S. Gonçalo, 1804/1829, nº. 1149/1153 S. Jorge, 1834, nº. 1154 S. Martinho, 1829/1831, nº. 1155/1156 S. Pedro, 1804/31, nº. 1157/60 S. Pedro, S. Roque, Nossa Senhora do Monte, Santa Maria Maior, 1834, nº. 1161 S. Roque, 1813/1831, nº. 1162/1164 S. Roque, Santa Maria Maior, S. Pedro, 1834, nº. 1165 S. Vicente, 1833/1834, nº. 1166 Sé e Santa Luzia, 1831, nº. 1167 Seixal, 1834, nº. 1168 Serra de Agua e Tabua, 1813 e 1832, nº. 1169/1170 Tábua, 1813/1829, nº. 1171/1173

Cabido e Sé do Funchal

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- Colecção de Ordens e Providencias Militares, Civis, Económicas na Ocupação pela Força Inglesa sob as Ordens de Clinton até 1815, cod. 8022 - Papéis Vários sobre o Comércio Inglês na Madeira, MA. 219, nº. 29

Monografias manuscritas sobre a ilha da Madeira - Documentos para a História do Archipélago da Madeira, compilados por Álvaro Rodrigues Azevedo, Cod. 6999 - Cultura da Vinha - Notas de 1832, Cod. 598, fol. 136 vº/267 vº - DRUMOND, João Pedro de Freitas, Documentos Históricos e Geográficos sobre a Ilha da Madeira (cópia), Cod. 7210 - Excursions in Madeira During Autum of 1823 by T. Edward Bodwish (extractos em português - notícias várias, acerca da agricultura da região), cod. 298 - Miscelânea Histórica - História do Descobrimento da Ilha da Madeira, seus Donatários e mais Notícias... Memorial dos Terramotos, Cheias e outras Calamidades Ocorridas na Ilha da Madeira, Alvarás, Editais, Proclamação... de 1802/18 Referentes à Ilha da Madeira, cod. 10848 NÓBREGA, Januário Justiniano de, Breve Memória para a Descrição Histórica, Ttopográfica, Económica do Concelho do Funchal, 1851, cod. 8023 Sobre o comércio: - Comércio de Importação dos Estados de 1788/1828, cod. 600

Arquivo Histórico Ultramarino O núcleo mais importante sobre a Madeira veio do Antigo Arquivo da Marinha e Ultramar, estando já inventariado por Eduardo Castro Almeida 46. No entanto existem mais 31 maços não catalogados onde fizemos uma breve pesquisa. Posteriormente encontrámos novos elementos no códice 1162 (1673/1696).

MAÇOS 4 nº. 32; 6 nº. 32; 7 nº. 3; 17 nº. 20; 20 nº. 2; 23 nº. 13; 32 nº. 39

Biblioteca Nacional de Lisboa/Secção de Reservados Aqui apenas podemos considerar alguns manuscritos da Colecção Pombalina e outros variados, especificamente sobre a Madeira

Colecção Pombalina: - Manuscritos, nºs. 458, 462, 466, 611, 638, 642

Outros Sobre a acção e ocupação inglesa:

43. Archivo da Marinha e Ultramar -Inventário-Madeira e Porto Santo, I vol (1613/1819), II vol. (1820/1833), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1907

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Os Jornais

Copiador de cartas comerciais da empresa de Thomas Newton. Século XVIII. Arquivo da Madeira Wine Company

Os Arquivos Empresariais. A investigação completa de um tema como o vinho deverá contemplar a consulta aos arquivos das principais regiões de destino do vinho na Europa e América e o recurso aos arquivos privados, nomeadamente a documentação das casas inglesas. Apenas no seio da comunidade britânica encontrámos um maior cuidado na preservação do arquivo empresarial, de que temos notícia detalhada dos arquivos de Cossart & Gordon44 e família Blandy. A Madeira Wine Company mantem no acervo histórico documentação das diversas empresas que se associaram a partir de 1925. Aqui podemos encontrar abundante informação sobre as firmas supracitadas, como é o caso das casas de Tarquinio T. Lomelino e F. F. Ferraz & Co. O arquivo da firma Cossart Gordon & Co (1745-1831)45 é entre todos o mais significativo reunindo mais de 2000 peças documentais de 1745 a 1943. A partir da publicação das cartas de William Bolton por A. L. Simon46 é possível conhecer a acção do negociante de vinhos entre 1695 e 1740. Para nós as cartas comerciais de William Bolton, juntamente com as de Diogo Fernandes Branco (16491652), João de Saldanha Albuquerque (1673-1698) e Duarte Sodré Pereira47 permitem colmatar algumas lacunas da documentação oficial para os séculos XVII e XVII. 44. Elizabeth Nicolas, Madeira and the Canarias, Londres, 1953, p. 107. 45. Parte da documentação encontra-se nos arquivos da Madeira Wine Company e outra foi vendida pelos herdeiros à Universidade de Liverpool.Cf.Noel Cossart, Madeira the Island Vineyard, London,1984.p.XI. 46. The Bolton Letters..., Londres, 1965, vol. I. 47. Maria Júlia de Oliveira e Silva, Fidalgos-Mercadores no século XVIII- Duarte Sodré Pereira, Lisboa, 1992

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Henry Mare afirma que escrever a história do jornalismo no século XIX é escrever a história do próprio século48. A partir de 1821 com o incremento da imprensa os jornais assumem-se como uma fonte primordial para o conhecimento mais pormenorizado do quotidiano e da opinião do cidadão, obviamente letrado. Tendo em conta que o século XIX na Madeira se apresenta bem documentado de publicações periódicas e, que seria impossível um estudo detalhado de todas, optámos por uma selecção prévia que se alargou à medida da necessidade de informações de índole político-económica. Primeiro incidimos a recolha nos períodos mais marcantes da conjuntura vitivinícola, dando particular destaque aos anos de 1820/30, 1850/1855, 1870/1875. O período de 1820/1830 é aqui apresentado por ser a fase de arranque do jornalismo insulano, marcadamente criticista e comprometido com a conturbada conjuntura da primeira metade do século XIX. Tivemos quatro tipografias para nove jornais de publicação efémera. O Patriota Funchalense49, primeiro periódico publicado na ilha, é o nosso maior destaque. As páginas do bissemanário estavam abertas à colaboração (paga pelos autores), afirmando-se como uma tribuna de discussão dos problemas de âmbito regional. De entre as principais preocupações temos a salientar as questões do vinho, aguardentes, vínculos e contrato de colonia50. Mas, depressa perderam vigor com os acontecimentos de 182351. De entre os jornais surgidos no primeiro momento podemos destacar O Funchalense Liberal e O Defensor da Liberdade. Entre 1850/1870 estámos perante um momento rico na publicação de jornais, com cerca de meia centena de periódicos, destacando-se alguns pela incidência na discussão político-económica-social: O Amigo do Povo, O Progressista, A Ordem, o Clamor Público. O Clamor Público, surgido em 1854, agregou jornalistas de mérito com acção política nas Cortes e fora delas: António Correa Henriques, António Gonçalves de Freitas, Luís de Freitas Branco52. E, como diziam em editorial, a função do jornal 48. Citado por A. Aragão Mimoso de Freitas, A Madeira Adere à Revolução de 1820, Lisboa, 1958 (tese de licenciatura), p. 17. 49. Veja-se José Augusto dos Santos Alves, “O Patriota Funchalense” ou o elogio do contrapoder, in Actas do II Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, Setembro de 1989, Lisboa, 1990, pp.279-400; António Marques da Silva, Preocupações Ecológicas do “Estrela do Norte”, in Atlântico, 19, 1989, pp.203-220; idem, Almeida Garrett e “O Patriota Funchalense”, Atlântico, 8, 1986, pp.289-292. 50. Um facto característico desta colaboração é o tipo de pseudónimo então usado pelos seus colaboradores a condizer ou não com o momento. Assim temos o “Ilheo Constitucional”, o “Imparcial Cidadão”, “Despertador Principiante”, “O Novo Despertador”, “O Amigo da Verdade”, “Amante da Justiça”, “Hum Amigo da Paz”, “Hum Observador Imparcial”, “O Inimigo dos Aristocratas”, “Hum Português”, “Hum filho da Madeira”, “O Sentinela do Erário”, “Hum Cidadão”, “Hum Villão do Campo”, “O Camponez Madeirense”. Dois mais se destacam: um pelo nome - Robert Machim, o outro pela sua prosa vigorosa e contestatária - o Estrella do Norte. O primeiro, fruto dum saudosismo, marcadamente britânico, o segundo, identificado com o cónego Jerónimo Alves da Silva (1770/1861) evidencia-se pela sua prosa jornalística marcadamente liberal e criticista em que ninguém escapava ao seu olhar crítico. Por outro lado temos a referenciar a colaboração assinada, donde destacamos algumas personalidades conhecidas, como Francisco Manuel Alves, Diogo Dias Ornelas, Jaime António de França Neto, J. Cardoso Giraldes, João Chrisóstomo Espínola Macedo, Francisco Paula Medina de Vasconcelos. 51. Primeiro tivemos a prisão do proprietário e redactor, Nicolau Pita, por alçada de 1823, acusado de maçónico, por outro a criação em 12 de Junho de 1823 duma comissão de censura, que conduziram ao fim deste periódico. 52. Isto só até ao número 27.

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era importante: Se o título de um periódico pode significar a Índole e carácter dele – ‘O Clamor Público’ - indica que ele há-de ocupar-se de todos os assuntos cuja discussão é reclamada pela opinião e interesses gerais desta província. E essa missão já se vê que vai tratar dos meios de proteger as indústrias agrícola, comercial e fabril, com muita especialidade53. Cada jornal tinha o devido enquadramento político-partidário, apresentando-se como o decalque da situação política. Os editoriais e artigos dos colaboradores mais directos são disso um reflexo. Daqui resultou acesa polémica que envolveu alguns jornais, nomeadamente O Clamor Público e a Ordem. Destaque especial foi dado a um periódico surgido em 1851 - O Agricultor Madeirense - que se afirmava como órgão oficial da Sociedade Agrícola Madeirense. Em O Archivista, onde se imprimia o novo periódico, temos a notícia do aparecimento e da finalidade em vista: É destinado a dar conta das Actas da Sociedade Agrícola Madeirense e direcção - de todas as propostas, indicações, relatórios e trabalhos dos sócios e comissões - da legislação agrária, em geral, e da especial da Madeira, - e de memórias, artigos, e quaisquer escritos interessantes sobre agricultura54. A ideia repete-se no editorial do primeiro número, que explicita as razões de criação da Sociedade Agrícola55. A informação disponível sobre o jornalismo madeirense é avulsa, fazendo falta uma monografia e inventário adequado. Apenas conhecemos duas listas incompletas feitas por Jordão Apolinário de Freitas56 e pelo Visconde do Porto da Cruz57. Nas bibliotecas do continente e da Madeira os núcleos jornalísticos estão incompletos, tornando impossível uma relação completa. A colecção da BNL pertence em grande parte ao espólio de A. R. de Azeredo, aí incorporado após a morte, ficando-se no século XIX. Apresentamos, de seguida, por ordem cronológica, os jornais consultados em que colhemos informações para o presente trabalho. - O Patriota Funchalense, 2 Julho 1821/8 Fevereiro 1823, 214 números - O Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei, 17 Fevereiro 1823/3 Julho 1824, 71 números - Funchalense Liberal, 3 Fevereiro 1827/26 Abril 1828 - O Defensor, 4 Janeiro 1840/18 Maio 1847 - O Echo da Revolução, 27 Julho 1846/23 Janeiro 1847 - O Independente, 20 Agosto 1846/15 Maio 1847 - Correio da Madeira, 3 Fevereiro 1849/9 Agosto de 1851 - O Amigo do Povo, 26 Janeiro 1850/ 27 Abril 1854 - O Arrivista, 7 Dezembro 1850/27 Dezembro 1851 - O Agricultor Madeirense, 26 Março 1851/Dezembro 1851 53. Nº 1, p. 1. 54. Nº 15, p. 1. 55. Nº 1, pp. 1/2. 56. Vide Diário de Notícias, Funchal, nº 6385/6. 57. Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, Funchal, 1953, vol. II, pp. 311/3.

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- O Progressista, 28 Agosto 1851/15 Maio 1854 - A Ordem, 15 Janeiro 1852/1 Setembro 1860 - O Clamor Público, 17 Maio 1860/15 Outubro 1877 - O Direito, 1880/1883 - O Funchalense, 17 Abril 1859/17 Fevereiro 1851 - A Voz do Povo, 17 Maio 1860/15 Outubro 1877 - Gazeta da Madeira, 1 Fevereiro 1866/27 Fevereiro 1869 - A Razão, 1867/1870 - O Popular, 1 Fevereiro 1809/12 Setembro 1869 - 1874/1877 - A Lâmpada, 21 Novembro 1876/17 Janeiro 1878 - O Popular, 1 Novembro 1876/17 Janeiro 1878 - Diário de Notícias, 11 Outubro 1876

Na imprensa do continente encontrámos várias páginas dedicadas à Madeira da autoria de madeirenses58, como é o caso das memórias publicadas por António Correia Heredia na Revolução de Setembro. Noutros periódicos, onde soubemos que a pesquisa seria coroada de êxito, fizemos o levantamento sumário dos elementos mais importantes. Aqui tivemos em conta as publicações da especialidade. Assim do Portugal Agrícola - 1901/8 - retivemos informações sobre a lavra da vinha no continente e na Madeira, de que destacamos as monografias de Menezes Pimentel, Azevedo Menezes. Na Informação Vinícola (1950/3), órgão oficial da Junta Nacional dos Vinhos, colhemos notícias e informações de índole histórica sobre o vinho, de modo especial os textos de Rodrigo Cavalheiro, Avelar Machado, António de Almeida e José Tavares. Outros mais consultamos em que destacamos: - A Vinha Portuguesa - Revista Mensal Dedicada ao Progresso da Viticultura Nacional, Lisboa, 1886/1929, sob a direcção de F. Almeida Brito, Alfredo le Coca, Jorge de Melo. - A Vinha Americana em Portugal, 1897, 2 números, revista bissemanal publicada por António Palma de Vilhena, que como o nome indica releva toda a actividade para o replantio das vinhas em Portugal por intermédio das castas americanas59. - Vinicultura, 1934, [que se publicou no Porto por iniciativa de um proprietário local, Fernando Ribeiro Guimarães]. - Vinhos de Portugal, publicação de propaganda vinícola, 1954, publicado em Coimbra por A. Rocha Pinto. - O Vinho em Portugal, Lisboa, 1967, boletim mensal do grémio dos armazenistas de vinho, sob direcção de Acácio Caldeira - Vinho - Semanário Vitivinícola, publicado em Lisboa sob a direcção de António Batalha Reis[um especialista das questões enológicas. Foi também director do jornal Informação Vinícola].

58. Existem diversas publicações que compilam os discursos parlamentares de deputados madeirenses. Veja-se Fernando Augusto da Silva, “Discursos”, in Elucidário Madeirense, vol. I, Funchal, 1984, pp.865-867. 59. Vide nº 1, pp. 1/2, onde se alude a esta finalidade prática.

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A Bibliografia

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No século XIX lançaram-se as bases da História Insulana que teve em Álvaro Rodrigues de Azevedo (1825/1898) o marco fundamental, com as anotações às Saudades da Terra e na monografia sobre a Madeira publicada no Dicionário Universal de Português Ilustrado de Fernandes Costa e numa colectânea de documentos que deixou em manuscrito60. O primeiro estudo ficou como fonte base de toda a posterior escrita sobre história da Madeira e, ainda hoje, é um elemento indispensável de consulta. São da mesma época os textos de Paulo Perestrelo da Câmara (1810/1854), Breve Notícia sobre a Ilha da Madeira (1841), os apontamentos manuscritos de João Pedro de Freitas Drumond e a referência do cónego Joaquim Gonçalves de Andrade (1795/1868), que anotou a História Insulana de António Cordeiro, no que toca à Madeira e que teria reunido documentação para a História da Madeira, que se perdeu juntamente com o espólio literário61. Quase todos os textos publicados estão impregnados pela marca ideológica do movimento liberal, como se pode comprovar nas tomadas de posição de Álvaro Rodrigues de Azevedo sobre a questão em debate do contrato de colonia e da subordinação da ilha ao domínio britânico. A historiografia primeira metade do século XX (1922/50) foi marcada pela ideologia patriótico-nacionalista, como foi o caso do grupo conhecido como a Geração do Cenáculo. Estamos perante uma agremiação onde se juntavram alguns dos vultos mais destacados da época, de que podemos salientar ao nível historiográfico, J. Reis Gomes, Fernando Augusto da Silva e Alberto Artur Sarmento. A tertúlia tinha como órgão oficioso o Diário da Madeira e o Heraldo da Madeira, onde davam conta das deambulações históricas. Foi daqui que partiu a ideia de comemorar o V centenário da descoberta da ilha, que teve lugar entre 1922/1923. O Pe. Fernando Augusto da Silva (1863/1949), com o Elucidário Madeirense (1923), lançou as bases da História da Madeira. Estamos perante um apanhado, em modo de dicionário, dos aspectos mais importantes mas não qualquer história acabada. Alberto Artur Sarmento (1878/1953) foi o elemento mais influente, espírito perspicaz e aberto que em Os Ensaios Históricos da Minha Terra (1ª edição, 193) esboçou uma síntese de história regional. A geração seguinte continuou o trabalho de pesquisa e divulgação da História da Madeira. A conjuntura foi favorável, quer através do Congresso do Mundo Português em 1940, quer das comemorações henriquinas em 1960. Veja-se, por exemplo, as comemorações henriquinas celebradas no Funchal através do boletim do Arquivo Histórico62. Os elementos mais destacados são: o Pe. Eduardo Pereira (1887-1976), Ernesto Gonçalves (1898-1982), Carlos Montenegro Miguel. A partir dos anos 30 deu-se um impulso decisivo na historiografia na valorização dos 60. BNL, Secção de Reservados, Cod. 6999. 61. Visconde do Porto da Cruz, ibidem, p. 62. 62. Vide vols. XII e XIII.

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fundos arquivísticos locais com a organização do arquivo local sob o impulso de João Cabral do Nascimento, que através dum boletim (1931) procedeu à sua divulgação. O trabalho teve continuidade nos anos subsequentes de forma que hoje o acesso aos fundos documentais está facilitado. Foi neste contexto que tivemos na década de 50, da iniciativa da Sociedade de Concertos da Madeira e sob os auspícios de Luís Peter Clode, uma revista de artes, letras e História, que tomou o nome de Das Artes e da História da Madeira. A publicação animou o panorama cultural da ilha durante duas décadas (1950/1960), tendo marcado uma fase importante da historiografia local, com os estudos de Pita Ferreira, Joel Serrão e Ernesto Gonçalves. As teses de licenciatura apresentadas entre 1940/60 como prova final da licenciatura de História às Faculdades de Letras de Lisboa e Coimbra assumem igualmente uma importância fundamental por serem trabalhos monográficos de investigação sobre temas obscuros ou inexplorados, podendo salientar-se as de Fernando Jasmins Pereira (em Coimbra), Maria de Lurdes Freitas Ferraz, Maria do Carmo Jasmins Pereira, António Aragão, Mimoso de Freitas e João José Abreu de Sousa. Horácio Bento de Gouveia, através da obra literária, merece destaque por ser o escritor e memoralista das palpitações, problemas e quotidiano da população rural. Na obra que nos deixou perpassa um traço historiográfico, nomeadamente em A Canga, com a refutação do contrato de colonia, Aguas Mansas, com o retrato de miséria das bordadeiras, O Torna Viagem, com a saída e regresso do emigrante madeirense, Margareta, com o desvendar dos meandros da urbe funchalense dos anos 40. Alguns aspectos do quotidiano da primeira metade do século XX estão ao alcance de todos. Para os séculos XVIII e XIX não devemos desprezar o contributo dado pela literatura inglesa com a publicação de monografias específicas sobre a ilha. O inglês, não só, dominou os circuitos comerciais, como também se mostrou interessado na cultura e História, certamente com a intenção de defender-se das acusações que determinada historiografia local vinha fazendo. A Madeira ganhou a atenção dos aguarelistas, escritores e historiadores ingleses. Nas aguarelas testemunha a vida (e caricatura) da sociedade madeirense do século XIX, o traje, as festas, costumes e paisagens63. Entretanto os memorialistas que por cá passaram deixaram escritas as impressões de tudo quanto viram, dando realce ao vinho. Aqui merece destaque a memória de Henry Vizettely que em Facts about Port and Madeira (1880) dá conta do estado das vinhas madeirenses infestadas com a moléstia da Filoxera, das castas mais importantes, da forma de funcionamento das estufas, do comércio64. Outras monografias surgiram com carácter turístico. R. White em 1853 ao escrever Madeira its Climate and Sunny, que tinha um subtítulo significativo: A Handbook for Invalid and other Visitors. Mais recentemente tivemos W. H. Koebel, A. L. Simon, Rupert Croft-Cook que, em estilo de memória ou em forma de monografia histórica, deram conta de vários aspectos da história ao público inglês. 63. José Leite Monteiro, Estampas Antigas de Paisagens e Costumes da Madeira, Funchal, 1951. 64. Vide Ruppert Croft Cook, Madeira, Londres, 1961, pp. 96/105.

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Armas da Cidade do Funchal65.

História económica e a teoria dos ciclos. Uma das questões mais prementes da historiografia madeirense sobre o vinho prende-se com a ideia de ciclo, usada para definir o período de afirmação da cultura e comércio do vinho. É comum apresentar-se o processo económico da Madeira de acordo com a afirmação cíclica de produtos66. A teoria, que teve o apogeu nas décadas de cinquenta e sessenta, não colhe hoje adeptos. Tudo começou em 1929 com Lúcio de Azevedo67 e foi reforçado passados vinte anos com Fernand Braudel68, acabando por conquistar a adesão da historiografia brasileira. Ambos argumentam que o processo económico das ilhas se articulou de acordo com o regime produtivo de monocultura. Ainda, em 1949 Orlando Ribeiro69 esclarecia, que no caso da Madeira não é possível encontrar rastros de monocultura no regime de exploração agrícola, mesmo assim Joel Serrão insistiu em 1950 em definir o ciclo dos cereais70. 65. Os elementos figurativos começam por assinalar apenas a cana de açúcar e só a partir de 1809 surgem os referentes ao vinho, através de uma parreira com uvas, confronte-se António Aragão, As Armas da Cidade do Funchal no curso da sua História, Funchal.1984. 66. O mesmo debate existe quanto às análises de História Económica Ibero-americana, veja-se Goizueta-Mimo, Felix, Bitter Cuban Sugar. Monoculture and Economie Dependence from 1825-1899, N. York, 1987. 67. AZEVEDO, Lúcio de, Épocas de Portugal Económico. Esboços de História, Lisboa, 1929. 68. BRAUDEL, F., Le Méditerranée et le Monde Méditerranéen(...), ed. de 1949, 123. 69. Orlando Ribeiro, L’Île de Madère (...), Lisboa, 1949, 67. 70. SERRÃO, Joel, Temas Históricos Madeirenses, pp.17-20 e 53-75.

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A mesma opinião foi também defendida para as Canárias, onde, volvidos vinte anos, Elias Serra Rafols71 respondia a Francisco Morales Lezcano72, enunciando que nunca existiu um regime de monocultura, uma vez que a economia canária foi dominada por uma variedade de culturas, cuja actuação não foi uniforme no tempo e no espaço. A questão foi retomada na década de cinquenta por Frédèric Mauro73, que aconselhado por Vitorino Magalhães Godinho74, afirma que a economia insular assentava apenas num regime de produtos dominantes e não de monocultura. Aliás, V. M. Godinho para desfazer os equívocos introduziu um novo conceito operatório, o complexo histórico-geográfico. Na Madeira a ideia dos ciclos vingou junto de historiadores e eruditos não sendo difícil encontrar expressão em qualquer análise de carácter económico. Assim, ficou assente que a História Económica da Madeira evoluiu do ciclo dos cereais, do açúcar ou ouro branco, do vinho, do turismo, banana e, certamente, da autonomia. Finalmente em 1979 esta leitura chegou à análise da História de Arte e urbanismo da cidade, surgindo pela pena de António Aragão75 a ideia de que a cidade teve dois momentos distintos em que se definiram diversas formas de concretização artística e urbanística: a cidade do açúcar e do vinho. O impacto que o texto teve no meio académico e público interessado conduziu a que a ideia, ainda que sem qualquer fundamento, acabasse por vingar. Uma análise aturada da economia insular diz-nos que não se regeu por princípios exclusivistas, de acordo com a premência das solicitações externas. Antes pelo contrário, o desenvolvimento socio-económico processou-se de forma variada, sendo a exploração económica resultado do confronto com as condições e recursos do meio, as solicitações da economia de subsistência. É difícil, senão impossível, definir um ciclo em que impere a monocultura de exportação, num espaço amplo e multifacetado como é o do mundo insular. Os modelos, embora perfeitamente delineados, não se ajustam à realidade socioeconómica, que é extremamente variada e enriquecida de múltiplas matizes. Embora alguns produtos, como o trigo, o açúcar, o vinho e o pastel, surjam em épocas e ilhas diferenciadas, como os mais importantes e definidores das trocas externas, não são únicos na economia insular. Na verdade, a dominância sucede 71. ”El gofio Nuestro de cada Dia”, in Estudios Canários, XIV-XV, 1969-1970, pp.97-99, sendo corroborrado por M. A . Ladero Quesada, España en 1492, Madrid, 1978, pp.205-218, e Eduardo Aznar Vallejo, La Integración de las Islas Canárias en la Corona de Castilla, La Laguna, 1983, p.455. 72. MORALES LEZCANO, Victor, Sintesis de la Historia Economica, Tenerife, 1966, IDEM, Las Relaciones Mercantiles entre Inglaterra y los Archipiélagos Atlantico Ibericos (...), La Laguna, 1970;IDEM, “Cultivos Dominantes y Ciclos Agricolas en la Historia Moderna de las Islas Canarias”, in Historia General de las Islas Canarias, IV, 11-22. 73. Frédèric MAURO, Le Portugal et l’Atlantique au XVIIe, siècle (...), Paris, 1960, 501; IDEM, “Conjoncture Économique et Structure Sociale en Amérique Latine depuis d’Époque Coloniale”, in Conjoncture Économique, Sctruture Sociales, Hommage à Ernest Labrouse, Paris, 1974, 237-251. 74. GODINHO, Vitorino Magalhães, Os Descobrimentos e a Economia Mundial, vol. IV, Lisboa, 1983, pp.207-223; IDEM, “A Divisão da História de Portugal em Períodos”, in Ensaios II, 2ª ed., Lisboa, 1978, 12-14; IDEM, A Construção de Modelos para as Economias Pré-Estatísticas, Revista de História Económica e Social, 16, 1985, pp.3-16; “Entender la Praxis de los Negocios”. Esboço de Modelo para a Economia dos Séculos XV e XVI, História das Ilhas Atlânticas, vol. I, Funchal, 1997, 13-39; IDEM, “Entender la Praxis de los Negocios”. Esboço de Modelo para a Economia dos Séculos XV e XVI, in História das Ilhas Atlânticas, vol. I, Funchal, 1997, pp.40 75. ARAGÃO, António, Para a História do Funchal, Pequenos Passos da Sua Memória, Funchal, 1979

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apenas no sector da exportação e nunca na globalidade da economia da ilha, onde por vezes outros, como fonte de riqueza familiar e subsistência, se tornam mais importantes. Os ciclos de monocultivo são apenas a parte visível das exportações pelo que resumir a análise económica a isso é uma atitude reducionista uma vez que se limita a reconhecer a importância dos produtos com maior peso nas exportações. A ilha é um microcosmo definido pela variedade de espaços ecológicos que não se compadecem com a unicidade agrícola. A situação de produto dominante levou à sistematização do devir socio-economico em ciclos, uma ilusão da complexa realidade que serve de base. O produto define a estrutura socio-economica, numa determinada época, esquecendo-se a complexidade do sector produtivo e comercial. A documentação é unânime na afirmação de que o empenho do ilhéu não se resumia apenas ao produto que mais girava nas relações com o exterior. Há em todos os momentos uma preocupação das autoridades e das populações de auto-suficiência que milita em favor da manutenção das culturas da dieta alimentar que medravam, lado a lado, com as dominantes e solicitadas pelo comércio externo. A polivalência produtiva foi uma constante do devir economico, sendo uma das características das regiões insulares. A dominância de um produto nas relações com o exterior não impede a situação de policultura, nem retira o empenho das gentes laboriosas em assegurar a sua autosubsistência. As posturas Municipais, quando regulamentam os diversos sectores económicos, evidenciam uma diversidade de interesses e movimento de produtos. No processo histórico madeirense é gritante a extrema dependência da ilha em relação ao exterior. A Europa assumiu uma posição dominante firmando-se como o centro donde emanavam as orientações de ordem política e económica. A situação é comum ao mundo insular definindo uma das peculiaridades, marcada pela fragilidade e dependência económica em relação ao velho continente. Para isso contribuiu a posição hegemónica das cidades-capitais dos impérios peninsulares a pouca disponibilidade de recursos e meios das sociedades insulares.Por outro lado a afirmação de um produto nas exportações não é possível sem a existência de um sistema de policultura, principalmente em universos restritos como o das ilhas. Assim, os canaviais subsistem se for possível assegurar um vasto hinterland de culturas de subsistência. Perante isto podemos afirmar que os ciclos serão apenas a visão deformada do processo económico, a caricatura de uma realidade que sempre foi muito mais complexa. Entender a economia das ilhas e a História é reconhecer um estatuto diferenciado aos espaços económicos. Para nós a História e a realidade económica não se compadece com teorias e tão pouco se lhes deve subjugar. Quem conhece as ilhas sabe que em todas domina a diversidade geo-económica, fruto da configuração geográfica, que provoca na Madeira um escalonamento de culturas.

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Obras gerais Estrangeiras • Temática Geral ALBIZZI, Six mois à Madère, in La Tour de Monde, Paris, 1889, T.15, pp. 65/96 BAGUET, A., L’île Madère, in Bulletin de la Societé de Gèographique d’Anvers, Anvers, 1879, T. VI, 367/82 BLAIZE, L., Madère, in Bulletin de la Societé de Géographique de Lyon, Lyon, 1879, T. II, pp. 81/85 DERVENU, Claude, Madeira, Paris, Horizons de France, S/D KOEBEL, W. H., Madeira-Impressions & Associations, London, Metwens & Ca. Ldt., 1924 MARJAY, Frederic, Madeira, Lisboa, Livraria Bertrand, 1965 NICHOLAS, E., Madeira and the Canarias,, London, 1953 POWER, C. A. de P., Powers Guide to the Island of Madeira (the pride of Portugal), London, George Philips &Son Ltd., 30ª edição PAJEAUX, Daniel Hneri, L’Escale du Pére Laval à Madère-1720, in Arquivos do Centro Cultural Português, Paris, 1970, vol. II, pp. 445/56. PAPILLAUD, Lucien, Un Voyage à Madère en 1858, in Bulletin de la Societé de Geographie de Rodefort, Rodefort, 1883, T. IV, pp. 190/220 BIRD, W. And Alfred, Madeira - A Guide Book of Useful Information, London, F. Passmore, S/D WILHELM, Hartnack, Madeira, Landeskunde Liner Insul, Hambourg, Friederisheen de Gruyter & C.M.B.H., 1930 WHITE, Robert, Madeira its Climate and Scenery- a Hand-book for Invalid and other Visitors, Edimbourgh, Adaw and Charles Black, 1850

Nacionais CÂMARA, Paulo Perestrelo da, Breve Notícia sobre a Ilha da Madeira..., Lisboa, Typografia da Academia de Bellas Artes, 1841 FARIA, José Cupertino de, O Arquipélago da Madeira- Guia Descritivo, Setúbal, Typografia de J. Santos, 1901 GOUVEIA, Horácio Bento de, Canhenhos da Ilha, Funchal, ed. Junta Geral do Funchal, 1966 - A Canga, Coimbra Editora Ltd., 1975 LAMAS, Maria, Arquipélago da Madeira - Maravilha Atlântica, Funchal, Eco do Funchal, 1956 MONTEIRO, José Leite, Estampas Antigas de Paisagens e Costumes da Madeira, Funchal, ed. Câmara Municipal do Funchal, 1951

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NATIVIDADE, José Vieira, Madeira - a Epopeia Rural, Funchal, ed. Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1953 OLIVEIRA, A. Lopes, Arquipélago da Madeira - Epopeia Humana, Braga, editora Pax, 1969 PEREIRA, Eduardo, Ilhas de Zargo, Funchal, ed. Câmara do Funchal, 1939, 2 vols. (ed. de 1956) RIBEIRO, Orlando, L’Ile de Madère-Étude Geographique, Lisboa, 1940 SARMENTO, Alberto Artur, Ensaios Históricos da Minha Terra, Ilha da Madeira, Funchal, ed. Câmara Municipal do Funchal, 1952, vol. IV SOUSA, João José Abreu de, O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810, Funchal, 1990

MELIN, Robert, Madeira. Och dess Vin, Suécia, 1996 SILBERT, Albert, Un Carrefour de l’Atlantique – Madère 1640/1820), in Economia e Finanças - Anais do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, Lisboa, 1954, vol. XXII, t. II, pp.299/442 [existe uma reedição bilingue feita em 1997 pelo CEHA] SIMON, André L., Madeira and its Wine, Funchal, Tipografia Casa Pathé, S/D (e Elizabeth Craik) - Madeira Wine Cakes of Sauces, London, Contable & Ca. Ltd., 1933 SIMÕES, Nuno, Notas sobre a Evolução do Comércio dos Vinhos da Madeira, in Arquivo Financeiro e Segurador, 1935, Nº. 10, pp. 273/83 e 293 TAVARES, José da Cruz, Comercio dos Vinhos da Madeira, in Informação Vinícola, 1940, nº. 2/5, pp. I/4, I/3, I/2 - Porto Santo e a Produção do Vinho da Madeira, in Informação Vinícola, 1949, nº. 10, pp. 1 e 2 TENREIRO, Francisco, Nótula Acerca do Vinho da Madeira, in Geographica, 1965, nº. 1, pp. 26/31 THOMAS, Veronica, Madeira, Like its Wine, Improves with Age, in National Geographic (Magazine), Washington, 1973, vol. 143, nº. 4, pp. 488/51

Obras específicas Como auxiliar da consulta sobre o vinho é importante a bibliografia organizada em 1938 pelo Instituto Superior de Agronomia, por altura do V Congresso Vinícola: -V Congresso da Vinha e do Vinho - a Vinha e o Vinho - Bibliografia, Lisboa, 1938

Monografias Históricas sobre o vinho Viticultura/vinificação Em primeiro lugar convém destacar as que se debruçam sobre a História do vinho em geral, desde o aparecimento das primeiras cepas no Oriente, aos tempos que decorrem. Igualmente daremos conta das que caracterizam e definem o vinho. ALLEN, Warner, The Wines of Portugal, London, Casa de Portugal, by George Rabird, Ltd., 1962 - A History of Wine - Great Vintage Wines from Homeric Age to the Present Days, London, Fabriand Faber, 1961 CORUCHE, Visconde de, O que é o Vinho, Lisboa, Fabriand Faber, 1961 REIS, António Batalha, O Vinho, Porto, Oficina do Comércio do Porto, 1902 SOCINI, G. Grazzi, Il Vino, Corregliano, Tipo-litografia F. Caguani, 1889 Quanto à História do vinho da Madeira, poucas são as monografias que merecem referência: COSSART, Noel, Madeira. The Island Vineyard, London, 1984 CROFT-COOK, Ruppert, Madeira, London, Putnam & Company Ltd., 1961 HENRIQUES, Jordão Maurício, Les Vins de Madère, in Le Portugal et son Activité Économique, 1932, pp. 148/50 LEMPS, Alain Huetz de, Le Vin de Madere. Vins, Vignes,Vignerons, Grenoble, 1989. LIDDELL, Alex, Madeira, London, Faber and Faber, 1998

Em primeiro lugar convém destacar a acção da Academia de Ciências de Lisboa, ao longo dos séculos XVIII/XIX, com a publicação das memórias de Agricultura premiadas pela mesma, nomeadamente as memórias I a IV (1787/90), e até mesmo as memórias económicas publicadas entre 1789/1885. ALARTE, Vicencio, A Agricultura das Vinhas e tudo o que Pertence a ellas até o Perfeito Recolhimento do Vinho e Relação das suas Virtudes e da Cepa, Vides, Folhas e Borras, Lisboa, na Officina Rela Reseandesina, 1712 ALMEIDA, Gabriel d’, A Vinha- Notas Vitícolas e Vinícolas, Ponta Delgada, 18 AGUIAR, António Augusto de, Conferências sobre Vinhos, Lisboa, Typografia da Academia Real de Ciências, 1876/7 BRUNNET, Raymond, Traité de Vinification, Paris, G. Masson editeur, 1894 CANTAMESSA, Filipo, Il Vino - su Produzione, Conservazione e Commercio, Torino Tipografia editriche, 1899 CHAPTAL, M. L Comte, L’Art de Faire de Vin, Lisboa Imprensa Nacional, 1900 COSTA, B. C. Cicinnato, O Portugal Vinícola, Lisboa, Imprensa Nacional, 1900 - As Regiões Vinícolas de Portugal, in Portugal Agrícola, 1899, N1 11, pp.265/71 - Situação Vinícola de Portugal, in Ibidem, pp. 169/175 COSTE-FLORET, P., Procédés Modernes de Vinification, Paris, 1894 DELGADO, Santos, Manual Pratico e Técnico sobre o Fabrico e Tratamento de Vinhos, Lisboa, La Clássica Editora, 1926

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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GAILLOT, Anteriorités e Description Pratique des Pressions Pompes e Machines Vinicoles et Hydrauliques, Beume, Imprimerie Lumbert fils, 1883 GYRÃO, António L. B. F. Teixeira, Trato Teórico e Prático de Agricultura das Vinhas de Extracção do Mosto, Bondade, e Conservação dos Vinhos e da Destilação das Agoasardentes, Lisboa, Imprensa Nacional, 1822 GUYOT, Jules, Cultura de la Vigne et Vinification, Paris Librairie Agricole de la Maison Rustide, 1865 LAPA, João Ignacio Ferreira, Revista de Agricultura na Exposição Universal de Paris de 1878, Lisboa, imprensa Nacional, 1879 - Almanach do Lavrador, para 1866, 1868, 1870 LE SOURD, M. Paul (dir.), Traitè Pratique des Vins, Cidres Spiritueux et Vinaigres, Paris, Librairie de G. Masson, 30 ed. LÚCIO, João Baptista, O Fabricante de Vinhos e Vinagres ou Methodo Pratico e Abreviado para Guia das Pessoas que se Occupão no Fabrico e Commercio destes Líquidos em Portugal, Lisboa, Typografia de Francisco Xavier Souza, 1846 MACHARD, Henri, Traitè Pratique sur les Vins, Besançon, Bonvalout, imprimeur editeur, 1865 Material Agricole et Viticole, Vermorel contructeurs à Ville Fraiche (Rhene), catalogue nº.1248 Memória sobre os Processos de Vinificação Empregados nos Principais Centros Vinhateiros do Continente do Reino (apresentada ao Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria por comissão nomeada por portaria de 10 de Agosto de 1866), Lisboa, Imprensa Nacional, 1867 ROQUES, Joseph, Phytographie Médicales-histoire des Substances Héroiques et des Poissons, Paris, chez B. Loimon et Blanc, 1833 SILVA, Américo da, Aquecimento dos Vinhos, in Portugal Vinícola, 1898, nº 10, pp. 5/8 (O) Vinhateiro - Obra em que se Trata da Cultura da Vinha, da Fabricação e Conservação do Vinho, da Destilação das Agoas-ardentes, Paris, na Oficina de Guirandet, 1932, WARCOLLIER, G., Pomologie et Cidrerie, Paris, J. B. Baillière & Fils, 1909.

BEIRÃO, Caetano P. F. S., Algumas Considerações Acerca da Moléstia das Vinhas em Portugal, Lisboa, Tipo. de A. J. T. Lopes, 1853 BARROS, Alfredo V. V. C., Os Serviços Anti-phyloxéricos em Portugal no Anno de 1880 - Carta PhyloxÉica do Continente, do Reino e da Ilha da Madeira..., Lisboa, Imprensa Nacional, 18 BONARME, H., Nouvelle Methode de Culture de la Vigne en Presence du Phylloxera, Le Blanc, Impremerie A. de Saint L0hibarelt Librairie, 1880 CERVAZZA, Domizio, La Incerteza dei Viticoltori-nelle Lotta contra Vecchi e Nuovi Nemici, Rome, Tipo. Editti Botta, 1890 CHICÓ, Rodrigues, Videiras Americanas, in Portugal Vinícola, 1898, n1. 10, pp. 318 COARER, Eduardo, A Phylloxera, Pulgão da Vinha. Origem, Introdução..., Lisboa, Tipografia do Progressista, 1873 Comissão Central Anti-Phylloxérica do Sul do Reino, Ministério das obras públicas, Comércio e Indústria, ano de 1882/85, Lisboa, Imprensa Nacional, 1883/1886, 4 vols. V Conferences sur le Graffage des Vignes Amèricaines (Societè Centrale d’Agriculture de l’ Hèraut), Montpellier, Tipo. Grollier, impremerie de La Societè d’Agriculture, 1879 Doenças e Pragas da Videira, Funchal, 1957. Exposè Sommaire des Travaux sur la Question du Phylloxère et des Vignes Américaines (Executè à l’École National d’Agriculture de Montpellier, 1880), Montpellier, Impremerie Centrale du Midi, 1881 FRANCOU, Louis, Nouvelles et Importantes Observations sur le Meilleur mode d’Emploi de la Submersion des Vignes, Avignon/Tarascon, 1879 FATRIA, Victor, Estudo da Questão Phylloxérica na Europa em 1877- Relatório sobre o Congresso Phylloxérico Internacional (reunido em Lousanne desde 6 a 18 de Agosto de 1877), Lisboa, Typ. Callemaut Frères, 1878 Instruções Relativas ao Tratamento das Vinhas Atacadas de Míldio a que se Refere a Ordem Circular nº. 26, de 17 de Maio de 1893, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893 LACIMAN, M., Confèrence Phylloxèrique, Paris/Bourdeaux, 1881 LEITÃO, António J. L., Conselhos Tendentes a Prevenir, Abrandar e Curar a Doença das Vinhas, para o Próximo Futuro Anno de 1854, Lisboa, Typ. Silva, 1853 LOYJRE, Viconte de la, Du Phylloxera em 1880 - Methode Rationnelle de Presérvation de la Vigne para la Cultura Intensive et l’Insectiside Persistent, Paris, a Librairie Agricole, 1880 MARSAIS, George, Etat Actuel de la Question Phylloxérique en Europe (Extract du Messages Agricole du Midi), Montpellier, Impremerie Centrale du Midi, 1880 MARTINS, Conceição Andrade, A Filoxera na Viticultura Nacional, in Análise Social, vol. 26, nºs. 112-113, 1991, pp.653-688. MACEDO, Diogo de, O Phylloxera Vastatrix ou Nova Moléstia das Vinhas, Porto/Braga, La Internacional E. Cardon, 1872

O Míldio, o Oídio, a Filoxera e mais doenças da vinha deram azo a variadas publicações, em que se tratava, especialmente do modo de as curar, ora com produtos químicos, ora com o replantio através da vinha americana. ALMEIDA, Alexandre M.C., Cultura da Vinha perante a Filoxera (dissertação defendida em 6 de Fevereiro de 1884 no Instituto Geral de Agricultura), Lisboa, Typ. Mattos Moreira, 1884 ALMEIDA E BRITO, F. d’, Manuel da Cultura das Cepas Americanas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1885 Arte de Vencer o Míldio..., Santarém, Tip. “Correio da Estremadura”, 1943 BAPTISTA, Alfredo (e Edmundo Suspiro), O Problema Filoxérico em Portugal, Lisboa, ed. Direcção Geral de Serviço Agrícola, 1955

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MASCARENHAS, João D. C., Vinhas Americanas- Enxertos, Barbados, Bacellos, Vizeu, Tip. e Livraria dancia, 1912. MEDI, H. de, Enxertia da Vinha. Subsídios Práticos para a sua Execução em Plantações Definitivas, in Portugal Agrícola, 1896/7, pp. 189/91 MELLO, Lopo V. de S., Apontamentos sobre a Nova Moléstia das Vinhas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1873 MIRET Y TERRADA, D. Juan, El Mildew, Tarragona, Tip. de José A. Nello, 1884 PASTEUR, M. L., Etudes sur le Vin, se Maladies, Causes que les Provoquent, Precédès Nouveaux pour le Conserver et pour de Vieillir, Paris Librairie F. Sauvy, 1873 REIS, A. B., Memória sobre Vides Americanas e suas Hybridas, Lisboa, 1892 SAINT-PIERRE, Camille, Nouvelles Recherches sur les Vins des Cépages Américaines (Récolte de 1877), Montpellier, Collet Librairie, 1878 SILVA, José E. D., Considerações sobre o Míldio e seu Tratamento, Lisboa, Tip. A Liberal, oficina typ., 1899 SONCINÉ, G. Gras, Fillossre-viti Americane-Vinesto, Conngliano, Tipo-Litografie F. Caquani, 1890 Os Tratamentos da Videira, Porto, Oficina do “Comércio do Porto”, 1911 VERMOREL, V., Destruction de la Cochylis ou ver de la Vigne, Paris/Montpellier, 1890

Universidade Técnica de Lisboa, ISA, 1983 [tese de licenciatura, edição dactilografada.] SILVA, Maurillo Ferraz e, Os Vinhos da Madeira. Alguns Subsídios para o Estudo da sua Viticultura e Economia (relatório final do curso de engenheiro agrónomo), Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, 1924 SOUSA, António Teixeira de, Subsídio para o Estudo das Castas do Vinho da Madeira, in V Congresso Internacional da Vinha e do Vinho, Lisboa, 1938 TAVARES, José da Cruz, Caso Vitícola no Porto Santo, in Informação Vinícola, 1949, nº.11, pp.1-2 - Cultura da Vinha na Madeira, in Ibidem, 1946, nº. 6/7, pp. 1/4, 3, 1 e 4 - A Vinha e o Vinho do Porto Santo, in Ibidem, 1944, nº. 13, pp. 1/2, 1/3, 1945, nº. 1, pp. 2/3 - Subsídio para o Estudo na Região da Madeira- Processo de Cultura da Vinha, in Ibidem, 1944, nº. 17 (1/2), 18 (5), 21(4/2), 22 (4/3), 24 (4/2)

No inventário bibliográfico, que não pretende de forma alguma ser completo, colocámos à parte algumas monografias específicas sobre a Madeira, tendo em conta fundamentalmente os aspectos vitivinícolas e a crise da mesma no século XIX.

Viticultura AZEVEDO, José Augusto Salema de, Alguns Aspectos Agrícolas da Madeira, Funchal, Sep. Boletim de Informação, 1950 FRANÇA, R. C. de Freitas, Estudo Ampelográfico de Algumas Castas de Vitis Vinífera (Bastardo,Complexa, Sercial, Terrantez, Verdelho), Funchal, 1991. GOUVEIA, R. A. C., Contribuição para o Estudo da Viticultura Madeirense, UTL, ISA, 1949 (trabalho mimeografado) MENEZES, Carlos Azevedo de, A Vegetação e Clima do Porto Santo, in Portugal Vinícola, 1908, nº. 6, pp. 81/4 - As Vinhas da Madeira, in Ibidem, 1908, nº. 23, pp. 353/9 PIMENTEL, Menezes, Vinhas e Vinhos da Madeira, in Portugal Vinícola, 1901/2, nº. 10, pp. 262/6 - Estudo do Formato Agrícola na Madeira, in Ibidem, nº. 9, pp. 234/5 SAMPAIO, A. B. C. de, Interesses Agrícolas Madeirenses, in Portugal Agrícola, 1908, nº. 21, 333/4 SEABRA, H. L. M., A Viticultura na Região Autónoma da Madeira - Sua Análise, Lisboa,

Vinificação GOUVEIA, Vicente Henriques de, Acção Bactericida do Vinho da Madeira (Verdelho) sobre o Bacilo Erbeth, Funchal, 1936 LEME, D. João da Câmara, Os Três Sistemas de Tratamento dos Vinhos da Madeira, Funchal, Typ. Bazar do Povo, 1900 Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estufas. Novo Método de Afinamento de Vinhos e - Notícia sobre o Vinho Cannavial-Digestivo, Anticéptico, Medicinal, Alimentício, Funchal, Typ. Esperança, 1892 PIMENTEL, Menezes, Tratamento dos Vinhos da Madeira, in Portugal Vinícola, 1901/2, vol. XIII, 110/2, 133/135 [plágio ou colagem do texto de D. João da Câmara Leme...] REIS, António Batalha, Resumo da Conferência Realizada na Associação Commercial do Funchal em 15 de Outubro de 1905…., Funchal, 1905. TIERNO, João, O Vinho da Madeira, in Portugal Agrícola, 1899, nº. 11, pp. 326, 375

A Crise Vitivinícola Considerações Apresentadas à Comissão Encarregada de Estudar a Situação Económica da Madeira (por Alguns Madeirenses), Funchal, Tip. do Diário de Notícias, 1888 CORVO, João Andrade, Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto Santo: Memória I Memória sobre a Mangra ou Doença das Vinhas nas Ilhas, apresentada à Academia de Ciências na sessão de 3 de Fevereiro de 1854 CRACA, João, Apontamentos sobre a Dissolução da Crise Agrícola (resposta ao Dr. D. João da Câmara Leme), Lisboa, Typ. Aérea, 1879 CUNHA, Henrique de Lima e, Plano de Melhoramento para a Ilha da Madeira, Lisboa, Imprensa Democrática, 1879

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Literatura de viagens, roteiros e guias turísticos O vinho é uma presença constante na Literatura de Viagens e mesmo nos guias e roteiros turísticos. A situação é abonatória da posição que o produto assumia para todos os visitantes. Nas diversas memórias de viagem, que se reportam a épocas muito longínquas como meados do século XV, o vinho nunca é esquecido ficando claro o entusiasmo da descoberta. O interesse do forasteiro pela descoberta do vinho da ilha levou igualmente a que o mesmo tivesse uma posição privilegiada, com informação adequada ao conhecimento da realidade e história. ACKERMANN, Eugène. L’Ile de Madère. Considerée au Point de Vue Scientifique et Economique. Rixheim, 1910. ALEXANDER, James Edward. Narrative of a Voyage of Observation Among the Colonies of Western Africa. In the Flag-ship Thalia: and of a Campaign in Kaffir Land, on the Staff of the Commander-in-chief, London, 1837. ANSON, George. A Voyage Round the World in the Years MDCCXL, London, 1748. ARAGÃO, António, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981. ATKINS, John. A Voyage to Guinea, Brazil and the West Indias, Madeira, Cap Verde, Londres, 1735. A Voyage do Guinea, Brasil and the West-Indies, London, 1737. AVEZAC MACAYA, Mário Armando Pascal, Iles de l’Afrique, Paris, 1848. BAKER, C. Alice, Summer in the Azores with a Glimpse of Madeira, Ed Leader and Shepard Publishers, Boston, 1882 [Um Verão nos Açores e a Madeira de Relance: II trad. de João H. Anglin, sep. do “Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira”, v. 16 e 17. Angra do Heroísmo, 1958/1960, 142-181, 107-151.] BARROW, John, A Voyage to Conchinchina in the Years 1792 and 1793, London, 1806. Voyage à la Conchinchina par les Iles de Madère, de Téneriffe et du Cap Verde, le Brésil et l’ile de Java, Paris, 1807. BARROW, John, A Voyage to Cochinchina, in the Years 1792 and 1793, London, 1806. BENJAMIN, S. W. G., The Atlantic Islands as Resorts of Health and Pleasure, London, 1878. BENSON, W. J. P., Marocco Canary Islands and Madeira, 1910. BERKELEY-COTTER, Jorge Cândido, Alberto A. Girard, Notícia de Alguns Fosseis Terciários do Archipelago da Madeira, 1892. BERTRAND, Arthur, Lettres sur l’Expédition de Sainte-Hélène en 1840, Paris, 1841. BETTENCOURT PITA, Nicolau Caetano, Account of the Island of Madeira, London, 1812. BIDDLE, Anthony J. Drexel, The Land of the Wine Being an Account of the Madeira Island at the Beginning of the Twentieth Century, Philadelphia and San Francisco, 1901. BIDDLE, Anthony J. Drexel, The Madeira Islands, London, 1900 BOWDICH, Thomas Edward, Excursions in Madeira and Porto Santo, During the Auton

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Instrumentos de trabalho sobre as bibliotecas digitais e a internet As referências literárias ao vinho da Madeira resultam do acesso a diversas bibliotecas digitais, onde foi possível pesquisar o tema em mais de 500.000 livros e folhetos, permitindo um rastreio completo das referências ao vinho Madeira, com particular

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incidência na literatura britânica e norte-americana. Merece referência ChadwyckHealey, por ser a mais completa e exaustiva na informação apresentada. Só aqui foram encontrados 360 registos, sendo 130 de poesia, 84 de drama e 146 de prosa. À pesquisa digital juntou-se a consulta da informação bibliográfica da Madeira, nomeadamente os núcleos de literatura de viagens e científica da Biblioteca Municipal do Funchal e do Arquivo Regional da Madeira.

Bibliografia CARVALHEIRO, Rodrigues, Poesia e Vinicultura. Eugénio de Castro e o Vinho da Madeira, in Informação Vinícola, 1947, nº. 6, p. 1 FREITAS, Alfredo Vieira de, Trovas Populares. Da vinha e do Vinho da Madeira e Porto Santo, Santa Cruz, s.d. NÓBREGA, Maria Augusta Correia, A Magia do Vinho, Funchal, 2001 PESTANA, E. A, Ilha da Madeira. I. Folclore Madeirense, Funchal, 1965, SANTOS, Carlos M, Trovas e Bailados da Ilha. Estudo do Folclore Musical da Madeira, Funchal, 1942 TAVARES, José, Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, Funchal, 1953, Folclore do vinho e da vinha na ilha da Madeira in Informação Vinícola, 1943, nº.9, pp. 1/2 (reproduzido em parte no Elucidário Madeirense, vol. III (1965), pp. 392/4) VIEIRA, Alberto, O Vinho da Madeira (breve resenha Histórica), Angra do Heroísmo, 1983, História do Vinho da Madeira- Documentos e Textos, Funchal, 1993

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A tenue parreira que cortada Aos ramos estendidos acrescenta Não só nas folhas, pródiga chamada Mas nos filhos, que vários alimenta Sendo com várias castas enxertada O seu óptimo fruto glória aumenta E nos seus cachos fermosos cada dia Mostrará que está rica de alegria. M. Thomas, Insulana, 1635, Lº. X, v. 96, p. 479

A

A definição da viticultura madeirense assenta na disposição das áreas de cultivo das castas e na forma de cultivo. Ambas as situações estão em relação directa com o solo e clima, factores determinantes na definição da qualidade e valor gustativo do vinho. O Madeira é fruto das propriedades comuns à casta, mas são as condições e variedade de microclimas que determinam, em última instância, as peculiaridades. O resultado de tudo isto é um vinho inimitável, definido por uma elevada acidez que, ao contrário do que acontece nos demais, o favorece no processo de envelhecimento. No solo abrupto e ravinoso surgiram os poios (socalcos) onde se distribuíram as cepas que engalanaram as latadas e balseiras. Os microclimas obrigaram à selecção da videira adequada a cada área, favorecendo a variedade de castas e qualidade da uva produzida. A orografia da ilha expressa-se a partir de uma configuração piramidal de cordilheira montanhosa central, e espraia-se em duas vertentes marcadas por uma costa abrupta, aqui e acolá, entremeada de áreas planas altas (Paul da Serra, Santo) e de algumas Fajãs. As últimas são um espaço privilegiado para a cultura da vinha, como se pode verificar com a Fajã dos Padres. Ao povoador estava reservado o labor de humanização do novo espaço, começando por desbravar a floresta e erguer paredes sobre as ravinas e encostas para aplainar a terra e nelas lançar a semente. A agricultura madeirense é marcada pelas condições mesológicas e a persistência do velho sistema de propriedade (o contrato de colonia1), a origem do desprezo, abandono do campo e aversão às inovações técnico-agrícolas. A faina vitivinícola, definida pelos cuidados da videira e da uva, vindima, lagar e tratamento do vinho,

Rótulo antigo. Colecção Madeira Wine Company.

Viticultura e Produção A viticultura madeirense

1. Sobre o contrato de colonia veja-se: Pedro Pita, O Contracto de Colónia na Madeira, Lisboa, 1929; Manuel Soares da Rocha, A Colonia no Arquipélago da Madeira e a Questão que Gerou, Lisboa, 1957; Ramon Correia Rodrigues, A Colonia na Madeira. Problema Moral e Económico, Funchal, 1947; Idem, Questões Económicas. À Margem da Colonia na Madeira, Funchal, 1953; João José Abreu de Sousa, O Convento de Santa Clara do Funchal, Funchal, 1991; IDEM, A Origem da Colónia, in Islenha, 13, 1993, 47-73; IDEM, História Rural da Madeira. A Colónia, Funchal, 1994; João Lizardo, Algumas Notas e Várias Dúvidas sobre a Colónia nos Dois Últimos Séculos, Islenha, 14, 1994, 137-142; Jorge de Freitas Branco, Camponeses da Madeira, Lisboa, 1987, pp.153-186.

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dominam o ano agrícola dando trabalho quase todo o ano. Para o colono ou caseiro a função resumia-se apenas aos cuidados com a cultura e vindima. Para os demais intervenientes começa aqui o processo que só acaba com o escoamento do produto para os principais mercados onde será servido à mesa, nomeadamente em celebrações festivas 2.

O estudo de Orlando Ribeiro5 continua ainda a ser fundamental para conhecimento da Climatologia e Geologia. Foi ele quem chamou a atenção para a diversidade de microclimas, destacando o contraste Norte/Sul, o mais evidente ao nível do clima e da configuração geográfica6. Assim, temos uma faixa norte, marcada pelos maciços montanhosos de colinas abruptas caindo ao mar (S. Vicente, Seixal) com algumas fajãs por meio (Ponta Delgada, Arco de S. Jorge, Fajã da Areia, Porto Moniz), definida por uma vegetação exuberante e variada e uma forte pluviosidade e humidade do ar. A vertente Norte foi a fonte abastecedora das regiões do Sul. Em contraste, o Sul é mais suave na inclinação e elevação, de menor pluviosidade, podendo-se definir com uma região seca chegando a ser árida (Caniçal). A diferenciação natural contribuiu para a definição das áreas de cultura da vinha. Perante tais condições importa perguntar qual foi a atitude do madeirense, nos últimos cinco séculos de História, perante os acidentes que entravam o percurso? No século XV a primeira solução para o desbravamento do solo virgem foi o incêndio ateado às densas matas que cobriam a ilha, advindo daí, segundo Francisco Alcoforado e Cadamosto, um solo fertilíssimo. Já, nos séculos posteriores, reconheceu-se o aventureirismo de tão precipitada solução do recurso às queimadas, optando-se por outras menos drásticas. A desarborização conduziu a mudanças bruscas no clima e está na origem dos efeitos catastróficos da erosão do vento e chuvas. As grandes catástrofes, conhecidas com aluviões, são o principal resultado7. A partir daqui estabeleceram-se medidas de protecção do parque florestal, impedindo-se o corte desordenado de lenhas e madeiras, e apostando-se na arborização das encostas escalvadas. O primeiro projecto de arborização da ilha pertence a António Rodrigues de Oliveira, Corregedor e Desembargador da ilha, e está registado nas instruções que deixou na Câmara da Calheta em 1782, quando esteve em correição. O plano previa a reorganização das culturas agrícolas no sentido de uma maior diversificação: Promoverá o plantio de árvores úteis, em lugar de silvados, nas beiras dos caminhos: o de castanheiros, nos baldios, de meias terras acima, isto é, nas terras mais altas, próximas da serra; o de laranjeiras, limoeiros, limeiras, cidreiras, e outras árvores frutíferas, protegidas pelos loureiros, vinháticos, e canas nos sítios menos abrigados e não muito secos; o do algodoeiro, nos pontos mais quentes e vizinhos do mar; o de amoreiras, junto às villas, igrejas, estradas e mais lugares públicos; e o de pinhais, nos montes e picos escalvados, rochas sobranceiras ao mar, e geralmente nas terras magras e incapazes de outra produção; fizessem sementeiras de trigo, cevada,

O solo e o clima A configuração geográfica da ilha pode ser definida em poucas palavras. A dominância de um massiço central montanhoso define duas vertentes costeiras abruptas, poucas planícies, que alternam entre altas (Paul da Serra, Santo da Serra) e baixas (fajãs do litoral). Está aqui a razão fundamental da morosidade do trabalho humano na conquista do espaço. A faina de desbravamento, retenção e arroteamento de terras foi dura. A isto juntou-se a necessidade de canalização das águas para que as culturas de regadio pudessem medrar. Por vezes, a faina não atingia os resultados esperados, pela pobreza do solo da ilha, levando o Homem a socorrer-se do estrume e, depois, dos adubos3. Os solos da ilha são resultado da desagregação das rochas vulcânicas sendo compostos de basalto, traquite, tufo, escórias e conglomerados. A composição muda conforme se sobe a encosta, estabelecendo diversos níveis minerais. Isto conjuntamente com a variedade climática definem os patamares ideais de culturas. A falta de calcário, potássio e azoto obrigaram o Homem a intervir no sentido de lhe atribuir os suplementos minerais para que as culturas pudessem medrar em perfeitas condições. Em síntese o solo é pobre implicando um redobrado esforço com o recurso a fertilizantes, caso se queira produzir em condições satisfatórias4. 2. Aqui apenas daremos conta da vindima e aspectos mais marcantes da viticultura deixando o trato e comércio para capítulos específicos. 3. Vide J. A. Salema de Freitas, “Alguns Aspectos Agrícolas na Madeira”, in Portugal Vinícola, nº 9, pp. 234/5; A. T. Sousa, Adubaçöes, Funchal, 1952. Orlando Ribeiro [Ibidem, p. 65.] refere-se a essa pobreza do solo do seguinte modo: Les soles à Madère, sont en général de mauvaise qualité; ils manquant de chaux, et, ils possèdent du fer e du phosfore en quantité suffisante, leur teneur au potasse est aussi dificitaire. Ces sont, en outre, trés pauvres en humus. Une fin détruit la coverture végétable spontanée, le sol se degrede trés vite. Le ruissellement l’emporte, l’alteration des basaltes donnes souvent des argiles plastiques, impermeáble, qui se dêsséchant et se crevassent pendant la longue périodes de sèche. Directment exposé à l’insolation, la matiére organique se perd. La frente est presque partout dèfavorable à la culture. No mesmo sentido escreveu A. Teixeira de Sousa [Ibidem, pp. 28/30, cit. E. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, 39/40.]: Os solos agrícolas provêm da desagregação de rochas vulcânicas, tais como: basaltos, traquites, tufos, escórias, conglomerados. Nas regiões de menor altitude preponderam os terrenos derivados do basalto, compactos, de cor escura que lhe imprime a presença de grande quantidade de ferro; nos pontos altos os solos derivam com frequência das traquites. De um modo geral, uns e outros apresentam propriedades físicas muito apreciáveis e a sua fertilidade é notavelmente acrescida com água de irrigação. Quanto ao aspecto químico são terras pobres em cal, de reacção à vida e contendo doses medianas de ácido fosfórico. Dos restantes elementos nobres, o potássio, em regra apresenta-se em quantidades insuficientes e o azoto algumas vezes também. Explica-se assim o muito proveito que estes terrenos teriam das calagens e das adubações completas. 4 . Em diversos textos é referida a qualidade dos solos onde se cultiva a vinha. Cf. João de Andrade Corvo, A Mangra ou Doença das Vinhas, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 283; T. E. Bowdich, Excursions in Madeira and Porto Santo, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 345; J. L Thudichum e a. Dupré, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, London, 1872, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 371; H. Vizetelly, Facts About Port and Madeira, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 375; J. Jonhson, Madeira its Climate and Scenery, London, 1885, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 408.

5 . RIBEIRO, Orlando, A Ilha da Madeira até Meados do Século XX. Estudo Geográfico, Lisboa, 1985 (1ª edição em 1949 com o título: L’ile de Madère. Étude Geographique), pp.27-44. Confronte-se o estudo mais recente de Raimundo Quintal, Ilha da Madeira. Esboço de Geografia Física, Funchal, 1985 6 . A Madeira está situada sob a influência do geral de Nordeste durante quase todo o ano. A ilha deve a este facto os traços gerais do seu clima e a oposição muito marcada entre as duas encostas, uma directamente exposta à acção do vento dominante, a outra que lhe escpa completamente devido à interposição duma grande massa de relevo. (…) A variedade de microclimas criados pelas condições topográficas é espantosa e seria tarefa vã tentar descrever toda a sua escala. (…) Toda a encosta Norte, exposta aos ventos dominantes, é muito mais pluviosa. [O. Ribeiro, Ibidem, pp. 27, 31 e 37.]. 7 . Cf. nosso estudo Do Éden Arca de Noé, Funchal, 1998.

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Agricultura. Painel na escadaria de acesso ao Salão Nobre do Governo Regional

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batatas, ou abóboras; e que para estas culturas, fossem aproveitadas as terras mais altas, vizinhas da serra. Suscitou também o aproveitamento dos vegetais espontâneos nesta ilha, usados em Pharmácia; o estancamento das águas; as searas de milho, a cuja cultura ele dera princípio, e intermeadas nestas, as do feijão, abóboras, ou semilhas; a criação de gados, prados artificiais para pasto, bardos de resguardo às terras cultivadas8. Foi a partir então que se esboçou o primeiro plano de arborização da ilha e de escalonamento das culturas em altitude de forma a travar o avanço da monocultura da vinha. A necessidade de rearborização das serras foi e continua a ser uma constante. 8 . A. R. Azevedo, Anotaçöes às “Saudades da Terra”, Funchal, 1873, p. 717, vide Agricultor Madeirense, nº 3, pp. 50, 52.

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Em 17989 João Francisco de Oliveira referia a urgência na criação de um viveiro de plantas na ilha, mas só teve aplicação com o Corregedor José Maria Cardoso10 em 189511. Em 179912 o Governo Interino solicitara a D. Rodrigo de Sousa Coutinho o envio de sementes para a plantação nas matas, prados, ribeiras, caminhos e pomares. Remeteram-se sementes de sacapira e cedros, mas em quantidade insuficiente para a pretensão das autoridades13. O estabelecimento botânico, solicitado em 179914, ainda não estava preparado e não se sabia se ia por diante, pois que o Bispo do Funchal queixava-se do facto da Junta da Real Fazenda não ter abonado o dinheiro para a compra do terreno para a implantação do viveiro. Era um estabelecimento útil à região, pois: ... que tem em si todas as bem fundadas esperanças das maiores vantagens. O temperado do clima, a situação local, a abundância das águas e tudo o mais chama por um semelhante plano, que pode vir a ser um bom fiador das especiarias de Ásia, raridades da América e talvez em princípio de riquezas verdadeiras e de um comércio novo e bem útil à Humanidade.... Em 180115 a questão foi resolvida com a oferta pelo Conde de Carvalhal do terreno necessário para a instalação do Reservatório de Botânica. A aluvião de 1803 evidenciou a urgência na aposta em novo projecto de arborização como medida para impedir a desagregação das terras16. Em 181017 foi criada a Junta de Melhoramento da Agricultura das Ilhas da Madeira e Porto Santo com tal missão, mas a tarefa não foi executada por inépcia dos dirigentes18. A partir de 1850 a Sociedade Agrícola assumiu o comando da missão, dando-se através de O Agricultor Madeirense19 as recomendações necessárias para a preservação do parque florestal. O Governador Civil José Silvestre Ribeiro foi o promotor da Sociedade Agrícola20, incentivador da rearborização da ilha21 e do estabelecimento de medidas proibitivas do corte de árvores para uso na fabricação de aguardente, laboração das estufas e fornos de cal22. A ilha do Porto Santo, a mais árida, arenosa e falha de arvoredo e águas, só era merecedora da atenção das autoridades locais em momentos de crise marcados pela seca e fome. Daí resultou o Regulamento da Agricultura dado em 177423 por José António Sá Pereira, cuja aplicação ficou a cargo de um Inspector-geral com soldo de 400.000 reis. A situação de emergência obrigou à tomada de medidas drásticas, 9 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 997/998. 10 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1029. 11 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1030. 12 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 1124. 13 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 1123. 14 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº.1092. 15 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 1188. 16 . A. R. Azevedo, ibidem, pp. 717, 723/725. 17 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3290. 18 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 3291, 3289, 3292, 4663. 19 . ARM, CMF, nº 1247, idem, GC, nº 1016/1017. 20 . Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, Funchal, 1949/52, vol. I, pp. 477/88, vol. II, pp. 68/97. 21 . Ibidem, vol. II, pp. 427-469 22 . Ibidem, vol. II, pp. 544/5.

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como a extinção do contrato de colonia24. Em oposição à política de preservação florestal temos a labuta do agricultor pela conquista do solo virgem, desbravado a floresta, aproveitamento os baldios e levantando os alicerces dos poios nas colinas abruptas e sobranceiras ao mar. Os socalcos ou poios foram, conjuntamente com o arvoredo, o único meio de reter as terras para cultivo: A ilha da Madeira, em muitas partes plana é quase toda piramidal, precisa de paredes arretas ou socalcos de pedra, que em pouca distância uns dos outros tenham mão na sua terra para se não precipitas no mar com as águas e chuvas, e sem estas paredes ficaria a ilha da Madeira reduzida um monte de pedras, sem terra que pudesse produzir25. A tarefa de transformar a terra desabitada em solo arável foi definida, como epopeia rural por J. V Natividade26 e humana, por A. Lopes Oliveira27. O testemunho e apreço pelo labor do madeirense estão presentes na memória e escrita das autoridades. Vejamos algumas provas disso: Em escassas centenas de anos o vilão madeirense ergueu com tão pobres materiais um dos mais extraordinários edifícios agrícolas do mundo e escreveu, com o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas uma grande epopeia. Atacou a rocha para obter terra, transportou-a depois sobre o dorso, por caminhos inverosímeis; lapidou amorosamente a montanha, o serro, as escarpas, os espinhadeiros, como se trabalhasse minúsculos diamantes, não raro debruçado sobre abismos e com risco permanente da própria vida; ergueu poios sobre poios para segurar esses punhados de terra, e fertilizou-a por fim, conquistando e dominando o fio de água misteriosamente nascido através de caprichosos e de acidentadíssimos percursos. Nas encostas, agora suavizadas pelo trabalho de inumeráveis gerações e com gigantescos anfiteatros sempre verdejantes esfolha-se o casario. Junto a cada casa, a parreira, um canteiro ou um modesto alegrete de flores: anseio de beleza, doçura, suavidade, após uma tarefa rude e magnífica, num cenário ciclópico... Em nenhuma outra parte do mundo se põe ao serviço da agricultura maior soma de trabalho humano por unidade de superfície... Talvez por isso, ninguém votará mais fundo amor à terra do que o vilão madeirense e por amor dela mais se sacrifique e padeça... Se atendermos a que grande parte do solo madeirense é explorado sob o contrato de colonia, pelo qual o colono entrega ao senhor da terra o demídio das colheitas, compreende-se que o agricultor para viver obrigue essa terra a fazer prodígios e tenha, na intensificação cultural, a sua única defesa. Por isso o vilão, o homem que faz milagres, o lapidador de montanhas, o feiticeiro da água, que trabalha vida inteira como um animal de carga e vive pobremente e no maior desconforto, ao erguer os socalcos gigantescos de degraus na vertente das serranias, construiu afinal o seu próprio calvário. Mais do que pela água, a

Madeira é regada pelo suor do vilão28. E como nos diz Eduardo Pereira: O homem subiu de picareta na mão, quase de joelhos as vertentes a lutar a ferro e fogo com as rochas, debastando acidentes e armando pedras soltas em socalcos ou taboleiros para deles fazer searas e jardins; subiu até onde pode abrir caminho de pé-posto ou conduzir um fio de água de irrigação29. Todas as tarefas de construção dos poios e preparação do solo para cultivo da vinha foram executados pelo caseiro ou colono, uma vez que pertenciam ao domínio da benfeitoria30. Em 1821 o Governador e Capitão General, Sebastião Xavier Botelho, tinha razão ao exclamar perante o Conde de Arcos: Sua Majestade choraria de dor se visse com os seus olhos as fadigas, as penas, que sofrem os habitantes do sul da Madeira para recolherem uma pipa de vinho31. O encanamento das águas, por meio das levadas, fazia parte da epopeia rural e foi uma das mais espinhosas tarefas que acompanhou os madeirenses até ao século XX. As levadas evoluíram de acordo com a importância das culturas de regadio e foram alvo de regulamentação adequada32, merecendo atenção a do Rabaçal, cuja construção se prolongou entre 1835 e 1890. No arranque da obra foi decisivo o papel de José Silvestre Ribeiro33. Executadas as tarefas de preparação do solo para a agricultura, teríamos razões para afirmar que a Madeira se tornaria num paraíso, um jardim feito pelo madeirense onde a viticultura e horticultura seriam prósperas. Mas tal não sucedeu, nem era isso que se passava em 182334. A época de prosperidade vinícola fora de felicidade efémera e pouco rentável para o colono. Uma memória sobre o estado e melhoramento da ilha da Madeira, enviada em 5 de Dezembro, pelo então Corregedor Manuel Soares de Lobão e Albergaria ao Conde de Subserra, dá conta disso: A situação geográfica, temperança do ar, qualidade componentes de seu terreno, contínuos orvalhos, copiosos mananciais de água de suas alcantiladas montanhas produzem a fecundidade deste velho país por extremo favorecido pela natureza para agasalhar os viventes e produção dos vegetais, para poder dizer-se que são aqui indígenas todas as plantas do mundo conhecido, pela facilidade de se climatizarem e ainda mesmo por se acharem naturalmente sem cultura algumas raças que recebem de Ásia e América... Todas as sementes, grãos, frutas e todas as castas de plantas da Europa produzem e vegetam maravilhosamente35. A ideia da ilha como Paraíso desfez-se rapidamente, mercê das dificuldades resultantes da tendência para a monocultura da vinha: Este país porém ricamente dotado pela natureza acha-se pobre e atenuado. Causas desta desgraça: a falta de cul-

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. ANTT, PJRFF, nº 976, fols. III -9. . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 4846. . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 6478; ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 120/2. . Madeira. Epopeia Rural, Funchal, 1953. . Arquipélago da Madeira. Epopeia Humana, Funchal, 1969.

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. J. V. Natividade, Fomento da Fruticultura na Madeira, Funchal, 1947, pp. 15/7, cit. E. Pereira, ibidem, vol. I, 438/9. . Ibidem, vol. I, pp. 438. . Vide AHU, Madeira e Porto Santo, nº 6478 e 3281; ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 120/2. . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 6265. . Para o estudo das levadas na Madeira vide M. R. Amaro da Costa, “Aproveitamento da Água na Ilha da Madeira”, in DAHM, vol. I, nº 4, 1950, 18/9. 33 . Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, vol. II, pp. 607/40. 34 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 7265/6. 35 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 7266.

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tura e de uma cultura regular é a primária causa da ruína. Nem sequer uma quinta parte da ilha se acha cultivada, sendo que toda ela até nos íngremes outeiros tem a propriedade de produzir o centeio, a cevada, batatas, grãos e legumes. A cultura que se emprega é só em vinhas e muito mal cultivadas. Resulta daqui a falta de géneros mais necessários à subsistência e lá se vão buscar ao estrangeiro, que deste modo absorvem toda a importância dos vinhos e ainda assim mesmo os habitantes não podem satisfazer as suas despesas ordinárias. A gente do pais, que é educada, tem talento, mas o luxo, o fatal luxo lhes tem vedado a inclinação para a cultura e indústria36. Os proprietários que têm fundos, nos quais podiam empregar uma interessante cultura, abandonam os seus campos a colonos ignorantes e preguiçosos, cujo trabalho estendem só ao necessário para subsistirem, nada adiantam e por isso longe de irem gradualmente cultivando o terreno inculto, vão deixando de cultivar o que estava culto; a poucos passos acima de tudo em maninhos. A tenacidade dos camponeses em não admitirem emenda nos vícios, que lhe são notados, os instrumentos rústicos do seu uso, sendo eles aterradíssimos aos usos que herdaram de seus maiores, produz outro embaraço para a boa cultura. Muito conviria para corrigir este erro e semelhantes distribuir com alguma vantagem pelas aldeias desta ilha alguns peritos lavradores do Minho e da Beira, podendo deste modo estabelecer-se uma mais regular e mais conveniente cultura37. A ilha apresentava outros óbices à afirmação da economia agrícola, resultantes do facto de dispor uma área agrícola limitada. Em 1865 o solo cultivável, abaixo dos 900m, cifrava-se em 18.381 ha, sendo 29.448 de baldios e terras situadas acima dos 900 m. Da área agricultada, cerca de 2.500 ha (19%) estava ocupada com vinha, 4.649 de cereais de pragana, 357 de cana-de-açúcar, 488 de milho, 10.389 de batatas, semilhas, inhame, legumes, ervagem. Em 1949, O. Ribeiro38 dava conta de 2.525 Km2 (30%) da área cultivada, sendo 247 Km2 de terreno inculto. A área, uma conquista do madeirense, distribuía-se pelas culturas do trigo, bananas, açúcar, notando que: ...a ilha da Madeira é um canto de terra profundamente ordenado pelo homem. (…) a superfície cultivada é pois uma obra humana, uma vitória sobre o declive, a seca estival e a pobreza do solo39. Para Eduardo Pereira (1956) o terreno arável cifra-se em 30.000 ha., de que apenas 20.000ha, ou seja 1/340, eram aproveitados. Outro problema prende-se com a extensão do solo aproveitável, que se situava apenas abaixo dos 900 metros e ocupava uma ínfima parcela do total da ilha. A área de vinhedo evoluiu ao longo dos tempos conforme o vinho foi ganhando ou perdendo importância. O efeito das doenças sentiu-se rapidamente de modo que em

1880, segundo Henry Vizetelly, era de 2.500ha, e passados três anos, Almeida e Brito refere que passou de 2.500ha para apenas 500ha41. A informação estatística para os anos de 1881, 1882, 1885 diz que era, respectivamente, de 594ha, 353,10ha e 769,42ha. Já em 1949 Orlando Ribeiro estabelece a área cultivável em 225 Km2, o que corresponde a 30% do total da ilha, em que a vinha ocupa apenas 8%. Na década de cinquenta, segundo José Tavares42, o vinhedo havia já recuperado 1.200ha da área cultivada, atingindo na década imediata 2.000ha43. A partir dos anos setenta foi evidente o avanço da vinha. Em 1977 ocupava 1940ha e passados vinte anos situava-se já nos 2000ha. Ao mesmo tempo a cultura adquiriu uma dimensão importante na agricultura, pois que em 1989 ocupava já mais de 20 % da área cultivada. Orlando Ribeiro44 apresenta o escalonamento das culturas em três zonas. Na vertente Sul atingem faixas contínuas até 700 m, enquanto no Norte se apresentam descontínuas. A primeira zona, que atinge 400 m no sul e 200 m no Norte, oestava dedicada à cana-de-açúcar e mais culturas tropicais. Na segunda até 600 m cultiva-se os frutos mediterrâneos. Já na terceira, que engloba os terrenos os terrenos baldios e florestas45. O presente escalonamento não pode ser considerado estático e perfeitamente definido, pois que a realidade é bem outra e as culturas dispõem-se no solo conforme as disponibilidades e necessidades dos proprietários do terreno. É certo que a vinha tinha no Sul, nos terrenos situados entre os 330 e 750 metros de altitude, as melhores condições para medrar. Mas, o homem fê-la espalhar por toda a ilha, ignorando as condições ideais e sujeitando-se à qualidade do fruto que daí advinha. A possibilidade de escoamento interno nas tabernas ou a queima para fabrico de aguardente estão na origem da situação. A vinha era uma cultura de convívio fácil com as demais, erguendo-se em latadas e sob o solo livre plantavam-se batatas, abóboras e outras culturas que contribuíram para a adubação do solo. Em 1817, Junta de Melhoramento Agrícola insurgiu-se contra a situação considerando-a lesiva da cultura da vinha. Os vinhos das uvas colhidas nas áreas litorais eram os melhores, perdendo qualidade à medida que se avançava para a montanha ou no sentido da vertente Norte. Os preços do mosto, desde o século XVI, foram estabelecidos de acordo com os patamares ideais da cultura. A vereação do Funchal definiu dois níveis de preços: os vinhos das meias terras abaixo, os melhores; e os vinhos das meias terras acima, os de inferior qualidade.

36 . Mais adiante salienta-se acerca do luxo, “O maníaco luxo dos insulanos que pela criaçäo inglesa tem dado maior valor aos objectos estrangeiros, quando mesmo os nacionais excedem em bondade, é outra causa de ruina do paíz”. 37 . Eduardo Grande, Sociedade Agrícola do Funchal. Relatório, Funchal, 1865, p. 9. 38 . Ibidem, p. 53 39 . Ibidem, p. 55 40 . Ibidem, vol. I, pp. 437/8.

41 . José Tavares, Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, Funchal, 1953, p.9 42 . Ibidem. Segundo Ramon Honorato C. Rodrigues [Questões Económicas, vol. II, Funchal, 1953, p.46] a área era de 1650ha 43 . Edurado C. N. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. II, p.576. Segundo Rupert Croft-Cooke [Madeira, London, 1961, p.95] as vinhas ocupavam na década de sessenta 3000ha 44 . Ibidem, pp. 56-59 45 . Ideia corroborada por Eduardo Pereira, Ibidem, vol. I, pp. 446/447; José Manuel Azevedo e Silva, ob.cit., vol. I., pp.59-65. 46 . Vide H. Bento de Gouveia, A Canga.

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O viticultor madeirense

Lavradores. Gravura publicada por W. Combe, 1821.

V O homem e a terra Na Madeira a relação do homem com a terra foi diferente daquilo que aconteceu nas demais regiões do pais, resultado de uma situação particular conhecida como contrato de colonia. De acordo com o contrato sobre a terra incidiam dois tipos de proprietários: o senhorio e o colono. O senhorio era o legítimo proprietário que recebera a terra de dadas, por compra ou herança e, por sua vez, a entregava ao colono para que a tornasse arável, ficando com direito a metade das colheitas. O colono estava obrigado a criar as benfeitorias necessárias, que era proprietário, para que a terra se tornasse produtiva. Quanto à vinha o contrato, regido por normas consuetudinárias, estabelecia que o senhorio tinha direito a metade do mosto à bica do lagar, sendo todos os encargos com a plantação, construção das latadas e lagar, cuidados com a vinha e a vindima da responsabilidade do colono. A situação perdurou por muito tempo em algumas freguesias, terminando apenas em 1976, quando o contrato de colonia foi abolido por decreto da Assembleia Regional da Madeira.

A documentação do século XIX esclarece a forma como se estabelecia a dominação e o tipo de relações geradas. Em 1813 dizia-se: Todo o terreno desta ilha, com pouquíssimos, ou talvez nenhumas excessões, tem três donos; o primeiro, é o directo senhorio, quando há emprazamento, o que raras vezes acontesse; o segundo, o senhorio útil, enquanto não cai em comisso, o que também sucede, com a mesma raridade; o terceiro é o colono que cultiva de meias, que quanto ao meu entender, tira o mais lucro, porque come e cria todo o ano, de que não paga meação, porque só a deve dos géneros da colheita, bem assim como o dízimo, o que é aqui um direito provincial de 5 de Março de 1723, a favor da lavoura, para se lhe não exigirem dízimos das verdadeiras, coisa muito bem entendida, por ser de dificultosa avaluação e que tem causado a ruína de muitos cultivadores do Brasil, o que acontece, quando o dizimado se não pode ajustar com o dizimeiro, o que é muito ordinário. O colono além das utilidades ditas, tem o direito de retenção e conservação pelas benfeitorias, que não outra coisa mais do que paredes que sustentam a terra, ou taboleiros de vinha, para não serem levados pelas águas das grandes chuvas, o que no Douro se chamão socalcos; cá manda-os fazer o proprietário, aqui são feitos pelo colono e tem um valor verdadeiramente ideal; os socalcos, ou benfeitorias, sem a terra, não valem coisa alguma, a terra sem eles, tem um preço e tudo que nela se edifica, ou planta, pertencia ao dono por direito; aqui não é assim, e é muito justo e útil que assim continue, por ser duplicado interesse de conservação e cultura entre os proprietários e o colono, que tem mútua e recíproca dependência da fertilidade, e cultura do mesmo terreno; o colono é quase servo da gleba, sem o saber e sem o ser pela lei; o proprietário não o expulsa, sem lhe pagar as benfeitorias e o colono não se despede com o temor de perdê-las. São poucos os exemplos de serem despedidos, ou de se despedirem: uma prova de que as benfeitorias representão muito e valem pouco, ou um preço ideal, é o número das benfeitorias incorporadas nos próprios, avaliados em nove contos, para as quais não é comprado. Há ainda um quarto proprietário, que tira sem interesse do trabalho industrioso e dispendioso que concorre para a cultura; sabe-se geralmente que os soberanos reservam para si, quando dão muitos artigos; por exemplo, direitos reais, vieiros de metais, águas, e outros declarados nas ordenações do Lº 2 Nº 26 e nas ordenações da Fazenda, cap. 237. Muitos destes artigos ficariam inertes e estéreis se os soberanos os não concedessem a proprietários com certas e determinadas condições, faltando-se a elas, caiem em comisso, e revestem para a coroa; desta natureza são as minas e águas47. Em 1822 argumentava-se sobre o mesmo mas doutra forma: Há também n’esta ilha uma forma de domínio particular d’ela; e vem a ser, que um é o dono do solo,

47 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3281.

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ou terra e outro o dono da superfície ou das benfeitorias. Chamam na ilha da Madeira - benfeitorias - a tudo o que está feito, plantado, ou edificado no solo, ou no terreno; as paredes, feitas para sustentar ou defender a terra, as videiras, e árvores plantadas, tudo entra na classe de benfeitorias. Para avaliar as benfeitorias das videiras e árvores não se avalia o que elas custavam a plantar, mas sim o que actualmente valem e para se fazer a avaliação das videiras contam-se os pés e não se atende à produção. Acontece ordinariamente que se o terreno vale v. g. 100, as benfeitorias de paredes, videiras, árvores, etc. que n’ele estão, valem, 300 ou 400. Por via de regra o dono do terreno é o dono das benfeitorias, porque se por acaso o é e quer dar a fazenda a cultivar vende ao colono as benfeitorias avaliadas na dita forma, o qual lh’as paga, ou logo ou em prestações. O colono, senhor ou dono das benfeitorias, ou porque as fez, ou porque as comprou, tem de cultivar a fazenda à sua custa, podando, amanhando, e cavando a vinha, tem de fazer a vindima e o vinho no lagar e à beira dele dá metade ao dono do terreno, ficando com outra metade. Esta metade do colono, poucas vezes excede, e muitas não chega à despesa que ele faz com a cultura da fazenda anualmente de sorte que a metade da produção com que fica o colono é a paga do seu trabalho, ficando assim o valor das benfeitorias sem ter rendimento algum48. Finalmente em 1826 temos outra referência mais elucidativa: Geralmente as terras cultivadas nesta ilha tem dois proprietários, um do solo, a que chamam senhorio, e outro das benfeitorias, a que chamam caseiro, ou lavrador, o qual fazendo toda a despesa do custeamento, parte com o senhorio a metade de deus frutos, sendo bem feliz quando a metade, lhe fica paga a sua despesa e trabalho, do qual tudo depende, e por isso, que política, e que equidade não é precisa para animar esta numerosa classe de habitantes devedores, cuja fortuna é realmente termómetro de felicidade pública? Que resultados podem acontecer pondo-se em desgraça milhares de famílias sem bens, sem domicílio, sem ocupação e sem sustento? Qual será a autoridade que possa responder pela segurança pública achando-se a força unida à mesma segurança?49. Muitos estrangeiros que visitaram a ilha não entenderam a forma como se estabelecia a posse e exploração da terrra. Henry Vizetelly é dos poucos que viu de perto esta realidade, apresentando uma visão correcta: Em muitos lugares, as vinhas são plantadas no solo empilhado em socalcos suportados por paredes de pedra. Este sistema foi originalmente adoptado como precaução contra as chuvas periódicas que arrastavam o solo com elas pelas íngremes encostas abaixo. Hoje em dia, onde quer que seja possível acumular terra e levantar uma parede, é certo que isto será feito pelo ocupante da terra, embora o proveito muito provavelmente não seja proporcionado ao tempo e trabalho dispendido. Mas então, de acordo com o sistema de

posse universal na ilha, um senhorio não pode expulsar um rendeiro sem primeiro o compensar por todos esses melhoramentos - o que, a propósito não incluem prédios que tenham sido feitos - que o rendeiro tenha feito no seu pedaço de terra. Estas benfeitorias ou melhoramentos são avaliadas por funcionários do Governo, que invariavelmente se inclinam para o lado do rendeiro e as estimam num alto valor. A consequência disto é que quanto mais terra o arrendatário coloca num monte e quanto mais muros ele levanta no seu pequeno pedaço de terra, mais certo está de que nunca será mandado para fora dele, pois presentemente estas construções a que o camponês e a sua família dedicam todo o seu tempo livre, tanto se torne vantajoso ou não, frequentemente excedem o valor da própria terra. Presentemente, deve haver muitas centenas de milhas destes socalcos em toda a ilha. Renda em géneros é a regra na Madeira. O rendeiro lavra, planta e aduba o solo, faz a colheita, que, quando é trigo, ele debulha; se for cana-de-açúcar, ele extrai a sacarina; se foram as uvas, ele espreme, dando metade do produto ao senhorio como renda, depois do Governo ter tirado a sua dízima. Metade da produção de milho, açúcar e vinho é reclamada rigidamente pelo senhorio, mas todos os vegetais cultivados são geralmente retidos pelo rendeiro, juntamente com os cereais, embora o senhorio possa exigir metade dos últimos, se quiser. O rendeiro que reside na terra que lhe foi arrendada é chamado um caseiro, devido à casa que ocupa, enquanto se ele apenas arrendar a terra e não residir nela, é chamado um «médio», pela metade da produção que ele tem que dar ao seu senhorio. O último é geralmente o proprietário só da terra - pertencendo, em quase todos os casos, ao rendeiro prédios, aterros, árvores, vinha, etc.50. O contrato de colonia provocou o gradual afastamento do senhorio da terra e à fuga para os centros urbanos, onde aguardava peloos proventos, necessários ao sustento e vida desafogada. O colono, obrigado à partilha dos proventos resultantes da força de trabalho não se sentia motivado para apostar no melhor aproveitamento da terra, ficando pelo quanto bastasse para a sobrevivência. Vem daqui a situação de abandono do campo e o lento entorpecimento das forças produtivas. A partir do século XVI a instituição do morgadio ou a vinculação da terra51 viciou o contrato de colonia tornando-o num misto de parceria agrícola e enfiteuse52. Com o Governador e Capitão-general Sá Pereira, o Pombal Madeirense, segundo a expressão de A. R. de Azevedo, lançaram-se as bases da abolição e regulamentação em face da anarquia vigente, com a lei de 9 de Setembro de 1769 e carta de 3 de Agosto de 1770. A extinção definitiva só aconteceu por lei de 19 de Maio de 1863, enquanto a colonia no Porto Santo fora abolida por lei de 13 de Outubro de 177053.

48 . Idem, nº 6478; ANTT, PJRFF, nº 703, fols. 120/2. 49 . ANTT, PJRFF, nº 764, pp. 95/98.

50 . Henry Vizetelly, Facts About Port and Madeira (...), Londres, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 387] 51 . Maria de Fátima Coelho, “O Instituto Vincular, sua Decadência e Morte: Questões Várias”, in O Século XIX em Portugal, Lisboa, 1980, pp. 111/131, e bibliografia aí aduzida, especialmente a obra de Herculano. 52 . M. B. França, Da Administração Pombalina no Arquipélago da Madeira, Lisboa, 1956 (teses de licenciatura), fols. 37-46. 53 . Idem, ibidem, fol. 30-32.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Em 177454, o Governador em ofício a Martinho de Melo e Castro dava conta dos vexames sofridos pelos colonos, dando apoio à extinção. Em 177655a pretensão dos colonos e rendeiros em arrecadarem 2/3 da colheita conduziu a um protesto da Câmara, justificado pela tradição histórica da partilha a meias. Os colonos baseavam-se na ordem do Conselho da Fazenda de 17 de Outubro de 1722, que o regulamentava situação distinta para o Porto Santo. Em 1818 deu-se uma sublevação dos colonos que reclamavam a aplicação da lei na Madeira: No dia em que esperavam o despacho de um grande número de homens do campo apareceu à porta da Casa da Junta da Real Fazenda e parecendo, pela grande multidão, que ali se ajuntou e alvoroço com que estavam que eles se tinham dirigido com espírito de assuada, imediatamente mandei um ajudante de ordens e um capitão de artilharia, com uma escolta de soldados que fizerão dispersos aquela gente prenderam alguns homens que pareceram ser os autores daquele ajuntamento..56. Em 185257, A. Gonçalves apresentou o contrato de colonia, conjuntamente com o sistema de morgado, responsável da ruína da agricultura da ilha, pugnando pela extinção: O contrato de colonia desanima o colono, no meio do seu trabalho e desanima e aflige o proprietário... Naquelas partes da ilha onde mais domina o contrato de colonia, aí a indústria é nenhuma, a agricultura nenhum progresso dá fruto e em lugar de vida e actividade, observamos a indolência, a preguiça e a inaptidão58. A contabilidade de algumas fazendas, onde dominava o contrato de colónia, era criteriosa por parte dos feitores, o intermediário entre o colono e o proprietário. A exemplificação está patente em documentos do arquivo da família de Agostinho de Ornelas e Vasconcellos59. A casa dispunha de fazendas em toda a ilha mas apenas no Caniço, Câmara de Lobos e Estreito de Câmara de Lobos surgem vinhas. O mosto era vendido aos mercadores do Funchal à bica do lagar como sucedeu em 1895 à firma Blandy. Da receita, que competia ao senhor, retirava-se as despesas do feitor, com o plantio de novos bacelos e na compra do enxofre. Os gastos com o enxofre eram avaliados à razão de 200 réis por barril de mosto.

plantio e enxertia, para o Caniço em 1901 foi 114$400. Os livros de manifesto do vinho e receita do subsídio literário elucidam-nos sobre a forma com estava estabelecida a estrutura fundiária60. Quanto ao morgadio temos a predominância na vertente Sul, nomeadamente na área do Funchal a Campanário. Entre 1819/1834 referem-se 12 (50%) em Câmara de Lobos, de que podemos destacar os mais importantes, como o Visconde de Torre Bela (C. de Lobos e Tabua), João de Carvalhal (S. Martinho, Camacha, Ponta do Sol, Ponta Delgada, S. Roque, Serra de Agua, C. de Lobos), Ayres de Ornellas de Vasconcellos (Ponta do Sol, S. Martinho, Ponta do Pargo, C. de Lobos), D. João da Câmara Leme (Quinta do Leme). Em Câmara de Lobos juntam-se os morgados, José Ferreira, António Ferreira, Carlos Vicente, Henrique Fernandes, Fernando da Câmara61. Em Santa Luzia os morgados Dória, Agostinho António62; em S. Roque, os morgados Faria e Rego63; Nossa Senhora do Calhau, os morgados Faria, Albuquerque, Nunes Freitas64; em S. Pedro Agostinho65; S. Martinho, Luís Alexandre Souveraine, Francisco João de Vasconcelos, Diogo Dias de Ornelas, Pedro Agostinho66. Fora da área da cidade e termo, além dos já referidos, o número é reduzido podendo-se salientar apenas, no Porto Moniz, Francisco Ferro, António Pedro Barbosa67; em S. Jorge o morgado Falcão68; na Serra de Água o morgado Saldanha, Diogo de Ornelas, Diogo de Ornelas, Francisco Pedro69; em Ponta Delgada, João Lúcio e Nuno de Freitas70. Todos eram detentores de extensas áreas de produção de vinho, que eram entregues ao cuidado dos colonos. O contrato de colonia predomina no Funchal e áreas limítrofes, em especial Câmara de Lobos onde em 1829 o número de senhorios era superior a trinta. Aqui merecem referência os mais importantes como, Pedro Santana, Visconde de Torre Bela, D. João da Câmara. No Campanário em 1831 o número elevava-se a vinte e quatro, destacando-se, o morgado João Correia Marques e José Agostinho Jervis, João da Câmara Leme, Luís Sauvaires, João Nunes Bento, A. Francisco Brito, Penfold71. Em S. Vicente, Fajã da Ovelha, Paul do Mar, Seixal, S. Jorge nota-se um fraco número de senhorios, o que poderá ser indício do parcelamento da terra. Quanto ao contrato de colónia, é evidente a presença de proprietários influentes, morgados, ou militares. Mais significativa foi a importância assumida pelos proprietários militares (Sargento-mor, Capitão, Tenente, Alferes), de que se destaca em S.

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CASEIROS VINHO Barris réis

1895 10 53 159$420

1897 10 44$700

1900 15 52 160$525

1901 14 18 7$000

1902 6 8 62$000

1903 4 55 39$400

1904

1905

143$755

121 153$360

1906 11 146$890

A cultura da vinha era rentável justificando-se o investimento em novas terras de vinha. Em Câmara e Lobos apostou-se em simultâneo na cana doce e novos bacelos enquanto que no Caniço os 89 caseiros receberam barbados de Lisboa e bacelos do Norte. A despesa total, com a compra e despesa de transporte dos bacelos, 54 55 56 57 58 59

. A HU, Madeira e Porto Santo, nº418 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 449 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 4666 . O Clamor Público, nº 8, pp. 2/3; nº 9, pp. 2/3; nº 10, pp. 1/2 . Idem, nº 9, p.2. . ARM, Arquivo da Casa Ornelas, Caixa 2. Cf. Arquivo Histórico da Madeira, vol XXI, 1998.

60. ANTT, PJRFF, nº 1049/1174. No entanto uma tal constatação requere um trabalho demorado nos referidos registos, o que nos seria impossível de realizar no pouco tempo disponível para a elaboração e investigação com este trabalho, assim, de uma breve consulta tiramos alguns apontamentos elucidativos, deixando para outra ocasião um estudo mais profundo. 61. Idem, nº 1057. 62. Idem, nº 1167 63. Idem, nº 1161 64. Idem, nº 1161, 1138 65. Idem, nº 1160 66. Idem, nº 1156 67. Idem, nº 1112 68. Idem, nº 1154 69. Idem, nº 1170. 70. Idem, nº 1093-1094. 71. Idem, nº 1104.

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Jorge as fazendas do Sargento-mor, do Capitão João Rodrigues Moderno, e de Francisco Correia do Tenente João Francisco da Silveira72; em Santana o Sargentomor José Joaquim de Moira e Silva, os capitães, Francisco Moniz Telles de Menezes, Manuel António Silveira73; em S. Vicente do Capitão-mor Filipe Joaquim Abreu, Capitão Gil Gomes74; no Seixal, o Capitão Filipe, o Capitão Roiz Pombo, o Alferes Marcos João; na Serra de Agua, os Capitães João de Freitas, António Joaquim Basto. O mesmo sucedia no Porto Santo com o Capitão Cristóvão Pereira de Vasconcellos, os Tenentes Domingos de Castro Drumond, José Sebastião da Silva, Justiniano José Lomelino e o Major João de Santana Vasconcellos. A partir da informação aduzida na documentação podemos estabelecer duas formas de dominação da propriedade vitícola: a vertente Sul dominando a área do Funchal, C. de Lobos, Campanário, Ponta do Sol, onde predominava o morgado; uma segunda a Norte, abrangendo S. Vicente, Seixal, S. Jorge, onde se afirma o contrato de colonia com a predominância do senhorio militar, isto é, os oficiais das ordenanças do distrito de S. Vicente. Dentro da primeira área temos Campanário75 como propriedade eclesiástica das confrarias da Sé, Mosteiro de Santa Clara, Religiosas da Encarnação. Os conventos assumiam uma posição de destaque. O de Santa Clara possuía, para além da quinta de Santo António, diversas terras foreiras em toda a ilha. No caso do Convento da Encarnação a área de vinho era menor, atingindo-se em anos de boa colheita, como o de 1763, as 5 pipas76. Um facto significativo da situação fundiária era a ausência quase total de proprietários estrangeiros, nomeadamente ingleses. A existência está atestada apenas na área circunvizinha do Funchal. Em S. Pedro temos Leonardo B. Gordon, Diogo Bringuel77; em S. Roque, Penfold; no Monte Henrique Briguel, Henry Temple78; em S. Martinho, Thomas Magrath79. Isto denota que, à partida, os estrangeiros não manifestavam interesse pela exploração da viticultura estando apenas empenhados no comércio80. 72. 73. 74. 75. 76. 77. 78. 79. 80.

Idem, nº 1120 Idem, nº.1125 Idem, nº 1166. Idem, nº 1104. Eduarda Maria de Sousa Gomes, O Convento da Encarnação do Funchal, Funchal, 1995. Idem, nº 1160. Idem, nº 1161. Idem, nº 1156. A partir de dados fornecidos em documentos oficiais fomos encontrar uma lista dos proprietários de vinhas na Madeira. A primeira lista conhecida data de 1803 [Idem, nº 1160.], nela se referindo - João de Carvalhal Esmeraldo, Nuno de Freitas da Silva, Luíz Alexandre Sauvayre Vasconcellos Drumond, Agostinho José de Ornellas herdeiros, Nicolau Tello de Menezes, herdeiros de Correia Jervis d’Atouguia, Henrique de Correia Vilhena herdeiros, Cristóvão Ornelas Telles de Menezes, Pedro Jorge Monteiro, João António de Gouveia Rego, Francisco José de Oliveira, Manuel de Sousa Tomás, José António Monteiro, João Joaquim Neto. Em 1824 [Idem, nº 1161. temos outra mais numerosa: João de Carvalhal Esmeraldo, Nuno de Freitas da Silva, Nuno de Freitas Lomelino, João Francisco de Florença Perera, João Agostinho Figueiroa Albuquerque de Freitas, Joaquim Francisco d’Oliveira, José Joaquim Esmeraldo, José Joaquim de Freitas Abreu, D. Ana Joaquina de Freitas, D. Joana Francisca de Ornelas, Filipe Joaquim Acciauoly Ferraz de Noronha, Luís Teixeira Doria, Pedro Anselmo Correia Olival, António de Carvalhal Esmeraldo, Luís Correia Acciauoly António Caetano de Freitas Aragäo, D. Gertrudes Magna de Menezes Leal, Chrystóväo Esmeraldo, José António Monteiro, Carlos Frederico Acciauoly, António José Spínola de Carvalhal Valdesso, José Caetano César de Freitas, João António Gouveia Rego, Caetano Velloza de Castelbranco, João Sauvayreda Câmara, Luís Alexandre Sauvayre, João Francisco d’Oliveira, Paulo Malheiro de Melo,. João Betencourt de Freitas, António de Freitas, António Leandro Escorsio de Menezes, Joaquim José de Faria Bettencourt, Francisco António Ribeiro Tojal, João de Freitas da Silva, Roque Caetano d’Araújo, Roberto Leal, António Valério, Ayres de Ornellas Sysneiros de Brito, Luís d’Ornellas e Vasconcelos, Pedro de Sant’Ana, Filipe Joaquim de Freitas e Abreu, Domingos João da Affonseca, Jayme de França Netto, Ayres Augusto d’Ornellas, Francisco José de Oliveira, José Cruz de Sá Cabral, Domingos José Ferro Garcez, Francisco João Betencourt, José Joaquim de Betencourt Araújo Esmeraldo, Manuel César de Freitas.

Balseira. Litografia de S. V. Harcourt, 1851. Casa Museu Frederico de Freitas


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O madeirense modela o rochedo E o vilão ataca e tritura a rocha para a transformar em solo agrícola; geme sob o peso de enormes pedras para construir um socalco; marinha pelas falésias para conquistar um palmo de terra, mesquinha gleba, pouco maior por vezes do que um ninho de águias alcandorando no pendor de uma fraga. Antes de ser agricultor, é cabouqueiro e arquitecto. Labuta de sol a sol e transforma o seu horto, a sua courela, num jardim. Onde a água corre, o agricultor heróico e operoso faz milagres; a levada empurra-o e ele empurra a levada. Novos poios se sobrepõem a outros poios, e assim esse trabalhador humilde, além de transportar sobre os ombros o peso da sua cruz, cons-trói nos degraus da montanha o seu próprio calvário. É a Madeira sobrepovoada que luta heroicamente para viver. Este vilão madeirense, de torso hercúleo, máscara rude e austera, personificação da paisagem, figura de painel quinhentista; o homem que cinzela montanhas, escala abismos e amansa torrentes, é uma figura estranha. Não se deixou vencer pelas seduções traiçoeiras do clima desta antessala dos trópicos que despertam em nós, lusíadas indolentes, sonhadores e sensuais, o horror ao esforço paciente e metódico. A meus olhos, o vilão é um português que teve a coragem de partir a guitarra, aquela guitarra que todos nós trazemos na alma e no coração a consolar-nos, com seus acordes de plangente fatalismo, dos desencantos e dos fracassos da vida. J. Vieira Natividade, Madeira-A Epopeia Rural, Funchal, 1953, pp. 39/40 Aguarela anónima. Séc. XIX, Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas

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Pintura de MaX Römer. Sala de Provas da Madeira Wine Company

A cultura da vinha Has de nela encontrar cepas viçosas Em partes do terreno transplantadas, já mostrando seus frutos pampinosas por mäos de natureza agricultadas: farás, que destas parras preciosas fiquem as terras brevemente inçadas, porque fação nos séculos vindouros o prazer das nações, os seus tesouros. Seja pois esta a planta mais querida de que tratem os íncolas primeiros; seja a terra de cepas revestida em vez de louros, cedros, e pinheiros: a cultura das parras seja a lide dos que forem alli teus companheiro, dizer-te nada mais me cumpre agora, na enseada que vês ó Zargo, ancora. Francisco Paula de Medina e Vasconcelos, Zargueida, Lisboa, 1806, canto IX, vº XXIII, XXIV

A área vitícola ocupava em 1865 cerca de 19% da terra arável distribuída pelas vertentes Norte e Sul. Os efeitos da filoxera sentiram-se de forma rápida. A área de vinhas no ano de 1883 não o nega. As estatísticas oficiais falam apenas 353ha, que passaram em 1885 para 769ha. Segundo O. Ribeiro81: Na encosta norte, a vinha desce até ao nível do mar, achando-se sempre os maiores vinhedos nas terras baixas do litoral. Ao Sul sobe até 400 metros, sendo cultivada em latada apenas até 400 metros. Nos anos quarenta a área vitícola ocupava 50% do solo cultivado no Sul, dominado por Câmara de lobos, Estreito, Campanário, e 30% no Norte com as freguesias de Seixal, Porto Moniz, Ponta Delgada, Arco de S. Jorge. O cultivo da vinha no século XX é descrito de forma sucinta por J. R. Gomes82: Nas terras menos alagadas, como é natural, são as que dão melhores vinhos. Nas propriedades mais bem cuidadas, o solo é aberto, até à profundidade de dois metros; o bacelo, plantado fundo, alonga-se pelo gavião a procurar a humidade do subsolo, única que lhe dissolve os elementos necessários à sua nutrição. Para que a vinha se não tente com a alimentação, fácil de Inverno, mas em profícua no Verão, das mais altas camadas do terreno, as raízes superiores, as “pasteleiras”, são cortadas, permitindo-se-lhe unicamente esse árduo trabalho de mineiro que é de garantir-lhe, por longos anos, o sustento e a produção dos seus saborosos e abundantes cachos de oiro. Só no fim de três anos é que o bacelo dá colheita apreciável. O seu tratamento não 81. RIBEIRO, Orlando, A Ilha da Madeira até Meados do Século XX. Estudo Geográfico, Lisboa, 1985 ( 1ª edição em 1949 com o título: L’ile de Madère. Étude Geographique) 82. O vinho da Madeira..., p. 6/7.

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é muito trabalhoso: dá-se-lhe uma cava em Janeiro, para arejar o terreno, metendo-selhe adubos, entre os quais o tremoceiro e a giesta que fornecem à planta grandes quantidades de azoto, ajudando a acção do ar. Essas cavas, ou “mantas”, permitem o empoçamento da água das chuvas e o seu escoamento profundo na direcção do pé. Duas enxofrações, uma “esfolha” depois da flor “vingada”, e outra, mais tarde, para melhor amadurecer o bago, é tudo quanto se concede de mais privativo à vinha. Indirectamente, recebe de outros benefícios que visam ao desenvolvimento de certas culturas hortícolas, que medram sob as latadas durante o tempo em que a ausência de folha permite à luz do sol chegar ao terreno agricultado. A actividade vitícola resumia-se até ao século XIX83, a estas actividades. A enxofração só surgiu após a doença do míldio. Durante séculos repetiu-se a rotação monótona das tarefas agrícolas marcadas pela cava com adubação, poda, esfolha, culminando o ciclo com as vindimas. A vinha não se planta sem uma grande profundidade na terra. Toda ela é cavada à força de braços, em muitos lugares os homens a cavão até exceder a sua própria altura, o que nunca se pode dispensar em salvo (sic) e em pedra mole aumentão, outro tanto à mesma altura, e se não fosse assim cortada a terra nada produziria a mesma vinha84. A tendência para o aproveitamento das terras de vinha no período de Setembro a Maio para o cultivo de produtos hortícolas, como semilhas, feijão, aboboreiras, é uma tradição que não se perdeu não obstante terem existido recomendações das autoridades contra isso como sucedeu em 1817 com a Junta de Melhoramento da Agricultura: Há igualmente por bem a mesma junta determinar a vossas mercês que fação proibir todas sementeiras que os lavradores costumão fazer por entre as vinhas, não lhes permitindo o fabrico delas por princípio algum nem a cultivação de batatas, abóboras, ou outra qualquer planta, que contribua para a destruição das mesmas vinhas, reduzindo este objecto85. Antes da filoxera a cultura fazia-se geralmente em cavalos da própria casta desenvolvendo-se de seu pé, pois raras vezes se procedia à enxertia. A partir da segunda metade do século XIX foi necessário recorrer a cavalos resistentes de herbemont, jacquez, riparia, para enxertar a casta desejada. A primeira indicação sobre a enxertia da vinha surge já em 1768. Segundo James Cook86 a mudança não foi fácil: São tão insignificantes os progressos que os habitantes teem feito nas artes agrícolas, que só muito recentemente conseguiram fazer em vinhedo produzir a mesma casta de uvas, por meio da enxertia das respectivas cepas (…) Foi à custa de imensas dificuldades que se conseguiu decidir os habitantes a enxertarem as suas vinhas; alguns

teem se recusado obstinadamente a adoptar essa pratica, não obstante o resultado das colheitas ter sido muitas vezes prejudicado por causa da grande quantidade de ramos que eles se negam a cortar, porque aumentam a quantidade do vinho (…). A situação é corroborada por outro estrangeiro em 1823 que refere a reprodução por meio da mergulhia, que antecedia o enxerto87. A videira depois de plantada só atingia o nível adequado de produção ao fim de três anos e passados quinze anos entrava na fase de decadência. Assim, quando consideramos as crises da viticultura, é necessário ter em conta a situação. O próprio P. P. da Câmara evidencia o curto período de vida da videira: Antes de 3 anos de cultivo, nada produz, a cepa; no quarto começa a vigorizar-se, e a dar anualmente abundantes e grandiosos cachos; nos 8 anos acha-se na sua completa maturidade, e logo depois entra na sua decrepidez, perde o vício e a robustez, carrega pouco de uva, e por fim, morre entre os 10 a 15 anos (...). O contrário, porém acontece na do norte, onde uma temperatura, mais fria, e um terreno húmido, abundante de águas e arvoredos, lhe conserva uma longevidade sempre viçosa, entrelaçada nos verdes ramos das árvores, produzindo quase quer sem trabalho, em muito mais abundância, põem no geral de inferior qualidade88. Henry Vizetelly, que visitou a ilha em 1877, percorrendo os vinhedos mais importantes da área circunvizinha do Funchal, apresenta-nos informações sobre o modo como se cultivava a vinha: Na Madeira a vinha propaga-se por mergulhias, que costumavam ser plantadas apenas a uma profundidade de vinte polegadas. Agora, no entanto, costuma-se coloca-las em valas com quatro pés ou mais de profundidade, de acordo com a qualidade do solo. No fundo da vala coloca-se uma camada de pedras soltas para evitar que as raízes penetrem no solo duro por baixo. Nos vinhedos de melhor qualidade, estas mergulhias são geralmente feitas com muita distância entre elas. As vinhas dão fruto no terceiro ano e são colocadas, na maioria dos casos, tanto em latadas, como em corredores…89. O texto para além de referir o modo de plantio da vinha dá conta do estado das latadas no último terceiro quartel do século XIX. Tal como hoje sucede, era comum o uso de latadas ou corredores, no Sul, como suporte das videiras, enquanto que no Norte se fazia em balseiras ou embarrados90. Dos 400 m para cima temos a vinha

83. Em diversos textos é referida a forma como se cultiva a vinha. Cf. João de Andrade Corvo, A Mangra ou Doença das Vinhas, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 285-286; T. E. Bowdich, Excursions in Madeira and Porto Santo, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 346; J. L Thudichum e a. Dupré, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, London, 1872, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 371; H. Vizetelly, Facts About Port and Madeira, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 386; J. Jonhson, Madeira its Climate and Scenery, London, 1885, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 408. 84. ARM, RGCMF, t. 14, fols. 131vº-134vº. 85. ARM, RGCMF, t. 14, fols. 106-106vº 86. “Relação da Viagem Feita à Volta do Mundo…”, Heraldo da Madeira, nº.463, de 9 de Março de 1906.

87. T. E. Bowdich, Excursions in Madeira…, London, 1850, p.347, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 337 88. Breve Notícia sobre a ilha da Madeira, pp. 68/9; a opiniäo de que as cepas apenas duram 15 anos é dada por Eduardo Grande, ibidem, p. 77. ... a circunstância de serem os bacelos plantados muito perto uns dos outros, e o género de poda a que a videira é submetida no paíz, determinam o definhamento precoz desta planta e a sua curta vida. Segundo o Governador Correia de Sá, em 1799 as vinhas necessitavam de 5/6 anos para frutificar; vide AHU, Madeira e Porto Santo, nº 174. 89. Publicado por Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.386 90. F. Augusto da Silva, Elucidário Madeirense, vol. I, p. 113. Sobre a cultura da vinha na ilha temos o testemunho de Eduardo Grande, Agrónomo adido ao Governo Civil do Distrito do Funchal em 1865: A cultura da vinha faz-se no Districto de duas formas differentes; em balseiras, ou embarrados, na região do norte; e em latadas e corredores na parte do sul. Nos embarrados a videira sustenta-se e enlata-se sobre árvores dispostas para esse fim: neste systema a produção abundante, mas pouco qualificada, porque as uvas raras vezes chegam a uma completa maturação, já porque não recebem a reverberação dos raios caloríficos, já porque as arvores não são podadas convenientemente. As árvores que no Districto se encontram associadas videira são o castanheiro, o carvalho, a faia e o louro. (Relatório Sociedade Agrícola do Funchal.)

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de pé e embarrados. A primeira referência às latadas surge 146191 em que o infante D. Fernando ordenava a manutenção do dízimo da madeira delgada que se põem nas latadas e vinhas e tapaduras92. A segunda aparece em 1492 quando se refere a necessidade de restauro do caminho de S. Francisco que o tabelião Afonso Lopes tinha um lugar de vinha e latada e casas de morada... para a quall hé muyto necessario trazer madeyra para repairo da dita latada...93. A forma de cultivo da vinha acarretava elevados encargos. Em 1815 em representação ao monarca no Brasil refere-se os custosos trabalhos com as vinhas: Exige ela outro trabalho muito arriscado, que é a condução das madeiras para latadas, e corredores quase todas elas cortadas, em três ou quatro légoas de distância dos lugares cultivados, e pelo meio da escarpa das rochas, onde a maior parte dos homens vão cortá-las amarrados com cordas94. Numa representação da Câmara (1811) aparecem as latadas e corredores como meio de segurar as vinhas dando-se conta do elevado custo do sistema, pois precisava da constante renovação das madeiras: Estas vinhas são surpreendidas sobre latadas, e corredores, formados de canas sobre estacas de madeira, e tudo entre si ligado por atas de vimes, tudo exposto ao rigor das estações, e portanto é curta a sua duração, e precisão de ser renovadas todos os anos as porções danificadas, o que induz o colono a mais uma anual despeza. As mesmas vinhas cuja duração é de poucos anos precisão ser substituídas por novas plantações, que também são de mais uma despeza anual95. O espectáculo das latadas madeirenses, verdadeira obra-prima do colono madeirense mereceu o elogio de Francisco Travassos Valdez: Usam-se muito na Madeira, latadas ou parreiras armadas, trepando as vides pelas canas, e cobrindo varandas, janelas e portadas, à maneira de toldo ou docel, formando em algumas partes bonitos arcos, aberturas ou espécie de janelas entre cada uma das pilastras que sustentam aquela vistosa cobertura de pâmpanos e cachos de uvas96. Quanto à vinha de pé temos algumas referências. Em informação da Câmara do Funchal ao Governador acerca da fome e meios para a debelar, alertava-se para os perigos do corte de árvores: Enfim as vinhas se plantão por entre pedras das rochas aonde não podem haver sementeiras e por causa destas cortando-se os arvoredos se virão a secar as águas, e em consequência a extinguir as vinhas97. As balseiras são referenciadas pela primeira vez em 1759 em ofício do Governador José Correia de Sá sobre a necessidade de promover a cultura: E porque não convém que haja só vinhos para as carregações aos estrangeiros, mas também para os gastos da terra para o Brasil se deste também cuidar na cultura das vinhas que podem servir a este intento o qual se pode facilmente obter plantandose as costas das ribeiras, e partes mais frias de árvores com vinha a que chamão bal91. 92. 93. 94. 95. 96. 97.

ARM, RGCMF, t. 1, fols. 202-209. Idem, t. 1, fol. 203vº. Idem, t. 1, fols. 173vº-174vº. Idem, t. 14, fols. 131vº-134. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3007. África Ocidental, Lisboa, 1864, p.54. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 173.

Balseira..Desenho de Litografia de Susan Vernon Harcourt, Sketches in Madeira, Londres, 1851. Casa Museu Frederico de Freitas


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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seiras, a que também se deve aumentar o preço a juízo prudente, atende-se a que estas vinhas dão novidade mais tarde. E para que ambição não faça esta cultura inútil plantando árvores, porque umas crescem mais do que outras e fazendo branhas nada darão98. Em 1851 O Agricultor Madeirense dava conta da crise vitícola no Norte e da degradação que havia atingido as videiras em razão do abandono votado pelos senhorios e a morte das balseiras: O certo é que o estado da cultura é assustador; as árvores que sustentam a vinha estão secas, e se por mais de dois anos se lhe conserva a parreira encostada, também esta morre, é preciso mergulhar as vinhas, cortar as árvores e matos gastachos99. Numa sentença de 1853 sobre uma demanda entre um senhorio e um colono, em que o primeiro pretende cortar dezoito pessegueiros, um damasqueiro, quatro figueiras, quatro enxertos de ameixoeira, dois laranjeiras é referido que todas ou quase todas essas árvores, estão sustentando parreiras, as quais correm o risco de se perderem cortadas as árvores, com o que o colono sofreria grave prejuízo100. O uso das árvores como suporte das vinhas é uma das características da cultura da vinha no Minho e a presença na Madeira tem a ver com a participação minhota no povoamento do arquipélago. Hoje a tradição desapareceu da Madeira mas ainda persiste no Minho101. Eduardo Grande em relatório sobre a vinha no momento imediato à crise do oídio dá conta do modo de suporte das parreiras no norte com balseiras e embarrados - usando-se para isso o castanheiro, a faia, o carvalho, o loureiro, enquanto no sul se utilizava as latadas e embarrados. No norte se cultivavam desse modo os bacelos de verdelho, sercial, tinta, que produziam abundantes uvas mas de pouca qualidade, devido à falta de maturação em razão da folhagem das árvores de suporte. Por isso aconselha o uso de bacelos isabella, que depois serão enxertados com as ditas castas, ao mesmo tempo que salienta a necessidade de escolha de árvores de suporte com poucas folhagens, como o carvalho, castanheiro e freixo, da disposição espaçada das árvores, e assídua poda das mesmas de modo a que os raios solares atinjam as uvas; isto para que as uvas sejão mais gradas e o vinho de melhor qualidade102. No Porto Santo, mercê das condições geológicas e climatéricas, o terreno dedicado à vinha reduz-se à área do litoral, nomeadamente na vila Baleira, numa área que se estende da Calheta ao Espírito Santo103. Aqui sempre dominou a vinha de pé. O momento de afirmação da cultura da vinha aconteceu na segunda metade do século XVI, de modo especial as três últimas décadas. O mercado do vinho adquiriu importância quando os canaviais deixaram de ser rentáveis. São inúmeros os re-

gistos que confirmam a mudança de culturas. Em 1571104 Jorge Vaz de Câmara de Lobos decidiu plantar o chão das laranjeiras de malvasia para dar mais proveito. Já em 1587105 a terra de João Gonçalves em Santo António, que havia sido de vinha, estava com canavial de soca de um ano. Na verdade, a união ibérica alterou a geografia do mercado açucareiro e a Madeira viu de novo a possibilidade de exportar açúcar. Mas, nem sempre foi assim, pois, em plena euforia de cultura açucareira no século XVII, Rafael Catanho Vivaldo de Ponta de Sol lastimava a sorte porque as terras eram de canas he as ditas canas se não quiseram dar106 daí que prantei has ditas terras de vinha he fiz nellas três laguares. Outro factor que condicionou a substituição de culturas prende-se com as pragas. Nos inícios do século XVII o bicho atacou a cana tornando impraticável a cultura. Martim Afonso reclamava em 1612107 da sua sorte uma vez que a fazenda não era de grande proveito. O vinho em pouco tempo tornava-se em vinagre e as canas estavam atacadas pelo bicho, por isso não entendem o que poderão vir a dar mas também que já andarão de canas e por o bicho dar nelas as deixarão estar devolutas e as plantaram de vinha há poucos anos por não darem canas por o bicho tudo levar a eito108 . Já para Manuel da Gram109 os dois serrados eram quase improdutivos pelos ares e maldade da própria serra, a alforra e a falta de água, não dando para as despesas da capela a que estavam vinculados. O agricultor madeirense foi tomando consciência da nova realidade e a vinha acabou por assumir a importância desejada na agricultura e economia da ilha. Rapidamente as terras foreiras passaram a estar ocupadas de vinhas, como foi o caso das pertencentes ao Convento de Santa Clara.

98. Idem, nº 174. 99. Nº 7, p. 116. 100.Setenças dum Juiz de Direito, Lisboa, 1860, p. 40. 101. Confronte-se J. Leite de Vasconcelos, Opúsculos, vol. VII, Lisboa, 1933, p.129; idem, Estudos de Filologia Portuguesa, Rio de Janeiro, 1961, p.8 102. Eduardo Grande, ibidem, pp. 74/6 in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.305-306 103. C. A. Menezes, “A Vegetaçäo e Clima do Porto Santo”, in Portugal Agrícola, 1908, nº 6, pp. 81/4.

Terras de Vinha Foreiras do Convento De Santa Clara - 1644 Nome Local Foro em réis Gaspar Costa ..................................................................................1 400 Francisco Noronha Henriques.......................................................2 500 Roberto Vilovit ...............................................................................1 650 Pero Catanho ................................................................................3 500 Baltasar Gonçalves .......................................................................5 000 Afonso Aires .................................................................................1 700 João Escórcio Vasconcelos ...........................................................2 000 Rafael Estêvão Florença ..............................Calheta ......................3 000 António Correia .........................................Funchal .....................1 000 Cristóvão Moniz ...........................................................................3 800 António Gonçalves .......................................................................3 800 —-Carvalho Valdavesso .................................................................1 200 Domingos De Andrade ................................................................2 000 Lourenço Matos Coutinho .........................Funchal ...................30 000 Domingos Vieira Coelho ...........................S. Gonçalo ...............3 000 104. JRC., fl. 499vº-500vº, testamento de 30 de Maio de 1571. 105. Misericórdia do Funchal, L1 711, fls. 141vº-142vº, trespasse de 20 Dezembro. 106. JRC, 427-429vº, 30 de Junho de 1608. 107. ARM, JRC, fls. 254-258, testamento de 3 de Fevereiro. 108. JRC, fls. 254-258vº, 3 de Fevereiro de 1612. 109. RC, fl. 155-175vº, 31 de Maio de 1616.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Apolónia de Sousa .....................................Caniço.......................1 200 Manuel Vieira Toscano ...................................................................700 João Ornelas Abreu .....................................................................1 100 Manuel Gonçalves Brandão ........................R0 Brava ...................1 400 Isabel Atouguia ............................................R0 Brava ..................1 000 Manuel da Silva ..........................................C. Lobos ...................2 000 António Gonçalves .......................................................................3 000 Heitor Nunes Berenguer ............................Calheta .....................5 000 Baltasar Sequeira ........................................Sto. António.....................? Diogo de Ornelas .........................................................................1 000 Domingos Rodriguez ...................................................................3 000 Jerónimo Teixeira .......................................Gaula............................300 Pedro Gonçalvez Sidrão ...............................................................1 000

e lagar, a troco de metade do mosto saído à bica do lagar. O senhor limitava-se a assistir à vindima, à partilha do mosto e, em muitos dos casos, nem sequer estava presente nem se fazia representar pelo feitor, ficando o colono com o encargo de o conduzir às lojas do centro da freguesia ou no Funchal. Quase todos os colonos apresentam-se com lagar, construído de acordo com as possibilidades económicas. Assim, temos as lagariças de pedra, o cocho, o lagar de pedra e fuso. Os lagares e a casa implicavam, para a maioria, um avultado investimento. Todo o investimento necessário à cultura de vinha era quase sempre da responsabilidade do colono. Era ele que atribuía a mais-valia ao terreno para que as culturas medrassem. Daqui resultava a situação de duplo favorecimento do proprietário, que retirava rendimento sem qualquer investimento e vinculava o colono à propriedade através de um contrato regido pelo direito consuetudinário. O sucesso da instituição, conhecida como contrato de colonia, deverá estar precisamente na teia de relações e interdependências que estabeleceu. O investimento inicial assumido pelo colono em terras de senhorio era elevado podendo ultrapassar quinhentos mil réis, distribuídos entre as paredes de retenção de terras, as parreiras, a latada e corredor de canas e vimes e o lagar com casa ou palheiro. O valor mais elevado incidia no levantamento de paredes e parreiras. No Norte da ilha uma das características das latadas era a necessidade de construir sebes ou bardos para proteger as vinhas do vento e da ressalga. Para isso usa-se a urze, tal como se pode verificar no litoral entre o Seixal e a Ribeira da Janela. A casa e o lagar só adquiririam outro valor quando eram em simultâneo morada do colono e portanto de construção mais cuidada, podendo ficar por apenas $800 réis, como foi o caso do lagar de Manuel Gonçalves em Campanário, ou ultrapassar os trezentos mil réis, como sucedeu com a casa e lagar que Domingos da Silva Pinto havia construído na fazenda de Francisco Figueira no Estreito de Câmara de Lobos. Estámos perante um lagar de grandes dimensões, tendo em conta os custos de trabalho com o pedreiro e carpinteiro. O valor assinalado para as parreiras plantadas era de 372.580 réis112. Na avaliação do lagar tenha-se em conta a capacidade, forma de construção, disponibilidade de apetrechos e a cobertura que o protegia. A presença de utensílios, como a tina e funil. A dificuldade em encontrar referências ao vasilhame, poderá ser indício de que o mosto seguia directamente para o Funchal. Em 1664 Manuel Moniz apresentou no inventário da fazenda na Ribeira Seca cinco tonéis, avaliados em 5.000 réis. Já em 1752 Romão Figueira declara apenas dois barris no valor de 1.000 réis113. O maior investimento do viticultor/colono estava no arranjo das terras, no plantio, enxertia e cuidados com a vinha. Temos informação sobre os preços dos bacelos e enxertos. Em 1692 os bacelos eram avaliados em 6 réis cada, situação que se manteve em 1742, uma vez que um milheiro equivalia a 6.000 réis114. Os enxertos são a 50 réis por pé115.

Fonte: ANTT, Convento de Santa Clara, nº 18.

Os conventos do Funchal, nomeadamente de Santa Clara e Encarnação, eram detentores de bens fundiários em toda a ilha. No caso do da Encarnação o número de foros em vinho é mais reduzido quando comparado com os demais produtos ou com o de Santa Clara110. Os dotes das noviças, as doações particulares alimentaram ao longo dos anos o património. Os dados evidenciam a realidade e um documento que faz a relação das adegas do convento torna-a evidente. Assim em 1667111 o convento de Santa Clara tinha adega em Santo António, Câmara de Lobos, Estreito, Campanário, Ribeira Brava e S. Vicente com um total de 104 tonéis. Adegas Do Convento De Santa Clara Ao Longo Da Costa local C. Lobos Lugar Baixo Santa Cruz Rª Brava Porto Novo

1688 1691 1692 1708 1750 1752 1753 1754 1755 1757 1763 4 1 8 1

2

3

4 2

3

1 1

1

A partir do levantamento dos testamentos dos séculos XVII e XVIII disponíveis no Arquivo Regional da Madeira é possível saber qual o investimento indispensável para a cultura da vinha e sistema fundiário. Na Madeira é necessário distinguir um sistema de dupla propriedade, conhecido como contrato de colonia. Com a cultura da vinha expressava-se da seguinte forma. O proprietário pleno detinha apenas o espaço enquanto o colono era o dono das benfeitorias necessárias ao aparecimento dos vinhedos, isto é, paredes, pés de vinha, latadas, loja e lagar. É possível saber-se qual o valor das benfeitorias que aparecem nos inventários para a posse dos legítimos herdeiros. O colono recebia muitas vezes a terra e ficava com o encargo de erguer paredes, plantar videiras, construir latadas 110. A Restauração e o Convento de Santa Clara, Funchal, 1940, pp. 45-47; Maria Eduarda Gomes, O Convento da Encarnação do Funchal, Funchal, 1995. 111. ANTT, Santa Clara, maço 2, 10 de Maio de 1667.

112. ARM, 113. ARM, 114. ARM, 115. ARM,

Capelas, Inventário, cx. 19, nº 459, 11 Dezembro 1742. Capelas, cx. 36, nº 952, cx. 20, nº 516. Capelas, cx. 7, nº 159; cx. 17, nº 398. Capelas, cx. 30 nº 398.

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Data 1692 1700 1728 1730 1731 1732 1732 1733 1735 1736 1736 1736 1736 1738 1738 1739 1739 1740 1741 1742 1742 1743 1744 1745 1746 1746 1746 1747 1748 1748 1748 1748 1748 1750 1752 1753 1762 1782

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CUSTO DAS VIDEIRAS.1692-1782

que para 24.232 parreiras viu-se obrigada a investir 45.000 réis na construção de latadas a que se somam mais 65.000 réis de paredes117. A última despesa dependia do local onde estava o terreno. O valor mais elevado resultava do trabalho de preparação do terreno para o plantio dos bacelos com a construção de paredes.

Vinha 350 bacelos 1300 parreira 2 milheiros e 842 parreiras 2604parreiras 15 milheiros Campanário 6636 parreiras Tábua 6650 C. Lobos 3800 parreiras R. Brava 2854 parreiras Tábua 2537 parreiras Curujeira 7933 parreiras 4500 parreiras 12.500 parreiras Santo António 13.085 parreiras Campanário 8.300 Será de Água 6400 milheiros e 40 parreiras 15.400 S. Martinho 9.620 Estreito de C. Lobos 4800 Campanário 5 milheiros E. de C. de Lobos 20140 parreiras 1840 Tábua 2348 parreiras S. Martinho 26700 parreiras S. Martinho 21320 parreiras Campanário 7510 Campanário 13.400 Campanário 14.270 Campanário 4586 Tábua 3 milheiros Tábua 8000 Campanário 24222 S. Martinho 43.600 Campanário 12 enxertos 9180 parreiras Campanário 6.010 21.800 Campanário Enxertos Tábua 620 parreiras S. Roque 1360 parreiras FONTE: ARM, Capelas-inventário, maços:1 a 42

Valor Unitário 6

50rs

Total 2100 16500 14210 13020 75.000 33180 25315 19000 9.270 12575 39.665 22.500 62.000 56.000 41.500 2050 7.700 51.100 22.800 25000 77.300 2.250 11.746 119.250 70.800 20.255 67.000 71.350 22.680 15.000 7000 31.080 172.000 600 24.000 22.000 60.000 600 13.100 36.200

A extensão de vinhedos pode ser deduzida a partir do número de milheiros de parreiras dadas a inventário. Em 1748 Antónia de Freitas, casada com João Rodrigues, tinha em S. Martinho terras de benfeitorias do capitão Francisco da Cunha com 43.600 parreiras. Estámos perante um dos maiores investimentos alguma vez assumido por um colono. O colono era ainda onerado com a obrigação de outro conjunto de benfeitorias, imprescindíveis à laboração da faina vitivinícola. A construção de paredes, o plantio das videiras, o erguer latadas e construir lagares estão incluídos no primeiro investimento do colono. A despesa em latada é reduzida, o que deverá ser prova do uso da vinha de pé116. Diferente era, todavia, o caso de Maria Pereira no Campanário 116.ARM, Capelas, cx. 36, n1 968. 117.ARM, Capelas, cx. 27, n1 736.

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INVESTIMENTOS DOS COLONOS NAS VINHAS.1692-1782 Data

Local

Colono/Proprietário

1692 Robert Vilovid 1700 António Gomes 1728 Tábua Manuel de Abreu 1730 S. Martinho José gomes Jardim 1731 Campanário Manuel Fernandes 1732 Tábua Manuel Nunes 1732 C. de Lobos Pedro da Cruz 1733 Ribeira Brava José Gonçalves 1735 Tábua Manuel Pereira 1736 José Ferreira Mesquita 1736 Manuel Pires 1736 Santo António Maria Fernandes 1738 Campanário Catarina Abreu 1738 Serra de Água Bernardo Gouveia 1739 Maria Rosa 1739 S. Martinho Mariana de Freitas 1741 Campanário Manuel Fernandes 1742 Estreito Domingos da Silva Pinto 1742 Pedro Gonçalves 1742 E. C. de Lobos João Lopes Dantas 1742 Domingas Ascensão 1743 Tábua Maria Gomes 1744 S. Martinho António Figueira 1745 S. Martinho Maria Gomes 1746 Campanário António Rodrigues 1746 Campanário Joana Duarte 1746 Campanário Madalena Gonçalves 1747 S. Martinho Martinho de Freitas 1747 Campanário Pedro Rodriguez Silveira 1748 Tábua Manuel Rodriguez Serra 1748 Tábua 1748 Campanário Manuel Rodriguez 1748 S. Martinho Antónia Freitas 1748 Campanário Maria de Ascensão 1750 Campanário Maria Mendes 1752 Romão Figueira 1753 Campanário Francisco Rodrigues 1762 Tábua Leandro de Brito Oliveira 1782 S. Roque Josefa Maria FONTE: ARM, Capelas-inventário, maços: 1 a 42

Vinhas 10.900 16.500 27.230 75.000 33.180 25.315 19.000 27.270 26.975 39.665 62.500 86.528 41.500 41.200 15.400 51.100 25.000 373.070 326.370 127.300 8.250 40.246 119.250 30.000 20.255 67.000 71.350 15.000 22.680 15.000 7.000 31.680 172.000 24.600 40.050 60.000 45.600 13.100 36.200

Latadas

Lagar

27.000 7.000

2.000 4.000 3.500 3.000 1.500 2.600 1.000 3.200 9.500 9.000 8.500 4.000 3.000 500 5.000 800 305.700 9000 10.000 22.00 186.500 40.000 6.500 4000

1840 4.000 30.600 10.000 43.000 12.000 7.000 4.000

16.000 850 17.900 3.000 12.000 10.500 33.000

10.000

15.000 5.000 12.000 12.000 2.5000 5650 9.000 10.000 4.000

15.000 42.000

3.000 2.000 4.000

45.000 10.000

Paredes TOTAL 19.000 64.500 61.600 68200 2710 5.500 62270 82.200 99.000 125.000 14.500 110.500 10.500 200.000 116.000 120.000

140.100 400 186.500 35.650 74.500 68.000 9.000 135.000

65.000 65.000 166.000 160.000 63.000 197.250 115.000 235.000

29.900 110.000 38.230 14.100 104.380 31.365 31.100 90.540 142.975 158.165 196.500 152.528 156.000 66.700 215.900 179.100 149.800 678.770 335.370 293.400 31.500 431.146 197.900 123.000 102.755 76.000 254.350 20.000 34.680 27.000 74.500 147.330 357.000 36.400 214.050 123.000 245.850 145.100 317.200


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Cuidados com a vinha. Painel de Max Römer. Sala de Provas da Madeira Wine Company

A maior parte dos investimentos na cultura da vinha tiveram lugar a partir dos séculos XVII ou XVIII, revelando que ainda existiam terras por aproveitar que se procuravam conquistar. A afirmação da vinha foi, assim, resultado da usurpação do terreno ocupado pelos canaviais abandonados e, acima de tudo, pela conquista dos baldios situados em zonas com condições apropriadas à cultura. Acresce, ainda, o facto de os dados disponíveis revelerem uma aposta preferencial a partir da segunda metade do século XVII. Era a vinha que valorizava o espaço agrícola pelo que todas as tarefas e benfeitorias que conduzissem à sua afirmação eram valorizadas pelo que não é estranho as referências em inventários à vinha e benfeitorias correlativas. Poucos são os elementos, como vimos, que nos dão a imagem aproximada do incremento da cultura da vinha ao longo dos séculos XVIII/XIX e mesmo em período antecedente. Os dados disponíveis são avulsos e outros mais seriam necessários para se formar uma ideia do incentivo à cultura. Apenas temos à mão o regimento de 1774 para o Porto Santo e as instruções do Corregedor e Desembargador António Rodrigues Veloso de Oliveira em 1782 que refere a necessidade de diversificação das culturas de forma a evitar o sistema de monocultura da vinha e, por consequência, a dependência dos mercados externos. Em finais do século XVIII a tendência dominante era para a monocultura da vinha. O regimento de agricultura de 1774 dá conta das medidas de incentivo da policultura, como solução para mais

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

uma crise de seca e fome. Ao mesmo tempo tentava-se acabar com o abandono e alheamento dos proprietários com a extinção do contrato da colonia118. No regimento ordenava-se a protecção à cultura: Nas terras incapazes de produzir trigo, centeio, ou cevada se deverão plantar vinhas, para que, assim vivão independentes os moradores desta ilha dos vinhos da Madeira, por ter sido esta falta, o quarto modo por onde se lhes introduziu, o princípio de sua ruína119. Daqui resultou que o plantio de vinhas não foi esquecido e no ano de 1784 temos referência ao envio de bacelos da Madeira. O Sargento-Mor da ilha, ao mesmo tempo Inspector de Agricultura, Pedro Telles de Menezes, apossuiu-se delas plantando-as nas suas terras em detrimento de outras mais apropriadas. A Junta solicitou ao vigário local informação sobre o mesmo com a mais cautela e segredo possível120. Segundo A. R. Azevedo121 , apenas, o período da administração pombalina não foi marcado pelo proteccionismo à vinha, uma vez que se promoveu uma diversificação de culturas122. A intenção de arborizar das serras escarpadas e o recurso a novas culturas foi vencida pela febre vitícola pois, como salientam as instruções de 1792, a vinha era a dominante e aquela a que o povo se entregava com mais cuidado. Nos documentos consultados não encontramos dados concludentes quanto à afirmação de A. R. Azevedo. Tudo indica que o mesmo excedeu a confiança que seria de depositar nos diplomas que refere. Aliás, no próprio texto encontramos afirmações que o contradizem. Com o Governador José António Sá Pereira lançou-se mãos da diversificação de culturas. O facto foi repetido em 1782, mas nunca foi possível destronar a predominância da cultura da vinha que, com o aproximar do fim do século XIX, o vinho se tornou cada vez mais solicitado pelos mercados externos e, por isso, mais rentável. A mudança aconteceu na segunda metade do século XIX com o avolumar da crise vitícola que tem origem nas diculdades da produção, fruto de factores patológico-botânico (oídio em 1852, filoxera em 1872, míldio em 1912). Os agricultores madeirenses foram obrigados a aceitar a substituição da vinha por outras culturas. Sucedeu assim com a cana sacarina e diversas experiências como novas culturas como o tabaco, chá e bichoda-seda. A vinha não ficou no esquecimento do colono e a necessidade da água-pé para as festanças de Natal e as longas noites de Inverno levou-o a procurar outra forma de cultura sob cautela do bicho com o ensaio de bacelos americanos resistentes. Uma nova fase relançou a cultura da vinha da ilha. As actividades da Comissão Anti-filoxérica (1882/1883)123 e da Comissão de Auxílio à Agricultura [1888/1890]124 evidenciam a aposta na reconversão agrícola da região no período de crise. 118.ANTT, PJRFF, nº 976, fols. 111/119 119.Idem, nº 960, fols. 64/65. 120.Ibidem, p. 718. 121.Ibidem, vide pp. 710/718. 122.Dois documentos evidenciam esta preocupação do Governo: As instruções de 27 de Outubro de 1781 (Alberto Vieira, História do vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.p.22), Informação do corregedor Pedro António Faria de 16 de Maio de 1783[ibidem, pp.25-27), instruções para o Inspsector da Agricultura no Porto Santo de 1 de Junho de 1783(ibidem, pp.28-30) 123.ARM, GC, nº 85. 124.ARM, GC, nº 150.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Vinhas. Campo Experimental do Estreito da Calheta. Colecção do autor. 2002

Cuidados com a vinha. Gravura de Max Romer. Sala de Provas da Madeira Wine Company

Cultura da Vinha A cultura e plantação das vinhas são, na Madeira, feita com bastante cuidado e perfeição, o que infelizmente não sucede às outras plantas úteis. Contudo os processos adoptados nessa cultura não são talvez os mais convenientes, como vamos ver. A plantação faz-se em valas de profundidade de quatro a seis pés, nos quais se lançam pedras soltas para o escoamento das águas, e boa terra com uma camada de mato. - Os bacelos são tirados de alguma das variedades mais vigorosas das vinhas, e depois são convenientemente enxertados. Uma plantação de mil bacelos importa, termo médio, cinquenta mil reis, segundo noticia dada por cultivadores inteligentes. De ordinário as vinhas são pouco estrumadas com estrumes animais, porque se julga, com razão, que estes têm perniciosa influência sobre as qualidades das uvas. As vinhas começam a produzir frutos, aproveitáveis para a fabricação do vinho, três ou quatro anos depois da sua plantação, e então elas são todos os anos sujeitas a variadas operações, que favorecem a sua produtividade em frutos, à custa de certo da sua duração. Qual seja a época mais conveniente da poda não é ponto em que haja perfeito acordo entre os lavradores; uns preferem o mês de Fevereiro, outros o de Março, e alguns hoje supõem ser a melhor poda a que se pratica em Janeiro. O processo geralmente adoptado na prática desta operação tende a dar de ano para ano um maior desenvolvimento às videiras, e consequentemente a enfraquecê-las, e a torna-las mui sujeitas a doenças que as destroem; este processo de poda comprida é, principalmente no sul da Ilha, seguido nas latadas e corredores, e o seu resultado estarem ao cabo de quinze anos de existência, e ainda menos, estas vinhas em muito grande decadência. A preferência, contudo, a dar à poda curta ou à poda comprida não depende do capricho do viticultor; a cada variedade de vinha compete um modo especial de poda, e não seguir esta operação as indicações da experiência é, ou sacrificar a produção da vinha, ou sacrificar as cepas. Há plantas que dão frutos logo nas gemas ou borbulhas mais inferiores, a estas compete a poda curta; outras variedades de vinha há que só frutificam nos ramos que têm grande desenvolvimento, nestas deve empregar-se a poda comprida. E neste último caso

estão as variedades preciosas cultivadas ao sul da Madeira; o que contudo, não deva talvez justificar o hábito, em que estão os cultivadores, de dar um extraordinário desenvolvimento às videiras cultivadas em latadas e corredores. Todos os Enólogos confessam que, na cultura da vinha, é a poda a operação mais difícil; e só a experiência pode decidir, qual o modo de a praticar nas diferentes variedades de vinha. Contudo certo que na Madeira muitos proprietários se queixam de que os rendeiros, pelo modo por que podam as vinhas, as obrigam a produzir mais num ou dois anos, enfraquecendo-as assim e arruinando-as. Uma outra operação cara e delicada de que as vinhas carecem no sul é a encana, isto é, o arranjo e concerto das latadas e parreirais, e a disposição das varas sobre estes; é uma operação correspondente à empa, mas imperfeita em relação às necessidades da planta. A cava das vinhas novas, de um, dois, ou três anos, faz-se em Janeiro; as outras cavam-se no mês de Março ou nos princípios de Abril, havendo cuidado de escolher dias em que não haja nortes ásperos, porque estes prejudicam as raízes, ofendidas pela enxada, que ficam a descoberto depois da cava. Quando, semanas depois da poda, as vinhas tem já brotado, e os pequenos cachos, com bagos tendo apenas o diâmetro de dois a três milímetros, (ao que chamam na Madeira cachos em munição), se acham assombrados pelas parras, procede-se ao arrancamento das folhas amarelas, e das que fazem maior sombra aos cachos; tendo contudo cuidado que estes não fiquem inteiramente descobertos, e expostos aos ardores do sol. Mais tarde esta operação da desfolha torna a repetir-se, quando as uvas estão para luzir, isto é para entrarem em maturação; por este modo se facilita o progressivo amadurecimento das uvas, e se vão tirando das vinhas folhas que servem para dar ao gado. CORVO, João Andrade, Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto Santo: Memória I Memória sobre a Mangra ou Doença das Vinhas nas Ilhas, apresentada à Academia de Ciências na sessão de 3 de Fevereiro de 1854


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Balseiras. Gravura do século XIX. Colecção de Gravuras da Casa Museu Frederico de Freitas. Vinhas. Campo experimental do E. da Calheta. Colecção do autor. 2002

Balseiras

Cultura da vinha

A cultura da vinha faz-se no Districto de duas formas differentes; em balseiras, ou embarrados, na região do norte; e em latadas e corredores na parte do sul. Nos embarrados a videira sustenta-se e enlata-se sobre árvores dispostas para esse fim: neste systema a producção abundante, mas pouco qualificada, porque as uvas raras vezes chegam a uma completa maturação, já porque não recebem a reverberação dos raios caloríficos, já porque as arvores não são podadas convenientemente. As árvores que no Districto se encontram associadas videira são o castanheiro, o carvalho, a faia e o louro.

As terras menos alagadas, como é natural, são as que dão melhores vinhos. Nas propriedades mais bem cuidadas, o solo é aberto até à profundidade de dois metros; o bacelo, plantado fundo, alonga-se pelo gavião a procurar a humidade do subsolo, única que lhe dissolve os elementos necessários à sua nutrição. Para que a vinha se não tente com a alimentação fácil de Inverno, mas improfícua no Verão, das mais altas camadas de terreno, as raízes superiores são cortadas permitindo-se-lhe unicamente esse árduo trabalho de mineiro que há-de garantir-lhe, por longos anos, o sustento e a produção dos seus saborosos e abundantes cachos de ouro. Só no fim de três anos é que o bacelo da colheita apreciável. O seu tratamento não é muito trabalhoso: dá-lhe uma cava em Janeiro para arejar a terra, metendo-se-lhe o empoçamento da água das chuvas e o seu escoamento profundo na direcção do pé. Duas enxofrações, uma esfolha depois da flor vingada, e outra mais tarde para amadurecer o bago, é tudo quanto se concede de mais privativo à vinha. Indirectamente recebe ela outros benefícios que visam ao desenvolvimento de certas culturas hortícolas, medrando sob as latadas durante o tempo em que a ausência da folha permite a luz do sol chegar ao terreno agricultado.

GRANDE, Eduardo Dias, Relatório Agrícola do Funchal, Funchal, 1865

Quinto Centenário do Descobrimento da Madeira, Funchal, 1922, pp. 41/2


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Casa e latada. Gravura do século XIX. Colecção de Gravuras da Casa Museu Frederico de Freitas.

Latada. Museu de Photographia Vicentes, Colecção Perestrelos.

Cultura da vinha

Cultura da vinha

Modo de Cultivo - As vinhas são amarradas a latadas de madeira ou canas que variam em altura entre 3 e 6 pés. Por vezes, as canas são colocadas em arcos, de modo que as uvas amadurecem na sombra dos caminhos cobertos. Na parte norte da ilha, as vinhas são estendidas sobre árvores podadas e, como consequência, as uvas são aguadas e sem qualidade. Durante a estação chuvosa, de Outubro a Março, as vinhas ficam sem folhas e os vinhedos surgem então nus e desolados. A meados de Março as vinhas começam a rebentar e no início de Abril estão bastante verdes; florescem em Maio e Junho e perfumam todas as partes da ilha. Nesta altura, as noites frias por vezes danificam a fluorescência e prejudicam a colheita. Mas o calor do Verão, em qualquer dos casos, rapidamente desenvolve e amadurece as uvas, de modo que a colheita pode começar no fim de Julho.

Na Madeira a vinha propaga-se por mergulhias, que costumavam ser plantadas apenas a uma profundidade de vinte polegadas. Agora, no entanto, costuma-se coloca-las em valas com quatro pés ou mais de profundidade, de acordo com a qualidade do solo. No fundo da vala coloca-se uma camada de pedras soltas para evitar que as raízes penetrem no solo duro por baixo. Nos vinhedos de melhor qualidade, estas mergulhias são geralmente feitas com muita distância entre elas. As vinhas dão fruto no terceiro ano e são colocadas, na maioria dos casos, tanto em latadas como em corredores, tendo ambos sido descritos no meu relato sobre o vinhedo da Messrs. Krohn em Santa Cruz. Uma desvantagem destas latadas é que por baixo de muitas delas quase não há espaço para os homens rastejarem de modo a mondarem, podarem, colocarem as vinhas na latada e tirarem parcialmente as suas folhas, como é geralmente feito durante os meses de verão, ou apanharem as uvas na altura da vindima. Só em casos particulares é adoptado um outro sistema de colocar as vinhas mais moderno, tal como o seguido pelo Sr. Leacock em são João. Quando vista de cima, a estrutura destas latadas, descoradas como é costume pela influência combinada do sol e chuva, assemelha-se muito a um conjunto de redes espalhadas no solo. No lado norte da ilha, antes das devastações causadas pelo oídio, as vinhas eram presas aos numerosos castanheiros, e podiam crescer até qualquer altura, ou então eram

THUDICHUM, J. L. e DUPRÉ, A, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, Londres, 1872.


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As castas e as áreas dominantes

O vinho vem a reparo a caninga também é arco, madeira e atelo o herbemon e o jaquet eram mais aventureiras as parreiras do boal, depois vem a americana e o delicado ferral em tempos houve verdelho, parreiras de terrantia, moscatel, alicante e cachos de malvasia havia o rico bastardo sercial e jarracão vi a tinta negra-mole e cada cacho de listräo. Alfredo F. Gomes, Poetas e Trovadores da Ilha, II, Versos de Manuel Gonçalves, Feiticeiro do Norte, 1959, pp. 44/46

A História das castas que deram nome ao vinho Madeira não está ainda devidamente esclarecida125. Sabemos apenas que o Infante D. Henrique mandou vir de Creta a celebrizada Malvasia. Todavia os colonos que estiveram no início do povoamento da Madeira, maioritariamente da região de Entre-Douro-e-Minho, não podem ser alheios nos primórdios da cultura na ilha, habituados que estavam ao seu convívio e consumo. A cultura da vinha tem tradição em Portugal, sendo a região Norte uma das áreas privilegiadas126. Não temos dados precisos sobre os diversos tipos de cepas trazidos pelos primeiros colonos. Por outro lado, à falta de estudos ampelográficos, é evidente a dificuldade na identificação, uma vez que a designação popular das variedades de uva muda de região para região. No caso da Madeira apresentamos aqui um inventário a partir dos dados reunidos na documentação e textos. A primeira e mais exaustiva enunciação das castas encontrámos num texto anónimo de 1801127. CASTAS DO VINHO MADEIRA AO LONGO DA HISTÓRIA FONTE

Castas

1455: Cadamosto 1530: Giulio Landi 1687: Hans Sloane

Malvasia e “uvas pretas…sem grainha” Malvasia e outros vinhos generosos brancos Casta “hermitage”, e três espécies de uvas: “branca, a vermelha e a grande muscadínea ou malvasia Refere 3 a 4 castas, sem indicar o nome Malvasia Uva branca, tinta e vermelha (=bastarda), malvasia Negro mole, verdelho, boal, bastardo, preta, Boalerdo branca, babosa terrantez, negrinha, maroto, casuda, negrinha de água de mel lestrong Galija, bringo, malvasiam, malvasia, malvasia roxa, sercial, sercial grosso, tinta de Lisboa, Alicante preto, Alicante branco, ferral, moscatel, dedo de dama Verdelho, negro mole, bastardo, bual, sercial, tinta, malvasia candel ou cândida, malvasia babosa, malvasion Boal, sercial, verdelho, negra mole, malvasia Tinto, sercial, malvasia Sercial, boal, malvasia, tinta, negrinha

1689: John Ovington 177 G. Forster 1797: George Thomas Staunton 1801: Anónimo

1823: T. E. Bowdich UVAS. Colecção do Autor. 2001

deixadas crescer à vontade, por cima das rochas e pelo chão. Como o bom vinho só vem das uvas cultivadas perto da superfície do solo, muita da produção das vinhas presas às árvores só prestava para destilar em aguardente. Logo depois do aparecimento do oídio, a maioria das árvores foi destruída pela mangra e quando as vinhas foram plantadas de novo, foram colocadas de modo semelhante ao das do lado sul da ilha. Os solos dos vinhedos da Madeira são saibro ou tufo calcário vermelho decomposto, cascalho, de características pedregoso, pedra mole ou tufo calcário amarelo decomposto, e massapés ou argila resultante da decomposição de tufos calcários mais escuros. O solo que produz o melhor vinho é o saibro, mais especialmente quando lhe é juntado uma mistura de pedras. Em muitos lugares, as vinhas são plantadas no solo empilhado em socalcos suportados por paredes de pedra. Este sistema foi originalmente adoptado como precaução contra as chuvas periódicas que arrastavam o solo com elas pelas íngremes encostas abaixo. VIZETELLY, Henry, Facts about Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.

1826: Lyall 1827: J. Holman 1834: John Driver

125.Existem mais de 24.000 variedades de vinhas, mas apenas um grupo reduzido produzm o vinho; veja-se P. Viala e V. Vermorel, Traité Général de Viticulture: Ampélographie, Paris, 1901-1910, A.J. Winkler, General Viticulture, Berkeley, 1962; J. Robinson, Vines, Grapes and Wines, London, 1986, Tim Unwin, Wine and the Vine. Na Historical Geography of Viticulture and the Wine Trade, London, 1991. Em Portugal faltam inventários detalhados das castas por épocas. Chama-se a atenção para os seguintes estudos, que privelegiam os aspectos ampelográficos: Vicencio Alarte, Agricultura das Vinhas…, Lisboa, 1712, A. Girão, Tratado Teórico e Prático da Agricultura das Vinhas, 1822; Cincinnato da Costa, O Portugal Vinícola. Estudo sobre a Ampelografia e o Valor Oenologico das Principais Castas de Videiras de Portugal, Lisboa, 1900; A. M. Lopes de Carvalho, Subsídios para a Ampelografia Portuguesa, Lisboa, 1885. 126.Cf. O Vinho na História Portuguesa (Séculos XIII-XIX), Ciclo de Conferências, Porto, 1983, Mário Viana, Os Vinhedos Medievais de Santarém, Cascais, 1998; Deniz de Ramos, Subsídios para a História da Vinha na Bairrada (Séculos X ao XII), Anadia, 1991;J. Duarte Amaral, O Grande Livro do Vinho, Lisboa, 1994. 127.Produz-se uma grande variedade de uvas na Madeira, tais como a Negro Mole, Verdelho, Boal, Bastardo, Preta, Boalerdo Branca, Babosa Terrantez, Negrinha, Maroto, Casuda, Negrinha de Agua de Mel, Lestrong, Galija, Castelão, Bringo, Malvasia, Malvasia Roxo, Malvasiam, Sercial, Sercial Grosso, Tinta de Lisboa, Alicante Preto, Alicante Branco, Ferral, Moscatel, Dedo de Dama, etc, etc, etc. Mas se este grande número de qualidades fosse reduzido Negro Mole, à Verdelho e à Boal, os vinhos seriam certamente de muito melhor qualidade. ( A Guide to Madeira Containing a Short Account of Funchal, Londres, 1801, pp.12-20.)

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1840: F. Taylor 1841: P. P. Câmara 1851: Robert White 1851: Edward V. Arcourt 1854: J. Andrade Corvo 1854: E. S. Wortley 1863: F.R.G.S. 1865: Eduardo Grande

1872: J.L. Thudichum e A. Dupré 1878: S. G. W. Benjamin 1880:H. Vizetelly 1880:Denis Embleton 1900: A. J. Drexel Biddle

Boal, sercial, verdelho, negra mole, malvasia Sercial, malvasia, bastardo, boal, tinta, canaria, peringó, muscatel, ferral, negrinho Malvasia, boal, sercial, tinta ou Borgonha da Madeira, negra mole, maroto Malvasia, sercial, tinta, boal, verdelho, bastardo, negrinho e maroto Boal, sercial, tinta, negrinho, verdelho, terrantez, bastardo, isabele Malvasia, tinta, sercial, negrinho, boal Malvasia cândida ou malvasia, bual, sercial, tinta, Boal, sercial, malvasia, verdelho, bastardo branco, peringó, carão de moça, gancheira, vermejolho, barrete de clerigo, sabba, listrão, moscatel branco, Alicante, tinta, negrinha, bastardo preto, terrantez, maroto. Castelão, isabele, ferral, moscatel roxo Alicante roxo, Arinto e tinta Padre António. Malvasia, vidonha, bagonal, sercial ou esgana-cão, muscatel, Alicante, bastardo, tinta, negra mole, ferral, pérgola Malvasia, bual, sercial, tinta Malvasia, verdelho, sercial, boal, Malvasia, verdelho, sercial, bual, tinta, bastardo Verdelho, tinta, malvasia cândida, bual, sercial, negra mole, maroto, terrantez, carão de moça, malvasia roxa, malvasião, listrão, bastardo, verdelho

A filoxera, a partir de 1872, condicionou a viticultura madeirense, pois caso se pretendesse manter os vinhedos deveria socorrer-se das castas americanas como produtores directos ou cavalos porta enxertos. O Governo criou dois viveiros, um no Torreão e outro no Ribeirinho, evidenciando a aposta na reposição das vinhas. Em 1883 foram distribuídos mais de 60.000 bacelos americanos das mais distintas variedades: riparia, jaquez, hebermont, rupestris solonis, taylor, clinton, ebimbro, york madeira. A que se juntaram, depois, outras como cunningham, viale, elvira, othelo, cineree, back pearle, gaston bazile, etc. Algumas serviram de cavalos para enxertia das castas tradicionais outras conquistaram o lugar, como foi o caso do jacquez, herbemont, cunningham e vinho americano, tornando-se em produtoras por excelência. Ganharam fama os jacquez de S. Vicente, Seixal, Porto Moniz, Ponta Delgada, Arco de S. Jorge, e o vinho americano do Porto da Cruz. No Sul, nomeadamente em C. de Lobos, persistiram as antigas castas enxertadas em cavalos americanos. No século XX estabeleceram-se medidas de reposição das castas tradicionais. Em 1909 o Governo estabeleceu um regulamento no sentido de erradicar as castas americanas num prazo de oito anos. Acontece que a situação não mudou e em 1935128 insiste-se no arranque das videiras americanas a partir de 30 de Março de 1936. E de novo ninguém cumpriu a ordem chegando até nós a presença e fama do vinho americano. A Junta Geral, para fazer cumprir a medida de reposição das castas primitivas, estabeleceu, a partir de 1945, vários campos experimentais de videiras na Madeira e Porto Santo. Como corolário disto tivemos, desde 1954, a renovação das castas do Porto Santo com barbados vindos da Madeira. As diversas castas assumem particularidades que as diferenciam de idênticas na Madeira. Daí a adjectivação de Porto Santo que normalmente se associava a Tinta, o Boal e o Moscatel. Somente a partir de 1978 ficou assente o plano de reconversão das vinhas da Madeira no sentido de reconstituir o aspecto vitícola anterior ao oídio e à filoxera. 128.Decreto-lei 24976, de 28 de Janeiro de 1935, Diário do Governo, nº.22.

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O panorama vitivinicola madeirense foi dominado por uma diversidade de castas, que hoje se torna difícil identificar por falta de estudos ampelográficos, Segundo P. Perestrelo de Câmara[1841] às castas era atribuída a valoração de acordo com a qualidade e apreciação do vinho. São quatro as que se destacam, sendo o Sercial a primeira casta em qualidade, ficando a Malvasia no segundo nível. Seguem em terceiro lugar o Boal e o Bastardo e em quarto o Tinta negra mole. Sem classificação ficam as Canaria, Peringó, Moscatel, Ferral e Negrinha. Já em 1865 Eduardo Grande divide as castas existentes na ilha em dois grupos: 1. Uvas brancas - Boal, sercial, malvasia, verdelho, bastardo branco, peringó, carão de moço, gancheira, vermejolho, barrete de clérigo, sabba, listrão. 2. Uvas coroadas - Negra mole, negrinha, bastardo preto, terrantés, maroto e castellão, isabela (americano), ferral, muscatel roxo, alicante roxo. De acordo com o Estatuto da vinha e do vinho, aprovado em 1985129, as castas do vinho Madeira distribuem-se entre: Castas recomendadas: Brancas: Sercial (ou Cerceal), Boal (ou Boal), Malvasia Cândida, Terrantez e Verdelho Branco; Tintas: Bastardo, Tinta da Madeira, Malvasia Roxa, Verdelho Tinto e Negra Mole; Castas autorizadas: Brancas: Carão de Moça, Moscatel de Málaga, Malvasia Babosa, Malvasia Fina, Rio Grande, Valveirinha, Listrão e Caracol; Tintas: Tinto Negro, Complexa, Deliciosa e Triunfo. A partir daqui ficou definido o panorama ampelográfico do arquipélago da Madeira. No sentido de contribuir para a elucidação da ampelografia histórica madeirense apresentamos alguns aspectos históricos das castas tendo em conta as áreas de expansão e o valor apreciativo no mercado130. A malvasia é a casta que deu nome ao vinho da Madeira e está presente desde os inícios da ocupação. A tradição anota que foi o Infante D. Henrique que mandou vir os primeiros bacelos do Mediterrâneo. A Malvasia é originária de Napoli-di-malvazie na ilha de Monia, junto da costa oriental de Moreia131, donde foi trazida para a Madeira. Aqui desenvolveu-se em áreas específicas do litoral na vertente meridional, estendendo-se pela Fajã dos Padres (Campanário), Paul do Mar, Jardim do 129.Decreto Regulamentar Regional n.º 20/85/M: Aprova o Estatuto da Vinha e do Vinho da Região Autónoma da Madeira 130.Fica desde já posto de parte o estudo botânico, que embora se afigure importante, por razões metodológicas reservamolo para os especialistas como Carlos Azevedo de Menezes, “Vinhas da Madeira”, in Portugal Agrícola, 1908, pp. 353/9, vide também Menezes Pimentel, “Vinhas e Vinhos da Madeira”, in ibidem, 1901/1902, pp. 262/266. 131.Segundo Filippo Cantannessa, Il Vino..., 1898, a Malvasia existia nas seguintes regiöes italianas (15/34): Provincia Alexandria (p. 19), Novara (p. 20), Marche ed Umbria (p. 21), Regiäo Meridional do Adriático (p. 26), Sicilia (p. 28), Sardenha (p. 29).

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Mar, Arco da Calheta, Madalena, Sítio do Lugar (Ribeira Brava), Anjos (Canhas). Os testemunhos de vários visitantes dos séculos XV e XVI anotam apenas a presença da Malvasia. Somente em 1687 Hans Sloane diferencia três variedades de uvas: branca, vermelha, muscadinea ou Malvasia. A mais famosa surgiu na Fajã dos Padres, mas a área de cultivo estendia-se ao Paul do Mar, Jardim do Mar, Arco da Calheta, Madalena, Sítio do Lugar (Ribeira Brava), Anjos (Canhas). De entre as variedades de superior qualidade, que deram nome ao vinho Madeira, sobressai a Malvasia, com as variantes cândida, roxa, babosa e propea, que mereceu a atenção dos mais afamados apreciadores do vinho - os ingleses - que no teatro, com Shakespeare, ou nos últimos desejos (morte do Duque de Clarence em 1495) nunca a esqueceram. A fama do vinho Madeira, como é óbvio, adveio de castas superiores que estiveram na origem do vinho generoso: É a malvasia cândida, associada ao sercial, verdelho, boal, bastardo, malvasia roxa e tinta da Madeira que sustentando os créditos de enologia insular deram nome aos seus vinhos, cuja fama se espalhou por todo o mundo132. Existem várias variedades de Malvasia. A mais recente é apelidada de S. Jorge, área onde incide a maior produção. Na ilha a mais conhecida foi a Malvasia cândida ou fina, Algumas não merecem a aprovação de todos os especialistas. Batalha Reis, em conferência realizada no Funchal em 1905133, contraria a opinião corrente ao condenar a Malvasia babosa por se desfazer em mosto e ser pouco doce. A Malvasia foi a bebida, por excelência, do aristocrata e colonialista britânico. Bebida doce que muitos preferem ao sercial, e que com ele emparelha na superioridade e valor... esta se poderá bem comparar ao fabuloso néctar, no melífluo gosto e delicioso aroma, que parece sair de um ramo de odoríferas flores. Com 3 anos de idade já esta bebida é preciosa, e quanto mais velha melhor, acrescendo, que mesmo de um ano é muito agradável, e até mais exala o seu perfume, e mais gosto de uva tem134. A Fajã dos Padres, propriedade dos Jesuítas na ilha, foi um dos lugares por excelência de produção da casta, tendo merecido a atenção dos comerciantes. William Bolton, em carta de 1699 ao Lord Somers em Bóston, que acompanhava o envio de 30 dúzias de Madeira Wine, dizia: There is a white wine Madeira wich called the jesuits wine and I think equal any of the spanish montain wines só much liked of late in England. Those Jesuits there so egross it, that it is ahard matter to get any: and I never tasted of that sorte of wine in two houses since my being in America 135 . Nas cartas comerciais é frequente a referência à produção e excelência da Malvasia136, apresentado sempre como produto raro malmseys are very few this vintage, not exceding above half the quantity of other years137. A produção no século

XVIII nunca excedeu as 80 ou 100 pipas e a de superior qualidade era no século XIX de apenas 200 pipas138. Ainda hoje continua a ser uma raridade. Em 1757, um marinheiro inglês de passagem pela Madeira dá conta da descoberta da malvasia do seguinte modo: As regards the Malmsey henhole island produces only abord 50 pipes annualy & they are the sole property of one gentleman & the excessive high prices graid him groth em & quantity being só small has made that wine never been regarded as a branch of trade & trade & whenany has beer shipped to oblige our friends they have seldom been charged more than has really been paid in the island for them and this I can affirm to you, that two years ago I paid for a quarter cask at the rate of 25 moidore p. pipes besides only & charge on shippings139. Para H. Warner Allen o que despertava a atenção era a qualidade do vinho que se produzia com a Malvasia: Gratest of old Madeira, malmsey, in wich quart bottleage transforms a quinessence of sweetness into a progronard magnificience of ambrosial in ventacity such as the gods in the golden age drank are Olympus after they had quenched their first with nectar, is perhapss the finest wine in the world...140. A vinha, por ser tão considerado, surge com frequência em testamentos e encargos pios. Nos encargos e foros do Convento da Encarnação do Funchal sabe-se da presença da casta na cerca do convento e terras foreiras de Câmara de Lobos e Porto Novo141. O Sercial, não tão conhecido como a Malvasia, pertence ao grupo das castas generosas de superior qualidade e é referido por P. P. da Câmara como de primeira qualidade antes mesmo da Malvasia: A mais preciosa e esquisita das bebidas, assim como a mais custosa e rara de obter, e a que mais tempo exige para um completo aperfeiçoamento (...). Nada menos de 10 anos são necessários, para este líquido adquirir o gosto, aroma, e torrado que tanto o caracterizão, e durante este longo período, mais dispendioso e difícil é o seu tráfego... faz sobressair as qualidades naturais que é dotado as quais a idade aperfeiçoa142. O Sercial terá sido importado do Reno, sendo conhecido no continente como Esgana cão. A área de cultivo é definida pelo Funchal, Câmara de Lobos, Fajã dos Padres, Campanário, Paul do Mar, Fajã (Ponta do Pargo). Segundo Henry Vizetelly era uma casta de superior qualidade fornecendo um vinho de sabor inestimável: produz um vinho branco, forte, seco, que possui um requintado aroma143. O Boal é a terceira casta na nomenclatura de P. P. da Câmara: A 3ª qualidade de vinho que mais valor tem no mercado, mas que poucos proprietários mandão fazer em separado por ser o vidonho raro, é o boal, cujo cacho comprido e bago miúdo, dando-se bem na vinha de pé... produz um líquido de sumo precioso, é o mais aromático de quantos há na Madeira, porém de escassa quantidade144. A videira

132.A. T. Sousa, Subsídio para o Estudo das Castas do Vinho da Madeira, Lisboa, 1938, p. 5. 133.Resumo da Conferência Realizada na Associação Commercial do Funchal em 15 de Outubro de 1905…., Funchal, 1905. 134.P. P. Câmara, ibidem, p. 70. 135.Portland mss, vol. VII, part. II; cit. A. L. Simon, The Bolton Letters..., vol. I, p. 18. 136.Idem, ibidem, pp. 2, 51, 56, 159/61. 137.Idem, ibidem, p. 56.

138.P. P. Câmara, ibidem, p. 70. 139.Ruppert Croft-COOKE, ibidem, p. 136. 140.The Wines of Portugal, Londres, 1962, p. 172. 141.Eduarda Maria de Sousa GOMES, O Convento da Encarnação do Funchal, Funchal, 1995 142.P. P. CÂMARA, ibidem, pp. 60/70. 143.Alberto VIEIRA, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.385 144.P. P. CÂMARA, ibidem, pp. 70/1.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

importada da Bretanha espalhou-se pela vertente meridional: Campanário, Câmara de Lobos, Santo António, Estreito de C. Lobos, Paul do Mar, Fajã (Ponta do Pargo). A quarta qualidade mais conhecida é a Tinta, distinguindo-se duas classes conforme as áreas de cultivo: • 1ª qualidade de Santo António, Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos, S. Martinho; • 2ª qualidade em Porto Moniz, Santa Cruz, Gaula.

tornaram-se improdutivas com o oídio ou definharam com o ataque da filoxera às raízes. Os produtos químicos não resolveram cabalmente o problema e só com o recurso às castas americanas, vindas directamente dos EUA ou através da Europa, conseguiu-se assegurar a reposição dos stocks de vinho e corresponder à solicitação do mercado de consumo interno e externo. Apenas para o século XX se torna possível fazer uma ideia da importância asumida pelas diversas castas no conjunto da produção de vinho. Antes disso temos apenas informação dispersa para os anos de 1849 e 1850148.

A casta foi trazida de Espanha para o reino e Canárias e da última para a Madeira. A ela se refere H. Vizetelly: A uva negra, geralmente redonda, misturada com as anteriores variedades brancas é a tinta, da qual se faz, em certa quantidade, um vinho diferente…145. O Verdelho é uma das que melhor produz na ilha, situando-se a área de cultura nas zonas altas. Na segunda metade do século XIX alcançou um lugar destacado na viticultura madeirense, ocupando dois terços do vinhedo146. Como esclarece A. T. Sousa o vinho produzido por uma mesma casta em diversas regiões apresenta-se com qualidade e características diversificadas, pois que as características dos mostos das diferentes castas estão em estreita dependência da natureza do solo, e da variação dos factores climatéricos da região onde são cultivadas147. Daí distinguir-se os vinhos de primeira, segunda e terceira qualidade, conforme a região a que pertenciam. Por outro lado os estrangeiros, nomeadamente os ingleses mais atentos ao vinho, delimitavam as melhores áreas de vinha. Em 1851 Edward V. Harcourt refere que os melhores vinhos eram oriundos de Câmara de Lobos, S. Martinho, S. Pedro, partes baixas de Santo António, Estreito de Câmara de Lobos, S. Roque, S. Gonçalo e Campanário. Para Henry Vizetelly(1884) S. Martinho produzia um vinho de elevada categoria enquanto a melhor área se situava na Torre em Câmara de Lobos. Algumas das castas com que se faz o vinho Madeira são consideradas e valorizadas pela raridade e excelência dos vinhos. São elas o Bastardo, Listrão e Terrantez. O vinho da última continua a ser considerado um verdadeiro néctar dos deuses. A cultura popular não se faz rogada em elogios: As uvas terrantez Nas as comas nem as dês Para uvas Deus as fez

PRODUÇÃO SEGUNDO AS CASTAS Castas Malvasia Sercial Tinta Total

% 0,76 0,71 0,67

1850 Pipas % 107 0,79 99 0,69 94 0,63 13 571

De entre as castas nobres a Malvasia parece ter sido a rainha mas a que hoje continua a ser a principal fonte do vinho Madeira é a Tinta negra-mole. O quadro dos valores médios da produção em litros para o quinquénio de 1935-1939 evidencia a dominância do jacquez com 40% do total. EVOLUÇÃO DAS CASTAS EUROPEIAS E AMERICANAS.1935-39 CASTAS EUROPEIAS Tinta 2.644.740 Listrão 146.326 Verdelho 43.401 Boal 58.373 Moscatel 6.495 Sercial 45.521 Malvasia 698.173 Total 4.036.534

CASTASAMERICANAS Izabela 647.045 Cunningham 157.965 Herbemont 736.846 Jacquez 3.494.887

Total

5.036.743

A dominância das castas americanas ocorre nos concelhos do Norte, com especial destaque para S. Vicente, enquanto as europeias têm uma incidência particular no Sul. Apenas com o Verdelho e o Sercial se altera a situação em favor do Porto

Eduardo Grande (1854) evidencia valorização das castas americanas a partir de meados do século XIX. Elas chegaram à Europa pela fama da resistência ao oídio. Mas acontece que transportavam nas raízes as larvas da filoxera. A situação implicou uma mudança radical no espectro vitícola. As castas tradicionais europeias 148.O Agricultor Madeirense, 1851, pp.96-97, 125 145.Publicado por Alberto VIEIRA, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.385 146.CÂMARA, Benedita, A Economia da Madeira (1850-1914), Lisboa, 2002, p.104 147.bidem, p. 5.

1849 Pipas 100 93 88 13 080

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Moniz, a principal área de ambas. A relação maioritária das castas americanas manteve-se nas décadas de cinquenta e setenta. A total reconversão da vinha para as europeias só começou a ganhar forma na década de setenta com o impulso do recém-criado Instituto do Vinho da Madeira. Tudo isto foi consequência de directivas comunitárias que proibiram desde de 1996 os vinhos de híbridos de produtores directos. A partir daqui resultou a inversão dos valores da produção de vinho a favor das castas europeias. EVOLUÇÃO DAS CASTAS EUROPEIAS E AMERICANAS.1951-2002

1951 1952 1853 1954 1955 1966 1971 1975 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002

Castas Europeias (litros) 1.830.425 1.962.085 3.181.616 3.747.454 3.488.792 2.413.426 2.134.056 1.788.704 2.692.102 3.145.399 3.770.259 3.622.858 3.390.749 2.927.930 2.528.538 2.086.694 5.842.895 4.947.508 4.692.926 4.841.029 4.025.780 2.093.487 3.779.875 3.100.225 3.108.223 3.265.100 4.759.401 4.554.584 3.792.189 5.102.830 5.651.548 5.017.681 4.564.085

Castas Americanas (litros) 5.332.890 6.091.185 8.739.949 8.585.589 .269.317 7.518.259 6.549.744 5.783.920 6.980.422 8.530.139 7.725.949 4.988.879 3.918.990 3.761.314 3.178.853 3.695.484 7.939.000 6.849.092 5.636.652 5.738.272 3.686.685 5.913.347 5.454.466 2.810.364 2.178.352 2.781.300 1.252.605 1.310.460 698.904 1.499.194 591.351 676.190 539.936

TOTAL 7.163.315 8.053.270 11.921.565 12.333.043 11.758.109 9.931.685 8.683.800 7.572.624 9.672.524 11.672524 11.496.208 8.611.137 7.309.739 6.689.244 5.707.189 5.782.178 13.781.895 11.796.600 10.329.578 10.579.301 7.712.465 10.006.834 9.234.341 5.910.389 5.286.575 6.049.400 6.012.006 5.865.044 4.491.093 6.601.923 6.242.899 5.693.871 5.104.021

QUADRO EVOLUTIVO DAS DIVERSAS CASTAS. 1925-2001 CASTAS EUROPEIAS

ANOS

CASTAS AMERICANAS

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CASTAS Tinta Listrão Verdelho Boal Sercial Malvasia Malvasia babosa Moscatel TOTAL Isabella Cunningham Herbemonmt Jacquez TOTAL

1935-39 1951 1966 1954 1980 1986 1990 1992 1994 1995 1997 1998 1999 30,4 48,5 38,0 54,0 70,1 77 67,8 1,7 0,5 0,5 0,4 0,7 0,9 1,4 1,4 1,6 0,7 0,6 0,6 0,7 0,9 1,7 2,3 2,7 0,5 1,1 0,8 1,2 1,4 1,1 1,2 1,8 1,2 0,9 2,0 1,8 3,1 2,6 3,4 8,1 1,83 1,6 0,1 41,9 7,46 1,82 8,5 40,41 58,1

25,6

24,3

30,4

32,8

42,4

52,2

41,0

58,8

69,6

77,7

84,3

77,3

74,4 75.94

69,6

67,2

57,6

47,8

59,0

41,2

30,4

22,3

15,7

22,7

(1) malvasia babosa

Não existe um estudo ampelográfico actual e comparativo que permita conhecer a situação da viticultura madeirense enquadra-la no panorama nacional e internacional. Os raros estudos que conhecemos são do Eng. Teixeira de Sousa149, que apresentou um trabalho no V Congresso Internacional da Vinha e do vinho realizado em Lisboa em 1938, e de Carlos Azevedo de Menezes150. Estamos perante um campo em aberto que espera pela atenção dos especialistas.

149.Um sumário das castas mais importantes é apresentado por Eduardo C. N. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, Funchal, 1989, p.564.O mesmo corre em folheto de divulgação editado pelo IVM. 150.Artigo publicado em 1902 no Portugal Vinícola, transcrito, parcialmente, no Elucidário Madeirense, vol. III, Funchal, 1966, pp.384-387. Cf. P. Viala e V. Vermorel, Ampélographie, 7 vols, Paris, 1901-1910.

Lagar. Postal antigo


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Fajã dos Padres. Colecção do autor.1999

A Malvasia da Fajã dos Padres Entre todos os tipos de vinho o mais celebrado é o Malvasia, o rico sumo das luzidias uvas brancas que descem as latadas em largos e fartos cachos. Foi assim na Antiguidade e continuou nas épocas subsequentes até ao presente. A Malvasia cândida manteve-se por muito tempo a rainha das videiras. Aconteceu assim no Mediterrâneo e também no Atlântico, tendo por assento as paradisíacas ilhas como a Madeira e Canárias. Na Europa do século XV foi celebrado por poetas e dramaturgos, como Shakespeare. A fama condicionou a opção do Infante D. Henrique em recomendar aos povoadores as videiras de Malvasia de Cândida. O senhor da ilha pretendia cultivar no novo espaço o vinho. Todavia, o mesmo não previa que havia de se tornar no mais afamado da ilha, que levou o nome aos quatro cantos do mundo. Já em meados do século XV o veneziano Cadamosto fazia fé na realidade ao afirmar que provaram muito bem. Aliás, em 1530 outro italiano, Giulio Landi, proclamava que o malvasia madeirense é reputado melhor do que o de Cândida151. A fama persisitiu até ao presente, sendo o Malvasia de todos o mais considerado dos vinhos da ilha. A produção foi sempre reduzida mas a procura foi sempre elevada. Em 1757 a produção foi de apenas 50 pipas, muito disputadas pelos mercadores funchalenses. Aqui incluíam-se algumas pipas da Fajã dos Padres. A Fajã confunde-se com o Malvasia. Foi o Malvasia o mais cobiçado entre todos os mercadores. Os jesuítas destacaram-se na produção de vinho, sendo acusados em 1689 por John Ovington de quasi monopólio da malvasia: Eles asseguram aqui o monopólio do malvasia do que existe em toda a ilha apenas uma boa e grande vinha - na dita fajã - de que são os únicos possuidores.152 A malvasia foi plantada por iniciativa do Padre Sebastião de Lima. É dele a ordem de 151.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, pp.37 e 86 152.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.198

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1663 para plantar 7000 bacelos de Malvasia, na maioria em latada153. A Fajã deveria ser uma referência para os estrangeiros, pois em 1825 Edward Bowdich154 descreve a viagem por barco à descoberta deste recanto. Já para John Driver155 aquilo que o entusiasmou em 1834 foi o Malvasia, considerado o melhor entre todos. Em meados do século XIX a fama da Malvasia persistia ainda como afirma Isabella de França: há um sítio chamado Fajã dos Padres, por ter pertencido antigamente aos jesuítas: cresce aqui a melhor malvasia, famosa em todo o mundo156. Em 1873 Henry Vizetelly refere a celebridade do local pelas mesmas uvas, mas salienta que a família Neto, proprietária da Fajã, aí plantou verdelho157. Os jesuítas, desde a fixação na ilha na 2ª metade do século XVI, foram detentores de fartas fazendas onde medravam culturas ricas como a cana-de-açúcar e a vinha. As quintas estendiamse por toda a ilha ficando célebre a que se situava na freguesia de Campanário. Daí resultou o nome da actual Quinta Grande. Em 1759 os bens da companhia foram confiscados e arrematados em hasta pública por João Francisco de Freitas Esmeraldo no ano de 1770. Na década de setenta do século XIX a Fajã estava em poder do coronel Manuel de França Dória, que a vendeu em 1919 a Joaquim Carlos de Mendonça. A Quinta dos Jesuítas de Campanário, definida pela actual Quinta Grande, indicia uma faixa de terreno que ia até ao mar, contemplando a ubérrima Fajã, isolada no litoral, cujo acesso se fazia apenas por mar Não dispomos de muitas informações sobre a Fajã, para além do afamado Malvasia que aí se produziu. O isolamento do lugar, os vestígios sobre o terreno indiciam a presença permanente de colonos, tendo-se para o efeito construído uma Capela da invocação de Nª Sr.ª da Conceição. Apenas sabemos da existência em 1626, quando foi profanada por corsários, mas a construção deve ser de inícios da centúria, se tivermos em conta a data da aquisição pelos jesuítas em 1595. A ermida é referida em 1722 por Henrique Henriques de Noronha158, sendo quarenta anos 153.Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal. Descrição e Inventários, Funchal, 1987, vol. II, p.240 154.T. E. Bowdich, Excursions in Madeira…, London, 1825, p.59 155.Letters From Madeira, London, 1838, p. XII. 156.Jornal de uma Visita à Madeira…, Funchal, 1970, p.91 157.Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.386 158.Memórias Seculares e Eclesiástics para a Composição da História da Diocese do Funchal ilha da Madeira, Funchal, 1996.

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Vinhas na Fajã dos Padres. Colecção do autor. 2002


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Parreiras e uvas de malvazia na Fajã dos Padres. Colecção do autor. 2002

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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depois deixada ao abandono com a expulsão e sequestro dos bens dos jesuítas na ilha. A memória material da presença quase que se apagou no tempo, restando em uma das habitações a pia para a água benta. Aí deveria existir uma pequena comunidade de jesuítas e colonos que tratavam do amanho da terra, sendo certamente um local de veraneio dos frades, como sucedia na Quinta do Cardo no Funchal. As construções existentes são testemunho disso. Certamente que os piratas argelinos não assaltariam um lugar ermo, sem vivalma e algo de interesse económico e religioso. O assalto provocou uma devassa, por as gentes de Câmara de Lobos, nomeadamente os pescadores, não terem acudido ao rebate dos sinos. Saíram os jesuítas mas ficou o nome na designação do local, Fajã dos Padres, e o interesse pelo vinho aí produzido continuou até 1920, altura em que a Fajã logrou o último afamado malvasia, sobrevivendo apenas algumas parreiras. Em 1940 encontrou-se uma donde se retiraram bacelos que foram plantados em Câmara de Lobos nas terras de Dermot Francis Bolger159. Em 1979 a operação foi repetida pelo actual proprietário, o Eng.º. Mário Jardim Fernandes, que enviou um exemplar ao Instituto Gulbenkian para proceder à clonagem e plantar no local. Hoje as latadas que cobrem o caminho de acesso às casas estão cobertas da videira, tornando o espectáculo alucinante nos meses de Julho e Agosto. Hoje a Fajã está rejuvenescida e os largos e dourados cachos de uvas regressaram ao recanto junto ao precipício. E a quem como nós tiver o prazer de degustar o actual Malvasia espreitar e fotografar os cachos luzidios poderá afirmar que a tradição está de volta. Recuperou-se a memória e a técnica do afamado malvasia, ao mesmo tempo que se redescobriu um recanto paradisíaco, refúgio de locais e estrangeiros. Para nós o simples gesto de degustar um cálice de malvasia conduz-nos a um sinuoso percurso na descoberta da história. Todavia, ontem como hoje, resta a dúvida: quem plantou aí as primeiras videiras e fez brotar por entre os penhascos o sumo que escorreu nos quatros cantos do mundo para dessedentar o paladar dos mais exigentes apreciadores. Hoje, como ontem, apenas uma certeza, o malvasia madeirense confunde-se com a Fajã.

Começaremos pelo Sercial, a meu ver, a mais preciosa e esquisita das bebidas, assim como a mais custosa e rara a obter, e a que mais tempo exige para um completo aperfeiçoamento. O seu cacho, raramente adquire uma madureza perfeita, conserva sempre uma natural agrosidade, e apenas é tolerável o que nasce na beira-mar, crestado pela maresia e ardor do sol. Nada menos de 10 annos são necessários, para este liquido adquirir o gosto, aroma e torrado que tanto o caracterizam, e durante este longo período, mui dispendioso e difícil é o seu tráfego, absorvendo perto de metade da sua totalidade em aguardente, a qual evaporando-se em tão comprido espaço, não falando já no da Estufa, faz sobressair ao Sercial as qualidades naturais de que é dotado, as quaes a idade aperfeiçoa; por isso uma pipa d’elle, da melhor qualidade, com o tratamento que deixo dito, vale nunca menos de 200$000 rs. O melhor, e talvez o único bom que se cultiva, é o da freguesia do Paul do mar, pertencente ao morgado João da Câmara de Carvalhal, e toda a ilha poderá produzir anualmente 100 pipas do bom. Vem logo depois a Malvasia, bebida doce que muitos preferem ao Sercial, e que com ele emparelha na superioridade e valor. Da de superior qualidade apenas se colherão anualmente umas 200 pipas; esta se poderá bem comparar ao fabuloso néctar, no melífluo gosto e delicioso aroma, que parece sair de um ramo de odoríferas flores. Com 8 annos de idade, já esta bebida preciosa, e quanto mais velha melhor, acrescendo, que mesmo de 1 ano é muito agradável, e até mais exala o seu perfume, e mais gosto da uva tem. A colheita total, entre boa e má, chegara a perto de 600 pipas, porem a melhor, provem do lugar no Campanário, denominado Fajam dos Padres, que pertenceu aos Jesuítas, e logo depois a do Paul, Jardim, Arco da Calheta e Madalena. A 3ª qualidade de vinho que mais valor tem no mercado, mas que poucos proprietários mandão fazer em separado por ser o vidonho raro é o Boal, cujo cacho comprido e bago miúdo, dado se bem na vinha de pé, e por isso prematuramente crestado pelo ardor do sol e calor natural da terra, temporãmente amadurece, o que junto à fortaleza e generosidade da sua natureza, produz um liquido de suma preciosidade, e o mais aromático de quantos da Madeira, porem de escassa quantidade pois de Boal puro, apenas se poderão colher anualmente umas 50 pipas. O de melhor qualidade é produzido nas freguesias do Campanário, Câmara de Lobos, Stº António, Estreito da Calheta &c. &c. e

159.Eduardo Pereira, Ilhas de Zargo, vol.I, 1989, p.563.

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Uvas das castas sercial, malvazia e boal. Colecção do Autor. 2001


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Uvas das castas bastardo e tinta negra-mole. Colecção do autor. 2002

o seu preço pouca diferença faz para menos do da malvasia. Apenas aqui farei menção da muito rara e estimada uva denominada bastardo, a qual já hoje pela sua escassez, não se pode separar para fazer liquido puro, de uma só qualidade. Duas cousas se lhe notão que a tornão apreciável e curiosa; a primeira é por ser rara e excelente para o prato ou mesa, pela dureza e adstringência do seu bago, e a segunda é, que sendo uva preta, produz vinho branco. Em ordem numérica de valor, poderemos contar em quarta qualidade, a conhecida e afamada Tinta, denominação bem aplicada, pela sua cor, e exclusivamente feita da uva preta. Os epicuristas classificam-na em duas qualidades, a forte e a fraca. A da primeira classe abunda nas freguesias de Stº António, Camera de Lobos, Estreito, e S. Martinho, e a da 2ª nas de Porto do Moniz, Santa Cruz, e Gaula. O seu uso é muito recomendado nas diarreias, gozando alem d’essa, d’outras virtudes medicinais, e em adstringência emparelha com o melhor vinho do Porto tinto. Sendo velha, mais preço tem; com tudo a meu ver o estado da sua perfeição é aos 3 annos, antes que perca a cor e o aperto do gosto, o que acontece dos 4 em diante. A sua colheita não escassa, da melhor sorte, se poderão colher anualmente 350 pipas e no total umas 800; a do primeiro lote tendo de 2 a 3 annos de idade pode valer 110$000 rs por pipa, mas a do segundo como quase só sirva para misturar com o vinho branco afim de lhe dar cor, regula menos de metade d’est’outra, e não tem consumo em pais estrangeiro. Muitas outras qualidades de uva ha, tais como Canaria, Peringó, Muscatel, Ferral Negrinho & porem a sua diminuta quantidade pertencente a um só proprietário, em os sítios onde nascem, não permite d’ellas fazer liquido puro, e vão juntamente com o verdelho, formar a grande maioria da produção dos seus vinhos, dos quaes esta ultima qualidade entra nas seis decimas partes da sua totalidade. Paulo Perestrelo da Câmara, Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91

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As variedades principais da vinha, que se cultivam na Madeira, são as seguintes: Boal. - Uvas de um branco alambreado: bagos pouco unidos de pequena grandeza. Parra com as quatro divisões superiores muito profundas e agudas; pelos com ambas as faces. Julga-se que esta variedade de vinha foi trazida de Bucelas para a ilha; há porém, quem pense que ela veio de Borgonha. Sercial. - Uvas amareladas de bagos redondos, parras com quatro lobos arredondados; nervuras salientes; de um verde amarelado. Esta variedade é a conhecida em Alemanha com o nome de Hock. Malvasia. - Há quatro qualidades de Malvasia. A candila ou cadel; a malvasia roxa de bago redondo; a babosa de bago branco e um tanto alongado; e a malvasia propriamente dita. Destas variedades o principal é a candila, esta dá cachos grandes e ovais de bagos ovados e cor de ouro, parras de cor amarela esverdeada, com quatro divisões muito profundas, e redondas, e com duas menos distintas; cada dentadura tem uma ponta pequena e amarelada. Esta foi a primeira variedade de vinha introduzida na Madeira pelo príncipe D. Henrique em 1445, vinte e seis anos depois da descoberta de ilha; é originária de Cândida. Como a posição da Ilha da Madeira é quase idêntica à da ilha de Cândida, em relação à direcção da linha isoterma dos 20º nada admira que esta variedade prosperasse na Madeira. Negra Molle-Tinta. - Uvas pretas de bago redondo. Parras de sete lobos, com sinuosidades muito profundas e redondas; de cor verde escura com pontuações purpurinas. Negrinha. - Uvas pretas, pouco preciosas. É necessário para delas se fabricar vinho de algum merecimento sujeitar à acção do sol, oito ou mais dias, as uvas depois de colhidas. Verdelho. - Uva de bago amarelo, oval, Parras com sete lobos, com sinuosidades pouco profundas, de cor verde escura. Esta variedade é das que sobem a maiores alturas. Tarrantés. - Bago roxo escuro; alongado. Bastardo. - Bago preto, e redondo. Isabelle. - Cachos grandes - bagos arredondados de um roxo escuro, de pele grossa, muito abundantes em sumo; com um perfume um pouco semelhante ao das maçãs - Parras grandes, pouco divididas, com a página inferior coberta de pelos abundantes. Variedade americana da vitis vulpina. João de Andrade Corvo, Memórias sobre as ilhas da Madeira e Porto-Santo. Por João Andrade Corvo, sócio efectivo da Academia Real de Sciencias de Lisboa - Memória I. Memoria sobre a “mangra” ou doença das vinhas da Madeira e Porto-Santo. Apresentada à Academia na Sessão de 3 de Fevereiro de 1854, (Lisboa), (1954); “A mangra ou doença das vinhas”, in Das Artes e da História da Madeira, vols. IV-V, nºs.24-29, 1956-1959

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Uvas da casta terrantez. Colecção do autor. 2001


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Vinhas. Campo experimental do E. da Calheta. Colecção do autor.2002 Latada. Vicentes Photographos. Museu Photographia Vicentes

Dois terços das vinhas nos vinhedos da Madeira são da qualidade verdelho, cujas uvas possuem muita sacarina e produzem um rico vinho de qualidade esplêndida. A uva sercial, que se diz ser a famosa uva «riesling» do Reno, transplantada para a Madeira, agora muito rara, (predomina, na sua maioria, no concelho da Ponta do Pargo, no lado sudoeste da ilha), produz um vinho branco, forte e seco, que possui um requintado aroma. No entanto, quando é novo, este vinho é desagradável ao paladar, sendo a idade necessária para o levar à perfeição e desenvolver o sabor agradável pelo qual se distingue. Outra uva é a boal, também bastante rara, dando um rico vinho saboroso, delicado em sabor e com um aroma especial. A uva negra, geralmente redonda, misturada com as anteriores variedades brancas é a tinta, da qual se faz, em certa quantidade, um vinho diferente, com uma cor profunda e um sabor adstringente, devido aos pedúnculos e às cascas das uvas que ficam em infusão no mosto durante a fermentação. Dentro de poucos anos, este vinho torna-se amarelo-acastanhado, e com o passar do tempo adquire a cor de um profundo Madeira médio. Outra variedade de uva, conhecida como a bastardo, tem uma tonalidade cor-de-rosa. o vinho que ela produz tem um aroma muito delicado e é doce ao paladar, deixando, no entanto, uma adstringência não desagradável. Outras uvas brancas que ocasionalmente encontrámos são a terrantês, a listro e a maroto, a primeira das quais produz um vinho de certo modo estimado quando velho. Toda a gente já ouviu falar no famoso Malvasia da Madeira, produzido da espécie de uva malvasia - um vinho delicioso, que com a idade se torna um tanto alcoólico e tem todo o carácter de um delicado licor. Durante alguns anos o melhor Malvasia produzido na ilha

era feito com uvas cultivadas num local especial, perto do mar e por baixo de um alto penhasco, chamado Fajã dos Padres, a oeste de Câmara de Lobos e num vinhedo pertencente aos Jesuítas. Hoje, no entanto, o vinhedo tornou-se propriedade da família Neto e está cultivado principalmente com vinhas da qualidade verdelho. A uva malvasia requer um solo muito seco e calor intenso, e não é normalmente colhida até que se adquira as características de uva passada. Uma quantidade insignificante de vinho é feita da uva muscatel, de sabor doce, e possuindo o bem conhecido aroma especial que uma decoação de flores de sabugueiro imita muito bem. Uma vez que os vinhedos da Madeira são, em regra, de área reduzida e cultivados com diversas qualidades de vinhas, não vale a pena ao cultivador separar as diferentes espécies antes de as espremer no lagar. Consequente mente, a totalidade das uvas são esmagadas juntas, sendo o resultado um rico vinho branco, de certo modo com uma cor profunda, devido à mistura de uvas negras, encontrando-se em todos os vinhedos uma certa quantidade delas. Em vinhedos de maior extensão, geralmente tem-se mais cuidado. As diferentes qualidades de uvas são esmagadas separadamente, e o mosto de cada uma delas é mantido separado, especialmente o das qualidades sercial, boal e malvasia. Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira(...), Londres, 1880


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Uvas da casta malvazia. Campo Experimental das Preces. Colecção do autor. 2001

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Uvas da casta Verdelho. Campo Experimental das Preces. Colecção do autor. 2001

Uvas da casta Sercial. Campo Experimental das Preces. Colecção do autor. 2001

Uvas da casta Boal. Campo Experimental das Preces. Colecção do autor. 2001

Malvasia

Verdelho

Boal

Sercial.

Folhas glabras ou quase nas duas faces, com 5 lóbulos muito profundos, em geral pontiagudos; dentes desiguais triangulares, agudos ou sub-agudos; seios laterais quase sempre abertos e o peciolar muito aberto; cachos grandes, cónicos, densos ou frouxos, quase sempre muito alados; bagos de 17/20 milímetros elípticos ou eliptico-globosos, pouco rijos ou moles, verdoengo-amarelados, por fim dourados. Cepa grossa, alta; sarmentos de um pardo amarelado ou acastanhado, de entre nós curtos ou medianos. E esta casta, conhecida também pelos nomes de malvasia de cheiro, m. cândida e m. da ribeira, que produz o precioso vinho malvasia muito conhecido pela sua doçura e perfume.

Folhas medianas, arredondadas, ondeadas, glabras ou providas de alguns pelos na pagina superior, cotanilhosas na inferior, mas com o indumento pouco denso e irregularmente distribuído, sendo as vezes quase nulo em todo o limbo ou em parte dele; lóbulos muito pouco profundos ou apenas esboçados com dentes obtusos ou agudos; seio peciolar de ordinário muito fechado; cachos pequenos ou medianas (15/22 cm), geralmente alados e densos, cilíndricos ou cilindrico-cónicos; bagos de 15/20 milímetros, muito doces, rígidos, elípticos ou oblongos, verdoengo-amarelados, geralmente dourados na maturação, cepa Alta e muito vigorosa; sarmentos pardentos ou pardento-avermelhados, de entre nós curtos. As suas uvas um tanto fortes são muito boas para comer e produzem um vinho meio seco e de sabor agradável que e tido como um dos mais finos da Madeira.

Folhas medianas, cotanilhosas na página inferior, subglabras ou pubescentes na superior, com os 3 lóbulos do alto bem aparentes, as vezes acuminadas, os inferiores de ordinário mal esboçados; dentes desiguais, em geral sub-obtusos, menos vezes agudos; seio peciolar fechado ou pouco aberto; seios laterais superiores muitas vezes pouco aparentes em virtude da sobreposição dos lóbulos; cachos grandes, muito alados, densos; bagos quase sempre elípticos, de 15/22 milímetros, rijos, verdoengo-amarelados, dourados depois de maduros, muito dotes. Cepa mediana; sarmentos de um pardo claro, tom entre nós curtos. Produz boas uvas de mesa e um vinho meio dote muito estimado.

Folhas medianas, cotanilhosas na página inferior, subglabras ou pubescentes na superior, tom os 3 lóbulos do alto bem aparentes e os inferiores apenas esboçados; lóbulo superior quase sempre maior e mais agudo ou acuminado que os laterais; dentes pouco profundos, desiguais; seios laterais superiores e o peciolar quase sempre abertos; cachos pequenos ou medianas, mm excedendo em geral 20 centímetros, densos quase sempre alados; bagos elípticos, de 15/20 milímetros, esverdinhado-amarelados, um pouco acerbos, sub-rigidos. Cepa vigorosa; sarmentos pardentoclaros, de entre nós curtos. O seu vinho quando amadurecido (antes dos 10 anos é áspero e cru), e seco e de excelente qualidade.

Eng. Teixeira de Sousa, 1938

Eng. Teixeira de Sousa, 1938.

Eng.Teixeira de Sousa, 1938.

Eng. Teixeira de Sousa, 1938.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

S

Secas

O vingar do cacho. Colecção do autor. 1999

Factores Meteorológicos E Botânicos O clima nem sempre favoreceu a cultura da vinha no século XIX. Os factores meteorológicos actuaram por vezes de forma negativa no cultivo da vinha, não só porque ao homem faltavam os meios para os combater, mas também porque os efeitos se faziam sentir no volume de produção e qualidade do produto. Daqui resulta a diferenciação dos vinhos de colheita. A designação vintage é a que celebra o benefício favorável da meteorologia. Mais evidentes foram os efeitos negativos das secas, tempestades e aluviões.

As condições climáticas são distintas na Madeira e Porto Santo. Enquanto na primeira as crises de seca foram reduzidas e de menor influência, já na segunda perduraram ao longo do século XVIII e XIX, provocando graves crises de fome e o abandono por parte da população da ilha. A mais antiga referência a uma seca prolongada na ilha da Madeira, no período invernal data de 1798, pois que em carta de 31 de Janeiro160 o Senado da Câmara da cidade em carta ao bispo implorava que se fizessem preces públicas: Os tempos que tem e concorrem com geral falta de chuva, nos promete notável esterilidade, nos frutos no presente ano, por impedirem aos lavradores a semearem seus trigos, e a outros haver nascido as plantas do que a terra tem entregue para a multiplicação, motivo porque ansiosos desejam deprecar a Deus Nosso Senhor para do mesmo Deus alcançarem o remédio a tanto mal ameaçado. E nós por bem de todos somos conformes a pedir a Vossa Exa. se digne determinar três dias de preces nessa catedral do Santíssimo Sacramento, concorrendo a elas as colegiadas e mais clero, para que o Altíssimo Deus nos conceda o remédio necessário como temos recebido, quando nestas deprecações o imploramos. Determinando-nos Vossas Senhorias com a brevidade possível, o dia que dão princípio às ditas rogativas para nós concorrermos com juntamento todo o povo desta ilha. Em 1850 aconteceu nova seca no período invernal e de novo se efez apelo ao mesmo sentimento de impotência e submissão ao Divino. O Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, implorava, em carta de 6 de Fevereiro162, ao bispado que se fizessem novas preces públicas: Desgraçadamente tem continuado a falta de chuva, e é bem claro que, ou não poderão lançar-se as sementes à terra ou as que tiverem sido e forem sendo lançadas não poderão frutificar, nem tão pouco os campos poderão produzir pastos para os gados. Nesta apurada situação, em que as providências humanas se apresentam ineficazes, a alguém tem ocorrido apelar para a misericórdia divina e seguir os exemplos de outros tempos, nos quais em idênticas circunstâncias costumavam os povos correr aos templos, e dirigir a quem tudo manda fervorosas preces para que Deus se compadecesse da desgraça dos homens163. 160.ANTT, CSF, maço 6, nº 32. 162.Uma Época Administrativa na Madeira, vol. III, pp. 300/2. 163.Idem, pp. 301/2.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Em carta ao Governador ao Administrador do concelho da Ponta do Sol164 justifica-se as razões que estiveram na origem do pedido ao Bispo: Quando as calamidades públicas excedem as faculdades humanas, só resta invocar a misericórdia divina, e n’este caso nos encontramos hoje, tendo que deplorar o temeroso flagelo da seca, que se continuar pode acarretar-nos horrores de fome, como V. S. tão judiciosamente antevê - uma filosofia desdenhosa e altiva pergunta n’estas circunstâncias se a Natureza não obedece, por ventura, a leis gerais e imprescritíveis, - e argumenta com esse facto para rejeitar a submissão ao omnipotente. Sim a Natureza obedece a leis gerais: mas quem prescreveu esses leis? Foi Deus. Humilhemo-nos, pois ante os seus decretos e não nos envergonhemos de lhe pedir socorro nas nossas atribulações. E ainda quando esta piedosa crença deixasse de assentar em sólidas convicções do espírito, conviria, em todo o caso não arrancar aos infelizes a consolação única, que nos dolorosos transes da vida pode ter o desgraçado165. O Porto Santo, mais propício às secas prolongadas devido ao posicionamento geográfico e à falta de arvoredos, ficou como a ilha seca, pobre e sujeita a prolongadas estiagens. Em 1770 temos notícia da primeira seguindo-se outras em 1802, 1806, 1815, 1815, 1829, 1847, 1850, 1854, 1855, 1883. Se tivermos em conta que, a cada momento segue-se outra crise mais prolongada de fome e abandono dos campos com a fuga para a Madeira poderemos prever o nível dos efeitos catastróficos. Em 15 de Junho de 1770166 o Governador João António Correia de Sá, em ofício dirigido a Martinho de Mello e Castro, dava conta da situação deplorável dos povos da ilha do Porto Santo em resultado das prolongadas estiagens, da invasão das areias, esterilidade do solo, excesso populacional em relação aos recursos da região, implorando por medidas eficazes. Em 27 de Outubro167 a Câmara em carta ao Governador faz saber a situação clamando por auxílio. O Governador respondeu, seguindo as orientações régias, com um regulamento ao capitão Pedro Telles de Menezes168 para executar e solicitando ao povo obediência169. Mesmo assim em 1783 a situação pouco se havia alterado o que obrigou o Governador, D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho, a enviar o Sargento-mor Manuel da Câmara Bettencourt Noronha e o Ajudante Diogo Luís Drumond em diligência170. Em 1829 ocorreu novo período de estiagem pela falta de chuvas por quatro anos consecutivos, que provocou nova crise de fome a que acudiu o Governador José Maria Monteiro171. Daqui resultou uma quebra na produção do vinho pois, das 1000 pipas que a ilha recolhia entre 1815/1816, ficou-se por apenas 600 em 1829172. O mesmo sucedeu na Madeira em 1876 em que os efeitos da seca conduziram a uma

elevada quebra da produção que ficou por um quarto do ano anterior. Em conclusão podemos afirmar que uma seca sendo prolongada torna-se lesiva da cultura da vinha, provocando um decréscimo da produção, devido ao definhamento das parreiras. Mas quando extemporâneas e aparecem em determinadas épocas do ano tornam-se propícias à manutenção da uva como úteis e benéficas à boa qualidade da colheita. Pelo menos assim se exprimia em 1851 Notícias Agrícolas do Agricultor Madeirense, quando aludia que o ano era seco nas freguesias do Norte: Sítios há onde nunca se viu uva cerejada como este ano, ou seja madura, a novidade não é das grandes, mas também não das escassas, e os vinhos devem ser excelentes para a sua qualidade173.

164.Idem, pp. 302/4. 165.Idem, pp. 303/4. 166.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 391. 167.Idem, nº 395. 168.Idem, nº 396. 169.Idem, nº 397. A estas medidas juntaram-se outras por provisão régia de 13 de Outubro[Idem, nº 394.] 170.Vide Documentos, ANTT, PJRFF, nº 960; AHU, Madeira e Porto Santo, nº 662/4, 666/8, 671, 3033. 171.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 11273/11278. 172.Idem, nº 11275.

A Aluviões e tempestades

Em contraste com as estiagens prolongadas do Porto Santo temos na Madeira ao longo dos séculos XVIII e XIX a afluência espaçada de aluviões e tempestades. A configuração piramidal, com vertentes abruptas sobranceiras ao mar, fazia com que a acção continuada e torrencial das chuvas se tornasse catastrófica, porque arrastava os terrenos férteis dos socalcos e as poucas árvores, como as parreiras. De entre as mais significativas destacamos: 18 de Novembro de 1724, 18 de Novembro de 1765, 9 de Outubro de 1803, 26 de Outubro de 1815, 24 de Outubro de 1842, 19 e 20 de Novembro de 1848, 5 e 6 de Janeiro de 1856174. De todas as aluviões referidas a mais catastrófica e lesiva da viticultura, foi sem dúvida a de 1803175, que atingiu toda a ilha e de modo especial o Funchal, Machico, Santa Cruz, Campanário, Ribeira Brava e Calheta. A de 1848 inundou o concelho de Santana arrastanto as águas as benfeitorias produtivas mais importantes. Devemos, ainda, considerar as que assolaram a cidade do Funchal em 1765, 1803, 1815, 1842, provocando danos nas lojas e contribuindo para a deterioração do vinho armazenado176. A tudo isto acresce a destruição de estufas, maioritariamente situadas na margem das ribeiras. Com as secas implorava-se a clemência e intercessão divina por meio de preces públicas. Já com as chuvadas o madeirense poderia intervir no sentido de minorar os efeitos, através de projectos de rearborização e desentulhamento das ribeiras177. 173.Agricultor Madeirense, nº 7, p. 116. 174.Elucidário Madeirense, vol. I, pp. 51/5. 175.A. R. Azevedo, ibidem, pp. 723/725. 176.Vide, Defensor, nº 149, pp. 2/3, no que concerne ao aluvião de 1842; ARM, RGCMF, t. 14, fols. 126-130vº, quanto a aluvião de 1815. 177.Raimundo Quintal, Aluviões da Madeira. Séculos XIX e XX, Territorium, 6, 1999, pp.31-48. IDEM, O Parque Ecológico do Funchal e a Prevenção das Cheias e Incêndios Florestais, in Territorium, 7, Coimbra, 2000, pp.39-54;

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

O

Oidium tucheri

Phylloxera Vastatrix, Gravura publicada em A vinha Portugueza, Julho de 1898.

Factores patologicos e botanicos O mundo vitícola não se prende apenas com os problemas relaciondados com o ciclo de vida da vinha, como o replantio e a enxertia, necessários a uma melhor produção, pois também deverá juntar-se os factores patológicos e botânicos. A actuação dos últimos foi mais catastrófica porque atacou as cepas destruindo-as e tornando impossível a permanência de qualquer casta em zona infestada, a não ser com o recurso ao sistema de replantio com cepas resistentes (americanas). O oídium e filoxera foram os principais agentes destrutivos da vinha na segunda metade do século XIX. Tardaram soluções e medidas preventivas. A recuperação das vides atacadas, com o recurso a uma campanha de plantio com videiras americanas, só resultou em pleno alguns anos após o alastramento da doença.

O oídio, vulgarmente conhecido como mangra da vinha, surgiu em Inglaterra em 1845, alastrando depois à França e mais regiões vinícolas da Europa. Segundo Hermann Schalack a doença começou, tal como na Alemanha, com o nascer da flor178. A origem na Madeira deve estar relacionada com o facto de um francês ter vendido em Fevereiro de 1851 castas colhidas em zonas infectadas na França. Por este ou por outro qualquer motivo a doença fez sentir desde 1852 alastrando do Funchal ao resto da área de cultura, atingindo, de modo especial, a zona de Machico, Agua de Pena, Funchal, e arredores. Ficaram imunes à praga algumas áreas, como as plantações de Roberto Donaldson no Curral do Mar (Porto da Cruz) e as propriedades de Nicolau d’Ornelas no Caramanchão (Machico)179. A 23 de Agosto o Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, em proclamação aos madeirenses, referia os efeitos da doença, implorando aos agricultores para que não abandonassem os campos: Uma grande calamidade, talvez a mais temerosa de que há notícia a história desta ilha pende hoje sobre vós A fatal moléstia, que acometeu o rico fruto das nossas vinhas, ameaça reduzir-nos à miséria. Não o dissimularei. O mal é extremo, e os prejuízos que esse desastre vos acarreta hão-de ser consideráveis, intensos, opressores... Madeirenses. O vosso governador civil também vos brada agora: coragem. Confiança em Deus. Moradores das freguesias rurais. Não abandoneis a vossa terra. Não fujais desses campos que vossos pais regaram com seu suor. Não deixeis o tecto das vossas moradas, onde nasceram vossos filhos. Não volteis as costas à vossa risonha ilha. Lembrai-vos de que perdeis, talvez para sempre, o ar puro das vossas montanhas, o risonho céu e o saudável clima da vossa pátria. Trazei à lembrança que muitas vezes tendes recolhido abundantes frutos, em recompensa das vossas fadigas, e que não convém ceder aos primeiros golpes da adversidade180. A 5 de Fevereiro de 1853181The Illustrated London News dava conta ao público londrino da nova fatalidade que assolava a ilha. No breve historial da situação pre-

178. “Notícia da Madeira”, tradução do alemão por J. Félix Pereira, in A Lâmpada, nº 27, p. 3. 179.“Annaes do Municipio da Antiga Villa de Machico-Ilha da Madeira”, in Flor do Oceano (1865), nº 260, p. 2. 180.Proclamação avulsa, BNL, Leitura Geral, J. 437M. 181.Ruppert Crooft-Coock, ibidem, p. 9.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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cavia-se o comerciante menos avisado para as consequências que se seguiriam nas exportações. Em 4 de Junho, ia já avançando o estado de crescimento do cacho, o Amigo do Povo182 referia o alastramento da moléstia a toda a ilha, fazendo apelo ao Governador Civil para que fossem tomadas medidas: Convoque-se a Sociedade Agrícola, unam-se a ela todos os homens inteligentes e amigos da pátria, delibere-se aí o que convém reclamar a bem da agricultura.... Pois como refere Já não resta dúvida a pessoa alguma que a mangra é geral em todas as vilas, posto isto, é mister que desde já se oficie ao governo reclamando as providências adequadas parecerem para nos socorrer em quanto é tempo. A. G. Gomes, em comunicado no Clamor Público183, alude à moléstia, a quem acusa da origem da desgraça que se abateu sobre a ilha: No pio sinistro de 3 anos, um aluvião de mangra tem encomendado nossas vinhas à desgraça, roubou-nos 3 novidade, no valor aproximado de 4 mil contos de reis. Perdidas estas novidades, a fome tem, crescido de dia para dia em toda a extensão desta ilha. A gravidade da crise de fome e a situação das vinhas, principal origem do sustento da maioria dos madeirenses, levaram a que as autoridades fossem obrigadas a intervir. Em 1853 foi criada em Lisboa uma comissão para fazer o estudo da situação, merecendo o desacordo de O Amigo do Povo que considerava colidirem as suas competências com a Sociedade Agrícola184. Entretanto, a 15 de Julho185 reuniuse a Sociedade Agrícola, para estudar a conjuntura decorrente da mangra e o nomear de uma comissão para estudo da crise186. Mas, a Academia de Ciências de Lisboa enviou à ilha João Andrade Corvo com intuito de estudar a moléstia da vinha. Esta atitude foi acolhido com grande regozijo pelos madeirenses187. Da deslocação resultou um relatório sobre o estado das vinhas do arquipélago188. D. João da Câmara Leme, à altura em Paris, de imediato enviou à ilha os esclarecimentos necessários sobre a doença e o modo de a atacar. Em texto publicado no Estudo de 30 de Novembro de 1852, manifestou-se contrário à emigração, aconselhando que tratassem de conservar as suas vinhas pelos meios que a ciência e a experiência mostrassem ser os melhores, e que tivessem resignação, confiança no Senhor e esperança no futuro189. Ao mesmo tempo apresentou os meios usados em França para combater a mangra por meio de pó de enxofre. Ainda, em França, o Barão de Ornelas deu conta de um novo processo de tratamento com sulphur que só começou a ser utilizado a partir de 1861190. Outros processos de combate foram descobertos e ensaiados em Espanha e o cônsul português deles deu notícia à repartição da Agricultura do Ministério de

Obras Públicas, Comércio e Indústria que, por sua vez, se encarregava de comunicar à Madeira. Em 2 de Agosto de 1853 tivemos notícia do tratamento das cepas com cal e sangria. Em 17 de Agosto, a partir dos ensaios de D. Eramos de Janes, avançou-se com a aspersão do cacho com sulfato de ferro dissolvido em água191. E, finalmente, em 5 de Agosto de 1854192 divulgou-se a solução descoberta por D. José Sacristia, natural de Barcelona: Toma-se pouca de lã, cânhamo, estopa ou pelo, e far-se-á na extremidade superior do corpo das cepas, atada com um fio, banhandoa com qualquer azeite, substância gordurosa, ou mesmo alcatrão. Far-se-á isto durante o mês de Junho e no princípio de Agosto, cortar-se-ão as vides, desde a extremidade ate ao ponto em que pendemos o cacho. Tendo em conta que o oídio é uma doença que ataca a flor da vinha, fácil será de deduzir o desconhecimento que então havia sobre a origem da moléstia, pelo menos por parte dos autores dos processos usados em Espanha, e de quem os divulgava em Portugal, em oposição aos conselhos do Conde de Canavial e do Barão de Ornelas, que apresentavam meios de reconhecida probidade científica. O primeiro de regresso à Madeira tomou contacto com a situação lamentando-se de a sua voz não ter sido ouvida: Infelizmente a minha voz não foi ouvida. Não foram seguidos os meus conselhos. Cruzaram-se os braços; o flagelo caminhou sem encontrar obstáculos, deixando por toda a parte ruína e destruição; e, quando, mais tarde, os lavradores, acordando do letargo, quiseram acudir às suas vinhas, não encontraram já senão cadáveres. Veio então a miséria com todos os seus horrores. Veio a emigração e a Madeira, vestida de andrajos, esmolando de cidade em cidade, de paíz em paíz. Que dolorosas recordações. Mas também que profícua lição193. As perdas foram elevadíssimas, colocando a ilha num completo estado de prostração. Segundo dados oficiais as perdas cifraram-se em mais de um milhão de réis.

182.Nº 134, p. 1, vide igualmente nº 135, pp. 1/2. 183.Nº 9, p. 4, vide nº 10, p. 1 e 4, onde se refere a acção então desencadeada, não se poupando críticas severas ao Governo Civil. 184.Nº. 135, pp. 1/2. 185.O Amigo do Povo, nº 135, p. 4. 186.Idem, nº 136, p. 1. 187.Idem, nº 142, p. 1. 188.Apresentado à Academia de Ciências em sessão de 3 de Fevereiro de 1854. 189.Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha, Funchal, 1872, p. 2. 190.Ruppert Crooft-Coock, ibidem, p. 92.

VALOR DAS PERDAS LOCALIDADE VALOR EM RÉIS Funchal 638.120$000 Santa Cruz 50.999$000 Machico 31.200$000 Câmara de Lobos 150.000$000 Ponta do Sol 25.000$000 Calheta 20.000$000 S. Vicente 120.000$000 Santana 103.670$000 Total 1:137.990$000 Fonte: Alberto Vieira, História do vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.295

191.O Amigo do Povo, nº 177. 192.Idem, p. 2. 193.Idem, p. 2.

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Phylloxera Vastatrix Vinte anos depois da mangra da vinha, surgiu outra doença, não menos catastrófica, que deu o golpe mortal à viticultura madeirense: A moléstia da vinha que me refiro foi descoberta na América em 1854, em Inglaterra em 1863, e em França também em 1863, mas só bem determinada neste paíz em 1866. Em Portugal foi notada de 1868 para 1869194. Segundo F. Almeida Brito chegou em 1865 em bacelos de Izabella, ou vinha americana, castas resistentes ao oídio195. Os primeiros indícios da doença contagiosa foram detectados em 1872 por D. João da Câmara Leme, em amostras de S. Gonçalo e S. Roque, cedidas por um lavrador196. A partir de então o cientista dedicou-se ao estudo da fêmea aptera e dos pós escuros na senda de encontrar o processo adequado de tratamento. Em 15 de Outubro de 1876 o inglês Michael Grabham publicou no Times197 uma carta sobre o estado da cultura da vinha na ilha dando conta dos efeitos devastadores da filoxera: Os cultivadores que plantaram vinhas depois da primeira moléstia que os destruiu, gosaram apenas de pouca prosperidade, porque a phylloxera vastatrix, insecto que suga as raízes, espalha geral e completa destruição. Nos melhores pontos os lavradores estão já queimando em montões os corredores das suas ainda há pouco belas plantações, e nos lugares menos importantes a devastação está quasi a par das outras. Nos arredores do Funchal não há uma só parreira em condições de vigor e é claro que já se não deve esperar colheita considerável de vinho bom198. A declaração, em tom alarmista, provocou a reacção dos produtores e comerciantes locais (nacionais e estrangeiros). O articulista de O Popular, ao publicar a tradução da carta, tece algumas considerações sobre as intenções do Sr. Grabham ao publicar a missiva alarmista, notando os erros da visão, pois a área alastrada, resumiase apenas a Câmara de Lobos, Estreito e arredores do Funchal (S. Martinho, Santo António, Monte, S. Gonçalo), enquanto a maior parte dos vinhedos da ilha ainda se acham cheios de vigor e de vida e em estado de produzirem de futuro, como produziam no corrente ano (1876), grandes quantidades de excelente vinho199. Refere-se, ainda, que a filoxera não atingiu a Quinta Grande, Campanário, Fajã dos Padres, Paul do Mar, Ponta do Pargo, ou seja as melhores áreas de vinhos da ilha. Cossart Gordon & Ca.200 em carta ao periódico londrino desmente o tom catastrófico da missiva do compatrício: não há dúvida que a philloxera tem feito algum dano às vinhas este ano (1875), mas a nossa casa, segundo nos escreveu da ilha em 15 de Agosto do corrente (Setembro último), informa-nos que a qualidade da colheita deste ano é boa, tanto quanto se pode julgar pelo sacarímetro, e que a quan194.D. João da Câmara Leme, Carta sobre a Moléstia da Vinha da Madeira, p. 2. 195.F. A. Silva, Elucidário Madeirense, vol. I, p. 31. 196.Uma Crise Agrícola..., pp. 122/4. 197.Tradução e publicação em O Popular, nº 73, p. 2.198. Idem, p. 2. 199.Idem, p.3. 200.Publicado no Diário de Notícias, Funchal, nº 5, pp. 1/2.

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tidade vem a ser muito grande em proporção dos embarques, posto que menos que menos que a do ano passado201. Em 5 de Outubro foi a vez de Leal Irmãos & Ca., a dirigir-se ao mesmo jornal para desfazer as notícias do Sr. Grabham: E verdade que a filoxera já apareceu na Madeira, mas o facto não é tão assustador como o seu correspondente parece querer profetizar, a produção dos nossos vinhos tem aumentado nos últimos anos.202 Idêntica opinião tinha um articulista de A Lâmpada em 26 de Setembro de 1873203 ao referir-se que a moléstia ainda não havia alastrado a toda a área vitícola, apontando-se a necessidade de proteger as que ainda estavam imunes como era o caso do Porto Santo. Segundo Carlos Azevedo Menezes a acção da filoxera foi tardia de modo que em 1908 ainda se fazia sentir: A philloxera, que apareceu pela primeira vez na Madeira em 1872, só há poucos anos se manifestou igualmente no Porto Santo, mas apesar de ser recente a sua introdução, consideráveis são já os estragos que tem causado. As cepas mais atacadas, têm sido as dos terrenos argilosos, mas n’alguns pontos, embora poucos, onde o solo é arenoso, também as vinhas têm sido invadidas por esse insecto. Segundo nos informam, as cepas do litoral desapareceram quasi todas, só existindo ali duas faixas cultivadas de vinha, uma do Espírito Santo e outra na Ponta. (...) A não se cuidar a sério na introdução de cepas resistentes e adequadas aos terrenos, grandes devastações poderá sofrer ainda a viticultura porto-santense, pois a experiência tem mostrado que as areias nem sempre constituem um dique à invasão da terrível phylloxera204. No período sucedâneo de 1877/1880 o panorama dos vinhedos da Madeira poderia ser considerado dramático. Os efeitos da doença eram visíveis, principalmente na área circunvizinha do Funchal, como testemunha Henry Vizetelly em 1877. Da visita que fez dá conta da situação. Sobre as vinhas das terras de Thomas Slapp Leacock em S. João refere: Não há muitos anos, o vinhedo do Sr. Leacock foi atacado pela filoxera e muitas vinhas foram seriamente afectadas. No entanto, o proprietário, através do seu atento cuidado e de tratamento sensato, incluindo a aplicação de uma espécie de verniz nas raízes principais da vinha, o qual neste caso parece ter sido o necessário, conseguiu recuperar a maior parte das vinhas doentes, atingindo uma condição comparativamente saudável. O cultivador de vinha na Madeira tem não só pavor da filoxera, como também que proteger as suas vinhas contra o oídio. Isto consegue-se enxofrando-as, mas esta prática tem a desvantagem de se tornar difícil retirar todo o enxofre do fruto. O Sr. Leacock faz isto com a ajuda de um fole e escovas que as mulheres aprenderam a usar com paciência e jeito na estação do ano em que as cascas das uvas começam a brilhar205.

201.Idem, p. 1 202.Diário de Notícias, nº 16, pp. 2/3. 203.Nº 39. p.1. 204.“A Navegação e Clima do Porto Santo”, in Portugal Agrícola, 1908, nº 6, p. 81. 205.Idem, ibidem, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.381

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José Silvestre Ribeiro

Conde de Canavial

A situação trazia à mente do insulano os tempos difíceis passados com a fome de 1847 e a crise de 1852. Estavam criadas as condições para reacender o debate na imprensa. Primeiro foi a procura desesperada das curas possíveis, a que se seguiu a tentativa de implantação de novas culturas como a cana-de-açúcar, o tabaco e a cochonilha206. Aqui evidenciaram-se algumas personalidades locais, conhecidos pela actividade política e dom da oratória, como D. João da Câmara Leme. O Conde de Canavial, cientista madeirense, havia adquirido em França a experiência e conhecimentos científicos necessários para se dedicar à investigação enológica e à Medicina. A ele se deve um dos raros estudos sobre a filoxera vastatrix207, os processos de tratamento das videiras infestadas, e as soluções para a crise vitícola com a definição de uma politica de desenvolvimento local e a criação de uma associação de viticultores 206.Vide estudos de D. João da Câmara Leme, Uma Crise Agrícola...; e jornais da época, especialmente O Direito, A Lâmpada, Diário de Notícias, o Popular. 207.Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha da Madeira, Funchal, 1872.

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e comerciantes208. Segundo afirmava todos os processos e meios até então usados para combater a doença da vinha209 haviam sido quasi todos ineficazes, insuficientes ou inaplicáveis210 tendo em conta que o progressivo desenvolvimento da nova moléstia da vinha não devida a um estado particular das videiras, mas sim ao contágio e propagação da phylloxera..211. Só devemos combater a nova moléstia da vinha, como hoje combatemos a sarna no homem e os animais; isto é prevenindo quanto possível o contágio, e destruindo o acarus nos indivíduos em que ela se manifesta, não simplesmente com remédios internos e gerais, como faziam os antigos, mas sim, e sobretudo, por meio de agentes insectidos aplicados localmente. Para impedir o contágio é indispensável procurar destruir a phylloxera nas vinhas já atacadas, ainda que não sejam de todas mortas, ainda quando seja necessário para isso sacrificá-las. (...) a conservação das vinhas sans exige que se sacrifique as vinhas atacadas de moléstia e que já estão votadas a uma morte certa; pois que só enquanto o vinho tem vida, só enquanto tem raízes suculentas que possam ministrar alimentos aos phylloxeras, é que se acham junto delas e podem ser aí destruídos212. Por isso propunha as seguintes medidas para atacar a doença das cepas. 1º nomear uma comissão, com a sua sede na cidade do Funchal, encarregada de estudar a nova moléstia das vinhas na Madeira, fazer ensaios, e propor os meios convenientes de a debelar; 2º criar em cada concelhos uma comissão filial presidida pelo respectivo administrador e da qual devem fazer parte os párocos, o presidente da câmara municipal, e alguns dos proprietários mais instruídos, - comissões que se corresponderiam com a comissão central dando conhecimento do desenvolvimento da moléstia, dos sintomas observados, dos ensaios feitos, e dos resultados obtidos; 3º fornecer, já pela caixa de socorros, sendo possível, já por subscrições, ou por qualquer outro modo que V. Exa. (dirige-se ao governador civil) entender conveniente, os recursos necessários para que essas comissões possam pôr em prática os meios que entenderem dever-se empregar para preservar as nossas vinhas de tão terrível calamidade”213. O Governador Civil deu bom acolhimento à medida proposta, como se pode ver em carta de 28 de Agosto de 1872214 em que lhe solicitava a indicação das pessoas adequadas para fazerem parte da comissão. Em 30 de Agosto215 apontaram-se as seguintes: Juvenal Honório de Ornellas, José Leão Drumond Cavaleiro, Domingos Alberto Cunha, Maurício de Andrade, João Maria Moniz, João Araújo Cunha, Francisco António de Freitas Abreu, Salvador Augusto Gramito d’Oliveira. Por

208.Uma Crise Agrícola..., pp. 143/5. 209.Vide Uma Crise Agrícola..., pp. 118/31, as transcrições e referências aos processos usados ou experimentados localmente e em França, e mais referências ao mesmo em Uma Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha, pp. 12/5. 210.Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha, p. 9. 211.Idem, ibidem, p. 11. 212.Idem, p. 11.213. Idem p. 15. 214.Idem, pp. 17/8. 215.Idem, p. 19.216. Idem, pp. 20/21.

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alvará régio de 11 de Setembro foi criada a comissão216. Mas pouco ou nada sabemos da actividade desenvolvida, ficando condenada ao malogro por força da luta política e partidária217. A 8 de Outubro de 1876 o Governador Civil, Francisco Albuquerque Mesquita e Castro convocou uma reunião para estudo da crise agrícola, protestando D. João da Câmara Leme, quer pelo aspecto formal da reunião pública218, quer pelas declarações aí proferidas219. E, mais uma vez, no discurso apresentou a solução para a crise220, com forte impacto nos jornais, nomeadamente nos afectos ao Partido Progressista de que o Conde era o líder local. Tal foi o caso de O Direito que referia, a propósito: Tomou então a palavra o Sr. João da Câmara Leme, e num brilhante discurso, fez sentir o estado agrícola do paíz, a grave crise que este atravessava, e, em linguagem enérgica, apontou o mal e aconselhou o remédio eficaz para o debelar; demonstrou a evidência, a utilidade, a riqueza agrícola da cultura da beterraba; e leva igualmente à convicção de todos os que o escutavão o grande alcance do meio de transporte ou viação acelerada por um cabo, como S. Exa. propunha. Era o homem da ciência que falava, o trabalhador incansável que expunha aos seus concidadãos o fructo das suas vigílias em favor da terra natal, que tanto honra. O discurso do Sr. Câmara foi extenso mas suculento, construtivo, à altura de ser proferido numa academia, como o foi ante homens ilustrados”221. O Conde de Canavial, confrontado com a convocatória da reunião da Sociedade Agrícola para 27 de Novembro sentiu-se magoado por ver as propostas votadas ao esquecimento pelas autoridades civis, decidindo não comparecer, mas presenciando de fora com olhar crítico o que aí se passou222. Discordou da argúcia das palavras do Governador Civil e da medida reabilitadora da decadente Sociedade Agrícola: E dizem que a Sociedade Agrícola ressuscitou... não ressuscitou, não. Arracaram-na morta do túmulo; deram-na morta em espectáculo público; e morta a encerraram, de novo no túmulo, repetindo em coro - requiescet in pace223. Proveita ainda para desfazer qualquer dúvida que as tomadas de posição pudessem suscitar: não faço oposição a este ou aquele ministério, a este ou aquele representante do governo: revolto-me contra todos os que se opuseram à realização do que for útil, justo, necessário. Quem quiser unir-se em torno desta bandeira, alistar-se nesta cruzada, combater nesta fileiras, achará em mim um fiel companheiro. Venham todos os que prezam deveras o bem do seu paíz; formemos um grupo forte; não para servir um conilho político qualquer mas para empreender tudo quanto for conveniente e proveitoso à

causa pública224. Em 30 de Julho de 1879 D. João da Câmara Leme foi finalmente nomeado Governador Civil, com a possibilidade de pôr em prática as soluções que há muito tempo vinha pugnando. Mas se assim o pensava, cedo chegaria à conclusão que se havia enganado, pois que instalado no cargo teve de fazer frente aos adversários políticos que dominavam parte dos serviços administrativos e se negaram a põr em prática as medidas. O primeiro facto surgiu em 11 de Agosto225, quando solicitou às câmaras e Administradores dos concelhos do distrito um parecer sobre o estado da agricultura de cada zona. Todos se escusaram226, invocando razões várias, o que o não impediu de fazer um breve relatório em 6 de Dezembro de 1879227, dando conta da situação aflitiva da ilha e da falta das necessárias medidas por parte de Lisboa, ou a autorização para serem postas em prática as por si apresentadas, pois como refere a Madeira, não só não poderá entender-se, mas há-de forçosamente esmorecer, se não tiver eficaz protecção228. Mais uma vez aguardou-se por soluções de Lisboa que tardavam e só chegaram depois da filoxera ter alastrado no continente. A partir de então a situação da ilha tornou-se clara para as autoridades nacionais e surgiram medidas para atacar a crise vitícola. Houve que aguardar pelo ano de 1882 e pela acção da recém-criada Comissão Anti-filoxérica Distrital (5 de Agosto)229 para que fosse posta em prática uma política de auxílio aos viticultores no sentido de minorar os feitos da crise. A nova comissão composta por ilustres personalidades locais - Henrique de Lima e Canto, João de Calles Caldeira, Manuel José Vieira, John Leacock, Daniel Simões Soares - tinha como objectivo combater a filoxera por meio do uso do sulfureto de carbono, montando para o efeito um posto de tratamento. Ao mesmo tempo incentivava os viticultores ao replantio da vinha com castas resistentes. Em sessão de 20 de Dezembro de 1882230 foi deliberado solicitar à comissão central que o distrito do Funchal, excepto o Porto Santo231, fosse considerado zona invadida pela filoxera. Na reunião tratou-se da criação de um viveiro de cepas americanas para as campanhas de replantio. O processo arrastou-se por algum tempo e o viveiro por ser instalado nas propriedades de Maurício Carlos Castelo-Branco232 e depois foi transferido para outros terrenos no Ribeirinho e Torreão233. O presidente da comissão, João Salles Caldeira, havia ensaiado com êxito as cepas americanas nas

217.Uma Crise Agrícola..., p. 39. 218.Idem, ibidem, pp. 40/3. 219.Idem, pp. 44/6, 61/72. 220.Idem, pp. 46/56. 221.Idem, p. 73, igualmente Joaquim Ricardo de Trindade Vasconcelos em 15 de Outubro, no Diário de Notícias refere-se à acção de D. João da Câmara Leme, cit. idem, ibidem, pp. 74/9. 222.Idem, pp. 114/24. 223.Idem, p. 138.

224.Idem, p. 142. 225.D. João da Câmara Leme, Apontamentos para o Estudo da Crise Agrícola no Distrito do Funchal, pp. 8/10. 226.Idem, ibidem, pp. 11/3; só houve uma resposta satírica apresentada sob o pseudónimo João Craca, publicada em Lisboa em 1879. 227.Idem, ibidem, pp. 15/110. 228.Idem, ibidem, p. 31. 229.ARM, GC, nº 85, fols. 1vº-2vº.As actas das reuniões foram publicadas por Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 127-134 230.Idem, fols. 5/6. 231.Quanto à ilha do Porto Santo, porém, que não deve ela ser compreendida nesta lista porque pela natureza do seu terreno (arreias finas) e isolamento da ilha se espera que ela se conserve indemne... [Idem, fols. 1vº-2vº.] 232.Idem, fol. 2. 233.Idem, fols. 11/2.

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propriedades da Madalena (Santo António)234, como incentivo para a acção da comissão que de imediato procedeu plantação de bacelos e sementes americanas. Em 27 de Março de 1883 a comissão mandou avisar os jornais locais que comunicassem ao público de que distribuíam gratuitamente grainhas de vinhas americanas resistentes235. Daqui resultou a distribuição de 6.000 pés de videira de diversas castas americanas resistentes. Ao mesmo tempo recomendou-se ao Juiz da Alfândega que permitisse a entrada dos bacelos americanos sem cobrança de qualquer direito236. Em 1885 nos 2000ha de vinha destruídos temos 40ha com videiras americanas. A Junta tentou, ainda, recorrer aos métodos de tratamento disponíveis no sentido de conservar as poucas castas não atacadas ou de minorar os efeitos da doença nas já atacadas. Assim, estabeleceu-se um posto de tratamento, vindo em 1882 dois inspectores do reino com alguns barris de sulfureto e as instruções para proceder ao trabalho237. O prático, foi enviado, em Março, às freguesias de S. Vicente e Calheta238. Em 1883239 os trabalhos de sulfuração dos terrenos afectados estavam a cargo de António Brito Guedes. No tratamento da vinha o proprietário pagava 1/3 do custo do tratamento, ficando o restante a cargo da comissão. Mesmo assim a área abrangida pelo tratamento do sulfureto não ultrapassava os 4ha, quando tínhamos 2000ha de vinha afectada. Desde 10 de Junho de 1883 funcionou uma comissão de inspecção às vinhas composta por F. Almeida Brito (Inspector Geral), Salvador Gamito de Oliveira (Intendente pecuário), João Salles Caldeira (Presidente da comissão antifiloxérica do distrito), para saber das áreas afectadas, aconselhando o processo de tratamento e adquirir os necessários elementos para elaborar o mapa filoxérico da Madeira240. Na conformidade do decreto de 2 de Novembro de 1880 e do ofício da Comissão Central de 16 de Julho de 1883, surgiu a 7 de Setembro de 1883 a Comissão de Vigilância à ilha do Porto Santo composta por João Fausto de Santana e Vasconcelos, Pedro Júlio de Vasconcellos, José Alexandre Lomelino de Vasconcellos, Júlio César de Vasconcellos, Tomás Maria Tello, Manuel António Ruas e Luís Faustino de Vasconcellos, com função de vigiar as vinhas de forma a evitar o ataque da filoxera. A partir de 5 de Abril de 1888, com a criação da Comissão de Auxilio à Lavoura da Madeira241, todas as tarefas de combate à filoxera transitaram para a sua alçada. Manuel do Carmo Rodrigues Morais havia sido enviado à ilha, segundo portaria de 4 de Fevereiro de 1888, em comissão com o fim de estudar o estado da cultura da vinha e cana doce na ilha, distribuir gratuitamente pelos agricultores videiras ameri-

canas e cana doce de castas resistentes às respectivas doenças, bem como estabelecer e organizar a estação química agrícola desta 100 região agronómica e o campo experimental adjacente e demonstrativo, junto da mesma estacão e em outras pontas da ilha242. O certo é que toda a acção, incluso da comissão apoiante, composta pelo Visconde do Ribeiro Real, Domingos Alberto da Cunha, João Maria Curado de Vasconcelos e José Eduardo Gomes, se orientou para a procura de uma cultura alternativa com valor mercantil. Daqui resultaram novas experiências com a cana-deaçúcar, chá e tabaco. As actas das sessões realizadas são elucidativas e abundam em informações sobre a cana doce vinda de Demerara243, Jamaica244, Taiti, Maurícias, Brasil245 e Canárias246, que se distribuíram pelo Funchal, Porto da Cruz, Ponta Delgada, Ponta do Sol247. Para o vinho as referências são mínimas. Apenas se dá conta da distribuição das castas pagas248. Em 16 de Março de 1889 os 15 requisitantes receberam cada um 687 bacelos. Manuel José Vieira adquiriu 135 bacelos de três castas e a Tomás Rebelo bacelos de quatro castas249. A situação evidencia uma tendência para a concentração da cultura em determinados proprietários com capacidade para enfrentar a despesa que o acto acarretava. Além disso, refere-se a necessidade de trato das vinhas com o uso do adubo betuminoso antifiloxérico250. A comissão, ao fim de dois anos de actividade, foi extinta por ofício de 20 de Dezembro e portaria de 30 de Dezembro de 1889 realizando-se a última sessão em 13 de Janeiro de 1890251. Não terminou aqui a acção das doenças da vinha. O míldio atacou os vinhedos nos anos de 1894 e 1912. A cultura da vinha passou a merecer por parte do viticultor excessivos cuidados. O uso de pesticidas e a enxertia são hoje os meios de tratamento contra as doenças252. As doenças ainda continuam a fazer sentir os efeitos sobre a cultura, onerando os custos de produção. De acordo com José Tavares253 em 1938 os custos médios do cultivo da vinha no Porto Santo foram onerados em mais de 28%. A política de reconversão e expansão da vinha contou, a partir de 1972, com a intervenção do Governo através da Junta Geral, criando-se campos experimentais na Ribeira Brava, Ponta do Pargo, Câmara de Lobos, Estreito da Calheta. Com o processo autonómico o Governo Regional reforçou a aposta na viticultura com novos campos em S. Vicente, Ponta Delgada, Seixal e S. Jorge. A par disso, entre 1973 e 1983, foram distribuídos 1.168.519 bacelos254.

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234.Idem, 235.Idem, 236.Idem, 237.Idem, 238.Idem, 239.Idem, 240.Idem, 241.ARM,

fols. 2vº-3. fols. 14vº-5. fols. 16vº-17vº. fols. 3vº/5, 7vº/9vº. fols. 11/12, 17. fol. 8. fol. 15. GC, nº 149, pp. 1/7.

242.Idem, p. 1. 243.Idem, pp. 1/7, 20/4. 244.Idem, p. 30. 245.Idem, pp. 33, 37. 246.Idem, p. 21. 247.Idem, pp. 2, 8/15, 23/30, 63/74; vide igualmente livro nº 150. 248.Idem, pp. 49/51, 55/60. 249.Idem, pp. 60/1. 250.Idem, pp. 29/34. 251.Idem, pp. 75/78. 252.Eduardo Pereira [Ilhas de Zargo, vol. II, pp. 575-576] refere ainda outras pragas que atacam a vinha: gota, lapa ou sarnica, lapa preta, alforra, e a lagarta. 253.Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, Funchal, 1953, p.44 254.Noel Cossart, ob.cit., p.82

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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D Da vindima ao lagar

Armazéns da firma Blandy Brothers & Co. Gravura A. Vizetelly, 1880

A Vinificação O ciclo vitícola distribui-se entre o plantar do bacelo, o trato das videiras e as tarefas rotineiras da vinha distribuídas ao longo do ano, em muitos casos executadas de acordo com determinados princípios supersticiosos que a tradição não deixou esquecer, transmitindo-os de geração em geração sob o olhar expectante das autoridades interessadas em inovar. Aqui apenas destacaremos alguns aspectos da vinificação madeirense iniciada com a vindima, que tem expressão em diversas tarefas como a pisa, repisa, fermentação e trato do vinho.

A vindima, pelo movimento desusado de pessoas e animação é considerada o momento mais importante da faina rural ligada à vinha. Ao longo do ano sucedemse os diversos cuidados com a vinha, quase sempre a cargo dos homens, atingindose em Setembro o clímax com a vindima, que conta com a participação de todos. É aqui que o agricultor vê o esforço compensado pela contemplação dos maduros e luzidios cachos ou amenizado com os cantares característicos da época. As trovas populares alusivas ao momento davam a necessária animação e alento. Setembro é, por excelência, o mês das vindimas. Ao Agosto, de férias e festas, sucede-se o mês do trabalho em que a viticultura é rainha. As terras de vinha são o centro de todas as atenções. Do Estreito de Câmara de Lobos a S. Vicente, tudo se movimentava em torno das latadas, dos poucos lagares e inúmeros postos receptores de uvas. No passado o movimento era inusitado, ocupando quase todas as gentes. Era um verdadeiro assalto às vinhas e lagares. Os senhores desciam do burgo ao campo a observar e fiscalizar os pâmpanos de uvas e o pastoso mosto. Os demais iam à procura de trabalho, pois a vindima aumentava a oferta de trabalho e, por isso, em meados do século dezanove com o espectro da fome e da emigração, as autoridades rejubilavam por se fecharem, ainda que temporariamente, as portas da emigração. A cidade ficava deserta. Todos estavam nas vindimas: uns a reivindicar o pecúlio, outros no árduo labor da apanha, transporte, pisa da uva e posterior condução do mosto aos tonéis, para descanso de alguns meses, até à viagem ao Funchal. O processo era moroso e implicava a presença de mão-de-obra para que as tarefas fossem executadas atempadamente. Hoje tudo mudou. As terras não são de colonia ou de rendeiros. As tarefas da vindima perderam em bucolismo mas ganharam em alívio do esforço humano. O dorso do Homem deu lugar à caixa da furgoneta, o lagar passou a peça de museu, sendo o serviço executado pela hodierna maquinaria. O borracheiro desapareceu da paisagem, dando lugar às cubas de metal, transportadas encosta acima pelo automóvel. A força do progresso joga a favor do madeirense e contra o espectador (turista de dentro e de fora) que se compraz no sofrimento dos outros. Não foi o

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Máquina de moer uvas. Museu de Photografia Vicentes.

instinto destruidor que fez apagar a bucólica imagem mas a urgência de libertação do madeirense da canga acumulada no dorso, há mais de quinhentos anos. Na actualidade resta apenas a obra de engenharia que são os poios, agora ligados por estrada, e o canto de Vieira Natividade em a Madeira. Epopeia Rural. Ninguém melhor que ele entendeu a luta hercúlea do íncola contra a natureza. Ninguém como ele sentiu a dor e sofrimento do madeirense no acto de transformação do rochedo em horta ajardinada. A imagem, que pertence ao passado, perpassa a escrita poética. Pretender o regresso ao passado é atraiçoar o progresso e perpetuar o secular sofrimento. O Eco-museu, realidade que não entrou no quotidiano, em que o visitante é participante activo é a resposta e o meio de harmonização do passado com o presente. A emoção ao vivo não deve ficar-se pela hipócrita contemplação mas alargar-se à observação participante. E, talvez, consigamos entender o grito de dor e os impulsos que fizeram progredir e inovar as tarefas que fazem parte do dia à dia das vindimas. Assim, fica demonstrado que o progresso não é o virar de costas ao passado, mas a expressão do presente e a projecção para o futuro. Em muitos lugares o ciclo de trabalho revestia-se de um cerimonial inaudível que atraía centenas de forasteiros da cidade. Sucedia assim em Câmara de Lobos nas quintas do Visconde de Torre Bela, do Conde de Carvalhal como no Estreito da Calheta e terras de João Nascimento255. Hoje temos algumas manifestações que pretendem recordar a faina em torno da vinha e do vinho. Referimo-nos às festas da uva, do Porto da Cruz e das vindimas, desde 1980, no Estreito de Câmara de Lobos e Funchal. Ambas as evocações são o momento ideal para a comunhão do passado com o presente. 255.J. Reis Gomes, Op. cit., pp. 7/11.

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Lagar. Museu de Photografia Vicentes.

A festa das vindimas é uma tradição antiga estando documentada a realização no Funchal em 1938, 1945 e 1946256. Para além do Funchal refere-se ainda em S. Vicente uma ocasional comemoração em 1981257. Hoje é ainda possível o reencontro com o passado através das memórias descritivas e romances como sucede com Horácio Bento de Gouveia, o retratista das emoções rurais do norte da ilha, nas gravuras inglesas ou fotografias, de que fizemos uso numa exposição que teve lugar no Teatro Municipal em Outubro de 1982. Os museus do Funchal sobre a temática são os fiéis depositários. A época da vindima, que se estende de Agosto a Setembro ou Outubro, é o momento de maior azáfama rural e origem de migrações internas. Em terras onde imperava o contrato de colonia, a apanha da uva subordinava-se à autorização do senhorio, a disponibilidade de lagar e ao chamar gente para o dia aprazado: Os colonos ao passo que as uvas amaduravam, dirigiam-se ao senhorio ou feitor a pedir licença para fizeram a colheita, a apalavrarem o dia de empréstimo dos lagares. Os quais, porque em número restrito, não bastam nunca para os pedidos. E assim,ainda um lagar está a empesar um pé de uvas, já para dentro dele se despejam cestos sobre cestos, propriedade de outrem. Logo que a manhã dealba, onde o mar toca no céu, começa a labutação de fazer vinho de uvas que fazem apanhadas de véspera e o bulício lagareiro prolonga-se, fora de horas até passante da meia-noite258. A vindima ocorria no dia marcado e desde muito cedo a azafama era grande: ... 256.Danilo José Fernandes, O Folclore em Eventos Sociais entre 1850 e 1948, Funchal, 1999, pp.34, 71-77 257.Horácio Bento de Gouveia, Crónicas do Norte, Funchal, 1994, pp.112-115 258.Horácio Bento de Gouveia, A Canga, Coimbra, 1975, pp. 116/7.


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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por toda a parte, em montados, fajãs, cabeços, fraldas da montanha, um agitar de braços fazia estremecer as folhas das vinhas. Velhos e gente nova, munidos de facas e navalhas, cortavam os cachos que lançavam para dentro dos cestos pequenos os quais por sua vez, se despejavam em barreleiros, que se enchiam, até que as uvas, acamadas umas sobre as outras para cima da roda da beira se acogulavam. E alçados trabalhadores a carregarem os barreleiros às costas a caminho do lagar...259. Já no lagar, os homens de pé descalço e calça arregaçada após a respectiva licença do senhorio da lançavam-se aos montes de uvas260. Iniciada a tarefa os cachos esborrachavam-se e o mosto espumava na tina formando bolhas que cresciam e rebentavam para dar lugar a outras que se vão desfazendo por sua vez261. Esmagadas as uvas o bagaço era arrumado ao centro, posto em pé enrolado helicoidalmente, por uma corda, que dá todo o aspecto dum tronco de cone de largas bases sobre a superior como diâmetro, e na direcção da “vara” assenta o “juiz” decidindo, pela justa colocação da proficuidade dos esforços que o todo se prepara para suportar. E em cima do “juiz” que se colocam “sucessivamente” as tábuas, os “malhais”, e a “porca”, os “leitões”, e por último o “cachaço”, pedaço de madeira de grossura variável, sendo este último que recebe directamente a acção da vara. O estremo livre desta grossa trave é atravessado pelo “fuso” que se prende inferiormente à pesada “pedra de lagar”. Pondo-o em movimento de aperto, atarrachandoo, a pedra, que descansava no solo, levanta-se e fica exercendo pressão sobre o bagaço. É a chamada empesa262. ... no silêncio da noite, ao longo e ao perto, ouvese o guinchar, o ranger das roscas do fuso que vai andando em torno da concha e subindo na parte a vara com o esforço dos braços do homem, até fazer a pedra levantar do chão263. ... e cai da bica do lagar, na tina, o mosto espumoso e pegajento que é medido pelo pote e canada nos barris...264. Depois pela noite segue-se a repisa, em que se humedesse o bagaço obrigando a deitar o último pingo de vinho. Só então depois de espremido todo o vinho é que o senhorio autoriza o caseiro a fazer a água-pé, a chamada babida “dui proves”265. Feito o vinho, o mosto era vendido à bica do lagar ou transportado à adega que se situava junto à costa ou no Funchal. O colono só ficava com a água-pé, pois a parte do mosto que lhe cabia era vendida, de ordinário, ao senhorio e muito raramente ao comerciante. O facto de não dispor de adega ou vasilhame condicionava o campo de acção. Eram muitos os abusos praticados com as vindimas fora de tempo, porque os colonos não esperão que as suas uvas estejão perfeitamente sazonadas para as vindimarem; nem no tempo da vindima fazem a precisa escolha que se requer para que não se misture o verde com o maduro...266, conduziu às reclamações dos senhorios

ao monarca, solicitando medidas urgentes contra tais práticas, o que foi prontamente atendido pelo regimento das vindimas de 16 de Agosto de 1785267. Aí estabeleceu-se o processo e a obrigatoriedade da escolha das uvas. Quanto ao primeiro deliberouse que em nenhuma das freguesias desta ilha se fará vindimar, sem expressa licença por escrito deste governo, antes dos dias que vão indicados na relação que será com esta e assinada pelo secretário do mesmo governo. A tarefa ficou a cargo dum inspector, coadjuvado por inspectores locais. A autorização para vindimar só era passada após uma visita às vinhas. Quanto ao segundo providenciariam junto dos colonos para que à bica do lagar se procedesse a necessária escolha das uvas, situação difícil de controlar. Ao infractor aplicavam-se severas penas: O lavrador que se atreva a vindimar sem a referida licença, fique por esse efeito incurso nas penas de prisão, e de perdimento das uvas que tiver vindimado, e vinho que delas tiver feito, em que o mesmo inspector-geral mandará fazer apreensão e fará vender. Em anexo vêm estipuladas as datas da vindima em cada localidade:

As recomendações quanto à cultura da vinha surgiram pela primeira vez em 1785, conjuntamente com a proibição da baldeação interna e de adulteração dos vinhos. São medidas próximas das que o Marquês do Pombal preparou para o vinho do Porto quando ordenou a criação da região demarcada. Chegou-se mesmo a reclamar por uma companhia para a Madeira como se havia feito em 1756 para o Douro269. Em Agosto de 1785270 publicou-se o regimento das vindimas em todos os distritos da ilha com indicações sobre a forma de evitar o dano provocado pela colheita prematura sem escolha das uvas. Em 1819271 refere-se a prática corrente de apanha das uvas verdes era considerada uma das três causas da crise: são as vindimas prematuras, sem chegar a uva ao estado da perfeição natural, pois o vinho vai feito de cepas regulando a uma inspecção prudente e deste modo se corta pela raiz o mal

259.Idem, ibidem, p. 116; vide idem, Canhenhos da Ilha, Funchal, 1966, pp. 57/9, 123/5. 260.Idem, A Canga, p. 125. 261.Idem, ibidem, p. 125. 262.J. Reis Gomes, ibidem, p. 8. 263.H. B. Gouveia, Canhenhos da Ilha, p. 125. 264.Idem, ibidem, p. 58. 265.Idem, A Canga, p. 134. 266.ARM, GC, nº 70, fol. 29vº-32.

267.ARM, GC, fols. 29vº-32,São diversos os regimentos sobre as vindimas: 12 de Agosto e 4 de Setembro de 1784, 16 de Agosto de 1785, 16 de Agosto de 1786, 7 de Janeiro de 1839, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 31-35, 39-42,121-122. 268.ARM, GC, fol. 32. 269.ARM, RGCMF, T. 14, fols. 202/203vº. 270.ARM, GC, nº 70, fols. 29vº/32, 35vº/43vº., in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.31-42 271.Idem, T. 14, fols. 202/203vº.

• a partir de 15 de Setembro, nas freguesias de Stº António, Stª Luzia, Stª Cruz, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Arco da Calheta, Paul, Ponta do Pargo, S. Roque, Caniço, Campanário, Tabua, Madalena, Calheta, Jardim do Mar, Fajã da Ovelha, Canhas. • desde 25 de Setembro nas freguesias de Machico, Estreito de Câmara de Lobos, Stª Anna. • desde 1 de Outubro na freguesia de S. Vicente e a malvasia por ser este o vidonho o que mais custa a sazonar268.

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que se faz ao vinho, deitando-se-lhe açúcar e mel de barbadas para emendar a verdura. A Junta de Melhoramento da Agricultura ordenou em 18 de Agosto272 que fossem nomeados três inspectores por freguesia para fiscalizarem a aplicação. As medidas tiveram eco nos anos de 1827273 e 1838274. No primeiro retomou-se a provisão de 1819275 enquanto no segundo foi-se buscar fundamento à lei de 1786. Desta forma procurava-se defender a qualidade do vinho e evitar os efeitos prejudiciais da prática corrente no comércio. A expressão espaçada das medidas dá conta da premência em momentos de agudização da crise ou discussão e evidencia a apatia dos colonos perante uma prática que se tornava onerosa e lesiva da safra da vinha. Em 1819 uma provisão da Junta d’Agricultura ordenava que se nomeassem inspectores para as vindimas, três por freguesia, de maneira a que nos mesmos bairros não possa pessoa alguma vindimar, antes do dia aprovado, guardando-se neste procedimento quanto for possível e direito dos proprietários em combinação com o interesse geral da ilha, e fabrico dos bons vinhos...276. Foi fácil a elaboração das medidas mas difícil a aplicação. O fim em vista era de utilidade face ao descrédito que o vinho estava enfrentando no mercado colonial britânico. A reclamação das medidas prende-se com a crise de exportação do produto. A mesma política ressurgiu em 1939, quando o Conselho do Distrito decidiu por acórdão manter a regulamentação das vindimas, ordenando que se fizessem depois da aprovação por inspectores competentemente nomeados pela municipalidade, de acordo com o regulamento de 16 de Maio de 1831277. Em carta de 4 de Outubro278 o Administrador Geral recomendava vivamente à Câmara a aplicação das medidas, replicando a Vereação com as devidas providências. Sabe-se, ainda que era comum os lavradores misturarem as variedades de uva, enganando os compradores. Em 1849279 uma postura estabelecia a pena de 6$000 réis para quem misturasse as uvas de bom vidonho denominadas malvasia, carão de moça, maroto, caxudo, etc., com outras de pior qualidade. Não sabemos a forma como se procedeu à aplicação da medida, considerada salutar para a boa qualidade do vinho e, de certo modo, lesiva para o colono. Apenas podemos afirmar que em 1940 ainda persistia sob outra forma na freguesia da Ponta Delgada como testemunha Horácio Bento de Gouveia. O colono estava obrigado a avisar o senhorio do início da vindima, aguardando o sim ou não de início da vindima. Estamos perante uma variante muito afastada, que comprova de modo inequívoco a subordinação do colono ou mieiro ao senhorio. Com a criação do Instituto do Vinho da Madeira a vindima passou a ser controlada, sendo o IVM

em conjugação com os representantes das empresas quem determina a data de início da vindima. Podemos ainda considerar outras medidas sobre a cultura da vinha, com a interdição de cultivos intermédios os cuidados nas fases mais importantes do ano vitícola. Acontece que as regulamentações esbarravam quase sempre com uma prática rotineira e adversa a qualquer progresso. A mesma opção rotineira é corresponsabilizada pelo atraso da viticultura e vinificação madeirenses. A qualidade do mosto não dependia apenas do respeito das medidas atrás referidas. As condições climáticas do ano vitícola e, nomeadamente no período estival, condicionaram a situação e determinaram em última instância o resultado final. A partir de informações dispersas é possível acompanhar o quadro das vindimas280.

272.Idem, T. 14, fols. 204/204vº. 273.Defensor da Liberdade, nº 20, p. 3. 274.ARM, RGCMF, T. 19, fols. 14/5vº, 224vº/225vº. 275.Tendo-se então granjeado forte apoio, como podemos inferir das informações fornecidas pelo Defensor da Liberdade [nº 20, p. 2, nº 17, nº 15, p. 2.] 276.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 14-15vº. 277.ARM, RGCMF, t. 1, fols. 15-15vº. 278.ARM, RGCMF, t. 19, fols. 224vº-225vº. 279.Posturas da Câmara Municipal do Funchal, Funchal, 1849, p.21

SITUAÇÃO DAS VINDIMAS. 1695-1983 ANO

COLHEITA

1695 1696 1697 1698 1699 1700 1701 1702 1703 1704 1705 1706 1707 1708 1709 1710 1711 1712 1713 1774 1775 1783 1787 1788 1789 1790 1792 1795 1803 1805 1806 1808

Pequena Pequena Pequena Muito pequena Maior que ano anterior Grande Pequena Pequena Grande Pequena Grande Grande Menor ano anterior Pequena Média

CASTAS

LOCALIDADE

QUALIDADE do vinho

Regular Muito bom

Bom Bom Bom Muito bom Muito bom Bom Muito bom

Muito grande Pequena Pequena Pequena Muito bom

280.Cf. Noel Cossart, ob.cit., pp.158-159

Muito bom Muito bom Bom Bom

verdelho

Câmara de Lobos Câmara de Lobos

Boal

Muito fino Muito fino Bom Muito bom Muito bom Verdelho Muito bom Câmara de Lobos e S. Martinho fino Muito bom

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1812 1814 1815 1816 1817 1822 1824 1826 1827 1834 1836 1837 1838 1839 1840 1842 1844 1845 1846 1848 1850 1851 1852 1854 1857 1858 1860 1862 1863 1864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 1871 1872 1873 1874 1880 1882 1883 1884 1885 1886 1890 1891 1892 1893 1895 1897 1898 1899 1900

Boal Boal Boal Boal Sercial Boal Sercial Sercial Boal Sercial Malvasia Verdelho Malvasia Sercial e verdelho Sercial Boal Boal Terrantez, boal e verdelho Boal e terrantez Verdelho Sercial, boal, malvasia Oidium Muito pequena Muito pequena Muito pequena Muito pequena Pequena Pequena Pequena Pequena Pequena Pequena Pequena Pequena Pequena

Sercial Sercial Verdelho Sercial Malvasia Malvasia Boal, malvasia Tinta Tinta Tinta Boal Boal Sercial

Malvasia Boal Sercial Sercial Malvasia

Muito bom Muito bom Muito bom Muito bom Bom Muito fino Bom Bom Bom Bom Bom Bom Bom Bom Fino Fino Fino Fino Fino Fino Fino Fino

Boal Sercial Malvasia Boal

Bom Bom Bom Bom Fino

Filoxera, pequena Muito pequena Muito pequena Muito pequena Muito pequena Muito pequena Muito pequena Produção média Boa colheita Boa Produção média Pequena Pequena Pequena

Câmara de Lobos

Quinta Paz Quinta Paz

Verdelho e sercial Regular Média

Muito fino Muito fino Bom Muito fino Bom Excelente Muito fino Muito fino Muito fino Muito bom Muito bom Muito bom Muito bom Muito bom Muito bom Muito bom Muito bom Muito fino Muito fino Muito bom Muito bom Muito fino

Muito fino Norte da ilha Muito fino

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1902 1903 1904 1905 1906 1907 1908 1909 1910 1911 1912 1913 1914 1915 1916 1918 1920 1926 1934 1936 1940 1941 1844 1950 1951 1952 1954 1956 1969 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983

Pequena

Norte e Oeste

Muito fino Fino

Norte

Bom Bom fino Boa

Boa Sercial Acima da média Abundante Boa

Sercial e verdelho Malvasia Verdelho

melhor que ano anterior Pequena Sercial, boal, verdelho

Pequena Pequena Muito boa Muito boa Muito boa Muito boa Muito boa

Boal Boal malvasia

Fino fino Fino

Malvasia, Boal Boal Verdelho boal e malvasia Sercial Sercial Boal e malvasia

Excelente Fino Muito fino Fino Muito fino Muito fino Muito fino Muito fino Muito fino Muito fino Muito fino Muito fino Muito bom

Sercial Verdelho e malvasia Boal, malvasia e bastardo Boal, malvasia Verdelho Normal Pequena Pequena Normal Extraordinária Normal Normal Normal Extraordinária Muito extraordinária

Excelente Boa Boa

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Lagar de Krohn Brothers. Museu de Photografia Vicentes.

Lagar. Museu de Photografia Vicentes.

viticultores tinham meios para o dispor, sujeitando-se a maior parte dos caseiros ao lagar do senhor. O lagar é hoje uma peça de museu, sendo substituído pela moderna tecnologia, mas noutros tempos foi um instrumento imprescindível ao fabrico do vinho. Na Madeira está documentada a presença de três tipos:

Lagar. Gravura de A. Vizetelly, 1880

Do lagar ao canteiro

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• lagariças de pedra, com o cocho escavado na rocha dispondo de vara e fuso em madeira para exercer pressão sobre o bagaço; • lagares de madeira, que podiam ser escavados num tronco formando um cocho ou de traves de madeira calafetada; • lagar de alvenaria com vara e pedra ou de prensa mecânica.

Nem todos os colonos e lavradores, na ânsia de uma rápida vindima, aguardavam pelo total amadurecimento dos cachos, obrigando as autoridades a regulamentar a faina vitícola através do regimento das vindimas publicado em 12 de Agosto de 1785. A partir daqui a vindima passou a ser autorizada por inspectores nomeados para todas as freguesias, ficando os infractores sujeitos à pena de prisão e de sequestro das uvas. Concluída a apanha das uvas a animação transferia-se para a beira do lagar onde os homens esmagavam as uvas para poderem extrair o mosto281. Noite fora, até que fosse concluída a tarefa, o bulício continuava com desusada animação. A presença do lagar foi sinónimo de uma rectaguarda importante de vinhas, pois nem todos os

A tradição de uso da pedra e madeira na construção dos lagares foi trazida do continente português onde ainda existem testemunhos de épocas anteriores ao século XV282. Na Madeira persistiram até a actualidade alguns lagares de madeira ou pedra. Dos construídos em pedra temos notícia de vestígios no Curral das Freiras, Arco da Calheta, Ponta do Pargo e S. Vicente, na chamada lapa do Chiapa. Para os de madeira persistem vários exemplares na Madeira e Porto Santo, propriedade de particulares, museus e empresas do sector. O de cocho poderá ser encontrado no Campo de Baixo no Porto Santo e no Museu da Ribeira Brava, quanto ao de caixa temos exemlares nos Museus do IVM e da Madeira Wine Company.

281.A faina do lagar está devidamente descrita por alguns autores estrangeiros [Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993] e nacionais [GOMES, João dos Reis, O Vinho da Madeira. Como se Prepara um Nectar. Monografia, Funchal, 1937; Eduardo Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, Funchal, pp.577-582.]

282.V. Loureiro, As Lagaretas Escavadas na rocha. Uma Perspectiva Tecnológica, in O Vinho, a História e a Cultura Popular. Actas de Congresso, Lisboa, 2001, pp.27-37


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O lagar foi e continua a ser um elemento de fascínio na faina vitivinícola. Todos os que o descobrem ficam encantados com a monumentalidade e tarefas que ainda ocorrem. A descrição do lagar tradicional de madeira atraiu o interesse de alguns literatos283. Junto dos vinhedos encontrava-se quase sempre o lagar que atingia a dimensão igual à área de vinha. São lagares de madeira mas também lagariças de pedra. Na Ponta de Sol, Rafael Catanho Vivaldo apresentava em 1608284 uma extensa fazenda de vinhas com três lagares. Em 1728 o lagar de pedra de Manuel de Abreu na Tabua é avaliado em 4$000 réis e servia um vinhedo de 3.444 parreiras. Já em 1742 João Lopes do Monte do Estreito de Câmara de Lobos apresenta uma casa e lagar no valor de 10.000 réis para uma extensão de 20.140 parreiras. Os agricultores com courelas de vinhas não tinham possibilidade de montar a estrutura e, por isso, socorriam-se do lagar do vizinho. Os custos de construção da infra-estrutura eram elevados, sendo em muitos casos mais um encargo a que estava sujeito o colono. O preço do lagar variava consoante fosse construído em madeira ou escavado na rocha, acrescentando-se, ainda, a cobertura. Quanto às diversas partes do lagar sabemos em 1767 do valor285 das do lagar de Paula de Aguiar na Tábua. Dos 28.9000 réis de despesa o senhorio contribuiu com 10.000 réis para o fuso, pedra e paredes: Caldeira do lagar em rocha e tina: Pedra de empesar: Obra de carpintaria: fuso e toda a madeira: Palha e canas do lagar: total:

10.900 réis 5.000 2.400 600 28.900

O quadro, que se segue, completa a elucidação dos valores do investimento em lagares na ilha. LAGAR E CASA-CUSTOS(1650-1782) Ano

Local

1650 1664 1690 1700 1717 1718 1718 1720 1720 1720

S. Martinho Ribeira Seca Campanário S. Martinho Campanário Campanário Ribeira Brava Campanário

Lagar Pedra Madeira

Lagar e Casa Pedra Madeira 80.500rs

12.000 800 1800 4000 2000 21500

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1723 Santo António 1728 Tábua 1730 S. Martinho 1731 Campanário 1732 Tábua 1732 C. de Lobos 2600 1733 R. Brava 1735 Tábua 3200 1736 9500 1736 12.000 1726 9.000 1736 Santo António 8500 1738 Campanário 1738 Serra de Água 3000 1739 S. Martinho 1741 Campanário 800 1742 1742 Estreito 305.700 1742 Estreito 1742 1743 Tábua 19000 1744 Campanário 2000 1744 S. Martinho 1745 S. Martinho 6500 1746 Campanário 4000 1747 S. Martinho 5000 1747 Campanário 1748 Tábua 1748 Tábua 1748 Campanário 5650 1748 S. Martinho 1748 Campanário 10.000 1750 Campanário 2000 1752 1753 Campanário 6000 1762 Tábua 2000 1782 4000 FONTE: ARM, Capelas-inventário, maços: 1 a 42

11.000 4000 3500 3000 1500 1000

4000 5000 9000 10.000 22.000

40.000

12000 12000 2500 9000

63000

De acordo com o inventário das indústrias, feito em 1863 por Francisco P. Oliveira286, o arquipélago dispunha de 185 lagares assim distribuídos: Funchal. Machico. Santana. S. Vicente.

39 1 13 12

Porto Moniz. Calheta. C. Lobos. Porto Santo.

31 25 23 41

1400 15.000 2000

283.Marquez de Jácome Correa, A Ilha da Madeira, Coimbra, 1927, p.113; Eduardo Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, Funchal, 582. 284.ARM. JRC, fls. 427-429vº, testamento de 30 de Junho. 285.ARM, Capelas-Inventário, maço 18, nº.429, 11 de Setembro.

Não deverá esquecer-se que o inventário ocorreu numa fase em que a economia vitícola estava ameaçada pelo oídio, pelo que o número de lagares em funciona286.Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de Leiria e Funchal, Lisboa, 1863.

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Lagar. Museu de Photografia Vicentes.

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Borracheiros. Museu de Photografia Vicentes.

mento deveria ter sido superior na primeira metade da centúria. Aliás, o autor chama a atenção para isso, destacando que muitos dos lagares estavam abandonados por falta de uvas. Sucedia assim em quase todos os municípios, excepto no Porto Santo e Porto Moniz. A maioria era apenas utilizada no fabrico de vinho de peros. Quanto ao Funchal o autor declara que Não se trabalha geralmente nos lagares de vinho pela falta de uvas depois do aparecimento do oidium tuckery, e apenas em três lagares se espremem alguns peros para fabricação de vinho. A situação piorou, passados dez anos, com a filoxera, mas no século XX a ilha recuperou a vinha e os lagares voltaram ao activo, referindo-se para 1916 a existência de cerca de 1000 lagares para um total de viticultores não superior a 8000287. Isto quer dizer, se tivermos em conta que a produção era pouco superior a 50 mil hectolitros, que a laboração média por lagar era de 50hl. Muitos dos lagares eram pequenos e artesanais, sendo construídos pelos proprietários para apoio à pouca produção de vinho. A maioria dos viticultores não os possuia socorrendo-se dos que estavam mais próximos. A contrapartida, tanto poderia ser feita em género, como em serviços ou em dinheiro. Para o vinho de peros refere-se que em Ponta de Sol o pagamento de 49 a 59 réis por hectolitro de vinho saída da bica do lagar288. A última geração, anterior ao actual processo de mecanização organizado pelas 287.Vida Económica da Madeira (…), Funchal, 1916, p.82. 288.Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.77. Tenha-se em conta que a pipa de vinho se poderia a retalho entre 575 a 860 réis o litro [idem, ibidem, p.77]

casas, foi definida pela substituição dos lagares de madeira por outros em cimento e o aparecimento generalizado das prensas manuais e mecânicas. Na actualidade a ilha dispõe da mais avançada tecnologia para o fabrico do vinho. Toda a produção dos viticultores destinada ao vinho Madeira é vendida em uvas, tornando desnecessária a infraestrutura. Lagares ou prensas existem apenas em museus ou em casas particulares para a laboração do vinho caseiro. Hoje são raros os lagares tradicionais de madeira. No século XX evolui-se para a construção do cocho e tina em cimento ficando apenas a vara e o fuso, como sobrevivência da madeira. Os lagares de madeira são peças de museu, enquanto que nos de cimento já poucos restam, pois deram lugar aos de fuso ou deixaram de ter utilidade. As casas comerciais compram as uvas e no fabrico do mosto utilizam a mais actual tecnologia. No Norte da Madeira, nomeadamente no Seixal, Ribeira da Janela, era comum a construção das adegas junto dos vinhedos, situação que ainda hoje persiste. São edifícios térreos de duas águas, tendo no interior um lagar e canteiro de pipas. O momento mais esperado da vindima acontecia quando se procedia à divisão e venda do vinho. Era à bica do lagar que todos vinham em busca dos dividendos: As vinhas são entregues apenas em posse anual e o cultivador somente recebe quatro décimos do produto - outros quatro décimos são pagos em espécie ao dono da terra, um décimo ao rei e um ao clero. Proveito tão escasso e a ideia de estar meramente a labutar para os lucros de outros, excluem absolutamente a esperança de um


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aumento de produção, mesmo que sejam tentados melhoramentos289. A mesma ideia repete-se noutro testemunho: O proprietário da terra e o cobrador dos impostos da Coroa assistem a esta operação: este último tira da tina o décimo de mosto que lhe corresponde, sendo depois dividido o restante entre o proprietário da terra e o arrendatário. Cada um leva consigo um número suficiente de carregadores para transportar as suas respectivas partes, às vezes em barris, e às vezes em odres de pele de cabra, para as adegas no Funchal. Os comerciantes Ingleses geralmente fornecem antecipadamente dinheiro aos agricultores de maneira a motivá-los para um cultivo mais cuidadoso290. Feito o vinho o mosto era transportado ao destino, que poderia ser a loja do viticultor, ou o armazém dos comerciantes no Funchal. No último caso tanto podia acontecer por via terrestre, nas regiões próximas da cidade, ou marítima, quando proveniente das diversas freguesias. Era no Funchal, sede as casas exportadoras, que tinha lugar a fase seguinte. O transporte às adegas rurais ou da cidade era feito por carreteiros em borrachos291. O mosto era enviado directamente ao Funchal, por via marítima ou terrestre, onde fermentava nas lojas292. Era aí que se iniciava o processo de vinificação. Após a fermentação era sujeito às trasfegas e trato em canteiro ou estufa. Os borrachos ou odres assumiram um papel importante na circulação interna do mosto. A tradição do odre para o transporte de líquidos está documentada no mundo mediterrânico desde a Antiguidade293. Também na cultura berbere encontramos o uso, donde a origem dos chamados zurrones das Canárias294. Os mesmos estão testemunhados em Portugal no século XV e no século seguinte na Madeira. Está ainda por apurar a origem na Madeira, pois tanto pode estar na Península,

289.G. Forster, A Voyage Round the World (...), Londres, 1777, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 337. 290.J. Barrow, A Voyage to Conchinchina…, London, 1806, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 337 291. J. Reis Gomes, ibidem, p. 11. Já em 1793 John Barrow de passagem pela Madeira refere os odres feitos com pele de cabra para transporte do vinho, vide A. A. Sarmento, Ensaios Históricos da Minha Terra, Funchal, vol. III, pp. 131/3; J. Barrow, A Voyage to Conchinchina…, London, 1806, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 337 292.Temos três fontes que comprovam de modo directo o que vimos afirmando e explicitam as razões de tal procedimento. A primeira é-nos dada num documento de 1777 [ANTT, PJRFF, nº 994, pp. 8/11.], em que se salienta que na ilha não se procede de modo idêntico como no reino: não se praticäo as colheitas como no reino que vão passando dos lagares a encubar nas adegas, mas como as terras estão aqui divididas em porções módicas de colonos, estes pisando suas módicas porções que logo imediatamente conduzem a meia parte respectiva ao senhorio para a cidade, nem dão lugar a tirar guias, o que é impraticável por ser a condução em barris de dois almudes, ou odres sobre ombros de homens, porque a escabrosidade dos caminhos faz impraticáveis outras conduções [Idem, ibidem, p. 9.]. A segunda surge-nos de modo idêntico em documento de 1779 [ANTT, PJRFF, nº 995, pp. 25/41]: ... os moradores são avulsos por não haver na ilha povoações, ou lugares, nem os colonos encubäo os vinhos em suas adegas, porque não tem, e cada um em sua casa em lagariças de pau faz o vinho que daí se transporta por homens rústicos muitas légoas para as dos senhorios pela escalosidade dos caminhos, tais que nem cavalgaduras o podem transportar, quanto mais vasos ou pipas. [Idem, ibidem, p. 37.]. A terceira é dada noutro documento de 1789 [ANTT, PJRFF, nº 995, pp. 53/4.]. ... no campo não se achäo adegas suficientes para o vinho, porque a parte dos senhorios habitantes nesta cidade, todo é transportado para esta e a maior parte do vinho dos caseiros, é vendido à bida a infinitos habitantes também desta cidade para onde igualmente transportäo[ Idem, ibidem.]. 293.Robert Flacelière, A Vida Quotidiana dos Gregos no Século de Péricles, Lisboa, sd., p.190: O vinho destinado ao consumo local era metido em odres de pele de cabra ou de porco… 294.Luis Diego Cuscoy, Los Guanches, Santa Cruz de Tenerife, 1968; Vários, Aproximación a la Descripción de la Carta Arqueológica de Fuerteventura, in I Jornadas de História de Fuerteventura y Lanzarote, vol. II, Puerto del rosario, 1987, p.129.

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Borracheiro. Foto José Pereira da Costa

como nas vizinhas Canárias. A população indígena do arquipélago, donde os madeirenses trouxeram os primeiros escravos, utilizava este tipo de vasilhame, sob a designação de zurrones, para guardar o gofio e leite de cabra. No século XVI surgem referências avulsas a odres e sabemos da existência do ofício de odreiro295. Falta-nos informação sobre o momento em que passaram a chamar-se borrachos. Entre nós ganharam fama e foram um dos elementos pitorescos que mais chamou à atenção dos estrangeiros. Isabella de França296, no retrato da visita à ilha entre 1853 e 1854, refere-o: A pele de cabra usava-se no tempo do vinho para o transportar até às pipas, frequentemente a algumas milhas de distância, quando a estas não era fácil trazê-las do local da vindima. A pele é voltada do avesso, cortamlhe a cabeça e os pés e as aberturas assim formadas ligam-nas com cordel. Ao distender-se, dá a impressão de estranho animal acéfalo. E que espectáculo singular o de uma fila de homens a descer pelos montes com essas peles cheias aos ombros. Os odres cheios de vinho eram transportados até ao porto mais próximo de embarque ou ao Funchal aos ombros dos homens ou no dorso das mulas297. Os grupos intermináveis de borracheiros faziam parte do espectáculo das vindimas. A nenhum estrangeiro passava desapercebido tal burburinho: No momento da nossa visi295.Bernardete Barros, A Festa Processional, “Corpus Christi”, no Funchal (séculos XV a XIX), in Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira. 1985, Funchal, 1989, vol. I, p.348 296.Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal. 1853-1854, Funchal, 1970, p.112-113 297.O mosto fermenta em barris. Quando vendido aos comerciantes de vinho, é transportado para as suas adegas em pequenos barris ou odres de pele de cabra amarrados no dorso das mulas. [J.L.Thudichum e A. Dupré, A treatise on the origin, nature and varieties of wine, Londres, 1872, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 389]


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ta [à casa Krohn Brothers & Co.], encontrámos um grupo de borracheiros encharcados de suor, entregando odres com mosto, que tinham trazido das montanhas nessa manhã. Ao serem despejados nas pipas, um empregado do armazém volta e meia media os conteúdos de um certo número deles escolhidos ao acaso e verificava a quantidade de sacarina através de um sacarómetro, para se certificar de que cada odre continha todo o seu barril, correspondente a cerca de nove ou dez galões, e de que o mosto não fora falsificado «en route». O preço do mosto oscila entre 18s. e 21s. por barril - sendo doze barris equivalentes a uma pipa. Os borracheiros mais robustos fazem, durante o auge da vindima, duas ou mesmo três viagens das montanhas para a cidade e de regresso às montanhas, durante um dia298. O espectáculo dos borracheiros é hoje um dado do passado e só ficou a célebre canção dos borracheiros e alguns borrachos como ornamento de lagares perdidos. Hoje a realidade é distinta. A partir da década de quarenta o automóvel ocupou o lugar do homem no transporte do vinho ao Funchal. Às filas intermináveis de borracheiros sucedeu o desusado movimento de furgonetas com pipas em pé a transbordar de mosto. Mudou também o processo. As casas exportadoras passaram nos últimos anos a adquirir as uvas directamente aos viticultores, através de uma rede de agentes em toda a ilha. A vindima resume-se quase só ao rotineiro gesto do apanhar das uvas. Esta nova forma de intervenção das empresas permite controlar todo o processo de vinificação, adequando-o às actuais exigências do mercado e às recomendações legislativas. Muitas das terras de vinhas eram de colonia, residindo o senhor no Funchal. Aqui destaca-se os conventos, importantes senhorios em toda a ilha. Em 1667 o Convento de Santa Clara apresentava-se com cinco adegas, com 154 tonéis, para recolha do quinhão de vinho: Santo António, Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos, Campanário e Ribeira Brava. Apenas neste ano o convento vendeu para fora 165 pipas de vinho. As adegas madeirenses, não eram edifícios preparados de raiz, pois qualquer cave, desde que ampla e escura, servia para guardar e envelhecer os vinhos299. Junto estavam as estufas e a oficina de tanoaria. Foram os ingleses quem no século XIX tentou alterar a situação definindo uma arquitectura e estruturas adequadas à função das instalações300. A maior evidência de mudança pode ser encontrada nas instalações da firma Cossart Gordon, de que apenas dispomos descrições, gravuras e fotografias.

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Vindima. Pintura de Max Romer. Sala de Provas da Madeira Wine Company

A vindima é uma época de grande excitação em toda a ilha. Os homens e mulheres que apanham as uvas formam uma alegre multidão que rasteja por baixo das latadas e, entre muita conversa e brincadeira colhem os cachos que são em seguida colocados em pequenos cestos. Quando cheio, o conteúdo destes cestos é cuidadosamente deitado num grande e forte cesto de salgueiro, o “cesto de vindima”, redondo, com uma boca que abre como a duma trompeta, neste, as uvas são levadas para o lagar. Ele suporta cerca de cem pesos de uvas, as quais devem produzir um barril de sumo. Quando chegam ao recinto onde a operação de esmagar tem lugar, os cestos são esvaziados para dentro de uma rude tina de madeira chamada “lagar”. J. Jonhson, Madeira its Climate and Scenery (...), Londres, 1885, pp.81-91 in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.409

298.Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira (...), Londres, 1880, pp.149-202, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 392-393 299.Ruppert Croft-Cook, ibidem, pp. 159/166. 300.Confronte-se o texto de H. Vizetelly in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1983, pp.375-399.

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Vindima. Gravura de A. Vizetelly. 1880

Década de sessenta do século XX Vindima. Fotografia Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.

Vindima. Museu de Photographia Vicentes.

Azáfama das vindimas Os colonos ao passo que as uvas amaduravam, dirigiam-se ao senhorio ou feitor a pedir licença para fazerem a colheita, a apalavrarem o dia de empréstimo dos lagares. (...) por toda a parte, em montados, Fajãs, cabeços, fraldas da montanha, um agitar de braços fazia estremecer as folhas das vinhas. Velhos e gente nova, munidos de facas e navalhas, cortavam os cachos que lançavam para dentro dos cestos pequenos, os quais por sua vez, se despejavam em barreleiros, que se enchiam, até que as uvas, acamadas umas sobre as outras para cima da roda da beira se acogulavam. (...) trabalhadores a carregarem os barreleiros às costas a caminho do lagar... Cestos Vindimo. Foto de José Pereira da Costa.

H. B. de Gouveia, A Canga, Coimbra. pp. 116/117

Transporte uvas ao lagar. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes

Transporte de uvas ao lagar. Grvura de a. Vizetelly.1880

Por Regimento de 12 de Agosto de 1785 foi regulamentado o processo das vindimas na ilha, de modo a evitar os abusos praticados pelos colonos, que não esperam que as suas uvas estejam perfeitamente sazonadas para as vindimarem; nem no tempo da vindima fazem a precisa escolha que se requer para que não se misture o verde com o maduro.... No mesmo regimento se estipulava a data certa para a vindima em cada localidade, ficando o cumprimento desta regulamentação a cargo de um inspector coadjuvado por inspectores locais. ARM, GC, N.º 70, fols. 29Vº/32


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Lagar.Postal pintado. Barrault Photographie

Evolução do lagar Lagar. Pintura de Max Romer. Sala de provas da Madeira Wine Company.

O lagar madeirense A espremadura das uvas faz-se a pé calcante, a dentro dum reservatório que antigamente era um simples tronco escavado, em geral de dragoeiro, que constituía o velho lagar de coxo. Fez-se depois de tábuas justas, calafetadas em caixa aberta com biqueira na base, sobre um suporte de traves, encimando-o a vara do lagar, grossa viga articulada num extremo e apoiada no outro por uma porca, onde vem morder um alto parafuso de madeira, ligado a um pesado bloco de pedra. Esta suspende, ao elevar-se o parafuso de pau branco, transfurando a vara, e actua como reforço, premindo de alavanca interresistente sobre o bagaço, depois deste ter sofrido o primeiro piso, a pé nu lavado. Há pequenos lagares mais simples, sem parafuso, e então o reforço do peso é feito num prato, como os de balança decimal, onde sucessivamente se vão colocando pedras, aumentando a potência de espremeção, sobre o “frascal”, em forma de pão de açúcar, formado pelos engaços e folhelho, apertado espiralmente por uma resistente corda fabricada de esparto ou raízes de era. A. Sarmento, Notícia Histórico-militar sobre a Ilha do Porto Santo, Funchal, 1933, pp. 94/95

Pisam os homens as uvas nos lagares, de calça arregaçada até ao joelho, músculos estriados e faces congestionadas. E há 44 lagares em actividade, construídos de cimento, assim como as tinas. Os de madeira de til com tinas feitas de ripas arcaizaram-se e aproveitaram-se as tábuas. O cimento conferiu aos lagares uma eternidade que a madeira não podia dar. E, de feito, a substituição desta por aquele trouxe vantagens ao lavrador. Pois os lagares de madeira, todos os anos, por altura das colheitas, tinham de ser calafetados. Através das juntas das tábuas, com o batuque das repisas e no ardor ainda maior de tirar do bagaço a água-pé, as pranchas davam de si e o mosto começava de pingar. As tinas apertadas por arcos de ferro também se desconjuntavam. Deixou, portanto, de haver a preocupação do conserto, semanas antes das vindimas, além de que era outra a durabilidade. Introduziu-se, há muitos anos, a prensa no lagar, mas, no norte da ilha não vingou o moderno aperfeiçoamento da técnica no espremer das uvas. Mais dispendioso, menos pratico e de resultados não superiores ao processo primitivo. Pelo que o sistema da vara corpulenta de pinho ou de castanho e o fuso de pau branco, das nossas serras, continua mantendo o costume, posto que absoleto, dos avoengos. A mesma corda grossa a enrolar o monte dos engaços, se bem que o chincho a vá substituindo, as mesmas peças de madeira, o tampão e os dormentes, sobrepostos aquele e até tocarem a parte inferior da vara, a mesma pedra redonda, volumosa e pesada, com um buraco ao de cima, onde sai um ferro que se encaixa na base do fuso e se prende a ele. Horácio Bento de Gouveia, Canhenhos da ilha, Funchal, S/D, pp. 124/5


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Armazéns de Messr. Krohn

Lagar. Pintura de Max Romer. Sala de provas da Madeira Wine Company.

Como em todos os vinhedos da Madeira, a sua área limitada, compreendendo apenas quatro acres, estando rodeado de muralhas por todos os lados. Elevações abruptas apresentando poios cultivados e com abetos coroando os seus cumes, rodeiam o vinhedo de ambos os lados. A maioria das vinhas, que são principalmente da qualidade verdelho, com uma quantidade insignificante de tinta, ou uva negra, são colocadas sobre uma baixa latada horizontal, a uma altura de cerca de quatro pés do chão, quase uma cópia do sistema de colocar as uvas que prevalece em certos distritos vinícolas da Alemanha chamado «Kammerbau». As restantes vinhas são colocadas mais altas em relação ao solo naquilo que é chamado corredor, oferecendo as latadas colocadas por cima uma agradável sombra para os calores do Verão. Estas latadas são construídas em cana ou madeira de pinheiro, com estacas de castanheiro a servirem de suportes. Aqui, os trabalhadores que colhem as uvas são todos homens, com barba preta, descalços, e com roupas esfarrapadas, com a sua pele quase tão castanha quanto os seus calções cor de mogno. Eles apanham as uvas e atiram-nas para dentro de redondos cestos abertos com pegas, esvaziando-os depois num cesto maior, semelhante na forma e conhecido como o «cesto da vindima». Este último cesto tem capacidade para mais de um quintal de uvas, mais ou menos o suficiente para produzir um barril de mosto, o mesmo que um pouco mais de nove galões imperiais. A casa do lagar ficava no centro do vinhedo, e o próprio lagar era formado por uma enorme tina de madeira, semelhante ao usado na região do Xerez. No entanto, em vez de um parafuso de metal elevando-se no centro do lagar, uma enorme trave de madeira, como aquelas usadas nas proximidades de Lisboa e no Alto Douro, está pendurada no meio do lagar e ajuda na extracção do sumo das cascas de uvas amontoadas, depois destas terem sido bem pisadas por vários pés acastanhados. No entanto, antes dos pisadores entrarem no lagar, o próprio peso das uvas produz um fluxo contínuo de sumo que corre para a tina contígua - um regato que se torna uma torrente quando se começa a pisar. Os homens, dispersos pelo lagar, começam com um movimento lento e regular, depois esticam os braços e agarram-se na enorme trave interveniente, aproximando-se e afastando-se rapidamente um do outro, dando, ocasionalmente, meia volta uma vez para a esquerda, uma vez para a direita, abrandando, depois, os seus movimentos agitados para um tipo de dança lenta e monótona. VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.

Aqui, as vinhas plantadas em canteiros elevados que formam um rego entre as diferentes filas , são colocadas ao longo de arames horizontais, sustentados por postes inclinados, que se juntam na parte superior, formando um V invertido.… Embora o vinhedo possua menos de treze acres, as uvas são colhidas em não menos de oito alturas diferentes, sendo apenas apanhados em cada momento os cachos completamente maduros. Por este motivo, a vindima que começou a 24 de Agosto, durará um período de três semanas completas. Quem colhia as uvas eram mulheres descalças, com vestidos leves e casacos brancos de linho, com lenços vermelhos e amarelos amarrados à cabeça. ... A casa do lagar é uma construção baixa de pedra com um alto telhado, iluminada por algumas pequenas janelas, e à sombra dos grandes ramos de um óptimo espécime da eriobotrya japonica. Possui vários lagares, sendo o maior deles capazes de espremer quatro ou cinco pipas de mosto ao mesmo tempo. Encontrámos seis homens a trabalhar lá, três em cada lado de uma espécie de trave divisória ou vara. O primeiro sumo que saiu foi deitado num balseiro ou pequena tina, contendo cerca de oitenta galões, e que possui uma torneira na parte mais baixa, para permitir que o sumo saia depois dos restos de enxofre que ficaram nas uvas se terem depositado na parte mais baixa. Os pisadores fizeram várias vezes o mesmo movimento que já descrevemos, e quando o

Lagar. Gravura de W. S. Pitt Spingett.1843. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas


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Latada em Madeira. Vicentes Photógraphos. Museu Photographia Vicentes

sumo já não saia do lagar através da abertura que ficou tapada com as uvas esmagadas, estas foram empilhadas no centro ou aos lados, pressionadas e levemente espremidas com as mãos, e o sumo, conforme ia escorrendo, era coado, passando por um cesto pendurado na bica ou tubo do lagar. Este empilhamento foi repetido três vezes, conhecidas como a primeira, segunda e terceira abertura, e depois passou-se a outra operação - a massa é reunida de modo compacto num monte central, ficando pronta para receber a corda, que foi cuidadosamente enrolada à sua volta, com espaços pelo meio, pelos quais o sumo podia passar. Um forte disco de madeira, reforçado com pedaços cruzados, foi colocado na parte de cima, e sobre este foram colocadas, transversalmente, várias pequenas barras quadradas de metal, e uma forte tábua por cima de tudo. A pressão é exercida sobre este monte através do parafuso perpendicular numa das duas extremidades, que se apoia numa enorme pedra a alguns pés do lagar. O sumo espremido deste modo chama-se vinho da corda. Depois de uma ou duas horas nesta operação, a massa sólida é quebrada com as mão ou, se necessário, com enxadas, e depois começa a repisa, um vigoroso movimento de dança ou saltos executado sobre as cascas de uvas aparentemente secas. Faz-se isto para esmagar, de maneira eficaz, aquelas uvas que estão já em passas e que se tornaram mais moles por terem ficado de molho no sumo produzido. A repisa dura cerca de meia hora, e os homens alegram o seu trabalho com uma variedade de piadas, partidas ou outras. Por vezes, dois deles de um lado da trave subitamente agarram um camarada e atiram-no por cima da trave para o outro lado, onde os homens o receberão com os braços abertos, mas só para o atirar de volta outra vez por cima da trave, entre o riso de todos. As cascas das uvas são novamente empilhadas; depois deita-se água por cima delas, e são bem revolvidas e espremidas pela última vez, produzindo a água-pé que se dá aos trabalhadores para beberem. VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.

Festa das Vindimas. Estreito de Câmara de Lobos, 2002

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P

Para que a análise do quadro da produção de vinho no arquipélago seja completa devemos ter em conta a evolução quantitativa, de acordo com as áreas produtivas e o tipo de uva, com também a caracterização do sistema de exploração da terra, que teve na ilha uma forma peculiar de expressão, com o contrato de colónia. No que concerne aos valores de produção a informação é escassa e, por vezes, contraditória. Daqui que resulta que o o completo esclarecimento só é possível se tivermos em conta os níveis de produtividade da ilha, o estado e a forma de cultivo da vinha. Segundo T. Bowdich301 um acre de terra de vinha podia produzir quatro pipas, mas a média era de apenas uma pipa. Insiste-se na ideia de que a produtividade é fraca: A produtividade das vinhas não é, em geral, muito grande na Madeira. Ainda que nalgumas das balseiras da região do norte, como por exemplo sucedeu em 1850 no sítio denominado Fajã do Penedo, duas cepas possam produzir até catorze barris de vinho, é contudo certo, que no sul a produção é de duas a seis pipas, ao mais, por hectare, ou de oito almudes por mil bacelos, o que é uma produção muito pouco considerável302. A produção para E. Harcourt estava de acordo com as condições do solo: Um alqueire de terreno, quando se trata de solo da melhor qualidade e bem cultivado, produzirá, num ano médio, entre doze e quinze barris de vinho, dos quais doze vão para a pipa. Se o solo é de qualidade média e bem cultivado, produzirá entre oito e dez barris. Terreno de qualidade média ou boa com maus cultivadores não produzirá mais do que um ou dois barris.303

Latada no E. de Câmara de Lobos. Colecção Perestrellos. Museu de Photografia Vicentes.

A PRODUÇÃO DE VINHO

301.Excursions in Madeira, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.346 e corroborado por Alfred Lyall, Rambles in Madeira, London, 1827, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 349; F. W. Taylor, The Flag Ship, NY, 1840, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 357. 302.João Andrade Corvo, Memoria I.Memoria sobre a “Mangra” ou Doença das vinhas da Madeira e Porto Santo. Apresentada à Academia na Sessão de 3 de Fevereiro de 1854, (Lisboa), (1954); “A Mangra ou Doença das vinhas”, in Das Artes e da História da Madeira, vols. IV-V, nºs.24-29, 1956-1959. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.288. 303.Edward V. Harcourt, A Sketch of Madeira…, London, 1851, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 362-363

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abrangendo a vertente de Machico ao Porto Moniz representava mais de metade da produção. No Norte as maiores áreas vitícolas, situam-se em S. Vicente, Ponta Delgada, Porto da Cruz, que até a actualidade se afirmaram como as principais áreas. A situação tornou-se mais clara a partir de 1821 com o surto dos alambiques e as crises provocadas pelas doenças em 1852 e 1872. No Sul, as áreas de maior produção estavam em Santo António, Câmara de Lobos e Estreito, Ponta do Sol, S. Roque, onde se encontrava também o melhor vinho da ilha para embarque. De acordo com o mapa da produção, elaborado por Casado Giraldes305, evidencia-se, mais uma vez, o predomínio da capitania do Norte, sobressaindo Ponta Delgada, Faial, Porto da Cruz, S. Jorge, S. Vicente e Santana, enquanto no Sul temos Santo António e Estreito de Câmara de Lobos. A relação entre os valores do vinho de inferior qualidade e os de superior qualidade de castas europeias era de 3 para 1. A situação é idêntica entre a produção e a exportação o que pode ser encarado como um forte indicio de que os vinhos do Sul eram reservados para embarque, enquanto os do Norte ficavam para consumo interno e destilação. A receita do Subsídio Literário dá conta da mesma diferença, numa relação de 324 para 17, destacando-se, mais uma vez Câmara de Lobos, Santo António, S. Martinho, no sul e S. Vicente, Faial, Porto da Cruz, Ponta Delgada, Machico, no norte. Segundo uma média de produção estabelecida entre 1830/1840 por P. P. da Câmara306 confirmase o predomínio do Norte, desde o Faial, Porto da Cruz, S. Jorge, Ponta Delgada, Santana, e no Sul de Santo António, Câmara de Lobos e Estreito. PRODUÇÃO DE MOSTO POR CONCELHO 1787-1887(EM HECTOLITROS)

Borracheiros. Museu de Photographia Vicentes

Áreas de produção A ilha apresenta duas áreas vitivinícolas perfeitamente demnarcadas. Na vertente Sul, dominada na quase totalidade pelo espaço da primitiva capitania do Funchal, encontramos o melhor vinho, enquanto na vertente Norte, área quase exclusiva da capitania de Machico, produzia-se em maior quantidade mas de pior qualidade. Este vinho raramente saia da ilha, sendo usado para consumo interno e fabrico de aguardente. Já atrás aludimos às áreas vitícolas de acordo com a qualidade e castas e a demarcação de 1795, aqui apenas daremos conta da importância e peso no volume de produção304. Pelos dados de 1787 constata-se que a capitania de Machico, ou do Norte, 304.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 977.

Localidade Calheta Câmara de Lobos Funchal Machico Ponta de Sol Porto Santo Santana Santa Cruz São Vicente TOTAL

1787 6773 6838 14231 9348 7006

1813 5295 8850 14225 15580 4380

11214 2528 19879 78733

28760 3695 30520 111305

1837 4106 11960 10217 10882 5941 916 25576 23925 26766 119373

1851 4573 8208 11470 3017 4530 1650 23341 1493 19486 76121

1852 1063 1455 1363 247 348 2270 931 200 4283 9894

1986 833 53891 9068 678 7225 2412 19092 1030 38911 137818

Obs.: os municípios de Câmara de Lobos e Santana só surgiram após a reforma de Mouzinho da Silveira. A conversão dos barris foi feita pelo valor médio de 50 litros Fonte: AHU, Madeira e Porto Santo, nº.977, José Pedro Casado Giraldes, Estatística Histórico Geográfica das Ilhas da Madeira e Porto Santo…, Paris, sd.; Alberto Vieira, História do vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.295

305.Estatística Histórico Geográfica da Madeira e Porto Santo, Paris, s/d. 306.Op. cit., pp. 78/81


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Localidade Calheta Câmara de Lobos Funchal Machico Ponta de Sol Porto Moniz Porto Santo Ribeira Brava Santana Santa Cruz São Vicente TOTAL

PRODUÇÃO DE VINHO em hectolitros 1986 1996 1997 1998 833 770 760 608 53891 33827 29414 25602 9068 3194 889 552 678 404 323 102 7225 475 205 158 9293 4231 2947 1715 2412 507 1187 477 4664 1449 1103 910 15092 7760 5448 2784 1030 17 60 645 205 29618 20007 16308 11933 137818

72646

58650

44910

1999 1404 31483 1499 451 728 3764 367 1508 6367

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o ano foi mau sendo a colheita inferior a metade do ano anterior. Apenas a partir de finais da centúria temos informações claras. Assim, enquanto Hans Sloane refere em 1687 que a maior parte da ilha estava coberta de vinhedos, em 1689, John Ovington torna a situação mais clara, dando-nos os primeiros valores de produção, que se cifravam em 20.000 pipas312, situação que se repete em 1698313. O vinho era o principal produto da ilha, pelo que as colinas e vales estavam abafados de vinha. A vinha ganhou importância no último quartel do século. As vindimas de 1697 e 1698 foram reduzidas, melhorando no ano imediato, como corrobora William Bolton314.

18237 66020

Movimento da produção Não dispomos de dados completos que permitam acompanhar a produção desde o século XV. A informação apenas se torna frequente a partir do século XIX. Mesmo assim os dados disponíveis, ainda que avulsos, dão-nos uma ideia do processo evolutivo da produção e da importância que a vinha assumiu na economia agrícola do arquipélago. Em 1455 Cadamosto realçava a elevada produção de vinho, pois que satisfeitas as necessidades dos residentes se exportam muitos deles.307 A ideia mantém-se no século XVI, referindo Giulio Landi, cerca de 1530, que se exportava vinho, por lá haver em grande abundância.308 Passados trinta e sete anos, outro italiano, Pompeo Arditi, refere que toda a ilha produz grande quantidade de vinho.309 Gaspar Frutuoso310 apresenta, para finais do século XVI, o panorama das áreas de produção do vinho da ilha, referindo 1180 pipas. O Funchal era o principal centro produtor onde se encontravam vinhas de muitos vidonhos e de boas malvasias. Aos vinhos de boa qualidade juntavam-se os das Ribeiras do Porto do Seixo, de Santa Cruz e Socorridos, dos lugares de Gaula, Caniço e Câmara de Lobos. A área de produção de vinhos de inferior qualidade compreendia as localidades da Ribeira Brava, Ponta do Sol, Canhas, Calheta, Jardim do Mar, Machico, S. Jorge, Ponta Delgada, S. Vicente e Seixal. Para o século XVII escasseiam dados sobre a produção. Em 1625311 sabe-se que

P

307.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.37. De acordo com o dinheiro da imposição sabe-se que no Funchal se consumiram em 1488 cerca de 439 pipas de vinho [J. M. Azevedo e Silva, A Madeira e a Construção do Mundo Atlântico, Funchal, 1995, vol. I, p.265.]. 308.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.83 309.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.130 310.Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, caps. XV, XVI e XVII. 311.ARM, CMF, nº.1323, fl.66, 25 de Outubro de 1625.

PRODUÇÃO DE VINHO NO SÉCULO XVII. Cálculo estimado315

Borracheiros. Foto José Pereira da Costa Com dados disponíveis elaboramos o mapa da produção que contempla os momentos mais significativos da História do vinho no arquipélago316. A evolução da cultura da vinha adequa-se às exigências do mercado e à influência da comunidade britânica na ilha que definiu um destino privilegiado para o vinho. A partir de meados do século XVII a produção entrou em curva ascendente só parando na década de vinte do século XIX. O golpe mortal foi dado na segunda metade da centúria tendo origem nas diversas doenças que assolaram a vinha. Em 1852 tivemos o oídio e desde 1872 a filoxera. O oídio deverá ter chegado à ilha em Fevereiro de 1851 em castas trazidas de França. E rapidamente alastrou a doença a toda a ilha, atingindo de modo especial o Funchal e Machico. As soluções tardaram e, por isso mesmo, os efeitos fizeram-se sentir de forma prolongada na produção. Em meados do século XVII a tendência era para a subida em ritmo galopante de modo que, num intervalo de 26 anos (1650/76), quintuplicou a produção, man312.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, pp.158, 197-198 313.Cabral do Nascimento, Documentos para a História das Capitanias da Madeira, Funchal, 1930 314.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, pp.341, 351, 366 315.J. M. Azevedo e Silva, A Madeira e a Construção do Mundo Atlântico, Funchal, 1995, vol. I, p.269 316.Elementos colhidos em quase toda a bibliografia consultada, sendo de destacar Eduardo Grande e a informação apresentada por D. João da Câmara Leme, Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estufas..., pp. 30/31.

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Borracheiros. Estreito de Câmara de Lobos. Foto de José Pereira da Costa

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tendo-se o último quartel do século com valores médios de 20.000 pipas. Se nos primeiros anos do século XVIII os dados oscilaram pouco, desde 1730 é evidente a descida, mas é em 1756 que se atinge o valor mais elevado até então, isto é, 35.000 pipas. Desde 1776 entrou-se numa fase descendente, atingindo-se em 1780 valores inferiores (856 pipas), seguindo-se um momento ascendente em 1781/1782, com um período de estabilidade até 1796, altura em que a subida foi vertiginosa até 1801. De acordo com os dados de 1787 o arquipélago produziu 22.053 pipas de vinho maioritariamente na Madeira, uma vez que no Porto Santo tivemos apenas 179 pipas. O restante valor era da capitania de Machico com 68%. O concelho de São Vicente era o principal produtor com 3.898 pipas, seguido do Porto da Cruz com 1245. No Sul o maior volume e qualidade estava no Funchal e freguesias limítrofes, donde saia o chamado vinho de exportação. A afirmação da viticultura na vertente Norte acentuou-se na primeira metade do século XIX, mercê da incessante solicitação de vinhos para exportação e da destilação nos alambiques. Além disso as medidas proibitivas de entrada de aguardentes de França foram favoráveis à alambicação dos vinhos do Norte, cujas guardentes passaram a fortificar os do Sul. Os dados reunidos dão conta que a produção entre finais do século XVIII e inícios do XIX, o período de apogeu, oscilava entre as 50.000 pipas e as 20.000, com uma média de 30.000317. Acontece que os números disponíveis não ultrapassam as

40.000 pipas e dão uma média de 20.000. Até 1852, altura da crise da produção do vinho, a Madeira nunca conseguiu estabilizar o mercado exportador, ainda que entre 1833/1846 se tivesse dado um curto incentivo, a quebra é acentuada. Se ao longo do século XVIII e inícios do XIX a crise se apresentava como de sub consumo, tendo como ponto de partida as mudanças temporárias do mercado de destino em pleno século XIX a crise dominou a produção resultando de vários factores e, não unicamente dos patológico-botânicos. Entre 1814/1816 foi evidente a crise na produção, pautada pela estagnação do vinho no mercado local em razão da abertura de outros portos exportadores do vinho de França e Espanha. O período que decorre de 1801/1825 foi marcado por altos e baixos, como sucede em 1806, 1810, 1820. O facto revela o incentivo dado à cultura em razão da solicitação que o vinho tinha no mercado mundial e ao elevado preço que alcançou entre 1780 a 1810318. A quebra momentânea da procura com a Paz Geral fez-se sentir, conduzindo, à crise de sub consumo em 1820/1821, com reflexos na produção fruto do abandono das vinhas. O período de 1816/1820 foi marcado por uma ligeira quebra, a que se seguiram anos fartos entre 1821/1827. Isto demonstra que os reflexos da crise nas exportações só se fizeram sentir a partir de 1837. Embora, entre 1831 e 1851 se note uma recuperação, atingindo-se valores elevados em 1836, o certo é que a produção estava

317.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 78-81, 126-130vº; t. 15, fols. 100vº-104.

318.O texto anónimo de um autor francês testemunha o surto da viticultura: On planta des ceps sans interruption de la mer a la montagne et toute la main d’oeuvre disponible fut y employé. La vigne prenait avec une facilité incroyable; même dans le Nord elle s’enroulait autor des cataigners. L’ile entiére se transforma en une vaste vignoble. [Rupert Croft-Cooke, Madeira, London, 1961, p.81]

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Borracheiros. Postal Antigo.


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condenada, ficando comprometida desde 1852 com o oídio. Entre 1852/1859 tivemos os valores mais baixos de produção, que oscilaram entre 30 (em 1855) e 1.872 pipas (em 1858). As décadas de 60 e 70 foram favoráveis à produção, denotando-se a recuperação rápida após os anos de doença. Além disso os efeitos da filoxera (1872) só se fizeram sentir de forma clara em 1876/1877. O vinho estava condenado e perdia-se na memória dos tempos os anos de abundância e riqueza. Em 1837 a crise de produção é reflexo da estagnação das três colheitas (1818/1820). A situação conduziu ao abandono de muitos vinhedos e à fuga da população do campo para a cidade ou a emigração para as colónias inglesas. A crise acentuou-se a partir de 1848, caminhando a passos largos até 1851/1852 para um momento de forte quebra. Deste modo será errado atribuir ao oídio a origem e princípio da crise de produção vitícola, uma vez que esta já se arrastava desde 1814 e se evidenciou de uma forma nítida desde 1837. Mais, a crise de sub produção do vinho liga-se a outra de sub-consumo que, como já referimos, vinha de 1815, com expressão plena 1820. A perda dos mercados das Índias Ocidentais e Orientais não foi, no imediato, compensada com a conquista do nórdico, já invadido e dominado por outros vinhos. A quebra da produção torna-se mais nítida em 1823, 1826/1827, 1830/1831, 1847/1848 e, como é óbvio, de modo acentuado a partir de 1852/1853. No período de 1852/1861 fez-se sentir, concomitantemente, uma crise de sub produção e sub consumo. A tendência de subida da produção só foi acompanhada das exportações a partir de 1866. Esta coincidência cronológica dos factores patológicos sobre a produção vitícola torna quase impossível discernir as consequências de um e outro fenómeno, uma vez que o efeito de ambos se exerce no mesmo sentido319. A crise vitícola madeirense diferencia-se da que aconteceu no Douro. Na Madeira desde o primeiro quartel do século XIX tivemos uma forte quebra no volume das exportações resultante da contracção do mercado externo, que se acentuou a partir de 1852. A retracção do consumo repercutiu-se na produção, conduzindo a uma diminuição acentuada, fruto do abandono do campo pelo viticultor.

de Ciências de Lisboa, as perdas foram elevadas sendo contabilizadas em 1.137.990$00 réis, fruto de uma quebra de 132.454,7 barris de vinho A busca desesperada de soluções para debelar a crise levou os agricultores a socorrerem-se dos bacelos de Izabella, resistentes ao oídio, que começaram a chegar à ilha em 1865. Só que eram portadores de uma larva, a filoxera vastatrix, que atacou as raizes das videiras europeias fazendo-as definhar. Não foi fácil a recuperação da cultura. O desânimo do madeirense, o abandono de algumas casas inglesas, a conturbada situação das colónias inglesas, principal destino do vinho, fizeram retardar o processo de restabelecimento da cultura. Em 1883 apenas 353 ha dos 2500 que a vinha ocupava quando foi atacada pela filoxera estavam plantados. As estatísticas referem que mais de 80% das vinhas foram destruídas. Os cuidados com a vinha e a forma de debelar a doença foram morosos. Apenas quatro hectares estavam a ser tratados com sulfureto e as vinhas americanas ficavam-se por 40ha. A conjuntura conduziu ao quase total desaparecimento das castas que deram fama ao vinho Madeira. A Malvasia só se salvou na Fajã dos Padres. O panorama da viticultura madeirense mudou passando a dominar as castas americanas. O quadro dos valores da produção em litros, para o quinquénio de 19351939, evidencia a total dominância do jacquez com 40% do total.

PRODUÇÃO DE MOSTO POR CASTAS. 1935-39320

PRODUÇÃO POR CONCELHOS-1851-1852

LOCALIDADE Funchal Santa Cruz Machico C. Lobos Ponta Sol Calheta S. Vicente Santana Total

1851 2.2941,3 2.987,3 6.034,7 16.417,5 9.061,0 9.146,1 38.972,6 46.683,2 152.243,7

1852 2.727,8 400,8 4.946,0 2.911,3 697,9 2.127,7 8.566,7 1.862,2 19.789

Tal como informa João Andrade Corvo, no relatório feito em 1854 à Academia 319.M. H. Pereira, Livre Cambio e Desenvolvimento Económico em Portugal na Segunda Metade do Século XIX, Lisboa, 1971, p. 151.

Concelhos Funchal C. de Lobos Porto Moniz S. Vicente Santana Calheta Ponta de Sol Ribeira Brava Machico Santa Cruz Porto Santo

Tinta

Listrão Verdelho 3.121 12.561 26.463 365

Castas europeias Boal Moscatel

374.628 1.792. 32 49.239

38.850 10 315

39.854 334

179.559 113.584 105.136

120 100 28

732

45 17.955

14.624 5.328

106.913

34 125

185

5.676 221

Sercial 1.359 43.065 162

Malvasia Babosa 689.124 173

Cunningham 109.046 10.432

3.976 3.580 1.130

1.444 260 28.723 290 4.245 7 3.518

558 40

785 312

28

Castas americanas Izabela Herbe- jacquez mont 202.974 14.785 1.040.085 6.141 63 302.127 33 2.205 968.168 140.187 823.616 3.173 517.599 122.087 74.162 37.943 108.065 68.541 4.679 64.693 57.451 1,582 31.317 207.131 17.765 6.062 27.439 18 28.667

A incidência das castas americanas ocorre nos concelhos do Norte, com especial destaque para S. Vicente, enquanto as europeias tinham plena afirmação no Sul. 320.José Tavares, Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, pp.16-17

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Armazéns de envelhecimento de Vinhos. Madeira Wine Company

Apenas com o Verdelho e Sercial se altera a situação em favor do Porto Moniz, a principal área de ambas as castas. A posição maioritária das castas americanas manteve-se nas décadas de cinquenta e setenta. PRODUÇÃO.1935-2002

1935-39 1951 1952 1953 1954 1955 1966 1971 1975 1978 1979 1980 1990 1991 1992 1994 1997 1998 1999

Castas Europeias Hl % 40365 44,5 18304 25,6 19620 24,4 31816 26,7 37474 30,4 34887 29,7 24134 24,3 21340 24.6 17887 23,7 26921 27,9 31453 24,9 37702 32,8 40258 52,2 40934 40,9 37799 41,0 31082 58,8 45546 77,7 34587 83,2 51028 77,3

Castas Americanas TOTAL Hl % Hl 50367 55,5 90732 53328 74,4 71632 60911 75,6 80531 87399 73,3 119.215 85855 69,6 123329 82693 70,3 117580 75182 75,7 99316 65497 75,4 86838 57839 76,3 75726 69804 72,1 96725 85301 73,1 116725 77259 67,2 114962 36866 47,8 77124 59133 59,1 100064 54544 59,0 92343 21783 41,2 52865 13104 22,3 58650 6989 16,8 41576 14991 22,7 66019

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A total reconversão da área de vinha para castas europeias só começou verdadeiramente na década de setenta com o impulso e apoio dado pelo Serviços de Viticultura do Governo Regional da Madeira. A reconversão das vinhas atingiu de modo especial a costa Norte onde dominavam os híbridos americanos. Tudo isto foi resultado de directivas comunitárias que proibiram a partir de 1996 os vinhos de híbridos de produtores directos. Só a partir daqui sucedeu a inversão dos valores da produção de vinho em favor das castas europeias321.

321.João Brazão, A Reestruturação e Reconversão da Vinha na Região Autónoma da Madeira, in Os Vinhos Licorosos e a História, Funchal, 1998, pp. 185-197.

Pipas. Vinhos Barbeito, Ldª


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Igreja e Colégio dos Jesuítas. Desenho de E. h. Locker. 1805.

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Subsídio literário

L

A reforma pombalina dos estudos foi feita para suprir a falta provocada pela extinção da Companhia de Jesus, que detinha o controlo do ensino. Com isto acabaram-se as colectas usadas para tal, mas em contrapartida criou-se um novo direito para financiar o ensino oficial. D. José em 1772322 ordenou que acabassem todas as colectas que forão lançadas para por elas serem pagos mestres de leis, e escrever ou de solfa, ou de gramática, ou de qualquer outra instrução de meninos... mando que para a útil aplicação do mesmo ensino público em lugar das sobreditas colectas até agora lançadas e a cargo dos povos se estabeleça, como estabeleço o único imposto, a saber, nestes reinos e ilhas dos Açores e Madeira, de um real em cada canada de vinho, e de quatro reis em cada canada de aguardente, de cento e sessenta reis por cada pipa de vinagre... 322.ARM, RGCMF, t. 12, fols. 5-7vº; ANTT, PJRFF, nº 994, fols. 3-4.

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e na Ásia de 10 reis em cada canada de aguardente das que fazem nas terras, debaixo de qualquer nome que se lhe dê ou venha a dar. Estava assim criado um novo imposto que onerava o vinho na produção. O imposto manteve-se por largos anos até 11 de Setembro de 1861, altura em que foi extinto na Madeira e nos Açores323. O alvará de 1772 e instruções de 1773324 dão conta do modo a seguir na administração do imposto, tendo em conta as fraudes e subterfúgios que habitualmente surgiam na arrecadação. As instruções de 1773 especificavam a forma de recolha da colecta: As pipas de vinho a 315 reis cada uma e os almudes a 12 reis, as aguardentes a 248 reis e os seus almudes a 48 reis, e as de vinagre a 160 reis, e os almudes dele a 6 reis cada hum. Estavam isentos os vinhos produzidos nas cercas, muradas de qualquer convento, que diserem respeito às cláusulas deles, como também o fabrico e os casais e fazendas, que forem enfiteutas ao cabido da colegiada de Nossa Senhora de Oliveira de Guimarães...325. De acordo com as instruções de 1773 e alvará de 1772 a arrecadação deveria ser feita por meio dos juízes ou contadores. Mando que nos tempos em que os vinhos das colheitas entrarem nas adegas e os do consumo ordinário nas tavernas sejam obrigados os donos deles a manifestálos perante os respectivos juízes que farão lançar, por termos estes manifestos nos sobreditos livros, debaixo das penas contra os primeiros do perdimento dos vinhos que não manifestarem, ou os manifestarem com diminuição em prejuízo público, contra os segundos de suspensão dos seus lugares até minha mercê nos casos em que acharem incursos nas negligências de não terem obrigado os donos dos vinhos de colheitas até o fim do mês de Novembro de cada ano. E os que venderem vinhos por meudos antes de os recolherem nas tavernas onde será perdido provandose que nelas sem ser manifestado, salvos somente os casos que apresentarem certidões e guias com que provem que as imposições serão já pagas pelos primeiros vendedores. O mesmo se observará debaixo das mesmas penas pelo que toca às aguardentes, incumbindo sempre aos ditos respeitos. E em todos os casos os pagamentos, e os encargos as pessoas que fizerem as vendas em grosso os seus armazéns, ou suas adegas, como sucede nos vinhos das costas e demarcações do Alto Douro, cuja arrecadação se acha encarregada a Junta da Companhia Geral da Agricultura deles326. Os juízes ou contadores deveriam ir às terras das comarcas e incumbir ao juiz da vara ou o juiz ordinário a diligência de tomarem aos lavradores e mais pessoas delas debaixo de juramento dos Santos Evangelhos, os manifestos dos vinhos, que cada um tiver recolhido nas adegas e casas de sua morada e isto no acto da revista, que os ditos juízes devem dar ao tempo das colheitas deles. Obrigando-os outrossim a manifestarem as aguardentes e vinagres que a esse tempo tiverem nas ditas adegas e que pelo ano em diante fabricarem...327. No final do mês de Novembro de cada ano os juízes deviam ter concluída a revista 323.Vide “Informação Vinícola”, nº 5, 1950, pp. 1 e 3. 324.ARM, RGCMF, t. 12, fols. 9vº-12vº. 325.Idem. 326.Idem, t. 13, fols. 5-7vº.

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às adegas e casas dos moradores do distrito de modo a enviarem uma certidão autêntica extraída do livro dos ditos manifestos328. A partir das certidões o Provedor fazia o mapa geral que enviava à Junta da Administração e Arrecadação do Subsídio Literário329. Foi este o modelo administrativo aplicado na ilha com a Repartição do Subsídio Literário330. O sistema de propriedade, assente no contrato de colónia, gerou dúvidas quanto à forma do lançamento e arrecadação do imposto. Não se sabia sobre quem deveria recair o imposto: o senhorio, colono ou mieiro. Em 1777 o Governador desfez todas as dúvidas por meio de um edital, partindo do princípio que os colonos ou mieiros que, na verdade, são jornaleiros, que as cultivão e recebem a satisfação de seus jornais as meunças de todos os frutos que colonizão e que os mesmos eram pobres e a acção de manifesto do vinho os obrigava a deslocações prolongadas e desgastantes, pelo que decide: Ordeno, que os ditos lavradores, ou sejam proprietários das fazendas, quais são os que nelas tem o domínio directo e útil, ou sejam arrendatários delas, quais são os que por certo e determinado tempo e preço tem só o domínio útil, sejam unicamente os obrigados a manifestarem todo o vinho que produzir cada uma propriedade das ditas fazendas, ou de sua propriedade, ou do seu arrendamento e a pagarem a imposição ou coleta respectiva a todo o dito vinho produzido na sua fazenda sem que sejam contemplados para o pagamento as pessoas, ou colonos a quem os ditos proprietários ou arrendatários façam à parte ou o todo dos ditos vinhos, ou em pagamento, como é aos colonos, ou em renda, como é aos mercadores que lhes comprão. Ficando lhes sempre o direito salvo (se entenderem que o tem) para haverem dos mesmos colonos, e dos mesmos mercadores a importância respectiva à coleta que pagarem dos referidos vinhos, que pelos referido modo lhes entregarem331. Eram os proprietários ou arrendatários que pagavam os direitos do vinho e tinham poderes para deduzi-los do total da colheita. Em aviso às câmaras de 12 de Julho de 1777332, em consequência do edital, ordenou-se o manifesto dos vinhos. O pagamento era feito em dois quartéis, sendo o primeiro pago logo no início e o segundo a partir de 5 de Novembro333. Como seria de esperar a medida não teve bom acolhimento por parte dos proprietários, que se sentiram lesados. Em 27 de Novembro de 1778334 dá-se conta que sendo parcial (o edital) fez causar uma revolução nesta terra que nem a política e o cuidado com que a Junta fez logo anular o dito edital e influir nos povos, que em nada se alteraria a cobrança da sua consistência antiga, pode remover a repugnância congénita a

pagarem, a qual é consequência, porque estes povos não tem todo o acatamento devido às ordens régias e menos ideias de utilidade resultante deste subsídio. E por isso é necessário todo o cuidado como em nenhuma outra terra335. Deste modo retornou o sistema antigo, moroso e lesivo do colono ou mieiro. Em 14 de Julho de 1777336 o escrivão da Junta do Subsídio Literário, Vicente Luís Nobre, representou ao monarca os inconvenientes da arrecadação em dinheiro e a possibilidade de passar a ser feito em género por meio de contrato. Deste modo se obviaram os inconvenientes devidos à inépcia dos oficiais: Agora devo participar a Vossa Mercê que estes povos estão no miserável estado de não poderem pagar, pois lhes falta o dinheiro, que aqui é pouco, em vinho muito bem poderião satisfazer, mas ainda que ordem houvesse para isto, muito trabalhosa seria a arrecadação dedução e só assim por meio de arrematação, arrecadando-se a colecta ou por massa geral, ou por freguezias como se faz aos dízimos, porque os mesmos rendeiros dos dízimos, os outros administrando e recebendo a colecta em vinho era suavíssima aos lavradores e lucrosa à colecta, porque neste continente não se praticão as colheitas do reino que vão passando dos lagares a encubar nas adegas, mas como as terras estão aqui divididas em porções módicas de colonos, estes pisando suas módicas porções que logo imediatamente conduzem a meia parte corespectiva ao senhorio para a cidade, nem dão lugar a tirar guias, o que é impraticável por ser a condução em barris de dois almudes, ou odres sobre ombros de homens, porque a escabrosidade dos caminhos faz impraticáveis outras condições. Ou deixão de pagar a colecta quem só tem 2, 3 e 4 barris o que farião se pagassem o vinho por almudes. E por isso é impossível fazerem os juízes leigos o lançamento como devem, porque não há adegas lá para onde se conduzão, ou são de mercadores, que comprão em mosto, ou de senhorios em que recebem as suas mais partes do rendimento, ficando a outra meia parte, que pertence ao colono no arbítrio deste quando não chega a pipa a ocultá-lo, além de que os oficiais para os lançamentos são inábeis, e escusão-se com razão pelas longas e falta de possibilidade, porque as vilas são muito distantes e os oficiais opidâneos são inertes mas assim vão tratando do modo mais activo que pode ser337. Noutro documento de 1779338 insistiu-se na má arrecadação e administração dos juízes nas comarcas: Nem a ilha pelos juízes ordinários rudes que há nas ilhas e que só o seu sinal mal fazem podem dar conta de semelhante encargo, porque os chamados à Contadoria Geral da Junta para aprenderem, tanto pela sua inversível ignorância, como pela quotidiana expulsão de uns, entrada de outros, e finalmente pela longitude das terras e um só escrivão não pode, porque nem tem que viver e menos com que transitar, porque os moradores são avulsos por não haver na ilha povoações ou lugares, nem os colonos encubam os vinhos em suas adegas, porque não as tem...339. As

327.Idem, t. 12, fols. 9vº-12vº. 328.Idem. 329.Para a escrituração existiam vários livros de contabilidade - um borrador, um livro-diário, um livro do mestre, 4 livros de registo de ordens, e 7 livros auxiliares . Cf. A. F. Germano, O Subsídio Literário e os Estudos Menores - 1772/1782, Lisboa, 1969 (tese de licenciatura em História apresentada em Lisboa à Faculdade de Letras), pp. 95/96. 330.Da acção da repartição, guardam-se no ANTT [ANTT, PJRFF, nº 994/1186.] alguns livros que atestam a actividade e nos fornecem elementos importantes para o estudo de determinados aspectos da estrutura da propriedade fundiária na ilha [Idem, nº 1049/1073.]. 331.ANTT, PJRFF, nº 995, p. 11. 332.Idem, nº 995, pp. 12/14. 333.Idem, nº 995, pp. 14/15. 334.Idem, nº 994, pp. 26/28.

335.Idem, 336.Idem, 337.Idem, 338.Idem, 339.Idem,

nº nº nº nº nº

994, 994, 994, 994, 994,

pp. 8/11. pp. 8/11. pp. 8/9. pp. 25/41. p. 37.

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recomendações foram de pouca importância, pois que nada havia sido feito até 1788340 mantendo-se a prática lesiva dos juízes: Estes umas vezes por negligência, incapacidade, outras vezes por ser aquele trabalho sem remuneração alguma deixam passar o ano do seu juizado sem fazer diligência alguma, correspondendo unicamente em cartas e respostas de dúvidas e embarcações, desculpando-se com os procedimentos de seus antecessores ou exagerando a miséria e impossibilidade dos colectados, ao ponto, que quando pela Contadoria Geral se chega a conhecer os fundamentos verdadeiros ou inabilidade, ou descuido dos juízes ordinários, é em tempo que tem findado a sua jurisdição e produz novos motivos de desculpa, que deste modo se amontoam as dúvidas, impossibilitar-se os devedores e se confundem os procedimentos e escrivães, os quais muitas vezes se aproveitam desta mesma desordem para se servirem dos dinheiros cobrados e espalhados pelas freguezias. À inépcia dos arrecadantes juntava-se a retracção dos arrecadados e a falta de operacionalidade das repartições da Junta na vigilância e controlo, pois a população desta ilha dispersa por branhas e serras, sem lugares ou aldeias, em que não pode caber na diligência dos exactores vagarem, ainda quando não os embaraçasse, a incapacidade, e comissão, pobreza...341. À Junta não interessava nem era possível punir todos os infractores, mas apenas os casos mais gritantes, para servirem de exemplo, como então se dizia. A justificação foi mais uma forma de subtrair a responsabilidade directa e define a complacência dos quadros administrativos. A Junta pautava-se pelos seguintes princípios: Porque esta tem por dictame castigar poucos para terror de muitos e não destruir um corpo desfalecido quando vê que a falta de prontidão nos exactores nasce da miséria em que vivem sem os lucros a que esta junta não pode deferir, vendo que os merecem pela pobreza em que são obrigados a vagarem por serras e branhas, a desamparem suas casas e famílias, e a conduzirem consigo o alimento, pagando casas, por não haver estalagens; finalmente porque os mesmos oficiais por falta de rendimento de ofícios, são inertes, por não se aporem a eles alguns hábeis, o que dá causa a não persistirem e nunca poder conseguir-se, não manifestos regulares, mas nem clareza desordenada, numa força dos emprazamentos de juízes e oficiais, de que outra consequência alguma se tira do que perpetuarem-se nos cárceres, como então alguns sem poder averiguar-se a sua responsabilidade e dívidas342. Segundo a lei de 1772, que criou o subsídio literário, era necessário proceder-se aos varejos e guias, aquando da passagem do vinho de uma localidade para outra, de modo a evitar-se as fugas ao tributo e os inconvenientes de uma segunda imposição. A prática seria difícil de concretizar na ilha, sendo necessárias soluções que se adaptassem aos condicionalismos locais. A primeira medida foi a obrigatoriedade dos senhorios e lavradores ou arrendatários darem conta do vinho produzido e pagarem a respectiva soma aos juízes encarregados da arrecadação. Em consulta de 1789343 justifica-se: A

maior parte é transportado (o vinho em mosto) para a cidade do Funchal em mosto e no breve espaço da vindima, que dura de 40 a 50 dias, sendo o seu transporte feito parte por mar e parte por terra, em muito pequenas porções. Nestes termos quais serão as pessoas encarregadas desta cobrança, que tão breve espaço possam tomar denuncias, receber o pagamento e passar guias e examinar os vinhos que em tão grande quantidade entram naquele espaço, assim por mar, como por terra, não só de dia, como de noite. Que confusão e desordem se seguiria em querer embaraçar o expediente destes indispensáveis transportes, quando no campo se não achão adegas suficientes para o vinho, porque a parte dos senhorios, habitantes nesta cidade, toda é transportada para esta, e a maior parte do vinho dos caseiros, é vendida à bica a infinitos habitantes também desta cidade para d’onde os transportão. Em 1787344 procedeu-se à reformulação da lei de 1772 com o novo regimento dado pelo Visconde de Vila Nova da Cerveira e, em 1805345 determinou-se uma nova modalidade de arrecadação com o recurso aos arrendamentos. Procedeu-se à arrematação da colecta para os anos de 1805/1807, ficando encarregado Francisco Alexandre Silva. Em 1798346 os proprietários negaram-se ao pagamento da colecta, ocultando a quantidade e qualidade do vinho produzido, contado para o efeito com a complacência do escrivão da arrecadação. A 14 de Março347 a Junta recomendou ao Juiz vereador da cidade que exercesse vigilância sobre a acção do escrivão. Neste ano corria um processo contra Agostinho Pedro de Vasconcelos e Manuel Acciauoly, por não ter pago a colecta de 1795348, o que prova a maior dureza da Junta após a reformulação do regimento em 1787. É também a partir de então que os livros de registo da arrecadação são mais abundantes. Por alvará e edital de 7 de Julho de 1787 isentou-se os vinagres e aguardentes, enquanto os vinhos verdes ou de enforcado pagavam apenas 120 réis por pipa, o que em 1789349 foi abolido, passando a pagar igualmente 315 réis por pipa e 1 real por canada. A medida de interditar as aguardentes e vinagres tinha, de certo, em mente uma consulta de 1779350 que referia aos inconvenientes da colecta sobre o vinagre e aguardente, únicos géneros que faziam mover desta ilha o comércio do Brasil, comércio tão suspirado... visto que por indolência dos povos se não tinha com a corte351. O comércio era tão pouco que, a manter-se o estanco a favor do imposto, ficaria reduzido a nada. Os dados quantitativos evidenciam a evolução do volume do produto arrecadado e a relação directa com o volume de produção. A partir de 1805 é evidente a assiduidade na marcação dos dados das colectas, facto que deve resultar de as colectas passarem a ser feitas por meio de contratos de arrendamento por hasta pública.

340.Idem, nº 995, pp. 50/52. 341.Idem, nº 994, p. 74. 342.Ibidem, nº 994, pp. 76, 91. 343.Idem, nº 995, pp. 53/54.

344.Idem, 345.Idem, 346.Idem, 347.Idem, 348.Idem, 349.Idem, 350.Idem, 351.Idem,

nº nº nº nº nº nº nº nº

996, 996, 995, 995, 995, 996, 995, 761,

pp. 17/18. p. 85. pp. 63/5. pp. 65/68. pp. 69/72. pp. 24/25. pp. 25/41. pp. 173/174.

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LOCALIDADE

1795

1796

Arco da Calheta

112749

108981

144403

143036

1802

1803

1804

1805

1809

1811

1812

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1818

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1823

1825

1827

1828

1829

1831

1832

185

1833

151563

Arco de S. Jorge Calheta

1834 51271 65219

84208

62774

Camacha

1992

Câmara de Lobos Campanário

170790

Canhas

87889

Caniço

11057

170672

67744

110130

84209

60482

46004

25965

99649

18023

37022

13936

13463

215644

149623

26565 126334

56406

39523

211708 55700

60733 48619

24153

33550

24099

Curral das Freiras Estreito da Calheta

115011

108981

279880

75438

E. Câmara de Lobos Faial Fajã da Ovelha

349541 22164

13885

13892

19374

Gaula Jardim do Mar

28004

Madalena

21418

18580

11341

17588

23610

9591

Machico

37551

Monte

50309

23136 21535 210509

45714

61977

59695

Nª Senhora do Calhau

54782

Ponta Delgada Ponta do Pargo

403986 12840

Ponta de Sol

53072

26020

Porto da Cruz

52633

Porto Santo

108582 11478

269757

128512

94456

339100

188172

208012

108847

12282

56332

46944

Ribeira da Janela 81582

33294

33431

60896

67138

144374

68841

31285

41988

63613

52477

152396

132418 301570

39871

166495

19009

32512

93467

99649

143095

282370

15269

23385

São Jorge

45644

São Martinho São Pedro

315672 82229

72147

74178

58402

75887

113134 85061

52282

86797

São Vicente

351941 269503

1769

1127

Seixal

169374

Serra de Água Tábua

64968

93379

100438

Santo António

São Roque

82419

71322

42275

Santa Luzia São Gonçalo

83194

108632

Santa Maria Maior Santana

104171

9441

Ribeira Brava

Santa Cruz

49403

212135

Porto Moniz Prazeres

27008

343364

35661

SUBSÍDIO LITERÁRIO.

63504

160075

6726

33795

8524

21505

6536

25960

26661


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

187

Marcas da firma Cossart Gordon & Co.

Os preços

P

O estudo dos preços torna-se importante na abordagem das flutuações económicas e conhecimento do processo histórico no geral352. Guiados por este princípio decidimo-nos por uma breve abordagem dos preços do vinho. Acontece, que uma análise do movimento de preços necessita de uma reflexão aturada da dinâmica envolvente, uma vez que os números e gráficos, de per si, não são elucidativos e idênticos aos movimentos de produção e exportação. Aqui há que ter em conta a relação entre os valores monetário e real, com o ouro e prata. No caso da Madeira devemos ter em conta a disponibilidade de prata uma vez que a moeda corrente era a prata espanhola. A moeda circulante na ilha entre os séculos XVII/XIX foi a pataca espanhola. Estamos perante um facto notável se tivermos em conta a obsessão pelo ouro e dos ingleses não terem conseguido inverter a situação353. A questão financeira dominou as carências do mercado insular sem nunca se ter encontrado uma solução satisfatória, reflectindo-se nas crises económicas que sucederam ao longo dos séculos XVIII e XIX. Em 1799354 a situação económica da

Borracheiro. E. C. Lobos. Foto Figueiras. Photographia Museu Vicentes

352.Como o sugere A. Silbert [Do Portugal do Antigo Regime ao Portugal Oitocentista, Lisboa, 1977, pp. 3/31] no estudo que faz sobre o movimento dos preços dos cereais em Lisboa desde 1750/1850: Ninguém ignora quanto a História dos preços pode enriquecer a História Geral. Ela permite tirar conclusões suficientemente seguras sobre as flutuações. É indispensável a toda a tentativa de compreensão de um período. Os movimentos longos agem sobre as estruturas ou reflectem as modificações que as afectam. E o jogo combinado das estruturas e conjunturas apresenta muitas vezes a chave das grandes transformações históricas [Idem, ibidem, p. 9.]. V. M. Godinho [Introdução à História Económica, Lisboa, s/d, pp. 87/181, e no Dicionário de História de Portugal, vol. IV, pp. 488/516. Prix et Monais au Portugal.1750/1850, Paris, 1955.] salienta que a importância do estudo do movimento de preços com elemento importante para o estudo de uma dada conjuntura económica, tendo para tal feito um estudo, bem elaborado sobre preços. No que foi secundado por M. H. Pereira [Livre Câmbio e Desenvolvimento Económico..., Lisboa, 1971, pp. 189/231.]. Num estudo do movimento dos preços agrícolas na segunda metade do século XIX, tendo em consideração que por tal meio seria possível verificar a correlação entre as alterações produzidas na produção e os preços e entre estes e a exportação. 353.A. Silbert, Madère un Carrefour..., pp. 42/44. 354.ANTT, PJRFF, nº 761, pp. 52/59.


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

ilha é resultado do facto de não haver dinheiro girante e em girar o pouco em moeda castelhana de 200, 100 e 50 reis com vinte e cinco por cento de perda no valor de 160, 804 reis, porque corre fora da ilha quanto ao dinheiro sarrilhado, porque o do Peru ou mechicano se não pesa como devera e como susceptível de furto se vai o povo agravando355. Como solução tivemos a substituição pela moeda do reino, o que facilitou as trocas. Em 1813 a falta de dinheiro corrente era crónica, contribuindo para isso as práticas especulativas dos comerciantes: Há aqui negociantes com grandes liquidações em todos os artigos, sem comprarem vinhos, nem letras. Tem estes contra si a presunção de réus na matéria sujeita, minando surdamente o fundamento principal do comércio, que é a moeda, com prejuízo público e particular, pois falta o dinheiro e para paga da Real Fazenda, dos proprietários dos vinhos, falta o giro das letras e por consequência extinta aquela mola real ficam paradas todas as ramificações do bem público e particular. Tão grandes males merecem proporcionados remédios356. Em 1821357 a falta de moeda foi compensada pelo hábito da troca directa, de produto a produto, sendo o vinho a moeda corrente ou a contrapartida à importação de comestíveis e manufacturas358. Quando o circuito falhava era o caos financeiro para o agricultor e o momento ideal para o inglês aumentar os réditos, através do crédito aos agricultores. A situação marcou a relação entre o agricultor e o comerciante de vinhos e do preço de compra do vinho. A prática dos mercadores ingleses foi vantajosa, não só porque assegurava uma permanente actividade dos representantes e casas comerciais, mas igualmente porque era um incentivo ao controlo dos circuitos comerciais e preços de compra do vinho. Contra isto manifestaram-se por várias vezes a Junta e a Câmara. A primeira referência surge em 1722359, dando-se conta que o vinho da Madeira era escoado para o Brasil ou vendido aos ingleses e lhe tinham pouca conveniência, porque os ingleses os queriam extrair, como extraem, por muito inferiores preços e a troco de alguns géneros comestíveis, que lhe tinham pouca conta aos moradores dessa ilha. Em 1814360 com o tratado de 1810 a dominação inglesa fazia-se sentir de forma vincada, tornando o comércio dos insulares passivo: O nosso comércio é absolutamente passivo, os ingleses põem o preço aos nossos vinhos e aos seus efeitos. O cabedal da gente da terra está todo em poder deles pelos longuíssimos prazos, a que tem puxado os pagamentos e para aguentar, ainda, a sua preponderância e ascendência comercial trabalham por fazer parar nas nossas mãos, para passar às suas pelo preço que quiserem um grande excedente de vinhos e não há decerto meio mais adequado para obter este danado fim do que arruinar e obstruir o nosso consumo interior, que sendo só dos nossos vinhos, emparelha com a exportação361.

No século XVII o preço de compra do mosto era estabelecido em vereação, de acordo com as estimativas da produção e a qualidade da colheita de acordo com a posição geográfica das vinhas: meias terras acima ou meias terras abaixo362. A designação, que diferencia os preços de acordo com a altitude, desapareceu a partir de 1667.

355.Idem, p. 55. 356.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 59-59vº. 357.Idem, t. 15, fols. 263/264. 358.ANTT, PJRFF, nº 942, fols. 45, 160; idem, AF, nº 239, fol. 54vº. 359.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 59-59vº. 360.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 79vº/81. 361.Em documentos de 1814 e 1817 alude-se ao mesmo facto, vide ARM, RGCMF, t. 14, fols. 87vº, 154-155.

Ano 1620 1625 1665 1667

PREÇO DO MOSTO.1620-1667 Meias terras cima Meias terras abaixo 5$500 4$800 5$000 6$000 5$000 4$500 6$500 7$000

O preço de venda à bica do lagar tinha em conta não só a área de proveniência como também o tipo da casta. No Funchal estabeleceu-se a diferenciação entre as meias terras abaixo e meias terras acima. Depois demarcaram-se as áreas entre S. Gonçalo e Câmara de Lobos e daí por diante até à Lombada da Ponta de Sol363. Quanto à casta sabemos que a Malvasia era a mais valorizada, havendo uma diferenciação do preço por localidade. Em 1641 uma pipa de malvasia do Caniço, vendida à bica do lagar, custava 8$000 réis, situando-se o demais entre 4 e 5$000 réis364. Em 1846 ao barril de mosto de Malvasia da Madalena do Mar valia 3$600 réis, enquanto a dos Anjos, nos Canhas ficava por 2$500365. PREÇO DO MOSTO POR LOCALIDADE DE ACORDO COM A CASTA.1839-1848 CASTA

LOCALIDADE

1839

1846

Anjos Madalena Santa Cruz Arco da Calheta MALVASIA Jardim do Mar Paul do Mar Calheta Canhas Ribeira Brava

3400 4200 4000 5000 5500 7000

5010

SERCIAL

Paul do Mar S. Vicente Jardim do Mar

5000

BOAL

Paul do Mar

4000

1848 2400

4000 5700 3600

4300 1800 2300

3000

3000 3000

4500 3200

No século XX as câmaras municipais passaram a diferenciar a qualidade do vinho por sortes. Os preços eram tabelados em 3 sortes:

362.T. B. Duncan, Atlantic Islands, Chicago, 1972, pp.40-43 363.Em 1661 o primeiro vinho valia 8$000 e o segundo 7$000, veja-se João Adriano Ribeiro, Ribeira Brava. Subsídios para a História do concelho, Funchal, 1998, p.157 364.F. Mauro, ob.cit., p.119. 365.J. Adriano Ribeiro, Ponta de Sol. Subsídios para a História do Concelho, Ponta de Sol, 1993, p.117.

189


190

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

LOCALIDADE

1821

1822 1ª

Água Pena Arco Calheta Arco S. Jorge Boaventura Calheta Camacha Campanário C. Lobos Canhas Caniço Curral E. Calheta E. C. Lobos Faial Fajã Ovelha Gaula Jardim do Mar Lombada Machico Madalena Monte Nª Sª Calhau Paul do Mar P. Delgada Porto Moniz P. Pargo P. Sol P. Cruz Porto Santo Prazeres Ota Grande Ribeira Brava R. Janela Santa Cruz Santana S. Maria Maior Santa Luzia S. Martinho S. Pedro S. António S. Gonçalo S. Jorge S. Roque S. Vicente Seixal Serra Água Tabua

1839

1845

1846

1846

1310 1380 1450

1900 1200 1500

1400 1800 1200

1400

1500

1380

2000

1800

1400

1200 1500 800 1100

1500 2400 1100 1400 935 1380 1700 1200 1220 1400

4000 4700 1800 2000 1100 1800 4500 1700 2900 2000 4000

3500 4000 1500 1600 800 1600 3000 1400 2000 1600 3500

2500 2000 800 1200

1300 1000 1000 300 3000 2200

1200 1000 800 700 1100 2200 1800

2000 1100 1500 1200 3000

1500

1300

1100

2200

2000

1220 1320 1700 1220 1100 1500 1410 1220

1900 2000 2400 1900 1600 1600 2500

1600 1700 2000 1400 1500 1500 2000

1300 1600 1500 1000 1200 1400 1000

1100 1700 1400 1230 1910 1900 2160 2350 2450 1910 1220 1900 1365 1410 1100 1100

2500 1700 2000 1300 2800 2100 3000 3000 3000 2700 1350 2900 1400 1600 1800 1800

2000 1500 1600 1000 2500 1900

1500 1200 1200

4000 4000 4.500 45000 2800 3000

3800 3000 2500

3300 2400 2000

3000 2000

1800

1600

1500

4000 1800 5600 5600 3500 4000

2800

2500

2000

1800

7000 2500 3000

6000 2000 2700

4000 1200 2400

2700 6600 3000 3500

2500 4500 2500 3000

2400 3000 2000 1500

1600 1100 2500 2500 1000 1600 900 1500 2500 1300 1800 1500

3000 5500 3400 4000 4000

3000 3500 4500 5000 3000 5000 4000 3000 3200

5000 3500 4000 2400

5000 2500 3500 4500 5000 4000 2000 4000 5000 3000 3000

4500 3000 3900 2200

4000 4000

3000

4000

4000

3000

3500

3000

1500

2600 3400

2300 2800

2000 2000

4200 4000 3000 3600 3000 2600 3400

3500

4000 4000 3500

5000 1500 3300

4500 5000 5000 5000 5000 2600 5000 1500 3000

5000

4600

3000

5000 5000 5500 4500

1844

3800 1200 6200 6000 3000 4500 2000 3000 5500 3000 4500 4000

4000

4000 3000 4000 2000

2300 3300 2500 2000 3100

3500 2500 3500 1800

2000 3000 2000 1200 2700

1800 2000

3000 2100

2000

2000 2800

2300

2200

2800

2000

1400

4500

2500

PREÇO DO MOSTO POR FREGUESIA.1821-1852

3200 3500 1400 1800 100 1800 3500 1600 2000 1900

1300 1800 1000 1000 1000

1800 2000

1500 1700

1300

5000 1400 2000 2000 1500 1600

3000 1100 1800 1500 1100 1400

2800 800 1600 1200 800 1000

5000

3000

2200 1500 1900 850 2500 1800 2000 2600 2600 2300 1000 2500 900 1200 1400 1400

1600 1300 1500 709 2200 1600 2200 2000 2000 950 2200 800 1100 1200 1000

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

800 1000 1100 1800 1500 1600 1400

1000 1000 800

1310 1120 1900

1848

1400 1700 900 1500 2800 1200 1500 1600

1300 1800 1600

1000 1400 800 1300 2000 1100 1200 1400

1200 1500 1200

1850

1851

2600 2400 2200 1200 2400 1300 1500 1500 1500

2000

2000 1800 1000

1400 900 1000

1852

800

2800 2000 1500

1800 1600 1100

1500 1200

2800 2000 1800

2000 1500 1500

1700 1200

1500 1200 3000

1200 1000

800

900

2200

1800

1500

2000

2000

1800

1500

1200

1000

4500 1500 1800

2500 800 1200

1600 2500

1500

1600 3500 1700

1400 2500 1400

1000

1500

1200

1800

1200

1400 1800 3500 3000 2000 2000 2000

1100 1200 2200

2000

4500 4000 1500 1500 1200 1700 3500 1800 2000 1800 3000

2500 2500 1400 1200

1800 5000 2000

5000 5400 1800 2000 1500 1800 5100 2000 3200 1900 4000

2000 3800

700 1000

5300 2000 2100

1500

800

1900 2000 3000

1600 1800 2600

1400

1200

1000

5500 2200 2500 3000 1500 2000 2400 1800 4000 2600 2600 2000 1500 3300 3000 4000 4000 4000 3300 1400 3300 1500 2500 1600 1900

5400 1800 2200 2500 1200 1900 2300 1600 4000 1500 2000 1600 1000 2600 2500

4000 1600 2000

1200 1000 800 1000

1000 1200

1800 2000 2600

1600 1600 2200

1400 1200

3000 1500 2000 1500 1600 1300 1500 2000 1600 1300 1600 900 2200 2400 2400 2400 2400 2000 900 200 800 1200 1500 1800

191

1300 1500 1200 1500 1200 1300 1600 1200 1200 1400 800 2000 1800

1100 1000 800 1300 1100 800 1300 800 1000 1000

1800 1700 1800 800 1700 700 1100 1300 1200

1400

1600 1400

1500

1100 1000 800 600

2000 2000 2000 2000 2000 2000 2000 1200 3000 2500 4000 4000 3800 3300 1200 3300 1000 1800 1900 1800

1500 1800

1000 1500

1500

1000

1600 1800 1800 1000 2500 2200

1200 1500 1500 2200 2000

3000 2500 3000 1000 2700

2000 2800

1600 1500 1400

1500 1000 1000

1500 2000 1400 1500 1300

1500 1500

1500

800 1800 2200 1200 3000 800 1500 1200

1200 8000 3000 4000 5000 2000 3200 4200 1200 3000 3000 3000

4000 3500 1800 1500 2000 4000 1000 2000 1800

2500 1200 600 1500 3800 800 1000

2000 2200 2000

3000 2800 2800 1300 2600

2000 2600

200 1200 1400

1800 800 1000

6000 5500 3000 3000 1500 3000 2000

1000 1500 3000 2500 2200 1500 1000 2200 1000 2500 1000 1200

2000


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Para o período de 1699 a 1863 temos informação dos preços da pipa de mosto vendida à bica do lagar no concelho de Machico366:

de 16.000 reis o barril. A quebra acentuou-se, atingindo valores de 3.000 e 8.000 reis, igual ao que tivera há cerca de 250 anos370. Em 1829 pressente-se uma ligeira recuperação a que se seguiu entre 1833/1834 uma quebra superior à de 1819/1823, num momento em que a exportação se encontrava em notável recuperação, se tivermos em conta os anos de 1830/1831. Entre 1837/1845 tivemos um aumento acentuado do preço da pipa de vinho, seguindo-se a partir de 1846 uma quebra que se manteve até 1850, altura em que aumentou de forma vertiginosa, como se pode verificar entre 1851/1854371, atingindo em 1863 o valor de 80.000 reis, regressando em 1875 a valores inferiores. A subida do preço justifica-se pela permanência da procura pela colheita má, provocada pelo oídio. A quebra foi provocada pela estagnação em 1878 dos vinhos nos armazéns. Entre 1882/1888 a tendência foi novamente para uma progressão descendente372. A subida nos inícios da década de noventa prende-se com o facto de se ter retomado a queima de vinhos para o fabrico de aguardente. Embora em 1893 as perspectivas não fossem as melhores a tendência desde 1898 foi para subida atingindo mais de 30%, fruto do aumento das exportações e consumo local. Acontece que nos anos imediatos o preço desceu devido às colheitas abundantes. O início do século XX foi marcado pela estagnação dos preços dos vinhos superiores, enquanto com os inferiores do Norte a tendência foi para descida em 1907 e de subida em 1912. No mercado local o preço do vinho em mosto variava de terra em terra consoante a qualidade e as castas. Os preços eram tabelados anualmente pelo Administrador do concelho373, de acordo com os condicionalismos de cada área produtiva, sendo a principal diferença entre os preços do vinho do Norte e o do Sul. Em 1783 enquanto os preços do Sul oscilavam entre 60/80.000 reis por pipa, os do Norte ficavam por 30 a 50.000 reis; em 1850 enquanto os do Sul eram vendidos a 50.000 os do Norte por 30.000. No que concerne à qualidade do vinho tem-se em conta quatro sortes com preços distintos para a mesma casta. Em 1822 na freguesia de Câmara de Lobos o vinho comum da primeira sorte vendia-se a 6.000 reis ao barril, da segunda a 4.000 e da terceira a 3.000. As castas, de acordo com a região a que pertenciam, tinham preços variados. A Malvasia do Paul do Mar vende-se a 7.000 reis o barril, do Arco da Calheta a 5.000, da Madalena a 4.200, Santa Cruz a 4.000, dos Anjos a 3.400 (1839). Outra modalidade de preço era estabelecida consoante a casta. Em 1839 no Paul do Mar temos a Malvasia a 7.000 reis o barril, o Sercial a 5.000 e o Boal a 4.000; em Santa Cruz o vinho ordinário a 3.100, a Tinta e Malvasia a igual preço. A situação manteve-se no século XX apontando-se, em muitos dos casos, a atitude dos chamados partidistas que se substituíram aos ingleses. A depreciação dos preços de compra do vinho era uma forma de exploração, tanto mais evidente

PREÇO DO MOSTO EM MACHICO. 1699-1863 Ano

1ª sorte

2ª sorte

3ª sorte

1699 1700 1712 1799 1800 1814 1815 1823 1829 1833 1834 1850 1851 1860 1863

13$000 9$000 11$000 48$000 56$000 80$000 100$000 25$000 30$000 18$000 19$000 18$000 19$000 50$000 80$000

10$000 7$500 7$000 36$000 54$000 75$000 80$000 22$000 26$000 16$000 16$000 16$000 16$000

6$000 5$000 4$000 30$000 48$000 70$000 70$000 20$000 21$000 13$000 12$000 13$000 14$000

A partir do quadro da evolução global do movimento de preços é possível constatar a influência dos factores atrás enunciados. Partindo dos dados disponíveis vamos acompanhar a evolução dos preços do vinho. Desde 1615 a 1815 a tendência geral foi para uma subida acentuada que se evidenciou nos anos de 1810/1815. O facto revela a importância que ganhou no mercado colonial consumidor. O período de 1810/1815 define-se por valores elevados marcando um dos momentos mais significativos do comércio e valoração no mercado internacional. Em 1813 atingiu-se o preço mais elevado. A situação é tanto mais saliente, se tivermos em consideração que a produção de 1812 foi das mais profícuas (40.000 pipas) correspondendo também a uma exportação de valor elevado (22.000). A quebra do preço em 1814 só se torna compreensível com a descida acentuada das exportações, pois que o volume de produção é reduzido, acentuando-se em 1815, o que provocou um aumento do preço. A partir de 1819 a tendência foi para descida, que se acentuou em 1823 e 1833/1834. No primeiro caso a situação explica-se pela estagnação da colheita dos três anos antecedentes por falta de escoamento367. Estava-se num momento de fartas colheitas e de contracção do mercado do vinho. A conjuntura vintista não foi favorável à viticultura madeirense. A contenção das pipas de vinho vinha-se verificando desde 1819368, acentuando-se em 1821369 com a estagnação de 20.000 pipas de vinho nas adegas. A quebra do preço foi elevada, ficando reduzido a 1/3 do de 1817, cerca 366.Zita Cardoso, Machico. Cidade Histórica, Machico, 1996, p.32 367.A. Silbert destaca a mesma conjuntura de crise no reino, vide, Le Problème Agraire Portugais au Temps des Premières Cortes Libérales, Paris, 1968, pp. 37/9. 368.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 198-199vº 369.Idem, t. 15, fols. 263-264, 100vº-104.

370.Idem. 371.Coincidindo com igual subida coincide com igual subida do vinho do Porto conforme salienta M. H. Pereira, ibidem, pp. 223/229. 372.Idem, t. 14, fols. 263-264, 100vº-104. 373.ARM, RGCMF, t. 18, fols. 97/98.

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quando se estabelecem comparações. Antes da Primeira Guerra Mundial a pipa do vinho do Porto valia 70$, quando o Madeira não ultrapassava os 20$, inferior ao preço dos chamados vinhos de pasto do continente374. Os madeirenses estavam dependentes dos interesses das casas de vinho inglesas que fixavam os preços. Em finais do século XIX a casa Cossart Gordon Lda., uma das principais no comércio de vinho, era quem de forma arbitrária estabelecia o preço. Aliás, o senhor Cossart era considerado o rei do comércio do vinho da Madeira.375 Para combater o poder discricionário dos estrangeiros insistiu-se na criação de uma associação de viticultores, o que veio a suceder em 1900 com a Real Associação Vinícola da Madeira, que teve apenas um ano de vida.376 O estabelecimento do preço manteve-se durante muito tempo ao livre arbitrio dos comerciantes e partidistas. A partir de 1835 a classe de Exportadores de Vinho da Madeira, da Associação Comercial do Funchal, anunciava os preços de compra. O preço começou por ser determinado anualmente antes da vindima pelo Governo Civil. Todavia, a partir da década de quarenta do século XX o Ministério da Economia interveio através da delegação da Junta Nacional do Vinho, que determinava o preço do mosto, mas depois voltou-se a situação arbitrária da determinação do preço pelos compradores. No sentido de combater a situação foi manifesto o empenho de algumas autoridades. Foi o caso do empenho do Agrónomo António Teixeira de Sousa na criação de Adegas Regionais, com a função de regular o preço de mercado e de salvaguarda dos interesses dos agricultores em época de vindimas excedentárias. A primeira adega foi montada no Porto Santo em 1956, seguindo-se no ano imediato outra em Câmara de Lobos. Com a criação do Instituto do Vinho da Madeira, desde 1979, ainda se avançou em consonância com a Mesa de Vinhos da Associação Comercial do Funchal, com o tabelamento do preço de compra do mosto, mas hoje a opção é livre, intervindo o IVM apenas na determinação da data da vindima e na fiscalização. Na década de setenta do século XX generalizou-se o uso de aquisição das uvas por parte das empresas, passando o preço a ser estabelecido por kg e graduação alcoólica do mosto. Para uma vindima com 10º Baumé o preço de compra pelas empresas da Tinta negra mole ao kg era o seguinte: 1974: 1975: 1976: 1977: 1978:

11$20 10$88 12$00 17$00 24$00

1979: 1980: 1981; 1982; 1983;

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Sistema de engarrafamento manual. Artur Barros & Sousa Ldª

35$00 40$00 44$00 44$00 54$20

374.Eduardo Atonino Pestana, Ilha da Madeira. II. Estudos Madeirenses, Funchal, 1970, pp.233-238; Eduardo Pereira, Ilhas de Zargo, vol. II, pp. 583-589. 375.Cf. Benedita Câmara, A Economia da Madeira (1850-1914), Lisboa, 2002, pp.139-140 376.Estatutos da Real Associação Vinícola da Madeira. Sociedade Cooperativa, Anonyma, Responsabilidade Limitada. Fundada na Cidade do Funchal em 19 de Janeiro de 1900, Funchal, 1900.

Sistema de engarrafamento automático. Justino & Henriques, Ldª


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As lojas e os serrados A partir do texto de Henry Vizetelly377 e das gravuras que adicionou de Ernest A. Vizetelly é possível conhecer algumas construções que serviram para de adegas para abergar o vinho. Aqui são descritas as instalações de algumas das mais importantes firmas: Cossart, Gordon and Cº, Krohn Borthers & Cº, Blandy Brothers, Leacock and Company, Henry Dru Drury, Henriques and Lawton, Mrs Welsh, R. Donaldson and Cº, Meyrelles Sobrinho e Cia, Henrique J. M. Camacho, Augusto C. Bianchi, Sr. Cunha e Leal Irmãos e Cia. Em todos é evidente a mesma definição do espaço. Uma fachada imponente, que dá entrada para um grande pátio coberto de latada, que serve de logradouro comum às diversas arrecadações: as lojas de fermentação e envelhecimento do vinho, a oficina de tanoaria e a estufa. O bom gosto com que alguns souberam combinar as diversas divisões e o cuidado que lhes atribuíam não foram ignorados por Henry Vizetelly que na casa Blandy Brothers é levado a afirmar que estava perante um verdadeiro museu de vinho.

C Fachada dos armazéns de Blandy Brothers no Funchal. Peretrellos Photographos. Museu de Photographia Vicentes. Princípios do século XX

Os complexos vinícolas

377.Facts About Port and Madeira. Londres, 1880


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Antiga oficina de Tanoaria da Madeira Wine Company nas adegas de S. Francisco. [Colecção do autor , 1998]

A tanoaria A oficina de tanoaria assumia um papel relevante no quotidiano estando em relação directa com a importância da casa378. Maior número de pipas com vinho a envelhecer implicava um aparato enorme de operários preparados para reparação, como para proceder à construção de novas para envelhecimento e embarque do vinho. Acresce, ainda, que, até meados do século XIX, o sistema ordinário de transporte do vinho para os principais mercados era estes recipientes de madeira, feitos em diversos tamanhos: pipas, quartolas, barris e barrilinhos. Embora esteja documentado o uso das garrafas nas exportações foi muito tardia a plena afirmação. Muitas das pipas retornavam à origem em peças de aduela, poupando-se espaço nos navios. O vasilhame de madeira usado no transporte, vinvificação e envelhecimento do vinho, era quase todo fabricado na ilha. Para isso usava-se habitualmente as seguintes vasilhas:

Antiga oficina de Tanoaria da Madeira Wine Company nas adegas de S. Francisco. [Colecção do autor , 1998]

TIPOS Tonel Ponche Pipa Meia pipa Quartola Barril de mosto

CAPACIDADE 750 a 2500 litros 630 550 210 105 50

378.Cf. Lília Mata, Ofícios Tradicionais: os Tanoeiros, in Islenha, 12, 1983, pp.97-105.


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A partir do registo de exportação de vinho é possível fazer uma ideia do vasilhame necessário para o processo de vinificação e transporte do vinho aos principais mercados. A maior incidência, no século XVIII, estava nas pipas, mas na centúria seguinte as vasilhas de capacidade inferior ganharam importância. De acordo com os dados da exportação de 1784 a 1787 as embarcações transportavam em média 80 pipas. Ano Tonéis 1784 1785 1786 1787 1831 42 1832 39

Pipas 8358 11498 6556 10831 3182 3515

Quartos Quartolas 4 1 4 2 280 3415 3522

As madeiras usadas na construção do vasilhame tinham várias proveniências. A ilha fornecia alguma de vinhatico, aderno, castanho e carvalho, mas a maior parte era de importação379. Das florestas do Báltico, até à Revolução Russa, vinham as aduelas preparadas de carvalho negro, o mesmo sucedendo com as de carvalho e faia de Nova Orleães e Charleston. A maior frequência de madeiras é dos Estados Unidos da América380. No período de 1727 a 1810, temos a entrada de 181 embarcações com aduelas381. Da Inglaterra e da Irlanda evidencia-se a maior constância aduelas e arcos, mas também de pipas e outro vasilhame. Estamos perante o retorno do vasilhame usado no transporte do vinho. No período de 1727 a 1810 foram declaradas na alfândega 238 embarcações com aduelas e arcos e 147 com pipas e outras vasilhas.382 I

IMPORTAÇÃO DE MATERAIS DE TANOARIA- 1819-28 Ano

Origem

1819-20 Nova York Londres Canárias Liverpool 1821

Filadélfia Bordéus Liverpool Leithe Londres

Pacas

Arcos

Pipa

Quarto

Quartola

275

73

105

Aduelas

(molhos)

Molhadas Pipas

quartos

10 191

3

24.309 1.200 55

55

10 1.389 221

223 100

20

10

2.189 2.900

379.Gaspar Frutuoso, Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p.138 380.Importa-se madeira incluindo tábuas para barris, sobretudo da América. [Alfred Lyall, Rambles in Madeira…, London, 1827, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.348] 381.J. J. Abreu de Sousa, O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810. Alguns Aspectos, Funchal, 1989., pp.146-148 382.J. J. Abreu de Sousa, ibidem., pp.138-141.

Ano

Origem

Pacas Pipa

1827-28 Filadélfia 10 Liverpool 300 Londres 621 Newport Neverson 60 Nova York 125 Garnizé Estad. Unidos América 1829-30 Filadélfia Liverpool Londres 404 Dublin 25 Bristol Nova York 464 Hamburgo

Arcos

Quarto

Quartola

(molhos)

300 342

197 329

1.192 7.230 160

Aduelas

201

Molhadas Pipas

quartos

20 160 37 15.919

100 125

20

636

760

109 2.072 2.307 4 1.498 218

As peças de tanoaria importadas tinham preço de venda ao público publicitado nos jornais: PREÇO DE VENDA AO PUBLICO DOS MATERIAIS DE TANOARIA.1836-1838 PEÇAS 1836 1838 Aduela de pipa(milheiro) 120$000 a 130$000 120$000 a 130$000 Aduela de quarto(milheiro) 85$000 a 90$000 70$000 a 80$000 Aduela de quartola(milheiro) 45$000 a 60$000 60$000 Arcos de ferro(quintal) 4$000 a 4$500 4$000 a 5$000 FONTE: Flor do Oceano, 71, 1836; A Chronica, nº.18, 1838

O convento de Santa Clara dispunha de uma ampla adega no Funchal e outras dispersas por toda a ilha, de forma a poder armazenar o vinho que lhe pertencia. Em 1667 são referidas 161 pipas para uso corrente283. Ora isto implicava a existência de uma importante oficina de tanoaria. As aduelas eram preparadas até fim do século XVII com madeiras de S. Vicente, passando a partir daqui a depender de madeiras importadas da Grã-Bretanha284. O tanoeiro, para além do serviço de apoio às lojas de vinho, tinha também ocupação no apoio às embarcações que demandavam o porto. O trabalho era duplo pois o vasilhame era usado para manter as reservas necessárias de água potável a bordo. Em 1566, de acordo com o livro de posturas de Lisboa, tanto faziam as pipas no porto de Lisboa, como nos da Madeira, Castela e Algarve285. Em 1698 a Provedoria da Fazenda pagou aos tanoeiros 26.110 réis pelo concerto de 98 pipas de água da fragata Nossa Senhora das Hortas, vinda de Lisboa286. O trabalho do 383.ANTT, Convento de Santa Clara, maço 2, 10 de Maio de 1667. 384.Otília R. Fontoura, As Clarissas na Madeira, Funchal, 200, p.100. 385.Livro das Posturas Antigas, Lisboa, 1974, p.363 386.ANTT, PJRFF, nº.969, fl. 114vº-115vº.


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PREÇO DO VASILHAME. 1884-1740 Ano Barril Quartola Pipa 1664 1667 1670 $320 $600 1690 2$000 1720 1740 $290

Tonel 1$000 1$666

1$800 1$500

Fonte: ANTT, Convento da Encarnação, nº.14-15; ANTT, Convento de Santa Clara, maço. 2; ARM, Capelas- inventário, maços: 15, 20, 36

O ofício de tanoeiro assumiu desde o século XV uma importância relevante no quadro dos ofícios do Funchal, estando representado na Casa dos Vinte e Quatro com dois oficiais388 e tinha lugar cativo na procissão do Corpo de Deus, sendo eles quem levavam a torre389. A arte da tanoaria era de prestígio na sociedade funchalense390. O juiz de tanoeiro tinha a obrigação de controlar a capacidade do vasilhame feito pelos companheiros de ofício, sendo a marca da corporação a garantia. Na Ribeira Brava um destes, por nome António Rodrigues Jardim, terá construído uma capela da invocação das Almas, que hoje já não existe. A Funchal era o local onde se concentravam-se as oficinas de tanoaria, que começaram a funcionar de forma isolada. Com o desenvolvimento das casas comerciais do vinho, a partir de meados do século XVII, passaram a estar próximas ou incorporadas nas adegas. A Rua dos Tanoeiros existe desde o século XVI391. Num inventário dos ofícios de 1863 sabemos que dos 52 tanoeiros existentes em toda a ilha 46 eram do Funchal392. Funchal. 46 Calheta. 3 Câmara de Lobos. 1 Porto Moniz. 1 S. Vicente. 1 Henry Vizetelly393, no relato que faz da situação da vinha e do vinho da Madeira em finais do século XIX, destaca a importância de algumas oficinas de tanoaria, associadas a empresas, descrevendo a da firma Cossart Gordon & Co: Aqui observáOficinas em plena Rua de João Esmeraldo. Gravura de 1850.

tanoeiro era bem remunerado. Assim em 1671 o conserto de um barril custou 500 réis ao Convento da Encarnação, quando apenas um novo poderia valer 320 réis287. 387.ANTT, Convento da Encarnação, nº.14 fls.58vo, 61

388.Alberto Vieira, O Município do Funchal (1550-1650), in Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira.1986, Vol. II, Funchal, 1990, pp.1056-1057. 389.Bernardete Barros, A Festa Processional, “Corpus Christi”, no Funchal (séculos XV a XIX), in Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira. 1985, Funchal, 1989, vol. I, p.348 390.Diz-se que os barris da Madeira são os melhores do mundo; säo todos feitos na ilha e os tanoeiros formam uma corporaçäo que tem privilégios especiais. Säo os únicos trabalhadores autorizados a exercer a sua actividade na rua. [Alfred Lyall, Rambles in Madeira…, London, 1827, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.348] 391.Álvaro Manso de Sousa, Ruas do Funchal (Notas para o Estudo da Toponímia Citadina), in DAHM, nº.510, 17 de Julho de 1949, p.279. 392.Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.10 383.Facts about Port and Madeira…, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 375-399]

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Antiga oficina de Tanoaria da Madeira Wine Company nas adegas de S. Francisco. [Colecção do autor , 1998]

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mos pipas a serem feitas precisamente do mesmo modo que o utilizado no Jerez, talvez com a excepção do cutelo que os homens manejam tão destramente ser um pouco mais pesado e desajeitado do que o que é usado pelos seus irmãos da mesma confraria do Jerez. Os tanoeiros do Funchal trabalham à peça e cada pipa, que é certamente um artigo bem executado, custa qualquer coisa como algumas libras. à volta da tanoaria havia pilhas de aduelas de carvalho Americano, já preparadas ou em bruto, enquanto no centro do terreno havia barracões onde as pipas são medidas, marcadas com ferro quente, escaldadas e submetidas à acção do vapor de água, bem como alguns grandes reservatórios. O espaço vago entre os barracões e os armazéns está ocupado com filas de pipas de vários tamanhos, acabadas de vir da tanoaria, passando aqui por um período de habituação com água. Quando sito está terminado, as pipas são transferidas para o armazém de Avinhar, sendo lá enchidas com vinho comum, que permanece dentro delas durante dois ou três meses. Nestes armazéns há sempre em uso para este fim entre oitenta e cem pipas de vinho, o qual depois de usado muitas vezes não está mais adequado e é destilado em

aguardente394. Em 1910 são referidas apenas 10 oficinas de tanoaria, mas os operários do ofício deveriam ser em número mais elevado, uma vez que em 1913 foi criada a Associação de Tanoeiros do Funchal, com 124 sócios. Na década de vinte são recenseados duzentos operários relacionados com a actividade de tanoaria395. Hoje a profissão está em vias de extinção e são poucas as empresas que continuam a manter e valorizar as oficinas de tanoaria. Os recipientes de aço inoxidável retiraram-lhe parte do protagonismo. O vasilhame de madeira é apenas usado para o envelhecimento dos vinhos no canteiro. E mesmo aqui a aposta continua a ser nos cascos velhos, já preparados para receber o vinho.

394.Facts about Port and Madeira…, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 389] 395.Peres Trancoso, O Trabalho Português, I Madeira, Lisboa, 1928, pp.119-123

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Antiga oficina de Tanoaria da Madeira Wine Company nas adegas de S. Francisco. [Colecção do autor , 1998]


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Medidas. Exposição de1988. Colecção do autor

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Medidas do vinho

M

A Historiografia testemunha o pouco interesse votado à Metrologia Histórica. Entre nós é uma realidade ignorada, assumindo importância significativa em estudos de História económica396. Até à reforma dos pesos e medidas de 1865, que estabeleceu a uniformização para o todo o país, a cada região correspondia um sistema de medição distinta. Aqui devemos considerar dois tipos de medidas usadas no consumo e comércio que, por vezes, não eram coincidentes. A regulamentação das medidas era uma prerrogativa do poder municipal, estando definido de forma clara a intervenção, quer nas posturas, quer nas vereações397. O município, através dos almotacés e afiladores, procedia ao afilamento das medidas usadas nas lojas de venda ao público como de transporte e exportação. Em 1789 foi provido no cargo de marcador das pipas António José Drumond Novais e Henriques, uma vez que o cargo estava na posse da família398. A venda do vinho ao público só poderia ser feita por almudes estando proibido o uso de jarras e botijas399. Em 1547 a vereação determinava a capacidade das boti396.Confronte-se Witold Kula, Las Medidas y los Hombres, Madrid, 1980; Manuel Lobo Cabrera, Monedas Pesas y Medidas en Canarias en el siglo XVI, Las Palmas, 1989. 397.José Pereira da Costa, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Século XV, Funchal, 1998, p.98-99. 398.Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.46 399.José Pereira da Costa, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Primeira Metade do Século XVI, Funchal, 1998, p.286

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jas usadas na venda de líquidos. As botijas de arroba deveriam ter capacidade para 7 canadas e meia, enquanto a botija de meia arroba equivaleria a 3 canadas e 3 quartilhos400. Ao mesmo tempo determinou-se a capacidade do vasilhame usado no transporte do vinho. A imposição do vinho determinava, ainda, algumas regras sobre a forma de venda do vinho ao público nas tabernas. Em 1485401 o almude passou de 12 para 13 canadas, sendo a referida canada para a imposição. Já em 1637402 o almude, que era de 14 canadas, passou para 15. O barril, para carregar o mosto, deveria ser de 27 almudes, sendo a pipa equivalente a 12 barris de 3 almudes e 1 de 2 almudes403. De acordo com postura de 1842 o barril do carreteiro deveria medir 19 canadas e meia404, mas, passados sete anos, o barril de mosto era de 2 almudes e meio405, enquanto o usado pelos taberneiros era de 2 almudes e 1 almude. Aqui, diferenciava-se a canada de aguardente da de vinho, pois a primeira era de 7 canadas, enquanto a segunda de 14 canadas406. Em meados do século, José Silvestre Ribeiro refere distintas medidas. Assim, o barril de mosto, 400.Ibidem, p.393. 401.IARM. CMF, t.1, fls.22-24vº 402.IARM. CMF, t.6, fls. 26-31vº, 16 de Março. 403.Iibidem, p.392. 404.IPosturas da Câmara Municipal do Funchal, Funchal, 1849, pp.57-60; Posturas da Câmara Municipal da Cidade do Funchal, Funchal, 1895, p.49 405.ISérvulo Drummond de Menezes, Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, Funchal, 1850, pp.49-61. 406.IPosturas da Câmara Municipal da Villa de Machico, Approvadas pelo Concelho de Distrito em 5 julho 1856, Funchal, 1856, p.13.

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Medidas. Exposição de1988. Colecção do autor


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

a Sul e a Norte, era de dois almudes e meio, e o de vinho limpo ficava igual no Norte, sendo reduzido para 2 almudes no Sul. Também no barril anota algumas diferenças, de acordo com o tipo de medida de almude usada. Em S. Vicente e Porto Moniz o barril era de 35 canadas de folha, enquanto no Sul as mesmas de barro. Atente-se que doze canadas de folha equivaliam a catorze de barro407. A pipa de vinho, normalmente de 30 almudes, distingue-se consoante fosse de mosto ou vinho limpo. A diferença era de menos 4 almudes para o vinho limpo. Acontece que no Porto a de mosto tinha 25 almudes e a de vinho claro 26 almudes. Já em Machico a pipa tinha a capacidade única de 10 barris de 2 almudes408. Também se diferencia a pipa carreteira da de embarque. A primeira media 418 litros e a segunda 500 litros, equivalendo a 92 galões ingleses409. Todavia em 1755410 o Conselho da Fazenda determinou que as pipas de exportação do vinho Madeira deveriam ser de 23 almudes. Anotam-se ainda outras medidas para a pipa, que tanto poderia ser de 389,95 litros ou de 429 litros411. As medidas usadas tanto podiam ser de barro, folha e, em alguns casos de madeira. Entre o almude de barro e o de folha havia uma diferença de duas canadas412. A afilação das medidas passou a fazer-se desde 1484 de acordo com a forma que se fazia em Lisboa, sendo obrigatório. O vinho só podia ser medido por almude que deveria equivaler a 13 canadas. Paulo Dias Almeida413 apresenta, em princípios do século XIX, o quadro das medidas usadas na Madeira.

A uniformização das medidas nunca foi alcançada na plenitude e ainda hoje persistem as antigas em alguns lugares, como é o caso do Porto da Cruz, onde é notória uma diferença quanto ao barril. De acordo com Eduardo Pereira415 o barril apresentava uma medida distinta nos concelhos da região:

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Medida Canada Galão Almude Pipa Tonel

Equivalência 1 e ? almude

Capacidade em litros 2,0 4,5 25,0 375,0 562,5

48 quartilhos ou 22 canadas 23 almudes Pipa e meia

Capacidade do barril 45 litros 50 litros 56 litros

LOCALIDADES C. de Lobos, E. de Câmara de Lobos, Curral das Freiras, Funchal, Porto Santo Arco de S. Jorge, Boaventura, Calheta, Faial, Ponta Delgada, S. Vicente Porto Moniz, Ribeira da Janela, Seixal, Achadas da Cruz

A necessidade de definir uma medida padrão, de forma a evitar o dolo, levou a que ficasse assim estabelecido: DESIGNAÇÃO Tonel Pipa carreteira 5 Pipa de exportação Quartola Barril Vasilhas Almude Canada Galão

Acontece que na construção do vasilhame de madeira torna-se difícil, senão impossível, ao tanoeiro conseguir acertar com a medida atribuída. Desde tempos recuados ficou estabelecido que o tanoeiro deveria marcar a medida exacta. Existia mesmo alguém que recebia o encargo de proceder à aferição do vasilhame. De acordo com postura de 1587, uma pipa ou barril que fosse concertado deveria ser novamente afilado e confirmado por contra marca416.

A equivalência das diversas medidas foi estabelecida em 1865414. Tipo Meio almude Canada de folha Canada de barro Meio pote

Funchal

C. Lobos

P. de Sol

9 1,5 1,286

8,85 1,47 1,27 4,34

1,46 1,24

Calheta S. Vicente 9,29 1,46 1,34

1,47

Santana Machico 9,08 1,47 1,3

9 1,5 1,286

CAPACIDADE 50 pipas 00 litros 418 105 45 a 50 litros 20 a 1 litro 25 litros 2 litros 4,5 litros

S. Cruz P. Santo 8,88 1,45 1,25

8,81 1,45 1,27

407.IAlberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.172 408.ISérvulo Drummond de Menezes, Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, Funchal, 1850, pp.49-61 409.IElucidário Madeirense, vol. II, 1978, p.80. 410.IAlberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.20 411.IPauta Geral das Alfândegas do Continente de Portugal e Ilhas, Lisboa, 1885, p.44, Inquérito sobre a Situação da Ilha da Madeira, Lisboa, 1885, pp.183-185 412.IIbidem 413.IRui Carita, Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, 1982, p.99 414.IMappas das Medidas do Novo Systema Legal Comparadas com as Antigas nos Diversos Concelhos do Reino e Ilhas, 1868, pp.129-131

415.IIlhas de Zargo, vol. II, Funchal, 1967, p.586. 416.IArquivo Histórico da Madeira, vol. I, p.75

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Aspecto de armazém de vinhos. Madeira Wine Company Armazéns de Krohn Brothers no Funchal. Gravura de a. Vizetelly. 1880

Krohn Brothers and Co. Em frente da casa espaçosa onde está instalada a casa da contabilidade - uma construção pomposa com uma alta torre central com telhado, com as habituais barras de ferro em todas as suas janelas mais baixas e varandas ornamentais nas de cima -, uma baixa passagem em arco conduz a um pátio pavimentado onde estão dois carros de bois esperando à sombra para transportarem algumas pipas de vinho para a praia. Em frente à entrada de onde as pipas são trazidas a rolar, ficam as estufas da firma, um compacto prédio de dois andares, encimado por um compartimento espaçoso com os lados e o tecto em ferro. Este é a Estufa do Sol, na qual sessenta pipas de vinho podem ser submetidas à influência dos raios de sol ao mesmo tempo. Nos dois andares da estufa propriamente dita, o primeiro dos quais tem entrada pelas traseiras. - ficando ao mesmo nível do pátio devido à inclinação do solo - cerca de 500 pipas podem ser empilhadas, e amadurecidas através de calor artificial, provocado, como já foi explicado, por serpentinas que passam pelo interior do prédio. Perto da estufa fica uma pequena estrutura que contém os utensílios do empacotador para a exportação de amostras, os ferros de marcar, etc. A fornalha propriamente dita confina com a fresca tanoaria com sombra, no lado direito. Por baixo de um grande alpendre, na parte traseira do prédio e perto de um jardim umbroso, estão empilhadas em filas pipas de todos os tamanhos. As pipas são medidas por meio de um pequeno tanque que possui um indicador e mesmo ao lado homens descalços com compridas camisas estão a limpar as pipas com uma quantidade de pequenas pedras redondas dentro delas, rolando-as para a frente e para trás com um movimento brusco ao longo de suas fortes traves. No armazém mesmo em frente das es-

tufas encontram-se os vinhos mais baratos da Messrs. Krohn Brothers and Co. - um Madeira absolutamente leve variando entre 26 e 30 libras por pipa - armazenados no andar superior; enquanto no andar de baixo, trabalhadores com as habituais camisas compridas, estão a preparar um carregamento de um puro vinho seco de sabor suave para o mercado Holandês, trasfegando a bebida alcoólica para grandes jarros de cobre. No rés-do-chão deste armazém há barricas de aguardente e de vinhos acabados de vir da estufa, à espera de serem melhorados antes de passarem para outros armazéns mais espaçosos, situados numa rua contígua. Estes últimos compreendem um rés-dochão e dois andares superiores, cada um formando um vasto compartimento iluminado por grandes janelas em cada uma das extremidades, e com filas de pilares de pedra a dividi-lo em três partes. Aqui, a firma recebe as suas aquisições de mosto, sendo depositadas no armazém, no rés-do-chão do prédio. No primeiro e segundo andares do prédio de que temos estado a falar, são armazenados vinhos de qualidade mais baixa e intermédia, sendo um dos melhores um «Verdelho fino» de sabor delicado e de agradável aroma, com alguns vinhos novos que prometem transformar-se em Madeira de alta categoria. Depois de visitarmos vários outros armazéns, onde são guardados lotes de vinho diverso, incluindo um recentemente arrendado para armazenar uma parte das aquisições da firma de mosto novo, passámos para o antigo armazém onde a Messers. Krohn tem reunidos os seus melhores vinhos. Entra-se neste venerável armazém através de um estreito pátio pavimentado, e os vários andares, com as pesadas cargas que têm que suportar, estão apoiados em fortes vigas. As grandes pipas têm pequenas chapas pretas penduradas, indicando o seu conteúdo. VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Aound Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880


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Fachada dos armazéns de Blandy Brothers no Funchal. Peretrellos Photographos. Museu de Photographia Vicentes.

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Armazéns de H. Dru Drury no Funchal. Gravura de A. Vizetelly. 1880

A maior reserva de Madeira armazenado por qualquer casa de exportação no Funchal é a que pertence à Messrs. Blandy Brothers. Ela chega a atingir cerca de 5.000 pipas, variando em valor entre 35 e 250 libras cada, e foi acumulada pelo velho Sr. Charles R. Blandy, a seguir à destruição dos vinhedos da Madeira de 1852. Estes vinhos - que incluem alguns admiráveis exemplares e uma variedade de produções, armazenados distintamente tanto quanto à localidade de produção como quanto ao ano da vindima - estão guardados em não menos de quarenta armazéns, ligados por passagens, escadas, patamares e entradas abertas em maciças paredes de pedra. Sai-se dos escritórios na Rua de são Francisco - uma rua que segue em direcção ao mar - e entra-se num pequeno pátio rodeado por estranhos prédios irregulares, sendo o rés-do-chão de um deles o antigo armazém onde os vinhos mais veneráveis da firma estão reunidos. É um compartimento longo e sombrio, iluminado por pequenas janelas quadradas, protegidas por barras de ferro, e pavimentado com lages. Aqui, alinhadas em filas, estão umas trinta ou quarenta enormes pipas, todas com um aspecto mais ou menos antigo, e muitas possuindo as marcas de firmas madeirenses antigamente famosas, hoje extintas, cujas reservas ainda estão aqui expostas. …. Confinando com este verdadeiro museu de vinho ficava antigamente o velho teatro do Funchal, que o Sr. Charles R. Blandy adquiriu e converteu num armazém de vinho. Aqui, uma série de arcos conduzem a uma sucessão de pátios rodeados de prédios cheios de pipas sobre pipas de vinho. No antigo teatro, onde se armazenam vinhos em pipas duplas, os trabalhadores estavam ocupados a melhorar o vinho com clara de ovo, enquanto que numa espécie de armazém aberto se fazia uma mistura de cinquenta pipas. …. Daqui, uma escada conduz para uma plataforma em cima, onde está instalado um mecanismo para erguer e descer as pipas, e tem-se acesso a vários armazéns espaçosos, contendo cada um duzentas ou trezentas pipas. Num destes as pipas estavam alinhadas em cinco filas separadas, e num outro, cujo chão assentava em sólidos suportes de alvenaria, as pipas estavam colocadas uma sobre a outra. Aqui estavam algumas das produções do norte, agradáveis e leves,

as quais, ao contrário dos vinhos produzidos no lado sul da ilha, ocasionalmente desenvolvem a «mycoderma vina» ou as chamadas flores da vinha, tão ansiosamente procuradas pelos produtores de xerez. Continua-se por uma série de armazéns, unidos por numerosos pátios e plataformas - com várias «Clapham Junctions» - onde estão armazenados vinhos que variam entre 1865 e 1875. VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.

A casa de Henry Dru Drury, antigamente Rutherford, Drury and Co., estabeleceu-se inicialmente na Madeira logo depois do início do presente século. Os seus armazéns, situados no quarteirão oeste do Funchal, e onde se entra através de um estreito pátio, compreendem alguns prédios grandes, com não muito menos de 200 pés de comprimento, cada um com dois andares, e ligados ao primeiro andar por uma galeria de madeira com vinhas em latada, deixadas crescer à sua vontade. Num lado armazena-se o mosto enquanto completa a sua fermentação, e no outro estão os vinhos maduros e os velhos e valiosos vinhos da firma, sendo os últimos armazenados em pipas com aspecto antigo no andar superior. A tanoaria fica na parte detrás dos armazéns, confinando com um pequeno terreno com vinhas das quais a firma produz algumas pipas de vinho. Este pequeno vinhedo está ligado, num dos lados, a um velho convento onde se instalaram na altura da nossa visita, sete veneráveis irmãs, tendo a mais nova cerca de setenta anos. Uma vez que a legislatura portuguesa decretou a supressão de estabelecimentos conventuais, não se fazem mais adições à venerável irmandade. VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.


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Borracheiro. Pintura de Max Romer. Sala de provas da Madeira Wine Company

Casa de H. Lawton no Funchal. Gravura de A. Vizetelly. 1880

Na Messrs. Henriques and Lawton passámos através de uma «porte cochère» em ruínas, com altos pilares de pedra de cada lado, entrando num espaçoso pátio empedrado, onde a mansão desmantelada erguia a sua fachada maciça, com as suas numerosas e grandes janelas ornamentais, no nosso lado esquerdo, e uma fila de armazéns mais baixos, parcialmente cobertos de vinhas, surgia em frente. Através da casa, chega-se a um segundo pátio pavimentado, coberto com vinhas cheias de folhas, colocadas em corredores, por baixo de cuja sombra numerosos tanoeiros trabalham. As estufas da firma que incluem uma estufa aquecida por temperatura artificial e uma estufa do sol, sendo o seu calor causado, como sugere o nome, exclusivamente pelo sol, contêm as duas juntas 350 pipas e ficam situadas noutra parte da cidade com uma panorâmica total sobre o mar. VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.

O trato do vinho

O

A necessidade de apurar a qualidade do vinho para exportação levou as autoridades a estabelecerem medidas no sentido de impedir que os vinhos bons do Sul fossem baldeados com os de inferior qualidade do Norte. A Vereação do Funchal, em face de reclamação dos mercadores, aprovou em 9 de Janeiro de 1737 uma postura interditando a entrada dos vinhos de inferior qualidade na cidade. Mais tarde, em 1768, o Governador e Capitão General Sá Pereira retomou as medidas proibindo a entrada dos vinhos do Norte no Sul até Maio, de forma a poder escoarse o do Sul. Por outro lado defendia-se que os vinhos das melhores áreas, que é como quem diz, de Câmara de Lobos, Canhas, Calheta, Arco da Calheta, Prazeres e Fajã da Ovelha, não podiam ser baldeados com outros inferiores. Em 1785 ficou estabelecido que todos os vinhos do Norte deveriam permanecer encascados até Janeiro. Caso alguém tivesse intenção de o movimentar deveria fazê-lo com uma guia passada pelo Juiz do lugar ou Comandante do distrito militar. Tais medidas não colheram grandes apoios por parte dos proprietários. Os vinhedos a Norte e a Sul estava quase todos sujeitos ao contrato de colonia. O senhorio da terra residia no


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Vinho canteiro

Pormenor do armazém da empresa Henriques & Henriques, Ldª

Funchal e era aí que se encontravam os armazéns e pipas para encascar os vinhos. Por outro lado o colono não tinha loja nem cascos para a armazenar o quinhão, vendendo-o todo à bica do lagar. Feita a vindima e escorrido o mosto sucedia-se nova fase do ciclo vitivinícola, na cidade onde se encontram os armazéns dos exportadores com as adegas para onde eram escoados todos os vinhos. O Funchal era o centro privilegiado do processo de vinificação, tendo as casas exportadoras, servidas de amplas adegas, como o palco de actividade. Isto manteve-se sem alteração por muito tempo. A partir de finais do século XVIII ocorreram profundas alterações no processo de vinificação madeirense provocadas, quer pelo funcionamento das estufas para aceleração do envelhecimento do vinho, quer pela adição de aguardentes, primeiro de França e, depois da terra, para fortificar os vinhos mais fracos. O método antigo, conhecido de canteiro, entrou em desuso, por ser mais demorado, dispendioso e incapaz de antender às solicitações do mercado. A solução estava nas estufas e na fortificação com as aguardentes. D. João da Câmara Leme, qu, em meados do século XIX tomara contacto com os processos de vinificação utilizados no trato, apercebeu-se do deficiente uso das aguardentes e estufas, apostando numa solução mais rápida e eficaz para o trato do vinho, que ficou conhecida como sistema canavial, definido pelas seguintes fases: 1º - sistema sem aquecimento; 2º - sistema com aquecimento lento, ficando o vinho em comunicação com o ar ambiente; 3º - sistema com aquecimento rápido e arrefecimento lento, demorado ou não, em recipiente fechado417. 417.IIdem, ibidem, p. 1.

Vejamos agora o modo singular de os tratar nos dois sistemas em uso Canteiro e de Estufa. O primeiro reduz se a conserva-lo no vasilhame colocado em cima de duas traves, na altura de 2 ou 3 palmos do chão, e ahi se lhe presta o necessário tratamento; começarei desde o seu primeiro processo. Colhida que é a uva, e lançada no lagar, é pisada com os pés até que o bago fica quasi moído; então de todo o bagaço se forma uma pyramide sustentada em roda por cordas, em cima da qual uma taboa vai servir de base a alguns pedaços de madeira quadrados até irem tocar na vara do lagar, isto é, uma grossa viga que o atravessa, com um maquinismo de espremer, ou apertar o objecto a que aplicado, com um peso de pedra. Findo este processo, desmancha se o bagaço, o qual ficou exausto de suco aparentemente, cortado, separado, e então outra vez fortemente calcado, ao que chamão repisa, findo o que, o mesmo resíduo ensopando-se outra vez do âmago da uva que, se não poude esgotar no primeiro processo, passa a um segundo igual, e o liquido que produz, chamado o da corda ou repisa, é de superior qualidade. Depois torna-se a desmanchar o bagaço, deita-se lhe agoa, o que produz a agoa pé. Sacado o mosto da tina, he lançado em pipas, não batocadas, por causa da efervescência que logo se lhe desenvolve, e dura nos vinhos generosos até Dezembro. Claro que esteja, é tirado de cima da borra; então é logo mandado para o alambique, e o que se quer tratar para velho vai para o canteiro onde é clarificado com goma de peixe, ou claras d’ovo, ou sangue, e logo trasfegado e agoardentado. Nos primeiros 18 mezes, é necessário repetir este processo 6 ou 8 vezes abafando-o sempre com aguardente. Se acaso por ser muito maduro ou muito verde o vinho amolece, e fica como azeite, o que acontece ás vezes nestes dois estremos, é preciso logo baldea-lo, rolar a pipa em que está, ou bate-lo bem com o mechedor e agoardenta-lo, mas se a nada disto cede, só o calor da estufa o curará, ou servirá para aguardente. (PAULO PERESTRELO DA CÂMARA Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91)

Canteiro. Armazém de Artur Barros e Sousa Lda. Colecção do autor. 2002


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Vindima em Santa Cruz. A. Vizetelly. 1880

Armazém de Vinhos. Cossart Gordon & co.

Na Madeira e Porto Santo produzem-se muitas qualidades de vinho, algumas das quais tem grande importância no comércio, e outras só são próprias para o consumo interno das ilhas, ou para serem destilados nas fábricas de aguardente. Os vinhos mais conhecidos pelas suas qualidades são: O Boal - vinho branco delicado e maduro, de alto preço; podendo ser consumido quer quando novo, quer quando velho. este vinho é extraído das uvas do mesmo nome. O Sercial - vinho seco, de cor alambreada, “aromático e de fino perfume”. E este vinho só adquire todas as boas qualidades no fim de anos. É produzido pela variedade de vinha “sercial”, que descrevemos. O Malvasia - vinho de cor alambreada, muito apreciado pelo seu “perfume” e comparável ao Tokai; mas que a ilha da Madeira produz só em pequena quantidade, e em lugares muito pouco elevados. A Tinta - vinho tinto bastante agradável, e que se assemelha no sabor e qualidade ao Porto. A fermentação fazendo-se em contacto com o engaço, dá a este vinho o sabor adstringente. O Madeira - vinho, de todos o mais conhecido nos mercados da Europa e da América, branco alambreado; quando amadurecido pelo tempo, de um delicado perfume. Este vinho é o resultado da mistura de uvas das variedades Verdelho, Tinta, Tarrantés, Bastardo e Boal. O Vinho pálido - vinho de pouco valor feito de “verdelho”, e clarificado. Para a fabricação dos vinhos mais preciosos da Madeira faz-se escolha dos cachos de uvas melhores, logo depois da vindima. As uvas levadas ao lagar, são espremidas, primeiro por homens que as pisam, depois pela pressão da vara, e o líquido assim tirado delas é levado em odres para os cascos onde fermenta por quatro, ou cinco semanas

pouco mais ou menos. Quando terminada esta fermentação faz-se o trasfego do vinho para outras vasilhas; sendo esta operação acompanhada de uma clarificação, e do adicionamento de uma quantidade considerável de aguardente. depois desta operação que começa para os vinhos essa lenta transformação, que os enriquece e torna preciosos pelas suas qualidades. Para fazer adquirir rapidamente ao vinho propriedades que só o tempo lhe pode dar convenientemente, introduziu-se na Madeira, na época da guerra que agitou a Europa nos primeiros anos deste século, e em que os vinhos daquela ilha foram muito procurados, o uso de sujeitar vinhos novos durante meses a uma alta temperatura (60º ou mais) dentro de estufas que para isso se construíram. O número das estufas foi, desde essa época, progressivamente crescendo, e em 1850 havia quarenta e duas estufas em actividade. Os vinhos porém, assim trabalhados, não chegam segundo a opinião dos homens entendidos na matéria, a adquirir as boas qualidades do vinho velho da Madeira, antes adquirem às vezes um sabor pouco agradável, e o seu aparecimento nos mercados estrangeiros tem contribuído para o descrédito dos vinhos da ilha. A aguardente que se aplica ao tratamento dos vinhos, fabricada na Madeira com vinhos da região do norte e com os vinhos do Porto Santo; a aguardente estrangeira, e mesmo a de Portugal não é, por lei, admitida na Ilha. João de Andrade Corvo, Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto-Santo. Por João Andrade Corvo, sócio efectivo da Academia Real de Sciencias de Lisboa - Memória I. Memoria sobre a “Mangra” ou Doença das Vinhas da Madeira e Porto-Santo. Apresentada à Academia na Sessão de 3 de Fevereiro de 1854, (Lisboa), (1954); “A Mangra ou Doença das Vinhas”, in Das Artes e da História da Madeira, vols. IV-V, nºs.24-29, 1956-1959.


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Réplica de “decanter” de vinho Madeira de Thomas Jefferson. Colecção Museu do

Somente a partir de meados do século XVIII temos notícia do uso da aguardente para “adubar” os vinhos. Primeiro usam-se as afamadas aguardentes de França, mas num segundo momento apostou-se na aguardente local. Esta pratica de fortificação do vinho foi provocada pelos ingleses que também fizeram chegar até nós as ditas aguardentes A partir de 1822 proíbe-se a entrada dessa aguardente que será substituída pela da ilha feita com os vinhos do norte. Pois tal como se proclama em 1821 era “um erro capital na economia política receber de fora as produções e manufacturas de que o país não carece, antes abunda”. Esta medida favoreceu o desenvolvimento dos alambiques, especialmente na zona norte, o que favoreceu de forma vantajosa o vinho daí de inferior qualidade. Severiano de Freitas Ferraz foi um dos destacados interventores neste processo tendo descoberto um maquinismo avançado de destilação contínua. Em meados do século XIX a ilha estava servida de 13 alambiques que ferviam em media 7 a 8.0000 pipas de vinho. O resultado desta aposta é evidente, uma vez que em 1821 foram assinalados apenas 3 alambiques. A generalização do uso da aguardente como bebida e produto para adubar os vinhos é, entre nós, uma realidade apenas na segunda do século XVIII. Foram os ingleses que introduziram tal uso, oferecendo-nos as aguardentes de França. Eles estavam habituados a beber os vinhos franceses fortificados, mas, impossibilitados pela guerra, foram buscá-los a outros destinos. Note-se que no período de ocupação da ilha pelas tropas britânicas (1801-1802, 1807-1814) generalizou-se entre os madeirenses o hábito do consumo de aguardente e demais bebidas espirituosas. A Madeira ficou conhecida como a ilha da Aguardente. O alcoolismo tornou-se numa praga social e para o combater tivemos, após a saída dos ingleses, inúmeras proibições, mas a aguardente continuou a entrar por via do contrabando e a encontrar consumidor. Entretanto o madeirense começou a alambicar os seus vinhos e a dispor der aguardente local para consumo nas tabernas e fortificação dos vinhos. As dificuldades na saída dos vinhos a partir de 1814 vieram aumentar as possibilidades de recurso aguardente local e a guerra aberta às aguardentes de França, proibidas desde 1822.

O canteiro

C

O sistema, conhecido como de canteiro, era simples. As pipas descansavam cheias de vinho sob duas traves, onde se procedia à clarificação e múltiplas trasfegas. A clarificação ocorria num período de 19 meses e tinha lugar entre 6 ou 8 vezes, usando-se goma de peixe, clara de ovo e sangue. Os vinhos da Madeira que hoje aparecem, geralmente nos mercados, são muito diferentes d’esses vinhos afamados, e que a Madeira exportava antes dos fins do século XVIII. A ilha da Madeira não mudou... o que mudou foi o sistema de tratamento418. O método de envelhecimento do vinho em canteiro era o único usado até finais do século XVIII. A forma de execução surge descrita em alguns documentos. Na ilha do Porto Santo as autoridades procuraram por todos os meios disciplinar os métodos de tratamento do vinho, estabelecendo regras a serem usadas por todos os agricultores, de forma a conseguir-se um produto de superior qualidade: De pois de muito bem lavada a pipa, se concerve destapada vinte e quatro horas sobre os can418.D. João da Câmara Leme, Os Três Sistemas de Tratamento de Vinho, p. 1.

Armazém de Vinhos de Freitas Caldeira.


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teiros para se enchugar e expellir o mofo. Dece-lhe huma boa porsao de mecha; com a qual se conservará tapada por espaço de cinco a seiz horas; no fim das quaes se lhe hirá lançando o mosto, e estando a pipa meia, se lhe deitará canada e meia de agoardente boa, sobre a qual se contenuara o mosto de sorte que não fique a pipa perfeitamente cheia. Tenha-se prevenido huma porsão de uvada ou marmelada de uvas, como aqui se lhe chama, feita de verdelho, ou boal, com alguma passa, de sorte, que fique em boa consistência, e lançando-se em cada pipa de cinco até seis arráteis de marmelada muito bem desfeita, não sesse o mechedor de trabalhar pella manha, e noite, até que tutalmente suspenda a fervura. Descance o vinho para abater as fezes, tendo cuidado de o ver de tempo a tempo para se obeservar se está propenço a algum vicio; e concervando-se sem novidade até 20 do mez de Março, se porá em limpo, e trasfegará; lançando-se no meio da pipa duas canadas de agoardente boa, que será muito bem encorporada pello mechedor, atestando-se e tapando-se imediatmente. Se o vinho for tão doce, que se possa temer a fermentação do accido, se ajunte na tansfega com trez cannadas de agoardente; se estiver tão turvo, que se purefique, se lhes lance na transfega algumas claras de ovos muito bem batidos, com os quaes se mexerá o vinho muito bem, e facilmente se hirá alimpando, e purifficando.419 Feito o vinho o mosto era transportado à adega onde fermentava no vasilhame instalado sobre o canteiro, ou seja duas traves na altura de dois ou três palmos420, depois de retiradas as borras, o que deveria envelhecer era transfegado, após ter sofrido o processo de clarificação com goma de peixe, clara de ovo, sangue. O processo de clarificação repetia-se por seis ou oito vezes no decurso de 19 meses. Só numa fase posterior se começou a adicionar aguardente na fase de transfega421. À informação fornecida por P. P. da Câmara422 podemos juntar outra avulsa que encontramos no Arquivo Histórico Ultramarino em que se dá conta do modo como era tratado em Lisboa os vinhos para aí enviados após a fermentação. Nos armazéns do Arsenal da Marinha procedia-se às diversas tarefas de trato do vinho, como a clarificação com goma de peixe423 e trasfegas. A prática encontra-se documentada a partir de 1832. Em Abril a Junta da Fazenda do Funchal enviou para Lisboa o vinho do sequestro feito nos armazéns do morgado João de Carvalhal Esmeraldo, pronunciado na devassa de 1828. A acompanhar o vinho seguiu o Escrivão da

Alfândega, Manuel António Serrão para proceder ao trato, pois que o trato dos vinhos deste país é inteiramente diferente daquele que se pratica em Portugal, sendo necessário cuidá-lo de contínuo424. Já em Lisboa o mesmo representou que aonde se achão os vinhos da Madeira, não é aquela comodidade necessária para os beneficiar, e fazer caldas que é preciso ser em mais particular, da mesma forma não há nas sete casas a dita comodidade... o único lugar onde tal seria possível era o armazém no sítio da Boavista, que já antes servira tal fim e ora encontrava-se cheio de tabaco425. José Joaquim Rosa Coelho, do Arsenal da Marinha, não ficou contente com a relutância do madeirense e por isso em representação, chama-o de impostor refinado: Tratei imediatamente de fazer despejar dois armazéns, os mais inxulados (sic), fi-los limpar, pôr canteiros, arrecadar neles o vinho que se tem recebido, e guardei em meu poder as chaves ficando desta maneira o vinho acondicionado de forma que é costume desde que no mundo há vinho, e a coberto de toda e qualquer fraude, que ele pudesse ter, (...) o encarregado de os tratar perguntou em um dos armazéns se era fresco, respondeuse-lhe que era que sim, desaprovou-o logo, porque deve ser quente, passou imediatamente ao outro e fez a mesma pergunta, respondeu-se-lhe que era quente, reprovou-o porque devia ser frio. Reprovava os canteiros que não são outra coisa, mais do que uns paus sobre os quais se estivão as pipas, para não estarem no chão, por conseguinte o homem reprovava tudo, e por tal motivo confirmo a opinião que dele faço, e digo a V. Exa. que neste arsenal só pode haver armazéns quentes como ele quer, metendo-lhe dentro alguma estufa, e frescos talvez também como ele deseja tendo-lhe a porta aberta426. Em Agosto foram escolhidos cinco homens para o trabalho de lotação do vinho da Madeira, pagos a 300 reis por dia427, iniciando-se de imediato os trabalhos. Na altura da trasfega deu-se por falta de 2 almudes em cada pipa o que o encarregado do trato de imediato deu conta, ilibando-se de qualquer responsabilidade: Eu não sei se é dos navios que conduzirão os vinhos, donde esta falta procede, eu não sei, só o que sei que falta, eu não estou para responder a V. Exa. por faltas dos outros428. Durante os meses de Agosto e Setembro laborava-se com grande intensidade nos armazéns de vinho do Arsenal da Marinha, onde se encontrava o vinho, ora envasilhando o vinho novo, ora trasfegando o velho ao mesmo tempo que se clarificava e tratava com aguardente e se baldeava alguma Malvasia velha. A 5 de Agosto429 fez-se o trato dos lotes de vinho sercial de 1820, de 1823/1825, procedendo-se à clarificação com goma de peixe 28 tonéis e 1 pipa, à trasfega de um lote particular de 1244 pipas, um lote de 1824 com 7 tonéis e 12 pipas e outro de 1826 com 6 tonéis e 8 pipas. Entre 27 de Agosto e 10 de Setembro foram clarificados e trasfegados outros

419.AHU, Madeira e Porto Santo, nº.667., confronte, Jorge de Freitas Branco, Camponeses da Madeira, Lisboa, 1987, pp. 211212 420.P. P. da Câmara, ibidem, p. 73. 421.D. João da Câmara Leme, ibidem, p. 6. 422.Paulo Perestrelo da CÂMARA Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91 423.O processo de vinificação é descrito pelos inúmeros estrangeiros que visitaram a Madeira no decurso do século XIX. Quanto à clarificação referem o uso do gesso, sangue de boi, clara de ovo e carvão. Cf. A Guide to Madeira,…, London, 1801, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 342; T. Bowdich, Excursions in Madeira, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 347; Robert White, Madeira, London, 1851, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 359; E. Wortley, A Visit to Portugal and Madeira, London, 1854, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 366; D. Embleton, A Visit to Madeira, London, 1882, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 401; J. Jonhson, Madeira, London, 1885, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 409.

424.AHU, Madeira e Porto Santo, (documentos näo catalogados), maço 24, doc. 5 de Abril de 1832. 425.Idem, doc. de 5 de Abril de 1832. 426.Idem, doc. de 5 de Abril de 1832. 427.Idem, doc. de 10 de Agosto de 1832. 428.Idem, doc. de 14 de Agosto de 1832. 429.Idem, doc. de 25 de Agosto de 1832.

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lotes de vinho totalizando 32 tonéis e 399 pipas430. A 15 de Setembro clarificou-se vinho Madeira Particular de primeira qualidade ao mesmo tempo que foram tratados 46 tonéis e 369 pipas com efusão de Malvasia431. Seguindo-se, depois, mais 220 pipas clarificadas com goma de peixe432. A 17 de Setembro433 procedeu-se à trasfega e clarificação de 39 pipas, e em 14 de Outubro a 228 tonéis e 459 pipas de Sercial. A 14 de Outubro, Manuel António Serrão dava por terminados os trabalhos, descrevendo de modo sumário o processo usado: Achando-se acabado as lotações do vinho de que vim encarregado pelo Exmo. Governador e Capitão General da ilha da Madeira, sendo do meu dever como encarregado de uma tal comissão e para crédito de tais vinhos, uma vez que sejão exportados para países estrangeiros, exceptuando deste o da Rússia, que é aonde tem menor preço por não gostarem senão de vinhos baixos e estufados, com bastante aguardente, e como estes sejão vinhos, sejão criados de canteiro, tem por sua idade adquirido cheiro balsâmico por isso se fizeram dois lotes, como já fiz patente a V. Exa. por um mapa que remeti e agora por o que vai junto e, que pertence ao segundo lote, sendo estes dois lotes de primeira e segunda qualidade, que pouco diferem do primeiro, a que ficará tudo igual logo que leve a sua competente aguardente, e como esta só haja própria na ilha da Madeira dos mesmos bens socrestados, onde se acha preparada e concertada com malvasia, que era já para adubar estes mesmos vinhos. E por isso de certo não se poderá dispensar o ela vir, não só para que dê mais valor aos mesmos vinhos, como também para interesse da Real Fazenda, cujos vinhos já se acham clarificados, e prontos a entrar na sua trasfega. Logo que aguardente venha para se deitar aquela porção que for suficiente, segundo o clima do país e ficarem de todo prontos. E por isso julgava de necessidade que V. Exa. mandasse vir da dita ilha, a qualidade de 180 a 200 galões d’aguardente já acima indicada. E achando-se a malvasia ainda por concertar, não se poderá fazer sem vir a dita aguardente, pois na ocasião de ser concertada é que leva a sua competente porção...434. O uso da aguardente de França e, depois, da terra, foi uma prática muito tardia no tratamento dos vinhos de canteiro, uma vez que está documentada apenas a partir de meados do século XVIII: O que porém, parece averiguado é que, na segunda metade do século XVIII, os vinhos da Madeira superiores eram já adubados com aguardente de França para o mesmo fim435. A partir daqui a tradição de adicionar dois galões de aguardente a uma pipa de vinho generalizou-se436. As aguardentes 430.Idem, doc. de 10 de Setembro de 1832. 431.Idem, maço 20, doc. de 15 de Setembro de 1832. 432.Idem, maço 24, doc. de 15 de Setembro de 1832. 433.Idem, doc. de 17 de Setembro de 1832. 434.Idem, doc. de 14 de Outubro de 1832. 435.D. João da Câmara Leme, ibidem, pp. 3/4; vide H. Machard, Traité Pratique sur les Vins, Besançon, 1865, p. 87 e seguintes. 436.São vários os testemunhos sobre a adição de aguardente. Cf. A Guide to Madeira,…, London, 1801, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 342; T. Bowdich, Excursions in Madeira, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 347; Robert White, Madeira, London, 1851, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 359; E. Wortley, A Visit to Portugal and Madeira, London, 1854, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 366; D. Embleton, A Visit to Madeira, London, 1882, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 401; J. Jonhson, Madeira, London, 1885, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 409.

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foram ao longo do século XIX motivo de polémica. As francesas, comummente usadas para adubar os vinhos, ora surgem como adubo necessário e precioso, ora como prejudiciais. Em 1863 temos outra informação, que acrescenta novos dados sobre o método usado no tratamento do vinho: Lançam o mosto em pipas enxofradas, tapando-o convenientemente. Alguns fabricantes limpam as impurezas que se reúnem em cima do liquido na ocasião de fermentação tumultuosa, outros reservam-se para o limpar mais tarde e totalmente, depois da fermentação, ou ainda depois de já estar tratado pela aguardente; para limpar os vinhos usam do emprego ordinário da colla de peixe, das claras de ovos, e ainda alguns de gomma arábica. Passada completamente a fermentação tumultuosa, e quando pelos signaes adquiridos pela pratica só tratamento de vinhos, principalmente pela densidade, sabor, cheiro e cor, se reconhece que o liquido está capaz de começar a ser tratado, immediatamente o trasfegam, com as attenções convenientes e ordinárias a esta operação, para outras pipas, misturando com o mosto fermentado uma certa quantidade de assucar, isto é, 7 a 8 kilogrammas por pipa, assim como aguardente e passas de Alicante pisadas, ou o sumo destas, sendo 48 litros de aguardente e 6,5 litros de passas por cada pipa. Passado algum tempo os vinhos são outra vez trasfegados e limpos, e ainda mesmo sem os trasfegarem, são levados para as estufas, onde ficam por espaço de três mezes; no fim deste tempo tiram-se os vinhos das estufas, sendo então tratados com iguaes quantidades de aguardente, assucar e passas, como

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Actual sistema de filtragem e transfega. Empresa Justino Henriques. 2002.


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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tinham sido antes de entrarem nellas. Depois de dez ou doze dias e às vezes de mais, limpam os vinhos convenientemente, pelos processos ordinários. Alguns fabricantes deitam o assucar no mosto antes de começar a fermentação tumultuosa e a outra metade depois de sair da estufa.437 Em finais do século, quando a vinha agonizava, publicaram-se vários estudos com as soluções adequadas para debelar a crise. Surgiram instruções sobre a forma de cultivo e o método mais adequado para o tratamento de vinho. Um deles foi apresentado por D. João da Câmara Leme, o maior especialista em enologia madeirense: Era então pequeno o número de cepas, principalmente cultivadas na Madeira: verdelho, malvasia, boal, sercial, tinta. O vinho feito de uvas de uma só variedade tomava o nome de cepa que o produzia; quando no vinho entravam uvas de diversas variedades, ele tomava o nome de vinho Madeira. Na apreciação do vinho tinham-se em conta o sítio e a exposição; a maturação da uva, que muitas vezes, se queria que estivesse meio passado, o que exigia sempre uma rigorosa escolha, para que o vinho da uva bem madura ficasse separada do da uva menos madura, que era chamado vinho de escolha, ou vinho verde; os anos mais chuvosos e frios eram cuidadosamente notados nas reservas anuais; de modo que, quando as casas exportadoras compravão o vinho antes da colheita, os cultivadores não tinham, geralmente licença para a vindima, senão depois de terem sido enviados inspectores por essas casas, para verem se as uvas estavam capazes. Mas, a esse tempo, os exportadores, para mais segurança costumavam comprar o vinho, depois de claro, aos colonos, aos senhorios ou a comerciantes intermediários. Por isso a colheita da uva era feita sempre com o maior cuidado; e o vinho ia dos lagares para as adegas; onde permanecia enquanto fermentava. Se era sercial, a fermentação durava enquanto havia açúcar no vinho, que por isso, ficava seco e mais alcoólico, e se tornava, depois mais aromático. Se era malvasia ou boal, numa palavra, era vinho que não contivesse fermentos suficientes para desdobrarem todo o açúcar, o vinho ficava doce, menos alcoólico, e não se tornava tão aromático. Se era vinho Madeira, mais ou menos doce, mais ou menos alcoólico, e tornavase depois mais ou menos aromático segundo as variedades das uvas que o tinham produzido. O tinta era especialmente notável por sua cor escura, que perdia com o tempo. O vinho ficava claro “quando os fermentos tinham desdobrado todo o açúcar, ou quando havia mais fermento em actividade que desdobrassem o açúcar. A partir de então retirava-se as borras e os exportadores conduziam-nos ao envelhecimento no canteiro. Os vinhos menos alcoólicos incapazes de manter inertes os fermentos eram submetidos maiores tratamentos com clarificações balde, celhas por vezes a clarificação

deveria fazer-se com ovos, goma, leite, sangue, barro. O sercial, de todos o mais alcoólico é também o que requere menos trabalho (...). Mas ao passo que as clarificações e trasfegas se iam tornando menos frequentes à medida que os fermentos iam sendo eliminados, o vinho ia perdendo, sem sair do canteiro, o gosto, o sabor, o cheiro e cor de novo, e adquirindo o gosto, sabor, o cheiro e a cor de vinho mais velho; até que quando, passados quatro ou cinco anos, o vinho podia conservar-se, por muito tempo, sem alteração, em vasilha fechada e longe de vinhos mais novos, era considerado pronto para o consumo, tendo adquirido as qualidades especiais que o caracterizavam. Assim o sercial, cor de topázio claro, tornara-se seco, muito alcoólico, e muito aromático; o malvasia, também cor de topázio, talvez mais apertada, do que a do sercial conservara-se menos doce, mas tornara-se muito menos alcoólico e menos aromático; o boal, de cor semelhante à do sercial, conservara-se menos doce do que o malvasia mas tornara-se um pouco mais alcoólico e aromático; o tinta era especialmente caracterizado pela sua cor escura que os anos faziam desaparecer; o madeira, em que entrava, em grande parte o verdelho, e, muitas vezes, o tinta a cor de rubim mais ou menos viva e apresentava qualidades um pouco variáveis, segundo as variedades das uvas que nele predominavam438.

437.Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.48..

438.Idem, ibidem, p. 6.

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Bomba de transfegas. Colecção do Autor. 1988


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Canteiro com pipas. Artur Barros & Sousa, Ldª

Vinho canteiro Vejamos agora o modo singular de os tratar nos dois sistemas em uso Canteiro e de Estufa. O primeiro reduz se a conserva-lo no vasilhame colocado em cima de duas traves, na altura de 2 ou 3 palmos do chão, e ahi se lhe presta o necessário tratamento; começarei desde o seu primeiro processo. Colhida que é a uva, e lançada no lagar, é pisada com os pés até que o bago fica quase moído; então de todo o bagaço se forma uma pyramide sustentada em roda por cordas, em cima da qual uma taboa vai servir de base a alguns pedaços de madeira quadrados até irem tocar na vara do lagar, isto é, uma grossa viga que o atravessa, com um maquinismo de espremer, ou apertar o objecto a que aplicado, com um peso de pedra. Findo este processo, desmancha se o bagaço, o qual ficou exausto de suco aparentemente, cortado, separado, e então outra vez fortemente calcado, ao que chamão repisa, findo o que, o mesmo resíduo ensopando-se outra vez do âmago da uva que, se não poude esgotar no primeiro processo, passa a um segundo igual, e o liquido que produz, chamado o da corda ou repisa, é de superior qualidade. Depois torna-se a desmanchar o bagaço, deita-se lhe agoa, o que produz a agoa pé. Sacado o mosto da tina, he lançado em pipas, não batocadas, por causa da efervescência que logo se lhe desenvolve, e dura nos vinhos generosos até Dezembro. Claro que esteja, é tirado de cima da borra; então é logo mandado para o alambique, e o que se quer tratar para velho vai para o canteiro onde é clarificado com goma de peixe, ou claras d’ovo, ou sangue, e logo trasfegado e agoardentado. Nos primeiros 18 mezes, é necessário repetir este processo 6 ou 8 vezes abafando-o sempre com aguardente. Se acaso por ser muito maduro ou muito verde o vinho amolece, e fica como azeite, o que acontece ás vezes nestes dois estremos, é preciso logo baldea-lo, rolar a pipa em que está, ou bate-lo bem com o mechedor e agoardenta-lo, mas se a nada disto cede, só o calor da estufa o curará, ou servirá para aguardente. Preparação das pipas. Gravura de Max romer. Sala de Provas da Madeira Wine Co.

PAULO PERESTRELO DA CÅMARA Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91


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Rótulo antigo. Colecção da Madeira Wine Company

O vinho da roda A situação privilegiada da comunidade britânica é resultado dos tratados de amizade, nomeadamente o de Methuen, e da estratégia definida pelas actas de navegação inglesas (em 1660 e 1665). A Madeira foi para os ingleses a ilha das escalas e abastecimento em vinho. São inúmeros os testemunhos da presença das armadas britânicas no porto do Funchal. A passagem era frequente, usufruindo de um tratamento especial das autoridades locais. Relevam-se as de 1799 e 1855 compostas respectivamente por 108 e 112 embarcações que saíram da ilha a abarrotar de vinho. Muito do vinho fazia o percurso de ida e volta. Os tonéis de vinho no porão das embarcações estavam expostos ao calor dos trópicos e sujeitos à constante baldeação resultante das correntes marítimas, adquiria um envelhecimento prematuro, assim descrito por A. Sarmento439: Pelo final do século XVIII, notaram os negociantes e exportadores de vinho que este, sujeito a uma longa viagem, batido pelo balouço da embarcação, aquecido às abafadas temperaturas que se notam nos porões, tornava características especiais de aromatização, um todo precocemente envelhecido, pelo que mandavam muitas pipas à índia com frete de torna-viagem, para de lá voltar melhorado o vinho, que ficou sendo chamado da roda do mundo ou simplesmente vinho da roda. Diz-se, que da constatação deste facto à prática corrente foi um salto. Os ingleses,

R 439.SARMENTO, Alberto Artur, Ensaios Históricos da Minha Terra, vol. III, Funchal, 1952, pp.119-120

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principais consumidores do vinho Madeira, foram os primeiros apreciadores do vinho da roda, por isso no mercado britânico, desde finais do século XVIII, os Common Madeira, London Market e London Particular foram preteridos em favor do East India Madeira. As pipas embarcadas eram marcadas com as seguintes iniciais: V.O. W. I (Very Old West Indies Madeira). A diferença de preços entre um e outro era do dobro, resultante dos custos do transporte, elevada procura e reputação que o mesmo adquiriu no Reino Unido onde teve um estatuto especial440. A primeira referência ao comércio do vinho retornado das Índias surge em 1722441. Nos meses de Setembro e Novembro de 1790 Mr. Christie colocou à venda no mercado britânico 3 pipas de vinho Madeira vindo da Índia e 39 do Brasil. Foi a partir daqui que se generalizou o uso das estufas como sistema de envelhecimento dos vinhos, estando a primeira documentada em 1794. A solução representava uma maior economia de tempo e custos permitindo colocar, em pouco mais de três meses, à disposição do cliente um vinho prematuramente envelhecido, com propriedades semelhantes ao que tinha cinco anos no casco. O uso das estufas generalizou-se. Era vulgar ver-se as pipas jacentes nos fornos de pão da cidade, ou simplesmente ao Sol. O vinho estufado, para alem de ter gerado acesa polémica em princípios do século XIX não mereceu os elogios do consumidor. O vinho da Roda era diferente e tinha o condão de melhorar as qualidades organolépticas sem se degradar, o que não sucedia, segundo alguns, com o vinho estufado. Em 1818 a própria Junta deu o exemplo ao carregar 50 pipas no brigue-escuna Maria do Capitão José A. Martim de Sá442. Tendo-se dado ordem de embarque a 21 de Abril443. Em aviso ao Deputado-escrivão da Junta de Cabo Verde se dá conta da remessa de vinho para envelhecer e depois ser dado o destino que S. M. desejar, recomendando o cuidado e vigilância de sua existência, de maneira que receba o muito calor possível de Verão futuro e não haja extravio444. Noutro aviso a J. de Araújo Barros, em Cabo Verde, dá-se conta da remessa para os fazer pôr nessa ilha e voltarem a vir depois de passado o Verão futuro... lhe rogo o maior desvelo e cuidado na boa guarda e vigilância do dito vinho a fim de que não haja extravio casual nem voluntário e obtenha aquele grau de melhora que se espera146.Em 1826 a prática de embarque de vinhos nem voluntário e obtenha aquele grau de melhora que se espera445 Em 1826 a prática de embarque de vinhos para emvelhecer havia-se generalizado e todo o vinho de roda era reembolsado dos direitos pagos à saída ou levantava fiança até ao retorno. Em 21 de Fevereiro Philip Noailles Searle solicitou o desconto dos direitos de 3 quartos e 10 meias quartolas de vinho de roda, autorizado em 8 de Junho de 1825446. 440.A.Jullien, Topographie de tous les Vignobles Connus, Paris, 1816(reed.1832), p.467; Rupert Croft-Cooke, Madeira, London, 1961, p.86 441.A. Huetz de Lamps, Le Vin de Madere, p.36. 442.ANTT, PJRFF, nº 759, fol. 407. 443.Idem, nº 405, fol. 161. 444.Idem, nº 759, fols. 408/409. 445.Idem, nº.759,fl. 409. 446.Idem, nº 241, fol. 39vº.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Um ano depois a generalização e a prática causou graves incómodos à administração da alfândega, pelo que se determinou o embargo: Havendo-se nesta ilha introduzido o costume de embarcar vinho com faculdade de voltar a ela para na viagem ganhar melhoramento, foi sempre tolerado em pequenas proporções. De tal uso passou a fazer-se abuso, pois que os negociantes para ganharem maior prazo no pagamento dos direitos, figuravam em mui tas das suas especulações os embarques do vinho para vir de roda, dando a sua fiança, e a final quando passava o prazo marcado para a entrada do vinho, e este não chegava, se lhes carregavam os direitos, cuja arrecadação ia ter a demora que as mais ordens terminam a favor dos assinantes. Resultava deste meio acharem-se muitos direitos por cobrar, poderem ometer-se outros dolos que esta Junta por bem da fazenda intendeu dever prevenir e substrar na continuação de tal prática447. Nos registos de embarque de vinho entre 1823/30 assinala-se o vinho da roda que durante a fase permissiva atingiu grandes proporções. Em 1823 saíram 1650 pipas e em 1824, 366. Aqui destacaram-se os comerciantes ingleses John Howard March & Ca. e Philip Noailles Searle, e poucos portugueses, de que se afirmam as casas madeirenses mais importantes como Monteiros & Ca., Luís de Ornelas Vasconcelos, João Oliveira & Ca. REGISTO DE SAÍDA DE VINHO DA RODA. 1823-1830

quartolas

1/2 quartolas

3

Quartos

2

pipas

1/2 quartolas

42

1830

quartolas

19 43

Quartos

38

1828

pipas

77 73

pipas

1/2 quartolas

quartolas 8 1 11 22

quartolas

100 19 18 74 22 2 25 31 3 46 20 3 80 5 54 2 13 24 1 30 16 55 38 94 78 27 54 402 432

1824

Quartos

John Howard March & C. Monteiros & Co. Gordon Inglis & Co. Luiz de Ornelas Vasconcelos Seymonds Rfly & Co. Minett Honotton & Cº. Diogo Hougton Gould & Co. George Blackburn & Co. Alexander Hally João Oliveira & Co. Rutherefort & Grant Diogo Taylor Guilherme Tindlay Philip Noailles Searle Gough & Hollway & Co. Outros…

Quartos

1823

1/2 quartolas

MERCADOR

pipas

232

2

2

4

18

8 5 1

18 47 161 12 560 25

9 14

12

1 9 34 21

5

447.Idem, nº 764, fol. 139. Este informe vem a propósito de um requerimento de Philip Noailles Searle & Ca, solicitando o reembolso dos direitos de 50 pipas de vinho de roda [Idem, nº 406, fol. 20.].

A Junta da Real Fazenda reconhecendo os percalços que a situação causava à arrecadação dos direitos decidiu por fim tal prática. Daqui resultou a perda de importância do vinho da roda na ilha e a consequente valorização no mercado britânico, onde as pipas da roda passaram a afluir com maior assiduidade. Ficou célebre, entre os apreciadores, o vinho que o cônsul inglês H. Veitch ofereceu em 1815 a Napoleão Bonaparte, aquando da passagem pelo Funchal com destino ao exílio de Santa Helena. O imperador não o bebeu e o vinho acabou de volta à ilha, onde foi engarrafado a partir de 1840 com o título de Battle of Waterloo. Winston Churchill de visita à ilha em 1950 foi um dos poucos contemplados com uma garrafa. Em 1992 recriou-se a referida rota e a técnica de envelhecimento com o embarque de 600 litros de Boal a bordo do veleiro Kaisei, que participou na regata Colombo 1992. O vinho da roda é para o madeirense e o britânico uma dádiva do oceano. As agitadas águas do Atlântico e Índico transformaram-se numa grande adega, onde os vinhos madeirenses envelheciam. Foi uma maisvalia, sabiamente aproveitada pelos insulares que cativou os tradicionais apreciadores britânicos. Mas nem todos comungaram da mesma ideia, surgindo opiniões contrárias: Consumidores de vinho em Inglaterra são muitas vezes enganados pela ideia de que uma viagem às índias Orientais ou Ocidentais é suficiente para garantir a excelência do vinho. Mas isto é uma falácia óbvia, pois, se o vinho não fosse de boa qualidade quando exportado da ilha, mil viagens não o poderiam tornar no que nunca tinha sido. Todos os comerciantes na Madeira sabem bem que uma grande parte dos vinhos assim exportados são de uma qualidade inferior, e são adquiridos em troca de géneros por pessoas geralmente conhecidas como comerciantes por troca448.

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Rótulo antigo. Colecção da Madeira Wine Company

448.J. Holman, Travels in Madeira, London, 1840, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.354. Sobre o vinho da roda veja-se: A Guide to Madeira, London, 1801, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.343; J. L. Thudichum, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, London, 1872, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.372; A. Drexel Biddle, The Land of the Wine Being na Account of the Madeira, London, 1900, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.421.


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Fornalha da estufa da firma Cossart Gordon & co.

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As estufas

E

O vinho da roda é considerado um feliz acaso das viagens transoceânicas. No percurso da Madeira à Índia e retorno à Inglaterra, com duas passagens pelos trópicos, melhorava. O calor dos porões atribuía-lhe um rápido envelhecimento, que cedo se tornou notado pelos ingleses. Foram eles os primeiros a usufruir da situação vantajosa. Este vinho tem a fama de possuir muitas qualidades extraordinárias. Tenho ouvido dizer que se Madeira genuíno for exposto a temperaturas muito baixas até ficar congelado numa massa sólida de gelo e outra vez descongelado pelo fogo, se for aquecido até ao ponto de fervura e depois deixado arrefecer ou se ficar exposto ao sol durante semanas seguidas em barris abertos ou colocado em caves húmidas não sofrerá o mínimo dano apesar de sujeito a tão violentas alterações449. De imediato o vinho da roda ganhou fama e começou a embarcar-se pipas de vinho nos porões dos navios para aí envelhecerem. A partir daqui deu-se o salto para a concretização local do processo de envelhecimento prematuro do vinho. As pipas 449.J. Barrow, A Voyage to Conchinchina, London, 1806, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.339

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passaram a ser expostas ao sol450 ou colocadas por cima dos fornos de pão sujeitas ao calor. Ao mesmo tempo construíram-se as primeiras estufas, isto é, recintos fechados onde circulava o ar quente por canos. A mais antiga conhecida, mas não a primeira, é a de Pantaleão Fernandes e data de 1794451. O sistema de estufa está considerado oficialmente como o método de tratamento do vinho, apenas usado pelas casas para o vinho das castas autorizadas, nomeadamente, a tinta negra mole. De acordo com a legislação em vigor o vinho deverá manter-se recipientes a uma temperatura constante até 55ºC. por um prazo de noventa dias. Antigamente o vinho sofria uma evaporação de cerca de 15%, mas hoje com a nova tecnologia as perdas são reduzidas. A disponibilização no mercado só poderá acontecer após dois anos de estágio no canteiro452. Apenas a empresa familiar Artur Barros & Sousa Lda. não utiliza no tratamento do vinho as estufas. As demais dispõem do referido sistema, usufruindo da mais moderna tecnologia. A Madeira Wine Company Lda. dispõe nas instalações ao Largo Severiano Ferraz dois tipos de estufas tradicionais: a estufa de cimento e de madeira. Além disso usa aqui e na rua de S. Francisco do chamado sistema de armazém de calor. A estufa é entendida como resultado da conjuntura favorável ao escoamento rápido do vinho, que adveio com as guerras napoleónicas, com consequente esgotamento dos stocks, criando a necessidade do trato rápido dos vinhos novos para satisfazer as encomendas do mercado, o que só poderia ser possível com as estufas. Ao primeiro facto comenta D. João da Câmara Leme: Estamos em fins do século XVIII. A exportação dos vinhos da Madeira tem aumentado, muito principalmente para a Inglaterra, porque, em razão da guerra, lhe estão fechados os portos da Europa. As reservas de vinhos em boas condições de embarque estão esgotadas. O sistema do canteiro não é processo aplicável a um largo e importante consumo com a perspectiva de grandes lucros453. Quanto ao segundo Alberto Artur Sarmento destaca: Pelo final do século XVIII, notaram os negociantes exportadores de vinho da Madeira, que este sujeito a longa viagem batido pelo balanço da embarcação, aquecido às abafadas temperaturas que se notam nos porões, tomava características especiais de aromatização, um todo precocemente envelhecido, pelo que mandavam muitas pipas à Índia com frete de torna-viagem, para lá voltar melhorado o vinho, que ficou sendo chamado de roda do mundo ou simplesmente vinho de roda454. O processo generalizou-se rapidamente, embora continuasse a ser oneroso e demorado para as exigências do mercado. Estamos perante uma situação comu450.Construíram-se até estufas para fruir do calor do sol, como nos refere Henry Vizetelly [Facts about Port and Madeira, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.397] sobre a casa Meyrelles sobrinho & cia. 451.Manoel de Santanna e Vasconcellos, Clamor dos Madeirenses. Funchal, 1835, p.8 452.Alex Lidll, Madeira, London, 1998, pp.126-128. 453.Idem, ibidem, p. 6. 454.Op. Cit., vol. III (1965), p. 119.

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mente aceite, mas que no nosso entender deverá ter sucedido de forma distinta. O madeirense não ignorava o sistema de tratamento usado pelos antigos. Já os Gregos e Romanos tinham conhecimento da acção do calor dos porões dos barcos e dele se serviram para trato dos vinhos tal como refere Plínio, entre outros. Na Madeira a prática parece ser tardia. A primeira informação que dispomos data de 1550455 e refere a despesa de dois vinténs feita pela Misericórdia de Machico para lenha para cozer o vinho. Não sabemos a que se reporta a situação e se refere ao fabrico de aguardente. A primeira referência às estufas remonta a 1730456. Daí à afirmação do sistema o salto foi rápido: Vião os comerciantes que o calor dos navios e dos climas mais ardentes beneficiaram considerável e visivelmente os vinhos em toda a sua qualidade, tanto de sabor como de cheiro, logo pela razão, a mais bem deduzida, se persuadirão, e se convencerão de que o vinho Madeira se aperfeiçoava e mesmo se requintava com o calor: ocorreu logo, que sendo possível tratá-lo em terra com uma precisa quentura para o seu benefício seriam grandes os proveitos que colheria o comércio, o público, e não menos S. A. Real457. Assim, tivemos o primeiro ensaio de estufa com vinhos novos, enquanto um comerciante aquecia dia e noite um armazém com vinhos novos outro colocava no armazém canos de ar quente458. A primeira estufa levantada nesta ilha se fabricou no ano de 1794 e 1795, e depois dela se levantavão sucessivamente muitas outras que todas tem trabalhado até os últimos meses passados459. Em 1802 segundo John Leacock estufas are now become general460. Antes do aparecimento das estufas tivemos o chamado vinho de sol. A referência mais antiga ao processo surge em 1687. De acordo com H. Sloane461 o vinho beneficiava com a exposição ao sol: …tem a propriedade curiosa, muito especial de se tornar melhor quanto mais exposto estiver ao sol e ao calor. Assim, em vez de o levarem para uma adega fresca expõem-no ao sol e ao calor. A mesma constatação

acontece com John Ovington462 que em 1689 referia: O vinho Madeira tem a qualidade muito peculiar de, quando está a fermentar, ser melhorado pelo calor do sol se o batoque for desviado da abertura da pipa e, desta madeira, o vinho ficar exposto ao ar. A partir de 1730463 era corrente a designação de vinho de sol e em 1880 Henry Vizeteelly464 descreve a estufa de sol da firma Krohn Brothers no Funchal. O uso das estufas no envelhecimento do vinho não foi unânime. O Governador D. José Manuel da Câmara por editais de 23 de Agosto de 1802 e 6 de Novembro de 1803 proibiu o funcionamento das estufas por serem prejudiciais à boa reputação dos vinhos. Mas, em face da reacção da maioria dos comerciantes nacionais e estrangeiros da região465 e do Senado da Câmara466 foi obrigado, em 14 de Fevereiro de 1804, a oficiar ao Conde de Anadia, dando conta do sucedido e da pretensão dos locais para que fosse levantada a suspensão de modo a poderem aviar as encomendas467. Por ordem régia de 7 de Maio, do mesmo ano, foi expedido aviso para ser levantada a proibição. Não terminou aqui a questão das estufas não terminou, pois que em todos os debates sobre a qualidade do vinho se alude à influência benéfica ou prejudicial do tratamento com as estufas. O próprio Senado da Câmara, cuja composição heterogénea mudava com assiduidade, assumiu posições contraditórias. Os que comungavam de opinião desfavorável acusam as estufas de estarem na origem da perda da fama e decadência docomércio do vinho, porque o prejudicavam, retirando-lhe as qualidades balsâmicas468, ou alterando o sabor e atribuindo um gosto torrado, queimado muito desagradável469. Disto se fez eco de modo sarcástico, em 1851 no Correio da Madeira: O vinho estufado, cozido, fervido, frito, assado e agrilhoado é a causa suficiente da decadência do nosso comércio e o abatimento da nossa agricultura... As estufas são somente próprias para o vinho mão, e o que é essencialmente mau, não há forças humanas que o fação bom. O vinho bom carece de estufa, logo as estufas só servem para o ordinário: que se deve ferver para aguardente, e consumir nas tabernas. O cheiro, o sabor do vinho estufado são péssimos, são repugnantes e asquerosos: o vinho não sabe à uva, parece sumo das aduelas, das vasilhas, que o tiverão em fermentação. Nada mais ingrato, nada mais desgostoso ao paladar. O vinho de estufa ataca o cérebro, afecta o bofe, excita sede insaciável, provoca almorreimas, produz puxos, tenesmos, frenesim, delírios, loucura. E uma calamidade pública esta funesta descoberta; que fazendo exportar o vinho mau, deixa o bom, e óptimo estagnado, arruinado o nosso crédito470.

455.Alvaro Manso de Sousa, O Fato do Diabo. Curiosas Notas sobre a Misericórdia de Machico, in Das Artes e da História da Madeira, nº.5069, 5 de Maio de 1949, p.234 456.Ruppert Croft-Cook, ibidem, p. 65. 457.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1431. 458.D. Joäo da Câmara Leme, ibidem, p. 6. 459.Joäo da Câmara Leme, ibidem, p. 6. 460.Ruppert Croft-Cook, ibidem, p.66. Numa carta de 1800, o mesmo descreve a sua primeira estufa que teve na ilha, dando conta do movimento das estufas, e da discussäo sobre o vinho estufado: We are erecting an estufa & hope to have it furnished in two or three weeks we shall stard in need of two common thermometheos. good but the least expensive, in order that we may regulate the heat; we therefore by you will send out a couple very carefully packed we hope this new mode of treating wine will answer, but the correspondents of those who ship its - they are now common of all the houses use estufas - several of them have built them & others put their wine into hired estufas, where they pay 5 m000. p. pipe for 3 months stewing. We are not yet perfectly satisfied of all the effects produced by the application of heat to the wine, but think in general they keep too fierce a degree of heat, nickel keeps the wine constantly boiling, and in rather insipid of weak. We are of opinion that a moon moderate temperature will succeed better & shall prolong the period to six instead of three months as we have see. However the great test will be, how it is approved by those who are no good judges, the new wine with three months estufa imitates wine of 4 or 5 years old & we don’t think that the deception will be easily discovered- perhaps prejudice the character of Madeira wine. Wall hot climates its improves much quicker than in gold over: twelve months in the East or West Indies ha me effect than 3 years here, or four or five years in England - there for the heat must be on benefit & we must make a climate [Idem, ibidem, pp. 67/68; vide também P. P. da Câmara, ibidem, pp. 76/7, onde faz uma descriçäo da estufa; Confronte-se o texto de H. Vizetelly in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1983, pp.375-399. 461.António Aragão, ibidem, p.159

462.António Aragão, ibidem, pp.197-198 463.Rupert Croft-Cooke, Madeira, p.66. 464.Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, p.392 465.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1431. 466.Idem, nº 1433. 467.Idem, nº 1428. 468.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 202/203vº. 469.D. Joäo da Câmara Leme, ibidem, p. 7. 470.Nº 116, p. 2; vide resposta no nº 117, pp. 1 e 2, Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.223; Requerimento de 1834 contra as estufas, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 221-222

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Os que defendem as estufas anotam a qualidade do vinho estufado, destacando que a medida era útil e barata para o trato e rapidez de escoamento do vinho. Assim, o referem os comerciantes locais em 1804: Granjeou o comerciante o fruto preciso dos seus cuidados, dos seus cálculos, e da sua bem atendida vigilância, pois que com o novo método de melhorar, e adiantar os seus vinhos de 5 a 6 meses apronta toda a quantidade de vinho, que é preciso para os seus embarques, não sendo oubrigados a esperar o espaço seguro de 4 a 5 anos471. Em 1834 a Câmara do Funchal desfez as acusações que apontavam as estufas como a causa da ruína do comércio local, apresentando o efeito benéfico e incentivador para o comércio: Ora devendo-se considerar a invenção das estufas como admirável processo por meio do qual se melhora rapidamente a qualidade dos vinhos, apressando sua maturação, ao mesmo passo que se evitão grandes embates de capital; e sendo este aliás o único método que nos pode habilitar a competir com os vinhos de outras nações nos quais a cultura dos vinhos é mui pouco dispendiosa...472. Da mesma opinião era P. P. da Câmara: Seria inepto julgar, que foi o processo da estufa que desacreditou este género, e diminuiu o seu consumo... a não ser esta providência que tanto veio a baratear a única produção que aviventa a Madeira, o que seria hoje d’ella, se este método não tivesse facilitado a sua exportação, barateando o seu custo?... O sistema das estufas veio facilitar a sua extracção, assim como dar-lhe velhice e fortaleza para resistir ao gelo do norte, recebeu nova inculação e sangue desta ilha...473. No Funchal, principal centro vinícola da ilha, procedia-se ao tratamento do vinho por meio das estufas. O sistema generalizou-se a partir de finais do século XIX. As estufas distribuíam-se indiscriminadamente por toda a cidade situando-se nos terrenos anexos às adegas na área circunvizinha do cabrestante. O processo de estufagem tinha lugar em edifícios construídos para tal ou em cima dos fornos de cal ou de cozer pão. Em 1861 a estufa existente na rua dos Moinhos foi demolida por não ter conseguido resultado de melhorar o vinho474. Para o período de 1739 a 1872 assinala-se o uso de um forno de cal à Rua do Hospital Velho e de 12 fornos de cozer pão, com idênticas funções, nas ruas do Aljube, Ponte Nova, da Sé, Queimadas, Ingleses, Capitão, Bela Vista, Castanheiro, Pintos, Nova de Santa Maria, Esmeraldo e Largo da Sé. Por editais de 23 de Agosto de 1802 e 6 de Novembro de 1803 proibiu-se a construção de estufas no recinto da cidade, argumentando o juiz do povo os inconvenientes que advinha para a saúde pública, pelo fumo e constante perigo de incêndio no período de laboração. Os comerciantes da praça do Funchal manifestaram-se contra, alegando os prejuízos e contrariando os argumentos infundados do referi-

do juiz do povo475. Na realidade, como referem, só houve até 1803 três ameaços e apenas um incêndio na estufa de Phelps Page & Ca. em 29 de Outubro de 1806476. Depois disso só temos referência a três incendios na ultima década da centúria. A 20 de Janeiro de 1894 o fogo devorou a estufa da firma de vinhos Araujo & Henriques, seguindo-se a 15 de Dezembro de 1898 um outro na estufa do Conde de Canavial na rua 5 de Julho onde estavam mais de cem pipas de diversos proprietários. O último que temos noticia sucedeu a 11 de Julho de 1900 num prédio da Rua do Esmeraldo, propriedade dos herdeiros de Júlio Henriques de Freitas, que tinha no primeiro andar uma estufa com 49 pipas, que felizmente se salvaram477. Se as estufas não eram consideradas um perigo para a saúde e segurança públicas, tornavam-se prejudiciais à pouca salubridade do burgo oitocentista atingindo o centro do burgo e ruas de maior movimento em redor do porto do Funchal. Era o caso da área da Sé do Funchal, próxima da Alfândega e do cabrestante, onde entre 1809/1834 laboraram as estufas de Gordon Duff, & Ca., respectivamente no Beco do Assucar e Rua do Esmeraldo. Aliás, se tivermos em conta que a freguesia da Sé se situa na área central da cidade ficaremos com uma ideia clara da implantação, pois que entre 1839/1840 existiam 15 estufas, a que se seguiam 9 na freguesia de S. Pedro, denotando uma forte concentração na área circunvizinha da Alfândega e Porto do Funchal o que, em parte, se justifica para um fácil transporte do vinho de embarque. De notar entre 1839/1840 a elevada concentração de estufas no Beco dos Aranhas (4 e 5) e em S. Paulo (3 e 1), área ribeirinha ao mar pelo lado da Pontinha e sobranceira à ribeira de S. João. No termo da cidade as estufas localizavam-se em Santa Luzia, Caminho da Torrinha, Torreão e, em Santa Maria Maior na Rua dos Balcões, Rua Bela de Santiago, Rochinha. Fora da área do Funchal, encontramos apenas duas em Santa Cruz em 1840, uma em S. Fernando, de Joaquim Telles de Menezes e outra na Rua Direita de Augusto César de Oliveira. Entre 1805 e 1816 nota-se uma estabilização no número de estufas. Estamos num momento de medidas proibitivas e da discussão contrária à implantação e utilidade478. Passado este período ganham uma certa estabilidade, a que se seguiu, depois de solucionada a crise, um forte impulso entre 1817/1829. A década de trinta foi marcada por uma queda, que se acentuou a partir de 1832. O período que decorre de 1834/1844 foi marcado por uma certa estabilidade no número de estufas em laboração, apenas se notando um salto isolado em 1839. Desde 1845 a tendência era para subir, atingindo-se em 1851 o número máximo de estufas. A situação vivida a partir de 185 inverteu o processo, que se acentuou a partir de 1860. Procuramos nos elementos recolhidos alinhavar uma explicação para a quebra acen-

471.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1431. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 52-56 472.ARM, RGCMF, t.17, fols.148vº-152. 473.Op. cit., pp.75/76. 474.ARM, CMF, Vinho, Manifestos, 1839/1872, 6 volumes, nº1069/1074.

475.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1428, 1431. 476.ANTT, PJRFF, nº 461, p. 12. 477.Vasco F. Campos e Alberto Malho, O Bombeiro Madeirense e a sua História, Funchal, 1963, pp.35, 40-41, 47 478.Com base nos dados fornecidos por alguns códices do ANTT, ARM [ARM, CMF, nº 1069/74; ANTT, PJRFF, nº 441.] e elementos fornecidos por José Silvestre Ribeiro [José Silvestre Ribeiro, “op. cit.”, in Diário da Madeira, nº 113, p. 4.], J. J. Nóbrega [ibidem, fol. 9.] e Gerardo Pery Gerardo Pery, ibidem, p. 319.] Elaborámos o mapa de evolução do número de estufas na Cidade do Funchal e termo, atingindo o período de 1805/1872

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tuada de 1834 e a subida em flecha de 1851, mas foi em vão, pois, não encontramos nada que permita dar uma resposta satisfatória479. O primeiro dado surge num momento em que a discussão das estufas se havia atenuado e a Câmara do Funchal estava de acordo com a utilização. Já em 1851 estamos novamente num período de intensa discussão. A crise do comércio do vinho ocorrida em finais do século XIX contribuiu para o lento desaparecimento das estufas, tal como vinha sucedendo com as empresas do sector. A tradição de estufar vinho não se perdeu, pois permaneceu passando a fazer parte do processo de vinificação do vinho. Uma característica do processo de vinificação que só acontece com o vinho Madeira.

LOCALIZAÇÃO DAS ESTUFAS 1805-1872

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ESTUFAS EM FUNCIONAMENTO1805-2002 ANO 1805 1806 1807 1808 1809 1810 1811 1812 1813 1814 1815 1816 1817 1818 1819 1820 1821 1822 1823 1824 1825 1826 1827 1828 1829 1830 1831 1832 1833 1834 1835 1836 1837 1838 1839 1840

Nacionais 11 9 6 5 6 9 9 11 10 11 12 12 13 17 17 18 20 18 17 17 17 19 21 22 25 23 25 24 23 21 10 10 10 10 20 7

ESTUFAS Estrangeiros Total 6 17 6 15 6 12 7 12 6 12 6 15 8 17 8 19 5 15 5 16 5 17 5 17 7 20 8 25 8 25 8 26 8 28 8 26 8 25 9 26 9 26 9 28 8 29 8 30 10 35 9 32 10 35 11 35 11 34 8 29 5 15 5 15 5 15 5 15 8 28 5 12

ANO 1841 1842 1843 1844 1845 1846 1848 1849 1850 1851 1852 1853 1854 1855 1856 1857 1858 1859 1860 1861 1862 1863 1864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 1871 1872 1894 1898 1900 2002

Nacionais 7 7 7 7 22 23 15 30 30 38 22 22 22 22 22 22 22 24 7 7 6 5 4 5 5 5 6 6 5 5 3 2 1 1

ESTUFAS Estrangeiros Total 5 12 5 12 5 12 5 12 5 27 13 26 12 27 16 46 16 46 16 56 12 44 12 44 12 44 12 44 12 44 12 44 12 44 14 38 6 13 6 13 6 12 6 11 6 10 6 11 10 15 8 13 8 14 8 14 8 13 8 13 8 11 2 1 1 7

479.A concorrência entre os diversos proprietários levava ao uso de todos os métodos, surgindo publicidade nos jornais: O Defensor, nº. 23, 1839; Correio da Madeira, nº.4, 1849.

LOCAL Beco dos Aranhas Santa Catarina R. Castanheiro R. Ferreiros R. do Carmo R. da Laranjeira R. Monteiro novo R. Bom Jesus R. Fanqueiros Rua Nova Caminho da Torrinha R. Moinhos R. Anadia S. Paulo Torreão R. Boa viagem R. Mercês Rua Nova de S. Pedro R. Pinheiro

Estufas 13 2 5 2 1 1 1 1 2 2 4 1 2 4 1 1 1 2 2

LOCAL Rua Santa Eulália Rua Bela Santiago Rua da Rosa Praça de S. João R. Balcões Rochinha S. Fernando(Santa Cruz) Ponte Nova Beco de Santa Emília R Fontes R. hortas R. Esmeraldo R. Infância Rua Mouraria Forca Rua Nova de Santa Maria Beco Gangorra Rua Bela Vista Largo Colégio

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Estufas 1 1 2 1 1 1 3 3 1 1 1 1 1 1 3 2 1 1

FONTE: ARM, CMF, Vinho, Manifestos, 1839/72, 6 volumes, nº1069/1074.

D. João da Câmara Leme, especialista em assuntos enológicos teve oportunidade de em França entrar em contacto com os sistemas de aquecimento usados desde o primeiro quartel do século XIX, nomeadamente os sistemas em vaso fechado de Appert, Ervais, Verguette, Cemotte e Pasteur480. De regresso à Madeira foi confrontado com o processo de estufagem em uso, notando que o sistema de aquecimento lento com comunicação com ar ambiente481 dava ao vinho um sabor torrado de queimado muito desagradável482 ao mesmo tempo que lhe retirava as propriedades essenciais: Um sistema que priva os vinhos novos das suas melhores qualidades naturais e lhes introduz efeitos persistentes; que lhes tira o açúcar, alcool, óleos essenciais, e lhes introduz, um sabor desagradável que o carvão vegetal empregado lhes não pode nunca tirar de tudo, e que os impede de adquirir a finura tão assinalada nos antigos vinhos de canteiro. Na destilação do vinho de garapa despreza-se o vinhão e guardam-se líquidos acoólicos, éteres, e sais e guarda-se o vinhão483. Perante a constatação houve que tomar providências, optando-se por um sistema de aquecimento em vaso fechado, de modo especial, o método Pasteur, conhecido por pasteurização. Feitas as devidas experiências D. João da Câmara Leme conclui 480.Vide M. L. Pasteur, Études sur le Vin, ses Maladies, Causes qui le Provoquant Procédés Nouveaux pour le Conserver et pour le Vieilliès, Paris, 1873, pp. 130/204, dando pp. 205/262 aparelhos de aquecimento. 481.Op. cit., p. 6/12. 482.Idem, ibidem, p. 7. 483.Idem, ibidem, pp. 10 e 12.


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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que o gosto de novo desaparecia muito pouco para que o vinho Madeira pudesse ser embarcado em pouco tempo como vinho mais velho, e que os seus outros caracteres não tinham suficientemente melhorado484. Em 1889, ao fim de seis anos de estudo e 10 anos de ensaios e experiências, estabeleceu um sistema de aquecimento e afinamento dos vinhos, que tomou o nome de sistema canavial. Adoptava o novo método de aquecimento rápido e arrefecimento lento, demorado ou não, em recipiente fechado, salientando que este processo de aquecimento e afinamento dos vinhos, ou processo de aquecimento e de arrefecimento demorado, em recipiente fechado, é o mais próprio para vinhos superiores ou medianos, é o mais próprio para o vinho Madeira e Para todos os vinhos especiais485. O vinho que vai ser aquecido entre, depois de medido, num reservatório superiormente disposto, d’onde desde, pelo seu próprio peso, por um cano de estanho, no qual é elevado, em banho-maria e o abrigo do contacto do ar à temperatura de 158º F. (70º C), continuando depois a descer, sem encontrar nada no caminho que lhe apresse o aperfeiçoamento; e chegando finalmente, depois de ter marcado num termómetro a uma temperatura adquirida, ao fundo da mesma pipa d’onde sairá pouco antes, e cuja boca, disposta de modo a impedir perda de vapores, é fechada logo que termina a operação (...). O vinho gasta cerca de 3 minutos no tratamento do seu aquecimento, que para uma pipa de 450 litros, exige hora e meia. O calor, comunicado pelo vinho ao interior da pipa, manifesta-se em breve exteriormente. Os Arcos alargam-se, e precisam de ser rebatidos. O vinho assim aquecido não é nunca voluntariamente arrefecido: e, quando se lhe não demora o arrefecimento, deixa-se que ele se faça naturalmente, mais ou menos, lentamente segundo a diferença entre a temperatura da pipa e a do meio ambiente; gastando, geralmente, cerca de três dias. É o mais curto arrefecimento do vinho rapidamente aquecido pelo sistema canavial. Quem observar este vinho pouco depois do aquecimento, ou no fim do arrefecimento, tendo-se conservado a pipa sempre bem fechada, nota que ele não fermenta; que não tem cheiro que indique a presença de enxofre; e que o aroma de novo se tornou mais agradável; nota que o gosto está também sensivelmente mudado, e que parece de vinho de mais idade; e uma operação destilatória, feita antes e depois do aquecimento, mostra que a percentagem alcoólica é igual. Houve, pois neste aquecimento, um notável melhoramento; e não houve prejuízo (...). É baseado em tais princípios que este estabelecimento organizou casas, ou estâncias, próprias para demorar o arrefecimento do vinho. Quando, pois, uma pipa de vinho é destinada ao afinamento numa destas estâncias, é para lá transportada, hermeticamente fechada, logo depois de terminado o aquecimento; e assim per-

manece, durante meses, num recinto onde a temperatura é moderada, mas constante e bem regulada. Cinco fornalhas introduzem ar quente em canos que dão três voltas nas estâncias; e que são guarnecidos de chapas de ferro para facilitarem a transmissão do calor, sempre bem regulado e facilmente observado por termómetros que se podem bem ler de fora. As estâncias, que são sempre cuidadosamente revistadas para serem as pipas oportunamente rebatidas, são a princípio, mantidas na temperatura de 120º F. (50º C); mas depois de ter o vinho arrefecido suficientemente para se pôr em equilíbrio com o meio ambiente, essa temperatura vai lentamente descendo, e fazendo paradas convenientes, até ao fim do afinamento. O vinho assim aquecido e afinado conserva todas as qualidades naturais, apresenta qualidades próprias do vinho de canteiro que tem cinco ou seis anos e uma notável finura muito apreciável; sem apresentar nenhum mau sabor, nem defeito algum, sendo convenientemente tratado, pode logo ser lotado com outros vinhos aquecidos e conservados livres de fermentos, e mesmo ser embarcado, sem risco de se alterar, e com grande economia d’alcool486. O método exposto era considerado o único processo de tratamento por estufa que animava a qualidade do vinho fazendo-o adquirir características e qualidades próprias, e capaz de rivalizar com os melhores de canteiro. O vinho canavial487 era normalmente preparado com o boal, apresentado as seguintes propriedades: digestivo, anticéptico, medicinal, alimentício. Muito antes de D. João da Câmara Leme temos notícia de outro invento de estufagem. O novo método dava-se nos vinhos comunicando-lhes o calor internamente e de os fazer assim vermelhos em pouco tempo488. Será o mesmo sistema do praticado em França, conhecido como pasteurização?489. Tudo indica que assim seja uma vez que o autor foi a França várias vezes, donde trouxe alambiques de destilação contínua e travou contacto com as inovações da técnica francesa de destilação e aquecimento do vinho. No período de 1806 a 1872 é possível acompanhar o número de pipas de vinho submetidas a este sistema de tratamento. A primeira conclusão possível é de que até meados do século era reduzido o número de pipas de vinho estufado, quando comparado com os valores da produção e exportação. A estufagem só se generalizou a partir da década de cinquenta no processo de vinificação do vinho Madeira. O período que decorre de 1856 a 1865 pode ser considerado um momento crítico. A crise do oídio reflecte-se nas produções e exportações, fazendo com que a oferta de vinhos estufados seja muito superior à colheita e à procura. Isto deverá ser prova da existência de elevados stocks de vinho em armazém de colheitas anteriores.

484.Idem, ibidem, p. 13. 485.Idem, ibidem, pp. 19/20.

486.Idem, ibidem, pp. 17/19. 487.D. Joäo da Câmara Leme, Sobre o Vinho Canavial, Funchal, 1892. 488.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 9480. 489.D. João da Câmara Leme, Ibidem, pp.17-19

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

RELAÇÃO DO VINHO ESTUFADO COM A PRODUÇÃO E EXPORTAÇÃO.1805-1872

Data 1805 1806 1807 1808 1809 1810 1811 1812 1813 1814 1815-31 1832-34 1839-40 1845-47 1849-50 1851-1855 1856 1859 1860 1861 1862 1863 1864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 1871 1872

Vinho Estufado hl produção % 2574 2,14 5584 5,07 3130 2,31 3507 0,26 3507 6,05 3272 3,81 3093 1,90 3043 1,95 2319 2,33 2717 4,64 97875 12,27 13265 13,69 21009 29,69 30218 37,37 35401 63,17 22482 43,77 4188 543,90 1772 280,38 3902 155,58 5670 4154 260,28 3930 41,09 3701 49,35 3715 49,53 2735 24,86 3156 3585 21,99 5478 29,29 4982 9,96 7628 31,95 4394 17,855

export % 4,40 9,53 4,48 7,52 5,46 6,94 7,73 2,52 4,64 13,99 12,84 29,53 34,51 57,69 24,23 78,22 31,92 92,16 105,23 101,32 130,05 105,41 165,85 79,51 88,95 98,14 132.80 107,39 120,79 63,56

Produçâo

Exportaçâo

em hectolitros

em hectolitros

120000 110000 135000 135000 57960 85690 162160 155336 99218 58520 797673 96879 70755 80857 56043 51367 770 632 2508

58494 58582 69810 46623 64217 47121 40023

1596 1615 7500 7500 11000 16306 18700 50000 23874 24615

91960 58520 699656 103332 71142 87553 61362 92785 5354 5551 4234 5388 4100 3022 3511 2240 3440 3548 3653 4125 4639 6315 6913

Obs. Pipa de 418 litros FONTE: ARM, CMF, Vinho, Manifestos, 1839/72, 6 volumes, nº1069/1074.

As estufas não morreram apenas foram sendo aperfeiçoadas com o tempo. Os mecanismos a vapor e a moderna tecnologia eléctrica substituíram as fornalhas de lenha propiciando uma temperatura constante de 45 a 50 graus centígrados por um período de três meses. No presente o sistema de canteiro convive de modo cordial com o das estufas. Ambos persistem e são usados pelas empresas de acordo com o tipo de vinhos que se pretende fazer. Os chamados vinhos novos de cinco anos são quase sempre de estufa, enquanto os demais são de canteiro. Apenas uma empresa, Artur Barros & Sousa Lda., continua fiel à tradição do sistema de canteiro em todos os vinhos que comercializa.

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Imposição das estufas

I

Nos inícios do século XIX as estufas haviam proliferado por toda a cidade do Funchal, anichando-se nas imediações das ribeiras e respectivas lojas. A fazenda Real viu aqui mais um meio de receita, estabelecendo a partir de 18 de Julho de 1805490 um imposto mensal de 16.000 réis por cada estufa, sem ter em conta o tamanho ou número de pipas que aí se cozia. Em Março de 1806491 a Junta dava conta da resolução régia de 12 de Junho, em que o imposto era lançado indiferenciadamente por todas as estufas, anotando-se os inconvenientes e propondo-se o imposto de acordo com a capacidade. Mas noutra conta de 23 de Agosto de 1806492 a Junta, em resposta à provisão do Erário Régio de 24 de Julho493, ordena o lançamento de um imposto de 12.000 réis por pipa em cada mês, tal como havia deliberado em reunião de 26 de Março494. No entanto, em 25 de Fevereiro de 1807495 a Junta faz assento de novo decreto de 15 de Dezembro de 1806, comunicado por provisão do Erário Régio de 16 de Fevereiro de 1807, e alterou o imposto de 16.000 réis mensais por cada pipa para 1.920 réis por pipa cozida. Por isso ordenou ao deputado corregedor da Câmara para vistoriar as estufas e ver a capacidade para depois ser cobrada a soma respectiva, impondo-se a pena de imposto dobrado para aqueles que fizessem novas entregas e não as manifestassem. Tudo isto foi regulamentado publicamente por edital de 28 de Fevereiro de 1807496, em que se tinha em conta, não só a medida de cada estufa, mas igualmente o número de pipas carregadas por temporada, lançando-se depois mensalmente a respectiva imposição497. Por decreto de 23 de Julho de 1834498 sucedeu nova alteração passando a imposição a ser cobrada, mensalmente, a partir de então, a taxa de 200 réis por pipa de vinho que se cozesse. A medida era considerada lesiva da qualidade do vinho submetido às estufas, uma vez que os proprietários procuravam acelerar o processo de aquecimento de forma a diminuir o período de maturação. De acordo com o decreto de 1805 que fixava o imposto de modo genérico sobre cada estufa em laboração, apenas era necessário o conhecimento das estufas e proprietários, pelo que se mandou proceder a um inventário ou manifesto por editais de 29 de Outubro499 e 26 de Novembro500 de 1806. De acordo com os editais o dono deveria dirigir-se à Junta para registar as estufas pois, caso contrário, seriam encerradas.

490.Idem, nº 761, pp. 173/174. Foi resolvido por provisão de 8 de Outubro de 1805 [segundo informação dada à margem do documento que refere estar lançada no Lº 3 de Ordens Expedidas pelo Erário Régio, fol. 382.] e dado conhecimento público por edital de 19 de Julho [Idem, nº 405, p. 13.]. 491.Idem, nº 761, pp. 202/203. 492.Idem, nº 761, pp. 227/228. 493.Idem, em nota à margem refere que foi registada no Lº 3 de Ordens Expedidas pelo Erário Régio, fol. 428. 494.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1695. 495.ANTT, PJRFF, nº 459, pp. 35/37. 496.Idem, nº 404. p. 119. 497.Idem, nº 404, p. 136. 498.ARM, RGCMF, T. 17, fols. 103/106vº. 499.ANTT, PJRFF, nº 940, pp. 32/33. 500.Idem, nº 404, p. 4.

245


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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A partir de 1806 a imposição passou a ser lançada, mensalmente, sobre a capacidade, não se tendo em conta os meses de laboração e quantidade de vinho. Apenas se tornava necessário uma vistoria para dar conta do número de pipas que podiam conter501. Com a nova modalidade, a partir de 1807, tornava-se necessária uma maior vigilância na laboração, como se recomendava em 1809: É preciso encarregar as fiscalizações deste rendimento a uma pessoa de fé pública e de confidência deste tribunal que evide em verificar se se crião estufas além das que se achão estabelecidas e vistoriadas, para que nelas se proceda ao arbitramento de sua lotação na forma do costume502. Ao mesmo tempo era preciso que a acção de fiscalização tivesse lugar nos momentos de carga e descarga de forma a estabelecer-se o número de pipas em laboração503, tal como se refere em 1809: Que os proprietários quando quiserem por em acção hajão de dar parte ao dito encarregado para ir examinar e tomar assento, pôr termo do dia em que principiarão a carregar, praticando o mesmo quando as descarregarem, em cujo acto deverá fazer em todos os trimestres do ano uma vistoria pelas estufas que não tiverem dado parte para cozerem, a fim de ver se estão ou não despejadas, registando tudo numa certidão para a Contadoria Geral como sua prática com os demais rendimentos504. Em 1825 acrescentava-se: Nenhum proprietário de estufa ou pessoa, por qualquer título ou contrato, o presente poderá carregá-la sem participar ao administrador, João da Cruz Henriques, ou aquele ao diante que pela Junta for nomeado, o dia em que principiar o seu carregamento, e no fim dele lhe dará uma relação do vinho que houver metido nela, representado pelo número de vasilhas classificadas por seu nome ou tamanho, declarando essencialmente sua marca e o dia em que principia e lhe acende fogo. Os donos do vinho que se meter em estufa serão obrigados a manifestá-lo ao mesmo administrador por escrito, até 8 dias depois de o terem mandado para ele, declarando o nome do dono da estufa, a quantidade e qualidade nominal das vasilhas, e marca que tiverem recebendo o mesmo administrador um bilhete do manifesto para ser ressalvo. Nenhuma estufa poderá ser descarregada sem que o primeiro se participe ao administrador o dia em que se principia sua descarga para assistir a ela. Todo o vinho que se achar além do manifestado será perdido e todo o que se tirar em qualquer tempo de cozimento sem assistência do mesmo administrador será sua importância paga pelo dono da estufa, dando-se metade ao denunciante, se o houver, e a outra metade será aplicada para o mesmo benefício público505. Em 1831 determinou-se que a imposição deveria ser lançada em todo e qualquer que for o método de sua construção, uma vez que se aproveite o calor do fogo artificial506. Daqui resultou que a cobrança feita em 1839 e 1840 atingia o vinho que amadurecia ao ar livre em cima dos fornos de cozer pão507, no que foi considerado

lesivo para o comércio do vinho, sendo apontado com o principal factor de entorpecimento das trocas508. A estrutura administrativa criada para a cobrança do imposto era simples. A partir de 1807509 a tarefa de vistoriar as estufas estava a cargo do deputado executor ou corregedor da comarca, cargo que em 1821510 era ocupado por Luís António Oliveira, nomeado pela Junta511 e, em 1825512 por João da Cruz Henriques. O administrador era coadjuvado por alguns fiscais, de que temos notícia em 1835513 do provimento de três: José da Silva Lopes, Fortunato Ernesto Soares, Tude Fernando Carmo514. A arrecadação era feita pelo sistema de arrendamento515, que como se pode inferir de vários documentos516 foi muito morosa, tardando os devedores no pagamento. A Junta via-se forçada a notificá-los ou a proceder judicialmente. Em alguns casos confiscaram as estufas e colocava-se em hasta pública de forma reaver os direitos em dívida517, ou então procedia à avaliação dos bens confiscados518.

246

501.Idem, 502.Idem, 503.Idem, 504.Idem, 505.Idem, 506.Idem, 507.ARM,

nº 404, p. 136. nº 461, pp. 314/315, 284/285. nº 461, pp. 314/315; nº 406, fol. 16; nº 465, pp. 118/119. nº 461, pp. 314/315. nº 406, fols. 143/vº. nº 465, pp. 118/9. CMF, nº 1069, fols. 26vº, 28vº, 29vº, 31, 34vº.

247

RENDIMENTO DAS ESTUFAS (VALOR EM RÉIS) PROPRIETÁRIO Manuel Ferreira da Luz Valentim da Cunha Manuel António George Colson Smith João António Gouveia Rego Domingos da Silva Pimenta João Leacock Thomas Gordon Cristóvão Esmeraldo Thomás Cantuária Bartholomeu a. Vidal Francisco Alexandre Monteiros & Co. Henrique Correia Gordon Duff & Co. Scott & Co. Phelps Page & Co. Fernando V. Cantuária António Valério António J. R. Garcês Pedro de Santa Ana Pedro de Mendonça Manuel M. Malheiro Henrique J. de Cotto Robert Veitch TOTAL

1805

1806

1807

1808

1809

1810

1811

1812

80.000 80.000 80.000 80.000 80.000 48.000

111.000 183.225 183.225 183.225 183.225

25.920 18.631 28.800 61.440

52.920 18.631 38.200 70.025

51.129 39.084 20.620 103.075

67.036 26.732 44.974 111.768

50.844 64.505 44.659 114.462

17.895 39.780 29.500 109.748

183.225 183.225 183.225 183.225

224.050 149.917 25.249 52.865

137.245 221.089

163.639 141.553

78.602 206.884

51.112 130.191

65.616 130.189

128.075 15.360

133.143 154.480

43.382

41.932

96.000 80.000 80.000 80.000 80.000

167.225 183.225 183.225 174.220 183.225 19.096 5.917 71.225

120.960 160.765 42.224 72.537 148.709 87.440 52.865 156.040

94.644 14.644

171.663 107.520 91.153 195.176 97.440 128.975 139.376

160.764 32.697 80.995 236.183 130.009 147.147 134.831

247.958 18.263 103.729 170.494 98.773 103774 181.033

246.596 98.608 94.544 173.954 59.797 65.541 132.555 19.944 18.152 15.622

249.321 27.100 71.247 201.350 48.585 169.012 127.255 32.643 45.162

87.713 142.594 59.788 73.138 114.799 20.105 32.033 14.360

1,184.000

2.565.158

1.438.312

1.611.720

1.509.355

1.503.952

1.422.595

1.398.004

1.067.118 1.249.700

80.000 80.000 80.000

1813

1814 8.521 36.126

26.939 15.307 60.260 29,825 138.239

56.800 133.187

17.674

13.634

3.703

234.334 264.770

Rendimento das estufas (valor em réis) 508.Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 219-220 509.ANTT, PJRFF, Idem, nº 406; nº 459, pp. 35/7, nº 404, p. 136. 510.Idem, nº 405, p. 281. 511.Idem, nº 406, fols. 143-143vº. 512.Idem, nº 406, fol. 145vº. 513.Idem, nº 409, fols. 8vº, 40. 514.Idem, nº 409, fols. 19-20vº, 70vº-77. 515.Idem, nº 406, fols. 18vº, 90. 516.Idem, nº 940, p. 32; nº 465, pp. 293/6; nº 466, pp. 130/1, 138/140, 158/166; nº 468, pp. 77, 106, 332/346. 517.Idem, nº 404. p. 457. 518.Idem, nº 468, pp. 204/207.

82.588 194.777 112.656 149.601 118.503 15.686 14.644 12.456 27.521 5.049 9.468


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Aspectos da antuga estufa da firma Blandy Brothers à Rua de s. Francisco. Colecção do Autor, 1979.

A questão das estufas Em finais do século XVIII generalizou-se o uso das estufas no tratamento do vinho. A conjunutura do mercado consumidor era favorável à aceleração do processo de envelhecimento. Acabou-se a guerra e cedo os apreciadores do vinho Madeira se aperceberam que lhes vendiam gato por lebre, começando a negar as encomendas. Rapidamente se encontrou o culpado: Os vinhos estufados, entrando no consumo, causaram tão desagradável impressão nos que estavam habituados ao sabor e aroma delicioso dos nossos excelentes vinhos de canteiro, que foi logo declarada guerra às estufas como prejudiciais à reputação dos vinhos da Madeira, e por isso, como já sabemos foram proibidas na cidade do Funchal, pelo edital do governador e capitão general da província, datado de 23 de Agosto de 1802, com aprovação

régia em data de 9 de Março de 1803, sendo renovada a proibição por edital do mesmo governador e capitão general, em data de 6 de Novembro de 1803519. Contrariando a lei de 1803 temos uma representação dos comerciantes locais, pedindo a revogação, pois Desta proibição tem resultado um geral desgosto e desânimo no comércio e também um considerável número de particulares proprietários, porque contemplam com susto no ruinoso efeito de uma providência, que atropela a desbarata os seus melhores interesses, e tanto mais se tem dado ao devido socorro, com que ele deve ser protegido e auxiliado (...). Nesta contenda o corpo do comércio sofreu o ataque e afinal recebeu o golpe, porque nunca se lhe permitiu a sua legítima defesa. Não o podia assim, nem a boa justiça, nem a boa razão. São três, os pontos principais, que servem de matéria para se atacar a existência, 519.D. João da Câmara Leme, Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estufas, pp. 24/25.

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continuação e conservação das estufas. Eles abrangem diversos argumentos, que serão todos destruídos. O primeiro é o descrédito dos vinhos resultantes do benefício artificial, que se lhes quer fazer por meio das estufas. O segundo, o perigo iminente e continuado dos incêndios, em consequência dos fogos mais violentos e aturados, com que se trabalhavam as estufas. O terceiro, o prejuízo grave dos fumos, que originam de arder carvão de pedra, que dizem, atacam, alteram, e incomodam a saúde dos povos520. A opinião da Câmara em 1819521 era diferente. Em representação à Junta de Melhoramento, dava conta da quebra do vinho no mercado exportador, como consequência da perda de qualidade resultante do uso generalizado das estufas, que degradando o vinho das suas virtudes essenciais, só lhe dão o cheiro postiço e uma aparência de bondade momentânea, tudo o que era sumo de parreira sem selecção alguma se preparava para o embarque. O que abertos, com a paz, os diques da guerra, os mercados se inundaram de vinhos já o nosso deixou de servir a necessidade e parto ordinário, contrariando o seu consumo as mesas de luxo aonde o capricho e delicadeza faz aparecer algumas boteilhas de vinho Madeira... e o vinho estufado, foi rejeitado pelo mercado e as estufas passaram a ser prejudiciais, estando na origem da decadência e descrédito. São as estufas, pois sabe-se pela experiência que tiram ao vinho as partes balcânicas, de sorte que em muitas praças já os médicos o não aplicam a certas moléstias em que tinham cura feliz e um desse conte desagradável, causa sede e dores de cabeça, sem beneficiar a digestão, de maneira que na terra se não faz uso desta bebida.... Daqui resulta a necessidade de interdição ou de regulamentação do uso da estufagem no trato do vinho para que os donos fossem obrigados a manter o cozimento por 10 meses. Idêntica petição surge em 1821522, clamando-se contra as perfídias estufas. Os comerciantes em 1834523 reiteraram as afirmações de 1803 e, mais uma vez, manifestaram-se contra o decreto que impunha o imposto sobre estufas. Ao mesmo tempo desfazia-se o equívoco das estufas serem a causa da decadência do vinho, pois fora da ilha também se estufava o vinho e tal não sucedia: As ilhas dos Açores, Canárias e Cabo da Boa Esperança, tem estufas e estas livres de todo o tributo, ora se os vinhos estufados tivessem perdido o crédito decerto ali não haveria. Em todos países onde há vinhos está a exportação deles livre e livres de impostos todos aqueles que por meio da sua indústria promovem o consumo deles. Em meados do século, com o agudizar da crise, reacendeu-se novamente a questão das estufas na imprensa local. Nas páginas do Correio da Madeira afirmava-se em 1851: O vinho bom não carece de estufa, logo as estufas só servem para o ordinário, que se deve fazer para aguardente e consumir nas tabernas (...). É uma 520.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1431. 521.ARM, RGCMF, T. 14, fols. 202/203vº. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 86-87 522.ARM, RGCMF, T. 15, fols. 100vº/104. 523.Idem, T. 17, fols. 103/106vº. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.115117

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Cubas em madeira de cetim do Brasil. Madeira Wine Company, Perestrellos Photógraphos. Museu Photographia Vicentes

calamidade pública esta funesta descoberta, que fazendo exportar o vinho mau, deixa o bom e óptimo estagnado, arruinado o nosso crédito524. Contra esta opinião manifestou-se um leitor no número imediato525, anotando que a origem da crise emanava da pauta. Quanto às estufas referia que era uma questão de prática, pois o que estava mal eram os abusos praticados, ou seja o estufar o vinho ruim que deve ir para o alambique e só para o alambique, o envasilhar o vinho em pipas não avinhadas, o meter vinho em estufa forte de 3 meses, o embarcar o vinho antes de passar o tempo que é mister esta sobre o canteiro, uma vez que a uma estufagem bem feita deveriam seguir-se dois anos de descanso no canteiro para o vinho adquirir o aroma526. Igual opinião tinha D. João da Câmara Leme, que estabeleceu um novo processo de tratamento, conhecido como o método de canavial, considerando o método eficaz e capaz de manter as qualidades do vinho. Eduardo Grande, em 1865, no relatório sobre a situação da ilha no post crise de 1852, salienta que a crise não se deveu única e exclusivamente à moléstia da vinha, pois que de há muito que ele se preparava pelo descrédito que os vinhos desta ilha foram pouco a pouco granjeando no estrangeiro, como o abuso inconsiderado das estufas (...). Por esta prática lançou-se imprudentemente nos mercados estrangeiros uma grande porção de vinhos, muitos dos quais mal preparados, e estas circunstâncias provocaram a procura e acarretaram as desconfianças dos consumidores, diminuiriam a procura e acarretaram uma baixa sensível no preço do género527. As estufas nunca perderam o estigma do mal que marcou a sua afirmação no século XIX e ainda hoje há quem as aponte a dedo. 524.Nº 116, p. 2., in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.223 525.Nº 117, pp. 1/2. 526.Ibidem, nº 117, p. 2. 527.Sociedade Agrícola Madeirense-Relatório, p. 71.


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Estufa de Cossart Gordon & co. Gravura de A. Vizetelly, 1880

Estufas Messers. Cossart, Gordon and Co. Agora falarei deste curioso processo de que se tem dito muito mal e bem, e sobre o qual ainda hoje a opinião publica não está inteiramente pronunciada. A estufa nada mais é de que o método de acelerar o desenvolvimento das partículas que constituem a excelência do vinho da Madeira, isto é, suprir em 3 mezes o que 7 ou 8 annos havião de exigir; e neste inegável principio, sustentarei, que o sistema de estufar a grande maioria do vinho que a Madeira se exporta, he o que a tem sustentado nestes últimos annos em que este seu único artigo de comercio tem achado poderosos concorrentes nos mercados estrangeiros, havendo o seu por capricho da moda, sofrido desuso, assim como um eterno empate o viria estagnar, a não ser o rápido processo que tanto barateou o valor com que pode ser exportado este género, com bom interesse, sem com tudo ser adulterado ou falsificado. Consiste o processo de estufar vinho, na seguinte maneira. Qualquer que seja o edifício, (em geral são de abobada) deve ser hermeticamente rebocado, a estuque, deixando se lhe apenas a porta por onde entra o vasilhame, a qual é também entaipada, depois que a cascadura se acha estivada dentro, e apenas se lhe deixa um postigo por onde um só homem possa caber, para ir diariamente examinar com uma lanterna se há novidade dentro. No edifício deve haver uma fornalha, praticada no interior, porem de maneira que facilmente seja alimentada de fora com o necessário combustível, findo o que é fechada. Em todo o circuito do muro da mesma Estufa ha um cano ou tubo de cantaria ou tijolo, que faz circular o intenso calor da fornalha por toda a parte, calor que muitas vezes excede a 160 graus de Farenheit, e então o liquido ferve dentro da vasilha, como uma chaleira em cima de brasas, tendo se lhe previamente feito um furo no fundo superior, para não arrebentar. Durante 3 mezes ou 100 dias se acha nesta continua fermentação na qual perde em geral 10 por 100 da sua totalidade; então apaga-se a fornalha, e dias depois vão as pipas para o canteiro, afim do vinho ser tratado. É notável, que até durante o maior auge de calor, entrão neste Inferno artificial homens a isso acostumados, e com a ajuda da lanterna correm os sinuosos espaços com que o vasilhame está estivado, e estancão facilmente algum esvaimento, ruptura ou broca. PAULO PERESTRELO DA CÅMARA Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91

Os seus armazéns compreendem três conjuntos diferentes de prédios, conhecidos respectivamente como os armazéns do Serrado, da Estufa e os armazéns «Pateo», todos situados a uma distância de cinco minutos uns dos outros. Os armazéns Estufa da Messrs. Cossart, Gordon and Co. compreendem um bloco de prédios com dois andares, divididos em quatro compartimentos diferentes. No primeiro destes, vinhos comuns são sujeitos a uma temperatura de 140 graus Fahrenheit - derivada de serpentinas aquecidas com carvão antracite - durante três meses. No compartimento seguinte, vinhos de uma qualidade intermédia são aquecidos até 130 graus por um período de quatro meses e meio; enquanto que o terceiro é deixado de parte para vinhos superiores, aquecidos de modo variado dos 110 aos 120 graus durante um período de seis meses. O quarto compartimento, conhecido como o Calor, não possui serpentinas, mas deriva o seu aquecimento exclusivamente dos compartimentos adjacentes, variando entre 90 e 100 graus; e aqui são colocados apenas vinhos de alta qualidade. O objectivo deste aquecimento do vinho destruir quaisquer germes de fermentação que permaneçam nele, e amadurecê-lo mais rapidamente de modo a que possa ser exportado no seu segundo ou terceiro ano sem outra adição de álcool. O uso destas estufas na Madeira data do início do presente século e a maior parte do vinho passa por este ou por um modo semelhante de tratamento antes de ser exportado. Estas estufas artificialmente aquecidas são apenas usadas pelas maiores casas de exportação, que, no entanto, aquecem aí vinho para outros exportadores a uma taxa estipulada. Outros conseguem o objectivo desejado, colocando os seus vinhos numa espécie de estufa, onde permanecem expostos ao calor total do sol. Durante o dia é assegurada uma temperatura de 120 a 130 graus, que, no entanto, se torna consideravelmente mais baixa durante a noite - uma circunstância que é observada por muitos como prejudicial para o desenvolvimento do vinho. Nas freguesias do campo, onde não existe qualquer forma de estufas, os proprietários de vinho colocam as barricas ao ar livre em posições favoráveis para assegurar uma acção completa dos raios de sol. …

Serrado da firma Cossart Gordon & co. Rótulo da colecção da Madeira Wine Company


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A questão das aguardentes

Armazéns de Cossart Gordon & Co.

Nas estufas que estou agora a descrever - que, se cheias, são capazes de aquecer 1.600 pipas de vinho de uma vez - as pipas são colocadas de pé, em pilhas de quatro, com pipas mais pequenas por cima, deixando-se uma estreita passagem entre as diferentes pilhas para permitir a passagem de um homem para se assegurar de que as pipas não vertem, pois quando sujeitas a elevada temperatura têm tendência natural para o fazer. Um buraco com cerca de um sexto de polegada de diâmetro foi previamente feito no batoque de cada pipa para permitir que o vapor quente saia, caso contrário a pipa rebentaria. Na realidade, as pipas, não pouco frequentemente, vertem, como depreendemos das numerosas manchas escuras em várias partes do chão, tornando necessário que os diferentes compartimentos da estufa sejam inspeccionados uma vez durante o dia e uma vez durante a noite, de modo que qualquer acidente deste tipo seja imediatamente rectificado. Cada compartimento possui alçapões duplos, e depois de serem enchidos com vinho as portas interiores são revestidas com cal, de modo a fechar qualquer abertura que possa haver. Quando é necessário entrar na estufa, apenas as portas exteriores são abertas, e um pequeno alçapão nas portas interiores é empurrado para permitir a entrada do homem encarregado que passa por entre as diferentes pilhas de pipas batendo levemente numa a seguir à outra, para se assegurar de que não há derrame. Ao sair da estufa, depois de ter ficado uma hora, embrulha-se automaticamente num cobertor, bebe um copo cheio de vinho, e depois fecha-se num pequeno compartimento, no qual não entra ar frio, preparado para esse fim. A Messrs. Cossart, Gordon and Co. normalmente coloca os seus vinhos na estufa durante os meses de Janeiro e Fevereiro, o que permite a remoção para outros armazéns antes de começar a próxima vindima. Durante o tempo em que estão na estufa, diminuem uns 10 a 15 por cento pela evaporação das suas partes aquosas. VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.

Q

Ao processo de estufagem seguia a fase de envelhecimento do vinho no canteiro. A adição de aguardente fazia-se no decurso do processo de fermentação ou já na fase de amadurecimento. Para isso usaram-se, primeiro as aguardentes de França e, depois as da terra. A generalização do consumo de aguardente nas tabernas e o uso na fortificação do vinho de exportação criaram as condições para o aparecimento de alambiques na ilha. De França vieram as aguardentes mas também os primeiros alambiques. Em 1821 está documentada a presença de 3 alambiques a que se juntou, desde 1822, uma fábrica de destilação contínua, propriedade de Severiano Alberto de Freitas Ferraz. Os vinhos de baixa qualidade passaram a ser queimados nos alambiques, abrindo uma alternativa para o consumo dos do Norte, especialmente de São Vicente e São Jorge. O Decreto-lei de 11 de Março de 1911 acabou com os alambiques para dar lugar ao monopólio do engenho do Hinton e à afirmação da aguardente de cana-deaçúcar. Daqui resultou a perda de qualidade do vinho Madeira, que se manteve até 1974, altura em que acabou a proibição. Durante este período a aguardente vínica era um segredo apenas conhecido dos habituais apreciadores. Ao ancestral sistema de canteiro veio juntar-se em finais do século XVIII a estufagem. Tal como afirmava D. João da Câmara Leme o sistema de canteiro não é processo aplicável a um largo e importante consumo com a perspectiva de grandes lucros. Deste modo em finais do século XVIII quando a procura aumentou tornouse urgente apressar o processo de envelhecimento. Ao tradicional método juntaramse outros: No tratamento dos vinhos da Madeira teem sido empregados três systemas bem distintos: - 1º, Systema sem aquecimento; 2º, Systema com aquecimento lento, ficando o vinho em comunicação com o ar ambiente; 3º, Systema com aquecimento rápido e arrefecimento lento, demorado ou não, em recipiente fechado.528 Até 1821 a aguardente estrangeira teve livre-trânsito no porto do Funchal, situação justificada pela acção benéfica no trato e falta de aguardente local de qualidade. A partir de então tudo mudou com a introdução dos alambiques de destilação contínua. Daqui resultou nova polémica em torno do trato, defesa da qualidade e consumo do vinho. São duas as opiniões em confronto. Os que estavam ligados ao tráfico do género (nomeadamente os comerciantes ingleses) argumentavam em favor da utilidade da aguardente no trato do vinho, ao contrário do que sucedia com a de produção local. Os proprietários dos alambiques e lavradores eram contrários à entrada por ser lesiva ao escoamento do produto da região e ter efeitos nocivos sobre o vinho. Em 1822 deu-se uma viragem no comércio das aguardentes francesas. Os proprietários locais, aproveitando o momento de crise que se vivia, solici528.Conde Canavial, Os três systemas de tratamento dos vinhos da Madeira, Funchal, 1900.

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taram a proibição o que veio acontecer por lei de 31 de Julho de 1822. A Madeira desde o século XVI que exportava aguardente para o Brasil e Angola, mas o uso na fortificação dos vinhos parece ser mais tardio. As referências são mais frequentes a partir de meados do século XVIII. Em 1704 W. Bolton refere que se fazia a adição de aguardente de França aos vinhos de exportação, tendo recebido desde Londres 10 pipas529. No Porto a prática generalizou-se a partir de 1730530. O mercador Francis Newton refere em cartas de 1752 e 1753 que o uso de adicionar aguardente aos vinhos era corrente531. Acontece, ainda, que os mercadores da Nova Inglaterra e Virgínia eram favoráveis à adição de aguardente. Na correspondência comercial dos mercadores ingleses é insistente a referência ao efeito benéfico da fortificação dos vinhos com aguardente532. A História do alambique remonta ao tempo dos Romanos, mas foram os árabes que aperfeiçoaram o mecanismo e o divulgaram na bacia mediterrânica533. Em Portugal está documentado desde o século XVI. Na Madeira não sabemos quando surgiu o primeiro mas, de certeza que no século XVI deveriam existir uma vez que está documentada a exportação de aguardente para Angola e o Brasil. A referência mais antiga a um alambique é de 1667, altura um que o convento de Santa Clara vendeu uma caldeira de cobre de fazer aguardente a Manuel da Fonseca, mercador, por 31$200 réis534. Depois disso só em 1745 surge nova informação sobre um outro alambique que funcionava no Seixal, no Norte da Madeira535. Desde 1777536 temos indicação sobre o trato do vinho da Madeira com aguardente importada de França. Num requerimento dos negociantes solicitando a entrada de aguardente, a Junta, tendo em conta o momento de crise e o facto dos poucos vinhos ainda exportados serem loteados com a aguardente, por razão da sua generosa qualidade e por outra esquisita, de se não perceber a lotação dela com os vinhos, se fazia decente a sua entrada, mas de modo controlado, pois que não impede a extracção do pouco que nesta ilha se fabrica... nem também obsta o consumo interior, tanto pelo alto preço com que entra a de França sem se poder por isso reexportar, a menos aplicar-se a outro uso que não seja aquela mesma utilíssima lotação.

Que igualmente as mesmas forem introduzidas voltam a sair na extracção do vinho que facilitam e engrossam os direitos da Alfândega por entrada e por saída. Sendo de maior atenção a grande qualificadíssima qualidade de ser o género, que sem empecer a extracção do nosso concorre a dar-lhe reputação e maior valor em preço e que depois de pagar direitos a S. M., constitue com decoro do reino as espécies activas dos nossos vinhos, visto que os desta ilha na concorrência dos mais da Europa e ainda dos do nosso reino só tem puridade e preferível estimação na fermosa consistência em que por decurso do tempo se vão elevando a tal grandeza e generosidade, que constituem as delicias dos que a preços altos os compram; pureza e tão substanciosa que pelos muitos anos em que os outros a pedem nesses mesmos adquirem e sustentam os desta ilha. Em consulta de 31 de Maio537, sobre o mesmo assunto, argumenta-se com a concorrência dos vinhos estrangeiros no mercado internacional e a necessidade do da ilha ganhar mercado, não pelo baixo preço, o que era impossível, mas pela qualidade e propriedade de se melhorar com o tempo. Ora, tendo em conta que a duração e distinta qualidade dos vinhos depende da indispensável lotação de aguardente de França, principalmente naqueles que pela sua riqueza, como produzidos em terras impróprias, lhes faltam os espíritos para se conservarem e que a dita lotação vem o fazer decorosa a reputação do reino, e a sua utilidade e a leva-los, ou conservá-los reciprocamente útil, tornava-se útil a introdução limitada, pois que tinham a estimável qualidade de não fazerem as da terra, conhecida a lotação dos vinhos pelo impermutável benefício que lhes fazem. A Junta autorizou em 1782538 a entrada de 20 vasilhas de aguardente de França, e em 1793539 aceitou um contrato com particular por nove anos a 1200 réis por galão. A propósito comentava-se: Primeiramente tem a experiência demonstrado com a magnificência, que os vinhos desta ilha, único, mas muito considerável ramo dele, sendo concertado com as genuínas aguardentes de França conservam por meio deste benefício a sua primitiva e generosa qualidade e senão arriscam a decair dela, como tem acontecido, introduzindo-se em seu lugar aguardentes adulteradas,... que não só adulteram os vinhos, mas os fazem perder a superior qualidade que dá origem à sua extraordinária exportação. A questão foi de novo ateada nos anos vinte do século XIX. As aguardentes importadas perdem importância. A 23 de Agosto de 1821540 a Câmara do Funchal em petição às Cortes clamava pela interdição de entrada, como forma de acudir à crise, e para que os vinhos de sua produção fossem adubados só com as aguardentes fabricadas nesta província, que não só podem abastar, mas que são de qualidade e quilates superiores a todas as aguardentes conhecidas, não podendo, de modo algum, ser igualadas em bondade por outra alguma conhecida, uma vez que operam

529.The Bolton Letters. The Letters of an English merchant in Madeira, Funchal, 1960, p.34; Rupert Croft-Cooke, Madeira, p.39 530.Alarte, Vicencio [A Agricultura das Vinhas e tudo o que Pertence a ellas até o Perfeito Recolhimento do Vinho e Relação das suas Virtudes e da Cepa, Vides, Folhas e Borras, Lisboa, na Officina Rela Reseandesina, 1712] recomendava o uso de três galões de aguardente por pipa de vinho. 531.Rupert Croft-Cooke, Madeira, London, 1961, p.50 532.Em carta de John Leacock para o seu irmão refere-se o seguinte: …as brandy is such na essential help to the wines, we shall make it a constant rule to give all our wines that go round a sufficient portion. We find that all those houses who are most noted for putting an extra quantity of it in their wines meet with more success in pleasing their correspondentsthan whose who ships much better wines, that do not adopt method of makingthem up.. Indeed in the course of eight or nine months continual agitation on board a vessel, the extra fire and spirit of the brandy must be much exhausted & softened, and the wine receive the strength which is quite different when the wines remain quiet and undisturbed in our stores, then the additional dose of brandy as you know from experience takes away the flavour & pleasantness of the wine and is very apt to give it a disagreeabke hars twang. [Rupert Croft-Cooke, Madeira, London, 1961, pp.57-58] 533.João Inácio Ferreira Lapa, Artes Chimicas, Agrícolas e Florestaes ou Technologia Rural, vol. I, Lisboa, 1865; Avelar Machado, Subsídio para a História da Destilação, Informação Vinícola, nº.10, 1950, pp.1-2: idem, O Alambique através dos Tempos, in Informação Vinícola, nº.13, 1950, p.4; Margarida Ribeiro, Alguns Aparelhos de Destilação em Portugal, in Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, Lisboa, 1989, nº91, t.I, pp.125-147 534.ANTT, Convento de Santa Clara, maço 2, 10 de Maio de 1667. 535.João Adriano Ribeiro, Porto Moniz. Subsídios para a História do Concelho, Porto Moniz, 1996, p.93. 536.ANTT, PJRFF, nº 942, pp. 19/20.

537.Idem, nº 411, pp. 32/33. 538.Idem, nº 942, fol. 96. 539.Idem, nº 761, pp. 196/197. 540.ARM, RGCMF, T. 15, fols. 100vº/104, 263/264., in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.95

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tanto no concerto e trato dos nossos vinhos, em uma medida dada, quando produz o dobro de aguardente de França, além do benefício, que resulta da sua natureza homogénea. Elas só tem um fumo, a que chamam fleuma, causado pelas máquinas imperfeitas, que ora se fabricam. É por certo, que ainda lançado nos vinhos com este sabor, passados quatro, ou seis meses este desaparece e se não conhece de maneira alguma e nunca se percebe sendo laudas no mosto, antes pelo contrário lhes dá uma qualidade realçada. As medidas assentavam na máxima de ser um erro capital na economia política receber de fora as produções e manufacturas de que o país não carece, antes abunda. Eram os ingleses que traziam grandes somas de aguardente de França, Itália e Espanha e as adulteravam na viagem, pelo que se interditou a entrada em 1760. Apenas se permitiu o tráfico e começou a haver a arbitrária permissão de entrada de pequeno número de pipas de aguardente de França, para adubar alguns vinhos de embarque; liberdade, que foi crescendo de dia para dia ate o enorme abuso que chegou esta importação, que por ser uma infracção às leis deve ser sistematicamente abolida. A proibição das aguardentes francesas justificava-se em razão do impasse que se vivia: Muitos especuladores estão à espera de que se firme a proibição das aguardentes estranhas na ilha para fazerem apontar imediatamente nas máquinas aperfeiçoadas para entrar na sua laboração, não se animando a isso pelo perigo de perderem o seu cabedal e a sua esperança. Isto é um incentivo poderoso para que se decida a sua positiva proibição quando antes, muito principalmente havendo na ilha, actualmente, aguardente bastante e sobeja para os vinhos que produzir a colheita próxima. Não será porém fora de prudência para evitar qualquer paralisação que a demorada chegada das novas caldeiras pode ocasionar, ou as cautelas dos comerciantes possam opor em ódio desta inovação salutífera, dar-se algum tempo para que as aguardentes, que não tiveram tempo de ser contra mandadas, sejão admitidas a despacho da Alfândega. Todas as manifestações contrárias vinham de sectores próximos dos ingleses: A proibição de todas e quaisquer aguardentes, é um poderoso meio de salvar a ilha da inevitável desgraça, que ameaça; toda esta província instantaneamente o pede, e esteja V. M. persuadido, que só estas pessoas aditas aos ingleses e por eles subornadas, ou miseráveis publicanos, que preferem o seu particular interesse ao bem da pátria e a felicidade comum, ou na Alfândega fazem criminosas especulações em o próprio e parte da nação podem duvidar desta verdade e afectar (sic) ser de opinião contrária. A 9 de Outubro541 foi permitida a entrada das aguardentes sobrecarregadas com gravosos direitos. Daí ter-se enviado nova representação às cortes em 19 de Abril de 1822542 contra a medida surgida de surpresa., A resolução de Outubro deu azo a acesa polémica, nas colunas do Patriota Funchalense, perdurando até que a lei de

31 de Julho de 1822 proibiu a entrada das aguardentes estrangeiras e sobrecarregou as nacionais com 60.000 réis de direitos por pipa543. F. Manuel Alves544 refere a necessidade de importação de 2000 pipas de aguardente de França, uma vez que esta aguardente é de qualidade tão superior, que parece um pouco difícil suprir a sua falta e isto principalmente pelas seguintes razões: a diminuta porção, que aqui se faz de aguardente da terra, por falta das caldeiras de moderna invenção, tem muito fleuma e um gosto agenebrado que por isso comunica um sabor desagradável dos vinhos. Para Diogo Dias de Ornelas545 a exposição era um elogio camuflado ao comércio da aguardente francesa, pois que o importante era contrariar a importação, apoiado nas seguintes razões: 1- porque ela aumenta e torna mais difícil a exportação dos nossos vinhos, em razão de importação de 3 para 4 mil pipas. 2porque nos faz dependentes dos estrangeiros, por falta de indústria nacional, o que é um grande mal. 3- porque favorece o monopólio de 11 ou 12 negociantes (quasi todos estrangeiros) com notável detrimento público. 4- porque em consequência dessa importação se fazem muitos contrabandos, e se cometem (segundo dizem) gravíssimas peculatas. 5- porque de envolta com essa aguardente entram outras bebidas espirituosas, que nos vem arruinar nos bens, e na saúde, fazendo grande estrago na população com as epidemias que elas originam neste clima, como a experiência o tem mostrado. 6- porque ele não é tão superior como V. M. diz, pois que sendo deitada em vinho fraco, tanto degenera, que por fim à força de aguardente que é preciso deitar-lhe, transforma-se o vinho nela. O que não sucede ao vinho bom e generoso, porque este conserva-se ate com água, sendo em pouca quantidade. 7- porque nos tira, todos os anos dois milhões de cruzados, pouco mais, ou menos. 8- porque não dá lugar a que se fervam os nossos vinhos de ínfima qualidade e por conseguinte concorre para que estes com facilidade e falsificados se embarquem, com empate dos vinhos bons e nosso descrédito. 9- finalmente, porque proibindo-se essa importação, sacudiremos parte do jugo em que jazemos manietados e em vez de darmos o nosso dinheiro em troco de aguardente francesa, talvez que em breve nós recebamos grande cópia de numerário pela nossa. A isto contrapõe Francisco Manuel Alves546 os inúmeros prejuízos provocados pela proibição: 1- privar o erário do rendimento, de 50 contos de reis anualmente, 2perder o benefício de exportação dos vinhos, que se embarcam em troco, para pagamento da aguardente de França, 3- o risco que há de que os vinhos do norte desta ilha rebaixa muito de preço, com grande perda dos lavradores e dos senhorios das terras, ou que a aguardente da terra seja muito cara, com prejuízo dos habitantes.... Para o cidadão que assina hum português547 a aguardente que entrava na ilha não era boa, o que se demonstrava pela quantidade que se gastava para fortificar o

541.Idem, T. 15, fols. 24/26. 542.Vide O Patriota Funchalense, nº 9, pp. 1/3, nº 25, p. 4, nº 30, p. 2, nº 31, p. 4., in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 99

543.Patriota Funchalense, nº 123, pp. 3/4. 544.Idem, nº 9, p. 3. 545.Idem, nº 11, pp. 3/4. 546.Idem, nº 11, p. 4. 547.Idem, nº 12, pp. 3/4.

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vinho. A boa aguardente de França, que se importava directamente, era muito reduzida, a outra exportada de Londres para aqui, sabido é que lá foi enfraquecida com água para a pôr no quilate lã permitido a essa aguardente, ademais vem de Espanha e Itália muitas vezes adulterada. Além disso a introdução estava na origem da estagnação dos vinhos e da desgraça dos madeirenses. Desta forma era útil a interdição de entrada e a concessão de empréstimos pelo erário público para compra de alambiques para destilar o vinho baixo da ilha. A medida proibitiva mereceu a gratidão dos proprietários, uma vez que contribuía para o escoamento dos stocks de vinho. Foi assim que se manifestaram os proprietários António de França Neto548 e Diogo de Ornelas549, para quem a lógica do Sr. F. Manuel provoca náuseas, esclarecendo-se acerca da pessoa em causa: Deve saber-se que o Sr. Francisco Manuel Alves não é proprietário, nem negociante de vinhos e que por dever de amizade e interesse é mui afeiçoado a alguns senhores negociantes ingleses. Declaro isto, não para ofender, mas para o critério avaliar-nos”550. O articulista Hum Português551 acrescentava a discussão o seguinte: A aguardente que eles nos trazem será porventura um efeito da sua filantropia? Não será antes para nos por na sua dependência, para terem mais um artigo de contrabando e de monopólio e com fim para reduzirem o preço do nosso vinho B mais Ínfima expressão. O polémico Estrela do Norte552 atacou, não só a opinião do Sr. Alves, como o decreto aprovado em Cortes, que permitia a entrada das aguardentes nacionais, pois as pipas de aguardente, que entram em nosso porto são mais temíveis, que os corsários insurgentes553, que podem olhá-las como outros tantos inimigos, que lhes vem roubar o sangue e dar morte violenta aos seus interesses. O redactor de O Patriota Funchalense, N. C. Pitta554 considerava a lei de 9 de Outubro, como prejudicial, porque no comércio com o reino não havia contrapartida: Numa tal colisão, antes continuasse a importação de aguardente estrangeira, pois como esta era importada pelos ingleses e estas são quasi os únicos consumidores e exportadores do nosso vinho, era-nos mais vantajoso receber deles a aguardente, dando-lhes em troca vinho, que recebê-la de Portugal, que nos arruína, levando o nosso numerário e impedir do que fervamos os nossos vinhos, na certeza de não acharmos compradores, por terem igual género de Lisboa muito mais barato555. Mais uma vez os privilégios exclusivos eram anti-constitucionais, ficando-se pelo meio-termo, pedindo-se apenas um aumento dos direitos de importação da aguardente nacional de 7.600 réis para 40.000 réis, esperando que esta medida

pudesse funcionar como medida impeditiva. A discussão permite tirar várias ilações sobre a índole sócio-económica do movimento a favor e contra a importação de aguardente estrangeira. A maior parte dos proprietários rurais do Norte e Sul eram favoráveis à interdição das bebidas, porque consideravam a medida vantajosa para as vendas, aliviando as próximas colheitas ou o vinho armazenado que não tivesse saída. Os comerciantes que se dedicavam ao comércio das aguardentes estrangeiras eram de opinião contrária. Para os ingleses e acólitos, a entrada das aguardentes era um meio de fácil saque. Já os pequenos proprietários do Norte exerceram uma forte pressão, uma vez que o destino das colheitas dependia da solução encarada. A instabilidade política no continente provocou alguma desconfiança das instituições locais perante a iminência de novas medidas que pudessem surgir de Lisboa. Assim, em 8 de Agosto de 1823556, após a Vila-francada (em Maio), a Câmara representava para que com a mudança das causas se não faça alguma alteração naquelas providentes leis, visto haver ainda, quem tendo só em consideração os seus próprios interesses e em nenhuma conta a prosperidade pública desta província declama e representa contra a disposição destas leis”. Mas o Conde de Subserra por aviso de 12 de Março de 1824557 sossegou-os confirmando-as. As constantes alterações e a extrema fragilidade do sistema político, na primeira metade do século XIX, contribuíram para o arrastar da crise porque as medidas tardavam em chegar e as soluções provisórias eram ineficazes e pelo imperfeito rotativismo de domínio dos diversos interesses conduzia a uma variedade opção em face dos acontecimentos, que se materializava muitas vezes em soluções ou medidas diferentes, de acordo com os interesses em jogo. Assim, enquanto em 1794558 se proibiu a entrada de certa porção de aguardente de Valença, em 1810559 tivemos medidas de excepção com a permissão de entrada de 3.600 galões de aguardente, livre de impostos para a tropa ocupante da ilha. Em 1821 deu-se entrada a 6 pipas de aguardente de Londres para José Rebello560 e de 180 pipas de Bordéus para T. H. Edwards & Ca.561. Mas já em 1822 o juiz da Alfândega apreendeu uma pipa de aguardente a Philip N. Searle, dizendo ser estrangeira562, mas por sentença do Feitor da fazenda de Lisboa em 1825563, confirmou-se ser fabricada na ilha do Faial em alambique, dando-se a devida autorização de entrada. O caso demonstra a disparidade de opções entre Lisboa e a ilha. Pelo menos assim o devia entender o comerciante que em face da apreensão fez apelo aos tribunais do reino e não aos da ilha. Em 1823 gerou-se acesa polémica acerca de um requerimento de Murdoch Wille & Ca., casa da companhia nova, em que solicitava a admissão de 400 pipas de

548.Idem, nº 13, pp. 3/4. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 195-197 549.Idem, nº 13, p. 4; nº 14, p. 4. 550.Idem, nº 14, p. 4. 551.Idem, nº 14, p. 3. 552.Idem, nº 26, pp. 3/4 553.Os corsários insurgentes surgiram entre 1818/9, actuando de modo especial no mar circunvizinho dos Açores e Madeira. Estes corsários eram de proveniência argentina e actuavam aqui contra os portugueses e espanhóis em represália da acção da invasão portuguesa em face da guerra da Argentina. Até ao momento era desconhecida a sua acção nesta área, só uma investigação por nós feita e m vias de publicação deu-nos a possibilidade dessa descoberta. 554.Patriota Funchalense, nº 40, pp. 1/2. 555.Idem, p. 1.

556.ARM, RGCMF, T. 15, fols. 99vº/100, vide representação de 3 de Janeiro de 1823; idem, T. 15, fols. 119vº/121. 557.ARM, RGCMF, T. 15, fols. 133/134vº. 558.ANTT, AF, nº 238, fols. 2vº. 559.Idem, nº 238, fols. 137vº, 141. 560.Idem, nº 240, fols. 20/21vº. 561.Idem, nº 240, fols. 33vº, 49/49vº, 54vº/55vº, idem, PJRFF, nº 405, pp. 335, 378, nº 406, fol. 20, nº 450, pp. 7/8. 562.ANTT, AF, nº 240, fols. 68vº, 89vº, nº 406, fol. 53vº.

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aguardente de França. A Junta em face do pedido solicitou o parecer das câmaras de Machico, Calheta, Ponta do Sol, S. Vicente564 e do Funchal565. Os comerciantes e proprietários do Funchal em representação conjunta manifestaram-se contra o requerimento, apontando: Já ninguém duvida que os novos alambiques destilam com nossos vinhos aguardente de superior qualidade, tanto para consumo de vinhos novos, como de velhos, enquanto guardado de um para outro ano, capaz de rivalizar com a melhor, que aqui nos tem vindo de França, desta verdade estão todos convencidos, ate às casas de comércio estrangeiras da maior inteligência, dignidade e respeito. Pressente-se a força do novo comerciante enriquecido com os lucros das novas fábricas de destilação contínua e que começaram a dominar e fazer valer os seus interesses. Entrávamos na época dos alambiques e dos proprietários de fábricas de destilação há pouco enriquecidos. A opinião terá acento na Câmara do Funchal, por intermédio, certamente de Severiano de Freitas Ferraz, daí a negativa ao requerimento citado antes se manifestando pela aplicação imediata da lei de 2 de Janeiro de 1824566. Idêntica força se fez sentir na decisão da Junta em 17 de Março de 1824567, ao indeferir a mesma pretensão assim justificada: Apesar que as Juntas passadas tenham muitas vezes representado a necessidade absoluta de entrada de semelhante género ate persuadidas que das aguardentes de França dependia a estima e particular conceito que os vinhos da Madeira tinham no mercado estrangeiro, tem-se realmente conhecido que esta opinião provinha da falta que então havia da indústria alambiques próprios para fazer sem os defeitos com que então se destilava, porém agora que a falta de comércio, minorando a exportação dos vinhos promoveu esta indústria mandando muitos vir de França os melhores alambiques nos quais se faz a maior perfeita destilação, seria para os empreendedores a admissão pedida, um mal gravíssimo e para sua indústria e ate talvez tornar na aguardente desta ilha um ramo de exportação preferível às de outro país, atendendo à melhoria dos vinhos que é extraída. Os comerciantes que teimavam no negócio rendoso das aguardentes restava apenas o afrontamento às medidas interditivas com o recurso ao contrabando. A costa entre Machico e a Calheta oferecia enseadas desprotegidas e não vigiadas pelas forças militares, o que facilitava o contrabando568. A primeira referência surge em 1823, com a apreensão pelo juiz da Ribeira Brava569, no lugar de Baixo do termo da Vila da Ponta do Sol, e do juiz da Alfândega na baía do Funchal de 7 pipas, da chalupa inglesa George the Fourth570. Em 1825571 a Junta denunciou o contrabando de

aguardente praticado pelos navios franceses Le Renard e L’Americaine, sob a complacência de quatro guardas de número da Alfândega: não pode a Junta deixar de estranhar que haja pessoas tão pouco zelosas do seu crédito e de sua mesma pátria que por tão ridículo interesse sacrifiquem o maior bem dela com desprezo da mais sábia e providente lei constituindo-se os autores de semelhante falta pouco dignos da estimação pública e de qualquer carácter de representação que os distinga, ou classe de comércio a que pertençam572. Para o ano de 1827573 ficou reservado o maior escândalo de contrabando até então praticado no Funchal. A apreensão de certa quantidade de aguardente a Francis Gordos foi o mote. A Câmara e a opinião pública em geral574, manifestaramse contra o sucedido apontado a necessidade de medidas severas, como o derramamento no calhau. No entanto, inadvertidamente, a Junta em 7 de Outubro a admitiu a aguardente e solicitou à Câmara a permissão para o livre consumo. Em 1839575 foi encontrada a boiar no mar uma pipa de aguardente, perdida do contrabando, arrematada em hasta pública. Ainda, segundo Ruppert-Coock576, um navio alemão teria desembarcado na baía de Câmara de Lobos 300 caixas de gin que escondeu na furna dos lobos, sendo depois encontradas, por um par de namorados. Perante a inépcia da vigilância da costa e a continuidade da acção fraudulenta na baía do Funchal, através da manifesta corrupção de grande número de guardas da Alfândega, perguntava-se o articulista do Funchalense Liberal: De que serve então dizer - fica proibida a importação das aguardentes estrangeiras na ilha da Madeira se se desprezam os meios de tornar efectiva essa proibição?.O Correio da Madeira, em 1851, lamentava a triste sorte da ilha com o aparecimento tardio dos alambiques: Se nas grandes e felizes épocas desta ilha houvesse alambiques, não teriam exportado para os mercados estrangeiros vinho de má qualidade que muito desacreditou o nosso comércio, e este erro manifesto nos teria reduzido há extrema indigência, não vir a providente, a mil vezes bem calculada e restauradora medida consignada na carta de lei de 2 de Agosto de 1822577. Mais afirmava que a defesa do vinho, em face da concorrência do Porto e Xerez, deveria ser afrontada com medidas de defesa da reputação e qualidade. Minorando os gravames do nosso vinho, facilitando-lhes e promovendo-lhe o consumo e guerreando o contrabando da aguardente - que é uma traiçoada investida, um hostil assalto ao nosso produto já tão sobrecarregado e vítima do flagelo da pauta - que embaraça a nossa agricultura, dificulta o nosso comércio, rouba-nos o pão de nossas famílias, o interesse de nosso trabalho e ate cedo nos esbulhará de nosso tecto protector578. A importação das aguardentes é apontada como uma das origens da crise. Até 1821 argumentava-se a favor da de França, como meio único e necessário para o

563.Idem, nº 240, fol. 175vº. 564.ANTT, PJRFF, nº 774, p. 126. 565.Idem, nº 406, fol. 84. 566.Idem, nº 406, fol. 91vº; ARM, RGCMF, T. 15, fols. 129vº/130. 567.ARM, RGCMF, T. 15, fols. 117vº/119. 568.ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 169/169vº. 569.Vide o Defensor da Liberdade, nº 25, p. 2; nº 28, p. 1; nº 36, p. 1; O Funchalense Liberal, nº 1, pp. 2/3; nº 6, pp. 1/3; Correio da Madeira, nº 113, pp. 1/2, nº 115, pp. 5/6, nº 119, p. 3, nº 120, p. 3; Ruppert Crooft Coock, ibidem, pp. 87/88. 570.ANTT, AF, nº 240, fols. 73vº, 89vº. 571.Idem, nº 240, fol. 72vº.

572.ANTT, PJRFF, nº 406, fol. 173. 573.Idem; veja-se O Funchalense Liberal, nº 6, pp. 2/3, nº 7, pp. 2/3. 574.ARM, RGCMF, T. 16, fols 67vº/69vº. 575.O Defensor da Liberdade, nº 28, p. 1, nº 35, p. 1. 576.ANTT, PJRFF, nº 467, fol. 75vº. 577.Idem, nº 407, fol. 189vº. 578.Idem, ibidem, pp. 88/89.

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trato dos vinhos. Mas a partir de então tivemos medidas proibitivas, justificadas pela produção e boa qualidade da aguardente da terra e dos novos alambiques de destilação contínua em funcionamento. O ano de 1821 marca a viragem do domínio do grande comércio das aguardentes de França, sob a alçada dos ingleses, para o dos proprietários de fábricas de destilação contínua, interessadas no comércio dos vinhos do Norte por meio da destilação, no que certamente se nota um predomínio dos proprietários do Norte em relação aos do Sul. A partir daqui processou-se uma momentânea alteração das rotas da aguardente, via Gibraltar ou Inglaterra, lesando de modo directo os ingleses, a parte mais interessada no negócio. Sucederam-se reclamações, mas iam longe os tempos áureos de 1640 e 1810. A única possibilidade de furar o embargo estava no contrabando. Foi necessário reconverter os velhos circuitos do negócio. Mas enquanto isto sucedia a crise dos anos 50 e 70 fê-los arrumar as malas e partir. Em 1821 temos referência de três alambiques de destilação contínua, em notícias que colhemos no Patriota Funchalense579. O de Frederico Castro Novo funcionava aos Moinhos, destilando vinhos de toda a ilha580. Em 1822581 junta-se a fábrica de destilação de Severiano Alberto de Freitas Ferraz com dois custosos e aperfeiçoados destinatários, aonde se tem fabricado a mais perfeita aguardente. A Junta tomou a iniciativa de solicitar a João Francisco de Oliveira, encarregado de negócios em França, um alambique de destilação contínua582. Em Fevereiro de 1823523 o Tesoureiro geral solicitou dois alambiques no valor de 5000 francos (80 mil

579.TERTULIANO TORÍBIO DE FREITAS VERGOLINO: Anuncia aos respeitáveis patrícios seus Tertuliano Toríbio de Freitas Vergolino, que faz aguardente de vinho e de borra, toda capaz para concerto de vinho; de borra para ser boa J preparada e restilhada e sendo de vinho extraída do quilate que seu dono quiser, pela primeira destilação feita de vinho por 2.600 reis cada pipa de 23 almudes, entregando a produção com quilate subido e as aguardentes fracas correspondentes, pipa de barra com 23 almudes primeira destilação por 2.600 reis e pelo preparativo e destilar 100 reis por cada galão que estufar, tudo feito sem impostura [Patriota Funchalense, nº 36, p. 4.]. PEDRO PETRELI SANTA CRUZ: Pedro Petreli Santa Cruz, estabelecido com uma fábrica de destilar aguardente, no sítio dos Moinhos, notícia ao público, que ele faz aguardente de diversas qualidades, fazendo uma de que já se pode fazer uso para os vinhos novos e outra que passados alguns meses serve para se deitar em vinhos, sem que se possa conhecer se foi feita na terra ou em França [Idem, nº 36, p. 4.]. Pedro Petreli Santa Cruz, tendo observado que com alguma inconsideração se escreveu contra as aguardentes fabricadas nesta província supondo-se-lhes imperfeições, que na verdade não existem, faz saber ao respeitável público desta mesma província, que na sua fábrica, nos Moinhos, ele tem dado provas no curto espaço de três meses de que na sua fábrica faz aguardentes de melhor qualidade de que muita de que se importa neste país, tendo oferecido mostras delas sem imperfeições, que conservadas alguns meses aparecem como as de melhor lote que vem de França, o que tendo feito patente ao soberano congresso, por tais tem sido acreditadas, mostrando assim a este público que a chegada do alambique, que mandou vir de França pelo seu colega Frederico Castro Novo, proporcionará a este país de fazer aguardente superior à estrangeira. Anunciando o exposto, ele assegura aos habitantes desta província que em breve lhe demonstrará sua asserção de um modo que se convençam os que falavam teoricamente e que não duvida auxiliar as observações dos que duvidam de uma verdade hoje conhecida de mor parte dos inteligentes desta cidade [Idem, nº 57, p. 4.]. FREDERICO CASTRO NOVO: Faz-se saber aos proprietários e negociantes, que achando-se estabelecidos os alambiques da última invenção, que trouxe de França Frederico Castro Novo e tendo-se já fervido neles vinhos, ainda os da mais baixa qualidade, se verifica conseguir-se a mais perfeita aguardente, que rivaliza bom a melhor de França, o que promete a esta província as maiores vantagens, portanto os que quiseram ferver vinhos, se dirigirão aos seus directores, que pelo resultado se lisonjeiam convencê-los do que tão francamente lhes anunciam [Idem, nº 81, p. 4.]. Frederico Castro Novo, desejando manifestar ao respeitável público o vivo interesse que torna sem ser-lhe útil, fazer prosperar o estabelecimento que vem de procurar a esta província com os novos destinatários d’aguardente faz saber que o preço dos cozimentos ficam reduzidos a 100 reis por almude de vinho, assegurando que as grandes despesas, que deve fazer, são o forte motivo de não poder prestar-se mais comodamente, como sinceramente desejava [ Idem, nº 85, p. 4.]. 581.Cf. Pregador Imparcial da Verdade, no.44, 47, 49 [1827] 582.RGCMF, T. 15, fols. 24/26. 583.ANTT, PJRFF, nº 759, pp. 442/443.

reis). Em Abril584 recomendava-se o envio via Londres, que talvez seja menos dispendioso, mais seguro. No mesmo ano Severiano de Freitas Ferraz construiu um alambique de destilação contínua baseado no modelo francês, contribuindo para isso as viagens que havia feito a França para se instruir na química de destilação de vinhos. O Patriota Funchalense não deixou passar a oportunidade, fazendo o elogio das potencialidades da região e dos sábios que abarcava: não é a primeira vez que temos visto engenhosas produções de mecânicas de um hábil e patrício, Severiano de Freitas Ferraz, e por isso faltaríamos aos deveres de patriota, se deixássemos de anunciar aos nossos concidadãos um novo alambique de vapor, que aquele cidadão acaba de construir. A simplicidade do seu mecanismo o faz um tanto mais recomendável e a perfeição do espírito que destila, parece-nos superior ao que temos visto. Seria para desejar que vista a determinação do soberano congresso em mandar vir alambiques de França para se venderem ou arrendarem por conta da Fazenda Nacional nesta província, se fizesse aqui a despesa com a mão-de-obra, concedendo-se a quem teve tanto trabalho o empréstimo de 500.000 réis para o fabrico daquele alambique em ponto grande, pois só deste modo se anima a indústria 584.Idem, nº 759, p. 445.

Garrafas de vinho velho. Pereira de Oliveira, Ldª


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e remunera os trabalhos de quem deseja ser útil à Pátria585. Perante a situação a Junta a 2 de Setembro586 anulou o pedido de um alambique, justificando a atitude pelo facto de Severiano de Freitas Ferraz ter inventado um maquinismo de alambique de destilação contínua, no qual afiançava melhores resultados do que o dos últimos inventos de França existentes neste país. A posição estava baseada no parecer dos químicos e engenheiros da Sociedade Funchalense dos Amigos das Artes e das Ciências que mostraram os mais lisonjeiros resultados do mesmo invento. A Junta logo emprestou 600.000 reis para a construção do novo alambique, animando ao mesmo tempo a continuação de novos inventos. Em 1826587 o mesmo inventor possuía a melhor fábrica de destilação da ilha que, segundo informação de 1827588, se compunha de cinco perfeitos aparelhos de destilação contínua habilmente dirigidos, e com toda a vigilância e exactidão. As leis proibitivas, a partir de 1822, foram um incentivo à proliferação das fábricas de destilação589. Os alambiques expandiram-se rapidamente no perímetro da cidade e meio rural onde o vinho assumia importância. É o caso da vertente Norte, onde se produziam os vinhos apropriados para a destilação. Em 1827, Frederico de Castro Novo tinha montada uma oficina para construção de alambiques novos ou concerto de velhos590. Já em 1851 J. J. Nóbrega591 refere para o Funchal seis caldeireiros, latoeiros e funileiros. Segundo J. Silvestre Ribeiro existiam na ilha, em meados do século XIX, treze alambiques, sendo três no Funchal, um em Santa Cruz, um em Ponta do Sol, um em Porto Moniz, um em Ponta Delgada, três em S. Vicente, dois em S. Jorge e um no Faial, que ferviam em média por ano 7 a 8000 pipas592. Em 1785, segundo G. Pery593 o número elevava-se a 15. Dos três existentes em 1821 se evoluiu de modo rápido, em cerca de 30 anos para 13, cujo número estacionou, apenas subindo em 1875 mais três. A distribuição geográfica dos alambiques pelas áreas produtoras de vinho é elucidativa. Na vertente Sul, onde se produziam os melhores vinhos e em maiores quantidades, temos apenas cinco, sendo três no Funchal e os outros dois, distribuídos em áreas onde se colhiam os mais fracos do Sul - Santa Cruz e Ponta do Sol . A vertente Norte, origem da maioria dos vinhos baixos, apresentava oito alambiques, com três em S. Vicente e dois em S. Jorge. Ambas as freguesias eram consideradas as de maior produção no Norte. A luta em prol da qualidade e boa reputação do vinho passava pela destilação dos vinhos baixos do Norte e daí a insta-

585.Idem, nº 759, pp. 442/443. 586.Nº.125, p.2 587.ANTT, PJRFF, nº 763, pp.146vº-147. 588.AHU, Madeira e Porto Santo, nº.9480 589.Defensor da Liberdade, nº.26, p.4 590.Veja-se as declarações da câmara nas representações de 1821 e 1822 e teremos uma antevisão deste movimento, ARM, RGCMF, T. 15, fols. 100vº/104, 24/26. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 99-101 591.ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 146vº/147. 592.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 9480. 593.“Apontamentos Estatísticos sobre a Cultura da Vinha na Ilha da Madeira, in Correio da Madeira, nº 114, p. 1, confirmado por J. J. Nóbrega em 1851.

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lação de fábricas de destilação contínua. A partir de finais do século XIX mudou o panorama económico da ilha com a valorização da cana-de-açúcar na agricultura, donde se passou a fabricar álcool e aguardente que passaram a ter uso local e na exportação. A disponibilidade da aguardente de cana levou à utilização no tratamento do vinho até 1967594. A situação da indústria levou o governo a estabelecer regras no sentido de disciplinar e frenar o consumo excessivo de aguardente. Em 1911 concedeu-se o monopólio do fabrico de açúcar à casa Hinton595. O consumo excessivo da aguardente levou o governo a conceder a distribuição em regime de monopólio, por 25 anos, à Companhia da Aguardente da Madeira e em 1939 fecharam-se 39 das 48 fábricas em funcionamento. Isto teve reflexos na produção vitivinícola, uma vez que conduziu à proibição de funcionamento dos alambiques para queimar as borras ou vinhos maus, passando-se a usar a aguardente de cana no tratamento do vinho. Com a criação da Junta Nacional do Vinho toda a actividade de controlo do álcool para a beneficiação do vinho passou a depender da delegação regional, passando em 1979 para o Instituto do Vinho da Madeira até 1992, altura em que foi liberalizada a venda por imposição da CEE. 594.Geografia Estatística Geral de Portugal e Colónias, Lisboa, 1875, pp. 3/9. 595.A questãso motivou aceso debate na imprensa e em folhetos avulso. Cf. Benedita Câmnara, ob. Cit., pp.168-169

Aspecto de canteiro nos armazéns da empresa Barbeitos.


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Garrafeira da MadeiraWine Company. Colecção do autor. 1979

A defesa da qualidade Ao longo dos tempos a política de defesa da qualidade do vinho da Madeira enquadra-se num plano mais vasto de salvaguarda da reputação do produto e do mercado. As questões envolventes ganham actualidade em momentos de dificuldade, como é o caso da viragem do século XVIII para o XIX, e articulam-se de acordo a conjuntura se apresenta ou não favorável. Deste modo os anos de 1818/1820, 1852 e 1872/1873 são um marco importante neste debate. O facto mais saliente da discussão é que nunca se conseguiu estabelecer um consenso sobre a situação e as soluções encontradas para debelar a crise. Para uns foi o uso imoderado das aguardentes estrangeiras, nomeadamente de França, que danou a boa reputação dos vinhos. Por isso viam na baldeação de aguardente o acto necessário e fortificador do vinho. Para outros a causa estava baldeação de vinhos dos Açores ou Canárias, ou dos vinhos fracos do Norte com os do Sul. Outros, ainda, apontavam a origem do mal no trato que se fazia com as estufas, ou a má colheita das uvas com uma vindima apressada e sem a correcta escolha. Foi em torno disto que se ateou a discussão sobre a defesa da qualidade do vinho, expressa em petições, cartas, representações, medidas proibitivas dos Governadores, Senado, Junta e em artigos de jornais a partir de 1821. Em 1822 João Pedro de Freitas Drumond de Menezes na Memória sobre Algumas Matérias Estatísticas da Província da Madeira dava conta da origem do mal que conduziu à crise vinícola na viragem do século XVIII para o XIX, apontando

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o dedo acusador à generalização da mistura dos vinhos do Norte com o do Sul e depois a baldeação com os dos Açores e Canárias. Esta nova ordem de cousas se pode atribuir a três causas principais que foram: primeira o suo de adubar os vinhos com aguardentes e de os estufar: segunda o tornarem-se os britânicos proprietários, e assim terem e comprarem vinhos em mosto; terceira, a guerra e a separação da América inglesa. Alguns especuladores por estes anos começaram a lançar nos vinhos aguardentes velhas, feitas das fezes e dos vinhos sãos da terra, chamados - de cabeça - e fazer fermentar os mesmos em pequenas estufas domésticas e ocultas, dando-lhes assim realce de velhice. Porém estes artefactos não eram fraudulentos, porque, sendo os vinhos e a aguardente de boa qualidade, se melhoravam sem perigo para o futuro. Tendo-se, porém divulgado estas manipulações, todos se quiseram aproveitar de tais interesses, e como esta boa aguardente da ilha não era bastante, se obteve do ministério licença par entrar aqui uma limitada soma de pipas de boa aguardente vinda de França; o que sendo depois ampliado, veio por fim a ser a sua admissão indefinida. Estas aguardentes imensas, não já só vindas de França, mas da Espanha e Itália, por abuso, logo passaram a ser adulteradas na sua pureza, origem e fabrico e por isso mesmo precisavam de maior quantidade e com tal natureza se ião mascarar nas perfídias estufas, já tornadas gerais e de locação, onde recebiam uma aparência temporária e insidiosa. Com este transtorno os vinhos baixos da ilha, muito principalmente os da costa do norte e os do Porto Santo, onde se principiava por então o seu cultivo, sendo baratos, tiveram preferência aos vinhos generosos da parte sul, no que os proprietários e cultivadores foram tanto mais prejudicados, quanto a plantação, cultura e colheita destes é dobradas vezes mais difícil e dispendiosa, e a sua produção mais precária. Assim se paralisou a venda dos bons vinhos da Madeira; fomos ensinar aos Açores e às Canárias a limitar-nos na fraude, ficamos sem crédito nos mercados das nações consumidoras deste nosso bom género, e ainda que por algum tempo os danos dos vinhos baixos tiveram relevantes interesses, contudo já também sentem o mal comum, pelo abandono total do nosso comércio. Tendo os ingleses a liberdade de possuir largas fazendas, ora como proprietários, ora como rendeiros, e de comprarem, além disso, muitos vinhos em mosto, não se desarranjaram o comércio e lucro dos mercadores portugueses interpostos, que compravam esses vinhos das primeiras mãos para depois os venderem aos negociantes de grosso trato, mas lhes ficou fácil a adquirirem vinhos baixos, concertados imediatamente com o novo método e de má fé, embarca-los com tanto dolo, como certo ganho, porque nada lhes importa o descrédito do país, com tanto que momentaneamente façam uma rápida fortuna, que transpõem consigo596. Em 1873 A. Rodrigues de Azevedo referia-se ao mesmo: O principal inimigo dos vinhos da Madeira foi a 596.Benedita Câmara, A Madeira e o Proteccionismo Sacarino (1895-1918), in Análise Social, vol. XXXIIII (145), 1978, pp.117143.

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adulteração ou falsificação deles, feita não só no estrangeiro, mas ate na ilha: aqui temperando-os com aguardentes baixas e lotando-os com os da costa do norte, ou com os das ilhas dos Açores, e fora, contrafazendo-os de outros diversos vinhos597. A da defesa da qualidade e reputação do vinho é apresentada em três níveis. Primeiro, a regulamentação da cultura e apanha da uva, evitando os inconvenientes e maus hábitos da vindima. Já quanto ao trato deveria actuar-se com o recurso às aguardentes e ao envelhecimento nas estufas. E, finalmente, as práticas fraudulentas de baldeação interna, do vinho do Norte com o do Sul, e externa com vinhos dos Açores e Canárias. A tudo isto as autoridades atacaram com soluções, compartilhando a opinião corrente da crise do comércio do vinho e, desconhecendo que o problema se situava na contracção do mercado consumidor do vinho que ocorreu entre em finais do século XVIII e princípios do século XIX. Na década de sessenta do século XIX a falta de vinho de uvas era compensada com o recurso ao chamado vinho de peros. As vinhas estavam ao abandono e muitos dos 185 lagares existentes usavam-se para o seu fabrico. Uma pipa de falso Madeira, com 420 litros, feita com vinho de peros, era resultado da mistura de 2 decalitros de vinho genuíno598. O vinho tanto se consumia na ilha, como era exportado para Lisboa e estrangeiro. Em 1863 a produção de vinho de peros foi de 476 pipas, sendo superior à do genuíno. No século XX continuou a cruzada em favor da qualidade do vinho Madeira. Em 1910 reclamava-se sobre o uso da calda de açúcar no tratamento do vinho, que se havia tornado pratica corrente. No sentido de salvaguardar a qualidade do vinho criou-se em 1911 um laboratório para análises ao mesmo tempo que em 1924 se regulamentou a forma de uso do álcool. Nos anos trinta sector continuava em crise e o governo do Estado Novo interveio de forma clara no sentido de encontrar uma saída. O próprio Salazar, em carta ao Dr. João Abel de Freitas, de 23 de Maio de 1935, tinha ideias claras sobre a situação e da forma de actuar no sentido da defesa da qualidade da cultura e reabilitação das exportações: Nós não podemos, a mexer no assunto, continuar permitindo que a exportação seja aviltada em qualidade com os produtores directos, com o fabrico artificial, e com os vinhos por envelhecer. A solução razoável está em permitir apenas o produtor directo em certas zonas onde outra vide se não dá, mas só para consumo interno, e ir obrigando à enxertia os demais, por dois meios: 1º pagando por melhor preço o vinho de castas nacionais; 2º fixando a percentagem decrescente num período talvez de 5 anos em que o vinho exportado podia conter vinho do produtor directo. […] Deviam convencer-se aí de uma coisa Madeira bom, não há em parte nenhuma do mundo; mas Madeira ordinário encontra-se por toda a parte, sem ser necessário ir daí. Estou convencido de que a reforma acabará por impor-se, tam lógica é, mas não sei se se aguardará a oportunidade de haver mais convencidos da sua benemerência. 597.Citado por D. João da Câmara Leme, Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estufas..., pp. 26/27. 598.A. R. Azevedo, Anotações às Saudades da Terra, p. 718.

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Corsa de transporte de vinho. Postal antigo.

Proibição da baldeação interna

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No momento que antecedeu o fim das guerras que marcaram a viragem do século XVIII, a procura incessante do vinho da Madeira conduziu à acelaração do processo de envelhecimento dos vinhos e o recurso a meios capazes de dar resposta à cada vez maior procura nos mercados internacionais. Das práticas correntes, já em pleno século XVIII, quando o vinho da ilha não satisfazia a procura, avançou-se para a defraudação da qualidade. O vinho mau do Norte, por ser mais barato e disponível em maior quantidade, substituía os bons e mais caros das castas seleccionadas do Sul. A prática era lucrativa para os proprietários nortenhos, mas em momentos de superprodução ou sub-consumo tornava-se lesiva para a economia insulana, atingindo os proprietários do Sul. O problema foi enfrentado com medidas punitivas severas. Primeiro procurou-se impedir a prática da baldeação dos do Norte com os do Sul, passando-se, depois, pela proibição das cerejeiras pretas, cujo suco se usava na coloração do vinho falsificado, e à proibição da mistura com os do Faial e Canárias. Na primeira metade do século XVIII era comum a baldeação e trato do vinho do Norte com o suco de cereja de modo a adquirir a coloração característica dos do Sul. Os homens de negócio, vendo-se lesados, clamaram em 1724599 ao Senado da Câmara. No entanto, só a 9 de Janeiro de 1737600, por postura da Câmara se atendeu 599.Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.90


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à situação interditando a entrada dos do Norte nas partes do Sul. Como Norte da ilha entendia-se toda a área compreendida entre o Porto da Cruz e a Ponta do Pargo. Em 1768 o Governador e Capitão General, Sá Pereira procurava corresponder ao pedido de Martinho de Mello e Castro para o envio de 4 pipas de vinho puro para Londres, temendo de o não encontrar pelas baldeações que se faziam. Todavia estava dispoto a acabar com a situação por meio de medidas que havia posto em prática601. A postura de 1737 estava já no esquecimento. Aliás, em papel de Francisco Teodoro, homem de negócios, refere-se que a dita postura há muito tempo se não observava. Mais dizia que no Porto da Cruz, Porto Moniz, Seixal, S. Jorge, Faial existiam melhores vinhos que em algumas zonas do Sul, que seriam tão úteis para o embarque ao Brasil, gastos dos marinheiros e navios estrangeiros. Daqui resultava a necessidade de reformular a postura, apontando, por exemplo, na proibição até Abril, por ser de esse tempo a maior extractos vinhos de embarque602. Das medidas referidas por Sá Pereira no ofício de Fevereiro temos um edital em que se proibia a exportação ate Maio dos vinhos do Porto da Cruz, Faial, Arco de S. Jorge, Seixal, Porto Moniz, S. Vicente, Ponta Delgada, Santana, S. Jorge, Machico, Ponta do Pargo, Serra de Água, sendo vendidos nas tabernas locais. Quanto aos vinhos das melhores áreas, como Câmara de Lobos, Canhas, Calheta, Arco da Calheta, Prazeres, Fajã da Ovelha, proibiu-se a baldeação com os inferiores603. Em 1785/1786 o Governador e Capitão General, Diogo Pereira Forjaz Coutinho, o folgazão e amante da pompa e festas, ditou novas ordens com a regulamentação das vindimas (16 de Agosto de 1785604), a interdição da baldeação dos vinhos do Norte como os do Sul (13 de Setembro de 1785) e, por fim, bando geral de 16 de Agosto de 1786 estabelecendo medidas quanto à má cultura, vindima, falsificação e adulteração do vinho. De acordo com a ordem de 13 de Setembro de 1785605 a má reputação e e perda de qualidade do vinho não se deveu à prática corrente da cultura e vindima, mas sim às fraudes que costumam usar algumas pessoas que por uma particular, ainda que aparente utilidade, sacrificam o público interesse do seu próprio país, introduzindo nas freguesias aonde os vinhos delas são bem reputados, outros de diferentes freguesias e de inferior qualidade para assim fazerem mais avultada a sua partida e a venderem todo como vinho superior e daquela freguesia, onde dissimulada e clandestinamente o tem introduzido, fazendo-lhe algum concerto e mistura, com que à primeira vista se equivoca com o bom vinho daquela freguesia que tem melhor reputação, seguindo-se deste engano que o negociante que o compra para o embarcar, não lhe faz o benefício e concerto que lhe faria se soubesse de cuja ele era, por cuja razão o dito vinho, ou se lhe arruína no armazém, ou se acaso se conserva bom ate o tempo de embarque abate a tal sorte na viagem, que quando chega ao porto do seu destino, já se manifesta ser de inferior qualidade... Sendo elas 601.Idem, nº 291. 602.Idem, nº 289. 603.Idem, nº 293. 604.Idem, nº 290, vide os docs. nº 346, 310/311. 605.Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 34-35

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Preparação de embarque. Empresa de vinhos Barbeitos.

(as fraudes) as que sem dúvida tem concorrido em grande parte para se haver diminuído aquele artigo e bem merecida reputação do vinho da Madeira, em cujo género consiste todo o comércio e conservação desta ilha.... Por isso, determinouse que o vinho das freguesias do Norte ficasse encascado até Janeiro. Caso os lavradores quisessem transporta-lo à cidade deveriam fazê-lo debaixo de uma guia passada pelo Juiz do lugar, ou Comandante do distrito. Ao mesmo tempo ordenava-se aos oficiais da guerra e da justiça uma maior vigilância, impedindo o transporte durante a noite. A medida era lesiva dos interesses dos proprietários locais, colonos, uma vez que nas freguesias não havia adegas ou as que haviam eram poucas, vendose obrigados a vender o vinho em mosto ou a conduzi-lo às lojas no Funchal. No ano imediato por Bando Geral de 16 de Agosto606, dá-se conta da prática de fraudes, falsificações e a premência das medidas enunciadas: Porquanto me consta que os vinhos em quintais desta cidade, vilas e lugares se costumam clandestinamente introduzir nos campos circunvizinhos, ou para os misturarem com os vinhos deles, ou para os compradores se persuadam que são ali produzidos e por tais os paguem; que semelhantemente e para o mesmo doloso fim se introduzem vinhos da costa do norte em algumas freguesias da do sul, e que com o mesmo intento muitas pessoas compram vinhos em mosto nos altos das freguesias da costa do norte em algumas freguesias da do sul, e com o mesmo intuito muitas pessoas compram vinhos em mosto nos altos das freguesias de toda a costa sul e os trazem e vem fazer cozer para as freguesias mais perto do mar a fim de os lotarem com vinhos de melhores portos, onde os inculcarem por vinhos produzidos nelas... 606.ARM, GC, nº 70, fols. 33vº/35vº, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 36-38


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(...) Proíbo a todas as pessoas de qualquer qualidade e condição que sejam que não embarcarem para fora da ilha os próprios vinhos, que os possam lotar, ou misturar de sorte alguma, ou sejão em mosto, ou depois de cozidos; nem do norte nem do sul, nem os de umas com os de outras freguesias, nem ainda os dos bons, com os de inferiores postos da mesma. Antes contrariamente ordeno aos mesmos encubadores do vinho que cozam e beneficiem os de diferentes qualidades em cascos separados e quando os venderem não ocultem os compradores os verdadeiros sítios, onde eles foram produzidos, pois esta sorte é que se mantêm e nutre a boafé que deve haver nos contratos, se tranquilizem as consciências e se pode restaurar o arruinado crédito do comércio desta ilha. Mais se interditava a entrada dos vinhos do Norte no Sul, antes do mês de Maio. Todos os infractores eram punidos com a pena de apreensão do vinho em causa, sendo uma terça parte do produto ou da condenação pecuniária para o denunciante. O edital de 27 de Fevereiro de 1788607 proibiu a plantação de cerejeiras pretas e ordenou o arranque ou enxertia das existentes, de modo a evitar o abuso na coloração aos vinhos defraudados com o suco da cereja. Os infractores seriam punidos com multa de 6000 reis. Assim, atendeu-se a uma representação dos comerciantes de vinho que se havia manifestado contra tal prática608. A 6 de Março609, um restrito grupo de proprietários, entre os quais Manuel Acciauoli e o Cónego Pedro Nicolau Acciauolli, solicitaram a suspensão do edital, aduzindo os inconvenientes da aplicação. O Governador, por despacho de 13 de Março610, indeferiu a pretensão, mas o Cónego lesado teimou em transgredir a lei não permitindo o arranque ou enxertia das cerejeiras. Além disso penalizava os colonos que o fizessem. O Governador ripostou com medidas severas, ordenando a prisão. O caso arrastou-se por algum tempo até que a morte do réu o encerrou611. No entanto em 1819612 o uso da cereja preta ainda se mantinha e a Câmara afirma que era uma das causas descrédito dos vinhos. A resposta do Governador, D. Diogo Forjaz Coutinho, foi imediata. Mais uma vez era necessário estabelecer a demarcação das áreas vitícolas, segundo o modelo pombalino. Sobre tão sólida base, achando-se aliás a Junta autorizada para promover o bem da agricultura em que tem o primeiro lugar importante e precioso artigo do vinho deve fazer-se uma demarcação das freguesias e sítios que dão vinho de embarque, destinados para o consumo da terra o que é inferior, porquanto o que faz sustentar em tão pequeno ponto 100.000 vassalos é o crédito, intenção do valor e inimitável generosidade do vinho Madeira, que a igualar-se pelas misturas com o mais vinho da Europa, em preço e qualidade seria preciso para não morrer de fome, que S. M. mandasse despejar 2/3 desta povoação para os sertões do Brazil.

607.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 825. 608.Idem, nº 824. 609.Idem, nº 826. 610.Idem, nº 826. 611.ARM, RGCMF, T. 14, fols. 202/203vº. 612.ANTT, PJRFF, nº 942, p. 120.

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O processo de vinificação hoje Na segunda metade do século XX deu-se um salto qualitativo no processo de vinificação que permitiu apurar a qualidade do vinho Madeira e apresentar ao consumidor uma gama muito variada. O vinho Madeira continua a ser o único a integrar no processo da vinificação a beneficiação pelo calor através de estufas. Estas evoluíram nos últimos anos para uma sofisticação que permite um maior controlo do aquecimento, evitando o contacto directo com o calor. Daqui resulta um processo de vinificação típico e único. O processo de laboração do mosto abandonou o primitivo lagar e passou a fazer-se em moderna maquinaria, que separa o engaço e a grainha da polpa e casca da uva. Ganhou-se em condições e meios do processo, como na vindima e recolha da uva junto dos agricultores. Hoje todas as empresas recebem as uvas de forma a melhor controlarem o processo de vinificação e evitar os vinhos com elevado nível de acidez volátil. Para isso montaram uma rede de agentes em toda a ilha, que intervêm junto dos agricultores. Além disso eles têm a função de acompanhar o ciclo vegetativo e de controlar a maturação da uva a partir do mês de Junho. Nalgumas casas, o controlo do grau potencial, é feito de forma rigorosa através do refratómetro, durante a fase de maturaçã, dele dependendo a aceitação ou não das uvas. A medida padrão da graduação alcoólica para aceitação das uvas é de 8,5º. O incentivo à perfeita maturação é dado através do pagamento do quilograma de acordo com a graduação alcoólica. A ordem para a apanha da uva é dada pela empre-

Máquina de rotular. Colecção da empresa Henriques & Henriques. 2002


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sa, após a abertura oficial da vindima. As uvas são recolhidas pelos agentes nas freguesias rurais, sendo transportadas no mesmo dia ou na madrugada do dia imediato para a empresa. As caixas são pesadas e depois despejadas em tegões para serem sujeitas ao processo de desengace total ou parcial. A utilidade do engaço tem a ver com os níveis de taninos que se pretende atribuir ao vinho. Acontece que o facto da maioria dos engaços se apresentarem verdes conduz a elevados níveis de hexagonol, razão pela qual a preferência vai quase sempre para o desengace total. Retirado o engaço procede-se ao esmagamento. A maioria das empresas de vinho Madeira fez nos últimos anos um notável esforço de aperfeiçoamento tecnológico do sistema de recepção das uvas, apostando na mecanização do processo de pesagem, desengace, esmagamento, prensagem e fermentação. A maquinaria de vinificação está presente e todos os recipientes são de aço inoxidável. A partir daqui inicia-se o processo de vinificação que pode ser feito de bica aberta, de bica aberta com maceração e curtimenta. Vejamos de forma sucinta com se processam as três técnicas aduzidas. Na vinificação de bica aberta a massa vínica, depois da adição de SO2, o primeiro prensado é encubado, enquanto que no processo com maceração a massa vínica vai a encubar por um curto período, procedendo-se depois à separação do mosto. O último processo diferencia-se pelo facto de só se proceder à separação do mosto após a fermentação em autovinificador ou cuba de remontagem. A fermentação é feita com o controlo de temperatura para poder preservar-se os aromas da casta. A fermentação a frio evita que o vinho perda álcool, aromas florais e estrato seco. O processo é travado com a adição de álcool vínico com 96º, dependendo as quantidades do tipo de vinho que se pretende fazer e da casta em causa. Terminada a fermentação o vinho das uvas de castas nobres é desencubado e passa para o armazém, sendo depositado em lotes de vindima nas pipas onde vai envelhecer sobre o olhar atento dos enólogos ou técnicos de vinificação. Os vinhos das castas autorizadas, como a Tinta negra mole, ficam a aguardar pela estufagem por um período de três meses, passando depois para o canteiro, onde estagiam um determinado de tempo até terem autorização de embarque. O processo é controlado pelo Instituto do Vinho da Madeira, que procede à selagem das estufas e ao fim de três meses vistoria a abertura. A partir da estufagem o vinho está pronto a estagiar nos cascos de carvalho. Para isso procede-se ao estabelecimento dos lotes pretendidos que são encaminhados para os cascos nos armazéns. A qualquer momento, de acordo com a procura do mercado, a casa procede ao engarrafamento do vinho. O acto é precedido de diversas operações e da autorização expressa do IVM que controla a qualidade dos lotes. Concedida a autorização procede-se à preparação do engarrafamento através da estabilização e filtragem das impurezas. No fim do processo de engarrafamento são tiradas duas garrafas de foprma aleatória para posterior análise no IVM.

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Garrafas com vinho velho. Pereira d’Oliveiras, Ldª

Os diversos tipos de vinho madeira O vinho Madeira apresenta diversas tipologias, de acordo com as castas, o grau de doçura ou a forma de tratamento. No passado a única distinção existente era entre o vinho das diversas castas, Acontece que nos últimos anos a Vinificação sofreu diversos ajustamentos de acordo com as exigências do mercado. Surgiu, por exemplo, o vinho Madeira elaborado à base de Tinta negra-mole, para os jovens e de preço mais acessível. Além disso generalizou-se a prática de loteamento e a implementação de práticas comuns noutras regiões, como é o caso do Solera do Jerez. No sentido de corresponder às exigências de um publico consumidor muito variado ampliou-se a gama de vinhos de venda ao público. Actualmente estão consagradas para o Vinho da Madeira diversas menções tradicionais. O Madeira que surge à venda distingue-se por diversas características. Quanto às castas temos: Sercial (ou Cerceal), Boal (ou Boal), Verdelho, Malvasia, Terrantez. Já de acordo com a qualidade podem ser definidos como: Garrafeira (ou Frasqueira) Superior, Reserva, Velho (Old, Vieux), Reserva Velha, Muito Velho (Old Reserve, Very Old), Reserve Especial (Special Reserve), Seleccionado (Selected, Choice, Finest), Solera, Canteiro (Vinho canteiro ou Vinho de Canteiro), Colheita (datada). A indicação da idade está estabelecida para 3 anos, 5 anos, 10 anos, 15 anos, 20 anos. Ainda poderá diferenciar-se de acordo com o grau de doçura [Seco (Dry), Meio-Seco (Medium-Dry), Meio-Doce (Medium Sweet), Doce (Sweet) ], quanto à cor [Muito Pálido (Extra Pâle, e Light Pâle), Pálido (Pâle), Dourado (Golden), Meio escuro (Medium Dark), Escuro (Dark)], ou quanto ao corpo e sabor [Leve (Light Bodied), Encorpado (Full ou Full Bodied), Fino (Fine), Macio (Soft), Aveludado (Luscioun), Amadurecido (Mellow)]. De acordo com a legislação em vigor existem vários tipos de vinho Madeira com

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características e idades diferentes: 1. Vintage. É um vinho feito de uma casta nobre numa colheita especial que deve permanecer o mínimo de 20 anos encascado e 2 anos engarrafado. Particulares e empresas dispõe de colecções variadas deste tipo de vinho, sendo a mais famosa de 1815, engarrafado em 1840 por John Blandy. É do vinho que Napoleão Bonaparte nunca bebeu no exílio em Santa Helena, sendo conhecido como Waterloo Madeira. 2. Reserve. Vinho feito com castas nobres ou autorizadas, cujo conteúdo deverá equivaler a 85% da casta referida no rótulo. Só pode ser vendido com cinco anos de envelhecimento. Apenas com o sercial o período de amadurecimento é alargado para sete anos. 3. Special reserve. O que o diferencia do anterior é o facto de ter dez anos. 4. Extra reserve. Embora não seja considerada oficialmente, a designação é atribuída ao vinho com o mínimo de 15 anos. 5. Finest/Selected/Choice. Usa apenas nome de Madeira associado à situação e às indicações de Dry, Medium, Sweet. É um vinho com três anos, feito com base na tinta negra mole. 6. Rainwater. O Verdelho com apenas três anos. Diz-se que o uso do nome derivou da dificuldade dos ingleses em pronunciarem a palavra Verdelho. É normalmente um vinho de cor dourada com muito boa qualidade. 7. Soleras. É um vinho datado que ao longo dos anos recebe a adição de outros, sendo apenas 10% ao ano. O solera é um sistema de vinificação e não um tipo de vinho, sendo o nome originário do Sherry. Dos soleras mais famosos podemos referir: Blandy 1792, Malmsey solera 1808 de Cossart Gordon’s. Nos últimos anos do século XX apostou-se na preparação e engarrafamento de vinho de mesa, no sentido de atender a uma franja de mercado propiciada pelo turismo e de atenuar as importações de vinho de mesa, uma vez que a região consome mais de cinco milhões de litros. Para isso utilizam-se as castas tradicionais, como a Tinta Negra-mole e Verdelho, ou então socorre-se de outras castas europeias, mais apropriadas e usuais no fabrico de vinho de mesa, como é o caso da Cabernet Sauvignon, Merlot, Arnsburguer, Chardonnay. A entrada em funcionamento da Adega de S. Vicente deu um incentivo à produção de vinho de mesa, pois colocou à disposição dos viticultores os meios técnicos técnicos para tal. Actualmente existem cinco rótulos de vinho de mesa VQPRD (Vinho de Qualidade Produzida em Região Demarcada, regulamentado por portaria 86/99M), com uma produção não superior a 100.000 litros, quando o consumo local de vinhos de mesa é de quatro milhões de litros. Duas empresas, tradicionalmente ligadas ao vinho Madeira, Madeira Wine Company Lda., e Justino & Henriques, têm apostado no fabrico de vinho de mesa. A Madeira Wine lançou em 1991 o vinho Atlantis rose. A partir de 1999 com a abertura ao público da Adega Cooperativa de S. Vicente, os viticultores podem engarrafar a produção para vinho de mesa, estão neste caso, João Mendes, Ricardo França, Luís Gomes Araújo e Crispim Morgado.

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Garrafas de vinho para exportação. Museu de Photographia Vicentes.

Dos Vinhos Na Madeira e Porto Santo produzem-se muitas qualidades de vinho, algumas das quais tem grande importância no comércio, e outras só são próprias para o consumo interno das ilhas, ou para serem destilados nas fábricas de aguardente. Os vinhos mais conhecidos pelas suas qualidades são: O Boal - vinho branco delicado e maduro, de alto preço; podendo ser consumido quer quando novo, quer quando velho. Este vinho é extraído das uvas do mesmo nome. O Sercial - vinho seco, de cor alambreada, “aromático e de fino perfume”.E este vinho só adquire todas as boas qualidades no fim de anos. É produzido pela variedade de vinha “sercial”, que descrevemos. O Malvasia - vinho de cor alambreada, muito apreciado pelo seu “perfume” e comparável ao Tokai; mas que a ilha da Madeira produz só em pequena quantidade, e em lugares muito pouco elevados. A Tinta - vinho tinto bastante agradável, e que se assemelha no sabor e qualidade ao Porto. A fermentação fazendo-se em contacto com o engaço, dá a este vinho o sabor adstringente. O Madeira - vinho, de todos o mais conhecido nos mercados da Europa e da América, branco alambreadoa; quando amadurecido pelo tempo, de um delicado perfume. Este vinho é o resultado da mistura de uvas das variedades Verdelho, Tinta, Tarrantés, Bastardo e Boal. O Vinho pálido - vinho de pouco valor feito de “verdelho”, e clarificado. Para a fabricação dos vinhos mais preciosos da Madeira faz-se escolha dos cachos de uvas melhores, logo depois da vindima. As uvas levadas ao lagar, são espremidas, primeiro por homens que as pisam, depois pela pressão da vara, e o líquido assim tirado delas é levado em odres para os cascos onde fermenta por quatro, ou cinco semanas pouco mais ou menos. Quando terminada esta fermentação faz-se o trasfego do vinho


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Garrafas de Vinho Madeira pintadas à mão. Artur Barrros & Sousa, Ldª

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Armazém de Vinhos Barbeito, Ldª 2003

para outras vasilhas; sendo esta operação acompanhada de uma clarificação, e do adicionamento de uma quantidade considerável de aguardente. Depois desta operação que começa para os vinhos essa lenta transformação, que os enriquece e torna preciosos pelas suas qualidades. Para fazer adquirir rapidamente ao vinho propriedades que só o tempo lhe pode dar convenientemente, introduziu-se na Madeira, na época da guerra que agitou a Europa nos primeiros anos deste século, e em que os vinhos daquela ilha foram muito procurados, o uso de sujeitar vinhos novos durante meses a uma alta temperatura (60º ou mais) dentro de estufas que para isso se construíram. O número das estufas foi, desde essa época, progressivamente crescendo, e em 1850 havia quarenta e duas estufas em actividade. Os vinhos porém, assim trabalhados, não chegam segundo a opinião dos homens entendidos na matéria, a adquirir as boas qualidades do vinho velho da Madeira, antes adquirem às vezes um sabor pouco agradável, e o seu aparecimento nos mercados estrangeiros tem contribuído para o descrédito dos vinhos da ilha. CORVO, João Andrade, Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto Santo: Memória I - Memória sobre a Mangra ou Doença das Vinhas nas Ilhas, apresentada à Academia de Ciências na sessão de 3 de Fevereiro

Os melhores vinhos da Madeira são produzidos nas freguesias de Câmara de Lobos, São Martinho e São Pedro, nas partes mais baixas de Santo António, no Estreito de Câmara de Lobos, Campanário, são Roque e são Gonçalo. As partes mais altas das últimas cinco freguesias produzem apenas vinhos de segunda e terceira qualidade. Os melhores Malvasia e Sercial são da Fajã dos Padres no sopé do Cabo Girão e do Paul e Jardim do Mar. As parras de Malvasia são as melhores para suportar um enxerto. A melhor vinha para plantar no sul é a Verdelho, obtida tanto do norte como do Curral das Freiras.

HARCOURT, Edward Vernon, A Sketch of Madeira…., London, 1851

Há alguns anos, os vinhos da Madeira caíram em descrédito e circunstâncias especiais foram motivo suficiente para esta mudança de opinião e gosto entre aqueles que em tempos muito tinham defendido a produção na ilha. Isto porque durante o longo período da guerra que terminou em 1814, a procura do vinho por navios que por cá passavam era enorme, de modo que todas as qualidades superiores foram rapidamente vendidas. Assim, as quantidades que restavam nas adegas eram apenas de vinhos inferiores do norte que têm a reputação ou má fama de serem excessivamente ácidos e, para além disso, se revelarem muito mais pobres - de facto, de um modo geral, de uma qualidade bastante inferior. No entanto, os proprietários não conseguiam resistir à tentação de se aproveitar da oportunidade que lhes foi dada de fornecer de imediato aqueles que encomendavam vinho a 70 L. ou 80 L. por pipa, não obstante ser vinho de 20 L. por pipa todo o que lhes restava. Tal era, na realidade, o seu valor real. Eles recorreram então a meios artificiais para ultrapassar tanto quanto possível a aspereza de sabor e a já mencionada acidez destes vinhos. Para este fim, foram introduzidos os fornos (estufas), de modo que, mantendo o vinho num lugar fechado e restrito - talvez a uma temperatura de cem graus - ele poderia adquirir uma maturação prematura e falsa e adquirir uma enganadora aparência de idade. Geralmente pensa-se que este processo forçado tem como efeito deteriorar o verdadeiro sabor natural de todos os vinhos. E é mais do que suspeito que, desde a altura em que foi experimentado pela primeira vez, tem sido aplicado alternadamente a vinhos de todas as classes. Nenhum cuidado ou conduta posterior restitui ao vinho o sabor genuíno quando ele foi assim prejudicado e afectado. Pessoas que percebem do assunto consideram a temperatura do forno ou “estufa” se mais gradualmente aplicada, se continuasse por mais tempo e com uma moderação mais sensata, podia resultar de modo benéfico e produzir resultados como os que uma viagem às índias Orientais e Ocidentais se julga geralmente produzir, o que é normalmente considerado um método excelente de melhorar o vinho, conduzindo-o a um estado de alta perfeição. Alguns escritores afirmam que, em consequência do modo pelo qual vinhos inferiores são alterados em estufas, estes adquirem um sabor seco a fumo o que nunca consegue ser


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Verdelho

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Tinta Negra Mole Uvas da Casta Malvasia. Colecção do autor. 2002

posteriormente erradicado. Destas qualidades de vinhos exportam-se anualmente grandes quantidades para Hamburgo onde, depois de submetidas a um processo que as faz parecer muito a “Hock”, são vendidas como tal. É presume-se que uma parte considerável desta imitação de “Hock” é enviada para o mercado Britânico. Quanto aos vinhos produzidos ao longo da costa sul da Madeira, considera-se que são raramente e se possível equiparados em delicadeza e sabor, aroma e pureza e suavidade a qualquer outro vinho. Quanto às uvas e vinhos principais da ilha, as uvas nunca são exportadas e uma grande parte dos vinhos é, na realidade, muito pouco conhecida fora do país. WORTLEY, E. S., A Visit to Portugal and Madeira, London, 1854

Verdelho - É um bom vinho branco, abundantemente produzido da uva amarela esverdeada com esse nome. A uva Moscatel produz um vinho doce de sabor forte do qual apenas uma pequena quantidade é feita por se julgar que é inferior ao Moscatel de Portugal. Da uva Bastardo, preta e redonda, faz-se um vinho com o mesmo nome. Madeira - o vinho principal da ilha, resulta de uma variedade de uvas escuras ou levemente coloridas, misturadas no lagar, embora a maior parte do fruto consista na escura uva Tinta e na pálida uva Verdelho. Quando novo, possui geralmente uma suave cor vermelha clara mas esta tonalidade desaparece gradualmente quando o vinho se torna maduro, adquirindo uma brilhante cor amarela âmbar. Supõe-se que este vinho melhora com uma viagem às índias Orientais ou Ocidentais e é consequentemente classificado no mercado de Londres como “Madeira das índias Orientais ou Ocidentais”; aquele que não é enviado numa viagem é chamado “London Particular”. JONHSON, J., Madeira its Climate and Scenery, London, 1885.

Malvasia - Um vinho levemente colorido, feito da “Malvasia Cândida”, uma grande uva oval, de uma rica cor dourada quando madura que cresce em compridos cachos bastante finos, os quais permanecem nas parreiras um mês depois da outras uvas terem sido colhidas, de modo que as suas uvas contêm uma quantidade extraordinária de açúcar. Os melhores vinhos deste tipo são produzidos na Fazenda dos Padres que antigamente pertencia aos Jesuítas e no Paul do Mar, ambos a oeste do Funchal. A safra é, no entanto, incerta pois a flor seca facilmente e a produção frequentemente reduzida ou mesmo nula. Por este motivo, bem como por causa das suas características muito ricas, o malvasia considerado o mais valioso dos vinhos da Madeira. Boal - Um vinho suave e delicado, feito de uma linda uva redonda amarela-clara, com cerca do mesmo tamanho que um pequeno berlinde. Tem que ser colhida assim que amadurece, caso contrário murcha e produz pouco sumo. O vinho possui uma qualidade peculiarmente delicada e rica, apresenta um aroma muito forte e é um vinho esplêndido tanto novo como velho. JONHSON, J., Madeira its Climate and Scenery, London, 1885.

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Uvas das castas Sercial e tinta negra mole. Colecção do autor. 2002

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Sercial - Um vinho seco ligeiramente colorido, com forte aroma e sabor, produzido da vinha “Riessling” trazida da região do Reno. As redondas uvas brancas que são cultivadas principalmente no Paul do Mar, crescem em densos cachos, este vinho não pode ser usado antes de ter oito anos. É então considerado pelos conhecedores como o melhor e mais saudável de todos os vinhos da Madeira. O vinho novo é extremamente desagradável ao gosto; e a própria uva é incomestível, tanto que até as lagartixas não lhe tocam. Tinta ou Borgonha da Madeira - Um vinho escuro de sabor delicado, feito da pequena e preta uva de Borgonha. Deve a sua cor vermelha às cascas que permanecem no vinho durante o processo da fermentação, o que lhe dá a propriedade adstringente do Porto. O Tinta é geralmente utilizado durante o primeiro ou segundo ano. Depois desse período, perde gradualmente algum do seu refinado aroma e sabor delicado. Mas, mesmo quando envelhecido na garrafa e então com uma cor vermelha fulva, é um vinho excelente. O Tinta não deve ser confundido com o Tinto, sendo este último o nome dado a qualquer vinho vermelho de qualidade vulgar. JONHSON, J., Madeira its Climate and Scenery, London, 1885

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A defesa institucional do Vinho Madeira Hoje a defesa institucional do vinho Madeira está salvaguardada. A existência de um sector de Vinhos na Associação Comercial do Funchal, do Instituto do Vinho da Madeira, o organismo oficial que o tutela, e, por fim, da Confraria do Vinho da Madeira são os garantes e meios adequados de defesa e promoção do vinho.

V Instituto do Vinho da Madeira

A necessidade de defesa da qualidade do vinho levou à implementação de estruturas institucionais adequadas. A primeira surgiu em 1774, mas não se concretizou. Entretanto em 1900 foi criada a Real Associação Vinícola da Madeira, que durou pouco tempo. O decreto nº.23910 de 20 de Maio de 1934, que regulamentava o vinho Madeira, fala da criação do Instituto do Vinho da Madeira, um organismo coordenador das actividades em presença, orientador de toda a economia dos vinhos da Madeira, defensor da marca e da sua expansão em todos os mercados externos. A partir de 1937, com a criação da Junta Nacional do Vinho, tivemos uma delegação e só em 1979, com a regionalização do sector, foi criado o Instituto do Vinho da Madeira. Com a conquista da Autonomia Política em 1976 a Madeira passou a Região

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A. Izidro Gonçalves. Colecção Vicentes. Museu de Photographia Vicentes.


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Autónoma, dispondo de órgãos próprios, de poder. De acorco com o decreto-lei Nº 318-D/76, de 30 de Abril, que aprovou o Estatuto Provisório abriu-se a porta à adaptação das estruturas dos diversos organismos que então actuavam na região à nova realidade política administrativa. A Assembleia Regional da Madeira e o Governo Regional reconheceram a necessidade de criação de um organismo regional para o vinho. A medida era justificada pela importância histórica do produto na agricultura e economia e por se reconhecer que o sector vitivinícola atravessava uma crise que era preciso acudir e dar o tratamento adequado. Em 1979 foi decidido criar um organismo regional para o vinho que disporia de um departamento para os assuntos do açúcar e do álcool. No mesmo Diário da República de 6 de Abril de 1979, em que é publicado o decreto-lei nº 75/79, da Presidência do Conselho de Ministros e do Ministério do Comércio e Turismo (com tutela sobre a JNV e a AGA), pelo qual se transferiram para o organismo a criar na Região Autónoma da Madeira, as atribuições e competências que vinham sendo exercidas pela Junta Nacional do Vinho (JNV) e Administração-Geral do Açúcar e do Álcool (AGA), foi também publicado o Decreto Regional nº 7/79/M, que criava o Instituto do Vinho da Madeira e aprovava os estatutos. No Estatuto (art. 11) ficou expresso que o Instituto do Vinho da Madeira era um Instituto público dotado de personalidade jurídica, com autonomia administrativa e financeira e património próprio e que junto dele funcionaria um serviço para os assuntos ligados ao açúcar e ao álcool. A organização dos serviços do IVM veio a ser estabelecida pela Portaria nº 4/79, de 13 de Dezembro, da Presidência do Governo Regional. A primeira Direcção do Instituto do Vinho da Madeira tomou posse no dia 27 de Julho de 1979, sendo constituída pelo Dr. Constantino Lopes Palma no lugar de Presidente e Dr. Paulo Jorge Figueiroa França Gomes como Vice-Presidente. O primeiro Conselho Directivo foi constituído pelos membros da Direcção e os Senhores Jorge da Veiga França, representante da Mesa do Sector de Vinhos da ACIF e João Figueira César e Gilberto Fernandes Rebolo representantes da Associação de Agricultores da Madeira. A criação do Instituto do Vinho da Madeira foi um princípio dea regulamentação de tradições e práticas que careciam de enquadramento legal. Nos últimos anos, através de disposições internas e decretos produziram-se normativas no sentido de garantir a genuinidade e especificidade do Vinho da Madeira e a harmonização de acordo com a evolução tecnológica. Ao mesmo tempo redobraram as exigências quanto ao controlo dos stocks e às existências de vinhos no comércio. Daqui resultou também uma aposta na formação técnico-científica laboratorial e na Câmara de provas de acordo com o quadro da legislação vitivinícola comunitária. A primeira iniciativa do Instituto foi adequar a viticultura, vinificação e comércio aos padrões estabelecidos pela CEE. No primeiro caso salienta-se a política de reconversão da vinha com o arranque dos bacelos americanos e a substituição pelas castas tradicionais. O I.V.M teve participação activa na elaboração de vários diplomas nacionais e comunitários, dos quais se ressalva o Regulamento (CEE) n.º

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Tonéis no IVM. Colecção do autor. 2002

4252/88 do Conselho de 21 de Junho, em que ficaram salvaguardadas as especificidades para o vinho da Madeira, em especial o teor alcoólico mínimo natural de mostos, a utilização do mosto concentrado de uva rectificado e a consagração da operação de estufagem como método enológico tradicional para o envelhecimento do Vinho da Madeira. O processo havia sido consagrado no decreto-lei nº.23910 de 20 de Maio de 1934, onde se determinava que o período de estufagem deveria ser no mínimo de três meses a uma temperatura média não superior aos 50º. A denominação de origem Madeira, ou Vinho da Madeira encontra-se consagrada em inúmeros diplomas, com vista a salvaguardar no plano internacional de uma das mais antigas denominações de origem do país. Assim o uso da denominação de origem Madeira não pode ser admitido para outros países pela União Europeia dado que já no Regulamento 649/86 da Comissão se especificava estar a denominação Madeira, Madera... reservada a vinhos licorosos de Portugal.


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Confraria do Vinho da Madeira As confrarias do vinho surgiram com o intuito de irmanar todos os entusiastas e agentes do sector no sentido da defesa e exaltação do vinho. A mais antiga agremiação surgiu no século XII em Bordéus, tendo repercussão na Alemanha no século XVIII. A partir dos anos cinquenta do século XX generalizou-se a criação das confrarias nas regiões vitícolas francesas, espanholas, e italianas. Em Portugal o aparecimento é mais recente e tarda do último quartel da centúria. A Madeira, a exemplo das demais regiões vitivinícolas, passou a dispor de uma confraria para defesa e promoção do vinho Madeira. A confraria, criada a 22 de Abril de 1988, sob os auspícios do Instituto do Vinho da Madeira, tem como Cancelário-mor o Dr. Alberto João Jardim, Presidente do Governo Regional da Madeira. No presente conta com 116 confrades oriundos das mais diversas áreas da vida política e económica da região, do país e estrangeiro, de que se destacam: Sua Alteza Real o Arquiduque Carlos de Habsburgo e D. Duarte Nuno, Duque de

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Bragança. O hábito da Confraria é constituído por uma longa capa de veludo em tom cor de vinho a fazer lembrar a cor rubi do Malvasia. O chapéu em veludo preto, com plumas de avestruz de várias cores, associa os confrades aos gentis-homens e abastados mercadores do início do povoamento da Madeira. Foram eles que plantaram as primeiras vinhas e promoveram o progresso económico da ilha. A admissão de novos confrades é proposta pelos padrinhos em segredo e previamente apresentada à Chancelaria e só é tornada pública na reunião do Capítulo. A cerimónia de entronização de novos confrades faz-se em reunião do capítulo, sob a presidência do Cancelário-Mor. Aí o Confrade Padrinho apresenta o candidato ao Chanceler, valorizando os aspectos que o fazem merecedor de tal honra, nomeadamente quanto à divulgação e defesa do nome do vinho da Madeira É hábito os confrades reunirem-se todos os anos pelo São Martinho para degustar o vinho novo, honrar e defender o prestígio do velho. O momento é quase sempre aproveitado para a entronização de novos membros.

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Confraria do Vinho. Aspectos de entronização de membros. Colecção do IVV.


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Anos

ANEXO Movimento de produção de vinho (em hectolitros)

Anos

Total

Madeira

Nacional 1488 1492 1495 1497 1590 1596 1597 1614 1616 1618 1621 1622 1623 1624 1625 1626 1627 1628 1630 1631 1632 1633 1634 1635 1636 1637 1638 1640 1645 1646 1651 1655 1659 1660 1661 1882 1663 1664 1665 1666 1667 1675 1676 1689 1694 1696 1697 1698 1699 1700 1703 1721 1730 1738

Porto %

2.195 1.850 1.065 2.375 1.000 2.975 2.830 3.430 2.885 2.690 2.830 3.180 3.180 2.785 2.865 3.175 2.850 2.850 3.440 3.330 3.365 3.555 3.540 3.730 4.165 3.640 2.830 2.850 3.000 3.000 3.400 2.765 5.000 5.000 2.500 5.000 5.000 5.000 5.000 5.000 5.000 2.500 131.250 100.000 108.980 12.500 10.000 100.000 7.500 100.000 107.320 125000 70.715 85.000

Anos %

Total

Madeira

Nacional 1756 1776 1777 1778 1779 1780 1781 1782 1783 1784 1785 1786 1787 1788 1789 1790 1791 1792 1793 1794 1795 1796 1797 1798 1799 1800 1801 1802 1803 1804 1805 1806 1807 1808 1809 1810 1811 1812 1813 1814 1815 1816 1817 1818 1819 1820 1821 1822 1823 1824 1825 1826 1827 1828

Porto %

175.000 47.180 44.955 23.670 15.355 4.280 46.360 96.355 40.775 51.865 56.520 54.410 78733 38.990 66.000 89.480 68.735 70.385 65.455 92.470 86.340 56.750 100.000 140.000 150.000 154.450 175.000 135.000 125.000 115.000 120.000 110.000 135.000 135.000 57.960 85.690 162.160 155.335 99.218 58.520 20.900 50.160 58.520 75.240 76.835 71.060 62.700 43.890 37.620 41.800 53.765 48.070 45.980 37.185

Total

Madeira

Nacional

%

1829 1830 1831 1832 1833 1834 1835 1836 1837 1838 1839 1840 1841 1842 1843 1844 1845 1846 1847 1848 1849 1850 1851 1852 1853 1854 1855 1856 1857 1858 1859 1860 1861 1862 1863 1864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 1871 1872 1873 1874 1875 1876 1877 1878 1879 1880 1881 1882 1883 1884 1885 1886 1887 1888

4.218.300 2.787.800 2.908.700 3.439.000

Porto %

31.317 21.250 21.381 27.667 33.553 35.659 20.868 30.576 31.388 37.976 39.945 30.810 27.656 24.228 28.542 27.256 27.740 31.645 21.472 22.523 28.512 27.531 38.543 8.883 3.167 620 151 364 423 770 632 2.508

378.000 364.900 444.200 487.200 446.400 458.600

0,53 1,02 0,95 1,12

1.596 1.615 7.500 7.500 11.000 16.306 18.700 50.000 23.874 24.615 12.710 40.000 40.000 20.702 20.000 35.000 35.000 35.000 2.243.700 2.812.200 2.527.100 3.256.800 4.626.000 5.256.000

22.500 9.617 6.781 15.097 25.000 22.023 25.000

0,80 0,38 0,21 0,33 0,42

Anos % 1889 1890 1891 1892 1893 1894 1895 1896 1897 1898 1899 1900 1901 1902 1903 1904 1905 1906 1907 1908 1909 1910 1911 1912 1913 1914 1915 1916 1917 1918 1919 1920 1921 1922 1923 1924 1925 1926 1927 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937 1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946 1947 1948

Total

Madeira

Porto

Nacional

%

3.523.200

20.000 21.897 16.287 40.000 1,14 39.420 40.000

5.760.000 5.705.000 4.603.000 3.523.000 6.200.000 4.100.000 1.517.400 6.869.400 6.035.000 4.335.000 3.911.700 4.444.000 3.923.000 4.770.000 4.910.600 4.582.800 4.405.900 4.270.100 5.133.300 3.383.600 4.607.000 5.793.900 6.161.200 5.246.300 5.672.300 3.666.300 9.267.000 4521600 6.599.800 5.784.700 7.380.400 6.149.800 9.200.300 10.804.700 5.924.300 3.708.900 8.048.900 10.955.000 7.720.100 5.186.600 7.373.500 8.258.600 14.006.300 14.506.800 10.167.200 6.688.800 10.110.800 8.176.300

25.000 45.000 45.000 46.000 36.776 37.174 38.265 60.000 40.000 50.000 47.500 41.800 48.750 50.000 62.700 66.880 67.879 60.883 65.795 54.925 23.601

291

0,80 0,64 0,81 1,09 0,97 0,98 3,30 0,61 0,81 1,15 1,60 1,50 1,73 1,28 1,20 0,54

40.000 0,78

127.629 1,73

78.995 0,56

31.955 0,39

%


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

292

Anos

Total

Madeira

Nacional 1949 1950 1951 1852 1853 1954 1855 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979

7.926.600 8.725.200 9.489.500 5.802.200 11.736.100 12.184.700 11.336.100 10.964.500 9.576.300 8.585.000 8.924.200 11.457.800 7.419.600 15.268.000 12.979.300 13.594.500 14.749.200 8.927.800 9.739.700 11.690.400 8.081.200 11.327.600 8.834.900 8.196.000 11.086.000 13.872.500 8.773.300 9.252.800 6.586.800 6.361.900 14.078.200

Porto %

71.633 80.532 119.215 123.330 117.581 92.355 93.988 99.192 102.391 117.919 126.943 106.400 101.916 207.468 157.642 99.316 67.596 182.144 104234 143.198 86.838 113398 101629 17.341 75.726 77.460 27.451 96.725 116.755

0,75 1,39 1,02 1,01 1,04 0,84 0,98 1,16 1,15 1,03 1,71 0,70 0,79 1,53 1,07 1,11 1,56 1,26 0,98

Anos %

Total

Madeira

Nacional 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002

10.035.400 8.211.500 10.030.900 8.249.100 8.392.900 9.567.200 7.615.300

Porto %

37.702 86.111 73.097 66.892 57.071 57.821 137.818 117966 103295 105.793 77.124 100.068 92.343 59.105

0,38 1,05 0,73 0,81 0,68 0,60 1,81

60.494 60.120 58.650 44.910 66.020

0,13 0,83 0,84 0,42 1,52 0,83

FONTE: Para o Vinho do continente os dados foram recolhidos no livro de Conceição Andrade Martins, Memória do Vinho do Porto, Lisboa, 1990. Para a Madeira a origem dos números é de diversa origem.

%


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

293

Rótulo antigo. Colecção da Madeira Wine Company.

M Circuitos e mercados

O comércio depende da intervenção de múltiplos factores, propiciadores ou não, do sistema de trocas. Os produtos embora sejam justificativo e factor de vitalização das trocas comerciais, não são por si só suficientes para dar continuidade ao processo. São necessárias condições que as favoreçam, como é o caso dos meios e vias de comunicação, agentes habilitados para os diversos serviços e instrumentos de pagamento ajustados ao volume e duração de trocas. O desenvolvimento das relações comerciais é resultado de todos os condicionalismos. As operações comerciais são, ao mesmo tempo, consequência e causa do desenvolvimento da sociedade e economia insulares. O surto do comércio açucareiro condicionou a afirmação do porto e a valorização patrimonial da cidade nos séculos XV e XVI. O comércio foi desde muito cedo uma actividade que escapou ao controlo do ilhéu. O europeu estabeleceu e dominou os circuitos de troca, colocando a ilha numa posição periférica e atuando como mercado de reserva para as necessidades mercantis. A coroa, empenhada que estava no comércio monopolista, intervinha assiduamente regulamentando de forma exaustiva as actividades económicas e definindo o campo de manobra


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

dos agentes intervenientes. A constante poresença do poder régio, as intempéries, as tempestades marítimas, a peste, a pirataria e o corso foram insistentemente apontados como responsáveis pelo bloqueio dos circuitos comerciais. O comércio, bem como as demais actividades económicas, estiveram sujeitos ao controlo e regulamentação da Coroa. A isto acresce a pretensão em preservar o monopólio real do comércio de determinados produtos de certos mercados, a necessidade de assegurar abastecimento local e a imposição de um conjunto de culturas que tinham troca assegurada no mercado. A economia estruturou-se em consonância com os vectores da política expansionista europeia e as diferenças ou assimetrias resultantes da estrutura do solo, clima e posicionamento geográfico. Foi necessário definir e regulamentar as actividades económicas. As administrações, central e insular, exerceram um estrito controlo das actividades económicas. As autoridades municipais e régias intervieram na produção, processo transformador das matérias-primas, distribuição e comércio dos produtos locais e estrangeiros. A cultura da vinha e o fabrico e comércio do vinho não estivam isentos de qualquer tipo deste controlo. O vinho após o tratamento e o repouso no canteiro está pronto a exportar aos mercados consumidores da Europa, ou do mundo colonial britânico e português. Uma parte significativa seguia rumo aos destinos, por via directa ou indirecta, enquanto a restante ficava para consumo local, ou fabrico de aguardente. Segundo o testemunho de alguns estrangeiros o vinho exportado representava apenas 40% do volume total da produção. O açúcar madeirense definiu nos séculos XV e XVI uma rota que ligava a ilha aos principais mercados consumidores do Mediterrâneo e Norte da Europa. Já para o vinho não nos parece correcto falar de uma rota definida pela procura do produto. A ilha nos séculos XVIII/XIX enquadrava-se numa área atlântica de passagem, situada na confluência das várias rotas atlânticas das Índias Ocidentais e Orientais, da América, Brasil e Africa. E foi no seguimento desta posição que o vinho definiu o mercado. A Madeira, ocupando uma posição central no mundo insular atlântico, surgia em 18081 como o lugar ideal para a criação de um distrito jurídico, englobando os Açores e Cabo Verde, o que demonstra a posição privilegiada. Não foi só isso que condicionou o protagonismo madeirense. A confluência dos ventos alísios do NE obrigava os marinheiros que sulcavam o Atlântico a procurarem, na ida, a Madeira ou as Canárias e no regresso os Açores. A Madeira encontra-se de facto com bastante rigor na entrada da zona dos alísios do NE. (...) É que a direcção dos alisados sente-se melhor perto da Madeira, é um tronco comum que favorece pouco mais ou menos as rotas que levam da Europa à América, à África ou à Ásia. (...) A Madeira, bem situada, no âmbito da circulação intercontinental, fica numa direcção única2. É de acordo com estes parâmetros que se enquadram os circuitos de escoamento do vinho e a expansão do mercado consumidor. A inter-conexão dos circuitos comerciais do vinho alerta-nos

para as hesitações e retracção perante as mudanças das rotas, provocadas pela conjuntura europeia e colonial. A guerra da independência dos Estados Unidos da América e o consequente movimento autonomista e independentista que lhe seguiu em toda a América colonial teve efeito perverso no mercado do vinho. A viragem do século XVIII para o XIX e a primeira metade da centúria oitocentista foram os momentos importantes na afirmação do vinho Madeira no mercado internacional. O estudo dos circuitos e mercados só se torna possível se tivermos em conta o movimento interno em que se articula o transporte do vinho dos lagares ao canteiro e daí às tabernas, onde era vendido a retalho e, depois, o externo. O mercado das colónias surge numa posição destacada pelo que somos levados a afirmar que estamos perante um vinho para o colonialista do Além-Mar. O vinho da Madeira, que era um produto subsidiário da rota da prata americana, do açúcar e ouro brasileiro, dos produtos orientais, da farinha e milho americanos, tornou-se num produto de saque fácil e de escoamento imediato nos mercados coloniais. Era a contrapartida lucrativa para as naus, que evitavam o lastro carregando à passagem pela ilha vinho. Acresce, ainda, o facto da ilha ser um ponto de passagem obrigatório das embarcações inglesas que carregavam o vinho e faziam aguada. Foi a partir do mercado colonial que o vinho da Madeira adquiriu fama mundial e conquistou o mercado londrino. A evolução do mercado madeirense do vinho adequa-se à conjuntura políticoeconómica europeia e colonial. Para além da necessidade de assinalar os afrontamentos europeus ou americanos torna-se imprescindível entender qual a posição assumida pela Madeira no mundo colonial britânico. A Inglaterra com os diversos tratados, a partir do século XVII, conduziu a Madeira para a sua esfera fazendo-a assumir uma posição chave. O facto da ilha se situar no meio do Atlântico acarretou inúmeras vantagens. Por um lado transformou-se em porto de escala do tráfico oceânico. Por outro ficou à margem dos conflitos que assolaram a Europa, como a guerra de sucessão da Áustria (1740-1748), a guerra dos sete anos, a Revolução Francesa (1789) e o consequente bloqueio continental (1806). Apenas a guerra de independência dos EUA (1776-1790) teve reflexos inevitáveis na Madeira. A economia da ilha havia-se orientado para a monocultura com interesse mercantil desde finais do século XV, o que conduziu a economia para uma dependência extrema do mercado externo. Com a afirmação do vinho abriu-se o caminho para o domínio dos ingleses, que cedo passaram a controlar a circulação mercantil, tomando conta dos circuitos abastecedores de trigo e milho americano e as manufacturas europeias a troco do vinho. O total controlo da esfera mercantil fazia com que o lucro fosse elevado. A fragilidade da economia madeirense é uma evidência histórica e surge como resultado da insistente aposta num produto de exportação. O vinho passou a assumir uma posição cimeira nas exportações desde a década de setenta do século XVI. No decurso do século XVII a ilha teve de partilhar a posição com a casquinha3, mas o século

1. 2.

3.

294

AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1938. A. Silbert, Uma Encruzilhada do Atlântico Madeira (1640-1820), Funchal, 1997, pp.79-80.

Cabral do Nascimento, Documentos para a História das Capitanias da Madeira, Funchal, 1930, 13, 22; ANTT, PJRFF, nº.396, fl. 56vº, documento de 3 de Novembro de 1673 refere que o vinho e a casca são os géneros que a terra tem.

295


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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XVIII anunciou-se como a época de afirmação do vinho. A Câmara, em representação 18334, dá conta que o vinho havia sido nos séculos XVII e XVIII a única fonte de receita, dependendo dele o progresso da economia e a felicidade do povo. Vários testemunhos confirmam a situação. Em 1669 o cônsul francês dizia que o negócio principal desta ilha consiste em vinhos 5. A posição é reforçada em 17226, afirmando-se que o negócio não consistia mais que em vinhos e aguardentes. Em 17777 o vinho era a principal e total riqueza da ilha, produzindo-se entre 109 e 112 mil pipas anualmente, mas tal ainda não faz equilíbrio vantajoso à terra, por depender esta da introdução de tudo quanto necessitava para a sua subsistência indispensável e por isso excede a exportação. Em 1768 James Cook8 não hesita em afirmar que o único artigo de comércio que a Madeira produz é o vinho. Em 1777 o vinho continua a ser a grande riqueza da ilha, mas mesmo assim as 112 mil pipas não faziam o equilíbrio vantajoso à terra, por depender esta da introdução de tudo quanto necessita para a sua subsistência indispensável e por isso excede a exportação 9. Entre 1779/1821 os documentos consultados destacam o predomínio da cultura da vinha e a exclusividade do comércio do vinho nas trocas comerciais, actuando como única moeda. O panorama monetário da ilha era muito deficitário, socorrendo-se das patacas espanholas10. Em 1779 discorria-se, a propósito: Esta ilha que se compreende em 18 léguas de extensão, tem por habitantes mil almas sem excepção de sexo ou idade, que habitam nas rampas dos montes e se alimentam pela maior parte de inhames, batatas, ou semilhas e alguns legumes; o género principal do seu comércio é o vinho, que faz todo o seu tráfico, depois que o aumento excessivo do seu valor em um tempo de prosperidade lhe fez totalmente abandonar a manufactura do açúcar, que servia infinitivamente a nutrir o ramo da casca, hoje quasi extinto... Semeiam alguns dos grãos de primeira necessidade, como trigo, milho, cevada, centeio, etc., porém, em tal quantidade, que não chega para a sustentação da ilha a mais de três ou quatro meses e morrerão de fome sem os socorros de fora11.

Em 1782 os comerciantes queixavam-se do desaparecimento da casquinha e dos barcos que a procuravam, sendo substituída pelo cultivo das vinhas em que os lavradores sentião mais lucro12. Perante isto a Madeira não tinha com que acenar aos navios senão o copo de vinho. Tudo o que se necessitava era trazido pelos navios estrangeiros, que juntavam o comércio de importação de manufacturas e comestíveis com a exportação de vinho. Em 1786 a produção cerealífera local cifrava-se em 5.093 moios, que apenas davam para sustento da população durante 4 meses, o que obrigava a importação entre 1783 e 1786 de 9.386 moios de cereais e uma média anual de 13.870 barris de farinha13. Daqui resulta a situação deficitária do comércio da ilha em razão da diferença entre as entradas e as saídas e do vinho ser a única moeda de troca, segundo se dizia em 179914. A situação foi, ainda, agravada pela existência de uma troca desigual, como é referido em 1811: O vinho é decisivamente a principal produção da ilha de Madeira e o único ramo do seu comércio que está por assim dizer restringido a certo número de casas inglesas, que trazendo calculado o gasto anual do sustento diário d’aquela povoação conservam sempre em altos preços os alimentos de primeira necessidade, ficando-lhes continuamente devedores o proprietário e o colono. Tudo isto porque a Madeira não tinha com que acenar aos navios que por aí passavam ou demandavam, senão um copo de vinho, o resto que necessitava para o seu viver quotidiano e era trazido pelos navios estrangeiros, que juntavam o útil ao agradável ao juntarem um comércio de importação de manufacturas e comestíveis, como de exportação de vinho. Perante tais condições a balança de pagamentos com a Inglaterra foi sempre deficitária, resultando um saldo a favor dos ingleses de 140,867 libras:

296

4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

ARM, RGCMF, t.17, fols. 60vº-62. A. Silbert, ibidem, p. 93 Idem, t. 8, fol. 14. ANTT, PJRFF, nº 411, pp. 32/3. “Relação da Viagem feita à Volta do Mundo…”, Heraldo da Madeira, nº.463, de 9 de Março de 1906. Ibidem. A. Silbert, ibidem, pp.86-87; AHU, Madeira e Porto Santo, nº 251, 1119, 1087. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 518. Temos ainda outras informações semelhantes doutros documentos. Em 1811 O vinho é decisivamente a principal produção da ilha da Madeira e o único ramo do seu comércio, que está por assi dizer restringido a certo número de casas, que trazendo calculado o gasto anual do sustento diário d’aquela povoação conservam sempre em altos preços os alimentos de primeira necessidade, ficando-lhes continuadamente devedores o proprietário e o colono [Idem, nº 3007.]. em 1819 A agricultura consiste em vinhos, mas a ilha que só tem este género de exportação, a que seus habitantes se entregam todos pela certeza do lucro, abandonam o essencial, importam todos os outros géneros. Embora a ilha se fortifique e se defenda de qualquer ataque, à viva força, porque não pode resistir a um bloqueio, visto que de tudo carece[ Idem, nº 4625.]. O vinho é o único género abundante que produz esta ilha e faz toda a sua riqueza é a moeda que mais gira como equivalente do mais que importa para sustento de seus habitantes alimentados unicamente do seu produto sem recurso de nenhuma outra produção que possa contrapesar os males da introdução de outras bebidas capazes de adulterar os vinhos bons de embarque ou paralisar a venda dos baixos nas tabernas que desta forma não vendidas, se exportam com descrédito dos legais de embarque [ ANTT, PJRFF, nº 963, fol. 85vº-86.]. E em 1821 A Madeira é uma província de precária subsistência e não produz grão que chegue para consumo de dois meses e os outros vegetais fructosos apenas farão subsistência para mais de um mês, de maneira, que o sustento de 8 para 9 meses lhe é importado. Ela não tem fabrica, nem produção alguma outra filha da natureza, ou de arte que socorra a esta e as outras precisões, além, dos seus vinhos generosos [ ARM, RGCMF, t. 15, fols. 100vº-104.].

COMÉRCIO DA MADEIRA COM A INGLATERRA.1699-1783 Anos Importações Exportações Balanço a favor dos ingleses 1699-1711 2,608.8.7 14,464.5.8 11,855.17.1 1712-1730 4,055.13.4 58,195.12.3 54,140.1.1 1731-1751 4,191.13.9 19,093.19.7 14,002.2.10 1766-1779 4,354.2.4 23,312.14.8 18,958.11.10 1780 2,612.5.4 51,907.15.5 49,295.10.1 1781 2,433.8.2 24,000.9.10 21,567.7.8 1782 33,867.7.6 50,256.13.2 46,389.5.8 1783 3,303.18.10 26,919.8.9 23,615.9.11 FONTE: BNL, Secção de Reservados, nº. 219, 29.

Aos estrangeiros, nomeadamente aos ingleses e americanos estava reservado o comércio de importação e distribuição por grosso de víveres. Antes da independência da América a Madeira recebia da Inglaterra manufacturas, artigos de luxo e farinhas, e do outro lado do Atlântico as farinhas e madeira para pipas. O inglês J. Banger tinha em finais do século XVIII o privilégio do negócio das farinhas americanas, mas em 1795 com a crise de fome o Erário Régio procurou contrariar a situ-

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ação15. Em 1822, a casa de J. H. March, cônsul americano, era acusada por Casado Giraldes de ser detentora do monopólio das farinhas16. A questão deu azo a acesa polémica nas colunas de o Patriota Funchalense17. J. J. Sousa, reportando-se ao primeiro caso, refere: O caso deste mercador é apenas sintomático do que vimos afirmando sobre as condições da produção local neste período. A incapacidade de manter o abastecimento interno levava a Madeira a procurá-lo nos mercados que podiam compensatoriamente consumir a sua produção vinícola, ou então de modo menos durável em regiões nacionais, sobretudo, nas épocas de urgência, muito frequentes. Então os Açores e a metrópole ou Cabo Verde passam, particularmente o primeiro e o último, a um plano expressivo. Mas igualmente certos territórios estrangeiros, marginais ao grande quadro em que se processam as relações comerciais da Madeira, vão então ganhar uma funcionalidade nele, como a Berbéria e as ilhas Canárias. Todo este sistema de relações é dominado, mesmo regionalmente, por uma influente burguesia estrangeira, inglesa sobretudo, que se apoia em condições muito vantajosas (controle dos mercados, capitais e transportes). Centro destas condições, o circuito comercial em que entrava a ilha tornava-se importante e denso quando se tratava das relações com o estrangeiro, nem sempre autónomas, antes pelo contrário, das próprias necessidades do trânsito atlântico desses navios que encontravam no Funchal um bom porto de escala. Em condições mais precárias mantêm-se as relações com as áreas nacionais, nelas participando altivamente mercadores e armadores locais, que, jogando com um certo espírito xenófobo constituem uma ligeira concorrência à estrangeira. Tornar-se-á particularmente activa depois da revolução americana, mas nunca conseguirá destronar os elementos ingleses18.

Movimento interno Por movimento interno do vinho entende-se o transporte do mosto do lagar às adegas dos proprietários e comerciantes, bem como a condução das adegas às estufas, às fábricas de destilação e, finalmente, às tabernas para venda a retalho. Para podermos entender a forma como isto aconteceu devemos ter em conta as possibilidades de comunicação entre os diversos distritos vitícolas e o centro de escoamento interno e externo. A situação das vias de comunicação terrestres ou marítimas é importante na avaliação de todo o processo. 12 . 13. 14. 15. 16. 17. 18.

ARM, Governo Civil, 597, fls.2vº-3, 18 de Maio de 1782. J.J. de Sousa, ibidem, p. 164. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1102. Idem, ibidem, fols. 167/172. Patriota Funchalense, nº 41, p. 4. Ibidem, nº 45, p. 1, nº 47; pp. 1/3; nº 50, p. 1. João José de Sousa, O Movimento do Porto do Funchal..., pp.118-119

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Vias de contacto A configuração geográfica da ilha não facilitava a circulação interior e, tão pouco, entre as áreas costeiras a partir do mar. Segundo Orlando Ribeiro19 o relevo foi um forte entrave às comunicações internas. Os obstáculos naturais foram uma das principais causas de entorpecimento da agricultura e da cultura do vinho em regiões de acesso difícil. A forma de aproveitamento do solo foi irregular, acontecendo no sentido do litoral para o interior e do Sul para o Norte. O mar que rodeia a ilha por todos os lados foi a via de contacto mais utilizada e vantajosa nos últimos quinhentos anos20. Apenas na segunda metade do século XX, com o incremento da viação motorizada e o delineamento de um plano de estradas, estamos perante o domínio total das vias terrestres sobre as marítimas. O processo autonómico acelerou a afirmação da rede viárias, esbatendo as distâncias e aproximando o mundo rural do Funchal. O sistema de transportes marítimos da ilha é apresentado por A. Loureiro21 no estudo que fez sobre os portos e ancoradouros da ilha. Em todo o perímetro da ilha da Madeira, em reentrâncias, abrem-se numerosos portos, ou simples desembarcadouros, que, não se dedicando ao comércio exterior da ilha tem contudo grande importância para a vida e comodidades dos povos, não só nas relações com a capital do distrito e seu comércio, mas também nas recíprocas relações entre si, porque, com a acidentarão e as irregularidades orográficas que apresenta a ilha, as suas comunicações terrestres são difíceis e demoradas e o problema da sua viação ordinária não é fácil de resolver e está ainda para demora22. Aqui destacam-se os portos e desembarcadouros de Machico, Santa Cruz, Porto Novo, Caniço, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Porto Moniz, Calheta, Paul do Mar, Seixal, S. Vicente, Ponta Delgada, S. Jorge, Faial e Porto da Cruz23. Em finais do século XIX ocorreu uma profunda transformação na navegação de cabotagem. Em simultâneo com a implantação da máquina a vapor tivemos o aparecimento dos serviços de cabotagem da Casa Blandy Bros & Cº. e Empreza Funchalense de Cabotagem. Em 1893 o serviço de cabotagem com o Norte era assegurado pela Empreza Insulana, que assegurava três ligações semanais a Ponta Delgada. As vias de acesso aos portos costeiros ou de comunicação interna nas freguesias eram muito complicadas e difíceis, fazendo depender a circulação das mercadorias da capacidade de carga do homem e dos animais. O Governador e Capitão General José António Sá Pereira empenhou-se na construção de pontes e estradas. Não havia além disso naquela ilha caminhos alguns por onde sem um evidente perigo de 19. 20.

21. 22. 23.

A Ilha da Madeira até Meados do Século XX. Estudo Geográfico, Lisboa, 1985, pp. 17-26. Cf. Artur Teodoro de Matos, Transportes e Comunicações em Portugal, Açores e Madeira (1750-1850), Ponta Delgada, 1980; Álvaro Vieira Simões, Transportes na Madeira, Funchal, 1983; João Adriano Ribeiro. Ilha da Madeira. Roteiro Histórico-marítimo, Funchal, sd. A. Loureiro, Os Portos de Portugal e Ilhas Adjacentes, Lisboa, 1910, pp. 110/157. Idem, ibidem, pp. 112/3. Idem, ibidem, pp. 122/150; E. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. II, pp. 804/20.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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vida de podesse passar de uma para outras freguesias e ainda sair da cidade mais de meia légua para o que concorria a quasi inacessível fragosidade de montes e vales em que consiste a sua superfície. Não haviam as pontes necessárias para a passagem além das muitas ribeiras caudalosas, que principalmente no Inverno fazem horror, por entre os referidos montes. Finalmente era quasi impossível a comunicação da capital com as vilas e lugares de toda a ilha que não fosse unicamente pelo mar, que no Inverno é bravíssimo. Mas o zelo, o desvelo, o cuidado do dito governador em persuadir aos povos esta grande importância e procurar todos os meios, cálculos e arbítrios para tão útil e necessário objecto, fez que sem violência, antes com satisfação se comunicassem as freguesias do norte com as do sul, onde está a capital da ilha e umas com outras vilas e freguesias por estradas, e montes que fez construir quanto era possível24. Em 181325 o Governador Luís Beltrão de Gouveia, em ofício ao Conde das Galveias, referia que falta de estradas contribuiu para o entorpecimento da política de relançamento da agricultura e desenvolvimento da ilha: ... Toda a cultura desta ilha é, mais ou menos activa na razão da facilidade, ou dificuldade dos caminhos, não uso do termo estradas, porque não existem; tanto que os terrenos ficam na distância de meia légua das povoações maiores, ou de maior distância desta cidade, os caminhos, ou são difíceis, ou mais longos, pelos rodeios ou a cabos, assim sucede à cultura;... Impossibilita-se pela dificuldade dos caminhos e dos transportes, havendo apenas, estreitas e perigosas veredas que os habitantes atraveçam conduzindo às costas pequenos pesos, pela impossibilidade de os levarem maiores e assim mesmo com o risco de vida, como muitas vezes acontece, morrendo precipitados (...). Por tudo isto tornava-se premente o relançamento da rede viária, a reparação das pontes e estradas molestadas pelo único meio de transporte usado, a carroça, através de uma taxa sobre os carreiros. (...) Aqui não há carros, há um equivalente, vem a ser um madeiro, que é conduzido de rastos, preso ao jugo dos bois, a que dão o nome de corça. E este veículo conduzem pipas de vinho, pedras, paus de todo o tamanho, pesos extraordinários, destruindo por este meio bárbaro as poucas calçadas e pontes que existem. Em 1819 a situação da rede viária da ilha era desastrosa. O Governador e Capitão General Sebastião Xavier Botelho, na visita que fez para verificar o estado das fortificações, estradas e pontes, é peremptório no retrato da situação: Enquanto às estradas só se podem chamar assim aquelas, que saem da cidade até a distância de uma légua, quando muito, o mais são estreitos carris e caminhos ladeando rochas, ou abertos a prumo nas montanhas, de cujo cimo descem com enorme declive para as ribeiras, e sobem destas com a mesma direcção até o cume de outra montanha, o que acontece progressivamente desde que se sai, até que se entra na cidade, segundo a configuração da ilha. Estes caminhos além de estreitíssimos, são do maior peri-

go, porque todos estão desamparados e sem parapeito assim da parte do mar, como dos despenhadeiros e enormes cavidades, que as montanhas formam e abrem entre si. Além disto faltam pontes em algumas destas ribeiras e por isso no Inverno há muitas vezes embaraçada a comunicação dos povos entre si e com a capital, são aplicados fora de tempos os remédios espirituais, falta-se ao sacrifício da missa, seguemse outros males, que nascem de não haver comunicação. A estrada chamada central que começa no alto da serra, cujo projecto foi bem concebido e que pode vir a ser útil, não é por agora, pelo mau estado de todos os outros caminhos, que vem ter a ela, pela falta de pontes, e porque não se escolheu, a meu ver o melhor método na abertura o seguimento deste caminho. Todos os terrenos, que estão ao largo da costa, desde o sudoeste pelo norte, até essueste da ilha e em uma légua de comprido do mar para a serra, são terrenos abençoados capazes de toda a cultura e de outras de que as nossas terras de Portugal não são susceptíveis. Há delas, como as de S. Vicente e Ponta Delgada, em que é grande a fertilidade e seus habitantes de nada carecem, mas por falta de pontes e caminhos não fornecem a capital, fabricam somente para seu consumo e deixam inculto grande parte dos terrenos, que cultivados faria rica e independente esta fertilíssima colonia26. O problema não foi resolvido e a situação da rede viária perdurou, pelo que em 182427 o Governador D. Manuel de Portugal e Castro testemunhava, de novo, o estado miserável da viação madeirense, notando que sem estradas que comuniquem e facilitem as conduções não pode haver comércio. A solução dependia do lançamento duma imposição em dinheiro e mão-de-obra para a construção de estradas. A reparação e construção das pontes e estradas estavam a cargo dos Governadores e Capitães Generais que as entregavam aos militares. Posteriormente o encargo passou para a alçada dos Inspectores de Agricultura e Estradas. No século XIX os militares e civis construíam e reparavam as estradas, por meio de uma prestação anual de cinco dias de serviço, que deu lugar, mais tarde, ao imposto de roda de caminho. A tributação já existia em 1800, altura em que foi taxado a 1.000 reis, sendo depois regulamentada em 1804. Embora extinta em 1824 retornou com José Silvestre Ribeiro28. Foi ele que iniciou o verdadeiro plano da rede viária da ilha, que só atingiu a plenitude no século XXI. O século XX foi o momento da aposta na rede viária. A presença em 1904 do primeiro automóvel no Funchal foi o prenúncio da mudança. D. João da Câmara Leme apresentou um plano revolucionário para os transportes na ilha baseado na ideia dos cabos aéreos de transporte29 que nunca mereceu a atenção dos políticos.

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24. 25.

AHU, Madeira e Porto Santo, nº 4846, vide ainda ARM, RGCMF, t. 12, fols. 59-70. Idem, nº 3281.

26. 27. 28. 29.

Idem, nº 4697. Idem, nº 7685. Uma Época Administrativa (...), vol. II, pp. 367/418. Uma Crise Agrícola, pp. 143/5.

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Embarque de vinho no Porto Santo. Foto José Pereira da costa. Anos sessenta do século XX

Movimento do vinho no mercado madeirense O mosto era transportado do lagar às adegas em barris de dois almudes, ou odres sobre os ombros dos homens, porque a escabrosidade dos caminhos faz impraticáveis outras conduções30 e, uma vez que faltavam no campo as adegas e vasilhame, era conduzido à cidade, onde fermentava, sendo depois submetido ao trato nas adegas dos senhorios ou comerciantes. Alguns proprietários dispunham de adegas locais. Nas áreas junto à costa, servidas de pequenos portos ou ancoradouros, existiam armazéns de recolha do mosto. É o caso do Porto da Cruz e da Ponta Delgada, onde ainda estão de pé. As lojas de vinho dos grandes proprietários ou senhorios, de comerciantes, para onde era canalizada a totalidade (ou quase) do vinho produzido estavam situadas no Funchal. Como dizia em 1910 Adolfo Loureiro, o Funchal era porto de um movimento marítimo considerável, toda a vida comercial e industrial da ilha se concentrou na sua capital, sendo a cidade... o centro do comércio da ilha e do arquipéla30.

ANTT, PJRFF, nº 994, pp. 9/11.

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go. No Funchal se recebem todos os géneros consumidos na ilha vindos do estrangeiro e da mesma cidade se exportam todos os ricos produtos da ilha, que se espalham por todo o mundo, e alguns dos quais são de fama universal, como o seu precioso vinho31. As autoridades estabeleceram desde 1785 normas sobre o movimento interno de vinhos para impedir a baldeação dos vinhos baixos com os superiores e pôr cobro à defraudação. Até Maio impedia-se a entrada dos vinhos baixos do Norte até Maio, para travar o uso nas trocas com o exterior, ficando para destilação ou consumo nas tabernas da ilha. Note-se que o período de exportação do vinho tinha uma maior incidência nos meses de Dezembro a Abril, altura de passagem das naus. A condução dos vinhos aos armazéns apresentava ainda outro tipo de problemas. Aos entraves naturais juntavam-se os inconvenientes do roubo, baldeação e adulteração dos vinhos do norte da ilha. Os barqueiros de Machico e Santa Cruz tinham por hábito furtar algum do vinho que transportavam, preenchendo o espaço vazio com água. A solução não estava nas medidas proibitivas ou na aplicação do código comercial, mas antes, segundo o articulista de o Correio da Madeira em 1849, na conjugação de esforços de proprietários e comerciantes para que através de uma associação se construísse um barco de lote de 50 a 60 pipas com coberta e escotilha fechada e comandada por um mestre e não por um barqueiro (vilão) que sob a responsabilidade dos capitães dos navios e pago mensalmente, possa bem dirigir este comércio de transporte (...). Por esta forma nem o vinho será roubado, nem adulterado, como o não é nos navios do alto mar e a navegação correrá menos riscos de alojamento32. Outro problema, não menos importante, ligado à circulação interna das pipas de vinho resultava do modo como era feita a tiragem das pipas no calhau do porto do Funchal. Os proprietários e comerciantes em requerimento ao Senado da Câmara de 181833, reclamavam que a descarga do vinho no porto desta cidade vindo de toda a costa desta ilha e Porto Santo é feita com tanta desordem que tem chegado ao ponto de se juntarem pipas de vinho, trocarem-se umas por outras, demoras insofríveis, furtos pelos boeiros, tudo nascido da errata prática actual de que cada boeiro largar (como) lhe parece o vinho em tantos sítios quantos sãos os boeiros que o tiram e o que mais é fica às ordens do boeiro tirador pela convenção que entre si tem feito de não pegar um nas pipas que outro tirou e nesta certeza largam o serviço do calhau e vão fazer outro pela cidade e às vezes depois de noite chegam com as pipas às lojas de seus donos. Perante a situação apontavam um conjunto de medidas capazes de minorar os efeitos daí decorrentes. O arrais recebe o vinho em terra, deve também entregá-lo em terra a seu dono, livro da enchente do mar, acima do camalhão, todo junto em ruma (sic) ou a monte e até em um golpe de vista entregá-lo a seu dono. Pela tiragem de cada pipa deve 31. 32. 33.

Op. cit., pp. 453/3. Nº 3, p. 3. ARM, RGCMF, t. 14, fols. 177vº-187.

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Borracheiros. século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.

Borracheiros. Aguarelas do século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.

pagar a cada boeiro 50 réis, que há-de carregar em cima do frete para receber de seu dono e pagar ao boeiro, que também interessa em receber seu salário de uma só mão esta taxa é conforme ao estilo geral, que se pratica onde há serviços invariáveis, como é nas alfândegas, guindastes, e cabrestantes entregue daquele modo. O dono do vinho das suas pipas pode mandá-lo recolher para onde quiser e por quem quiser, sempre à vontade das partes, visto não poder haver taxa certa. Deste modo o dono do vinho o vigia melhor, estando todo junto e com mais brevidade o vê nas lojas, porque já o boeiro pelo facto da tiragem não tem às suas ordens e sabendo que seu dono o dá ao primeiro que chegar, todos acodem, como correm logo sem meterem em meio outro serviço, como costumavam fazer em prejuízo daquele primeiro trabalho, pelo que acrescendo a pena de cadeia contra os que invertem a boa ordem, sendo executor o alcaide do mar, a custo do delinquente. Em Maio de 182334, com representação da Câmara de 20 de Março, facilitou-se a entrada de vinhos nos diversos cais da ilha e permitiu-se a inspecção no calhau, evitando a despesa do carreto de passagem pela casa da alfândega. As medidas de 1785/1786 e a regulamentação do Subsídio Literário de 1772 estipulavam o uso de guias de embarque, de forma a ter-se a certificar-se a proveniência do vinho e saber-se se havia pago ou não os direitos. As guias de embarque acompanhavam as pipas de vinho que circulavam nos portos costeiros da ilha, como testemunha documento de 181835.

34. 35.

ANTT, AF, nº 240, fol. 83vº. Idem, nº 239, fols. 115-115Vº.

Imposição do vinho O lançamento da imposição do vinho foi determinado em 148436 por D. Manuel, a exemplo do que se fazia com o real do vinho e da água no reino, ficando a receita para nobrecimento e cousas do conçelho37. A imposição enquadra-se no conjunto de impostos camarários indirectos, uma vez que só a partir do século XVII passou para o controlo do Erário Régio e a receita a ser repartida38. O imposto incidia sobre o vinho vendido nas tavernas. Aqui onerava-se as transacções locais entre o comerciante ou produtor e o taberneiro. Todos os que vendessem vinhos deveriam comunicar ao vereador que o dito carrego tiverem pera se lhe ser esprito o preço a que o puser e lhe ser lançada a vara pera se saber quantos almudes tem (…). Do mesmo modo o mercador fará saber aos oficiais que o carrego teverem, todos os vinhos que trouxer e dos que vender atavernados será obrigado a fazer a saber ante do abrir pera lhe ser esprito o preço e lhe ser lançada a vara (...). Os infractores aplicava-se a pena de 1.000 reais e mais lhe será logo leva36. 37. 38.

ARM, RGCMF, t. 1, fols. 2247-254, publ.in AHM, vol.XV, p.150; Idem, t. 1, fols. 22-22vº, publ.in AHM, vol.XV, p.150-161 Idem, t. 1, fols. 30-30vº, publ.in AHM, vol.XV, pp.227-228; Idem, t. 1, fols. 91vº-92º, publ.in AHM, vol.XV, p.235: Idem, t. 1, fols. 49-53vº, publ.in AHM, vol.XV, pp.282; Tenha-se em conta que esta designação é específica da Madeira, pois no continente chamava-se real da água e depois real do vinho. Parece existir uma grande confusão sobre este imposto. Assim a ideia da imposição como imposto local surge em Paulo Jorge da Silva Fernandes, Elites e Finanças municipais em Montemor-o-Novo do antigo regime à regeneração (1816-1851), Montemor-o-Novo, 1999, p.140; o mesmo sucede na obra dirigida por César de Oliveira, História dos Municípios e do poder local (dos finais da Idade Média à União Europeia), Lisboa, 1995, pp. 220-221. Fátima Freitas Gomes [Machico a Vila e o Termo. Formas do Exercício do Poder Municipal (Fins do Século XVII a 1750), Funchal, 2002, p.149] considera como um imposto régio. Na verdade, ele começou por ser um imposto municipal que passou para a alçada do Erário Régio a partir de 6 de Março de 1635.


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do em cheo todo ho que a dita pipa ou toda ou quanto avia de render a dita renda (...). O taverneiro que baixasse o preço do vinho deveria participar ao escrivão e varejador para a imposição da quantia ser arrecadada pelo novo preço, ou seja uma canada de vinho por almude de 13 canadas por canto a recebe em dinheiro do povo que asy do dito vinho bebe, enquanto que do vinho vendido no torno deveria ser retirada uma canada ou um almude de 13 canadas. A eficácia na arrecadação do novo direito só foi possível de conseguir com o recurso a um quadro administrativo. O condutor de vinhos para as tabernas tinha o encargo de fazer chegar o vinho às tabernas, mediante manifestos. O cargo foi criado para tornar o controlo da circulação dos vinhos mais eficaz39. O varejador percorria as tabernas ou casas onde se vendesse vinho e lançava a vara em todas as vasilhas com vinho, dando conta ao escrivão da quantidade disponível, o preço de venda e o dia em que procedeu ao varejamento40. O recebedor tinha a obrigação de proceder ao recebimento e arrecadação do dinheiro, dispondo de um livro onde assentava a conta para dela ser deduzida a soma a pagar e dar notícia aos oficiais da câmara. O recebedor e o escrivão da câmara percorriam a cidade três vezes por semana tomando nota das ementas das pipas abertas para venda nas tabernas A imposição do vinho de 1568 foi lançada em 2 canadas por almude de 14 canadas ou a 7ª parte, o que corresponde a 14,3%, enquanto no continente o vinho pagava 7 reais do real de água41. Com o novo regimento de 162842 a imposição foi aumentada para 2 canadas e a pena aos infractores passou para 2.000 reais. O vereador mais velho da câmara era o juiz da imposição, com alçada sobre o feitor e escrivão da câmara. Os vereadores tinham ainda o encargo de fazer o assento dos preços, do dinheiro que recebiam, a relação das pipas vazias e os almudes restantes nas já abertas que se encerravam. A partir daqui estabeleciam-se os direitos pagos aos quartéis: Estes vinhateiros vem pagar cada três meses o seu quarter e cada pipa que tem vinte e seis almudes se lhe dá de quebra dois almudes, e dos vinte e quatro almudes se lhes faz conta a duas canadas que pagão de cada almude à razão do preço como se vende, e assim pagam as outras pessoas que tem uma pipa, e duas são obrigadas em acabando de vender seus vinhos de vir logo pagar as imposições...43. A aplicação das penas aos infractores foi alvo de atropelos, acontecendo muitas vezes que o juiz julgava indevidamente os taberneiros. Um foi incriminado em 178044 porque na sua taverna estava medindo e vendendo vinhos sem insígnia de juiz. A câmara discordou da pena e multa, ilibando o réu e obrigando o juiz a in-

demniza-lo pelos danos causados. Ao mesmo tempo retirou a licença de ofício, ao juiz, e proibiu-o de exercer todo e qualquer cargo público. Não estamos perante um episódio único, uma vez que foram constantes as provisões e cartas a recomendar o cuidado a ter na arrecadação para a evitar-se ocultações e desvios. Em 171545 foi proibida a venda a retalho pelos mercadores nos armazéns contra a forma do regimento, porque sem ramo nem licença o vendiam como lhes parecia, punindo-se os infractores com penas pesadas: Hei por bem que nenhum mercador de vinhos, lavrador ou outra qualquer pessoa natural, estrangeira, de qualquer qualidade ou condição que seja possa vender vinhos nesta cidade em sua casa ou em armazém a almudes, potes, canadas, copos ou por outra qualquer medida senão atavernado publicamente, com ramo à porta..., senão intende as casas do porto, porque as exceptuo para poderem vender como sempre se praticou. E somente seja lícito as sobreditas pessoas venderem uma ou mais pipas de vinho em que com aquela obrigação usada e o vendedor fazer presente na mesa, a venda, e também o comprador para com legalidade se prover como se estila. E achando-se semelhante venda pelo miúdo de qualquer qualidade que seja, o vendedor incorra na pena de perdimento do vinho que lhe for achado na casa, armazéns e com dois meses de prisão irremicivelmente e não poderá usar mais em tempo algum de meter nem vender vinho nesta cidade. E que seja lícito a qualquer pessoa poder denunciar deste delito. E ainda em segredo, e haverá a terça parte o denunciante (...). A rainha em carta de 1782 às Câmaras da cidade do Funchal46 e da vila da Calheta47, ordenou a aplicação do regimento que regulamentavam a arrecadação da imposição, proibindo a venda de vinhos a retalho fora das tabernas com ramo à porta, dando recomendações sobre a forma de evitar o dolo. Na que dirigiu ao Funchal refere que os desvios, e ocultações acometidos na arrecadação da imposição do vinho, sem que tenham sido bastantes os regimentos, posturas e alvarás, que tem coibido se não venda vinho por quaisquer medidas legais ou arbitrárias, sem se pagar a imposição, procedendo manifestos aos rendeiros ou administradores, cometendo os vendedores o dolo conhecido...Daí a necessidade de serem aplicadas as leis reais que proíbem semelhantes descaminhos, não consentindo que pessoa de qualquer qualidade venda vinho, sem o manifesto e o pagamento da imposição. Na segunda carta alude-se ao pouco cuidado, com que na câmara deixa inprevenidas estas distracções em ofensa não só das posturas dela e da câmara desta cidade, nos alvarás (...). Ao mesmo tempo ordenava-se que o vereador mais velho deveria proceder a devassa contra os infractores, o que na realidade sucedeu, como dá conta o Administrador da imposição do vinho da Calheta em carta de 12 de Abril de 1783. A medida foi suspensa a 7 de Maio48. Perante tantas recomendações e ordens repressivas seria de esperar o cumpri-

39 . Alberto Vieira, História do vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.21, provimento de condutor de vinhos de 1 de Outubro de 1774. 40 . José Pereira da Costa, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Século XV, Funchal, 1995, pp.98-99. Cf. Alberto Vieira, História do vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.16-18, regimento da imposição do vinho de 26 de Março de 1545. 41. Considerações Apresentadas à Comissão Encarregada do Estudo Económico da Madeira, Funchal, 1888, p. 9. 42. ARM, RGCMF, t. 5, fols. 111vº-114. 43. Idem, t. 5, fol. 172vº. 44. Idem, t. 12, fols. 173vº-174.

45. 46. 47. 48.

Idem, t. 13, fols. 164vº-165. Idem, t. 13, fol. 165-166; ANTT, PJRFF, nº 760, pp. 73. ARM, RGCMF, t. 13, fol. 166; ANTT, PJRFF, nº 760, pp. 73/4. Aqui se referem as ordens de 30 de Novembro de 1640, 23 de Dezembro de 1715 e de 11 de Abril de 1776, em que tal arrecadação era regulamentada. ANTT, PJRFF, nº 758, p. 206.

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mento do que estava estabelecido. A realidade era outra, pois em 27 de Fevereiro de 180649 a Câmara do Funchal ordenava à da Calheta a obediência às ordens régias, que mais uma vez remetia para que se desfizessem algumas dúvidas surgidas. A mesma ordem foi dada em 181850 ao juiz ordinário da Câmara da Ponta do Sol em resposta a pedido de esclarecimento, aludindo-se que todo o vinho que se vende atavernado paga imposição e que todo aquele que entra para a venda e paga ainda que seja dado, trocado ou bebido pelo taverneiro. As determinações por parte do reino, da Junta ou Câmara continuaram em cartas, provisões e alvarás o que comprova que eram insuficientes para evitar o dolo, infracção, desvios e suborno. A Junta, em portaria de 183451 dava conta da introdução de vinhos nas tabernas fora da alçada do arrieiro-mor e da venda a retalho nos armazéns. Perante os factos consumados restava-lhe fazer apelo por edital52 ao juiz do povo53, juízes ordinários da Calheta54 e de Santa Cruz55, administrador da renda56 e público para que fosse posta em prática a lei de 23 de Dezembro de 1715. A acção da justiça perante os infractores não condizia com o carácter repressivo das ordens e admoestações das autoridades municipais. A maioria dos casos eram absolvidos, como sucedeu em 178057, 178358 e 183859. O procurador da Câmara do Funchal mandou cassar a licença de venda ou taverna a António Faria Camacho, no sítio do Valverde, porque por várias vezes havia defraudado o rendimento da imposição introduzido clandestinamente vinho na venda. A câmara em 183960 dizia ter intimidado o réu, aludindo as queixas que havia recebido e dando parecer desfavorável ao parecer do magistrado, pois existiam outras medidas para coibir as infracções de que se queixa este magistrado sem se recorrer a fechar a taberna, o que no meu entender é uma medida, além de pouco justa perfeitamente ineficaz, podendo o acusado obter licença em nome d’outra qualquer pessoa (…). Mas tudo ficou sem efeito. Para que a imposição fosse arrecadada na melhor forma, evitando as infracções ou dolo, foi necessário criar uma estrutura administrativa em que os agentes, encarregados da arrecadação do imposto, manifestasse interesse e empenho. A solução encontrada foi a arrematação em lanços bienais a particulares. O administrador da renda procedia à arrematação dos contratos e recebia os quartéis na altura determinada61. A arrematação do imposto nos diversos municípios passou a contar desde o 49. 50. 51. 52. 53. 54. 55. 56. 57. 58. 59. 60. 61.

ARM, RGCMF, t. 14, fol. 166vº. ANTT, PJRFF, nº 405, p. 154. Idem, nº 408, fol. 122vº. Idem, fols. 124-124vº. Idem, nº 408, fol. 123. Idem, nº 408, fols. 124vº-125. Idem, nº 408, fol. 125. Idem, fol. 123vº. ARM, RGCMF, t. 12, fols. 173vº-174. ANTT, PJRFF, nº 758, p. 206. ARM, RGCMF, t. 19, fols. 36-37. Idem, t. 19, fols. 38-38vº. ANTT, PJRFF, nº 760, p. 101; nº 406, fols. 101vº-102; nº 113vº-114; nº 458, pp. 47/8. Em 1824 temos referência à nomeação de três oficiais para este cargo: Leandro José de Almeida [Idem, nº 406, fols. 101vº-102.], José Martins Júnior [Idem, nº 406, fol. 113vº.] e Roberto F. Jardim [Idem, fols. 113vº-114.].

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Transporte de vinho. Gravura de A. Vizetelly. 1880

século XVII com a presença de um representante do Governador. O Rendeiro ou Arrematador detinha o contrato, de acordo com o estabelecido em praça, e obrigava-se a fazer a recolher a renda por meio de agentes. Roque Rodrigues era em 179262 o arrematador. Nas freguesias havia igualmente o arrematador que procedia à arrecadação, como sucedeu em 1819 em S. Jorge63. Caso não existisse as funções eram da competência da Câmara. A arrematação de 179264 foi feita por uma sociedade composta por Francisco Martins de Gouveia, José Gonçalves Brazão e António Cipriano. O processo não foi fácil para a empresa pelos desentendimentos havidos, como se pode deduzir de alguns documentos65. O rendeiro tinha alçada sobre o arrieiro-mor ou condutor dos vinhos vendidos nas tavernas, da livre escolha como as mais pessoas aí ocupadas. Disso nos dá conta o Governador D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho em 1784: De todo tempo teve o rendeiro da imposição do vinho o privilégio de eleger e nomear os seus cobradores e vigiar, entre os quais há um capataz a que chamão condutor...66. Segundo o Governador Florêncio Correia de Melo em 1818 a Câmara interveio na nomeação: Houve um tempo em que a câmara nomeava sujeito para aquele lugar, mas como a nomeação nem sempre era de vontade dos rendeiros, deixou-se a estes a liberdade de escolher para condutor dos vinhos algum homem de confiança...67. A Junta não podia nem devia interferir na nomeação como refere a Câmara em 178468, não se 62. 63. 64. 65. 66. 67. 68.

Idem, nº 760, p. 101. Idem, nº 405, p. 222. Idem, nº 760, p. 101. Idem, nº 679/688, 722. Idem, nº 731. Idem, nº 4034, certamente se referia ao ano de 1774 e 1779 em que os ditos cargos eram providos pela câmara, vide ARM, RGCMF, t. 12, fols.17, 95vº-96, 122-122vº. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 732.

Transporte de vinho.William Combe.1821


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justificando os requerimentos de António Pinho69 e António João da Silva7071, pois por alvará de 14 de Abril de 1796 estava impedida de o fazer72. O provimento de Tomé da Silva e de Silvestre Jesus Seabra73 para o cargo de Condutor dos vinhos em 178474 deu lugar a acesa polémica. O facto repetiu-se em 179775 e 181676, respectivamente com António Silva e João Gonçalves. Na maioria dos municípios rurais a situação não se justificava, mas nas vilas mais importantes, como Santa Cruz e Machico, poderiam ser necessários, sendo providos pela respectiva Câmara, como sucedeu em 1819 em Santa Cruz com o soldo 35 réis por barril pagos pelo taberneiro77. José de Freitas e José da Costa Mateus eram os arrieiros que em 183478 tinham o encargo de conduzir os vinhos das freguesias do norte para as tabernas. A situação justifica-se pela necessidade de evitar a baldeação com os do Sul, uma vez que se alude à medida proibitiva do Governador José António Sá Pereira79. A abertura do preço do vinho por 3 homens probos debaixo juramento80 antecedia o acto de arrematação da renda. De acordo com o preço corrente do barril de vinho estabelecia-se a quantia do imposto, procedendo-se à arrematação em lanços81. O conhecimento público era feito por meio de edital82. O Arrieiro-mor83 e o Varejador, sob as ordens do rendeiro, percorriam as tabernas da cidade dando conta do vinho que depois registavam em livro próprio. Feita a inspecção procediase ao lançamento da imposição, avançando-se com a arrecadação em género ou dinheiro. A colecta era feita em género84, como se pode deduzir dos avisos da Junta para Paulo Vicente de Ornelas, Administrador da renda de S. Jorge, para entregar vários lotes de vinho de 200 pipas da renda arrematada a quem a havia adquirido por arrematação85. A Junta em 1834 ordenou ao Administrador da renda de Machico que o pagamento aos carreteiros do vinho deveria ser feito pelo preço do ano anterior. Os carreteiros tinham o encargo de transportar o vinho das rendas do lagar aos armazéns da Junta ou do Administrador86. 69. 70. 71. 72. 73. 74. 75. 76. 77. 78. 79. 80. 81. 82. 83.

84. 85. 86.

Idem, nº 1479/81. Idem, nº 4035, vide resposta da câmara ao mesmo, ARM, RGCMF, t. 12, fols. 170vº-171. Idem, nº 4034/48. Idem, nº 481. ARM, RGCMF, t. 12, fols. 186vº, 227vº-228. ANTT, PJRFF, nº 412, p. 113. Idem, nº 403, pp. 233/4. Idem, nº 405, p. 108; nº 407, fols. 117vº, 122vº. Idem, nº 407, fols. 117vº, 122vº. ARM, CMF, nº 1396, fol. 1vº. Idem, nº 1396, fols. 7-12. ANTT, PJRFF, nº 408, fols. 180vº, 262vº. Idem, nº 408, fols. 183vº-184, vide livros de arrematações das rendas: ARM, CMF, nº 11/8, 466/9. Vide editais, ANTT, PJRFF, nº 403/8. Em documentos de 1784 e 1818 definem-se as funções do arrieiro-mor: ... há um capataz que chamão condutor, cuja obrigação é de examinar continuadamente por todas as tabernas da cidade o vinho que para elas vai a vender, e no fim de cada dia dar conta ao rendeiro, para este arrecadar o devido imposto [ AHU, Madeira e Porto Santo, nº 731.]. ... o referido ofício, chamado aqui arrieiro-mor, consiste fazer diariamente em livro[ARM, CMF, nº 60 e 1396.] competente os assentos das entradas dos vinhos, que ele faz entrar nas tabernas e d’eles dar conta aos rendeiros da imposição para que conforme as suas relações e assentos, possão haver o produto d’aquela renda[ AHU, Madeira e Porto Santo, nº 4034.]. ANTT, PJRFF, nº 405, fols. 222-225. Idem, nº 408, fol. 176. Idem, nº 750.

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O rendeiro, no acto da arrematação, combinava o modo de entrega da receita da Junta, por norma em quartéis distribuídos pelo período do contrato87. O dinheiro da arrematação tinha como base o preço corrente, estipulado a partir da produção do ano antecedente. Os preços eram estabelecidos de acordo com a qualidade da colheita ou o tipo de casta, assim, em 1828 para a freguesia de S. Jorge temos 600 barris pagos a 1350 réis ao barril, 600 a 1300 réis, 915 a 1200 réis88. Deduzido o dinheiro procedia-se ao pagamento aos quartéis. O rendeiro, retiradas as despesas de arrecadação, entregava metade à câmara da zona do arrendamento e a outra ao Administrador local da renda. Já em 1792, em aviso do Juiz da Câmara da Ponta do Sol89, e em 179890 e 183591, por aviso ao rendeiro da imposição do vinho de S. Vicente, João António de Gouveia, vimos que metade da renda era entregue à Câmara e a outra à Junta92. Em 179493 da parte da Junta deduzia-se no Funchal um terço para o Senado da Câmara. No Porto Santo à falta de rendeiro a soma era arrecadada por inteiro pela câmara, que dela se servia para custear as despesas normais94. Os quartéis da renda eram pagos de forma irregular, justificando-se pelas condições adversas da produção. O arrematador, para evitar perdas com o contra87. 88. 89. 90. 91. 92. 93. 94.

Idem, nº 436, fols. 1-13. Idem, nº 750. Idem, nº 760, p. 100. Idem, nº 403, p. 285. Idem, nº 409, fol. 100vº. ARM, RGCMF, t. 18, fols. 172vº-173, 382vº-383. ANTT, PJRFF, nº 759, p. 75. Idem, nº 400, fols. 80vº-82.

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Transporte de vinho. Aguarela do século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.


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RECEITA DA RENDA DA IMPOSIÇÃO DO VINHO. 1775-1834 Data

Transporte de vinho. W. Combe. 1821. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.

to, reclamava das dificuldades, esperando poder contar com os bons ofícios das autoridades. Acontece que a disputa entre diversos grupos de arrematadores fazia elevar a renda a valores incomportáveis. A solução estava no recurso a diversos subterfúgios para evitar a entrega do imposto. Foi o que sucedeu com contrato de 1776/1778 em que a renda foi arrematada em 601.000 réis. Em 1785 ainda estavam por arrecadar 2.881.000 réis, pelo que a Junta deu parecer favorável à proposta apresentada por António Cipriano da Conceição, arrematador de 1783/1784, para ser novo rendeiro dos anos de 1785/1787 por 5.610.000 réis ao ano, com a cláusula de não ser posta em praça. A Junta estava consciente da situação insistindo nos inconvenientes do acto de arrematação95. O valor elevado das dívidas em 179096 obrigou à decisão drástica de proibir os devedores de proceder a novas arrematações. A informação sobre as rendas da imposição é muito limitada e só dispomos de dados em série para o período que decorre a partir de 1775. No quadro geral do valor das rendas arrecadadas podemos assinalar entre 1781/1799 a tendência de aumento até se atingir em 1797/1798 quase o dobro de 1780/1781. Nos anos de 1803/1805 temos de novo valores baixos, inferiores aos de 1780/1781, mas a receita voltou a subir. Entre 1818/1834 faltam-nos dados totais, mas dispomos de alguns parcelares que elucidam, ainda que de modo precário, sobre a imposição em momentos críticos da primeira metade do século XIX. O quadro que se apresenta resulta da forma de arrecadação do imposto, feita sob a forma de arrendamento trienal. 95. 96.

Idem, nº 411, pp. 251/3. Idem, nº 458, pp. 47/8.

Machico

Calheta

1775-1776 800.200 622.110 1779-1781 610.438 435.160 1782-1785 607.200 793.924 1786-1787 202.400 1788-1790 910.800 202.400 1791-1793 658.202 364.320 1794-1796 404.850 1797-1799 1.012.00 477.158 1800-1802 1.720.400 477.158 1803 2.029.060 477.158 1804-1805 2.029.060 810.612 18061808 2.029.060 1.032.341 1809-1811 3.100.780 1.032.341 1812-1814 4.049.012 1.012.000 1815-1817 4.049.012 1.012.00 1818 2.034.653 863.222 1819-1820 3.299.000 863.222 1821-1823 2.024.000 667.492 1824 2.024.000 592.249 1825-1826 2.028.400 542.040 1827 1.353.733 520.000 1828 1.353.733 422.445 1829 1.353.733 1830-1832 928.654 109.634 1834 415.919 481.876 Fonte: ANTT, PJRFF, nº. 751-754

Ponta de Sol 106.000 82.478 657.800 657.800 72.140 82.984 50.600 106.260 198.352 244.094 244.094 539.288 303.600 274.474 160.901 160.901 160.901 172.242 172.242 253.000 282.035 225.667 225.667 289.720

Funchal 5.400.000 5.080.240 5.677.320 5.677.320 5.940.440 5.940.434 5.940.440 5.940.440 8.703.200 8.733.560 8.733.560 10.676.600 16.192.000 16.499.600 16.596.800 10.990.635 12.144.000 11.181.299 11.181.299 12.260.240 8.221.431 10.632.819 8.821.782 3.911.671

Santa Cruz 215.100

S. Vicente

224.360 172.140 223.652 364.320 223.652 374.440 739.772 739.772 1.012.000 1.013.012 1.013.012 1.032.240 392.585 1.028.744 1.026.128 950.000 960.000 966.000 617.799 742.440 733.240 470.689

212.520 404.800 658.812 658.812 678.040 679.053 862.224 1.388.200 1.295.300 308.660 312.650 1.458.552 252.000 234.784 234.784 234.784 253.000 258.060

A renda começou por ser administrada pelo município, mas com o domínio filipino passou a contar com a intervenção da coroa através do Erário Régio, sendo a receita dividida entre o município e o Erário Régio97. Não obstante ter sido uma renda criada para para suprir as despesas dos municípios98, a forma de aplicação foi distinta ao longo dos tempos. A primeira aplicação da renda no Funchal foi na construção da praça que deveria servir o edifício da alfândega e a igreja99. Em 1488100 imposto só poderia ser aplicado na aposentadoria dos tabeliães, mas em 1489101 e 1490102 insiste-se no uso para enobrecimento da vila, que em 1493103 significava a realização de obras para as casas do concelho e da cerca e muros. D. Manuel tinha perfeita consciência do objectivo da imposição e queria seguir à risca a finalidade, reprovando a atitude da câmara quando pretendia desvia-lo para outros fins: Em outro apontamento que pedis por merçee que vos leyxe gastar a 97.

98 . 99. 100. 101. 102. 103.

A Real Fazenda tinha direito em 1817 a metade do valor arrecadado: ARM. RGCMF, t.14, fls.199vº-200, representação de 20 de Junho; ARM. RGCMF, t.15, fls. 121-122vº, conta de 17 de Janeiro de 1824; ARM. RGCMF, t.18, fl.172vº-173,382vº383, ofícios de 24 de Julho de 1837 e 13 de Agosto de 1838; ARM. RGCMF, t.19, fls. 432vº-433, ofício de 6 de Agosto de 1840. ARM. RGCMF, t. 1, fl.249, apontamentos de D. Manuel de 22 de Março de 1485 ARM. RGCMF, t. 1, fl.25v-26, carta do duque de 20 de Novembro de 1486. ARM. RGCMF, t. 1, fl.27-28, carta do duque de 24 de Novembro. ARM. RGCMF, t. 1, fl.30-30vº, carta do duque de 5 de Outubro de 1489 ARM. RGCMF, t. 1, fl.56vº-57, carta do duque de 20 de Fevereiro de 1490. ARM. RGCMF, t. 1, fl.48vº-52vº, 175-176vº, cartas do duque de 13 de Janeiro e 21 de Junho

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ymposisam no que vos bem pareceer este requyrimento fora razoado se me vyras gastar della em alguma cousa que nam pertencera ao bem dessa terra mas vos sabees que eu vos tenho dado segurança que nem meos soçesores nom gastem nem metam mãao nessa renda se nam em cousas de nobreçimento e acreçentamento e honrra dessa villa como atee quj he feyto…104 Nos primeiros anos do século XVI a renda do Funchal, Ponta de Sol e Calheta foi usada no financiamento das obras da Sé do Funchal105. Concluída a obra desviou-se o dinheiro para a aposentadoria, a correcção das ribeiras e obras do hospital106. A partir de 1568 a grande preocupação da cidade estava nas despesas militares, em que se incluíam a fortificação da cidade e as despesas do presídio107. Ao longo dos tempos foi evidente o choque de interesses entre o município e as autoridades régias sobre a forma de utilização da receita do imposto. Assim, quando em 1611 se estabeleceu que dois terços ficariam consignados à fortificação, a Câmara considerava que seriam melhor aproveitados na canalização das ribeiras, sendo contrariada pela intervenção decisiva do Governador que insistiu na construção da Fortaleza do Pico108. No decurso do século XVIII parece que a receita passou a ser distribuída em três partes para diversas finalidades. Assim, para além da parte usada no apoio social dos lázaros109, temos dois terços dedicados à fortificação110. Os princípios que regeram o lançamento da imposição do vinho perduraram até ao século XIX. Assim em 1839111 na prestação de contas ao Administrador Geral justifica-se a despesa de 4.612$275 reis da imposição do vinho que foi gasta em obras municipais, sustento dos expostos, sustento dos lázaros, pagamentos dos empregados, pagamento às câmaras municipaes desta ilha da quarta parte do imposto dos cereaes, que lhes pertence, e em diversas despezas miúdas,…

104. ARM. RGCMF, t. 1, fl. 48vº-52vº, carta do duque de 13 de Janeiro 105. ARM. RGCMF, t. 1, fl.87-87vº, 196, 286vº-287vº, carta régias de 18 de Julho de 1500, 18 de Abril de 1508, 16 de Agosto de 1502, 106. ARM. RGCMF, t. 1, fl.309-309vº, 311-311vº, 323vº-324vº, 125vº-127, cartas régias de 13 de Maio, 11 de Agosto de 1511, 25 de Julho de 1512, 2 de Maio de 1516. 107. ARM. RGCMF, t. Velho, fl.125-125vo, 147-147vo, t.3, fl.18-19, t.6, fl.132vº-133, provisões de 9 de Março de 1568, 26 de Junho de 1584, 26 de Dezembro de 1602, 26 de Novembro de 1658 108. ARM, CMF, lº.1318, fls.38-39, de 9 de Julho de 1612; ARM, CMF, lº.1319, fls.13 13 de Fevereiro de 1613; ARM. RGCMF, t.3, fl.89vº, 27 de Janeiro de 1612; AHU, Madeira e Porto Santo, docs. 4798-4799, 4800-4801. 109. ARM, CMF, lº.1323, f.8, 6 de Fevereiro de 1620; ARM. RGCMF, t. 9, fls.205vº, 208-209, provisões de 4 de Novembro de 1751 e 23 de Fevereiro de 1752. 110. ARM. RGCMF, t. 9, fls.205vº, 208-209, provisão de 23 de Fevereiro de 1752 111. ARM. RGCMF, t.19, fl.60vº-61vº

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Taberna madeirense. Gravura de P. Springett. 1843

O quotidiano e o vinho Nos séculos XVIII e XIX os forasteiros, de passagem pelo Funchal ou que demandavam a ilha em busca da cura para a tísica pulmonar, foram os principais divulgadores da mesa madeirense. Habituados que estavam às laudas mesas reprovam a frugalidade do mundo rural madeirense. Todos insistem em referir o contraste entre a mesa das famílias distintas e a da maioria da população. Por norma a alimentação madeirense era muito frugal, pois segundo John Ovington em 1689, os pobres no tempo da vindima comiam apenas de uvas e pão. Diz-nos George Forster que os camponeses são excepcionalmente sóbrios e frugais; a alimentação consiste em pão, cebolas, vários tubérculos e pouca carne. Na verdade a alimentação consistia em vegetais algum pão, inhame e castanha e os frutos da época112. 112. Testemunhos de estrangeiros sobre a alimentação: PENFOLD, Jane Wallas. Madeira Flowers, Fruits, and Ferns, London, 1845. John Ovington, Antologia- A Ilha da Madeira, Atlântico, nº1, 1985, 70-79. George Forster, ANTOLOGIA- Uma Visão da Madeira, Atlântico, 5, 1986, 69-78. Isabella de França, Jornal de Uma Visita à Madeira e a Portugal (1853-54), Funchal, 1969. Missa Katherine Parry, Diário de uma Visita à Madeira, Atlântico, III, 1987. Eberhard Axel Wilhelm, A Vida no Funchal por 1860. Uma Descrição pelo Médico Alemão Rodolfo Schultze, Xarabanda Revista, 11, 1997, 20-27. IDEM, Os Madeirenses na Visão de Alguns Germânicos. O Seu Aspecto e Carácter e a Sua Maneira de Viver, Ibidem, 7, 1995, 2-13. IDEM, O Concelho de Câmara de Lobos entre 1850 2 1910 Visto por Alguns Germânicos, Girão 5, 1990, 185-195. IDEM, A Madeira entre 1850 e 1900. Uma Estância de Tísicos Germânicos, Islenha, 13, 1993, 116-121. IDEM, Seis Meses e Meio na Madeira (1854-1855). Os Diários da Governanta Alemã Augusta Werlich, Islenha, 16, 1995, 60-71, IDEM, Ibidem, 17, 1995, 75-83. IDEM, Na Madeira Há 125 Anos. Observações dum Médico de Tuberculosos Alemão, Atlântico, 12, 1987, 274-285. Maria dos Remédios Castelo Branco, As Impressões de Jean Mocquet sobre o Funchal em 1601, Atlântico, 11, 1987, 222-226. IDEM, Testemunhos de Viajantes Ingleses sobre a Madeira, I Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1989. IDEM; Perspectivas Americanas na Madeira, II Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1989. António Marques da Silva, Apontamentos sobre o Quotidiano Madeirense (1750-1900), Lisboa, 1994.


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Mercados e vendas A venda de produtos necessários à subsistência das populações fazia-se em mercados e feiras, onde se podia encontrar fruta, peixe e outros mais produtos, realizavam-se diariamente ou uma vez por semana em espaços determinados. Na cidade, o mercado foi desde o século XV um espaço de permanente intervenção do município no sentido de facilitar a livre concorrência, salvaguardar a qualidade dos produtos à venda e o justo valor. No século dezanove testemunham-se três mercados na cidade. O primeiro de D. Pedro, também conhecido como da feira velha, situava-se entre o Largo dos Lavradores e o Largo do Poço, mais propriamente nas traseiras da actual alfândega. Era o mercado de venda de legumes, hortaliças, frutos e outros géneros alimentícios. Foi o principal mercado da cidade até que em 1 de Dezembro de 1940 abriu ao público o actual mercado dos lavradores. Juntou-se depois os da União, no actual Largo da Feira, e de São João, no sítio onde hoje está implantado o Teatro Municipal. A venda dos produtos acontecia em barracas arrematadas à câmara pelos chamados barraqueiros. O mercado apresentava os produtos da terra, enquanto a venda dava preferência aos de fora. A oferta dos produtos completava-se com os vendedores ambulantes ao domicílio, que ofereciam líquidos, como azeite, vinagre e leite, hortaliças, aves, lenha e carvão. A figura do leiteiro, que ainda hoje sobrevive, define uma forma de venda de leite fresco ao domicílio. Ademais os interessados podiam ainda encontrar na cidade vacarias onde se servia o leite fresco, ordenhado no momento. Era assim na vacaria Burnay no Largo da Sé e a Sousa na Rua de João Tavira. A ilha apresentava em 1928 cento e setenta mil vacas de ordenha que produziam vinte milhões de litros. O Funchal consumia anualmente um milhão e quinhentos mil litros de leite, o que equivale a cerca de quatro mil litros diários. O restante leite era usado no fabrico de manteiga e queijo. Na mesma data a produção de manteiga orçava as mil toneladas, sendo exportada mais de três quartos, revelando um extraordinário incremento, uma vez que em 1880 a exportação foi de apenas cento e vinte e nove quilogramas. O abastecimento local fazia-se a partir das mercearias e tabernas, onde se vendia em simultâneo bebidas, nomeadamente o vinho da terra, géneros alimentícios e artefactos locais ou de importação. A abertura de um estabelecimento obrigava ao requerimento da licença que só poderia ocorrer da necessária autorização camarária depois do pagamento de uma taxa. Ao infractor era atribuída uma pesada multa. Acrescem outros requisitos regulamentados ao longo do tempo. A partir de 1931 a localização deveria estar a mais de 500 metros de distância das escolas. Antes haviase estabelecido padrões de higiene e sanidade no funcionamento. De acordo com regulamento de 1946 todos os estabelecimentos comerciais foram obrigados, num prazo de noventa dias, a ter água canalizada e pia, caso se situassem a mais de 100

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metros da canalização pública a obrigação revestia-se na presença de um reservatório de barro com capacidade para 50 litros. Por outro lado os géneros alimentícios deveriam ser guardados em prateleiras envidraçadas ou caixas fechadas. Depois, foi a proibição de vender no mesmo compartimento os géneros alimentícios, tintas, óleos, guanos, sulfato de cobre e substâncias tóxicas ou nocivas à saúde. Robert White113 e muitos outros autores que publicaram textos de apoio aos visitantes estrangeiros testemunham a importância da taberna como local de convívio e de apoio aos transeuntes. Nas tabernas a publicidade fazia-se através de siglas, referindo a propósito, PVB [Pão Vinho Bom] e PVAB [Pão Vinho Aguardente Bom] À vereação estava atribuída a missão de estabelecer os preços de venda ao público dos géneros de produção local. Todos os anos entre Outubro e Janeiro eram tabelados os preços dos produtos colhidos no concelho: vinho, cereais, cebolas, feijão, favas, batata, carne, laranjas, limões, inhame, vimes, cana doce. As actas da vereação e as posturas municipais revelam muitos dos problemas resultantes do abastecimento de bens alimentares e artefactos no mercado madeirense. Em todos os tempos existiram espaços abertos ou fechados de venda pública dos produtos. O correr dos anos apenas fez mudar os locais ou a designação, e aperfeiçoou os hábitos de consumo. Na cidade e localidades circunvizinhas tivemos outro tipo de venda ambulante que contemplava, não só o leite, como também, o azeite, petróleo, hortaliças, aves, cebolas, mel, sorvetes e outros gelados, carvão vegetal. A década de sessenta do século XX foi o momento de evolução das estruturas de apoio à venda dos produtos alimentares. As vendas perderam actualidade dando lugar supermercados, o princípio da transição para as actuais grandes superfícies iniciada em 1963 com o supermercado BACH.

Da copa à taberna Os líquidos corriam em abundância nas mesas fartas. O vinho está presente na ração diária dos conventos e Colégio dos Jesuítas, servindo-se da produção própria, e foi durante muito tempo o único líquido, para além da água, servido à mesa. Na casa das famílias pobres bebia-se apenas a água-pé nos dias que precediam à vindima até ao Natal. A maioria dos estrangeiros insiste na sobriedade dos madeirenses no consumo de bebidas alcoólicas. Acontece que, no princípio do século XX, a generalização do fabrico de aguardente e a abundância, conduziram ao consumo exagerado, recebendo a Madeira o epíteto de ilha da aguardente. A situação trouxe inegáveis prejuízos 113. Madeira, its Climate and Scenery, London, 1857. A taberna causa-lhe uma certa estupefacção: If we pause to look into one of these small dark wine shops we shall see a decante ror two liquor, with some glasses ready for use, and a few loaves of bread. What contrast between such a place and its London equivalent, a gin shop.

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Garrafas para embarque. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.

para a saúde pública, obrigando as autoridades a estabelecerem medidas limitativas da venda e consumo. Segundo Rodolfo Schultze, em 1864, os madeirenses tinham preferência pelo consumo de vinho misturado com água ou cerveja. A última surgiu na ilha por influência inglesa. A venda de vinho ao público passou a estar controlada desde 1484 com o estabelecimento da imposição do vinho. O imposto, que onerava a venda ao público, implicou um sistema de controlo na circulação e evolução dos stocks nas lojas e tabernas114. O funcionamento das tabernas estava regulado por posturas. Assim, as lojas que vendessem vinho deveriam ostentar um ramo verde. O horário de funcionamento, no século XIX, poderia ir até às 22 horas115. De acordo com as posturas municipais, só poderiam vender vinho nas tabernas os residentes casados. A venda acontecia depois do produto ser selado pelo rendeiro da imposição. Isto era uma forma de impedir a fuga ao imposto como de evitar que lhe adicionassem água116. Ainda, em cada taberna deveria existir duas pipas, uma para branco e outra para tinto117. Sabemos que em 1851118 havia 208 tabernas de porta aberta na cidade e 114. Posturas da Câmara Municipal do Funchal, Funchal, 1849, pp.61-64. 115. Ibidem, pp.34-35. 116. ARM, CMF, nº.1309, fl.17, vereação de 2 de Fevereiro de 1550; J. P. Costa, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Primeira Metade do Século XVI, Funchal, 1993, p.434 117. Cf. Alberto Vieira, As Posturas Municipais da Madeira e Açores dos Séculos XV e XVII, in BIHIT, vol. XLIX, 1991, pp.3031. 118. J. J. Nóbrega, Breve Memória..., BNL, SR, Cod. 8023, fol. 9.

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termo. A venda do vinho nas tabernas estava sujeita a uma regulamentação rigorosa. Quanto ao vasilhame recomendava-se que deveriam dispor de dois pipas, uma para branco e outra para tinto119. A fim de evitar o engano estava ainda condicionado o tipo de recipiente usado. Em 1522 só se poderia vender vinho pela medida de almude estando proibido em jarras e botijas120. Já em 1547 a vereação condescende na venda em botijas, estabelecendo a medida de 7 canadas e meia e 3 canadas e três quartilhos para as botijas de arroba e de meia arroba121. A venda do vinho novo estava condicionada ao esgotamento dos stocks do vinho velho122 e à conclusão do processo de fermentação. A data limite, ontem como hoje, estava na festa do S. Martinho123. O consumo de vinho deveria algo natural num espaço como a Madeira onde a cultura assumiu importância desde os primórdios da ocupação. A partir dos dados referentes à imposição, isto é, o direito por venda nas tabernas, podemos acompanhar a evolução do consumo no Funchal. Em 1488 a vila consumiu 439 pipas, mas nos anos cinquenta e sessenta do século XVII o consumo rondava as 6.000 pipas anuais124. Gaspar Frutuoso125 refere o facto de em Câmara de Lobos terem disponível, na Levada dos Socorridos, construída por Luís de Noronha para mover o engenho, entre 10 a 12 pipas de vinho para dar os levadeiros e demais homens que aí trabalhavam. O mesmo refere, por diversas vezes, a frequência com que o vinho estava presente na mesa dos madeirenses. Em 1532, na busca feita para encontrar o auto-denominado profeta do Porto Santo, Manuel de Crasto, distribuiu-se um saco de pão e um barril de vinho por todos aqueles que ajudaram à captura do foragido126. Em 1566 a Gaspar Borges, homem engenhoso e artífice que desencravou a artilharia da fortaleza, recebeu de alguns madeirenses, como prova de apreço, um lombo de porco e entrecosto, e dois barris de bom vinho127. Os visitantes estrangeiros testemunham também o consumo de vinho. De acordo com John Ovington128 em 1689, o gasto cifrava-se entre 8 e 9 mil pipas, para uma população aproximada de oitenta mil habitantes, avisando que os homens raramente abusam das bebidas alcoólicas e habituam-se à moderação.129 Só em 1787130 no Funchal consumiram-se 1.019 pipas, sendo a exportação de 10.831 pipas. No 119. 120. 121. 122. 123. 124. 125. 126. 127. 128. 129.

130.

Álvaro Manso de Sousa, Curiosidades Históricas da Ilha, in DAHM, nº 5001, 13 de Março de 1949, p.141-142. J. P. Costa, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Primeira Metade do Século XVI, Funchal, 1993,p.286. Idem, ibidem, p.393. ARM, CMF, nº.1328, fl.24vº, vereação de 23 de Outubro de 1637. ARM, CMF, nº.1315, fl.62, vereação de 11 de Outubro de 1603; ARM, CMF, nº.1327, fl.37vº, vereação de 8 de Novembro de 1634; ARM, CMF, nº.1331, fl.25, vereação de 6 de Novembro de 1649. J. M. Azevedo e Silva, A Madeira e a Construção do Mundo Atlântico, Funchal, 1995, vol. I, p.270 Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p.121 Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p.77 Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p.383 António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.198. Referindo ainda: Quando bebem em companhia não impõem aos outros o vinho que devem beber. O criado empunha a garrafa e entregando ao convidado o seu copo, lentamente verte a quantidade que aquele deseja. Deste modo cada um toma a quantidade que lhe apetece, não sendo, por isso, os mais sóbrios forçados a beber de mais contra a sua vontade. [António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.200] AHU, Madeira e Porto Santo, nº.972.

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século XIX a situação era distinta, pois havia-se generalizado o consumo do chamado vinho de pasto. Em 1849 a ilha consumiu 7.479 pipas, sendo 3.600 no Funchal. Já em 1868, período de crise de produção, bebeu-se cerca de três quartos da produção, avaliados em 4.000 pipas. A falta de mercado para os vinhos e o aumento excessivo das áreas de cultivo levou à disponibilização de um excedente de inferior qualidade que se vendia a preços baixos, como testemunha Edward V. Harcourt em 1851:_ Isto faz com que a grande quantidade de 9.149 pipas seja anualmente consumida na ilha ou utilizada para o fabrico de aguardente. As maiores quantidades são bebidas por pescadores e “burroqueros”, os quais gastam cerca de um terço das suas posses numa bebida alcoólica que é usada com a denominação de “vinho baixo”131. A partir dos direitos lançados sobre a venda nas tabernas, a imposição do vinho, podemos acompanhar a evolução do consumo anual de vinho. RENDIMENTOS REAIS EM PIPAS.1780-1799 Local 1780-81 1782-84 1785-87 1788-90 Cidade 2339 59 73 95 Ponta de Sol 31 67 80 98 Calheta 499 71 74 102 Santa Cruz 359 56 71 97 Machico 329 52 78 96 S. Vicente TOTAL 3557 305 376 488

1791-93 104 107 108 106 105

1794-96 114 113 116 114 112

530

569

1797-99 119 122 145 121 123 120 750

O consumo de água-pé, o vinho dos colonos e pobres, está documentada desde o século XVII e foi muito importante para o mundo rural até meados do século XX. Em 1654 refere-se o hábito dos moradores desta ilha custumarem a fazer agoa pé que bebem dous ou três mezes…132 O vinho Madeira não se destinava apenas à exportação, pois uma parte significativa tinha venda local às famílias mais abastadas e estrangeiros. A partir de um anúncio publicado em 1852133 podemos saber o preço de venda ao público:

131. A Sketch of Madeira…, London, 1851, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 389] 132. ANTT, PJRFF, nº.396, fls. 18vº-19. O seu fabrico é descrito em texto de autor anónimo [A Guide to Madeira Containing a Short Account of Funchal, Londres, 1801, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 337]]: Este processo é mesmo repetido uma terceira vez, com o objectivo de obter da uva uma maior quantidade de vinho; e, por fim, uma quarta vez, com a finalidade de obter a Agua-Pé. No entanto, nesta quarta ou última vez, quando a massa é partida, está tão seca como um bocado de madeira e, por isso, antes de a pisar, é necessário juntar-lhe uma quantidade de água na proporção de dois barris para cada pipa de sumo que tenha sido obtida. Assim, se doze barris de vinho ou sumo foram obtidos, são adicionados dois de água. A massa utilizada para obter a “Agua-Pé” é normalmente colocada sobre pressão à noite, ficando nesta posição até à manhã seguinte, quando a “Agua-Pé” é retirada e colocada em cascos para uso imediato. 133. A Ordem, nº. 17, p.4.

Designação Vinho de 10 anos Boal velho Sercial velho Malvasia vinho velho Cerveja preta

Preço em réis 9$350 $350 $350 $350 $120 a $300 $300

Consumia-se ainda cerveja, ginger-beer (limonada de gengibre) e água mineral. No século XIX os ingleses provocaram uma mudança radical nos hábitos de consumo de bebidas com a introdução da cerveja. A primeira fábrica na ilha era de João Park e foi implantada em 1840. Na década de cinquenta tivemos outras, como foi o caso da de Victorino José Figueira (1856) e José de Freitas (1859). Dispomos ainda de dados sobre a produção de cerveja. O primeiro produzia 326 hectolitros de cerveja branca e preta e 58 de ginger beer, já o segundo apresentava 340 de cerveja branca e preta e 60 de ginger beer. Muitos estrangeiros preferiam a cerveja importada, tal como nos refere Rudolfo Schultze em 1864, mas a concorrência da cerveja inglesa e alemã não afectava a madeirense, muito apreciada pelos locais por ser considerada de superior qualidade. Em 1863134 está documentada a existência de três fábricas de cerveja e ginger-beer. Em 1872 H. P. Miles fundou a Atlantic Brewery e em 1890 Manuel Alves de 134. Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas - Distrito de Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.11

Sala de Provas da Madeira Wine Company Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.


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Borracheiros. E.C. Lobos Perestrellos Photographos

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Araújo surge com a fábrica Leão. A primeira, que produzia água de soda, limonada gasosa e cerveja, apresentava o equipamento adequado ao engarrafamento avançado em relação às demais. Em 1908 em duas unidades do Funchal fabricava-se 666 hectolitros de cerveja branca e preta e 118 de ginger beer. Uma cerveja custava 30 réis enquanto um ginger beer ficava pelos 20 réis. A crise da década de trinta obrigou à fusão de todas as pequenas industrias numa só unidade industrial, dando lugar à Empresa de Cervejas da Madeira que hoje domina o mercado local. Mesmo assim não conseguia satisfazer as necessidades dos apreciadores de cerveja, uma vez que nos inícios da década de cinquenta a ilha importava 29.520 litros de cerveja. Fora do Funchal temos notícia de uma fábrica de refrigerantes na Ribeira Brava, que funcionava em 1955 e de um outra em 1909 no Porto Santo, propriedade de João Augusto de Pina para engarrafamento da água da Fontinha. O restrito grupo de bebidas alarga-se à cidra, ou vinho de peros, muito apreciada na ilha em princípios do século XX. A fazer fé nos dezoito lagares em funcionamento em 1908, o vinho em questão deveria ser muito apreciado. Hoje a tradição da bebida persiste no Santo da Serra. A bebida mais apreciada era a aguardente, cujo consumo começou a divulgar-se em princípios do século XIX por influências das tropas inglesas que por duas vezes ocuparam a ilha.

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A pele de cabra usava-se no tempo ao vinho para o transporte a algumas milhas de distância, quando a estas não era fácil traze-las ao local da _vindima. A pele é voltada do avesso, cortam-lhe a cabeça e os pés, e as aberturas assim formadas ligam-nas com cordel, Ao distender-se, dá a impressão de estranho animal acéfalo. E que espectáculo singular o de uma fila de homens a descer pelos montes com essas peles cheias aos ombros. Isabella de França, Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal 1855-1854, Funchal, 1970., p.112-113.

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Borracheiro. Foto de José Pereira da Costa. Anos sessenta do século XX


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Borracheiros. Gravura W. Combe. 1821. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas

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Borracheiro. Aguarela do século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.

Condução dos vinhos em 1777

O borracho A pele (de cabra) emprega-se no fabrico de borrachos (odres) para transportar vinho dos lagares para os armazéns,...O borracho é feito de preferência da pele do macho, voltada de dentro para fora, depois de sangrado junto dum ouvido e de esfolado pelas orelhas. Pelas aberturas do pescoço e dos ombros, cortados nas articulações inferiores, aparta-se a pele da carne deixando parte do tecido da barriga para fortalecer aquela nessa região. “Fechado o borracho pelos membros e extremidades deste e lavado interiormente com água e cinza, a fim de se poder arrancar mais facilmente parte do pelo. É deitado em seguida a curtir num banho de casca de vinhático que lhe dá uma cor avermelhada. Passadas estas operações, procede-se à insuflação do ar pela abertura do pescoço, apertando o borracho pela parte média para que forme cintura e se torne mais cómodo para o transporte (horizontalmente) sobre os ombros. A suspensão faz-se ligando a pele dos membros próximos, anteriores e posteriores, em forma de ansas, às quais se prende a testeira-arriscol-formada de duas cordas paralelas (de lã, linho ou estopa entrançada) que vem apoiar-se sobre o frontal do condutor” A. Sarmento, Zoologia Local, publ. Diário de Notícias (Madeira), de 23 de Agosto de 1936, p.2

Borrachos. Aguarela do século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.

(...) não se praticam as colheitas como no reino, que vão passando dos lagares a encubar nas adegas, mas como as terras estão aqui divididas em porções módicas de colonos, estes pisando suas módicas porções, que logo imediatamente conduzem a meia parte respectiva ao senhorio para a cidade, nem dão lugar A tirar guias, o que é impraticável por ser a condução em barris de dois almudes, ou odres sobre ombros de homens, porque a escabrosidade dos caminhos faz impraticáveis outras condições. ANTT,___ JRFF, nº.994, pp.8-11

Borracheiros. Gravura de A. Vizetelly. 1880


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Transporte vinho em corsa. Gravura século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.

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Embarque de pipas. Gravura de A. Vizetelley. 1880

A corça (...) aqui não há barros, há um equivalente, vem a ser um madeiro, que é conduzido de rastos, preso ao jugo dos bois, a que dão o nome de corça. E neste veículo conduzem pipas de vinho, pedras, paus de todo o tamanho, pesos extraordinários (...) AHU, Madeira e Porto Santo, N.º 3281

O barco Enchem-se as pipas que os camiões hão-de levar para a cidade. Vieram eles em corças que arrastavam juntas de bois, seguiam para o calhau. Eram amarradas em grossas cordas e, uma atrás da outra, empurradas pelos barqueiros na maré-cheia, geralmente, quando a ondulação permitia. O bolinete de bordo enrolando a corda presa à primeira pipa ia puxando a bicha enorme de pipas. Horácio B. de Gouveia, Canhenhos da ilha, pp. 58/59

No entanto, todo o vinho produzido no lado norte chega pelo mar, não na forma de mosto, mas na forma seguinte, como «vinho em limpo», ou vinho fermentado, e, por não haver no Funchal molhe ou cais, é desembarcado de um modo muito primitivo. Os barcos ficam ancorados a alguma distância da costa, as pipas são atiradas para fora do barco e homem atrás de homem da tripulação, depois de se despir e de se benzer religiosamente, salta para o mar e colocando as suas mãos sobre uma pipa, nada atrás dela até chegar às vagas que rebentam na praia, onde as pipas são colocadas em corças e puxadas para cima, pela praia inclinada. H. Vizetelly, Facts about Port and Madeira, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1983, p.393

Porto do Funchal. Gravura do século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.


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Embarque de pipas. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.

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Movimento externo O movimento de comércio do vinho da Madeira ao longo dos séculos XVIII e XIX imbrica-se de modo directo com as rotas marítimas coloniais que tinham passagem pela Madeira, estabelecendo um circuito de triangulação135. As rotas com origem nos portos ingleses tocavam a Madeira para refresco e carga de vinho dirigindo-se aos mercados das Índias Ocidentais e Orientais ou América, donde regressavam via Açores com o recheio colonial. Juntam-se, ainda, os navios portugueses da rota das Índias, ou do Brasil, que faziam escala no Funchal para receber o vinho que conduziam às praças de destino e regressavam com o saque pelos Açores. Por fim podíamos contar com os navios ingleses que se dirigiam à Madeira com manufacturas e no retorno tocavam Gibraltar ou Lisboa (e Porto). A tudo isto juntavamse os navios ingleses e, depois, norte-americanos, que traziam da América as farinhas e retornavam com vinho. O movimento das rotas comerciais teve que enfrentar diversos obstáculos provo135. Sobre o comércio de triangulação veja-se J. A. Lesourd, Histoire Economique XIXe et XXe Siècles, Paris, 1973, pp. 242/243.

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cados pelas guerras na Europa e colónias, a acção dos piratas argelinos, insurgentes e, finalmente, as condições climáticas, os ventos e correntes marítimas136. A ilha da Madeira, situada a meio caminho entre a Europa e os mercados coloniais, viu-se empurrada para os conflitos europeus, no continente ou fora dele, como sucedeu com as guerras entre a França e Inglaterra, da Independência da América e da Argentina. Os conflitos influenciaram de forma distinta o comércio internacional. A ilha porque estava fora dos limites dos acontecimentos, usufruiu de uma posição vantajosa no comércio do vinho, uma vez que fechados os circuitos e mercados exportadores europeus do vinho, o madeirense apresentava-se capaz de os substituir. Foi o momento de apogeu da produção e comercialização, que se prolongou de finais do século XVIII a princípios do XIX. A rotura repercutiu-se de forma negativa, provocando a queda em flecha do comércio a partir da segunda metade do século XIX. As mesmas condições poderiam conduzir ao fecho das rotas de exportação, com o bloqueio das rotas comerciais com origem na Europa ou colónias ou a influência negativa da pirataria e corso. A segunda metade do século XIX terá sido fatal para a Madeira, uma vez que se conjugaram a crise de produção com as alterações das rotas oceânicas, resultantes da abertura do canal do Suez e os progressos da navegação a vapor137, como o entende A. Silbert: E, todavia, o declínio da ilha, por relativo que seja, vai começar. Hesitante a princípio, paralelo à evolução da conjuntura na primeira metade do século, afasta-se para se tornar mais nítido depois de 1850. (…) a Madeira não é mais como noutro tempo uma encruzilhada vital (…). […] Madeira, esta encruzilhada, é também um espelho. Um espelho onde se reflecte uma multidão de paisagens geográficas: tropicais, mediterrânicas e algumas vezes oceânicas. Um espelho também onde ressuscitam, como num globo mágico, os progressos e a morte de todo um aspecto essencial do nosso velho mundo ocidental, o dos navios mercantes navegando ao sabor dos ventos por um oceano nutriente.138 O Funchal não apresentava grandes condições de apoio à navegação. A cidade estava situada numa enseada pouco abrigada dos ventos que sopravam do quadrante Sul, ficando os navios ancorados na baía sujeitos a constantes naufrágios139. Apenas em 1876 foram registados 10 naufrágios. A necessidade de construção de um porto de abrigo, no sentido de melhorar o serviço, era fundamental para o incremento da navegação, nomeadamente no último quartel do século XIX com a concorrência dos portos das ilhas Canárias. Em 1766 ficou concluído o primeiro cais na Pontinha. Em 1881 o Governador Civil insistia na necessidade de construir um cais e porto de abrigo, a exemplo do que sucedia nos Açores, em Ponta Delgada e Horta. A necessidade da construção mais se fez sentir dois anos após com os planos de melhoramento do porto de Las 136. 137. 138. 139.

Vide A. Silbert, ibidem, pp. 79-80 J. A. Lesourd, ibidem, pp. 265/7, 355/369; A. Silbert, ibidem, pp. 120-121 Op. cit., pp. 120-121. Rui Carita, Paulo Dias de Almeida e a Sua Descrição da Ilha da Madeira de 1817-1818, Funchal, 1987, pp.58-59; Fernando Augusto da Silva, Elucidário Madeirense, vol. II, pp.407-408.

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Palmas. Apenas em 1885 se avançou com o molhe entre a Pontinha e o Ilhéu, terminado passados dez anos. A obra decorreu em duas fases: entre 1934-1939 abriuse um túnel no Ilhéu e entre 1957-1962 concluiu-se o molhe.

aquelas coisas que fabricam panos da ilha e dela transportam aquelas de que a ilha produtora, tais como açúcar e vinho, por lá haver em grande abundância. O mesmo autor refere que a Madeira se abastece de cereais nas ilhas vizinhas e que o vinho‚ vendido a mercadores que o levam à Península Ibérica e para outros países setentrionais. Já em 1567 Pompeo Arditi144 observava que o comércio baseado no açúcar, conservas e vinhos era abundante, e que a ilha tinha de assegurar a subsistência com os cereais oriundos das Canárias e Açores. As descrições, distanciadas no tempo em trinta e sete anos, atestam que a crise açucareira da primeira metade do século não provocou o colapso da economia madeirense, porque o açúcar local, não obstante a quebra sofrida, continuou a ter maior valorização e procura no mercado europeu e o vinho preencheu paulatinamente a lacuna resultante da quebra açucareira. O momento de esplendor de finais do século, conforme descrições de Frutuoso e Torriani, deverá resultar certamente do comércio do vinho que, desde a década de setenta, vinha conquistando a Europa e a América. O primeiro exalta a opulência madeirense: A ilha da Madeira /.../ tão afamada e guerreira com seus ilustres e cavaleiros capitães, e tão magnânimos, e com generosos e grandiosos moradores; rica com seus frutos; celebrada com seu comércio que Deus põe no mar oceano ocidental por escala, refúgio, colheita e remédio dos navegantes que de Portugal e de outro reynos vão, e de outros portos e navegações vêm para diversas partes, além dos que de força ela somente navegam, levando-lhe mercadorias estrangeiras e muito dinheiro para se aproveitar do retorno que dela lutam para suas terras, /.../ com seu licor e doçura, como um néctar e ambrosio provê as Índias ambas, a Oriental aromática e a Ocidental dourada, chegando e adoçando seus frutos de extremo a extremo quase o mundo todo145. O segundo incidiu a observação na intensa actividade comercial do porto funchalense com a África e a Europa: El comercio es muy importante, y se hace navios que vienen a esta ciudad de Funchal de todas las partes del África Cristiana, de Itália, Espana, França, Alemana y Escocia, de modo que se ha apodado de ‘pequeña Lisboa’ 146. Esta piccola lixbona inseria-se na economia europeia atlântica, participando do trato com o Velho e Novo Mundo, e servindo de entreposto de comércio para as riquezas e áreas vizinhas. As isenções fiscais (1443-1444) no comércio com o reino, para além de terem sido aliciante à fixação de colonos, contribuíram para o reforço das ligações com o continente e afirmação da burguesia metropolitana. Aliás, nas cortes de Coimbra (1472) e Évora (1481-1482) estava bem expressa a aspiração. No século dezassete ocorreram mutações na política comercial, afirmando-se, cada vez mais, a tendência para o proteccionismo económico com o aparecimento das companhias comerciais e o estabelecimento de legislação restritiva. Os holandeses criaram em 1629 a companhia das Índias Ocidentais. Os portugueses

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Comércio na madeira O Atlântico foi a partir do século XV o principal espaço de circulação dos veleiros, definindo um intrincado traçado de rotas de navegação e comércio entre o velho continente, o litoral africano, americano e as ilhas. A multiplicidade de rotas resultou da complementaridade económica das áreas insulares e continentais e surge como consequência das formas de aproveitamento económico adoptadas. Tudo isto deverá ser conjugado com as condições geofísicas do oceano, resultantes das correntes e ventos que delinearam o traçado das rotas e os rumos da viagem. No século XV a afirmação da Madeira derivou do facto de ser escala para as primeiras navegações portuguesas no Atlântico, posição que veio a perder em favor das Canárias e Cabo Verde140. A Madeira manteve desde meados do século XV um comércio assíduo com o reino, activado pela oferta de madeiras, urzela, trigo e, depois, de açúcar e vinho. O movimento alargou-se às cidades nórdicas e mediterrânicas, com o aparecimento de estrangeiros interessados no comércio do açúcar. A evolução das trocas foi rápida e lucrativa pelo que em 1493141 a Fazenda Real lançou uma imposição sobre o movimento do porto da cidade para a despesa de construção da cerca e muros. Da dedução de um vintém sobre a tonelagem tirou-se o rendimento de cem mil reais e quanto ao 1% sobre as mercadorias arrecadou-se duzentos e cinquenta reais. O açúcar deveria ser o principal responsável por tão elevada quantia, contribuindo para o arranque decisivo da economia madeirense e a consequente inserção da Madeira no mercado europeu. O acelerado ritmo de crescimento económico condicionou a atracção de diversas correntes migratórias. Foi com base nisto que em 1508142 D. Manuel justificou a elevação do Funchal à categoria de cidade: teem creçido em mui gramde povoraçam e como nella vivem muytos fidalgos cavaleyros e pessoaes homrradas e de gramdes fazendas pollas quaaes e pello grande trauto da dyta ylha.... A tendência para a monocultura condicionou a economia madeirense, marcando a dependência do mercado externo, uma vez que a ilha necessitava dele para a colocação do açúcar e abastecer-se de produtos alimentares (carne, pescado, legumes, cereais, azeite, sal) e artefactos (ferro, telha, barro, panos, linho, etc.). Giulio Landi143, cerca de 1530, retrata com grande acuidade a ambiência do burgo funchalense: Aqui chegam frequentemente mercadores de países muito distantes: de Itália, França, Flandres, Inglaterra e da Península Ibérica, que para lá levam 140. 141. 142. 143.

Alberto Vieira, A Madeira na Rota dos Descobrimentos e Expansão Atlântica, Lisboa, 1988, Separata nº 217. ARM, CMF, registo geral, t. I, fl. 172-179, in AHM, vol. XVI, p.287. Ibidem, t.I, fls. 278-vº-279, in AHM, vol. XVIII, pp.512-513 António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.83

144. António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.130 145. Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, pp.99-100 146. Descripcion e Historia del Reino de las islas Canárias, Santa Cruz de Tenerife, 1978, p.266

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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avançaram em 1649 com a Companhia Geral do Comércio para o Brasil. E, finalmente os ingleses em 1660 com a Royal Adventuress in to Africa e, em 1672 com a Royal Campany of England. A política monopolista e proteccionista dos ingleses iniciada em 1651 com o Acto de Navegação, manteve-se nos actos posteriores de 1661 a 1696. Em França a política do cardeal Richelieu (1624-1642) havia dado o mote para a nova situação. O mar, que séculos atrás foi apenas um privilégio dos peninsulares, surge agora como património dos diversos empórios marítimos europeus. A anterior divisão política deixou de ser uma realidade e deu lugar a imperativos económicos. As mudanças operadas, no domínio político e económico, ao longo dos séculos dezoito e dezanove não retiraram às ilhas a função primordial de escala e espaço de disputa do mar oceano. A frequência de embarcações manteve-se, não se deixando intimidar pela escalada do corso entre finais da primeira centúria e princípios da seguinte. Aos corsários de França, Inglaterra, Holanda juntaram-se os americanos do Norte e Sul. As mudanças ocorridas no mercado colonial a partir de meados do século XVII, foram significativas e tiveram reflexos nos Açores. As colónias americanas147, por um lado, e o Brasil, do outro, configuraram uma nova orientação para o relacionamento do mercado colonial com as ilhas. O mercado colonial passou a comandar o processo, deixando de depender da Europa. O vinho foi fundamental na definição e consolidação das rotas. Como corolário disto tivemos a designação de ilhas do vinho, que surge na documentação oficial norte-americana a definir os arquipélagos atlânticos provedores de vinho, isto é, Açores, Madeira e Canárias148. O Brasil foi a partir do século XVII uma das rotas privilegiadas, mantendo-se fechado aos estrangeiros até 1765, altura em que acabou o sistema exclusivo das frotas criado em 1649. A constituição da companhia de comércio do Brasil retirou às ilhas possibilidades de comércio. Os insulares reclamaram, recebendo como contrapartida em 1652 o envio de três embarcações dos Açores e duas da Madeira149. A Madeira manifestou grande empenho no comércio com o Brasil, no decurso do século XVI, pela necessidade que tinha de açúcar para manter activo, em momentos de dificuldade da produção da ilha, o fabrico de conservas e casquinha. No decurso dos séculos XVI e XVII manteve-se o afrontamento entre os produtores locais e os mercadores do açúcar brasileiro. A partir de meados do século XVII, o açúcar madeirense foi, paulatinamente definhado, rendendo-se a indústria do doce com o açúcar do Brasil. Aqui releva-se a figura de Diogo Fernandes Branco que estabeleceu uma rede de negócios, a partir do Funchal, tendo Lisboa, Angola e Brasil como vértice do triângulo150.

Na Madeira foi proibida em 1776 a entrada do vinho, aguardente e vinagre das regiões do sul o que veio reforçar a tradicional relação com os portos do Nordeste brasileiro. Outras medidas anteriores insistiam na proibição de reexportação de produtos estrangeiros. Em 1748 o número de embarcações ocupadas no comércio com o Brasil passou para quatro, dando maiores garantias à rota151. Múltiplas e variadas razões fizeram com que o Funchal se afirmasse no século XVIII como centro das transformações sócio-políticas operadas de ambos os lados do oceano. As ilhas foram protagonistas concorrendo para isso vários factores. Primeiro temos a presença da comunidade inglesa num importante eixo da afirmação colonial e marítima152. Depois a vinculação ao império britânico é evidente no quotidiano e devir histórico madeirenses dos séculos XVIII e XIX153. No fogo cruzado que se ateou entre o Velho e Novo Mundo e as ilhas porque protagonistas activas no relacionamento e presença da comunidade inglesa, não podiam alhear-se das mudanças políticas geradas pela difusão de novas ideias, na segunda metade do século XVIII154. No decurso do século XVIII as ilhas firmaram a vocação atlântica contribuindo para isso o facto dos ingleses não dispensarem os portos e os vinhos insulares na estratégia colonial. As Actas de Navegação (1660,1665), corroboradas pelos tratados de amizade como é o caso do de Methuen (1703)155, abriram caminho para que as ilhas entrassem na órbita da influência inglesa156. Aos poucos a comunidade ganhou uma posição, por vezes incomodativa, na sociedade madeirense157. A feitoria inglesa é uma realidade insofismável no século XVIII 158. A partir da década de 70 do século dezoito e até aos princípios do século seguinte os conflitos que tiveram como palco os continentes europeu e americano alargaramse ao Atlântico. Aliás, o oceano foi um activo protagonista das disputas entre os três principais beligerantes: Espanha, França e Inglaterra. Mario Hernandez SánchezBarba159 define o século XVIII por três realidades: guerra, diplomacia e comércio. Era permanente a preocupação com a organização militar e a defesa da costa, porque o perigo espreitava no mar a qualquer momento. A conjuntura de afrontamento levou à presença dos corsários, com forte incidência em dois momentos: o período que decorre entre 1744 a 1736, marcado pelo afrontamento de Inglaterra com a França e Espanha; a época das grandes transformações do século, com a proclamação da independência das colónias inglesas da América do Norte (e a consequente guerra de independência até 1783), a Revolução Francesa (1779) e as con-

147. Tenha-se em conta a presença de um cônsul americano na Horta, nomeadamente John B. Dabney. Confronte-se João Afonso, Açores em Novos Papeis Velhos, Angra do Heroísmo, 1980, pp. 235-249. Aí refere-se a importância dos Anais da Família Dabney no Faial (1806-1871), para a História dos Açores. Mary Theresa Silva Vermette, Early America’s Relationship with the Azores. A Consular View, BIHIT, vol. XLV, t. II, 1988, pp. 1301-1314. 148. E não Cabo Verde como refere erradamente Kenneth Morgan, Bristol & the Atlantic Trade in the Eighteenth Century, N. Y, 1993, p. XIX. 149. Alberto Vieira, O Açúcar na Madeira. Séculos XVII e XVIII, in Actas do III Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1993, pp325-344 150. Cf. Alberto Vieira, “O Açúcar na Madeira. Séculos XVII e XVIII” in Actas do III C.I.H.M., Funchal, 1993, 325-344.

151. Confronte-se João José de Sousa, O Movimento do Porto do Funchal..., pp. 161-172. 152. Em 14 de Julho de 1722 ( Public Record Office, Foreign office, nº. 63/7) determinava-se que as embarcações inglesas permanecessem alguns dias no Funchal. 153. Confronte-se Desmond GREGORY, The Beneficent Usurpers. A History of the British in Madeira, London, 1988. 154. António LOJA, A Luta do Poder Contra a Maçonaria, Lisboa, 1985, p.247. 155. Veja-se Public Record Office, FO, 811/1, cartas dos privilégios da nação britânica com Portugal desde 1401 a 1805. 156. Confronte-se J. H. FISHER, The Methuen a Pombal. O Comércio Anglo-português de 1700 a 1770, Lisboa, 1984, p. 29. 157. Em 1754 o Governador Manuel Saldanha Albuquerque lamenta o exclusivo do comércio inglês na ilha (AHU, Madeira e Porto Santo, n1.48-49). 158. De acordo com Albert Silbert (Un Carrefour de l’Atlantique. Madère. 1640-1820, in Economia e Finanças, XXII, Lisboa, 1954, p.432) Atlantique que étant devenu plus que jamais anglais, Madère avait failli le devenir aussi. 159. El Mar en la Historia de América, Madrid, 1992, p. 239.

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vulsões que se seguiram até 1815. A dimensão assumida pela guerra de represália está bem patente nas presas. No período de 1793 a 1798 os franceses apresaram alguns milhares de embarcações inglesas e aliadas. Em 1795 apenas o porto de Brest tinha 700 presas inglesas e em 1798 contavam-se 3199 navios comerciais apresados160. Perante o perigo da investida francesa os ingleses ocuparam a Madeira por duas vezes, sendo a atitude entendida como uma forma de preservar os interesses dos súbditos de Sua Majestade e de estabelecer uma barreira ao avanço francês além oceano161. O corso, que incidia preferencialmente sobre as embarcações espanholas e francesas, motivou uma resposta violenta das partes molestadas, como sucedeu com a investida francesa contra os ingleses em 1793, 1797, 1814. Ao nível interno temos de reconhecer que a questão do trigo foi uma dominante da História da metrópole e ilhas, incendinado o debate político no século XIX162. A luta pelo pão foi uma constante da História insular e de modo particular da Madeira, provocada pela desarticulação entre o movimento demográfico e a economia de subsistência. A aposta preferencial estava nos produtos de exportação, com grande solicitação no mercado. A incessante luta pelo pão, que ateou em todo o processo histórico o relacionamento entre as ilhas. O tráfico inter-insular assentou fundamentalmente na redistribuição dos meios de subsistência. Daqui resultou a complementaridade, que se tornou evidente nos primórdios da criação das sociedades insulares que nos momentos posteriores. Na lógica de complementaridade definiram-se os circuitos inter-insulares e ganhou forma a escala das ilhas num circuito que enlaçava o chamado Mediterrâneo Atlântico. A necessidade de abastecimento de cereais foi um dos principais incentivos à manutenção das relações inter-insulares, que são uma constante no período em causa. Em qualquer dos momentos o Mediterrâneo Atlântico não foi auto-suficiente carecendo da importação do mercado europeu ou americano. O último tornou-se uma realidade no decurso dos séculos XVIII e XIX, funcionando para a Madeira como contrapartida ao vinho. Para o período que decorre de 1727 a 1810 entraram no porto do Funchal 4297 embarcações com cereal ou farinha, sendo 2053 (48%) da América do Norte, 799 (19%) de Inglaterra e 687 dos Açores (16%)163. A Madeira fazia depender a subsistência do vinho. A dependência madeirense em relação ao mercado externo no assegurar da sub160. Confronte-se A. C. BAPTISTA, O Ressurgimento da Marinha Portuguesa no Último Quartel do Século XVIII, Lisboa, 1957 (tese de licenciatura na Faculdade de Letras). 161. Cf. Alberto Vieira, Funchal no Contexto das Mudanças Político-ideológicas do Século XVII. O Corso e a Guerra de Represália como Arma, in As sociedades Insulares no Contexto das Interinfluências Culturais do século XVIII, Funchal, 1994, pp.93-113; Paulo Miguel Rodrigues, A Política e as Questões Militares na Madeira. O Período das Guerras Napoleónicas, Funchal, 1999. 162. João Rocha Ribeiro, Collecção de Avisos Regios, officios e mais Papeis Relativos a Exportação do Grão das Ilhas dos Açores... (Lisboa, 1821), in Archivo dos Açores, V, pp.281-358. A. H. de Oliveira Marques, Introdução à História da Agricultura em Portugal( Questão Cerealífera durante a Idade Média), 20 ed., Lisboa, 1968. 163. João José Abreu de Sousa, O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810. Alguns Aspectos, Funchal, 1989, pp.105-160. É fundamental o estudo dos livros de registo de entrada de navios com trigo, milho e outros grãos (A.R.M., C.M.F., nºs 1284-1295, anos de 1754 a 1847), para fazer-se uma ideia dos principais mercados fornecedores de grão à Madeira, no decurso dos séculos XVIII e XIX.

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sistência das populações foi uma constante da História, que perdurou até a actualidade. Desde finais do século XV que a aposta num produto de exportação, associada ao elevado crescimento demográfico, conduziram a ilha para a crónica dependência externa, como descreve de forma exemplar Giulio Landi em 1530: a ilha produziria em maior quantidade se semeasse. Mas a ambição das riquezas faz com que os habitantes descuidando-se de semear trigo, se dediquem apenas ao fabrico de açúcar, pois deste tiram maiores proveitos, o que explica não se colher na ilha trigo para mais de seis meses. Por isso há uma carestia de trigo, pois em grande abundância é importado das ilhas vizinhas164. Na Madeira a situação foi de total dependência das searas dos outros. Em 1625 a produção local dava apenas para 4 meses, aumentando em 1662 e 1696 para os seis meses. No decurso do século dezoito a porção reduziu drasticamente sendo em 1777 de apenas 3 meses, o que veio a agravar a dependência externa de cereal. O Norte da Europa e a América do Norte foram os principais mercados, sendo o sistema de trocas activado pelo vinho. Para o período de 1784 a 1786165 é possível estabelecer uma relação entre os valores da importação de bens alimentares e saída de vinhos. A situação era favorável à Madeira, mas eram os ingleses que arrecadavam lucros mercê da política de adiantamentos de manufacturas e mantimentos. Os Açores em aliança com as Canárias tiveram no decurso do século XVI a mis164. António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, 84. 165. BNL, Reservados, ms. 219, nº 29.

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Porto do Funchal. Gravura do século XIX Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.


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são de suprimento das necessidades frumentárias da ilha, perdendo em favor do novo mercado conquistado com o comércio do vinho. No período de 1510 a 1640 as ilhas acudiram com 69% do cereal consumido no Funchal, assumindo um Açores um posição dominante com 55% ficando a Europa numa posição inferior com 28%166. A situação mudou no decurso do século XIX com a revolução dos hábitos alimentares nas ilhas. O milho assumiu grande protagonismo associando-se depois à batata167. A crise de fome de 1847 foi provocada pela falta do tubérculo, atacado pela doença168. O estudo de J. J. Abreu de Sousa169 permite conhecer o movimento do porto do Funchal, entre 1727/1810, e saber do comércio que se fazia com as diversas áreas. As relações de tráfego com as diversas áreas geográficas definem-se quantitativamente em função dos interesses complementares ou essencialmente exclusivos a uma das partes. Assim o tráfego britânico e nórdico utilizam a ilha como escala, dando ao mesmo tempo vazão à sua produção e abastecendo-se de víveres ou matérias-primas. Todo este movimento que se localizava particularmente na baía do Funchal veio estimular o desenvolvimento das condições técnicas do porto favorecendo as condições da natureza, assim o seu apetrechamento vai-se aperfeiçoando 166. CF. Alberto Vieira, artigos citados na bibliografia. 167. Margarida Vaz do Rego Machado, O milho nos Finais de Setecentos na Ilha de S. Miguel, in Arquipélago-História, vol. II, nº.2, 1995, pp.175-188. 168. Cf. Jorge de Freitas Branco, Camponeses da Madeira, Lisboa, 1987, pp. 189 e segs. 169. O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727-1810, Lisboa, 1965 (tese de licenciatura em História)edição em livro no ano de 1989.

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em correlação viva com o aumento das trocas e do trânsito. A orgânica administrativa, a par duma discriminação legislativa mais rígida, vai também sofrer alterações, tendo como base a instituição alfandegária e seus minuciosos serviços (...). A vida dos madeirenses palpita efectivamente na actividade do porto como este traduz uma necessidade essencial da sua estrutura económica170. Da análise do tráfego marítimo constata-se que uma grande percentagem era europeu ligado às possessões ultramarinas, com 4/5 do movimento total, fazendo com que a Madeira fosse um porto transitório do tráfego atlântico171. Os ingleses dominavam com 3/5, perdendo importância a favor dos americanos na segunda metade do século XVIII. As ligações com os países do Norte da Europa foram constantes mercê da assiduidade de navios da Dinamarca, Suécia, Flandres, Holanda. As guerras dos Sete Anos, de independência da América e da Revolução conduziram à valorização dos barcos hamburgueses, imperiais, prussianos, regusianos, napolitanos, genoveses, venezianos, papemburgueses, dinamarqueses. Com os navios portugueses o movimento foi ascendente entre 1738/1749 atingindo-se o máximo em 1808 com 220 unidades. Dum modo geral vemos que o movimento do porto tende a tornar-se ascendente. De modo específico, desde fins do século XVIII, princípios do seguinte. Apresenta-se com relativa constância ao longo do século XVIII (mantendo-se entre 200 e 400 unidades), é durante as guerras dos Sete Anos e Independência da América que os seus valores atingem a escala mais baixa172. A conjuntura atlântica173 do século XVIII, pautada pela guerra, dá conta das causas que conduziram à retracção do movimento. A guerra de Sucessão de Áustria [1740/48] fez desaparecer os navios espanhóis e franceses, afugentados pelo corso inglês com base na Madeira, e aumentar a presença dos navios nacionais. O fim da guerra fez com que o movimento regressasse à normalidade a partir de 1750. A guerra dos Sete Anos não trouxe qualquer alteração ao movimento do porto madeirense, mas entre 1770/90 a guerra da Independência dos Estados Unidos da América provocou a paralisia quase completa do porto com o bloqueio dos portos americanos. Isto gerou na ilha uma das mais graves crises de fome, provocada pela falta das farinhas americanas e precária saída do vinho. A fome e o pânico provocaram a subida em flecha do preço dos bens comestíveis174. A paz de 1783 deu ao porto a antiga vitalidade. Com a Revolução Francesa (1789) e o Bloqueio Continental (1806) que se seguiu175 surgiram de novo dificuldades de abastecimento. Entre 1785/1802 a quebra das relações comerciais com a América do Norte foi acentuada, reflectindose nas crises de fome de 1795/1796, 1799. O bloqueio continental provocou efeitos de maior monta. A partir de 1807 tive170. 171. 172. 173. 174. 175.

Idem, Idem, Idem, Idem, Idem, Idem,

ibidem, ibidem, ibidem, ibidem, ibidem, ibidem,

pp.9-10 p.28. p. 30. pp.67-96. p.78 pp.80-96.

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mos uma quebra acentuada dos contactos com a América, Espanha, Africa em favor do aumento das ligações com os Açores, que se tornaram mais uma vez no celeiro madeirense. Os franceses nunca conseguiram impor o bloqueio à ilha. Em suma, durante os anos iniciais do bloqueio (1806/9) os índices numéricos do movimento portuário são pouco alterados, certos anos ganham porém especial evidência das suas consequências - como 1808 ano da ocupação de Junot, do conflito dos países saxónicos. Mais notáveis são as mudanças nas relações com certas áreas na sua importância: - vimos o desaparecimento do tráfego (uma das mais importantes manifestações da eficiência parcial do bloqueio, sem alterar os interesses da ilha), a diminuição do tráfego com a metrópole, sofrendo a acção directa dos franceses, as dificuldades de abastecimento e comunicações com a América são compensadas pelo aumento do intercâmbio inter-ilhas portuguesas atlânticas. As relações com as áreas do Norte de África e Mediterrâneo sofrem, o desabitual incremento, sobretudo depois da revolta espanhola. Entretanto os navios em demanda do Brasil internacionalizam-se por motivo da gradual abertura dos seus portos, criando as condições para o fim das relações próprias dos armadores madeirenses com essa colónia. Em relação ao tráfego indiano os navios nacionais quase desaparecem mercê de algumas dificuldades causadas pelo bloqueio de Lisboa176. As áreas de proveniência e destino dão-nos a entender a existência de um circuito comercial triangular, definido pela Europa, América Central e do Norte. No grupo dos consignatários a concorrência acontecia entre a burguesia consignatária local e os estrangeiros, identificados quase sempre com os ingleses. Aqui merece atenção o proteccionismo concedido a algumas firmas locais como foi o caso de Jorge Monteiro e D. Guiomar177. O sistema de trocas madeirenses pode ser definido por cinco grandes áreas:

João José de Sousa179 em face dos dados disponíveis conclui: No conjunto das importações vindas das zonas portuguesas domina a metrópole, como nas áreas estrangeiras domina a Inglaterra e colónias. Também num e noutro caso, consoante as “praças”, dominam os mercadores consignatários respectivamente madeirenses e ingleses180. No último quartel do século XIX, a concorrência dos portos insulares como escalas de apoio à navegação atlântica, levou à criação de incentivos, como a construção de portos com condições para apoiar o tráfico e a definição da política de portos francos. A competência acentou-se pelo que as respostas e incentivos deveriam ser imediatos181. A mudança das áreas de influência das potências europeias foi evidente. A América cedeu lugar à Africa e Ásia182 mas a Madeira continuou a manter o vínculo com a rota dos vapores do Cabo.

• Inglaterra e Irlanda - fazendas de lá, ferragens, trigo, farinhas, manteiga, carne de vaca e porco, velas de sebo, sendo muitos em trânsito para a América espanhola; • Europa do Norte (Noruega, Dinamarca, Suécia e portos franceses do Norte) - farinha, manteiga, peixe de salmoura, material de construção naval, aguardente francesa: • Portugal Continental - sal, sabão, tabaco, géneros comestíveis como gorduras (azeite, óleo), frutas algarvias, cereais (milho), produtos manufacturados diversos ligados à construção (tijolo, telhas), vestuário; • Brasil - açúcar, farinha de pau, sola, madeiras, escravos: • Açores e Cabo Verde e Mediterrâneo (Sul de Espanha, portos barbarescos, Canárias) - os cereais em momento de faltas crónicas178.

176. Idem, ibidem, p.96 177. Idem, ibidem, pp.41-47 178. Idem, ibidem, pp.119-161

Movimento de exportação de vinho Os mercados do vinho diversificaram-se ao longo dos tempos. E, entre todos, apenas o britânico manteve fidelidade ao vinho. Os ingleses foram os primeiros a aprecia-lo, estando documentadas exportações desde o século XV. O vinho Madeira ganhou fama em toda a Europa Ocidental. Em meados do século XV o genovês Cadamosto referia que os vinhos da ilha são em tanta quantidade, que chegam para os da ilha e se exportam muitos deles. Em pleno século XVI Giulio Landi (1530)183 diz-nos que os madeirenses não costumavam beber vinho, vendemno a mercadores, que o levam para a Península Ibérica e para outros países setentrionais. Em finais da centúria Gaspar Frutuoso184 dava conta que o vinho malvasia é o melhor que se acha no Universo e leva-se para a Índia e para muitas partes do mundo (...). O malvasia madeirense ganhou fama conquistando apreciadores na Europa e espaços revelados a partir do século XV. Segundo Cadamosto a exportação de vinho fazia-se já em medos do século XV. A ideia é corroborada em 1461185 quando os madeirenses reivindicaram junto do Infante D. Fernando a isenção da dízima alfandegária das exportações, em que se incluía o vinho. A perda da maior parte dos registos de saída da alfândega impossi-

179. Idem, ibidem, vide quadros nº.39/66. 180. Idem, ibidem, p.120 181. Vide para os Açores: Isabel João, Os Açores no Século XIX, pp. 134 e segs; para a Madeira: João Sauvayre da Câmara e Vascocnelos, Representação da Câmara Municipal da Cidade do Funchal ao Governo de S. M. sobre Diversas Medidas Tendentes a Conservar e Arruinar a Navegação de Passagem neste Porto, dos Paquetes Transatlânticos, Funchal, 1884; Visconde Valle Paraizo, Propostas Apresentadas pela Commissão Nomeada em Assembleia da Associação Commercial do Funchal 1 14 de Novembro de 1894 para Estudar as Causas do Desvio da Navegação do Nosso Porto e do Afastamento de Forasteiros, Funchal, 1895; João Augusto d’Ornellas, A Madeira e as Canárias, Funchal, 1884. 182. Cf. J. R. Mcneill, The World of the Gold Atlantic World: Americas, Africa, Europe 1770-1888, in Alan K. Karras e J. R. Mcneill, Atlantic American Societies, London/N. York, 1992, p.265. 183. António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.83 184. Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, 99 185. AHM, vol. XV, p.14.

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Porto do Funchal. Gravura do século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.

bilita uma análise mais alargada. No século XVI, a primeira referência à saída de vinho surge em 1505, com 13 pipas despachadas para Lisboa, da fazenda de João Manuel, que havia passado para a coroa186. Em 1508187 Diogo de Azambuja conduziu 21 pipas de vinho para a praça de Safim e em 1523188 Lopo Martins despachou 20 pipas de vinho novo. A Europa era o principal mercado do vinho. Os britânicos foram os mais destacados apreciadores. Shakespeare insiste na presença do Madeira nas tabernas e à mesa da aristocracia. A referência mais antiga à exportação europeia é para Rouen e Orleans em 1532189. Mas, segundo P. P. Câmara190 já em 1478 o vinho da Madeira era conhecido em Inglaterra e terá sido a corte de Francisco I, rei de França (1495/1547) a receber os primeiros vinhos. Rebelo da Silva191 diz que o vinho da Madeira, a partir da segunda metade do século XVI, era apreciado no mercado europeu. Lopes, nas memórias de viagens (1588), publicadas no Purchas Pilgrinages, refere que o vinho assumia em finais do século XVI um peso significativo nas exportações. Os Açores foram no século XVI um importante mercado consumidor do vinho da Madeira. Os açorianos manifestaram especial predilecção pelo vinho madeirense, usado na celebração eucarística, encargos testamentários e cobiçado por todas as mesas. Era um vinho para os mais ricos da terra mas também recla186. 187. 188. 189. 190. 191.

ANTT, Núcleo antigo, nº.901, fls. 1, 5vº, veja-se Fernando Jasmins Pereira, Livro de Contas…, vol. I, pp.67, 70, 75 e 81. ANTT, CC, II, M.15, d.44, de 25 de Agosto. Ibidem, pp. 90. Michel Mollat, Le Commerce Maritime Normand à la Fin do Moyen Age, Paris, 1952, p.121. Breve Notícia..., pp. 82/3. Memória sobre a Agricultura, p. 162.

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mado pelos homens de soldada na jorna192. A referência mais antiga à exportação para os Açores surge em 1544193 com o envio pelo mercador Afonso Alvarez de cinco pipas para o Faial. O vinho estava também presente no comércio com as Canárias, sendo a troca para o cereal. A primeira saída que temos notícia surge em 1521194 quando Juan Pomar enviou para Gran Canaria algumas pipas. O vinho Madeira ganhou fama pela capacidade de adaptação ao calor tórrido dos trópicos e as colónias europeias foram o novo e prometedor mercado195, mas foi nas colónias portuguesas em África ou no Brasil, que se verificou a primeira constatação. Em 1589196 Simão Pires levou para Cabo Verde 12 pipas de vinho de seu pai avaliadas em 140.000 reais. Para as ilhas seguiram mais 50 pipas por ordem de Vicente Gomes. Em 1634 o capitão-mor da Mina reclamava apenas o envio de vinhos da Madeira porque os demais se degradavam. A constatação resultou do facto dos recebidos por Tomé Matoso se terem degradado197. O vinho madeirense era muito apreciado em Angola198. A partir de 1659199 procedeu-se ao envio de vinhos como esmola para os padres capuchos do convento de Santo António em Cabo Verde. No ano imediato seguiram outras duas pipas com o mesmo destino e oito para os padres que assistiam em Angola200. Em 1665201 sabe-se que o vinho tinha como destino os Carmelitas Descalços que o usavam como vinho de missa. O vinho madeirense adquiriu um estatuto especial na dispensa do Novo Mundo, como vinho de mesa e de missa. Foi servido à mesa das autoridades e grandes latifundiários. Nos séculos XV e XVI era exportado em reduzidas quantidades, para os diversos cantos do mundo. Com o dealbar do século XVII consolidou definitivamente o mercado. O Brasil foi, a partir de finais do século XVI, o principal mercado para o vinho Madeira, onde era trocado por açúcar202. A coroa proibiu em 1598 os mercadores e embarcações do Brasil de fazerem escala na ilha como forma de defesa do açúcar local. A medida foi considerada lesiva para o comércio do vinho e favorável ao de La Palma. Os madeirenses reclamaram em 1621203, obtendo autorização para com192 . Linschoot, História da Navegação do holandês, in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, nº.1, 1943, p.151; Gaspar Frutuoso, Livro Quarto da Saudades da Terra, vol. II, p.47 e 198; Alberto Vieira, O Comércio Inter-Insular nos Séculos XV e XVI. Madeira, Açores e Canárias, Funchal, 1987, pp.143-144. 193. ARM, Misericórdia do Funchal, nº.684, fl. 286, testamento de 1 de Agosto de 1544. 194. Idem, ibidem, fol.303. 195. Esta ideia é insistentemente referida. Assim, em 1663 Edward Barlow refere que Madeira was the best wine for keeping and carrying to a hot climate[A. d. Francis, The Winer Trade, Edimburgh, 1973, p.64]. Já em 1792 o vinho Madeira era de novo o preferido em Manila e Bengala, uma vez que o demais se estropeava [F. Morales Padron, El Comercio CanárioAmericano, Sevilla, 1955, p.234.] 196. ARM, JRC, fl. 381vº-385vº, testamento de 3 de Abril de 1589. 197. Monumenta Missionária Africana, Lisboa, 1960, nº.74, pp.306-308. Aí refere-se o seguinte: os vinhos que VM mandou com o cabo Thomé Matozo se mudarão em chegando a esta costa, de maneira que nem os negros os gastarão senão a meyo tostão…. Pelo que VM deve mandar que não venhão vinhos para esta praça, salvo da ilha da Madeira, porque doutra parte fazem o mesmo que fizerão estes. 198. Arquivos de Angola, vol. XVII, pp.62-65. 199. ANTT, PJRFF, nº. 396, fl.23. 5 de Novembro. 200. ANNT, PJRFF, nº.396, fls. 26, 42vº. 201. ANTT, PJRFF, nº.965ª, fl. 427vº-428, 19 de Fevereiro. 202. E. C. Lopes. A Escravatura, Lisboa, 1944, p.74; J. G. Salvador, Cristãos-novos e o Comércio no Atlântico Meridional, Lisboa, 1978, pp.263-266. 203. ARM, RGCMF, t.III, fls. 263-263vº, 11 de Abril.

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erciar o vinho no mercado brasileiro. A partir daqui os contactos com o Brasil tornaram-se assíduos, afirmando-se pela posição dominante no consumo do vinho Madeira. Só em 1663 Eduard Barlow conduziu 500 pipas ao Rio de Janeiro, justificando-se a escolha pelo facto de ser o único vinho que se adaptava aos locais quentes. EXPORTAÇÃO DE VINHO PARA AS COLÓNIAS.1572-1695204 Baia Rio de PernamPorto Brasil Angola Janeiro buco Seguro 1572 32 1623 4 1626 2 1638 800 1645 1766 106 2568 1646 2477 1648 100 1654 243 180 1655 336 1658 100 176 1671 200 1687 505 200 310 280 1688 1435 597 515 438 1690 1010 480 250 450 1691 200 250 425 1692 982 120 400 1693 900 390 400 1694 82 370 212 1695 197

Cabo TOTAL Verde 32 4 2 800 4440 2477 100 423 336 276 200 25 1320 190 3175 2190 875 112 1614 1690 664 1997

A partir de meados do século XVII temos informações que permitem saber a importância assumida pelo vinho no volume global das exportações da ilha. Em 1646 A. R. Azevedo205, baseado no alvará de 27 de Julho que estabelece o donativo no valor de 10.000 cruzados, dá conta da exportação de 2.000 pipas, enquanto M. L. Ferraz206 apresenta 10 ou 12.000 pipas. Parece-nos, no entanto que o primeiro número é o mais razoável e de acordo com os fornecidos posteriormente por F. Mauro207, com 2.619 pipas exportadas em 1650, e Jefferson que para 1676 dá conta da saída de 2.500 pipas208. Neste momento destacou-se João Saldanha de Albuquerque, Capitão General da ilha, com exportações significativas para Angola e Brasil209. O vinho foi considerado um importante meio na profilaxia das doenças de

bordo, nomeadamente o escorbuto210, pelo que a presença se tornou obrigatória nas embarcações que sulcavam o Atlântico. Na Madeira muitas embarcações proviamse de vinho, água e alimentos frescos para o consumo211. As portuguesas tinham garantido o abastecimento pelo Provedor da Fazenda. Em 1548 cada tripulante da nau S. Martinho tinha direito a uma ração diária de duas arrobas de biscoito, dois almudes e meio de vinho, duas pescadas e meia e uma arroba de carne212. Em 1533 Richard Eraen em viagem para a Guiné tomou algumas pipas de vinho para as tripulações. Os corsários, que infestaram os mares da Madeira no decurso do século XVI, não prescindiam da dose diária de vinho. Em 1566 a armada de Bertrand de Montluc, que se dirigia para a Mina, diz que a escala funchalense tinha apenas como intenção o abastecimento de vinho e carne, sendo o assalto foi provocado pelos locais213. Já em 1587 um outro corsário ameaçava as costas da ilha, pedindo apenas ao capitão Tristão Vaz da Veiga vinte pipas de vinho e água. Alheio às objecções dos naturais entrou no porto onde cortou as amarras a um navio carregado de vinho214. O provimento das naus portuguesas entre 1641/1643 estava regulamentado e fazia-se por intermédio do Provedor da Fazenda no Funchal. O vinho Madeira

204. 205. 206. 207. 208. 209.

210. Cf. Rodrigues Cavalheiro, Subsídios para a História do Vinho a Bordo, in Informação Vinícola, nº.1, 1944, pp.1-2; Idem, Ainda o Vinho das Naus das Índias, in ibidem, nº. 24, 1944, p.1; António de Almeida, O Vinho na Medicina, in Ibidem, nº.18 e 26, 1949. 211. O Defensor, nº.111. 212. Alberto Vieira, O Comércio Inter-insular nos Séculos XV e XVI, Funchal, 1987, p.23 213. Gaspar Frutuoso, Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p.364. 214. Ibidem, pp.201-202

ANTT, PJRFF, nº.373, fianças para o Brasil (1687-1695); AHU, Madeira e Porto Santo, cx. 1, documentos avulsos. Anotações..., p. 709. A Madeira no Século XV sob a Acção do Infante D. Henrique e D. Fernando, fol. 35. Le Portugal et l’Atlantique au XVIIe Siècle, Paris, 1960. Elucidário Madeirense, vol. II, p. 28. Alberto Vieira. O Público e o Privado na História da Madeira, Funchal, 1998.

Porto do Funchal. Gravura do século XIX. Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas.


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adquiriu fama junto das tripulações, sendo obrigatório no abastecimento das embarcações. As armadas que partiam de Lisboa eram abastecidas com o vinho enviado do Funchal por ordem da Junta. As armadas da Índia foram assíduos consumidores. O Provedor da Fazenda no Funchal, Francisco de Andrade, providenciou em 1651 o envio de 400 pipas de vinho a Lisboa para as armadas da Índia. Em 1635 seguiram outras 3.000 pipas com igual objectivo, juntando-se 400 pipas no ano imediato215. Ao vinho, que seguia para Lisboa, junta-se outro de embarque directo no Funchal pelos navios ou armadas. Em 1664216 uma armada francesa com destino às Antilhas foi provida de 40 pipas. O vinho era conhecido como de beberagem e, por isso, segundo a tradição, estava isento de direitos. Vários comboios que se dirigiam às Antilhas, ao longo do século XVIII, passavam pela Madeira onde tomaram grandes quantidades de vinho, destacando-se o de Dezembro de 1744 com 33 navios e o de 1788 com 70 navios que carregou 2.000 pipas de vinho217, a que se juntou outro em Outubro de 1799 com 60 navios que carregou 3.041 pipas218. Os registos de saída da alfândega no século XIX assinalam a saída de vinho para gasto de embarcações estrangeiras: EMBARQUE DE VINHO PARA GASTOS.1843.1888 ANO PIPAS 1843 43 1847 80 1848 6 1849 92 1850 101 1882 88,3 1883 2 1884 41,9 1885 36,5 1886 77,5 1887 46,9 1888 22,9

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Calhau no Funchal. Postal antigo

segundo o mesmo, o incremento do comércio do vinho liga-se de modo directo com o estabelecimento dos ingleses na ilha, apresentando as datas de 1640 e 1660 como os marcos da plena afirmação220. Em 1680, das 20 casas estrangeiras existentes na ilha 10 eram inglesas, a que se juntavam 6 ou 8 de nacionais de compravam os vinhos já prontos e os exportavam221. Não existem dados sobre as exportações de vinho Madeira no século XVII. Tão pouco os dados oficiais dos registos de saída da alfândega devem ser fiáveis222. T. Duncan223 propõe uma estimativa dos valores das exportações para o período de 1600 a 1699 apresentando como média anual os seguintes valores: ANO 1600-19 1620-39 1640-59 1660-79 1680-99

Fonte: João da Câmara Leme, Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estufas…, pp.32-40

Para A. R. Azevedo o surgimento dos estabelecimentos consulares da Bélgica [1608], França [1626], Inglaterra [1658], Holanda [1667], Espanha [1668] mostra não só com que nações comerciava ela os seus vinhos, mas também indica a gradação do desenvolvimento deste comércio: Flandres, França, Inglaterra, Holanda, Espanha. Só mais tarde os vinhos da Madeira foram directamente levados à Alemanha. Rússia, e por último aos Estados Unidos da América - as relações comerciais desta ilha com a metrópole eram talvez as menos importantes219. Ainda, 215. 216. 217. 218. 219.

ANTT, PJRFF, nº.396, fls. 12vº. 12vº-13, 15 ANTT, PJRFF, nº.396, fls. 35vº. Idem, p. 109 D. João da Câmara Leme, ibidem, p. 9. Op. cit., p. 710.

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PIPAS 2.000 2.500 3.500 5.000 6.500

Os dados disponíveis evidenciam a tendência de crescimento na segunda metade da centúria, situação que se torna clara nas décadas de oitenta e noventa224. Acontece que os últimos anos foram de dificuldade para as embarcações inglesa, fruto da guerra com França. As colónias inglesas da América haviam assumido uma posição dominante nas exportações, de acordo com as medidas favoráveis estabelecidas no 220. 221. 222. 223. 224.

Idem, ibidem, p. 709. P. P. Câmara, ibidem, p. 85. T. B. Duncan, Atlantic Islands, pp.44-48; Alain Huetz de Lamps, Le Vin de Madere, pp.30-36 T. B. Duncan, Atlantic Islands, p.48 Estes dados não são concordantes com o testemunho de alguns estrangeiros. Assim, em 1687 Christopher Jefferson refere a exportação de 25.000 pipas, dado que deve ser exagerado e deverá ser confusão com a produção, enquanto que em 1689 John Ovington refere apenas a exportação de entre 8 e 9 mil pipas. Cf. em anexo quadro nº.1.


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Staple Act de 1663, fruto do casamento da infanta D. Catarina com Carlos II de Inglaterra. As Índias Ocidentais foram um destino privilegiado, sendo Barbados o principal entreposto de distribuição para as demais ilhas, como se faz eco em diversos testemunhos: …e o resto exportado principalmente para as Índias Ocidentais, especialmente Barbados, onde tem mais aceitação que outros vinhos europeus.225 Os números disponíveis, embora avulsos, demonstram que o vinho no decorrer dos anos foi aumentando de importância na balança comercial da ilha, pelo que o cônsul francês em 1669 afirmava ser o vinho o único meio de comércio da ilha226. Na década de sessenta surgiram dificuldades para o porto do Funchal. A falta de embarcações impediu o embarque, impedindo as relações com o reino e a disponibilidade de letras227. O comércio baseava-se, segundo o cônsul francês, no vinho228.

presença do vinho Madeira no Brasil datam da segunda metade do século XVI. Em 1572 rumaram para aí 36 pipas de vinho branco, a que se juntaram em 1587 outras 98 para o Espírito Santo e Rio de Janeiro a troco de açúcar. Abriu-se a rota do vinho Madeira que continuou na centúria seguinte pelas facilidades concedidas aos navios da frota do Brasil e a possibilidade da ilha intervir com o envio directo de duas embarcações. O vinho tinha lugar na mesa do senhor de engenho como sucedia em 1626 no de Sergipe do Conde que recebeu duas pipas. Para o período de 1638 a 1655 o Brasil, através da Baía, Pernambuco e Rio de Janeiro, recebeu 6.602 pipas de vinho de Madeira. Para a segunda metade do século temos dados seguros sobre a exportação.

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Destino

O continente americano e Índico foram as novas apostas do vinho do século XVII. Alguns viajantes ingleses dão conta da situação a partir do último quartel do século. Hans Sloane230 (1687) evidencia a conquista de novos mercados, fruto de desusadas propriedades: É exportado em grandes quantidades para as plantações das Índias Ocidentais e, ultimamente, para o Ocidente, pois não há nenhuma espécie de vinho que se mantenha tão bem em climas quentes. A ideia é corroborada por John Ovington231 [1689] que dá conta da exportação de 8 mil pipas principalmente para as Índias Ocidentais, especialmente Barbados, onde tem mais aceitação que os vinhos europeus. Foi nas colónias inglesas da América que se encontrou na segunda metade do século XVII, um dos melhores mercados para o vinho Madeira. O Brasil foi o principal destino nacional do vinho. O município do Funchal insistiu em 1621 junto da coroa no sentido de o reservar para o vinho nacional. A acção da companhia Geral do Comércio do Brasil na Madeira assentava no negócio dos vinhos. As mais antigas referências à 225. 226. 227. 228. 229.

António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, p.198. A. Silbert, ibidem, p. 93 ANTT, PJRFF, nº. fls.153v-154, 44v-45, 46, 56vº, Albert Silbert, Uma Encruzilhada do Atlântico. Madeira (1640-1820), Funchal, 1997, pp.113-114 Segundo informação de José Manuel Azevedo e Silva, A Madeira e a Construção do Mundo Atlântico (Séculos XV-XVII), vol. I, Funchal, 1995, p.269. 230. “Uma Viagem nas Ilhas da Madeira…”, in António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.159. 231. “Uma Viagem a Suratt no ano de 1689”, in António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.198

1651-65

1687-1695

África

Angola Mina Cabo Verde

-

313 100 6

1.762 327

Ilhas

Açores

-

-

53

2.579 1.820

100 180 236 -

5.529 2.475 5.029

Brasil

EXPORTAÇÃO DE PIPAS DE VINHO MADEIRA229

1623-50

Baía Pernambuco Porto Seguro Rio Janeiro

Para o ano de 1699 podemos fazer uma ideia da exportação diferenciando-se o vinho comum da Malvasia. No primeiro caso dominavam as colónias inglesas, enquanto no segundo a preferência continuava a ser para o mercado londrino com 58 pipas e apenas uma quartola para Lisboa e um quarto para baixo. EXPORTAÇÃO DE VINHO NO PORTO DO FUNCHAL.1699

Destino Para Baixo Barbadas Jamaica Martinica Antigua Boston N. York Nova Inglaterra Virgínia Canárias S. Miguel Lisboa França Holanda Londres Dunquerque Outros TOTAL

Pipas 2836 451 384 2851/2 2701/2 99 54 181/2 35 27 18 9 8 34 111 344 49841/2

Quartolas 133 27 12 13 10 12

Quartos 10 1 1

1 1 1 1 7 2 3 10 233

1

2 59

Fonte: Maria Olímpia da Rocha Gil, Madeira e Canárias no Movimento Portuário de Ponta Delgada. Problemas de Importação e Exportação nos Finais do Século XVII, in Actas do Colóquio Internacional de História da Madeira. 1986, vol. II, Funchal, 1890, p.897.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

No período de 1649 a 1652 evidenciaram-se dois mercadores: Diogo Fernandes Branco e William Bolton (1696-1714). Diogo Fernandes Branco foi um dos elos do circuito. Sabemos disso através de algumas cartas comerciais, que escreveu aos parceiros entre 1649 e 1652232. A actividade comercial incidia, preferencialmente, na exportação de vinho para Angola, onde trocava por escravos que, depois, vendia no Brasil a troco de açúcar. O circuito de triangulação fechava-se com a chegada à ilha das naus com caixas de açúcar. São múltiplas as operações comerciais registadas na documentação epistolar, que revelam ter-se especializado em duas actividades paralelas: o comércio de vinho para Angola e Brasil, e do açúcar e derivados para adocicar os manjares dos repastos da mesa europeia. Do vinho sabemos ter embarcado 3.339 pipas, sendo 41% destinadas a Angola:

partir de Londres. A ordenança de 1663 estabelecia uma excepção às ilhas da Madeira e Açores que ficaram com o exclusivo do fornecimento de vinho, por via directa. William Bolton234 foi um dos mais destacados mercadores ingleses a usufruir da conjuntura favorável. As colónias inglesas das Antilhas e América do Norte foram o objectivo e o vinho o principal negócio.

DESTINO Angola Barbados Brasil C. Verde Lisboa Londres Outros TOTAL

PIPAS 1368 21 133 25 108 232 1452 3339

Para a década de setenta temos a informação compilada a partir das cartas comerciais de João de Saldanha Albuquerque233, onde o vinho exportado tem como destino principal o Brasil: Destino Baía Pernambuco Cabo Verde

Pipas 90 1675 4

quartolas

4

A presença de William Bolton na Madeira enquadra-se na nova conjuntura comercial favorável à fixação inglesa. Os tratados de amizade celebrados entre Portugal e a Inglaterra propiciaram a presença, que se tornou necessária para o provimento do mercado colonial e foi facilitada pelos actos de navegação de Cromwell. A política mercantilista inglesa estabeleceu que todo o movimento para os portos das colónias deveria ser feito por barcos com pavilhão inglês, sendo a partida e regresso a 232. As 194 cartas que encontrámos nos arquivos do Convento de Santa Clara preservaram-se por iniciativa da madre Doroteia Matilde dos Santos, sobrinha e afilhada do mesmo, que em 1732 era administradora da capela da Encarnação, que o mesmo criara. A partir delas é possível reconstruir parte da rede de negócios em que se integrava este destacado mercador madeirense. Da sua quinta de Santa Luzia ele administrava os bens fundiários da família da Ribeira Brava, mantinha o seu expediente epistolar em dia e satisfazia os pedidos dos seus parceiros de negócio. Além disso era um observador atento das oscilações do mercado e dos produtos em troca, sempre pronto a aconselhar os parceiros da melhor oportunidade para satisfazer os seus pedidos. Mesmo assim estava sujeito a uma vida atribulada e de preocupações: as dificuldades em satisfazer os pedidos de bom vinho, os habituais problemas financeiros, a notícia de um naufrágio ou a tardança dos navios com o açúcar para o fabrico de casca e conservas e o cereal para saciar os famintos. Veja-se Alberto Vieira, O Público e O Privado na História da Madeira, vol. I, Funchal, 1996. 233. Alberto Vieira, O Público e Privado na História da Madeira, vol. II, Funchal, 1998.

EXPORTAÇÃO DE VINHO.1696-1714 ÁREA DESTINO 1696-1700 ANTILHAS Antigua Curaçau 550 Barbados 2.260 Jamaica 0 Martinica Montserrat Nevis 225 St. Thomas St. Christophus AMÉRICA Bóston 180 Do Carolina NORTE N. York 620 N. Inglaterra 300 Virgínia Rhode Island 40 BRASIL 2.200 ÍNDIA 120 BATAVIA EUROPA Inglaterra 2.261 Irlanda 100 ÁFRICA Guiné 10

1701-1714 780 520 5.055 8.033 170 320 160 60 150 190 100 600 300 100 4.450 330 60 -

Duarte Sodré Pereira235, um fidalgo comprometido com o comércio atlântico, dános conta da situação do mercado em princípios do século XVIII. De acordo com o copiador de cartas esteve envolvido no comércio com Inglaterra, Lisboa, Estados Unidos da América, América Central (Barbados, Jamaica e Curaçau) e Brasil. O vinho da Madeira tinha no mercado colonial britânico um destino privilegiado. Os navios do tráfico negreiro com origem em Bristol abasteciam-se de vinho na Madeira236. A América do Norte foi desde a década de quarenta do século XVII um dos principais destinos: New England (1641), New Haven (1642), Boston (1645), Nova York (1687)237. No século XVIII consolidou-se o mercado americano e os 234. A correspondência comercial, para o período de 1696 a 1714, que permite reconstituir esta viragem, bem como a articulação do movimento do porto do Funchal. As Cartas estão publicadas: SIMON, A. L., The Bolton Letters. The Letters of an English Merchant in Madeira, vol. I [1695-1700], Londres, 1965; Idem, The Bolton Letters. The Letters of an English Merchant in Madeira, vol. II(1701-1714), Funchal, 1960, ed. Policopiada de Graham Blandy. ARAGÃO, António, A Madeira Vista por Estrangeiros. 1455-1700, Funchal, 1981. [publica entre as pp.227-393. As cartas de W. Bolton de 1695-1700]. 235. Maria Júlia de Oliveira e Silva, Fidalgos-Mercadores no século XVIII. Duarte Sodré Pereira, Lisboa, 1992. 236. G. D. Ramsay, English Overseas Trade During Two Centuries of Emergence, London, 1957, p.156. 237. Bernard Bailyn, The New England Merchants in the Seventeenth Century, Mass., 1955, pp.78,83, 85;

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demais mercados do mundo colonial inglês. No século XVIII a ascensão continuou até atingir o domínio completo em finais do século XVIII e princípios do seguinte. O vinho e as castas que o originavam foram motivo de grande admiração. A malvasia foi levada em 1736 pelo Dr. William Houston para Charleston, enquanto em 1773 Joseph Aleston fez aí chegar novas castas com igual sucesso238. A segunda metade do século foi o momento de afirmação do vinho madeirense, sendo evidente o empenho dos mercadores norte-americanos no proveitoso comércio de troca por peixe, cereais e aduelas para pipas239. Quando se determinou celebrar o acto de independência dos Estados Unidos da América com o Madeira pretendeu-se afirmar a importância que assumiu na sociedade. Aliás o vinho Madeira está ligado ao movimento de pró-independência. A defesa da livre trânsito de mercadorias, contra o pagamento dos direitos de entrada teve o primeiro incidente em 1768 com 100 pipas de vinho trazidas da Madeira para Boston por John Hancock240. A situação do mercado no século XVIII foi marcada por um franco progresso na procura do vinho, nomeadamente no último quartel, sofrendo um ligeiro recuo entre 1776 e 1782 com a instabilidade gerada no mercado Atlântico e norte-americano com a guerra de independência dos Estados Unidos. O volume total das exportações de vinho não espelha a realidade, uma vez que de imediato se encontrou mercados substitutivos. Os dados sobre a exportação do vinho Madeira disponíveis, ainda que por vezes avulsos, evidenciam a tendência para a subida a partir de 1640, situação que só será invertida, passado mais de um século, a partir de 1814. O período de 1794 a 1801, excluído o ano de 1798, pautou-se por uma alta das exportações de vinho, o que demonstra que a conjuntura de finais do século XVIII e princípios do seguinte foi favorável ao comércio do vinho Madeira. Estamos em fins do século XVIII. A exportação dos vinhos da Madeira tem augmentado muito, principalmente para a Inglaterra, porque, em razão da guerra, lhe estão fechados os portos da Europa. As reservas de vinhos em boas condições de embarque estão esgotadas. O systema do canteiro não é processo applicavel a um largo e impaciente consumo com a prespectiva de grandes lucros. É facto reconhecido que o vinho da Madeira que vae em viagem ás regiões tropicaes volta consideravelmente melhor. Um negociante do Funchal, chamado Pantaleão Fernandes, tendo também já observado que o vinho melhorava muito sendo conservado em logares quentes, principalmente sendo posto ao sol, aquece um armazém de vinhos novos com fo238. Thomas Pinney, A History of Win in America from the Beginnings to Prohibition, Los Angeles, 1989, pp.43, 57-59 239. Cynthia A. Kierner, Traders and Gentlefolk. The Livingston of New York, Ithaca, 1992, p.72; Robert A. East, Business Enterprise in the American Revolutionary Era, London, 1938, p.244; Bernard Bailyn, The New England Merchants in the Seventeenth Century, Mass., 1955, pp.78; Jorge Martins Ribeiro, Alguns Aspectos do Comércio da Madeira com a América do Norte na Segunda Metade do Século XVIII, in III Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1993, pp. 389-402. 240. John W. Tyler, Smugglers & Patriots. Boston Merchants and the Advent of the American Revolution, Boston, 1986, p.115; Hiller B. Zobel, The Boston Massacre, N. York, 1978, p.73.

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gareiros, de noite e de dia; e obtem resultado animador. É o primeiro passo para o novo tratamento. Pouco depois, outro negociante do Funchal dispõe também vinhos novos em armazém onde o calor lhes é communicado por canos de ar quente, e a que chama Estufa. Observa-se que o vinho perde assim o gosto de novo, e pode ser embarcado em menos tempo sem se alterar. Julga-se, com grande enthusiasmo, resolvido o problema; e outros negociantes apressam-se em construir estufas.241 241. Os Três Systemas de Tratamento dos Vinhos da Madeira. Pelo Conde Canavial, Funchal, 1900.

A ilha da Madeira é conhecida pelos Americanos principal mente devido aos seus vinhos; e em anos anteriores, pelas quantidades de cereais que eram importados dos Estados Unidos para a ilha. Nos últimos anos, o número de embarcações aqui chegadas, vindas dos Estados Unidos, diminuiu, embora ainda seja matéria de algum interesse para o nosso comércio. Fitch W. Taylor, The Flag Ship: Or a Voyage Around the World, N.Y., 1840, p.106

Pilar de Banger Postal Antigo


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Porto do Funchal. Gravura do século XIX

… a outras pessoas, normalmente não habituadas aos meandros do negócio, um preço superior é sempre pedido. Ao vinho velho é feito um acréscimo de cinco xelins ou mais por pipa, por cada ano que é conservado, o que equivale à quantidade perdida se derramado, à evaporação e aos juros do capital que permanece não empregue. O preço médio de qualquer qualidade de vinho pouco mais ou menos catorze libras, o que reduz o valor total de exportações muito abaixo de duzentos mil libras, parte do qual serve para pagar produtos manufacturados da Grã-Bretanha, farinha e peixe salgado da América e milho das ilhas Ocidentais que pertencem, do mesmo modo que a Madeira, à Coroa de Portugal. Não é raro os comerciantes da Madeira comprarem mercadorias inglesas, com uma taxa de vinte e cinco por cento de lucro sobre o preço original, indicado na factura dos produtos. Na realidade, a factura é, algumas vezes, alterada na passagem entre a Inglaterra e a Madeira e preços superiores são acrescentados como se tivessem sido pagos, na origem, por cada artigo. Esta prática ilegal é tão divulgada que é dado o nome de “facturas de água salgada” a esses preços alterados. No entanto, os consumidores são os únicos prejudicados, uma vez que o comerciante madeirense faz geralmente o mesmo aumento proporcional, para além do que paga, às mercadorias que tem para vender. George-Thomas Staunton, An Authentic Account of an Embassy from the King of Great Britain to the Emperor of China (...), Londres, vol. I, 1797, pp.69-71

Os Presidentes dos Estados Unidos e o Vinho Madeira O vinho da Madeira foi a partir de meados do século XVI o predilecto dos norte-americanos, pela facilidade na aquisição e pela constatação de ser dos poucos que se adaptava bem ao calor elevado242. O facto de muitos os presidentes norte-americanos terem sido grandes apreciadores, deverá ter favorecido a importância social do vinho Madeira na sociedade norte-americana243. Já os Governadores da colónia foram apreciadores. Hon Robert Monckton, Governador de Nova York, em 1763 comprou três pipas para uso nas recepções244. Na mesma linha seguiu o presidente Ronald Reagan que em 1982 brindou o 71º aniversário com um cálice de vinho Madeira.

242. A. D. Francis, The Wine Trade, Edinburgh, 1973, p.64. 243. T. Bentley Duncan, Atlantic Islands. Madeira, the Azores and the Cape Verdes in Seventeenth-century Commerce and Navigation, Chicago, 1972, pp.250-252. 244. Noel Cossart, Madeira. The Island Vineyard, London, 1984, p.59

Assinatura da Declaração de independência dos Estados Unidos (1776). Pintura de J. Trumbull.


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GEORGE WASHINGTON [17891797] foi um grande apreciador de bebidas alcoólicas, não prescindindo do bom vinho Madeira à mesa, solicitando com frequência o envio da Madeira245. A referência mais antiga ao envio de uma pipa de vinho é de 1759246. No período que decorre até 1783 recebeu 15 pipas de vinho velho da Madeira, cujo custo oscilou entre as 26 e 31 libras esterlinas247.

BENJAMIN FRANKLIM [17061790] impelido pela fama do vinho não prescindiu, na viagem à Europa em 1763, de uma breve estância na Madeira, onde apreciou as belezas e de novo degustou o vinho248.

245. Mount Vernon An Illustrated Handbook, 1974, 85-86, 88; The Writings of George Washington from the Original Manuscript Sources, 1745-1799. John C. Fitzpatrick, Editor. 246. Washington, Writings, Washington, 1931, p.321. 247. Letters to Washington and Accompanying Papers. Published by the Society of the Colonial Dames of America. Edited by Stanislaus Murray Hamilton 248. Ronald W. Clark, A Biography. Benjamin Franklin, N. York, 1983, pp.168 e 175; Esmond Wright(ed.), Benjamin Franklin. His Life as he Wrote it, Cambridge, 1990, pp.162-163.

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JOHN ADAMS [1735-1826] desde 1761 afirmava publicamente a predilecção que tinha pelo vinho Madeira. Em 1774 não hesita em afirmar que: I drank madeira at a great rate and found no incovenience in it249. Em 1784 assegurava ao embaixador português que o Madeira era o vinho mais apreciado pelos americanos, pelo facto de tanto poder ser bebido no Verão e Inverno250.

THOMAS JEFFERSON [17431826], considerado um grande enólogo, encontra-se entre os apreciadores do vinho Madeira. Em 1786 em Paris não prescindia do vinho, tendo solicitado o envio de uma pipa desde os Estados Unidos, uma vez que I would prefer that which is of the nut quality, and of the very best251. Em 1997 uma das garrafas de vinho Madeira de 1800 foi leiloada em Londres.

249. Diary and Autobiography of John Adams, 4 vols, Mass. 1961, 1962: vol. I., pp.213, 274, 352-354, vol.II. pp.134, 136, Vol. II, p.306, vol.IV., p.102; Legal Papers of John Adams, Mass., 1965, pp.174, 194. 250. Adams, Works, VIII, Boston, 1853, p.127. 251. T. Jefferson, Papers, Princeton, 1954, p.274.

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A mudança ocorreu a partir de finais do século XVIII e inícios do seguinte como se pode constatar nos dados estatísticos recolhidos em documentos e estudos.252 Uma rápida visão do gráfico evidencia que o período de apogeu se estendeu entre 1794 e 1818. O declínio, que começou a notar-se em 1814, só se tornou claro em 1830. Desde 1640 a tendência era de subida vertiginosa pelo que já em 1700 o número de pipas exportadas se elevava a 10.000, ou seja cinco vezes mais do que em 1646. Entre 1730 e 1734 notou-se uma quebra a que se seguiu uma subida como elucidam os dados de 1777 e 1778, mantendo-se a tendência ascendente até inícios do século XIX, cortada apenas por momentos de baixa bastante acentuada como sucedeu em 1785, 1792 e 1811. O período de 1794 a 1801, excluído o ano de 1798, pautou-se por uma alta das exportações do vinho. A evolução estabilizou, evidenciando que a conjuntura de finais do século, com as guerras europeias, foi favorável ao comércio do vinho Madeira. O período de 1802 a 1818 foi marcado pela contracção do volume de exportações motivado pelas mudanças ocorridas no continente europeu, tornando-se mais evidente nos anos de 1804, 1808, 1811 e 1816. O quadro das exportações revela que o mercado do vinho da Madeira não era constante, sendo pautado por oscilações resultantes das condições dos mercados consumidores e dos europeus, concorrentes com a Madeira. Apenas o período de 1794/1802 foi pautado por alguma estabilidade. As alterações do mercado colonial, a partir da independência dos Estados Unidos da América do Norte, reflectiram-se no mercado do vinho. Raras vezes as dificuldades tinham origem na produção, situação que só se torna evidente na segunda metade do século XIX. As guerras europeias conduziram ao encerramento das rotas que ligavam o mundo colonial aos mercados europeus. As ilhas ficaram de fora e aproveitaram a oportunidade para a venda dos vinhos. Na Madeira esgotaram-se os stocks de vinho de exportação, socorrendo-se dos vinhos de inferior qualidade do norte, quase sempre consumidos localmente ou queimados para aguardente. Para corresponder a tão desusada procura apostou-se na expansão da viticultura e descuidou-se o tratamento e envelhecimento dos vinhos. As estufas resultam da conjuntura e firmaram-se como solução para corresponder à incessante procura. Procedeu-se à aceleração de envelhecimento do vinho com o recurso ao calor artificial de forma a não impacientar os exportadores e bebedores. Há alguns anos, os vinhos da Madeira caíram em descrédito e circunstâncias especiais foram motivo suficiente para a mudança de opinião e gosto entre aqueles que em tempos tinham defendido a produção na ilha. Isto porque durante o longo período da guerra que terminou em 1814, a procura do vinho por navios que por cá passavam era enorme. Assim, as quantidades que restavam nas adegas eram apenas de vinhos inferiores do Norte que têm a reputação ou má fama de serem exces-

sivamente ácidos e, para além disso, se revelarem mais pobres e de qualidade inferior. No entanto, os proprietários não conseguiram resistir à tentação de se aproveitar da oportunidade que lhes foi dada atender aqueles que encomendavam vinho a 70 l. ou 80 l. por pipa, não obstante ser vinho de 20 l. por pipa todo o que lhes restava. Tal era, na realidade, o valor real. Eles recorreram a meios artificiais para ultrapassar a aspereza de sabor e a acidez destes vinhos. Para este fim, foram introduzidos os fornos (estufas) de modo que, mantendo o vinho num lugar fechado e restrito - talvez a uma temperatura de cem graus - ele poderia adquirir uma maturação prematura e falsa e adquirir uma enganadora aparência de idade. Geralmente pensa-se que este processo forçado tem como efeito deteriorar o verdadeiro sabor natural de todos os vinhos. E é mais do que suspeito que, desde a altura em que foi experimentado pela primeira vez, tem sido aplicado alternadamente a vinhos de todas as classes. Nenhum cuidado ou conduta posterior restitui ao vinho o sabor genuíno quando ele foi assim prejudicado e afectado. Pessoas que percebem do assunto consideram a temperatura do forno ou “estufa” se mais gradualmente aplicada, se continuasse por mais tempo e com uma moderação mais sensata, podia resultar de modo benéfico e produzir resultados como os que uma viagem às Índias Orientais e Ocidentais se julga geralmente produzir, o que é normalmente considerado um método excelente de melhorar o vinho, conduzindo-o a um estado de alta perfeição. Alguns escritores afirmam que, em consequência do modo pelo qual vinhos inferiores são alterados em estufas, estes adquirem um sabor seco a fumo o que nunca consegue ser posteriormente erradicado. Destas qualidades de vinhos exportam-se anualmente grandes quantidades para Hamburgo onde, depois de submetidas a um processo que as faz parecer muito a “Hock”, são vendidas como tal. É presume-se que uma parte considerável desta imitação de “Hock” é enviada para o mercado Britânico. Quanto aos vinhos produzidos ao longo da costa sul da Madeira, considera-se que são raramente e se possível equiparados em delicadeza e sabor, aroma e pureza e suavidade a qualquer outro vinho. Quanto às uvas e vinhos principais da ilha, as uvas nunca são exportadas e uma grande parte dos vinhos é, na realidade, muito pouco conhecida fora do país.253 Em 1814, tendo em conta o ano próspero de 1813, as autoridades e homens de negócio reclamavam por medidas proibitivas da entrada de aguardente como solução para salvar a saída de vinho que sofreu uma quebra acentuada em relação a 1813254. Idêntica preocupação ocorreu em 1815255. Além disso a aluvião e a má colheita do ano corrente (entre 4 a 5.000 pipas) repercutiram-se nas saídas de 1816. As dificuldades dos anos de 1819 a 1823 resultaram dos problemas de escoamento da produção desde 1818, permanecendo em armazém mais de 20.000 pipas de vinho256. O comércio decaiu mais de vinte mil pipas de vinho se acham em suas

252. Nomeadamente em AHU, Madeira e Porto Santo, nº 293, 11275, 972, 1432; ANTT, AF, nº 80/4; BNL-SR-MS 219, nº 29. D. João da Câmara Leme, Apontamentos para o Estudo da Crise Agrícola, Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estugas...; A.R. de Azevedo, ibidem, p. 718; Elucidário Madeirense, vol. II, pp. 148/54; F.T. Valdez, Africa Ocidental, Lisboa, 1864; Correio da Madeira, nº 116, p. 1; Diário de Notícias, nº 6, pp. 1-2; Alain Huetz de Lemps, Le Vin de Madere, Grenoble, 1989; Benedita Câmara, A Economia da Madeira (1850-1914), Lisboa, 2002.

253. 254. 255. 256.

E.S.Wortley, A Visit to Portugal and Madeira, Londres, 1854, pp.308-317. ARM, RGCMF, t. 14, fols. 78/82, 87/89. Idem, t. 14, fols. 126/134. Idem, t. 14, fols. 224-225vº.

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mãos, dos proprietários e negociantes...257. Mais uma vez reclamou-se a proibição de entrada das aguardentes. Segundo A. Silbert258 o período de declínio do “ciclo do vinho” começou em 1821 embora os primeiros sintomas já se fizessem sentir entre 1814 e 1817. A relação entre a produção, consumo interno e exportação é-nos referida em 1821259: A Madeira já em anos de extraordinária colheita produziu mais de 40.000 pipas de vinho e também 20.000 em outros anos, e por isso pode a sua produção média reputar-se de 30.000 pipas, das gerais se embarcavam 12 a 18 mil pipas e o resto se consumia nas tabernas e uso dos seus habitantes. A presença e dominância inglesa no comércio da ilha ficaram reforçadas nos inícios do século XIX com a ocupação da ilha e os tratados que entretanto foram estabelecidos. Assim de acordo com o tratado de 1810 os ingleses ficaram autorizados a adquirirem o vinho em mosto, o que até então estava vedado, favorecendo a sua posição. Os comerciantes Britânicos controlam, para seu interesse, os cultivadores de vinha, fornecendo-lhes de antemão tudo o que eles necessitam, nos intervalos da vindima e nas estações mais baixas. Os seus negócios com os habitantes portugueses do Funchal também devem ser intensos; exceptuando este facto, parecem não existir muitas relações sociais entre eles.260 A conjuntura favoreceu a expansão da cultura, mas quando os mercados europeus voltaram à normalidade a Madeira entrou em colapso. O período de 1819 a 1823 foi crítico para a economia da ilha. Os anos de 1824 e 1825 evidenciam uma passageira melhoria do volume das exportações, uma vez que 1826 se iniciou a queda que se acentuou em 1830 e 1831, recuperando-se entre 1832 e 1846. As oscilações são fruto das mudanças ocorridas no mercado consumidor com a substituição do mercado colonial pelo do Norte da Europa. A partir de 1847 tivemos nova quebra que se acentuou em 1852 com a crise provocada pelo oídio. Os reflexos mais evidentes da crise só se fizeram sentir em pleno nos anos sucedâneos de 1853 a 1865, atingindo-se no último o valor mais baixo das exportações com 536 pipas. A tendência de descida manteve-se. A crise provocada pela filoxera desde 1872 não se reflectiu de forma tão clara no comércio de vinho, uma vez que a tendência ascendente apenas se ressentiu entre 1878 e 1883. A situação deve ser fruto da disponibilidade de vinhos em armazém261. A denúncia disto encontra-se numa representação às cartas de 1823. O comércio decaiu, mais de vinte mil pipas de vinho se acham em suas mãos, dos proprietários e negociantes…. Enquanto tardavam as soluções os campos permaneceram abandonados devido à emigração dos agricultores. A cultura da vinha entrou em franco declínio, acelerado com as pragas do oídio em 1852 e da filoxera em 1872.

A crise, pela qual acaba de passar este Districto, não foi exclusivamente devida à moléstia que tão violentamente attacou os seus vinhedos. De há muito que ella se preparava, pelo descredito que os vinhos desta ilha foram pouco a pouco grangeando no estrangeiro, com o abuso inconsiderado das estufas. Com o fim de communicar, artificialmente, aos vinhos qualidades que só o tempo lhes pôde dar, introduzio-se na ilha, no principio deste século, o processo de sujeitar os vinhos de producção recente a altas temperaturas (60º ao mais) por espaço de alguns mezes, em casas ou estufas preparadas para esse fim. Por esta practica lançou-se imprudentemente nos mercados estrangeiros uma grande porção de vinhos, muitos dos quaes mal preparados, e estas duas circunstancias provocaram as desconfianças dos consumidores, diminuíram a procura e accarretaram uma baixa sensível no preço deste género. Como os vinhos fossem a fonte exclusiva de receita para este Districto faltaram quasi repentinamente os meios de dar à cultura da videira a assiduidade e perfeição de amanhos que ella requeria, e a producção baixou numa progressão assustadora.262 O retrato da crise foi traçado em 1873 por Álvaro Rodrigues de Azevedo: e então o predomínio dos negociantes ingleses de mais a mais fortalecido pela invasão e ocupação desta ilha por tropas britânicas se enraizou, forte e decisivamente na Madeira. - Os extraordinários preços a que os vinhos desta ilha foram subindo desde o fim do século passado e o que sustentaram no primeiro quartel do presente, não deixavam sentir essa fuga; davam para tudo; a Madeira nadava em oiro; mas, logo que os vinhos decaíram, os proprietários territoriais habituados a largas despesas, que os meios de que dispunham já não comportavam, recorreram ao expediente das antecipações, havendo desses negociantes à contas das futuras colheitas, quanto precisavam géneros alimentícios, fato, calçado, mobílias, dinheiro, tudo; e aqueles poucos que não estavam nestas circunstâncias e os colonos agricultores vendiam aos mesmos negociantes seus vinhos, a prestações mensais, de sorte que uns e outros porque uns e outros, porque essas casas comerciais britânicas os quasi ricos compradores dos vinhos, e árbitros supremos do preço deles, todos lhes ficaram na mais completa sujeição; o vinho reduzido ao ínfimo valor; os proprietários e agricultores afrontados de penúria; e o negociante inglês auferindo no estrangeiro todos os lucros, ainda vantajosos do negócio de vinhos da Madeira. A deplorável tirania deste humilhante monopólio se eximiam somente duas ou três casas portuguesas que de própria conta exportavam os vinhos de suas terras e outros comprados, tendo estas casas, por vezes, patriótica e generosamente mantido os preços, para que não descessem ao ínfimo, o que o mercador britânico pretendia impor. Assim mesmo a Madeira chegou a miseranda decadência; o vinho único produto a que se dedicava, era ao mesmo tempo o recurso e a sua desgraça, o seu tesouro e a sua pobreza. As transformações ocorridas no decurso da segunda metade do século XIX alte-

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257. 258. 259. 260.

Idem, t. 15, fols. 263/4; Arquivo da Assembleia da República, Cortes, maço 92, nº 32. Op. cit. ARM, RGCMF, t. 15, fols. 100vº-104. George-Thomas Staunton, An Authentic Account of an Embassy from the King of Great Britain to the Emperor of China (...), Londres, vol.I, 1797, pp.69-71. 261. O vinho em depósito nos anos de 1852 e 1853 era, respectivamente, 5628 pipas e 3284 [Semanário Oficial, nº.8]

262.. Relatório Sociedade Agrícola do Funchal. Por Eduardo Grande, Agrónomo addido ao Governo Civil do Distrito do Funchal, Funchal, 1865

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Alfândega do Funchal. 19820. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.

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raram o panorama do vinho Madeira. A cultura perdeu importância no mundo rural em favor da cana sacarina. Apenas a permanente demanda do vinho nos mercados europeus obrigou o madeirense a retornar à cultura da vinha. A Inglaterra e Alemanha disputavam a posição cimeira nas exportações. As guerras mundiais alteraram a situação e criaram sérias dificuldades, provocadas pela paragem da navegação oceânica e perda do mercado alemão, um dos mais importantes desde finais do século XIX263. Durante a Primeira Grande Guerra os efeitos da guerra submarina fizeram-se sentir nas exportações de vinho para os anos de 1917 e 1918. Em 1919, consumadas as pazes, o vinho retomou o ritmo de exportações em crescimento exponencial até 1939. Na década de trinta o vinho foi uma das culturas mais afectadas pela crise. Em 1935 Salazar, em carta ao Dr. João Abel de Freitas, de 23 de Maio e 1935, evidencia um correcto conhecimento da situação e ideias claras sobre a forma de reabilitar o comércio do vinho: Para já tem pelo menos que regularizar-se a exportação que tem sido uma vergonha. Conseguimos a muito custo reservar para a Madeira no acordo com a França um contingente muito superior à sua exportação e esse facto permitia o negócio normal em óptimas condições. Pois a falta de seriedade de 263. Os dados mais importantes sobre o vinho no século XX podem ser encontrados em: José Tavares, Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, Funchal, 1953, pp.33-36; PESTANA, Eduardo Antonino, Ilha da Madeira. II. Estudos Madeirenses, Funchal, 1970, As riquezas dos vinhos licorosos da Madeira, pp.233-236; Ramon Rodrigues, Questões Económicas, vol. II, Funchal, 1955, pp.87-89, 118-121; Benedita Câmara, A Economia da Madeira (1850-1914), Funchal, 2002.

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alguns teve a arte de complicar o problema que naquelas condições nem chegava a ser problema. Agora é preciso intervir e fixar o critério das quantidades a exportar por cada exportador. Para a falta de juízo e de seriedade é que é muito difícil o Governo arranjar remédio. A Segunda Guerra Mundial (1939-45) marcou novo momento de dificuldades para as exportações, por falta de navios no porto do Funchal264. O Governador Civil, José Nosolini, em carta de 27 de Novembro ao Ministro do Interior, considerava a crise do vinho como algo intransponível: Mas cana de assucar, vinhos, bordados, serão por muito tempo intransponíveis montanhas de dificuldade para a acção governativa. A recuperação foi lenta, uma vez que só na década de sessenta se atingiu os valores de 1939. A tendência ascendente manteve-se até ao final dos anos setenta, altura em que entrou de novo em queda. A situação da última década do século foi de crescimento, continuando na nova centúria. Tal como afirmava Antonino Pestana265 os vinhos de grande qualidade como os da Madeira tinham sempre lugar à mesa dos tradicionais apreciadores: Finda a guerra, esvaziados todos os stocks, os vinhos licorosos da Madeira, recomendados sempre pela sua inexcedida qualidade, têm a sua hora no comércio do mundo. O processo autonómico a partir de 1976 contribui para uma mudança radical no panorama sócio-económico madeirense em que o vinho e a banana concorrem na produção e exportações. A perda da posição favorável da banana no mercado continental levou à desvalorização em favor do vinho, que assumiu uma posição dominante nas exportações, tornando-se num dos principais factores de animação da economia da Madeira. A perda de antigos mercados foi compensada com o ressurgimento de novos ou a afirmação de outros como foi o caso do Japão. A proibição do vinho a granel a partir de 2000 condicionou a evolução dos mercados de destino desta forma de exportação, não se reflectiu de forma significativa nas exportações.

264. Eco do Funchal, nº.7, 13 de Abril de 1941; Diário de Noticias, 21 de Julho de 1940, 28 de Fevereiro de 1943 265. PESTANA, Eduardo Antonino, Ilha da Madeira. II. Estudos Madeirenses, Funchal, 1970: As riquezas dos vinhos licorosos da Madeira, p.235.

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As instituições fiscais

A

O senhorio, entre 1433 e 1497, e a coroa empenharam-se no estabelecimento da estrutura fiscal. O primeiro interveio por meio do almoxarife, que tinha por missão fazia cumprir o estatuído no foral henriquino e regimentos senhoriais. O capitão foi um dos usufrutuários, recebendo a décima parte das rendas senhoriais. Com o governo do infante D. Fernando a estrutura fiscal mostrou-se inadequada ao progresso atingido pela economia e sociedade madeirenses, tornando-se necessário criar uma nova capaz de superintender a Fazenda Real na ilha. Foi assim que surgiu a Contadoria. Em 1477 o surto das trocas com o exterior, motivado pelo progresso da cultura açucareira, conduziu a novo reajustamento com o aparecimento das alfândegas, uma para cada capitania, ampliada em 1483, com dois postos alfandegários na costa além de Câmara de Lobos. A coroa lançou a partir de 1499 um adequado sistema fiscal assente em duas instituições: os almoxarifados da alfândega e dos quartos. A primeira intervinha no movimento de entradas e saídas e na cobrança dos respectivos direitos, enquanto a segunda estava vocacionada para a arrecadação dos direitos que oneravam a colheita de açúcar. Finalmente em 1508 deu-se nova reforma do sistema fiscal na Madeira com o estabelecimento da Provedoria da Fazenda. Foi também com D. Manuel que se construiu a chamada Alfândega Nova do Funchal que substituiu a velha que funcionava em condições precárias no Largo do Pelourinho. A Alfândega manteve-se aí até 1961, passando no ano imediato a funcionar em novas instalações. De entre os direitos arrecadados temos o dízimo sobre os rendimentos fixos ou qualquer valia, sendo na época de senhorio de usufruto do donatário e da Ordem de Cristo. À fiscalidade senhorial sobrepõe-se outra assente nas principais produções com valor comercial. Dos cereais retirava-se o dízimo das colheitas, enquanto que no vinho se pagava uma determinada quantidade do que fosse posto à venda nas tabernas, conhecido como a imposição do vinho (1485), cujo valor ia na totalidade para as obras de enobrecimento da vila do Funchal. A Alfândega do Funchal, dependência da Junta da Fazenda da ilha até 1834, controlava o movimento do porto do Funchal e a arrecadação dos direitos de entrada e saída. O Juiz mais velho controlava toda a acção e superintendia a Mesa Grande da Alfândega, onde se concediam as fianças para o embarque de entrada ou saída das mercadorias266. Os guardas do número da alfândega267 zelavam pela regularidade do serviço, impedindo os roubos, contrabando268 e actos fraudulentos269. O feitor da

Alfandega do Funchal. 2002. Edifício inaugurado em 17 de Julho de 1962. Colecção do autor

266. 267. 268. 269.

ANTT, PJRFF, nº 100/114. Idem, nº 12/17 (distribuição dos guardas de número). Idem, nº 237, fols. 201-202vº. Idem, nº 237, fols. 187-191vº (1782.Out.5 - regimento dos guardas de número).

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descarga assinalava a entrada270 das mercadorias apondo em cada a respectiva marca271, o selador o selo272 e o fiel dos armazéns manifestava a carga em armazém, das bebidas alcoólicas, por exemplo273. O feitor do embarque ordenava a saída das mercadorias após a escrituração e lançamento do respectivo direito274. Todas as actividades275 e a arrecadação dos direitos de entrada e de saída estavam regulamentadas por regimentos, alvarás e as pautas gerais da Alfândega276. No século XIX a cobrança dos direitos de exportação estava regulamentada por duas pautas: a geral e a inglesa. A última, feita de acordo com os tratados de comércio com a Inglaterra (1810), determinava privilégios especiais aos ingleses. Em 1837 a nova pauta mereceu a contestação dos madeirenses, por permitir a entrada livre de vinhos e aguardentes do continente. A pertinácia dos madeirenses levou a uma nova em 1841, que não alterava a legislação especial para a Madeira quanto ao vinho e aguardentes. Seguiram-se outras pautas em 1856, 1860, 1885 e 1887277, que mereceram igual contestação.

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PREÇO E DIREITOS DA PIPA DE EXPORTAÇÃO.1650.1699 Tipo vinho

Beberagem

Superior Inferior

Todos tipos Malvasia Aguardente Vinagre

1650 Preço Direitos 6.000 8.000

$666 $888

9.000 20.000 3.600

1$000 2$220 $400

1682 Preço Direitos

12.000 14.000 34.000 6.000

1.333 1.444 2.666 666

1687 Preço Direitos

8.000 10.000 20.000 4.000

888 1.111 2.222 444

Preço

1699 Direitos

18.000 24.000 40.000 6.000

2.000 2.666 4.444 666

Fonte: T. B. Duncan, Atlantic Islands, Chicago, 1972, p.44

No último quartel do século XVII voltámos a ter informação sobre o valor pago nas exportações do vinho. Na década de setenta a tendência era para a subida, contrariada em 1779 por dificuldade de escoamento do vinho. A situação manteve-se na década seguinte, motivada pela grande demanda e consolidação do mercado norte-americano. DIREITOS DE SAÍDA NA ALFÂNDEGA DO FUNCHAL.1775-1820

Direitos de saida e entrada A primeira referência sobre o lançamento dos direitos no vinho por saída data de 1567, altura em que foi lançado um direito de 1% sobre o vinho que se carregasse para fora, ou, como se referia, certa cousa por almude no que se vender278. Em 1647279 o direito passou para 400 réis a pipa e em 1669280 adicionou-se mais um cruzado, como tributo para as despesas da guerra. Depois só em 1777 voltamos a ter referência ao imposto, quando em Janeiro se fez o tabelamento dos direitos para o ano corrente. A partir de então são assíduas as informações sobre o modo como se deduziam os direitos. A partir do século XVII os direitos cobrados à saída da alfândega deixaram de ser fixos, passando a ser determinados de acordo com a qualidade, distinguindo-se os vinhos para abastecimento das tripulações, de menor qualidade, o vinho seco, a Malvasia, aguardente e o vinagre. Os direitos eram estabelecidos de acordo com o valor da pipa de exportação. Para a segunda metade do século XVII dispomos de alguns dados. 270. 271. 272. 273. 274. 275. 276.

277. 278. 279. 280.

Idem, nº 39/72. Idem, nº 117/145. Idem, nº 85/90. Idem, nº 80/84, Idem, nº 245/255. Idem, nº 240, fols. 129vº-130. Destas últimas temos conhecimento das de 1782 [Idem, nº 242B.], de 12 de Outubro de 1831 [Vide Correio da Madeira, nº 115, pp. 1/5.], de 1836 [ANTT, AF, nº 242B], de 10 de Janeiro de 1837 [Vide Gazeta da Madeira, nº 60, p. 1.], de 11 de Março de 1840 [Idem.], de 23 de Maio de 1843 [Correio da Madeira, nº 115, p. 1/5.], de 5 de Agosto de 1850. [Idem, nº 103/7, 109/110] e a carta de lei de 12 de Dezembro de 1844 e 20 de Abril de 1845 [Vide Gazeta da Madeira, nº 60, p. 1; J. Silvestre Ribeiro, Apontamentos sobre a cultura do vinho na Madeira, in Correio da Madeira, nº 113, pp. 2/4.]. Cf. o debate havido na Associação Comercial em Rui Carita, Associação Comercial e Industrial do Funchal, pp.48-57. ARM, RGCMF, t. velho, fols. 123-123vº. Idem, t. 6, fols. 80vº-81. Idem, t. 4, fols. 44-45.

Anos 1775-1776 1777 1778 1779 1780-1783 1784 1785 1786-1787 1788 1789 1790-1791 1792 1793 1794 1795 1796 1797 1798-1800 1801-1802 1803 1808 1809 1810 1811 1813 1816 1820

Vinho Seco 4000 4400 4000 3800 4000 4800 5600 5600 4800 4400 5800 6000 6000 5500 5800 6000 6000 6500 5000 5000 6000 7000 7000 7600 7600 7500

Malvasia 8000 8800 8000 7600 8000 11200 11200 11200 11200 11200 9600 11600 11700 12000

Aguardente 4400 5000 4400 5000 5000 5000 5000 5830 5430 5430 5820 7000 7000

Vinagre 1200 1200 1200 1200 1200 1200 1200 1400 1200 1200 1400 1600 1600

11600 11200 12000 13200 13200 11000 12000 14000 14000 15200 15200 15000

7000 7000 7000 7000 7000

1600 2000 2000 2000 2000

6000 6000 6000 6000 6000 6000

2000 2000 2000 2000 2000 2000

A Junta procedia todos os anos entre Novembro/Janeiro à dedução dos preços correntes da pipa de vinho281 estipulando o valor dos direitos de saída, depois deve281. ANTT, PJRFF, nº 237, fol. 41vº.


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Sala do Despacho da antiga alfândega do Funchal. Foto Duarte Gomes

riam ser remetidos ao Erário Régio para aprovação. No aviso referia-se, nomeadamente, os preços correntes da pipa de vinho282, o aumento ou diminuição da colheita283 e o estado do comércio do produto284. A aprovação do Erário Régio tardava, obrigando a Junta a aplicar a nova tabela dos direitos com carácter provisório, enquanto não houver resolução em contrário, dizia-se. Em 15 de Setembro de 1798285 a nova tabela de direitos, foi enviada para aprovação e só a 2 de Junho de 1799 mereceu o acordo do Erário. O pedido de 24 de Outubro de 1801286 teve a 30 de Dezembro a requerida aprovação. Se a Junta tardasse em enviar o mapa e fizesse assento do novo direito estipulado sem dar conta ao Erário era repreendida, tal como sucedeu em 1792287. Na Alfândega do Funchal estava montado um complicado sistema administrativo para arrecadação dos direitos. A Junta erxercia vigilância e controlo directo dos livros de escrituração adoptados288, através da solicitação permanente dos mapas de saída do vinho289. Em ordem ao administrador da Alfândega de 1790290 referia-se que no fim de cada mês uma exacta do vinho que tiver embarcado no mês, declarando 282. 283. 284. 285. 286. 287. 288. 289. 290.

ANTT, PJRFF, nº 942, p. 139, p. 139, 171, 228. Idem, nº 942, p. 143; nº 411, pp. 238/9, 215. Idem, nº 411, pp. 256/7. Idem, nº 942, p. 191. Idem, nº 942, p. 212. Idem, nº 761, p. 171. ANTT, AF, nº , fol. 29-60. ANTT, PJRFF, nº 406, fols. 31vº-32; idem, AF, nº 241, fols. 166, 217-218; nº 238, fol. 35vº. Idem, nº 403, p. 65.

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os nomes de cada navio, de seu capitão, seu destino, e o número de pipas que leva. Em 1824291 algo corria mal na escrituração pois perante uma demanda entre o Juiz da Alfândega e o Comandante da galera inglesa Larkins, acerca da existência a bordo de mais de 5 pipas de vinho baldeados da galera Isabel Sompson, se descobriu uma fraude na escrituração do vinho embarcado. O Juiz clamou por uma reformulação dos métodos de escrituração dos livros de registo de exportação de modo a evitar danos à Fazenda Real. Os estrangeiros e, de modo especial, os ingleses serviam-se de vários subterfúgios para se subtraírem ao pagamento dos direitos. A um deles se refere em 1779292 num informe sobre os direitos do vinho, onde se dizia que o vinho era comprado sem preço, solicitando ao Juiz da Alfândega a autorização ou franquia para a saída, ou, então, abriam a exportação sobre a fiança de 4.000 réis por pipa, valor que ficava depois da avaliação. A intenção era não tanto somente para fraudar a Real Fazenda, mas para com o baixo preço o fazerem toda a venda dos portugueses, quando na verdade nenhum dano têm os ingleses porque como os vinhos dão de comissão, e os carregão pelo duplicado preço, porque os comprão posto a bordo, nem lhes é irregular para os assentos que pateticamente querem introduzir, nem para prejuízo, pois só os pobres e ignorantes comitentes o tem, e estes da ilha o grande lucro. O suborno poderia ocorrer, como sucedeu ao ex-provedor, então Juiz da Alfândega: Estes estrangeiros estão muito mal acostumados do tempo da provedoria, cujo provedor, agora juiz da alfândega sendo ainda seu conservador lhes fazia tudo quanto querião... chamava-os à Mesa para eles mesmos dizerem os preços dos vinhos que havião de despachar, quando e só deverião ser chamados as pessoas justas e desconhecidas. Perante as desordens que se repetiam de ano para ano, só uma solução seria possível com o estabelecimento do preço de custo invariável, como da pauta, ou seja a fixação de um direito de saída293. A medida de preço fixo havia sido solicitado em Outubro de 1799 pelos comerciantes numa representação em que reclamavam nova regulamentação segundo o processo de 1776 em que o preço foi fixado em 4.200 réis294. A Junta decidiu taxar os direitos por um período de quatro anos com a finalidade de ao fim do período apresentar conta da necessidade de os aumentar ou diminuir. Os direitos ficaram assim distribuídos: 4.000 réis para o vinho de embarque, 8.000 réis para a Malvasia, 5.000 réis para a aguardente 1.200 réis para o vinagre295. 291. 292. 293. 294. 295.

ANTT, AF, nº 240, fols. 129vº-130. ANTT, PJRFF, nº 411, pp. 120/3. Idem, nº 414, pp. 130/133. Idem, nº 941, fol. 10. Idem, nº 770, pp. 79/80.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Por alvará de 31 de Maio de 1800 foi criado um novo imposto que, por decreto de 6 de Setembro de 1800, teve aplicação na Madeira. Os madeirenses, habituados ao antigo sistema, protestaram junto da Junta em 14 de Outubro de 1801. A Junta em conta de 20 de Novembro alude ao protesto anuindo com as pretensões porque para além das muitas e pesadas penções que sofre o comércio é excessivo o preço dos vinhos, o que é muito bastante para retardar as suas operações e redefinir (sic) (reflectir?) no rendimento n’alfândega que depende de uma pronta e excessiva exportação296. Por provisão de 4 de Maio de 1802297 mandou-se aplicar o valor dos direitos do vinho em outros géneros manufacturados estrangeiros, diminuindo em uns e acrescentando em outros298. A Junta, em conta de 22 de Junho299, refere a provisão comprometendo-se a averiguar os géneros onde deveria incidir o aumento300. A Junta, antes de conhecida a provisão, enviara outra aludindo que a diminuição muito facilita o comércio e anima em consequência a agricultura do paíz 301. De acordo com representação da Junta de 1815302 os direitos de exportação aumentaram desde 9 de Outubro de 1803 em 1.200 réis por pipa sendo a soma usada na construção das muralhas das ribeiras. Aqui refere-se o modo como se regulavam os direitos: Além d’aqueles impostos estabelecidos pelas sabias leis de 27 de Junho de 1808, 3 de Junho de 1809, foi maior aumento dos direitos por saída, resultado acontecido de régia provisão de 28 de Setembro de 1808, que tornando arbitrário os preços de 50 rs por cada pipa de vinho seco, 100 rs por cada dita de malvasia, 600 rs por cada dita de aguardente da terra e de 2.000 rs por pipa de vinagre, antes fixo por decreto de 11 de Agosto de 1802, até a quantidade 3.700 rs sobre cada uma de vinagre, que se tem cobrado na Alfândega, cuja diferença por si só é muito maior que o produto calculado dos dois impostos consultados. Em 1817 os comerciantes estavam em desacordo com a provisão de 28 de Setembro de 1808303 pretendendo um direito fixo de 5.000 réis por pipa, de acordo com o estipulado em 11 de Agosto de 1802. A Junta deu em 20 de Junho304 conta do requerimento dos comerciantes em ofício ao Governador, informando, que no prosseguimento das medidas de diminuição dos direitos do vinho, havia sido compensada a redução com o aumento em 10% da importação de fazendas de luxo. A medida guiou-se por certos princípios: O país que consome o género, é quem paga os direitos, que se lhe carregão, mas sendo certo que quanto menos for o custo, mais será o consumo, é política de acção que exporta, anima com baixa direitos a saída,

pois sendo este mais, lucra sem o que baixa a indústria e cultura do paíz. Perante a crise estabeleceu-se em 1825 uma redução nos direitos para metade305. Em 1832 o escrivão da Fazenda, J. Eustáquio de Sousa, face à proibição da entrada da aguardente, decidiu onerar os vinhos com os direitos pagos pela aguardente entrada, beneficiando o sogro que era cobrador da dízima, e negando-se a cumprir a lei de 28 de Novembro de 1821306. Contra isso manifestou-se O Sentinela do Erário no Patriota Funchalense307, tendo recebido o apoio do redactor do jornal, N. C. Pitta308, em comentário: Quando todas as nações isentão de direitos os géneros, que são o objecto do seu comércio e cuja exportação é necessária para promover a riqueza dos povos, nesta nossa província vemos que dependendo o giro mercantil não só a sua prosperidade, mas sua subsistência, de que se exportem nossos vinhos, único objecto de nosso comércio, a ambição, ou pouca inteligência do governo, não tem cessado de dificultar indirectamente aquela exportação, exigindo direitos exorbitantes, que parecem destinados a definhá-la, e que na verdade a tem nestes últimos anos entorpecido309. Em reunião dos comerciantes foi decidido manter os direitos sendo o excedente usado na obra de construção do molhe do porto do Funchal. Tal procedimento mereceu o desacordo de Hum Observador Imparcial que considerava de pouca utilidade para o comércio a construção do molhe, sendo mais útil a diminuição dos direitos310. Para O Mercator o projecto de molhe era uma gaiola para apanhar melros, pois a ilha necessitava mais de protecção do comércio, através da diminuição dos direitos e os encargos na Alfândega311. Para Hum Vilão do Campo o projecto do molhe era útil mas podia ser feito sem a oneração dos vinhos312. Finalmente Hum Cidadão não via qualquer utilidade na diminuição dos direitos do vinho, pela simples razão de que daí não vinha benefício algum com a baixa de 8.700 réis para 5.000313. De acordo com a Pauta Geral de 1837 o direito de exportação passou para 4.800 réis, juntando-se, por lei de 25 de Abril de 1845, mais 7% e, por lei de 12 de Dezembro de 1844, os 5% adicionais e 3% para a caixa dos emolumentos, perfazendo um total de 5.536 réis314 no vinho exportado para os portos estrangeiros, enquanto que para o continente e colónias ficava por apenas 2.076 réis. Uma representação dos deputados da Madeira sobre a extinção dos direitos do vinho apresentada em Cortes em 1867 levou à aprovação de uma medida favorável, votada em sessão das Cortes315.

296. 297. 298. 299. 300.

305. 306. 307. 308. 309. 310. 311. 312. 313. 314. 315.

368

301. 302. 303. 304.

Ibidem, nº 762, pp. 10/11. Idem, nº 762, pp. 36/7, em nota à margem refere tal provisão registada no Lº 3 de Ordens do Erário Régio, fol. 131. Idem, nº 762, pp. 36/7. Idem, nº 762, pp. 36/7. Ibidem, nº 762, pp. 36/7, em nota à margem refere que foi decidido por provisão de 13 de Setembro de 1802 que acompanha o decreto de 11 de Agosto que fixa os direitos - Lº 3 das Ordens Expedidas pelo Erário Régio, fol. 131. Ibidem, nº 762, p. 52, refere provisão de 13 de Setembro de 1802. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3714. ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 65-65vº, refere à margem que está no livro 3 de ordens expedidas pelo Erário Régio, fols. 175/6. Ibidem, nº 763, fols. 65/65vº.

Rui Carita, Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, 1982, p.99 Patriota Funchalense, nº 163, pp. 1/3. Ibidem, nº 158, pp. 1/3. Idem, nº 161, pp. 1/2. Idem, nº 161, p. 1. Idem, nº 163, pp. 1/3. Idem, nº 165, pp. 3/4. Idem, nº 165, p. 2. Idem, nº 167, pp. 2/3. Vide Gazeta da Madeira, nº 68, p. 1; Correio da Madeira, nº 113, pp. 2/4. Gazeta da Madeira, nº 60, p. 1.

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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

Portão dos Varadouros por onde entravam as mercadorias para a alfândega. Foi demolido em 1911. Museu de Photographia Vicentes

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Porto do Funchal. Postal antigo

A pauta regulamentadora de 1850316 movimentou os interesses dos madeirenses. Os deputados em representação às Cortes pediram a redução dos direitos317, sendo secundados pela imprensa. Para Um Vinhateiro Madeirense a causa da desgraça da ilha estava na pauta e por este modo as nossas finanças piorão progressivamente e levar-se-á ao cabo a nossa desgraça neste vale de lágrimas318. Outra voz expressava-se do seguinte modo: A pauta dificulta a venda e troca dos nossos vinhos; a pauta não deixa procurar novos mercados; a pauta é um obstáculo ao comércio; a pauta favorece o contrabando; a pauta nada aproveita à indústria; a pauta é incompatível com o estado da Madeira porque é contrária e danosa à agricultura que é o primeiro dos interesses materiais, logo é urgente a redução da pauta e direitos moderados “ad valorem”, a exemplo de Espanha, que tem nestes últimos tempos dados grandes passos em Economia Política319. Para N. C. Pitta, em The Ocean Fower (1845), a felicidade e prosperidade da Madeira dependia da redução da pauta: Quando tiver lugar a inevitável redução da pauta, a Madeira será uma pequena Inglaterra320. Os vinhos embarcados na ilha com destino aos portos do reino e colónias não pagavam direitos321 e quando sucedia era apenas de metade. Os comandantes dos navios para usufruírem da regalia deviam declarar o destino, apresentando depois a certidão do desembarque num prazo de seis meses. Toda e qualquer infracção 316. 317. 318. 319. 320. 321.

Correio da Madeira, nº 103/107, 109/110. Idem, nº 97, pp. 2/3. Idem, nº 107, pp. 3/4. Correio da Madeira, nº 116, p. 1. Idem, nº 97, p. 3. Prática que vinha de 1679, vide ANTT, PJRFF, nº 396, fols. 70vº/71.

cometida na mudança do destino era punida com multa de 60 dias de cadeia e 50.000 réis para a fortificação322. Em 1821 os direitos de exportação eram de 2.400 réis por pipa, quando embarcados para portos nacionais, mediante a apresentação de uma certidão e guia da respectiva Alfândega onde desembarcassem323. Em 1822324 o negociante Pedro Santana havia afiançado na Alfândega a descarga do vinho para o Rio de Janeiro e Lisboa. Terminado o prazo de entrega da prova foi obrigado a pagar a outra metade dos direitos. O mesmo reclamou da decisão de cobrança, solicitando em requerimento a prorrogação do prazo para mais 8 meses. Em 1825325 os direitos cifravam-se em metade, abrangendo o Brasil, reino e ilhas, mas limitando-se apenas às embarcações nacionais ou brasileiras326. O vinho que ia de roda a envelhecer à passagem na região tropical, no porão das embarcações e voltavam para ser reexportado estava igualmente isento de direitos. O consignatário apenas solicitava à Mesa Grande da Alfândega crédito ou fiança para embarque. A situação colocou entraves à arrecadação dos direitos reais, pois como refere a Junta em portaria ao Juiz da Alfândega, os vinhos de roda são uma ilusão manifesta e prejudicial aos reais interesses na cobrança dos direitos em Mesa e mesmo dos créditos, ou fiança, legalmente concedidos327. Mais salientava que a 322. 323. 324. 325. 326.

ANTT, AF, nº 237, fols. 178vº/9. Idem, nº 241, fols. 24-24vº, 42vº. Idem, nº 240, fol. 46. Idem, nº 241, fols. 24-24vº, 42vº. Em 1832 António Faustino da Costa que tinha uma remessa de vinho para enviar a Macau no bergantim Delfim, viu-se obrigado a conduzir apenas parte da quantia referida, ficando por embarcar 70 pipas, a que pediu o reembolso da soma gasta nos seus direitos, por não estar autorizado a transportar em navios estrangeiros; vide ANTT, AF, nº 241, fols. 204/204vº. 327. ANTT, PJRFF, nº 406, fol. 98.


A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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saída de vinho de roda que espaçadamente se exporta para consumo externo. Perante isto a Junta ordenou a proibição do despacho de qualquer vinho nestas condições. No entanto em 1832328 tal medida proibitiva havia já sido levantada, pois Leal Araújo e outros comerciantes solicitaram à Mesa Grande crédito para 200 pipas de vinho embarcadas para a Rússia e 100 para os Estados Unidos da América do Norte por roda da Índia. Outro subterfúgio usado pelos comerciantes, para se furtarem aos direitos, era a baldeação à vela junto ao porto, ou mesmo dos barcos ancorados. Baldeavam-se vinhos das Canárias, dos Açores e mais fazendas. Em 1775329 gerou-se um conflito entre os guardas da Alfândega e o comandante da fragata dinamarquesa, quando na fiscalização a bordo se encontraram algumas mercadorias (vinho, latas de chá, barricas de aguardente) baldeadas da fragata de guerra Coventry sem que se tivesse pago qualquer direito. Em 1777330 estipulou-se que o direito de baldeação das mercadorias proibidas na ilha era de 111/9 %. Em 1819331 o acto estava, de novo, isento de direitos. Sucedeu que o capitão Roberto Bullon, da escuna inglesa Funny, em viagem de Gibraltar para a Terra Nova, trazia a bordo doze quartolas de vinho de Espanha, que por não poder vender na ilha o fez ao capitão do bergantim inglês Exmanth, Edward B. Oldaham, que seguia para a Jamaica. A Junta, em resposta ao requerimento do visado, declara que o acto foi uma baldeação e por isso estava isento de direitos. A não uniformização do vasilhame de embarque do vinho causava graves inconvenientes na Alfândega aquando da estimação do vinho para serem lançados os direitos. Daqui resultou a necessidade de estabelecer medidas no sentido de por cobro aos inconvenientes. A Junta por edital de 1687332 ordenou que todos os barris e caixões que fossem para bordo dos navios deveriam ser marcados e assinalados. Em 1762333 o holandês Miguel Noulan carregou 10 pipas de vinho de 30 almudes, sendo considerado pela Junta com a medida corrente de 23 almudes. O cônsul inglês e homens de negócios apresentaram um protesto, notando o engano que experimentavão nos vinhos que compravão por pipa pela incerteza da medida delas. Por provisão régia ordenou-se ao Juiz da Alfândega que levantasse o embargo e mantivesse a medida de 23 almudes de modo a não afugentar os comerciantes, embaraçar a saída dos vinhos de que resultaria grave prejuízo à Fazenda Real. Em 1818334 retomou-se a ordem de 1687 ordenando-se que todas as pipas que se embarcassem desde 1 de Janeiro de 1819 levarão a marca dos galões inteiros, ficando os mesmos despachantes sujeitos a todas as penas de extravio dos reais direitos, além de se lançarem os créditos àqueles que o tiverem, no caso que por algum modo se verifique algum dolo ou malícia. Em abono da medida e da questão surgida em 1761

temos uma ordem de 1819335 da Junta à Alfândega autorizando os comerciantes a embarcarem vinho em diferentes vasilhas com tanto que declarem a totalidade dos almudes. Os guardas da casa do embarque deveriam seguir as recomendações pois, caso contrário, seriam punidos com a suspensão do ofício. A medida foi um incentivo ao dolo da classe mercantil, que procurava todos os meios para escapar aos direitos. Assim, o entendeu em 1824336 o Juiz da Alfândega ao notar uma diferença de 2 almudes de vinho em 18 vasilhas de embarque. Mas, a Junta viu nisso um abatimento ocasional provocado pela viagem para o embarque, ordenando o despacho imediato. Os vinhos e mais bebidas alcoólicas, quando permitida a entrada, madeiras para a tanoaria pagavam direitos. Para o lançamento dos direitos procedia-se à avaliação dos produtos de acordo com o estipulado em pauta. A primeira referência surge em 1803, ordenando-se a cobrança de 10% em madeira, pacas, pregos de ferrar pipa, quarto e quartola337. A medida foi confirmada em 1826338 com o cumprimento do parágrafo quinto do alvará de 4 de Junho de 1825. Os artigos ingleses, mercê das medidas de privilégio emanadas nos tratados, tinham avaliação separada, sendo em 1811339 de apenas 15%. Numa certidão de 1814340 temos referência aos direitos deduzidos às mercadorias molháveis entradas na Alfândega no ano anterior:

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328. 329. 330. 331. 332. 333. 334.

ANTT, AF, nº 241, fol. 225vº. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 447/8. ANTT, AF, nº 237, fol. 168. Iem, nº 239, fol. 137vº. ANTT, PJRFF, nº 970, fols. 22vº-23. Idem, nº 970, fols. 18-18vº. ANTT, AF, nº 239, fol. 114.

aguardente de cana genebre vinhos estrangeiros cerveja licores a 24% whisky aguardente a 24%,

4019.945 réis 60.000 réis 182.472 910.000 réis 4.320 242.550 réis 27.896.160 réis

O vinho era ainda onerado com diversos emolumentos. Desde 1816341 temos o encargo de 200 réis por cada casco de vinho para o feitor das provas do vinho exportado e importado. Segundo informação de 1817 estamos perante um donativo voluntário, visto terem-se prestado a isso os negociantes sem que fique este emolumento com a natureza daqueles estabelecidos pelo foral, mas sim como voluntário enquanto os mesmos negociantes o quiserem prestar342. Podemos ainda adicionar os emolumentos do patrão-mor da ribeira [1784/1798]343 e outros mais como nos elucidam os livros da alfândega [1806/1818]344. O peso das imposições que oneravam as exportações de vinho foi, por diversas 335. 336. 337. 338. 339. 340. 341. 342. 343. 344.

Idem, nº 239, fol. 133vº. Idem, nº 240, fol. 111vº. Idem, nº 238, fols. 52vº-53. Idem, nº 241, fols. 60vº, 74; vide ANTT, PJRFF, nº 764, fols. 123-124. Idem, nº 239, fols. 36/46, nº 242. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3376. Idem, nº 239, fol. 58vº. Idem, nº 239, fol. 69vº. Idem, nº 237, fols. 228-229vº; nº 238, fols. 18-19vº. Idem, nº 238, fols. 91vº-92; nº 239, fols. 98vº-99.

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Áreas e circuitos O mercado do vinho da Madeira estava nas colónias inglesas da América e Índia. A Madeira situava-se no traçado da rota dos grandes comboios da Índia e Antilhas. Em 1788 um comboio de 70 navios carregou 2.000 pipas, e outro, que saiu em 1799 de Portsmouth com destino às Índias Ocidentais, comandado por Roger Curtis, com 96 navios carregou 3.0411/2 pipas. Nas duas últimas décadas do século XVIII dispomos de informação elucidativa sobre os principais mercados do vinho Madeira. O mercado colonial no Atlântico e Índico domina. EXPORTAÇÃO DE VINHO. 1780-1799 Destino VINHO Pipas % América do Norte 44484 18 América do Sul 45924 18 Índias ocidentais 103703 41 Ásia 48673 19 África 1757 1 Europa 8127 3 TOTAL 252668

Sistema de engarrafamento de vinhos da União Vinícola da Madeira [século XIX]. Museu de Photographia Vicentes

FONTE: FERRAZ, Maria de Lourdes de Freitas, O Vinho da Madeira no Século XVII. Produção e Mercados Internacionais, in Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira, 1986, Funchal, 1989, vol. II, pp.935-965

vezes, apontado como a origem da crise e falta de capacidade concorrencial no mercado externo. Aconteceu assim no princípio da década de vinte e na de cinquenta do século XIX345. O peso negativo dos impostos voltou a sentir-se a partir de 1868 com o tributo lançado para amortizar o empréstimo da construção do porto do Funchal. A concorrência dos portos das Canárias fazia-se sentir, provocando o desvio das embarcações em trânsito. A guerra às pautas estava na primeira linha de combate de animação do movimento do porto do Funchal. Os réditos arrecadados com a exportação do vinho eram elevados e durante muito tempo dominaram as exportações. Em 1813, com um embarque de menos de vinte mil pipas de vinho, os lucros da alfândega foram elevados, representando 89,6% da receita346. Passado mais de um século o vinho perdeu importância mas continuou a pesar na balança das exportações com 43,2%, sendo superado na economia interna para a manteiga347.

345. Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.90, 93, 110, 119, 137-142, 166, 225, 247. 346. Rui Carita, Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, 1982, p.97 347. Peres Trancoso, O Trabalho Português I- Madeira, Lisboa, 1928, pp.38, 40.

A primeira metade do século XIX foi marcada por mudanças no mercado consumidor. Foi o período de ruptura do Velho com o Novo Mundo. O mercado colonial cede lugar ao europeu. As colónias, agora em processo rápido de quebra dos vínculos europeus, afastavam-se dos circuitos de distribuição do vinho Madeira. A ilha acompanhou o processo indo ao encontro dos apreciadores de regresso ao velho continente. Os portos da Índia, Antilhas e EUA deram lugar aos europeus: Londres, Hamburgo, S. Petersburgo, Amsterdão, como testemunha Álvaro Rodrigues de Azevedo em 1873 ao afirmar que estes vinhos, entre 1830 e 1840, foram ganhando importância nos mercados das cidades hanseáticas, Rússia, Holanda e outros portos da Europa, nos Estados Unidos da América. Os dados de exportação confirmam a viragem do mercado a partir de 1831. O mercador tinha uma função importante na economia vitivinícola, dele dependia a definição dos circuitos comerciais do vinho e a preparação do vinho a ser exportado. A intervenção do inglês a partir do século XVII provocou alterações, mercê da actuação no processo de vinificação. Deste modo adquiria o vinho em mosto para depois proceder aos tratamentos adequados de acorco com o gosto dos mercados de exportação. Os tratados luso-britânicos asseguraram a hegemonia da feitoria britânica no

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Antilhas continuaram ainda a fazer escala pela Madeira onde tomavam grandes quantidades de vinho. Quasi todas as pensões militares (messes) nas Índias, tanto para os oficiais indígenas como para os ingleses se forneciam de vinho da Madeira; além d’isso durante a primeira metade d’este século, se faziam embarques para a América, a Rússia, a Alemanha348. As vias de escoamento articulavam-se de acordo com as rotas atlânticas. O mercado europeu, definido pela Inglaterra, Lisboa e Norte da Europa, ficavam no prolongamento das rotas americanas ou inglesas. As Índias Ocidentais e América inglesa enquadravam-se nas rotas do tráfico atlântico, enquanto as Índias Orientais alinhavam-se de acordo com o rumo dos comboios asiáticos.

Sistema de engarrafamento de vinhos da União Vinícola da Madeira [século XIX]. Museu de Photographia Vicentes

comércio do vinho da Madeira. A ocupação inglesa da ilha nos primeiros anos do século XIX não foi ocasional. Da defesa dos interesses da feitoria passou-se ao reforço da acção, consignada no tratado de 1810, por isso os ingleses surgem nos anos imediatos com uma posição cimeira nas exportações, controlando mais de 50% do vinho exportado. A crise oitocentista provocou a debandada geral do mercado inglês ou americano e só ficaram aqueles com interesses noutros sectores. Como corolário disso tivemos o desaparecimento das sociedades familiares e o aparecimento de associações, como a Madeira Wine Association (1925) que absorveu, nos anos imediatos, mais de trinta casas. Na actualidade o comércio do vinho é assegurado por novas empresas, criadas no rescaldo da crise do comércio do vinho, sendo três (Henriques & Henriques Lda., H. M. Borges Sucessores Lda., Vinhos Justino Henriques Lda.) o elo de continuidade com o passado. As demais (Madeira Wine Company, Vinhos Barbeito Madeira Lda., Pereira d’Oliveira Vinhos Lda., Artur Barros & Sousa Lda. foram criadas a partir dos escombros de vetustas casas ou adegas particulares O Madeira embora conhecido desde muito cedo no mercado europeu, nomeadamente em França, Inglaterra, o certo é que foi nas colonias que adquiriu maior volume de consumo tornando-se no vinho para o colonialista europeu. O predomínio do mercado colonial manteve-se ao longo do século XVIII, alterando-se em finais do século e princípios do seguinte com as alterações da conjuntura. O Wine and Spirit News dá conta disso: Depois da guerra cessaram os grandes comboios da Índia e das Antilhas; mas os navios que faziam a viagem da Índia e das

Entre 1777 e 1782 evidencia-se o predomínio do mercado colonial inglês na América com cerca de 2/3 do vinho exportado, atingindo 9.297 pipas em 1780, cerca de 85% do volume de exportação do ano. Em segundo lugar mantém-se o mercado asiático, logo seguido do europeu e africano, com números reduzidos. Em 1787 aumentou o desnível dos mercados americano e asiático em relação ao europeu e africano. A América era o principal consumidor do vinho da ilha, destacando-se as colónias inglesas com 3.700 pipas em 1785, 2.800 em 1786, 4.184 em 1787, ou seja metade do vinho saído para aí349. O centro de consumo estava nas Antilhas: o Madeira era a bebida alcoolizada mais difundida. Bebia-se geralmente 348. D. João da Câmara Leme, Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estufas..., p. 27. 349. A. Silbert, ibidem, pp. 427/428.

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no “sangaree”, mistura de vinho, água e sumo de limão.350 Os Estados Unidos apresentaram-se em 1784 com 739 pipas, 921 em 1785, 289 pipas em 1786 e 1.791 em 1878. A preferência pelo vinho da Madeira nas plantações do Sul e área vizinha de Nova York era uma realidade351. As Índias Orientais podem ser consideradas um mercado de grande importância. Para aí saíram em 1785 3.000 pipas, 2.730 em 1786 e 3.899 (36%) em 1787. A este propósito comentava A. Silbert Para os ingleses, se o Porto é o vinho da metrópole, o Madeira é o vinho das Antilhas, mas também o das Índias. Um dos privilégios dos capitães de navios das Índias era o direito de importar 2 pipas de Madeira, e o Madeira corria em abundância, com o champanhe, à mesa dos seus passageiros352. O movimento de exportação de vinho para o Oriente assumiu esta importância na década de setenta do século XVIIII353. Em 1770 o número de pipas exportadas não ultrapassava as 700 pipas. Segundo o cônsul francês354 a partir de 1773 os ingleses aumentaram as exportações, tendo saído em 6 navios 1.500 toneladas de vinho seco para Bombay, Madras, Bengala. Mais uma vez A. Silbert comenta: … a parte preponderante dos territórios britânicos no consumo do vinho da Madeira exprime-se por uma proporção impressionante: representa, cerca de 1786, os 2/3 do consumo total na quantidade e no valor. A Madeira ilha Atlântica

esteve sempre comercialmente sob a influência inglesa355. Para o período compreendido entre 1789 e 1801 os mapas de exportação elucidam sobre as áreas de consumo do vinho da ilha356. Mantém-se o predomínio da América, nomeadamente a região central, as chamadas Índias Ocidentais, com destaque para alguns mercados, que assinalámos por ordem decrescente de valor: Jamaica, Barbadas, Martinica, Santa Cruz, St. Eustachio, St. Vicent, a América do Norte com Boston, Filadélfia, Virgínia, Terra Nova, New York, Charlston, Baltimor. No Oriente o maior volume exportado surge sob o designativo de Ásia ou com referência mais restrita a Bengala, Bombaim, Índia, China. A Europa aparece com valores bastante inferiores, destacando-se os portos portugueses de Lisboa, Porto, Setúbal, e outros, como Gibraltar, Granada, Marselha, Londres. Mais reduzido é o valor dos portos africanos, com Cabo Verde, Garnizé, Mogador. O mercado do vinho estava, assim, Índias Ocidentais [com Jamaica, Barbados, Grenade], Filadélfia, N. York, Ásia. A primeira referência à exportação de vinho para a Rússia data de 1793, mas a presença na corte russa era de há muito tempo. Em 1787357 havia-se firmado um tratado comercial entre as duas potências. Em 1811358 temos notícia da saída do bergantim português Ana e José com 190 pipas de vinho, 20 quartolas e 1 quarto,

350. 351. 352. 353. 354.

355. 356. 357. 358.

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Sistema de engarrafamento de vinhos da União Vinícola da Madeira [século XIX] Museu de Photographia Vicentes

Idem, p. 109 Idem, p. 108 A. Silbert, ibidem, p. 109 AHU, Madeira e Porto Santo, nº 231. A. Silbert, ibidem, pp. 109-110.

Idem, p. 112. Confronte-se em anexo desta parte, quadros.nº.2, 3. ANTT, PJRFF, nº 237, fols. 253vº-270; idem, AF, nº 239, fols. 1-2vº, 146vº-147vº. ANTT, AF, nº 238, fols. 170-170vº.

Transporte e caixas. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.


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mais 2 pipas de vinho seco, 2 pipas de malvasia para S. Petersburgo. A intensificação do movimento a partir da Madeira só se processou a partir de 1813359, coincidindo com a prorrogação do tratado360. O movimento do vinho para o mercado colonial europeu manteve-se na posse dos ingleses, que dispunham de uma frota naval poderosa361. Entre 1784 e 1786 dominavam os circuitos de transporte com 61 embarcações em 1784, transportando 3.365 pipas de vinho, 74 navios em 1785 com 4634 pipas, e 86 em 1786 com 4.619 pipas. Em 1787 o domínio inglês foi secundado pelos portugueses e americanos, a que se seguiram as francesas, dinamarquesas, holandesas, espanholas e suecas. Em meados da centúria verificou-se uma valorização das embarcações nacionais no movimento de exportação para as Índias Orientais, com a intervenção de Inácia Quintela362 e de D. Guiomar de Sá Vilhena. A última embarcou em 1784 no bergantim Nª Sr.ª de Penha de França, com destino à Ásia, 587 pipas e no bergantim Nª Sr.ª das Neves e Stº António 230 pipas para os portos de Bengala e Calcutá363. O predomínio das embarcações inglesas acentuou-se entre 1822 e 1824 sendo secundados pelos americanos. As francesas, holandesas, portuguesas, sardas, dinamarquesas, suecas carregaram pequenas quantidades. O facto confirma o predomínio mercantil inglês após os acordos vantajosos de 1808 e 1810 estabelecidos com Portugal por força das invasões francesas. Ao mesmo tempo denota uma quebra na esfera mercantil portuguesa. A primeira metade do século XIX foi pautada pela alteração na geografia do mercado consumidor do vinho da Madeira. Foi o período de ruptura entre o velho e o novo mundo, em que o mercado colonial cedeu lugar ao europeu do Norte. As colónias foram suplantadas pela mãe-pátria e abandonaram o consumo do vinho da Madeira em favor de outros produzidos nas novas áreas vitícolas além Atlântico, como era o caso do Cabo da Boa Esperança. O colonialista inglês “regressado” ao velho continente não abandonou o Madeira: A maravilhosa qualidade do vinho produzido sob estas novas condições logo atraiu a atenção dos oficiais Ingleses na sua viagem para ou de regresso das Índias Orientais ou Ocidentais, os quais presentemente levaram a moda de beber Madeira para Inglaterra e depois para toda a comunidade de língua Inglesa. O resultado foi um longo período de prosperidade para a Madeira364. O período de 1823/1825 pode ser definido como a fase de transição, uma vez que se mantém o domínio do mercado colonial, como Jamaica, Índia, W. Índias, St. Vicent, N. York, notando-se um impulso para a saída do vinho rumo à Europa como do vinho de roda ou de exportação directa para Londres, S. Petersburgo, Hamburgo, Amesterdão, Lisboa. A partir de 1826 consolida-se o domínio do mer359. 360. 361. 362. 363. 364.

AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3250. Idem, nº 12647; ANTT, AF, nº 239, fols. 23-23vº. cf. em anexo quadros nº.3. A. Silbert, ibidem, p. 110 AHU, Madeira e Porto Santo, nº 702/7. A. Samler Brown, Madeira and the Canary Islands, London, 1890, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.415

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Transporte de pipa em corsa. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.

cado nórdico com Londres, S. Petersburgo, Hamburgo. Ao mesmo tempo denotase o alargamento da exportação a novas áreas da América do Sul para além do Brasil, como Buenos Aires e Montevideu. Segundo A. R. Azevedo estes vinhos, na década de 1830 a 1840, se foram de mais em mais acreditando nos mercados das cidades hanseáticas, Rússia, Holanda e outros portos da Europa, e nos Estados Unidos da América. Estes importavam umas 4.200 pipas anualmente, e o império moscovita 2.000; os outros países, cerca de 3.000365. Os dados colhidos a partir de 1831 assim o confirmam. Acontece que o predomínio do mercado nórdico, com a Rússia e Londres à frente, não acarretou quebra no total das exportações para os velhos mercados coloniais, como a Índia, Jamaica e W. Índias, N. York. Londres surge entre 1831/1834 com um número significativo de pipas importadas. Idêntica foi a situação de S. Petersburgo em 1832, que entre 1833 e 1839 suplantou o mercado londrino. O mercado de Hamburgo apresenta-se igualmente com valor significativo. O facto mais saliente resulta da quebra momentânea das exportações para o mercado colonial das Índias Orientais e da América do Norte. Em meados do século XIX era ponto assente o domínio do mercado europeu no consumo do vinho Madeira. O norte-americano, que desde 1830 se afirmara como um cliente destacado, volta a evidenciar-se em 1849 e 1850. A situação deverá resultar do aumento do tráfico entre os Estados Unidos e a Inglaterra, em que a Madeira assumia uma posição privilegiada366. O consumo do vinho aumentou de modo espectacular até 1833 declinando entre 1834/1842 para subir em 1843, 1847, com 365. Op. cit., p. 719. 366. A. Silbert, ibidem, p. 108.


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uma ligeira quebra em 1846 e 1848, voltando a subir de novo entre 1840 e 1850367. Para o período entre 1882 a 1885 nota-se o predomínio do mercado de Inglaterra no volume das exportações, seguido da Rússia. Em 1882 mais de 2/3 da exportação de vinho teve como destino a Inglaterra com 2491 pipas sendo as restantes 869 distribuídas pela Rússia com 353, Brasil com 108 e outros países com 207. A nota mais saliente prende-se com a quebra do mercado dos Estados Unidos, que se apresenta só com 48 litros quando na época de apogeu (1830/1834) havia atingido as 2.000/4.000 pipas. O Brasil vinha assumindo desde meados do século uma posição no mercado consumidor do vinho Madeira, evidenciando-se entre 1882/1888 com valores que oscilam entre as 100 e 200 pipas. Nota-se igualmente uma exportação crescente para a Alemanha. Em 1882 era de apenas 39 pipas em 1882, atingindo-se em 1887 as 1.487 pipas. Idêntica situação sucede com a França que de 32 pipas em 1882 atinge 239 em 1887 e 704 em 1888. A exportação do vinho atingiu entre 1895/1903 e 1905/1933 valores significativos, quando comparados aos períodos anteriores368. A época de exportação do vinho, de acordo com a informação documental de 1786369, decorria nos primeiros cinco meses do ano, articulando-se de forma directa com os momentos do grande tráfico atlântico. Albert Silbert define duas rotas para a navegação oceânica: dos alísios de Abril a Maio e o itinerário Norte/Sul de Setembro a Outubro para o continente americano370. Para o período de 1789 a 1792 a maior incidência ocorre nos meses de Março a Junho, enquanto entre 1793/1796 e 1813/1814 mantém-se os meses de Março a Maio e surge outra época de Outubro a Dezembro. O período de saída do vinho diferencia-se de acordo com o mercado de destino, tendo em conta a sazonalidade das rotas oceânicas. Para a América do Norte e Central dominam os meses de Fevereiro, Abril e Outubro/Dezembro, enquanto no mercado asiático temos Fevereiro/Abril. Em conclusão podemos afirmar que o período de maior saída do vinho decorre de Março a Junho e depois de Setembro/Dezembro, mas aqui com pouca influência.

Rotas do Vinho Madeira nos Sèculos XVCII E XIX

367. 368. 369. 370.

Cf. em anexo quadros, nº.26 a 30 Sobre a acção dos franceses no comércio do vinho da ilha, vide A. Silbert, ob.cit. Cf. em anexo quadro nº.34 ARM, GC, nº 70, fols. 35vº-43vº. Op. Cit.

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No século XX ocorreram profundas alterações no mercado do vinho Madeira. A Inglaterra e as regiões da Europa do Norte consolidaram posições. Entretanto aconteceram perdas irreparáveis, como foi o caso da Rússia, a partir de 1916. Já nos Estados Unidos, um dos potenciais mercados, tivemos os efeitos da lei seca que se fizeram sentir desde 1919 e que levou à proibição de entrada do vinho e demais bebidas alcoólicas nos anos de 1924-1925. A situação reflectiu-se nas exportações entre 1924 e 1931. Apenas no período da Segunda Guerra Mundial com o fecho dos mercados europeus voltou a assumir uma posição de relevo, nomeadamente nos anos de 1943 e 1944. Durante a guerra a rota do Brasil, Estados Unidos e demais países americanos manteve-se aberta. A década de vinte foi difícil para o comércio do vinho Madeira. As sequelas da revolução russa, mercado que consumia mais de 2000 pipas anuais, as dificuldades que se sucederam ao fim da guerra e o aparecimento de vinhos finos em diversas regiões do globo, como foi o caso do Cabo, Austrália e norte do Mediterrâneo, provocaram transformações mo mercado mundial do vinho. A par da oferta e variedade de vinhos o mercado teve que se bater com leis anti-alcoólicas e o proteccionismo de alguns países371. A Alemanha, que havia adquirido importância na economia da ilha a partir da década de oitenta do século XIX, saiu reforçada nas décadas seguintes, concorrendo em pé de igualdade com a Inglaterra, França e Rússia. As duas guerras mundiais acarretaram a inversão do rumo, que só voltou a animar-se a partir da década de sessenta. A primeira metade do século XX diz-nos que a Madeira continuou a apostou em novos mercados a Norte, com a Dinamarca, Suécia e Noruega. A Dinamarca, que em 1913 importara apenas 35 pipas, situa-se em 1939 numa posição destacada importando 30%, desaparecendo de forma misteriosa em 1959372. A Suécia assumiu destaque entre 1901 e 1961. A Noruega afirmou-se a partir de 1910 mantendo-se até 1968. As vendas para o mercado escandinavo mantiveram-se em fase ascendente até à década de sessenta, perdendo paulatinamente importância nas últimas três décadas do século XX EXPORTAÇÃO DE VINHO EM HL.1913-1926 1913 1917 1922 1926 Suécia 2724 1962 3714 13860 Dinamarca 18655 470 339 7273 França 8205 9199 1954 6369 Alemanha 5089 3484 6785 Inglaterra 2935 2103 2178 3245 Brasil 1221 339 617 616

371. Cf. Peres Trancoso, Trabalho Industrial, I Madeira, Lisboa, 1928, pp.12-13. 372. Cf. Rupert Crooft-Cooke, ob. cit, pp.122-125

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

EXPORTAÇÃO DE VINHO EM %.1939.1988

Dinamarca Suécia França Noruega Grã Bretanha Alemanha Finlândia Suiça Holanda Bélgica Brasil USA Outros Japão

1939

1947

1988

30% 25,6 13,5 10,5 5,6 4,6 2,0 1,4 1,4 1,3 1,1 0,8 2,2 -

5,0

3 5 40

4,8 7,5

1,0 1,3 3,7 14,0 1,0 4,8 -

11 12 1 4 4 9 5 10 3

As duas guerras mundiais afastaram definitivamente a Alemanha dos destinos de exportação do vinho Madeira. As cidades alemãs, nomeadamente Hamburgo, vinham adquirindo importância desde a década de oitenta do século XIX. O alemão tornou-se rapidamente em apreciador do vinho Madeira e só a guerra o demoveu. Todavia, durante a Segunda Guerra Mundial temos notícia da importação por contrabando, via Lisboa e Pirinéus373. Ao mesmo tempo o mercado inglês perdeu 373. Veja-se Ramón J. Campo, Aragão, 2001; Cf. reportagem de Ignacio Martinez de Pisón, Canfranc y el Oro Nazi, in EP[S]El Pais Semanal, nº.1351, domingo de 18 de Agosto de 2002, pp.16-19; Miguel Carvalho, Os Segredos Portugueses dos Pirinéus. Ouro Nazi, in Visão, nº. 494, 22 a 28 de Agosto de 2002, pp. 34-43.

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Oficina de Tanoaria. Cossart Gordon & Co.


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

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Bomba e máquina de rotular garrafas. Museu do IVV.

Máquinas de rolhar garrafas. Museu do IVV.

importância em favor do francês, que passou a controlar mais de 50% das exportações do vinho madeirense. EXPORTAÇÃO EM HECTOLITROS.1861-1988 ANOS FRANÇA ALEMANHA RÚSSIA INGLATERRA 1861-70 2265 4221 7018 1871-80 564 538 1233 5498 1881-90 3317 1216 2244 9414 1891-00 4781 4314 4846 7438 1901-10 5529 7384 4670 4158 1911-20 7066 10626 2880 4721 1923-27 6334 2719 2766 1930-32 11155 1364 1345 1950-52 3919 1906 1052 1988 12.912 4165 3684

O período posterior à Segunda Guerra Mundial foi marcado pela lenta agonia do comércio do vinho, apenas na década de setenta começou a recuperar e a assumir uma posição importante das exportações da ilha. A evolução foi marcada pela reposição dos tradicionais mercados e à consolidação de novos como foi o caso do Japão. A proibição das exportações a granel desde 2001 reflectiu-se nas exportações para os mercados francês e alemão. É no seio do mercado comunitário que a Madeira encontra o principal mercado do vinho. Fora dele merece destaque a posição privilegiada do Japão logo seguido do mercado norte-americano. O Japão é um dos novos mercados conquistados para o vinho Madeira e desde 1989 conseguiu suplantar o tradicional mercado americano. MERCADOS DO VINHO MADEIRA (em hectolitros)1984-2000 DESTINOS

Obs. período de 1871-1952 valores médios ano. FONTE: R. Honorato Correa Rodrigues, Questões Económicas, vol. II, Funchal, 1955, p.119

INGLATERRA USA CANADÁ

1855 1603 749 275

1856 1695 898 320

1857 1746 787 426

1858 2220 1008 477

1859 2414hl 1255 773

União europeia

1985

1986

1987

1988

1989

1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

26.037 25254

1984

29035

25178

26737

25835

27467

25619

25073

24796

23821

25301

26158

27412

27097

1999

2000

26444 29781

EFTA

3172

3067

4714

3834

4079

4174

2796

3381

3638

3609

2587

3075

903

612

1398

34

192

Outros países

2921

2860

2553

3389

3640

3592

3154

3935

3036

3450

3620

3692

3927

113

246

3853

3877

3296

2296

2382

2760

5825

4767

3403

5013

3954

3581

4693

5459

5486

5279

5800

3939

6325

35382 33479

38695

35162 40483

38369

36820

37950 35704

35437

34722

37528

36476 37099

38752

Consumo nacional Total

36272 40176


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A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX

América do Norte

Exportação de vinho para a Suécia. Colecção Perestrellos. Museu de Photographia Vicentes.