As sete maravilhas - Perdidos na Babilónia

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Mortos. Tramados

Dois dias depois de termos voltado da Grécia, eu já não cheirava a baba de grifo, mas ainda tinha as nódoas negras causadas por uma estátua de bronze com mau feitio. A minha pele estava a descamar por causa das queimaduras provocadas pelo sol do Mediterrâneo que tinha batido sobre mim e sobre a esfera voadora. Isto para não falar da bomba-relógio que eu trazia dentro do corpo... Ao meu lado, um gigante de cento e quarenta quilos acelerava um jipe pela selva e divertia-se a conduzi-lo sobre os buracos. – Põe os olhos na estrada, Torquin! – gritei, ao bater com a cabeça no tejadilho. – Olhos na cara, não estrada – respondeu o Torquin.

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No assento de trás, a Aly Black e o Cass Williams gritaram de dor, mas sabíamos que tínhamos de aguentar. Tínhamos pouco tempo. Era preciso encontrar o Marco. Ah, acerca da tal bomba-relógio: na verdade, não é um explosivo físico. Eu tenho um gene que, para resumir, acaba com a vida de uma pessoa aos catorze anos. Chama-se G7W e todos nós o temos: não só eu, mas também o Marco Ramsay, a Aly e o Cass. Felizmente, há cura. Infelizmente, essa cura tem sete ingredientes que são quase impossíveis de encontrar. Para agravar as coisas, o Marco tinha desaparecido com o primeiro desses ingredientes. Estávamos ali por essa razão, numa louca operação de resgate, metidos naquele jipe que parecia um forno. – O caminho já é mau... Não era preciso obrigares-nos a assistir ao espetáculo de tirar peles da cara, Jack! – disse a Aly do assento de trás. – É nojento! Afastou para o lado uma madeixa de cabelo cor-de-rosa que tinha na testa. Não sei onde arranja ela tinta para o cabelo nesta ilha de doidos, mas um destes dias pergunto-lhe. Ao lado dela, o Cass tinha os olhos fechados e a cabeça encostada. O seu cabelo é, por natureza, encaracolado e castanho, mas agora parecia esparguete preto e viscoso. De todos nós, o Cass foi quem sofreu mais com o grifo. Olhei para o pedaço de pele entre os meus dedos. Tinha-o arrancado sem me dar conta.

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– Desculpem. – Põe moldura – disse o Torquin, distraidamente. Tinha os olhos postos num GPS que mostrava um mapa do oceano Atlântico. Em cima, viam-se as palavras RASTREADOR RAMSAY. Por baixo, nenhum sinal, nada. Tinham-nos implantado cirurgicamente um emissor de sinais, mas o do Marco não estava a funcionar. – Espera aí. Emoldurar um bocado de pele queimada? – perguntou a Aly. – Colagem. Se eu não conhecesse o Torquin, pensaria que ele não tinha percebido a pergunta da Aly. Quer dizer, eu, a Aly, o Cass e o Marco somos esquisitos, mas nem por sombras tanto como o Torquin. Ele tem cerca de dois metros e trinta, descalço. E está sempre descalço. (Para dizer a verdade, aquelas patorras não caberiam em nenhum sapato.) O que lhe falta em jeito para conversar sobra-lhe em esquisitice. – Dar-te alguma minha. Lembrar-me. A Aly ficou branca como a cal. – Lembra-me de não te lembrar. – Quem me dera só ter a pele queimada pelo sol – lamentou-se o Cass. – Não tens de vir connosco desta vez… – disse a Aly. O Cass franziu o sobrolho sem abrir os olhos. – Estou um pouco cansado, mas o tratamento correu bem. Temos de encontrar o Marco. Somos uma família.

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A Aly e eu trocámos olhares. O Cass tinha sobrevoado um oceano nas garras de um grifo, que a seguir o tinha preparado para o comer. Além disso, estava a recuperar daquilo a que chamavam tratamento e isso não era fácil. Todos tínhamos tratamentos. Precisávamos deles para sobreviver. Eles adiavam os sintomas temporariamente e permitiam-nos ir à procura de uma cura permanente. De facto, o primeiro objetivo do Instituto Karai é o de nos ajudar a lidar com os efeitos do G7W. Isto não é para me gabar nem nada parecido, mas ter o G7W significa que somos descendentes da família real do antigo reino da Atlântida, que é, provavelmente, a coisa mais espetacular desta pessoa incrivelmente comum e sem talentos que sou eu, Jack McKinley. O lado positivo do G7W é que pega nas coisas em que já somos bons e transforma-as em superpoderes: os desportos no caso do Marco, o génio informático da Aly e a memória fotográfica no Cass. O lado negativo é que a cura envolve a descoberta dos Lóculos roubados da Atlântida, que foram escondidos, séculos atrás, nas Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Como se não bastasse, seis dessas Maravilhas já não existem. Um Lóculo, já agora, é uma palavra arcaica usada na Atlântida e que significa «globo com um espetacular poder mágico». Encontrámos um deles: a história envolve um buraco no tempo e no espaço (que eu fiz sem querer), um

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grifo (uma mistura repugnante de águia e leão que surgiu vinda desse buraco), uma viagem a Rodes (onde o dito grifo tentou almoçar o Cass), uns monges malucos (gregos) e o Colosso de Rodes (que renasceu e tentou matar-nos). Há mais, mas só precisam de saber que deixei o grifo escapar e, por isso, na prática, foi tudo culpa minha. – Olha… – disse a Aly, semicerrando os olhos incriminadores na minha direção. Virei-me. – Olha, o quê? – Eu sei no que é que estás a pensar, Jack – disse ela. – E podes parar já com isso. Tu não és o responsável pelo que aconteceu ao Cass. A sério, acho que o passatempo desta rapariga é ler as mentes dos outros. – Torquin responsável – rugiu o Torquin. Bateu no volante, fazendo com que o jipe desse um salto no ar como um canguru ferrugento a perder óleo. – Ser preso. Deixar vocês sozinhos. Não ajudar Cass. Deixar Marco fugir com Lóculo. Arrrgh! O Cass gemeu de novo. – Ai, a minha agirrab! – Ei, Torquin… – disse a Aly. – Cuidado aí com o volante, está bem? – Agirrab? – perguntou o Torquin. – Barriga – expliquei. – De trás para a frente.

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Finalmente, o jipe chegou ao fim do caminho tortuoso e desembocou numa pequena pista de aterragem. Tínhamos chegado ao destino. À nossa frente, brilhando no asfalto, encontrava-se um jato militar modificado. O Torquin travou a fundo e o jipe chiou, dando uma volta perfeita de cento e oitenta graus. Duas pessoas estavam a inspecionar o avião: um tipo com rabo de cavalo e óculos de meia-lua; e uma rapariga com tatuagens e os lábios pintados de preto-brilhante, um pouco parecida com a minha última empregada, só que mais morta. Lembrava-me vagamente de já os ter visto no nosso refeitório, o Comestíbulo. – Elddif – disse o Cass, hesitante. – Anavrin... A rapariga parecia assustada. – Ele agora não consegue falar normalmente? – Não, está a falar na sua língua preferida – respondeu a Aly. – Contrariês. Quando a usa é porque está melhor. – São eles... – murmurou o Cass. – É o nome deles. Repeti as palavras mentalmente, imaginei como se liam e, a seguir, li as letras de trás para a frente. – Então devem ser o Fiddle e a Nirvana. – Ah! – O Fiddle olhou para nós com um sorriso. – Estive a preparar este bebé para voar. Chama-se Slippy, é o meu orgulho e a minha alegria, e atinge três vezes a velocidade do som se puxarmos por ele. A Nirvana tamborilou na fuselagem do aparelho com as suas compridas unhas pintadas de preto.

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– Um aparelho destes merece um grande sistema de som. Carreguei-o com ficheiros mp3. O Fiddle afastou-lhe a mão da fuselagem. – Por favor. Está pintado de fresco. – Desculpa, Picasso – respondeu ela. – De qualquer modo, pus-vos rock da pesada... emo... techno... death metal. E olhem, como vão regressar aos Estados Unidos, também podem pôr a tocar os sons que ouviam em vossas casas. «Regressar.» Tentei parar de tremer. As nossas famílias, a polícia, o governo... deviam andar à nossa procura vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Regressar significava ser descoberto. Recapturado. Era a impossibilidade de regressar à ilha: o fim dos tratamentos, o abandono da missão que tínhamos, que era encontrar os Lóculos para nos conseguirmos curar... A morte. Sem o Lóculo do Marco, estávamos tramados. Mortos. Tramados. A história das nossas vidas. Mas sem sinal do Marco, que mais podíamos fazer? Procurá-lo em casa parecia ser a melhor ideia. Ao sairmos do jipe, o Torquin soltou um arroto que fez o chão tremer. – Quatro e meio na escala de Richter – disse a Nirvana. – Impressionante. – Têm a certeza de que querem fazer isto, pessoal? – perguntou o Fiddle.

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– Terem de – disse o Torquin. – Ordens do Professor Bhegad. – P-por que estás a perguntar? – quis saber o Cass. Este encolheu os ombros. – Vocês têm um emissor de sinais implantado, não é? O Cass olhou para ele com um ar de preocupação. – Sim. Mas o do Marco está estragado. – Eu ajudei a projetar esse emissor – disse o Fiddle. – É do melhor que há. É impossível estragar-se. Não vos parece estranho ter deixado de funcionar... precisamente depois de ele ter desaparecido? – O que é que estás a querer dizer? – perguntei. A Aly deu um passo na sua direção. – Isso não existe: uma coisa impossível de se estragar. Vocês projetaram uma máquina com defeito. – Provem-no – disse o Fiddle. – Sabias que há quatro elementos cujas radiações perturbam o sinal emitido? – perguntou a Aly. O Fiddle zombou. – Tais como? – O irídio, por exemplo – disse a Aly. – As suas radiações impedem completamente as transmissões. – E então? – disse o Fiddle. – Fazes ideia de quão raro é o irídio? – Posso apontar mais pontos fracos – disse a Aly. – Admite. Fizeram asneira.

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A Nirvana agitou o punho no ar. – Boa, rapariga! O Fiddle tirou um torrão de terra da escada. – Divirtam-se no Ohio – disse ele. – Mas não esperem que vá ao vosso funeral.

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A Gafe

«Vou deitar fogo ao teu cão e varrer o chão com as memórias de tudo o que fiz contiiiigo...!» O som escolhido pela Nirvana fazia o Torquin retorcer os lábios, com os cantos para baixo como uma ferradura. – Não música. Barulho. Por acaso, eu até gostava. Tudo bem, a letra não era grande coisa, mas era engraçada à sua maneira. Distraía-me do facto de eu estar milhares de metros acima do oceano, de estar preso ao assento por causa da velocidade do avião e de estar prestes a vomitar o meu próprio estômago. Olhei para a Aly. A pele dela recuava até às maçãs do rosto como se estivesse a ser massajada por dedos invisíveis. Não consegui evitar uma gargalhada.

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Os olhos da Aly brilharam de pânico. – Qual é a piada? – A tua cara parece de uma mulher de noventa e cinco anos – respondi. – E tu falas como uma criança de cinco – disse ela. – Quando tudo isto acabar, lembra-me de te ensinar a ter modos. Ups. Desviei o olhar, senti-me um idiota chapado. Talvez fosse esse o meu grande talento G7W, a capacidade sobre-humana de dizer sempre a coisa errada. Sobretudo quando tinha a ver com a Aly. Talvez por ela ser tão confiante. Talvez por eu ser o único Eleito que não tem nenhum motivo para ser Eleito. Jack McKinley, a Gafe. «Em frente, meu.» Virei-me para a janela, onde um conjunto de edifícios ficava para trás de nós. Era incrível ver Manhattan passar tão depressa. Um minuto depois, a vista deu lugar aos talhões de terra cultivada que deviam ser a Pensilvânia. Mergulhámos em nuvens densas e fechei os olhos. Tentei pensar positivamente: íamos encontrar o Marco, ele agradecer-nos-ia por termos aparecido, pediria desculpa e entraria no avião. Pois. Tão certo como o planeta começar a rodar na direção contrária.

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O Marco era teimoso... E também estava completamente convencido de que: a) tinha sempre razão; e b) era imortal. Além disso, se ele tivesse ido para casa contar a história do nosso rapto, haveria paparazzi e jornalistas à nossa espera no aeroporto, pacotes de leite com as nossas imagens em todos os supermercados, cartazes com a palavra procurado em todas as estações de correio. Como poderíamos salvá-lo? Era suposto o Torquin proteger-nos em caso de emergência, mas isso não me deixava sossegado. Os acontecimentos dos últimos dias sucediam-se na minha cabeça: a queda do Marco no vulcão quando lutava com uma criatura ancestral. Nós a procurá-lo e a encontrá-lo miraculosamente vivo sob o borrifo de uma queda de água. O buraco antigo com sete hemisférios vazios brilhando no escuro: o Heptakiklos. Se ao menos eu o tivesse ignorado, se ao menos não tivesse puxado a espada partida no centro… o grifo não teria escapado, não teríamos sido obrigados a correr atrás dele sem o treino adequado e o Marco não teria conseguido escapar. – Lá estás tu de novo – disse a Aly, interrompendo-me os pensamentos. – De novo, o quê? – A culpares-te por causa do grifo – respondeu a Aly. – Vê-se logo.

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– O grifo esmagou o Professor Bhegad – disse eu. – Levou o Cass através do oceano e quase o matou... – Os grifos foram criados para proteger os Lóculos – lembrou-me a Aly. – Este levou-nos até ao Colosso de Rodes. Tu fizeste com que isso acontecesse, Jack! Vamos recuperar o Lóculo. O Marco vai ouvir-nos. – Encolheu os ombros. – A seguir, talvez tu consigas libertar outros seis grifos. E eles vão levar-nos até aos outros Lóculos. Para nos proteger, eu posso ajudar o IK a desenvolver... não sei, um repelente. – Um repelente de grifos? – perguntou o Cass. A Aly encolheu os ombros. – Há repelentes de insetos, repelentes de tubarões, por que não? Vou estudá-los e arranjar uma fórmula. «Arranjar.» A Aly era a latoeira, como lhe chamou Bhegad. Cada um de nós tinha uma alcunha: Latoeira, Alfaiate, Soldado, Marinheiro. A Aly era a Latoeira, a que conseguia arranjar qualquer coisa, o Marco era o Soldado porque era forte e corajoso, o Cass era o Marinheiro por causa do incrível sentido de orientação. E eu? «Tu és o Alfaiate, porque és aquele que costura tudo, aquele que junta tudo», disse Bhegad. Mas agora eu não estava a juntar nada, a não ser pessimismo. – Aaaaaaaah! O grito repentino da Nirvana fez-nos dar um pulo. O Torquin bateu com a cabeça no teto. – O que aconteceu? – perguntei.

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– O fim da canção – disse a Nirvana. – Adoro esta parte. – Não haver canções boas? – disse o Torquin por cima da música. – Canções Disney? O Cass olhava pela janela: lá em baixo estendia-se uma ornamentação de estradas e campos. – Estamos quase a chegar. Aqui é Youngstown, Ohio... acho. – Achas? – disse a Aly. – Nem parece teu. – Eu... eu não reconheço o padrão das estradas... – disse o Cass, abanando a cabeça. – Devia saber isto. Estou a ter uma branca. Acho que se passa alguma coisa com a minha... não sei quê. – A tua capacidade para memorizar todas as estradas de todos os lugares do mundo? – A Aly pôs-lhe um braço à volta dos ombros. – Estás nervoso por causa do Marco, é só isso. – Pois... pois... – O Cass tamborilou com os dedos no encosto do braço. – Às vezes cometes erros, não é, Aly? A Aly fez que sim com a cabeça. – É raro, mas sim. Sou humana. Como todos nós. – O esquisito – disse o Cass – é que só há uma parte do Marco que não é humana: o emissor de sinais. E essas coisas não falham assim. A não ser que tenha acontecido alguma coisa fora do normal à pessoa que transporta o emissor. – Que tipo de coisa? Os olhos do Cass humedeceram.

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– Uma coisa de que nenhum de nós tem falado. Como se o emissor tivesse sido destruído. – Está dentro do corpo dele – disse a Aly. – Ele não pode destruí-lo. – Pois. A não ser que... – ponderou o Cass. Ficámos todos calados. O avião começou a descer. Ninguém acabou a frase mas todos sabíamos as palavras que a acabavam. «A não ser que o Marco esteja morto.»

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