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FEARLESS

EDIÇÃO No02

No primeiro ano da minha graduação em jornalismo, em meados de 2013, a professora de Interfaces Sociais da Comunicação soltou a seguinte frase em sala de aula: “Mesmo sendo minoria, gays possuem grande poder de compra. Eles normalmente não vão ter filhos e consequentemente vão gastar mais com produtos e serviços. É um mercado que deve ser muito bem explorado, pois pode ser bastante lucrativo”. Apesar de sua fala verbalizar o estereótipo da minoria de homens gays bon-vivant e endinheirados, minha professora não estava completamente errada.

A pergunta de muitos é: Como um grupo que até pouco tempo era inserido na mídia apenas para induzir polêmicas, chacota ou comédia acabou ganhando protagonismo em campanhas publicitárias?

Dinheiro? Também, claro! Mas não apenas, pois o que para grandes empresas significa mais lucro, para a comunidade LGBTQ+ pode significar uma grande oportunidade. “Vemos que nas últimas décadas, pautas como diversidade, orientação sexual e gênero ganharam mais e mais atenção na mídia. Desenvolver campanhas publicitárias protagonizadas por indivíduos LGBT’s é o modo mais eficaz de Conforme o último Censo De- atrair nossos olhos. Mas eu vejo como mográfico do Brasil, realizado em uma troca, já que ambos os lados con2010 pelo Instituto Brasileiro de Ge- seguem tirar proveito da situação”, ografia e Estatística (IGBE), dos 67,4 disse o historiador Ruan de Assunção mil casais que declararam estarem Mendes em entrevista para a FEARem um relacionamento homossexual, LESS Magazine. 35.22% afirmaram receber de 2 até mais de 20 salários mínimos (no valor Em 2017, Ruan concluiu sua de R$ 510, na época), contra 15.36% licenciatura em História com uma do casais heterossexuais que disseram monografia que abordava a história o mesmo. E, embora o Censo só con- da população LGBTQ+ no Brasil da tenha dados de casais que autodecla- era colonial até os dias atuais. “Nós raram estarem em um relacionamento somos tratados como pária desde os homoafetivo, ocultando da pesquisa tempos de colônia, éramos vistos pessoas que não revelaram fazer parte como portadores de um vício nefanda sigla, pode se dizer que sim, algu- do, um pecado que não podia ser dito mas das pessoas que compõem a sigla de tão feio. Pessoas LGBT’s podiam LGBTQ+ têm alto poder de compra ser julgadas e condenadas pela Santa e, assim, as marcas adotaram a repre- Inquisição à trabalho forçado, perda sentatividade em nome do consumo de bens, como também à morte. Desdesse nicho. de sempre somos um grupo dissidente que só é tolerado quando não tem Segundo dados da InSearch Ten- voz”, afirma o historiador que vê com dências e Estudos de Mercado, são mais olhos positivos o atual canal alcançade R$ 150 bilhões que a comunidade LGB- do pela comunidade LGBTQ+ na puTQ+ movimenta anualmente em produtos blicidade. e serviços no Brasil. Marcas como Boticário, Coca-Cola e Avon introduziram lésbi“Demonizar campanhas não nos cas, gays, transexuais, pessoas não binarias ajuda em nada. Vivemos num contexto e drag queens como protagonistas de suas social e econômico capitalista. Empresas campanhas, seja na internet, televisão, im- são organizações que têm como principal pressos ou até mesmo no rótulo de seus objetivo lucrar, não existe escapatória. No produtos. Porém, a linha entre oportunis- mundo onde vivemos se algo não dá remo e representatividade mostra-se tênue. torno financeiro não é algo que vá ganhar 027

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FEARLESS Mag // Edição No2 - Touch This Skin  

Com três opções de capa, a segunda edição da FEARLESS traz questionamentos sobre o significado da arte LGTBQ+, a representatividade com pink...

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