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LAMONA DIVINE


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SHADY JORDAN


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GINGER MOON


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edição no 02 | touch this skin a fearless mag é uma publicação trimestral, online e impressa, totalmente independente e colaborativa feita por e para pessoas LGBT+. um manifesto sobre a população criativa e artística além de um mapa experimental do conteúdo criativo dentro da sigla.

editor-in-chef e direção criativa

luca weingärtner EDIÇÃO No02

edição de conteúdo

letícia daniel

produção executiva

fotórafos

bernardo enoch, jonys lowe, luca weingärtner, lucas caballero e victor reis ilustrações

lucy lazuli e victor loureiro

thais maestrello

colagens

produção de conteúdo

moda

direção de arte e design

beleza

luca weingärtner e daniela lourenço

guilherme lourenço e marcos boscolo revisão

raquel cutin

giovana macedo e raquel cutin caique tavares, jeff pacheco, matheus capanema e paulo cachoeiro monique lemos e letícia molina govvea textos

arthur avila, giovana macedo, guilherme lourenço, luiz marques, ricardo miguel e tamiris versannio audiovisual

barbara lamonato, catarina alexandre, daniela lourenço e victor cruz social media

guilherme lourenço, marcos boscolo, paulo campos e victor reis nesta edição

alexandre berton, alina dörzbacher, bianca dellafancy, daryk cuelar, eric oliveira, fabio hidekilim, fernanda cerântola, gabriela andrade, ginger moon, ilunga malanda, lamona divine, lolla venzon, luna georgia, shady jordan e slim soledad


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carta do editor Aquele que não teme: corajoso, intrépido, valente. Ser LGBT+ é um ato de coragem. Existir é um ato de resistência. Criar é um ato de sobrevivência. Dar voz as histórias de uma população marginalizada é um desafio. O nosso desafio. Somos um grupo de criativos LGBT+ que busca, com paixão, e dor, dar cara, nome, cor e forma a nossa própria realidade. Feitos por e para, somos um manifesto vivo, um organismo multi-existente e resistente que se desdobra e se alimenta do próprio núcleo. E acreditamos na força gerada pelo coletivo. Juntos somos mais. Somos mais plurais, somos mais verdadeiros, somos mais criativos. Juntos somos uma força. Um estrondoso eco, que reverbera e se espalha. Somos o eco dos que vieram antes de nós, que jogaram pedras, iniciaram revoluções, apanharam e morreram por nós. Juntos permanecemos sem medo. We Stand Fearless.

LUCA WEINGÄRTNER EDITOR-IN-CHIEF & DIRETOR CRIATIVO


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01 o significado de 15 Untitled XIX

editorial

“Arte LGBTQ+”

por Giovanna Macedo

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pink money: quanto vale sua representatividade por Ricardo Miguel

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existe pornografia lésbica feminista? por Giovanna Macedo

conteúdo

editorial

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por Arthur Avila & Luca Weingärtner

underground queEr

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por Guilherme Lounreço & Victor Reis

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O Sagrado e o Profano

por Tamiris Versannio

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qual o caminho para a fonte? por Luis Marques

endereços

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e agradecimentos

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LOOK ALINA 01 vestido Fabulous Agilitá, calcinha Hope, acessórios acervo LOOK ALINA 02 body Fabulous Agilitá, saia Youcom, demais peças acervo

LOOK BIANCA 01 body TIG, demais peças acervo LOOK BIANCA 02 vestido Fabulous Agilitá, casaco de pelo vintage, acessórios acervo

LOOK ALE 01 acervo pessoal LOOK ALE 02 corset Marita de Dirceu, vestido e robe (usado como saia) ambos vintage, demais peças acervo

LOOK ILUNGA 01 body Morena Rosa, saia Fabulous Agilitá, demais peças acervo LOOK ILUNGA 02 body Hope, vestido Hilfiger Collection, robe Fabulous Agilitá, acessórios acervo

direção criativa & fotografia L UCA WEINGÄRTNER

produção Daniel a l ourenço & thais maestrel l o moda caique tavares, guil herme l ourenço JEF F PACHECO, matheus capanema, & paul o cachoeiro beleza MONIQUE L EMOS assitente de produção GUIL HERME L OURENÇO, L ETÍCIA DANIEL & RAQUEL DE PAUL A elenco al ex andre berton, al ina dörzbacher, bianca del l afancy & l unga m. mal anda

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assistente de fotografia BERNARDO ENOCH


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o significado de

“ARTE LGBTQ+” EDIÇÃO No02

texto e colagens Giovana Macedo Artistas sempre refletem em suas obras sua relação com o mundo que os cerca. Desde a pintura renascentista até o ready made, a forma do artista de se relacionar com o seu momento histórico e sua experiência de vida invariavelmente reverberam em seu trabalho. Seja essa relação política, como foi com os artistas do dadaísmo, ou emocional, como foi com os artistas do romantismo, a experiência de vida daquele que faz arte está sempre impregnada em seu trabalho como uma impressão digital. Filósofos da arte contemporânea defendem, inclusive, que o artista é um filtro e a arte é a realidade filtrada por este indivíduo, não apenas uma representação de seu tempo, mas uma sublimação da realidade pelo artista. Desta forma, um artista não precisa pintar um homem chorando para propor uma experiência de reflexão sobre a tristeza – a arte é muito mais subjetiva que isso, e, no século XXI, após a popularização da fotografia, a influência da pop art, é cada vez menos interessante que o artista seja naturalista, e filósofos da arte contemporânea como Herbert Marcuse defendem que a beleza da arte reside na sua capacidade de transfiguração, em que a forma se torna conteúdo e não por uma representação “verdadeira” ou “correta” do real. Por que então se espera de artistas LGBTQ+ que produzam arte explicitamente sobre sexualidade e gênero para que essas questões sejam colocadas em pauta? Por que quando são organizadas exposições que abordam sexualidade só se colocam obras diretas, explícitas, que são praticamente retratos de um estereótipo de sexo que se criou no imaginário coletivo? E, por que ainda, muitas dessas obras são feitas pelas mãos de artistas homens heterossexuais e cisgêneros?

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ronormativa. A exposição Histórias da Sexualidade conta com obras de Picasso e é incapaz de falar de sexualidade e gênero sem erotizar essas práticas. É comum, entretanto, que, sendo uma pessoa heterossexual, se relacione sexualidade a erotização. Quando sua sexualidade não interfere em todos os aspectos sociais e políticos da sua vida é comum que reste apenas o aspecto erótico. Porém, ser queer hoje no brasil afeta a forma como as pessoas vivem. Afeta as vidas dessas pessoas desde o momento que acordam até quando se deitam. Afeta sua vida profissional, sua relação com a família, as colocam em situação de constante perigo nas ruas. Afeta, invariavelmente, sua arte. A artista Zoe Leonard, quando questionada sobre a sua produção artística enquanto mulher lésbica, disse, em 1994, “Eu faço trabalhos sobre o que está em minha mente. Sobre aquilo que me perturba, me excita ou me confunde. Meus medos, meus desejos. Isso é fotografia, eu aponto a minha câmera para algo que me interessa. E então eu mostro pra você. Você literalmente vê o meu ponto de vista. Você vê aquilo que me move, me assusta, me enoja. Pouco do meu trabalho é sobre amor – pelo menos por enquanto – ou sexo. Mas, sendo sapatão e sendo uma mulher me formou, formou a minha perspectiva. Eles não foram os únicos elementos, mas eles são os que percorreram tudo em minha vida. Algumas coisas continuam acontecendo por causa desses fatos. Eu fico afim de No Brasil, não é possível fa- mulheres, eu sou frequentemente lar de exposição LGBTQ sem falar assediada. Eu passo tempo com um de artistas cisgêneros heterosse- monte de outras sapatonas e viados. xuais dentro do espaço expositivo. Eu tenho medo de sofrer violência Queermuseum contou com inúmeros lesbofóbica. Eu tenho medo de ser trabalhos de pessoas heterossexuais estuprada. Eu tenho raiva por que exotizando a sexualidade não-hete- tantos amigos meus morreram de

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Da mesma forma que ninguém colocaria numa exposição cubista um pintor renascentista, ainda que ele falasse sobre formas geométricas, ou colocaria uma obra que falasse o universo onírico em uma exposição pensada sobre materialismo, os curadores não podem colocar artistas heterossexuais para falar de homossexualidade. Não se pode colocar homens para falar de gênero. Por mais que hoje exista o questionamento da organização expográfica estratificada, separatista e categorizadora, o máximo que podemos estabelecer entre esse tipo de obra e a vivência LGBTQ+ é um diálogo, mas é essencial que, politicamente, a arte pare de utilizá-las como forma de representatividade e educação sobre vivências de sexualidades não normativas. Ser artista é ter em toda sua obra, um resíduo seu. Seja esse resíduo gráfico ou seja conceitual, ele existe. Algumas vivências tem a sua marca tão constante na arte, que artistas como Jeff Koons, Sol Lewitt, etc. nunca tem seus trabalhos relacionados à elas, é como se fossem irrelevantes. Mas essa constância também é a mesma que faz com que se pressuponha que toda obra de arte é feita por um homem branco heterossexual até que se analise-a de perto. Se um mictório foi capaz de falar sobre arte usando deste mesmo mecanismo, esse reflexo, dessa impregnação de contexto e vivência, um desenho gestual é mais do que capaz de falar de gênero e sexualidade.


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Fábio hideki

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AIDS. Eles – nós – fomos proibidos, por exemplo, de usar a palavra ‘lover’ no obituário deles do New York Times. Essas coisas vão se acumulando. Eu tive que me assumir. Nenhuma pessoa heterossexual entende sobre se assumir. Eu tive que encontrar um desejo dentro de mim e segui-lo, mesmo que ele fosse contrário a todos os padrões sociais à minha volta. Esse processo de descoberta, examinação e confiança no meu próprio desejo é um processo de formação. Eu já estava transando com mulheres, mas descobrir meu sexo e escolher me assumir foi o que me tornou sapatão. Então, meu sexo é parte de quem eu sou, de como eu sou tratada, de como eu trato os outros. Ele se desenvolveu paralelo a outras influências. Ser queer formou parcialmente a minha visão de mundo. E a minha visão de mundo está sempre no meu trabalho, até mesmo quando o assunto dele não é sexo.” Vinte e quatro anos depois, ainda estamos esperando de artistas LGBTQ que seu trabalho seja sobre sexo e seja explícito para que seja representativo. Vinte e quatro anos depois e vemos esses artistas sendo obrigados a reduzir seu trabalho a isso para serem considerados parte da comunidade. Ainda vemos vivências sendo apagadas e a sexualidade de artistas sendo omitida, como se fosse possível separar o artista da obra e torná-la algo independente e distante da condição daquele que a criou, como se o resíduo da autoria fosse apagável quando é lésbico, gay, bissexual, transgênero, queer. Mesmo nessa realidade, temos hoje artistas que produzem trabalhos magníficos, conceituais, materiais ou performáticos, que merecem visibilidade e deveriam fazer parte do que é considerado hoje como “representatividade” na arte, ou, “arte queer”, mesmo sem um corpo de trabalho explícito, militante ou sequer facilmente identificável como não heterossexual. Não apenas na vida, mas também na arte, existir enquanto indivíduo LGBTQ+ é político. Ser um artista queer é político e já é – por si só – revolucionário, tornando assim, toda a sua produção igualmente revolucionária. Entrevistei alguns artistas brasileiros, contemporâneos e LGBTQ+ com diferentes experiências, que trabalham em diversos campos da arte para saber suas opiniões acerca dessa reflexão: Fábio Hideki, nipobrasileiro, artista visual multimídia, que trabalha com tecnologia, videoarte e arte conceitual, 20, São Paulo; Larissa Dare, trabalha com fotografia em São Paulo capital, 25; e Fernanda Lins 26, de Recife, artista visual que trabalha principalmente pintura a óleo sobre superfícies variadas.


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Qual a sua opinião acerca de artistas heterossexuais que produzem arte sobre temas LGBTQ+? Fábio: A própria pergunta já diz tudo, eles produ-

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zem arte sobre temas LGBTQ+. Essas questões são abordadas simplesmente como um tema, fica com cara de algo jornalístico/documental, tipo a seção cultura do National Geographic só que ruim. Muitos parecem até ter uma intenção boa, fazendo projetos que tentam dar lugar de fala, mas seria melhor dar autonomia pra gente ao invés de sermos inspirações temáticas.

LARISSA: Acho que nossa luta, por ser diária, sobrecarrega, então é sempre bom contar com uma mãozinha, seja ela heterossexual ou não. Creio que o mais importante seja incluir a galera LGBTQ+ nessas criações, e principalmente, ecoar suas vozes, invés de tomá-las como suas e silenciá-las. FERNANDA: Lembro de quando estava pesquisando sobre a representação de mulheres lésbicas na pintura e me deparei com a obra Le Sommeil de Courbet. É uma obra que ilustra duas mulheres nuas deitadas na cama em um momento íntimo. Já vi essa imagem reproduzida por mulheres lésbicas tantas vezes que perdi a conta. Então, a princípio achei interessante a existência dessa imagem na época, que dizem que chocou a sociedade e abriu novos caminhos para essa temática. Essa obra é sempre destacada quando se fala da representação de lésbicas na arte. Pensando que naquela época (1866), as mulheres (e, consequentemente, mulheres artistas) tinham ainda menos espaço do que hoje, então reconheci uma certa importância. Eventualmente, li mais um pouco sobre esse quadro e acabei descobrindo que ele não foi pintado porque o artista estava dentro de um contexto social de convivência com mulheres lésbicas e expressava sua realidade. Na verdade, essa obra foi encomendada por um diplomata Turco, que provavelmente tinha como fetiche as relações entre mulheres. Então, é problemático. Quando se tem um artista heterosse019


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Le Sommeil, Gustave Courbet, 1866

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xual abordando temas LGBTQ+, é importante tentar compreender seu contexto, suas motivações e seus objetivos com aquela obra. Mesmo que a imagem, por si só, possa ter um impacto positivo, não podemos pensar na produção de algo sem ver todo o seu processo até chegar aos olhos do público e ao mercado de arte. Por que esses artistas estão abordando essa temática? É um interesse genuíno? É parte da expressão individual deles? Será que não é só pelo fato de que “LGBTQ+ tá na moda”? Não tenho problemas com o fato em si de uma pessoa heterossexual falar sobre homossexualidade, por exemplo. Mas precisamos avaliar melhor não apenas todo o processo de produção e as motivações do artista, temos também que pensar nessa imagem final resultante na obra. Como ela contribui com a vida das pessoas LGBTQ+? Será que essa obra produzida por uma pessoa heterossexual, em uma exposição sobre a temática LGBTQ+, não está ocupando o espaço de um(a) artista LGBTQ+?


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larissa dare


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Você já sentiu cobrança para produziR trabalhos explicitamente sobre gênero e sexualidade? tivas do que uma cobrança direta. Como eu trabalhava com publicidade antes eu tinha uma preocupação em me assegurar que a comunicação estava sendo feita de forma bem clara. Então quando comecei uma produção mais autoral a tendência foi tratar questões importantes de forma mais objetiva e figurativa. Mas acabava ficando uma coisa meio didática e óbvia, sem profundidade. Com o tempo fui percebendo que as linguagens que eu queria explorar demandam uma subjetividade formal maior, e que essas questões de identidade e afetividade acabam se manifestando de maneira mais orgânica no meu fazer artístico.

LARISSA: Sim, e essa cobrança vem mais de dentro que de fora. Sinto que precisamos, cada vez mais registrar essas vivências, jogar pro mundo e esperar, em troca, um diálogo honesto do espectador.

FERNANDA: Sim. A cobrança não necessariamente tem sido externa e direta e não houve muitas situações em que pessoas vieram me falar que eu deveria falar sobre o tema de forma mais explícita na minha obra. Porém, algumas vezes aconteceu de eu, por ser mulher lésbica, ser convidada a participar de eventos de arte com a temática de gênero ou LGBTQ+ e perguntaram se eu tinha alguma obra dentro disso. Simplesmente achei que minha obra não caberia, que não era o que queriam de mim. Porque o que essas pessoas esperam, de fato, é algo explícito, que choque, excite, que expresse lesbianidade em todas as pinceladas.

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Fábio: Sim, mas foi mais um misto de autocobrança e projeção de expecta-


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Qual a sua relação com outros artistas LGBTQ+? Fábio: É interessante porque a gente tem esses aspectos em comum, mas isso acaba se traduzindo na arte de formas tão distintas. Principalmente algumas pessoas mais próximas que também são artistas e daí dá pra acompanhar o processo mais de perto, e como cada um acaba se relacionando com a arte. Sempre rola uma troca de aprendizados, e um sentimento muito bom de aceitação e pertencimento.

LARISSA: Cumplicidade. Estamos no mesmo barco, e se alguém começar a afundar, a gente tá lá pra afastar a onda e dar um colo quente e ouvidos.

FERNANDA: As pessoas com quem mais me relaciono na vida costumam ser, em sua maioria, LGBTQ+. Tenho amigas, amigos e colegas que são artistas das mais diversas linguagens. Essas pessoas, na maioria dos casos, também não tratam a sigla LGBTQ+ como uma temática a ser explorada. Elas existem, resistem, fazem suas artes e deixam que elas reflitam quem são. Acho que uma verdadeira exposição LGBTQ+ não precisa (ou não deve) tratar a sigla como apenas uma temática, mas sim como um espaço de expressão genuína da arte feita por pessoas LGBTQ+. 023


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O que significa ser um artista LGBTQ+ para você? Fábio: São duas coisas muito intrínsecas da

LARISSA: Eu sou uma artista LGBTQ+, mas sei de todos meus privilégios como branca, classe média e padrão. Não posso contar muito sobre percalços porque os vivo com pouca frequência, mas gosto de contar as histórias de quem os vive em seu cotidiano.

FERNANDA: Acho que a sigla (o termo) LGBTQ+ não nos qualifica necessariamente como artista, mas sim como pessoas. Não acho que pode existir uma pessoa heterossexual que seja um artista LGBTQ+, mesmo que fale disso em sua obra. E acho que as pessoas LGBTQ+ que produzem arte, até quando não abordam diretamente o tema, podem/devem ser consideradas artistas LGBTQ+.

fernanda lins

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minha identidade: Ser artista e ter essa vontade de estar explorando novas linguagens e possibilidades dentro do campo das artes; e a forma como eu me expresso, as pessoas com que eu me relaciono de maneira afetiva e sexualmente. Nesse sentido, acho que todo mundo acaba passando por um processo de autoaceitação que se transforma em normalização. E as vezes eu estou tão confortável nesse meio mais liberal, que esqueço que algo que pra mim já é normal pode causar olhares de desgosto em pessoas intolerantes. Se por um lado vem aquele desânimo, por outro saber que a minha arte pode ajudar as pessoas a verem o mundo de outra maneira é bastante motivador.


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Como você acha que isso se traduz no seu trabalho? Fábio: Eu sempre tive muito interesse em processos de criação de imagem e a forma de como a sociedade se relaciona com ela. Neste sentido, ultimamente tenho explorado a questão da semelhança e do acaso. No meu trabalho isso aparece em diversas obras que usam o conjunto e a sequência como elemento significante. Então, por exemplo, numa obra recente minha, chamada “Da Sorte”, eu faço desenhos à partir de coordenadas geográficas obtidas em números de biscoitos da sorte. Acho que todo mundo já parou pra imaginar como seria a vida se tivesse nascido em outro lugar, se desse sorte e fosse parar numa região mais receptiva com as questões LGBTQ+. Ou como seria a vida num país em que demonstrações de amor entre pessoas do mesmo gênero são proibidas. Então, apesar do fator humano não se manifestar visualmente neste trabalho, creio que ela oferece pontos de acesso que permitem ao observador se relacionar com essas questões da humanidade, de como nós nos dividimos socialmente e agrupamos o que é igual por semelhança.

LARISSA: Visibilidade. Eu enxergo essas teressa. Minha arte é mais uma forma de

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pessoas porque eu existo e sou uma delas. Enquanto eu puder abarca-las em meu trabalho, eu tô bem.

FERNANDA: Me identifiquei bastante com o posicionamento de Zoe Leonard, quando ela afirma que sua experiência enquanto sapatão sempre esteve presente em sua obra porque está presente em sua vida, em seu olhar. Sinto que o que eu faço é bem por aí. Meu trabalho, pelo menos até o presente momento, não fala de forma tão direta sobre a temática, mas acredito que exista uma certa subjetividade lésbica. Acho que poucas vezes o meu trabalho foi visto como arte LGBT e eu vista como artista lésbica (embora todo mundo saiba que sou lésbica). Isso sempre abre um questionamento dentro de mim, como aquela cobrança já mencionada. Será que eu não deveria falar disso mais abertamente em minha arte? Eu falo disso abertamente em minha vida. Na minha história de vida, sendo aquela criança, a menina que jogava futebol e iria ser lésbica quando crescer. A sapatão da sala de aula. A primeira pessoa LGBT a se assumir na turma da faculdade. E por aí vai. Sigo sendo sempre reconhecida como lésbica nos cantos. E, na vida, apenas me expresso. Visto as roupas que quero, falo como gosto, converso sobre o que me in-

expressão. Veja, as roupas que visto, os lugares que frequento, não informam diretamente “faço sexo e me relaciono com mulheres”, mas, dentro de todo o contexto, todas as minhas atitudes, escolhas e comportamentos são guiados por quem eu sou. E eu sou uma mulher lésbica. A minha arte deve ser encarada da mesma forma. Se analisada em conjunto com minhas atitudes e expressões diversas, acho que pode ser encarada como arte sapatão. Meu trabalho reflete um certo existencialismo que está dentro de mim, que não poderia existir se eu fosse outra pessoa, se eu não fosse exatamente eu, essa mulher lésbica nesse contexto que vivo. Um dia eu estava conversando com um colega artista, que é mais velho e mais experiente que eu. Estávamos diante de alguns quadros que eu havia pintado e ele me falava suas impressões. Ele olhou para um deles e disse “esse quadro é muito sapatão”. E aí mostrei outro, ele disse a mesma coisa. Em ambos, eram rostos de mulheres sendo representados. Mas qualquer pessoa pode pintar mulheres, né? O que fez essas imagens serem muito sapatão? Acho que é justamente nessa subjetividade, nessas sutilezas que falo sobre a temática LGBT ou sobre o que é ser uma mulher lésbica em meu contexto.

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texto Ricardo Miguel colagem Raquel Cutin

PINk

Quanto vale sua representatividade? Marcas buscam o engajamento da comunidade LGBTQ por meio de campanhas para atrair cada vez mais consumidores. Oportunidade ou oportunismo?

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No primeiro ano da minha graduação em jornalismo, em meados de 2013, a professora de Interfaces Sociais da Comunicação soltou a seguinte frase em sala de aula: “Mesmo sendo minoria, gays possuem grande poder de compra. Eles normalmente não vão ter filhos e consequentemente vão gastar mais com produtos e serviços. É um mercado que deve ser muito bem explorado, pois pode ser bastante lucrativo”. Apesar de sua fala verbalizar o estereótipo da minoria de homens gays bon-vivant e endinheirados, minha professora não estava completamente errada.

A pergunta de muitos é: Como um grupo que até pouco tempo era inserido na mídia apenas para induzir polêmicas, chacota ou comédia acabou ganhando protagonismo em campanhas publicitárias?

Dinheiro? Também, claro! Mas não apenas, pois o que para grandes empresas significa mais lucro, para a comunidade LGBTQ+ pode significar uma grande oportunidade. “Vemos que nas últimas décadas, pautas como diversidade, orientação sexual e gênero ganharam mais e mais atenção na mídia. Desenvolver campanhas publicitárias protagonizadas por indivíduos LGBT’s é o modo mais eficaz de Conforme o último Censo De- atrair nossos olhos. Mas eu vejo como mográfico do Brasil, realizado em uma troca, já que ambos os lados con2010 pelo Instituto Brasileiro de Ge- seguem tirar proveito da situação”, ografia e Estatística (IGBE), dos 67,4 disse o historiador Ruan de Assunção mil casais que declararam estarem Mendes em entrevista para a FEARem um relacionamento homossexual, LESS Magazine. 35.22% afirmaram receber de 2 até mais de 20 salários mínimos (no valor Em 2017, Ruan concluiu sua de R$ 510, na época), contra 15.36% licenciatura em História com uma do casais heterossexuais que disseram monografia que abordava a história o mesmo. E, embora o Censo só con- da população LGBTQ+ no Brasil da tenha dados de casais que autodecla- era colonial até os dias atuais. “Nós raram estarem em um relacionamento somos tratados como pária desde os homoafetivo, ocultando da pesquisa tempos de colônia, éramos vistos pessoas que não revelaram fazer parte como portadores de um vício nefanda sigla, pode se dizer que sim, algu- do, um pecado que não podia ser dito mas das pessoas que compõem a sigla de tão feio. Pessoas LGBT’s podiam LGBTQ+ têm alto poder de compra ser julgadas e condenadas pela Santa e, assim, as marcas adotaram a repre- Inquisição à trabalho forçado, perda sentatividade em nome do consumo de bens, como também à morte. Desdesse nicho. de sempre somos um grupo dissidente que só é tolerado quando não tem Segundo dados da InSearch Ten- voz”, afirma o historiador que vê com dências e Estudos de Mercado, são mais olhos positivos o atual canal alcançade R$ 150 bilhões que a comunidade LGB- do pela comunidade LGBTQ+ na puTQ+ movimenta anualmente em produtos blicidade. e serviços no Brasil. Marcas como Boticário, Coca-Cola e Avon introduziram lésbi“Demonizar campanhas não nos cas, gays, transexuais, pessoas não binarias ajuda em nada. Vivemos num contexto e drag queens como protagonistas de suas social e econômico capitalista. Empresas campanhas, seja na internet, televisão, im- são organizações que têm como principal pressos ou até mesmo no rótulo de seus objetivo lucrar, não existe escapatória. No produtos. Porém, a linha entre oportunis- mundo onde vivemos se algo não dá remo e representatividade mostra-se tênue. torno financeiro não é algo que vá ganhar 027


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manutenção. Mas por outro lado, quebra um súbito fim da série foram amplamente questiogalho pro nosso lado: ganhamos mais visibili- nados nas redes sociais. dade, oportunidades para educar a população, Ted Sarandos, produtor de conteúdo da para mostrar que não somos aberrações e temos Netflix, contou em entrevista ao comediante direitos”, acredita Ruan. Jerry Seinfeld que o programa não tinha uma Um exemplo de empresa que não obteve audiência satisfatória e correspondente com seu o retorno financeiro esperado com um produto elevado custo de produção, US$ 9 milhões por que oferecia enorme representatividade a comu- episódio para ser exato, segundo a revista Varienidade LGBTQ+ e decidiu encerrar sua produ- ty, logo, o único fim possível foi o cancelamento ção é a Netflix com Sense8, série que estreou precoce. A questão de audiência fica difícil debaem 2015 e foi abruptamente cancelada em julho ter já que a Netflix não libera números de especde 2017, após duas temporadas tratando de te- tadores, todavia, graças ao empenho dos fãs da mas como amor, interações humanas, empatia e série em levantar campanhas, hashtags, petições aceitação de personagens transexuais e homos- e fazer barulho nas redes sociais demandando o sexuais, o posicionamento da Netflix em relação retorno da série, um episódio final com lançaao cancelamento e os motivos que levaram ao mento previsto para 2018 dará fim a série.

Representatividade e o que mais? “A pele é a tela e a maquiagem um instrumento da arte. Criar e se reinventar com as cores é para todo mundo, sem gênero, sem idade, sem raça, sem data de validade (...) #SintaNaPele a beleza que faz sentido na prática. Vem! Novo BB Cream Matte Avon Color Trend para você, para TODES!”, anuncia a marca de cosméticos Avon no material de divulgação de um dos seus produtos lançados em junho de 2016. Em outro trabalho monográfico de conclusão de curso, apresentado também em 2017, Nickolas Caldeira pesquisou o impacto do vídeo da campanha do BB Cream Matte Avon Color Trend, divulgado apenas nos canais da marca na internet e estrelada por personalidades da comunidade LGBTQ+ como a cantora Liniker, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, e a youtuber Jessica Tauane, do Canal das Bee. 029

“Pensei nesse tema em uma aula de ética, um professor estava falando sobre o posicionamento de empresas em questões sociais. Concluímos que não é algo necessariamente negativo, porque se existe um pensamento na sociedade, uma ideia de mudança que foi captada por uma empresa, mesmo que seja oportunismo eles quererem lucrarem em cima disso, acho que é válido pela discussão que vai eclodir na sociedade, é uma oportunidade da gente tirar proveito”, declara Nickolas sobre a escolha do tema. Sobre sua metodologia e resultados, Nickolas explica: “Eu analisei as reações dos mil primeiros comentários do vídeo publicado no Facebook, tanto dos usuários quanto as respostas da Avon, e fiz uma análise interpretando o que era dito nos comentários e classificando como positivo, neutro ou negati-


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vo. De comentários positivos foram quase 80%, a aprovação foi basicamente geral e deu para ver o quanto o público valoriza o posicionamento da marca.” Porém, a pesquisa também trouxe um questionamento que ficou sem resposta na época: “Alguns dos comentários negativos foram respondidos. Mas tiveram uns 10 comentários que não foram respondidos, estavam questionando as políticas de inclusão da Avon, perguntando se eles colocavam LGBT’s para trabalhar lá dentro, se não era apenas algo para campanhas, mas não responderam nada.”

gens.”, afirmou o Santander em nota aos clientes para avisar do cancelamento do Queermuseu. Por decisão do Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul (MPF/RS), o Santander deve exibir duas exposições sobre diversidade como punição pelo fechamento antecipado do Queermuseu. Se não cumprir com essa determinação, o banco vai precisar pagar uma multa no valor de R$ 800 mil.

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Atualmente, a Avon participa do Fórum de Empresas e Direitos LGBTs, junto da Coca-Cola, Ambev, Carrefour, entre outras, e possui o compromisso de discutir e acolher a comunidade LGBTQ+ no ambiente de trabalho para muito além dos comerciais. Desta maneira, o protagonismo transcende o oportunismo e é possível vislumbrar um futuro em que marcas não irão somente querer o dinheiro da comunidade LGBTQ+, ou pink money como também é conhecido. “(...) depois de um tempo fica fácil disseminar que marcas estão querendo somente posar com algo que não é verdadeiro, é algo que vai soar falso para gente, vamos ver que o posicionamento é só para tentar lucrar em cima de uma causa”, conclui Nickolas Caldeira. Em setembro de 2017, o banco Santander demonstrou que uma marca pode assumir representatividade, mas retirar seu posicionamento em favor dos LGBTQ+ em consequência de pressão popular oposta. Devido à onda de ataques conservadores, orquestrada principalmente pelo Movimento Brasil Livre (MBL), a exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira acabou sendo fechada um mês antes do previsto pelo Santander Cultural do Rio Grande do Sul. A mostra continha trabalhos de Cândido Portinari, Lygia Clark, Adriana Varejão e mais 85 artistas que abordavam o universo LGBTQ+. “ (...) não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos. Por esse motivo, decidimos encerrar antecipadamente a mostra. O Santander Cultural tem como missão incentivar as artes e dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros, para gerar reflexão positiva. Se esse objetivo não foi atingido, temos o dever de procurar novas e diferentes aborda030


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EM HOMENAGEM AO 30º ANIVERSÁRIO DE MORTE DE DIVINE. por victor loureiro 031


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Existe pornografia lésbica feminista? texto e colagem Giovana Macedo Pornografia é cada vez menos um tabu. Feminismo, democratização da internet, libertação sexual das mulheres em alta, popularização da educação sexual, liberalismo. Quem quer que seja o responsável, o fato é que a pornografia nos últimos dez anos experienciou um crescimento absurdo, e o PornHub, plataforma mais popular de pornografia gratuita, está em 38º lugar dos sites mais acessados do mundo. O número crescente de usuários, o aumento de visitantes mulheres e a quantidade absurda de diferentes portais de pornografia gratuita e paga nada mais são do que um reflexo dos esforços e investimentos milionários de uma indústria que movimenta anualmente 6,7 bilhões de dólares nos EUA somente com pornografia online. Além dos vídeos online, a indústria pornográfica conta com lucros de convenções, eventos e principalmente prostituição e tráfico de drogas. A pornografia dita como “heterossexual” é considerada a mais perigosa. Existem inúmeros artigos, pesquisas e documentários que falam sobre como esses vídeos de irrestrito acesso são perigosos para a dessensibilização de seus consumidores para violência, como o vício em pornografia compromete casamentos heterossexuais, empregos, como diminui drasticamente a expectativa de vida das mulheres envolvidas na produção desses vídeos, contém mais cenas com agressão física e verbal do que sem, como destrói as vidas de homens, mulheres e crianças. 033


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se manifestar contra a pornografia, pois, segundo eles, a pornografia está intrinsecamente ligada com a alta alarmante no número de mulheres com prolapso retal, destruição dos músculos da vagina, fraturas intestinais causadas por inserções absurdas e com fraturas em seus ânus e vaginas nos últimos 10 anos. Sendo a pornografia lésbica a mais assistida no mundo, é de se esperar que, se mulheres lésbicas se educarem por essa mesma fonte, o resultado será, no mínimo, semelhante. Existem correntes que defendem que os maiores problemas da pornografia lésbica e hétero é a falta de representatividade. Segundo elas, o pornô não representa corpos diversos o suficiente, não é inclusivo. Colabora com padrões de beleza inalcançáveis para mulheres. É uma indústria que deveria pagar igualmente seus performers masculinos e femininos! Não tem diretoras mulheres o suficiente, sabe? O problema é que todas essas pautas ignoram que o problema não é nada disso – não é a ausência de feminismo na pornografia, e sim, a existência desse tipo de comercialização dos corpos femininos. Gloria Steinem disse que “Qualquer que seja o gênero dos participantes, toda pornografia é uma imitação do paradigma masculino-feminino, conquistador-vítima, e praticamente todo conteúdo pornográfico apresenta ou implica mulheres escravizadas e mestres.

“A fetichização do sexo lésbico não é nenhuma novidade, dentro ou fora da pornografia, o desejo masculino sobre relações entre mulheres é histórico e esteve presente no imaginário da sociedade desde o início do patriarcado.” O fato de que mulheres representam uma parcela da sociedade economicamente vulnerável torna impossível fugir da exploração econômica, e também torna falsa qualquer liberdade. Não existe consentimento comprado. Atrizes pornô não querem fazer sexo. elas querem dinheiro. Logo, aceitar participar de uma produção pornô não é consentimento se você está sendo monetariamente coagida a fazer aquilo,

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É muito fácil para a população LGBTQ ler essas estatísticas e não sentir nada – nenhuma culpa, nenhuma relação – afinal, esses vídeos são sobre eterossexuais, são eles que estão consumindo isso, produzindo isso e a culpa é da própria heteronormatividade tóxica e patriarcal, o meu pornô não tem nada a ver com isso, certo? Bem, não exatamente. No ano de 2017, a categoria “lesbian” foi a mais procurada nos sites de pornografia em todo o mundo. A fetichização do sexo lésbico não é nenhuma novidade, dentro ou fora da pornografia, o desejo masculino sobre relações entre mulheres é histórico e esteve presente no imaginário da sociedade desde o início do patriarcado. Outra coisa histórica, e tão antiga quanto a fetichização, é a lesbofobia. A igreja, os homens, todos os grupos que perseguiam as mulheres, perseguiam as lésbicas, pois é impossível cercear a liberdade sexual da mulher sem impedi-la de relacionar-se com outras mulheres. Não é de se espantar, de fato, que as relações que mais machucam o patriarcado sejam as mais objetificadas por ele, especialmente se essa dinâmica é colocada em uma indústria que torna violência sinônimo de sexo. O que é espantoso, na realidade, é o aumento da procura de mulheres por esse tipo de fetichização, e o dado de que as mulheres procuram 197% mais por pornografia lésbica do que homens. O aumento da procura de mulheres por pornografia lésbica pode ser explicado por diversas óticas. Algumas pessoas dizem que o interesse feminino nesse gênero pornográfico se dá por conta de tanta violência presente nas cenas heterossexuais, por ser menos agressivo, mais romântico… mas isso tudo se baseia em uma visão romantizada e pouco realista do que a pornografia lésbica –e a pornografia, em geral – realmente é e como ela se parece. Outras pessoas também dizem que, na verdade, a parcela de mulheres que acessa sites pornográficos é constituída majoritariamente por lésbicas, e que elas estão, na verdade, procurando educação sexual, assim como os homens comprovadamente fazem com a pornografia heteossexual. No caso deles, o uso da pornografia como educação sexual gerou danos sociais irreparáveis não severos que médicos nos EUA precisaram


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ou ameaçada pelo seu agente, pelo seu cafetão. Tendo isso em mente, é fácil deduzir que a maioria da pornografia lésbica é produzida por mulheres heterossexuais. Mas não é necessário deduzir, a ex-atriz pornô Vanessa Belmont, por exemplo, já contou como cenas “lésbicas” de pornografia são dirigidas por homens, produzidas por homens, contém homens no set ameaçando as mulheres, e mulheres que sentem prazer em machucar outras mulheres como forma de estabelecer dominância. Mas as produtoras masculinistas violentas e cheias de homens não são as únicas! Existem produtoras que se dizem feministas, sex-positive, oferecem pagamentos iguais para seus atores, são dirigidas por lesbicas! Como podem essas produtoras, premiadas pelo Feminist Porn Awards, serem perigosas para mulheres? Como elas podem não ser eficientes ferramentas de educação sexual para jovens mulheres? Para abordar essas perguntas, eu vou retomar a inexistência do consentimento comprado. Lutadores de UFC, por exemplo, não gostam de apanhar, eles gostam do dinheiro. Alguns gostam dos treinos, de se exercitarem, talvez até da luta – mas nenhum deles gosta da dor. Nenhum lutador de UFC participaria de uma luta completamente gratuita na qual ele soubesse que ia apanhar mais do que bater, fosse cuspido, urinado, ridicularizado por seu oponente. Da mesma maneira, atrizes pornô não se submeteriam a isso de graça. Pornografia não é sexo. E, também, misturando as duas situações, lutadoras do Ultimate Surrender não estuprariam umas às outras se não fosse pelo dinheiro. Ultimate Surrender é uma das produções dirigidas por uma mulher de pornografia exclusivamente feminina e consiste em uma luta na qual as participantes recebem pontos por performarções sexuais indesejadas umas nas outras, e ganha aquela que fizer mais pontos ou forçar a outra a ter um orgasmo completamente contra sua vontade. A perdedora, em um “último round” recebe uma punição da ganhadora usando um strap-on. Isso é sexo? Não, mas é pornografia. Pornografia vem sendo cada vez menos sobre sexo e mais sobre violência.

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Existem, claro, contratos diversos que garantem que as produtoras não podem ser consideradas responsáveis por qualquer violência praticada no set, garantindo que as atrizes estão lá por livre e espontânea vontade, que aquilo é tudo consensual. Garantir um local mais humanizado, na qual as pessoas envolvidas recebam o mesmo pagamento, tem “liberdade” para dizer se estão desconfortáveis, um casting variado… todas essas coisas são maneiras de remediar um problema maior. Todas essas coisas tornam algumas produções pornográficas lésbicas menos violentas e excludentes que as outras, mas ambas partilham a exploração sexual de mulheres, o lucro baseado inteiramente no corpo feminino nu, sendo usado, exposto, vendido. A comercialização disso representa uma chaga social muito maior do que a pornografia em si, mas, se pudermos não colaborar com isso, retomar nosso poder sobre nossos corpos e aprendermos sexualidade, segurança e saúde sexual de maneira saudável, já estaremos fazendo algo para parar isso. Companhias extremamente lucrativas e que nos exploram sempre dão um jeito de cooptar movimentos sociais, e a pornografia com roupagem feminista, lésbica, inclusiva não é diferente –mas não podemos nos enganar, pornografia lésbica não tem nada de feminista.


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fotos Jonys Lowe edição Luca Weingärtner direção criativa Jeff Pacheco produção Guilherme Lourenço assistemte de produção Larissa Miranda, Luca Weingärtner e Thais Maestrello moda Jeff Pacheco & Victor Loureiro beleza Letícia Govveia modelos Alice Marcone, Daryk Cuellar, Fernanda Cerântola, Gabriela Andrade e Guilherme Lourenço

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LOOK ALICE 1 Casaco e blusa Coven, calça Morfema Zero, botas Current Mood LOOK ALICE 2 Blusa Morfema Zero, macacão Malwee, bota Amaro LOOK DARYK 1 Top Morfema Zero, calça Morfema Zero, shorts Morfema Zero, choker Some Concept, meia Wasted Paris, Tênis YRU LOOK DARYK 2 Calça e top Morfema Zero, casaco MMK, Tênis Schutz LOOK FERNANDA 1 Saia Velvet Velcro, colete e colares acervo LOOK FERNANDA 2 Jaqueta de couro Vintage, jaqueta xadrez Amaro, meias Lupo, hot pants Morfema Zero, choker e top de arrastão acervo

LOOK GABRIELA 1 Calça e casaco Morfema Zero, botas Morena Rosa, segunda pele Lupo LOOK GABRIELA 2 Saia (usada como capa) TIG, botas Morena Rosa, meias Lupo LOOK GUILHERME 1 Calça e laço Morfema Zero, blusa TIG, boina acervo LOOK GUILHERME 2 Full look Morfema Zero

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texto Arthur Avila fotos Luca Weingärtner

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É difícil dizer, ao certo, quando e onde começou a cultura drag. Alguns diriam que surgiu durante o século XVI, no Japão, com o Kabuki – teatro caracterizado por ser feito exclusivamente por homens, incluindo as personagens femininas –, outros afirmariam que as primeiras drags surgiram na Inglaterra, em 1870, após os amigos, Ernest Boulton e Frederick Park, saírem às ruas vestidos de, respectivamente, Stella e Fanny. Por causa disso, os dois ficaram presos durante quatro meses por sodomia, só por serem homens com “roupas de mulher”. Historicamente, as drag queens são resistência. Na Revolta de Stonewall (Nova Iorque, EUA, 1969), as drags e as mulheres transexuais foram as primeiras a jogarem pedras nos policiais, após a polícia ter fechado o bar Stonewall, que era point da comunidade LGBTQ+, e tentarem levar presos todos os homens e mulheres que estivessem travestidos. TOUCH THIS SKIN

O “início” do movimento, no Brasil, ocorreu durante o século XX, no mesmo século que nos Estados Unidos. Durante o período de ditadura militar, o delegado José Wilson Richetti utilizava de rondas policiais para perseguir “homossexuais”. Travestis, transexuais, bissexuais, lésbicas e todas as letras do acrônimo LGBTQ+ eram considerados “homossexuais”. Caso estas pessoas usassem roupas do gênero oposto, elas eram muitas vezes levadas e fichadas por “atentado à moral e aos bons costumes”.

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“Ser drag é você sair de uma caixinha. Uma caixinha não apenas estética. Além de fazer você ter uma visão diferente sobre si próprio, sobre seu corpo, ser drag é político, é arte.” Ginger tem 21 anos, é atriz e bailarina e sempre conviveu no meio, mesmo antes de começar a se montar aos 19 anos. Por trás desta queen burlesca há Bruna Alves, mulher cis que, além de sofrer preconceito por se montar, é constantemente julgada pelas próprias comunidades que compõem o LGBTQ+ e drag, que ditam que esta arte só pode ser realizada por homens. “Por que só homens? Já basta a mulher ser atacada sempre só por ser mulher. O espaço é nosso por direito. É uma expressão artística e, mesmo assim, eu tenho sempre que mostrar mais. Se eu colocar um vestidinho, vão dizer que não é drag, mesmo que muitos homens que se montam façam isso. A pessoa não sabe fazer um delineado e vem falar que eu não posso, só por causa do meu gênero. E pra quem fala que mulher não pode fazer drag: nós já estamos fazendo e você não pode nos parar”, aponta ela. Ginger Moon faz parte do grupo Riot Queens que é composto por mulheres que se montam. Elas fazem performance, cantam, dançam e atuam em casas noturnas. Para Ginger, a performance tem início no momento em que ela começa a cobrir seu rosto com maquiagem. 055


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Para Shady Jordan, drag queen, modelo, beauty artist e wigmaker (profissional que confecciona perucas), drag não tem limitação, é você ser livre. Para ela, o que mais gosta em se montar, é criar o look. Cabelo, roupa e maquiagem são seus itens preferidos. Ela pode levar até quatro horas para se pintar, caso seja uma maquiagem mais elaborada. Para ir a balada, ela diz que duas horas são suficientes para o processo todo de produção..

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“É uma expressão interna transformada em visual, performance e tudo o que você quiser. Em qualquer lugar do mundo você vai sofrer por ser diferente de um padrão estético preestabelecido. Já sofri por ser asiático, por ser gay, por ser drag. Dentro de casa, minha família foi aceitando e admirando o que eu faço com o tempo. É o que eu amo fazer, eu tenho que ser respeitado.”


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Quando começou a se montar, Shady, ainda estava no ensino médio. Com 17 anos ela viu perfis de drags brasileiras nas redes sociais e começou a treinar maquiagem em casa, até ter idade suficiente para entrar nas baladas. Já tinha perucas que não usava e desenhava roupas desde criança. Hoje, com 21 anos, Shady desenha ou faz a maioria de seus looks.

SHADY LOOK CINZA: calça soulfree, resto acervo GINGER LOOK VERMELHO: top ethus, bomber jaquet ethus, acessórios acervo LAMONA LOOK SAIA: saia soulfree, demais peças acervo

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Àquelas que não possuem uma “mãe-drag” (queen que ajuda outra a se montar pela primeira vez), a internet pode ajudar. Queens como Lorelay Fox e Blogueirinha de Merda (Oi meninas tutu pom?), possuem página nas redes sociais, com dicas, tutoriais, relatos, reflexões e humor.


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A drag queen LaMona Divine diz que este tipo de trabalho ainda é muito desvalorizado. Reclama que os produtores de festas e eventos não querem pagar o que elas realmente merecem por sua arte. Hoje ela tem 28 anos (começou a se montar com 24) e sua drag é sua única fonte de renda.

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“Querem impor um preço tabelado pela nossa arte, o que me entristece muito, porque cada artista tem o seu valor, o seu tipo de trabalho, e fazer drag no Brasil é algo bem caro.” Mas ainda assim, ela ama o que faz. “Eu sou uma artista de palco, a LaMona é performática. Minha performance favorita é uma que fiz, em 2016, no palco da Bluespace – meu sonho era performar naquele palco – inspirada na Jessica Rabbit e na Satine, de Moulin Rouge. Foi um processo longo até aqui, porém eu sempre quis dar um passo de cada vez, me respeitar, respeitar minha identidade e tudo o que eu acredito, então posso dizer que tiveram momentos dolorosos, mas muitos outros prazerosos. Glamour para mim é um sentimento de bem-estar e poder, que vem de dentro e exala por onde você passa. Vai além do look, é uma sensação que as pessoas sentem em você”, afirma ela.

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A POPULARIZAÇÃO “Sempre fui uma pessoa bastante criativa. Eu havia acabado de me formar na faculdade de moda e entrar no mercado de trabalho. Sentia muita falta da parte de criação na minha vida então, depois de assistir alguns episódios de RuPaul’s Drag Race, eu canalizei tudo que eu queria nessa persona que hoje é a LaMona Divine e ela me deu esse respiro que eu tanto precisava”, diz Lamona.

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Em 2009, começou a ser transmitido nos Estados Unidos o reality show RuPaul’s Drag Race, apresentado pela drag queen, RuPaul Charles. No programa, drags são convidadas a competir entre si e na final, a vencedora é coroada como “America’s Next Drag Superstar” e leva para casa a quantia de 100 mil dólares. O programa se tornou um sucesso mundial e já está em sua 10ª temporada (sem contar os spin offs). A partir disso, a cultura drag cada vez mais deixa de ser um tabu e algo que fica enclausurado dentro das casas noturnas. Elas passam a apresentar programas de televisão, a cantar para plateias lotadas, atuar em novela em horário nobre, apresentar programa de culinária e assim por diante. A cantora Pabllo Vittar, por exemplo, começou sua carreira de cantora fazendo uma versão abrasileirada da música “Lean On”, do dj e produtor americano Diplo. Suas músicas foram conquistando o público brasileiro e agora inicia sua carreira internacional. Já performou diversas vezes na TV aberta e ganhou prêmios por causa de sua música. No Instagram, ela possui mais seguidores do que a própria RuPaul e seus vídeos são os clipes com músicas originais interpretadas por uma drag queen mais assistidos da história do YouTube. Em 1987, aqui no Brasil, já podíamos assistir uma drag queen em emissora televisiva aberta. O programa “A Praça é Nossa” começava a ser transmitido pelo SBT. A ideia do programa era simples: o apresentador Carlos Alberto de Nóbrega ficava sentado no banco de uma praça e diversas personagens passavam por ali. Vera Verão era divertida e irreverente, sempre com a maquiagem carregada e roupas coloridas. Jorge Lafond, o ator criador da Vera Verão, ficou no programa até 2003, quando faleceu por conta de um infarto fulminante. Seu bordão no programa continua ecoando na memória dos brasileiros: ÊÊÊÊPPPAAA!!! Bicha não!

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fotografia & direção criativa L UCA WEINGÄ R T N E R assitente de fotografia l ucas caba l l e r o produção Daniel a l ou r e n ç o & thais maestr e l l o moda caique tava r e s, matheus ca pa n e m a , & paul o cac h o e i r o elenco ginger moon , L amona dev i n e & shady jor da n a g rad e cim e n t os e spe ciais a o Fl á v i o Ru sso e a e qu i pe d o S tu d io70


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texto Guilherme Lourenço fotos Victor Reis

Mais um final de semana chega na grande São Paulo e com ele as casas noturnas se aprontam para dar início as suas agendas de festas. Entre os bairros da Vila Madalena e Bela Vista há uma grande concentração de boates LGBTQ+, mas nos últimos anos a região da República e do Anhangabaú vem ganhando os holofotes dos organizadores do underground e conquistando, assim, notoriedade. 066

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Ambientes menores e menos trabalhados -mas sem perder a característica de boate- estão atraindo cada vez mais o público LGBTQ+. As festas que, por sua vez, estimulam o autoconhecimento e contribuem na busca pela auto aceitação estão crescendo, isso devido ao ambiente que esses locais proporcionam, fazendo com que os frequentadores possam se expressar por meio da dança, vestimenta, maquiagem, atitude e sexualidade. Destoando das grandes e famosas boates da cidade que já tem um público mais definido e um pouco mais elitista. Fazer parte da comunidade LGBTQ+ no Brasil é algo desafiador. Isso torna-se mais complexo quando se vive de modo a divergir dos padrões socialmente impostos e coloca-se em posição de visibilidade. Daí a importância desses “rolês” desconstruídos e undergrounds, onde o que importa é viver o presente, tendo um refúgio e silenciando, mesmo que brevemente, as pressões sociais. Na noite de 17 de fevereiro de 2018, em uma rua pouco movimentada do coração da metrópole, aconteceu o Baile em Chernobyl + 1000 ºc. A festa é a junção de dois movimentos voltados ao público queer (pessoas que não seguem o modelo de heterossexualidade ou de binarismo de gênero) e à comunidade negra. Uma importante atitude adotada por esses coletivos e que vem ganhando espaço nos últimos meses é a entrada gratuita de transsexuais e travestis nos eventos, visando facilitar a inclusão dessas pessoas no meio LGBTQ+ e diminuir a lacuna que separa esses grupos da comunidade em que deveriam encontrar pertencimento. Para entender melhor o surgimento da festa conversamos com Eric Oliveira, dono da festa Baile em Chernobyl e Slim Soledad, Luna Georgia e Lolla Venzon, donas da festa 1000 ºC. Através de trocas de mensagens os produtores explicaram os projetos, sua importância, representatividade e metas futuras. 067


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Eric Oliveira Como surgiu o Baile em Chernobyl? O baile surgiu na ideia de fazer uma festa para comemorar a minha sobrevivência, porque tinha passado por um momento bem difícil da minha vida onde eu achei que não teria mais saúde mental para continuar. Chernobyl é um tipo de xingamento que umas gays de uns grupos da internet usam para zoar as gays estranhas ou fora do padrão, usam também para tirar sarro qualquer pessoa fora do padrão de beleza deles. Acabei usando esse nome e assumindo que sim, nós somos bichas estranhas, corpos negados e nos amamos. Então a criação da festa e o convívio com o público te ajudou nesse processo de aceitação? Sim, ela ajuda bastante o fortalecimento, sabe?! Qual a identidade da festa e o principal objetivo com sua realização? A identidade é ser uma festa queer, acho que essa palavra já abrange tudo que é a estética da festa. O objetivo é ser um espaço democrático, onde todos sintam-se bem e enalteçam essa cultura.

A localização da casa é levada em consideração para a realização da festa? Bom, as casas ainda são bem centralizadas, mas não temos o costume de fazer em lugares como Vila Madalena ou Rua Augusta. As festas mais undergrounds também estão bem aglomeradas ali pela República, mas a ideia é conseguir fazer algumas edições em algumas quebradas de São Paulo. Qual o maior desafio que já foi ou ainda é enfrentado? O maior desafio é conseguir a confiança dos donos das casas, por eu ser uma bicha, preta e de apenas 19 anos, não é fácil os caras confiarem e deixarem fazer a festa no espaço deles. Quais os planos futuros para o Baile em Chernobyl? Um dos maiores planos da festa é conseguir fazer edições 0800 (gratuitas), para todos que possam colar e aproveitar o rolê. Alguma consideração final? Acho que a comunidade LGBTQ+ tem que se unir mais, não sinto essa união entre nós. Ainda falta muito para todos se aproximarem.

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Como surgiu a parceria com a 1000 ºC? Vocês compartilham dos mesmos ideais? A parceria com a 1000ºC foi por ser uma festa que eu já frequentava, adoro toda a ideia da festa. Assim como o Baile em Chernobyl a festa 1000 ºC sempre teve um público mais alternativo, então o público quase sempre é o mesmo. Temos também a mesma política de que nenhuma pessoa trans vai pagar a entrada.


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Slim Soledad, Luna Georgia e Lolla Venzon Quando surgiu a festa 1000ºC? A festa mil grau surgiu em julho de 2017, com o intuito de comemorar o aniversário da Slim Soledad que é uma das mentoras da festa, junto com Lolla Venzon, Mari Ferrucci, Luna Abellan e Ana P. Oliveira. Qual o principal objetivo? O objetivo é ser não apenas uma festa e sim um acontecimento, cada edição ser um acontecimento diferente, causando a sensação de que o público faça parte do evento e não sendo um simples convidado.

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Quem é o público alvo? Nós visamos um publico alvo sendo: mulheres, pretas, bixas, sapatonas, travestis e todo contexto LGBTQI+, toda essa comunidade de pessoas que vivem às margens do social. Como política de inclusão disponibilizamos uma lista VIP para pessoas trans e travestis. A localização da casa é levada em consideração para a realização dos eventos? Sim, buscamos locais que tenha fácil acesso ao público, pois sabemos que a maioria usa transporte público. Outro ponto que levamos em consideração é a migração do clube para outros espaços diferenciados como cines pornôs, estacionamentos e ocupação do espaço público. Qual o maior desafio que já foi ou ainda é enfrentado? Nosso primeiro maior desafio foi realizar uma edição do evento em um estacionamento em conjunto com a festa TORMENTA, em que transformamos um lugar que seria utilizado apenas por carros em um espaço festivo, com banheiros, segurança, iluminação entre outras estruturas, tivemos prejuízo, mas a festa foi linda e perfeita, estávamos entre amigas e conseguimos transformar essa união em celebração. Outro grande desafio foi participar do SP NA RUA, não contávamos que conseguiríamos participar, fora muita correria atrás de documentos, estruturas, artístico, confrontos entre participantes, porém no fim conseguimos realizar algo maravilhoso, junto às meninas do Coletivo Bandida e Club Tormenta. Quais são os planos futuros para a festa? O próximo projeto em desenvolvimento é um Circuito de Quebradas, locais afastados do centro. A ideia é levar um pouco da cena que acontece pela região central para esses espaços. A primeira edição da festa será em Guarulhos (Zona Norte), que ocorrerá no final de março, tendo outras nos próximos meses em Osasco, Capão Redondo e Jundiaí. A festa pretende contribuir para o autoconhecimento e a libertação dos clientes? Se sim Como? Acreditamos que o evento em si já é um movimento de autoconhecimento e libertação, sendo um encontro em que as potências se somam, havendo uma multiplicidade de trocas, aprendizados e respeito.

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O SAGRADO E O PROFANO A RELIGIÃO E A ACEITAÇÃO LGBTQ+ texto Tamiris Versannio colagem Raquel Cutin

Não é difícil seguir o raciocínio: em uma família pautada por uma religião que não reconhece pessoas LGBTQ+ a rejeição, exclusão e escrutínio de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros não raro tem resultado o suicídio. No Brasil, 445 mortes de LGBTQ+ foram registradas ou como assassinatos ou como suicídios, mais de 40% dessas pessoas tinham menos de 18 anos. O abandono religioso também é uma faceta desses crimes, pois muitos familiares amparados somente pela religião tomam para suas vidas as regras ditadas por dogmas ultrapassados em sua interpretação literal e acabam por condenar filhos e filhas a solidão e rejeição dentro da estrutura fundamental para desenvolvimento humano: a família. São em 73 os países que consideram crime a homoafetividade, em 08 desses, a pena é de morte. Em todos esses países há presença de religiões oficiais ou ainda, predominância de um dogma, no entanto, a salvação não é para todos. Algumas religiões permanecem intolerantes, é o caso do Islã que condena homossexuais e tem sido foco em se tratando de intolerância

fontes UOL/TAB, ONG GGB, Reportagens G1 & BBC Brasil

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devido ao grupo terrorista mundialmente temido, Estado Islâmico, postarem na internet vídeos arremessando homens gays do alto de prédios no Oriente Médio.

o cargo de justificar e apaziguar alegrias ou desgraças inexplicáveis ou absurdas para o ambiente racional. Para Aline Honorato, 25 anos, hoteleira e lésbica, hoje frequenta a Umbanda, a fé não existe somente dentro de uma igreja, o problema é que algumas pessoas estragam (sic) as religiões com suas opiniões preconceituosas. Esse “estragar” continuamente está ligado à desinformação ou ainda, à interpretação paulatina de escrituras há muito feitas e que em muito pouco traduzem o que se espera de um Deus misericordioso.

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No Brasil, apesar do Estado declarar-se laico, sem uma religião oficial, o cristianismo, em suas múltiplas vertentes é a religião mais cultuada no país. Os católicos, com a ascensão do Papa Francisco, assistem à uma lenta, porém significativa abertura de diálogo sobre a aceitação da população LGBQT+ na comunidade cristã. Em 2013, em entrevista, Francisco respondeu sobre essa aceitação “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?” – surpreendendo a todos, católicos ou não.

”Nos meus momentos de aflição ou de alegria, eu procuro por Deus, mas é um Deus diferente, não é esse Deus cruel que castiga seus filhos” afirma Beatriz Sans, 23 anos, jornalista e bissexual.

O pastor da Assembleia de Deus, deputado e já eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marcos Feliciano declarou em 2011 que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição”.

A crueldade está antes no ser humano do que propriamente em uma divindade que inspire isso, é parte da crença descrente de Rafael Pinheiro, 29 anos, jornalista, especialista em Sociopsicologia e pesquisador acadêmico que, enfatiza “estar” homossexual.

Sob a ótica social, para muitas pessoas ter uma religião é também fazer parte de um grupo e assim sentir-se representado, forte na união com outros e que formam uma multidão com propósitos semelhantes, princípios iguais, coordenados pela religião.

“O corpo e a expressão da sexualidade devem ser livres e ilimitados. Sem amarras. Vejo a fé como algo positivo e produtivo, no que tange acreditar em si; acreditar no seu potencial; acreditar que, mesmo nesse mundo caótico-perturbador-intolerante existe sempre um caminho para o bem” afirma Rafael, agnostico, mas mais benevolente que muitos líderes religiosos.

O amparo psicológico do abraço religioso também é significativo para a construção e manifestação do indivíduo, é o espaço de conforto e de resposta que acalmam o desespero, a fé ocupa

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qual o caminho para a fonte? texto Luis Marques ilustração Lucy Lazuli

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Antes, é preciso voltar e explicar o começo para que possa entender que ainda não cheguei a fonte nenhuma. Eu me chamo Omar, nome escolhido por meu pai, para homenagear um dos grandes homens de sua família. Sou o quarto Omar na família, o segundo ainda vivo. Omar, na nossa tradição, significa viver muito – “O homem que tem uma vida longa”. Mas, para manter esse significado eu precisei abdicar da minha crença, herança, família, amigos, história, casa e até do meu país. Precisei deixar de ser Omar para ser o ambulante “muçulmano” ou “o homem bomba” da Rua Vinte e Cinco de Março.

Um dia, Jamal disse que não poderíamos nos encontrar mais. Alguma criança tinha dito para Iza que o pai dela merecia ser jogado do prédio mais alto da cidade para nunca mais praticar sodomia. Jamal estava com medo de que boatos sobre nós dois chegassem aos ouvidos de algum jihadista. Ele tinha medo e eu passei a temer também. Decidimos que não iríamos mais nos encontrar publicamente. Em algumas noites eu o visitava, mas o deixava muito antes do amanhecer.

Poucos dias se passaram e tudo piorara. Meu pai me ignorava. Eu não podia mais trabalhar em sua loja, nem me alimentar enquanto ele estivesse na mesa. Vivia em clausura no meu quarto para não o ofender. Essa situação teve fim quando minha mãe entrou correndo no quarto, pegando algumas roupas, documentos e me dizendo para fugir. Segundo ela, meu pai me entregaria ao Tribunal Islâmico. Iriam procurar Jamal também. Se quiséssemos viver, era melhor esquecermos daquele lugar e recomeçar tudo uma vez mais. Consegui encontrar Jamal antes dos jihadistas. Avisei o que iria acontecer e decidimos fugir. Junto com Iza, deixamos aquele vilarejo. Foi uma jornada difícil até conseguirmos deixar o país. Consideramos muitas opções, mas a que parecia ter menos chance de dar errado era o Brasil. Aqui, não cometeríamos nenhum crime em ficar juntos, pelo menos era o que pensávamos. Nossa primeira tentativa aqui foi no Rio de Janeiro. Ficamos lá até nosso visto vencer. Não conseguimos nenhum emprego,

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Isso tudo começou quando eu me apaixonei por Jamal. O conheci em uma mesquita em que meu pai, meu irmão e eu frequentávamos. Jamal mudou-se para o nosso bairro após o falecimento da mulher. Ele tinha uma filha, a pequena Iza. Acabei por me tornar um grande amigo dele, até cheguei a arrumar um emprego para ele em uma das lojas de tapetes do meu pai. Ficamos muito próximos, muito mesmo. Tão próximos que nossa amizade passou a ser questionada. Lembro que meu pai me questionava sobre Jamal e nossa amizade. Lembro de quando ele tentou nos afastar um do outro. Lembro de minha mãe chorando e dizendo que estávamos ferindo a Sharia.

Naquele mesmo mês, meu pai demitiu Jamal. Em uma tarde, enquanto eu negociava a venda de um tapete, meu pai entrou em nossa loja completamente furioso. Expulsou o comprador, fechou a loja e me obrigou a segui-lo até uma praça. Lá, junto a uma enorme multidão, me obrigou a assistir dois homens sendo lançados de um prédio de nove andares. Antes de serem jogados, um homem encapuzado anunciou o crime dos dois homens e suas sentenças: morte. Gays, foram acusados e confessaram manter relações íntimas e sexuais. Por ofenderem o Islamismo e a Sharia, não teriam perdão. Quando seus corpos tocaram o chão, me virei para deixar o lugar. Ainda conseguia ouvir o som de pedras sendo atiradas violentamente nos dois rapazes enquanto me afastava.


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mas ajudávamos em diversas coisas. Fizemos limpeza, segurança, atendimento telefônico, comida e até serviços braçais. Nada que nos desse algum registro ou condição melhor. Morávamos de favor em um barraco. Na comunidade onde morávamos, conseguimos uma ajuda de ONGs para nos alimentarmos e para ensinarem Iza a ler e escrever. Não tínhamos tempo para isso, aprendíamos a falar no dia a dia.

Encontramos uma mesquita no centro de São Paulo que nos ajudou. No começo, dissemos que eu era apenas um amigo da família de Jamal e que estávamos aqui tentando a vida para ajudar nossos parentes no Iraque. Ficamos com medo de dizer que estávamos juntos. Procuramos também organizações que ajudam refugiados. Novamente, escondemos nossa união. A maioria das organizações que ajudam refugiados são ligadas a religiões. Quase todas cristãs. Já tivemos uma experiência cristã no morro e ficamos com medo de outra experiência, de forma que aceitamos

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Depois de tudo isso, você já sabe quem é Omar e como sua história o trouxe ao Brasil. Mas talvez se pergunte “e a fonte que você procurava, Omar?”. Eu fui criado por uma família que segue a tradição Islâmica e que não posso ver mais. Fugi do Iraque com o amor da minha vida, porque nosso país não separa a Religião do Direito e não posso anunciar nosso amor. As leis do nosso país são encaixadas na Sharia, que significa caminho para a fonte. Quando eu era pequeno, acreditava tratar-se de uma fonte de amor que me levaria para a felicidade eterna. Um sonho. Mas, cresci e não reconheço essa fonte como a dos meus sonhos. Tenho uma nova chance aqui no Brasil. Atualmente, trabalho vendendo narguilés, essências e outros artigos de fumo. Moro com a pessoa que amo e a filha dele, que eu também amo. Mas, ainda não encontrei a fonte. E ainda sonho com o caminho que me levará até ela.

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Achei que a religião nunca mais seria um problema, mas voltou a ser. Um dia, em alguns barracos depois do nosso, ouvimos muita gritaria. Traficantes, donos do morro, obrigaram uma mulher que seguia uma religião diferente a destruir tudo que pertencia a religião dela. Fizeram isso em nome do Deus deles. Ameaçaram a mulher o tempo todo, até que só sobraram as paredes no lugar. Ela deixou o morro pouco depois. Fizemos o mesmo quando nosso visto venceu. Já estávamos com medo do lugar e achávamos que seríamos deportados. Só de pensar eu já tenho medo. Decidimos fugir daqui pra São Paulo. Diziam que lá era maior, tinha mais empresas e mais trabalhos. Como sempre, diziam.

toda ajuda possível, em silêncio. Há poucos meses, moramos em um apartamento pequeno de um cômodo só e um banheiro. Dividimos esse cômodo em dois quartos. Jamal dorme com a filha. Eu durmo no outro quarto, que também é uma sala de estar e jantar, só que sem televisão e mesa. Conseguimos um sofá que me tirou do chão. Ainda dormimos separados porque Iza segue as tradições Islâmicas. Jamal tem medo da reação da filha e não acha que está pronto para falar sobre o assunto, mas tentamos educá-la de uma forma menos tradicional ao Islã.


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FEARLESS Mag // Edição No2 - Touch This Skin  

Com três opções de capa, a segunda edição da FEARLESS traz questionamentos sobre o significado da arte LGTBQ+, a representatividade com pink...

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