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FEARLESS

ronormativa. A exposição Histórias da Sexualidade conta com obras de Picasso e é incapaz de falar de sexualidade e gênero sem erotizar essas práticas. É comum, entretanto, que, sendo uma pessoa heterossexual, se relacione sexualidade a erotização. Quando sua sexualidade não interfere em todos os aspectos sociais e políticos da sua vida é comum que reste apenas o aspecto erótico. Porém, ser queer hoje no brasil afeta a forma como as pessoas vivem. Afeta as vidas dessas pessoas desde o momento que acordam até quando se deitam. Afeta sua vida profissional, sua relação com a família, as colocam em situação de constante perigo nas ruas. Afeta, invariavelmente, sua arte. A artista Zoe Leonard, quando questionada sobre a sua produção artística enquanto mulher lésbica, disse, em 1994, “Eu faço trabalhos sobre o que está em minha mente. Sobre aquilo que me perturba, me excita ou me confunde. Meus medos, meus desejos. Isso é fotografia, eu aponto a minha câmera para algo que me interessa. E então eu mostro pra você. Você literalmente vê o meu ponto de vista. Você vê aquilo que me move, me assusta, me enoja. Pouco do meu trabalho é sobre amor – pelo menos por enquanto – ou sexo. Mas, sendo sapatão e sendo uma mulher me formou, formou a minha perspectiva. Eles não foram os únicos elementos, mas eles são os que percorreram tudo em minha vida. Algumas coisas continuam acontecendo por causa desses fatos. Eu fico afim de No Brasil, não é possível fa- mulheres, eu sou frequentemente lar de exposição LGBTQ sem falar assediada. Eu passo tempo com um de artistas cisgêneros heterosse- monte de outras sapatonas e viados. xuais dentro do espaço expositivo. Eu tenho medo de sofrer violência Queermuseum contou com inúmeros lesbofóbica. Eu tenho medo de ser trabalhos de pessoas heterossexuais estuprada. Eu tenho raiva por que exotizando a sexualidade não-hete- tantos amigos meus morreram de

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TOUCH THIS SKIN

Da mesma forma que ninguém colocaria numa exposição cubista um pintor renascentista, ainda que ele falasse sobre formas geométricas, ou colocaria uma obra que falasse o universo onírico em uma exposição pensada sobre materialismo, os curadores não podem colocar artistas heterossexuais para falar de homossexualidade. Não se pode colocar homens para falar de gênero. Por mais que hoje exista o questionamento da organização expográfica estratificada, separatista e categorizadora, o máximo que podemos estabelecer entre esse tipo de obra e a vivência LGBTQ+ é um diálogo, mas é essencial que, politicamente, a arte pare de utilizá-las como forma de representatividade e educação sobre vivências de sexualidades não normativas. Ser artista é ter em toda sua obra, um resíduo seu. Seja esse resíduo gráfico ou seja conceitual, ele existe. Algumas vivências tem a sua marca tão constante na arte, que artistas como Jeff Koons, Sol Lewitt, etc. nunca tem seus trabalhos relacionados à elas, é como se fossem irrelevantes. Mas essa constância também é a mesma que faz com que se pressuponha que toda obra de arte é feita por um homem branco heterossexual até que se analise-a de perto. Se um mictório foi capaz de falar sobre arte usando deste mesmo mecanismo, esse reflexo, dessa impregnação de contexto e vivência, um desenho gestual é mais do que capaz de falar de gênero e sexualidade.

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FEARLESS Mag // Edição No2 - Touch This Skin  

Com três opções de capa, a segunda edição da FEARLESS traz questionamentos sobre o significado da arte LGTBQ+, a representatividade com pink...

FEARLESS Mag // Edição No2 - Touch This Skin  

Com três opções de capa, a segunda edição da FEARLESS traz questionamentos sobre o significado da arte LGTBQ+, a representatividade com pink...

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