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Zezé Motta

HOMENAGEADA NACIONAL

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Ministério da Cultura e Petrobras apresentam

Zezé Motta

Homenageada Nacional Vitória - ES, setembro de 2017


Atriz e cantora, nos palcos e nas telas, Zezé Motta é puro sorriso, um contentamento manso e generoso. É a eterna sedutora e tinhosa Xica da Silva, é também a aguerrida e destemida Dandara. Dona de seu tempo e rainha do seu espaço, essa diva do cinema nacional emprestou seu corpo, sua voz e sua alegria para conquistar e reivindicar o reconhecimento que é devido aos artistas negros brasileiros, mas que o conservadorismo racista teima em cercear. Natural de Campos dos Goytacazes, município do norte fluminense, Zezé migrou bem pequena para a Cidade Maravilhosa. Em casa, aprendeu as prendas de costureira com a mãe e a ter um “bom ouvido” para a música com o pai, que foi o responsável por identificar seu talento como cantora. Desde pequena, mostrava-se desinibida para apresentações públicas e, no ambiente escolar, vivenciou suas primeiras experiências com o teatro. No cinema, foi consagrada musa por Cacá Diegues, diretor com quem mais fez filmes: Xica da Silva, Quilombo, Dias Melhores Virão, Orfeu e Tieta. E também foi dirigida por outros grandes nomes do cinema nacional como Arnaldo Jabor, em Tudo Bem; Hugo Carvana, em Vai Trabalhar, Vagabundo! e em Se Segura, Malandro!; Nelson Pereira dos Santos, em Jubiabá; Sérgio Bianchi, em Cronicamente Inviável e Quanto Vale Ou É Por Quilo?, entre outros. Aos 50 anos de carreira, Zezé Motta sempre esteve atenta às questões políticas e sociais de seu tempo e consciente de que sua arte também é um instrumento poderoso para intervir e transformar o mundo. Pela diversidade e amplitude de seu trabalho, por seu espírito perseverante e alegre, prestamos homenagem a essa grande mulher e artista brasileira.

Lucia Caus Diretora do 24º Festival de Cinema de Vitória


Sumário Apresentação · 7 O surgimento de uma atriz · 15 Divina Zezé · 25 Muito além do servir cafezinho · 35 Uma “cantriz” · 47 Trabalhos e prêmios · 53 Legendas e créditos das imagens · 83


Apresentação

Com uma trajetória artística que mesclou o teatro, o cinema, a televisão e a música, Zezé Motta é um ícone nacional da força, da perseverança, do talento e da beleza da mulher negra. Sua estreia no teatro foi em Roda Viva, peça emblemática de Chico Buarque com direção de José Celso Martinez Corrêa que foi perseguida e censurada pela ditadura militar no final dos anos 1960. Em seu currículo ela traz cerca de 50 filmes que foram dirigidos por importantes nomes do cinema nacional, como Hugo Carvana, Antônio Carlos da Fontoura, Arnaldo Jabor, Paulo Thiago, Nelson Pereira do Santos, Sérgio Bianchi, Joel Zito Araújo, Paulo Caldas, Jeferson De, Tizuka Yamasaki, além de ter atuado em produções estrangeiras. O diretor Cacá Diegues foi com quem mais trabalhou, atuando em cinco longas-metragens, entre eles Xica da Silva — filme que fez Zezé circular por 16 países e foi um divisor de águas em sua carreira. Na TV sua estreia foi na novela paradigmática Beto Rockfeller, obra escrita por Bráulio Pedroso com direção de Walter Avancini e que foi ar em 1968 na extinta TV Tupi. Desde então, atuou em outros quase 40 trabalhos entre novelas, séries e minisséries exibidos em diferentes emissoras: TV Globo, Rede Record, Manchete, Bandeirantes. Em 2016, ela integrou o elenco da série 3% no serviço de vídeo on demand Netflix. Sua última participação na telinha foi na série Sob Pressão que estreou na TV Globo neste ano. Além de atriz, Zezé Motta também esteve em palcos pelo Brasil e pelo mundo afora atuando como intérprete musical. Seu primeiro trabalho fonográfico foi o long-playing No Trem Noturno, obra feita em parceria com Gerson Conrad, lançada em 1975. Três anos depois, ela protagonizou álbum Zezé Motta, uma produção de Guilherme Araújo, que reuniu composições de nomes como Caetano Veloso, Rita Lee, Moraes Moreira e Luiz Melodia. Constam no currículo de Zezé outros seis trabalhos solo, além de alguns compactos. Nascida em 27 de junho de 1944, Maria José Motta de Oliveira, a nossa Zezé Motta, é natural de Campos, município da região norte do estado do Rio de Janeiro. Aos três anos de idade, mudou-se com sua família para a capital à busca de melhores condições de vida. Na Cidade Maravilhosa, seus pais e o irmão, Romilton, passam a residir no Morro do Cantagalo,

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em Copacabana, ao passo que ela vai morar com um tio, que era porteiro, no Leblon. Era no mesmo prédio em que Marieta Severo residia. As duas chegam a compartilhar brincadeiras durante a infância. Aos seis anos, ela saiu da casa do tio para estudar em um colégio interno para meninas: o Asilo Espírita João Evangelista, em Botafogo. Nessa época, a pequena Zezé já se mostrava expressiva e afoita a exibições, gostava de escrever e declamar poesias e apresentar-se nos eventos comemorativos da escola, mas ainda sem qualquer pretensão. Seu pai, Luiz Oliveira, era músico e professor de violão, um artista dedicado que passava horas treinando em casa ou dando aulas: “Ele acordava, tomava café e já pegava o violão”, recorda-se Zezé. “Sempre digo que ouço música desde que estava na barriga de minha mãe”. O pai de Zezé tocava em espaços famosos da época como Bola Preta e a Estudantina. “Quando fiquei adolescente, ele me levava às apresentações dele. Ele tocava muito na noite. A primeira vez que subi em um palco pra cantar foi junto com a banda dele. Ele me chamou pra dar uma ‘canja’”.

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“Foi meu pai que me descobriu cantora, minha mãe tinha um ateliê de costura. Vivi no tempo da era do rádio, costurávamos o dia inteiro ouvindo rádio. Quando meu pai voltava pra casa, eu cantava as músicas que havia aprendido no rádio. Eu cantava a música inteira e ele ficava muito impressionado e perguntava: ‘Quantas vezes você ouviu essa música?’, ao que eu respondia: ‘Umas três vezes’. Ele ficava admirado com minha capacidade de aprender a música, tanto a letra quanto a melodia. Foi ele quem me descobriu como cantora”. Na adolescência e na juventude fez trabalhos de costura com sua mãe, Maria Elasir, que era uma exímia costureira, e manteve um ateliê por 30 anos funcionando no apartamento da família, situado na Rua Humberto de Campos, no Leblon. Vez por outra também fazia serviço de entrega com o irmão. Para complementar a renda familiar, trabalhou como acondicionadora de produtos no laboratório Moura Brasil, na Gávea. Durante o Ginasial, o atual Ensino Médio, passou a frequentar um colégio que fora criado por Dom Hélder Câmera no conjunto habitacional da Cruzada São Sebastião que, na época, chamava-se Santos Anjos. A vivência nessa escola, criada a partir dos ideais da esquerda católica, foi funda-


mental para a conscientização política da jovem Zezé. A escola também estimulava atividades artísticas, com apresentações teatrais e esquetes, principalmente, para serem assistidas em datas comemorativas — obviamente que Zezé logo se engajou nessas práticas. Ela conta que deixava de ir à praia ou às festas no final de semana para dedicar-se aos ensaios. Entre as pessoas importantes para a sua formação artístico-cultural, ela destaca Jader de Brito, filósofo, que foi seu professor nessa época. Jader era responsável por levar os alunos — fora do horário escolar — a ações no final de semana, como os Concertos da Juventude do Theatro Municipal; e a visitas a museus, exposições, peças de teatro e espetáculos de ópera.. Em um desses programas, Zezé assistiu à peça Memórias de um Sargento de Milícias com Milton Gonçalves, no Largo do Boticário, e Liberdade, Liberdade, no Teatro Opinião. Foi Jader quem conseguiu uma bolsa para Zezé cursar a escola de teatro O Tablado, ao final de seu curso ginasial em 1966. Nessa instituição, ela teve o privilégio de estudar com a própria Maria Clara Machado, dramaturga e escritora que idealizou e fundou a escola em 1951. Zezé não levava fé que fosse possível viver de seu trabalho como atriz; por isso, chegou a formar-se em Contabilidade e, ao mesmo tempo, continuava a trabalhar como laboratorista. No dia em que se formou em Teatro pelo Tablado, na montagem feita como conclusão do curso, havia um ator na plateia, o Flávio Santiago, tido para Zezé como um padrinho. “Ele era ex-aluno da escola e sempre prestigiava essas apresentações. Nessa peça, eu atuava, cantava e dançava. Fazia um papel de destaque e, quando ele foi me cumprimentar no camarim, me disse: ‘Você é uma atriz completa, canta, dança, representa. Parabéns! Pretende seguir essa carreira?’; ao que eu respondi: ‘Se Deus quiser!’. Daí, ele me informou sobre o teste para integrar o coro da peça Roda Viva, de Chico Buarque. Zezé fez o teste e, desde então, está sempre presente nos palcos ou na frente das câmeras. É dona de uma sólida e reconhecida trajetória como atriz e cantora: “Cantar e representar eram sonhos que corriam em paralelo. Eu queria cantar e queria ser atriz”. Seja pelos papéis que interpretou, seja pela escolha de seu repertório musical, Zezé sempre se mostrou engajada na luta pelo reconhecimento e valorização da negritude e pelo combate ao racismo. Quanto questio-

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nada sobre a representatividade do negro nos espaços de dramaturgia em comparação ao início de sua carreira ela diz perceber, mesmo que a passos lentos, uma mudança acontecer: “hoje, há uma maior preocupação na distribuição dos papéis. Toda vez que vejo um trabalho dramatúrgico em qualquer canal de televisão, fico contando quantos negros estão no elenco. Ainda temos muita luta pela frente. E não podemos esperar por ações paternalistas, temos que ter mais escritores negros batalhando pelos seus projetos, mais produtores e roteiristas negros, pois, dessa forma, a gente não precisa ficar esperando que nos concedam esses espaços”. Ao longo de sua vida, Zezé teve cinco casamentos e hoje está solteira. Nunca teve filhos naturais, chegou a ter três abortos espontâneos, mas isso não a impediu de construir sua prole. Ela é mãe adotiva de Luciana, Carla, Cíntia e Robson. Texto: Paulo Gois Bastos

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“Mãe, descobri o que eu quero. Eu quero ser atriz”


O surgimento de uma atriz Numa casa, a calha é o lugar por onde escoa a água da chuva impedindo alagamentos. A história de Zezé Motta com o teatro é contada como água correndo; um interesse em artes que desemboca no “sempre estar inventando alguma coisa” na escola, como ler poemas, participar de apresentações e sonhar mesmo sabendo que é difícil. A dedicação, então, desemboca numa bolsa para o curso de teatro, que contribui para a construção de uma carreira permeada por teatro, música e algumas proibições da censura. O curso de teatro que Zezé Motta fez com bolsa “veio a calhar”. Logo que subiu no palco para representar, ainda no colégio, chegou à sua casa resolvida: “Mãe, descobri o que eu quero. Eu quero ser atriz”. Tinha sido sua primeira vez com figurino, palco e tudo; havia incentivo às artes no colégio quando ela era adolescente. Os alunos tinham acesso a óperas, balés, museus e peças de teatro. Eles montavam suas peças para datas comemorativas e dividiam os fins de semana entre ensaios e incursões culturais. “Não era obrigatório, mas em todas essas datas estava eu lá cantando uma música, dizendo um poema”. Zezé conta sorrindo que eles conseguiam ingressos e que ela ia às óperas, tudo com afinco de quem cultiva o sonho. Se na adolescência havia o incentivo da escola, na infância havia a busca dela mesma pelos holofotes. “Eu fiquei no colégio interno dos 6 aos 12 anos. E lá, no colégio interno, mesmo fazendo o primário, lá eu também estava sempre inventando alguma coisa. Recitando uma poesia... nas atividades de datas históricas estava eu lá me exibindo. Sem nenhuma pretensão, mas estava eu lá”. Zezé nunca se esqueceu da encenação de O Diário de Anne Frank na escola. Numa cena, ela fazia o papel da mãe de Anne e contracenava com um pai nervoso porque a filha tinha sumido num contexto de holocausto. Os personagens tinham medo de ser presos pelos nazistas, e ela se lembra até hoje de dizer “Calma! Ela disse que foi comprar chocolates” na cena. A família sabia do sonho do teatro e apoiava, mas não tinha como pagar um curso. Teatro pago era caro e o de instituição pública era concorrido,

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e no Rio só havia o Tablado ou a Escola Martins Pena. A bolsa no Tablado, então, foi providencial. O sonho do teatro corria paralelo ao sonho da música. Desde nova, em cena, ela já podia atuar, cantar e dançar e sempre teve facilidade para decorar textos. “Eram sonhos que corriam paralelos, eu queria cantar e queria ser atriz. Essa bolsa veio a calhar. Quando cheguei em casa e disse que descobri o que eu quero com aquela coisa toda de figurino, aplauso, parabéns e não sei o quê… eles ficaram muito assustados. ‘Menina, você ficou louca! Tá com febre? Como que a gente vai bancar um curso pra você? Vaga lá na escola do governo deve ter uma fila enorme…’. Aí, veio a calhar uma coisa assim do destino de eu ganhar essa bolsa. E aí a atriz veio antes da cantora”, explica.

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Na apresentação final do curso do Tablado, ela conseguiu o teste para o coro da peça Roda Viva, de Chico Buarque. Foi a primeira em que ela atuou profissionalmente, em 1968. “Tínhamos um coro de mais ou menos dez pessoas. Nesse coro estavam o André Valli, o Pedro Paulo Rangel... Eu fui fazer o teste na semana seguinte em que me formei no Tablado e passei para fazer parte do coro. Foi uma experiência fantástica porque o coro fazia muita coisa ao mesmo tempo. Estávamos em plena ditadura, então tinha hora que o coro metade era policial, metade era estudante. (O coro) saía gritando abaixo a ditadura, os policiais saíam atrás com o cacetete. Era uma peça de denúncia mesmo”, conta. A peça dirigida por José Celso Martinez Corrêa era combativa e foi proibida pela censura da época. Apresentaram no Rio de Janeiro, em São Paulo e uma vez em Porto Alegre. Logo depois da estreia, foi proibida em todo o território nacional. Era ditadura militar e a peça bradava contra o regime. A atriz lembra também da perseguição. “Começaram a perseguir o Chico Buarque e o José Celso Martinez Corrêa nessa época. Consideravam que era uma peça subversiva. A gente criticava tradição, família e propriedade. A gente criticava essa coisa do consumo exacerbado que já existia na época. Era uma loucura a peça. A gente fez Rio, São Paulo... Aí no Rio foi proibida, fomos pras ruas com apoio de intelectuais, estudantes e outros artistas. Aí a peça voltou”. Voltar parecia um alívio, mas o pior ainda estava por vir: “Depois fomos para São Paulo. Fomos atacados, espancados... Em Porto Alegre, só conse-


guimos fazer a estreia, no dia seguinte, quando chegamos para apresentar a peça, o teatro estava lacrado e a peça foi proibida em todo o território nacional”, lembra. Era apenas o começo da jornada. “Já entrei no teatro em uma peça que deu muito bafafá, muita polêmica”, relembra aos risos. Roda Viva foi apenas a primeira peça censurada da carreira de Zezé Motta. Em 1969, Zezé participou do musical A Moreninha. A direção da peça foi de Osmar Rodrigues da Cruz e o texto foi adaptado por Miroel Silveira e Cláudio Petraglia a partir do livro de Joaquim Manuel de Macedo. A peça foi a segunda em que contracenou com a atriz Marília Pêra, com quem dividiu palco e apartamento. No mesmo ano, fez o papel da primeira atriz no clássico Hamlet, de William Shakespeare, com direção de Flávio Rangel. A atriz também participou, no grupo de Augusto Boal, das peças Arena Conta Bolívar e Arena Conta Zumbi. Como as peças foram censuradas no Brasil, ela viajou por três meses para fora do país com o grupo. As peças foram encenadas nos Estados Unidos, no Peru e no México. Em 1970, Zezé Motta fez A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato, texto de Bráulio Pedroso e direção de Antônio Pedro. A peça também chegou a ter problemas com a censura, mas acabou sendo liberada. Era uma sátira de teatro de revista e havia uma cena em que, dançando, Zezé tinha que dar três passos para trás. Em uma das apresentações, ela acabou caindo no fosso da orquestra. Porém, lembrando-se dos conselhos de Maria Clara Machado e de José Celso Martinez Corrêa, ela resolveu incorporar o erro e cantou a música inteira com um pé no músico e outro na tuba que ele ainda não tinha terminado de pagar. 1972 foi um ano agitado: Zezé Motta atuou em quatro peças diferentes, incluindo três musicais. Fez a condessa na comédia Fígaro ou Um Dia Muito Louco, dirigida por Gianni Ratto com texto de Beaumarchais e tradução de Carlos Queirós Telles. Destacou-se em Pobre Menina Rica, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, como a Maria Moita. Na época, a crítica do Correio da Manhã chamou atenção para a sua atuação, classificando-a como uma das intérpretes brasileiras de maior força. No musical Godspell, com texto de John-Michael Tebelak e Stephen Schwartz e direção de

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Altair Lima, Zezé participou apenas das apresentações cariocas, o suficiente para chamar a atenção do diretor Cacá Diegues, o que lhe rendeu o papel de Xica da Silva no cinema. Em Orfeu da Conceição, Zezé Motta fez a protagonista Eurídice sob a batuta de Haroldo de Oliveira. 20 anos depois, a peça foi adaptada para o cinema, sob a direção de Cacá Diegues, quando Zezé ficou encarregada do papel da mãe de Orfeu. Em Rendez-Vouz, de 1976, Zezé contracenava com a atriz Eva Todor, mas tinha um papel pequeno. Ela conta que as pessoas iam ao teatro para ver Eva Todor, mas que, com o sucesso do filme Xica da Silva nos cinemas, ela também começou a ser procurada pelo público. Seu nome passou a ficar maior no cartaz da peça. Rendez-Vous tinha a direção de Antônio Pedro e texto de Robert Thomas. Em 1977, Zezé Motta atuou em A Rainha Morta, com texto de Heloísa Maranhão e direção de Luiz Carlos Ripper. Depois deste espetáculo, ela ficou mais frequente no cinema e menos no teatro. Só em 1988 estreou uma peça nova nos palcos: A Causa da Liberdade, com texto de Domingos Oliveira e direção de Anselmo Vasconcellos. Dez anos depois, mais um musical: Ó Abre Alas, de Maria Adelaide Amaral. A peça, com direção de Charles Möeller, se debruçava sobre a história de Chiquinha Gonzaga. 18

Durante o ano de 2003, Zezé Motta participou da peça Disse-me-disse, com direção de Gracindo Jr. e José Carvalho. A primeira vilã de Zezé Motta no teatro veio só em 2007 no espetáculo 7 – O Musical, de Charles Möeller e Cláudio Botelho. A peça ficou em cartaz por três anos, sempre com ela no elenco. A peça mais recente de Zezé Motta esteve em cartaz em 2015 e foi uma homenagem ao samba: A História de Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, com texto de Wilson Machado. A atriz era figura chave no elenco, interpretando a mãe do músico. “Eu topei fazer porque era um elenco de pessoas não conhecidas ou pouco conhecidas e eu sabia que era um sonho da diretora há mais de dez anos”. Ela só pôde participar da peça por trinta dias por conta de outros compromissos com música e cinema. Cheia de musicais no currículo, ela vê sua trajetória na música junto com sua história no teatro, agregando um ao outro. Para interpretar músicas, ela usa recursos teatrais, como procurar a personagem da música para


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cantá-la melhor e emocionar o público. “Eu me sinto em estado de graça quando estou representando e cantando”, conta. Zezé explica como isso funciona: “Eu empresto a minha interpretação. Em cada música que eu interpreto, eu procuro o personagem da música. Se é uma música sofrida, nos dias em que eu estou muito sensível, eu vou às lágrimas ou as provoco. Se é um personagem muito sensual eu trago pra isso. É o caso da Rita Baiana, que é uma mulher muito assanhada; eu brinco com esse lado da personagem”. Mesmo tendo começado no teatro, Zezé já não é tão frequente na cena quanto no começo de sua carreira. Se na década de 1970 ela era figurinha fácil na cena teatral, hoje ela está desde 2015 sem participar de um espetáculo de teatro. As artes, no entanto, não são ciências exatas. Para Zezé, o teatro nunca fica ausente de sua carreira. A atriz veio primeiro, e nunca saiu de dentro dela. “De vez em quando as pessoas falam: ‘Nossa! Você passa muito tempo sem fazer teatro.’, mas eu não tenho essa sensação porque, quando eu estou cantando, a atriz está ali presente”. Texto: Aline Dias

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“Eu questionava os diretores e produtores sobre a ausência de negros e eles sempre respondiam coisas absurdas, que não conheciam muitos negros ou que eles não apareciam nos testes. Aí, a pergunta que não quer calar: como conseguem achar tantos brancos e não conseguem achar os negros?”


Divina Zezé “Zezé Motta é um escândalo por ter mostrado, sem fazer qualquer discurso panfletário, que é extremamente relevante e inovador (infelizmente, inovador) ser negro e estar no cinema em papéis fora dos estereótipos. Zezé fez tudo isso sem perder a sua ancestralidade, quebrando os tetos de vidro impostos para artistas negros. E com a sua força feminina, a força que Dandara teve para enfrentar as batalhas de Palmares. E, aqui, não me refiro à força desumanizadora que enquadra pessoas negras como corpos constituídos de ferro; pessoa que não chora, não se deprime, que não ama, que é desalmado. Quando falo de sua força, falo da força como um elemento criativo, de conexão, que abre caminhos e mistura coisas resultando em outras possibilidades de ser representado”. Yasmin Thainá, para o jornal Nexo. Quando a figura de Zezé Motta aparece na tela do cinema é fácil entender o que a cineasta Yasmin Thainá quer dizer quando lhe atribui essa “força como elemento criativo”, como diz a citação. Com o olhar reluzente e uma abissal consciência de seu corpo, uma vez em cena, a atriz comanda com a mesma leveza de uma gargalhada. Essa energia única que forma Zezé Motta como uma das atrizes mais completas e multifacetadas de todos os tempos deixou sua marca na história do cinema brasileiro. O carisma e a personalidade perspicaz e ao mesmo tempo sedutora da jovem Zezé Motta do fim dos anos 1960 logo chamaram a atenção de vários diretores de cinema da época e a atriz começou a fazer algumas participações em trabalhos artísticos, primeiramente discretas, mas que depois foram crescendo com o tempo. A estreia de Zezé Motta no cinema ocorreu em 1970, no longa Em Cada Coração um Punhal, de Sebastião de Souza, José Rubens Siqueira e João Batista de Andrade. O filme contava com uma sequência de histórias, e Zezé está no episódio Transplante de Mãe — que adapta para o cinema a canção Coração Materno (lançada por Vicente Celestino e regravada por Caetano Veloso). No mesmo ano, ela também apareceria no filme Cléo e Daniel, dirigido por Roberto Freire. Nos anos seguintes, o carisma de Zezé estaria presente em clássicos como A Rainha Diaba (1974), de Antônio Carlos da Fontoura, e em Vai Trabalhar, Vagabundo! (1973), de Hugo Carvana. De lá pra cá, Zezé não parou mais. Com cerca de 50 filmes no currículo ao longo de cinco décadas, sem grandes intervalos, podemos dizer que é possível estudar o cinema feito no Brasil a partir da década de 70 ao acompanhar a filmografia da atriz.

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Como protagonista, coadjuvante ou emprestando sua imagem a pequenos papéis — o que ela garante que nunca foi um problema — a presença de Zezé Motta ajuda a compor o imaginário do nosso cinema e, mais que isso, reivindica o espaço da mulher negra ao recusar a invisibilidade imputada por sua cor de pele. A força e o orgulho da ancestralidade africana sempre estiveram presentes no trabalho da atriz e, não por acaso, é no cinema que essa potência é elevada ao máximo em Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues. Ao protagonizar a “imperatriz do Tijuco”, Zezé Motta incorpora a figura de uma poderosa e sedutora mulher negra que se afirma na nobreza acima de todo o preconceito. Baseado na história real de Xica da Silva, uma ex-escrava negra que se torna “rainha” do Arraial do Tijuco (atual Diamantina, em Minas Gerais), ao conquistar o representante da Coroa Portuguesa em plena era de extração de diamantes, o filme se tornou um sucesso instantâneo, com mais de 3 milhões de espectadores e uma série de prêmios nacionais e internacionais que marcaram para sempre a carreira da atriz.

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“Foi um divisor de águas na minha vida, porque eu passei a ser conhecida no Brasil e no mundo e abriu muitas portas para mim”, comenta Zezé. Com o papel de Xica, ganhou diversos prêmios como melhor atriz, como o Air France de Cinema; o Candango, do Festival de Brasília; o Governador do Estado de São Paulo; o Troféu Coruja de Ouro; e o prêmio do Festival de Gramado. Em diversas entrevistas, o diretor do filme, Cacá Diegues, admite que a própria existência do filme dependia de uma atriz que fosse capaz de imprimir a energia necessária para compor essa personagem e que, inclusive, estaria disposto a encerrar o projeto caso não encontrasse uma candidata à altura. Felizmente, Zezé Motta ficou sabendo das audições e conquistou o papel que seria o trampolim para o seu sucesso. Xica da Silva não lhe trouxe apenas prêmios, mas também o status de celebridade e o reconhecimento do seu trabalho pela carga erótica da personagem, que passou a ser venerada por todo país como sex symbol. Foi nesse momento que Zezé Motta começa a perceber seu poder de influenciar as pessoas, como mulher negra desejada e representada como um ícone de beleza, além da importância de se colocar no mundo.


A atriz relembra que não foi tão simples lidar com a presença da Xica, pois havia uma grande confusão do público em separar atriz e personagem, o que lhe rendeu várias situações de assédio. Eram os anos 1970, a década da liberação sexual, e Xica da Silva era uma personagem com um apelo sexual muito forte. “De todo modo, tinha um lado que eu achava legal, porque até então os negros eram considerados feios: nosso cabelo era duro, nosso nariz chato, nossa bunda grande demais — porque o padrão de beleza era branco europeu”, comenta. Pensar o papel dos negros no cinema passou a ser uma questão cada vez maior para Zezé Motta, que reivindicava mais presença de atores negros nas produções na mesma medida em que se recusava a aceitar papéis sem nenhum significado na trama. Embora tenha feito muitas empregadas domésticas ao longo da carreira, Zezé ressalta que exigia que esse personagem tivesse personalidade e participação na trama de forma que ela pudesse subverter esse espaço e transmitir uma mensagem ao público. “Quando as coisas deram certo pra mim, eu olhei em volta e falei: cadê todo mundo? E eram sempre os mesmos (poucos) negros. Naquela época, tinha uma coisa que se eu estivesse em cena, não tinha espaço pra Neusa Borges — porque éramos contemporâneas. Cada trabalho só podia ter um ou dois negros em cena e só tinha espaço pra mais gente em filmes sobre escravidão. A gente sabe que fazer arte no Brasil é difícil para todos, mas para os negros é mais ainda”, declara. “Eu questionava os diretores e produtores sobre a ausência de negros e eles sempre respondiam coisas absurdas, que não conheciam muitos negros ou que eles não apareciam nos testes. Aí, a pergunta que não quer calar: como conseguem achar tantos brancos e não conseguem achar os negros?”. Essa inquietação com a falta de representatividade dos negros motivou a atriz investir no projeto de um banco de dados sobre atores e atrizes negros de todo o Brasil. O Cidan — Centro de Informação do Artista Negro é uma entidade sem fins lucrativos — fundada por Zezé com outros artistas — que por meio de uma página na web mapeia o trabalho de artistas negros ao redor do Brasil e disponibiliza essas informações gratuitamente como um banco de talentos. Foi através do Cidan que muitos atores negros foram revelados, como é o caso do ator Lázaro Ramos quando foi escolhido para interpretar Madame Satã no filme de Karim Aïnouz.

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A parceria entre Zezé Motta e Cacá Diegues teve ainda muitos capítulos. “Eu virei meio que uma musa”, comenta Zezé entre uma e outra gargalhada. De fato, foram cinco longas-metragens rodados com o cineasta entre os anos 80 e 90 e, coincidentemente, são esses os títulos mais lembrados da filmografia da atriz: Xica da Silva (1976), Quilombo (1984), Dias Melhores Virão (1989), Tieta do Agreste (1996) e Orfeu (1999). Em cada um deles, Zezé tem um personagem completamente diferente. Em Quilombo, Zezé encenou a valente guerreira Dandara em uma trama que conta a história do quilombo de Palmares e do reinado de Ganga Zumba, outro personagem símbolo da resistência negra que, assim como Xica da Silva, virou mito. O filme reconta um momento riquíssimo da história do Brasil sob o ponto de vista dos vencidos. Além de Zezé Motta, o elenco conta ainda com diversos ícones do cinema negro, como Antônio Pompeo, Antônio Pitanga e Tony Tornado, que foram juntos representar o filme no Festival de Cannes, onde foi ovacionado na sessão de gala. Zezé conta que esse momento foi um dos mais emocionantes da carreira da atriz.

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Em Dias Melhores Virão, a atriz encarnou uma dubladora de seriados norte-americanos para a televisão brasileira ao lado da melhor amiga Marília Pêra — sua grande parceira desde a estreia no teatro com Roda Viva —, além de ter contracenado com Rita Lee. Já em Tieta, a atriz interpretou a solteirona religiosa Carmosina, o que, segundo ela, foi um desafio à parte, pois já havia no imaginário do público a imagem de Arlete Salles, que havia feito a mesma personagem na versão da obra de Jorge Amado para a TV alguns anos antes. A participação em Orfeu teve um apelo emocional muito forte para a história pessoal de Zezé, que interpreta a mãe do personagem-título. O roteiro adaptado da peça de Vinicius de Moraes conta a mitológica história de amor entre Orfeu e Eurídice, personagem que a atriz viveu anos antes do filme no teatro, contracenando com o amigo Zózimo Bulbul, um dos fundadores do cinema negro no Brasil. A mitológica história do amor puro e impossível da trama, conhecida no mundo inteiro, foi também a responsável pelo encantamento de Zezé com o cinema. A versão da história realizada por Marcel Camus, Orfeu Negro, foi o primeiro filme que ela assistiu na vida, ainda menina. Apesar de a carreira de atriz sempre correr paralela ao trabalho como cantora, a filmografia de Zezé Motta é tão extensa quanto diversa. No cinema,


seu corpo já assumiu os trejeitos de rainhas, guerreiras, fadas, solteironas, prostitutas, donas de casa e muitas outras mulheres, míticas ou reais, de todas as classes sociais que mostram a versatilidade do seu trabalho e uma grande facilidade em transitar por entre os gêneros cinematográficos. No cinema, Zezé Motta emprestou sua personalidade marcante em comédias, filmes infantis, dramas, suspenses e dublagem para animações entre outros gêneros. Também trabalhou em parceria com grandes diretores do cinema brasileiro. Com Arnaldo Jabor, atuou no clássico Tudo Bem (1978), quando realizou o sonho de contracenar com Fernanda Montenegro. As duas iriam se encontrar novamente no curta-metragem Missa do Galo, de Nelson Pereira dos Santos. Com o diretor cinemanovista atuou ainda no longa Jubiabá (1987), produção franco-brasileira que aborda o tema do romance inter-racial. Outro grande parceiro na carreira do cinema de Zezé Motta foi o intempestivo Sérgio Bianchi. A atriz está presente em duas das principais obras da carreira do diretor: Cronicamente Inviável (2000) e Quanto Vale ou É Por Quilo? (2005), dois filmes que investem pesado na denúncia dos problemas sociais brasileiros e na crítica ao sistema capitalista e à desumanização em nossa sociedade. Ao longo de toda a vida e carreira, Zezé manteve o engajamento político e esteve conectada aos movimentos sociais; em especial, ao movimento negro. Portanto, sua atuação no cinema também cruzou, por diversas vezes, com a crítica social. Junto a isso, soma-se a militância da atriz pela visibilidade dos artistas negros na mídia, com a criação do Cidan, mas também associando-se a outros artistas negros que pensavam seu papel na arte. Foi cruzando esses caminhos que Zezé Motta e o jovem cineasta Jeferson De se encontram. Autor de Dogma Feijoada, um manifesto que analisa criticamente a presença dos negros no cinema brasileiro, Jeferson De convida a então consagrada Zezé Motta a interpretar a escritora negra Carolina Maria de Jesus no curta-metragem Carolina (2003). Fascinada pela história da catadora de papel que registrava suas impressões cotidianas em um diário e que mais tarde se tornou uma das grandes obras literárias do Brasil, Zezé confessa que foi um trabalho muito difícil e que ela sente que merecia mais registros.

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“A minha vontade era fazer um longa sobre a vida da Carolina Maria de Jesus, porque acho que ela foi um grande exemplo para mim e para todos nós, negros, de que a gente não deve se entregar”, defende a atriz. O projeto do filme está encaminhado, mas ainda não deslanchou. Com Jeferson De, Zezé Motta também atuou no filme Bróder (2010), que arrebatou vários prêmios em festivais do Brasil e do mundo. Zezé não para. Mesmo sendo hoje reconhecida como uma das maiores atrizes do cinema brasileiro ao receber diversos prêmios e homenagens à sua carreira, a artista ainda espera realizar muitos outros trabalhos e continuar contribuindo para ampliar o espaço e reivindicar o reconhecimento de artistas negros nessa área. “A luta continua e um dia a gente chega lá. A gente não pode esperar, temos que batalhar; na verdade, o que a gente tem que ter é mais escritores negros, produtores negros e negros em todas as áreas do cinema para batalhar por seus projetos”, defende.

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A atriz reconhece muitos avanços e observa o desenvolvimento de cineastas, atores e produtores negros no cinema brasileiro e faz questão de comparecer em debates para discutir, em especial a questão da mulher negra, ainda mais invisibilizada nesse meio. Em entrevistas recentes, em razão da celebração dos 50 anos de carreira no cinema, Zezé lembra que uma das lutas que as mulheres do cinema ainda têm pela frente é a equiparação dos salários e a valorização das mulheres negras nesses espaços. Apesar de hoje ser uma grande celebridade, com uma carreira consolidada não só no cinema, como também na música, na televisão e no teatro, principalmente por ter reinventado o espaço da mulher negra na mídia, seu trabalho ainda está longe do fim. Trazendo sempre sua convicção e alegria, Zezé faz questão de estar presente na batalha pela diversidade no cinema. Não por acaso, em um de seus últimos trabalhos, Comédia Divina (2017), de Toni Ventura, a atriz interpreta Deus na figura de uma mulher negra de fala macia, uma imagem que quase nada se distancia dela mesma. Sem dúvida, a mitológica onipresença de Zezé Motta já registrou a atriz como uma deusa do cinema brasileiro. Texto: Carolina Ruas


“O problema não era ser empregada. O problema era entrar muda e sair calada”


Muito além do servir cafezinho “Eu estou fazendo o meu trabalho!”. Foi assim que a personagem Sônia, interpretada por Zezé Motta, na novela Corpo a Corpo, de 1984, respondeu à tentativa de insulto racista feita pela personagem Lúcia, vivida por Joana Fomm, mas pode ser também uma resposta da própria Zezé Motta, pois foi com o trabalho na televisão que a atriz contribuiu e muito para que atrizes e atores negros tivessem mais espaço na teledramaturgia. Foi também com a construção de suas personagens que ela fez com que o país dialogasse sobre as questões raciais e sobre a falsa sensação de igualdade para a população negra no Brasil. E essa luta em rede nacional começou em 1968, quando foi convidada para o elenco da novela Beto Rockfeller, da extinta TV Tupi. O papel: uma empregada doméstica, personagem que se tornou uma sina para atores negros no país. No entanto, segundo a própria atriz, em entrevista para o documentário A Negação do Brasil — O Negro na Telenovela Brasileira, a personagem não se resumia a servir cafezinho e abrir a porta da casa. Também chamada Zezé, ela era uma figura ousada que dava festas quando estava sozinha em casa e mantinha uma relação amorosa com o mordomo. Era uma personagem que rompia, da sua forma, o paradigma de subserviência imposto para personagens negros. E a ousadia seguiu a atriz na sua segunda personagem na TV. Dessa vez, já contratada pela Rede Globo de Televisão, emissora em que Zezé passou a maior parte de sua carreira televisiva, na novela A Patota, de 1972, escrita por Maria Clara Machado. O folhetim foi o terceiro a estrear no horário das 18 horas e seguia o clima leve e infantil para aquela época. Zezé Motta interpretava Zezinha, uma estudante que amava cantar e tinha um interesse no personagem de Reynaldo Gonzaga. Já em 1974, Zezé dava vida a mais uma empregada doméstica e encarava ali uma triste situação de racismo imposta pela censura da época. Ao ser convidada pelo autor Walter Negrão para atuar na novela Supermanoela, como Doralice, foi prometido à atriz uma personagem com participação na trama. E assim foi nos primeiros capítulos da novela, mas quanto mais a personagem mostrava a personalidade, mais a censura reclamava. Após alegações de que a personagem se metia muito na

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vida dos patrões, o autor foi obrigado a diminuir a participação da personagem na trama. Ou seja, Doralice passou o resto do folhetim abrindo portas e servindo café. O irônico é que a personagem principal da trama também era uma empregada doméstica, vivida pela atriz Marília Pera. Continuando seus trabalhos na Rede Globo, Zezé atuou ainda em mais duas produções dos anos 1970. Na novela Duas Vidas, de 1976, ela interpretou Jandira. A novela de Janete Clair tinha a intenção de contar como uma obra pública pode interferir na vida das pessoas utilizando a construção do metrô no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, como exemplo, mas a censura (mais uma vez ela!) não gostou dessa ideia e a história se concentrou mais no romance entre os protagonistas. Em 1978, Zezé voltava à tela da Globo, mas dessa vez para uma participação especial no seriado Ciranda Cirandinha. A atriz participou de dois episódios da série que falava do comportamento dos jovens dos anos 1970, tendo como protagonistas Fábio Jr, Lucélia Santos e Jorge Fernando. Um dos momentos mais impactantes é o número musical estrelado por Zezé que serviu de abertura para o capítulo inicial. Uma oportunidade de ver na TV o talento performático da também cantora.

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Essa foi a última passagem de Zezé pela teledramaturgia antes de um período sabático tirado pela atriz; intervalo que foi, na verdade, um protesto contra a padronização dos personagens para artistas negros na televisão brasileira. O estopim foi um convite feito pela TV Globo logo após as filmagens do clássico filme Xica da Silva. Era um especial baseado no texto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector. Ao chegar à emissora para descobrir a personagem que faria, Motta descobriu que somente serviria doces. Uma figuração de luxo. A atriz prontamente recusou o papel. Nem uma ligação do famoso diretor Ziembinski a fez mudar de ideia. Empregadas, nunca mais! Mas a história não foi exatamente essa. Após gerar burburinho com a decisão, os convites já não eram tantos, e os poucos que surgiram eram desinteressantes para a atriz. Somente após seis anos foi que chegou uma proposta que chamou a atenção de Zezé. A novela era Transas e Caretas. A personagem, Dorinha, uma empregada doméstica. Em sua autobiografia Zezé comenta o espanto que gerou ao ter aceitado o papel e por que o fez: “as pessoas me cobraram: ‘Ué?! Você não disse que


não topava mais papel de empregada? Acontece que a Dorinha fazia parte da trama. Era faxineira de dois irmãos — Reginaldo Faria e José Wilker — e tinha caso com ambos. Quer dizer, o problema não era ser empregada. O problema era entrar muda e sair calada. Isso eu já tinha feito e não precisava mais”.* A próxima personagem não só falava, como gerou um “falatório” nacional ao tocar no tema dos relacionamentos inter-raciais. Zezé Motta e Marcos Paulo interpretavam um casal na novela Corpo a Corpo, que batia de frente com o racismo. Na época, os grupos de discussão feitos pela Rede Globo apontavam como o país ainda estava mergulhado em preconceito e como era importante tocar naquela “ferida” em plenos anos 1980. “Os telespectadores que participavam dos grupos de discussão da novela achincalhavam. Vinham com as visões mais preconceituosas. Uma nordestina dizia que mudava de canal porque não podia acreditar que um gato como o Marcos Paulo pudesse ser apaixonado por uma mulher horrorosa. Outro achava que o Marcos Paulo devia estar precisando muito de dinheiro para se humilhar a esse ponto”, conta a atriz. Apesar do ataque por parte do público, o casal continuou na novela e esse foi um dos grandes momentos de Zezé, não só como atriz, mas também como uma referência para a população negra. Apesar de a maioria das novelas da atriz ser fruto da parceria com a Rede Globo, Zezé Motta também atuou em diversos outros canais. Um exemplo disso foi a sua participação em Helena, folhetim de 1987 exibido na extinta Rede Manchete. A novela era a segunda adaptação para a TV da obra de Machado de Assis. Zezé deu vida à personagem Malvina. Após essa experiência, a atriz voltaria à Rede Globo em 1989 para atuar em Pacto de Sangue. Na trama, que se passava antes da abolição da escravatura no Brasil, Motta interpretou a personagem Maria. Ainda naquele mesmo ano, ela estava novamente na tela da Rede Manchete dando vida à personagem Lulu Kelly, na novela Kananga do Japão. Além de atuar, Zezé também podia ser apreciada como cantora, já que a personagem fazia parte do grupo de artistas que trabalhavam no cabaré que dava nome ao folhetim. Foi também na Manchete que Motta protagonizou a série Mãe de Santo. Na trama, a atriz vivia uma mãe de santo do candomblé que a cada epi-

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sódio contava uma história diferente ocorrida na Bahia. A série ficou menos de um mês no ar, com um total de 16 episódios. Apesar da boa pesquisa sobre os rituais do candomblé, a obra não foi bem aceita pela crítica e pelo público. A volta à Rede Globo se deu nos anos seguintes, com uma participação no clássico programa Você Decide, em que os telespectadores escolhiam entre dois possíveis finais apresentados para trama; e na minissérie Memorial de Maria Moura, uma adaptação da obra homônima de Rachel de Queiroz. Zezé Motta interpretava Rubina na saga da mulher contra a submissão feminina na sociedade patriarcal do século XIX. Mas foi em 1995 que Zezé participou de um novo marco da televisão sobre questões raciais: a novela A Próxima Vítima, de Silvio de Abreu, que apresentava uma trama policial repleta de suspense. De acordo com o avanço do folhetim, personagens eram assassinados por um misterioso assassino. Mas não foi somente esse suspense que movimentou o país. Uma família formada por Zezé, Norton Nascimento, Luiz Mendes, Antônio e Camila Pitanga se tornou um dos temas mais comentados da novela. O motivo? Uma família negra de classe média. A trama fez com que o país discutisse sobre o limiar entre o preconceito social e racial nos anos 1990. 38

E se a ascensão social dos negros era tema em uma novela contemporânea, foi voltando ao tempo que a Manchete produziu um de seus maiores sucessos e fez com que Zezé Motta se reencontrasse com uma das suas mais emblemáticas personagens: Xica da Silva. Só que agora na pele da mãe da protagonista, vivida por Taís Araújo. “Quando o Walter Avancini me convidou para fazer a Maria, mãe da Xica da Silva na televisão, eu estava em Cabo Verde filmando O Testamento do Sr. Nepomuceno. Cheguei ao hotel, tinha um recado dele. Tomei o maior susto e, na hora, não consegui dizer nada. Mas no dia seguinte, quando acordei, pensei na homenagem que a vida estava me prestando através desse convite. Achava que quando a personagem virasse Rainha, usando aquelas roupas maravilhosas, toda glamurosa, eu fosse morrer de ciúmes, mas nada. Amei a Taís de cara e só torcia para que o projeto desse certo”, confidenciou Zezé em sua autobiografia.


A novela acabou se tornando um grande sucesso e abriu caminho para novos talentos como Thaís Araújo, Guilherme Piva e Giovanna Antonelli. Em 1998, novamente na Rede Globo, Zezé interpretou a doce Liana na novela Corpo Dourado. Na trama que misturava dramas familiares com o clima praiano, a personagem vivia um triângulo amoroso platônico com as personagens de Lucinha Lins e Flávio Galvão. E a sequência de trabalhos na emissora carioca permaneceu nos quatro anos seguintes. Em 1999, a atriz fez uma participação especial na minissérie Chiquinha Gonzaga. Já no ano 2000, Zezé Motta deu vida à personagem Irene, da novela Esplendor, uma babá que aceitava os maus-tratos da família para manter o filho em uma escola particular. Este a culpava pelas dificuldades que a família atravessava. E por falar em mãe, Zezé mais uma vez deu vida a uma mãe de santo, na novela Porto dos Milagres, de 2001. Venerada e consultada pelo povo do cais, mãe Ricardina protagonizava verdadeiros embates com a personagem de Arlete Salles, uma beata defensora das tradições católicas. Já em 2002, Zezé participou do mundo de fantasia e aventura apresentado na novela O Beijo do Vampiro. Na trama, ela interpretava Nadir, empregada da personagem de Flávia Alessandra, com quem nutria um forte laço de amizade. Em 2004 foi o momento de Zezé Motta estrear na tela da Rede Record com a novela Metamorphose, mas a experiência não foi de sucesso. A novela, apesar de todo o investimento feito em tecnologia e alta definição, foi massacrada pela crítica devido ao fraco texto e chegou a apresentar menos de um ponto de audiência. Mas não demorou para Zezé se encontrar novamente com o sucesso. Nesse mesmo ano, na tela da Band, a atriz integrou o elenco da novela Floribella, um grande êxito entre o público infanto-juvenil. Na trama ela viveu Titina, uma cabeleireira engraçada que exagerava nos tons berrantes das roupas e nos penteados esquisitos. Um dos momentos cômicos da carreira. De volta à Globo em 2006, Zezé entrou para o elenco do remake de Sinhá Moça. Na novela ela vivia a escrava Virgínia, que tem seu filho roubado

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ainda bebê. Uma curiosidade é que na mesma época, o SBT reprisou a novela Xica da Silva. Preocupada em aparecer como escrava em duas emissoras diferentes, quase ao mesmo tempo, Zezé se empenhou em distanciar a sofrida Virgínia da guerreira mãe de Xica. Em 2007, Zezé Motta voltou à Record para a novela Luz do Sol, onde viveu a personagem Odete Lustosa, mas em 2009 já estava na Rede Globo integrando o elenco da série Cinquentinha. Na trama, Zezé viveu a governanta Janaína, que perde o filho vítima de bala perdida no Rio de Janeiro. Em 2011, após o fim de seu contrato com a Globo, a atriz, novamente na Rede Record, integra o elenco da novela juvenil Rebelde, versão brasileira de um sucesso argentino que também já havia ganhado sua versão mexicana, essa exibida com grande sucesso pelo SBT. No folhetim, ela viveu Dadá, uma mãe que se dedica integralmente aos cuidados da família, mas tem uma virada no meio da novela e começa a trabalhar fora de casa. Em 2013 a atriz participou de duas tramas. Uma na TV aberta e outra na TV paga. Na Globo, ela viveu Tia celeste na minissérie O Canto da Sereia, cujo roteiro foi baseado no livro homônimo de Nelson Motta. Nessa obra, ela era mãe pequena do terreiro Soberana do Mar, a quem a protagonista, vivida por Ísis Valverde, procura antes de morrer. 40

Já no seriado Copa Hotel, exibido pelo canal GNT, Zezé viveu Adele, uma das mais antigas funcionárias do hotel que dá nome à trama. Ela mantém os segredos do lugar e das pessoas que passam por lá, mas também esconde de todos um amor vivido no passado. No ano seguinte, a atriz fez uma participação especial no seriado A Grande Família. Na pele de Elaine de Oliveira, ela apareceu em um episódio como a mãe do personagem de Luís Miranda. Ainda em 2014, Zezé entrou para o elenco da novela Boogie Oogie como Sebastiana Marques. Mas o papel se tornou uma decepção para atriz, assim como foi a personagem vivida por ela em Supermanoela. Segundo Zezé Motta, o convite feito pelo diretor Ricardo Waddington era para viver uma empregada doméstica que ajudava o filho a tornar-se um diplomata, mas a trama tomou outro rumo: o filho da personagem arrumou outro emprego e Zezé passou o resto da novela servindo


cafezinho. Uma decepção bem no ano em que a atriz comemorava os cinquenta anos de carreira. Esse provavelmente foi o principal motivo que fez a atriz novamente trocar a Rede Globo pela Rede Record. Em 2015, Zezé Motta começava a gravar Escrava Mãe, mas a novela só iria ao ar em 2016. Na trama, a atriz interpretava Tia Joaquina. Ao contrário do trabalho anterior, a personagem era um dos principais papéis da trama. Ainda em 2016, Zezé participou de 3%, a primeira série original do Netflix produzida no Brasil e a segunda na América Latina. Na série, cuja história se passa em futuro distópico, ela vive Nair, uma das líderes do Maralto, parte do mundo que ficava restrita aos socialmente privilegiados, sendo necessário passar por diversos testes para se ter o direito de acessá-la. O serviço de vídeos por streaming confirmou a segunda temporada da produção, prevista para estrear em 2018. Mas esse não foi o único seriado de 2016 no currículo de Zezé Motta. Ela também participou da série de humor Condomínio Jaqueline. Na trama, ela é a síndica Maria Helena, uma mulher extravagante e exagerada. Um detalhe curioso é que a personagem morre em todos os episódios, sendo substituída por um novo síndico que transforma as regras do local. Uma liberdade poética que dá o clima de humor da série. E se Zezé arriscou em novos formatos, ela também testou novos países em seu currículo. Em 2017, a atriz participou da produção portuguesa Ouro Verde, novela da emissora TVI que contou com a participação de seis atores brasileiros no elenco. Na obra, ela interpretou D. Neném, personagem que morre assassinada no meio da trama, mas que tem uma função importante no folhetim. De volta ao Brasil, não demorou para Zezé encontrar uma nova personagem na TV. Desta vez, ela vive D. Apolônia, na série Sob Pressão, da Rede Globo. Uma mulher que chega ao hospital da trama com uma dor e descobre que há uma bala em seu coração, que misteriosamente não para de bater. O que também pode ser uma metáfora para a carreira dessa atriz vibrante que não parou de brilhar na TV, mesmo em meio ao preconceito vivido em diferentes momentos de sua carreira. Uma atriz que abriu espaço para atores negros na televisão e que lutou para que esses atores

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pudessem assumir papéis que fugissem da rotineira figura de subserviência. Uma força que muito colaborou para as novas possibilidades da população negra na teledramaturgia brasileira. Texto: Miguel Filho

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* As falas de Zezé Motta transcritas nesta matéria tiveram como fonte: MURAT, Rodrigo. Zezé Motta: Muito Prazer. Coleção Aplauso, Série Perfil. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Cultura - Fundação Padre Anchieta. São Paulo, 2005


“Foi meu pai que me descobriu como cantora”


Uma “cantriz” Um jantar trouxe para os holofotes a cantora Zezé Motta. Embora tenha participado, em 1975, do álbum Gerson Conrad e Zezé Motta, a personalidade musical da artista ganhou corpo no álbum intitulado, não por acaso, Zezé Motta. Logo após o lançamento do filme Xica da Silva, todas as vezes em que a artista era questionada sobre novos projetos, ela respondia: “Agora eu vou cantar”. O desejo de soltar a voz era grande, mas ela não tinha à época nem gravadora, nem repertório e, muito menos, intimidade com o meio musical. Ao ler uma dessas entrevistas, o empresário Guilherme Araújo, um Midas do meio musical, responsável por empresariar a carreira de, entre outros, Caetano Veloso e Gal Costa resolveu organizar um jantar e apresentar a cantora Zezé para essa nova tribo. Entre os convidados estavam grandes nomes da música brasileira de ontem e hoje: Caetano Veloso, Rita Lee, Moraes Moreira, Luiz Melodia. O resultado foi um álbum de repertório eclético e que apresentou uma cantora de voz grave, carregada de dramaticidade e ironia. Entre os destaques das 11 faixas, uma das primeiras parcerias de Rita Lee e Roberto de Carvalho, Muito Prazer; o samba-funk Crioula, de Moraes Moreira; o choro Rita Baiana, de John Neschling e Geraldo Carneiro; as baladas Dores de Amores, de Luiz Melodia; e Pecado Original, de Caetano Veloso; além de canções que reforçam a identidade negra como Dengue, de Leci Brandão; e Babá Alapalá, de Gilberto Gil. O álbum é um marco na carreira da artista e reúne arranjos de grandes músicos como Liminha, Perinho Albuquerque, Antônio Adolfo, John Neschling e Tomás Importa. Além de ter criado a identidade musical da artista, o álbum flerta com a música pop, a raiz da canção brasileira e a identidade afro-brasileira. Mas a relação da artista com a música vem desde a infância e do contexto familiar, influenciada principalmente pelo seu pai. Em casa, sua mãe tinha um ateliê de costura e o rádio ficava constantemente ligado. Ela descobriu o fascínio pela música ouvindo Ângela Maria, Nora Ney, Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha, Jorge Goulart, Ellen de Lima. Seu pai chegava da rua e ela ia correndo cantar as novas músicas

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que tinha aprendido. E ele se impressionava. “Menina, quantas vezes você ouviu essa música?” , perguntava ele. Normalmente, eram duas ou três vezes. E ele sempre destacava o bom ouvido e a afinação da filha. Além de professor de violão, o pai de Zezé também tocava na noite carioca. Perto de completar 18 anos, a artista passou a acompanhá-lo em suas apresentações em casas noturnas do Rio de Janeiro. “Quando entrei na juventude, ele me levava para os lugares onde tocava. A primeira vez que subi ao palco para cantar, era em um local onde ele se apresentava. Ele olhou pra mim e disse: ‘Quer dar uma canja’ (risos). Foi meu pai que me descobriu como cantora”.

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Entre 1979 e 1985, Zezé gravou três discos: Negritude, Dengo e Frágil Força. Os trabalhos deram continuidade ao estilo apresentado pela artista no seu primeiro trabalho, aproximando o universo pop, a música brasileira e a africanidade. Nesse período ela trouxe para o seu repertório compositores até então inéditos na sua voz, como Milton Nascimento (“Bola de Meia, Bola de Gude”), João Bosco (“Boca de Sapo”), Gonzaguinha (“Sete Faces”), além de visitar os repertórios de grandes mestres como Cartola (“Autonomia”), Assis Valente (“Fez Bobagem”) e Johnny Alf (“Oxum”). Uma curiosidade dessa fase é o registro de “Cana Caiana” — uma das poucas canções assinadas por Maria Bethânia — parceria da baiana com a violonista Rosinha de Valença. Quarteto Negro, lançado em 1987, apresenta dez faixas e reúne Zezé Motta com três grandes instrumentistas: o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, o baixista e violonista Jorge Degas e o percussionista Djalma Corrêa. O trabalho foi lançado nas comemorações do centenário da Abolição e aproxima o samba do afro-jazz, com destaque para “Semba”, uma recriação do ritmo angolano; “Merengue” que, como sugere o nome, flerta com o ritmo caribenho; e “Quelé Menina”, homenagem a Clementina de Jesus, que mistura o samba-carioca ao jongo. O trabalho seguinte, Chave dos Segredos, foi lançado oito anos depois de Quarteto Negro. Das 14 faixas, oito são de autoria de mulheres compositoras como Jane Duboc, Suely Correia e Irinéia Maria. O álbum também apresenta “Sins”, música inédita de Adriana Calcanhotto, e “Quero Porque Quero”, parceria da cantora com Marina Lima.


Embora não seja uma compositora constante, Zezé Motta já assinou algumas belas canções. Além da parceria com Marina, a artista compôs “Cais Escuro”, com Paulo César Feital, para o disco “Dengo”; e “Semba”, em parceria com Jorge Degas, gravada em Quarteto Negro. Ao lado de Luiz Antônio Carvalho, Zezé escreveu a letra de uma outra canção, em cima de uma melodia de Luiz Bonfá, grande ídolo de seu pai, para a trilha do filme O Prisioneiro do Rio. A compositora Zezé Motta também foi gravada por um dos seus ídolos de infância: Cauby Peixoto. A música se chama “Ousadia”, uma parceria da artista com Irinéia Maria, e está no álbum Estrelas Solitárias, lançado pelo cantor em 1982. O álbum seguinte, Divina Saudade, é uma homenagem a uma das maiores cantoras do Brasil: Elizeth Cardoso. Lançado dez anos após a morte da Divina — apelido de Elizeth —, nos anos 2000, surgiu por acaso em um dia que Zezé esbarrou na estante de sua casa com a biografia Elisete Cardoso — Uma Vida, de Sérgio Cabral. Ao ler a biografia, Zezé Motta ficou impressionada com as semelhanças entre as duas, a começar pelas coincidências astrológicas: as duas são cancerianas. Para chegar às 17 canções que estão no álbum, 300 músicas foram ouvidas. Com produção de Roberto Menescal, o disco possui uma sonoridade sofisticada, limpa e acústica, com uma pegada “MPB de raiz”. O trabalho faz um passeio por parte da história da música brasileira e através do belíssimo e eclético repertório de Elizeth. Estão lá músicas do clássico álbum Canção do Amor Demais (“Estrada Branca” e “Chega de Saudade”), disco considerado o marco inaugural da bossa nova ao reunir canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes ao lado do violão de João Gilberto; os sambas potentes da dupla Baden Powell e Vinicius de Moraes (“Consolação” e “Tem Dó”), além dos lados sambista (“O Amor e a Rosa” e “Tristeza”) e romântico (“Nossos Momentos” e “A Noite do Meu Bem”) da intérprete. Após 11 anos sem lançar um novo trabalho musical, uma outra homenagem foi realizada pela cantora, mas desta vez a escolha recaiu sobre dois dos maiores compositores da música brasileira e contemporâneos da artista: Luiz Melodia e Jards Macalé. Melodia é um dos compositores mais constantes na discografia de Zezé. De Jards Macalé, ela tinha gravado apenas uma canção.

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A proposta para o álbum surgiu de um convite do DJ Zé Pedro, que estava lançando sua gravadora, a Joia Moderna, que, na época, só gravava mulheres. Zezé lhe disse que estava em turnê com o show O Samba Mandou Me Chamar, ao que ouviu de resposta que a proposta da gravadora era passear por outros gêneros musicais: o jazz, o blues e o rock. Então, a artista ficou pensando em um projeto que poderia realizar para participar da empreitada do DJ. Indecisa entre gravar um álbum com a obra de Melodia ou Macalé, ligou para Zé Pedro, que respondeu de imediato: “Faça com os dois!”. O resultado foi o álbum Negra Melodia, que reconectou a artista com a irreverência, depois do classudo Divina Saudade. Ela reapresenta 12 músicas dos grandes compositores, seis de cada autor, sem regravar canções óbvias como “Pérola Negra” ou “Vapor Barato”, ou alguma das outras que ela já havia registrado. Com uma base de guitarra, baixo, bateria e incursões de piano, percussão e sopros, ela recorre ao que nunca fez. Grandes canções, até então escondidas, como “Começar pelo Recomeço” (Luiz Melodia/Torquato Neto), “Divina Criatura” (Luiz Melodia/Papa Kid), “Pano pra Manga” (Jards Macalé/Xico Chaves) e “The Archaic Lonely Star Blues” (Jards Macalé/Duda) ganham versões robustas e ousadas, como a deslumbrante “Soluções”, de Jards Macalé, em que a cantriz brilha. 50

A definição definitiva da cantora Zezé Motta foi dada pelo DJ Zé Pedro no material de divulgação de Negra Melodia: “Zezé Motta é a rainha negra do Brasil. A mulher da pele preta que enfrentou a ditadura desse país livre e nua. Zezé é uma atriz de dar orgulho. Seu exercício de interpretar a levou para os melhores palcos, aos melhores filmes criados por aqui, aos cantos escondidos dessa terra através da televisão. Mas tem uma coisa que Zezé Motta faz ainda melhor: cantar”. Texto: Leonardo Vais


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Teatro

1968 - Roda Viva Texto de Chico Buarque Direção José Celso Martinez Corrêa 1969 - A Moreninha Texto de Miroel Silveira e Cláudio Petraglia a partir do original de Joaquim Manuel de Macedo Direção de Osmar Rodrigues Cruz Hamlet Texto de William Shakespeare Tradução e direção de Flávio Rangel 1970 - A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato Texto de Bráulio Pedroso Direção de Antônio Pedro Arena Conta Bolivar Texto e direção de Augusto Boal 1972 - Fígaro ou Um Dia Muito Louco Texto de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais Tradução de Carlos Queirós Telles Direção de Gianni Ratto Godspell Texto de John-Michael Tebelak e Stephen Schwartz Tradução de Renata Pallottini Direção de Altair Lima Orfeu da Conceição Direção de Haroldo de Oliveira Um Grito de Liberdade Texto de Sérgio Viotti Direção de Osmar Rodrigues Cruz

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1976 - Rendez-Vous Texto de Robert Thomas Tradução de Paulo Nolding Direção de Antônio Pedro 1977 - A Rainha Morta Texto de Heloísa Maranhão Direção de Luiz Carlos Ripper 1988 - A Causa da Liberdade Texto de Domingos de Oliveira Direção Anselmo Vasconcellos 1998 - Ó Abre Alas Texto de Maria Adelaide Amaral Direção de Charles Moeller 2003 - Disse-Me-Disse Texto de José Carvalho Direção de Gracindo Jr.

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2007 - 7 - O Musical Texto de Charles Möeller e Cláudio Botelho Direção de Charles Möeller 2015 - A História de Paulo Benjamim de Oliveira Texto de Wilson Machado Direção de Aduni Benton


Cinema

1970 - Em Cada Coração um Punhal (episódio Transplante de Mãe) Direção de João Batista de Andrade, José Rubens Siqueira e Sebastião de Souza Cleo e Daniel Personagem: Freguesa do Bar Viajantes Direção de Roberto Freire 1973 - Vai Trabalhar, Vagabundo Personagem: Namorada de Dino Direção de Hugo Carvana 1974 - Um Varão Entre as Mulheres Personagem: Doméstica Direção de Victor Di Mello Banana Mecânica Personagem: Marilda Direção de Braz Chediak A Rainha Diaba Personagem: Namorada de Bigode Direção de Antônio Carlos Fontoura 1976 - Xica da Silva Personagem: Xica da Silva Direção de Carlos Diegues 1977 - Cordão de Ouro Personagem: Dandara Direção de Antonio Carlos da Fontoura Ouro Sangrento ou Tenda dos Prazeres Personagem: Empregada Direção de César Ladeira Filho A Força do Xangô Personagem: Estrela Direção de Iberê Cavalcanti

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1978 - Tudo Bem Personagem: Zezé Direção de Arnaldo Jabor Se Segura, Malandro! Direção de Hugo Carvana 1983 - Filme Sobre Filme (documentário) Direção de Renata Almeida Magalhães 1984 - Águia na Cabeça Personagem: Maria das Graças Direção de Paulo Thiago Para Viver um Grande Amor Personagem: Maria Direção de Miguel Faria Jr. Quilombo Personagem: Dandara Direção de Carlos Diegues 58

1987 - Sonhos de Menina Moça Personagem: Vicky Direção de Tereza Trautman Anjos da Noite Personagem: Malu Direção de Wilson Barros Jubiabá Personagem: Rozenda Direção de Nelson Pereira dos Santos 1988 - Mestizo Personagem: Cruz Guaregua Direção de Mario Handler


Prisoner of Rio Personagem: Rita Direção Lech Majewski Natal da Portela Personagem: Maria Elisa Direção de Paulo César Saraceni 1989 - A Pequena Sereia Dublagem da personagem Úrsula Direção de Ron Clements e John Musker Dias Melhores Virão Personagem: Dalila Direção de Carlos Diegues As Divas Negras do Cinema Brasileiro (documentário) Direção de Vik Birkbeck 1990 - O Gato de Botas Extraterrestre Personagem: Mulher Corvo Direção de Wilson Rodrigues 1992 - A Serpente Personagem: Crioula Direção de Alberto Magno 1993 - Vênus de Fogo Personagem: Márcia Direção de Victor Lopes Era Uma Vez… Personagem: Mulher na festa Direção de Arturo Uranga 1996 - Tieta do Agreste Personagem: Carmosina Direção de Carlos Diegues

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1998 - O Testamento do Senhor Napumoceno Personagem: Eduarda Direção de Francisco Manso 1999 - Orfeu Personagem: Conceição Direção de Carlos Diegues 2000 - Poeta de Sete Faces (documentário) Direção de Paulo Thiago Cronicamente Inviável Personagem: Ada Direção de Sérgio Bianchi A Negação do Brasil (documentário) Direção de Joel Zito Araújo 2002 - Xuxa e os Duendes 2 - No caminho das Fadas Personagem: Fada Kálix Direção de Paulo Sérgio de Almeida e Rogério Gomes 60

2003 - Viva Sapato! Personagem: Mulher no avião Direção de Luiz Carlos Lacerda Carolina Personagem: Carolina Direção de Jeferson De Saudade - Sehnsucht Personagem: Mãe do Miguel Direção de Jürgen BrüningWr 2004 - Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida Personagem: Aurora Hipólito Direção de Moacyr Góes


A Idade do Homem Direção de Afonso Nunes O Moleque Personagem: Dona Zezé Direção Ari Cândido Fernandes 2005 - Quanto Vale Ou É Por Quilo? Personagem: Joana Maria da Conceição Direção de Sérgio Bianchi 2006 - Kinshasa Palace (documentário) Direção de Zeka Laplaine O Cobrador: In God We Trust Personagem: Secretária Direção de Paul Leduc O Amigo Invisível Personagem: Avó Direção: Maria Letícia 2007 - Deserto Feliz Personagem: Dona Vaga Direção de Paulo Caldas Café com Leite (documentário) Direção de Guiomar Ramos Luz do Sol Personagem: Odete Direção de Ivan Zettel 2008 - A Ilha dos Escravos Personagem: Júlia Direção de Francisco Manso

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2009 - Xuxa em O Mistério de Feiurinha Personagem: Jerusa Direção de Tizuka Yamasaki 2010 - Bom Dia, Eternidade Personagem: Odete Direção de Rogério de Moura Bróder Personagem: Dona Meire Direção de Jeferson De 2012 - Gonzaga - De Pai pra Filho Personagem: Priscila Direção de Breno Silveira 2013 - Mulheres Africanas - A Rede Invisível (documentário) Narradora / Voz Off Direção de Carlos Nascimbeni

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2014 - O Lucro Acima da Vida Personagem: Célia Direção de Nic Nilson Tudo o que Move (documentário) Direção de Thiago Gomes 2015 - Cora Coralina - Todas as vidas (documentário) Narradora / Voz Off Direção de Renato Barbieri 2016 - Pitanga (documentário) Direção de Beto Brant e Camila Pitanga 2017 - A Comédia Divina (obra ainda não lançada) Personagem: Deus Direção de Toni Venturi


O Nó do Diabo Personagem: Anciã Direção de Gabriel Martins, Ian Abé, Jhésus Tribuzi e Ramon Porto Mota

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Televisão

TV Tupi 1968 - Beto Rockfeller Personagem: Zezé Novela de Bráulio Pedroso Direção de Walter Avancini

TV Manchete 1987 - Helena Personagem: Malvina Novela de Mário Prata, Dagomir Marquezi e Reinaldo Moraes 1989 - Kananga do Japão Personagem: Lulu Kelly Novela de Wilson Aguiar Filho Direção de Tizuka Yamasaki 1990 - Mãe de Santo Personagem: Iyalorixá Minissérie de Paulo César Coutinho Direção de Henrique Martins 1996 - Xica da Silva Personagem: Maria Novela de Walcyr Carrasco Direção de Walter Avancini

RTP1 (Portugal) 2000 - Almeida Garrett Personagem: Rosa Lima Série de António Torrado Direção de Francisco Manso

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Rede Record 2004 - Metamorphoses Personagem: Prazeres da Anunciação Novela de Arlette Siaretta e Letícia Dornelle Direção de Del Rangel, Tizuka Yamasaki e Pedro Siaretta 2007 - Luz do Sol Personagem: Odete Lustosa Novela de Ana Maria Moretzsohn com a colaboração de Gustavo Reiz, Ana Clara Santiago, Emilio Boechat e Denise Crispun Direção de Ivan Zettel, Fábio Junqueira e José Carlos Pieri, sob direção geral de Ivan Zettel 2011 - Rebelde Personagem: Dalva Alves (Dadá) Novela de Margareth Boury com a colaboração Rene Belmonte, Valéria Motta, Ana Clara Santiago, Gibran Dipp, Emilio Boechat e Carolina Galvão Direção de Ivan Zettel, Leonardo Miranda, Rudi Lagemann, Daniel Ghivelder e Patricia Fallopa

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2016 - Escrava Mãe Personagem: Maria Joaquina dos Santos (Tia Joaquina) Novela de Gustavo Reiz com colaboração de Aline Garbati, Camilo Pellegrini, Jussara Fazolo, Mariana Vielmond e Valéria Motta, Direção de Ivan Zettel, Leonardo Miranda, Régis Faria, Rudi Lagemann e Michele Lavalle com a direção geral de Ivan Zettel

TV Bandeirantes 2005 - Floribella Personagem: Titina Novela de Patrícia Moretzsohn e Jaqueline Vargas Direção de Elisabetta Zenatti


GNT 2013 - Copa Hotel (1ª temporada) Personagem: Adele Série roteirizada por J.P. Cuenca e Felipe Bragança Direção de Mauro Lima e Tomás Portella

TV Globo 1972 - A Patota Personagem: Zezinha Novela de Maria Clara Machado Direção de Reinaldo Boury 1974 - Supermanoela Personagem: Doralice Novela de Walter Negrão Direção: Gonzaga Blota e Reinaldo Boury 1976 - Duas Vidas Personagem: Jandira Novela de Janete Clair Direção de Daniel Filho e Jardel Melo 1978 - Ciranda Cirandinha (episódios O Jardim Suspenso da Babilônia e O Momento da Decisão) Série de Paulo Mendes Campos Direção de Daniel Filho 1979 - Mulher 80 Especial em homenagem às mulheres com entrevistas e musicais Direção de Daniel Filho 1983 - Aplauso Espetáculo de variedades apresentado por Christiane Torloni, Isis de Oliveira, Marília Gabriela, Tônia Carrero e Zezé Motta Direção de Ewaldo Ruy, Fernando Torres e Odilon Coutinho, e direção geral de Augusto César Vannucci

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A Turma do Pererê Especial criado pelo cartunista Ziraldo Direção de Guto Graça Mello e direção geral de Augusto César Vannucci 1984 - Transas e Caretas Personagem: Dorinha Novela de Lauro César Muniz Direção de José Wilker e Mário Márcio Bandarra Corpo a Corpo Personagem: Sônia Novela de Gilberto Braga Direção de Denis Carvalho e Jayme Monjardim 1989 - Pacto de Sangue Personagem: Maria Novela de Regina Braga e Sérgio Marques Direção de Herval Rossano 1993 - Você Decide (Episódio Em Nome do Pai) Personagem: Zenaide 68

1994 - Memorial de Maria Moura Personagem: Rubina Minissérie de Jorge Furtado e Carlos Gerbase com a colaboração de Glênio Póvoas (adaptação da obra de Rachel de Queiroz) Direção de Denise Saraceni, Mauro Mendonça Filho e Roberto Farias 1995 - A Próxima Vítima Personagem: Fátima Noronha Novela de Sílvio de Abreu Direção de Jorge Fernando 1998 - Corpo Dourado Personagem: Liana Novela de Antônio Calmon Direção de Flávio Colatrello e Marcos Schechtman


1999 - Chiquinha Gonzaga Personagem: Conceição Minissérie de Lauro César Muniz e Marcílio Moraes Direção de Jayme Monjardim, Luiz Armando Queiroz e Marcelo Travesso 2000 - Esplendor Personagem: Irene Novela de Ana Maria Moretzsohn Direção de Maurício Farias e Wolf Maya 2001 - Porto dos Milagres Personagem: Ricardina Novela de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares Direção de Marcos Paulo e Roberto Naar 2002 - O Beijo do Vampiro Personagem: Nadir Novela de Antônio Calmon Direção de Marcos Paulo e Roberto Naar 2006 - Sinhá Moça Personagem: Virgínia (Bá) Novela de Benedito Ruy Barbosa (inspirada na obra de Maria Dezonne Pacheco Fernandes) Direção de Marcelo Travesso e Luiz Antônio Pilar, direção geral de Rogério Gomes 2009 - Cinquentinha Personagem: Janaína (Naná) Minissérie de Aguinaldo Silva e Maria Elisa Berredo Direção geral e de núcleo de Wolf Maya 2013 - O Canto da Sereia Personagem: Tia Celeste Minissérie de George Moura, Patrícia Andrade e Sérgio Goldenberg, supervisão de texto de Glória Perez (baseada na obra de Nelson Motta) Direção geral de José Luiz Villamarim e núcleo de Ricardo Waddington

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2014 - A Grande Família (episódio Mãe de Fases) Personagem: Elaine de Oliveira Direção de Luis Felipe Sá Boogie Oogie Personagem: Sebastiana Marques Novela de Rui Vilhena com supervisão de texto de Aguinaldo Silva Direção de André Câmara, André Barros, Pedro Pelegrino, Macau Amaral, Michel Coeli e Tila Teixeira, com direção geral de Ricardo Waddington e Gustavo Fernandez 2017 - Sob Pressão Personagem: Dona Apolônia Série de Luiz Noronha, Cláudio Torres, Renato Fagundes e Jorge Furtado Direção de Andrucha Waddington e Mini Kerti

Canal Fox

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2016 - Condomínio Jaqueline Personagem: Dona Maria Helena Série roteirizada por Pedro Aguilera, Geórgia Costa Araújo, Daniel Grinspum, Tony Góes, Sílvia Lourenço, Roberto Moreira, Anna Muylaert, Dilson Neto e Luciano Patrick Direção de Jeferson De, Luciano Patrick e Roberto Moreira

NETFLIX 2016 - 3% Personagem: Nair Série de Pedro Aguilera Direção de César Charlone, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi

Televisão Independente - TVI (Portugal) 2017 - Ouro Verde Personagem: Dona Neném Novela de Maria João Costa Direção de Hugo de Sousa


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Música

1975 - Trem Noturno / Gerson Conrad & Zezé Motta (Som Livre) 1. A Dança do Besouro (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 2. Favor dos Ventos (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 3. Sono Agitado (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 4. Trem Noturno (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 5. Estranho Sorriso (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 6. Bons Tempos (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 7. O Legado da Terra (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 8. Sempre Em Mim (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 9. Pop Star (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 10. Um Resto de Sol (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 11. Lírios Mortos (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 12. A Medida (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 13. Novo Porto (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 14. 1974 (Gerson Conrad / Paulinho Mendonça) 1978 - Zezé Motta (WEA) 1. Muito Prazer Zezé (Rita Lee / Roberto de Carvalho) 2. Magrelinha (Luis Melodia) 3. Trocando em Miúdos (Francis Hime / Chico Buarque) 4. Rita Baiana (John Neschling / Geraldo Carneiro) 5. Dores de Amores (Luis Melodia) - com Luis Melodia 6. Crioula (Moraes Moreira) 7. Pecado Original (Caetano Veloso) 8. Mameto Oiaice (Célio José / Odeamim José) 9. O Morro Não Engana (Luis Melodia / Ricardo Augusto) 10. Dengue (Leci Brandão) 11. Babá Alapalá (Gilberto Gil) Compacto (Atlantic/WEA) 1. Dores de Amores (Luis Melodia) - com Luis Melodia 2. Pecado Original (Caetano Veloso) Compacto (Atlantic/WEA) 1. Rita Baiana (John Neschling / Geraldo Carneiro) 2. Trocando Em Miúdos (Francis Hime / Chico Buarque) Compacto (WEA) 1. Rita Baiana (John Neschling / Geraldo Carneiro)

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2. Trocando Em Miúdos (Francis Hime / Chico Buarque) 3. Magrelinha (Luis Melodia) 4. Babá Alapalá (Gilberto Gil) 1979 - Negritude (WEA) 1. Manhã Brasileira (Manacéa) 2. Atividade (Padeirinho) 3. Ai de Mim (John Neschling / Geraldo Carneiro) 4. Pensamento Iorubá (Moraes Moreira) 5. Autonomia (Cartola) 6. Tabuleiro (João de Aquino / José Márcio) 7. Senhora Liberdade (Wilson Moreira / Nei Lopes) 8. Cana Caiana (Rosinha de Valença / Maria Bethânia) 9. Trovoada (Tunai / Sergio Natureza) 10. Negritude (Irinéia Maria / Paulo César Feital) 11. Yayá (Henrique Vogeler / Luis Peixoto / Marques Porto) 12. Boca de Sapo (João Bosco / Aldir Blanc) Compacto (Atlantic/WEA) 1. Senhora Liberdade (Wilson Moreira / Nei Lopes) 2. Boca de Sapo (João Bosco / Aldir Blanc) 74

Compacto (WEA) 1. Atividade (Padeirinho) 2. Negritude (Irinéia Maria / Paulo César Feital) 3. Senhora Liberdade (Wilson Moreira / Nei Lopes) 4. Cana Caiana (Rosinha de Valença / Maria Bethânia) 1980 - Compacto (Atlantic/WEA) 1. Anunciação (Paulo César Feital / Diana Feital / J. Maranhão) 2. Negritude (Irinéia Maria / Paulo César Feital) 1980 - Dengo (WEA) 1. Remendos (Joanna / Sarah Benchimol) 2. Feiticeira (Gilberto Gil) 3. O Dengo Que a Nega Tem (Dorival Caymmi) 4. Bola de Meia Bola de Gude (Milton Nascimento / Fernando Brant) 5. Cais Escuro (Paulo César Feital / Zezé Motta) 6. Oxum (Johnny Alf)


7. Fez Bobagem (Assis Valente) 8. Sete Faces (Gonzaguinha) 9. Sem Essa (Jards Macalé / Duda) 10. Poço Fundo (Gilberto Gil) Compacto (Atlantic/WEA) 1. Remendos (Joanna / Sarah Benchimol) 2. Feiticeira (Gilberto Gil) 1982 - Compacto (Atlantic/WEA) 1. O Nosso Amor (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) 2. Três Travestis (Caetano Veloso) 1985 - Frágil Força (Pointer) 1. Negrito (Belizário / Paulinho Resende) 2. Pouco Me Importa (Francis Hime / Ruy Guerra) 3. Carnaval de Rua (Edil Pacheco / Paulo César Pinheiro) 4. Angorá (Irinéia Maria / Paulo César Feital) 5. Castigo (Marco Polo) 6. Dança (Djalma Luz) 7. Romântico (Elodi / Zé Maurício) 8. Nega Dina (Moraes Moreira / Capinan) 9. Prateia (Maria Carmen Barbosa) 10. Frágil Força (Luis Melodia) 1987 - Quarteto Negro (Kuarup) - com Paulo Moura, Djalma Correia e Jorge Degas 1. Folôzinha (Marku Ribas / Reinaldo Amaral) 2. Sobre as Ondas (Jorge Degas) 3. Merengue (Adler São Luis) 4. Festas da Xica (Paulo Moura) 5. Semba (Jorge Degas / Zezé Motta) 6. Zumbi (A Felicidade Guerreira) (Gilberto Gil / Waly Salomão) 7. Brucutú (Jorge Degas / Djalma Correia) 8. Geísa (Roberto Guima) 9. A Quelé Menina (Djalma Luz) 10. Taisho-Koto (Djalma Correia)

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1995 - Chave dos segredos (Movieplay) 1. Paixão (Luis Melodia) 2. Doce Esperança (J. Velloso / Roberto Mendes) 3. Direiro à Vida (Élton Medeiros / Ana Terra) 4. Ter Você Comigo (Jane Duboc / Suely Correia) 5. Coisa Feita (João Bosco / Paulo Emílio / Aldir Blanc) 6. Como La Cigarra (Maria Helena Walsh) 7. Escrava Anastácia (Jota Maranhão / Tony Bahia) 8. Tema de Amor de Gabriela (Tom Jobim) 9. Pepe (Daniel Lemaitre / Adpt. A. Santana) 10. Chorinho (Irinéia Maria / Suely Correia) 11. Quero Porque Quero (Marina Lima / Zezé Motta) 12. Sins (Adriana Calcanhoto) 13. Meu Par (Irinéia Maria / Suely Correia) 14. Chave dos Segredos (Timbaúba)

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2000 - Divina Saudade (Albatroz) 1. Canção de Amor (Elano de Paula / Chocolate) 2. Consolação (Baden Powell / Vinicius de Moraes) / Tem Dó (Baden Powell / Vinicius de Moraes) 3. Chega de Saudade (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) 4. A Noite do Meu Bem (Dolores Duran) 5. Prece (Vadico / Marino Pinto) / Feitio de Oração (Vadico / Noel Rosa) 6. Noites Cariocas (Jacob do Bandolim / Hermínio Bello de Carvalho) / Lamentos (Pixinguinha / Vinicius de Moraes) 7. Estrada Branca (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) 8. Molambo (Jaime Florence “Meira” / Augusto Mesquita) 9. Barracão (Oldemar Magalhães / Luis Antônio) / Samba Triste (Billy Blanco / Baden Powell) 10. Nossos Momentos (Haroldo Barbosa / Luis Reis) / Tudo É Magnífico (Haroldo Barbosa / Luis Reis) 11. O Amor e a Rosa (Pernambuco / Antônio Maria) / Tristeza (Haroldo Lobo / Niltinho Tristeza) 2011 - Negra Melodia (Joia Moderna) 1. O Sangue Não Nega (Luis Melodia / Ricardo Augusto) 2. Anjo Exterminado (Jards Macalé / Waly Salomão) 3. Começar Pelo Recomeço (Luis Melodia / Torquato Neto) 4. Decisão (Luis Melodia / Sergio Mello)


5. Pano pra Manga (Jards Macalé / Xico Chaves) 6. Mal Secreto (Jards Macalé - Waly Salomão) 7. Soluços (Jards Macalé) 8. Onde o Sol Bate e Se Firma (Luis Melodia) 9. The Archaic Lonely Star Blues (Jards Macalé -Duda) 10. Vale Quanto Pesa (Luis Melodia) 11. Divina Criatura (Luis Melodia / Papa Kid) 12. Encanto (Ligia Anel / Xico Chaves / Jards Macalé / Christianne Dardenne)

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Premiações

1976 - Xica da Silva Melhor Atriz - Festival de Brasília do Cinema Brasileiro Melhor Atriz - Troféu Coruja de Ouro Melhor Atriz - Prêmio Air France de Cinema Melhor Atriz - Prêmio Governador do Estado de São Paulo Melhor Atriz - Troféu Coelhinho da Playboy 2007 - Troféu Oscarito / Homenagem do Festival de Gramado 2008 - Troféu Palmares / Homenagem da Fundação Cultural Palmares 2010 - Homenagem do Festival de Cinema da Amazônia 2012 - Troféu Mário Gusmão / Homenagem da Universidade Federal do Recôncavo Baiano Troféu Top of Business 2014 - Mostra Internacional de Arte da Mulher Negra / Homenagem à carreira Troféu Dia de Mandela / Instituto de Cultura e Consciência Negra Nelson Mandela 2016 - Troféu The Winner Awards / Homenagem à Carreira 2017 - Homenagem da Caixa Cultural de Recife Troféu Raça Negra / ONG Afrobras e Faculdade Zumbi dos Palmares

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Legendas e créditos das imagens Capa - No Projeto Pixinguinha (1979). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 2 - No Museu de Arte Moderna (1977). Fotografia de Sérgio Pantoja / Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 4 - Fotografia de Ludovic Carème (2014) / Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 6 - No filme Xica da Silva (1976). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 13 - Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 14 - Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 19 - No musical Ó Abre Alas (1998). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 23 - No filme Xica da Silva (1976). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 24 - No filme Jubiabá (1987). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 33 - Na minissérie Memorial de Maria Moura (1994). Globo/Divulgação. Pág. 34 - Milton Gonçalves, Zezé Motta e Haroldo Costa na minissérie Chiquinha Gonzaga (1999). Globo/Divulgação. Pág. 45 - Na época em que Zezé Motta era crooner em São Paulo nas casas Telecoteco e Balacobaco. Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 46 - Imagem de divulgação do álbum Negra Melodia (2011). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta.

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Pág. 51 - Imagem de divulgação do disco Divina Saudade (2000). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 52 - Fotografia de Rogério Ehrlich (2010) / Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 55 - Zezé Motta (1984) /Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 56 - Com o diretor Cacá Diegues nos bastidores do filme Quilombo (1984). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 64 - Na novela Porto dos Milagres (2001). Globo/Divulgação. Pág. 71 - Desfile da Escola de Samba Império da Tijuca. Fotografia de Evandro Teixeira / Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 72 - Capas dos álbuns musicais de Zezé Motta. Pág. 78 - Com Carlinhos Prieto. Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. 82

Pág .80 - Projeto Solistas Dissonantes (2010). Fotografia Alessandra Fratus (2010) / Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 83 - No filme Quilombo (1984). Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta. Pág. 84 - No show em homenagem aos 100 anos de Nelson Cavaquinho, no Centro Cultural São Paulo (2011). Fotografia de Jardiel Carvalho / Acervo da Staffcompany, assessoria de imprensa da Zezé Motta.

Para a publicação da reportagem desta publicação a atriz e cantora Zezé Motta concedeu entrevista por telefone ao jornalista Paulo Gois Bastos no dia 30 de agosto de 2017. Agradecimentos à Staffcompany, assessoria de imprensa de Zezé Motta, e a Vinícius Belo.


CADERNO DO FESTIVAL DE CINEMA DE VITÓRIA HOMENAGEADO NACIONAL / 17ª Edição Projeto Editorial – Lucia Caus Delbone e Paulo Gois Bastos Reportagem, edição e redação – Paulo Gois Bastos (MTB/ES 2530) Reportagem e redação – Aline Dias, Carolina Ruas, Leonardo Vais e Miguel Filho Projeto Gráfico – Paulo Prot Diagramação – Wérllen Castro | Monomotor Revisão de Texto – Luiz Cláudio Kleaim Especificações Gráficas Tipografia – Chaparral Pro para títulos e Gandhi Serif para texto Papéis – Couchê Fosco 115g/m 2, Clear Plus 180g/m 2 e Cartão Supremo 250g/m 2 Impresso em Vitória – ES O Caderno do Festival de Cinema de Vitória - Homenageado Nacional é uma publicação do 24º Festival de Cinema Vitória, evento realizado de 11 a 16 de setembro de 2017 em Vitória-ES. O Festival é uma realização da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte. Nosso endereço e contatos: Rua Professora Maria Cândida da Silva, nº 115-A – Bairro República – Vitória/ES. CEP 29.070-210. Tel.: +55 27 3327 2751 / producao@ibcavix.org.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) C122 CADERNO DO FESTIVAL DE CINEMA DE VITÓRIA - HOMENAGEADO NACIONAL. Paulo Gois Bastos (Editor). Vitória: 24° Festival de Cinema de Vitória, Set 2017. Anual. 84p.: il. (24º Festival de Cinema de Vitória, 7ª Edição).1.Zezé Motta. 2.Teatro. 3.Cinema. 4.Televisão. 5.Música 6.Filmografia 7.Arte. 8.Cultura. 9.Artes Cênicas. 10.Biografia. 11.Discografia. 24º Festival de Cinema de Vitória. I. Bastos, Paulo Gois. (Editor).

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Caderno do Festival de Cinema de Vitória - Zezé Motta  

Caderno do Festival de Cinema de Vitória - Homenageada Nacional - publicação que chega à sua 17ª edição e apresenta o perfil da atriz e cant...

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