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Da mesma forma que o amor tem a força de rejuvenescer e transformar o cotidiano num mágico cenário, a doença, ou a suspeita dela, tem o efeito de tirar o chão, transformando as alegrias em medo e insegurança. Nesse momento, é preciso acreditar na força da vida que parece esvair-se de repente. É quando o médico - com seu mítico poder de cura - passa a ter fundamental papel na vida de seus pacientes. O “Doutor” de branco passa a ocupar um lugar mitológico, mágico, nunca antes perdido, mesmo ante um mundo altamente tecnológico que mantém todos distantes. Cadeiras afastadas, numa sociedade cercada pela pressa e ausência de relações pessoais quase não há mais tempo para o convívio humano, menos ainda para o tão importante e mítico convívio entre o médico e o paciente. O acolhimento, o humanismo, o cuidado com o outro que sofre parecem coisas ultrapassadas.

Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, o homem não mudou. Continua como antes diante da doença, necessitando antes de tudo confiar em quem o trata. Essa confiança que o faz entregar-se sem reservas só pode ser confrontada com competência e dedicação. O médico não pode permitir que as máquinas o substituam. Não pode limitar o tempo da consulta, refugiar-se na solicitação de exames e encurtar a anamnese como se esta pudesse ser substituída por imagens. Não pode permitir o deslocamento do responsável pelo diagnóstico, que será sempre o médico, auxiliado pelos exames. Que a tecnologia não substitua o raciocínio clínico, que a eficiência não se contraponha ao afeto, que a máquina não substitua o homem e que, principalmente, o amor não morra em seu coração. É sempre bom lembrar aos jovens a frase de Madre Tereza de Calcutá: “é preciso ter fé, pois sem fé não existe o amor, sem o amor não existe a entrega de si, e quem não for capaz de fazer a entrega de si não está preparado para tratar dos que sofrem”. Adib D. Jatene ORGANIZADORES: Álvaro Jorge Madeiro Leite João Macêdo Coelho Filho Saberes Editora Av. Santa Isabel, 260 - B. Geraldo Campinas, SP - Brasil www.sabereseditora.com.br saberes@sabereseditora.com.br

ISBN978-85-62844-06-5

9 788562 844065

“Você pode me ouvir, Doutor?” é uma obra sensível, amorosa, profunda, que pretende lembrar ao médico que a capacidade de curar pode ter início na capacidade de ouvir. Rubem Alves diz que a gente ama quem ouve bonito e que “todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir”. Esta obra é um convite delicado para médicos e demais profissionais da saúde, escrito por outros profissionais que viveram a experiência de que a cura começa na capacidade de ouvir e na disponibilidade interior de ser o intérprete das necessidades de quem está numa cadeira à sua frente. Esta obra propõe que se aproximem as cadeiras.








Você pode me ouvir, Doutor? Cartas para quem escolheu ser médico


Copyright © by Álvaro Jorge Madeiro Leite e João Macêdo Coelho Filho Direito desta edição Saberes Editora - 2010

Coordenação editorial Lenir Santos Projeto gráfico, capa e editoração Valéria Ashkar Ferreira Ilustração da capa Yasmin Morrison Revisão Viviane Veras

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELO Sistemas de Bibliotecas da UNICAMP / Diretoria de Tratamento da Informação Bibliotecário: Helena Joana Flipsen - CRB-8ª / 5283

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Você pode me ouvir Doutor? : cartas para quem escolheu ser médico / Adriana Marcondes Machado... [et al.] ; organizadores: Álvaro Jorge Madeiro Leite e João Macêdo Coelho Filho. -- Campinas, SP : Saberes Editora, 2010. ISBN 978-85-62844-06-5 1. ���������������������������������������������� Medicina. 2. Psicologia. 3. Saúde pública. 4. Qualidade ���������������������� de vida. I. Machado, Adriana Marcondes. II. Leite, Álvaro Jorge Madeiro. III. Coelho Filho, João Macêdo. IV. Título. CDD - 610 - 150 - 614 - 615.5 Índices para Catálogo Sistemático 1. Medicina 2. Psicologia 3. Saúde pública 4. Qualidade de vida

610 150 614 615.5

Av. Santa Isabel, 260 B.Geraldo - Campinas, SP - Brasil CEP 13084-012 Fone +55 19 3288.0013 saberes@sabereseditora.com.br www.sabereseditora.com.br

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistema eletrônico, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros meios quaisquer.


Você pode me ouvir, Doutor? Cartas para quem escolheu ser médico

ORGANIZADORES: Álvaro Jorge Madeiro Leite João Macêdo Coelho Filho


SOBRE OS AUTORES

Adriana Marcondes Machado

Professora do Instituto e Psicologia da Universidade de São Paulo e membro do Serviço de Psicologia Escolar do IPUSP. Mestre e Doutora em Psicologia Social pela USP.

Álvaro Jorge Madeiro Leite

Professor adjunto de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Mestre em Epidemiologia Clínica e Doutor em Medicina (Pediatria) pela Universidade Federal de São Paulo.

Ana Cecília Silveira Lins Sucupira

Médica assistente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Mestre em Medicina (Medicina Preventiva) pela Universidade de São Paulo. Doutora em Medicina (Pediatria) pela Universidade de São Paulo.

Antônio José Ledo Alves da Cunha

Professor titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em Pediatria/UFRJ. Fellowship em Epidemiologia Clinica pela University of North Carolina. Mestre em Saúde Pública e Doutor em Epidemiologia pela University of North Carolina. Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.

Antonio Ruffino Netto

Professor titular de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. ����������������������������������������������������������� Mestre em Science In Epidemiology pela Harvard University. Doutor em Saúde na Comunidade pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e Pós-doutorado pela Harvard University.


Você pode me ouvir, Doutor?

Cristina Loyola

Professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pós-doutorado pela Universidade de Toronto, Canadá.

Esther Pillar Grossi

Doutora em Psicologia da Inteligência. Coordenadora de Pesquisa do Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação (GEEMPA).

Francisco J. Mercado-Martínez

Médico pela Universidad Guadalajara. Mestre pela Universidad Metropolitana e Doutor em Ciencias Sociales pelo Colegio Michoacan.

Gilberto Bueno Fischer

Professor titular de Pediatria da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre. Doutor em Medicina (Pneumologia) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Glória Diógenes

Professora doutora do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará. Pesquisadora, escritora e Secretária de Direitos Humanos da Prefeitura Municipal de Fortaleza.

João Macêdo Coelho Filho

Professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Mestre em Epidemiologia pela Universidade Federal de São Paulo. Visiting Fellowship em Geriatria pela Universidade de Oxford, Inglaterra e Doutor em Farmacologia pela Universidade Federal do Ceará.

José Castello

Jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.

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SOBRE OS AUTORES

José Milton de Castro Lima

Professor do Departamento de Medicina Clínica da Universidade Federal do Ceará. Mestre e Doutor em Medicina, área de Gastroenterologia, pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP.

Júlio César Penaforte

Médico Clínico. Mestre em Imunologia pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, Universidade de Londres, Inglaterra. Diretor Presidente do Instituto Innovare.

Manoel de Sousa Veras Filho

Médico com Especialização em Pediatria e Dermatologia.

Marcelo Coelho

Mestre em Sociologia pela FFLCH-USP e membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo.

Mardonio Coelho

Psicanalista. Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR.

Maria Lúcia Magalhães Bosi

Graduada em Nutrição e em Psicologia. Mestre em Ciências Sociais e Doutora em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz. Professora associada da Faculdade de Medicina da UFC. Pós-doutorado na University of Toronto.

Maurício L. Barreto

Médico (UFBA), Mestre em Saúde Comunitária (UFBA) e Ph.D. em Epidemiologia (Universidade de Londres). Professor titular do Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA), Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e Editor-chefe do Journal of Epidemiology and Community Health.

Nadja Soares de Pinho Pessoa

Professora de Letras, com especialização em tradução de alemão e em Informática na Educação. Coordena a Comissão de Políticas Públicas Municipais para atenção às Pessoas com Deficiência – COMPEDEF – da Prefeitura Municipal de Fortaleza.

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Você pode me ouvir, Doutor?

Peregrina Capelo Cavalcante

Professora doutora e pesquisadora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará - UFC. Coordenadora do Laboratório de Antropologia e Imagem da UFC. Mestre e Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará - UFC.

Sílvia Mamede Studart Soares

Médica. Mestre em Gestão de Sistemas de Saúde pelo Istituto Superiore di Sanitá da Itália. Doutora em Educação Médica pela Erasmus University Rotterdam. Pesquisadora da Faculty of Social Sciences, Erasmus University Rotterdam, Holanda.

Sylvio Gadelha

Professor do Departamento de Fundamentos da Educação da FACED-UFC e do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará. Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, e Doutor em Educação pela Universidade Federal do Ceará.

Valton de Miranda Leitão

Médico psiquiatra e psicanalista; ensaísta político e escritor.

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SUMÁRIO PREFÁCIO. ................................................................................................................................................................................... 15 APRESENTAÇÃO....................................................................................................................................................................... 19 MEDICINA: HUMANA? Maria Lúcia Magalhães Bosi..............................................................................................27 CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO Glória Diógenes..................................................................................................................39 SER MÉDICO: AS DIMENSÕES DO CONTENTAMENTO João Macêdo Coelho Filho.............................. 55 OPORTUNIDADE DE LUTA Adriana Marcondes Machado. ................................................................................ 69 MEDICINA: DESEJO PROFUNDO? Álvaro Jorge Madeiro Leite....................................................................... 83 CARTA A RODANO Valton de Miranda Leitão........................................................................................................... 99 O VALOR EM SI DAS COISAS Sílvia Mamede Studart Soares. ........................................................................113 A DIFÍCIL LIÇÃO DA SIMPLICIDADE Manoel de Sousa Veras Filho........................................................... 127 ESTAMOS ADEQUADAMENTE VIVOS? Antônio José Ledo Alves da Cunha............................................. 135 MEDICINA: OS VÁRIOS SENSÍVEIS MUNDOS Júlio César Penaforte. ...................................................... 143 OS BELOS E DOCES SONHOS DA SUA JUVENTUDE Maurício L. Barreto............................................. 153 MEDICINA: ALÉM DA TÉCNICA Gilberto Bueno Fischer.................................................................................. 163 AOS PACIENTES, QUE NOS PERDOEM... Ana Cecília Silveira Lins Sucupira....................................... 173 SENSIBILIDADE: SERIA PEDIR DEMAIS? Marcelo Coelho.............................................................................191 CHAMO-TE A PENSAR SOBRE A VIDA Peregrina Capelo Cavalcante. ...................................................... 197 LITERATURA E SENSIBILIDADE José Castello.....................................................................................................207 MEDICINA E BIOPOLÍTICA Sylvio Gadelha........................................................................................................... 213 TRAJETÓRIAS (IN) SENSÍVEIS Nadja Soares de Pinho Pessoa. ...................................................................235 POR UMA MEDICINA INQUIETA Cristina Loyola. ..............................................................................................249 MEDICINA: DESAFIOS, INCANSABILIDADE E FORÇAS TELÚRICAS José Milton de Castro Lima................................................................................................................................................ 261 O VALOR MAIOR DA MEDICINA Francisco J. Mercado-Martínez. ............................................................... 273 O FRUTO APREENDIDO DA MEDICINA Antonio Ruffino Netto.................................................................. 291 TODOS PODEMOS APRENDER Esther Pillar Grossi..........................................................................................299 A CIÊNCIA E O APAGAMENTO DO SUJEITO Mardonio Coelho. ..................................................................307 13


PREFÁCIO

Qualquer pessoa, independente de condição social, econômico-financeira, de raça ou de cor, quando confrontada com a doença se torna um indivíduo aflito, angustiado e com medo. Costumo dizer que o oposto do medo não é a coragem. O oposto do medo é a fé. É preciso acreditar em quem o trata. Para tanto, deve-se estabelecer entre o doente e o médico uma relação de confiança, que se conquista já na primeira consulta pela forma como ele é atendido, pelo acolhimento de suas queixas, pelo respeito às suas aflições, o que exige uma conversação capaz de conquistar essa confiança, fundamental não para o médico, mas para o paciente. O médico existe para ajudar pessoas que sofrem a se sentirem melhor. Como ingressei na Faculdade de Medicina da USP em 1948, estou há mais de 60 anos vivendo e participando das mudanças que ocorreram não só na medicina, mas em todas as áreas do conhecimento no período posterior à Grande Guerra de 1939 a 1945. Vivi a introdução dos antibióticos, a criação dos bancos de sangue, a introdução da cirurgia cardíaca, a descrição da


Você pode me ouvir, Doutor? ­estrutura em hélice do DNA, a reprodução in vitro que gerou o primeiro bebê de proveta, a transição da biologia celular para a biologia molecular que trouxe a engenharia genética, entre tantos outros avanços. No entanto, o grande impacto veio com o lançamento do Sputnik, em 1957, e com a corrida espacial subsequente. Foi a neces­sidade de controlar os sinais vitais do homem no espaço que gerou a monitoração dos pacientes, as unidades coronárias e as unidades de terapia intensiva, bem como uma explosão da pesquisa farmacológica e a elucidação dos mecanismos imunológicos, que desembocou no transplante de órgãos. Ao lado do desenvolvimento de especialidades, com ampliação nunca imaginada na possibilidade terapêutica, uma poderosa indústria de equipamentos de diagnóstico foi desenvolvida. A quem possuía apenas o aparelho de raios-X, como equipamento de diagnóstico por imagem, agregaramse o ultrassom, a tomografia computadorizada, a ressonância nuclear magnética, a cintilografia, o PET CT e grande número de testes de laboratório que passaram a ser ferramentas, por muitos consideradas indispensáveis. Acontece que, apesar dos avanços científicos e tecnológicos, o homem não mudou. Continua como antes, diante da doença, necessitando antes de tudo confiar em quem o trata. Essa confiança, que o faz entregar-se sem reservas, só pode ser confrontada com competência e dedicação. O médico não pode permitir que as máquinas o substi­ tuam. Não pode limitar o tempo da consulta, refugiar-se na solicitação de exames e encurtar a anamnese como se esta pudesse ser substituída por imagens. Não pode permitir o deslocamento

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PREFÁCIO do responsável pelo diagnóstico, que será sempre o médico, auxi­ liado pelos exames. Ao ler este livro que me foi apresentado pela Saberes ­Editora, através da Dra. Lenir ­ Santos ao me convidar a prefaciá-lo, vi-me diante de 24 textos, cada qual tratando do assunto de uma forma peculiar, mas todos refletindo vivência e reflexão, que certamente serão de muita importância, especialmente em uma época na qual a aceleração da vida nos deixa pouco tempo para meditação. E merecendo o destaque de que todos os textos são de leitura agradável, o que certamente irá contribuir para consolidar conceitos e demonstrar que medicina é profissão diferente, porque não trata das coisas que as pessoas têm, mas trata das pes­soas e do que elas têm de mais sagrado que é a sua própria vida. É sempre bom lembrar aos jovens a frase de Madre ­Tereza de Calcutá, que diz: é preciso ter fé, pois sem fé não existe o amor, sem o amor não existe a entrega de si e, quem não for capaz de fazer a entrega de si, não está preparado para tratar dos que sofrem. Em um momento em que por todo o mundo as pessoas se movem por interesses, e se esquecem de princípios fundamentais para o convívio social saudável, é confortadora a existência de livro como este, que estimula o médico jovem a refletir e a descobrir que ele tem papel fundamental no esforço pela melhoria da sociedade. Que a tecnologia não substitua o raciocínio clínico, que a eficiência não se contraponha ao afeto, que a máquina não substitua o homem e que, principalmente, o amor não morra em seu coração.

Adib D. Jatene

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APRESENTAÇÃO

A capacidade de suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem se refugiar na rigidez anda de mãos dadas com a capacidade de aceitar a felicidade e dar amor. Wilhelm Reich

Há algo de errado com uma das mais antigas profissões da humanidade – certamente, não só com essa profissão, mas aqui é sobre ela que empreendemos algum esforço para ver o que não pode deixar de ser visto. De uma profissão destinada a amparar dissabores da condição humana a uma profissão completamente envolta nos complexos mecanismos de controle e de reprodução social, chegamos a inúmeros paradoxos. A insatisfação reconhecidamente atinge a todos: pacientes e familiares, médicos, instituições públicas e privadas, sociedade. Paradoxalmente, sobram candidatos aos milhares querendo uma chance nesse campo profissional, seduzidos que estão por suas várias dimensões, incluindo a simbólica.


Você pode me ouvir, Doutor? Medicina, que profissão é essa? Muito já se estudou para tentar compreender sua natureza, seus agentes e suas articulações com a história e o progresso das ciências. Em um mundo de constantes mudanças, não é de se estranhar o descompasso no contrato social de determinadas profissões. A medicina e seus médicos parecem não conseguir escapar dessa realidade. Vários aspectos dessa crise são imediatamente perceptíveis, mas uma impressão difusa nos aponta uma dissonância: os que vivem no relacionamento direto com as instituições e os pacientes refletem cada vez menos sobre os paradoxos conceituais e práticos da profissão. Na escola médica, a fragmentação das disciplinas e um corpo docente cioso de seus saberes especializados deixam pouca margem para inovações pedagógicas que alterem o sentido da formação e contribuam para o desenvolvimento atualizado do profissionalismo médico[1]. Nas instituições de saúde (hospitais, ambulatórios, prontos-socorros, unidades de cuidados intensivos, serviços especializados etc.), o modo de organização do trabalho médico pouco tem contribuído para aumentar a capacidade dos médicos de discernir entre os impasses estruturais do trabalho e as bases referenciais da profissão. Quase sempre na defensiva, os médicos sentem-se desorientados para revigorar as forças que poderiam reformular sua presença na sociedade. Os avanços oriundos do campo técnico-científico exercem uma sedução sem limites. Novos aparelhos diagnósticos, novos exames de laboratórios, novos medicamentos e técnicas cirúrgicas sofisticadas são percebidos como panacéias inquestionáveis e assimilados sem nenhuma criticidade. É escassa a capacidade de avaliar a qualidade das publicações científicas, que crescem

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APRESENTAÇÃO exponencialmente. Num cenário com tais apelos, as habilidades para colher cuidadosamente uma história clínica – integrando nossa estrutura de referência (a biomedicina) e as referências do paciente (a experiência de sofrimento), bem como uma escuta e exame clínico primorosos – são apelos menores, ainda que suas consequências sejam visíveis. Contribuições oriundas das ciências sociais e humanas, apoiadas em sólidos referenciais teóricos, não alcançam amplamente os médicos atormentados por cotidianos exaustivos e, na maioria das vezes, distantes desses referenciais. Assim, a prática clínica aparece distorcida em seu potencial humanizador (relacionamento interpessoal permeado de solidariedade) e as dificuldades tidas como intransponíveis assumem o caráter de “normalidade” na vida social de nossos tempos. Médicos recém-formados encaminham-se para um cotidiano repetitivo, eventualmente frustrante, perdendo muitas vezes as bases do profissionalismo. Isolados em sua angústia prática (sobrecarga de trabalho e projetos institucionais precários), assistem ao esgotamento de toda sorte de recursos adaptativos e emocionais e sofrem com isso. Logo, comportamentos que deveriam guiar-se pelo profissionalismo assumem feição negativa. A alienação, seguida da despersonalização, é um dos desenlaces mais trágicos. Fragiliza-se a potência necessária para enfrentar adversidades com altivez. Tudo isso no âmbito de uma tradição que considera a medicina “uma atividade humana especial”, a qual “não pode ser exercida adequadamente sem as virtudes da humildade, honestidade, integridade intelectual, compaixão e contenção de uma ambição excessiva. (…), [pois os médicos] (…) pertencem a uma comunidade moral que se dedica a algo mais

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Você pode me ouvir, Doutor? que seus próprios interesses (…); somente ao cuidar de nossos pacientes e ao defendê-lo, a integridade de nossa profissão será afirmada; só assim iremos honrar o nosso contrato de confiança com eles”[2]. As raízes da condição contemporânea da medicina não são específicas da profissão. Provêm em grande parte do próprio balanço histórico do curso da humanidade que podemos fazer em pleno século XXI. A ideia de que a plenitude do homem e a felicidade viriam como consequência direta do desenvolvimento científico e tecnológico, estabelecido pelo processo civilizatório nos últimos três séculos, parece não ter se efetivado. Estamos pautados pelo enfoque do que é objetivo, mensurável, materializado ou revelado seja por um indicador, uma película, imagem, reação química ou por um gráfico qualquer. Os projetos humanos são delineados em função da apropriação de recursos pragmáticos, por meio dos quais os profissionais vislumbram suas possibilidades de sucesso e realização. Pouca margem surge para dimensões intangíveis, não captáveis pela pressa dos olhares e frieza das medidas dos aparelhos e métodos. Dimensões, bom lembrar, que são nucleares para a própria e insubstituível essência humana. Aperfeiçoamos nossa capacidade de registro dos eventos biológicos, mas minimizamos a percepção dos valores, sentimentos, temores e experiências dos pacientes. Por outro lado, há um descompasso entre a complexidade cada vez maior da medicina e a atenção dada pela sociedade no sentido de assegurar as condições efetivas para a sua boa prática. Em um país estratificado, com a saúde como produto de consumo, o que é público é de pouco uso da elite que governa, estando assim sujeito a uma

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APRESENTAÇÃO menor escala de investimento e preocupação. Conseguimos nos apropriar das forças naturais e biológicas em nome de nosso bemestar, da cura de doenças, do controle de condições implacáveis e de uma maior longevidade. No entanto, não temos sido capazes de estender esse feito para a maioria, nem tampouco privilegiar setores como o da saúde, que mais intimamente estariam ligados à preservação e à dignificação da vida. Assim, sofrimento e compaixão são sentimentos relativizados em função do status social. Quantos ainda se sensibilizam com a notícia na mídia de pessoas que perdem a vida por falta de leitos em unidades de terapia intensiva do sistema público de saúde? A ideia deste livro surgiu nesse cenário de tensões, paradoxos e desafios enfrentados pela medicina. Reuniu-se um conjunto de médicos atuantes, bem como profissionais das mais diversas áreas, incluindo sociólogos, antropólogos, filósofos, escritores, jornalistas, psicanalistas e educadores, aos quais foi solicitado redigir uma carta supostamente dirigida a um jovem médico, e que contivesse aportes das experiências e reflexões acumuladas por seus olhares atentos às coisas do mundo e, em especial, à cena da prática médica contemporânea. A pretensão foi a de semear reflexões e diálogos sobre a condição de ser ­médico, entendendo como urgente reaproximar a medicina de sua dimensão humana, o que é não apenas um imperativo de solidariedade, mas algo também crucial para a satisfação dos médicos e dos pacientes, para a melhoria da condição de saúde das pessoas e da qualidade dos serviços de saúde, conforme demonstrado em vários estudos[3]. O título “Você pode me ouvir, Doutor?” nos remete à uma função sensitiva escassa no mundo contemporâneo: a es-

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Você pode me ouvir, Doutor? cuta. ­ Saber escutar, uma das habilidades incorporadas ao pensamento complexo[4], é acolher a manifestação e sentimento do outro, dando legitimidade ética ao olhar atento que se expressa por intermédio da escuta. Rilke faz alusão à uma outra habilidade, que é saber ver, assinalando: “Estou aprendendo a ver. Não sei o que provoca isso, tudo penetra mais fundo em mim, e não para no lugar em que costumava terminar antes. Talvez um interior que ignorava”[5]. Cabe notar que “saber ver é antes de mais nada saber ver os nossos semelhantes”[4], algo imprescindível ao médico. Quem sabe este livro possa também ser um recurso de educação para a sensibilidade, contribuindo, assim, para ­transformar as circunstâncias que dificultam o exercício da medicina como um dos mais belos empreendimentos humanos.

Álvaro Jorge Madeiro Leite

João Macêdo Coelho Filho

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“Mas, se a sua missão for mesmo ser médico (perceba que não falei ‘fazer medicina’), jamais abandone a dignidade exigida por essa profissão. A humanidade que lhe é inerente, sem o que a Medicina perde a sua grandeza e se nivela à tecnologia, já que exclui essa humanidade constitutiva.”


MEDICINA: HUMANA? Maria Lúcia Magalhães Bosi

Há tempos vinha querendo lhe escrever, mas, confesso: não o sabia; um convite revelou esse desejo... Você pode me ouvir, Doutor? Essa sugestiva e aparentemente singela indagação marca, na verdade, experiências nas quais esta carta se origina. Acho a força dessa pergunta extraordinária, uma espécie de apelo, um ‘grito parado no ar’ para todos nós que atuamos na saúde, em especial, para os médicos. E foi no âmbito de um projeto, na universidade pública em que sou professora, e em que alunos de Medicina cobriam as paredes e o chão com essa indagação que emergiu o convite para um desafio e o imediato desejo de enfrentá-lo: escrever uma carta a um jovem médico. Relembrando meu sentimento ante a pergunta espalhada por todos os recintos do curso médico dessa universidade, incomodava-me pensar que, boa parte das vezes, a resposta dos médicos (ainda que não pronunciada) seria: “Não, não posso. Meu


Você pode me ouvir, Doutor? tempo é curto. Não posso e nem sei se quero ouvir você...” E então, a pergunta que me ocorre é a seguinte: Então, como falar? Por isso, antes de fazê-lo, pergunto: Você pode me ouvir? Ou melhor: você ainda pode me ouvir? O que em mim ainda pode ser ouvido em você? Enquanto lhe faço essas perguntas, recordo que nascemos abertos a essa experiência que nos permite uma vinculação humana ao mundo, mas, com o tempo, muitas vezes, perdemos essa potencialidade. Contudo, ao tempo em que faço estas reflexões temerosas, dou-me conta de que escrevo a um jovem médico e, por isso, vou acreditar que você ainda pode me ouvir... Já que este é o nosso primeiro contato, devo me apresentar: venho exercendo o cargo de professora-pesquisadora há cerca de 30 anos, a maior parte deles junto a escolas médicas da rede pública brasileira. Graduei-me em uma das assim chamadas profissões de saúde e, desde então, venho me aprofundando no domínio das Ciências Humanas e Sociais em Saúde, em um itinerário que transversaliza minhas formações como Mestre, Doutora e pós-Doutora, além de outra graduação que fiz pelo caminho, desta feita nas humanidades. Um percurso acadêmico pouco convencional e pleno de desafios; mas, também, de realizações. Se apresento essas credenciais acadêmicas não é para falar dessa perspectiva, embora reconheça que tais vivências atravessarão, a todo instante, esta nossa conversa. Ao contrário, é justamente para delas me afastar, com a liberdade que a emoção da escrita de uma carta exige, sem o formalismo dos textos científicos que tanto espaço ocupam (e suprimem) no meu cotidiano. Assim, já tendo me apresentado e acreditando que você ainda pode me ouvir, prossigo com fé em poder compartilhar um pou-

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MEDICINA: HUMANA? co do meu eu, da minha vida, do propósito desta carta que amorosamente lhe escrevo, mesmo ciente da exiguidade do espaço ante a pretensão da tarefa. Ouvir e falar devem ser atos éticos, conjugando respeito e abertura, confiança e honestidade. Por isso, logo de início, preciso confessar que esta não é a minha primeira tentativa: antes desta, já lhe havia escrito outra carta que se extraviou e, com ela, um pouco de mim. Deixei-a, ainda manuscrita, dentro de algum avião, enquanto me deslocava entre cidades brasileiras, e o projeto findara ali. Não me dispunha a tentar uma nova versão. Ocorre, caro médico, que o convite para escrevê-la tinha um peso existencial maior do que eu supunha e havia me tocado profundamente, como um chamado. Na verdade, senti-me convocada naquele nível profundo a partir do qual não mais é possível recuar. Não bastasse o convite ter vindo de um amigo, médico admirável, que vem buscando, para além do ensino rigoroso de um fazer técnico, construir relações poéticas na escola médica e reconfigurar olhares, tratava-se também de um convite incomum no ambiente acadêmico e, em especial, na escola médica. Assim, após perder a carta e dar a minha participação por encerrada, considerando a retomada impossível, recomecei o caminho algum tempo depois, com a mesma fé e desejo... Bem, aqui estou. E esta é a primeira coisa sobre a qual preciso lhe falar nesta carta: há caminhos que não se pode abandonar, por maior que seja o cansaço, o esforço exigido ou o desânimo. A tarefa nos pertence e isso se sente na alma. Tem a ver com o que nos move e, acredite: nunca se é convocado ao acaso, ainda que possa parecê-lo à primeira vista. Assim, deixo para pensar: O que move você? Tem a ver com a Medicina... ou sua história há

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Você pode me ouvir, Doutor? que se desdobrar em outras arenas? Se for assim, o que você está esperando ou temendo? Aproveite a sua juventude, e vá atrás do seu sonho... Mas, se a sua missão for mesmo ser médico (perceba que não falei ‘fazer medicina’), jamais abandone a dignidade exigida por essa profissão. A humanidade que lhe é inerente, sem o que a Medicina perde a sua grandeza e se nivela à tecnologia, já que exclui essa humanidade constitutiva. Aquele demasiado humano em que Medicina e desamparo do Outro se encontram, sendo precisamente esse desamparo o que lhe dá seu pleno sentido, como já disse Brecht, ao assinalar ser o alívio da miséria da existência humana o que confere sentido a toda ciência, aqui entendida como um saber que goza de legitimidade; tanto mais perigosamente quanto mais legitimado socialmente. Para tanto, há que se permitir se emocionar. Enquanto escrevo, permito-me deixar que a emoção me inunde e imagino-o igualmente emocionado... até para poder prosseguir. E esta vivência me traz outra reflexão que desejo compartilhar: por que será que evitamos a todo custo certas emoções? Por que tememos as emoções, sobretudo as do amor? Já reparou como a hostilidade, a agressividade e a brutalidade fluem facilmente e nem sequer as tememos ou as censuramos na maioria das vezes? Talvez a delicadeza seja, nos tempos ­atuais, a força mais revolucionária do nosso cotidiano. No entanto é vergonhoso chorar... e nos defendemos a todo custo das nossas emoções. Na medicina isso me parece dramático, pois rompe a circularidade do cuidado que impõe deixar vir a si o que se deve permitir no outro. E, veja bem, qual o risco de sentir? Por que

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MEDICINA: HUMANA? tanto medo ou dificuldade de se envolver, de se deixar entrelaçar? Como operar essa ‘assepsia emocional’ em uma prática marcada pela relação integral com o outro, o que implica tocar, olhar, examinar... ouvir, em uma complexa interação com o corpo de um outro, não apenas corpo vivo mas corpo vivido, a ser decifrado? Se me coubesse operar alguma normatização, imporia ao longo de todo o curso médico perguntas como essas, mescladas à aferição do saber técnico. Já que o que digo pode ficar entre nós, confesso-lhe, também, que eu deslocaria o curso da área da saúde para o Centro de Humanidades, ou quem sabe, Letras e Artes? Isso surpre­ende você? Veja por este ângulo: Não lhe parece que a medicina, ainda que tome as ciências biológicas como fundamento, é uma ciência Humana? Por que inserir a escola médica no rol dos cursos voltados ao ensino das disciplinas físico-naturais ou, mais especificamente, bio-lógicas? Isso sim deveria causar desconforto; mas, por ser familiar, não mais estranhamos e nem sequer questionamos, como sucede ocorrer com o que nos é próximo ou familiar: naturaliza-se como se já tivesse nascido assim, sem qualquer possibilidade de mudança. Mas, como estamos a sós, permita-se considerar, apenas por alguns instantes, essa idéia insensata; nem que seja para exercitar a capacidade do espanto... imagine eu e você, produtos e produtores, em um centro formador em Humanidades Médicas (por exemplo), cursando Medicina Humana (desculpe, mas sinto que a adjetivação ainda se faz necessária), decretando-nos o direito de chorar e de nos emocionar com o vivido nos corredores frios das enfermarias e UTIs, ainda que com a cautela de publi-

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Você pode me ouvir, Doutor? cizar essa emoção de forma adequada aos contextos e atores. Já pensou poder falar dos afetos, receios e inseguranças, de poesia e arte e, com base nisso, produzir saúde em nós mesmos e, então, naqueles que nos procuram? Não deveria ser essa a finalidade primordial de um curso médico? Mas institucionalizou-se – e não vou recuperar aqui a história – que boa ciência tem a ver com neutralidade. Mito moderno que Japiassu de forma tão brilhante denuncia, com base no qual se considera mérito o distanciamento, confundindo contenção dos afetos com profissionalismo. Princípios tão bem assimilados na cultura médica, embora destituídos de base científica, mas que permitem que as instituições formadoras prossigam (pré)ocupadas em adestrar tecnicamente e, o que é mais grave, para a técnica da contenção – de si e do outro. Neste ponto, pergunto a você: Como ‘produzir’ saúde se auto-impondo adoecimento e desequilíbrio? Como bem formar para o cuidado lançando mão de processos pedagógicos e de socialização que geram enfermidades? Para cuidar é preciso antes cuidar de si, sem o que nenhum cuidado ou cura é possível. Certamente, ao longo da sua formação (ou mesmo antes, quando ainda disputava o ingresso na escola médica) você se deparou com essa cultura. Lá atrás, antes de você ganhar a chave da liberdade (ou da prisão) para aqui estar como um jovem médico. Depois veio o Diploma que acaba de receber e, ao contrário do que você possivelmente idealizava, nada está resolvido ou definido em termos existenciais, você sabe. Mais de 20 anos dentro de escolas médicas e ainda não me anestesiaram. Prossigo me dando o direito de me admirar diante do que vejo, ouço e, sobretudo, sinto. Tantas décadas de pesquisa

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MEDICINA: HUMANA? e vivências nesse espaço me apontam como preocupação o adoe­ cimento crescente dos cuidadores, pari passu com a tecnificação do que antes era também arte. E tudo parece ter início na alienação de si, que gera alienação do (e no) outro; adoecimento. Medicina é arte, intuição, ciência e, claro, técnica, dimensão inegavelmente essencial. Contudo, essa complexidade não deve ser reduzida apenas à última dimensão. Onde anda o artista, a criança, o criador em você? Ainda estão aí, na complexa integração com o ato técnico? Até que ponto você vem resistindo ou sucumbindo aos valores dominantes? Já pensou o quanto a carga de poder atribuída à profissão médica estreita a experiência da alegria no cotidiano profissional? Que poder é esse que submete quem o detém? É longa e, em muitos aspectos, bela, a história da corporação médica até chegar ao que hoje se reconhece como médico. Mas desconfio de que mais belo ainda fosse o cenário em que os distintos protagonistas da produção da saúde – profissionais ou não – pudessem cooperar com seus saberes, para além da hierarquia para-profissional que tensiona as relações na saúde, como tão bem demonstrado por Friedson, ao discorrer sobre a profissão médica. Qual a vantagem específica de avançar nos domínios de outras profissões ou corporações? Será, de fato, um ganho? Basta olharmos os indicadores concernentes à saúde dos médicos e estudantes de medicina... Será, de fato, honesto para com os demais profissionais? Competidores quando poderiam ser equipe? Não seria bem mais ético admitir que a despeito da extensa e profunda formação recebida no curso médico (refiro-me ao plano técnico) você não sabe tudo? Por que não admitir com toda humildade que o mé-

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Você pode me ouvir, Doutor? dico não pode (e, veja bem, não precisa) saber tudo e a existência de outros cuidadores, profissionais ou não, é prova inconteste disso? Profissionais, curandeiros, parteiras, líderes religiosos e tantos outros dedicados à produção do cuidado, pautam-se por saberes que, em boa parte dos casos, o médico não domina e, ainda assim, despreza (ou teme?). Reflita sobre isso: tais saberes e práticas, hoje menos-prezados, podem vir a ser muito úteis se porventura – e isso faz parte da vida, ainda que não se pense assim quando se é jovem – estivermos do outro lado, na condição de ‘paciente’, ou melhor, na condição de pessoa enferma. O desamparo e desespero diante da doença que nos desafia reconfiguram nossa fé na medicina oficial, produz novos modelos explicativos acerca da doença e nos faz retomar, quase sempre com maior força, a pergunta com que iniciei esta carta: Você pode me ouvir, doutor? Por vezes, só nesta condição é que temos a exata dimensão do lugar de cada um desses atores como cuidadores e educadores. E, também, o poder terapêutico da palavra e do afeto; da emoção na relação de cura. Alguns indagarão: mas como atingir tal propósito no curto espaço de uma consulta ou atendimento em que se desdobra a prática atual? Quanto a isso lhe digo: é fato que a materialidade da vida e a pragmática da assistência impõem limites. Confesso, contudo, que não me preocupa tanto o afeto que se interrompe ao final de 10 ou 15 minutos de atenção, na rede pública ou privada de saúde, deixando saudades... Muito mais me angustia a hora inteira que se arrasta sem haver sequer um gesto de escuta, um esboço de emoção, um abraço de olhares como diria Hycner. E todos esses anos me asseguram que nesses ca-

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MEDICINA: HUMANA? sos isso nunca ocorreria, mesmo que o atendimento tivesse o tempo da eternidade, porque as condições para o encontro não estão dadas. E o culpado não é o tempo. O que está em jogo não é da ordem temporal, embora com ela negocie: um aperto de mão, um afago na cabeça de uma criança com dor; o toque delicado em um exame; o cuidado na comunicação de um diagnóstico (que não seria por nós suportado se estivés­semos do outro lado), o respeito à privacidade do corpo-história do outro. Gestos que podem valer uma vida... a depender do que o enfermo dispõe para resistir. Instantes que podem mesmo definir o curso de uma enfermidade, no sentido da luta pela recuperação ou pela desistência. Sabemos o valor terapêutico da figura do médico e o poder que lhe é confiado. Às vezes, a última esperança estava no encontro com o médico e a oportunidade se perde, sem que se reconheça o que estava em jogo. E, repito: a gente só avalia quando precisa... ser médico não confere imunidade existencial; não há vacina para a imponderabilidade da vida. Podemos, em uma fração de segundo, mudar de lado. Mas, se digo tudo isso, não me entenda como pessimista. Felizmente, ainda não se perderam os arquétipos dessa profissão – médicos que há muito se transferiram para as humanidades, adje­tivando a Medicina como ciência humana, porque não há limites quando o que se quer é ser livre para recriar o que se apresenta como já dado. Cursaram, assim, Medicina Humana, a despeito de todas as censuras, contenções e condicionantes. No intervalo de tempo em que lhe escrevo esta carta, sei que incontáveis médicos estão se empenhando na luta pela saúde e pela vida, pela dignidade humana, não raro nas condições mais

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Você pode me ouvir, Doutor? adversas, como uma legião de heróis. Emociona-me imaginar que por detrás de máscaras cirúrgicas desenham-se sorrisos de alegria; na frieza de centros cirúrgicos, muitos deles precários e mal equipados, olhares se abraçam festejando a vida que se refaz ou o nascimento improvável de uma criança. Imagens que confirmam a beleza da técnica quando revestida de arte e humanidade. Tive a sorte de encontrar alguns deles pelo caminho e não sei o quanto de mim devo a esses encontros: o que teria sido dos partos que precisei viver, no ritmo e intensidade em que se deram, não fosse a generosidade de me concederem suas noites insones; as situações-limite vividas em tantas ocasiões, se alguns desses médicos não se interessassem genuinamente pelo meu drama e se dispusessem a me amparar até que a vida trouxesse a solução? Olhando o percurso, não tenho o direito de ser pessimista; tampouco de minimizar a beleza da Medicina Humana. Portanto, o que aqui lhe digo é em defesa dessa forma de ser médico. Desculpe se tomei o seu tempo; sei que a vida a todo instante nos chama, conspirando contra toda forma de contato e diá­logo profundos. Assim, a despeito do desejo de prosseguir, vou finalizando esta carta há tanto tempo latente, pedindo para ser escrita... Neste momento, dou-me conta do quanto me é difí­ cil concluí-la e me despedir de você. Há tanto ainda por ser dito; tanto que eu poderia dizer... Terei escolhido as palavras certas? Contudo, preciso ir e aceitar o limite que isso implica. Para fazê-lo, amparo-me no trecho de uma das cartas do poeta Rainer Rilke ao jovem poeta Klaus, datada de 17 de fevereiro de 1903, em que ele sabiamente reconhece que a maior parte dos

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MEDICINA: HUMANA? acontecimentos é inexprimível e ocorre em um espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Eis tudo o que, por ora, posso lhe dizer, jovem médico.

Maria Lúcia Bosi

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“Certamente, quem entra para uma consulta mira o médico como um oráculo, lugar de resposta e redenção.”


CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO Glória Diógenes

O Senhor não deve ficar sem um cumprimento meu quando o Natal se aproxima e, no meio da festa, sua solidão pesa mais do que nunca. Mas se perceber então que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Rilke. Carta ao jovem poeta, em 23/12/1903.

Meandros da solidão Francamente, fiquei imaginando que em 1903, mesmo em se tratando de um escritor consagrado como Rilke, o tempo devia ser mais generoso com os processos de criação e a liberação da energia a ser empenhada em atos de generosidade. Confesso,


Você pode me ouvir, Doutor? Rômulo, que pensei em deixar sua carta tomar o mesmo destino de algumas outras: uma leitura rasa e um providencial esquecimento. Foi então que evoquei uma passagem da minha história de vida que permanece nítida: a perplexidade de uma adolescente que desmaia sem razão e a aspereza do frio dialeto do discurso médico. Aos treze anos meu apelido era “Seca do quinze”, esquecia de comer e levava horas em devaneios. Obviamente, ao realizar um esforço físico de maior intensidade, a cabeça rodava, as mãos esfriavam, o coração batia acelerado, a vista escurecia e me ausentava por instantes de mim mesma. O mundo parecia estranho e o meu corpo mais ainda. Que tal um clínico geral? Guiada pela minha mãe fomos ao mais renomado nome dessa quase não especialidade médica. Para uma jovenzinha que acabara de ler O pequeno príncipe e percebera que o mundo quase todo “era invisível aos olhos”, falar sobre uma sensação permanente de mal-estar assumia um tom confessional e amorfo. Ele me ouvia e tentava, com uma ou outra pergunta, construir um diagnóstico, classificar os sintomas em um nome, uma doença, um dispositivo de sentido. Os esforços eram duplos, eu me lançava, já quase desesperadamente, a narrar meus males, e ele se esforçava, racionalmente, para identificar o meu mal. Foi então que veio o surpreendente diagnóstico que mudou, por muitos anos, os olhares sobre mim (inclusive o meu próprio) e produziu um discurso homogêneo e classificatório acerca dos meus recorrentes desvanecimentos: essa menina



Em homenagem ao Dr. Rômulo Coelho, que sabe dos limites e possibilidades da medicina, que escuta e fala, e sutilmente me encheu de coragem ao comentar: quando a gente não faz o que tanto quer, por guiar-se pelo medo, morre-se um pouco a cada dia.

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CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO tem apenas um problema nervoso, não é nada. Nada? Tudo que transbordava, como um choro às vezes excessivo, uma raiva desmedida do irmão chato, uma indignação em relação a uma ordem considerada arbitrária já estava desde sempre considerado: eram despropósitos da menina nervosa. Por muito tempo convivi com um medo quase costumeiro dessa coisa indescritível e escura que se escondia de mim sob o manto do que se denominava nervosa. Não sabia mais discernir entre uma doença que podia ser considerada alguma coisa real, factível para a medicina, e o nada, advindo de chiliques de uma adolescente. Passei mais algum tempo me esforçando para fazer acreditar que realmente não andava bem. Eis que uma evidência física salvou-me: os olhos amarelaram e, finalmente, a doença pôde ser identificada. Foi diagnosticada uma hepatite crônica, que me deixou durante dois meses acamada e praticamente ­isolada. Esse fato poderia ter me livrado do estigma de menina nervosa, porém, durante muito tempo, fui percebendo que essa marca tinha sido apreendida menos por todos da família e mais decididamente por mim mesma. Durante um tempo passei a imaginar que eu seria culpada por ter produzido uma hepatite que não existia. Quantas outras eu poderia ativar sem ao menos entender como e nem por quê? Evitava ser visitada por um mundo de sensações esquisitas que certamente invadem sem pedir licença todas as adolescências. Por isso precisei, de algum modo, ausentar-me de um mundo que me estranhava e que eu certamente estranhava mais ainda. Devorei quase todos os livros da biblioteca do Colégio Dorotéias, Rômulo, e fui me tornando escafandrista de um oceano pontilhado por personagens diversos,

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Você pode me ouvir, Doutor? mundos de toda parte com minha cara cravada no meio. Era esse o meu lugar e nele me reconhecia. E posso lhe dizer que encontrei muitas outras e outros que também tiveram suas rotas transmudadas por uma consulta, pela identificação de um diagnóstico e seguida prescrição de medicamentos. Também li sobre esses outros. Um dia, percorrendo um livro denominado A Louca da Casa, de Rosa Montero, detive o olhar sobre mim também: Creio que nunca havia sentido tanto medo em minha vida. Meus dentes batiam e os joelhos tremiam de tal modo que eu mal conseguia ficar em pé. Não entendia nada, não sabia o que me estava acontecendo, só podia pensar que tinha enlouquecido e isto aumentava o meu horror. E também seria incapaz de explicar o que me estava acontecendo: como, dizendo o quê, a quem, se os outros estavam tão longe, muito longe, do outro lado do túnel do meu olhar. Era uma situação que rompia todas as convenções expressivas, um pesadelo diurno e inefável. Eu, que sempre havia morado num ninho de palavras, estava presa no silêncio. Essa frase me trouxe de volta a sensação do vácuo que ficou anos a fio sendo repicado e suspenso a ressoar logo no pórtico de entrada da história da menina nervosa: eu me encontrava presa no silêncio. O silêncio instalado como cena primordial entre quem sofre e fala sobre o quase indizível da dor e de quem escuta, sujeito suposto da potência da cura e conhecedor dos remédios que finalmente viriam aliviar os males. Rômulo, você saberia me dizer quem decidiu denominar paciente alguém que sofre? Quem inventou essa solidão a dois? Olhe, saiba que vou evitar nesta carta aquilo de que já fui vítima: ficar citando autores e desfilando conceitos da sociologia com a pretensão de tornar mais largo e complexo o seu saber.

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CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO Quando convocar alguém para adentrar a nossa sala de espera tratar-se-á com certeza de um interlocutor que por alguma razão poderá desalinhar os fios desses silêncios. Se eu fosse médico, ficaria algumas vezes, como voyeur, a perscrutar as ante-salas. As conversas impacientes que ali emergem e trazem à tona os males compartilhados de cada um. E saiba, para seu dissabor, que muitas boas receitas, diagnoses e prescrições se dão nesse lugar vivo de interlocução. Penso – até mesmo porque eu fui uma das pessoas que viveram muito tempo numa faixa de existência outra – que as pessoas que se sentem doentes ou que realmente estão acometidas de algum mal vivem a sensação de quase habitarem outro plano de existência. O filósofo Edgard Morin, afora as tantas obras, publicou um livro muito pouco difundido denominado O X da questão, cujo subtítulo é: o sujeito à flor da pele. Esse livro foi escrito em um leito do hospital de Nova York, quando o autor foi acometido, nos seus quarenta anos, por uma doença súbita que o pôs em quarentena. Apreciemos a força desse relato: Tive crise de tristeza e momentos de pavor, quando pensava ser vítima de doença imperdoável. A angústia veio ou voltou com a melhora: descobri que o doce abrigo de minha letargia era um hospital, isto é, um amontoado de carne humana avariada; um velho e depois um rapaz muito jovem morreram no leito vizinho. Estar submetido ao organismo, condenado à solidão do organismo, parodiando Jean Paul Sartre, produz o paradoxo do “doente”: habitar um lugar fora da “faixa central” ou “faixa média” da vida, como diz Morin, e ser lançado à solidão. É por isso que decidi lhe escrever, não mobilizada pelas mesmas razões que levam Rilke a responder ao missivista Franz Xaver Kappus,

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Você pode me ouvir, Doutor? que lhe pede socorro num momento decisivo da vocação. Pretendo usar da sinceridade com você nessas linhas que se desenham entre nós, e escrevo como maneira de, ao cartografar nichos da Solidão dos moribundos, recorrer às consultas como lugares de encontro, de criação de vínculos e de produção de novos sentidos acerca de sintomas de dor, estranheza e privação. Escrevo porque ainda preciso de algum modo também me aliviar e voltar a ver por onde anda a menina nervosa que me habita e que por vezes esquecida é recolhida ao passado. Provavelmente, algo que possa lhe dizer, acerca de uma prática que poderíamos aqui denominar medicina da presença, poderia ser mais facilmente delineada através do uso corriqueiro dos sentidos. Nesta carta primeira, vou discorrer acerca dos atos de ver, falar/ouvir e tocar.

Ver de perto para ver mais longe Para onde você olha, caro Rômulo, quando adentra a porta do seu consultório mais um paciente? Certamente, quem entra para uma consulta mira o médico como um oráculo, lugar de resposta e redenção. Provavelmente, você espera que eu vá aqui reunir argumentos capazes de mobilizar o seu olhar mais atento para a realização de uma anamnese acurada em torno de indícios capazes de possibilitar um quadro preciso dos sintomas de queixa do paciente. Para onde olha você, mesmo que atentamente, quando foca o olhar? Provavelmente para a mesma esfera de atenção exclusiva do paciente: a doença. Creio que na minha condição de leiga – e posso arriscar dizer que a doença constitui, em muitas situações, uma totalidade extensiva à dimensão ima-

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CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO ginária do sujeito, faço aqui um parêntese, com o objetivo de lhe falar com mais vagar de como vejo a formação de um plano da instituição imaginária acerca da prática médica em contraponto ao campo da estrutura simbólica; que é aquela que forma, nomeia o mundo social e histórico, e produz um sentido compactuado entre seus membros. Ao contrário da dimensão simbólica, que é nomeada, compartilhada em nível da cultura, o imaginário é como um magma de criação, sem lugar, sem nome, projetando uma dimensão puramente instituinte. No simbolismo um representa o outro, há vínculo, há nexo. O imaginário se apresenta como uma instância inicial de desvinculação, de desengate, de um não lugar. Ora, o discurso do paciente em geral, que desconhece a “instituição” medicina, é puramente imaginário, centra-se em fragmentos, experiências, projeções, medos, fantasmas; localizando-se numa zona obscura. Devo ressaltar que em nenhum momento desconsidero a existência da doença em si, de outro modo afirmo que ela se ultrapassa, sendo povoada por múltiplas dimensões imaginárias. Ora, o imaginário é histórico, cultural e social, a diferença é que se apresenta como um conteúdo sem nome, sem lugar, sem ter ainda alcançado uma dimensão instituída. Não sei se você se lembra, Rômulo, mas a primeira carta de Rilke ao jovem poeta ressalta: O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado ­escrever?

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Você pode me ouvir, Doutor? Ocorre-me que tanto você – um jovem médico, antes mesmo e concomitante à ausculta dos sintomas – quanto aquele que adentra o seu consultório e constitui uma teia narrativa poderia olhar para dentro, fonte manancial da produção imaginária da doença. Nesse dentro habitam ingredientes da memória, das tradições da história e de pulsações do corpo social. Fora e dentro se movimentam e se interconectam. Olhar apenas para a doença e seus sintomas, e ver sem muito menos reparar, como diz ­Saramago no seu “Ensaio sobre a cegueira”, esmaece o sujeito e desconsidera o seu “real” discurso imaginário. Procurar em si mesmo, com a parceria atenta de um especialista, o percurso da produção dos sintomas, do processo de construção da doença, dos hábitos e valores que a permeiam e a sustentam é um exer­ cício que certamente produz autonomia, autoconhecimento e uma atitude profilática do próprio paciente. Olhar, também para dentro, certamente ameniza o sentimento de profunda fragilidade e solidão que assola e agonia aqueles que se dizem e se sentem doentes. Para isso, é preciso utilizar-se de uma linguagem para além do jargão médico-paciente, uma anamnese que transponha a mera informação e funde a narração, você concorda, Rômulo?

Falar, escutar, escutar-se Espero que guarde essa carta num lugar de poucas visitas. Você percebeu que decidi aqui me revelar, falar de coisas que ficam disfarçadas anos seguidos em recipientes da memória? É que tento me despir de qualquer pretensão relativa a uma exposição de conhecimentos, coerentes e meramente técnicos, você

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CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO me entende? Quero aqui exercitar uma fala que promova a abertura e que, se me afeta, possa também te afetar. Veja, Rômulo, em nenhum momento considero pres­ suposto que o encontro-consulta entre médico e paciente possa atingir uma dimensão intrinsecamente dialógica, reveladora e que seja capaz de produzir uma fina sintonia – nunca fui piegas. Ao contrário mesmo, cada um ali enseja, inicialmente, um monólogo permeado por saberes e crenças. No ato inaugural da consulta instaura-se um não-lugar e, consequentemente, um não-encontro. Esse não-lugar é o não-saber a que Platão sempre se refere como condição do pensamento. Falo assim da ignorância como pedra fundamental do conhecimento, como instância motriz da vontade de potência e possibilidade singular de diálogo. É da condição de uma dupla ignorância, médico e paciente, que o exercício da fala e da escuta estabelecido entre ambos ultrapassa as cortinas das línguas e das palavras. Como experiência própria, Rômulo, acredito que o exces­ sivo saber que alguns médicos expressam ao rapidamente fornecerem seus diagnósticos, sem as trocas, sem a tão esperada escuta, confirma a ignorância e a fragilidade que funda o paciente e o reproduz ad infinitum. Sai-se do consultório com uma ou mais receitas e a profunda sensação de que somos reféns de um organismo que teima em emitir sinais cujo decodificador é um outro que pouco nos revela. Por isso, os laboratórios projetam-se como todo-poderosos; são eles que, de modo silencioso, químico e eficaz, assumem o poder de erradicar a doença e capturar o sujeito. Você considera que estou sendo dramática? Talvez. Só nestas quase últimas linhas posso te confessar algo ainda mais

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Você pode me ouvir, Doutor? desproposital: eu, até hoje, quando me sinto doente, carrego um estranho temor dos médicos, caro Rômulo – por tudo isso aqui compactuado com você e por outras coisas mais que vou experimentar te dizer. É que a menina nervosa apreendeu na experiência inaugural com o seu clínico geral, e com outras que se seguiram, a desconhecer e temer o seu próprio corpo. Nos seus tantos anos de curso de medicina você já parou para pensar o que significa o corpo para a norma médica? Que lugar assume o organismo diante do sujeito que sofre e se queixa diante do médico?

Tocar e habitar o corpo Evoco a primeira pesquisa que empreendi como trabalho monográfico de final de curso, na UFC, em 1981. Era sobre as denominadas “parteiras cachimbeiras” e o impacto das novas técnicas obstétricas no meio rural. E recordo bem da perplexidade que experimentavam as parteiras diante da medicina moderna e da atitude assumida pelos “doutores” diante do corpo das parturientes. “Comigo a mulher é cobertinha. Só quem dá definição das partes dela é minha mão. Nas maternidades é tudo por conta do leléu”. Identifiquei que o corpo ainda assumia em suas falas uma conotação sagrada, pontuada de mistérios e velada por intimidades. Uma delas me confidenciou, acerca dos precursores das novas técnicas: eles trabalham por caneta, eu por milagre de Deus. Durante algum tempo, Rômulo, ministrei na Universidade Federal do Ceará uma disciplina denominada Antropologia do corpo. E percebi que o corpo tem se tornado, de modo geral, na cultura ocidental pós-moderna, um pesado fardo, uma matéria imperfei-

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CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO ta, corrigível e moldável. De modo geral, como diz Le Breton, a medicina deixa de se preocupar somente com cuidar (...) e intervém para dominar a vida, uma forma de dominar a vida, um biopoder... Não pretendo de forma alguma desestimular você, ­Rômulo. Pelo contrário. Acredito que a experiência médica, que poderia ser resumida ao ato cuidar do outro, é um lugar valioso para dar curso à vida; devendo ressaltar inclusive o significativo campo das pesquisas. Nesse caso, a própria doença pode ser percebida, como bem pontua Susan Sontag, como metáfora do corpo, como lugar de escuta, decifração e circulação de significados. Para isso é primordial que se possa convocar o próprio corpo, não esquecê-lo e tomá-lo como lugar de cuidado e conhecimento. A relação médica se estabelece entre corpos, e aquele que cuida é tão falível, frágil e vulnerável como o que é cuidado. Um médico que manipula de forma mecânica seu próprio corpo, Rômulo, que evita conhecê-lo, que providencia um analgésico para antes da dor, que ora se endorfina, ora se adrenaliza – como escrevi em Itinerários de corpos juvenis – com a justificativa de alcançar o melhor desempenho profissional, poderá muito pouco emancipar o sujeito de sua doença. É que não se trata apenas de curar; trata-se de tornar o paciente um conhecedor dos mecanismos de produção e reprodução de sua doença, de levá-lo a perceber o que quer o corpo, o que pode o corpo. Acho que uma das suas mais tenazes tarefas, Rômulo, nesse tempo de produção de corpos quase pós orgânicos (como diz Paula Sibilla), corpos virtuais talvez sejam uma forma de reeditar o estatuto do corpo como lugar, habitá-lo, nomadizálo, ressignificá-lo para que ele possa perceber qual a sua forma mais apropriada de conduzir a vida com qualidade.

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Você pode me ouvir, Doutor? O compositor e intérprete Arnaldo Antunes, numa entrevista para uma instigante coletânea sobre o silêncio, adverte: A gente caiu na ilusão de que não sabe o que está acontecendo dentro da gente. Essa qualidade de contato faz você habitar o seu espaço interno de maneira dinâmica, e isso é muito interessante. Caramba, o corpo sempre está se movendo por dentro e a gente tem essa visão ”parada”; isso é tão afastado da realidade corporal que eu acho mistérios como que ainda se cai nesses equívocos! Ver como é o seu corpo, essas possibilidades de correção, de cura, que o próprio sistema oferece sem ninguém se meter. Você já deve estar imaginando que a essa altura eu estou quase disposta a rechaçar a condição primordial do conhecimento médico. Tranquilize-se, Rômulo, acredito apenas que a doença revela o sujeito que ali se apresenta e que ele próprio carrega as ferramentas que podem dar curso a sua reabilitação. Habitar o corpo, suas vicissitudes e seus achaques costumeiros torna-se uma preciosa atitude capaz de propiciar, se não a cura, a recuperação do sujeito. LeShan utiliza o conceito de recuperação no sentido de retomar quem você é; a recuperação como uma recondução a um estado saudável do corpo. Para essa tarefa, ambos devem sentir-se implicados, o “cuidador” e aquele que é cuidado. Quando o corpo do médico é capaz de fazer circular uma fala pactuada, visitada por ele mesmo, o corpo do paciente torna-se alvo de uma percepção mais acurada e de uma escuta otimizada por códigos da sensibilidade. A própria presença do corpo de um médico que se conhece, que se cuida e sabe da vibração de seu poder de transferência e projeção no momento da denominada consulta, da intervenção médica, certamente poderá interferir de forma mais efetiva no processo de recuperação do sujeito.

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CARTA A UM JOVEM MÉDICO OU COMO APURAR OS SENTIDOS E APLAINAR A SOLIDÃO Você sabe que tudo isso que aqui escrevo é de natureza puramente intuitiva, estimado Rômulo. São percepções que veem se construindo a cada ida a um consultório como paciente e/ou como acompanhante. Espero apenas que você possa olhar de outra forma cada um que adoece e sente o seu corpo caído da vida, habitando outra faixa de existência. Corpo que se ausenta, isola-se e deixa de emanar linguagem. Corpos que se tornam blindados, fechados à visitação dos afetos, como diz Juliano ­Pessanha. Nesses tempos de movimento vertiginoso, produção, competição e descartabilidade o corpo se contorce, se esquiva e se exaure. Os afetos, os sentimentos malditos, as tristezas não têm tempo e espaço para existir. Qualquer lugar que dê pas­ sagem às intensidades do corpo, a suas desmesuras, ao borrado que esvai para além de sua superfície, sua gaguez e a desordem das formas, estará percebendo em que lugar se situa a doença e que significantes ela poderá ativar para a recuperação do sujeito. Seu desafio é exercitar um olhar em movimento e, quem sabe, tomar para si uma passagem de uma carta de Rilke: Nada poderia perturbá-la mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa. A menina nervosa que ainda me habita sabe, através dessas tantas outras cartas aqui reunidas, que é cada vez mais possível compartilhar sensações corporais e orgânicas aparentemente indecifráveis. Saiba, Rômulo, que esses encontros de linguagens transversas e diversas finalmente situam a medicina no centro da vida social e como instância de produção de outra forma de cuidar e entender os liames entre vida e morte.

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Você pode me ouvir, Doutor? Espero que você, jovem Rômulo, me escreva novamente e me conte acerca de uma menina que um dia poderá sentar na sua sala, meio desvairada, com a cabeça em maresia, com os olhos amarelados ou não, perplexa com um corpo que não para de mudar e assustar; e me fale dela, para que eu possa considerar que valeram a pena essas linhas. Diga-me que ela saiu dali sabendo que esse susto acompanha e funda a condição humana. Porque a maior doença que alguém pode experimentar é ter muito cedo tentado estancar intensidades, banir estranhezas e se deixar morrer lentamente. Afinal de contas, Rômulo, você – como eu – entende como é quase sempre desconcertante sentir-se invadido pela vida, porque finalmente lhe digo que o que nos espreita é a vida, é dela que temos medo. Deixa que a menina nervosa saia de sua sala serelepe e vasta, tonta de vida, conhecedora dos seus males e caídas súbitas... que ela saia vida afora. Um grande abraço

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Glória Diógenes


Você pode me ouvir Doutor?